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Direito Civil II

O presente material constitui resumo elaborado por equipe de monitores a partir da aula
ministrada pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros
doutrinários e na jurisprudência dos Tribunais.

Sumário

1. Introdução .............................................................................................................. 2
2. Teoria Geral das Obrigações ................................................................................... 2
2.1 Estruturação do Direito das Obrigações (Contemporaneamente) ....................... 2
2.1.1 Obrigações Civis.............................................................................................. 3
2.1.2 Obrigações Empresariais ................................................................................ 4
2.1.3 Obrigações Consumeristas ............................................................................. 6
2.2 Relação Jurídica Obrigacional ............................................................................... 7
2.3 Elementos da Obrigação ................................................................................. 10
2.3.1 Elementos Subjetivos ................................................................................... 10
2.3.2 Elementos Objetivos.................................................................................. 18
2.3.3 Elementos Abstratos ................................................................................. 19

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1. Introdução
Trata-se de um módulo em que será trabalhado muito do que se discutiu no final da
Parte Geral, a partir do estudo da prescrição e da fraude contra credores. Cumpre observar
que o instituto da prescrição recai preponderantemente sobre relações obrigacionais.
Ademais, o Direito das obrigações é o primeiro livro da Parte Especial do Código Civil
de 2002.

2. Teoria Geral das Obrigações

É o primeiro livro da Parte Especial do Código Civil de 2002 e começa no art. 233 e vai
até o 420.
Quando a questão versar sobre a teoria geral das obrigações, nós vamos observar
que o elemento subjetivo culpa vai aparecer com frequência. Isto porque, a
responsabilidade civil na Teoria Geral das Obrigações foi mantida nos mesmos moldes do
Código Anterior (Código Civil de 1916), isto é, a responsabilidade foi mantida subjetiva.
Sabemos que houve uma grande expansão da responsabilidade objetiva no Direito
Brasileiro, mas, em se tratando de teoria geral das obrigações, se manteve a fidelidade à
ideia da obrigação ser geradora de responsabilidade na medida da inexecução culposa,
inadimplemento culposo por parte do devedor.
É salutar que tenhamos isso em mente para que não tomemos conclusões que nos
atrapalhe no raciocínio do que trabalharemos a partir de agora.

2.1 Estruturação do Direito das Obrigações (Contemporaneamente)

O campo das obrigações pode ser dividido inicialmente quanto aos sujeitos. Falamos
de obrigações privadas e não de obrigações relacionadas ao Estado.
Quanto ao sujeito, as obrigações podem ser divididas em:
a) Civil;
b) Empresariais;
c) Consumeristas.

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Antes do Código Civil de 2002, cada uma dessas obrigações tinha um diploma legal
que as regulava. As civis pelo Código Civil de 1916. As empresariais pelo Código Comercial de
1850. E as consumeristas pelo Código de Defesa do Consumidor.
Obs.: As obrigações tributárias estão relacionadas ao Estado, por isso, são relações
com natureza de direito público. Já as relações trabalhistas, em razão de sua especificidade,
a doutrina deixa de fora das relações privadas elencadas acima.
Com o Código Civil de 2002, as obrigações civis e empresariais passaram a ser regidas
pelo Código Civil de 2002. E as consumeristas pelo CDC, com a aplicação do CC de 2002 de
forma subsidiária/residual, onde houver lacuna a ser preenchida.
Entretanto, este é um primeiro passo para a resolução de questões de prova de
concursos públicos e da vida prática.
Cumpre observar que há grande probabilidade que as relações empresariais voltem a
ser reguladas por um código à parte. Há 2 projetos de Código Comercial em tramitação.
Ademais, costuma-se a cometer equívocos dando soluções inapropriadas para
situações obrigacionais que seriam em tese semelhantes. Inadimplemento de uma
obrigação, por exemplo, é semelhante em qualquer uma das três, mas as consequências
podem não ser exatamente as mesmas. A responsabilidade envolvendo um acidente com
um produto fabricado pode ocorrer tanto no campo consumerista, quanto no comercial ou
civil, mas as soluções disso serão diferenciadas, dependendo do tipo de relação que se tenha
constituído.

2.1.1 Obrigações Civis

As obrigações civis devem ser entendidas como obrigações entre particulares não
profissionais. É a obrigação mais comum na nossa vida cotidiana nas nossas relações
interpessoais, quando, por exemplo, compramos um imóvel usado de um outro proprietário
ou quando celebramos um contrato de locação de um imóvel ou, ainda, quando vendemos
um carro a alguma comprador interessado. São relações ligadas à vida pessoal dos
envolvidos, sem caráter de profissionalismo ou habitualidade. Não se trata de uma atividade
econômica normalmente desenvolvida, mas uma atividade eventualmente praticada por
pessoas não profissionais.
Há, eventualmente, dentro desse contexto uma presunção de paridade, ou seja,
presume-se que esses particulares estão em igualdade de condições. E que eles tenham,
portanto, o mesmo de liberdade e autonomia na manifestação das suas vontades. Tanto
que, quando analisamos os eventuais defeitos dos negócios jurídicos geradores dessas
obrigações, devemos ter cuidado e observar se o desequilíbrio existiu. Deve-se provar que

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houve prejuízo, que o indivíduo estava em uma condição vulnerável por coação; ou pelo
dolo da outa parte; ou condição de vulnerabilidade; ou pela inexperiência. Deve ser provado
que o indivíduo estava em uma condição desfavorável em relação ao outro. Caso contrário,
o negócio jurídico será preservado, pois houve manifestação autônoma de vontade e a
obrigação deverá ser adimplida, assegurando a realização do que a outra parte confiou.
Teremos um tratamento que não será protetor de uma das partes em detrimento da
outra, salvo em circunstâncias concretamente demonstradas. Por outro lado, sabemos que o
dever de diligência dessas pessoas é um pouco menos, pois não são profissionais.
Circunstâncias como inexperiência e erro serão facilmente aceitas, principalmente se as
informações não forem bem prestadas. A inexperiência implica em não conhecer o mercado
e não saber que determinado valor não é o valor corrente. O valor assumido é
manifestamente desproporcional.
A falta de domínio de uma das partes em relação ao valor de mercado pode fazer
com que ela aceite condições manifestamente desproporcionais, como ocorre na lesão.
Então, admite-se que isso aconteça, mas não significa nulificar o ato ou dar uma proteção
primordial exagerada, presumida, principiológica a uma das partes. A priori, o professor ver
os particulares como iguais na relação civil.

