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CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS SOBRE A ABORDAGEM


ACÚSTICA DA VOZ INFANTIL

Theoretical considerations on the acoustical approach


of the infant voice
(1)
Renata Costa Martines Sader , Eliana Midori Hanayama (2)

RESUMO:

Objetivo: comparar dados de análise acústica de vozes de crianças com alterações vocais em rela-
ção a crianças com vozes normais, promovendo a discussão sobre a viabilidade do uso deste instru-
mento na clínica fonoaudiológica. Métodos: levantamento da literatura fonoaudiológica, médica e da
área das Ciências da Fala, especialmente da Fonética Acústica, as quais envolvem as diversas moda-
lidades de análise acústica de vozes infantis. Resultados: os aspectos de maior fidedignidade esti-
veram vinculados à investigação de traçados espectrográficos e espectrais e não apenas à considera-
ção de medidas isoladas, as quais não apresentaram consenso entre vários estudos, inclusive com o
uso dos mesmos softwares de análise. Conclusões: os dados da literatura apontam para o fato de
que o recurso de análise acústica potencialmente trará contribuições importantes para a clínica
fonoaudiológica infantil, na medida em que permite integrar dados da avaliação perceptivo-auditiva aos
dados fisiológicos, por meio de técnica não invasiva.

DESCRITORES: Acústica da fala; Distúrbios da voz; Criança

■ INTRODUÇÃO Por dependerem de julgamentos do(s)


avaliador(es), tais propostas geram uma série de dis-
A clínica fonoaudiológica nos distúrbios vocais cussões entre os profissionais que atendem pacien-
conta hoje com uma série de possibilidades de aná- tes com queixas vocais 9, inclusive quanto à validade
lise da produção e da percepção do sinal vocal. Mui- de tais procedimentos e da formação dos profissio-
tas das análises baseiam-se na percepção auditiva nais 10, apesar de sua indiscutível contribuição na prá-
dos avaliadores, algumas contando com padroniza- tica clínica 6,11.
ções em escalas com fidedignidade reconhecidas Vários autores descrevem a importância do tra-
internacionalmente, como a escala GRBAS 1, a es- balho de orientação, detecção e intervenção
cala RASAT, uma versão brasileira adaptada da es- fonoaudiológica nas alterações vocais infantis 9,12-13.
cala GRBAS 2, VPAS, o roteiro de avaliação com Porém, freqüentemente no atendimento clínico
motivação fonética Voice Profile Analysis Scheme 3-4; fonoaudiológico, encontra-se resistência de pais
a proposta SVEA, Swedish Voice Evaluation e pacientes à realização de exames invasivos 14-16
Approach 5-7 e o protocolo consenso da avaliação e também uma dificuldade em reconhecer a ne-
perceptivo-auditiva da voz CAPE-V 8. cessidade de intervenção e as mudanças obti-
das na qualidade vocal durante o processo
terapêutico.
A análise acústica pode ser considerada um re-
curso complementar não invasivo 14, que permite um
(1)
Fonoaudióloga, Especialista em Linguagem e em Voz. registro e oferece a possibilidade de detalhamento
(2)
Fonoaudióloga, Especialista em Fonoaudiologia clí- do processo de geração do sinal sonoro, os quais
nica pela Universidade de Kyoto, Japão, Mestre em correspondem a eventos das porções glótica e
Ciências pela Universidade de São Paulo, supraglótica do aparelho fonador 17.
Fonoaudióloga colaboradora na Divisão de Cirurgia Este trabalho realiza revisão bibliográfica de es-
Plástica Craniofacial do Hospital das Clínicas da Fa- tudos que utilizaram a análise acústica na compara-
culdade de Medicina da Universidade de São Paulo. ção de vozes infantis normais e disfônicas, e promo-

