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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Num. Processo : 0034237-23.2015.8.05.0001


Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : RODOBENS ADMINISTRADORA DE CONSORCIOS LTDA
:
Recorrido(s) : FILADELFIA COMERCIO E INDUSTRIA LTDA
Origem : 2ª VSJE DO CONSUMIDOR (BROTAS VESPERTINO)
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

EMENTA

RECURSO INOMINADO. CONSÓRCIO. CONTRATO


POSTERIOR A VIGÊNCIA DA LEI Nº 11.795/2008 (06.02.09).
DEVOLUÇÃO IMEDIATA DOS VALORES PAGOS,
INDEPENDENTEMENTE DO ENCERRAMENTO DO GRUPO
RESPECTIVO OU SUBMISSÃO A SORTEIO, COM
ABATIMENTO APENAS DA TAXA DE ADMINISTRAÇÃO E
DO SEGURO. NÃO APLICAÇÃO DOS TERMOS DO
JULGAMENTO DA RECLAMAÇÃO CONSTITUCIONAL 3752-
GO. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA.

ACÓRDÃO
Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais
Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, MARIA AUXILIADORA
SOBRAL LEITE - Relatora, CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ, ISABELA
KRUSCHEWSKY PEDREIRA DA SILVA, , em proferir a seguinte decisão: RECURSO
CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO, de acordo com a ata do julgamento.. Sem
condenação em honorários advocatícios ante o êxito da parte no recurso..
Salvador, Sala das Sessões, 04 de fevereiro de 2016.

Bela ISABELA KRUSCHEWSKY PEDREIRA DA SILVA


Juíza PRESIDENTE
Bela. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Relatora
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA
2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Num. Processo : 0034237-23.2015.8.05.0001


Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : RODOBENS ADMINISTRADORA DE CONSORCIOS LTDA
:
Recorrido(s) : FILADELFIA COMERCIO E INDUSTRIA LTDA
Origem : 2ª VSJE DO CONSUMIDOR (BROTAS VESPERTINO)
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

EMENTA

RECURSO INOMINADO. CONSÓRCIO. CONTRATO


POSTERIOR A VIGÊNCIA DA LEI Nº 11.795/2008 (06.02.09).
DEVOLUÇÃO IMEDIATA DOS VALORES PAGOS,
INDEPENDENTEMENTE DO ENCERRAMENTO DO GRUPO
RESPECTIVO OU SUBMISSÃO A SORTEIO, COM
ABATIMENTO APENAS DA TAXA DE ADMINISTRAÇÃO E
DO SEGURO. NÃO APLICAÇÃO DOS TERMOS DO
JULGAMENTO DA RECLAMAÇÃO CONSTITUCIONAL 3752-
GO. SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA.

RELATÓRIO

Trata-se de recurso Inominado interposto pela parte ré na ação de origem,


RODOBENS ADMINISTRADORA DE CONSÓRCIOS LTDA , contra sentença que julgou
parcialmente procedente o pedido da exordial , nestes termos: “ Assim, ante o escandido, com
esteio no art. 269, I, CPC, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE O PEDIDO DA PARTE AUTORA,
CONDENANDO A RÉ À DEVOLUÇÃO DAS PARCELAS PAGAS AO LONGO DA PERMANÊNCIA
NO CONSÓRCIO, totalizando a quantia de R$15.179,20 (quinze mil, cento e setenta e nove reais e vinte
centavos), corrigida, até trinta dias, a contar do prazo previsto no contrato para o encerramento do grupo
correspondente.”

Na origem, trata-se de ação na qual a parte autora busca a tutela jurídica


para obter a devolução imediata dos valores pagos a título de prestação de consórcio,
requerendo a restituição da quantia de R$ 15.179,20 (quinze mil, cento e setenta e nove
reais e vinte centavos), em virtude da negativa da empresa administradora do consórcio
em assim proceder.

A recorrente busca a reforma da sentença, alegando, em síntese, que faz


jus ao desconto de taxa de administração, seguro e cláusula penal do montante a ser
devolvido à parte autora, requerendo a declaração judicial acerca do direito à retenção de
tais verbas.

Em contrarrazões, a recorrida pugna pela manutenção do decisum. Vieram-


me os autos conclusos.

Presentes as condições de admissibilidade do recurso, conheço-o,


apresentando voto com a fundamentação aqui expressa, o qual submeto aos demais
membros desta Egrégia Turma.

