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Adeus {Vergílio Ferreira}

Não lhe pedi que viesse. Pedi lhe só que às dez da noite, e pela primeira vez, a sua lembrança me
esperasse ao caminho. Cheguei cedo e sentei-me. Quando soasse a hora, eu queria senti-la ao pé de mim, não
bem no seu corpo, não bem nas suas palavras, mas apenas naquele sossego azul que tornava o mundo
perfeito. No momento combinado, eu havia de respirar o sonho de quando não sabia que era sonho.
Tudo isto está errado. Vejo-lhe daqui o erro fechado e exato como um cubo de pedra. Mas sei que lá
dentro não há erros de fora. Por isso, espero. Não lhe pediria que viesse. Também não tinha pedido à lua e a
lua veio, precisamente, quanto pensei que era bom haver lua. Não fiquei pois surpreendido, quando, à hora
marcada, no caminho que vai à fonte, Marta apareceu tão leve como a sua lembrança. Percebi então que as
mimosas recendiam através da noite sem medos. E que havia em roda pinheiros e veios de água e que eu
estava ali no meio de tudo.
Agora mais de perto de mim, ela trazia um cantado no braço. Mas não parara na fonte e subira o
carreiro até onde, do fundo da sua casa, devia despedir-se para sempre do meu destino. Quando saiu da
sombra e me viu, parou. A lua cobriu-a de noivado, a cauda do véu derramava-se por toda a terra que
tínhamos pisado juntos. Assim queda, em pé diante de mim, eu senti-a verdadeira como tudo o que era
verdade à nossa volta.
— Paulo!
O caminho da serra corre ali aos nossos pés. Olho a sua mancha branca, direita por entre os pinhais,
até ao alto da colina. Depois é tudo a vaguidão da noite, não o escuro de passos audazes, nem a lucidez
bastante dos passos exatos, mas apenas uma luz velada, boa para todos os caminhos de quem não escuta as
razões do caminhar.
Então ela pousou o cântaro e o restolho rangeu quando se sentou. Eu tinha a certeza de que ela iria
falar de qualquer coisa misteriosa e longínqua, qualquer coisa já morta, mas onde pudéssemos, dali donde
estávamos, ver-nos ainda vivos, sem pensamentos no depois em que agora podíamos pensar. Tinha a certeza
de que ela me levaria para um presente sem memória do passado, nem receio de um passado no futuro. Eu
estava ali de mãos abertas e olhos dóceis, encostado a um tronco de pinheiro. Então ela contou dos patos que
criara nessa Primavera, das manhãs altas de sol, do pão que vira semear. E eu gostei, naquela hora
harmoniosa, de que ela falasse nos patos, no pão e nas manhãs.
Agora, todo o campo e toda a serra abriam num místico perfume à lua e à criação. Não fugíamos
propriamente à dor do momento; apenas escavávamos com os dedos o chão da nossa angústia, para tocarmos
o que o vento cobrira. Depois ficamos de novo em silêncio. Tínhamos mil coisas a dizer, mas todas elas
ficavam tão perto, que podiam estrangular-nos, se quisessem. Era conveniente dizer delas não o corpo
rigoroso de unhas e dentes, não os pés de botas cardadas, mas apenas o bafo ligeiro ou os olhos que à
distância não fossem senão olhos de olhar. Por isso, ela me perguntou, quase assustada, quase supersticiosa
de turvar os rios e os lagos de lua, coalhados aos nossos pés:
— Paulo! Por que escolheste essa vida?
A aldeia estava no fundo, quieta, sem respirar, os cães uivavam das eiras para o céu. Ao longe, na
serra em frente, um comboio silvou pela noite fora. Ouvia-se perfeitamente o martelar das ferragens e o
apito. E eu pensei: “Vai chover. Amanhã ou depois chove. Quando se ouve o comboio chove sempre”.
— Por que escolheste essa vida?