2.1.2 Obrigações Empresariais

Nas obrigações empresariais, trabalhamos com obrigações entre profissionais,


negócios jurídicos firmados entre profissionais. É importante entendermos a expressão
“profissionais” não como um profissional liberal, com diploma. Os profissionais são aqueles
que desenvolvem a atividade econômica com habitualidade. E não devemos entender o
termo “empresarial” no sentido estrito de se estar registrado como empresário. A pessoa
pode ser uma sociedade não empresária e desenvolver com habitualidade a atividade
profissional. Um contrato celebrado na atividade advocatícia, por exemplo, não será um
contrato realizado entre não profissionais.
Nas relações empresariais também se presume a paridade. E a paridade não advém
de ter os dois a mesma receita, o mesmo volume de faturamento, a paridade vem da
habitualidade e do profissionalismo em que as partes realizam a atividade econômica.
No caso das relações empresariais, a presunção de paridade será mais rigorosa do
que nas relações civis, porque se, na civil, a falta de profissionalismo permite tratar uma das
partes como inexperiente ou aceitar que ela erre mais facilmente os elementos do negócio
porque não domina certas informações. Já nas obrigações empresariais, a presunção de

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paridade é mais rigorosa porque vislumbramos o profissionalismo e a assunção natural de


riscos do empreendimento. O Enunciados 25 e 281 da I Jornada de Direito Comercial do CJF
trabalha nesse sentido, reconhecendo a presunção de maior paridade entre os empresários
e o seu profissionalismo. In verbis:

Enunciado 25. A revisão do contrato por onerosidade excessiva fundada no Código Civil
deve levar em conta a natureza do objeto do contrato. Nas relações empresariais, deve-
se presumir a sofisticação dos contratantes e observar a alocação de riscos por eles
acordada.
Enunciados 28. Em razão do profissionalismo com que os empresários devem exercer
sua atividade, os contratos empresariais não podem ser anulados pelo vício de lesão
fundada na inexperiência.

Não faz sentido em uma relação interempresarial em que se esteja negociando aquilo
que é o objeto comum/habitual das partes e uma delas alegue inexperiência para suscitar a
existência de lesão. É um contrassenso.
Exemplo: Se João é um vendedor de automóveis e tem uma agência de veículos e
alegar inexperiência para ter admitido que celebrou um negócio em valor desproporcional
não faz sentido. João pode ter sido negligente, incauto ou assumido um risco maior, mas a
alegação de inexperiência só se se justificaria em um serviço ou operação da qual João não
domino. Eventualmente, João pode ter a demonstração de uma vulnerabilidade.
A demonstração da vulnerabilidade nas relações empresariais será muito mais
necessária do que nas reações civis, sob pena de se tratar o empreendedor de maneia
paternalista, isto é, de não assumir os riscos da atividade empresarial.
A questão é que tanto as relações civis quanto as empresariais se submetem ao
mesmo regime legal. São os mesmos dispositivos legais (do art. 233 ao art. 480 do C.C. de
2002).
Caberá ao intérprete apreciar os dispositivos com maior rigor ou menor rigor.
Admitir-se-á mais falhas de vontade nas relações civis do que nas empresariais. Nas
empresariais, haverá um rigor maior.
Os juristas, doutrinadores da área do Direito Comercial, não estão satisfeitos com
essa unicidade porque as interpretações não levado em consideração as distinções das

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Nota do Monitor: O professor cita o Enunciado 26 da I Jornada de Direito Comercial do CJF. Todavia,
o conteúdo do enunciado 26 não condiz com os comentários tecidos pelo professor. Os Enunciados 25 e 28 são
os que mais condizem com o assunto abordado na aula.

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relações civis e empresariais, dando tratamento igualitário, o que tem gerado certa
desconfiança no meio empresarial. Tanto que há projetos de separação.

2.1.3 Obrigações Consumeristas

As obrigações consumeristas são muito diferentes das relações empresariais e civis.


Nela, temos o profissional (fornecedor) e o consumidor. O fornecedor é aquele que fornece
com habitualidade no mercado de consumo visando lucro.
Como nas relações consumeristas a disparidade é evidente, teremos uma
vulnerabilidade principiológica. Diferentemente das relações civis e empresariais, em que se
presumia a paridade, nas relações consumeristas se presume a vulnerabilidade.
Ademais, é vedado por princípio normativo interpretar o consumidor como igual.
Não podemos tratar o consumidor como paritário ao profissional. Trata-se de um princípio
normativo contido no art. 4º, inciso I, do CDC:

Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento
das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a
proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem
como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes
princípios: (Redação dada pela Lei nº 9.008, de 21.3.1995)
I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo;

Esse princípio normativo tem esteio em direito fundamental da constituição, no art.


5º, inciso XXXII da CRFB/1988:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor;

É dever do Estado promover a defesa do consumidor. O reconhecimento da


vulnerabilidade do consumidor é inderrogável pela vontade das partes. Trata-se de um
direito irrenunciável. Tanto que, nas relações de consumo, a desproporção manifesta é

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causa de nulidade. Não há necessidade de se investigar a inexperiência, a premente


necessidade. Só deve ser verificada a disparidade de valores. Existindo a manifesta
desproporção, a obrigação será nula.
Por outro lado, a questão do erro é vista de forma diferente, porque o consumidor
erra se as informações não são perfeitas. Na verdade, é uma consequência do dever de
informar. Todo o ônus da informação é jogado “nos ombros do fornecedor”.
Quem fabrica e vende automóveis corriqueiramente, por exemplo, tem o dever de
conhecer o que está vendendo e informar aos adquirentes do produto.
Cumpre salientar que, ainda que as relações civis e empresariais estejam sob o
mesmo julgo normativo, são estruturas obrigacionais diversas que demandam uma aplicação
diferenciada.
Se em um concurso público, por exemplo, dermos uma solução consumerista a uma
relação empresarial, certamente erraremos. Ou se o que foi apresentado é uma relação civil,
e distanciamos da lógica civil da anulabilidade e aplico a lógica consumerista da nulidade
absoluta, certamente erraremos. E há institutos que levam a essa confusão. A Lesão é um
instituto que têm nos dois sistemas (Código Civil e Código de Defesa do Consumidor), assim
como a revisão contratual por onerosidade excessiva. A garantia pelos vícios da coisa
também há nos dois sistemas. Contudo, são sistemas distintos que partem de pressupostos
diferentes.

2.2 Relação Jurídica Obrigacional

Obrigação

Credor ----------------------------------- Prestação ------------------------------------------ Devedor

Direito Subjetivo Dar, Fazer e Não Fazer Dever Jurídico


(Crédito) (Débito)