VOTO
Preliminarmente cumpre-me registrar, vez que já houve
pronunciamento dessa magistrada de forma diversa da aqui exarada, que após
reuniões entre os membros das Turmas Recursais da Bahia objetivando uniformizar
o entendimento sobre a matéria dos consórcios, particularmente sobre o momento
da devolução das parcelas pagas ao consorciado desistente, ao final de estudo e
debates, foi firmado o entendimento da forma que se segue:

Com efeito, considerando o entendimento das Turmas Recursais reunidas


da Bahia, que ao analisarem as razões do veto dos §§ (1º, 2º e 3º do art. 30 da Lei
11.795/2008, os quais previa que a devolução das parcelas pagas pelo desistente se
daria de duas formas 1. contemplação em assembléia e 2 - restituição após 60 dias da
data da última assembléia e ao ponderar referidos dispositivos, constataram que com o
veto a lei nada prevê sobre o momento da devolução,já que no projeto da referida lei onde
havia os parágrafo vetados pela Presidência da República na mensagem 762 de
08/10/2008 justamente sobre tal veto, foi considerado que os parágrafos importavam em
afronta direta aos art. 51, IV c/c art. 51, incisos II e II, todos do CDC, que prevê regra
proibitória da utilização de cláusula abusiva nos contratos de consumo sem falar na
ofensa ao princípio da boa-fé que deve prevalecer nas relações contratuais dessa
natureza, finalmente concluiu-se que o referido dispositivo ser absolutamente antijurídico,
pois ofende ao direito do consumidor, razão pela qual ditos parágrafos do art. 30 da nova
lei dos consórcios foram vetados.

Sendo assim, aos contratos anteriores a Lei 11.795/2008, aplica-se o


posicionamento da Reclamação Constitucional nº 3752-GO, que inicialmente determinou
em liminar à suspensão de todos os feitos que versassem sobre o pedido de restituição
de parcelas de consórcio, como o caso dos autos, foi julgada no último da 26/05/2010,
cujo pronunciamento final da relatora Min. Nancy Andrighi se deu no sentido de: “ em
caso de desistência do plano de consórcio, a restituição das parcelas pagas pelo
participante desistente ocorrerá em trinta dias a contar do prazo previsto no
contrato para o encerramento do grupo correspondente e de forma corrigida”.

Enquanto que aos contratos posteriores a apontada legislação, aplicam-se


as disposições do Código de Defesa do Consumidor, ante a falta de regulamentação
específica sobre a matéria já que houve o veto aos parágrafos do art. 30, consoante
acima examinado.

Aliás, a jurisprudência assim tem se manifestado:

CIVIL. CONSUMIDOR. CONTRATO DE ADESÃO EM GRUPO DE


CONSÓRCIO DE BENS IMÓVEIS. DESISTÊNCIA DO CONSORCIADO
EM SITUAÇÃO NÃO CONTEMPLADA NA RECLAMAÇÃO 3752/GO -
STJ (CONTRATOS ATIVADOS ATÉ 05.2.2009 - ANTES DA VIGÊNCIA DA
LEI 11.795 /08), A LEGITIMAR, NO PRESENTE CASO, A RESTITUIÇÃO
IMEDIATA, E NÃO APÓS O ENCERRAMENTO DO GRUPO OU À
REALIZAÇÃO DO SORTEIO. INEXISTÊNCIA DE DECISÃO ULTRA
PETITA. I. COMO OS CONTRATOS DE ADESÃO A GRUPO
CONSORCIAL SE DERAM EM 22.6.2009 (FLS. 68 E 78), OU SEJA, EM
PLENA VIGÊNCIA DA LEI 11.795 /08, QUE, POR SUA VEZ NÃO
CONTEMPLA A RESTITUIÇÃO DOS VALORES AO CONSORCIADO
DESISTENTE AO TÉRMINO DO GRUPO, NEM FOI OBJETO DA
ALUDIDA RECLAMAÇÃO NO STJ, URGE A DEVOLUÇÃO IMEDIATA
DAS QUANTIAS JUSTAS. II. A TAXA DE ADMINISTRAÇÃO VISA A
REMUNERAR OS SERVIÇOS EFETIVAMENTE PRESTADOS, DE SORTE
QUE A MAIS VALIA À SUA FIXAÇÃO PELAS EMPRESAS (ENTRE 10% E
19%) SITUA-SE NO CAMPO DA LIVRE CONCORRÊNCIA ( CF , ART.
170 , IV ), O QUE PERMITE AO CONSUMIDOR A OPÇÃO PELA
ADMINISTRADORA QUE MAIS ATENDA A SEUS INTERESSES
(CONFIABILIDADE, SEGURANÇA, HISTÓRICO). III. A
INTERFERÊNCIA DO PODER JUDICIÁRIO PARA FINS DE DECOTE
DO ALUDIDO PERCENTUAL PARA EFEITO DE ESTACIONÁ-LO EM
10% SOMENTE SE LEGITIMARIA SE EVIDENCIADO O EXCESSO
FRENTE AOS VETORES COBRADOS NO MERCADO OU PARA SE
EVITAR PERCENTUAL ÚNICO QUE ACARRETASSE ONEROSIDADE
EXCESSIVA AO CONSUMIDOR, O QUE NÃO OCORRE NO CASO
CONCRETO. NESSE SENTIDO: "EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA.
CONSÓRCIO DE BENS MÓVEIS. TAXA DE ADMINISTRAÇÃO.
FIXAÇÃO. LIMITE SUPERIOR A 10%. POSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE
ILEGALIDADE E ABUSIVIDADE. 1 - O CERNE DA CONTROVÉRSIA
CINGE-SE À POSSIBILIDADE DE LIMITAÇÃO DA TAXA DE
ADMINISTRAÇÃO DE CONSÓRCIO DE BENS MÓVEIS, PREVISTA NO
DECRETO N. 70.951 /72. CONSOANTE RECENTE ENTENDIMENTO
CONSIGNADO PELA EG. 4ª TURMA, AS ADMINISTRADORAS DE
CONSÓRCIO POSSUEM TOTAL LIBERDADE PARA FIXAR A
RESPECTIVA TAXA DE ADMINISTRAÇÃO, NOS TERMOS DO ART. 33
DA LEI 8.177 /91 E DA CIRCULAR N. 2.766 /97 DO BACEN, NÃO
SENDO CONSIDERADA ILEGAL... (ACJ 1807187120108070001 DF
0180718-71.2010.807.0001, Rel. FERNANDO ANTONIO TAVERNARD
LIMA, , 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais do
DF, Publ. 31/05/20111, DJ-e , pág. 218)
O exame dos autos revela que a parte recorrente aderiu em 25/04/2013 ao
consórcio identificado pelo Grupo N.º 7814, pelo prazo de 60 (sessenta) meses. Que
solicitou o cancelamento da cota, sendo que o acionado condicionou a restituição do valor
ao final do grupo.

Saliento que o contrato discutido foi celebrado após a edição da Lei nº


11.795/08, que trouxe nova regulamentação para o sistema de consórcio, vigente
desde 06.02.2009, razão pela qual o processo em análise não se submete aos
termos do julgamento da Reclamação Constitucional nº 3.752-GO (2009/0208182-
3), relatado pela Ministra Nancy Andrighi1, tornando, portanto, livre a apreciação de
todos os aspectos do litígio.

Embora regidos por lei específica (Lei nº 11.795/08) e sigam


orientações do Banco Central, os contratos de consórcio não estão imunes aos

1 RECLAMAÇÃO Nº 3.752 - GO (2009/0208182-3)


RECLAMAÇÃO. DIVERGÊNCIA ENTRE ACÓRDÃO PROLATADO POR TURMA RECURSAL ESTADUAL E A
JURISPRUDÊNCIA DO STJ. CONSÓRCIO. CONTRATOS ANTERIORES À VIGÊNCIA DA LEI 11.795/08.
CONSORCIADO EXCLUÍDO. PARCELAS PAGAS. DEVOLUÇÃO. CONDIÇÕES.
- Esta reclamação deriva de recente entendimento, no âmbito dos EDcl no RE 571.572-8/BA, Rel. Min. Ellen Gracie, DJ de
14.09.2009, do Pleno do STF, o qual consignou que "enquanto não for criada a turma de uniformização para os juizados especiais
estaduais, poderemos ter a manutenção de decisões divergentes a respeito da interpretação da legislação infraconstitucional federal",
tendo, por conseguinte, determinado que, até a criação de órgão que possa estender e fazer prevalecer a aplicação da jurisprudência
do STJ aos Juizados
Especiais Estaduais, "a lógica do sistema judiciário nacional recomenda se dê à reclamação prevista no art. 105, I, f, da CF,
amplitude suficiente à solução deste impasse".
- Em caso de desistência do plano de consórcio, a restituição das parcelas pagas pelo participante far-se-á de forma
corrigida. Porém, não ocorrerá de imediato e sim em até trinta dias a contar do prazo previsto no contrato para o encerramento do
grupo correspondente.
- A orientação firmada nesta reclamação alcança tão-somente os contratos anteriores à Lei nº 11.795/08, ou seja, aqueles
celebrados até 05.02.2009. Para os contratos firmados a partir de 06.02.2009, não abrangidos nesse julgamento, caberá ao STJ,
oportunamente, verificar se o entendimento aqui fixado permanece hígido, ou se, diante da nova regulamentação conferida ao sistema
de consórcio, haverá margem para sua revisão.
Reclamação parcialmente provida.
- Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça, votação por unanimidade, Relatora Ministra Nancy Andrighi, em 26 de
maio de 2010 (Data do Julgamento)
princípios e normas contidos do CDC, porque integram a categoria dos contratos
de consumo.