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ve uma discussão sobre sua contribuição na clínica A análise acústica não fornece medidas diretas
fonoaudiológica. da fonte glótica, uma vez que o sinal de fala registra-
do é o sinal de saída, que é a somatória do sinal
■ MÉTODOS glótico mais os efeitos dos filtros. Por este motivo,
os instrumentais de análise realizam análises indire-
O levantamento de dados da literatura envolveu a tas, a partir de procedimentos matemáticos comple-
busca por publicações no campo das Ciências da xos que permitem, por exemplo, eliminar do sinal vocal
Fala, especialmente da Fonética Acústica, enquanto de saída os efeitos da atividade supraglótica e apre-
fundamentação do método de análise acústica de fala, sentar medidas relacionadas à atividade glótica. Ou-
e suas possibilidades de aplicação no estabelecimen- tros cálculos e técnicas permitem, por exemplo, res-
to de correlações entre as esferas da percepção au- saltar os formantes 23.
ditiva e da fisiologia da geração do sinal vocal. Tais
fundamentos foram articulados aos dados de pesqui- Propostas de abordagem acústica em casos
sas dos campos da Fonoaudiologia e da Medicina, a de disfonias
fim de tecer a discussão a respeito da possibilidade Freqüentemente as disfonias mais significativas
de aplicação clínica de tal procedimento. são caracterizadas acusticamente pelos avaliadores
por meio da leitura das representações visuais
■ REVISÃO DA LITERATURA fornecidas e não apenas pelas medidas numéricas
obtidas automaticamente. Tal aspecto destaca a im-
Fundamentos da análise acústica da fala portância da observação e apreciação visual de pa-
A análise acústica do sinal de fala possibilita a drões espectrográficos num primeiro momento, para
integração de dados fornecidos pela avaliação depois relacioná-los às medidas numéricas obtidas 19.
perceptivo-auditiva com o plano fisiológico, pois per- Os dados obtidos em análise acústica podem ser
mite um detalhamento do processo de geração do abordados do ponto de vista quantitativo e qualitativo.
sinal sonoro, fornecendo uma estimativa indireta dos Na primeira abordagem trabalha-se com populações
padrões vibratórios das pregas vocais, bem como dos mais numerosas, utilizando-se grupos controles, com
formatos do trato vocal supraglótico e das modifica- objetivo de validar e/ou padronizar parâmetros acústi-
ções nestes formatos 18. cos mensuráveis. Na abordagem qualitativa traçam-
Por meio da análise acústica, os atributos físicos se correlações entre os fatores fisiológicos, perceptivo-
da voz são analisados no domínio do tempo, da freqüên- auditivos e acústicos 19.
cia e da intensidade, além de outras medidas comple- No campo das medidas acústicas, algumas pas-
xas, que conjugam do cruzamento de tais domínios 19. saram a ser referidas freqüentemente em trabalhos
Historicamente, o século XX marca o período da área, cujas definições são apresentadas:
moderno da análise acústica. As primeiras análises (f0) - Freqüência Fundamental –corresponde ao
iniciaram-se com o oscilógrafo, em 1920, que pro- número de ciclos vibratórios das pregas vocais por
duzia gráficos relacionando a amplitude do som e o segundo, que por sua vez é o equivalente ao primeiro
tempo 9;20. harmônico da emissão 17.
Na década de 40, foi desenvolvido o espectrógrafo vF0 – variação de f0 – representa o desvio relativo
sonoro, aparelho que teve implicação revolucionária, de medida de freqüência fundamental de período a
por permitir um registro tridimensional do sinal sono- período. Reflete as variações de longo-termo da f0
ro, integrando os aspectos de tempo, freqüência e por toda a amostra de voz analisada 14.
intensidade num único gráfico de dois eixos, chama- Jitter – perturbação de freqüência em curto termo
do de espectrograma 21. – medida de perturbação em torno do parâmetro físi-
Somente no início dos anos 70, começaram a co de freqüência 23. Mede a variabilidade de freqüên-
operar os primeiros processadores digitais de sinal, cia em ciclos consecutivos 9.
com definições mais acuradas e mais claras 9. A in- Shimmer – perturbação de amplitude em curto
trodução do processamento digital trouxe a possibili- termo - medida de perturbação em torno do parâmetro
dade de armazenamento digital e passaram a possi- físico de amplitude e corresponde a variações de um
bilitar uma série de outras medidas 20. ciclo a outro 23. Mede a instabilidade da onda laríngea,
As medidas obtidas na análise acústica usualmente medida como variação na amplitude de
correspondem a medidas físicas definidas. O sinal ciclos sucessivos 14.
glótico (sinal da fonte) sofre efeitos ao longo do trato NHR – Taxa ruído/ harmônico – uma das medi-
vocal supraglótico até a saída deste para o meio ex- das de índice de irregularidade, que reflete a quanti-
terno (ação de filtro). Há uma somatória das ondas dade de sinal harmônico em relação ao não harmôni-
sonoras provenientes da fonte glótica com outras re- co 14 Pode aparecer com designação HNR, quando
fletidas ao longo do trato vocal, sendo a resultante fi- passa a corresponder à taxa harmônico/ruído.
nal (sinal de saída), o sinal irradiado pelos lábios 17,22. Quanto às medidas expostas, vale destacar que