Pretensão Responsabilidade Civil

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Trata-se de uma relação jurídica comum a todas relações obrigacionais (civis,


empresariais e consumeristas).
Em sentido estrito, obrigação é o vínculo jurídico que une o credor ao devedor em
torno de uma prestação de dar, fazer ou não fazer, de conteúdo necessariamente
patrimonial. Se o dever não tiver conteúdo patrimonial, não é obrigação.
Dentro dessa estrutura, atribui-se ao credor um direito subjetivo, denominado
“crédito”. E ao devedor jurídico originário, denominado “débito”, ou como na doutrina
alemã Schuld, ou como extraído das Pandectas Romanas debitum.
Esse dever originário assumido pelo devedor consiste sempre numa conduta pessoal
que o devedor realizará em proveito do credor. Prestação é, portanto, um dever de conduta.
Deve-se dar, fazer ou não fazer uma coisa ou um fato que vai trazer para o credor uma
vantagem econômica já inicialmente líquida ou ilíquida.
Essa vantagem econômica líquida ou ilíquida é consequência. Então, essa
consequência será mediata. Imediatamente é fazer, dar ou não fazer. A vantagem
econômica vem depois como uma consequência dessa conduta.
Em um primeiro momento, se o devedor realiza esse dever de prestação, ele então
executou a obrigação da forma como estava programada. Se a prestação da execução foi
voluntária, o direito do credor terá sido satisfeito e consequentemente a obrigação será
extinta. É a extinção normal da obrigação.
Se eventualmente a execução voluntária não ocorrer, dar-se-á no inadimplemento. O
direito subjetivo do credor terá sido violado e dessa violação surgirá a pretensão. Essa
pretensão é força coercitiva/ exigibilidade atribuída àquele direito subjetivo, impondo-se ao
inadimplente uma responsabilidade civil.
Se essa responsabilidade civil nasce do inadimplemento é chamada de contratual,
mesmo que não se esteja diante exatamente de um contrato. Difere da responsabilidade
extracontratual ou aquiliana, pois não há débito, ela nas do ilícito, de uma violação de um
dever de conduta.
Pelo art. 391, a responsabilidade contratual recairá sobre todos os bens do devedor,
isto é, todos aqueles suscetíveis de penhora:

Art. 391. Pelo inadimplemento das obrigações respondem todos os bens do devedor.

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E, na sequência, o art. 392 reforça a tese de que a responsabilidade é contratual:

Art. 392. Nos contratos benéficos, responde por simples culpa o contratante, a quem o
contrato aproveite, e por dolo aquele a quem não favoreça. Nos contratos onerosos,
responde cada uma das partes por culpa, salvo as exceções previstas em lei.

Se por outro lado, o contrato é favorável ou benéfico ao credor, haverá um maior


rigor sobre a conduta do credor e a responsabilidade daquele que extrai o proveito abrange
todo tipo de culpa (culpa leve, culpa grave, dolo e até culpa levíssima).
Se, todavia, o contrato não traz proveito, a responsabilidade á atenuada apenas para
o caso de má-fé.
 Elementos da relação jurídica obrigacional:
- Vínculo: obrigação.
- Sujeito Ativo: credor.
- Sujeito Passivo: devedor.
- Objeto: prestação.

 O que não está na relação jurídica obrigacional acima? E por que não está?
- O dever de boa-fé objetiva;
- A análise dos deveres que as partes devem ter em relação aos valores
metaindividuais consagrados constitucionalmente e preencherão o conceito de função social
do contrato.
- Questões atinentes à análise do equilíbrio econômico do contrato, que a obrigação
se mantenha equitativa ao longo de toda a duração do vínculo.
Tais fatores não se encontram na estrutura acima, pois tal estrutura reflete a visão
tradicional da relação jurídica obrigacional.
 Visão Tradicionalista (Pessoalista – Savigny) – a obrigação aparece
estaticamente como vínculo jurídico que une credor e devedor em torno de
prestações pessoais de conteúdo patrimonial, estático (inalterável) e abstrato
– pacta sunt servanda. Não se analisa as peculiaridades do caso concreto.
 Visão Atual (Dinâmica) – obrigação como um processo dinâmico e
sequenciado de atos que objetivam o adimplemento e não a mera execução.
E que devem ser interpretados considerando a situação concreta.

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Se na visão tradicional adimplemento era igual a execução e inadimplemento era


igual a inexecução. No sistema contemporâneo, o adimplemento é a satisfação das legítimas
expectativas da parte credora e o inadimplemento passam a ser a frustação destas legítimas
expectativas.
Para alcançar o adimplemento agora não basta que se cumpra o dever de prestação,
deve-se cumprir os deveres anexos imputados/exigidos/impostos pela cláusula geral de boa-
fé.
Trata-se de permitir ao credor formar expectativas adequadas à qualidade, à
utilidade da prestação que ele vai receber.
Passa-se a ter que adotar um comportamento leal e coerente à relação, pois pode ser
que o modo de execução originariamente programado para a execução de uma relação
tenha perdido o sentido no curso dessa mesma relação por conta de um comportamento
reiterado. Um comportamento reiterado pode levar a uma situação de desaparecimento
(supressio) ou pode ter levado a uma situação de surgimento (surrectio). E aquela situação
originária não é satisfatória.
A adoção do pacta sut servanda literal já não significa mais o adimplemento, pois as
expectativas podem ter sido frustradas. O negócio jurídico não deve mais ser analisado
abstratamente, mas concretamente, para se chegar à conclusão de que se houve ou não o
adimplemento.
Isso muda a lógica do inadimplemento, porque inadimplir deixa de ser apenas
executar. Inadimplir passar a ser inclusive executar de forma insatisfatória, frustrante. Isso
vai fazer surgir formas novas de inadimplemento, como, por exemplo, a violação positiva do
contrato, ou seja, o devedor pode inadimplir mesmo pagando. Ou ainda figuras como o
inadimplemento substancial e o inadimplemento mínimo. Então, são situações que exigirão
uma interpretação aprofundada.
Como isso cairá nos concursos do MPF e TRFs? Quando a questão tratar
genericamente de obrigações, tende a abordar a visão tradicional- estrutural, como é
literalmente regulada no Código Civil de 2002. As questões sobre contratos, tenderão a
tratar a matéria de forma dinâmica sob o filtro dos princípios.

2.3 Elementos da Obrigação

2.3.1 Elementos Subjetivos

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Credor e Devedor – determinabilidade (a relação obrigacional envolve sujeitos


determinados ou, no máximo, determináveis, diferentes das relações atinentes aos direitos
da personalidade e aos direitos reais). As partes devem ser identificadas para que a relação
jurídica obrigacional seja desenvolvida de forma viável, porque o credor só tem direito de
exigir a prestação de quem lhe deve, não é oponível contra todos. A lógica é que os efeitos
da relação jurídica obrigacional sejam prioritariamente interpartes. O credor só pode opor
seu direito a priori ao devedor, excepcionalmente a terceiros.
A pessoalidade da relação jurídica obrigacional não significa que toda relação
obrigacional seja personalíssima. O caráter personalíssimo do direito obrigacional era
comumente vislumbrado no Direito Romano. Hoje, esse caráter personalíssimo pode existir,
mas deixou de ser a regra geral. O caráter pessoal, todavia, continua.
Qual a diferença? Em sendo pessoal mas não personalíssimo, admite-se a
transformação na composição da relação obrigacional durante a sua existência, durante o
seu curso de existência. Admite-se que a posição do credor ou do devedor seja modificada
com o ingresso de outra pessoa. O legislador vai denominar tal situação de “transmissão das
obrigações”. Se fossem personalíssimas a transmissibilidade não se faria possível. É o caso
do usufruto, pois é um direito constituído em que a titularidade é imutável. Nas obrigações
de um modo geral, admite-se a transmissão das obrigações sem que a relação obrigacional
tenha fim. Tira-se o credor originário que será chamado “cedente” e coloca-se um novo
credor que será denominado de “cessionário”. Desta forma, teremos a figura da sessão de
crédito nos art. 286 e seguintes do Código Civil.