Com origem constitucional, trazendo regras de ordem pública e de


interesse social (arts. 5º, XXXII2, e 170, V3, da Constituição Federal, e art. 48. de suas
Disposições Transitórias4), o Código de Defesa do Consumidor foi promulgado com
objetivo precípuo de garantir o equilíbrio de direitos e deveres entre o consumidor e o
fornecedor nas relações de consumo, pautado nos princípios da boa-fé e lealdade, que,
assim, não admite a prevalência de disposições, mesmo legislativas ordinárias, que
estejam em desarmonia com o sistema de defesa do consumidor, o que permite ao juiz
atenuar o princípio da força obrigatória do pacto (pacta sunt servanda).

O tema em discussão já se encontra pacificado no sistema de


juizados especiais, consoante informa o Enunciado 109 do FONAJE, que assim
reza: “É abusiva a cláusula que prevê a devolução das parcelas pagas à
administradora de consórcio somente após o encerramento do grupo. A devolução
deve ser imediata, os valores atualizados desde os respectivos desembolsos e os
juros de mora computados desde a citação” (aprovado no XIX Encontro – Aracaju/SE).

|Em sua redação original, o Projeto de Lei n o 533, que resultou na


promulgação da Lei nº 11.795/08, estabelecia de forma expressa duas possibilidades para
a restituição ao consorciado excluído das quantias ele pagou: ser contemplado em
assembléia através de sorteio ou ser restituído 60 dias após a data da realização da
última assembléia (§§ 1o, 2o e 3o do art. 30 e os incisos II e III do art. 31 da proposição 5).
2 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
...
XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor;
3 Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos
existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
...
V - defesa do consumidor;
4 Art. 48. O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da promulgação da Constituição, elaborará código de defesa do
consumidor.
5 Art. 30. .....................................................................................
...........................................................................................................
§ 1o A restituição de que trata o caput será efetuada somente mediante contemplação por sorteio nas assembléias,
observadas as mesmas condições, entre os excluídos e os demais consorciados do grupo.

§ 2o O consorciado excluído somente fará jus à restituição de que trata o caput se desistir após o pagamento de sua quinta
parcela de contribuição ao grupo, inclusive.

§ 3o Caso o consorciado excluído não atenda ao requisito do § 2o, será restituído do valor a que tem direito na forma do art.
31.
No entanto, tais disposições foram vetadas pela Presidência da
República, com a aquiescência final do Congresso Nacional, por
“inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público”, constando nas
justificativas para os vetos que tais disposições afrontavam “diretamente o artigo
51, IV, c/c art. 51, § 1o, III, do Código de Defesa do Consumidor, que estabelecem
regra geral proibitória da utilização de cláusula abusiva nos contratos de consumo”,
salientando-se, ainda, que, “embora o consumidor deva arcar com os prejuízos
que trouxer ao grupo de consorciados, conforme § 2 o do artigo 53 do Código de
Defesa do Consumidor, mantê-lo privado de receber os valores vertidos até o final
do grupo ou até sua contemplação é absolutamente antijurídico e ofende o
princípio da boa-fé, que deve prevalecer em qualquer relação contratual”,
mencionando, por fim, que “a inteligência do Código de Defesa do Consumidor é
de coibir a quebra de equivalência contratual e considerar abusivas as cláusulas
que colocam o consumidor em ‘desvantagem exagerada’, tal como ocorre no caso
presente”, razão pela qual “a devolução das prestações deve ser imediata, sob
pena de impor ao consumidor uma longa e injusta espera”6.

Ou seja, respeitando a força hierárquica normativa do CDC, a Presidência


da República não permitiu que seus ditames fossem contrariados, ressaltando que os
vetos foram lançados “por inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público”
existentes nas disposições excluídas.