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não há ainda normatização dos parâmetros técnicos com nódulos vocais e crianças com vozes normais.
e científicos na metodologia de extração de valores Como resultados, destacaram-se valores de f0 eleva-
nos diferentes sistemas. Isto varia de acordo com o dos para o grupo de crianças com nódulos vocais.
software utilizado, sendo que os métodos de extração Além disso, o estudo apresenta uma discussão rela-
não são claramente explicitados, o que dificulta a com- cionando as diferenças de medidas encontradas ao
paração e convalidação de dados obtidos em diferen- aspecto fisiológico, atribuindo o aumento na medida
tes estudos. Essa situação vem mudando paulatina- de freqüência fundamental à rigidez nos casos de
mente com tentativas de criação de padronizações20. nódulos de pregas vocais.
Na dimensão da análise de representações acústi- Seguindo a linha de estabelecimento de correla-
cas é destacada a interpretação das ondas sonoras e ções entre percepção, a acústica e a fisiologia, da-
das representações espectrais 19. Na dimensão de aná- dos de freqüência e intensidade de 60 crianças foram
lise espectral de longo termo, um estudo foi conduzido, associados para compor os perfis de extensão vocal
revelando a possibilidade de separar grupos de crian- e associá-los a dados de laringoscopia e julgamento
ças com relação ao gênero e à idade. A diferenciação perceptivo. Segundo dados da avaliação perceptivo-
ocorreu com base na localização dos picos espectrais, auditiva, a população revelou 14% de ocorrência de
nos quais a região de 5 kHz revelou um pico para meni- disfonia, com 14% de ocorrência de nódulos vocais e
nos e apresentou-se achatada para as meninas 24. Des- 20% de fendas glóticas 28. O estudo promove compa-
taca-se que foi o único estudo de abordagem acústica ração das características da população infantil com
de longo termo para população infantil. as referências da literatura para a população adulta e
Estudos com emissão infantil também avança- ressalta aspectos comparativos entre crianças com
ram para a produção de fricativas, com destaque para e sem alterações vocais. Revela que as crianças em
levantamento das características acústicas geral apresentam perfis de extensão vocal limitados
espectrais, revelando maior variabilidade e relação à em relação aos adultos, porém as crianças disfônicas
produção adulta 25. apresentaram restrições mais importantes.
Outras discussões são tecidas em literatura, no Um estudo brasileiro realizou comparação entre
que diz respeito à qualidade, tipo e coleta de sinais a análise perceptivo-auditiva e análise acústica em
para se proceder a análise acústica. Isto passa a ter crianças com vozes normais e em crianças
relevância na medida em que diferentes trabalhos uti- disfônicas 29. Os parâmetros de análise acústica rea-
lizam análise acústica para comparar vozes normais lizados foram jitter e shimmer. Os resultados não re-
com disfônicas. Diferenças nos sinais, métodos de velaram diferenças estatisticamente consideráveis
coleta e procedimentos de análise podem levar a re- entre as vozes normais e disfônicas. Os limites con-
sultados diferentes de apreciação visual e numérico. siderados normais para o adulto não foram efetivos
Algumas das recomendações importantes referem- para a discriminação de voz normal e patológica das
se aos cuidados com a qualidade dos equipamentos crianças pesquisadas nos parâmetros de jitter e
de gravação e metodologia. Modelos de microfones, shimmer.
gravadores, mídias de gravação (analógicas ou digi- Outro estudo brasileiro revelou resultados simila-
tais), tratamento acústico do ambiente de gravação e res na comparação entre vozes de crianças com e
procedimentos de análise podem interferir de forma sem lesão estrutural das pregas vocais 9. Foram rea-
decisiva na qualidade de análise. A distância do mi- lizadas e analisadas outras medidas acústicas, além
crofone utilizado na gravação, em relação ao falante de jitter e shimmer, classificadas em: f0 (freqüência
e ao equipamento também devem ser padronizada, fundamental); medidas de perturbação da freqüência
pois pode gerar interferência no sinal acústico 19-20. fundamental: Jitter, RAP (Perturbação Relativa Mé-
dia) e PPQ (Quociente de Perturbação da freqüên-
Aplicação da análise acústica ao estudo da cia); medidas de perturbação da amplitude : Shimmer
voz infantil - comparação entre dados de crian- db e %, APQ (Quociente de perturbação da Amplitu-
ças com e sem alteração vocal de) e VAM (Variação do Pico de Amplitude); e medi-
Até a década de 80, a maioria dos estudos sobre das de ruído (NHR) a interpretação dos dados revelou
análise acústica de vozes de crianças referia-se a que não houve diferença significativa entre os grupos,
estudos normativos sobre medidas de freqüência fun- quanto aos parâmetros de f0, Jitter, Shimmer, RAP,
damental das vozes infantis 26. PPQ, APQ e VAM. Com relação ao NHR, os valores
Um dos primeiros estudos que relatou a compa- do grupo de crianças portadoras de lesão estrutural
ração de vozes normais com vozes alteradas em cri- das pregas vocais foram significativamente maiores
anças, a partir da análise de emissões da vogal [a], do que os do grupo sem lesão, sendo que esta seria
data da década de 80 27. O referido estudo destaca- uma medida objetiva na detecção de distúrbios vo-
se de outros posteriores por ser um dos únicos a cais na infância, segundo o estudo.
apresentar a análise visual das ondas acústicas obti- Resultados distintos aos anteriormente relatados
das, extraindo medidas de f0 de vozes de crianças foram apresentados na comparação de amostras vo-