Agora a pergunta era tão clara, que eu não achei uma sombra para me esconder. De outras vezes,
outra gente me perguntara o mesmo. E nunca soube responder. Falavam-me de fora, de outro mundo, com
uma linguagem diferente. E assim, as nossas idéias jogavam à cabra-cega. Eu próprio, quando queria
entender-me, espreitando-me donde me não suspeitasse, não tinha razões talhadas à medida do meu sonho.
Os princípios do senso de justiça talvez tivessem envelhecido e não pudessem acompanhar o meu anseio. Só
metido dentro de mim eu me todo e sem razões. Hei – de um dia tombar e arrefecer. Talvez então seja
possível a outros meterem em leis o que gelou do meu esforço. Até lá, é difícil. Qualquer coisa me está
forçando os limites, mesmo da regra que julgo dar-me. Um vento largo ergueu-se não sei donde e arrebentou-
me. Lembra-me bem como tudo aconteceu. Mas, quando penso no que eu fui, não me parece que tenha
acontecido nada de extraordinário. É como se eu tivesse já nascido para isso. Meu pai às vezes dizia: “hoje
vou ter sorte”; ou: “hoje vai-me acontecer uma desgraça”. O mais difícil era convencer-se de que seria assim.
Porque depois, durante o dia, só tinha de andar atento para achar a desgraça ou a sorte que profetizara. Mas
nunca fui capaz de saber que arranjos da vida o faziam acreditar assim na cor do seu destino diário. Havia sol
ou chuva no céu, nem sempre o comer estava pronto a horas, às vezes o filho mais novo chorava sem razões
adultas, ou qualquer coisa parecida. Mas é degradante pensar que fato desses decidisse das certezas do meu
pai.
— Como explicar-te porque parti?
Tenho pés para andar e olhos para ver. Posso sentar-me ou posso fechar os olhos e dizer que não há
sol nem estradas. Mas eu sei que há estradas e sol e que os olhos vêem e os pés andam. Por mais que eu
queira, quando sei por dentro que uma coisa está certa. E ainda que os outros saibam que está errada, isso
não me ajuda.
— Não me ajuda nada, Marta.
Mas como convencê-la? As razões são tanto o que somos, que só nascendo outra vez as poderemos
renegar. Talvez Marta o acreditasse enfim, porque, sentada, enlaçou as mãos à frente dos joelhos unidos e
calou-se de vez. Já não tínhamos que dizer, mas o eco das nossas vozes e o vapor quente da nossa presença
embaciavam-nos a vontade. Um fluído estranho dissolvia-nos, e não era fácil assim acharmos o que nos
tornava distintos. A lua vogava agora pela água alta do céu. Marta foi a primeira a erguer-se. Então eu ergui-
me também e apertei-lhe as mãos devagar:
— Adeus!
Caminhei pela vereda branca, lavado numa pureza desconhecida, anterior à minha humanidade, e
onde, no entanto, eu me sentia o todo inteiro. Quando cheguei ao topo da colina, olhei ainda atrás a ausência
de Marta. Mas, lentamente, surpreso e todavia calmo, fui descobrindo Marta em pessoa, em pé, no meio do
caminho, vestida de lua, esperando decerto como eu que toda a serra e toda a aldeia e tudo o que nos fora
prometido ficasse enfim tão deferente como quando ainda não tínhamos nascido.
O silêncio {Sophia de Mello Breyner Andressen}

Era complicado. Primeiro deitou os restos de comida no caixote do lixo. Depois passou os
pratos e os talheres por água corrente debaixo da torneira. Depois mergulhou-os numa bacia com
sabão e água quente e, com um esfregão, limpou tudo muito bem. Depois tornou a aquecer água e
deitou-se no lava-loiças com duas medidas de sonasol e de novo lavou os pratos, colheres, garfos e
facas. Em seguida passou a loiça e os talheres por água limpa e pô-los a escorrer na banca de pedra.