Assim, mostra-se de todo equivocado, data vênia, o entendimento de que


a Lei nº 11.795/08 determina a devolução por intermédio de contemplação por sorteio.
As regras que foram extirpadas pelos vetos presidenciais não podem ser
ressuscitadas somente porque o texto remanescente não foi corrigido na inteireza.

Ademais, a contemplação por sorteio, prevista no art. 22, da Lei nº

Art. 31. ............................................................................................


.........................................................................................................
II – aos participantes excluídos, que o saldo relativo às quantias por eles pagas, ainda não restituídas na forma do art. 30, se
encontra à disposição para devolução em espécie;
III – aos demais consorciados e participantes excluídos, que os saldos remanescentes no fundo comum e, se for o caso, no
fundo de reserva estão à disposição para devolução em espécie proporcionalmente ao valor das respectivas prestações pagas.”

6 Fonte: :www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-010/2008/Msg/VEP-762-08.htm
11.795/087, não pode ser aplicada ao consorciado excluído porque ficou carente de
completo na medida em que houve alteração, em decorrência dos vetos presidenciais, do
art. 30, que ela faz expressa menção.

Por imperativo do Código de Defesa do Consumidor, homenageado nos


vetos presidenciais, há de se manter a ordem de restituição imediata dos valores pagos
pelo Recorrido.

Enfim, deve-se observar que parte autora faz jus a devolução imediata dos
valores pagos.

Em relação ao valor a ser restituído em face dos valores pagos, devem ser
abatidos à taxa de administração no percentual contratado e o valor relativo ao seguro,
caso existente.

Enfim, disposições contratuais abusivas são nulas de pleno direito e,


portanto, não é válida a cláusula que determina a devolução de valores pagos por
consorciado desistente apenas após o término do consórcio, devendo sua devolução se
proceder imediatamente, naturalmente, abatida dos valores concernentes à taxa de
administração e/ou adesão, além do seguro, caso existente; observando-se que a taxa de
adesão possui o escopo de retribuir ao vendedor do consórcio o serviço prestado, não se
incorporando ao elenco de valores por restituir ao consorciado-desistente e não se
confundindo com a taxa de administração, mas compondo, junto com esta, no caso
concreto, a contraprestação pelo serviço global concedido e efetivamente utilizado pelo
desistente, integrando a estrutura de custos básicos do negócio, excluindo-se, destarte,
quaisquer outros valores que se possa apontar como prejuízo que o consorciado causou
ao grupo, uma vez que não houve prova nesse sentido.

Quanto ao desconto dos valores a título de taxa de administração, a


jurisprudência pátria já consolidou o entendimento de que tal procedimento é permitido,
devendo o percentual do desconto ser estabelecido de acordo com a razoabilidade e
proporcionalidade. Nesse sentido:

RECURSO INOMINADO. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CONSÓRCIO.

7 Art. 22. A contemplação é a atribuição ao consorciado do crédito para a aquisição de bem ou serviço, bem como para a restituição
das parcelas pagas, no caso dos consorciados excluídos, nos termos do art. 30.
§ 1º A contemplação ocorre por meio de sorteio ou de lance, na forma prevista no contrato de participação em grupo de
consórcio, por adesão.
§ 2º Somente concorrerá à contemplação o consorciado ativo, de que trata o art. 21, e os excluídos, para efeito de
restituição dos valores pagos, na forma do art. 30.
CONTRATAÇÃO POSTERIOR A LEI 11.795/08. DESISTÊNCIA DO
CONSORCIADO. DEDUÇÃO DA TAXA DE ADMINISTRAÇÃO DE
25%. ABUSIVIDADE NÃO EVIDENCIADA. PRECEDENTE DO STJ.
RETENÇÃO DOS VALORES PAGOS A TÍTULO DE CLÁUSULA
PENAL E TAXA DE ADESÃO. MULTA DE 10% EM BENEFÍCIO DO
GRUPO QUE VAI AFASTADA PELA ONEROSIDADE EXCESSIVA.
MESMA NATUREZA DA CLÁUSULA PENAL. SENTENÇA
PARCIALMENTE REFORMADA. 1. Caso em que as partes firmaram
contrato de consórcio após a vigência da Lei 11.795/08. O demandante
desistiu imotivadamente do consórcio e requereu a restituição integral dos
valores pagos. 2. Cabível a restituição ao consorciado desistente dos valores
pagos, permitida a retenção da taxa de administração, cláusula penal
devidamente contratada (fl. 20, item 16.7) e taxa de adesão, conforme
entendimento firmado na Súmula 15 das Turmas Recursais Cíveis. 3. A taxa
de administração pode ser fixada em patamar superior a 10%, segundo o
entendimento consolidado pela jurisprudencia do STJ. Caso concreto em
que se mantém a incidência do percentual de 25%, como contratado. 4.
Multa de 10% que se mostra abusiva, uma vez que tem a mesma natureza da
cláusula penal, alterando apenas o beneficiário. Onerosidade evidenciada.
RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO (TJ-RS - Recurso Cível:
71005543921 RS, Relator: José Ricardo de Bem Sanhudo, Data de
Julgamento: 01/10/2015, Primeira Turma Recursal Cível, Data de
Publicação: Diário da Justiça do dia 05/10/2015)