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cais de crianças com nódulos vocais e sem altera- A discussão da implicação entre os aspectos fi-
ções vocais, utilizando 33 parâmetros de análise acús- siológicos e perceptivos foi conduzida com base na
tica 14. O estudo concluiu que houve aumento signifi- interpretação de 33 medidas acústicas das amos-
cativo nas medidas das vozes com nódulos em com- tras de três crianças disfônicas por diferentes cau-
paração ao grupo-controle, nos parâmetros de Jita sas (edema de Reinke, nódulos vocais e estenose
(jitter absoluto), jitt (jitter percentual), RAP, PPQ, sPPQ subglótica) 31. Para o caso de Edema de Reinke fo-
(quociente de perturbação de pitch) e vF0. ram encontradas perturbações nas medidas de vF0 e
A comparação de medidas acústicas de quatro jitt (jitter percentual), atribuídas à dificuldade de sus-
grupos de crianças com diferentes distúrbios no apa- tentação de vibração periódica de pregas vocais, com
relho fonador (papilomatose, distúrbios alérgicos, re- correspondente julgamento perceptivo-auditivo de
fluxo e nódulos vocais) a um grupo controle revelou disfonia severa, caracterizada por rouquidão,
diferenças significativas para a medida HNR em to- soprosidade e quebras de voz. Na presença de nódu-
dos os grupos de pacientes 15. Foram realizadas as los vocais foram destacadas as irregularidades de
medidas acústicas de f0, jitter, shimmer, HNR e tre- pitch, alterações nas medidas de Jitt, RAP (Pertur-
mor f0, nos cinco sub-grupos. Além disso, no grupo bação Relativa Média), PPQ (Quociente de Perturba-
de refluxo, papilomatose e nódulos vocais, houve au- ção da freqüência) e sPPQ (quociente de perturba-
mento nas medidas de jitter. No grupo dos falantes ção de pitch ), com correspondente julgamento
com nódulos de pregas vocais, observou ainda au- perceptivo-auditivo de disfonia em grau moderado,
mento nas medidas de shimmer e F0 tremor. caracterizado por rouquidão. Para a situação de
O estudo acima citado também envolveu a estenose subglótica, com componentes perceptivo-
reavaliação após três meses de tratamento. As mo- auditivos de disfonia severa, caracterizada por rou-
dalidades de tratamento incluíram medicação, tera- quidão, soprosidade, diplofonia e quebras de voz, com
pia física incluindo eletroterapia, psicoterapia e tera- correspondentes acústicos de duas medidas de f0,
pia ocupacional lúdica, que incluiu técnicas de rela- confirmando o aspecto perceptivo de diplofonia, anor-
xamento, fonoaudiologia e aconselhamento aos pais. malidades nas medidas de VTI (grau de turbulência
Os resultados mostraram medidas de Jitter, Shimmer, na voz), DVB (grau de quebra de voz) e DVU (grau de
F0 tremor e HNR, após o tratamento, mais próximos ausência de sonoridade).
dos valores obtidos no grupo controle 15. Numa proposta de padronização de medidas
