Você está na página 1de 622

■ A

EDITORA FORENSE se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua


edição (impressão e apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-
lo). Nem a editora nem o autor assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou
perdas a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra.
Todos os direitos reservados. Nos termos da Lei que resguarda os direitos autorais, é proibida
a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou
mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão
por escrito do autor e do editor.

Impresso no Brasil – Printed in Brazil

■ Direitos exclusivos para o Brasil na língua portuguesa


Copyright © 2019 by
EDITORA FORENSE LTDA.
Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional
Rua Conselheiro Nébias, 1384 – Campos Elíseos – 01203-904 – São Paulo – SP
Tel.: (11) 5080-0770 / (21) 3543-0770
faleconosco@grupogen.com.br / www.grupogen.com.br

■ O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma


utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da
divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998).
Quem vender, expuser à venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra
ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obter ganho, vantagem,
proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem, será solidariamente responsável com
o contrafator, nos termos dos artigos precedentes, respondendo como contrafatores o
importador e o distribuidor em caso de reprodução no exterior (art. 104 da Lei n. 9.610/98).

■ Fechamento desta edição: 08.10.2018


Produção digital: Geethik

■ CIP – BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE.


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
G65e
Gonzaga, Alvaro de Azevedo

Estatuto da Advocacia e novo Código de Ética e Disciplina da OAB comentados / Alvaro de


Azevedo Gonzaga, Karina Penna Neves, Roberto Beijato Junior. – 5. ed. – Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: MÉTODO, 2019.

ISBN 978-85-309-8318-5

1. Brasil. [Estatuto da Advocacia e Ordem dos Advogados do Brasil (1994)]. 2. Ordem dos
Advogados do Brasil. 3. Advogados – Estatuto legal, leis, etc. – Brasil. 4. Ética jurídica –
Brasil. I. Neves, Karina Penna. II. Beijato Junior, Roberto. III. Título.
18-51360 CDU: 347.965.8(81)

Meri Gleice Rodrigues de Souza – Bibliotecária CRB-7/6439


Dedicamos este livro a todos os advogados militantes e profissionais do Direito
que ensinam ética em seu labor diário.
Nesta edição, atualizamos alguns julgados, reforçamos argumentos de
posições já defendidas e apresentamos as recentes alterações do Diário Oficial
da OAB e da regulamentação do processo eletrônico.
No mais, colocamo-nos à disposição dos leitores para as ricas observações
que recebemos de aproveitamento da obra.
Além do texto da obra, foram gravados breves vídeos que cumprem com um
papel complementar a fim de dialogar com o leitor sobre as inovações da
matéria. Tais vídeos podem ser acessados pelo QR Code abaixo:

São Paulo, outubro de 2018.


Os Autores
Após pouco mais de um ano de vigência do Novo Código de Ética e
Disciplina, pudemos perceber e avaliar com mais acuro como os tribunais de
ética vêm se posicionando sobre os novos institutos deste diploma.
Foram feitas as atualizações necessárias, não apenas dos julgados, mas
também dos primeiros traços do Processo Virtual (Provimento nº 176/2017) na
OAB.
Eis que apresentamos esta 4ª edição, com os votos de que este livro se
renove com o mesmo ânimo da advocacia.

Os Autores
A obra Estatuto da Advocacia e Novo Código de Ética e Disciplina da OAB
comentados, desde sua primeira edição, alcançou grande repercussão e foi
acolhida pelos meios jurídico e universitário e pelos candidatos ao Exame da
Ordem, fato este que nos envaidece, mas aumenta ainda mais nossa
responsabilidade.
Cientes disso, apresentamos a 3ª edição desta obra revista, ampliada e já
contemplada com os mais recentes julgamentos dos Tribunais de Ética de todo
Brasil.

São Paulo, março de 2017.


Os Autores
Em 28 dias o ciclo lunar se completa.
Nem em nossas melhores projeções seria esse o período para esgotar a
primeira edição deste livro.
As ricas contribuições dos colegas da advocacia, dos julgadores dos TEDs,
de todo o Brasil, bem como de nossos colegas de docência, proporcionaram o
aprimoramento desta obra.
Além disso, fomos atentos às alterações do texto do Novo CED, do EOAB e
do Regulamento Geral, em especial às Resoluções 1 a 7 do Conselho Federal.
Grande conquista da sociedade e da Advocacia consiste na inserção da
definição e da possibilidade de solicitação de inclusão do nome social de
advogadx travesti ou transexual que se identifica e é socialmente reconhecidx
como tal, mediante seu requerimento.
Aguardando as observações para o constante aprimoramento deste livro,
agradecemos.

São Paulo, julho de 2016.


Os Autores
O Novo Código de Ética festeja a democracia que temos e que conquistamos
com muito suor ao longo da história. Temos certeza de que a OAB não só lutou
por essa conquista como continua sendo uma constante guardiã da manutenção
dos pressupostos de nosso Estado Democrático de Direito, e, nesse diapasão, um
novo Código de Ética contribui para aprimorar ainda mais nossa profissão.
Sabemos que a ética não deve ser debatida apenas no campo abstrato, sem
aplicação concreta. Sabemos, também, que ela, mais que um norte distante, deve
ser um lema constante. A ética é fundamental para a proteção da classe dos
advogados. A independência e o sigilo profissionais, a postura digna, leal e
urbana e o respeito aos contratos são essenciais ao bom conceito do advogado na
sociedade. Devemos nos portar com a dignidade das pessoas probas e respeitar o
cliente para exigir o recíproco respeito, pois ética e prerrogativas são
indissociáveis da advocacia.
Um Código de Ética, maduro, que surge sob o desígnio da participação. Uma
proposta elaborada por uma comissão de notáveis conselheiros federais, sob a
relatoria do decano do plenário e medalha Rui Barbosa, Paulo Roberto de
Gouveia Medina, sendo submetida a uma densa abertura para consulta pública
pela internet e às instituições e entidades, avaliada pelo colégio de presidentes de
seccionais e, finalmente, apreciada pelos representantes da advocacia brasileira,
legitimados pelo Estatuto a representar a classe.
Possível apontar alguns embargos ao texto, mas, seguramente, este Código
contempla muitas das exigências hodiernas da prática advocatícia. O futuro que
se discutia hoje é presente para nossa advocacia.
Esperamos que a experiência docente e acadêmica aliada à experiência
prática profissional destes que subscrevem possam ser elementos delineadores
deste trabalho que se apresenta.

São Paulo, abril de 2016.


Os Autores
Em A Era dos Direitos, Norberto Bobbio traz a lume a importância da
concepção de pessoa solidificada pela cristandade. Embora o conceito já
estivesse presente na humanidade, foi no ambiente teológico, cristão, que a ideia
de igualdade mínima entre os homens, atribuída pelo fato de pertencerem à
mesma espécie e serem filhos do mesmo pai, se cristalizou.
As Revoluções Francesa e Americana secularizam essa condição, e, a partir
de então, passou a existir no plano institucional, e do Direito, o reconhecimento
de um conjunto de garantias mínimas a qualquer ser humano. Trata-se, sem
dúvida alguma, do conceito mais revolucionário de toda a História Humana, pois
implicou uma série de mudanças na forma como um homem vê o outro. Esse
outro deixa de ser algo passível de apropriação. A escravidão, por exemplo,
passa a ser vista, pela maioria das sociedades, como uma prática repudiável. E é
justamente dessa ideia de igualdade que se origina a ideia de liberdade. Como
aponta Ronald Dworkin, em A Virtude Soberana, a igualdade é a virtude
primária da qual derivam todas as demais.
A partir desse entendimento, a humanidade ruma para uma expansão cada
vez maior de direitos e inicia-se, assim, um patamar de civilidade e dignidade
nunca antes observados nas relações humanas. A adoção universal de valores
democráticos se traduz, no ambiente do Direito, na constituição do Estado
democrático de Direito, o qual se afirma de maneira definitiva, sobretudo no
mundo ocidental, após a Segunda Guerra Mundial.
Os aspectos históricos, embora verdadeiros e necessários para
compreendermos como chegamos até aqui, não são suficientes para explicar de
que forma isso ocorreu. O processo evolutivo de que tratamos, ainda que possa
ser observado por qualquer estudante de Direito em livros de Teoria Geral
do Estado, não se deu de forma linear, direta. Os avanços não estiveram imunes
a tropeços e retrocessos, muito menos representaram o abandono de condutas
autoritárias do Estado, as quais passaram a coexistir com as democracias
constituídas, sob a forma de “medidas de exceção”. O nazismo, o fascismo e as
ditaduras militares na América Latina são, talvez, os exemplos mais
emblemáticos dessa interseção entre democracia e autoritarismo.
A decretação de governos de exceção, caracterizados pela suspensão dos
direitos da sociedade, ou de uma parcela dela, sob a justificativa de que havia um
inimigo a ser combatido, foi uma constante ao longo do século XX.
O exemplo mais dramático na modernidade de sujeição do ser humano à
violência institucional do Estado foi o do aprisionado no campo de concentração,
sem direito à defesa, desprovido de qualquer proteção – a “vida nua”, tal como
descrito por Giorgio Aganbem –, identificado não por um nome, mas por um
número, uma inscrição. A mesma violência é praticada hoje em Guantánamo e
nas prisões brasileiras, onde milhares de pessoas são encarceradas
preventivamente sem ainda ter exercido o seu direito de defesa.
Mais recentemente, tivemos no Patriotic Act, declarado nos Estados Unidos
após os ataques às torres gêmeas, um exemplo acabado da incorporação de
medidas de exceção em um governo democrático. O combate ao terrorismo
justificou a perseguição a uma comunidade – no caso, a árabe, e, mais
especificamente, praticante do islamismo –, identificada como inimiga. E, assim,
essas pessoas foram destituídas de seus direitos, o que resultou, na prática, na
possibilidade de que fossem investigadas sob tortura, presas sem indicação de
culpa ou crime cometido e, principalmente, sem direito à defesa.
Na América Latina, as medidas de exceção são ainda mais ardilosas, pois
embora não se criem legislações que permitam ao Estado declarar parcela da
sociedade como inimiga, a fatia maior dessa sociedade – representada pela
pobreza – é tratada como tal. No continente, ao se confundir deliberadamente a
figura do bandido com a pobreza, subtraem-se os direitos da população mais
vulnerável, para que se possa atingi-lo. O “bandido”, nesta circunstância, é tido
como inimigo social, e não como cidadão que erra, mas permanece detentor de
direitos mínimos, tal qual ocorre quando o acusado ou criminoso pertence à
parcela social economicamente incluída. Tampouco é o indivíduo que, ao ser
acusado de cometer um crime, é processado e julgado, mas, sim, aquele que é
alcunhado como tal pela mídia e assim designado por um certo consenso social.
Esse amesquinhamento das garantias asseguradas pelo Estado democrático
de Direito é, certamente, a principal razão pela qual o exercício da advocacia é
tão importante no mundo contemporâneo.
Como salvaguardar direitos fundamentais do ser humano em um momento
da história tão complexo e contraditório, talvez, seja a questão crucial da
advocacia hoje. De um lado, temos uma conjuntura mundial que, com todos os
seus conflitos e disparidades, é menos conturbada em relação às tragédias e aos
genocídios observados no período anterior à Guerra Fria, um período de relativa
paz no mundo, em que a maioria dos países ocidentais tem regimes democráticos
e em que os Direitos Humanos, pela primeira vez na história, passam a contar
com tribunais internacionais. De outro, por uma contradição que faz parte da
humanidade, temos instituições cada vez mais permeadas por uma perspectiva
punitivista, que, embora tenha no Direito Penal o seu foco maior, espalha-se por
todos os demais âmbitos do Direito.
Mais do que nunca na história da modernidade, a advocacia, nesse mundo
violento e de desagregação social, mostra-se uma profissão fundamental para
resgatar o que de melhor a humanidade produziu até aqui. O advogado é o
guardião dos valores maiores da nossa civilização e, tal qual um templário da
contemporaneidade, tem como missão lutar por igualdade e liberdade. De todas
as profissões, a advocacia é a que tem a qualidade de se voltar à defesa do ser
humano como tal – não como objeto nem como inimigo. Toda a ética
profissional tem de estar voltada para essa perspectiva.
Ouso dizer que, das funções do Direito, a advocacia representa o papel mais
nobre, pois é aquela que, exercida sem função de autoridade, impõe limite ao
poder do Estado. O advogado, ao contrário do promotor e do juiz, não goza da
possibilidade do uso legítimo da força, e é por meio da palavra que combate o
emprego da violência – institucionalizada ou não.
Por guerrear unicamente com essa arma pacífica, o exercício profissional da
advocacia deve ter como primado a garantia de suas prerrogativas em relação à
ação do Estado, como forma de assegurar a defesa dos seus assistidos, ou seja,
da cidadania que ele protege. É importante destacar que tais prerrogativas não
são meros direitos pessoais do advogado, mas, sim, instrumentos para a
preservação de valores fundamentais, o que, em essência, significa a defesa do
ser humano como alguém provido de um mínimo de proteção jurídica e política.
A violência contra o advogado se exerce mais intensamente nos dias de hoje
no plano simbólico, à medida que o associam com a defesa do crime e da figura
do criminoso. O advogado não defende o crime nem a conduta humana ou
sequer a pessoa do acusado. Ele defende os diretos da pessoa, a condição
humana na sua dimensão jurídico-política.
Para que possa ao mesmo tempo superar essa simbologia equivocada,
proteger valores essenciais e combater o uso abusivo da violência institucional, o
advogado deve contar com uma legislação que regule a profissão e garanta que
seja exercida de forma plena. Logo, essa também é uma batalha que deverá
travar com paixão.
O jovem que ingressa na carreira profissional precisa estar convicto de que
defender suas prerrogativas não é apenas um direito dele, mas também um dever,
e que ao fazê-lo não está agindo em favor de si próprio, e sim de toda a categoria
profissional e, mais ainda, da sociedade e das garantias conquistadas ao longo de
todo um processo civilizatório. É preciso não se desviar da certeza de que cada
vez que ele defender os direitos de um indivíduo, a cidadania e a humanidade
serão defendidas pelo que de humano há em cada um de nós.

Pedro Estevam Serrano


Advogado, Professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Mestre e Doutor em
Direito do Estado pela PUC-SP, Pós-doutorado pela Universidade de Lisboa.
A deontologia jurídica, matéria que se dedica ao estudo dos deveres atinentes
aos profissionais do Direito, é fundamental ao exercício ético e à dignidade da
advocacia. Etimologicamente, deontos significa o dever de fazer, e logos
representa o discurso sobre determinada matéria, versando, portanto, a
deontologia jurídica sobre as condutas que devem ser adotadas pelos advogados
no cumprimento de seu mister.
A advocacia, como função indispensável à administração da Justiça, assim
consagrada pela Constituição da República de 1988, em seu artigo 133, deve
obedecer a normas e condutas éticas que sejam condizentes com a relevância e o
caráter público das funções desempenhadas.
As condutas e os valores considerados éticos não são absolutos, atemporais,
tampouco são passíveis de dedução abstrata ou metafísica. Transformam-se ao
longo da história e são forjados concretamente, como expressão e reflexo das
posturas consideradas por determinado grupo ou sociedade adequadas e
desejáveis.
Assim também ocorre com a ética profissional, que se atualiza à medida que
se modernizam as práticas profissionais, as relações sociais e a percepção da
sociedade a respeito do bom e do justo.
A partir dessa necessidade social de atualização, o Conselho Federal da
OAB, contando com a participação de toda a advocacia brasileira, aprovou um
novo Código de Ética e Disciplina para a classe, visando modernizar as
normativas éticas que regem o exercício da profissão, bem como fortalecer o
compromisso indissociável que o advogado deve firmar com os valores
democráticos e seus constituintes.
Zelar pelo caráter de essencialidade e indispensabilidade da profissão, atuar
com independência, honestidade, decoro e veracidade, contribuir para o
aprimoramento das instituições, do Direito e das leis são apenas alguns dos
deveres ratificados pelo novo diploma.
Não se trata de meros conselhos ou recomendações para o bom desempenho
da profissão. Os deveres instituídos pelo Código de Ética e Disciplina
consubstanciam-se em normas cogentes, vinculam todos os advogados à sua
observância, sob pena de cometimento de infração disciplinar.
Por isso, este livro carrega uma dupla importância. De um lado, lança luzes
sobre a nova regulamentação das condutas éticas da advocacia, incitando a
classe não apenas a conhecer, mas a respeitar diuturnamente esses deveres no
trato com seus clientes e com as partes processuais, assim como na condução dos
processos e dos casos em que atua.
De outro lado, exalta a observância das normas de conduta ético-profissional
como motivo provocador de profundos reflexos na sociedade, a qual passa a
contar com serviços de profissionais comprometidos com a defesa dos direitos,
destemidos e independentes, atuando em prol da defesa e do devido processo
legal, perquirindo, em última instância, a realização da justiça e a garantia das
liberdades recíprocas, fundamentais à vida em sociedade.
A obra solidifica o entendimento de que o advogado ético, que coloca à
frente de sua atuação profissional a defesa de seu cliente e da ordem
constitucional, é peça fundante e indispensável à construção de uma sociedade
verdadeiramente justa e democrática.

Marcus Vinicius Furtado Coêlho


Advogado e Ex-Presidente do Conselho Federal da OAB
ESTATUTO DA ADVOCACIA E A ORDEM DOS ADVOGADOS DO
BRASIL

TÍTULO I – DA ADVOCACIA
Capítulo I – Da Atividade da Advocacia
Capítulo II – Dos Direitos do Advogado
Capítulo III – Da Inscrição
Capítulo IV – Da Sociedade de Advogados
Capítulo V – Do Advogado Empregado
Capítulo VI – Dos Honorários Advocatícios
Capítulo VII – Das Incompatibilidades e Impedimentos
Capítulo VIII – Da Ética do Advogado
Capítulo IX – Das Infrações e Sanções Disciplinares

TÍTULO II – DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL


Capítulo I – Dos Fins e da Organização
Capítulo II – Do Conselho Federal
Capítulo III – Do Conselho Seccional
Capítulo IV – Da Subseção
Capítulo V – Da Caixa de Assistência dos Advogados
Capítulo VI – Das Eleições e dos Mandatos

TÍTULO III – Do Processo na OAB


Capítulo I – Disposições Gerais
Capítulo II – Do Processo Disciplinar
Capítulo III – Dos Recursos

TÍTULO IV – DAS DISPOSIÇÕES GERAIS E TRANSITÓRIAS

CÓDIGO DE ÉTICA E DISCIPLINA DA ORDEM DOS ADVOGADOS


DO BRASIL

TÍTULO I – DA ÉTICA DO ADVOGADO


Capítulo I – Dos Princípios Fundamentais
Capítulo II – Da Advocacia Pública
Capítulo III – Das Relações com o Cliente
Capítulo IV – Das Relações com os Colegas, Agentes Políticos, Autoridades,
Servidores Públicos e Terceiros
Capítulo V – Da Advocacia Pro Bono
Capítulo VI – Do Exercício de Cargos e Funções na OAB e na Representação
da Classe
Capítulo VII – Do Sigilo Profissional
Capítulo VIII – Da Publicidade Profissional
Capítulo IX – Dos Honorários Profissionais

TÍTULO II – DO PROCESSO DISCIPLINAR


Capítulo I – Dos Procedimentos
Capítulo II – Dos Órgãos Disciplinares
Seção I – Dos Tribunais de Ética e Disciplina
Seção II – Das Corregedorias-Gerais

TÍTULO III – DAS DISPOSIÇÕES GERAIS E TRANSITÓRIAS

TABELA COMPARATIVA DO NOVO CÓDIGO DE ÉTICA E


DISCIPLINA
ÍNDICE ALFABÉTICO-REMISSIVO DO NOVO CÓDIGO DE ÉTICA E
DISCIPLINA
Comentários
As atividades privativas inauguram o EAOAB antes mesmo de qualquer
requisito ou definição sobre o que é o advogado, qual o seu papel na sociedade e
os requisitos indispensáveis para sua inscrição nos quadros do Conselho
Seccional.
O inciso I trata de atividades propriamente judiciais, enquanto o inciso II
elenca a caracterização típica de atividades extrajudiciais que dependem não
somente da formação em direito, como da regular inscrição do advogado nos
quadros da OAB.
O EAOAB procura tratar, desde seu início, das atividades que devem ser
consideradas como privativas para o exercício da advocacia, elencando uma
série de deveres a serem observados pelos advogados, merecendo destaque:

a) Postulação em Juízo: postular é pedir, solicitar a prestação de algo.


Segundo dispõe o EAOAB, o advogado é o único com capacidade
postulatória, previsão encontrada também no Novo Código de Processo
Civil em seu art. 103, caput, enquanto seu parágrafo único dispõe que
“lícito à parte postular em causa própria quando tiver habilitação legal”,
devendo as partes possuir capacidade processual para estar (e não
postular) em juízo. Qualquer exceção a esta regra deve estar legalmente
estabelecida.
b) Assessoria, Consultoria, Direção e Gerência Jurídica: todas estas
atividades são privativas do advogado regularmente inscrito na OAB,
não podendo ser exercida por bacharel ou por estagiário, configurando-
se exercício ilegal da profissão nos termos dos arts. 47 da Lei de
Contravenções Penais e 4º do RGEAOAB.
c) Visto em Atos Constitutivos de Sociedade: por exigência legal, toda
pessoa jurídica deve ter seus atos constitutivos assinados por advogado.
Para que o contrato social surta seus efeitos, portanto, o advogado
deverá acompanhar e subscrever o instrumento, somente tendo seu
registro deferido pela Junta Comercial nestes casos, considerando-se
nulo o ato na sua ausência, seguindo o regramento da Lei de Registros
Públicos, em seu art. 114, incisos e parágrafo único.
A exceção faz-se para micro e pequenas empresas, que, por força da Lei
Complementar 123/2006, dispensa a presença de advogado para sua
constituição, portanto sendo assim realizada.
d) Atos Extrajudiciais Determinados por Lei: ainda que para atos
extrajudiciais não se exija a capacidade postulatória, é importante
mencionar que em alguns casos a lei exige a presença de um advogado
para ratificá-los e para que surta seus efeitos legais, como em
inventários, separações e divórcios extrajudiciais, nos termos dos arts.
610 e 733 do Novo Código de Processo Civil de 2015, tendo como
fundamento a Resolução 35/2007 do Conselho Nacional de Justiça.

Em razão da ADIn 1.127-8, o Supremo Tribunal Federal entendeu que a


postulação em juízo, apesar de ato privativo do advogado, deve ser relativizada
em alguns casos, tornando dispensável o advogado em oito hipóteses:

a) Habeas Corpus: o § 1º procura esposar entendimento sobre a não


obrigatoriedade de advogados para impetração de Habeas Corpus, isto
porque o texto constitucional já resguardou como garantia fundamental
e cláusula pétrea de todo e qualquer cidadão, insculpido no art. 5º,
LXVIII, ratificado igualmente pelo Código de Processo Penal, no art.
654, prevendo que “O habeas corpus poderá ser impetrado por
qualquer pessoa, em seu favor ou de outrem, bem como pelo Ministério
Público”. O advogado, assim, é dispensável para impetração de habeas
corpus, uma vez que se impetra como cidadão, juntando cédula de RG
ou título de eleitor para tanto. Mesmo quando quem o impetra é
advogado, não o faz no exercício regular de sua profissão, mas sim
como cidadão.
O Superior Tribunal de Justiça, por exemplo, recebeu, em 25 de junho
de 2015, Habeas Corpus escrito à mão em papel higiênico enviado de
paciente preso na penitenciária de Guarulhos I (SP), e, em 20 de abril de
2015, a mesma Corte Superior já havia registrado outro pedido
encaminhado da mesma maneira. Em 2014, um detento do Ceará
redigiu suas razões em um pedaço de lençol.
Vale ressaltar que a EC 45/2004 determina que para concursos se
comprovem três anos de efetivo exercício da advocacia, o que se faz por
pelo menos cinco atos privativos de advogado ao ano, não entrando no
cômputo impetrações de habeas corpus, devendo-se levar em
consideração a listagem feita pelo REGOAB, em seu art. 5º, parágrafo
único e alíneas, constituindo-se em rol taxativo de possibilidades.
Ainda no tocante ao Habeas Corpus, existem discussões doutrinárias e
judiciais acerca da possibilidade de Recurso em HC ser realizado pelo
próprio paciente, sem a necessidade de advogado e de capacidade
postulatória, posição esta que faz sentido, uma vez que a capacidade
para recorrer decorre da capacidade para postular, como extensão do
direito de ação e se o habeas corpus é assegurado a todos sem a
necessidade de capacidade postulatória, perde o sentido a jurisprudência
negar o exercício pleno deste direito.
b) Juizados Especiais de Pequenas Causas e Juizados Especiais
Federais: em ambos os casos é possível a postulação sem a necessidade
de advogado. No Juizado Especial de Pequenas Causas, regulado pela
Lei 9.099/1995, pode a parte comparecer em juízo para propor demanda
de até 20 salários mínimos, por força do art. 9º, enquanto no Juizado
Especial Federal, regulado pela Lei 10.259/2001, pode-se propor
demanda de até 60 salários mínimos, conforme dispõe o art. 10 sem a
presença de advogado.
Ressalte-se que nos Juizados Especiais de Pequenas Causas se podem
pleitear valores de até 40 salários mínimos, momento no qual a presença
do advogado se fará obrigatória.
Sobre os Juizados Especiais Criminais, inclusive os federais, a presença
do advogado será sempre requisito obrigatório, de acordo com o art. 68
da Lei 9.099/1995 e do já decidido pelo STF na ADIn 3.168/DF.
c) Justiça do Trabalho: mesma maneira deve-se observar e estender este
entendimento à Justiça do Trabalho, em que impera o princípio do jus
postulandi, nos moldes dispostos no art. 791 da CLT, estipulando que
“os empregados e os empregadores poderão reclamar pessoalmente
perante a Justiça do Trabalho e acompanhar as suas reclamações até o
final”, tendo sido relativizado para alcançar apenas os atos posteriores à
postulação inicial, além de não incidir nas ações de competência direta
do Tribunal Superior do Trabalho, por força da Súmula 425/10:

“JUS POSTULANDI NA JUSTIÇA DO TRABALHO.


ALCANCE. Res. 165/2010, DEJT divulgado em 30.04.2010 e 03
e 04.05.2010.

O jus postulandi das partes, estabelecido no art. 791 da CLT, limita-


se às Varas do Trabalho e aos Tribunais Regionais do Trabalho, não
alcançando a ação rescisória, a ação cautelar, o mandado de
segurança e os recursos de competência do Tribunal Superior do
Trabalho.”

Assim, verificamos que não há necessidade de advogado para a postulação


trabalhista, mas, se a parte estiver representada por causídico, diferentemente do
habeas corpus, entrará para o cômputo dos atos privativos de advogado para
concurso público.

d) Justiça de Paz: a competência legal da Justiça de Paz existe desde a


Constituição do Império de 1824, permanecendo na atual Carta Política
de 1988, tendo como fundamento celebrar casamentos, verificar de
ofício ou após impugnação o processo de habilitação e exercer funções
conciliatórias sem caráter jurisdicional.
e) Ação Revisional Penal: o Código de Processo Penal prevê em seu art.
623 que “A revisão poderá ser pedida pelo próprio réu ou por
procurador legalmente habilitado ou, no caso de morte do réu, pelo
cônjuge, ascendente, descendente ou irmão”, de modo que a ação de
revisão penal poderá ser proposta sem a presença de advogado pelo
próprio réu e em caso de falecimento, aqueles habilitados como seu
cônjuge, ascendentes, descendentes ou mesmo seu irmão.
f) Processo Disciplinar Administrativo: o STF, quando do julgamento
do Recurso Extraordinário 434.059, assentou o entendimento de que “a
falta de defesa técnica por advogado no processo administrativo
disciplinar não ofende a Constituição”, previsão inserida na Súmula
Vinculante nº 5, o que objetiva a dispensa do advogado.
g) Ação Direta de Inconstitucionalidade Proposta pelo Presidente da
República: o Presidente da República, quando empossado, poderá
apresentar ADIn perante o STF sem a necessidade de que advogado
assine a petição, embora se recomende o acompanhamento por um
causídico.
h) Lei de Alimentos: o Diploma Legal estabeleceu que a pessoa, quando
considerada pobre na acepção jurídica do termo, poderá procurar
diretamente ou com advogado o juízo competente para recebimento dos
alimentos devidos por força do art. 2º da Lei 5.478/68.

Observação: Mandado de Segurança, Ação Popular, Ação Civil Pública e


Ação Coletiva exigem a presença de advogado em sua postulação.
Apesar de os cursos jurídicos, de maneira geral, trabalharem com os
estudantes para prepará-los aos conflitos judiciais, devemos ressaltar que o
advogado pode também ter papel importante na Mediação e na Arbitragem, com
bases nas Leis 9.307/1996 e 13.140/2015 para resolução de conflitos.
Ainda que mediadores, árbitros ou conciliadores, as disposições do NCED
recaem sobre os advogados que exercem essas funções, bem como do EAOAB,
de modo que devem igualmente receber honorários por sua atuação quando da
instauração desses litígios (arts. 2º, VI, 48, § 4º, e 77 do NCED).
O NCPC tratou igualmente de estabelecer, entre os arts. 165 e 175,
disposições referentes à importância da mediação, conciliação e arbitragem para
os advogados, não apenas atuando no papel de mediador, árbitro ou conciliador,
mas também para propagar e incentivar a utilização desses meios para resolução
de litígios, que deve ser estimulada pelo Estado e pelos magistrados, segundo
dispõe o mesmo Diploma Processual Civil, em seu art. 3º, §§ 1º a 3º. Nas
palavras do Professor Paulo Lôbo:
“O trato do advogado com mediadores e árbitros leigos importa
conduta profissional desformalizada e aberta, porque deve sempre
estar disponível para a transação, com espírito conciliador. O
advogado não pretende que se diga o direito contra o outro, a vitória
de um e a derrota do outro, mas a justiça possível e
preferencialmente negociada. Sua aptidão para conciliar é mais
importante”. (LÔBO, Paulo Luiz Netto. Comentários ao Estatuto da
Advocacia e da OAB. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 12)

Devemos lembrar que o advogado não existe apenas para os casos em que
tenha litígios, devendo ele zelar pelo melhor interesse do seu cliente antes de
tudo. Buscar o justo pode significar não necessitar o ingresso no Judiciário,
resolvendo-se a questão de forma conciliatória e rápida, denotando a
preocupação do advogado com o seu cliente.

O Tribunal de Ética e Disciplina de São Paulo já decidiu sobre o exercício


irregular da profissão:

“E-3.279/06 – EXERCÍCIO DA PROFISSÃO –


CONSULTORIA JURÍDICA PRESTADA POR BACHAREL
EM DIREITO – IMPOSSIBILIDADE.

Não basta cursar a faculdade de direito, obter aprovação e ter


expedido seu diploma ou certificado de conclusão do curso, para ser
advogado. Para ser advogado é preciso estar inscrito na Ordem dos
Advogados do Brasil. São atividades privativas de advocacia a
postulação em juízo e as atividades de consultoria, assessoria e
direção jurídica. São nulos os atos privativos de advogado
praticados por pessoa não inscrita na OAB, sem prejuízo das
sanções civis, penais e administrativas (artigos 1º e 4º do EAOAB).
O bacharel em direito não pode sob qualquer hipótese prestar
consultoria jurídica, que é atividade privativa da advocacia, sob
pena de cometer crime de exercício ilegal da profissão
(Regulamento Geral – artigo 4º).” (V.U., em 16/02/2006, do parecer
e ementa do Rel. Dr. Luiz Antônio Gambelli – Rev. Dr. Fabio Kalil
Vilela Leite – Presidente Dr. João Teixeira Grande)

“EXERCÍCIO DA PROFISSÃO – ASSESSORIA E


CONSULTORIA JURÍDICAS PRESTADAS POR BACHAREL
EM DIREITO E ESTAGIÁRIO – IMPOSSIBILIDADE.

1 – Os cursos jurídicos não formam advogados, mas somente


bacharéis em direito, que, para habilitarem-se profissionalmente,
são obrigados a inscrever-se na OAB, cumprindo as exigências
definidas no artigo 8º do Estatuto, para só então serem autorizados a
exercer as atividades da advocacia e utilizar-se da denominação de
advogado, que é privativa dos inscritos na Ordem (artigo 3º do
Estatuto). Portanto, o bacharel em direito não pode sob qualquer
hipótese prestar assessoria e consultoria jurídicas, que são
atividades privativas da advocacia (artigo 1º, II, do Estatuto), sob
pena de cometer crime de exercício ilegal da profissão
(Regulamento Geral – artigo 4º). 2 – O estagiário, mesmo que
devidamente inscrito, também não poderá prestar assessoria e
consultoria jurídicas, a não ser que o faça em conjunto com
advogado e sob a responsabilidade deste (art. 3º, § 2º, do Estatuto).
3 – O advogado é o primeiro juiz de seus atos, portanto, deve
decidir, com base nas normas legais e de acordo exclusivo com sua
consciência e deveres para com sua profissão, quais as medidas que
entende necessárias para coibir as atitudes que julgue prejudiciais ao
pleno, legal e ético exercício da advocacia.” (TED/OAB/SP. Proc.
E-3.011/2004 – v.u., em 19/08/2004, do parecer e ementa do Rel.
Dr. Guilherme Florindo Figueiredo – Rev. Dr. Zanon de Paula
Barros – Presidente Dr. João Teixeira Grande)

Na mesma esteira, vemos decisão do Tribunal de Ética e Disciplina de Goiás:

“Ementa: Assinatura em Petição de Não Inscritos na OAB.


Advogado que permite a assinatura em petição a estudante de
Direito não inscrito como estagiário comete infração ético
disciplinar. Portanto, há que se aplicar a pena de censura prevista no
art. 35, inciso I, do EAOAB, devendo constar dos assentamentos do
inscrito, conforme dispõe o parágrafo único do artigo citado,
constante da Lei 8.906/94. Decisão: Representação julgada
procedente, aplicando ao representado a pena de censura, nos
termos do voto da Relatora.” (P. D. n.º 11.173/99. V. U. Presidente
da 1ª Turma do TED/OAB/GO – Dr. Célio Medeiros Cunha.
Relatora – Juíza Dalva Moura da Silva Martins. 04.05.2004)

Comentários
O § 3º traz importante vedação para divulgação da advocacia com outras
atividades. Por mais nobre que seja a outra profissão, não se pode ocorrer a
divulgação conjunta com a advocacia. A vedação ao exercício em conjunto com
outras atividades é total e procura privilegiar a profissão, não importando se a
outra atividade tenha natureza civil, comercial, público, privada ou mesmo não
lucrativa.
Igualmente, não se pode exercer no mesmo espaço profissão conjunta com a
advocacia. O profissional pode ser médico e advogado, contador e advogado,
engenheiro e advogado, mas não no mesmo espaço, motivo pelo qual a
identificação deve ser clara e inequívoca de que se trata tão somente de
escritório de advocacia.
Este parágrafo procura ratificar o esposado também pelo Código de Ética e
Disciplina de 2015, ao estipular em seu art. 39 que “a publicidade profissional
do advogado tem caráter meramente informativo e deve primar pela discrição e
sobriedade, não podendo configurar captação de clientela ou mercantilização da
profissão”, bem como pelo art. 4º e alíneas do Provimento 94/2000.
Com o Novo Código de Ética e Disciplina, aprovado pelo Conselho Federal
da OAB em 4 de novembro de 2015, procurou-se dar nova roupagem ao
dispositivo, aumentando as possibilidades de divulgação da atividade de
advogado, tais como levar em consideração o avanço tecnológico e das mídias
sociais.
Apesar disso, as empresas e comércios em geral podem possuir um
departamento jurídico para realizar todas as atividades jurídicas delimitadas no
objeto do contrato, não podendo prestar assessoria jurídica fora do objeto do
contrato. A vedação se faz como maneira de evitar a comercialização da
advocacia, para não ocorrer a “casadinha”, venda de um serviço em conjunto
com outro.

