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DIREITO DO CONSUMIDOR 04.02.

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Prof.: Leonardo Vieira
Conteúdo: 1 – Características do CDC
2 – Princípios do Direito do Consumidor

1. Características do CDC

1.1 – Normas principiológicas

- Normas que veiculam valores, estabelecem fins a serem alcançados.


- No Direito atual é comum utilizar-se de conceitos abertos ou conceitos
jurídicos indeterminados e normas de conteúdo semântico flexível. Em
sociedades complexas e plurais como a nossa, só as regras já não são
suficientes.
- As regras jurídicas tradicionais funcionam com causa e consequência,
ligadas por um nexo de imputação. Já os princípios, não possuem conceitos
normativos precedentes e consequentes herméticos e assim permitem a
mudança do direito sem que ocorra alteração do texto da lei.
- O Estado Constitucional de Direito é um Estado de ponderação.
OBS: essa estrutura normativa possibilita, assim, uma maior adequação das
normas às mudanças sociais cada vez mais rápidas.
- Ex. art. 4, III:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por
objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o
respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de
seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de
vida, bem como a transparência e harmonia das relações de
consumo, atendidos os seguintes princípios:
III - harmonização dos interesses dos participantes das
relações de consumo e compatibilização da proteção do
consumidor com a necessidade de desenvolvimento
econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos
quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição
Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações
entre consumidores e fornecedores;

OBS: a ponderação dos princípios e os hard cases


OBS: o novo CPC também traz em seu bojo muito mais normas
principiológicas do que o anterior, aumentando, assim, a importância do
intérprete.
1.2 – Vocação e Expansão
- O CDC tem uma curiosa característica de possuir categorias que não
propriamente são diretamente ligadas a relação de consumo.
OBS: quando o CDC foi editado (1990) ainda vivíamos sob a égide do antigo
CC/1916. Assim a jurisprudência e doutrina civilista voltaram seus olhares para
o moderno CDC e se tornou comum utilizar-se de conceitos e normas do CDC
para resolver conflitos que não tinham natureza consumerista.
- Com a edição do CC/02 muitos desses conceitos foram previstos
também no então novo código civil, a exemplo da boa-fé (art. 113, 187 e 422,
todos do CC).

1.3 – Diálogo das Fontes


- Conceito: utilização de normas variadas que “dialogam” entre si, para
dar uma resposta mais justa à luz da CF, a um determinado problema.
- Art. 7º, CDC:
Art. 7° Os direitos previstos neste código não excluem outros
decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que o
Brasil seja signatário, da legislação interna ordinária, de
regulamentos expedidos pelas autoridades administrativas
competentes, bem como dos que derivem dos princípios gerais
do direito, analogia, costumes e eqüidade.

- O STJ reconhece essa característica do CDC: “o art. 7 da lei nº


8078/90 fixa o chamado diálogo das fontes, segundo o qual sempre que uma
lei garantir algum direito para o consumidor, ela poderá se somar ao
microssistema do CDC, incorporando-se na tutela especial e tendo a mesma
preferência no trato da relação de consumo” (STJ, Resp 103.7759, Rel. Min.
Nancy Andrighi, 3ª T., Dj 05/03/10).

1.4 – Irrelevância de Aspectos Formais


- Um sistema de direito privado baseado em formalismos extremados é
próprio do sec. XIX. O CDC tem como preocupação primordial a efetividade de
suas normas, não se importando com discussões meramente formais.
- Ex: caracteriza-se fornecedor quem se enquadra na previsão do art. 3º
do CDC. Contudo, não é relevante a denominação ou forma jurídica adotada
pelo fornecedor para não se enquadrar como tal e fugir das suas
responsabilidades.

Art. 3º: Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou


privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes
despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção,
montagem, criação, construção, transformação, importação,
exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou
prestação de serviços.

- Nesse sentido o STJ: “a operadora de serviço de assistência à saúde que


presta serviços remunerados à população, tem sua atividade regida pelo CDC,
pouco importando o nome ou a natureza jurídica que adota”. (STJ, Resp
267.530, Rel. Min. Rui Rosado de Aguiar, 4ª T., Dj 12/03/01).

