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Tu & tua casa

O caso bíblico a favor do batismo infantil

Greg Strawbridge
Copyright © 2019 de Edições Calcedônia

Publicado originalmente nos Estados Unidos, em 2015, pela


Kuyperian Press, sob o título
You and Your Household: The Biblical Case for Infant Baptism

Os direitos desta edição pertencem a


EDIÇÕES CALCEDÔNIA
Brasília, DF, Brasil

1a edição, 2019

Editor
Russ Saberton

Tradução
Felipe Sabino de Araújo Neto

Capa
Thiago McHertt

Reservados todos os direitos desta obra.


Proibida toda e qualquer reprodução desta edição
por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica ou mecânica,
fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução,
sem permissão expressa do editor.

Todas as citações bíblicas foram extraídas da


versão Almeida Revista e Atualizada (ARA),
salvo indicação em contrário.
Sumário
Introdução
Qual é a questão?
O batismo é um sinal, como outros sinais?
As crianças ainda estão inclusas?
Os filhos estão na nova aliança?
O que dizer sobre batismo de discípulos?
Quão novo é o batismo?
Seguimos a Jesus no batismo do crente?
O batismo está no lugar da circuncisão?
Os filhos deles estavam inclusos?
Como vivemos à luz do nosso batismo?
A linha central de objeção
Umas poucas mais questões
Introdução
A Bíblia ensina o batismo infantil? Ou, o batismo é dado somente aos
“crentes”? Se você está lutando para entender essas questões, este pequeno
estudo te ajudará. Estabelecerei o caso que a Bíblia ensina que deveríamos
batizar os filhos de cristãos na infância.[1]
A visão de batismo que estou defendendo é “reformada”. É expressa
nas grandes confissões (Genebra, Helvética, Belga, Westminster, etc.) e
catecismos reformados (Heidelberg, Breve & Maior de Westminster). Muitas
das maiores mentes da igreja cristã defenderem essa visão, homens como
João Calvino, John Owen, Jonathan Edwards, Charles Hodge, Benjamin B.
Warfield, e muitos outros. Embora outras tradições defendam o batismo
infantil, a visão “pactual” reformada permanece em oposição ao
entendimento do batismo infantil presente no catolicismo romano e na
ortodoxia oriental.[2]
Qual é a questão?
Este é o parágrafo mais importante neste livreto. Considere-o
cuidadosamente. Esta questão é sobre como vemos os filhos dos crentes.
Todos concordamos sobre adultos convertidos — eles devem confessar sua fé
antes do batismo. Batistas e pedobatistas discordam sobre como lidar com os
filhos infantes (e jovens) dos cristãos. Não existe nenhum exemplo explícito
de “batismo infantil” na Bíblia. Batistas também deveriam admitir: nem
existe um caso explícito de filho de um cristão que cresceu e foi batizado
mediante profissão de fé. A Bíblia não aborda explicitamente o batismo de
crianças de qualquer maneira. Isso é um fato. Essa falta de uma base
explícita deveria ser reconhecida de ambos os lados. Os batistas algumas
vezes apelam aos exemplos de adultos que creram e então foram batizados,
como o eunuco (Atos 8.37). Atrelado a isso, há apelo aos mandamentos para
crer e ser batizado (isso será abordado mais plenamente depois). A suposição
é que isso excluí as crianças pequenas. Mas a questão não é se convertidos
autoconscientes creem e então confessam sua fé antes do batismo. Todo
mundo concorda que deve ser assim. A questão é o que fazer com os filhos do
novo convertido. Não podemos resolver o caso apelando a uma passagem
explícita na Bíblia que nos diz que essa criança foi batizada e aquela não foi.
O caso de batismos adultos não resolve a questão automaticamente.
Essa questão gira em torno de um ponto. Devemos decidir se os filhos
de crentes devem ser tratados da mesma forma que o eram no Antigo
Testamento. Dessa forma, devemos determinar se o Novo Testamento ensina
uma mudança no status dos filhos dos crentes. Há continuidade ou
descontinuidade na inclusão dos filhos dos crentes no novo pacto, e dessa
forma nos sinais e rituais do pacto?
A visão pactual (reformada) do batismo infantil diz que o batismo é
para todos sob a tutela de um chefe de família crente. Assim, quando filhos
nascem num lar crente, eles devem ser batizados. Esse era o padrão original
do pacto abraâmico. A circuncisão (o sinal deste pacto) era para a família, e
então para aqueles nascidos na família (Gn 17.27). Os filhos dos cristãos
devem ser batizados? Ou, a visão batista é a correta? Somente indivíduos que
são maduros o suficiente para confessar conscientemente sua fé devem ser
batizados? O contraste é esse: a visão do indivíduo maduro (batista) é a
correta, ou a visão da família pactual (batismo infantil pactual)?
O batismo é um sinal, como outros sinais?
Os sinais bíblicos eram dados corporativamente às famílias no Antigo
Testamento. Isso mudou? Essa é uma questão de continuidade. O batismo é
similar aos outros rituais de fé no Antigo Testamento. Rituais que envolvem
um ato simbólico, tais como o batismo, estão conectados a pactos bíblicos.
Os pactos bíblicos incluem sinais para representar visivelmente as realidades
por detrás das promessas pactuais.
Revendo o ensino bíblico, descobrimos que o pacto com Adão
envolveu todos os filhos de Adão. “Assim como, em Adão, todos morreram”
(1Co 15.22; Rm 5.12). O pacto com Noé incluiu a “salvação de sua casa” (Hb
11.7). Os sacrifícios dos patriarcas (incluindo Noé, Jó, Abraão, Isaque e Jacó)
foram para toda a família. Jó oferecia “holocaustos segundo o número de
todos eles” (Jó 1.5). Similarmente, “ofereceu Jacó um sacrifício na montanha
e convidou seus irmãos para comerem pão” (Gn 31.54). A circuncisão foi
dada a Abraão como um sinal do pacto de Deus para “tu e a tua descendência
no decurso das suas gerações” (Gn 17.9). Sob Moisés o sangue do cordeiro
pascal preservou os primogênitos das casas. Israel tinha que observar a
Páscoa como um “estatuto [ordenança] para vós outros e para vossos filhos,
para sempre” (Êx 12.24). Na promessa a Davi, o Senhor disse: “Fiz aliança
com o meu escolhido e jurei a Davi, meu servo: Para sempre estabelecerei a
tua posteridade e firmarei o teu trono de geração em geração” (Sl 89.3-4).

ADMINISTRAÇÃO SINAL VISÍVEL DESCENDENTES


PACTUAL INCLUSOS

Criação/Adâmico Árvore da vida sim

Noaico Arco-íris sim

Abraâmico Circuncisão sim


(outros patriarcas) sacrifícios/refeições sim

Mosaico Páscoa sim


(sangue, então
refeição)
Davídico Trono* Sim

Novo Pacto Batismo (entrada) essa é a questão


Ceia do Senhor
(continuação)

As administrações anteriores sempre incluíram um princípio de


inclusão e sucessão familiar. As promessas pactuais foram dadas a casas nas
eras redentivas anteriores. Isso é verdade com respeito ao novo pacto? O sinal
visível de entrada no novo pacto (batismo) deve ser administrado à casa de
um crente? Se sim, então assim como na circuncisão e nos outros sinais do
pacto, aqueles que estão sob essa casa por nascimento ou adoção terão
também um direito ao rito.
As crianças ainda estão inclusas?

Em obediência ao mandamento de Jesus para batizar (Mt 28.19-20),


quem os apóstolos batizavam? Por suas ações, como eles aplicavam o
mandamento de Jesus? Ao olhar para os casos registrados de batismos
apostólicos, a tese individual (batista) é afirmada, ou a tese pactual
(pedobatista) é afirmada?
Consideraremos todos os exemplos bíblicos de batismo cristão,
começando em Atos. (Lidarei com João o Batista e o batismo pré-pentecoste
abaixo.) Esses exemplos indicam que apenas crentes individuais e professos
devem ser batizados ou indicam que tanto crentes e membros de suas famílias
devem ser batizados? O esboço básico de Atos é indicado no primeiro
capítulo. O evangelho de Cristo avança: “Mas recebereis poder,
ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em
Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (Atos
1.8).[3] O padrão de batismos segue essa expansão: Jerusalém e Judeia,
Samaria e o restante do mundo.

BATISMOS DE ADULTOS CONVERTIDOS BATISMOS DE CASAS

3000 (homens) em Pentecoste (nenhuma Cornélio e sua casa


casa presente)

Samaritanos: (homens e mulheres) Lídia e sua casa


Simão, o mágico

Eunuco etíope (nenhuma casa) Filipe o carcereiro e sua casa

Paulo (nenhuma casa) Coríntios:


Crispo e sua casa [inferido]
Estéfanas e sua casa [
[Gaio abaixo]

Gaio (e sua casa?)