Sobre o tema, verificamos o posicionamento do Tribunal de Ética e


Disciplina de São Paulo:

“E-3.259/05 – EMENTA Nº 1 – EXERCÍCIO PROFISSIONAL


E ATIVIDADE ESTRANHA À ADVOCACIA – AS
ATIVIDADES PRIVATIVAS DA ADVOCACIA ESTÃO
PREVISTAS NO ARTIGO 1º DO ESTATUTO DA OAB –
PROFERIR PALESTRAS É ATIVIDADE ESTRANHA À
ADVOCACIA – O ADVOGADO, COMO QUALQUER
OUTRO CIDADÃO, PODE EXERCER A FUNÇÃO DE
PRELETOR, CONTUDO, A PROPAGANDA DAS
PALESTRAS A SEREM PROFERIDAS JAMAIS PODERÁ
SER FEITA EM CONJUNTO COM SUA ATIVIDADE
PROFISSIONAL, SOB PENA DE INFRAÇÃO AO § 3º DO
ARTIGO 1º DO ESTATUTO DA OAB.
Não poderá ser divulgado o exercício da advocacia em conjunto
com a atividade de ‘preletor’. Se a condição de ‘preletor’ admite
propaganda, o exercício da advocacia não a admite. O advogado na
divulgação de sua profissão (publicidade, e não propaganda) deverá
restringir-se aos ditames dos artigos 28 a 34 do Código de Ética e
Disciplina, da Resolução nº 2/92 do Tribunal de Ética e Disciplina
da OAB/SP – Turma Deontológica e do Provimento 94/2000 do
Conselho Federal da OAB.” (V.U., em 17/11/2005, da ementa e
parecer da Relatora Dr.ª Maria do Carmo Whitaker – Revisor Dr.
Benedito Édison Trama – Presidente ad hoc Dr. Fabio Kalil Vilela
Leite)
“EXERCÍCIO DE OUTRAS ATIVIDADES PROFISSIONAIS
SIMULTANEAMENTE COM A ADVOCACIA – CORRETOR
DE IMÓVEIS, DESPACHANTE POLICIAL E CORRETOR
DE SEGUROS.
Proibição total quanto ao exercício conjunto com a atividade de
despachante policial (art. 28 da Lei n. 8.906/94 e art. 1º do
Provimento 62/88). Inexistência de impedimento ou
incompatibilidade com relação às atividades de corretagem, embora
não recomendável. Necessidade imperiosa de preservação dos
preceitos éticos e de ordem pública, não podendo, por consequência,
serem as atividades conjuntas exercidas no mesmo espaço físico
nem angariar causas ou clientes e comprometer o direito/dever de
sigilo profissional e inviolabilidade do escritório de advocacia, além
da estrita obediência ao parágrafo 3º do art. 1º do EAOAB, que veda
a divulgação de advocacia em conjunto com outra atividade, melhor
entendido pela leitura do art. 31 do Código de Ética e Disciplina.”
(TED/OAB/SP. Proc. E – 1.389 – V.U. – Rel. Dr. Benedito Édison
Trama – Rev. Dr. José Carlos Magalhães Teixeira – Presidente Dr.
Robison Baroni)

E o Tribunal de Ética e Disciplina do Rio Grande do Sul segue o mesmo


entendimento:

“Ementa: DIVULGAÇÃO DOS SERVIÇOS DE ADVOCACIA


CONJUNTAMENTE COM CORRETAGEM DE IMÓVEIS.
Representação procedente. Incorre em sanção ética disciplinar
aquele que divulga serviços de advocacia conjuntamente com
corretagem de imóveis.” (TED/OAB/RS. Julgamento em 18 de
Setembro de 2007, Processo/ano: 239993/2006, Relator: Carlos
Felipe Vizzotto de Castro, Decisão: Unânime, Órgão Julgador:
Quinta Turma)

Há, entretanto, um limite para incursão na pena de exercer a atividade em


conjunto, isto é, nem sempre o advogado estará necessariamente infringindo o
dispositivo em comento, uma vez que ele pode exercer outras atividades, desde
que em locais distintos ou quando ambas são exercidas no mesmo imóvel, mas
em salas distintas. Vemos o posicionamento do TED de São Paulo sobre o
assunto:

“EXERCÍCIO PROFISSIONAL – ADVOGADO QUE


TAMBÉM EXERCE A PROFISSÃO DE ENGENHEIRO DE
SEGURANÇA DO TRABALHO.
Não existe proibição para que o advogado exerça outras profissões.
Deve fazê-lo em locais distintos e sem divulgação conjunta das
atividades sob pena de afronta ao art. 1º, § 3º, da Lei 8.906/94 e
Resolução 13/97 deste sodalício. O advogado não pode ainda
desenvolver essas atividades no mesmo local sob pena de violar o
sigilo profissional, independência e liberdade profissional e
caracterizar concorrência desleal e mercantilização vedados pelo
EAOAB e CED. Ementa nº 2.” (TED/OAB/SP. Proc. E-3.080/04 –
v.m., em 09/12/04, do parecer e ementa do Rel. Dr. Carlos Roberto
Fornes Mateucci – Rev. Dr. Fábio Kalil Vilela Leite – Presidente Dr.
João Teixeira Grande)

“ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA – EXERCÍCIO


CONCOMITANTE COM OUTRA ATIVIDADE
REGULAMENTADA NO MESMO LOCAL – CORRETOR DE
IMÓVEIS – NECESSIDADE DE DISTINÇÃO.
A atividade de corretor de imóveis pode ser desenvolvida
simultaneamente com o exercício da Advocacia, não estando
elencada em nenhuma das hipóteses de impedimento ou
incompatibilidade previstas nos artigos 28 a 30 do Estatuto vigente.
Necessidade de preservação dos preceitos éticos e de ordem pública,
não podendo, por consequência, serem as atividades conjuntas
exercidas no mesmo espaço físico nem angariar causas ou clientes.
Não caracterização da prática da infração ético-disciplinar prevista
no artigo 33, parágrafo único, do Estatuto da Advocacia e artigo 5o,
do Código de Ética e Disciplina, vez que as duas atividades, embora
desenvolvidas nas dependências do mesmo imóvel, apresentam
instalações distintas, não restando comprometido o direito/dever de
sigilo profissional e a inviolabilidade do escritório de advocacia.”
(TED/OAB/SP. Proc. E- 087/09 – v.m., em 25/03/11, Rel. (voto
divergente) Dr. Achilles Benedicto Sormani – Presidente Dr. Ailton
José Gimenez)

Comentários
O art. 2º do EAOAB disciplina aquilo que já é consagrado pela Constituição
Federal de 1988, que tratou em seu art. 133 que “o advogado é indispensável à
administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no
exercício da profissão, nos limites da lei”. Conforme ensinamentos do Professor
Paulo Lôbo:

“O princípio da indispensabilidade não foi posto na Constituição


como favor corporativo aos advogados ou para reserva de mercado
profissional. Sua ratio é de evidente ordem pública e de relevante
interesse social, como instrumento de garantia de efetivação da
cidadania. É garantia da parte e não do profissional”. (LÔBO, Paulo
Luiz Netto. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São
Paulo: Saraiva, 2010, p. 40)

Ao considerarmos sob o viés constitucional e com base no EAOAB,


verificamos que o advogado goza de quatro características principais, sendo elas:
Indispensabilidade; Inviolabilidade; Função Social e Independência, que
permeiam tanto este Estatuto, como o Código de Ética e Disciplina e o
Regulamento Geral.
Observa-se também que a Carta Política surge após um momento conturbado
da História brasileira, garantindo-se ao advogado a prerrogativa de indispensável
à manutenção da própria democracia e como fundamento para o acesso à justiça,
de modo que o art. 5º estipula no inciso XXXV que “a lei não excluirá da
apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”.
O ministério privado do advogado, isto é, o exercício regular da profissão, é
uma atividade enaltecedora das instituições democráticas e deve sempre ser
enaltecido como preponderante para sua manutenção.
Ao se enfatizar que o advogado presta serviço público e exerce função
social, não significa sua imediata promoção ao funcionalismo público sem a
necessidade de concurso público, o que é vedado pela Constituição Federal.
Pelo contrário, verificamos que o EAOAB dispôs que às vistas da sociedade
o desempenho do advogado, seja em atos judiciais ou extrajudiciais, é necessário
para que se cumpra a função social, delimitada em vários institutos da Carta
Magna.
Percebe-se a importância do advogado para administração da justiça quando
verificamos que se ressalta não apenas o seu múnus público, ou seja, sua
atividade como indispensável à sociedade e ao exercício da cidadania.
Eleva-se neste sentido a relevância do seu papel na sociedade, que não se
limita às relações processuais ou às atividades privativas de sua competência.
Historicamente a advocacia se encontra na defesa das instituições democráticas
brasileiras e na luta pela prevalência do bem social.
Por isso, a postulação em juízo é sempre com vistas a buscar o melhor
interesse do seu cliente, utilizando-se para tanto de todos os meios lícitos e
idôneos para convencer o julgador sobre o pleito realizado.
O advogado, no exercício regular de suas funções, tem ainda a
inviolabilidade por seus atos praticados e manifestações realizadas, sempre se
balizando de acordo com os preceitos legais em vigor.
Deve, portanto, agir com prudência e contribuir para o bom desenvolvimento
do processo judicial ou administrativo na defesa dos interesses dos clientes, sem
nunca deixar de seguir o ordenamento jurídico e a ética indispensável à
profissão.
Lembremos que esta disposição é válida apenas e tão somente quando o
advogado encontra-se exercendo a profissão. Em caso de encontrar-se em sua
vida privada, esta regra não poderá ser aplicada.

Comentários
Como extensão do art. 1º, deste EAOAB, o exercício da profissão de
advogado, tanto em sua atividade como em sua denominação, devem ser
privativos aos inscritos nos quadros da OAB, o que implica afirmar que somente
os oficialmente aprovados no Exame Nacional Unificado podem requerer a
inscrição nas seccionais. A faculdade de direito não forma advogados, mas é um
dos requisitos para sua inscrição.
Conforme já mencionado (vide comentários ao art. 1º do EAOAB), o
exercício da atividade por pessoa não habilitada implica em sanções e
penalidade legais nas esferas criminal, cível e disciplinar. A sujeição a esta lei é
ampla, mas gera inúmeras discussões no campo, uma vez que a subordinação ao
regime da lei comporta todos os profissionais que exercem a atividade jurídica.
Atentemo-nos também que a função de advogado descrita neste dispositivo
somente pode ser exercida por profissional regularmente inscrito no Conselho
Seccional da OAB do seu referido Estado, além de cumprir com todos os
requisitos indispensáveis para sua efetivação constantes no art. 8º, deste
EAOAB, que serão mais bem abordados quando da análise comentada do
dispositivo.
Sendo o EAOAB uma norma Federal, aplica-se a todos os integrantes no
âmbito da União Federal, dos Estados, Municípios, Distrito Federal e das
entidades da administração direta e fundacional, devendo observar as
disposições do Estatuto.
Embora se tenham inúmeras discussões sobre o alcance do Código de Ética e
Disciplina (como é o caso dos defensores), quanto à Lei não podem ficar
dúvidas, estando todos sob sua guarda, além das disposições concernentes ao
regime próprio de cada função.
Exemplo dessa discussão pode ser encontrado no art. 4º, § 6º, da Lei
Complementar 80/1994, com a redação dada pela Lei Complementar 132/2009,
aduzindo que a capacidade postulatória para o Defensor Público decorre
exclusivamente da sua nomeação e posse no cargo público.
O texto, porém, não permite inferir que exista a dispensa da inscrição do
Defensor Público nos regulares quadros da OAB. Na realidade, o dispositivo
demonstra que para postulação em juízo o Defensor Público não precisa fazer
prova do instrumento procuratório, bastando para tanto a posse no cargo. Esse é
o entendimento seguido pelo Conselho Federal e que consideramos o correto,
valendo este raciocínio para os Exames de Ordem.

Comentários
O estagiário, compreendido como o estudante de direito cursante do 4º ou 5º
anos e regularmente inscrito nos quadros da OAB, pode praticar os atos descritos
no caput deste artigo, em conjunto com outro advogado, jamais sozinho, ainda
que “autorizado” pelo advogado. Para tanto, deve observar o EAOAB, o Código
de Ética e Disciplina e o Regulamento Geral da OAB, de modo que a
responsabilidade pelos atos praticados pelo estagiário sempre será do advogado
que o acompanha e o instrui.
Embora no antigo EAOAB, de 1963, o estagiário pudesse praticar todos os
atos que hoje são privativos do advogado, devemos nos atentar que o caráter do
estágio não é o de profissionalizar o estudante, mas sim de instruí-lo na carreira,
isto é, o estágio não é uma profissão e o local em que ele se realiza, mesmo
sendo em escritório privados, tem como único intuito a educação do estagiário.
Bem expôs o Professor Paulo Lôbo:

“Ao contrário do Estatuto anterior, que permitiu o exercício pelo


estagiário dos atos não privativos de advogado, o novo Estatuto
faculta ao primeiro (regularmente inscrito na OAB) exercer todos os
atos, desde que acompanhado necessariamente por advogado
(incluindo o procurador ou o defensor público) e sob a
responsabilidade deste. A atuação do estagiário não constitui
atividade profissional; integra sua aprendizagem prática e tem
função pedagógica”. (LÔBO, Paulo Luiz Netto. Comentários ao
Estatuto da Advocacia e da OAB. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 41)

Para se identificar, deve sempre colocar a categoria estagiário junto à petição


ou documentos, ou seja, o número de sua inscrição seguida de “–E”, para
mostrar que não se trata de advogado, podendo incorrer em infração disciplinar
caso não o faça (quem responde é o advogado orientador de acordo com a
infração e o disposto no Código de Ética e Disciplina. O estagiário, no máximo,
recebe a pena de censura).
Tem como direito: retirar e devolver autos em cartório; obter certidões de
processo em curso ou findos; participar de atos extrajudiciais quando autorizado
ou substabelecido pelo advogado (como reunião de condomínio) e assinar
petição de juntada sozinho, seguindo as possibilidades previstas pelo no art. 29,
§§ 1º e 2º, do REGOAB. Todos esses atos praticados pelo estagiário não ensejam
o exercício da atividade profissional, já que sua função é unicamente pedagógica
e faz parte do seu aprendizado, justificando-se inclusive a necessidade de
acompanhamento por advogado responsável.
Mesmo sendo prática comum, o estagiário não pode despachar com o juiz,
sendo este um direito legal destinado somente ao advogado. Igualmente, não
pode figurar em publicidade do escritório ou no nome da sociedade, sob pena de
infração disciplinar, uma vez que apenas advogados podem constituir sociedade.
Dispõe o artigo 29 do Regulamento Geral o seguinte:

Art. 29. Os atos de advocacia, previstos no art. 1º do Estatuto,


podem ser subscritos por estagiário inscrito na OAB, em conjunto
com o advogado ou o defensor público.
§ 1º O estagiário inscrito na OAB pode praticar isoladamente os
seguintes atos, sob a responsabilidade do advogado:
I – retirar e devolver autos em cartório, assinando a respectiva
carga;
II – obter junto aos escrivães e chefes de secretarias certidões de
peças ou autos de processos em curso ou findos;
III – assinar petições de juntada de documentos a processos judiciais
ou administrativos.
§ 2º Para o exercício de atos extrajudiciais, o estagiário pode
comparecer isoladamente, quando receber autorização ou
substabelecimento do advogado.

Fato recente que merece menção no concernente aos limites da atuação do


estagiário se dá em caso ocorrido no TJDFT (Tribunal de Justiça do Distrito
Federal e Territórios). Na data de 7 de fevereiro de 2018, uma estagiária de
direito realizou sustentação oral perante a Câmara do Tribunal, nos autos da
Apelação nº 0004403-81.2016.807.0001, tendo o fato sido noticiado pelo próprio
órgão jurisdicional em questão.
Diante de tal fato, resta a dúvida: está o estagiário autorizado a realizar,
isoladamente, ato de sustentação oral perante órgãos do Poder Judiciário?
Por óbvio, não se inclui entre os atos que o estagiário pode praticar
isoladamente a formulação de sustentação oral perante órgãos do Poder
Judiciário.
Primeiramente, porque tal ato não se encontra entre as exceções taxativas
previstas no § 1º do art. 29 do RGEAOAB. Em segundo, porque a realização de
sustentação oral é, por excelência, um ato postulatório. Trata-se da oportunidade
conferida ao advogado para aduzir, presencial e oralmente perante os julgadores,
as razões por meio das quais o pleito defendido deve ser atendido, ao final,
requerendo expressamente a concessão do pedido.
Trata-se, assim, de um ato essencialmente postulatório e que, por sua
natureza, descabe o exercício isolado pelo estagiário.
O fato, ademais, de o advogado responsável se posicionar ao lado da
estudante enquanto esta realizava a sustentação em nada altera a ilicitude da
prática. Isto porque a sustentação oral é ato único, indivisível, não sendo
possível cogitar da “subscrição conjunta” da mesma a teor do caput do art. 29 do
RGEAOAB. O que se teve, em síntese, foi a formulação de uma sustentação
oral, ato privativo de advogado, por pessoa não inscrita como advogada na OAB
e, portanto, um ato nulo, consoante o art. 4º do EAOAB.
Ademais, a admissibilidade do TJDFT destoa da jurisprudência
pacificamente construída até então, que uniformemente inadmite a realização de
sustentação oral por estagiário. Transcrevemos:

HABEAS CORPUS. SUSTENTAÇÃO ORAL. ATO PRIVATIVO


DE ADVOGADO. HOMICÍDIO QUALIFICADO. PRISÃO
PREVENTIVA. SUPERVENIÊNCIA DA SENTENÇA
CONDENATÓRIA. PREJUÍZO DA IMPETRAÇÃO.
1. Não é permitida a prática de sustentação oral por estagiário de
advocacia (art. 124, parágrafo único, do RI/STF).
2. A superveniência da sentença condenatória altera o título da
prisão preventiva. Precedentes.
3. Habeas corpus prejudicado (STF, 1ª T., HC nº 118.317/SP, Rel.
Min. Dias Toffoli, j. em 22.10.2013).
HABEAS CORPUS. DIREITO PROCESSUAL PENAL.
SUSTENTAÇÃO ORAL. DIREITO DO RÉU. ATUAÇÃO DE
ESTAGIÁRIO EM SESSÃO DE JULGAMENTO.
IMPOSSIBILIDADE. NOMEAÇÃO DE DEFENSOR DATIVO
PARA O ATO. ORDEM CONCEDIDA.
1. É defeso ao estagiário de Direito a prática de ato privativo de
advogado.
2. A denegação da sustentação oral do recurso viola o direito à
ampla defesa, assegurado aos réus pela Constituição Federal.
3. Ordem concedida (STJ, 6ª T., HC nº 47.803/GO, Rel. Min.
Hamilton Carvalhido, j. em 15.02.2007).

Ainda, no âmbito do próprio TJDF:

(...) Não se admite que a sustentação oral seja feita por estagiário de
direito, pois ele é um advogado em potencial, mas não é um
advogado. Não padecendo o acórdão que se pretende rescindir de
qualquer vício a justificar a sua rescisão, julga-se improcedente a
ação rescisória e prejudicada a medida cautelar (TJDFT, 3ª Câmara
Cível, Ação Rescisória nº 20050020107763/DF, Rel. Des. Lécio
Resende, j. em 20.11.2006).

Feitas tais colocações, concluímos ser vedada ao estagiário inscrito na OAB


a realização de sustentação oral em sessão de julgamento, violando o § 2º do art.
3º, art. 34, incisos I e XXIX, do EAOAB, bem como o art. 29 do RGEAOAB.
Ademais, sobre este caso em específico, conferir o artigo do coautor Roberto
Beijato Junior, disponibilizado no CONJUR, no seguinte link:
<https://www.conjur.com.br/2018-abr-15/roberto-beijato-sustentacao-oral-feita-
estagiario-ilicita>.

Desde a edição da Lei 11.788 de 2008, a jornada de atividade do estagiário


em geral não pode ser superior a seis horas diárias, com duração máxima de dois
anos. O concedente tem ainda a facultatividade da concessão de auxílio-
transporte e quando o período de estágio for igual ou superior a um ano no
mesmo local, o estagiário terá direito a férias.
O estágio compreende a carga horária de 300 horas e deve ser cumprido
dentro ou fora da faculdade (ou parte dentro e parte fora), cabendo também a ele
todas as hipóteses de incompatibilidade destinadas aos advogados. Dentro dessa
carga horária, compreende-se não apenas o estágio profissional, como também o
estudo do Código de Ética e Disciplina, deste EAOAB e a continuidade com a
excelência acadêmica, isto é, por mais importante que o estágio seja na vida
profissional do estudante, ele não poderá em hipótese alguma atrapalhar seus
estudos.
Para a carga horária ser cumprida em sua integralidade, o estudante pode
estagiar em instituições de ensino, em seus núcleos de prática jurídica, na
Defensoria Pública, em escritórios de advocacia públicos ou privados,
credenciados e fiscalizados pela OAB. Em algumas localidades, existe a
presença do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) que procuram
intermediar as relações entre as partes.
Os Núcleos de Prática Jurídica (NPJ) mantidos pelas instituições de ensino
possuem como característica a inserção do aluno nas rotinas básicas da
profissão, tendo caráter duplamente instrutivo: ao mesmo tempo em que
possibilita ao estudante tomar conhecimento das práticas comuns da profissão,
como a prestação de serviços jurídicos e as técnicas de negociação coletiva, de
arbitragem e de conciliação, procura também inseri-lo nas questões rotineiras
dos fóruns, com a redação de atos processuais e profissionais, as rotinas
processuais, a assistência e a atuação em audiências e sessões.

Sobre o estagiário, além do julgado já elencado sobre a impossibilidade de


consultoria por parte de bacharéis e estudantes, temos ainda a impossibilidade de
que o estagiário participe dos honorários sucumbenciais, que são considerados
verbas exclusivas do advogado atuante na causa, sendo o estágio ainda de caráter
puramente pedagógico:
“HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS – DESTINAÇÃO AO
ADVOGADO – COMPENSAÇÃO EM ACORDO –
PARTICIPAÇÃO DE ESTAGIÁRIO.
I. É posicionamento unânime deste Tribunal, que os honorários de
sucumbência pertencem integralmente ao advogado, que não deve
abrir mão deste direito, na medida em que foi fruto de intensa luta
da classe, que se arrastou por muitos e muitos anos, só sendo
coroada de êxito com o advento da Lei n. 8.906/94 – Estatuto da
Advocacia.
II. É, porém, permitido ao advogado na montagem de acordo,
transigir em seus honorários. Em caso de acordo, quando a parte
paga os honorários do advogado ex-adverso, os honorários assim
recebidos compensam os contratuais quando houver estipulação
neste sentido expressamente acertada com o cliente (E-3758/2009).
III. O estagiário durante o período de estágio, não faz jus aos
honorários sucumbenciais. Segundo ensina Paulo Luiz Netto Lôbo:
‘A atuação do estagiário não constitui atividade profissional; integra
sua aprendizagem prática e tem função pedagógica’. Portanto, tal
atuação, que tem suas atividades isoladas restritas àquelas
estabelecidas no artigo 29 do Regulamento Geral, e todas as demais,
sob a responsabilidade expressa de um advogado, nos termos do
artigo 3º, § 2º, da EAOAB, por se tratar de aprendizagem prática e
com finalidade pedagógica, não se constituindo em atividade
profissional, não gera participação nos honorários de sucumbência.
Se, porventura, após inscrito na OAB como advogado, permanecer
no escritório em que estagiou e atuando no processo, terá direito aos
honorários sucumbenciais, na proporção do trabalho executado, no
período e na estrita condição de advogado. Por outro lado, se houve
algum acordo com o advogado que se retirou em relação aos
honorários de sucumbência, este tem que ser respeitado pelos três,
como exige a ética.” (Proc. E-4.045/2011 – v.m., em 15/09/2011, do
parecer e ementa do Rel. Dr. Guilherme Florindo Figueiredo, com
declaração de voto divergente do Julgador Dr. Luiz Antonio
Gambelli – Rev. Dr. Zanon de Paula Barros – Presidente Dr. Carlos
José Santos da Silva)
Comentários
O dispositivo ratifica aquilo que já estudamos no art. 1º, §§ 1º a 3º, deste
EAOAB. Todos os atos praticados por não inscritos nos quadros da OAB, além
de nulos, são passíveis de sanções civis (pelos prejuízos causados aos
particulares ou ao Estado com os atos praticados), penais (pelo exercício ilegal
da profissão, com pena de detenção de 15 dias a seis meses, pela Lei de
Contravenções Penais e pelo Regulamento Geral da OAB) e administrativas
(com as sanções disciplinadas no EAOAB e no Código de Ética e Disciplina).
Tais restrições e penalidades se aplicam igualmente aos advogados que,
apesar de regularmente inscritos, não podem exercer a atividade, como nos casos
de impedimento, suspensão, licença ou quando exerça atividades incompatíveis
com a advocacia, possibilidades que estudaremos em seu devido tempo.
A nulidade apresenta as seguintes características:

(i) Pode ser declarada de ofício;


(ii) Pode ser provocada por qualquer interessado ou pelo Ministério
Público;
(iii) É imprescritível, não convalescendo com o tempo;
(iv) Apaga, ao ser declarada, os efeitos ab initio (ab ovo) (desde o início);
(v) Não pode ser suprida ou sanada.
Da mesma maneira que o caput do art. 4º procura proteger a sociedade dos
atos praticados por quaisquer pessoas não inscritas na OAB, o parágrafo único
resguarda o mesmo benefício àqueles que porventura são atingidos por
advogados que, mesmo inscritos, não podem por algum motivo exercer a
atividade.
O parágrafo único do referido dispositivo traz ainda as figuras do
impedimento, suspensão, licenciamento e incompatibilidade, que trabalharemos
no seu devido tempo, mas para efeitos didáticos, cumpre-nos sintetizar para
pleno aproveitamento:

✓ Impedido é o advogado que tem restrições ao exercício da advocacia


contra determinada pessoa de direito público devido o fato de possuir
uma das condições dispostas no art. 30 do EAOAB;
✓ Suspenso é o advogado que sofreu como punição disciplinar a
impossibilidade temporária – e não definitiva – de desempenhar a
advocacia (art. 37 do EAOAB);
✓ Licenciado é o advogado que pediu afastamento temporário – e não
definitivo – da atividade, com a interrupção do pagamento da anuidade
(art. 12 do EAOAB);
✓ Incompatível é o advogado que passa a exercer cargo que impeça o
exercício da advocacia, como por exemplo, a magistratura, sendo
definitivo (art. 28 do EAOAB).

Sobre o tema, temos o posicionamento do TED de São Paulo que considerou,


seguindo o disposto no art. 4º, deste EAOAB, todos os atos praticados por
advogado incompatível como nulos:

“E-3.137/2005 – EMENTA Nº 2 – DIRIGENTE DE


AUTARQUIA MUNICIPAL – PROIBIÇÃO DE ADVOGAR,
SALVO QUANTO AO EXERCÍCIO DA ADVOCACIA
VINCULADA À RESPECTIVA FUNÇÃO – NULIDADE
ABSOLUTA DOS ATOS PRATICADOS – DIREITO DE
REPRESENTAÇÃO.
O advogado que tomar ciência de infração, por colega, do art. 29 do
EAOAB tem o direito de promover a respectiva representação, que
não pode ser anônima. No entanto, o advogado, na representação,
deve agir com redobrada cautela, fundando-se em segura convicção,
a ser exposta em peça fundamentada. Nos termos do art. 4º e
parágrafo único do EAOAB, são nulos os atos praticados por
advogado que exerça atividade incompatível com a advocacia.
Sobre a conduta, em processo judicial, que deve ser tomada por
advogado que toma conhecimento de ato praticado em infração aos
arts. 4º e 29 do EAOAB, não cabe manifestação do TED-I. Não
conhecimento, nesta parte.” (V.U., em 14/04/2005, do parecer e
ementa do Rel. Dr. Fábio de Souza Ramacciotti – Revª. Drª. Maria
do Carmo Whitaker – Presidente Dr. João Teixeira Grande)

Comentários
O dispositivo visa regular a forma com que o advogado poderá postular em
juízo: por meio do instrumento de mandato, devendo para tanto provar a outorga
dos poderes realizados pelo seu cliente por meio de instrumento particular ou
público.
Uma vez constituído, o instrumento de mandato é válido desde o primeiro
ato praticado até o arquivamento definitivo da demanda, ficando o advogado
responsável pelo acompanhamento de todo o desenrolar processual neste
período.
A depender do caso, o advogado poderá postular em juízo sem o referido
instrumento, desde que o patrono afirme urgência na prestação jurisdicional,
devendo obrigatoriamente apresentá-la no prazo de quinze dias, prorrogáveis por
mais quinze, o que de igual modo é previsto pelo NCPC, em seu art. 104, caput e
parágrafo 1º.
Importante: caso o advogado não consiga juntar o instrumento após o prazo
legal, deverá informar ao juízo, que poderá nomear um advogado dativo ou
dilatar outra vez mais o prazo, através de um juízo valorativo com base na
razoabilidade, já que a parte não pode ser prejudicada em seu direito e ficar sem
defesa.
Ainda, é um dever do advogado explicar ao seu cliente, de forma clara e
inequívoca, sobre todos os riscos e dificuldades, sem incentivar aventuras
jurídicas, de acordo com o que prevê o art. 29 do CED. Por tal motivo, o
advogado pode recusar um mandato se apresentar para tanto um justo motivo ou
se por alguma razão tiver impedimento ético com relação ao fato ou ato que deva
desempenhar, conforme traz o mesmo CED, em seu art. 22.
O instrumento de procuração vai sempre habilitar o advogado para as
práticas de todos os atos processuais em qualquer juízo ou instância (Procuração
ad judicia), salvo aqueles em que se necessita de poderes especiais para realizá-
los (Procuração ad judicia et extra), restringindo o mandatário a praticar apenas
aqueles atos outorgados, conforme dispõe o Código Civil (art. 661, § 1º), ou
mesmo no Processo Penal (art. 44), para oferecimento de representação ou em
queixa-crime.
O Diploma Processual Civil de 2015 traz igualmente em seu art. 105, §§ 1º a
4º, um rol de especificidades em que se tem a necessidade de poderes especiais
para cumpri-las, poderes estes que devem estar expressos na procuração. Uma
novidade contida no NCPC encontra-se em consonância com a informatização
do judiciário e do processo digital eletrônico, refere-se à possibilidade de
assinatura digital da procuração por meio de certificado do outorgante,
facilitando o ajuizamento de demandas e a outorga de poderes ao advogado para
representação.
Vale lembrar que a lei não exige o reconhecimento de firma do outorgante
por cartórios, embora alguns órgãos e instituições públicas exijam sua
apresentação, como, por exemplo, o DETRAN ou o PROCON, ou mesmo
quando a Lei assim o exigir, como, por exemplo, no caso do art. 654, § 2º, do
Código Civil.

Comentários
As disposições trazidas pelo caput do art. 6º são essenciais para o bom
desempenho das funções judiciais e para a administração da justiça, isto porque
consagra com base no respeito mútuo que não existe hierarquia ou subordinação
entre advogados, magistrados e membros do Ministério Público.
O comportamento deve sempre condizer com a formação em direito que
todos possuem. Deve-se tratar com equidade e com base no respeito mútuo
inerente não apenas à profissão, mas também à convivência pacífica e
democrática.
Embora seja de conhecimento que por vezes esta disciplina é ignorada por
uma das partes, certo é que procura lastrear a boa relação entre as partes
envolvidas nas demandas, bem como impedir que de alguma forma se
estabeleçam diferenças ou abusos de autoridade por parte de juízes ou
promotores.
O que se consagra, na verdade, é a firmação de que todos prestam um múnus
público à sociedade e à democracia e, por isso, encontram-se no mesmo patamar.
Ao se analisar o parágrafo único, vemos que suas disposições se referem
especificamente às autoridades, servidores e serventuários da justiça, para que
dispensem aos advogados tratamento digno da profissão e condições para seu
desempenho pleno.
Esta é, todavia, uma disposição de mão dupla, haja vista que também os
advogados devem zelar pelo bom ambiente profissional e de tratamento
destinados tanto às autoridades, servidores e serventuários, como às partes
envolvidas na demanda.
O advogado, respeitando a todos, sabendo exercer os seus direitos, será
respeitado no exercício da profissão e não apenas por juízes, promotores e outros
advogados, como também pelos demais servidores da justiça, clientes e
estagiários.

Vejamos o posicionamento do TED de São Paulo acerca de intimação de


caráter desrespeitoso ao advogado e à classe:

“EXERCÍCIO PROFISSIONAL – INTIMAÇÃO JUDICIAL


DE CARÁTER INTIMIDATÓRIO – AMEAÇAS PUNITIVAS
PREVENTIVAS – COMENTÁRIOS AOS DEVERES ÉTICOS
DO ADVOGADO DESNECESSÁRIOS – HIPÓTESE FUTURA
DE EVENTUAL INFRAÇÃO ÉTICA E LITIGÂNCIA DE MÁ-
FÉ NÃO PRATICADAS – PRERROGATIVA FERIDA E
OFENSA À DIGNIDADE DO ADVOGADO –
COMPETÊNCIA DA DOUTA COMISSÃO DE DIREITOS E
PRERROGATIVAS.
Intimação de realização de audiência conciliatória com alerta ao
advogado sobre futuro comportamento ético e litigância de má-fé
inocorridos, ou seja, ‘se ocorrerem’, são absolutamente
desnecessários, mormente in casu, ferindo prerrogativas
profissionais e abalando a dignidade da classe. Desrespeito ao artigo
6º da Lei nº 8.906/94, por tentar o magistrado se sobrepujar ao
advogado. Remessa à douta Comissão de Direitos e Prerrogativas
(Regimento Interno da OAB/SP, artigo 69, letras ‘a’ e ‘e’).” (Proc.
E-3.349/2006 – v.u., em 29/06/2006, do parecer e ementa do Rel.
Dr. Benedito Édison Trama – Rev. Fábio Kalil Vilela Leite –
Presidente Dr. João Teixeira Grande)

Também merece destaque posicionamento sobre o dever de urbanidade no


exercício profissional, devendo o advogado tratar com respeito a todos os
colegas (não somente magistrados e promotores). E o mesmo se aplica ainda que
o advogado seja idoso, não podendo abusar e desrespeitar os demais
simplesmente por sua condição de idade avançada. Vejamos como o TED de São
Paulo expôs a questão:

“E-3.224/05 – URBANIDADE NO EXERCÍCIO


PROFISSIONAL – IDOSO – PREFERÊNCIA DE
TRATAMENTO.
Dever de urbanidade, lhaneza, respeito ao trabalho do ex-adverso
são postulados guindados como valores a serem observados pelos
advogados, sem qualquer distinção. A confiança, a lealdade, a
benevolência devem constituir a disposição habitual para com o
colega. Deve o advogado tratar os colegas com respeito e discrição
(arts. 44 e 45 do Código de Ética e Disciplina). Devem os
advogados, como qualquer cidadão, tratar os idosos com o respeito
e deferência que as cãs lhes conferem e com a preferência que a lei
lhes garante, fazendo efetivos os preceitos do Estatuto do Idoso.
Nem por isso se admite do advogado idoso que abuse de sua
condição, mormente porque deve, para com todos, a mesma cortesia
de tratamento que possa entender ser direito seu, na melhor
interpretação do artigo 3º do Código de Ética e Disciplina.” (V.U.,
em 15/09/2005, do parecer e ementa da Rel.ª Dra. Beatriz Mesquita
de Arruda Camargo Kestener – Rev. Dr. Carlos Roberto Fornes
Mateucci – Presidente Dr. João Teixeira Grande)
Comentários
O art. 7º procura trazer um rol extensivo de direitos básicos dos advogados,
apresentando-se à profissão da mesma maneira que os direitos e garantias
fundamentais se apresentam aos cidadãos.
Os incisos I e II possuem enorme relevância neste sentido, uma vez que
estabelecem a liberdade conferida ao advogado para o exercício de sua profissão,
em consonância com os direitos constitucionais que resguardam a mesma
possibilidade, desde que se atendam aos requisitos legais, de acordo com o
inciso XIII do art. 5º da Constituição Federal.
Assegura também que, para real liberdade de exercício profissional, o
advogado tenha o escritório como inviolável, na mesma medida que seus
instrumentos de trabalho, assim como suas correspondências, e-mails e
telefonemas, numa clara extensão do já assegurado pelo texto constitucional aos
cidadãos em geral quanto às residências e o sigilo das correspondências, em
conformidade com o disposto na Carta Política de 1988, em seu art. 5º, incisos
XI e XII.
A inviolabilidade se estende a documentos que se encontrem em pastas,
maletas ou mochilas do advogado. Devendo apresentá-las para revista policial,
deve-se informar sobre a condição desses documentos, retirá-los e então entregá-
los a autoridade para que realize a vistoria.
A Lei 11.767/2008 promoveu algumas alterações no EAOAB, revogando
disposições e incluindo outras para dar nova redação e alcance sobre
determinados dispositivos, esclarecendo dúvidas que poderiam ocorrer em sua
interpretação. Foi o que aconteceu com os direitos dos advogados sobre a
inviolabilidade e o sigilo do escritório e dos instrumentos do seu trabalho.
Por evidência, não existem direitos absolutos no Brasil e o advogado não
foge a essa regra. Havendo indícios suficientes de autoria e materialidade, a
autoridade judiciária competente poderá quebrar o sigilo e a inviolabilidade,
desde que o faça de maneira fundamentada por decisão motivada, exigência
constitucional encontrada no art. 93, IX, com a redação conferida pela Emenda
Constitucional 45/2004.
A busca e apreensão existe em duas modalidades distintas: a criminal, regida
pelos arts. 240 a 250 do Código de Processo Penal e a civil, constante nos arts.
536 e 537 do Novo Código de Processo Civil de 2015, exigindo-se em ambos os
casos que a descrição do objeto seja precisa, não se podendo extrapolar a ordem
judicial contida na decisão que determinou a busca e apreensão.
Antes da expedição do mandado de busca e apreensão, a OAB deverá ser
notificada para enviar representante das prerrogativas com o fito de acompanhar
a diligência. Lembremos que o mandado não pode ser genérico, devendo
especificar de maneira pormenorizada o que será apreendido para não atingir
direitos de outras pessoas e clientes que nada tenham de relação com os fatos
investigados.
Vemos com isso que para se violar o escritório é necessário preencher antes
cinco requisitos essenciais:

(i) Ordem judicial;


(ii) Expedida por juiz competente;
(iii) Objeto delimitado;
(iv) Decisão fundamentada; e
(v) Presença de um representante da OAB.
Por isso, o § 7º deixa claro que esta ressalva não se estende aos clientes do
advogado que estejam sendo investigados pelo mesmo crime que deu causa à
quebra da inviolabilidade, isto é, se houver suspeitas de que o cliente é coautor
ou participe junto com o advogado, poderá ter na busca e apreensão também
documentos que os liguem ao mesmo crime.
O processo, enquanto garantidor da democracia dentro do direito, faz com
que o escritório e os objetos do advogado também o sejam, como forma de
manutenção da democracia. É o instrumento garantidor do sistema democrático.
A inviolabilidade é requisito tão salutar no exercício da atividade advocatícia
que nem mesmo a OAB, em sede de procedimento disciplinar administrativo
instaurado em face de advogado, poderá quebrá-lo sem a devida autorização
judicial, considerando-se como ilícitas quaisquer provas decorrentes dessas
investigações.
A Polícia Federal, por inúmeras vezes, foi acusada de perpetrar abusos
quando do cumprimento de diligências, algo que foi constantemente denunciado
pela OAB ao Ministério da Justiça, que somente em 2005 (ou seja, 10 anos após
a promulgação do EAOAB) baixou a Portaria 1.287, que regulamenta a
execução das diligências de busca e apreensão em geral realizadas pelos
policiais federais, com o obrigatório comando de um delegado, estipulando em
seu art. 1º que “ao representar pela expedição de mandado de busca e apreensão,
a autoridade policial indicará fundamentadamente as razões pelas quais a
autorização da diligência é necessária para a apuração dos fatos sob
investigação, instruindo o pedido com todos os elementos que, no seu entender,
justifiquem a adoção da medida”, sendo complementado pelo parágrafo único
sobre a especificidade da busca e apreensão, de modo que “a representação da
autoridade policial indicará, com a maior precisão possível, o local e a finalidade
da busca, bem como os objetos que se pretende apreender”.
Não obstante este fato, é passível de verificação a “teoria dos frutos da
árvore envenenada”, isto porque, caso o processo se valha de provas
consideradas ilícitas, todo o desenrolar factual será atingido por sua ilicitude.
Assim conceituou o Ministro Celso de Mello, do STF, quanto à sobredita teoria:
“A QUESTÃO DA DOUTRINA DOS FRUTOS DA ÁRVORE
ENVENENADA (‘FRUITS OF THE POISONOUS TREE’): A
QUESTÃO DA ILICITUDE POR DERIVAÇÃO.
Ninguém pode ser investigado, denunciado ou condenado com base,
unicamente, em provas ilícitas, quer se trate de ilicitude originária,
quer se cuide de ilicitude por derivação. Qualquer novo dado
probatório, ainda que produzido, de modo válido, em momento
subsequente, não pode apoiar-se, não pode ter fundamento causal
nem derivar de prova comprometida pela mácula da ilicitude
originária. – A exclusão da prova originariamente ilícita – ou
daquela afetada pelo vício da ilicitude por derivação – representa
um dos meios mais expressivos destinados a conferir efetividade à
garantia do ‘due process of law’ e a tornar mais intensa, pelo
banimento da prova ilicitamente obtida, a tutela constitucional que
preserva os direitos e prerrogativas que assistem a qualquer acusado
em sede processual penal. Doutrina. Precedentes. – A doutrina da
ilicitude por derivação (teoria dos ‘frutos da árvore envenenada’)
repudia, por constitucionalmente inadmissíveis, os meios
probatórios, que, não obstante produzidos, validamente, em
momento ulterior, acham-se afetados, no entanto, pelo vício
(gravíssimo) da ilicitude originária, que a eles se transmite,
contaminando-os, por efeito de repercussão causal. Hipótese em que
os novos dados probatórios somente foram conhecidos, pelo Poder
Público, em razão de anterior transgressão praticada,
originariamente, pelos agentes da persecução penal, que
desrespeitaram a garantia constitucional da inviolabilidade
domiciliar. – Revelam-se inadmissíveis, desse modo, em
decorrência da ilicitude por derivação, os elementos probatórios a
que os órgãos da persecução penal somente tiveram acesso em razão
da prova originariamente ilícita, obtida como resultado da
transgressão, por agentes estatais, de direitos e garantias
constitucionais e legais, cuja eficácia condicionante, no plano do
ordenamento positivo brasileiro, traduz significativa limitação de
ordem jurídica ao poder do Estado em face dos cidadãos.” (RHC
90.376/RJ, Rel. Min. Celso de Mello)

Qualquer ato que viole o escritório sem preencher esses requisitos constitui
abuso de poder e de autoridade, configurando-se a busca e apreensão como
ilegal. Se o mandado for genérico é nulo.

