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nesta argumentagio, mas o seu interesse especial pela quimica como guia para o estudo do Homem e do Universo distingue-os de outros filésofos renascentistas da natureza. A sua ampla utilizacao de equipamento quimico e a sua constante referéncia a analogias quimicas como meio de compreender a totalidade dos fenémenos naturais coloca-os de direito na tradigao hermético-alquimica. ‘A medicina dos paracelsistas era fortemente matizada pela quimica, mas ‘do pela matematica. Embora pudessem, cinicamente, prestar homenagem & certeza da prova matematica, o seu conceito de quantificagdo encontrava-se ‘mais proximo do misticismo neopitagérico ou das pesagens praticas. Abstrac- ses matematicas dos fendmenos naturais ou provas geomeétricas sugeriam a Suspeitava-se que a propria jstastendia, assim, a constituir uma aproxima- ‘0 matematizada da natureza inferior & do passado. As opiniges destes quimicos médicos eram expostas com convic¢o, mas to, Desacreditavam a confianga exc ina Antiguidade, Apelavam a uma nova medicina e a uma nova filoso- fia natural baseadas em observagdes ¢ experiéncias quimicamente orientadas. Exigiam reformas educstivas, de modo que o seu conceit tera pudesse ser ensinado nas universidades. Nest directo com a tradicao. No entanto, discutiam entre eles préprios ndo ‘menos veementemente. Debatiam questes como o lugar da matematica na formasio da nova filosofia, a verdade dos elementos, a realidade da analogia ‘macrocosmo-microcosmo ¢ 0 significado das emanacées astrais. Avangos especificos podem ser, evidentemente, creditados aos parace conceito de doensa ou 0 reconhecimento da importincia da quimica para a medicina (como base para a compreensio dos processos uma nova fonte de preparagao de remédios) servem como excelentes exem- plos. Além disso, existem poucas diividas de que alguns dos conceitos “modernas” do final do século XVII se enraizam nos conceitos “nao moder- 1n0s” dos iatroquimicos do século anterior. Contudo, foi essencialmente por definirem a visio de uma nova ciéncia baseada na observacao e interpretada através da quimica que participaram num debate que viria a influenciar a definigao de aspectos significativos da ciéncia moderna, 3s 3. O estudo da natureza num mundo em mudanga A partir da nossa breve discusséo anterior acerca dos paracelsistas je tornou evidente que ¢ enganador separar o estudo do inorginico e do orgi- rico no Renascimento. Para os aristotélicos, os platonistas ¢ 0 paracelsstas do século XVI, 0 mundo era encarado como estando vivo ~ e a todos os niveis, Nao € raro ler descrigées tebricas da impregnagao da terra por semen- tes astrais, esultando no desenvolvimento de metais em veios. Muitos consi- deravam este processo compardvel ao crescimento do feto humano. Argu- ‘mentava-se qu, Se 0s gr4os podiam ser colhidos no campo, também os metais em crescimento poderiam ser colhidos uma e outra vee no interior da terra [Estas crengas eram comuns aos mineiros da Europa Central até a0 infcio do século XX, Para os eruditos renascentistas, poucas duividas havia de que exis- tia no ar um espiito vital necessério a todos os seres vivos. Em Philosophical Key (c. 1619), Robert Fludd explicava a geracio esponténea com base neste spiritus mundi, a tentativa de isolar esta substancia tornar-se-ia parte impor- tante da sua vida. Embora muitos tivessem objectado a inclinagao mistica de Hludd, outros teriam aceitado neste ponto os seus pressupostos floséficos. Porém, dado este aviso, parece-nos ainda stil separar o trabalho do mineiro e do metalirgico do trabalho do botanico, do zo6logo € do bilogo. estes campos, assistimos a importantes mudangas que ocorreram nos sécu- Jos XVI e XVIL, com um conjunto de crengas medievais relativas a plantas € a animais dando lugar & critica textual humanista ~ ¢, posteriormente, & pro- cura alargada de nova informagio através de observagoes para substituir a antiga tradigdo e a critica lterdtia, Oreino animal © conhecimento medieval dos animais provinha, em larga medida, da Historia Natural, de Plinio 0 Velho, escrita no século I da nossa era. Apresen- tavam-se aqui, entre vérias outras informagGes, muitos factos ¢ folclore rela cionados com animais europeus, afticanos ¢ asidticos. Os habitos desses ani- ‘mais cram importantes para Plinio, por muito fabulosos que pudessem ser. Descreveu ainda a sua aparéncia, a utilizagio médica das suas partes e, em particular, quando foram pela primeira vez observados em Roma. As desc ‘00s de Plinio de todos os géneros de monstros foram repetidas nos bestirios ‘medievais ¢ transmitidas ao estudante renascentista. Contudo, os seus textos ‘do eram menos vulnerdveis & critica humanista do que os de outras autori- dades antigas. Ermolao Barbaro (1454-1493) encarou como um desafio ina € sete livtos da Histria Natural e produziu um trabalho Castigationes plinae (1492-1495), apontou erros artigo a artigo. Porém, ao estilo humanistatipico, praticamente nao se preo- cupou em acrescentar novas observagées de plantas e animais as descrigSes realizadas pelo erudito romano; em vez disso, procurou as antigas fontes das uais Plinio dependia, Assim, rejcitou a afirmagio de que os elefantes viviam entre duzentos a trezentos anos. © niimero correcto ~ e citava Aristoteles