As suas mães tinham ficado ásperas, estava cansada de estar de pé e doíam-lhe um pouco as
costas. Mas sentia dentro de si uma grande limpeza como se em vez de, estar a lavar a loiça estivesse
a lavar a sua alma. A luz sem abat-jour da cozinha fazia brilhar os azulejos brancos. Lá fora, na doce
noite de Verão, um cipreste ondulava brandamente.
O pão estava no cesto, a roupa na gaveta, os copos no armário. O vaivém, a agitação e
tumulto do dia repousavam.
Havia um grande sossego. Tudo estava arrumado e o dia estava pronto. E Joana atravessou
devagar a sua casa.
Ia abrindo e fechando as portas, abrindo e fechando as luzes. Os quartos desapareciam no
escuro e surgiam do escuro na claridade.
Um doce silêncio pairava como uma sede estendida.
O silêncio desenhava as paredes, cobria as mesas, emoldurava os retratos. O silêncio
esculpia os volumes, recortava as linhas, aprofundava os espaços. Tudo era plástico e vibrante, denso
da própria realidade. O silêncio como um estremecer profundo percorria a casa.
As coisas conhecidas – o muro, a porta, o espelho – mostravam uma por uma a sua beleza e a
sua serenidade. E nas janelas abertas a noite de Junho mostrava o seu rosto constelado e suspenso.
Joana deu lentamente a volta à sala. Tocou o vidro, a cal, a madeira. Há muito já que cada
coisa tinha encontrado ali o seu lugar. E era como se esse lugar, como se a relação entre a mesa, o
espelho, a porta, fossem a expressão de uma ordem que ultrapassava a casa.
As coisas pareciam atentas. E a mulher que lavara a loiça procurava o centre dessa atenção.
Sempre o procurara, mas quem o pode captar?
O silêncio agora era maior. Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e
alisasse todas as suas pétalas.
E em roda deste silêncio os astros da noite exterior giravam lentamente e o seu movimento
imperceptível tomava em si a ordem e o silêncio da casa.
Com as mãos tocando a parede branca Joana respirou docemente. Era ali o seu reino, ali na
paz da contemplação nocturna. Da ordem e do silêncio do universo erguia-se uma infinita liberdade:
Ela respirava essa liberdade que era a lei da sua vida, o alimento do seu ser.
A paz que a cercava era aberta e transparente. A forma das cosias era uma grafia, uma
escrita. Uma escrita que ela não entendia mas reconhecia.
Atravessou a sala e debruçou-se na janela aberta em frente do puro instante azul da noite.
As estrelas brilhavam, íntimas e distantes. E pareceu-lhe que entre ela e a casa e as estrelas
fora estabelecida desde sempre uma aliança. Era como se o peso da sua consciência fosse necessário
ao equilíbrio das constelações, como se uma intensa unidade atravessasse o universo inteiro.
E ela habitava essa unidade, estava presente e viva na relação das coisas e a própria realidade
atenta a abrigava em sua imensa e aguda presença.
No ar, na cal, no vidro, tocava a sua felicidade e essa felicidade era no seu centro unidade.
Debruçou-se na janela e apoiou os braços na pedra fresca do parapeito. Uma leve brisa
agitou os ramos dos cedros. No rio, rouca, apitou uma sereia. Na torre o sino bateu duas badaladas.
Foi então que se ouviu o grito.
Um longo grito agudo, desmedido. Um grito que atravessava as paredes, as portas, a sala, os
ramos dos cedros.
Joana virou-se na janela. Houve uma pausa. Um pequeno momento imóvel, suspenso,
hesitante. Mas logo novos gritos se ergueram, trespassando a noite. Estavam a gritar na rua, do outro
lado da casa. Era uma voz de mulher. Uma voz nua, desgarrada, solitária. Uma voz que de grito em
grito se ia desformando, desfigurando até ficar transformada em uivo. Uivo rouco e cego. Depois a
voz enfraqueceu, baixou, tomou um ritmo de soluço, um tom de lamentação. Mas logo voltou a
crescer, com fúria, raiva, desespero, violência.