No sumário dos batismos reais, encontramos o seguinte: (1) O novo
pacto promete chegar “a vós e vossos filhos” (Atos 2.39) em Pentecoste. É
dito que somente homens (3000) foram batizados (Atos 2.5, 14, 41). (2) Em
Samaria “assim homens como mulheres” (Atos 8.12) foram batizados,
incluindo Simão (o mago apóstata). (3) O eunuco etíope (que não era chefe
de nenhuma família) foi batizado (Atos 8.38). (4) Paulo (que não era chefe de
nenhuma família) foi batizado (Atos 9.18; cf. 1Co 7.7-8). (5) A casa de
Cornélio foi batizada (Atos 10.48, 11.14). (6) A casa de Lídia foi batizada
(Atos 16.15). (7) A casa do carcereiro de Filipo foi batizada (Atos 16.33). (8)
Muitos coríntios foram batizados, incluindo Crispo, a casa de Estéfanas e
Gaio (Atos 18.8, 1Co 1.14, 16). (9) Os discípulos de João (homens adultos)
foram batizados (Atos 19.5).
Esses são os fatos sobre quem era batizado. Disso aprendemos: de
noves pessoas destacadas nas narrativas de batismo — cinco tiveram suas
casas batizadas (Cornélio, o carcereiro, Lídia, Crispo [inferido], Estéfanas),
dois não tinham casas por razões óbvias (eunuco & Paulo). Resta então
Simão, que na verdade revelou ser um incrédulo, e Gaio, listado com Crispo,
a quem Paulo batizou (1Co 1.14).
Quanto a Simão, ele foi um caso atípico. Certamente o seu caso seria
menos que uma base ideal para a visão batista, visto que ele revelou-se ser
um incrédulo, condenado pelo apóstolo Pedro (Atos 8.20). Quanto a Gaio,
Romanos 16.23 diz: “Saúda-vos Gaio, meu hospedeiro e de toda a igreja” (3
João 1 refere-se a ele como “ancião”). Como tal, se não tivesse uma família,
ele poderia ter ao menos servos em sua casa. Gaio é mencionado com o chefe
da casa, Crispo (líder da sinagoga). Crispo “creu no Senhor, com toda a sua
casa” (Atos 18.8). Dessa forma, sua casa foi indubitavelmente batizada com
ele. Todavia, Paulo diz em termos inequívocos: “A nenhum de vós batizei,
exceto Crispo e Gaio” (1Co 1.14). Dada aquela cultura, Paulo provavelmente
falou de Crispo como representando a casa na administração do batismo.[4]
Portanto, se Gaio tinha uma casa, ela foi batizada, assim como a casa de
Crispo o foi.
Esses fatos bíblicos importantes com respeito aos batismos de casas
são frequentemente ignorados. Um batista disse: “Visto que o Novo
Testamento ensina somente o batismo do crente, a única conclusão lógica é
que as pessoas nessas casas eram todas crentes”. Todo mundo nessas casas
deve ter crido visto que já sabemos que apenas “crentes” eram batizados?
Isso é petição de princípio (assumir o que deve ser provado).
Essa visão requer uma séria suposição: Lucas e Paulo incluem
intencionalmente mais casos irregulares e anômalos de batismos (de casas)
do que casos “regulares”. Lembre-se do esboço de Atos — o evangelho deve
ir até Jerusalém e Judeia, Samaria, e então o restante do mundo. Após os
batismos de judeus e samaritanos, temos o batismo de Paulo (o Apóstolo aos
gentios), quando então o batismo cruzou o território gentílico. Começando
com Cornélio, todo batismo é uma passagem de batismo de casas — exceto
onde somos informados que aqueles presentes eram “doze homens”, que
eram aparentemente judeus (Atos 19.7). Quando Pedro recorda o primeiro
caso de conversão gentílica (Cornélio), o discurso é estruturado com palavras
pactuais: “O qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a
tua casa” (Atos 11.14). Então, as casas gentílicas de Cornélio, Lídia, o
carcereiro, Estéfanas e possivelmente Gaio (veja a discussão anterior) foram
todas batizadas.

ESBOÇO DE ATOS BATISMOS


O EVANGELHO VAI ATÉ… SIGA ESTE ESBOÇO

Jerusalém e Judeia 3000 homens em Pentecoste

Samaria Samaritanos, Simão, Eunuco

Confins da terra Saulo (apóstolo aos gentios)


Transição: Apóstolo Paulo (Atos 9) Casa de Cornélio
Primeiros gentios: Cornélio (Atos 10) Casa de Lídia
Temente a Deus: Lídia (Atos 16) Casa do Carcereiro
Gentios novos convertidos: o Carcereiro Coríntios:
(Atos 16), os de Corinto (Atos 18) e Casa de Crispo
Éfeso (Atos 19) Casa de Estéfanas
Gaio, 12 homens em Éfeso
Foi coincidência que, quando o evangelho chegou aos gentios, suas
casas foram batizadas? Atos é uma história seletiva de milhares de exemplos
de batismos ao longo das primeiras décadas da igreja. Sem dúvida Lucas não
registrou os únicos casos de batismos de casas em toda o período apostólico.
Antes, essa era a prática normativa da igreja apostólica à medida que o
evangelho chegava às famílias gentias. O evangelho e seu sinal externo
chegou a famílias pois famílias precisavam ser salvas (Atos 16.31b). A
salvação das famílias étnicas era o objetivo do pacto: “Vós sois os filhos dos
profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos pais, dizendo a
Abraão: Na tua descendência, serão abençoadas todas as nações da terra”
(Atos 3.25).
Muitos cristãos sabem a resposta à pergunta bíblica: “Que devo fazer
para que seja salvo? — Crê no Senhor Jesus e serás salvo”. Essa não é a
resposta da Bíblia, antes: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa”
(Atos 16.31). Repito, é assim que Lucas estrutura o primeiro caso de
conversão gentílica (Cornélio): “O qual te dirá palavras mediante as quais
serás salvo, tu e toda a tua casa”.
O padrão dos batismos de casas gentias não deveria ser rapidamente
rejeitado pelos batistas. Não é como se tivéssemos uma centena de casos de
batismos e esses poucos, excepcionais e anômalos casos de batismos de
casas. Temos nove indivíduos identificados; cinco claramente têm suas casas
batizadas; dois não têm casas (eunuco, Saulo); um é dúbio (Simão); e Gaio é
deixado de lado (1Co 1.14, veja a discussão acima). Esse não é uma série de
estatísticas promissora para a tese batista.
A resposta, “mas cada membro da casa creu”, não será persuasiva
após considerar a gramática específica dos dois casos que incluem
declarações sobre a família e a fé (o carcereiro, em 16.31-34, e Crispo, em
18.8). Considere as nuances desses textos. Eles apoiam a tese individualista
(batista) ou a tese familiar pactual (membros da família seguiam o líder de
acordo com sua capacidade)?
Na passagem do carcereiro de Filipo (Atos 16.31-34) e a passagem
sobre Crispo em Corinto (Atos 18.8), os textos gregos têm verbos no
singular, não plural, para descrever as ações de crer. Esses textos não dizem:
o carcereiro (ou Crispo) “e (kai)” os membros de sua casa “acreditaram
[plural]”. Em vez disso, os textos ensinam o que qualquer crente do Antigo
Testamento poderia ter esperado: o carcereiro, o cabeça da casa, “regozijou
(verbo singular) grandemente, com toda a sua casa (panoikei, um advérbio),
tendo crido (pepisteukos, particípio, singular) em Deus” (16.34, extraído de
uma transcrição literal da American Standard Version de 1901). Crispo, o
cabeça da casa, “creu” (episteusen, verbo, singular) no Senhor “com” (sūn)
toda a sua casa (Atos 18.8). Contudo, observe a linguagem cuidadosa de
Lucas indicando que o batismo era administrado a cada membro da casa do
carcereiro: “ele foi batizado, ele e toda a sua casa” (kai hoi autou pantes,
literalmente, “aqueles dos seus todos”) (16.33).
No caso do carcereiro, a narrativa é posta numa estrutura pactual:
“Senhores, que devo [individual e singular] fazer para que seja salvo?”. A
resposta é pactual: “Crê no Senhor Jesus e serás [individual] salvo, tu e tua
casa (Atos 16.31). Esses textos, quando cuidadosamente considerados,
apoiam fortemente a tese pactual. Eles não ensinam que cada indivíduo
nessas casas tinha a capacidade de professar auto-conscientemente a fé e
assim o fizeram.
A casa do carcereiro de Filipo é muito importante para o propósito de
Lucas. Assim, Lucas gasta certo tempo explicando isso. Por quê? O
carcereiro foi o primeiro batismo registrado de um completo pagão. Os
batismos gentios anteriores tinham sido de pessoas tementes a Deus, que
adoravam o verdadeiro Deus de Israel. O eunuco adorava em Jerusalém.
Cornélio era “devoto e temia a Deus”. Lídia “adorava a Deus”. Filipo era
uma colônia romana. Muitos soldados aposentados eram recompensados com
terras ali. É provável que esse carcereiro fosse um antigo soldado romano. O
carcereiro estava prestes a se matar antes de Paulo e Silas gritarem. Isso
indica o seu sistema de valor romano que exigia o “dever” de suicídio em
caso de grave fracasso, como a perda de prisioneiros de alguém.
Com temor e tremor diante de nada menos um terremoto, ele
exclamou: “Senhores, que devo fazer para que seja salvo?”. A resposta está
recheada de conceitos bíblicos e pactuais: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo,
tu e tua casa” (Atos 16.31).
Além disso, as imagens e ressonâncias de Êxodo nessa passagem não
devem ser ignoradas. Isso aconteceu à meia noite (16.25). Lucas enfatiza que
os eventos de lavagem aconteceram “naquela mesma hora da noite” (16.33).
Essa é uma alusão inequívoca à Páscoa (Êx 11.4-5). “Meia noite” em
hebraico [tokh ha-laylah] significa literalmente “a divisão da noite”, ou o
ponto de libertação entre trevas e luz. Ironicamente, com a libertação
daqueles em cativeiro (Paulo & Silas), a casa do carcereiro seria liberta pelo
sangue do Cordeiro a fim de passar pelo Mar Vermelho do batismo com
grande alegria.
Lembre-se, a inclusão das crianças israelistas era essencial no Êxodo,
visto que esse evento desdobrava a promessa de Abraão (e.g., Gn 18.19). O
pedido de Moisés para ser liberto era ir “com os nossos jovens” para
“celebrar festa do SENHOR”. Faraó estava disposto a dizer para os homens ir,
mas não “as crianças” (Êx 10.7-11). Então veio “mais uma praga”, a morte
do querido primogênito “na meia noite” (Êx 11). “Então, naquela mesma
noite, Faraó chamou a Moisés e a Arão e lhes disse: Levantai-vos, saí do
meio do meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; ide, servi ao Senhor,
como tendes dito” (Êx 11.30-31). As crianças eram essenciais então e agora.
O primeiro relato de batismo pagão é um relato de batismo de casa
que alude ao Êxodo. Ao representar a libertação do carcereiro como um tipo
de evento Páscoa/Êxodo, Lucas fortalece a imagem da libertação das
crianças. Dificilmente seria uma Páscoa sem a salvação dos primogênitos. As
crianças também foram libertas por meio do batismo do Mar Vermelho (1Co
10.1-4).
Os filhos estão na nova aliança?