A OAB deverá sempre ser notificada, nomeando um representante, que será


encaminhado ao distrito policial na hora designada para acompanhar a diligência
(não se marca diretamente no local para que ele não tenha informações
privilegiadas).
O representante será responsável por lavrar um termo, redigindo tudo o que
considerar pertinente (questões práticas ou abusos), que será relatado ao
Presidente do Conselho Seccional para as medidas cabíveis. Se o representante
considerar o abuso extraordinário/absurdo, ele pode abandonar a diligência,
informando o ocorrido.
Se a OAB for intimada e não mandar ninguém, não poderá alegar posterior
nulidade da busca e apreensão, já que não se pode produzir nulidades a seu
favor, mas se ela não for intimada, a alegação deverá ser feita.
Cabe ainda ao representante atentar se os objetos que estão sendo levados
são aqueles descritos na decisão que deferiu a busca e apreensão, isto porque
podem levar objetos outros que não fazem parte daquele processo e com isso
prejudicar clientes que nada tenham com a demanda.

Ainda, neste sentido entendeu o Tribunal de Ética e Disciplina da OAB


Federal sobre a inviolabilidade do escritório de advocacia:

“Escutas telefônica e ambiental em escritórios de advocacia.


Inconstitucionalidade e ilegalidade. Afronta ao princípio da
inviolabilidade da atividade advocatícia. Garantia do direito ao
sigilo das conversas entre advogados e seus constituintes.
Decorrência das garantias constitucionais do direito de defesa e do
direito do réu ao silêncio. Adoção de medidas penais, civis e
administrativas contra autoridades que usurparem tal prerrogativa.
Acórdão: Vistos, relatados e discutidos os autos do processo em
referência, acordam os membros do Conselho Pleno do Conselho
Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, por unanimidade, em
acolher o voto do Relator, parte integrante deste. Brasília, 8 de maio
de 2007. Cezar Britto, Presidente. Marcus Vinicius Furtado Coelho,
Relator.” (OAB Federal. Processo nº 2007.19.02235-01)

Como dissemos, a inviolabilidade do advogado se estende igualmente aos


procedimentos administrativos, mesmo que para instrução disciplinar. É o que se
depreende quando se analisa a gravação de conversas entre advogados sem
autorização judicial, configurando-se em infração ao disposto no art. 7º, II, do
EAOAB:

“UTILIZAÇÃO DE GRAVAÇÃO DE CONVERSA TELEFÔNICA


CLANDESTINA COMO MEIO DE PROVA –
IMPOSSIBILIDADE – REGRA DO SIGILO. É VEDADA PELA
ÉTICA A UTILIZAÇÃO DE GRAVAÇÃO TELEFÔNICA FEITA
SEM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL OU CONHECIMENTO DO
INTERLOCUTOR, DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA,
MESMO QUE PARA FAZER PROVA EM PROCEDIMENTO
ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR INTERNO DA OAB, EM
FACE DA INVIOLABILIDADE PROFISSIONAL
PRECONIZADA NO ART. 133 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL
E NO ART. 7º, II, DO EAOAB. À MÍNGUA DE OUTRAS
PROVAS ASSOCIADA À DÚVIDA QUANTO A VERACIDADE
DAS ALEGAÇÕES DO QUERELANTE, DE RIGOR A
IMPROCEDÊNCIA DA REPRESENTAÇÃO.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar nº
373/08 (13R0001572011), acordam os membros da Décima Terceira
Turma Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina – Ribeirão
Preto, por unanimidade, nos termos do voto do relator, em julgar
improcedente a representação, determinando o arquivamento dos
autos.” (Sala das Sessões, 16 de setembro de 2011. Rel. Dr. Luiz
Roberto Barci – Presidente Dr. Luiz Gastão de Oliveira Rocha)

Ademais, ressalte-se que o sigilo impera inclusive nos casos em que se


requerem cópias de procedimentos disciplinares para instrução de processo
judicial, sendo vedada essa prática, de acordo com posicionamento do TED de
São Paulo:

“E-3.183/05 – SIGILO – PROCESSO DISCIPLINAR DA OAB


– UTILIZAÇÃO DE CÓPIAS EM AÇÕES JUDICIAIS –
IMPOSSIBILIDADE.
As pendências disciplinares entre advogados são processadas e
julgadas pelo Tribunal de Ética e Disciplina, sendo questões
internas da advocacia, pelo que o julgamento e o resultado têm o
conhecimento restrito às partes envolvidas, seus patronos e à própria
OAB, que não está obrigada a fornecer documentos
correspondentes, quer por se tratar de questões internas da
advocacia, quer por se tratar de questões de sua competência
exclusiva. Entendimento do parágrafo 2º do artigo 72 do EAOAB e
do inciso X do artigo 5º da Constituição Federal. Recomenda-se ao
consulente, em respeito às regras deontológicas que regem a
publicidade da advocacia contidas no Provimento nº 94/2000 do
CFOAB, a exclusão, no papel timbrado, da balança e da citação
bíblica ao rodapé da folha, assim como a inclusão do número de
inscrição da OAB.” (V.U., em 21/07/2005, do parecer ementa do
Rel. Dr. Ricardo Garrido Júnior – Rev. Dr. Luiz Francisco Torquato
Avólio – Presidente Dr. João Teixeira Grande)

Comentários
O inciso III, ainda que referente aos direitos dos advogados, resguarda de
maneira muito mais ampla os seus clientes, conferindo a ele o direito de
comunicação mesmo sem procuração quando se encontrarem presos, detidos ou
recolhidos.
Esta prerrogativa deve ser considerada mesmo que o tratamento dado ao
cliente seja de incomunicabilidade (art. 21, parágrafo único, do Código de
Processo Penal), podendo o advogado ter contato com o mesmo de forma
pessoal e reservada. Entretanto, o STF considera que quando o preso estiver no
Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), o advogado precisa juntar procuração,
suprimindo do advogado o direito conferido pelo EAOAB, de modo que este
entendimento é em sentido contrário ao que a própria Constituição Federal
significa, sendo incompatível com seus preceitos, já que a incomunicabilidade
pode atingir situações de extrema gravidade em que se faça necessária a
presença de advogado, como em caso de estado de defesa previsto pelo art. 136,
§ 3º, IV, da Constituição Federal.
É importante ressaltarmos a importância da comunicação entre preso e
advogado na história brasileira recente. Durante os anos de Ditadura Militar
(1964-1985), muitos foram os presos tratados de forma degradante e deixados
incomunicáveis, ainda que a Constituição Federal de 1967 “garantisse” direitos
fundamentais a todos os cidadãos. Da mesma via, muitos foram os advogados
impedidos de se comunicar com os presos, além das muitas dificuldades para
encontrá-los e postular em juízo na defesa de seus direitos, isso para não falar da
prisão de muitos causídicos quando do exercício de sua profissão.
Sobre este tema é possível encontrar no Canal do Ministério da Justiça no
YouTube o documentário “Os Advogados Contra a Ditadura: Por Uma Questão
de Justiça” (2014), de Silvio Tendler, que aborda as dificuldades dos advogados
em atuar durante o período ditatorial, com depoimentos de advogados de todo o
Brasil.
Citamos por Estado da Federação os advogados José Gregori (ex-ministro da
Justiça do Governo FHC), Albertino de Sousa Oliva, Airton Soares, Talles
Castelo Branco, Rosa Cardoso, Aton Fon Filho, Belisário dos Santos e Marco
Antonio Rodrigues Barbosa (São Paulo), Modesto da Silveira, George Tavares,
Eny Moreira, Alcione Barreto, Marcelo Cerqueira, Técio Lins e Silva, Dyrce
Drach, Humberto Jansen Machado, Manoel Martins, Arthur Lavigne, Nilo
Batista, Wadih Damous e Ana Müller (Rio de Janeiro), Pedro Eurico, Boris
Trindade e Virgilio Campos (Pernambuco), Sigmaringa Seixas e José Oscar
(Brasília), Nelson Wedekin, Jair Krischke e Omar Ferri (Rio Grande do Sul),
Paulo Torres e Gil Nunesmaia Júnior (Bahia).
A advocacia foi duramente atingida neste período. Os 17 Atos Institucionais
(sobretudo o AI-5 sobre as liberdades, o AI-2 e o AI-6 sobre a competência de
julgamento dos Tribunais Civis e Militares) mexeram com toda a sociedade, que,
inserida num regime regrado pela Doutrina da Segurança Nacional, encontrava-
se tolhida de sua liberdade e de sua humanidade.
Muito bem pontuou o Professor Paulo Lôbo ao tratar que a independência da
advocacia não se refere apenas ao advogado, mas também à própria OAB:

“A independência do advogado está estreitamente ligada à


independência da Ordem, que não se vincula nem se subordina a
qualquer poder estatal, econômico ou político. É grande e
permanente a luta dos advogados, em todo o mundo, para preservar
sua independência diante das arremetidas autoritárias frequentes dos
donos do poder. O XXV Congresso da União Internacional dos
Advogados, reunido em Madrid, em 1973, foi dedicado à
independência do advogado, e suas conclusões continuam presentes
quando afirmam ‘que não existe Justiça digna desse nome sem o
concurso de advogados independentes; que a independência do
advogado condiciona sua liberdade imprescritível, e que o dever
fundamental dos povos é mantê-la em sua plenitude’”. (LÔBO,
Paulo Luiz Netto. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB.
São Paulo: Saraiva, 2010, p. 185)

Os advogados lutaram e a OAB não ficou atrás durante a Ditadura. Tiveram


de lutar e sofreram com isso, como o atentado na sede da OAB do Rio de
Janeiro, ocorrido em 27 de agosto de 1980, e que levou ao falecimento de Lydia
Monteiro da Silva, secretária do então presidente Eduardo Seabra Fagundes (a
quem a carta era destinada).
Essa é a independência de advogados e da Ordem dos Advogados do Brasil
na defesa da democracia e dos ideários de administração e acesso à Justiça.
Comentários
Os incisos IV e V visam resguardar os advogados nos casos em que se
fizerem necessárias prisões para se evitarem as arbitrariedades e
constrangimentos pelos quais muitos passaram nos tempos de Ditadura Militar,
de modo que um representante das prerrogativas da OAB deve sempre
acompanhá-lo caso a prisão ocorra no exercício de suas funções, sob pena de
nulidade do auto, bem como em não ser recolhido preso até sentença final
transitada em julgado, devendo ser encaminhado à sala de Estado-Maior,
conforme dispõe o Código de Processo Penal (art. 295, VII), ou prisão
domiciliar, na sua falta.
Na dicção original do EAOAB, ficava a cargo da OAB reconhecer se a sala
de Estado-Maior oferecida estava de acordo para receber o advogado preso. O
STF, pela ADIn 1.127-8, considerou tal preceito inconstitucional, reconhecendo
que sala de Estado-Maior deve ser entendida como qualquer sala nas
dependências de Comando das Forças Armadas (Exército, Marinha ou
Aeronáutica) ou Auxiliares (Polícia Militar ou Corpo de Bombeiros) e, não
havendo, poderá o comandante em exercício escolher qualquer sala nas
dependências do pavilhão exclusivamente para este fim.
Se ainda assim não for possível encontrar sala de Estado-Maior, existem dois
posicionamentos que estão sendo tomados: um, do STF, determina que o
advogado permaneça em prisão domiciliar, conforme disciplina a própria lei,
segundo entendimento esposado pela Ministra Cármen Lúcia:

“ADVOGADO: INEXISTÊNCIA DE SALA DE ESTADO-MAIOR


E PRISÃO DOMICILIAR
O Tribunal inicial julgamento de reclamação ajuizada pela Ordem
dos Advogados do Brasil – Seccional de São Paulo contra decisão
proferida pelo juízo da 2ª Vara das Execuções Criminais da capital
que indeferira pedido de prisão domiciliar formulado por advogada,
que tivera sua prisão provisória decretada em sentença condenatória
recorrível. No caso, a advogada se encontrava presa em
penitenciária feminina em cela separada de outras detentas, tendo-
lhe sido deferida liminar pela Presidência do Supremo para
determinar sua prisão domiciliar. A Min. Cármen Lúcia, relatora,
salientando que a advogada não se encontrava numa sala, e sim
numa cela, e que haveria apelação pendente de julgamento,
confirmou a liminar concedida e julgou procedente o pedido
formulado, para que se assegure o cumprimento da norma prevista
no art. 7º, V, da Lei 8.906/94 – que confere aos advogados o direito
de não serem recolhidos presos, antes de sentença transitada em
julgado, senão em sala de Estado-Maior, com instalações e
comodidades condignas, e, na sua falta, em prisão domiciliar –
devendo ser especificadas, pelo juízo reclamado, as condições para
esse cumprimento, até ser possível, se for o caso, a transferência da
advogada para uma sala de Estado-Maior, nos termos do que
definido na ADI 1127/DF (DJU de 25.06.2006) – na qual declarada
a constitucionalidade parcial do referido dispositivo legal – e na Rcl
4535/ES (DJU de 15.6.2007), assim permanecendo ela até o trânsito
em julgado da sentença penal condenatória ou enquanto estiver
inscrita como advogada na OAB, o que ocorrer primeiro. Após o
voto do Min. Dias Toffoli, que acompanhava a relatora, pediu vista
dos autos o Min. Joaquim Barbosa. Rcl 8668/SP, rel. Min. Cármen
Lúcia, 18.2.2010.” (Rcl-8668) (Inform. STF 575).
Já o segundo posicionamento, do STJ, o entendimento vai em sentido oposto,
que cela individual substitui a ausência de sala de Estado-Maior, conforme se
verifica do voto do Ministro Felix Fischer:

“PROCESSUAL PENAL. ADVOGADA. SALA DE ESTADO-


MAIOR OU, NA SUA FALTA, PRISÃO DOMICILIAR.
CONSTRANGIMENTO ILEGAL. INEXISTÊNCIA.
I – O inciso V do art. 7º da Lei nº 8.906/1941, que teve sua
constitucionalidade confirmada em julgamento realizado pelo
Pretório Excelso, assegura aos advogados presos provisoriamente o
recolhimento em sala de Estado-Maior ou, na sua falta, em prisão
domiciliar (Precedentes).
II – No entanto, encontrando-se a paciente em cela especial
individual, com instalações e comodidades condignas, que cumpre a
mesma função da sala de Estado-Maior, não resta configurado
qualquer constrangimento ilegal na segregação cautelar
(Precedentes do STF e desta Corte). Habeas corpus denegado.”
(STJ, HC 149056 SP, 5ª T. Rel. Min. Felix Fischer, J. em
27.05.2010)

As prerrogativas do advogado devem ser defendidas não apenas pelo


profissional individualmente, mas a própria OAB que possui o dever de zelar
pelas prerrogativas dos seus inscritos em geral, não se permitindo abusos e se
insurgindo contra qualquer decisão que fira direitos garantidos por lei aos
advogados inscritos em seus quadros.
Não obstante o já tratado acerca da possibilidade de prisão do advogado, traz
este parágrafo que ele somente poderá ser preso em flagrante, no exercício de
sua função, em casos de crimes inafiançáveis.
Aqui, devemos analisar os requisitos necessários para sua prisão:

(i) Exercício profissional;


(ii) Flagrante delito;
(iii) Crime inafiançável;
(iv) Presença do representante da OAB.

Embora não tenha exigência legal, recomenda-se que fora do exercício


profissional o Conselho Seccional da OAB seja igualmente notificado, para
evitar quaisquer alegações de abusos que possam ser realizadas posteriormente.
Caso não tenha representante da OAB disponível, precisa a autoridade
policial fazer provas de que tentou por todos os meios possíveis se notificar a
OAB, de modo a não se anular o flagrante com essa comprovação. Se a OAB,
apesar de notificada não mandar representante, ela não poderá produzir nulidade
para se beneficiar.
Lembramos também que ainda que em fase de inquérito policial ou ação
penal o advogado figurar como indiciado ou réu por fato relacionado ao
exercício da profissão, cumpre ao Conselho Seccional indicar representante da
OAB para acompanhar o processo, ainda que já tenha defensor constituído,
conforme disciplina o art. 16 do REGOAB, estabelecendo que “Sem prejuízo da
atuação de seu defensor, contará o advogado com a assistência de representante
da OAB nos inquéritos policiais ou nas ações penais em que figurar como
indiciado, acusado ou ofendido, sempre que o fato a ele imputado decorrer do
exercício da profissão ou a este vincular-se”.
Comentários
Para que se possa exercer plenamente sua atividade, resguardo este garantido
pelo EAOAB e pela CF, o advogado pode ingressar livremente, segundo o inciso
VI e alíneas: a) nas salas dos magistrados; b) nas salas de audiências, secretarias,
cartórios, ofícios de justiça, serviços notariais e de registro, em delegacias e em
prisões, ainda que fora do expediente ou da presença dos titulares; c) qualquer
edifício judicial ou público em que o advogado deva exercer algum ato; e d) em
assembleias ou reuniões que seu cliente participe ou mesmo sozinho (portando
mandato com poderes especiais para tanto).
Pelo EAOAB, portanto, pode o advogado entrar em todos os lugares, estando
ou não seu titular presente (havendo algum funcionário no local, já é válido) e
ainda que fora de horário (se houver alguém para atendê-lo, deve ser atendido).
Aqui, vemos também que o advogado é quem goza da prerrogativa de
despachar com o juiz, prática esta recorrente em alguns Estados que abarca aos
estagiários, embora a negativa para recebê-los por parte do magistrado seja
válida com base neste dispositivo.
Comentários
Todos os direitos até agora elencados concernem nas garantias existentes
para que o advogado trabalhe de forma livre para atender aos interesses de seus
clientes, podendo ainda permanecer de pé ou sentado nestes locais (VII), dirigir-
se diretamente aos magistrados, independente de hora marcada (VIII), usar da
palavra em qualquer juízo ou tribunal para esclarecer fatos ou rebater acusações
feitas (X), reclamar, oral ou por escrito, à autoridade competente contra
inobservância de lei, regulamento ou regimento (XI) e falar, sentado ou de pé,
em órgãos de deliberação coletiva da Administração Pública ou do Poder
Legislativo (XII).
Desta maneira, poderá o advogado despachar com o juiz, respeitando o
direito e o dever de urbanidade, a ordem de chegada de outros advogados e os
trabalhos realizados pelo magistrado (não atrapalhar audiência, por exemplo,
esperando algum intervalo para ser atendido corretamente).
Em nome da já citada inexistência de hierarquia, o magistrado não pode, por
sua vez, deixar o advogado à espera e obstaculizar direito do advogado, não o
recebendo ou criando um “rodízio de atendimento”, considerando-se tal prática
como abuso de autoridade e ato ilícito, em total desconformidade com o
dispositivo legal supra-analisado. O advogado não pode depender da “boa
vontade” do juiz em recebê-lo.
É prerrogativa do advogado ainda permanecer/falar sentado ou de pé, à sua
escolha. Existem localidades distantes dos grandes centros em que se tem por
hábito ou tradição alguns atos que não são encontrados nas cidades grandes,
como se levantar quando o juiz entra no recinto e depois se sentar. É um ato de
respeito ao juízo não ao juiz. Embora a figura do juiz ainda seja muito
respeitada, devemos nos lembrar que não existem hierarquias.
Houve um direito suprimido por meio das ADIn’s 1.127-8 e 1.105-7
referente ao disposto no inciso IX, isto porque antes do julgamento era permitida
a sustentação oral em todos os recursos, o que atravancava o andamento das
sessões e impedia a celeridade processual.
Desde então, para que se tenha a sustentação oral deve haver previsibilidade
recursal, isto é, a lei deve prever quais recursos poderão ou não ter a sustentação
oral. Neste sentido, vale analisarmos os ensinamentos do Professor Paulo Lôbo,
que enxerga na possibilidade de sustentação oral uma das formas de contribuição
do advogado para melhorar o acesso e a administração da justiça:

“A liberdade de palavra do advogado nas sessões e audiências


judiciárias é um dos mais importantes e insubstituíveis meios de sua
atuação profissional. Todas as reformas tendentes a melhorar o
acesso e a própria administração da justiça sempre apontam para
ampliar a oralidade processual. A participação oral dos advogados
nos tribunais e órgãos colegiados contribuem decisivamente para o
esclarecimento e convicção dos julgadores”. (LÔBO, Paulo Luiz
Netto. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São Paulo:
Saraiva, 2010, p. 76)

A reclamação verbal ou por escrito do advogado é fundada no direito


constitucional de petição (art. 5º, XXXIV, a), que abarca todas as pessoas, com o
advogado ganha outra conotação, já que, como exerce o múnus público e função
essencial à Justiça, procura lhe fornecer instrumentos para auxiliar a defesa da
justiça, da ordem jurídica e das instituições democráticas brasileiras, refletindo-
se como um direito-dever do causídico.
A utilização da palavra é a regra comum para que o advogado tente corrigir
de imediato qualquer injustiça que porventura possa vir a ser causada pelo
magistrado com incorreções ou equívocos, para que se restabeleça a ordem dos
atos processuais. As intervenções realizadas pelo advogado quando do uso da
palavra podem ser reduzidas a termo e constar do processo, caso assim o
causídico peça.
O uso da palavra pela ordem para dirimir dúvidas relacionadas ao processo é
importante, se constituindo como um poder dever do advogado: poder frente ao
Judiciário para se posicionar em casos de dúvidas ou esclarecimento e dever
perante o seu cliente, para defender seus interesses. Na Justiça do Trabalho, é
comum a utilização deste direito, devendo ser feito no momento imediatamente
posterior ao ato praticado, sob pena de preclusão.
Por fim, salientamos que a Ordem dos Advogados do Brasil, como qualquer
outra categoria profissional, possui símbolos próprios, que são de uso privativo
dos advogados, não podendo o bacharel ou o estagiário usá-los.

Sobre os símbolos privativos da advocacia, apesar de parecer simplório, esta


disposição possui regramento especial pelo Provimento 08/1964 do Conselho
Federal da OAB, que dispõe o que deve ser considerado como insígnias próprias
da advocacia, sendo que qualquer outro símbolo (incluindo frases bíblicas ou
citações célebres), se constitui como infração disciplinar. Vejamos o que
entendeu o TED de São Paulo:
“E-3.048/04 – SÍMBOLOS DA ADVOCACIA – A IMAGEM DA
JUSTIÇA (TÊMIS), A BALANÇA, A BECA E AS INSÍGNIAS
PRIVATIVAS DO ADVOGADO – RAZÕES ESTATUTÁRIAS,
ÉTICAS E HISTÓRICAS DITADAS PELA NOBREZA DA
ADVOCACIA – INFLUÊNCIA DO INSTITUTO DOS
ADVOGADOS BRASILEIROS.
Os símbolos do advogado, cujo direito de uso é assegurado pelo
inciso XVIII do artigo 7º da Lei nº 8.906/94 e regrado pelo
Provimento nº 08/64 do C.F.O.A.B. (influenciado pelo I.A.B.), são
representados (i) pela figura mitológica de Têmis – deusa grega que
personifica a Justiça -, equilibrada pela balança e imposta pela força
da espada; (ii) pela Balança, que representa o mencionado equilíbrio
das partes; e (iii) pela Beca, usada pelo profissional do direito como
lembrança do seu sacerdócio e respeito ao Judiciário. A presença do
crucifixo nas salas de júri e dos advogados é um alerta para o
cometimento de um erro judiciário que não deve ser esquecido,
enquanto que a figura de Santo Ivo justifica o título de padroeiro
dos advogados, pelo conhecimento de Direito que detinha e por sua
luta em defesa dos necessitados. O uso de desenhos, logotipos,
fotos, ícones, frases bíblicas, orações ou citações célebres, ainda que
eventualmente de boa estética, é vedado pelo artigo 31, caput, do
Código de Ética, letras ‘c’ e ‘k’ do artigo 4º do Provimento nº 94/00
do CFOAB e artigo 4º da Resolução nº 02/92 do T.E.P. ‘Mas as
insígnias que lhe são privativas devem ser ostentadas com orgulho
pelo advogado’”. (V.U., em 21/10/04, do parecer e ementa do Rel.
Dr. Benedito Édison Trama – Rev. Dr. Guilherme Florindo
Figueiredo – Presidente Dr. João Teixeira Grande)
Comentários
O conhecimento técnico do advogado é adquirido nos anos em que estuda o
Curso de Direito e, principalmente, quando sai da sala de aula e no dia a dia
passa a trabalhar com todas as situações que, até então, somente lhe haviam sido
apresentadas de maneira hipotética, ou mesmo com os cursos de especialização
que porventura comece após o término da graduação.
Seu conhecimento dos fatos, porém, advém não apenas das partes que seu
cliente relata ao contratá-lo, mas também tomando ciência daquilo que a outra
parte alega, formando seu juízo de valor sobre o todo e exercendo com base
nesses princípios a advocacia.
Por isso, os incisos XIII e XIV garantem ao advogado examinar processos e
procedimentos judiciais, do Legislativo ou da Administração Pública, ainda que
sem procuração, em andamento ou findos, inclusive para obtenção de cópias,
valendo o mesmo entendimento para autos de flagrante e de inquérito, desde que
não se encontrem sob sigilo.
Devemos observar três momentos distintos com relação ao direito de vistas,
dentro e fora das repartições, de processos por parte dos advogados:

a) Processo Administrativo ou Inquérito Policial: o IP possui natureza


administrativa, sendo, portanto, categoria de processo administrativo. O
advogado pode ver, anotar ou tirar cópia mesmo sem procuração. Para
realizar carga, somente com procuração (regra geral).
Sobre os inquéritos policiais, o STF entendeu que os advogados podem
ter acesso aos documentos que o instruem, ainda que se encontrem em
andamento, por força da Súmula Vinculante nº 14, colocando que “é
direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos
elementos de prova que, já documentados em procedimento
investigatório realizado por órgão com competência de polícia
judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa”.
b) Processo em Andamento: assim como no processo administrativo, o
advogado pode ver, anotar ou tirar cópia mesmo sem procuração. Para
realizar a carga dos autos, somente com procuração.
c) Processo Findo: o advogado pode ver, anotar, tirar cópia e até mesmo
realizar a carga dos autos sem procuração pelo prazo de dez dias. No
cotidiano, porém, quando se pede o desarquivamento, o magistrado
costuma intimar para regularização da situação processual juntando
procuração. Descumpre-se o EAOAB.

A carga regular do processo pode ser requerida por advogado com


procuração nos autos, de acordo com o que disciplina o art. 107 do Novo Código
de Processo Civil, seja pelo prazo legal de cinco dias ou quando tiver que se
manifestar por determinação do juiz. Se o prazo for comum para as partes, os
procuradores devem retirar os autos em conjunto ou combinar previamente a
forma que se dará a carga e, independentemente de ajuste, poderá retirar os autos
para extração de cópias num período entre duas e seis horas, direito este que foi
aumentado com o NCPC, isto porque no antigo diploma o prazo máximo para
carga nestes casos era de apenas uma hora.
Sobre a possibilidade de retirada dos autos em carga rápida, não há qualquer
disposição no EAOAB para tanto, sendo esta disciplinada pelos Tribunais, por
meio de ato normativo neste sentido.

Com base no EAOAB, existem três exceções com relação às vistas e carga
dos processos, sendo uma determinação legal e outras duas dependentes da
discricionariedade do juiz ao analisar o caso concreto:

a) Processo ou Inquérito que Corra Sobre Segredo ou Sigilo: segundo o


EAOAB o advogado só pode copiar e anotar, desde que tenha
procuração. Ainda assim, não poderá fazer carga, o que por vezes pode
soar estranho, já que existem processos que a grande mídia tem acesso e
o advogado não, conseguindo informações de forma ilícita ao quebrar o
sigilo/segredo do processo. Mesmo que findo, não se pode fazer cópia
ou carga, muito menos quebrar o sigilo e mostrar documentos em rede
nacional.
b) Documentos de Difícil Restauração: o próprio juiz pode proibir a
carga de um processo para as partes caso tenha algo de difícil
restauração, como documentos antigos que devem instruir o processo e
seu manuseio sem os devidos cuidados pode destruir o documento. Há
ainda relatos de advogados que comiam títulos de créditos juntados aos
autos (como cheques) para acabar com a execução. Neste último caso, o
juiz determinou a restrição à carga e vista somente com um funcionário
do cartório próximo, algo que foi facilitado pelo processo digital.
c) Advogado Intimado Para Devolver Processo: se o fizer depois da
intimação poderá ser decidido pelo juiz o impedimento de se fazer carga
daquele processo, desde que não tenha gerado prejuízo nenhum às
partes, não deve sofrer infração. Se gerou prejuízo comprovado, será
penalizado com multa no importe de meio salário mínimo (art. 234, §
2º, do NCPC).
Importante mencionar que apenas o advogado intimado que não
devolveu os autos no prazo será penalizado, sem atingir a outra parte e,
sendo a restrição pessoal, caso este advogado encontre-se em sociedade
de advogados, seus sócios poderão realizar a carga do processo, não
sendo atingidos pela desídia do advogado em não devolver os autos.

O Código de Processo Penal, no art. 803, proíbe a retirada dos autos de


cartório em todas as ocasiões, com exceção daqueles que a lei permitir, sob pena
de responsabilização do escrivão que o liberar. Tal fundamento, entretanto, deve
ser relativizado somente aos casos acima elencados e não a todos os processos.
Observação: fotografias são consideradas, assim como escanear, uma
modalidade de cópia, para todos os efeitos. O funcionário, porém, pode anotar os
dados do advogado que viu os autos no próprio processo, já que o advogado
possui como direito ver e anotar, mas é igualmente vedado o anonimato,
podendo anotar tanto os dados do advogado, como as páginas que foram
copiadas.

A Lei 13.245/2016 trouxe alterações significativas no que concerne ao


acesso dos advogados aos autos de investigações policiais ou demais
procedimentos, como aqueles realizados pelo Ministério Público, dando nova
redação ao inciso XIV e acrescentando o inciso XXI, bem como os §§ 10, 11 e
12.
De acordo com essas modificações, o advogado poderá examinar em
qualquer instituição, ainda que sem procuração, os autos de flagrante ou
investigação que se façam em desfavor do seu cliente, em andamento ou findo,
ou mesmo que conclusos à autoridade responsável. Podendo inclusive fazer
cópias desses de peças e documentos, o que somente poderá ocorrer com
procuração (§ 10), algo inovador quanto ao disposto antes da mudança, já que
não se permitia a extração de cópias de procedimentos sob sigilo, ainda que com
a juntada do instrumento de mandato.
Entretanto, apesar dessa novidade, devemos ressaltar que caso a autoridade
competente considere que a liberação de determinadas informações, documentos
e elementos de provas possam prejudicar ou comprometer a eficiência, a eficácia
ou a finalidade das diligências, poderá delimitar o acesso do advogado a esses
elementos, sem que se impeça o acesso aos demais elementos que não incidam
em prejudicialidade às investigações em curso, até mesmo porque a
inobservância a este direito ou o fornecimento incompleto dos autos, podem
ocasionar em responsabilidade criminal e funcional por abuso de autoridade.
Procura-se neste ponto que o advogado possa ter integral acesso aos autos de
inquéritos e demais procedimentos que garantam a sua independência e, ao
mesmo tempo, a ciência de tudo o que ocorre nas investigações das quais seu
cliente esteja envolvido, garantindo-se e ampliando-se seu conhecimento sobre o
caso.
Para tanto, outro direito inserido pela Lei 13.245/2016 se refere ao direito do
advogado de assistir ao seu cliente quando este encontrar-se investigado em
casos de infrações, de modo a proporcionar ao advogado todas as informações
necessárias sobre os fatos e ao cliente ampla segurança nas investigações que
correm sobre ele.
Tamanha é sua importância que o interrogatório ou depoimento podem ser
considerados absolutamente nulos se este novo preceito legal não for observado
nas delegacias ou nas repartições públicas pelas autoridades responsáveis, assim
como tudo o que deles derivar ou decorrer, direta ou indiretamente, conforme já
tivemos a oportunidade de estudar quando analisamos a Teoria dos Frutos da
Árvore Envenenada.
Comentários
Outro inciso que se mostra de grande relevância como direito do advogado,
guardando também certa relação com o momento histórico pós-Ditadura Militar,
em que os advogados eram constantemente agredidos e impedidos de exercer a
profissão. Apesar de constar no antigo EAOAB (Lei 4.215/1963), é sabido que o
respeito às garantias fundamentais, seja do advogado ou do cidadão, não eram
respeitadas no período.
A função do desagravo é justamente reconhecer de maneira pública que as
ofensas dirigidas ao advogado são falaciosas e não merecem prosperar,
retornando-se com esse ato a honra do ofendido.
O advogado que for ofendido no exercício da profissão pode solicitar à OAB
uma sessão solene de desagravo público, rechaçando a atitude de quem ofendeu
o advogado, sendo realizada pelo Presidente do Conselho Seccional, que pode
delegar a função.
Não obstante a reparação pública, devemos observar que cabe ao Conselho
Seccional competente promover a sessão de desagravo público do advogado
ofendido, o que de maneira alguma ameniza ou mesmo exclui a responsabilidade
civil e criminal do infrator, que ainda poderá responder por ambas.
A sessão é amplamente divulgada e o nome do ofensor é colocado em letras
garrafais e em negrito, para que cause impacto à primeira vista de quem ler.
Iniciada a sessão, lê-se um breve relato dos fatos seguido de uma nota de
repúdio.
O ofensor pode ser qualquer pessoa que ofenda a advocacia ou servidor
público. Se o ato for praticado por servidor público, a nota de repúdio será
arquivada em seu prontuário, ali permanecendo para todos os efeitos legais.
O desagravo independe da vontade do ofendido, podendo se fazer de ofício,
isto porque a advocacia como um todo pode ter sido atacada e não apenas o
advogado. Ainda, se o ato tiver repercussão nacional, deve o Conselho Federal
promover a sessão solene.
A ofensa deve ser dirigida ao advogado no exercício profissional. Se, por
exemplo, um casal de marido juiz e esposa advogada, não poderá ela solicitar o
desagravo por conta de discussões familiares e de âmbito doméstico. O mesmo
ocorre se alguém está na rua e é ofendido, vez que não foi no exercício
profissional (embora em ambos os casos possa caber reparação civil e
representação criminal).
Se o caso for incontroverso, o desagravo será realizado de ofício. Se
porventura surgirem dúvidas, o relator remeterá o processo ao presidente do
Conselho para que se intime o ofendido para se manifestar e apresentar sua
defesa no prazo de 15 dias (salvo se o caso urgente e notório), podendo ainda o
relator pedir o arquivamento do pedido, de acordo com o procedimento regrado
no REGOAB, em seu art. 18, §§ 1º e 2º.
Em maio de 2018, foi editada a Súmula 7 pelo Conselho Pleno da OAB
dispondo que o desagravo é ato político interno, de modo que inexiste
legitimidade da pessoa ou autoridade ofensora para interpor recurso em face da
decisão que deferiu o desagravo público.
Em seguida, mais especificamente em junho de 2018, foi editado o
Provimento 179/2018, que instituiu o Registro Nacional de Violações de
Prerrogativas – RNVP, composto pelas informações disponíveis no Sistema da
OAB, tanto no âmbito dos Conselhos Seccionais quanto do Conselho Federal,
que deverão incluir e registrar os dados de cada desagravo público deferido.
O objetivo do RNVP é munir com certidão específica processos de inscrição
em trâmite (visando eventual suscitação de inidoneidade moral com base em
violação grave ou reiterada de prerrogativas da advocacia), possibilitar o estudo
das informações registradas, visando à avaliação de políticas preventivas pelas
Comissões de Defesa das Prerrogativas e ainda gerar dados estatísticos
relacionados ao assunto.

Do desagravo, dois posicionamentos merecem destaque. O primeiro, do


Conselho Federal da OAB sobre juiz que censura advogados constituídos nos
autos e o segundo, também do Conselho Federal, sobre fatos ocorridos fora do
exercício profissional da advocacia, não se constituindo em infração disciplinar.

“Atitude de Juiz que, pela via escrita, censura, de forma genérica e


infundada, advogados constituídos nos autos e membros de
sociedade advocatícia de peticionar sem critério, deve ser repelida
com Desagravo Público. Acórdão: Vistos, relatados e discutidos os
presentes autos, acordam os Conselheiros componentes do Órgão
Especial, por unanimidade, nos termos do voto do Relator, em
conhecer e dar provimento ao recurso interposto, para que seja
concedido ao recorrente o Desagravo Público previsto no artigo 18
do Regulamento Geral do Estatuto da Advocacia e da OAB (Lei nº
8.906/94)”. (OAB Federal. Processo 2008.08.08090-01. Origem:
Conselho Seccional da OAB/RS – Processo nº 238475/2006, de
14.09.2006. Conselho Federal da OAB – Primeira Câmara, Processo
nº 2007.08.04171- 05/PCA, de 14.08.2007)

“Pedido de desagravo público. Fatos supostamente ofensivos


ocorridos quando o advogado não se encontrava no exercício da
função. Recurso desprovido”. (OAB Federal. Recurso nº
2009.08.01165-05. Recorrente: José dos Santos Caetano OAB/PR
18.289. Recorrido: Conselho Seccional da OAB/Paraná.
Interessados: Elói Racki, Adolfo Ramboviski, Reginaldo José da
Silva e José Carlos dos Reis. Relator: Conselheiro Miguel Eduardo
Britto Aragão (SE). Ementa PCA/48/2010)
Comentários
Desnecessário dizer que a relação entre advogado e cliente, além de pautada
na boa-fé, deve ser permeada pelo sigilo mútuo. Por este motivo, o EAOAB
prevê como direito do advogado recusar-se a depor como testemunha em
processo que atuou ou venha a atuar.
A recusa se estende também sobre fatos de pessoa em que foi ou será
advogado, mesmo que seja autorizado por escrito por ele. O sigilo profissional
do advogado é um dever ético com seu cliente, devendo-se prevalecer sempre o
respeito entre ambos.
Além do EAOAB, outros três Diplomas Legais Brasileiros tratam sobre o
tema, sendo dois Civis e dois Penais, valendo a conferência de todos:

a) Novo Código de Processo Civil


“Art. 388. A parte não é obrigada a depor sobre fatos:
[...]
II – a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar sigilo”.
b) Código Penal
“Art. 154 – Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem
ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja
revelação possa produzir dano a outrem:
Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.
Parágrafo único – Somente se procede mediante representação”.
c) Código de Processo Penal
“Art. 207. São proibidas de depor as pessoas que, em razão de função,
ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se,
desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho”.