Art. 286. O credor pode ceder o seu crédito, se a isso não se opuser a natureza da
obrigação, a lei, ou a convenção com o devedor; a cláusula proibitiva da cessão não
poderá ser oposta ao cessionário de boa-fé, se não constar do instrumento da
obrigação.
Art. 287. Salvo disposição em contrário, na cessão de um crédito abrangem-se todos os
seus acessórios.
Art. 288. É ineficaz, em relação a terceiros, a transmissão de um crédito, se não celebrar-
se mediante instrumento público, ou instrumento particular revestido das solenidades
do § 1o do art. 654.
Art. 289. O cessionário de crédito hipotecário tem o direito de fazer averbar a cessão no
registro do imóvel.
Art. 290. A cessão do crédito não tem eficácia em relação ao devedor, senão quando a
este notificada; mas por notificado se tem o devedor que, em escrito público ou
particular, se declarou ciente da cessão feita.
Art. 291. Ocorrendo várias cessões do mesmo crédito, prevalece a que se completar
com a tradição do título do crédito cedido.

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Art. 292. Fica desobrigado o devedor que, antes de ter conhecimento da cessão, paga ao
credor primitivo, ou que, no caso de mais de uma cessão notificada, paga ao cessionário
que lhe apresenta, com o título de cessão, o da obrigação cedida; quando o crédito
constar de escritura pública, prevalecerá a prioridade da notificação.
Art. 293. Independentemente do conhecimento da cessão pelo devedor, pode o
cessionário exercer os atos conservatórios do direito cedido.
Art. 294. O devedor pode opor ao cessionário as exceções que lhe competirem, bem
como as que, no momento em que veio a ter conhecimento da cessão, tinha contra o
cedente.
Art. 295. Na cessão por título oneroso, o cedente, ainda que não se responsabilize, fica
responsável ao cessionário pela existência do crédito ao tempo em que lhe cedeu; a
mesma responsabilidade lhe cabe nas cessões por título gratuito, se tiver procedido de
má-fé.
Art. 296. Salvo estipulação em contrário, o cedente não responde pela solvência do
devedor.
Art. 297. O cedente, responsável ao cessionário pela solvência do devedor, não
responde por mais do que daquele recebeu, com os respectivos juros; mas tem de
ressarcir-lhe as despesas da cessão e as que o cessionário houver feito com a cobrança.
Art. 298. O crédito, uma vez penhorado, não pode mais ser transferido pelo credor que
tiver conhecimento da penhora; mas o devedor que o pagar, não tendo notificação dela,
fica exonerado, subsistindo somente contra o credor os direitos de terceiro.

A cessão de crédito significa que o credor pode voluntariamente transmitir sua


posição ativa para outra pessoa que ocupe o lugar de credor.
Em que isto prejudica o devedor? Na maioria das vezes não prejudicará o devedor,
razão pela qual o devedor não precisa concordar. A necessidade de anuência do devedor é
exceção. A cláusula que vede a cessão se a anuência do devedor não será oponível ao
cessionário de boa-fé se não constar do título da obrigação, conforme a parte final do art.
286 do C.C.
Todavia, vale lembra o ditado “quem paga mal, paga duas vezes”. O devedor que não
participou da cessão de crédito vê como pessoa determinada a receber a prestação o credor
antigo (cedente). E o devedor fizer o pagamento ao cedente e este nada disser, o pagamento
será considerado válido e eficaz ainda que feito a quem não era mais o credor. Tratar-se-á de
pagamento de boa-fé feito a credor putativo. Para que se possa exigir do devedor que se
pague ao novo credor, deve-se notificá-lo. A notificação do devedor ocorre no plano da
eficácia e não no plano da validade, porque a anuência do devedor é exceção.

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A cessão é uma forma de transmissão entre vivos. E poderá ser gratuita ou onerosa.
Se for gratuita se assemelha às regras da doação que serão aplicadas à cessão no que
couber. Se for onerosa, se assemelha às regras da compra e venda que serão aplicadas à
cessão no que couber.
Cumpre anotar que a cessão de crédito é um contrato.
Já no que diz respeito à transmissão da posição passiva é mais complicada. A
transmissão da posição passiva significa sair o devedor originário e ingressar em seu lugar
um novo devedor. Ocorre que há toda uma confiança que o credor depositou na solvência
do devedor. E a saída do devedor originário para o ingresso de uma outra pessoa significa a
mudança desse estado de solvência. Sairá alguém que tem um patrimônio X e entrará
alguém com um patrimônio Y que poderá ser maior, menor ou igual. As condições de
confiabilidade e o histórico de adimplência ou inadimplência podem ser outros.
Então, se para mudar o credor não é necessária a anuência do devedor (regra geral).
Para mudar o devedor, é obrigatoriamente necessária a anuência do credor. A cessão e
débito, denominada pelo legislador de “assunção de dívida”, que será regida pelo Código
Civil nos art. 299 a 303, não era prevista no C.C. de 196, embora se admitisse a prática como
contrato atípico. Além disso, exigirá a participação do credor no plano da validade. A
validade da cessão de débito ou “assunção de dívida” requer a anuência do credor.

Art. 299. É facultado a terceiro assumir a obrigação do devedor, com o consentimento


expresso do credor, ficando exonerado o devedor primitivo, salvo se aquele, ao tempo
da assunção, era insolvente e o credor o ignorava.
Parágrafo único. Qualquer das partes pode assinar prazo ao credor para que consinta na
assunção da dívida, interpretando-se o seu silêncio como recusa.
Art. 300. Salvo assentimento expresso do devedor primitivo, consideram-se extintas, a
partir da assunção da dívida, as garantias especiais por ele originariamente dadas ao
credor.
Art. 301. Se a substituição do devedor vier a ser anulada, restaura-se o débito, com
todas as suas garantias, salvo as garantias prestadas por terceiros, exceto se este
conhecia o vício que inquinava a obrigação.
Art. 302. O novo devedor não pode opor ao credor as exceções pessoais que competiam
ao devedor primitivo.
Art. 303. O adquirente de imóvel hipotecado pode tomar a seu cargo o pagamento do
crédito garantido; se o credor, notificado, não impugnar em trinta dias a transferência
do débito, entender-se-á dado o assentimento.

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Se o credor ignorava a insolvência do novo devedor, aceitando o novo devedor em


erro substancial, poderá pleitear a anulação e consequentemente trazer de volta à relação
obrigacional o credor primitivo, podendo importar a ele a responsabilidade. Do contrário
estará esse devedor primitivo exonerado.
A cessão de débito ou “assunção de dívida” pode ocorrer sem a anuência do devedor
primitivo?
Aplica-se por analogia ao instituto da “assunção de dívida” uma figura da Novação:

Art. 362. A novação por substituição do devedor pode ser efetuada independentemente
de consentimento deste.