A despeito do conteúdo pactual da narrativa do carcereiro, alguém


pode argumentar que a nova aliança é diferente dos pactos anteriores apenas
nesse sentido: a nova aliança é apenas para as pessoas espiritualmente
regeneradas. Portanto, isso exclui os filhos dos crentes até que eles
demonstrem ser regenerados. Como destacado anteriormente, isso
dificilmente poderia ser um cumprimento feliz do povo do Êxodo. Todavia,
perguntemos se os filhos dos crentes da nova aliança são excluídos da nova
aliança. Um escritor diz: “Em nenhum lugar no conteúdo da nova aliança o
princípio ‘tu e tua semente’ é mencionado”.[5] Se isso fosse verdadeiro, tal
mudança nos recipientes do pacto e das promessas do pacto não poderia ser
mais dramática! A membresia no pacto sempre incluiu e incluirá “tu e os teus
filhos”. O conteúdo pactual é mais fundamentalmente “Deus para você e seus
descendentes” (Gn 17.7, Dt 7.9, 30.6, 1Cr 16.15, Sl 103.17, 105.8).
Considere essas profecias da nova aliança. Os filhos dos crentes estão
inclusos nas promessas explícitas e repetidas da nova aliança? A
primeiríssima palavra sobre a nova aliança está em Deuteronômio 30.6:
O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de
tua descendência, para amares o SENHOR, teu Deus, de todo o
coração e de toda a tua alma, para que vivas.
Jeremias alude à passagem em Deuteronômio acima ao longo de sua
profecia. Ele enfatiza a inclusão dos filhos na promessa da nova aliança:
Jeremias 31.1: “Naquele tempo, diz o SENHOR, serei o Deus de todas
as tribos [famílias] de Israel, e elas serão o meu povo”.
Jeremias 31.17: [Embora Raquel chore pelos seus filhos (destruídos
no cativeiro), quando eles retornam] “há esperança para o teu futuro, diz
o SENHOR, porque teus filhos voltarão para os seus territórios”.
Observe que no versículo 36, texto clássico da nova aliança, a
descendência dos participantes da aliança é explicitamente inclusa:
Jeremias 31.33-37: “Porque esta é a aliança que firmarei com a casa
de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as
minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles
serão o meu povo… Se falharem estas leis fixas diante de mim, diz o SENHOR,
deixará também a descendência de Israel de ser uma nação diante de mim
para sempre. Assim diz o SENHOR: Se puderem ser medidos os céus lá em
cima e sondados os fundamentos da terra cá embaixo, também eu rejeitarei
toda a descendência de Israel, por tudo quanto fizeram, diz o SENHOR”.
Jeremias 32.37-40: “Eis que eu os congregarei de todas as terras, para
onde os lancei na minha ira… Eles serão o meu povo, e eu serei o seu
Deus. Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos
os dias, para seu bem e bem de seus filhos. Farei com eles aliança eterna,
segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu
coração, para que nunca se apartem de mim”.
Jeremias 33.22-26: “Como não se pode contar o exército dos céus,
nem medir-se a areia do mar, assim tornarei incontável a descendência de
Davi, meu servo, e os levitas que ministram diante de mim… também
rejeitarei a descendência de Jacó e de Davi, meu servo, de modo que não
tome da sua descendência quem domine sobre a descendência de Abraão,
Isaque e Jacó; porque lhes restaurarei a sorte e deles me apiedarei”.
Outras profecias do Antigo Testamento sobre a era vindoura da nova
aliança são igualmente claras quanto à inclusão dos filhos dos crentes:
Ezequiel 37.24-26: “O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles
terão um só pastor… Habitarão na terra que dei a meu servo Jacó… habitarão
nela, eles e seus filhos e os filhos de seus filhos, para sempre; e Davi, meu
servo, será seu príncipe eternamente. Farei com eles aliança de paz; será
aliança perpétua…”.
Zacarias 10.6-9: “Fortalecerei a casa de Judá, e salvarei a casa de José,
e fá-los-ei voltar, porque me compadeço deles; e serão como se eu não os
tivera rejeitado, porque eu sou o SENHOR, seu Deus, e os ouvirei. Os de
Efraim serão como um valente, e o seu coração se alegrará como pelo vinho;
seus filhos o verão e se alegrarão; o seu coração se regozijará no SENHOR…
Ainda que os espalhei por entre os povos, eles se lembram de mim em
lugares remotos; viverão com seus filhos e voltarão”.
Joel 2:1-29: “Tocai a trombeta em Sião e dai voz de rebate no meu
santo monte… … assim se difunde um povo grande e poderoso, qual desde o
tempo antigo nunca houve, nem depois dele haverá pelos anos adiante, de
geração em geração… Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum,
proclamai uma assembleia solene. Congregai o povo, santificai a
congregação, ajuntai os anciãos, reuni os filhinhos e os que mamam… o meu
povo jamais será envergonhado. E acontecerá, depois, que derramarei o meu
Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão…”.

Isaías 44.3: “Porque derramarei água sobre o sedento e torrentes,


sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a
minha bênção, sobre os teus descendentes”.

Isaías 54.10-13: “A aliança da minha paz não será removida… Todos


os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e será grande a paz de teus filhos”.

Isaías 59.20-21: “Virá o Redentor a Sião… O meu Espírito, que está


sobre ti, e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se apartarão dela, nem
da de teus filhos, nem da dos filhos de teus filhos, não se apartarão desde
agora e para todo o sempre, diz o SENHOR”.
Malaquias 4.5-6: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que
venha o grande e terrível Dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais
aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a
terra com maldição”.
No Novo Testamento, aos apóstolos também incluíram repetidamente
o princípio de “vocês e vossa semente”.
Lucas 1.17: “E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para
converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à
prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado”.
Lucas 1.49-50: “Porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é o
seu nome. A sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o
temem”.
Atos 2.39: “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e
para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso
Deus, chamar”.
Atos 3.25: “Vós sois os filhos dos profetas e da aliança que Deus
estabeleceu com vossos pais, dizendo a Abraão: Na tua descendência, serão
abençoadas todas as nações da terra”.
Atos 13.32-33: “Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a
nossos pais, como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos,
ressuscitando a Jesus…”.
Romanos 4.13-17: “Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a
sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim
mediante a justiça da fé… Essa é a razão por que provém da fé, para que seja
segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a
descendência, não somente ao que está no regime da lei, mas também ao que
é da fé que teve Abraão (porque Abraão é pai de todos nós, como está escrito:
Por pai de muitas nações te constituí), perante aquele no qual creu, o Deus
que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem”.
Esses textos fornecem apoio bíblico esmagador e inequívoco para a
convicção que os filhos dos crentes estão inclusos na nova aliança. Quantos
mais pontos requer-se para estabelecer este ponto? Certamente ninguém pode
produzir sequer um texto que os exclua explicitamente. Dezenas de textos os
inclui explicitamente!
Ainda mais importante, toda a mensagem de toda a Bíblia requer que
nossos filhos sejam uma herança. Se o batismo é o sinal visível de inclusão
numa relação pactual com Deus, então quem dos apóstolos batizavam? A
conclusão inconfundível da pesquisa exaustiva acima é: o batismo se aplica
às casas dos crentes. Não temos nenhuma razão bíblica para duvidar que os
infantes nascidos em tais casos devam ser batizados em virtude das
promessas pactuais que os inclui.
O que dizer sobre batismo de discípulos?