OBS: no mesmo sentido – Resp. 4.987, Rel. Min. Sálvio de Figueredo Teixeira,
4ª T., Dj 28/10/91; Resp. 140.097, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, 4ª T., Dj
11/09/00.
- Reconhece-se assim, um pragmatismo inteligente do CDC.

2 – PRINCÍPIOS DO CDC

2.1 – Vulnerabilidade do consumidor


- Esse princípio fundamenta e define a própria relação de consumo. É
em razão dela que foi editado o CDC.
OBS: vulnerabilidade é diferente de hipossuficiência. Esta última deve
ser aferida pelo juiz no caso concreto e, se constatada, poderá fundamentar a
inversão do ônus da prova (CDC, art. 6º, VIII). Já a presunção de
vulnerabilidade do consumidor é absoluta. Todo consumidor é vulnerável por
força de lei.
Outra perspectiva dessa diferença é afirmar que a hipossuficiência tem
caráter de direito processual e a vulnerabilidade caráter de direito material
(STJ, Resp. 1.293.006).
- Vale ressaltar que a vulnerabilidade da pessoa física (consumidora) é
presumida, ao passo que a vulnerabilidade da pessoa jurídica (consumidora) é
relativa e deverá ser demonstrada no caso concreto.
- Assim, caso a vulnerabilidade da pessoa jurídica não seja demonstrada
estamos diante de uma relação empresarial e não consumerista.

2.2 – Transparência
- O CDC, prestigiando a boa-fé, exige transparência dos atores do
consumo, impondo às partes o dever de lealdade recíproca antes (oferta),
durante (contrato) e depois (trocas, garantias) da relação de consumo.
- Ex.: art. 4 e art. 54, §4º
- STJ: Resp. 586.316; Resp. 977.341.
- A transparência veda, entre outras condutas, que o fornecedor se valha
de cláusulas dúbias ou contraditórias para excluir direitos de consumidor. Ex:
súmula 402, STJ: “o contrato de seguro por danos pessoais compreende os
danos morais, salvo cláusula expressa de exclusão”.
OBS: teoria da aparência tem sido cada vez mais usados em julgados relativo
às relações de consumo. Afinal, p. ex., na contratação de seguro, o corretor
age, aos olhos do consumidor, como se fosse a própria seguradora.

2.3 – Informação
- tem duas espécies: a) direito de ser informado e b) dever de informar.
- Assim, informação falha ou defeituosa gera responsabilidade. Ex:
“CIVIL. SEGURO DE ASSISTÊNCIA MÉDICO-HOSPITALAR. PLANO DE
ASSISTÊNCIA INTEGRAL (COBERTURA TOTAL), ASSIM DENOMINADO NO
CONTRATO. As expressões “assistência integral” e “cobertura total” são
expressões que tem significado unívoco na compreensão comum, e não
podem ser referidas nem contrato de seguro, esvaziada de seu conteúdo
próprio, sem que isso afronte o princípio da boa fé nos negócios” (STJ, Resp.
264.562, 1/08/01).
- A omissão de informação relevante pode se caracterizar publicidade
enganosa.
- Segundo o STJ entende que informação adequada é aquela completa,
gratuita e útil.
- Por exemplo:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor: III - a informação
adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com
especificação correta de quantidade, características,
composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como
sobre os riscos que apresentem;
Art. 8° Os produtos e serviços colocados no mercado de
consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos
consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis
em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os
fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações
necessárias e adequadas a seu respeito.
Art. 31. A oferta e apresentação de produtos ou serviços
devem assegurar informações corretas, claras, precisas,
ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características,
qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos
de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os
riscos que apresentam à saúde e segurança dos
consumidores.

- a obrigação de informação, segundo a jurisprudência, é dividida em


quatro categorias: a) informação-conteúdo (características intrínsecas ao
produto e serviço); b) informação-utilização (como se usa o produto ou serviço);
c) informação-preço (custo, formas e condições de pagamento) e d)
informação-advertência (risco do produto ou serviço)