Desta forma, não é necessário o consentimento do devedor na “assunção de dívida”.


O nome dessa aplicação de uma regra da Novação na “assunção de dívida” é assunção de
dívida por expromissão, E é a aplicação por analogia do art. 362 do C.C. de 2002 que trata da
Novação por expromissão.
Exemplo: o professor comprou um imóvel que está hipotecado. A dívida contraída
não é do professor é do vendedor. Todavia, ao comprar o professor está levando em
consideração a dívida e combina com o vendedor que vai pagar-lhe um preço e assumir a
obrigação. Contudo, em um primeiro momento observa-se que o professor não convidou o
credor a participar da negociação. Posteriormente, o professor procura o credor
pessoalmente e lhe informar que, por ter adquirido imóvel tem o interesse em assumir a
dívida. Sem objeções maiores, o credor aceita o professor como novo devedor. Essa
assunção pode acontece independentemente da presença do devedor primitivo ao ato.
O credor não poderá reclamar a responsabilidade futura do devedor primitivo se o
devedor primitivo não participou do ato indicando ou anuindo com o ato.
Há um outo tipo de assunção de dívida que é a “assunção de dívida por delegação”.
Essa é a mais comum e, nela, a relação negocial é plurilateral, porque o antigo devedor
indica o novo devedor com a concordância do credor. Nesse caso,3 vontades estão
presentes na formação do negócio. É possível, neste caso, o que prevê o art. 300 do C.C.:

Art. 300. Salvo assentimento expresso do devedor primitivo, consideram-se extintas, a


partir da assunção da dívida, as garantias especiais por ele originariamente dadas ao
credor.

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Pode ocorrer de o devedor primitivo expressamente manter as garantias, apesar do


ingresso de um novo devedor. O devedor primitivo sai da relação obrigacional como devedor
e entre como garantidor.
*Questões frequentes em concursos envolvendo cessão de crédito:
- Responsabilidade do cedente em relação ao cessionário. Qual é a responsabilidade
que o cedente terá ante a frustração do cessionário? O cedente era o credor originário e
transmitiu para o cessionário (atual credor) a posição na relação obrigacional. Nessa situação
duas questões pode surgir:
1) A existência e a validade do crédito cedido podem ser questionadas depois. Caso
os créditos sejam nulos ou inexistentes, o cessionário pode responsabilizar o cedente por
isso? Tais circunstâncias são equiparadas a evicção. O cessionário se perceberá evicto do
direito que crédito que foi frustrado. O cedente fica responsável pela existência do crédito
ao tempo que cedeu. Isso vale também para a nulidade.

Art. 295. Na cessão por título oneroso, o cedente, ainda que não se responsabilize, fica
responsável ao cessionário pela existência do crédito ao tempo em que lhe cedeu; a
mesma responsabilidade lhe cabe nas cessões por título gratuito, se tiver procedido de
má-fé.

Art. 447. Nos contratos onerosos, o alienante responde pela evicção. Subsiste esta
garantia ainda que a aquisição se tenha realizado em hasta pública.

Na cessão onerosa, o cedente responde pela evicção do cessionário. O cedente só


responde ao cessionário por evicção se ele estiver procedido de má-fé por ter cedido um
crédito que ele sabia que não existia ou não valia. Caso não fique caracterizada a má-fé,
como o cessionário não pagou pelo crédito, então, não haveria o que reclamar do cedente.
Se foi onerosa a cessão, a responsabilidade existe e é objetiva, mesmo que o cedente
não soubesse a razão da inexistência ou da invalidade, a boa-fé do cedente não o exonera
dessa responsabilidade. Já nas cessões gratuitas deve ficar caracterizada a má-fé.
2) Se o devedor se tornar depois insolvente (insolvência superveniente do devedor)
terá o cedente responsabilidade perante o cessionário? A regra é que o cedente não garante
a insolvência do devedor, ele não garante o pagamento, garante a existência e validade do
crédito.

Art. 296. Salvo estipulação em contrário, o cedente não responde pela solvência do
devedor.

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O preço pelo qual será vendido esse crédito será o valor de face do título? É
improvável que o cessionário pague pelo crédito o valor dele, já que ele estará assumindo a
eventual insolvência do devedor no lugar daquele credor originário. O normal é que esse
crédito seja concedido com deságio. O deságio será tão maior quanto maior seja o risco de
não pagamento desse crédito.
Se o crédito é quirografário, não tem nenhuma garantia vinculada, a probabilidade é
que o deságio seja bem mais acentuado. Se adquirimos um crédito de uma pessoa já
insolvente, certamente pagaremos muito pouco por isso.
O deságio leva em conta o risco futuro da insolvência do devedor.
Pode-se ter cláusula expressa de garantia, em que o cedente garante que se o
devedor não pagar, ele pagará? Sim!
Todavia, o legislador sabe que socialmente que proporá essa atividade civil será o
“agiota”. A atividade bancária é feita de maneira diferente.
No art. 297 do C.C., o legislador inseriu uma norma de ordem pública (inderrogável
pela vontade das partes) protetiva do cedente. In verbis:

Art. 297. O cedente, responsável ao cessionário pela solvência do devedor, não


responde por mais do que daquele recebeu, com os respectivos juros; mas tem de
ressarcir-lhe as despesas da cessão e as que o cessionário houver feito com a cobrança.

Exemplificando o art. 297: o crédito era de R$ 1.000.000,00 (um milhão), mas foi
cedido por R$ 500.000,00 (quinhentos mil), com cláusula expressa em que o cedente
garante o cessionário. Seis meses depois verificou-se a insolvência do devedor e o
cessionário diante disso invocou a cláusula de garantia. Qual será a obrigação do cedente?
Se o cessionário que estava demandando do devedor quanto ele receberia? R$ 1.000.000,00
(um milhão) que era o valor do crédito. Todavia, o cessionário não conseguiu receber o valo
de R$ 1.000.000,00 (um milhão), pela insolvência do devedor. Desta forma, o cessionário,
volta-se contra o cedente. Quanto o cessionário poderá cobrar do cedente? R$ 500.000,00
(quinhentos mil) + juros legais pelos 6 (seis) meses passados entre a data da cessão do
crédito e o reembolso do valor + as despesas de protestos, registro, custas. O que foi
bloqueado aí? O ganho do “agiota” sobre o cedente. Há uma limitação do direito de regresso
contra o cedente. O mesmo não ocorre na operação bancária, pois o que é aplicado ao valor
da operação são os juros bancários que é bem maior que os juros civis.
*Questões frequentes em concursos envolvendo a assunção de dívida:

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1) Como se dará a anuência do credor para a validade da cessão? Qual será a forma
da manifestação do credor para a validade da assunção? Diz a lei no art. 299 que ela deverá
ser expressa (regra), o que significa que o silêncio do credor não significará concordância. Já
o parágrafo único do art. 299 diz que o silêncio é igual à recusa. Há uma exceção contida no
art. 303, onde se admite o silêncio como aceite.
A peculiaridade do art. 303 é a seguinte: se o adquirente de imóvel hipotecado
pretender assumir a dívida garantida pela hipoteca, poderá notificar o credor para que ele se
manifeste. Se em 30 (trinta) dias o credor não recusar, considera-se aceito. Por que um
tratamento tão diferente? Porque a dívida continuará com a mesma garantia, a hipoteca.
Não haverá mudança sobre a garantia, ainda que haja mudança sobre o devedor.