Antes do nosso Senhor ascender para reinar à destra do Pai, de onde


ele reina agora, ele ordenou o discipular das nações. Ele predisse o avanço
das suas boas novas “em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até
aos confins da terra” (Atos 1.8), assim como temos visto (acima). Ele disse
aos seus discípulos: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações,
batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19).
Alguns alegam que o mandamento de Jesus exclui do batismo quem
não seja um discípulo autoconsciente, que faça uma profissão de fé crível.
Tais intérpretes alegam que essa comissão ordena o discipular de “indivíduos
de todas as nações, não as entidades nacionais”, e o batismo individual
apenas “daqueles que se tornam discípulos”.[6]
A gramática desse mandamento não apoia a leitura individualista.
Antes, o mandamento direto (mathãteusate panta ta ethna baptizontes
autous) pode ser simplesmente traduzido como: “Discipule todas as nações,
batizando-as (nações)”. O pronome “as” (autous) refere-se gramaticalmente
a nações (ethna), um substantivo, não a “discípulos”, visto que “fazer
discípulos” (mathateuo) é um verbo.[7]
Se alguém pensa na comissão tanto gramatical como culturalmente,
um rabino judeu do primeiro século não teria se incomodado se o texto
tivesse dito: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações,
circuncidando-as [as nações] em nome do Deus de Israel, ensinando-as [as
nações] a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. Isso é
precisamente o que os fariseus estavam praticando ao “fazer prosélitos
[discípulos]” (Mt 23.15). Eles não teriam pensando que essa era uma
comissão para abandonar a circuncisão infantil a favor da circuncisão adulta.
Nem deveríamos pensar que a Grande Comissão para batizar nações exclua
as crianças. As promessas da nova aliança convocam as nações a virem ao
Senhor (Is 2.4; 11.10, 42.1-16, esp. 52.15). As nações incluem as crianças.
Este ponto não é teórico. No Concílio de Jerusalém em Atos 15, eles
falam da “conversão dos gentios” (15.3). Os judaizantes insistiam: “Se não
vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos”
(15.1). “É necessário circuncidá-los” (15.5). Os “gentios convertidos” ou os
“gentios crentes” deveriam ser circuncidados. O que isso significa?
Claramente, aqueles a serem circuncidados não eram apenas os auto-
conscientemente professos ou “crentes”. Isso incluía seus filhos pequenos e
recém-nascidos. Dessa forma, a Bíblia fala daqueles “convertidos” como
inclusivo das crianças.
Quando os apóstolos praticaram o mandato batismal, eles batizavam
os adultos após a confissão destes juntamente com as suas casas, sempre que
estes tivessem famílias. Isso precisamente porque o mandato batismal da
Grande Comissão não é separado da Grande Comissão abraâmica. A Grande
Comissão é uma redeclaração do propósito de Deus para renovar o mundo
com pessoas segundo a sua semelhança, assim como a promessa original a
Abraão (Gn 12.1-3).
O propósito de Deus em converter as nações (em missões) é a
declaração madura da promessa abraâmica após a Verdadeira Semente ter
consumado a redenção. Pai Abraão tem muitos filhos, você sabe, “eu sou um
deles e você também…”. Pedro pregou aos judeus: “Vós sois os filhos dos
profetas e da aliança que Deus estabeleceu com vossos pais, dizendo a
Abraão: Na tua descendência, serão abençoadas todas as nações da terra”
(Atos 3.25). A promessa do evangelho é: “os gentios são coerdeiros,
membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por
meio do evangelho” (Ef 3.6). Embora os gentios estivessem “sem Cristo,
separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não
tendo esperança e sem Deus no mundo” — “agora”, escreve o apóstolo, “em
Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue
de Cristo” (Ef 2.12-13). Os gentios agora podem participar como recipientes
das “alianças da promessa”. Cantamos “Pai Abraão tem muitos filhos…”.
Isso é verdade: nós também nos tornamos filhos de Abraão!
Impressionantemente, os gentios são “descendentes de Abraão e herdeiros
segundo a promessa” (Gl 3.29) e, sem dúvida, não apenas os gentios adultos,
mas seus filhos também (veja Atos 15, discutido anteriormente).
Os apóstolos repetem a promessa abraâmica aos cristãos gentios. A
promessa a Abraão é “firme… para toda a descendência, não somente ao que
está no regime da lei, mas também ao que é da fé que teve Abraão (porque
Abraão é pai de todos nós, como está escrito: Por pai de muitas nações te
constituí” (Rm 4.16-17). Em outras palavras, a promessa é “para toda a
descendência”, tanto de judeus como de gentios crentes, pois Abraão é o “pai
de muitas nações” (Atos 3.25, Gn 12.3). As casas de um Cornélio, ou uma
Lídia, ou um carcereiro de Filipo, ou um Estéfanas, podem ser agora contadas
como filhos de Abraão. Isso significa que as crianças estão inclusas.
Quão novo é o batismo?

Quando lemos a Bíblia da esquerda para a direita, vemos muitas


razões para a Grande Comissão de batizar nações. Muitos batistas tratam o
batismo como uma coisa completamente nova que apareceu com João
Batista. Então eles leem os relatos de João Batista como exigindo a visão
batista individualista. Contudo, ao contrário dessa visão, a água que Deus
provê para refrigério e limpeza é um tema que percorre toda a Bíblia. Do
Éden fluem rios. Há fontes nas narrativas dos patriarcas. Israel (incluindo as
crianças) passaram pelo Mar Vermelho. Uma pia estava na entrada do
tabernáculo para a limpeza sacerdotal. Josué conduziu Israel pelo Jordão até a
Terra Prometida. No templo de Salomão o mar e as bacias de água em
carruagens criavam um rio estilizado fluindo para limpar as nações. Ezequiel
e Zacarias tiveram visões de rios fluindo na nova aliança (Zc 14.8). Lavagens
no tabernáculo, bem como a travessia do Mar Vermelho, são explicitamente
chamadas de batismos (Hb 9.10, 1Co 10). Há muitas referências a batismo(s)
no Antigo Testamento.
Mais importante ainda, essas menções predizem a nossa nova era da
aliança. Cristo disse acerca da realidade do Espírito: “Quem crer em mim,
como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (João 7:38, cf.
Is 58.11, Zc 13.11). Essa é a imagem da realidade espiritual da nova aliança
retratada pelo templo de Ezequiel (Ez 47.1-3). Esse á uma profecia da
comissão para batizar as nações.
Depois disto, o homem me fez voltar à entrada do templo, e eis
que saíam águas de debaixo do limiar do templo, para o oriente;
porque a face da casa dava para o oriente, e as águas vinham de
baixo, do lado direito da casa, do lado sul do altar (Ez 47.1). [O
texto continua e fala do pescador que pesca muitos tipos de
peixes deste rio, i.e., gentios; cf João 21.11: “153 peixes
grandes”.]
Por causa desse tema rico e profundo, desenvolveu-se uma oração
batismal, chamada “A grande oração do grande dilúvio”, atribuída a
Martinho Lutero.
Onipotente eterno Deus, que de acordo com teu reto juízo
condenaste o mundo incrédulo pelo dilúvio e, por tua grande
misericórdia, conservaste o crente Noé e mais sete pessoas de sua
família; que afogaste o endurecido Faraó com todos os seus, no
mar Vermelho; que conduziste o teu povo Israel através do
mesmo em terra seca, prefigurando, com isso, este banho do teu
santo Batismo; e que, pelo Batismo de teu querido Filho, nosso
Senhor Jesus Cristo, consagraste e instituíste o Jordão e todas as
águas como um dilúvio bem-aventurado e uma rica lavagem dos
pecados: pedimos por essa mesma [lavagem] tua profunda
misericórdia, que queiras olhar graciosamente para este N. e
abençoá-lo com fé verdadeira no Espírito; para que, por meio
deste dilúvio salvador, tudo o que lhe é inato desde Adão e que
ele mesmo a isto acrescentou seja afogado nele e desapareça; que
seja separado dentre o número dos descrentes, conservado seco e
seguro na santa arca da cristandade, sirva sempre a teu nome,
ardendo em Espírito e alegre em esperança; para que, junto com
todos os crentes, ele se torne digno de alcançar vida eterna, de
acordo com a tua promessa; por Jesus Cristo, nosso Senhor.
Amém.[8]
Lutero invoca a imagem do dilúvio utilizada pelo apóstolo Pedro. O
dilúvio é um antítipo, um cumprimento da salvação da casa de Noé. Ele
simboliza o lavar da consciência. “Há também um antítipo (antitypos) que
agora nos salva — o batismo (não sendo a remoção da imundícia da carne,
mas a resposta de uma boa consciência para com Deus), por meio da
ressurreição de Jesus Cristo” (1 Pedro 3.21, NKJV).
Seguimos a Jesus no batismo do crente?