Vê-se, assim, que como regra o sigilo profissional não pode ser quebrado. É
um direito-dever do advogado, resguardando o advogado daquilo que lhe é
narrado. Contudo, poderá quebrar o sigilo em duas ocasiões:

(i) Grave ameaça do direito à vida sua ou de outrem, ocasião em que


poderá informar fatos que lhe foram narrados em segredo por seu
cliente. É uma faculdade, pois pode ocorrer que, caso ele fale, coloque a
própria vida em perigo, podendo manter-se em silêncio.
(ii) Quando o advogado se vir ameaçado em sua honra, devendo quebrar o
sigilo somente no limite do ataque que lhe é dirigido, ou seja, não pode
revelar tudo, mas apenas aquilo que na sua honra reverberou, salvo se
realmente recair sobre todos os fatos de que tenha ciência.

O dever de sigilo do advogado é uma imposição ética e profissional, sendo


um valor intrínseco para o pleno exercício da profissão, inclusive no tocante à
sua liberdade. Nos dizeres do Professor Paulo Lôbo:

“O dever de sigilo, imposto ética e legalmente ao advogado, não


pode ser violado por sua livre vontade. É dever perpétuo, do qual
nunca se libera, nem mesmo quando autorizado pelo cliente, salvo
no caso de estado de necessidade para a defesa da dignidade ou dos
direitos legítimos do próprio advogado, ou para conjurar perigo
atual e iminente contra si ou contra outrem, ou, ainda, quando for
acusado pelo próprio cliente. Entendemos cessado o dever de sigilo
se o cliente comunica ao seu advogado a intenção de cometer um
crime, porque está em jogo a garantia fundamental e indisponível à
vida, prevista na Constituição. Neste último caso, deve o advogado
promover os meios para evitar que o crime seja cometido”. (LÔBO,
Paulo Luiz Netto. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB.
São Paulo: Saraiva, 2010, p. 65)
Imputar Crime: o advogado pode imputar crime à outra parte do processo se
estiver devidamente autorizado por escrito pelo cliente, podendo ser por e-mail,
telegrama ou mesmo assinatura conjunta na petição. Em havendo, estará
exercendo a advocacia e caso não tenha, responderá criminalmente por calúnia,
nos termos do art. 138, §§ 1º e 2º, do Código Penal, além da infração disciplinar.
Advogado na causa: se for arrolado como testemunha, não deve prestar
depoimento, ainda que autorizado pelo seu cliente. Deve comparecer em
audiência, mas alegar que por conta do sigilo profissional não poderá
testemunhar, podendo inclusive informar o juiz antes da audiência para que não
seja ouvido como testemunha. Se ainda assim houver a insistência para prestar o
depoimento, poderá se reservar ao direito constitucional de permanecer em
silêncio.
Lembrando que, caso declare algo que quebre o sigilo, será considerada
infração disciplinar, respondendo por ela, além das possíveis sanções penais e
civis.

Comentários
Outro ponto que devemos ressaltar é algo comum nos dias atuais: atrasos.
Trânsito, imprevistos, falhas no sistema de transporte público, manifestações
fechando avenidas, alagamentos. Muitos fatores naturais e humanos podem ser
considerados como justificativa, plausível ou não, para os atrasos do dia a dia.
Segundo o EAOAB, o advogado poderá retirar-se do recinto depois de 30
minutos em que estiver aguardando e não ocorrer o pregão do ato judicial ou
mesmo se aquele que deveria presidir o ato não se encontrar ou não chegar nesse
período. Na Justiça do Trabalho, por força da CLT, que em seu art. 815 e
parágrafo único trata que se deve aguardar a autoridade por 15 minutos e, em
não chegando, protocola-se em Cartório o pedido de redesignação dos atos
processuais ou da audiência.
Mas atenção: tal regra é válida somente se a autoridade responsável por
presidi-lo não estiver presente, devendo o ato ser comunicado ao juízo por meio
de protocolo direto no Cartório, não se aplicando de igual forma se a autoridade
estiver presente e a pauta ou os atos processuais encontrarem-se em atraso,
aplicando-se neste caso a revelia ou a ausência do autor.
Neste sentido já vimos o STJ julgar, em sede de HC, que a ausência
voluntária do advogado e do réu não constitui nulidade dos atos praticados
quando o juiz encontra-se presente no Tribunal, estando a pauta atrasada.

“PROCESSUAL PENAL. AUDIÊNCIA. OITIVA.


TESTEMUNHAS DA ACUSAÇÃO. ATRASO NO INÍCIO DO
ATO. ADVOGADO CONSTITUÍDO. AUSÊNCIA VOLUNTÁRIA
JUNTAMENTE COM O RÉU. NOMEAÇÃO DE DATIVO.
NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA.
1. O art. 7º, XX, da Lei nº 8.906/94 autoriza o advogado a se
ausentar do ato processual se a autoridade que vai presidi-lo não se
apresentar depois de trinta minutos de atraso.
2. No caso concreto, não estava a juíza ausente, mas presente no
fórum, realizando outra audiência, daí o atraso, não sendo, pois,
aceitável a invocação do mencionado dispositivo pelo advogado
para ir embora, levando consigo o acusado.
3. Não há, portanto, se falar em nulidade, por cerceamento de
defesa, tanto mais se não demonstrado prejuízo, realizada que foi a
audiência de oitiva de testemunhas da acusação, assistida por
advogado dativo. Precedentes.
4. Ordem denegada.” (HC 97.645/PE. Sexta Turma do Superior
Tribunal de Justiça. Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura.
Julgado em 22/06/2010)

De outra via, o Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região observou que


quando o advogado comprova o atraso injustificado do magistrado para iniciar
aos atos, ele pode ausentar-se do recinto sem que se constitua desídia
profissional ou abandono:

“NULIDADE DO JULGADO – ATRASO NA REALIZAÇÃO DA


AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO – AFASTAMENTO DO JUIZ,
POR MOTIVO PARTICULAR, DA SALA DE AUDIÊNCIA –
NECESSIDADE DE DESIGNAÇÃO DE NOVA AUDIÊNCIA.
Comprovado pela parte que o Juiz ausentou-se da sala de audiência
por 25 minutos, o que, acrescido ao fato de que as audiências
designadas para horário anterior foram realizadas com atraso,
implicando atraso total de uma hora e dezenove minutos, cumpre
reconhecer o direito do autor de retirar-se do recinto, como lhe
permite o art. 815, parágrafo único, da CLT. Contexto este em que,
proferida decisão, com aplicação da pena de confissão ao
reclamante ausente, imperioso se faz a declaração de nulidade do
julgado por cerceio de defesa, máxime considerando que, antes de
proferida a decisão, foi protocolizada petição nos autos, através da
qual a Procuradora foi firme em seu propósito de ver realizada nova
audiência para instrução do feito, ocasião em que explanou os
motivos do pedido.” (RO 01571200910903007 0157100-
61.2009.5.03.0109. Quarta Turma do Tribunal Regional do Trabalho
da 3ª Região. Rel. Des. Julio Bernardo do Carmo. Julgado em
21/09/2010)

Por todo o exposto, de acordo com as decisões dos tribunais brasileiros,


percebemos que tal prerrogativa do advogado somente será observada se
preenchido os requisitos legais. Caso contrário, se o abandono for voluntário,
não poderá o advogado alegar posterior nulidade com base em sua torpeza.
Comentários
Traz ainda o § 2º que o advogado goza de imunidade profissional no
exercício de sua atividade, não constituindo injúria ou difamação nas ocasiões
em que encontrar-se na função, sendo esta uma exceção existente também no
Código Penal, que disciplina no inciso I do art. 142 que não constituem injúria
ou difamação “a ofensa irrogada em juízo, na discussão da causa, pela parte ou
por seu procurador”.
O crime de desacato, contudo, foi excluído das disposições por meio da
ADIn 1.127-8, que o retirou da imunidade funcional do advogado. Vale
citarmos, entretanto, recente decisão de Santa Catarina em que o magistrado
considerou inconstitucional o crime de desacato invocando a Declaração de
Princípios sobre a Liberdade de Expressão com base no Tratado de Direitos
Humanos.
Tal Declaração, instada pela Convenção Americana de Direitos Humanos,
que no item 11 atesta que “os funcionários públicos estão sujeitos a maior
escrutínio da sociedade. As leis que punem a expressão ofensiva contra
funcionários públicos, geralmente conhecidas como ‘leis de desacato’, atentam
contra a liberdade de expressão e o direito à informação”, coloca que a
condenação pelo crime de desacato atenta contra a liberdade de expressão e
acesso à informação. Vale analisarmos parte da decisão:

“Nesse prisma, tenho que a manifestação pública de desapreço


proferida por particular, perante agente no exercício da atividade
Administrativa, por mais infundada ou indecorosa que seja,
certamente não se consubstancia em ato cuja lesividade seja da
alçada da tutela penal. Trata-se de previsão jurídica nitidamente
autoritária – principalmente em se considerando que, em um
primeiro momento, caberá à própria autoridade ofendida (ou
pretensamente ofendida) definir o limiar entre a crítica responsável
e respeitosa ao exercício atividade administrativa e a crítica que
ofende a dignidade da função pública, a qual deve ser criminalizada.
A experiência bem demonstra que, na dúvida quanto ao teor da
manifestação (ou mesmo na certeza quanto à sua lidimidade), a
tendência é de que se conclua que o particular esteja desrespeitando
o agente público – e ninguém olvida que esta situação, reiterada no
cotidiano social, representa infração à garantia constitucional da
liberdade de expressão”. (Auto nº 0067370-64.2012.8.24.0023 –
grifos do original)

Destaca-se a unilateralidade da representação, seja do advogado ou do


particular, sobre o crime de desacato, cabendo à autoridade definir, num primeiro
momento, o limite entre o exercício regular do direito e a ofensa ao funcionário
público, o que não pode se classificar como ilícito penal de acordo com o
Tratado Internacional mencionado.
Essa decisão pioneira com base na jurisprudência pacificada da Corte
Interamericana de Direitos Humanos e Tribunal Internacional de Justiça da
Organização das Nações Unidas ainda é novidade no Brasil, em que a regra é a
continuidade das punições ao crime de desacato. Colocamos a divergência
apenas para efeitos instrutivos, haja vista que a imunidade sobre o desacato foi
considerada inconstitucional pelo STF e desta forma é também entendida para
efeitos do Exame de Ordem.
A menção mais importante que devemos fazer é que a atividade profissional
não ocorre somente na postulação em juízo, de modo que a abrangência deste
dispositivo abarca também os fatos ocorridos fora dele, desde que no exercício
profissional.
Ainda que imune, o advogado não é livre para se portar ou exercer
abusivamente sua profissão, devendo resguardar suas prerrogativas e o dever de
urbanidade com os demais. Qualquer excesso praticado pelo advogado nestas
circunstâncias será passível de sanção disciplinar caso comprovado.

Senão vejamos o posicionamento do TED de São Paulo sobre a falta de


urbanidade do advogado e a imunidade, que não é absoluta, devendo responder
pelos excessos cometidos no exercício da profissão:

“FALTA DE URBANIDADE – EXCESSOS COMETIDOS PELO


ADVOGADO EM CONSIDERAÇÕES REALIZADAS EM
CORRESPONDÊNCIA ELETRÔNICA, CONSIGNAÇÃO DE
ACOMPANHAMENTO PROCESSUAL DE OUTRO
PROFISSIONAL – A IMUNIDADE PROFISSIONAL NÃO É
ABSOLUTA, DEVENDO SER PUNIDAS AS CONDUTAS
INCOMPATÍVEIS COM A ATIVIDADE PROFISSIONAL.
Ao falar em urbanidade, deve-se ter em mente o tratamento pessoal
respeitoso, e de maneira civilizada. O EAOAB em seu artigo 7o, §
2o, confere imunidade profissional ao advogado, porém faz
ressalvas dos textos legais que impõe limites da própria lei em
hipótese de cometimento de excessos por parte do causídico. A
imunidade não é absoluta e os excessos deverão ser contidos.
Violação ao artigo 2o, parágrafo único, incisos I e II, e artigo 44,
ambos do Código de Ética e Disciplina da OAB. Pena aplicada:
censura, convertida em advertência, em ofício reservado, sem
registro nos assentamentos das inscritas, em face da análise da vida
profissional das Representadas, com fulcro no artigo 36, inciso II, §
único da Lei no 8.906/94. Representação Procedente. Precedente
neste Tribunal: E-2.553/02”. (TED OAB/SP Processo Disciplinar no
20R0004372011, Rel. ‘ad hoc’ Dr. Cristian Colonhese. J. em
13.9.2013)

Igualmente, considerou-se que o advogado que se utiliza de expressões fortes


e marcantes na defesa dos interesses do seu cliente não fere a urbanidade e o
respeito mútuo que deve existir na profissão, pelo contrário, somente corrobora
com o entendimento de que deve utilizar-se de todos os meios idôneos para
defender seu cliente, ainda que de maneira veemente:

“EMENTA: IMUNIDADE PROFISSIONAL


O advogado que utiliza expressões veementes no calor da defesa de
seu cliente não caracteriza falta de dever de urbanidade, inexistindo
conduta ofensiva nas manifestações apresentadas no exercício de
sua atividade em juízo”. (TED OAB/SP processo disciplinar no
02R0018202009, Rel. Dra. Maria Cristina Lapenta. J. em
30.11.2011)
Comentários
Por força deste dispositivo, todos os fóruns e tribunais, além de delegacias e
presídios, devem instalar salas permanentes para utilização dos advogados. Além
do já comum café, as salas estão ocupadas em sua maioria com impressoras,
copiadoras e computadores para cópias de processos, confecção e impressão de
petições, sendo de uso exclusivo dos advogados e estagiários regularmente
inscritos nos quadros da OAB.
Mais recentemente com o avanço do processo digital em diversos Estados da
Federação, as salas estão ocupadas também com escâneres e aparelhos próprios
para reconhecimento do certificado digital dos advogados.
Não é incomum encontrarmos nestes mesmos ambientes, salas de reuniões
para que os advogados possam utilizar entre si ou com seus clientes, tendo maior
tranquilidade para as tratativas processuais.
A palavra “controle” foi retirada pelo STF por meio da ADIn 1.127-8, vez
que não pode a OAB exercer controle sobre prédios públicos, ainda que apenas
sobre a parte em que a sala será instalada. Caberá, porém, à OAB organizar e
mantê-la dentro desses recintos para uso dos advogados.
Comentários
A Lei 13.363/2016 inseriu no EAOAB direitos específicos em favor das
advogadas gestantes, lactantes e adotantes.
Importante destacarmos o período de vigência de tais direitos em favor da
advogada, conforme os parágrafos do dispositivo em questão.
No caso da advogada gestante ou lactante, enquanto perdurar a gestação ou o
período de amamentação, terá os direitos previstos no artigo ora em comento,
isto é, no caso da advogada gestante, terá direito a não ser submetida aos
detectores de metais e aparelhos de raios X, bem como à reserva de vagas em
garagens dos prédios em que funcionem os fóruns e tribunais. No caso da
lactante, enquanto perdurar o período de amamentação, terá direito à preferência
na realização das sustentações orais nas sessões dos tribunais, bem como na
realização das audiências que figurem na pauta do Juízo. Ainda, terá direito de
acesso a creche ou local adequado ao atendimento das necessidades do bebê.
Por sua vez, no caso da advogada adotante ou que der à luz, os direitos
previstos nos incisos II e III do presente artigo vigorarão pelo prazo de 120 dias,
o qual corresponde ao prazo atribuído a título de licença maternidade às
empregadas celetistas em geral, conforme art. 392 da Consolidação das Leis do
Trabalho.
Por fim, quando a advogada adotante ou que der à luz pretender a suspensão
dos prazos processuais, deve-se atentar que o mesmo só poderá ocorrer quando
ela for a única constituída no processo, e desde que haja notificado por escrito,
anteriormente, o seu cliente. Tal suspensão se dará pelo prazo de 30 dias, que é o
prazo fixado pelo § 6º do art. 313 do Código de Processo Civil.

Comentários
A pergunta que surge quando o candidato finalmente é aprovado no Exame
é: “passei na OAB já sou ‘advê’”? A resposta é: não! Devem-se preencher sete
outros requisitos, sendo passar na OAB um deles.
O art. 8º do EAOAB traz os requisitos mínimos e necessários para que o
então bacharel possa realizar sua inscrição nos quadros da OAB. Tais requisitos
não se traduzem apenas na condição de bacharel em direito, sendo necessário o
cumprimento de outras exigências legais.
O advogado público também precisa se inscrever na OAB, sendo
subordinados ao EAOAB e ao regime de servidor público disposto para sua
carreira. Há discussões sobre o tema, mas a OAB encampa esta linha de
raciocínio (a Procuradoria Federal, por exemplo, defende que não há necessidade
da inscrição, bastando o registro funcional ou mesmo o RG, posição não aceita
pela OAB).

Comentários
Em respeito ao Código Civil, exige-se que a capacidade civil do candidato
seja comprovada, isto porque para o exercício da profissão é necessário que o
advogado seja apto para cumprir com sua função social, lembrando que a
advocacia é considerada tanto pela CF como por este EAOAB como uma função
essencial para administração da justiça e para cumprimento de um múnus
público.
A capacidade civil é condição para o exercício das atividades cívicas e claro
que deve ser observada também neste caso, devendo o candidato ser maior de 18
anos ou se menor já ter concluído o curso superior (art. 5º, IV, do Código Civil),
não ser interditado e seguir todos os requisitos constantes nos primeiros
dispositivos do Diploma Civil. Nas palavras da professora Maria Helena Diniz:

“Da análise do art. 1º do Código Civil surge a noção de capacidade,


que é a maior ou menor extensão dos direitos e dos deveres de uma
pessoa. De modo que a esta aptidão, oriunda da personalidade, para
adquirir direitos e contrair deveres na vida civil, dá-se o nome de
capacidade de gozo ou de direito. Entretanto, tal capacidade pode
sofrer restrições legais quanto ao seu exercício pela intercorrência
de um fato genérico como o tempo (maioridade ou menoridade), de
uma insuficiência somática (deficiência mental). Logo, a
capacidade de fato ou de exercício é a aptidão de exercer por si os
atos da vida civil, dependendo, portanto, do discernimento, que é
critério, prudência, juízo, tino, inteligência, e, sob o prisma jurídico,
a aptidão que tem a pessoa de distinguir o lícito do ilícito, o
conveniente do prejudicial”. (DINIZ, Maria Helena. Manual de
Direito Civil. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 34)

A capacidade civil é de suma importância, pois é partir da capacidade de


gozo que o advogado contrai os direitos esposados neste EAOAB e nos demais
diplomas e normativas que versam sobre o tema e assume as responsabilidades
desse dever decorrente do múnus público da advocacia.
Já pela capacidade de fato, o advogado coloca em prática a atividade jurídica
do cotidiano, podendo com isso exercer por si os atos civis, tendo critérios
mínimos de discernimento e compreensão da realidade social, política e jurídica
do país para tanto, sabendo discernir e aplicar, seja no caso concreto ou nas
tratativas com seu cliente, aquilo que é lícito dentro da sociedade.

Verifica-se que a capacidade postulatória é requisito essencial quando


analisamos o posicionamento do TED de São Paulo sobre os reflexos legais de
advogado interditado temporariamente e, portanto, licenciado, para efeitos dos
atos praticados:

“ADVOCACIA – ADVOGADO INTERDITADO


TEMPORARIAMENTE POR SENTENÇA QUE O DECLARA
ABSOLUTAMENTE INCAPAZ POR DOIS ANOS –
REFLEXO PROFISSIONAL – LICENCIADO –
INAPLICABILIDADE DO CANCELAMENTO – EFEITOS
DOS ATOS.
A capacidade civil, predicado da pessoa natural, pode colocar-se
para efeitos de análise em duas perspectivas: a que decorre
exclusivamente do decurso do tempo do inciso I dos arts. 3º e 4º do
C.C. e a que decorre – absoluta ou relativa – dos demais incisos
daquelas mesmas normas. Se a incapacidade resultante de idade
opera pelo simples fato temporal, as demais situações que podem
induzir a vedação da prática dos atos de vida civil – seja absoluta
seja relativamente – assumem natureza de medida judicial a remeter
para a área dos interditos (C.C. 1.767) na área da tutela ou curatela.
Se, ao ingressar na OAB, o candidato comprova estar no exercício
pleno da capacidade jurídica e, cumprindo os mais requisitos, vem a
ser inscrito como advogado, mas, posteriormente, se vê interditado,
temporariamente, não decorrerá disso, por certo, extinção ou
término de seus status profissional, com cancelamento da inscrição,
atento a tratar-se de uma situação transitória, a termo certo,
reversível, retornável à plena capacidade. O advogado interdito fica
impedido de exercer o mandato e, portanto, no plano profissional,
numa situação de proibição, suspensivamente, do exercício,
enquanto não advenha o termo da interdição. Não advindo a
interdição, por outro lado, por causas ou motivos de ordem
profissional, entende-se que apenas deva o seu nomeado curador
pedir o licenciamento do interdito na OAB, pelo tempo da
interdição (EAOAB, 12, I). Anote-se que eventuais atos praticados
pelo interdito, durante a interdição, estão feridos pela nulidade
absoluta do art. 166, I, do C.C. induzindo, ademais,
responsabilidade disciplinar pela infração capitulada no EAOAB
(art. 34, I)”. (Proc. E-3.339/2006 – v.u., em 17/08/2006, do parecer
e ementa do Rel. Dr. Ernesto Lopes Ramos, Rev. Dr. Luiz Antonio
Gambelli, Presidente Dr. João Teixeira Grande)

Comentários
Obviamente, outro requisito indispensável é o diploma ou certidão de
colação de grau do curso de direito, a ser obtido em instituição regular oficial,
autorizada e credenciada pelo Ministério da Educação. Se o candidato apresentar
a certidão, esta deverá vir acompanhada de histórico escolar autenticado, em
observância ao art. 23 do REGOAB.
A exigência de diploma ou certidão de graduação em direito pode parecer
desnecessário, mas cumpre com uma função histórica importantíssima, tal qual o
dispositivo constitucional que exige reputação ilibada e notório saber jurídico
dos futuros juízes, desembargadores e ministros.
Analisando os anais da história do Judiciário brasileiro encontraremos a
figura de Cândido Barata Ribeiro, médico baiano nomeado como Ministro do
Supremo Tribunal Federal por decreto de 23 de outubro de 1893, após o
falecimento do Barão de Sobral, chegando a tomar posse como ministro no dia
25 de novembro do mesmo ano.
Apenas em 24 de setembro de 1894, quase um ano após sua nomeação, o
Senado negou, seguindo parecer da Comissão de Justiça e Legislação, a
aprovação de sua posse por falta de notório saber jurídico, corroborando até os
dias atuais com a exigência de diplomação do bacharel em direito.
Sobre o tema, valiosa lição nos traz Emília Viotti da Costa:

“Desgostoso com o desempenho do Tribunal, Floriano tomou


medidas retaliatórias, deixando de preencher as vagas que
resultavam das aposentadorias. Ao findar o ano de 93, o Supremo
encontrava-se desfalcado de vários membros. Floriano nomeou
Barata Ribeiro e dois generais para preenchimento dos claros, o que
provocou a desaprovação da magistratura e do Congresso, que se
negou a ratificar o ato por faltar aos indicados o preparo jurídico
necessário para o desempenho do cargo”. (COSTA, Emília Viotti da.
O Supremo Tribunal Federal e a Construção da Cidadania. São
Paulo: IEJE, 2001, p. 26)

Percebe-se que a necessidade de saber jurídico é indispensável para o


exercício da advocacia, motivo pelo qual a exigência feita no EAOAB se reveste
de extrema importância, para impedir que ocorra, como nos primeiros anos da
jovem República, o que aconteceu no STF no governo de Floriano Peixoto, com
a indicação de dois generais e um médico para o exercício de carreiras
nominalmente jurídicas.
Comentários
Há ainda uma disposição que se aplica exclusivamente ao inscrito brasileiro:
apresentação do título de eleitor e quitação do serviço militar, não exigível dos
candidatos estrangeiros.
Procura verificar a plena condição dos direitos políticos do advogado,
conforme exigência constitucional, assim como o pleno cumprimento do serviço
militar obrigatório (para o caso de homens), seja àqueles que efetivamente
prestaram o serviço ou para os reservistas, que devem apresentar sua carteira ou
outro documento válido.
Como o advogado é defensor da cidadania, não faz sentido quem defende a
cidadania não ser cidadão, devendo tê-la exercido de maneira plena: sendo
eleitor e quite com o serviço militar obrigatório.

Comentários
Qualquer pessoa pode prestar o Exame Unificado da Ordem dos Advogados
do Brasil se possuir CPF regular, podendo ser aprovada em ambas as fases, mas
não poderá se inscrever porque tem que apresentar diploma/certidão do curso de
direito no prazo do edital, não podendo se inscrever depois. Apesar de aprovada,
será considerada inapta.
A aprovação no Exame de Ordem é requisito essencial para que o candidato
comprove suas aptidões jurídicas e seu conhecimento mínimo. Deve ser prestado
em duas etapas: a primeira fase com questionário de múltipla escolha contendo
80 questões das disciplinas trabalhadas durante o curso, sendo aprovado aquele
que obtiver mínimo de 50% de acertos (40 questões).
As matérias abordadas na primeira fase, com o respectivo número de
questões, são: ética profissional (que possui peso de 10 questões, sendo a matéria
com maior peso no exame); Direito Constitucional (sete testes); Direito Civil
(sete testes); Direito Penal (seis testes); Direito Processual Civil (seis testes);
Direito do Trabalho (seis testes); Direito Administrativo (seis testes); Direito
Processual do Trabalho (cinco testes); Direito Processual Penal (cinco testes);
Direito Empresarial (cinco testes) Direito Tributário (quatro testes); Direitos
Humanos (três testes); Filosofia do Direito, Ambiental, ECA, Internacional e
Consumidor (cada uma com dois testes), perfazendo o total de 80.
Já a segunda fase consiste em prova prática, com uma peça (valendo nota
5,0) e quatro questões (com peso 5,0), nas seguintes disciplinas, à escolha do
candidato: administrativo, civil, constitucional, empresarial, trabalho ou
tributário. A aprovação, neste caso dependerá de 60% de acertos no mínimo
(nota 6,0). Caso o candidato identifique erroneamente a peça estará
automaticamente reprovado, independentemente das questões.
Existe a possibilidade de o candidato prestar o exame ainda em curso, não
tendo que obrigatoriamente estar formado. A partir do 9º semestre (para os
cursos semestrais) ou do último ano (para os cursos anuais), pode o candidato
prestar o exame. Em caso de aprovação, basta concluir a graduação para
preencher o requisito do inciso II e poderá dar entrada no seu pedido de
inscrição.
Aqui, devemos nos atentar para um ponto. A aprovação no exame de ordem
é mais do que simples requisito formal. Temos visto no Brasil como a
proliferação de faculdades autorizadas a ministrar o curso de direito se
espalharam nos últimos anos, cursos esses que não atingem, muitas vezes, a nota
mínima satisfatória para sua existência, mas que continuam formando e
despejando no mercado bacharéis despreparados para atuar na importante missão
que a advocacia lhes reserva.
A confirmação desta constatação se faz pela simples análise da porcentagem
de aprovados nos Exames Unificados, que se mostram cada vez menores e que
se torna alarmante quando analisamos separadamente por cada instituição.
Apesar de o STF, quando do julgamento do RE 603.583, ter considerado por
unanimidade o Exame de Ordem como exigência legal constitucional (art. 5º,
XIII), vários são os projetos de lei que visam acabar com sua exigência, além das
pressões de grupos que se colocam contrários a ele (muitos formados por
bacharéis em direito que não conseguem sua aprovação). Segundo ementa do
RExt, que contou com a relatoria do ministro Marco Aurélio:

“TRABALHO – OFÍCIO OU PROFISSÃO – EXERCÍCIO.


Consoante disposto no inciso XIII do artigo 5º da Constituição
Federal, ‘é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou
profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei
estabelecer’. BACHARÉIS EM DIREITO – QUALIFICAÇÃO.
Alcança-se a qualificação de bacharel em Direito mediante
conclusão do curso respectivo e colação de grau. ADVOGADO –
EXERCÍCIO PROFISSIONAL – EXAME DE ORDEM. O Exame
de Ordem, inicialmente previsto no artigo 48, inciso III, da Lei nº
4.215/63 e hoje no artigo 84 da Lei nº 8.906/94, no que a atuação
profissional repercute no campo de interesse de terceiros, mostra-se
consentâneo com a Constituição Federal, que remete às
qualificações previstas em lei.” (STF. RExt nº 603.583/RS, Rel.
Min. Marco Aurélio, j. em 26.10.11)

Na contramão disso, pesquisas recentes demonstram que a sociedade não


apenas apoia o exame, como o considera necessário para outras profissões
igualmente importantes no seio social, como é o caso da medicina.

Comentários
É fundamental que o advogado não exerça atividade incompatível com a
advocacia. Como já tivemos a oportunidade de analisar, existe a liberdade de
atuação do advogado, desde que ele cumpra com os requisitos legais.
Quando estamos diante de advogados que prestam os mais diversos serviços
fora da advocacia e ainda assim exercem conjuntamente a profissão, verificamos
a não conformidade com esta disposição.
Não pode ser juiz e advogado, oficial de justiça e advogado, promotor e
advogado, policial militar (incluindo bombeiros) na ativa e advogado. Mas o PM
na ativa pode cursar direito, pode prestar o exame e se aprovado guardar a
certidão de aprovação para dar entrado quando se aposentar, for exonerado ou ir
para a reserva.
Esta vedação visa proteger a advocacia e, acima disso, por conta de seu
caráter público, a sociedade como um todo, garantindo-se que no momento da
contratação tenha apenas e tão somente um profissional focado na advocacia e
não disperso em atividades outras que não condizem com o EAOAB.

Comentários
O EAOAB procura ressaltar sempre que possível a necessária idoneidade
moral para cumprimento da função de advogado, e para a inscrição não seria
diferente.
Devemos considerar como idôneo moralmente o sujeito que age de forma
escorreita. O contrário é o inidôneo moral, que para a lei é quem pratica qualquer
tipo de crime infamante que atente contra a advocacia.
Para todos os efeitos, a OAB considera, na esteira dos ensinamentos do
Professor Paulo Lôbo, que “crime infamante é todo aquele que provocar forte
repúdio ético da comunidade geral ou profissional, acarretando desonra para seu
autor caso venha a exercer a advocacia”. (LÔBO, Paulo Luiz Netto.
Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São Paulo: Saraiva, 2010, p.
101)
Ainda que o ordenamento não traga a definição acima em nenhuma lei,
devemos entender que o conceito de crime infamante não se relaciona apenas
com o bem jurídico tutelado pelo crime praticado, muito menos com a pena que
lhe é aplicada, mas sim o impacto e a repercussão que a condenação por este
crime traz a toda classe advocatícia em seu exercício profissional, trazendo a ela
desprestígio e desonra.
Para saber o que é crime infamante ficou estabelecido que o quórum
qualificado de 2/3 do Conselho Seccional decidirá o que é crime infamante para
indeferimento do pedido de inscrição de advogado.
Se o candidato declarar que nunca praticou, a OAB publica 30 dias antes da
solenidade o nome de todos os candidatos que serão inscritos como advogados
no Diário Oficial, podendo qualquer do povo denunciar que o futuro advogado
praticou crime infamante (vedado o anonimato), sendo o pedido encaminhado ao
Conselho Seccional para deliberação. A OAB não pesquisa por conta própria se
o candidato declarar que nunca praticou.
Em junho de 2018, foi editada a Súmula 6 pelo Conselho Pleno da OAB,
dispondo que nos processos de inscrição, o Conselho Competente poderá
suscitar incidente de apuração de idoneidade, quando se tratar de pessoa que
tenha ofendido, de forma grave ou reiterada, as prerrogativas da advocacia,
sendo assegurados o contraditório e a ampla defesa.

Considerou o Conselho Federal da OAB acerca da idoneidade moral e da


questão do crime infamante:

“A idoneidade moral, mais do que uma condição de ingresso no


quadro da ordem, é uma permanente exigência na vida do
advogado, mas para excluir o advogado do exercício da advocacia é
necessário o quorum qualificado de dois terços exigidos pelo art. 38,
parágrafo único, do EAOAB, e art. 108 do Regulamento Geral.”
(OAB Federal, Recurso 2009.08.08704-05/SCA-STU)
“‘Crime infamante não encontra definição em nosso ordenamento
jurídico, sendo conceito indeterminado a exigir interpretação
casuística. A inidoneidade para exercer a advocacia exige prova
cabal.’ (Recurso 0180/2005/SCA) 2. Advogada condenada
criminalmente por ‘apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a
posse ou a detenção’. 3. A conduta ilícita prevista no art. 168 do CP,
de per si, não ostenta a condição de ‘crime infamante’, mormente
quando a recorrente não apresenta registro de qualquer outro
antecedente penal ou disciplinar. 4. Para a exclusão de advogado
dos quadros da OAB não basta a imputação da prática de ilícito
penal ou mesmo a sua condenação; é imprescindível que o crime
seja considerado infamante, como tal considerados aqueles que
revelem especial gravidade e que contribuam para denegrir a
imagem do advogado e da advocacia no seio da sociedade.” (OAB
Federal, Recurso 2007.08.02752-05)

Comentários
Por fim, como último requisito, exige-se que o candidato preste
compromisso perante o Conselho Seccional, dando publicidade a todos, tanto os
demais membros da OAB, como à sociedade, de que cumpriu com todas as
demais exigências, condição esta sine qua non para exercer a advocacia, tendo
sido disposto no art. 20 do REGOAB com o seguinte compromisso: “prometo
exercer a advocacia com dignidade e independência, observar a ética, os deveres
e prerrogativas profissionais e defender a Constituição, a ordem jurídica do
Estado Democrático, os direitos humanos, a justiça social, a boa aplicação das
leis, a rápida administração da justiça e o aperfeiçoamento da cultura e das
instituições jurídicas”.
Este ato, marcado pela solenidade de entrega pelo Conselho Seccional da
carteira profissional e da carteira brochura (com páginas para anotações como
censura, impedimentos, comprovante de votação nas eleições etc.), marca o
início oficial da vida de todo e qualquer advogado, ainda que lhe seja permitido
o exercício com certidão provisória válida por 90 dias até a confecção dos
documentos.
Este ato é intransferível, ou seja, somente o advogado deverá prestá-lo, não
podendo delegar ou passar procuração para terceiros. Se a agenda não bater e o
advogado não puder comparecer, existe a possibilidade de informar a OAB e
pedir a remarcação para uma próxima sessão.

Comentários
O exame de ordem tem abrangência nacional e por este motivo o EAOAB
exige que o mesmo deve ser regulamentado pelo Conselho Federal, que cumpre
com sua função com o Provimento 156/2013, mais recente normativa sobre o
tema.
Apesar de nacional, até 2009 o exame não era unificado, de modo que cada
Conselho Seccional elaborava as provas de primeira e segunda fase, situação que
mudou após a edição do Provimento 136/2009, passando a valer a partir do ano
de 2010.

Comentários
Por óbvio, pode ainda o candidato ter diploma de graduação em direito
emitido por instituição estrangeira. Neste caso, deverá apresentar o documento
devidamente revalidado pelo Ministério da Educação, além de observar os
demais requisitos do EAOAB, incluindo a aprovação no exame de ordem.
Existem, todavia, três situações que devemos nos atentar quando tratamos do
advogado estrangeiro:

a) Consultoria de Direito do seu País de Origem: pode o advogado atuar


no Brasil para prestar consultoria sobre o direito em vigor no seu país
de origem, mas deverá solicitar autorização precária à OAB para poder
atuar no Brasil com o direito estrangeiro, ainda que seja apenas para
revisar contratos, por exemplo.
É vedado o exercício de postulação ou consultoria/assessoria em direito
brasileiro, mesmo que conjuntamente com advogado brasileiro, salvo se
requerer ao Conselho Seccional uma autorização que terá duração de
três anos renovável sucessivamente pelo mesmo período.
b) Advogado que Deseja Atuar de Maneira Plena: pode, mas terá de
validar o diploma estrangeiro junto ao Ministério da Educação e deve
ser aprovado no Exame de Ordem. Mesmo que em seu país de origem o
exame não exista ou não seja obrigatório, deve-se aplicar o princípio da
territorialidade, valendo para todos os efeitos a lei brasileira.
c) Advogado Português: segue o Provimento 129/2008. Estando
regularmente inscrito na OAP (Ordem dos Advogados de Portugal),
poderá pedir sua inscrição na OAB sem prestar o exame graças a tratado
de reciprocidade existente entre os dois países.
Atenção: advogado brasileiro também pode se inscrever em Portugal,
desde que comprove o exercício efetivo da advocacia por dois anos, isto
porque, ao contrário do Brasil, Portugal não tem exame. Quando o
estudante se forma passa automaticamente a ser visto como uma espécie
de “advogado assistente”, sendo supervisionado por um advogado
escolhido pela OAP, que o acompanhará por dois anos, no final
lavrando um relatório circunstanciado se deve ou não ser inscrito nos
quadros efetivos da OAP. Se considerado inapto, poderá passar
novamente por este “teste” e se for reprovado novamente, nunca mais
poderá prestá-lo e consequentemente não poderá advogar.

Comentários
Assim como para ingressar nos quadros como advogado, o estudante de
direito que desejar ingressar como estagiário deverá observar os requisitos
essenciais contidos no EAOAB.
Para tanto, o acima transcrito inciso referencia cinco itens constantes no já
trabalhado art. 8º para seu ingresso, sendo eles: (i) capacidade civil; (iii) título de
eleitor e quitação com o serviço militar; (v) não exercer atividade incompatível
com a advocacia; (vi) idoneidade moral; (vii) prestar compromisso com o
Conselho Seccional.
Excluíram-se somente os incisos dos quais o estudante ainda não é capaz de
cumprir e cuja exigência somente se fará após a conclusão do curso: (i) diploma
ou certidão de graduação e (ii) aprovação no exame de ordem.
A obrigatoriedade observada neste momento busca, desde o estágio,
promover e incutir a importância que se tem o curso de direito na sociedade, de
modo que, apesar de o estagiário encontrar-se sob o comando do advogado, já
deve desde o início observar os mesmos fundamentos da profissão.

Comentários
Diferentemente do advogado, que não necessita ter vínculos com escritórios
de advocacia, o futuro estagiário deve comprovar sua admissão em estágio
profissional de advocacia, momento no qual poderá requerer sua inscrição nos
quadros de estágio da OAB. Contudo, as exigências não param por aí, tendo de
cumprir outras disposições constantes no EAOAB.