Na paz da noite, de cima a baixo, os gritos abriram uma grande fenda, uma ferida. E se assim
como a água começa a invadir o interior enxuto quando se abre um rombo no casco de um navio,
assim agora, pela fenda que os gritos tinham aberto, o terror, a desordem, a divisão, o pânico
penetravam no interior da casa, do mundo, da noite.
Joana afastou-se da janela que dava para o jardim, atravessou a sala, o corredor e o quarto e,
no outro lado da casa, debruçou-se na janela que dava para a rua.
A mulher via-se mal, agarrada à parede, na meia-luz, do outro lado do passeio. Os seus gritos
nus, próximos, desmedidos enchiam a penumbra. Na sua voz a terra e a vida tinham despido os seus
véus, o seu pudor e mostravam o seu abismo, revelavam a sua desordem, a sua treva. De uma ponta à
outra da rua os gritos corriam batendo contra as portas fechadas.
Era uma rua estreita, apertada entre edifícios sem cor, pesados e tristes. Ali a noite era
cinzenta.
Cães vadios farejavam o chão dos passeios e rebuscavam os caixotes do lixo tentando
agarrar sobre as tampas os restos, as cascas, o pescoço da galinha degolada.
O edifício enorme da prisão enchia todo o lado esquerdo da rua com as altas paredes
cortadas por pequenas janelas de grades. A essa parede estava encostada a mulher. Às vezes erguia a
cara e então via-se o rosto torcido e desfigurado pelo grito. Ao seu lado desenhava-se o vulto de um
homem. Era tarde. As portas e janelas estavam fechadas sobre gente adormecida e na rua não
passava mais ninguém. Só de longe a longe se ouvia um chiar de carros na viragem das esquinas.
O homem procurava arrastar a mulher e, quando os gritos diminuíam um instante,
implorava-lhe que se calasse e pedia:
— Vamos embora.
Mas ela não o ouvia. Gritava como se estivesse só no mundo, como se tivesse ultrapassado
toda a companhia e toda a razão e tivesse encontrado a pura solidão. Gritava contra as paredes,
contra as pedras, contra a sombra da noite. Erguia a sua voz como se a arrancasse do chão, como se o
seu desespero e a sua dor brotassem do próprio chão que a suportava. Erguia a sua voz como se
quisesse atingir com ela os confins do universo e, aí, tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém,
a responder. Gritava contra o silêncio.
Às vezes calava-se um momento e inclinava a cabeça para trás como quem espera ouvir uma
resposta.
Então, de novo, o homem implorava:
— Cala-te, cala-te. Vamos embora daqui.
Mas ela recomeçava a gritar e batia com os punhos na parede da prisão como se quisesse
forçar a pedra a responder. Gritava como se quisesse atingir um ausente, acordar um adormecido,
abalar uma consciência impassível e, alheada, tocar o coração de um morto.
Através das paredes, das portas, das ruas, da cidade, gritava para o fundo do universo, para o
fundo do espaço, para o fundo da ocultação da noite, para o fundo do silêncio.
De repente calou-se, curvou a cabeça, tapou o rosto com as mãos. Então o homem cobriu-
lhe os cabelos com o xaile, afastou-a da parede, passou-lhe um braço em roda dos ombros, e,
devagar, juntos, desceram a rua e viraram a esquina.
Durante algum tempo flutuou no ar pesado da rua um eco de soluços e de passos que se
afastavam e diminuíam. Depois voltou o silêncio.
Um silêncio opaco e sinistro onde se ouvia o esgravatar dos cães.
Joana voltou para a sala. Tudo agora, desde o fogo da estrela até ao brilho polido da mesa, se
tinha tornado desconhecido. Tudo se tinha tornado acidente absurdo, sem ligação, sem reino. As
coisas não eram dela, nem eram ela, nem estavam com ela. Tudo se tornara alheio, tudo se tornara
ruína irreconhecível.
E, tocando sem os sentir o vidro, a madeira, a cal, Joana atravessou como estrangeira a sua
casa.

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