João Batista saiu “no espírito e poder de Elias” que dividiu a água do
Jordão (2Rs 2.8ss). João “preparou o caminho” para Jesus. Ele estava
“pregando um batismo de arrependimento” no rio João (Marcos 1.4). João
estava no deserto além das fronteiras da nação onde eles iam “ter com ele”
(Marcos 1.5). Devemos ter em mente o que tinha acontecido a Israel no
passado para que isso faça sentido. No Êxodo, Israel “passou (heb. avar) pelo
meio do mar ao deserto” (Nm 33.8). Paulo descreve isso como um “batismo”.
Eles “todos, em Moisés, foram batizados, tanto na nuvem como no mar”
(1Co 10.2, NAA). O atravessar o Mar Vermelho é um “batismo”. Sob Josué,
Israel foi ordenado a “atravessar (avar) este Jordão, para que entrem na terra
que o SENHOR, seu Deus, lhes dá para que tomem posse dela” (Js 1.11, NAA).
Devido à ira de Moisés, ele não atravessou (Dt 4.22, 31.2). Esse “atravessar”
acontece novamente quando Elias recebe uma “porção dupla” do espírito de
Elias. “Então, Elias tomou o seu manto, enrolou-o e feriu as águas, as quais
se dividiram para os dois lados; e passaram ambos em seco” (2 Reis 2.8).
Então no exílio, Judá foi expulso da terra, além dos limites do rio Jordão (1Cr
9.1; Js 3.4).
Na era logo antes daquela que Jesus veio, os judeus queriam saber se
o exílio havia terminado. Por um lado, eles haviam voltado da Babilônia para
“a terra” (pelo menos muitos tinham). Eles tinham muros, uma cidade e um
templo. Por outro lado, eles ainda eram oprimidos por poderes estrangeiros,
como Herodes (vários) e Roma. Deus havia retornado a Sião em
cumprimento dos profetas (e.g., Is 40.1-10)? Agora entra João.
João estava “pregando batismo de arrependimento” (Marcos 1.4). Isso
não significa que João estava pregando: “Vocês devem ser imersos”. Antes,
dada toda a história até esse ponto, João estava pregando um “batismo” da
renovação de Israel. O batismo que ele pregava mostrava isso. O teólogo
Colin Brown escreveu:
João estava organizando um êxodo simbólico de Jerusalém e
Judeia como uma preliminar para reatravessar o Jordão como um
Israel penitente e consagrado a fim que reivindicar a terra numa
quase-reconstituição do retorno do exílio babilônico… a pureza e
quantidade da água eram de menor importância que a importância
histórica e simbólica do próprio Jordão como o limite e ponto de
entrada.[9]
Assim como Deuteronômio apontava para o tempo de renovação
quando eles “passariam o Jordão”, sendo conduzidos por Josué (Dt 4.21),
assim agora em vias do Messias chegar, João estava conduzindo-os num
êxodo simbólico para entrar na terra em renovação.[10] O restante do Novo
Testamento utiliza várias dessas imagens de “travessia” no batismo. Somos
“batizados” em Cristo, por meio da morte e para a vida da ressurreição. Nós
“passamos” ou “atravessamos” até ele (Rm 6.3-4, Cl 2.11-12).
Em adição à “travessia”, João pode ter aspergido água nas pessoas à
medida que elas passavam, como um ritual de limpeza. Isso é sugerido pelas
palavras de Jesus sobre João: “Que saístes a ver no deserto? Um caniço
agitado pelo vento?” (Mt 11.7). Isso poderia ser meramente metafórico, mas
em toda a Bíblia tais galhos eram usados para aplicar os rituais de limpeza
(Lv 14). “Um homem limpo tomará hissopo, e o molhará naquela água, e a
aspergirá sobre aquela tenda, e sobre todo utensílio, e sobre as pessoas que ali
estiverem…” (Nm 19.18). “Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo”
(Salmos 51.7). É improvável que ele imergisse fisicamente todas as pessoas
em Jerusalém, todos da Judeia e dos distritos ao redor do Jordão (Mt 3.5-6).
E o batismo de Jesus? Ora, o batismo de Jesus por João envolveu essa
renovação de Israel, atravessando o Jordão (como antes com o Mar
Vermelho, Josué, Elias e Eliseu) para “manifestar” o Ungido, “Cristo” (João
1.31, Sl 2.2). Hebreus ensina que Cristo foi designado “por Deus sumo
sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 5.10). Deus designou um
“Filho, perfeito para sempre.” (Hb 7.28). Quando isso aconteceu? No batismo
de Jesus (Lucas 3.21, 4.18).
João era qualificado para ser um sacerdote levita, como o fora seu pai
(Lucas 1.5). Contudo, João fazia suas limpezas rituais no templo, sob a
corrupção dos saduceus. Os sacerdotes levitas eram designados por meio de
um lavar ritual, uma unção com óleo e uma investidura (roupas) (Êx 28.41,
Nm 3.3). Jesus foi consagrado como um sacerdote por João no evento
batismal (Mt 3.13-17). Eu consideraria João o “último sacerdote levita” que
ungiu o Sumo Sacerdote da ordem de Melquisedeque, Jesus. Jesus não
recebeu o óleo simbólico num templo corrompido; ele recebeu o Espírito de
fato, descendo como uma pomba. Por causa disso, “tendo recebido do Pai a
promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (Atos 2.33).
Esse é o significado da palavra “Cristo” (ungido), e ela remonta ao evento do
batismo de Jesus quando ele foi batizado.
Assim, nós “seguimos o Senhor” no batismo? Somente com esse rico
pano de fundo em mente podemos ver como o batismo de Cristo é um
modelo para nós. Em nosso batismo somos purificados; há um lavar de
pecado no simbolismo. Nós “passamos” ou “atravessamos” até Cristo, e
somos vestidos. No batismo, ganhamos um novo status como filhos e filhas
adotados do Pai. Somos vestidos com o Espírito e chamados “filhos/filhas”
de Deus. A ordenação sacerdotal é uma figura do “sacerdócio real” em Cristo
(1Pe 2.9). Nossa nova identidade é conferida no batismo, assim como o foi
para Israel a travessia do Mar Vermelho (1Co 10.1-4). Essa é apenas outra
forma de dizer o que Paulo declara definitivamente. Todos nós somos “filhos
de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados
em Cristo de Cristo vos revestistes” (Gl 3.26-27).
O batismo está no lugar da circuncisão?
É simplesmente porque o batismo se relaciona com o Espírito que
vemos a conexão entre batismo e circuncisão. Ambos são símbolos da
promessa do pacto e sinais de entrada. O batismo e a circuncisão simbolizam
a mesma realidade, a obra do Espírito. Todavia, o batismo é maior que a
circuncisão. Muitos têm objetado a esse tipo de argumento. Não penso que
todos os ovos do batismo infantil estejam na cesta da circuncisão. Mas há
uma relação entre circuncisão e batismo na Escritura. Ver isso claramente
ajudará a resolver as questões sobre quais rituais se aplicam às crianças.
(1) A circuncisão representava a obra do Espírito Santo, a
circuncisão do coração. Estevão estava em águas bíblicas muito profundas
quando disse aos seus perseguidores: “Homens de dura cerviz e incircuncisos
de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como
fizeram vossos pais, também vós o fazeis” (Atos 7.51). Esse significado de
circuncisão é bastamte evidente em muitas passagens do Antigo Testamento
(Lv 26.41, Jr 9.26, Ez 44.7, 44.9, Dt 10.16, 30.6, Jr 4.4). A própria promessa
da nova aliança incluía isso: “O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração
e o coração de tua descendência, para amares o Senhor, teu Deus, de todo o
coração e de toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30.6). Paulo, que segurava
as vestes daqueles que apedrejaram a Estevão, aprendeu isso também (talvez
de Estevão). Isso permeia quase todas as suas epístolas (Rm 2.29, 4.11, 1Co
7.19, Gl 5.6, 6.15, Ef 2.11-12, Fp 3.3, Cl 2.11-12, 3.11). A realidade por
detrás da circuncisão física é a circuncisão “que é do coração, no espírito, não
segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus” (Rm
2.29). A circuncisão significa a renovação do coração em direção a Deus.
(2) O batismo representa a obra do Espírito, o batismo pelo Espírito.
As primeiras palavras sobre batismo no Novo Testamento dizem isso. João
afirmou: “Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o
Espírito Santo” (Marcos 1.8). Pedro conecta o batismo com “o dom do
Espírito Santo” (Atos 2.28). Ele disse sobre a casa de Cornélio: “Porventura,
pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim
como nós, receberam o Espírito Santo?” (Atos 10.47). Paulo alude à imagem
do batismo em Tito 3.5, quando diz: “Ele nos salvou mediante o lavar
regenerador e renovador do Espírito Santo”. O batismo significa a renovação
daqueles que estavam espiritualmente mortos e anteriormente impuros.
Portanto, (3) uma pessoa que foi circuncidada no coração foi
batizada com o Espírito, e uma pessoa que foi batizada com o Espírito foi
circuncidada no coração. O que isso pode significar senão que esses dois
atos ritualísticos significam a mesma realidade? A passagem geralmente
discutida neste ponto é Colossenses 2.11-12: “Nele, também fostes
circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo
da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados, juntamente
com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé
no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos”. Esse texto é discutido
especialmente quanto ao significado de “a circuncisão de Cristo”. Trata-se de
uma circuncisão/regeneração espiritual ou outra coisa? Pode ser que essa
circuncisão “de Cristo” seja o “cortar de Cristo” na cruz, i.e., sua morte.
Mesmo assim, isso ainda correlacionaria batismo e circuncisão, mas
abordando o aspecto do cortar ou da “morte”: circuncisão=morte,
batismo=morte. Meu argumento não depende de uma leitura particular dessa
passagem, mas antes que existem paralelos entre circuncisão e batismo em
seu significado. Em face disso, Paulo refere-se a ambos aqui pois há uma
similaridade (seja lá o que estiver nesta passagem).
Circuncisão e batismo são ambos sinais de união pactual. Isso é
cristalino no caso de circuncisão (Gn 17). É também claro no batismo.
Romanos 6.3-4 ensina que aqueles “batizados em Cristo Jesus” “foram
unidos com ele na semelhança de sua morte” e “sua ressurreição” (ASV).
Gálatas 3.27 diz quanto àqueles “batizados em Cristo”: “de Cristo vos
revestistes”. Além disso o Espírito nos une no Corpo: “Pois, em um só
Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos,
quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”
(1Co 12.13). Essas passagens afirmam que o batismo é um sinal da obra do
Espírito de Deus em nossa união espiritual com Cristo.
Em resumo, o batismo certamente significa a obra do Espírito
(Marcos 1.8, Atos 10.47, Tito 3.5). Ele foi destinado a ser um ritual de
limpeza que identifica alguém com o Deus Triúno, Pai, Filho e Espírito Santo
(Mt 28.19-20, Atos 10.48). Seu significado é indubitavelmente a obra do
Espírito nos limpando e nos unindo com Cristo em seu corpo (Rm 6.3, Gl
3.27, Cl 2.11-12, 1Co 12.13).
Isso é verdade, mesmo que algumas pessoas batizadas não sejam
testemunhos vivos disso. A verdade do batismo é objetiva, mas o que o
batismo representa não é automaticamente verdadeiro de todos os batizados.
Isso é claro para nós no caso da circuncisão da antiga aliança. Muitos em sua
desobediência mentiram sobre o que a circuncisão dizia acerca deles no
Antigo Testamento. Passar pelo ritual não produz automaticamente toda a
realidade significada. Isso é não é menos verdade para adultos do que o é
para crianças. Isso também é verdade no Antigo Testamento e na era da nova
aliança.
Batismo é um sinal e selo (visíveis) da comunidade do pacto. Assim,
o batismo funcionalmente substitui o ritual da circuncisão, e é seu
equivalente sacramental (na era do cumprimento).