A abordagem da análise acústica também foi acústicas de voz para programa específico e de ca-
destacada para avaliação de grupos de crianças com racterização do perfil de medidas acústicas em ca-
diagnóstico de DPV (disfunção de pregas vocais ou sos de nódulos, foram colhidas 33 medidas acústi-
movimento paradoxal de cordas vocais). A popula- cas de 100 falantes (50 de cada gênero) na faixa etária
ção foi dividida em três grupos (crianças com diag- compreendida entre 4 a 18 anos. A população repre-
nóstico de DPV, com nódulos vocais e um grupo con- sentativa do quadro de nódulos foi composta por 26
trole), apontando para a possibilidade de diagnóstico falantes (19 do gênero feminino e 7 do masculino). O
diferencial, por meio de medidas de análise acústica, perfil de distribuição das medidas acústicas mostrou-
dos quadros de DPV e asma, os quais, clinicamen- se uniforme entre os gêneros até a idade de 12 anos,
te, apresentam semelhanças 30. Extraíram 33 medi- quando houve uma queda acentuada de f0 para o
das acústicas e afirmaram que dois parâmetros da gênero masculino. No grupo de falantes com nódulos
análise acústica mostraram-se aumentados no gru- vocais foi detectada elevação significativa de valores
po com DPV: o SPI (índice de fonação leve, o au- de perturbação de freqüência 32.
mento desta medida indica ausência de fechamento No panorama nacional, estudo recente volta a
glótico durante a fonação) e vF0. As anormalidades enfocar a análise acústica na população infantil (12
nas medidas de SPI e vF0 não foram documentadas crianças portadoras do processo fonológico de
em outros distúrbios respiratórios pediátricos como ensurdecimento e 10 crianças com padrões de fala
a asma, sugerindo que estas alterações estão pre- normais), por meio das medidas de f0, jitter e
sentes somente nos quadros de DPV, podendo a ob- shimmer e de tempo de inicio de sonorização
tenção destas medidas ser utilizadas para o diag- (VOT). Os resultados revelaram que as crianças
nóstico diferencial. O grupo controle não mostrou al- do grupo com alterações de fala foram submetidas
terações nas medidas de SPI nem de vF0 e no grupo a videolaringoendoscopia, revelando grande incidên-
de pacientes com nódulos vocais foi encontrada uma cia de fendas triangulares médio-posteriores, com
média mais alta de SPI e de vF0, em relação ao gru- correspondente rebaixamento de valores de f0 em
po controle, mas abaixo do grupo de DPV. A mesma relação ao grupo controle. Os valores de VOT das
análise foi ainda realizada em um caso de DPV pós- consoantes oclusivas sonoras do grupo com alte-
tratamento, verificando-se normalização dos valores rações de fala apresentaram-se menores quando
de SPI e vF0 após seis semanas de tratamento com comparados ao VOT das oclusivas surdas do gru-
técnicas de relaxamento e fonoaudiologia. po controle 33.