Comentários
A duração e a forma em que o estágio deve ser realizado não podem
ultrapassar dois anos e somente será aceito se o estudante estiver nos dois
últimos anos do curso (4º e 5º anos), podendo ser cumprido em diversos locais,
desde que devidamente credenciados pela OAB: na própria instituição de ensino
quando esta possuir, com aval do Conselho Seccional, escritórios modelos ou
Núcleo de Prática Jurídica (NPJ), ou mesmo em setores e órgãos jurídicos ou
escritórios de advocacia.
O importante de observarmos é que o EAOAB não exige somente o vínculo
do estagiário com alguma instituição ou escritório credenciados pela OAB.
Obriga também que o estagiário estude tanto o EAOAB como o Código de Ética
e Disciplina, de modo a buscar seu constante aperfeiçoamento e, como já
dissemos, apesar de o estagiário encontrar-se sob as ordens dos advogados, deve
desde o início observar os fundamentos gerais legais e éticos que balizam a
profissão.
Será sempre requerido no Conselho Seccional em cujo território se localize
seu curso, ou seja, não pode requerer o candidato inscrição em outro Estado,
ainda que sua universidade possua campi em outras localidades.
A maior especificidade, porém, encontra-se no tocante aos alunos que
exerçam atividades incompatíveis com a advocacia, sendo-lhes permitido e até
incentivado participar de estágio nas instituições com o único intuito de
proverem sua aprendizagem, sendo vedada a inscrição na OAB.
Este dispositivo procura também proteger o estudante e a sociedade,
garantindo-se que o estagiário se dedique integralmente às atividades da
advocacia, a exemplo do advogado, exercendo apenas esta função.
Comentários
Existem quatro espécies de inscrições de advogados segundo o EAOAB:

a) Principal/Definitiva: aquela que o advogado estabelece o seu domicílio


profissional. Na dúvida, onde exerce a profissão com habitualidade.
b) Transferência: quando o advogado muda de Estado (quando o Exame
de Ordem era regional e teoricamente mais fácil em outros Estados,
começaram a restringir e em alguns casos até mesmo a pedir novo
exame. Como atualmente é nacional a transferência é mais fácil, sem
maiores exigências).
c) Reinscrição: o advogado pode pedir sua reinscrição caso o seu número
tenha sido cancelado por algum motivo. Se houver sido excluído da
OAB em razão de crime, o advogado reabilitado poderá se reinscrever,
fazendo provas da reabilitação e cumprindo com as exigências do art.
8º, I, V, VI e VII, do EAOAB, não necessitando de novo exame.
d) Suplementar: para todo advogado que exercer a profissão em mais de
cinco causas em Conselho Seccional distinto de sua inscrição principal,
não tendo prazo de validade. Deve exceder as cinco.

Sobre o local da inscrição principal, exige o EAOAB que o advogado o


realize no Conselho Seccional em que pretenda fixar seu domicílio profissional,
devendo para tanto observar o estabelecido no Regulamento Geral.
Assim, ainda que o advogado tenha realizado o exame de ordem e sido
aprovado em outro Estado, poderá ele requerer sua inscrição em qualquer dos
conselhos no Brasil, haja vista o caráter nacional e unificado do exame.
Será considerada, para todos os efeitos, a sede principal da atividade
advocatícia prestada pelo advogado como seu domicílio profissional e nos casos
em que houver dúvidas, o seu domicílio enquanto pessoa física (residencial),
assim considerado segundo disposição do Código Civil (art. 72 e parágrafo
único). A inscrição principal é de suma importância para definir várias questões,
como nos ensina o Professor Paulo Lôbo:

“O domicílio profissional é imprescindível, porque vincula o


advogado à jurisdição do respectivo Conselho, para fins de
fiscalização, eleições, pagamento de contribuições obrigatórias,
controle disciplinar, cadastro e assentamentos. A declaração falsa de
domicílio profissional, posteriormente verificada, leva ao
cancelamento da inscrição”. (LÔBO, Paulo Luiz Netto.
Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São Paulo:
Saraiva, 2010, pp. 108-9)

Para tanto, da mesma maneira que os órgãos públicos requerem sempre a


atualização do endereço do contribuinte, o advogado deve fazê-lo junto ao
Conselho Seccional, informando ainda quaisquer mudanças que se façam em seu
domicílio profissional ou de sua pessoa física, desde que ocorra na mesma
circunscrição do Conselho. Caso se mude para outra unidade federativa, deverá
o advogado transferir sua inscrição para o Conselho Seccional competente.
Além da principal, o EAOAB estabelece que o advogado deverá requerer
inscrição suplementar em outros Conselhos em que passe a atuar habitualmente,
considerando-se para tanto a intervenção que exceda cinco causas ao ano.
Para que ocorra essa necessidade, devem-se contar todas as causas ativas,
excluindo-se aquelas transitadas em julgado ou o caso de Habeas Corpus, que
não cabe para contagem do cômputo.
Devem-se somar todas as causas em que ainda participa e exerce a profissão
em todas elas, entendimento este já pacificado pelo Tribunal de Ética e
Disciplina, já que permanece ativo no processo e até mesmo poderá começar a
exercer com habitualidade se não contá-las.
Este é, na realidade, o principal intuito da inscrição suplementar, da
habitualidade, tendo que pagar anuidade tanto ao Conselho Seccional da
inscrição principal, como ao da suplementar, lembrando que o valor da anuidade
é fixado pelo Conselho e varia de Estado para Estado, haja vista que o parâmetro
para fixação é a capacidade socioeconômica do ente federativo.
Se o Conselho Seccional descobre (geralmente avisado por algum
magistrado ou promotor), poderá cobrar o valor retroativo de cinco anuidades e
ainda incorre em infração disciplinar com pena de censura e multa, que varia de
uma a dez anuidades. A fiscalização da própria OAB sobre isso é quase nula.
A exigência se faz ainda que o advogado não exerça ativamente a profissão,
mas pretenda orientar estagiário, como em Núcleos de Prática Jurídica (NPJ),
uma vez que para acompanhar o estudante o advogado responsável deve estar
regularmente inscrito no Conselho Seccional, seja definitivamente ou
suplementar.
Não obstante, caso o Conselho Seccional encontre vícios, ilegalidades ou
irregularidades na inscrição principal, deverá suspender tanto o pedido de
transferência como o de inscrição suplementar, obrigando-se a informar as
causas dessa negativa ao Conselho Federal para que tome as medidas cabíveis
em face do advogado.

Antigamente não havia sistema para o cadastro geral. Tudo era feito em
máquinas de escrever, com carbono na outra folha e digital na parte superior da
inscrição, sendo inviável cadastrar tudo.
Com a tecnologia e a informatização, o Conselho Federal da OAB criou um
cadastro unificado, uniformizado e possui todos os dados dos advogados,
disponibilizando as partes úteis ao público (nome completo, inscrição, secional,
situação – ativa ou não –, telefone etc.). O CNA deverá contar, também, com o
nome social do advogado ou advogada, conforme nova redação do § 1º, do art.
24, do Regulamento Geral da OAB, dada pelo art. 1º da Resolução nº 5/2016 do
Conselho Federal da OAB.
O advogado pode, entretanto, pedir para que se omitam alguns dados como
telefone, foto ou endereço do escritório, permanecendo tão somente os dados
básicos (nome completo, número da inscrição, secional e situação cadastral).
Presta como serviço de utilidade pública, servindo para saber quais penas o
advogado pode ter recebido, pois antes não havia informações, podendo o
advogado penalizado no Pará exercer a profissão em São Paulo sem nenhum
problema, o que atualmente não mais ocorre.

Conforme mencionamos, a falta de inscrição suplementar pode acarretar em


sanção disciplinar, incluindo a censura e a pena de multa. Assim já se posicionou
o TED:

Acórdão no: 8354


“Ementa: Representação Procedente – Atuação regular de
advogado em outro Estado da Federação – Falta de Inscrição
Suplementar – Sanção: Censura, convertida em advertência – Fund.:
arts. 10, parágrafo 2º, e 36, III e parágrafo único, do Estatuto da
Advocacia e a OAB.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de processo disciplinar no
02R0003582012, acordam os membros da Segunda Turma
Disciplinar do TED, por unanimidade, nos termos do voto da
Relatora, em julgar procedente a representação e aplicar ao
Representado a pena de censura, convertida em advertência, em
ofício reservado, sem registro nos assentamentos, por violação ao
artigo 10, § 2o, do Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei no 8.906/94,
nos termos do artigo 36, inciso III e § único, do mesmo diploma
legal.” (Sala das sessões, 26 de fevereiro de 2014. Rel. ad hoc e
Presidente de sala: Dr. Adjar Alan Sinotti)
Comentários
Existem situações previstas no EAOAB em que a inscrição do profissional
poderá ser cancelada, observando-se a especificidade de cada caso, ocasião em
que o número da inscrição do advogado será apagado definitivamente.
Pelo rol taxativo, pode acarretar o cancelamento e a consequente exclusão do
número de inscrição do advogado: o requerimento realizado pelo próprio
advogado, quando se aplica a penalidade de exclusão por parte do Conselho
Seccional (após procedimento em que se ouviu a parte contrária, em respeito aos
princípios do contraditório e da ampla defesa), o falecimento do profissional,
quando passa a exercer definitivamente atividade incompatível com a advocacia,
ou perder os requisitos necessários e constantes no EAOAB, indispensáveis para
a função.
Percebemos, novamente, a regular menção sobre atividades estranhas à
advocacia, sendo defeso ao advogado exercê-las em conjunto, cuidado este que o
EAOAB procura sempre tomar.
Na esteira do que leciona o Professor Paulo Lôbo, temos que “os efeitos do
cancelamento serão sempre ex tunc, salvo se a inscrição foi obtida com o uso de
prova falsa, quando será ex nunc, isto porque a decisão do Conselho Seccional
terá natureza declaratória de inexistência, ou seja, como se aquele inscrito jamais
tivesse existido nos quadros efetivos da OAB” (LÔBO, Paulo Luiz Netto.
Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São Paulo: Saraiva, 2010, p.
112). Frisamos essas três características do cancelamento da inscrição como
primordiais:

(i) É um ato personalíssimo;


(ii) Tem natureza jurídica de ato desconstitutivo, pois afeta a existência da
inscrição;
(iii) Opera-se com efeito ex nunc (a partir daquele momento), salvo quando
a inscrição foi obtida com falsa prova.

Nas hipóteses de requerimento do advogado, (i) penalidade (ii) ou


falecimento, (iii) o cancelamento será promovido de ofício pelo Conselho
Seccional competente quando sobrevier comunicação sobre os fatos.
Caso venha a requerer novamente a inscrição, que não dá direito ao
restabelecimento do número cancelado, o candidato terá que, novamente, fazer
provas dos seguintes requisitos do art. 8º: (i) capacidade civil; (v) não exercer
atividade incompatível com a advocacia; (vi) idoneidade moral; e (vii) prestar
novo compromisso perante o Conselho.
Para a penalidade de exclusão, deverá ainda o novo pedido ser acompanhado
de provas sobre a reabilitação do advogado após um ano e, com isso, pode o
candidato integrar outra vez os quadros da advocacia.
Comentários
Além do cancelamento, o EAOAB previu também situações em que poderá o
advogado licenciar-se junto ao Conselho Seccional e não apagar o número de
inscrição, uma vez que é condição temporária, ainda que por período
indeterminado, isto é, o licenciado não perde sua condição de advogado neste
período.
Percebemos a distinção feita pelo EAOAB quanto aos cargos incompatíveis.
No dispositivo anterior, o então advogado deve ter sua inscrição cancelada
quando exercendo em definitivo cargo incompatível com a advocacia, mas
quando este é temporário, deverá simplesmente requerer o licenciamento,
explicitando os motivos em ambos os casos.
Outra observação que merece destaque se refere à possibilidade descrita no
inciso III, sobre doença mental curável. Tal disposição guarda referência com o
primeiro dos requisitos do art. 8º, inscrito logo em seu inciso I, isto porque,
apesar da doença mental, ela é considerada curável, o que afasta
temporariamente a capacidade civil do inscrito. Em se tratando de sujeito que
intercala períodos de sanidade com demência, ainda que breves, deve-se
considerar sua incapacidade absoluta, razão pela qual será considerado o
cancelamento da inscrição.
Importante nos atentarmos, de igual modo, que será necessária, para a
licença com base na incapacidade civil temporária, a decretação judicial da
interdição por parte do advogado. Vejamos neste sentido o seguinte julgado:

“A capacidade civil, é exigida do candidato no ato da sua inscrição


na OAB, isto porque para o exercício da profissão é necessário que
o advogado seja apto para cumprir sua função social. Portanto a
capacidade postulatória é requisito essencial, porém tal capacidade
pode sofrer restrições legais quanto ao exercício profissional pela
intercorrência de um fato como de uma doença mental, assim
assumindo natureza judicial a remeter para área dos interditos
temporariamente, ficando impedido por causa ou motivos de ordem
transitória, a termo certo, reversível, de ordem profissional,
entendendo assim que deva o seu curador pedir o licenciamento do
interdito na OAB pelo tempo da interdição, art. 12, I, do EOAB. Por
guardar referência com o primeiro requisito do art. 8º, inciso I, será
afastado temporariamente o inscrito que esteja com uma sentença
judicial reconhecida de processo de interdição atestando sua
incapacidade.” (TED OAB/SP. Processo 3.339/2006. Rel. Dr.
Ernesto Lopes Ramos, j. em 17.08.2006)

Existem situações em que a situação vai determinar se teremos o


cancelamento ou a licença do advogado regularmente inscrito. Como a
incompatibilidade é a vedação total ao exercício da advocacia, não pode cumular
a função/cargo que exerce com a prática jurídica.
Mas existem casos em que ela é temporária, pois decorrente de mandato ou
de nomeação precária, momento no qual se pede a licença, enquanto em outros
ela é permanente em razão da vitaliciedade ou estabilidade, quando se pede o
cancelamento da inscrição.
Esta dúvida pode alcançar inclusive quem é aprovado em concurso público
ou advogado que faça parte de lista tríplice para algum tribunal. Com a
aprovação (ou entrada na lista) não faz nada, somente com a posse (ou nomeação
pelo governador) abre-se o prazo de 30 dias para pedir o cancelamento.
Ademais, caso o policial militar na ativa peça licença não remunerada, ainda
que por tempo indeterminado, não poderá advogar, continuando incompatível, de
modo que a licença é para sua profissão e não para a advocacia, permanecendo
na ativa licenciado e não na reserva.
Curiosidade: pelo EAOAB, juiz, promotor, desembargador e ministros
possuem cargos vitalícios e, portanto, deveriam ter seus números cancelados.
Houve, todavia, questionamento por parte de ex-ministro junto ao STF com base
nos conhecidos “políticos de carreira”, que em função do mandato permanecem
por anos pedindo licença e retomam com o número antigo. A Corte Suprema
decidiu, então, que ex-ministros retomam a antiga inscrição, criando-se, com
isso, precedentes. Para o EAOAB, porém, permanece valendo o entendimento de
que não retoma.

Comentários
A carteira profissional do advogado, entregue quando da solenidade de
compromisso perante o Conselho Seccional (art. 8º, VII), é o documento pelo
qual o advogado exercerá sua profissão e seu uso é obrigatório para tanto, além
de servir como documento de identificação civil, quando necessário. Ao
advogado confere-se a carteira na cor vermelha e ao estagiário a carteira na cor
azul.
Importante mencionarmos que em alguns Estados da República o Poder
Judiciário passou a integrar o sistema digital de processos, tanto para
distribuição como para protocolos posteriores, de primeira e segunda instâncias,
além de alguns recursos para os Tribunais Superiores.
A certificação para comprovação da assinatura do advogado pode ser feita
em totens ou cartões adquiridos junto às Seccionais ou Subseções do Conselho,
mas pode igualmente ser colocada na Carteira Profissional do advogado, que
conterá todas as informações para a assinatura digital do processo judicial ou
mesmo de algum procedimento administrativo na Receita Federal do Brasil, na
Fazendo Estadual ou com o Fisco Municipal.
Comentários
E se a Carteira Profissional é necessária para o exercício regular da
advocacia, o mesmo devemos dizer do número de inscrição do advogado, que
deve por isso utilizá-lo quando da assinatura de petições ou requerimentos
realizados por ele, seja em órgãos administrativos ou no Judiciário.
Mas cuidado: apesar de ser requisito obrigatório a indicação do nome e do
número de inscrição do advogado nas peças profissionais confeccionadas por
ele, tal regra não se aplica nos Exames Unificados, que vedam qualquer
indicação de identificação feita na peça prático-profissional, com a consequente
atribuição da nota zero.
E novamente em seu parágrafo único faz o EAOAB vedação da divulgação
da atividade advocatícia com qualquer outra estranha à profissão ou que
contenha a alcunha “sociedade de advogados”, quando não se apresenta assim na
realidade.
Deve, portanto, conter a indicação do nome ou nome social e o número da
inscrição dos advogados que a integram ou do registro da sociedade no
competente Conselho Seccional da OAB, de modo a identificá-la e diferenciá-la
de qualquer outra atividade que não seja a do pleno exercício da advocacia,
principalmente em prédios comerciais com salas variadas e separadas com os
mais diversos ramos profissionais.
Ainda, conforme já mencionamos, alguns Estados possuem o sistema digital
de processos, o que também pode gerar problemas quando da identificação do
advogado, entre aquele que assina a petição e o nome que consta como
subscritor.
Neste sentido já se posicionou o STJ em decisões sobre o assunto:

“AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE


DECLARAÇÃO NO MANDADO DE SEGURANÇA. PETIÇÃO
ELETRÔNICA. AUSÊNCIA DE IDENTIDADE ENTRE O
ADVOGADO SUBSCRITOR E O TITULAR DA ASSINATURA
DIGITAL. RESOLUÇÃO STJ Nº 1/2010. RECURSO
INEXISTENTE. PRECEDENTES DA CORTE ESPECIAL.
1. Não havendo identidade entre o titular do certificado digital
utilizado para assinar o documento e o nome do advogado indicado
como subscritor da petição, deve a peça ser tida como inexistente,
haja vista o descumprimento do disposto nos arts. 1º, § 2º, inciso III,
e 18 da Lei nº 11.419/2006 e nos arts. 18, § 1º, e 21, inciso I, da
Resolução STJ nº 1, de 10/02/2010.
2. Agravo regimental não conhecido.” (AgRg nos EDcl no MS:
19863 GO 2013/0060448-5. Segunda Seção do Superior Tribunal de
Justiça. Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva. Julgado em
26/06/2013)

“EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL


NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PETIÇÃO
ELETRÔNICA. ASSINATURA. CERTIFICAÇÃO DIGITAL.
PESSOA DIVERSA DA SUBSCRITORA DO RECURSO.
IMPOSSIBILIDADE. RESOLUÇÃO 01/2010- STJ.
O nome do advogado indicado como autor da petição dos Embargos
de Declaração não confere com o do titular do certificado digital
utilizado para assinar a transmissão eletrônica do documento.
Embargos de Declaração não conhecidos.” (EDcl no AgRg nos
EDcl no AREsp: 82598 PR 2011/0278736-3. Terceira Turma do
Superior Tribunal de Justiça. Rel. Min. Sidnei Beneti. Julgado em
19/06/2012)
Para fundamentar suas decisões e criar tal precedente, o STJ utilizou-se da
Lei 11.419/2006, que regulamenta o processo digital no âmbito nacional, bem
como da Resolução 1/2010, ato normativo da própria Corte Superior que trata
sobre o assunto.
Verifica-se a necessidade de ser o advogado subscritor da peça o mesmo que
assina pelo certificado digital, caso contrário o recurso será julgado de maneira
deserta, haja vista não preencher requisito essencial de identificação do
advogado.
Comentários
O primeiro fundamento para constituição de sociedade de advogados é
observarmos o fato de que esta somente poderá ser formada por advogados, de
modo que no contrato social constem apenas nomes de advogados. O
agrupamento tomará a forma de sociedade civil, e naquilo que a legislação
especial for omissa, será regido pelo Capítulo das Sociedades Simples do Código
Civil (arts. 997 e seguintes). A sociedade de advogados não é considerada
sociedade empresária.
Havendo dois sócios e um deles falece, o EAOAB estipulava o prazo de 180
dias para regularização da sociedade, sob pena de dissolução da sociedade. Esse
dispositivo perde sua vigência e eficácia.
Devemos nos atentar para a especificidade constante nesta primeira
disposição sobre as sociedades de advogados. Diferentemente das sociedades
empresárias, que devem requerer seu registro na Junta Comercial, a sociedade de
advogados deve ser registrada no Conselho Seccional da OAB do Estado em que
se encontra sua sede.
Como toda regra comporta uma exceção ou mais, verificamos que o registro
da filial deve ser realizado no mesmo Conselho Seccional da matriz, ainda que
se encontre em outro Estado.
Em outras palavras, o registro da filial deve ser realizado no Conselho
Seccional da sua matriz, averbando no contrato social e depois informando ao
outro Conselho Seccional em que se encontra a filial. Neste caso, todos os
sócios, independentemente do número de causas naquela localidade, devem
promover a inscrição suplementar, por força do Provimento 112/2006 do
Conselho Federal da OAB. Não é possível que um mesmo escritório possua duas
sedes em Conselhos Seccionais diferentes, mas sim sede e filiais.
O advogado não pode integrar no mesmo Conselho Seccional mais de uma
sociedade de advogados, seja ela sede ou filial, proibição essa que não se aplica
se a sociedade se constituir em outro Estado.
Contudo, se neste Conselho Seccional houver uma filial da sua matriz de
outro Estado, ele não poderá ser sócio de outra. Se por ventura, seja sócio no Rio
de Janeiro, depois integre outra em São Paulo e alguns anos depois a matriz do
Rio de Janeiro decide abrir filial em São Paulo, haverá um fato superveniente e o
advogado deverá escolher em qual das sociedades deseja permanecer.
Como já vimos, todos os sócios devem constar nas procurações outorgadas à
sociedade, substabelecendo aos demais advogados conforme a necessidade.
Igualmente, não pode a mesma sociedade advogar para clientes com interesses
opostos.
Ainda que se alegue que vá dividir as equipes, os sócios constarão em ambas
as procurações e só depois passarão os substabelecimentos às bancas (houve
consulta neste sentido junto ao Tribunal de Ética e Disciplina de São Paulo, que
decidiu pela impossibilidade, algo que já é vedado pela lei).
O patrocínio de clientes com interesses opostos, além de configurar infração
disciplinar no CED (art. 19) e até mesmo na esfera criminal, haja vista que pode
configurar patrocínio infiel por parte do advogado, segundo a legislação penal
em vigor (art. 355 do Código Penal).
A Câmara dos Deputados, em 10 de dezembro de 2015, aprovou proposta
que permite a criação e manutenção da denominada sociedade unipessoal, que
deve, por óbvio, observar os mesmos preceitos destinados à sociedade de
advogados já disciplinadas pelo EAOAB, inclusive com relação ao CED e ao
REGOAB.
Atualmente foi promulgada a Lei 13.247, de 12 de janeiro de 2016, que,
mantendo o texto final substitutivo ao Projeto de Lei 166/2015, do Deputado
Aelton Freitas (PR/MG), passou a prever a possibilidade de advogado constituir
sociedade unipessoal, sem a necessidade de se reunir com outros advogados, de
modo a aproveitar melhor, inclusive, os benefícios já existentes às empresas
individuais (EIRELI) disciplinadas pelo Código Civil, também regulamentadas
pelo Provimento 170/2016 da CFOAB.
As alterações neste Capítulo IV foram todas no sentido de manter a
disciplina sobre a sociedade de advogados e inserir o novo modelo unipessoal
como possibilidade aos advogados que, apesar de atuarem isoladamente,
desejam constituir sociedade tendo em seus atos constitutivos a denominação
“sócio individual”.
A alteração mais significativa que podemos mencionar é a inserção neste art.
15 do § 7º que trata de como a sociedade unipessoal pode se formar por único
advogado, independente das razões que levaram à concentração única ou do
porque não se reunir com outros advogados.
Sobre a conversão das sociedades unipessoais em sociedade de advogados,
bem como de a sociedade de advogados ser convertida em sociedade unipessoal,
a hipótese está prevista no art. 11 do Provimento 170.
Deste modo, ainda que provenientes de anterior sociedade de advogados, a
concentração em um único advogado é permitida para todos os efeitos de
continuidade da sociedade, ainda que provenientes de anterior constituição com
mais de um sócio.
Esta possibilidade era um requerimento antigo do Conselho Federal da OAB
e sobre sua inserção na vida prática, temos por certo que acaba por aproximar a
sociedade de advogados daquilo que sempre se buscou distanciá-la, a sociedade
empresária e, ainda que se continue com o caráter de não mercantilização da
advocacia, nos parece o contrário, de modo que cada vez mais a advocacia está
entrando na ótica do mercado empresarial e abandonando em muitos aspectos a
ética profissional, mesmo que continue se exigindo a presença de apenas
advogados para formar a sociedade, suas características já denotam o intuito
mercantil.

As sociedades irregulares, formadas por pessoas não inscritas na OAB, por


exemplo, ou mesmo que não preenchem as condições legais estipuladas neste
EAOAB, são também tratadas pelos Tribunais de Ética e Disciplina. Senão
vejamos o entendimento:

“E-3.135/05 – ADVOCACIA – EXERCÍCIO – ASSOCIAÇÃO


CIVIL DE FIM NÃO LUCRATIVO – VEDAÇÃO –
INFRAÇÃO DISCIPLINAR E ÉTICA.
O exercício da advocacia pode revelar-se em duas vertentes: a
advocacia singular (advogado autônomo ou empregado) ou por
sociedade de advogados. A constituição, exclusivamente por
advogados que dela se elegem dirigentes, de associação civil stricto
sensu, supostamente sem fins lucrativos, configura infração do
inciso II do art. 34 do Estatuto da Advocacia. A criação, na internet,
de um site dessa associação e a imoderada publicidade dela
facilmente se converterão em meio de captação de clientela e, até,
de fomento ou de captação de causas, enfim, levando à
mercantilização da profissão, mormente quando acompanhada de
lista de clientes e de vitórias forenses, insinuadoras de um poder ou
influência que fenece nos demais profissionais, configurando
concorrência desleal quando se deixa ficha de inscrição ou filiação
ao dispor do internauta, com pagamento de taxa anual e autorização
de retenção de honorários em caso de benefício decorrente de
atividade da associação. Censura ética (CED – arts. 5º e 7º) e
disciplinar (CED – arts. 28 e 31), com remessa a Turmas
Disciplinares.” (V.U., em 14/04/2005, do parecer e ementa do Rel.
Dr. Ernesto Lopes Ramos. Rev. Dr. Guilherme Florindo Figueiredo
– Presidente Dr. João Teixeira Grande)

“Acórdão No: 2188


EMENTA: SOCIEDADE IRREGULAR – ADVOGADO EM
SOCIEDADE COM PESSOAS NÃO INSCRITAS NOS
QUADROS DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL –
PROCEDÊNCIA DA REPRESENTAÇÃO – POR INFRAÇÃO
AOS ARTIGOS 5o, DA CED, INCISO II, DO ARTIGO 34, E
ARTIGO 16, ‘CAPUT’, DO EAOAB – PENA DE CENSURA
CONVERTIDA EM ADVERTÊNCIA.
Violação ao disposto nos artigos 16 ‘caput’ e 34, inciso II, do
Estatuto da OAB e artigo 5o do CED, procedência da
Representação.
Vistos, relatados e examinados estes autos do processo disciplinar
de no 07R0006242011 (08.024/38), acordam os membros da Sétima
Turma do Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados
do Brasil, Secção de São Paulo, nos termos do voto do Relator, por
unanimidade de votos. A Turma julgou procedente a Representação,
por infração aos artigos 5o do CED, inciso II, do artigo 34, e artigo
16, ‘caput’, do Estatuto da OAB, aplicando ao Representado a pena
de censura convertida em advertência, nos termos do artigo 36,
incisos I e II, § único do mesmo diploma legal.” (Sala das Sessões,
14 de setembro de 2011. Rel. Dr. José Eduardo Albuquerque
Oliveira – Presidente de sala Dr. Mauro Russo)

Ademais, por força do § 2º, aplica-se às sociedades de advogados o Código


de Ética e Disciplina naquilo que lhes couber. Como exemplo principal,
podemos citar os julgados referentes à publicidade em excesso de escritórios de
advocacia:

“E-3.130/05 – PUBLICIDADE E PROPAGANDA


IMODERADA. FOTOS EM REVISTA. IMODERAÇÃO E
EXIBICIONISMO.
Advogado que de modo constante e periódico leva noticias aos
jornais e revistas publicando notas e estampando fotografias de
modo repetitivo artigos onde ressalta qualidades pessoais e
profissionais adentra no campo da imoderação, merecendo censura.
Imoderada conduta de casal que aparece fotografado em frente ao
símbolo as Justiça e enviando aos leitores mensagens de final de
ano em que pese a ausência de menção de suas profissões. Não
incorre em infração ética, sociedade de advogados que publica
informes publicitários em jornais e revistas declinando seu registro
perante a entidade de classe, os nomes e registros dos advogados na
OAB dentro dos limites estabelecidos pelo Provimento 94/2.000 do
Conselho Federal da OAB. Ocorre imoderação sociedade de
advogados ou escritório de advocacia que aparece em fotos de
revistas com a estampa em destaque ‘Advocacia’, com os nomes e
registros da OAB de advogados e estagiários, com mensagens de
final de ano, num sentido de inculca e captação, merecendo censura.
Recomenda-se a aplicação do art. 48 do CED. (V.M., em
19/05/2005, do parecer e ementa do Rel. Dr. Cláudio Felippe Zalaf
– Rev. Dr. Fabio Kalil Vilela Leite – Presidente Dr. João Teixeira
Grande)

Mais recentemente, com a grande profusão das mídias sociais, a publicidade


na internet ganhou contornos significativos (tanto que uma das maiores
alterações no CED em 2015 diz respeito justamente às publicidades). Vejamos o
posicionamento do TED de São Paulo sobre criação de página no Facebook e
sobre a necessidade de observância dos parâmetros éticos:

“E – 4.176/2012 – PUBLICIDADE – FACEBOOK – CRIAÇÃO


DE PÁGINA POR ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA –
POSSIBILIDADE – OBSERVÂNCIA DE PARÂMETROS
ÉTICOS.
A presença de escritório de advocacia na rede social Facebook é
permitida tanto por meio da criação de ‘páginas’ e como de
‘conteúdos patrocinados’. A ‘página’ do Facebook assemelha-se ao
website convencional, acrescido do envio de informações, tal como
ocorre com as malas-diretas. Os usuários apenas recebem
informações das ‘páginas’ com as quais estabelecerem vínculo por
meio do botão ‘curtir’, de modo que o acesso e o envio de
informações decorrem da iniciativa do próprio usuário e não do
advogado. Não viola a ética a criação de página no Facebook por
escritório de advocacia, desde que seu conteúdo se limite à
divulgação de informações objetivas relativas aos advogados e à
sociedade de advogados, sempre com discrição e moderação, para
finalidade exclusivamente informativa e ilustrativa. Da mesma
forma, não viola a ética a contratação por escritório de advocacia de
‘conteúdo patrocinado’ que consiste na contratação do Facebook
para exibir publicidade da sociedade de advogados aos usuários.
Esse tipo de publicidade apenas indica ao interessado o caminho
eletrônico para página do Facebook do próprio escritório de
advocacia ou ao seu website externo. Inteligência do Provimento n.
94/2000 do Conselho Federal da OAB. Prec. E-3.716/2008; E-
4.013/2011 e E-4.108/2012.” (V.U. em 18/10/2012 – parecer e
ementa do Rel. Dr. Flávio Pereira Lima – Rev. Dra. Mary Grun –
Presidente Dr. Carlos José Santos da Silva)

Importante também considerarmos quando advogados se reúnem em


associação e passam a cobrar honorários, mensalidades e custas processuais dos
seus membros, sem que se tenha na realidade verdadeira sociedade de
advogados, que somente podem se reunir com este intuito nos moldes do
EAOAB. Assim se posicionou o Tribunal de Ética e Disciplina de São Paulo:

“E-3.053/2004 – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DEFESA


DO CONSUMIDOR – ENTIDADE SEM AMPARO LEGAL –
INCITAÇÃO E INCULCA À CAPTAÇÃO DE CLIENTELA –
IMPOSSIBILIDADE DE COBRANÇA DE CUSTAS
PROCESSUAIS NA FORMA PRETENDIDA –
IMPOSSIBILIDADE DE COBRANÇA DE MENSALIDADES
E INSERÇÃO DE NOMES DOS DEVEDORES DA
ENTIDADE EM ÓRGÃOS DE CRÉDITO –
REPRESENTAÇÃO CLASSISTA DE ADVOGADOS TEM
PERMISSÃO LEGAL SOMENTE DENTRO DA LEI Nº 8.906,
DE 04 DE JUNHO DE 1994.
Os advogados somente podem se reunir nos moldes previstos na Lei
nº 8.906, de 04 de junho de 1994, sendo vedada tal reunião na forma
de associações com o propósito de adentrar com medidas judiciais,
cobrando para tanto mensalidade de clientes denominados
impropriamente de ‘sócio’, bem como custas processuais
reajustáveis. Promessas de sucesso judicial de demandas desta
natureza constituem inculca e captação de clientela, proibidos por
lei. Ameaças de inserção de nomes em órgãos de crédito contra
‘sócios’ em atraso com pagamento de mensalidades são práticas
ilegais e coações sem qualquer fundamento. Denominação da
entidade induz ao leigo de que se trata de órgão oficial nacional e de
proteção ao contribuinte. Remessa a uma das turmas disciplinares
desta secional, bem como à seção competente para analisar o caso
no âmbito penal. Providência do art. 48 do Código de Ética e
Disciplina.” (V.U., em 21/10/2004, do parecer e ementa do Rel. Dr.
Cláudio Felippe Zalaf – Rev. Dr. Osvaldo Aristodemo Negrini
Junior –Presidente Dr. João Teixeira Grande)
Comentários
Sendo formada apenas por advogados, as sociedades não podem apresentar
formas mercantis, nem adotar nome fantasia, além de ser vedado o exercício da
advocacia com outras atividades estranhas, algo que já batemos por inúmeras
outras vezes.
A impossibilidade de se incluir nome fantasia ou mercantil visa à proteção e
ao fortalecimento da própria sociedade, que deve conter o nome ou o prenome
de ao menos um dos sócios, seguido de “advogado”, “advocacia”, “advogados
associados” ou “sociedade de advogados” e no caso das unipessoais, “sociedade
individual de advogados”, sendo vedada também a inserção de qualquer título
que o advogado ou sócios possuam (“Doutor”, “Mestre”, “Professor” etc.). Em
caso de falecimento de um dos sócios, o seu nome poderá continuar integrando a
denominação da sociedade, desde que o contrato social disponha desta maneira.
É ponto central para a constituição de sociedades de advogados que ela não
se regra pelo modelo de mercado, isto porque, isso afetaria não apenas seu
intuito e o múnus público dos advogados, mas também diretamente na ética
profissional de todos eles. Escreve o Professor Paulo Lôbo sobre tais ocorrências
nos Estados Unidos, onde os escritórios são vistos como firmas mercantis:

“A lei brasileira optou por rejeitar o modelo anglo-americano das


lawfirms, que não se distinguem das demais empresas mercantis,
pois destas absorveram a ética dos negócios e dos resultados
lucrativos. Desde quando as sociedades de advogados passaram a
adotar o modelo empresarial, cresceu entre os juristas americanos a
reação aos seus nefastos desdobramentos com relação à ética
profissional, pois as law finns converteram-se virtualmente em
anexos de grupos financeiros, especuladores e industriais; tais
empresas, que passaram a dominar a profissão, pouco contribuem
para o pensamento e a filosofia da atividade advocatícia e nada em
relação a responsabilidade ou idealismo”. (LÔBO, Paulo Luiz
Netto. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São Paulo:
Saraiva, 2010, p. 120)

Apesar de a legislação referente à ética na advocacia vedar a utilização de


símbolos e outras formas estranhas à advocacia e à OAB para não equipará-la às
sociedades empresárias, o Provimento 112/2006 passou a permitir a utilização do
símbolo “&” como conjuntivo dos nomes dos sócios, sem que com isso se
configure afronta ao EAOAB ou às práticas forenses.
Ainda sobre o nome da sociedade, podem ocorrer situações em que existam
duas com o mesmo nome, momento no qual deve prevalecer o escritório com
registro mais antigo nos quadros da OAB.
Para que se opere esse controle, há um Cadastro Nacional, como dos
advogados, mas referentes às sociedades, em que se é possível verificar todos os
nomes para não evitar a ocorrência de conflitos, seja com nome idêntico ou
similar.
Como já abordamos em algumas ocasiões e teremos oportunidade de ver
com maior afinco posteriormente, os impedimentos e incompatibilidades
atingem diretamente o exercício da função pelo advogado, motivo pelo qual o
EAOAB veda também a inscrição de sociedade de advogado sócio totalmente
impedido de advogar.
Já em caso de licença do sócio por algum dos motivos listados neste
EAOAB, ele poderá licenciar-se também da sociedade, havendo o ato no
contrato social. Em caso de cancelamento da inscrição, ele deverá se retirar da
sociedade, alterando-se o contrato social para exclusão do seu nome.
As sociedades de advogados não podem possuir caráter mercantil, da mesma
maneira que não podem se vincular a outras atividades e exercê-las no mesmo
espaço, sob pena de infração disciplinar. Assim já se colocou o TED em
julgamentos análogos:

Acórdão no: 6187


“Ementa: SOCIEDADE DE ADVOGADOS DE FORMA
IRREGULAR E EM CONJUNTO COM OUTRA ATIVIDADE.
Manter sociedade de advogados fora das normas e preceitos
estabelecidos no EAOAB (Lei n° 8.906/94), com forma e
características mercantis, utilizando a sociedade para intermediar e
administrar imóveis, cometendo a infração ético-disciplinar do
artigo 34, inciso II, do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil
– Lei no 8.906/94, bem como ao artigo 5o, do Código de Ética e
Disciplina da OAB, sendo aplicada a pena de censura por estar
presente o disposto no artigo 35, inciso I, combinado com o artigo
36, inciso I, do EAOAB), convertida em ADVERTÊNCIA, em
ofício reservado, sem registro nos assentamentos do Representado,
com fulcro no artigo 36, inciso II, § único, da Lei n° 8.906/94. A
pena foi fixada no mínimo legal em razão da ausência de punição
disciplinar anterior.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar no
04R0021382009, acordam os membros da Quarta Turma
Disciplinar do TED, por unanimidade, nos termos do voto do
Relator, em acolher a representação e aplicar aos Representados (...)
e (...) a pena de censura convertida em advertência, em ofício
reservado, sem registro nos assentamentos dos inscritos, por
configurada a infração prevista no inciso II, do artigo 34, do
Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei no 8.906/94, e violação ao
artigo 5o, do Código de Ética e Disciplina, nos termos do artigo 36,
inciso I e parágrafo único, do mesmo diploma legal. Determinaram,
ainda, por unanimidade, em declarar improcedente a presente
representação em face do Representado (...).” (Sala das Sessões, 29
de abril de 2011. Rel. Dr. Pedro Emílio Bay – Presidente de sala Dr.
Tadeu Mendes Mafra)
Comentários
Os sócios (inclusive das sociedades unipessoais) respondem de forma
ilimitada e subsidiária pelos danos causados ao cliente, ainda que o contrato
social preveja de maneira diversa (a cláusula será considerada como nula).
Atacam-se em primeiro lugar os bens da sociedade, e o advogado somente
responderá com seus bens particulares caso os bens da sociedade não sejam
suficientes, respondendo pelo todo dos danos causados aos clientes
(ilimitadamente), seguindo-se a regra geral acerca do inadimplemento das
obrigações constantes no Código Civil, em seu art. 389.
Na esfera administrativa, porém, o advogado responderá individualmente
pelos prejuízos causados ao seu cliente em processo disciplinar, o que também
ocorre na esfera penal, que será individualizada para cada sócio na extensão dos
seus atos considerados criminosos, em respeito ao disposto no Código Penal (art.
29, §§ 1º e 2º).
Assim nos ensina o Professor Paulo Lôbo, ao tratar da responsabilidade pelos
danos que a sociedade, os sócios e o advogado empregado individualmente
vierem a causar:

“A responsabilidade civil dos sócios pelos danos que a sociedade


coletivamente, ou cada sócio ou advogado empregado
individualmente, causar, por ação ou omissão no exercício da
advocacia, é solidária, subsidiária e ilimitada, independentemente
do capital individual integralizado. Os bens individuais de cada
sócio respondem pela totalidade dessas obrigações. É nula a
cláusula do contrato social que estabelecer qualquer tipo de
limitação á responsabilidade dos sócios para tal fim”. (LÔBO, Paulo
Luiz Netto. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São
Paulo: Saraiva, 2010, p. 125)

Por fim e ainda em relação à responsabilidade dos sócios, todos eles devem
participar das deliberações da sociedade, por força do disposto no Provimento
112/2006. Para mudar o contrato social, por exemplo, basta maioria simples
(quando pelo Código Civil exige-se unanimidade).
Alguns escritórios utilizam-se deste artifício para burlar os direitos
trabalhistas do advogado empregado, tais como férias, décimo terceiro e fundo
de garantia, o que é um grande risco e perigoso aos advogados que se sujeitam a
isso, vez que, havendo problemas com os clientes, responderão igualmente junto
com os demais sócios de forma subsidiária e ilimitada.
Verifiquemos também a existência da figura do advogado associado, que
participa em determinadas causas e nos honorários decorrentes de sua atuação
profissional neste processo em específico, mas que não faz parte integral da
sociedade de advogados.
Ele não é empregado e nem sócio do escritório. Utilizam o mesmo espaço e
não tem participação nas causas dos sócios, mas dividirá com estes o que ganhar
dos clientes que levar, como um esquema de parceria, ou mesmo nas causas em
que os sócios estabelecerem que atuarão em conjunto, mesmo o cliente sendo da
sociedade e não do advogado associado.
Comentários
O advogado e as sociedades não são vistos como atividades empresárias,
sendo tomados como profissionais liberais devido à técnica específica da
advocacia em seu exercício regular. A diferenciação terminológica procura
distanciar o advogado de outras atividades mercantis, embora a lógica tenha,
cada vez mais, ido no sentido oposto até mesmo com as novas denominações e
tipos de sociedades de advogados (como a unipessoal), que recebem outra
roupagem, mas que na prática são sociedades empresárias.
A condição de especificidade técnica do advogado, todavia, não o impede de
constituir relação de emprego, não lhe retirando a isenção técnica ou sua
independência. Em outras palavras, o fato de o advogado estar empregado em
escritório de advocacia, em empresas do setor privado ou público e mesmo
aqueles que exercem o cargo de direção jurídica, não lhes retira as prerrogativas
da profissão de advogado ou sua independência no exercício de sua atividade.
A garantia de liberdade e independência é ratificada pelo parágrafo único
deste art. 18, estabelecendo que o advogado contratado não é obrigado a prestar
serviços de interesse pessoal do seu empregador e que se encontrem fora da
relação de emprego firmada. Procura, assim, afastar qualquer vínculo pessoal
entre o empregador e o advogado, enaltecendo tão somente a relação profissional
do contrato de trabalho.
Inclusive, caso o advogado seja demitido com base em “insubordinação
técnica” ou ser obrigado a prestar serviços fora do seu objeto de contrato, deverá
receber todas as verbas rescisórias, revertendo-se a demissão por justa causa.
Cumprem, portanto, com todos os requisitos do art. 3º da CLT, sendo que
para todos os efeitos “considera-se empregado toda pessoa física que prestar
serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e
mediante salário”, mas os advogados empregados no final das contas possuem
mais direitos graças ao EAOAB, como a isenção técnica, não prestar serviços
fora do objeto do contrato ou com relação aos seus honorários.
Por possuir assinatura em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social
(CTPS), o advogado goza de direitos previdenciários como empregados, tratados
no regime geral da Previdência Social, cabendo ao empregador realizar os
descontos necessários para financiamento da mesma.
A competência para processar e julgar dissídios decorrentes da relação
empregador e empregado é da Justiça do Trabalho (art. 113 da Constituição
Federal), seguindo as determinações constitucionais, diferentemente dos
advogados liberais, cujas ações para recebimento de honorários correm pela
esfera cível.
Por fim, insta esclarecer que por determinação legal específica do art. 4º da
Lei 9.527/1997, os direitos encontrados neste Capítulo V do EAOAB que trata
do advogado empregado não abarcam os advogados integrantes de entidades da
Administração Pública direta ou indireta.