CIRCUCISÃO BATISMO
Ritual cortar da carne limpeza da carne
Realidade circuncisão de Cristo batismo pelo Espírito
circuncidado o coração limpo o coração
unido a Israel unido ao Verdadeiro
Israel/Cristo
Recipientes primariamente a nação judaica expandido a toda a nação /
Todos em tais casas (machos) Todos na casa (machos e
fêmeas)

A tentação para os batistas é assumir: visto que a realidade significada


no batismo é apenas verdadeira nos “crentes” regenerados, é apropriado dar
este sinal somente a tais pessoas. Raciocinando dessa forma, alguém ignora
inteiramente o que acabou de ser provado biblicamente. A circuncisão
significa fundamentalmente a mesma realidade que o batismo. A circuncisão
testifica de uma vida espiritual. Todavia, ela era dada apropriadamente a
crianças. Como Calvino diz: “Que podem dizer para impugnar o batismo que
não se possa aplicar à circuncisão?”.[11] Em outras palavras, qualquer
argumento da aplicação imprópria do batismo a crianças por causa do
significado espiritual do batismo poderia ser também uma objeção à
circuncisão. A circuncisão também significava uma realidade espiritual. A
circuncisão de Abraão era o sinal e selo de sua justificação pela fé. Ele
“recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando
ainda incircunciso” (Rm 4.11). Mas Isaque, que possuía a mesma realidade
operada pelo Espírito, foi batizado como um infante.
Assim, o sinal de uma realidade interna e espiritual pode ser recebida
quando alguém está (dolorosamente) consciente da realidade, como Abraão.
Ou, ela pode ser recebida antes de alguém estar consciente da realidade,
como Isaque, e qualquer outro crente judeu. O batismo pode ser recebido
com entendimento (no caso de um adulto) ou pode ser “relembrado” com
entendimento (como no caso de um infante).
Batistas algumas vezes argumentam: uma obra espiritual interior é
certamente mais verdadeira no “crente” (fé professada) do que no infante
(mesmo quando criado na disciplina e admoestação do Senhor). Esse é um
ponto muito inconvincente para mim, tendo crescido em igrejas batistas que
regularmente praticam o rebatismo duas ou três vezes em seus próprios
membros. De acordo com estatísticas oficiais, uma proeminente denominação
batista registrou que mais de 40% dos seus batismos num ano foram para
“rededicação”.[12] Nenhum praticante de batismo, a despeito de sua teologia,
batiza apenas pessoas regeneradas, pois nem mesmo os apóstolos
conseguiram assim fazer (e.g., Simão Mago, Atos 8).
Os filhos deles estavam inclusos?

Leiamos o nosso Novo Testamento com um entendimento da


audiência original. Se nos colocarmos nas sandálias dos judeus (e prosélitos)
seguidores de Jesus do primeiro século, como teríamos reagido à alegação
batista de que os filhos pequenos dos crentes estão excluídos do povo de
Deus? Imagine o choque de Crispo, o líder da sinagoga (Atos 18.8), que
acreditava que na Sexta-feira, digamos, seus filhos estavam em aliança com
Deus e eram plenamente parte do povo de Deus. Então após Paulo pregar, ele
descobre que — no cumprimento de todas as promessas, na plenitude dos
tempos, no reino messiânico e na glória de Israel — agora seus filhos
pequenos não têm nenhuma parte no povo de Deus!
Ou, imagine a nova família prosélita que recentemente experimentou
a dolorosa entrada na membresia (circuncisão) pactual, apenas para descobrir
que agora seus filhos não têm mais um lugar nas sombras do judaísmo! Essa
visão da nova aliança seria mais do que desapontadora para a audiência
original: seria biblicamente inconcebível. As objeções claramente
apresentadas pelos judaizantes (e.g., circuncisão é necessária como um sinal
do pacto) são explícitas (Atos 15.1). Se os apóstolos tivessem de fato
ensinado que os filhos pequenos dos judeus (e gentios) estavam agora
excluídos, isso teria sido um ultraje. É muito notável que não existe nenhuma
sugestão dessa discussão nas páginas do Novo Testamento. Mas a razão disso
não estar no Novo Testamento é mais bem explicada pela visão de que a
prática e crença dos batistas não era o ensino dos apóstolos.
Isso nos leva a uma objeção importante que eu chamarei de “objeção
da substituição”. Ela tem sido declarada da seguinte forma: se o batismo
substituiu a circuncisão, por que os apóstolos não refutaram a exigência dos
judeus de que os gentios precisavam ser circuncidados dizendo: “Eles não
precisam de circuncisão; vocês todos sabem que o batismo substituiu a
circuncisão como sinal da aliança”?
Os judaizantes estavam dizendo que os gentios não podiam ser
“salvos” sem circuncisão (Atos 15.1) e que a circuncisão era “necessária”
(Atos 15.5). A resposta apostólica (Paulo e Pedro) foi: estamos certos que os
gentios estão sendo salvos sem circuncisão; temos visto, portanto, que a
circuncisão não é necessária (Atos 15.712). Pedro disse: “Ora, Deus, que
conhece os corações, lhes deu testemunho, concedendo o Espírito Santo a
eles [gentios], como também a nós nos concedera. E não estabeleceu
distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé o coração” (15.8-
9). Sua impureza gentia foi “purificada” pela presença e obra do Espírito,
que a circuncisão representava. O Espírito demonstrou que o ritual da
circuncisão era desnecessário para receber a salvação e as manifestações
observáveis do Espírito Santo. “Quando, porém, comecei a falar [a Cornélio e
sua família], caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no
princípio. Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na
verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo”
(Atos 11.15-16). Essa não era uma verdade que Pedro (ou algum outro
apóstolo) entendeu antes de Atos 10 e estava sendo contestada em Atos 15.
Pedro diz virtualmente que eles não precisavam da circuncisão (ritual)
pois tinham sido batizados pelo Espírito (Atos 15.8-9). Portanto, Pedro
concluiu: “Porventura, pode alguém recusar a água, para que não sejam
batizados estes [a casa de Cornélio] que, assim como nós, receberam o
Espírito Santo?” (Atos 10.47). Quem seria tentado a recusar-lhes o batismo?
Os judaizantes, sob o fundamento de que eles ainda não haviam sido
circuncidados e, assim, “purificados”. Mas eles tinham sido purificados. Isso
é a substituição da circuncisão como um ritual pela realidade e ritual do
batismo. Mas é mais profundo que o ritual. Os gentios receberam o Espírito,
a realidade por detrás tanto da circuncisão como do batismo.
A razão pela qual Pedro não disse simplesmente “o batismo substituiu
a circuncisão” decorre de vários fatores contextuais: a) a verdadeira objeção
dos judaizantes era que a circuncisão nunca poderia ser substituída, mesmo
para os gentios (Atos 15.1, 5). Eles não apreciavam a “novidade” da nova
aliança. Apenas “dizer” não era suficiente. A questão como um todo estava
sendo contestada como “abandono da Lei”. Aqueles que apreciam
verdadeiramente a “novidade” veem que o batismo “limpa” a circuncisão!; b)
Os apóstolos não negavam que os judeus ainda podiam praticar
apropriadamente a circuncisão, embora fosse desnecessária para os gentios
convertidos. Afirmar simplesmente (nesse contexto) “o batismo substituiu a
circuncisão” não era uma declaração plena da verdade sobre a questão. Na
verdade, o batismo substituiu a circuncisão como um sinal gentio de entrada
para a Igreja. Além do mais, é um ato necessário para os judeus crentes em
adição à circuncisão (Atos 21.21. 1Co 7.18). Mas para os judeus o batismo
não substituiu exatamente a circuncisão, especialmente naquela era
transicional.
Felizmente, como debater a divindade de Cristo e a Trindade, a era de
disputar sobre circuncisão para gentios já passou há muito na igreja. À parte
da evangelização de judeus, o debate sobre o assunto é inexistente a nível
mundial na igreja. O batismo é a substituição funcional da circuncisão como
o sinal de entrada na igreja.
A questão do batismo é mais essencialmente sobre a relação de nossos
filhos com o nosso Deus. Os santos do Antigo Testamento consideravam seus
filhos como estando em aliança como Deus, assim também na Nova Aliança.
Não existe nenhuma diferença na linguagem do AT e NT sobre os filhos dos
crentes.