Art. 299. É facultado a terceiro assumir a obrigação do devedor, com o consentimento


expresso do credor, ficando exonerado o devedor primitivo, salvo se aquele, ao tempo
da assunção, era insolvente e o credor o ignorava.
Parágrafo único. Qualquer das partes pode assinar prazo ao credor para que consinta na
assunção da dívida, interpretando-se o seu silêncio como recusa.
Art. 303. O adquirente de imóvel hipotecado pode tomar a seu cargo o pagamento do
crédito garantido; se o credor, notificado, não impugnar em trinta dias a transferência
do débito, entender-se-á dado o assentimento.

** O professor recomenda a leitura do Informativo 520 do STJ.


No informativo 520 do STJ, o tribunal enfrentou o tema que vinha se arrastando a
anos e que eram repetitivos dos “contratos de gaveta” do SFH (Sistema Financeiro de
Habitação), ou seja, as assunções de dívidas não oficiais. As assunções de dívidas feitas sem
a anuência do credor. A discussão que sempre existiu e se intensificou quando da edição da
Lei nº 10.150/2000. Quando da edição desta lei, estabeleceu-se um programa de
antecipação das quitações desses financiamentos mediante descontos com percentuais
variados. Então, o mutuário poderia antecipar a quitação do financiamento recebendo
descontos que podiam chegar a 100%. E a diferença era assumida pelo FCVS (Fundo de
Compensação das Variações Salariais). Ademais, nessa lei, se reconheceu aos cessionários do
contrato, portanto, os cessionários da dívida que não tinha comunicado ao credor a cessão,
que eles tivessem legitimidade para requerer essa amortização extraordinária e essa
quitação com desconto. Porém, a lei trouxe requisitos para isso: a cessão teria que ter sido
firmada até uma determinada data, por exemplo. A partir disso, os mutuários que tinha a
situação do “contrato de gaveta” passaram a defender que, em geral, todas as cessões
foram legitimadas, isto é, que isso corresponderia a uma convalidação do ato. A Lei nº
10.150/2000 reconheceu a legitimidade e convalidou todos os atos. O STF interpretou

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firmando que a regra é que a assunção de dívida feita sem a anuência do credor não vale e,
portanto, não tem nenhuma oponibilidade perante o credor. Exceto aqueles abrangidos
expressamente pela Lei nº 10.150/2000 que preencheram os exatos requisitos descritos na
norma.

2.3.2 Elementos Objetivos


O Objeto Imediato é a prestação. Toda vez que vermos a expressão “dever de
prestação” significa débito que é o dever de realizar uma determinada conduta positiva ou
negativa de conteúdo patrimonial.
Positiva = dar ou fazer.
Negativa = não fazer.
Se o dever não tiver conteúdo patrimonial, como acontece no direito de família, não
trataremos a situação como obrigação ou prestação. Damos outros contornos a esses
deveres. É interessante também observar como a jurisprudência do STJ confere tratamentos
diferenciados à aplicação dos princípios de boa-fé e de função social quando se está
analisando deveres originados de contratos (obrigações) e quando se está analisando
deveres de conduta originados de relações familiares (não são obrigações). Situações que
são semelhantes, mas que o tratamento jurisprudencial é diferente.
Quando estruturamos a relação obrigacional, verificamos que os efeitos dessa
relação são interpartes e que, portanto, uma vez violado o direito do credor pela conduta do
devedor essa pretensão será exercida e face do devedor recaindo sobre o patrimônio dele. O
devedor responde pelos seus bens pelos danos que tenha causado. Todavia, há situações,
por força dos princípios, em que a interpretação dos tribunais tem levado a possibilidade de
estender essa interpretação a terceiros (denominado “terceiro cúmplice” ou “terceiro
ofensor”). Essa pretensão passaria, então, a ser dirigida ao devedor e ao terceiro em razão
da aplicação de uma cláusula geral. Isso já foi uma questão Cespe, com fundamento no
Enunciado 21 do CJF:

Enunciado 21 do CJF: A função social do contrato, prevista no art. 421 do novo Código
Civil, constitui cláusula geral a impor a revisão do princípio da relatividade dos efeitos do
contrato em relação a terceiros, implicando a tutela externa do crédito.

Tal Enunciado possibilita uma situação denominada de “tutela externa do crédito”.


Tal expressão induz a responsabilidade de quem não faz parte da relação obrigacional por te
ter violado deveres originados da função social ou da boa-fé conforme o caso.

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O caso mais comentado foi o caso que envolvia a Schincariol, o Zeca Pagodinho e a
Ambev (fabricante da Brahma). A Ambev procurou o Zeca Pagodinho que era o personagem
principal da campanha publicitária da Schincariol e teria oferecido a ele uma quantia para
que descumprisse o contrato e fizesse a campanha da Brahma, que era uma campanha
contra a campanha que ele fazia na Schincariol. A campanha da Schincariol usava a
expressão “Experimenta”. Já a contrapropaganda que era da Brahma usava a frase
“Experimentei, me arrependi e voltei”. A discussão era acerca da quebra de contrato.
Pessoalmente foi o Zeca Pagodinho, mas quem estimulou a quebra contratual foi a Ambev.
Quando a questão envolve não mais o direito contratual das obrigações patrimoniais,
mas deveres extrapatrimoniais dos negócios familiares, como o dever recíproco de
fidelidade no casamento. O mesmo STJ tem tido interpretação distinta, entendendo que os
deveres inerentes às relações conjugais são personalíssimos e, portanto, somente exigíveis
das próprias partes. E nos precedentes em que o STJ teve que se manifestar sobre a
pretensão do “corno” de ver responsável o terceiro cúmplice, o STJ adotou uma postura no
sentido de recusar a responsabilidade ao terceiro por inexistência de dever, pois só quem
teria o dever de fidelidade seria apenas o cônjuge.