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■ DISCUSSÃO devem ser cuidadosamente aplicadas em tal situa-


ção 11,34-35. Tal aspecto conduz ao questionamento da
A partir da revisão bibliográfica pode-se detectar validade da análise acústica ser utilizada apenas do
a expansão dos estudos em análise acústica a partir ponto de vista de extração de valores dependentes
da década de 70 do século passado, juntamente com de f0. Os métodos de inspeção do sinal acústico
o aprimoramento da tecnologia. Do ponto de vista da certamente trariam o aspecto de confiabilidade à ava-
aplicabilidade à análise de vozes infantis, o desenvol- liação vocal. Além disso, some-se a dificuldade de
vimento seria posterior, com um número ainda redu- padronização de tais medidas, com apenas um estu-
zido de publicações. do relatando a tentativa de padronização para deter-
Há concordância entre a maioria dos estudos apre- minado instrumental de análise 32.
sentados quanto à vantagem da utilização do procedi- Voltando a literatura, com relação às referências
mento da análise acústica na clínica pediátrica, por se à utilidade da análise acústica no monitoramento do
tratar de um procedimento não invasivo 9,14-16,27,29-31 e tratamento de disfonias infantis, alguns estudos re-
por possibilitar a diferenciação entre normalidade e velaram mudanças consistentes de medidas acústi-
alterações vocais infantis 9,14-16,27-28;30-32. cas após tratamento 16,30. Nestes casos, a análise
No sentido oposto, apenas dois estudos não ates- acústica pode ser considerada um auxílio de
taram diferenças significativas entre vozes patológi- monitoramento visual para análise da voz e ser um
cas infantis e normais, nos parâmetros estudados recurso facilitador para a observação de mudanças
(jitter e shimmer) 9,29. Num deles, entretanto, a medi- por parte da criança, pais e acompanhantes.
da NHR mostrou diferenciação entre os grupos 9. Os dados da revisão apresentada ressaltam a
Análise qualitativa, com discussão de medidas necessidade de continuidade das pesquisas em aná-
obtidas na análise acústica relacionada à avaliação lise acústica da voz em populações infantis, de for-
perceptivo-auditiva e dados fisiológicos foi conduzida ma a permitir que se definam padronizações de
em poucas pesquisas 27-28, 31,33. metodologias e valores. Destaca-se a importância de
Ao tentar esboçar uma comparação entre os abordagem integrada, no sentido de considerar os
resultados apresentados nos estudos, o pesquisa- vários recursos que a análise acústica fornece,
dor depara-se com uma dificuldade: a diversidade complementada pelas informações dos planos fisio-
de softwares e de parâmetros acústicos escolhi- lógico e perceptivo-auditivo. Ao se resgatarem os
dos. Além disso, as diferenças metodológicas difi- fundamentos da análise acústica expostos neste arti-
cultam a comparação dos estudos entre si. Desta go 17,22, torna-se necessário reforçar que a descrição
forma, buscou-se apreciar se, ao longo de vários dos princípios acústicos da produção da fala e, con-
estudos, houve índices que se apresentaram alte- seqüentemente, do sinal vocal remetem ao esquema
rados na população disfônica, apesar dos aspec- de estabelecimento de correlações e de que a análi-
tos anteriormente expostos com relação à se isolada de dados acústicos tem valor restrito, tan-
metodologia da coleta de amostras e eleição de to no âmbito clínico como de pesquisas.
parâmetros para análise. Como consideração final, destaca-se que a aná-
Não houve concordância entre os resultados ob- lise acústica tem lugar de importância na clínica
tidos no total das pesquisas enfocadas, no que diz fonoaudiológica, no auxílio diagnóstico e
respeito às medidas acústicas que se mostraram al- monitoramento de mudanças durante o tratamento.
teradas. Quando foram comparados estudos que uti- O recurso mostra-se útil na integração dos dados
lizaram o mesmo instrumental de análise 14,30-32, os obtidos, preferencialmente a partir de apreciações vi-
resultados foram semelhantes em relação às medi- suais, às alterações fisiológicas e perceptivo-auditi-
das de Jitt, RAP, PPQ, sPPQ para dois deles14,31. vas presentes. No caso de população infantil, ganha
Portanto, mesmo com o uso de recursos semelhan- destaque por se tratar de um recurso não invasivo.
tes, não houve concordância em relação à alteração
de medidas acústicas. ■ CONCLUSÃO
Somente um estudo referiu alteração na medida
de f0 27, porém este foi justamente o único estudo a O recurso de análise acústica pode ser conside-
relatar estudo de correlação, ao incluir métodos de rado útil no diagnóstico e tratamento de problemas
inspeção acústica e não apenas extração automáti- vocais na clínica fonoaudiológica, no sentido de pro-
ca de medidas. Neste ponto da discussão, vale res- mover uma integração entre os dados de avaliação
saltar que a alteração do parâmetro de f0 pode provo- perceptivo-auditiva com os dados fisiológicos, pois
car alterações na aferição automática de outras me- pode fornecer dados adicionais para revelar detalhes
didas acústicas, as quais guardam, em seus proce- da relação entre os planos referidos. A utilidade des-
dimentos de extração, a etapa inicial de extração de te recurso passa a ser maior ainda na clínica infantil,
f0. Nesse sentido, as medidas dependentes de f0 por se tratar de procedimento não invasivo.
sofrem a interferência da aperiodicidade do sinal e No campo da exploração das medidas acústicas,