Como afirmamos, o advogado possui isenção técnica e liberdade dentro do


âmbito profissional, o que significa dizer que, fora do objeto do contrato, o
advogado é livre para exercer outra atividade ou mesmo serviços jurídicos.
Porém, constitui infração disciplinar se, fora do objeto do contrato, o advogado
faz captação de clientes em função do vínculo com seu empregador.

Acórdão no: 1329


“Ementa: CAPTAÇÃO DE CAUSAS – ADVOGADO
EMPREGADO COM CLIENTES PARTICULARES EM RAZÃO
DE SEU EMPREGO – PROCESSOS DE MESMO OBJETIVO –
CONFIGURAÇÃO.
Advogado empregado que em razão do trabalho tem para si clientes
particulares de processos idênticos ao do escritório empregador,
havendo captação ou angariação de clientes e causas em razão do
trabalho, conduta incompatível ao estabelecido no artigo 34, inciso
IV, do EAOAB, ferindo conduta ética do artigo 2o, parágrafo único,
incisos I, II e III, do CED, sendo a procedência do feito a medida de
rigor.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de processo disciplinar no
10R0000422012, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por maioria, em julgar
procedente a representação e aplicar à querelada a pena de censura,
por violação ao artigo 2o, § único, incisos I, II e III, do Código de
Ética e Disciplina e configurada a infração prevista no inciso IV, do
artigo 34, do Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei no. 8.906/94, nos
termos no artigo 36, incisos I e II, combinado com o artigo 40,
inciso II, do mesmo diploma legal.” (Sala das Sessões, 24 de maio
de 2013. Rel. (voto divergente) Dr. Achilles Benedicto Sormani –
Presidente Dr. Ailton José Gimenez)

Comentários
A Carta Política estabeleceu como direito social dos trabalhadores o salário
mínimo (art. 7º, IV, da CF), previsto para o ano de 2016 em R$ 880,00.
Poderíamos discorrer por páginas sobre o que é positivado pela Carta Política de
1988 e a realidade encontrada na sociedade brasileira, com as muitas
discrepâncias, contradições e desigualdades, mas este não é nosso intuito.
O EAOAB, seguindo o modelo constitucional, contém igualmente disposição
neste sentido, procurando firmar parâmetros mínimos para a remuneração dos
advogados empregados, que poderá ser quantificada de três maneiras distintas:
por sentença normativa, ajustado por acordo ou convenção coletiva. Para
entendermos um pouco melhor o quadro, cumpre-nos analisar cada um dos casos
segundo a ótica do Direito do Trabalho:

a) Categoria: se caracteriza como sendo o conjunto de empregados e


empregadores que desenvolvam a mesma atividade produtiva,
possuindo interesses profissionais ou econômicos em comum em
decorrência da identidade de condições ligadas ao trabalho.
b) Dissídio Coletivo: encontrado entre os arts. 856 a 875 da CLT envolve
as discussões entre o sindicato dos empregados e do(s) empregador(es),
quando a negociação coletiva fracassa, levando então as questões em
debate para que o Judiciário decida. A decisão desse dissídio coletivo é
chamada de sentença normativa, tendo em vista que advém do Poder
Judiciário e será a regra utilizada pela categoria por até dois anos,
quando deverá ser renovada com novo acordo ou outro dissídio.
c) Acordo: disposto entre os arts. 611, 611-A, 611-B e 625 da CLT
caracterizando-se como o pacto entre uma ou mais empresas
diretamente com o sindicato da categoria profissional em que se tenha
alguma discussão. São estabelecidas condições mínimas de trabalho
aplicáveis às empresas envolvidas, aplicando-se a toda a categoria e não
apenas àqueles sindicalizados.
d) Convenção Coletiva: encontrado também entre os arts. 611, 611-A,
611-B e 625 da CLT, sendo o acordo entre um ou mais sindicatos de
empregados e um ou mais sindicatos de empregadores, que definirão as
condições de trabalho de todos os empregados dessas empresas.
Igualmente, aplica-se à categoria e não apenas aos sindicalizados.

Observa-se também que a OAB tentou estender a proteção conferida aos


advogados empregados para os profissionais liberais que não possuem o vínculo
empregatício. Cada Conselho Seccional, assim, disponibiliza tabela com os
valores mínimos que os advogados devem sobrar para prestação dos serviços
advocatícios.
Tal medida visa proteger a classe e evitar a mercantilização da advocacia,
com profissionais que fixam seus honorários em valores irrisórios e inferiores ao
permitido pelo órgão de classe, configurando-se aviltamento e captação de
clientela, infringindo o Código de Ética e Disciplina e atingindo a todos os
profissionais da área, que veem o rebaixamento da advocacia junto com os
valores módicos cobrados.
Acerca do salário mínimo do advogado empregado, importante
posicionamento vemos da Turma de Ética Profissional do TED de São Paulo:

“EXERCÍCIO PROFISSIONAL – ADVOGADO


EMPREGADO – SALÁRIO MÍNIMO PROFISSIONAL –
PISO SALARIAL – OFERTA DE EMPREGO.
Ao contrário das leis que regem outras profissões, o Estatuto da
Advocacia não fixou salário mínimo profissional ao advogado. O
artigo 19 do Estatuto deixou que fosse fixado por sentença
normativa, acordo ou convenção coletiva de trabalho. À míngua de
legislação específica sobre o salário mínimo profissional, aplicam-
se aos advogados empregados as vigentes normas coletivas que
regem o piso salarial da categoria. Sobre o assunto vigem normas
coletivas diversas, uma aplicável aos advogados que trabalham
como empregados nas sociedades de advogados e outra aplicável
aos advogados que trabalham como empregados nas empresas e nos
sindicatos. No que pertine aos advogados que trabalham como
empregados nos escritórios de advocacia ou advogados autônomos,
por inexistir sindicato da categoria econômica, o Sindicato dos
Advogados de São Paulo recomenda seja aplicado, por
assemelhação e equidade, o piso vigente para os advogados que
trabalham como empregados nas sociedades de advogados. O
advogado que oferece emprego ou contrata colega com salário
abaixo do piso salarial da categoria, com jornada superior à
permitida por lei e sem os benefícios constantes nas normas
coletivas, comete infração legal, ética e disciplinar. Cumpre lembrar
que igual infração também comete o advogado que aceita trabalhar
em condições inferiores às fixadas por lei ou normas coletivas, não
podendo vingar a justificativa da necessidade de trabalho e emprego
mesmo em condições de exploração. ‘O advogado deve ter
consciência de que o Direito é um meio de mitigar as desigualdades
para o encontro de soluções justas e que a lei é um instrumento para
garantir a igualdade de todos.’ Artigo 3º do CED.” (Proc. E-
3.705/2008 – v.u., em 11/12/2008, do parecer e ementa do Rel. Dr.
Luiz Antonio Gambelli – Rev. Dr. Fabio Kalil Vilela Leite –
Presidente Dr. Carlos Roberto F. Mateucci)
Comentários
Em se tratando da jornada de trabalho, embora a CF, em seu art. 7º, XIII,
tenha estabelecido como o máximo semanal de 44 horas, no tocante à legislação
trabalhista existe uma série de leis, acordos e convenções que estipulam jornadas
distintas conforme a categoria, sendo o dispositivo constitucional o teto a não ser
ultrapassado.
Com o advogado empregado não é diferente e o EAOAB tratou da questão
no caput do art. 20 que a jornada não poderá exceder quatro horas diárias e
contínuas e a de 20 horas semanais, devido ao desgaste psicológico e físico
decorrentes da técnica jurídica. Ainda, aos advogados empregados antes da
vigência deste EAOAB, o TST consolidou por meio de Orientação
Jurisprudencial que todos estarão automaticamente inseridos no regime de
dedicação exclusiva, para que não se tenha demasiadas demandas
desnecessárias:

“403. Advogado empregado. Contratação anterior a Lei n. 8906,


de 4 de julho de 1994. Jornada de trabalho mantida com o
advento da Lei. Dedicação exclusiva. Caracterização.
O advogado empregado contratado para jornada de 40 horas
semanais, antes da edição da Lei n. 8906, de 4 de julho de 1994,
está sujeito ao regime de dedicação exclusiva disposto no art. 20 da
referida Lei, pelo que não tem direito à jornada de 20 horas
semanais ou 4 diárias.”

Essa é a regra geral, mas o que mais ocorre é o disposto na parte final do
dispositivo, em que a duração da jornada de trabalho poderá ser alterada quando
constar em acordos ou convenções coletivas ou quando o advogado estiver
empregado no regime de dedicação exclusiva, assim considerado de acordo com
o REGOAB, que tratou do assunto no art. 12 e parágrafo único.
O que menos se encontra na atualidade são profissionais contratados pelo
regime de quatro horas diárias e 20 semanais. Com a pressão maior, aumenta-se
também a probabilidade de o profissional desenvolver alguma doença
psicológica, sendo a depressão um mal que, estatisticamente, atinge boa parcela
dos advogados.
O § 1º tentou, nos mesmos parâmetros da CLT, determinar o que se considera
o período de trabalho do advogado, levando em consideração uma série de
fatores, uma vez que o trabalho do advogado, como vimos, não se limita ao
serviço técnico realizado nas peças jurídicas no interior dos escritórios, contando
igualmente o tempo em que o advogado passa fora deste recinto (fórum,
delegacias, órgãos públicos) para o cômputo da sua jornada e, se for esse o caso,
o empregador deverá reembolsar todas as despesas de transporte, hospedagem e
alimentação despendidas pelos advogados.
O que se depreende é que para se quantificar a somatória das horas não basta
somente considerar o tempo trabalhado pelo advogado no escritório com a
confecção da peça, do parecer ou do relatório, já que este, por vezes, é o
resultado final do seu trabalho, mas sim tudo o que foi necessário para que ele se
construísse e se confirmasse. Fora da jornada de trabalho contratualmente
estabelecida não há impedimento para que o advogado exerça outras atividades,
inclusive advocatícias, salvo contra ou a favor de seu empregador.
Por isso, o EAOAB acertadamente tratou que deve ser visto todo o tempo em
que o advogado ficou à disposição do empregador, aguardando ou executando
ordens, dentro ou fora do escritório.
O real trabalho do advogado não é apenas na digitação da peça, envolvendo
também a pesquisa interna (doutrinária, jurisprudencial, legal ou mesmo em
portarias e normativas administrativas) e externa (diretamente nos fóruns,
analisando processos e colhendo informações necessárias para transformar no
conhecimento necessário).
Uma especificidade interessante é encontrada quando tratamos das horas
extras trabalhadas. Enquanto a CF (art. 7º, XVI) propõe mínimo de 50% da
remuneração por hora de trabalho extraordinária, o EAOAB vai além e confere
ao advogado o direito de receber adicional não inferior a 100% do valor da sua
hora normal.
Ainda que se tenha contrato escrito entre empregador e empregado, essa
porcentagem não poderá ser diminuída, mas poderá ser aumentada. Tal
porcentagem não pode e não deve ser vista como uma espécie de punição ao
empregador, mas sim como benefício ao empregado devido o desgaste causado
pela atividade advocatícia.
Ademais, existe também a possibilidade de encontrarmos empregadores que
contratam os profissionais para jornadas de trabalho noturnas. O EAOAB
dispensou também tratamento diferenciado para estes advogados.
No Direito do Trabalho existe a diferenciação para os trabalhadores urbanos
(21 horas-6 horas) dos rurais (20 horas-5 horas), sendo que de acordo com a
legislação aplicada aos advogados utilizou-se o critério dos trabalhadores rurais,
ou seja, das 20 horas de um dia até às 5 horas do dia seguinte.
A porcentagem de acréscimo sobre a hora também se diferencia do
estipulado pelo caput do art. 73 da CLT que estipula aos trabalhadores urbanos
20% e aos rurais 25%, enquanto aos advogados empregados a porcentagem não
poderá ser inferior a 25%, tal como com os empregadores rurais.
Por fim, salientamos que para todos os efeitos do direito do trabalho, a hora
noturna é computada de maneira diferente. Enquanto na hora convencional
computa-se ela cheia, isto é, 60 minutos, na hora noturna ela sofre alteração,
sendo assim considerado cada 52 minutos e 30 segundos trabalhados como uma
hora, por determinação do § 1º do mesmo art. 73 da CLT.

Comentários
O assunto “honorários” é sempre muito discutível, sobretudo quando
verificamos a sua incidência na atividade processual. Os honorários são a
remuneração do profissional liberal pelo seu serviço, seja ele advogado,
engenheiro, arquiteto ou qualquer outra atividade que estabeleça assim seus
vencimentos.
Já a sucumbência, segundo o Dicionário Michaelis, é o ato ou o efeito de
sucumbir. Em um processo judicial, verificam-se os honorários de sucumbência
quando uma das partes é vencida, devendo ela arcar com o valor determinado.
Entretanto, o art. 21, caput, trata de uma especificidade do EAOAB, isto
porque existem advogados que são contratados não por escritórios e sim por
empresas dos mais variados setores. Nestes casos, a lei observa que os
honorários de sucumbência pertencem não ao empregador, mas sim ao advogado
que atuou no processo.
Apenas quando contratado por sociedade de advogados, segundo estabelece
o parágrafo único, os honorários de sucumbência serão divididos entre o
empregador e aquele que atuou na causa.
Atentemo-nos para a ADIn 1.194-4, que traz uma importante exceção.
Procurando preservar a liberdade de contratar, protegida tanto pelo texto
constitucional como também pela legislação trabalhista, permitiu-se que por
acordo, no contrato de trabalho, poderão os honorários de sucumbência ser
destinados ao empregador também quando não se tratar de sociedade de
advogados, isto é, quando se tratar de empresas de outros setores que possuam
advogados em seus quadros.
Comentários
Todo advogado possui legalmente, por conta da contratação para a prestação
dos serviços, direito aos honorários convencionados entre ele e o cliente e aos
honorários sucumbenciais devidos pela parte vencida, fixados em sentença.
Ao advogado na Justiça do Trabalho, ainda que atue em causa própria, serão
devidos honorários de sucumbência, fixados entre o mínimo de 5% (cinco por
cento) e o máximo de 15% (quinze por cento) sobre o valor que resultar da
liquidação da sentença, do proveito econômico obtido ou, não sendo possível
mensurá-lo, sobre o valor atualizado da causa.
Os honorários são devidos também nas ações contra a Fazenda Pública e nas
ações em que a parte estiver assistida ou substituída pelo sindicato de sua
categoria.
Na hipótese de procedência parcial, o juízo arbitrará honorários de
sucumbência recíproca, vedada a compensação entre os honorários.
A regra quando o assunto são honorários deve ser a moderação. O parâmetro
a ser seguido é a Tabela da Ordem fixada pelo Conselho Seccional (cada Estado
tem seu próprio valor de honorários mínimos fixados de maneira diferente dos
demais, uma vez que, assim como com a anuidade, deve-se considerar a
capacidade socioeconômica para sua estipulação).
O § 6º do art. 48 do Novo CED determina que o advogado deverá observar o
valor mínimo da Tabela de Honorários instituída pelo respectivo Conselho
Seccional onde for realizado o serviço, sob pena de não o fazendo caracterizar-se
aviltamento.
Ainda que o mercado de trabalho conte com grande número de profissionais,
o advogado não deve aceitar valores irrisórios pelo seu trabalho, pela própria
valorização e dignidade da profissão, evitando uma curva ou tendência
decrescente em relação à sua própria remuneração. Se é certo que o profissional
deverá cobrar com moderação, também se faz necessário que respeite um limite
mínimo, justamente aquele previsto na Tabela da Ordem, sob pena de, num caso
ou no outro, cometer infração ética.
A cobrança acima da tabela é aceitável pelo CED, que envolve, dentre outras
possibilidades, levar-se em consideração a complexidade da causa, trabalhos
análogos já desempenhados pelo advogado ou sucesso em outras demandas.
Conforme já afirmamos, o número de inscrição traz consigo toda a história e
experiência do advogado, de modo que advogados de sucesso e de renome
costumam se valer deste prestígio como justificativa para cobrar acima da tabela,
sem incorrer em infração disciplinar por isso.
Para efeitos didáticos, são três espécies de honorários considerados pelo
EAOAB, sendo eles:

a) Pactuados: fixados entre as partes, entre o cliente e o advogado. Não


havendo outra disposição, a regra é que se cobre 1/3 no início (com a
assinatura do contrato ou procuração), 1/3 na sentença de primeira
instância e 1/3 após o trânsito em julgado. Transitado em julgado logo
na sentença de primeira instância, somam-se as duas parcelas, devendo
de uma única vez ao advogado o montante correspondente a 2/3.
b) Sucumbência: devidos pela parte que sucumbe (perde), ao advogado
que vence (não à parte vencedora), sendo indisponível. Fixado na
sentença entre 10% a 20%, ou por outro valor estipulado pelo juiz para
evitar enriquecimento indevido do advogado (fixando em 1%,
dependendo do valor da causa). Seja para majorar ou para diminuir o
valor de honorários, a Apelação é o recurso cabível.
c) Arbitrados Judicialmente: quando há controvérsia entre as partes
sobre o valor devido de honorários ao advogado, o juiz deverá decidir e
arbitrar, considerando-se para alcançar tal valor não apenas o que se
estipula na Tabela do Conselho Seccional da OAB, mas devendo
analisar também todo o zelo e o trabalho desempenhado pelo advogado,
devendo ser compatível com estes padrões.

Tanto os honorários de sucumbência como os arbitrados judicialmente


devem levar em consideração a relevância e os elementos constitutivos da causa,
observando para tanto as disposições sobre o tema, principalmente o que
concerne ao Novo CED, que traz em seu art. 49 e incisos o rol de oito elementos
que devem ser atendidos para fixação dos honorários profissionais. Dentre eles,
devemos citar:

✓ (I) a relevância, o vulto, a complexidade e a dificuldade das questões;


✓ (II) o tempo e o trabalho;
✓ (III) a possibilidade de o advogado ficar impedido de intervir em outros
processos;
✓ (IV) o valor da causa e a condição econômica do cliente, bem como do
provento que será tirado por ele da causa;
✓ (V) o caráter da intervenção em se tratando de cliente eventual,
frequente ou constante;
✓ (VI) a localidade da prestação do serviço (domicílio do advogado ou
outro);
✓ (VII) a competência profissional do advogado; e
✓ (VIII) a praxe do foro com relação a trabalhos análogos.

O NCPC tratou de algumas novidades quanto aos dispositivos sobre os


honorários de sucumbência devidos pela parte vencida ao advogado da parte
vencedora, sobretudo quando se analisa o que concerne a quatro pontos
específicos do tema.
Em primeiro lugar, trouxe novo entendimento sobre a estipulação de
porcentagem de honorários sucumbenciais em ações nas quais a Fazenda Pública
seja condenada ao pagamento, mantendo os critérios subjetivos (art. 85, § 2º,
incisos I a IV) e acrescentando agora os critérios objetivos para quantificação, de
acordo com o que dispõe o art. 85, § 3º, que inserimos em tabela prática para
melhor visualização:

Na esteira dos critérios objetivos, dispôs ainda o NCPC (art. 85, § 5º) que
caso o benefício econômico da sucumbência ultrapasse o valor percebido pela
parte vencedora, a fixação deverá observar a faixa inicial e naquilo que a
ultrapassar, as faixas subsequentes, critérios que devem ser aplicados inclusive
em casos de improcedência ou de sentença sem resolução do mérito.
O NCPC, nos §§ 11 e 12 do mesmo art. 85, procurou estabelecer também
parâmetros para majoração dos valores de sucumbência recursal, ou seja, o
tribunal pode aumentar os valores fixados na decisão de primeira instância em
caso de desprovimento do recurso, levando-se em consideração tanto os
requisitos subjetivos aqui já elencados, como o trabalho adicional do advogado
na continuidade da demanda.
O intuito claro deste dispositivo é impedir (ou ao menos tentar) que recursos
desnecessários sejam tentados diante da dificuldade de reversão da decisão
recorrida, fazendo com que a parte possa refletir melhor antes de intentar a
reversão no tribunal.
Outra novidade se refere à antiga compensação em caso de sucumbência
recíproca, quando a ação fosse julgada parcialmente procedente. As verbas se
compensavam entre si mesmas e nada era devido aos patronos da causa. A
compensação de honorários por sucumbência recíproca ficou vedada no Novo
CPC, conforme o § 14 do art. 85, justamente porque credor e devedor da
sucumbência não são as mesmas partes.
Trouxe ainda o NCPC a positivação do entendimento jurisprudencial acerca
da titularidade para pagamento dos honorários. Segundo dispõe o Novo Diploma
Processual Civil no § 15 do art. 85 a sociedade de advogados pode ser a
destinatária dos honorários, desde que o advogado titular do direito de
recebimento da sucumbência integre o quadro de sócios da mesma, regra que
incute reflexos significativos nas questões tributárias tanto para a sociedade
como para o sócio.
Por fim, o NCPC (art. 85, §§ 17 e 18) definiu que o advogado, ainda que em
causa própria, tem direito à percepção dos honorários, além de estabelecer que,
em caso de omissão na sentença referente à quantia da sua verba sucumbencial,
o advogado pode intentar ação autônoma para estipulação e cobrança dos
mesmos.

Apesar de existir a liberdade para se contratar, por evidência existem pessoas


que não possuem condições financeiras para contar com a presença de um
patrono em suas necessidades. Para tanto, existe a Defensoria Pública, visando
garantir a todos o acesso constitucional à justiça.
Na Justiça Gratuita, temos a pessoa que é pobre na acepção jurídica do termo
(art. 2º, parágrafo único, da Lei 1.060/1950), podendo por vezes ter patrimônio
considerado razoável, mas que não é suficiente para arcar com as custas de um
advogado, algo considerado também pelo NCPC nas disposições do art. 82 que
“salvo as disposições concernentes à gratuidade da justiça, incumbe às partes
prover as despesas dos atos que realizarem ou requererem no processo,
antecipando-lhes o pagamento, desde o início até a sentença final ou, na
execução, até a plena satisfação do direito reconhecido no título”.
Nestes casos, pode o advogado ser nomeado para patrocinar uma causa
quando a Defensoria Pública estiver impossibilitada de acompanhar o
necessitado. O advogado não prestará serviços gratuitos, tendo sua remuneração
fixada pelo juiz, levando-se em consideração a tabela disponibilizada pelo
Conselho Seccional, valores que devem ser arcados pelo Estado.
Ressalte-se que existem locais em que não existe Defensoria Pública, locais
estes em que a OAB possui convênio com os Estados para que advogados
cadastrados em seus quadros prestem o serviço de forma gratuita à parte, sendo
remunerados pelo Estado.
Entretanto, destaca-se que existe diferença entre assistência judiciária
gratuita e justiça gratuita. No primeiro caso, não se pagam honorários, já que os
advogados ou defensores são remunerados pelo Estado. Pode ser que seja
condenado a pagar sucumbência, mas sua exigibilidade fica suspensa pelo prazo
de cinco anos e, em havendo mudanças na sua situação financeira, deverá pagá-
la. Na justiça gratuita não há despesas processuais, incluindo a sucumbência,
mesmo que a condição financeira mude futuramente.
O advogado público, por sua vez, não recebe honorários, mas sim salário do
Estado. Ao passar no concurso, recebe procuração por meio da carteira
funcional, passando a ter força de representação do Estado.
Tem direito, todavia, à sucumbência, conforme o NCPC (art. 85, § 19), e
geralmente não abre mão dela, integrando o salário até o teto da sua carreira,
seguindo os parâmetros do STF, STJ ou TJ, de acordo com a esfera a que
pertença. Todos os valores são depositados em conta conjunta e redistribuídos
igualmente entre todos ao final.
Se o valor bater o teto e ultrapassar, o saldo remanescente volta para a conta
e cria-se um fundo para investir na carreira, como a Escola Superior da
Procuradoria, que organiza cursos, arca com despesas de mestrado fora do Brasil
ou mesmo pós-graduação para os próprios procuradores, com o fito de aprimorar
e internacionalizar a carreira.
No final de 2016, foi editada a Lei 13.327/2016, que trata da remuneração de
serviços públicos, dispondo, entre outros temas, acerca dos honorários
advocatícios de sucumbência das causas em que forem parte a União, suas
autarquias e fundações. Ou seja, os honorários sucumbenciais recebidos em
demandas judiciais em que a União, suas autarquias e fundações saírem
vencedoras serão encaminhados a um fundo, e o dinheiro será dividido entre os
advogados, conforme critérios da lei.
Esses honorários de sucumbência a serem recebidos pelos advogados
públicos federais não integrarão o subsídio, nem servirão como base de cálculo
para quaisquer vantagens pecuniárias, tais como adicionais ou gratificações,
pertencendo originariamente aos ocupantes dos respectivos cargos.

Novamente levando em consideração a liberdade para contratar, não há


forma específica de se confeccionar o contrato de honorários, devendo constar
ao menos os dados básicos indispensáveis das partes, o tipo de serviço que será
executado (patrocínio de ação judicial, assessoria jurídica ou mesmo
consultoria), os valores e a forma de pagamento, além, claro, das medidas
cabíveis em caso de quebra contratual por qualquer das partes com o respectivo
foro competente para dirimir o conflito.
A liberdade de contratar incide também na forma de pagamento, que pode
ser estipulada de acordo com os interesses das partes (à vista, metade na entrada
e metade ao final do processo, parcelado etc.). Em havendo omissão quanto a
isso determina a lei que deverão ser pagos da seguinte maneira: 1/3 no início dos
trabalhos, o que é comumente estabelecido como marco inicial da assinatura do
contrato, 1/3 quando da decisão de primeira instância e o restante ao final do
processo.
Uma garantia dada pelo EAOAB ao advogado é a possibilidade de cobrança
dos honorários nos próprios autos do processo em que atuou. Para isso, basta
juntar cópia do contrato assinado entre ele e seu cliente, desde que não se tenha
ainda expedido o mandado de levantamento ou precatório.
Nesta ocasião, o juiz determinará que lhe seja pago diretamente, deduzindo-
se do valor percebido pela sentença, com o resguardo de prova em contrário caso
o constituinte comprove que já quitou o devido ao seu advogado.

É o famoso contrato ad exitum e é comumente proposto quando o cliente não


possui condições para arcar com a demanda e, analisando os fatos, o advogado
entende ser possível inseri-la no contrato.
Por força desta cláusula, o advogado custeia toda a demanda e ao final do
processo receberá todos os honorários e custas judiciais, assumindo junto com o
cliente o risco de perda e de ganho.
Não significa que o cliente deve arcar com as custas e pagar somente os
honorários no final do processo. O advogado deve assumir tudo ou não será
contrato com cláusula quota litis. As cobranças, nestas ocasiões, são um pouco
superiores ao normal para justificar a atitude do advogado, não podendo
ultrapassar, porém, o limite de 30%, conforme já entendido pelo TED.
São cinco os requisitos a serem preenchidos e dispostos no Código de Ética e
Disciplina:
(i) Honorários: devem ser estabelecidos em pecúnia e em não podendo
recebê-los nesta modalidade, deve-se informar como será realizado o
pagamento, como parte de um imóvel, por exemplo.
(ii) A cláusula deve estar expressa no contrato, não podendo ser verbal,
ainda que realizada na presença de testemunhas.
(iii) O advogado deve assumir o custeio total da demanda ou não será
considerada cláusula quota litis.
(iv) Não pode associar-se ao cliente, seja lá para quais fins.
(v) As vantagens percebidas pelo advogado não podem ultrapassar os
valores recebidos pelo cliente

Observação: se o cliente, por mera liberalidade, não queira mais os serviços


do advogado, os honorários de sucumbência serão proporcionais e os pactuados,
devido às controvérsias, serão decididos por meio de arbitramento judicial.

A todo instante procuramos ressaltar e deixar claro que o EAOAB procura


evitar a mercantilização da profissão de advogado, incluindo neste aspecto
características distintas tanto para diferenciar o profissional como as sociedades
de advogados.
Para efeitos de protesto existem duas modalidades de duplicatas: (i) referente
ao fornecimento de mercadorias e (ii) sobre a prestação de serviços. A
advocacia, por óbvio, enquadra-se na segunda categoria, mas o EAOAB veda a
emissão de duplicatas, para que os escritórios de advocacia não ganhem
contornos mercantis.
O máximo que se permite é a emissão de faturas e somente com expresso
pedido do cliente, faturas essas que não são passíveis de ser levadas a protesto.
Tal fato se deve ao direcionamento do EAOAB de preservar o caráter civil da
prestação de serviços advocatícios e afastá-lo dos demais prestadores de
serviços, estes com caráter mercantil.
Após relevante trabalho do CFOAB, o STF editou a Súmula Vinculante 47,
em 27 de maio de 2015, na qual reconhece expressamente o caráter alimentar
dos honorários advocatícios, tratando inclusive da questão dos precatórios. O
texto final da súmula, sugerido pelo Ministro Marco Aurélio, assim dispôs:

“Os honorários advocatícios incluídos na condenação ou destacados


do montante principal devido ao credor consubstanciam verba de
natureza alimentar cuja satisfação ocorrerá com a expedição de
precatório ou requisição de pequeno valor, observada ordem
especial restrita aos créditos dessa natureza.”

Os honorários advocatícios incluídos na condenação referem-se,


evidentemente, à verba de sucumbência, enquanto aqueles destacados do
montante principal devido ao credor correspondem aos contratuais, tendo o
caráter alimentar de ambos sido reconhecido pela Corte Suprema.
Também no novo CPC houve sensíveis alterações em relação aos honorários,
que ganharam maior atenção. Estavam previstos no Código de 1973 no capítulo
cujo título “Das Despesas e das Multas” mostrava-se, a bem da verdade,
inapropriado, dado o seu caráter de remuneração, dissociado das despesas e
multas. Para colocar um fim nas confusões que ainda se fazia a respeito, e deixar
claro que não se confundem com as despesas reembolsáveis da parte, o título no
Novo CPC passou a ser “Das Despesas, dos Honorários Advocatícios e das
Multas”, fazendo as previsões de forma clara.

Sobre o tema de honorários imoderados, assim se posicionou o Tribunal de


Ética e Disciplina de São Paulo, com base nas disposições deste EAOAB e do
CED:

“TED OAB/SP: HONORÁRIOS – IMODERAÇÃO


Cobrar honorários retendo todas as prestações vencidas até final
liquidação da execução em juízo, nas ações de indenização
acidentária ou assemelhada, deixando para o cliente apenas e tão
somente a expectativa das que se vencerem a partir desse termo,
configura-se pretensão imoderada e certamente incompatível com a
situação fática da causa e do cliente, pelo que infringe o
disciplinamento ético. (Código de Ética Profissional, secção VII,
inciso III, letra ‘D’). Ademais a compensação dos honorários
contratados só poderá ocorrer com prévia autorização ou previsão
contratual.” (Proc. E-1.128 – V.M. Relator designado Dr. Milton
Basaglia – Vencidos o Relator Dr. Geraldo José Guimarães da Silva
e Revisor Dr. Paulo Afonso Lucas – Presidente Dr. Modesto
Carvalhosa)

Quanto à diferenciação entre Justiça Gratuita e Assistência Judiciária


Gratuita, o TED de São Paulo se posicionou da seguinte maneira:

“E-3.993/2011 – ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA – JUSTIÇA


GRATUITA – HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS ‘QUOTA
LITIS’ (OU CONDICIONADOS AO ÊXITO DA DEMANDA) –
ADMISSIBILIDADE EM HAVENDO MODERAÇÃO,
PROPORCIONALIDADE E RESPEITO À TABELA DA OAB.
Não há que se confundir a isenção de custas decorrente da justiça
gratuita, prevista na Lei 1.060/50, com a assistência judiciária
gratuita decorrente do convênio OAB/Defensoria Pública, na qual o
advogado recebe seus honorários do Estado. Desta forma, o
advogado, não sendo o caso de assistência judiciária, pode celebrar
contrato de honorários quota litis (ou condicionados ao êxito da
demanda) com cliente beneficiário da isenção de custas, desde que
observados os requisitos da moderação, da proporcionalidade que a
complexidade da demanda requerer e desde que seja respeitada a
Tabela da OAB. O cliente, mesmo carente de recursos, tem inegável
direito de contratar advogado de sua confiança, não estando
obrigado a valer-se dos advogados vinculados ao convênio
OAB/Defensoria Pública. Sobre a forma de cobrança dos
honorários, não se conhece da consulta por tratar-se de questão
processual e não ética. Precedentes do TED I: processos E – 1.299,
E-1.171, E-3.312/2006 e E-3.558/2007.” (V.U., em 14/04/2011, do
parecer e ementa do Rel. Dr. Fábio de Souza Ramacciotti – Rev.
Dra. Célia Maria Nicolau Rodrigues – Presidente Dr. Carlos José
Santos da Silva)

Ou ainda quando verificamos a posição do Tribunal de Ética e Disciplina da


OAB de São Paulo sobre o contrato com cláusula de quota litis que ultrapassa o
limite de 30% já consagrado quando se referir à ação previdenciária em que o
ganho do cliente será vitalício, podendo superar esse teto nesta exceção:

“EMENTA: HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. AÇÃO


PREVIDENCIÁRIA. CONTRATO NA MODALIDADE
‘QUOTA LITIS’. COBRANÇA SOBRE PRECATÓRIO EM
PERCENTUAL DE 50%. MODERAÇÃO.
DESNECESSIDADE DE PRESTAÇÃO DE CONTAS SOBRE
AS DESPESAS COM A DEMANDA.
Não ultrapassa os limites éticos a cobrança de honorários
advocatícios em causas previdenciárias de maior complexidade, em
percentual de 50% sobre prestações em atraso tão somente, tendo
em vista que o benefício econômico advindo ao cliente é vitalício.
Prescinde de prestação de contas das despesas efetivadas pelo
Advogado, posto que o risco da demanda é suportado por si,
inclusive as despesas que efetiva para o fiel cumprimento do
mandato.
Vistos, relatados e discutidos estes autos do Processo Disciplinar no
21R0002842011, acordam os membros da Vigésima Primeira
Turma Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos
Advogados do Brasil, Seção São Paulo, por unanimidade, nos
termos do voto da Relatora, em julgar improcedente a
Representação e determinar o arquivamento dos autos.” (Sala das
sessões, 22 de agosto de 2014. Rel.: Dra. Evelin Karle Nobre de
Oliveira – Presidente: Dr. João Carlos Rizolli)

A partir de 4 de outubro de 2018 entrou em vigor a Lei 13.725/2018, que


inseriu os §§ 6º e 7º no art. 22 do EAOAB. A principal finalidade de referido
dispositivo foi o de regulamentar os honorários assistenciais. Esses são os
honorários recebidos pelo causídico que atua em prol de sindicatos ou entidades
de classe na Justiça do Trabalho. Antes da vigência da Lei 13.467/2018
(popularmente chamada de “lei da reforma trabalhista”), o recebimento de
honorários assistenciais pelo advogado na Justiça do Trabalho se restringia às
hipóteses definidas na Súmula 219 do Tribunal Superior do Trabalho. Com a
reforma, a sucumbência passa a ser a regra geral na Justiça do Trabalho,
variando entre 5 e 15% do valor da causa, conforme redação atual do art. 791-A
da CLT. A alteração no EAOAB vem reforçar esse sentido, assegurando,
igualmente ao advogado que atue em favor de sindicatos em substituição
processual, ou seja, atuando em prol de um sujeito sindicalizado, receba os
devidos honorários, eliminando, assim, controvérsias possíveis no âmbito
trabalhista.