O LUGAR DOS FILHOS DOS CRENTES: O MESMO EM


AMBOS OS TESTAMENTOS
Antigo Testamento Novo Testamento
Deveres “Ordene a seus filhos e a sua “Criai-os na disciplina e na
dos pais casa depois dele, a fim de que admoestação do Senhor”
guardem o caminho (Ef 6.4)
do SENHOR” (Gn 18.19)
Deveres “Honra teu pai e tua mãe” (Êx “Obedecei a vossos pais”
dos filhos 20.12) (Ef 6.2)
Bênçãos “Para que se prolonguem os “Sejas de longa vida sobre a
teus dias na terra” (Êx 20.12) terra” (Ef 6.3)
Os filhos “Para que temas ao SENHOR, “Permanece naquilo
devem teu Deus, e guardes todos os [Escritura] que aprendeste”
obedecer seus estatutos e mandamentos desde a infância (2Tm 3.14-
à Palavra que eu te ordeno, tu, e teu 15)
filho, e o filho de teu filho,
todos os dias da tua vida” (Dt
6.2)
Liderança “Eu e a minha casa serviremos O carcereiro “com todos os
da família ao SENHOR” (Js 24.15) seus, manifestava grande
alegria” (Atos 16.34)
Realidade “Derramarei o meu Espírito “Pois para vós outros é a
prometida sobre a tua posteridade” (Is promessa [do Espírito], para
44.3) vossos filhos…” (Atos
2.39)
Duração “O Deus fiel, que guarda a “A sua misericórdia vai de
da aliança e a misericórdia até geração em geração sobre
inclusão mil gerações aos que o amam os que o temem” (Lucas
e cumprem os seus 1.50)
mandamentos” (Dt 7.9)
Sinal da “E também foram “Foi ele [o carcereiro]
inclusão circuncidados todos os batizado, e todos os seus”
homens de sua casa [de (Atos 16.33)
Abraão]” (Gn 17.27)
Como vivemos à luz do nosso batismo?
Uma das objeções mais perturbantes ao batismo infantil é esta: “Se
tudo o que você disse é verdade, você não está dizendo que as crianças
batizadas estão salvas? Se o batismo representa a união com Cristo, não
deveríamos considerar então os bebês batizados como estando ‘em Cristo’?”.
Esse é um ponto desafiador visto que a Bíblia fala de batismo como
unindo uma pessoa a Cristo. (Batismo é melhor entendido como fornecendo a
ação oficial de união pactual.) Talvez a melhor forma de abordar isso é
pensar na analogia do casamento. O evento da festa do matrimônio é crucial
para o casamento. Todas as pessoas que estão casadas passaram por algum
tipo de comemoração. Mas ninguém trata a festa, em e si de si mesma, como
a totalidade do casamento. Um casamento fiel não é o resultado automático
de uma bela festa. Todos sabemos que existem exceções. Nem é a vida de
salvação automática por causa do batismo, não importa quando este aconteça
(na infância ou na idade adulta).
Você precisa de uma festa para estar casado? Bem, algo deve iniciar a
“união”. Solteiros podem se amar como se estivessem casados. Há algo muito
importante sobre uma festa para um casamento. Se alguém obedece aos votos
de matrimônio, resultará daí um casamento forte. Da mesma forma, se o
significado e as obrigações do batismo são vividos, então uma vida de
salvação será evidente. O batismo deve ser o início oficial da fidelidade, e no
batismo os compromissos de uma vida felizmente casada em Cristo são
feitos. Eu fui lavado e crucificado com ele, e dessa forma viverei. Pense nisso
dessa forma: o batismo é tão aplicável a crianças pequenas como a
convertidos adultos.
Se você trouxe seu filho a Cristo, agora você deve obedecer ao que o
Senhor requer. Sobre o nosso pai Abraão foi dito: “Porque eu o escolhi para
que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o
caminho do SENHOR e pratiquem a justiça e o juízo; para que o SENHOR faça
vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gn 18.19). Devemos
prestar atenção ao antigo mandamento: “Tu as inculcarás a teus filhos, e delas
falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao
levantar-te” (Dt 6.7). Você pretende ordenar a seus filhos que guardem o
caminho do Senhor? Você pretende ensiná-los diligentemente a amarem o
Senhor seu Deus (Dt 6.4)? Sem a realidade de conduzir o lar de alguém a
Cristo, em Cristo, e para Cristo, a água do batismo é pior que inútil; é dilúvio
de julgamento.
Quando as primeiras famílias (gentias) da nova aliança creram, elas
foram ordenadas a criarem seus filhos “na disciplina e na admoestação do
Senhor” (Ef 6.4). Como numa era anterior, Josué disse nobremente: “Eu e a
minha casa serviremos ao SENHOR” (Js 24.15). Um adulto batizado deveria ser
obediente a viver uma vida purificada em Cristo. Uma criança batizada
deveria ser uma criança sendo criada na disciplina e admoestação do Senhor,
cujos pais votam: “Eu e a minha casa serviremos ao SENHOR”.
De maneira prática, isso significa que todo mundo que cresce num lar
cristão deveria aprender a Palavra de Deus desde uma tenra idade. Assim
como Timóteo, toda criança cristã deveria ser exortada da seguinte forma:
“permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de
quem o aprendeste e que, desde a infância (brephos) sabes as sagradas letras,
que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm
3.14-15).
Portanto, o batismo pactual de crianças é bíblico e leva a uma
paternidade piedosa. Ele transmite uma esperança das bênçãos seladas do
evangelho da graça. Crianças batizadas deveriam ser vistas como aquelas na
nova aliança e deveriam ser chamadas à maturidade em tudo o que isso
implica. Isso não significa fidelidade automática. Antes, requer-se
responsabilidade e fé. Trata-se de um desafio sóbrio à lembrança de que
aqueles que quebram a aliança receberão uma maior condenação, maior até
mesmo que os não batizados (Hb 10.28-30).
A linha central de objeção

Pode haver ainda outras objeções. Dada a brevidade deste estudo,


deixe-me examinar o que considero ser a objeção central.[13] A estrutura
básica do argumento batista (quanto à nova aliança) é esta: temos (1) uma
base explícita para o “batismo de crentes” e (2) nenhuma garantia explícita
(um exemplo ou mandamento) para o “batismo infantil”. Sustentando isso,
(3) a membresia na nova aliança inclui exclusivamente indivíduos
regenerados e não se pode presumir que os filhos pequenos de crentes sejam
regenerados; dessa forma (4), tais crianças não devem ser batizadas até que
confessem sua fé e demonstrem sua regeneração.
Responderei ponto por ponto. (1) Mesmo que os batismos
“explícitos” fossem somente de “crentes” (esquecendo por hora os batismos
de famílias), um milhão de casos de conversos adultos professando sua fé
antes do batismo não prova nada com respeito aos infantes dos crentes (a
questão sob discussão). Os pedobatistas concordam de coração com a
prática de profissão de fé dos adultos antes da conversão, como é evidente
em todo credo reformado![14] A maioria da polêmica batista apenas martela
os exemplos dos adultos, como se isso resolvesse o debate. Ironicamente, o
eunuco sem filhos com seu caso — claro como um cristal — de crença
anterior torna-se o paradigma para resolver o debate de crianças pequenas.
Mas o caso do eunuco não pode nos ajudar a lidar com as crianças, pode?
Como temos visto, os casos reais de batismo apoiam a visão pactual.
Virtualmente toda pessoa que poderia ter concebivelmente uma família, teve
a sua casa batizada. Os casos explícitos de batismo, quando plenamente
considerados, não são evidência da visão batista. Cinco batismos de família
(de 9 indivíduos) é uma forte evidência a favor da visão pactual.
(2) Não existe garantia explícita para um “batismo” infantil. Mas os
casos explícitos sobre o batismo dos filhos de crentes está ausente em ambas
as direções. Não existe nenhum caso de um “batismo infantil”, e não existe
igualmente nenhum caso de “batismo de crente” de um filho de um cristão.
Essa questão deve ser resolvida pela aplicação apropriada do ensino bíblico
com respeito ao lugar dos filhos dos crentes, inclusão no pacto, e exemplos
de batismo, tais como a importância dos batismos de casas. Isso não pode ser
resolvido com um apelo direto a um texto explícito. O papel das crianças no
plano pactual de Deus era importante (Gn 18.19) e continua sendo (Ef 6.4).
(3) É verdade que a membresia no novo pacto inclui exclusivamente
indivíduos regenerados? Não. Há muitas passagens que ensinam a
possibilidade de apostasia da comunidade pactual visível (Hb 6.1-4, 10.28-
30; João 15.2, 6; Rm 11.21). Há muitas passagens que ensinam que a nova
aliança tem estipulações para juízo (Mt 16.19; 1Co 11.29-30, 34; Hb 10.30-
31; 1Pe 4.17). Existem muitas passagens que ensinam que o reino inclui
regenerados e não regenerados (Mt 8.12, 13.24-31, 41, 47-50, 21.43, 25.1-13;
Lucas 13.28; Ap 11.15). Nisto a nova aliança é similar às administrações da
antiga aliança. Ainda mais, o pedobatista, não o anti-pedobatista, possui
garantia explícita para a inclusão das crianças na nova aliança (Dt 30.6; Jr
31.36-37), igreja (Ef 1.1, 6.1-4; Cl 1.2, 3.20; 1Co 7.14) e reino (Mt 19.14;
Marcos 10.14; Lucas 18.16).