Na hipótese vertente não há que se falar em enriquecimento sem causa no


estabelecimento do percentual de 15% a título de taxa de administração, conforme
demonstrado, e em consonância com as mais recentes decisões jurisprudenciais. Assim,
se mostra plenamente cabível o dito desconto, quando da devolução dos valores a serem
pagos.

Não há que se falar em incidência da cláusula penal quando não demonstrado


nos autos o prejuízo causado ao grupo decorrente da desistência do consorciado, como
tem afirmado reiteradamente a jurisprudência pátria, conforme o seguinte julgado:
CONSUMIDOR. APELAÇÕES CÍVEIS. CONSÓRCIO. DESISTÊNCIA.
DEVOLUÇÃO. CLÁUSULA PENAL. NÃO RETENÇÃO. CORREÇÃO
MONETÁRIA E JUROS DE MORA. 1. Ausente a comprovação sobre os
danos experimentados pelo consórcio em razão da retirada de um de seus
membros, mostra-se inviável a aplicação do instituto da cláusula penal
compensatória, pois o consumidor desistente só se torna obrigado diante
dessa prova, não havendo espaço para a prefixação de prejuízos. 2. O marco
inicial para a incidência da correção monetária é a data de desembolso de
cada prestação. Precedentes. 3. Os juros de mora são devidos a partir do
trigésimo dia após o término do consórcio, porquanto somente incorre em
atraso caso ultrapassado o termo final de pagamento. 4. Recurso da ré
parcialmente provido. Apelo da autora provido. (TJ-DF - APC:
20150110530685, Relator: MARIO-ZAM BELMIRO, Data de Julgamento:
09/12/2015, 2ª Turma Cível, Data de Publicação: Publicado no DJE :
14/12/2015 . Pág.: 223)

Quanto ao pleito de desconto dos valores pagos a título de seguro, não há que
se falar em ilicitude, ou prática abusiva, desde que haja previsão contratual expressa,
como ocorre no caso sub judice. . Nesse sentido:

RECURSO INOMINADO. AÇÃO DE COBRANÇA. CONSÓRCIO.


DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA DO CONSORCIADO. RESTITUIÇÃO
DAS PARCELAS PAGAS COM DESCONTO. TAXA DE
ADMINISTRAÇÃO, FUNDO RESERVA E SEGURO. PREVISÃO
CONTRATUAL. APLICAÇÃO DA SÚMULA N. 15 DESTAS TURMAS
RECURSAIS. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA. Conforme
entendimento firmado e consolidado na Súmula 15 destas Turmas Recursais
Cíveis, cabíveis as retenções a título de taxa de administração, fundo reserva
e seguro. Situação em que a administradora efetuou o pagamento à autora,
descontando os valores previstos contratualmente. RECURSO
DESPROVIDO. (Recurso Cível Nº 71005344536, Segunda Turma Recursal
Cível, Turmas Recursais, Relator: Ana Cláudia Cachapuz Silva Raabe,
Julgado em 18/03/2015).

Ante ao exposto, voto no sentido de CONHECER e DAR PARCIAL


PROVIMENTO ao recurso interposto pela Recorrente RODOBENS ADMINISTRADORA
DE CONSORCIOS LTDA, tão somente para determinar o abatimento da taxa de
administração no percentual fixado quando da contratação, bem como da taxa de seguro,
mantendo no mais a sentença pelos próprios fundamentos. Sem custas processuais e
honorários advocatícios, pelo êxito parcial da parte no recurso.

Salvador, sala de sessões, 04 de Fevereiro de 2016.


Bela. Maria Auxiliadora Sobral Leite

JUIZA DE DIREITO – Relatora