Comentários
Como dissemos anteriormente, os honorários inclusos na condenação, seja
por arbitramento do magistrado ou por sucumbência da parte vencida, pertencem
ao advogado que atuou na causa, salvo o já trabalhado sobre a exceção do art.
21, parágrafo único, deste EAOAB.
Por conta deste seu direito, pode ele, autonomamente, executar a sentença
nesta parte, solicitando ainda que a guia seja expedida em seu nome, garantindo-
se com isso que a sucumbência ou os honorários arbitrados sejam deduzidos à
parte para execução pelo próprio advogado.
Graças a este entendimento, o § 3º do art. 24 deste EAOAB teve sua eficácia
suspensa pelo STF quando do julgamento da ADIn 1.194-4, isto porque, como
as partes podem pactuar livremente acerca do destino dos honorários, não faria
sentido a proibição constante no dispositivo em comento.
Outro ponto que merece ser discutido é acerca do início da incidência de
correção monetária sobre o valor devido ao advogado a título de honorários
sucumbenciais.
Após diversas discussões, a jurisprudência pacificou-se no sentido de definir
que após a fixação dos honorários, ou seja, da data em que são estipulados
judicialmente, passa a ter início a incidência de correção monetária sobre o valor.
Vejamos julgados neste sentido:

PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DECLARATÓRIOS NO


RECURSO ESPECIAL. ACÓRDÃO EMBARGADO QUE FIXA
OS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS EM QUANTIA CERTA.
OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. REJEIÇÃO DOS EMBARGOS. 1.
De acordo com o art. 535, II, do Código de Processo Civil, os
embargos declaratórios são cabíveis quando for omitido ponto sobre
o qual se devia pronunciar o juiz ou tribunal. 2. Todavia, na
hipótese, inexiste omissão a ser suprida, pois, uma vez provido o
recurso especial, ainda que parcialmente, e fixados, em decorrência
desse provimento, os honorários advocatícios em quantia certa, não
cabem embargos declaratórios com o propósito de que esta Corte
Superior se pronuncie a respeito do marco inicial e do índice
aplicável na correção monetária do valor dos honorários. 3. Na fase
de liquidação do julgado, tanto o termo inicial da correção
monetária quanto o indexador aplicável sobre os honorários
advocatícios são informações que, de maneira clara, já constam do
item 1.4 do capítulo IV do Manual de Orientação de Procedimentos
para os Cálculos da Justiça Federal, conforme edição aprovada pelo
Conselho da Justiça Federal, através da Resolução 561/CJF, de 2 de
julho de 2007. 4. Convém enfatizar que, em se tratando de
honorários advocatícios fixados em quantia certa, a atualização
monetária incide a partir da data da sua fixação, consoante a
orientação jurisprudencial firmada por esta Corte nos seguintes
precedentes: AgRg no REsp 201.147/RJ, 4ª Turma, Rel. Min. Sálvio
de Figueiredo Teixeira, DJ de 21.2.2000, p. 131; AgRg no Ag
550.490/RS, Rel. Min. Luiz Fux, DJ de 27.9.2004, p. 225; REsp
117.580/SP, 3ª Turma, Rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito,
DJ de 25.10.1999, p. 77; REsp 63.661/MG, 6ª Turma, Rel. Min.
Vicente Leal, RSTJ, vol. 85, p. 389. 5. Embargos declaratórios
rejeitados. (EDcl no REsp 916.064/SP, Rel. Ministra Denise Arruda,
Primeira Turma, julgado em 23/09/2008, DJe 01/10/2008)

PROCESSUAL CIVIL. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.


QUANTIA CERTA. CORREÇÃO MONETÁRIA. TERMO
INICIAL. 1. A jurisprudência desta Corte sedimentou-se no sentido
de que, arbitrados os honorários advocatícios em quantia certa, a
correção monetária deve ser computada a partir da data em que
fixada a verba. 2. Recurso especial não provido. (REsp
1155708/PR, Rel. Ministro Castro Meira, Segunda Turma, julgado
em 17/06/2010, DJe 29/06/2010

PROCESSUAL CIVIL. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.


QUANTIA CERTA. CORREÇÃO MONETÁRIA E JUROS
MORATÓRIOS. TERMO INICIAL. 1. A jurisprudência do STJ
sedimentou-se no sentido de que, arbitrados os honorários
advocatícios em quantia certa, a correção monetária deve ser
computada a partir da data em que fixada a verba. Também devem
incidir juros de mora sobre a verba advocatícia, desde que o
trânsito em julgado da sentença a fixou. 2. Agravo Regimental não
provido. (AgRg no AgRg no AREsp 360.741/AL, Rel. Ministro
Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 12/08/2014, DJe
10/10/2014)

Por sua vez, quanto aos juros sobre os honorários de sucumbência, estes
incidem a partir do trânsito em julgado da decisão que os fixou, momento a
partir do qual se torna definitiva a obrigação de pagar e, portanto, o não
pagamento é apto a fazer incidir a figura dos juros moratórios. Vejamos julgados
que assim pacificam:

AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL.


CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. HONORÁRIOS
ADVOCATÍCIOS. JUROS MORATÓRIOS. TERMO INICIAL.
ART. 535 DO CPC. OFENSA. NÃO OCORRÊNCIA. DECISÃO
AGRAVADA. MANUTENÇÃO. I. O termo inicial dos juros
moratórios em execução de honorários advocatícios é a data do
trânsito em julgado da causa, e não a data de interposição do
recurso especial. II. Embora rejeitando os embargos de declaração,
o acórdão recorrido examinou, motivadamente, todas as questões
pertinentes, logo, não há que se falar em ofensa ao art. 535 do
Código de Processo Civil. Agravo Regimental improvido. (AgRg no
Ag 1144060/DF, Rel. Ministro Sidnei Beneti, Terceira Turma,
julgado em 27/10/2009, DJe 06/11/2009)

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO


ESPECIAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. CUMPRIMENTO
DE SENTENÇA. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. JUROS DE
MORA. INCIDÊNCIA A PARTIR DO TRÂNSITO EM JULGADO
MATERIAL DA DECISÃO. ACÓRDÃO RECORRIDO EM
CONSONÂNCIA COM O ENTENDIMENTO DESTA CORTE
SUPERIOR. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 83/STJ. AGRAVO
REGIMENTAL DESPROVIDO. (AgRg no AREsp 142.421/PR,
Rel. Ministro Paulo De Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado
em 11/02/2014, DJe 25/02/2014)

PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. JUROS DE MORA. DIES


A QUO DE INCIDÊNCIA. TRÂNSITO EM JULGADO
MATERIAL DA SENTENÇA. ART. 167, PAR. ÚNICO, DO CTN
C/C O ART. 267 DO CPC. I – Para fins de contagem da mora, o
trânsito em julgado relevante é aquele material, iniciado após
expirado o prazo para a interposição de recurso especial ou
extraordinário, na forma do art. 467 do Código de Processo Civil,
cujos efeitos transcendem a própria relação processual passando,
assim, a gozar de total eficácia também no mundo exterior ao
processo. II – A existência do trânsito em julgado formal é
consequência de construção doutrinária, sendo certo que a lei, uma
vez referindo-se genericamente ao trânsito em julgado da sentença,
como o fez o art. 167, parágrafo único, do Código Tributário
Nacional, está agasalhando a hipótese do trânsito em julgado
material, inexistente norma a prever este tipo de preclusão maior, de
forma parcial. III – Recurso especial conhecido, porém desprovido.
(REsp 492.171/RS, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira
Turma, julgado em 03/03/2005, DJ 04/04/2005, p. 170)

PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO. INCIDÊNCIA DE JUROS


DE MORA SOBRE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. TERMO A
QUO: TRÂNSITO EM JULGADO DA SENTENÇA. APLICAÇÃO
DA SÚMULA 254 DO STF. ART. 535, II, DO CPC. FALTA DE
PARTICULARIZAÇÃO DAS OMISSÕES. NÃO
CONHECIMENTO. SÚMULA 284/STF. AUSÊNCIA DE
PREQUESTIONAMENTO DE PRECEITOS FEDERAIS.
SÚMULAS 282/STF E 211/STJ. 1. A recorrente não particularizou,
nas razões do recurso especial, quais teriam sido as omissões sobre
as quais a Corte a quo não teria se manifestado. A alegação genérica
de violação do art. 535 do CPC atrai a incidência da Súmula n. 284
do STF: “É inadmissível o recurso extraordinário, quando a
deficiência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão
da controvérsia”. 2. Se o Tribunal de origem não se pronuncia sobre
a incidência da norma à situação tratada nos autos de forma
concreta, não há o atendimento do requisito do prequestionamento,
essencial ao exame do recurso especial. Súmulas 282/STF e
211/STJ. 3. Tratam os autos de embargos à execução opostos pela
Fazenda Nacional alegando excesso de execução devido à inclusão
de juros de mora a partir do trânsito em julgado da sentença. O
acórdão recorrido se pronunciou no mesmo sentido do
entendimento adotado pela Segunda Turma desta Corte, a qual já
se manifestou sobre a possibilidade de incidência de juros de mora
sobre a verba honorária quando caracterizada a mora do devedor,
não havendo necessidade de previsão expressa na sentença
exequenda, entendimento que se coaduna com a inteligência da
Súmula n. 254 do STF: “Incluem-se os juros moratórios na
liquidação, embora omisso o pedido inicial ou a condenação”.
Precedentes: REsp 771.029/MG, DJe 09/11/2009; AgRg no REsp
1.104.378/RS, DJe 31/08/2009. 4. Recurso especial não provido.
(REsp 1257257/SC, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques,
Segunda Turma, julgado em 27/09/2011, DJe 03/10/2011)
Dica: Correção monetária sobre honorários de sucumbência incide a partir da
data da decisão que os fixou; juros sobre honorários de sucumbência incidem a
partir do trânsito em julgado da decisão que os fixou.

Comentários
O dispositivo em comento é rico em suas especificações sobre os honorários
advocatícios e suas formas de recebimento pelo advogado.
Em primeiro lugar salientamos a forma de execução dos honorários. É sabido
que a decisão judicial se constitui como título executivo judicial, de modo que o
advogado poderá executá-la nos próprios autos do processo, sem a necessidade
anterior de se executar em processo à parte, salvo convenha ao advogado assim
agir.
Em segundo lugar, temos que o contrato escrito que estipular os honorários
advocatícios também é um título executivo extrajudicial, mas diferentemente do
que se estipula a regra geral do Diploma Processual Civil, o EAOAB não traz a
exigência de que o contrato necessita de duas testemunhas para se tornar um
título executivo.
Em outras situações, sobre a obrigatoriedade de se ter a presença de duas
testemunhas para se realizar a execução (ou do contrário surge a necessidade de
uma ação monitória ou de conhecimento), não ocorre neste caso.
É inclusive o entendimento de alguns tribunais pátrios:

“Honorários de profissional liberal. Execução. Contrato escrito de


honorários advocatícios sem subscrição de duas testemunhas. Título
executivo extrajudicial. Existência. Exegese do artigo 24, da Lei nº
8.906/94. Sentença de extinção sem resolução do mérito reformada.
Recurso provido.” (APL 992060193173 SP. 32ª Câmara de Direito
Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo. Rel. Des. Rocha de
Souza. Julgado em 09/09/2010)

“Embargos à execução. Contrato escrito de honorários advocatícios.


Desnecessária a subscrição por duas testemunhas. Montante devido
não expressamente estipulado no contrato, mas certo que houve
prestação de serviços, constando concordância da empresa com
valor menor. Dá-se parcial provimento ao apelo do
advogado/embargado, com sucumbência recíproca.” (APL
992020320212 SP. 27ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de
Justiça de São Paulo. Rel. Des. Campos Petroni. Julgado em
13/04/2010)

“EXECUÇÃO DE HONORÁRIOS. EXCEÇÃO DE PRÉ-


EXECUTIVIDADE. DESNECESSIDADE DE UTILIZAÇÃO DE
EMBARGOS AO DEVEDOR. POSSIBILIDADE DE ARGUIÇÃO
NOS PRÓPRIOS AUTOS DA AÇÃO DE EXECUÇÃO.
CONTRATO ESCRITO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
TÍTULO EXECUTIVO (CPC, ART. 585, VIII, E LEI N. 8.906/94).
DESNECESSIDADE DE SUBSCRIÇÃO POR DUAS
TESTEMUNHAS. RECURSO PROVIDO.
I – ‘A nulidade é vício fundamental e, assim, priva o processo de
toda e qualquer eficácia. Sua declaração, no curso da execução, não
exige forma ou procedimento especial. A todo momento o juiz
poderá declarar a nulidade do feito tanto a requerimento da parte
como ex officio. Fala-se, na hipótese, em exceção de pré-
executividade ou mais precisamente em objeção de não
executividade, já que a matéria envolvida é daquelas que o juiz pode
conhecer independentemente de provocação da parte. Não é preciso,
portanto, que o devedor utilize dos embargos à execução. Poderá
arguir a nulidade em simples petição, nos próprios autos da
execução.’ (THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito
processual civil: processo de execução e cumprimento da sentença,
processo cautelar e tutela de urgência. 40. ed. Rio de Janeiro:
Forense, 2006. v. 2. p. 232).
II – ‘Apesar de não subscrito por duas testemunhas, o contrato
escrito que estipular honorários advocatícios é título executivo e
constitui crédito privilegiado, contendo força executiva, à luz do
CPC 585 VII e EAOAB 24. A disposição contida em lei especial
não impõe a necessidade de assinaturas de testemunhas
instrumentárias para a formalização do contrato de honorários
advocatícios, e, em assim sendo, prevalece sobre outras normas de
caráter geral que imponham tal necessidade, em respeito ao
princípio norteador do direito, de que a regra especial prevalece
sobra a geral.’ (NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de
Andrade. Código de processo civil comentado e legislação
extravagante. 9. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2006. p. 839).” (AC 105169 SC 2002.010516-9. 2ª
Câmara de Direito Civil do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
Rel. Des. Jorge Schaefer Martins. Julgado em 14/11/2007)

Cumpre salientar que os honorários advocatícios são considerados de


natureza alimentícia pelo STF, ganhando por isso tratamento diferenciado
quando verificados na falência, concordata (hoje recuperação judicial), concurso
de credores, insolvência civil e liquidação judicial, constituindo-se em crédito
privilegiado no momento do recebimento.
Em caso de falecimento ou de incapacidade civil do advogado (requisito
necessário, conforme o art. 8º, I, do EAOAB), os seus sucessores ou
representantes legais são os destinatários oficiais dos valores que por ele
deveriam ser percebidos.
Mas atenção, pois temos dois casos diferentes aqui identificados: o primeiro,
quando o processo já em findo e o advogado falecer no momento em que deveria
receber os honorários e o segundo quando o processo ainda em curso e o patrono
for substituído, devendo ser calculado o valor com base no trabalho até então
desempenhado pelo falecido advogado, sendo o restante destinado àquele que
assumiu a causa.
Também, ainda que as partes entrem em comum acordo, judicial ou
extrajudicialmente, não prejudica de forma alguma os honorários do advogado,
salvo se o próprio advogado concordar com abatimentos.
Caso isso não ocorra, os honorários convencionados entre o advogado e o
cliente ou os concedidos por sentença (arbitramento ou sucumbência),
continuam sendo devidos ao advogado atuante no processo, não se podendo
ignorar todo o desempenho e trabalho realizado pelo causídico ao longo do
processo.
Qualquer transação que seja realizada entre as partes não interfere e não
prejudica os honorários pactuados do advogado, que pode, entretanto, renegociar
com o cliente num eventual acordo entre as partes pelo que foi trabalhado até
aquele momento.
Essa disposição tem como intuito garantir o recebimento dos honorários pelo
advogado ainda que sobrevenha acordo superveniente para colocar termo à
demanda.
Comentários
A cobrança de honorários, assim como qualquer outro tipo de cobranças,
possui prazo prescricional para ser requerida, seguindo a regra geral para os
profissionais liberais disposta no Código Civil, no art. 206, § 5º, II.
Para perceberem sua remuneração, devem os advogados ingressar com ação
de cobrança, havendo quatro hipóteses para a contagem deste prazo
disciplinadas pelo EAOAB da seguinte maneira: (i) quando houver contrato, do
seu vencimento; (ii) do trânsito em julgado da decisão (sentença ou acórdão) que
os fixar; (iii) da desistência ou transação feita pelas partes; e (iv) da renúncia ou
revogação do mandato.

Comentários
Como complemento ao dispositivo anterior, o art. 25-A foi inserido por força
da Lei 11.902/2009, que alterou especificamente o EAOAB para implantá-lo,
versando sobre a ação de prestação de contas por parte do cliente em face do seu
advogado, estabelecendo o mesmo prazo prescricional de cinco anos da ação de
cobrança.
É de conhecimento geral que existe a Ação de Prestação de Contas no
Diploma Processual Civil (arts. 550 a 553), de modo que aqui o legislador
procurou tratar de forma específica dos advogados ou de terceiros que em nome
dele tenham recebido quaisquer valores do cliente, que deve instruir o processo
com provas de quitação.
Lembramos ainda que incorre em infração disciplinar o advogado que se
negar a prestar contas injustificadamente dos valores recebidos por ele ou por
terceiro a seu mando, nos termos do EAOAB (art. 34, XXI).

Comentários
Não importa se o substabelecimento se deu com ou sem reserva de poderes,
bastando que haja atuação de mais de um profissional, para que todos tenham
direito de perceber honorários proporcionais à sua atuação.
A divisão proporcional dos honorários somente será necessária quando não
houver ajuste prévio entre os causídicos, vale dizer, se existente ajuste, este
deverá ser observado, mas caso inexistente, então necessário se faz que seja
apurada a atuação de cada um para que seja procedida a divisão proporcional e
justa entre eles.
O STJ, nos autos do REsp 1.214.790/SP, decidiu que para execução
autônoma dos honorários de sucumbência, o advogado substabelecido com
reserva de poderes não possui legitimidade sem a intervenção do
substabelecente, somente podendo assim proceder com sua anuência e
autorização.
E isso porque, a cláusula inserida no substabelecimento que estipula reserva
de poderes traz implicitamente a circunstância de que os honorários advocatícios
são devidos, em regra, tão somente ao substabelecente. Havendo discordância do
substabelecido, em razão de sua atuação profissional nos autos, deve ser
solucionada na via própria, diante da natureza pessoal da relação jurídica entre
ambos.

Comentários
Da mesma forma que o EAOAB diferencia o cancelamento (art. 11, incisos e
parágrafos) do licenciamento (art. 12 e incisos), procurou também estabelecer
parâmetros distintos para se identificar a incompatibilidade e o impedimento,
diferenciando ambos os conceitos para melhor compreensão do assunto.
Segundo o caput do art. 27 a incompatibilidade determina a proibição total e
o impedimento à proibição parcial do exercício da advocacia. O advogado
continua com sua carteira profissional e seu registro junto aos quadros do
Conselho Seccional, mas estará impossibilitado de atuar como profissional da
área.
A principal dica que podemos fornecer não é tentar reconhecer se é impedido
ou incompatível, mas se pode ou não advogar. Se pode advogar com restrições
ou se não pode advogar em hipótese nenhuma. Desta forma é possível separar o
impedido do incompatível e não se perder na questão.
Como veremos a seguir, as próprias hipóteses gerais de ambos os casos já
denotam se será incompatível ou impedido. De acordo com as informações
privilegiadas que cada qual possuir no uso de suas funções ou cargos, na sua
medida, impactará na forma, se será impedido ou incompatível.
Comentários
A incompatibilidade da advocacia não se destina apenas aos clientes que o
advogado poderia ter, se estendendo também a ele, ou seja, não poderá exercer a
advocacia mesmo que em causa própria, regra essa que se aplica aos
profissionais descritos nos incisos. O importante a considerar é que a
incompatibilidade não se refere ao sujeito e sim ao cargo exercido por ele. Nas
palavras do Professor Paulo Lôbo:

“É importante ressaltar que a incompatibilidade é referida ao cargo,


sendo irrelevante que seu titular esteja desempenhando atividades
de outro cargo, ou desviado de função. Apenas cessa a
incompatibilidade quando deixar o cargo por motivo de
aposentadoria, morte, renúncia ou exoneração”. (LÔBO, Paulo Luiz
Netto. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São Paulo:
Saraiva, 2010, p. 160)

Ainda que atuante nestas funções, o sujeito poderá licenciar-se do seu cargo
ou função devido a algum motivo e, seja ele qual for, o EAOAB não afasta a
incompatibilidade para a advocacia, que permanecerá ativa durante o tempo do
afastamento.
Isto ocorre porque, ao menos na maior parte dos casos, o afastamento é
temporário e enseja que um dia o ocupante do cargo ou função voltará a exercê-
lo, motivo pelo qual, em nome da segurança jurídica, a incompatibilidade
permanece vigorando.
Há, contudo, uma exceção trazida ao inciso III, que declara como
incompatíveis aqueles que ocupam cargos ou funções de direção em Órgãos da
Administração Pública direta ou indireta, fundações, empresas controladoras ou
concessionárias de serviço público. Quando este profissional não detiver poder
de decisão considerado relevante sobre interesse de terceiros, a juízo do
Conselho competente da OAB, ou da administração acadêmica diretamente
relacionada ao magistério jurídico, não serão considerados incompatíveis,
podendo, portanto, exercer a advocacia, tanto para seus clientes como em causa
própria.
Os militares na ativa, compreendendo a polícia militar (e bombeiros) e as
Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica), encontram-se igualmente
incompatíveis com o exercício da advocacia.
Na melhor das palavras, assim explicou o Professor Paulo Lôbo:

“O Estatuto, nesse ponto, não se restringe apenas ao cargo nominal,


porque alcança a vinculação indireta do serviço prestado em
qualquer órgão do Poder Judiciário. Assim, qualquer função pública
ou privada que se vincule, mesmo indiretamente, a atividade regular
de órgão do Poder Judiciário, inclusive quando posto à disposição
deste, torna seu ocupante incompatibilizado com a advocacia. Esse
aparente excesso de rigor é necessário para garantir a independência
do advogado e a dignidade da profissão, sobretudo em face da
população.” (LÔBO, Paulo Luiz Netto. Comentários ao Estatuto da
Advocacia e da OAB. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 168)

Tal vedação deve ser estendida igualmente aos membros do Poder Judiciário,
de modo que qualquer ato que vincule o seu titular, direta ou indiretamente ao
Judiciário, o torna incompatível para a advocacia.

Sobre a disciplina do exercício da advocacia por membro da Mesa diretiva


da Assembleia Legislativa, temos julgado do TED de São Paulo:

“E-3.160/05 – IMPEDIMENTO E INCOMPATIBILIDADE –


VEREADOR – MEMBRO DA MESA DA ASSEMBLEIA DA
CÂMARA.
Se apenas vereador, vogal de corpo legislativo municipal, estará o
advogado impedido parcialmente (EAOAB-30) de exercer a
advocacia contra ou em prol das pessoas, empresas e entidades
enumeradas no inciso II do art. 30, porém, livre, para o exercício da
advocacia nas mais situações ou casos, respeitados sempre os
limites éticos do CED. Porém, se um vereador for eleito Presidente
da Câmara, Corpo Legislativo do Município, ou Membro da Mesa
da Assembleia Municipal torna-se respectivamente Presidente e
Membro de uma Mesa do Poder Legislativo (Municipal) e,
compreensivelmente, transmuda a situação no tocante ao exercício
da profissão, para caso de incompatibilidade, vedando-se em
absoluto – sem qualquer ressalva ou exceção – exercer a advocacia,
enquanto perdurar a situação ou status legislativo, que engendra
incompatibilidade (EA-28-I), sem distinção ou exceção a nível ou
espécie de poder. Em qualquer poder legislativo dos vários níveis da
União, engendra incompatibilidade a advogados que componham a
respectiva mesa, inclusive substitutos legais e mesmo que,
temporariamente, não exerçam funções. É a lei. É também um
fundamento ético por demais visível e facilmente compreensível.
Precedentes: E-1349 – E-1680 – E-1744 -E-2083 – E-2439 * Fund.
EAOAB – (Art. 28-I).” (V.U., em 19/05/05, do parecer e ementa do
Rel. Dr. Ernesto Lopes Ramos – Rev. Dr. Guilherme Florindo
Figueiredo – Presidente Dr. João Teixeira Grande)

Comentários
Apesar de não listados nos incisos do dispositivo anterior, os procuradores,
advogados e defensores gerais, bem como os dirigentes de órgãos jurídicos da
Administração Pública direta, indireta e fundacional são exclusivamente
legitimados para exercer a advocacia na carreira em que exercem no período
designado.
Valiosos ensinamentos nos traz o Professor Paulo Lôbo sobre as dificuldades
para se encaixar nas incompatibilidades

“Sempre houve dúvida, durante a vigência do anterior Estatuto,


sobre a legitimidade para exercer a atividade de advocacia,
especialmente a postulação em juízo desses dirigentes da advocacia
pública. Todavia, o exercício da advocacia é exatamente a finalidade
do órgão e a fortiori de seus cargos. Como harmonizá-los com o
sistema das proibições, que também os alcançam? O Estatuto
resolveu a controvérsia admitindo o exercício da advocacia
exclusivamente no âmbito de suas atribuições institucionais,
vedando qualquer outro, mesmo em causa própria, ou seja,
instituindo um peculiar tipo de impedimento”. (LÔBO, Paulo Luiz
Netto. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. São Paulo:
Saraiva, 2010, p. 176)

Os chefes-gerais de carreiras públicas federais, assim, são exclusivos para


advogar somente para a Fazenda que os remunera, não podendo exercer a
atividade em outras esferas. Procurador do Estado e do Município dependem de
normativa desses entes, enquanto a regra geral do EAOAB trata apenas dos
chefes.
Em outras palavras, são eles incompatíveis para exercer a advocacia privada
e em causa própria, mas são competentes no âmbito de sua função pública, não
podendo extrapolá-la. Deverá atuar tão somente nas causas ou na forma diretiva
do órgão da Administração Pública em que se encontrar vinculado.
Comentários
Para os impedimentos, assim, é importante que se verifique a sua esfera, se o
servidor público tem ou não poder decisório e se membro do Legislativo.
Os impedimentos, que são parciais, são destinados àqueles que exercem
determinados cargos ou funções públicas e as controla, isto é, poderá ele advogar
caso a parte adversa não seja aquela responsável por sua remuneração quando se
tratar de servidor público em face da Fazenda Pública.
Portanto, poderá ele ingressar com ação, como advogado contratado ou em
causa própria, em face de qualquer órgão ou entidade de direito privado e
público, desde que não seja aquela que lhe remunere mensalmente.
Também os membros do Legislativo, independentemente da esfera e do
nível, não poderão, por impedimento, advogar em face de órgãos públicos,
podendo exercer, todavia, a advocacia privada, salvo os membros da mesa
diretora que são incompatíveis com a atividade jurídica, não podendo advogar
em nenhuma hipótese (art. 28, I, EAOAB).
O inciso I, porém, possui importante exceção constante no parágrafo único
deste dispositivo. Quando se tratar de docentes de cursos jurídicos, poderá o
advogado atuar em face da entidade empregadora que os remunera, não
alcançando o impedimento dos servidores do inciso I a eles.
Pela regra geral, o professor seria impedido e o diretor incompatível, mas
pelo EAOAB existe essa exceção, não sendo nem um e nem outro, podendo
exercer de maneira plena a advocacia.
Se for professor de qualquer outro curso será impedido e não pode advogar
contra a Fazenda que o remunera, enquanto o diretor será incompatível e não
pode contra ninguém. Mesmo que ambos sejam formados em direito e
advogados, esta é uma exclusividade para o curso de direito.
O diretor que for nomeado (mandato ou precário) deverá solicitar a sua
licença para que não se apague seu número, já que a nomeação torna a
incompatibilidade temporária.
Outra exceção são os juízes eleitorais que pela regra geral devem ser
considerados como incompatíveis, mas existem os juízes que são indicados pela
OAB em lista tríplice, devendo o presidente da república escolher um para o
cargo. Neste caso, ele será considerado impedido de advogar apenas na Fazenda
que o remunera, ou seja, a Justiça Eleitoral, podendo exercer plenamente a
advocacia nos demais âmbitos e esferas.
Já que tratamos da Justiça Eleitoral, cumpre-nos trazer também a figura do
servidor eleitoral em caráter transitório, como os mesários, secretários ou
presidentes de seções, que não são nem impedidos e nem incompatíveis,
podendo advogar de maneira plena inclusive em face da Justiça Eleitoral, salvo
se já possuírem algum impedimento ou incompatibilidade decorrentes de sua
outra profissão no funcionalismo público (vide ADIn 1.127-8).
Uma especificidade deve ser anotada: “os chamados juízes leigos, pessoas
formadas em direito e que auxiliam a justiça, como os conciliadores dos
Juizados Especiais de Pequenas Causas, pela dicção do EAOAB e pelo
entendimento do Conselho Federal, são impedidos de advogar no âmbito do
próprio Juizado Especial em que atue, perdurando tal impedimento, enquanto no
desempenho de suas funções”. Corrobora com tal afirmação o Enunciado nº 40
do Fórum Nacional dos Juizados Especiais (FONAJE), que assim dispõe: “O
conciliador ou juiz leigo não está incompatibilizado nem impedido de exercer a
advocacia, exceto perante o próprio Juizado Especial em que atue ou se
pertencer aos quadros do Poder Judiciário”.

Não obstante os impedimentos acima arrolados tratados pelo EAOAB, temos


que referenciar que também outros diplomas legais podem conter impedimentos
aos advogados para o exercício da advocacia. É o caso do NCPC, que traz uma
série de impedimentos e suspeições em face dos juízes (arts. 144 a 148), mas
também incorre numa especificidade ao advogado.
O art. 145, I, do NCPC trata que haverá suspeição do juiz caso este seja
amigo íntimo ou inimigo da parte ou dos seus advogados, corroborando com o
disposto no NCED (art. 2º, VIII, e), ao atestar que o advogado deve abster-se de
ingressar ou atuar em pleitos administrativos ou judiciais perante autoridades
com que tenha algum tipo de vínculo, seja negocial ou familiar, devendo afastar-
se da atuação profissional nestas ocasiões.
Tanto as disposições do NCPC como do NCED procuram trazer mais uma
modalidade de impedimento ao exercício da advocacia ao não permitir que o
advogado atue em causas nas quais conheça o juiz, garantindo que a sociedade
seja a maior beneficiada ao se evitar que essas relações extrapolem o âmbito
pessoal e incidam direta ou indiretamente no âmbito judicial.
Tais fundamentos procuram garantir a lisura e a equidade, além da
imparcialidade do magistrado no momento de prolação da sentença,
proporcionando a segurança jurídica necessária e esperada pelas partes, pelos
advogados e pela sociedade.

Ponto de interesse é a questão atinente à comunicabilidade da causa de


impedimento de um advogado para a sociedade que eventualmente integre.
Como vimos, o impedimento implica tão somente a vedação parcial ao exercício
da advocacia, de modo que o impedido pode advogar normalmente, exceto para
as hipóteses específicas em que figura seu impedimento.
Deste modo, nada obsta que um advogado, cujo qual milite em seu desfavor
uma das causas de impedimento mencionadas no art. 30, integre uma sociedade
de advogados. Nesta hipótese, fica a dúvida: a causa de impedimento se estende
à sociedade? Isto é, ficará também o escritório impedido de atuar nas causas para
as quais um de seus sócios se encontre impedido? A matéria foi apreciada pela
Seccional Paulista da OAB, que no dia 15 de março de 2018 definiu a matéria
nos autos do processo nº E-4.957/2017.
Em tal julgado assentou-se que o impedimento não se estende à sociedade de
advogados, de modo que, ainda que um de seus sócios seja impedido de atuar, a
sociedade profissional não sofrerá a mesma restrição.
O sócio impedido, no entanto, não poderá atuar, de modo algum, no caso
para o qual esteja impedido e que a sociedade que integre eventualmente atue.
Assim, em face do sócio impedido teremos as seguintes restrições: a) não poderá
constar nos instrumentos de mandato relativos às causas objeto do impedimento;
b) não terá contato ou realizará quaisquer tratativas com o cliente do qual origine
a demanda relativa ao impedimento; c) não poderá constar dos documentos da
sociedade ou demais impressos da causa.
A seguir, a íntegra da ementa do julgado em questão:

EXERCÍCIO PROFISSIONAL – IMPEDIMENTO – ADVOGADO


IMPEDIDO – POSSIBILIDADE DE INGRESSO EM
SOCIEDADE DE ADVOGADOS – NÃO EXTENSÃO DO
IMPEDIMENTO À SOCIEDADE E AOS DEMAIS
ADVOGADOS QUE A INTEGRAM.
Não há óbice para que advogado, ocupante de cargo público, integre
sociedade de advogados. O impedimento que recai sobre o
advogado não se estende à sociedade, pois é restrição que recai
sobre a pessoa do advogado e não pode, à míngua de norma
expressa nesse sentido, afetar o direito dos demais advogados da
sociedade ao pleno exercício da profissão em todo o território
nacional. O advogado, no entanto, ao ingressar na sociedade, deverá
abster-se por completo de participar das causas que envolvam a
Fazenda Pública que o remunere ou à qual seja vinculada a sua
entidade empregadora, nos casos do impedimento de que trata o
inciso I do art. 30 do EAOAB, ou causas que envolvam pessoas
jurídicas de direito público, empresas públicas, sociedades de
economia mista, fundações públicas, entidades paraestatais,
empresas concessionárias ou permissionárias de serviço público,
nos casos de impedimento previsto no inciso II do mesmo
dispositivo legal. O advogado impedido (i) não poderá constar nas
procurações que serão juntadas em processos nos quais a sociedade
de advogados atue contra a entidade a que ele seja vinculado; (ii)
não terá contato com os clientes da sociedade que a consultam ou
movam demanda contra a entidade que dá ensejo ao impedimento
do advogado; e (iii) não constará nos impressos da sociedade ou
documentos da causa. E a sociedade deve se abster de utilizar o
ingresso daquele advogado nos seus quadros para fins de captação
indevida de clientela e tráfico de influência, sob pena da
configuração de infração ética, a ser apurada e sancionada pelas
turmas disciplinares. Precedente. (Proc. E-4.957/2017 – v.u., em
15/03/2018, do parecer e ementa do Rel. Dr. Fábio Teixeira Ozi,
Rev. Dr. João Luiz Lopes – Presidente Dr. Pedro Paulo Wendel
Gasparini)

Comentários
A Ética trazida pelo Capítulo VIII tem como objetivo fazer nascer a justiça,
sobretudo quando o mundo e a sociedade se apresentam contrários a ela. O ser
ético é sonhador, mas não iludido; é idealista, mas não ingênuo. Ético é aquele
que não segue o caminho da desilusão tomado pela prática de atos espúrios. Seu
respeito não se dá pela força física ou econômica e sim é conquistada pela sua
reputação de probidade e honradez.
Vale citarmos os ensinamentos do Professor Goffredo Telles Júnior sobre a
valoração do pensamento e do julgar como fundamentos da racionalidade
humana:

“No exercício de sua função própria, a inteligência raciocinante é a


faculdade que julga. Ela julga bons ou convenientes os fatos e as
cousas que concorram para levar o agente aos fins que ele deseja
atingir, embora seus fins possam ser contrários aos altos interesses
do ser humano; e julga maus os inconvenientes os fatos e as cousas
que constituem empecilho ou obstáculo à realização daquilo que o
agente almeja. E os sentimentos consequentes a esses juízos serão
sentimentos atrativos, no primeiro caso, e repulsivos, no segundo. A
inteligência raciocinante é a faculdade que ora renega e repudia, ora
aceita e exalta. É ela que compara e avalia. É ela, em suma, que
decreta o valor das cousas”. (TELLES JÚNIOR, Goffredo. Ética –
Do Mundo da Célula ao Mundo dos Valores. São Paulo: Juarez de
Oliveira, 2004, pp. 226-7)

O ser humano é capaz de sobrepesar os valores que melhor lhe cabem para
sua vida cotidiana. O julgamento, a escolha dos axiomas que farão parte ou não
da sua atividade diária, incluindo sua ação profissional, é o que separa os
preceitos que ele não considera válidos para ele e para tratar seu cliente.
Assim como tratamos em diversas ocasiões ao longo dos nossos estudos, o
serviço prestado pelo advogado se caracteriza como um múnus público, caráter
este conferido pela CF e tido como basilar para construção da democracia, com
sua essencialidade para a administração e acesso à justiça.
O dever de urbanidade do profissional é inerente à profissão e, embora não
se tenha hierarquia entre advogados, juízes e promotores (art. 6º do EAOAB),
devemos lembrar que para haver respeito às prerrogativas dos causídicos, é
necessário o respeito mútuo.
Por tal motivo o advogado deve proceder de maneira que o torne merecedor
do respeito, tendo em mente não a individualidade da sua ação, isto é, que este
respeito não será exclusividade dele, já que o intuito é se elevar o prestígio da
classe e da advocacia como um todo e não apenas de parte dela.
O respeito, desta feita, não será destinado somente ao advogado, mas a todos
os demais causídicos. Se da mesma forma se entende que o crime infamante
desonra e desrespeita toda a advocacia, temos por bem concluir que a ação ética
do advogado geral o efeito inverso, honrando e respeitando a advocacia,
sentimento este que será compartilhado por todos os demais advogados e
enaltecido pela sociedade com a qual o profissional está comprometido graças ao
seu múnus público.
Contudo, caso o advogado seja erroneamente representado por danos
inexistentes que lhe foram imputados, pode ele se valer do seu direito e das
prerrogativas que couberem deste EAOAB para requerer a indenização no limite
da desonra e desrespeito sofridos, de acordo com o entendimento do Tribunal de
Justiça do Rio Grande do Sul:

“AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS.