come fonte ~ ndo era trezentos anos, mas sim cento e vinte A tradigéo enciclopédica de Plinio manteve-se produtiva nos séculos XVI € XVI. Os escritos de Conrad Gesner (1516-1565) abarcavam todos os aspec- tos do conhecimento e a Bibliotheca universalis (1545) & a primeira grande Dibliografia anotada de livros impressos. Nao menos significativa ¢ a obra 15s dos pelas autoridades antigas e modernas, Sobre cada animal encontrava-se informagao relativa a habitat, fisiologia, doengas, habitos, utilidade e dieta. Gesner incluiu diversas novas observagies e dividiu o mundo animal em aves, peixes, insectos e outras categorias bisicas, muito & maneira de Arist6teles, Em cada uma destas divisbes, seguia uma ordem alfabética. Ainda mais ambi- ioso foi Ulisse Aldrovandi (1522-1605), que publicou trés volumes in-félio sobre aves ¢ insectos, pouco antes da sua morte. A partir das notas que dei- ou, 8 seus alunos publicaram outros onze volumes ~ e existem manuscritos adicionais ainda ndo editados. O contetido das obras de Gesner e de Aldrovandi abarcava tudo. Apesar Historiae animalium (5 vol de as descriges de monstros serem questiondveis, quase toda a informagio que pudesse ser encontrada era apresentada ao leitor. Um reflexo disto pode ser encontrado nos trabalhos de Edward Topsell Historie of Four-Footed Beasts (1607) e Historie of Serpeni 9 da epoca de Jaime I descrigées dos animais do mundo, em dois grandes volumes in-folio. Para Topsell,o interesse pelos animais é para o sacerdote, que precisava de identificar correctamente os fa Biblia, oF Esta informagéo nao era menos importante para 0 médico, por causa de ‘os animais servirem de alimento ao homem, das doengas resultantes do seu ‘veneno e do uso medicinal de partes dos mesmos. Topsell considerou que uma simples ordenagao alfabética seria sufi- ciente para os seus propésitos. Contudo, estabeleceu subdivisdes das classes principais. Assim, 0 monstruoso manticore, com cabea humana e uma tripla fiada de dentes, aparecia na secgio sobre hienas. O manticore ¢ apenas um de ‘muitos animais miticos incluidos. O unicérnio foi aceite devido a autoridade das Escrituras € muitos outros animais foram incluidos por serem referidos ‘em textos antigos (sitiros, esfinges ¢ dragoes). Um dos mais extraordindrios desses animaisfabulosos era a lAmia, que Topsell aceitou devido a uma refe- réncia na Biblia (como Lilith) (Figura 3.1.). Possuindo uma bela face femi- nina e “seios com formas muito generosas ¢ agradéveis”, estas bestas consti- tuiam uma ameaca séria 20s viajantes porque “quando avistam um homem, expdem 08 seus seios e, devido a sua beleza, atraem-no para conversar; ‘quando o tém 2o seu alcance, matam-no e devoram-no”, ward Topsell. De The Historie of Four-Footed ary, Chicago. "A verdadcra imagem da limi’ mndtes, 1607). Cortesa da Newber tha também conhecimento de animais desconhecidos dos Anti- inham sido redescobertos no século anterior. Incluiu, assim, ertestre do Bra- ide uma iguana ou outro lagarto), quer do Oriente. O principal indiano é o rinoceronte, “a segunda maravilha na natureza”, conhe- cido ndo apenas a partir de autores antigos, mas também da exibigio de um espécime em Lisboa (15. ‘Tendo aceite a Jamia, o manticore e os dra- ses quase sem he spsell considerou 0 rinoceronte um animal tio estranho que foi neces estou disposto a escrever algo que seja contririo a verdade, duvidoso, ou da rei para levar nenhum homem a amar e a admirar a Deus e as Suas obras, porque jo assegurar aos letores que nao lhes mentiria: “Nao minha propria invengio; a verdade é-me tao cara, que no m Deus nao necessita das mentiras dos homens. Imente interessant sto 05 estudos monogréficos que comecaram ‘ aparecer nos meados culo XVI. Os principais foram sobre peixes, aves ¢ animais marinhos escritos por Pierre Belon (1517-1564) ¢ Guillaume Ron- 507-1566). O primeiro percorreu o Préximo Oriente, reunindo infor- asi 1s “peixes”, Belon incluiu todas os animais que vive dentro de gua ou na sua proximidade, A inclusio dos ceticeos levou-o a representar o nascimento de uma orca, com a cria ainda ligada & placenta, permitindo, assim, incluir este grupo entre os mamiferos (Figura 3.2.). Nao menos importante € 0 i sobre anatomia comparada, no qual representou lado a lado os esque- letos de um homem ¢ de uma ave, chamando a atengao para semelhangas Também esquematizou o bico de uma ave “aquética” do verdade, um tucano), mas, a0 mesmo tempo, dispos-se @ strar serpentes voadoras do Sinai e um monstruoso peixe em forma de monge, mais tarde copiado por Gesner e por Rondel © trabalho de Rondelet foi inspirado, pelo menos parcialmente, pelo ddesejo de confirmar as observagées de Aristteles. Incluiu uma descrigao cui- adosa da vida marinha mediterrinica, mas também, tal como Belon, outros animais associados a0 mar, tais como tartarugas ¢ focas. Também ndo era avesso a representar monstros, como o peixe-monge ou 0 pei copiou de Gesner e de Belon. No final do século XVI foram publicadas ou finalizadas diversas monogra- fias, inha pedido um livro sobre caes a John Caius (1510-1573) e outro sobre insectos a Edward Wotton (1492-1555) e a Thomas Penny (1530-1588). (© primeiro apareceu em Londres, em 1570; 0 segundo resultou da reunido das ispo, que 3P Figura32. 0 nascimento de uma orca. De