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a literatura aponta a necessidade de padronizações tes pesquisas. Tais aspectos conduzem à necessi-
de procedimentos e valores normativos, cabendo des- dade de associar a análise acústica a outras modali-
tacar que as medidas aferidas automaticamente não dades de avaliação que explorem as esferas
mostraram concordância nos resultados das diferen- perceptivo-auditiva e fisiológica.

ABSTRACT

Purpose: To compare acoustic analysis data of infant voices with and without vocal disorders in order
to promote discussion concerning the viability of using this tool in speech therapy. Methods: review of
speech disorder, medical, and speech science literature, especially acoustic phonetics, which involve
various modalities of acoustic analysis of the infant voice. Results: Major reliability were related to
investigation of spectrographic and spectral traces and not restricted only to isolated measurements,
which in the case of the latter do not show agreement among various studies researches, including the
use of the same analytical software. Conclusions: Data in the literature show the fact that acoustic
analysis will bring, potentially, important contributions to the infantile speech therapy clinic in such a
way that allows the integration of perceptual evaluation data with physiological data by using a non-
invasive approach.

KEYWORDS: Speech acoustics; Voice disorders; Child

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RECEBIDO EM: 22/03/04


ACEITO EM: 20/08/04

Endereço para correspondência:


Rua Dr. Altino Arantes, 1000 - apto 113
São Paulo - SP
CEP: 04042-004
e-mail: renatasader@yahoo.com.br

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