2.3.3 Elementos Abstratos

 Débito (Schuld): é visto como um dever jurídico atribuído originariamente ao


devedor, correspondente ao direito de crédito do credor.
 Responsabilidade pela inobservância do dever de prestação (Haftung): dever
jurídico sucessivo, decorrente do descumprimento pelo devedor do que dele
naturalmente se espera.
O débito e a responsabilidade têm conteúdo diferentes, o que significa que ser
devedor não significa ser necessariamente responsável. O indivíduo pode ser devedor e não
ser responsável; e pode ser responsável e não ser devedor. São dois deveres distintos de
conteúdos distintos.
Assim, por exemplo, o professor se obriga na obrigação de dar coisa certa a dar um
dos seus livros autografados com dedicatória a João. Nesse caso, o professor estabeleceu
uma relação de débito e crédito, em que ele resolve entregando o livro. Nada mais se
poderá exigir do professor do que o livro. E se este livro, por alguma razão se tonar
impossível de se achar (esgotou a edição na editora, por exemplo) e o professor não poderá
cumprir esta obrigação ou o professor posterga a obrigação ou no futuro fará uma obrigação
nova. Se o professor é culpado pelo não cumprimento da obrigação, isso vai adicionar na
responsabilidade perdas e danos. O que significa que se o professor entregar o livro não
mais satisfará integralmente a pretensão do credor, pois este poderá não tem mais interesse

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no livro em si, mas no valor econômico do livro. E mesmo que o indivíduo tenha interesse no
livro em si, haverá responsabilidade por perdas e danos, em razão na demora do
cumprimento da obrigação, desde de juros de mora, até multas contratuais e lucros
cessantes.
Enquanto o débito é limitado, a responsabilidade é, em regra, limitada, por isso que o
legislador diz no art. 391 do C.C., o devedor responde com todo o seu patrimônio.
Nessa medida, nós adotamos a Teoria Dualista que é atribuída a o alemão Aloir Brinz
que teria resgatado das Pandectas Romanas a figura do debitum e da obligatio. Então, pela
Teoria Dualista, reconhece-se que são dois deveres. A importância disso é enorme, quando
nós conseguimos compreender isso bem, outros ramos do Direito passam a fazer mais
sentido (relações consumeristas, relações empresariais).
Exemplo: quando um fornecedor diz que ele assume uma determinada obrigação
criando direitos para o consumidor, mas ele limita esses direitos e essas obrigações através
de cláusulas contratuais destacadas. Se isso não esvaziar o contrato será válido. Todavia,
quando um fornecedor pretende eximir-se de responsabilidade por obrigações que ele
assumiu, essa cláusula será nula. Se no mesmo contrato contiver cláusula dizendo que ele
não responderá ou que responderá menos que o prejuízo causado em virtude de fatos
atribuíveis às obrigações que ele assumiu e não conseguiu cumprir, essa cláusula será nula.
Ele pode restringir o débito, mas não poderá limitar a sua responsabilidade. Nas relações
civis também observaremos isso dentro da Teoria Geral das Obrigações.
Podemos chegar então a 3 conclusões:
1) Débito + Responsabilidade = obrigação civil;
2) Débito sem Responsabilidade = obrigação natural (é um crédito sem pretensão, o
crédito existe, mas o indivíduo não pode exigir – o pagamento deverá ser
espontâneo);
A dívida prescrita também pode ser colocada nessa situação? Se a prescrição
extingue a pretensão, ela consequentemente extingue a responsabilidade porque a
responsabilidade é a sujeição à pretensão. Se o indivíduo não está mais sujeito à pretensão,
não terá mais responsabilidade. Todavia, nas relações civis o indivíduo não deixa de dever, o
débito ainda existe, ele só não tem mais a obrigação de pagar. Se o indivíduo renunciar a
essa prescrição e propuser ao pagamento voluntário e espontâneo, o pagamento é devido.
Por isso que a dívida prescrita paga espontaneamente não comporta repetição de indébito.
Por essa mesma razão que a obrigação natural paga espontaneamente também não
comporta repetição de indébito. É tão devido que se for feita uma doação em cumprimento
de obrigação natural, essa doação é irrevogável, porque ela não é “gratuita”, ela é feita em
cumprimento de uma obrigação natural.

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Ademais, a obrigação natural não deve ser confundida com mero dever moral,
porque o mero dever moral não gera qualquer sanção senão a sanção moral. Juridicamente
é irrelevante. A obrigação natural tem efeitos jurídicos. Qual é o efeito jurídico? O
pagamento, que não é enriquecimento sem causa receber o pagamento. Não é gerador de
repetição de indébito. O mero dever moral ficaria no campo da repreensão social.
3) Responsabilidade sem Débito próprio = responsabilidade por fato de terceiro.
*Obs.: pode-se ter responsabilidade sem débito próprio ou de terceiros.
Na responsabilidade sem débito próprio, a relação obrigacional civil existe, mas além
do devedor ser responsável, há também um outro responsável. Seria uma responsabilidade
de terceiro que pode ser contratual ou legal. A pessoa pode ser corresponsável por força de
lei ou por força de convenção, como o fiador, por exemplo. Quando a pessoa é responsável,
mas não é a devedora e paga, sub-roga-se integralmente nos direitos do credor contra o
devedor verdadeiro.
Pode acontecer também de uma responsabilidade sem débito sem dever de
prestação. Trata-se da responsabilidade aquiliana ou extracontratual. O ofensor e a vítima
não tinham nenhuma relação obrigacional antes. A relação jurídica obrigacional nasceu do
fato lesivo.

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica
obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos
casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor
do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

A obrigação de reparar se dá a partir do fato lesivo.


As obrigações podem ser contratuais ou extracontratuais. De modo que as
contratuais vão derivar do contrato propriamente dito ou das declarações unilaterais de
vontade (promessa de recompensa, oferta, proposta) e, desta forma, nasce o débito que, se
não for adimplido, gera responsabilidade. Nessas circunstâncias, surge a obrigação civil em
que há débito e responsabilidade de natureza contratual.
Já as extracontratuais são o ato ilícito e a lei que impõe uma obrigação. A lei impõe
uma obrigação tributária, de alimentos entre parentes, por exemplo, independente de
praticar um ato ilícito. O ato ilícito fará surgir apenas a responsabilidade extracontratuais
sem que houvesse antes um vínculo obrigacional. Ademais, o ato ilícito é o fato gerador que
une o ofensor à vítima em torno de uma responsabilidade que nasce imediatamente.

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Quando tivermos débito naquelas obrigações que são contratuais em que há o


débito, devemos considerar a ocorrência do inadimplemento. E a ocorrência do
inadimplemento dependerá se já ser ou não exigível a prestação, e de já ter ou não ter
ciência o devedor de que é exigível a prestação. De modo que essa responsabilidade
depende de antes uma constituição em mora. Uma mora que pode ser ex re ou de uma
mora que pode ser ex persona.
João tem um débito que é positivo (dar ou fazer), é líquido (objeto perfeitamente
determinado, com todas as suas especificidades) e tem uma data certa de vencimento. Na
data certa de vencimento Maria não paga. O que mais é necessário para que Maria esteja
em mora? Nada! Então, essa é a mora ex re. Consequentemente, os efeitos da
responsabilidade sobre Maria, tais como juros de mora, perdas e danos serão devidos
quando? Desde o vencimento (termo a quo da contagem dos juros).

Art. 397. O inadimplemento da obrigação, positiva e líquida, no seu termo, constitui de


pleno direito em mora o devedor. (Vide Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)

Se a obrigação por outo lado era ilíquida ou não tinha termo, precisava ser exigida
para que o devedor soubesse o momento pelo qual ele deveria pagar. Então, o devedor não
sabe ainda quando será constituído em mora. Para constituir o devedor em mora, ele deverá
ser interpelado (mora ex persona).