(4) Ao colocar o sinal de entrada da nova aliança sobre os filhos dos


crentes, não estamos fazendo nenhuma suposição que não seja explícita no
ensino da Bíblia. A Bíblia explícita e repetidamente fala das crianças na nova
aliança. A prática batista assume que, por causa da profissão de fé, o
candidato batismal é regenerado. Mas isso pode ser falso. O pedobatista age
simplesmente sob a base que a criança está debaixo dos termos da aliança, o
que é explicitamente ensinado na Bíblia. Em todo caso, ninguém batiza com
base no “conhecimento” que uma pessoa é “regenerada”. Aqui penso que um
argumento teológico prático milita contra a coerência da prática batista.
Certamente a identificação do regenerado requer mais que uma mera
“profissão”. Conheço muitos que fizeram uma profissão, foram batizados, e
então apostataram. Professar a fé não é evidência segura de regeneração.
Assim, então, no nível da prática eclesiástica somos deixados com as sábias
palavras de B. B. Warfield: “… ninguém, por mais rica que seja sua
manifestação das graças cristãs, é batizado com base no conhecimento
infalível de sua relação com Cristo. Todo batismo é inevitavelmente
administrado sobre a base, não do conhecimento, mas de suposição”.[15]
Umas poucas mais questões

Por que batizar as crianças se elas não entendem o significado do


batismo? O batismo é como a circuncisão. Para os adultos, “entra-se” nele
com algum entendimento, para os infantes “relembra-se” com entendimento.
Se uma pessoa é nova convertida, seu conhecimento do batismo pode ser bem
imaturo. Em outras palavras, todo batismo é batismo “infantil” (no sentido de
realmente entender o seu significado). Em princípio, alguém não pode objetar
a tal sinal ser dado a uma infante real pois é muito claro que isso acontecia no
caso da circuncisão. Não é significativo que as crianças pequenas sejam
cidadãs dos Estados Unidos? Embora não compreendam isso, elas têm todos
os direitos e proteções de um cidadão, embora sejam menores de idade. À
medida que crescem, elas aprenderão acerca de seus deveres, juntamente com
todos os direitos e privilégios que sua cidadania lhes confere, embora ainda
não estejam cientes disso. Assim se dá com o batismo.
O que dizer sobre crianças batizadas que crescem e abandonam a fé?
Apostasia (da igreja e do pacto) pode ser cometida por crianças batizadas
como infantes, crianças batizadas como crentes e convertidos batizados como
adultos. É a função bíblica da disciplina eclesiástica (Mt 18.15-20), não o
batismo, que purifica a membresia da igreja daqueles que deliberada e
impenitentemente negam a fé. Não deveríamos tentar impedir as pessoas de
se batizaram, mas mantê-las fieis pelo ensino, amor e disciplina.
E se uma criança batizada tiver uma conversão dramática mais
tarde? Elas devem ser batizadas novamente? Um cristão (criança ou adulto)
deveria ser batizado apenas uma vez, visto que isso significa entrar em união
com Cristo. Refazer o batismo apresenta a figura de um cair da graça. A
razão pela qual muitos re-batismos acontecem (erroneamente, creio) é porque
o batismo é visto como significativo apenas se o batizado tiver uma certa
experiência anterior (i.e., batismo é um testemunho da minha experiência de
conversão). Argumentei (acima) que isso é um mal-entendido do batismo.
Assim, se uma criança batizada tiver uma conversão dramática
posteriormente, os pais, o pastor e a pessoa deveriam se regozijar que a
reivindicação colocada sobre ela no batismo produziu fruto pela graça de
Deus.
Você acredita que o batismo infantil salva a criança? O batismo
“salva” uma pessoa de uma maneira similar a como uma cerimônia
matrimonial casa uma pessoa. Ela é o início da união, é a declaração oficial,
mas não fornece automaticamente todas as bênçãos de uma vida casada. O
batismo é o início oficial da identidade cristã, mas é por meio do viver a
identidade batismal que todas as bênçãos da salvação são recebidas.
O batismo não deveria ser feito por imersão? Compararmos batismo
e comunhão pode nos ajudar aqui. Ora, se a ceia do Senhor era realmente
uma “ceia” (deipnon, uma refeição noturna) não é essencial para o seu
propósito, significado ou qualidade sacramental. Da mesma forma, o modo
do batismo, quer por imersão, efusão ou aspersão, é menos importante que o
seu significado e recipientes. Forneci muitas referências a tipos de batismos
no estudo acima e eles variam em seu “modo”. A visão reformada não requer
um modo particular como necessário para um batismo válido. Contudo, um
caso muito forte pode ser feito de que a maioria dos batismos bíblicos era
como uma “unção” de cima, e.g., nas aspersões do Tabernáculo (baptismois,
em Hb 9.11, veja os versículos 9.13, 19, 22). O batismo do Espírito é descrito
como tendo sido “sobre os gentios… derramado o dom do Espírito Santo”
(Atos 10.45-47). Como discutido anteriormente, o batismo é também um
“cruzar” (e.g, Mar Vermelho, rio Jordão, o batismo de João). As lavagens
batismais na Escrituras são muitas e variadas, de forma que não se preocupe
como a água é aplicada.
Se você crê no batismo infantil, você precisa crer na comunhão
infantil? Já escrevi sobre isso em outro lugar.[16] As fontes históricas mais
antigas sobre o batismo infantil, como Cipriano (c. 200-258) e mais tarde
Agostinho (354-430), deixam claro que o batismo infantil e a comunhão
infantil eram normativos em seus dias. Todavia, essa é uma questão separada
e dependente de outros princípios, tais como: (a) se os infantes ou crianças
jovens participavam da Páscoa e de outras refeições sacrificiais do Antigo
Testamento, (b) se havia alguma qualificação para participação, tais como
perguntas e entendimento (Êx 12.26), e (c) se na nova aliança há alguma
qualificação adicional.[17] B. B. Warfield disse: “As ordenanças da Igreja
pertencem aos membros dela; mas cada uma em seu tempo apropriado. A
ordenança iniciadora pertence aos membros ao se tornarem membros, outras
ordenanças tornam-se seu direito à medida que chega os tempos
determinados para desfrutar delas”.[18]
[1]
Contrastarei a posição “batista” (batismo do crente, daquele que professa ou confessa) com a posição “pedobatista”
ou do batismo infantil (paidion no grego significa “criança” ou “infante”).
[2]
O catolicismo romano coloca o batismo num sistema de mérito sacramental. Veja o Concílio de Trento, 5ª seção,
decretos 4-5, do ano 1546.
[3]
Todas as partes em itálico nas citações bíblicas representam pontos que estou tentando enfatizar.
[4]
É logicamente possível que Paulo tenha batizado apenas Crispo e Gaio e então outra pessoa tenha batizado as casas.
Contudo, parece improvável que Paulo batizaria Crispo e então passaria os procedimentos a alguém outro. Ainda mais
importante, 1 Coríntios 1.16 implica que Paulo ordinariamente batizava casas, i.e., a referência ao pronome “outro”
(allos) é “casa” “Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro [allos,
referindo-se a casa].
[5]
David Kingdon, Children of Abraham: A Reformed Baptist View of Baptism, the Covenant, and Children (Sussex,
UK: Carey, 1973), p. 34, 35.
[6]
Fred Malone, A String of Pearls Unstrung: A Theological Journey Into Believers’ Baptism (Cape Coral, FL:
Founders Press, 1998), p. 7.
[7]
“Nações” (ethna) está no caso acusativo (objeto direto). Neste versículo, o verbo imperativo (modo) “discipular”
(mathateuo) é um verbo transitivo, visto que ele tem um objeto. “As” é masculino e “nações” é neutro. Esse uso é
chamado o uso ad sensum (de acordo com o uso geral). Veja, por exemplo, Mt 25.32: “e todas as nações (ethna, neutro)
serão reunidas em sua presença, e ele separará uns (autos, masculino) dos outros”.
[8]
Martinho Lutero, O manual do batismo traduzido para o alemão revisado, 1526 (Obras Selecionadas, volume 7, p.
218-219).
[9]
Colin Brown, “What Was John the Baptist Doing?”, Bulletin for Biblical Research 7 (1997): 37-50.
[10]
Pode haver uma pista para esse cruzar quando João e seus discípulos “olharam para Jesus enquanto ele andava”
(João 1.36, ASV). Essa é uma declaração estranha no contexto de ser um espectador de batismo. Mas, se o cenário do
batismo era um êxodo simbólico, então Jesus poderia estar andando com a multidão daqueles identificados com esse
novo êxodo..
[11]
João Calvino, A instituição da religião cristã, Tomo 2, 4:16:9 (São Paulo: Editora UNESP, 2009), p. 741.
[12]
O número dos batismos de rededicação estava por volta de 60.000, segundo uma amostra representativa, “The
Troubling Waters of Baptism”, Thomas Ascol, Founders Journal.
[13]
Outras objeções e resenhas críticas de livros anti-pedobatistas podem ser encontradas em meu livreto Covenantal
Infant Baptism: An Outlined Defense.
[14]
Por exemplo, o Catecismo maior, pergunta 166, questiona: “A quem deve ser administrado o batismo? R. O
batismo não deve ser administrado aos que estão fora da Igreja visível, e assim estranhos aso pactos da promessa,
enquanto não professarem a sua fé em Cristo e obediência a ele; porém as crianças, cujos pais, ou um só deles,
professarem fé em Cristo e obediência a ele, estão, quanto a isto, dentro do pacto e devem ser batizadas”.
[15]
“The Polemics of Infant Baptism” in The Works of Benjamin B. Warfield, Vol. IX (Grand Rapids: Baker, 1991
[1927]), p. 390.
[16]
Veja meu livro The Case for Covenant Communion (ed.) (Monroe, LA: Athanasius Press, 2006).
[17]
Para uma boa discussão sobre isso a partir de um ponto de vista contrário à pedocomunhão, veja a resposta a essa
objeção no livro Christian Baptism (Presbyterian & Reformed, 1980), de John Murray, p. 73-76.
[18]
“The Polemics of Infant Baptism” in The Works of Benjamin B. Warfield, Vol. IX (Grand Rapids: Baker, 1991
[1927]), p. 408.