Art. 397. [...]


Parágrafo único. Não havendo termo, a mora se constitui mediante interpelação judicial
ou extrajudicial.

Nessas circunstâncias, a contagem dos juros se desloca, bem como as outras perdas e
danos para o momento da constituição em mora. Os juros, por exemplo, terão como termo
inicial qual? A citação inicial na forma do art. 405 do C.C. de 2002:

Art. 405. Contam-se os juros de mora desde a citação inicial.

A Corte Especial do STJ diz expressamente o que está contido no artigo acima.
Já se a responsabilidade é extracontratual não há que se falar em vencimento, sequer
existe prestação. O que temos é um fato causador de dano injusto. E esse fato é imputável a
uma determinada pessoa. Nesse caso, havendo os pressupostos para imputar àquela pessoa

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os fatos causadores daquele dano. Pode de ser um acidente de trânsito, por exemplo, ou
qualquer situação da vida geradora de um dano injusto a outrem, quando de devia observar
o princípio do neminem laedere (de não causar dano a ninguém). Se um indivíduo pratica o
fato causador e a ele é imputado esse fato, desde quando o indivíduo está devendo essa
reparação? Imediatamente, ou seja, desde a data do fato. Desde a data do fato o indivíduo
está em mora em indenizar. Trata-se da inteligência dos art. 927, caput e do 398, ambos do
C.C. de 2002. À inteligência desses dois artigos, soma-se a Súmula 54 do STJ. In verbis:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica
obrigado a repará-lo. [...]

Art. 398. Nas obrigações provenientes de ato ilícito, considera-se o devedor em mora,
desde que o praticou. (Vide Lei nº 13.105, de 2015) (Vigência)

Súmula 54 do STJ
Os juros moratórios fluem a partir do evento danoso, em caso de responsabilidade
extracontratual.

Exemplo: o art. 263 do C.C. de 2002 fala de obrigações indivisíveis e diz:

Art. 263. Perde a qualidade de indivisível a obrigação que se resolver em perdas e danos.
§ 1o Se, para efeito do disposto neste artigo, houver culpa de todos os devedores,
responderão todos por partes iguais.
§ 2o Se for de um só a culpa, ficarão exonerados os outros, respondendo só esse pelas
perdas e danos.

- Imaginemos que o credor tenha o direito de receber de dois devedores (Devedor A


e Devedor B) uma mesma prestação: entregar um cavalo (coisa certa). Se essa obrigação
está sendo analisada na perspectiva do débito, esse débito é indivisível, porque não há como
cumprir a obrigação que é dar coisa certa sem entrega-la por inteiro. Não é possível a
realização de pagamentos parciais. Então, nessa perspectiva tanto o devedor A quando o
devedor B podem ser demandados individualmente pelo credor e obrigados a cumprir a
obrigação inteira, mesmo que cada um devesse metade. Aquele que adquirir, gastar para
cumprir a obrigação tem direito a cobrar do outro as despesas que teve no cumprimento da
obrigação (metade do valor do cavalo). Contudo, a exigibilidade do débito no momento da

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prestação é indivisível, isto é, o pagamento deve ser único. Ocorre que o cavalo morreu,
pereceu o objeto e houve culpa, imputando-se assim responsabilidade. A responsabilidade é
convertida em perdas e danos. Digamos que o cavalo valia R$ 20.000,00 (vinte mil reais) a
responsabilidade se tornará divisível. Se os dois (devedor A e devedor B) forem culpados,
cada um responderá por R$ 10.000,00. Se apenas o devedor A for culpado, somente este
responderá pelas perdas e danos. O débito é indivisível, mas a responsabilidade não.
Já o art. 279 do C.C. de 2002 envolve obrigação solidária. Todavia, fique atento para
as possíveis pegadinhas em concursos.
A regra da solidariedade passiva está contida no art. 275 do C.C. de 2002 e diz assim:

Art. 275. O credor tem direito a exigir e receber de um ou de alguns dos devedores,
parcial ou totalmente, a dívida comum; se o pagamento tiver sido parcial, todos os
demais devedores continuam obrigados solidariamente pelo resto.
Parágrafo único. Não importará renúncia da solidariedade a propositura de ação pelo
credor contra um ou alguns dos devedores.

Cumpre observar que a dívida é solidária.


Estabelecida a solidariedade em torno da prestação (o cavalo) todos respondem pelo
débito, porque o débito é solidário. Fosse a prestação divisível ou não haveria um débito
solidário. E se a prestação se impossibilitar por um perecimento culposo? Impondo-se a
conversão em perdas e danos. Todavia, quanto valia o cavalo, qual era o seu equivalente?
Digamos que o equivalente fosse R$20.000,00 (vinte mil reais), mas houveram outros danos
aferidos em R$10.000,00 (dez mil reais) (danos morais, lucros cessantes, etc.). A
responsabilidade será imposta. Ocorre que o legislador não diz que toda vez que o indivíduo
for devedor solidário também precisará ser responsável solidário. Essa responsabilidade
solidária terá que resultar da lei ou da convenção. E vem o art. 279 do C.C. de 2002 e diz:

Art. 279. Impossibilitando-se a prestação por culpa de um dos devedores solidários,


subsiste para todos o encargo de pagar o equivalente; mas pelas perdas e danos só
responde o culpado.

Pelo valor da prestação haverá solidariedade, já pelas perdas e danos pagará o


culpado. Isso significa que a solidariedade será apenas ao débito ou a seu valor equivalente.
O indivíduo poderia ter assumido total responsabilidade independente de culpa, caso
houvesse inadimplemento? Sim, mas aí o indivíduo estaria garantindo o outro no plano da
responsabilidade e essa garantia não se presume, resulta da lei ou da vontade das partes. E

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Direito Civil II
O presente material constitui resumo elaborado por equipe de monitores a partir da aula
ministrada pelo professor em sala. Recomenda-se a complementação do estudo em livros
doutrinários e na jurisprudência dos Tribunais.

o que o art. 279 diz é que essa responsabilidade não é automática, assim como um fiador se
torna corresponsável, o que não o faz devedor solidário, no sentido de ter realmente um
débito próprio.
O STJ sumulou recentemente uma questão dizendo o seguinte: a concessão da
recuperação judicial à recuperanda estabelece uma suspensão à exigibilidade da sua dívida e
da sua responsabilidade, mas não em relação aos coobrigados e aos corresponsáveis. Em
relação aos coobrigados e aos corresponsáveis essa dívida poderá continuar a ser exigida.
Reconhece-se que a posição poderá ser fracionada.
Isso tem causado bastante polêmica, pois se há uma suspensão do débito, não que se
imputar responsabilidade ao garantidor. O professor discorda do conteúdo da Súmula do
STJ.
Na próxima aula, estudaremos a classificação das obrigações.

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