REPRESENTAÇÃO CONTRA ADVOGADO JUNTO AO
TRIBUNAL DE ÉTICA E DISCIPLINA DA OAB/RS.
EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO EXTRAPOLADO. DANO
MORAL CARACTERIZADO.
As palavras mencionadas pelo réu no processo administrativo
(Reclamação – fls. 35/42) junto ao Tribunal de Ética e Disciplina da
OAB/RS ultrapassaram os limites do exercício regular de um
direito. Se a pretensão do réu era representar contra o colega,
deveria ter descrito os fatos e o enquadramento legal sem utilizar
adjetivações fortes, as quais ofenderam a honra subjetiva do autor,
principalmente ao acusá-lo da prática de crimes juntamente com sua
colega. A conduta deselegante e desrespeitosa, empregando
linguagem desnecessária, enseja a reparação pretendida,
desimportando o caráter sigiloso de tal representação. Para tanto,
deve o réu indenizar o autor, a título de danos morais, na
importância de R$ 10.000,00 (dez mil reais), eis que a adjetivação
foi grave a ponto de produzir uma dor intensa, bem como um
constrangimento profundo capaz de gerar alteração nos direitos de
personalidade do recorrente. Sentença reformada. DERAM
PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO INOMINADO.
UNÂNIME. (Recurso Cível Nº 71004200887, Terceira Turma
Recursal Cível, Turmas Recursais, Relator: Luís Francisco Franco,
Julgado em 22/08/2013).” (TJ-RS – Recurso Cível: 71004200887
RS, Relator: Luís Francisco Franco, Data de Julgamento:
22/08/2013, Terceira Turma Recursal Cível, Data de Publicação:
Diário da Justiça do dia 26/08/2013)

É neste mesmo sentido que se torna possível identificar importante aspecto


para se manter a independência no exercício da profissão, isto porque, ao se
encontrar sob o manto ético do respeito mútuo e do dever de urbanidade, o
advogado poderá exercer plenamente sua profissão e ter todas as suas
prerrogativas observadas.
Por isso, o advogado não pode se rebaixar a ponto de não exercer a profissão
por receio de desagradar a magistrados ou autoridades, muito menos pensar que
por conta de seus atos se tornará impopular. Primeiro porque, como não
cansamos de dizer, inexiste hierarquia e os atos praticados no regular exercício
da advocacia não podem ter outo intuito que não a defesa dos interesses do
cliente.
Segundo, não podemos nos esquecer de que qualquer abuso de autoridade
por parte de magistrados ou de outros não é legalmente permitido, de modo que
o advogado não pode deixar-se ser tolhido em seus direitos e acabar por
prejudicar a si e seus clientes. O desagravo público, como vimos, existe
justamente para restabelecer ao advogado e à advocacia como um todo a honra e
o respeito que lhes foram retirados em ocasiões como estas.
Comentários
Outro ponto importante diz respeito aos atos praticados pelo advogado,
estabelecendo-se que ele é responsável pelos mesmos. Esta disposição não
contradiz o que vimos acima, pelo contrário, a complementa na medida em que
não se permite abusos por parte dos magistrados e outras autoridades da mesma
forma que não se permitirá por parte do advogado. Somente assim é possível se
alcançar o respeito mútuo desejado.
Não nos esqueçamos de que o advogado tem como obrigação garantir o meio
e não o resultado final. Ele não é contratado para vencer a demanda, mas sim
para se valer de todos os meios necessários, idôneos e legais na defesa dos
interesses do seu cliente, balizado sempre pela ética e perquirindo a justiça.
Ademais, cabe ao advogado informar ao seu cliente sobre os riscos do
mandato, mas igualmente cabe observar que qualquer ato realizado em processo
para prejudicar outrem será apurado em ação própria e ambos respondem
solidariamente pelas lesões causadas em razão deste ato, contrário à advocacia.
A chamada “lide temerária” se constitui como aquela em que a parte, sem
justa causa ou interesse jurídico, move toda a máquina do Judiciário e causa
danos a terceiro, seja por imprudência, negligência, erro grosseiro ou culpa
grave. Em se comprovando o conluio consciente entre advogado e cliente para
prejudicar a outra parte, os dois responderão por seus atos, salvo se restar
demonstrado que o cliente omitiu acintosamente informações de seu advogado,
levando-o a erro. Assim nos ensina o Professor Paulo Lôbo:

“A lide temerária, no entanto, não se presume, nem pode a


condenação decorrente ser decretada pelo juiz na mesma ação.
Tampouco basta a prova da temeridade, que pode ser resultado da
inexperiência ou da simples culpa do advogado. Para
responsabilizar o advogado é imprescindível a prova do dolo.
Caracterizando-se a lide temerária, pode a parte prejudicada
ingressar em juízo com ação própria de responsabilidade civil
contra o advogado que, coligado com o cliente, causou-lhe danos
materiais ou morais, ante a evidência do dolo. A competência para a
ação própria de responsabilidade civil é da justiça comum, ainda
que a lide temerária tenha outra origem, como a Justiça do
Trabalho”. (LÔBO, Paulo Luiz Netto. Comentários ao Estatuto da
Advocacia e da OAB. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 192)

Na esfera Cível, a lide temerária é chamada de litigância de má-fé e está


disciplinada pelo NCPC (art. 79). O juiz, ao condenar o litigante, estipulará
multa com base no valor da causa, não sendo inferior a 1% e não superior a 10%,
que servirá como indenização à outra parte em função de prejuízos ocasionados,
tendo de arcar ainda com os honorários advocatícios e quaisquer outras despesas
que tenha efetuado.
Na seara Criminal, temos a figura da denunciação caluniosa delimitada pelo
Código Penal, em seu art. 339, §§ 1º e 2º, quando alguém dá causa desnecessária
a investigações ou instauração de processos judiciais ou administrativos
imputando a terceiro crime de que o sabe inocente. Também, vemos no mesmo
Diploma Penal (art. 340) a figura da comunicação falsa de crime à autoridade
competente por sua investigação. Em ambos os casos, além das penas criminais,
o autor ainda estará sujeito à reparação civil pelos danos causados prevista no
mesmo Código.

Sobre a lide temerária, assim se posicionou o TED de São Paulo, quando não
comprovado a alegação de “aventura judicial”, já que realizada com base nas
informações passadas pelo cliente:

“EMENTA: ACUSAÇÃO DE PROMOVER LIDE


TEMERÁRIA. PROVAS SUFICIENTES A COMPROVAR
QUE A DEMANDA PROPOSTA ERA CORRETA COM BASE
NAS INFORMAÇÕES RECEBIDAS. NÃO COMPROVAÇÃO
DE ESTÍMULO A AVENTURA JUDICIAL. ABSOLVIÇÃO
QUE SE IMPÕE.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar nº
06R0000142011, acordam os membros da Sexta Turma
Disciplinar do TED, por unanimidade, nos termos do voto da
Relatora, em desacolher a representação e determinar o
arquivamento dos autos.” (Sala das Sessões, 9 de maio de 2012.
Rel. Dra. Lais Eun Jung Kim – Presidente da sala Dr. Roberto
Garcia Lopes Pagliuso)

Comentários
Quando nos propomos a analisar o disposto ao longo deste EAOAB,
procuramos a todo instante fazer as devidas referências e anotações aos vários
diplomas, regramentos e provimentos que circundam a profissão do advogado,
sempre com o intuito de demonstrar que não basta a simples observância do
EAOAB e sim de todo o aparato existente para que o exercício advocatício
ocorra de maneira plena.
A disposição contida neste art. 33 e parágrafo único corroboram com este
alerta, que tentamos deixar evidenciado em cada asserção realizada sobre as
prerrogativas e os deveres dos advogados quando no exercício da profissão.
Saliente-se que, em outubro de 2015, o Plenário do Conselho Federal da
Ordem dos Advogados do Brasil aprovou novo texto, que substitui o antigo
Código de Ética e Disciplina, de 1995, cujas disposições passam a valer a partir
de 1º de setembro de 2016, conforme seu art. 79.
Dentre as novidades, ressaltamos a inclusão da advocacia pro bono, além das
novas possibilidades de publicidade decorrentes da utilização das novas
tecnologias e redes sociais, não comportadas à época pelo antigo Código, há 20
anos atrás. Mais do que a mera referência aos procedimentos disciplinares, o
Código de Ética e Disciplina regula o modo como o advogado deve se portar
com a comunidade, clientes e outros advogados, pautando-se para isso no dever
de urbanidade e respeito mútuos, única forma de se alcançar também o respeito
às suas prerrogativas e de toda a classe.

Este é um dos capítulos mais sensíveis do Estatuto da Advocacia, já que


dispõe acerca das infrações éticas e respectivas sanções disciplinares a serem
aplicadas aos advogados que atuem de forma indesejada, prejudicando clientes e
comprometendo a advocacia como um todo. Portanto, o art. 34 é o mais longo e
estudado do Estatuto, contando com 29 incisos, que deverão ser de profundo
conhecimento por todos os operadores do Direito.

Comentários
O inciso I trata do exercício ilegal da profissão, ou seja, quando o advogado
exerce a advocacia sem poder fazê-lo porque está impedido ou quando facilita o
exercício de pessoas não inscritas, proibidas ou impedidas, por qualquer meio
que seja esta facilitação.
O art. 4 do Regulamento Geral do EAOAB dispõe que a prática de atos
privativos da advocacia, por profissionais ou sociedades não inscritas na OAB,
constitui exercício ilegal da profissão.
A advocacia é privativa não só na seara judicial, mas também compreende,
nos termos do Provimento 66/1988 do CFOAB, o procuratório extrajudicial,
assim como os trabalhos jurídicos de consultoria, assessoria e as funções de
Diretoria ou Gerência Jurídica, em qualquer empresa, pública, privada ou
paraestatal, não podendo ser exercida por quem não se encontre inscrito
regularmente na Ordem ou por quem esteja impedido.
Também compete privativamente aos advogados regularmente inscritos nos
quadros da Ordem o assessoramento jurídico em transações imobiliárias, na
confecção de contratos, de estatutos, memoriais condominiais, e outros
documentos que contenham fundamentação jurídica.
Alguém que esteja enquadrado naquelas hipóteses de incompatibilidade ou
impedimento previstas nos arts. 27 a 30 do EAOAB, ou ainda, aquele que esteja
temporariamente suspenso por decisão transitada em julgado do próprio TED, ou
por fim, excluído em decorrência de procedimento disciplinar, não poderá
praticar atos atinentes ao exercício da advocacia, não apenas no âmbito judicial
de contencioso, mas também consultivo ou como diretor jurídico de empresa.
Também não poderá o advogado, que atue de maneira regular em relação a si
próprio, facilitar o exercício irregular de terceiros, o que inclui não inscritos,
proibidos ou impedidos. Assim, não poderá apresentar alguém como advogado,
quando não o seja, assinar petições ou atuar em nome e em favor de advogado
que se encontre suspenso, impedido ou excluído, entre outras várias formas de
facilitação. Essa infração ética já se encontrava prevista desde 1989 pelo
Provimento 69 do CFOAB.
Muito corriqueiro também é o caso de imobiliárias, escritórios de marcas e
patentes, de contabilidade, empresas de auditoria, de consultoria e assessoria em
geral, que contem com departamento jurídico interno. Esses advogados somente
poderão patrocinar causas de interesse da empresa, da sociedade como parte,
estando proibidos de firmar contrato de prestação de serviços jurídicos com
clientes das empresas, o que se configuraria exercício ilegal da profissão,
previsto neste inciso I, já que a sociedade empresária não tem registro na OAB e
também não é lícito o exercício da advocacia conjuntamente com outra
atividade.
Os advogados empregados destas sociedades, de fato, atuam de maneira
bastante delicada e não recomendável, pois geralmente trabalham em sua
capacidade máxima, muitas vezes com salários fixos e sem direito à
sucumbência, e ficam, eles próprios, responsáveis pelos processos em que
atuam, já que a procuração é recebida do cliente direto para eles, tendo em vista
que a empresa não pode praticar atos privativos dos advogados.
Considera-se igualmente infração a facilitação, por advogados brasileiros, de
atuação de advogado estrangeiro em território nacional, relativos a atos próprios
da advocacia, ou ainda, o exercício destes atos privativos por paralegais,
assistentes bacharéis em direito sem aprovação no exame de Ordem ou mesmo
estagiários, com atribuições maiores do que aquelas que lhe são próprias e já
definidas pelo Estatuto.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“E-3.961/2010 – EXERCÍCIO PROFISSIONAL – SERVIÇOS


JURÍDICOS PRESTADOS AOS CLIENTES PELO
DEPARTAMENTO JURÍDICO DE EMPRESAS DE
CONSULTORIA E DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS –
EXERCÍCIO ILEGAL DA PROFISSÃO –
RESPONSABILIDADE PROFISSIONAL – FACILITAÇÃO DO
EXERCÍCIO ILEGAL PELOS ADVOGADOS
EMPREGADOS – CAPTAÇÃO DE CAUSAS E CLIENTES –
VEDAÇÃO. As empresas de consultoria e de prestação de serviços,
mesmo que compostas só por advogados, não são sociedades de
advogados, e por seus sócios, associados ou empregados, não
podem praticar atos privativos da advocacia porque não é este seu
objeto social, e se o fosse, estaria impedida de registro na OAB
porque é vedado o exercício da advocacia em conjunto com outras
profissões. As empresas de consultoria e de prestação de serviços,
cujo objeto não seja exclusivamente o da advocacia e consultoria
jurídica, não podem pactuar ‘contrato de honorários advocatícios’
com seus clientes, e os advogados que fazem parte do seu
departamento jurídico devem prestar serviços unicamente para a
defesa dos interesses da empresa, nunca em beneficio de seus
clientes. A empresa tem legitimidade para realizar contratos de
trabalho com os advogados, mas os advogados devem prestar
serviços somente à empresa e não a seus clientes. A
responsabilidade profissional dos advogados está circunscrita aos
atos por eles praticados nos processos que atuam, pois recebem
procuração direta dos clientes. Como a empresa não pode praticar
atos privativos dos advogados, a responsabilidade pelos atos
privativos é dos advogados e não da empresa. Os advogados
empregados que atuam no Departamento Jurídico e patrocinam
causas dos clientes, permitem o uso de seu trabalho e de suas
prerrogativas para o exercício ilegal da profissão por parte de
entidades não registradas na OAB, tornam viável o funcionamento
desta máquina de inculca e concorrência desleal, e acobertam, em
alguns casos, advogados inescrupulosos que mercantilizam a
advocacia, captam causas e clientes. Precedentes E-2.525/02, E-
2.662/02, E-2.736/03.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.m.,
rejeitada a preliminar de não conhecimento; quanto ao mérito – v.u.,
do parecer e ementa Rel. Dr. Luiz Antonio Gambelli)

“CAPTAÇÃO DE CAUSAS E CLIENTES – CRIAÇÃO DE


ASSOCIAÇÃO PARA REVISÃO DE APOSENTADORIAS –
SERVIÇOS GRATUITOS E PROPOSTA DE REMUNERAÇÃO
PARA ADVOGADOS – FACILITAÇÃO DO EXERCÍCIO
PROFISSIONAL A NÃO INSCRITOS Entidade que se apresenta
como ‘representativa de todos os brasileiros’ e que visa a reunir, em
forma associativa, pensionistas para revisão de aposentadorias, por
si só demonstra que sua intenção é afrontar a razão, com total
desprezo para com o princípio da boa-fé. Advogados que dela
façam parte ou que se prestarem a servi-la, de forma direita ou
indireta, estarão afrontando os princípios da moral individual, social
e profissional, que alicerçam todo o sistema ético da advocacia (art.
1º do CED), mormente se inscritos em outra Seccional, mas com
escritório e atividade profissional nesta Seccional, sem a devida
caracterização (arts. 10 e segs. do EAOAB). É princípio de direito
que a pessoa tenha necessariamente um domicílio. Advogado não
pode intermediar ações ou facilitar o exercício profissional para
associação não inscrita e que não pode se inscrever na OAB.
Entidades leigas não podem patrocinar e mercantilizar a advocacia.
Advogados que a tanto se prestam cometem infração estatutária e
ética. Remessa dos autos à Comissão de Direitos e Prerrogativas e
às Turmas Disciplinares. Apensamento ao processo E-2.804/03.”
(Proc. E-2.736/03 – Turma Deontológica, OAB/SP, v.u. em
21/08/03 do parecer e voto do Rel. Dr. José Roberto Bottino)

“EXERCÍCIO DA ADVOCACIA – PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS


DE COBRANÇA ATRAVÉS DE SOCIEDADE COMERCIAL
NÃO REGISTRADA NA ORDEM – IMPOSSIBILIDADE. É
vedado ao advogado prestar serviços a terceiros através de
sociedades comerciais, associações ou outras entidades, obviamente
não inscritas na Ordem dos Advogados do Brasil, por caracterizar
exercício irregular da atividade privada da advocacia,
facilitação ao exercício profissional a não inscritos e ainda
captação de clientela e angariação de causas. Inteligência do
Provimento nº 66 do Conselho Federal da OAB, artigo 34, incisos I
e IV, do Estatuto da Advocacia e 7º do Código de Ética e Disciplina.
Proc. E-3.370/2006.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em
20/09/2006, do parecer e ementa do Rel. Dr. Guilherme Florindo
Figueiredo)

“FACILITAÇÃO AO EXERCÍCIO ILEGAL DA


ADVOCACIA. Constitui infração disciplinar, sujeita à pena de
censura, facilitar o exercício da advocacia a bacharel sem
inscrição na Ordem dos Advogados (art. 34, I – EAOAB).”
(OAB/BA, Sala de Sessões, 29/11/2007, Processo Disciplinar n°
5525/04 – Relator: Dr. Antonio César Magaldi)

“ADMINISTRATIVO. ASSESSOR DE GABINETE EM


TRIBUNAL DE CONTAS ESTADUAL. INSCRIÇÃO NA OAB.
IMPEDIMENTO OU INCOMPATIBILIDADE COM O
EXERCÍCIO DA ADVOCACIA. COMPETÊNCIA
EXCLUSIVA DA OAB PARA A DECISÃO.
1. Compete exclusivamente à OAB averiguar se o caso é de
incompatibilidade ou de impedimento para o exercício da advocacia
e decidir em qual situação devem ser enquadrados os ocupantes de
cargos ou funções referidos nos arts. 27 a 30 do Estatuto da
Advocacia (AgRg no REsp 1.287.861/CE, Relator Ministro
Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 5/3/2012).
2. Agravo Regimental não provido.” (STJ, 2ª Turma, AgRg no
REsp 1448577/RN, Ministro Herman Benjamin, DJe 09/10/2014)

Comentários
O inciso II trata da manutenção de sociedade profissional fora das normas e
preceitos estabelecidos na lei, ou seja, sociedade profissional sem registro na
OAB, sociedade funcionando conjuntamente com outra atividade mercantil,
sociedade profissional com utilização de nome fantasia, entre outras situações
que violem os preceitos do Estatuto.
O art. 15 do EAOAB dispõe que os advogados poderão se reunir para
prestação de serviços jurídicos por meio de sociedades advocatícias, que só
adquire, no entanto, personalidade jurídica com seu registro perante a OAB, de
modo que o art. 16 seguinte traz o regramento das sociedades para fins de
registro, vedando aquelas que possuam finalidade mercantil, que adotem
denominação fantasia, incluam sócio não advogado, entre outras hipóteses lá
descritas.
Assim, é proibida toda e qualquer menção, especialmente em material de
divulgação ou websites, de sociedade de advogados (ou escritório de advocacia)
sem o competente registro perante a Ordem dos Advogados, simplesmente
porque esta sociedade não existe formalmente.
Também é vedado que escritório de assessoria jurídica ou consultoria
jurídica, ainda que devidamente registrado perante a OAB, seja composto por
advogados e não advogados, já que as atividades ali desenvolvidas são privativas
da advocacia, conforme art. 1º, inciso II, do Estatuto. Os Provimentos 69/1989 e
112/2006 do Conselho Federal enfatizam essa questão, em consonância com o
art. 16 do EAOAB, que dispõe justamente sobre a impossibilidade de
funcionamento de sociedades que incluam sócio não inscrito como advogado.
Também é proibido o registro, em cartórios e juntas comerciais, de sociedade
que inclua, entre suas finalidades de atuação, a atividade de advocacia, que
somente poderá estar registrada junto a Ordem. Aliás, o exercício da advocacia
em conjunto com outra atividade mercantil qualquer (contabilidade, imobiliária,
cobrança, perícias, administradora etc.) é proibido, não podendo o departamento
jurídico deste tipo de empresa atuar prestando serviços jurídicos aos seus
clientes, devendo limitar-se a atuar exclusivamente em nome da empresa.
Também é irregular e viola o inciso II do art. 34, a utilização de expressão ou
nome fantasia, devendo a sociedade apresentar-se tal qual sua razão social, que
deverá ter, obrigatoriamente, e no mínimo, o nome de um advogado sócio,
responsável pela sociedade, devendo vir acompanhado de expressão que indique
se tratar de sociedade de advogados, sendo vedada a utilização de referência
como “Sociedade Civil” ou “S.C.”.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“E-3.952/2010 – ASSESSORIA JURÍDICA – INEXISTÊNCIA


DE SOCIEDADE REGISTRADA NA OAB – CONFIGURAÇÃO
DE INFRAÇÃO ÉTICA QUANDO FORNECIDA FALSA NOÇÃO
DA EXISTÊNCIA DE SOCIEDADE DE ADVOGADOS –
SOCIEDADE CONSTITUÍDA POR ADVOGADOS E NÃO
ADVOGADOS – IMPOSSIBILIDADE. A utilização da expressão
‘assessoria jurídica’ é privativa da advocacia, e deverá ser sempre
acompanhada do(s) nome(s) do(s) profissional(is) ou de sociedade
de advogados e sua respectiva inscrição na OAB. Incorre em falta
ética a sua utilização quando a mesma possa dar conotação de
existência de sociedade de advogados sem registro na OAB.
Somente advogados poderão reunir-se em sociedade civil de
prestação de serviço de advocacia, nos termos do que dispõem os
artigos 15 a 17 do Estatuto da OAB, confirmado no Provimento
112/2006 do Conselho Federal. Precedentes E-1.520/97, E-
2.409/2001, E-2.498/2001, E-2621/2002, E- 2.659/2002, E-
2.807/2003, E2.874/2003, E-2.918/2004, E-2.946/2004, E-
3.134/2005.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 18/11/2010,
do parecer e ementa da Rel. Dra. Marcia Dutra Lopes Matrone)

“PUBLICIDADE – SITE NA INTERNET – POSSIBILIDADE


DESDE QUE SEJAM APLICADOS OS MANDAMENTOS DO
CÓDIGO DE ÉTICA E DISCIPLINA E DO PROVIMENTO
94/2000 DO CONSELHO FEDERAL DA OAB E, AINDA,
SEJAM RESPEITADOS OS PARÂMETROS ÉTICOS DE
DISCRIÇÃO, MODERAÇÃO E SOBRIEDADE DA
ADVOCACIA – APRESENTAÇÃO DE CUNHO MERAMENTE
INFORMATIVO – NÃO VEICULAÇÃO COM ATIVIDADES
ESTRANHAS À ADVOCACIA – ATUAÇÃO DE ADVOGADOS
EM CONJUNTO – UTILIZAÇÃO DA EXPRESSÃO
‘ASSESSORIA JURÍDICA’ – INEXISTÊNCIA DE
SOCIEDADE REGISTRADA NA OAB – CONFIGURAÇÃO
DE INFRAÇÃO ÉTICA QUANDO FORNEÇA FALSA
NOÇÃO DA EXISTÊNCIA DE SOCIEDADE DE
ADVOGADOS. É permitida a publicidade por sociedade de
advogados ou advogado unipessoal através de site na internet, desde
que respeitados os termos dos artigos 28 a 34 do CED e Provimento
94/2000 do Conselho Federal da OAB. Meio de publicidade afeito
aos mesmos critérios de moderação, discrição e sobriedade da
profissão. Deve possuir apenas caráter informativo, sem qualquer
tipo de conotação mercantilista. Impossível sua veiculação em
conjunto com outras atividades. A advocacia, considerando o seu
relevante papel na administração da justiça, não se compatibiliza
com atividades outras relacionadas com a venda de bens ou
serviços. Assim procedendo, ficará caracterizada a publicidade
imoderada e captação de clientela, com violação dos artigos 1º e 4º,
letras b, c e I, do Provimento 94/2000, art. 34, II, do Estatuto da
Advocacia e a OAB, arts. 5º, 7º, 28 a 31 do CED. A utilização da
expressão ‘assessoria jurídica’ não constitui infração ética, desde
que acompanhada do(s) nome(s) do(s) profissional(is), ou de
sociedade de advogados, e sua(s) respectiva(s) inscrição(ões) na
OAB. Incorre em falta ética a sua utilização, quando a mesma
possa dar conotação da existência de sociedade de advogados,
quando a mesma não tenha sido registrada na OAB.” (Proc. E-
3.779/2009. Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 16/07/2009, do
parecer e ementa do Rel. Dr. José Eduardo Haddad)

“ARTIGOS E TEXTOS EM SITE OU BLOG DE ADVOGADO,


ESCRITÓRIOS DE ADVOCACIA OU SOCIEDADES DE
ADVOGADOS – POSSIBILIDADE – APLICAÇÃO DO CÓDIGO
DE ÉTICA E DO PROVIMENTO 94/2000 DO CONSELHO
FEDERAL DA OAB – OPINIÃO ‘VIRTUAL’ –
IMPOSSIBILIDADE – DIVULGAÇÃO DE SERVIÇOS PELA
INTERNET – LIMITES E REGRAS ÉTICAS A SEREM
OBSERVADOS – IMPOSSIBILIDADE DE USO DO NOME
FANTASIA – INFRAÇÕES ÉTICAS. Não há infração ética na
redação de textos técnicos, de assuntos relacionados à área de
atuação do escritório ou do advogado, desde que, logicamente, se
evite a redação de artigos que possam instigar pessoas a litigar, ou
que contenham qualquer tipo de autoengrandecimento, ou quaisquer
outras formas de angariação de clientela. Os artigos somente podem
ser fornecidos a colegas, clientes, ou pessoas que os solicitem ou os
autorizem previamente, nos termos do § 3.º do artigo 29 do Código
de Ética e Disciplina da OAB. Pode a internet ser admitida como
novo veículo de comunicação eletrônica, mas, por isso, deve
respeitar as regras e limites éticos; portanto, está sujeita ao
regramento devidamente estabelecido no Código de Ética e
Disciplina e no Provimento nº 94/2000 do Conselho Federal da
OAB. Se o ‘site’ ou blog sob consulta pretender a oferta de serviços
com divulgação profissional, utilizando meios promocionais típicos
de atividade mercantil tais como nome fantasia e ofertando
serviços de aconselhamento jurídico, com evidente implicação em
inculca e captação de clientela, infringirá os artigos 34, II, do
EAOAB, 5º, 7º, 28, 29 e 31 ‘caput’ do CED e o art. 4º, letras b, c e
l, do Provimento 94/2000. A divulgação de sites com “opinião
virtual”, considerando a divulgação indiscriminada que a Internet
propicia, não há de ser permitida, mantendo-se a respeito os
pronunciamentos desta casa (E-1.435, 1.471, 1.640, 1.759, 1.824,
1.847, 1.877). Precedentes: E-3661/2008, E-2.102/00 e E-3.205/05.
Proc. E-3.664/2008”. (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em
16/10/2008, do parecer e ementa da Rel. Dra. Beatriz Mesquita de
Arruda Camargo Kestener)

Comentários
O inciso III trata daquele que se vale de agenciador de causas, a pessoa que
atua comercialmente angariando e captando ações e clientes, mediante
participação nos honorários a serem recebidos.
É vedado que as sociedades advocatícias possuam departamento comercial,
dada a natureza da atividade, sendo vedado igualmente que o advogado se valha
de terceiros que atuem agenciando ou indicando causas ou clientes, o que
imprimiria caráter mercantil à profissão.
O vínculo de confiança formado entre advogado e cliente deverá acontecer
de forma natural e espontânea, sem a influência de terceiros, que se assim o
fizer, estará na figura do agenciador de causas, acarretando a infração ética
prevista no inciso III em desfavor do advogado que dela se valer, além dos arts.
5º e 7º do Novo CED.
Muito embora o inciso trate do agenciador de causas mediante participação
nos honorários que o cliente venha pagar, é evidente que também vale
supostamente sem participação nos honorários, até porque tal prova seria
bastante difícil de ser obtida. Também se equipara à situação do inciso, aquele
que recebe “gratificações” ou valores fixos, por cada cliente que indicar, os
vulgarmente chamados de “paqueiros”.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.
“E-3.997/2011 – CAPTAÇÃO DE CLIENTELA – ADVOGADO
OU ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA QUE SE UTILIZA
INTERPOSTA PESSOA PARA DIVULGAR SUA ATIVIDADE
PRATICA CAPTAÇÃO DE CLIENTELA E UTILIZAÇÃO DE
AGENCIADOR DE CAUSAS, ALÉM DE CONSTITUIR
OFERTA DE SERVIÇOS JURÍDICOS ATRAVÉS DE
INTERPOSTA PESSOA OU POR QUEM NÃO OS PODE
PRESTAR, CONSEQUENTEMENTE, VIOLA OS ARTIGOS 5º,
7º E 39 DO CED E INCISOS III E IV DO ARTIGO 34 DO
EAOAB. A relação entre cliente e advogado deve ser baseada na
confiança que esse inspira naquele através de vínculo que se cria
livremente, sem precipitações por parte do advogado em direção ao
cliente. O advogado não pode oferecer seus serviços ao cliente, nem
pode se valer de terceiros, sejam eles advogados ou não, para fazer a
promoção de sua atividade. Tal conduta imprime à profissão caráter
comercial, o que é reprovado pelos princípios que regem a
advocacia. A divulgação da atividade do advogado ou escritório é
permitida através da publicidade, sendo sua forma disciplinada
pelos arts. 28 a 34 do CED complementado pelo Provimento
94/2000. Qualquer que seja o modo da indicação, verbal ou
escrita, o advogado que aceita o patrocínio de causas vindas de
uma pessoa com a qual mantém relação jurídica comete a
infração descrita no art. 34, incisos III e IV do EAOAB, ainda
que sem o uso de propaganda e mesmo que sejam cobrados
honorários.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 14/04/2011,
do parecer e ementa da Rel. Dra. Mary Grun)

“EXERCÍCIO DA PROFISSÃO – CONTRATO DE ASSESSORIA


JURÍDICA PARA ATENDIMENTO PÓSTUMO A ASSOCIADOS
DE EMPRESA FUNERÁRIA – CAPTAÇÃO DE CAUSAS E
CLIENTES, CONCORRÊNCIA DESLEAL E INIBIÇÃO À
ESCOLHA DE PATRONO. Constitui infração ética e disciplinar o
advogado firmar contrato de assessoria jurídica com empresa do
ramo de funerária para prestar serviços aos seus clientes após a
morte de seus titulares. Tal situação caracteriza captação de
causas e clientes, concorrência desleal, aviltamento de
honorários, inibe a escolha de patrono, e constitui oferta de
serviços jurídicos através de interposta pessoa ou por quem não
os pode prestar. Violação dos artigos 5º, 7º e 39 do CED e incisos
III e IV do artigo 34 do EAOAB. Precedentes deste Tribunal:
processos E-1.722/98, E-1.887/99, E-2.271/00, E-2.254/00, E-
2.642/02, E-2.271/01 e E-2.642/02. (destacamos) Proc. E-
2.916/2004.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 18/03/04, do
parecer e ementa do Rel. Dr. Luiz Antônio Gambelli)

Comentários
O inciso IV em questão trata da infração ética de angariar ou captar causas,
diretamente ou com a intervenção de terceiros. A diferença deste inciso em
relação ao III, é que naquele, o advogado se vale de terceira pessoa, que atua
como agenciador das causas, via de regra, mediante participação nos honorários
que vierem a ser pagos, enquanto neste, o próprio advogado atua angariando ou
captando causas, de forma indevida, com ou sem intervenção de terceiros.
A captação indevida de causas pode acontecer das mais variadas formas, mas
as duas situações mais recorrentes são aquelas relacionadas à publicidade (mala
direta, anúncios irregulares, entrevistas habituais de cunho autopromocional
etc.), assunto bastante sensível dentro do exercício da advocacia, e à atuação do
advogado em sociedade irregular, conjuntamente com outras atividades de
natureza mercantil.
Ressalte-se que prestar assessoria jurídica mediante recebimento de
honorários irrisórios, abaixo da Tabela da OAB, além de violar o preceito ético
do § 6º do art. 48 do Novo CED, também faz configurar angariação ou captação
de causas ou clientela, infração prevista neste inciso IV.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.
“EMENTA N. 043/2015/SCA-STU. Recurso ao Conselho Federal.
Processo administrativo de natureza disciplinar. Captação de
clientela. Escritório itinerante em veículo van plotada com
logomarca, telefone e site. Violação ao artigo 34, IV, do Estatuto
da Advocacia. Arguição de nulidade processual afastada.
Reincidência no cometimento de infração disciplinar. Circunstância
que implicaria a imposição de suspensão do exercício profissional.
Vedação à reforma prejudicial da decisão quando somente a parte
interessada recorre. Manutenção da decisão recorrida. Recurso não
provido.” (CFOAB, Recurso n. 49.0000.2015.000340-0/SCA-STU.
Recdo.: Conselho Seccional da OAB/Distrito Federal. Relator:
Conselheiro Federal André Luis Guimarães Godinho (BA). DOU,
S.1, 28.04.2015, p. 120/121)

“EMENTA N. 160/2014/SCA-STU. Recurso interposto pelo


representado contra decisão unânime que manteve sua condenação
por haver instalado painéis informativos com dados de seu
escritório, fora de sua residência e do próprio escritório –
Preenchimento aos requisitos do artigo 75 da lei 8.906/94 para sua
admissão – Acusação de cometimento de infração prevista nos
artigos 34, IV do EAOAB, 30 e 31 do CEOAB e artigo 6º, alínea
‘b’ do provimento 94/2000 do CFOAB – recurso conhecido e
provido parcialmente para reformar o acórdão da OAB/SC, e
readequar a pena aplicada, que passa a ser de censura, em razão de
condenação pelo cometimento de infração prevista no artigo 30 do
CEOAB (art. 36, II do EAOAB)”. (CFOAB, Recurso n.
49.0000.2014.009512-9/SCA-STU. Recdo.: Conselho Seccional da
OAB/Santa Catarina. Relator: Conselheiro Federal João Bezerra
Cavalcante (GO). DOU, S.1, 17.11.2014, p. 94/95)

“E-3.884/2010 – PUBLICIDADE – PUBLICIDADE IMPRESSA


– DISCRIÇÃO, MODERAÇÃO E ESPECIALIDADES. O
advogado pode anunciar a sua atividade devendo observar
rigorosamente os dispositivos contidos no Estatuto da OAB, arts.
33, parágrafo único e 34, IV, no Código de Ética, art. 5º, 28 a 34, a
Resolução n. 02/92 do Tribunal de Ética e Disciplina – I, Turma
Deontológica, da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de São
Paulo, e o Provimento n. 94/2000, do Conselho Federal da Ordem
dos Advogados do Brasil. O Código de Ética e o Provimento
94/2000, do CFOAB fazem restrições quanto ao uso de
fotografias, ilustrações, cores, figuras, desenhos, logotipos,
marcas e símbolos nos anúncios dos advogados quando
incompatíveis com a sobriedade, lembrando que a advocacia é
incompatível com qualquer procedimento de mercantilização.
Na publicidade impressa, apenas anunciativa, a sobriedade está nos
limites das tonalidades e cores, na posição, no tamanho, nos
símbolos permitidos, na composição do logotipo, observadas todas
as demais exigências contidas na legislação. As especialidades
devem ser relativas aos ramos do direito não podendo induzir o
leigo a entender que o advogado é também especialista em outras
profissões.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 17/06/2010,
do parecer e ementa do Rel. Dr. Luiz Antonio Gambelli)

“CONVÊNIO JURÍDICO – INFRAÇÃO – CAPTAÇÃO DE


CLIENTELA. É ilegal o convênio firmado com entidades alheias à
advocacia ou prestadora de serviços estranhos à advocacia, para a
prestação de serviços advocatícios, consistindo infração ética (arts.
2º, VIII, b, 5º, 7º e 41 do Código de Ética e Disciplina) e estatutária
(art. 34, IV do EAOAB). É passível de sanções a cobertura dada a
essa prática, por advogados regulamente inscritos na OAB,
mormente se a hipótese contempla a concessão de descontos nos
honorários. Proc. E – 1.607/97.” (Turma Deontológica, OAB/SP,
v.u. em 11/12/97 do parecer e ementa do Rel. Dr. Rubens Cury)

“ADVOGADO DE SINDICATO – LIMITES DO EXERCÍCIO


DA ADVOCACIA, EM NOME DOS FILIADOS À
ENTIDADE, ÀS ÁREAS DE INTERESSE DA CATEGORIA
VEDADO ESTENDER O ATENDIMENTO EM MATÉRIAS
ESTRANHAS AOS INTERESSES DOS FILIADOS SOB PENA
DE COMETIMENTO DE INFRAÇÃO ÉTICA –
INCOMPETÊNCIA DESTE TRIBUNAL PARA CONHECER
PARTE DA CONSULTA QUE VERSA SOBRE INFRAÇÃO
ÉTICA COMETIDA POR TERCEIROS. O advogado de sindicato,
empregado ou prestador de serviços, deve restringir sua atuação aos
interesses coletivos ou individuais da categoria, conforme preceitua
o art. 8º, III, da Constituição Federal, em todas as áreas do Direito.
É vedado estender suas atividades advocatícias em matérias
estranhas aos interesses dos respectivos associados, e inclusive de
atender as empresas pertencentes ao setor, associadas ou não, em
seu escritório particular, por constituir evidente captação de
clientela, conforme dispõem o art. 7º do CED; art. 34, IV, do
Estatuto da OAB, e precedentes deste Tribunal. Quanto ao
questionamento na consulta sobre conduta de terceiros,
impedimento deste Sodalício, conforme § 3º, do Artigo 136, do
Regimento Interno, e afronta do disposto na Resolução 07/95
(precedentes E-3.409/07, E-3.438/07, E-3.512/07, entre outros).
Proc. E-3580/2008.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em
17/04/2008, do parecer da Relª. Drª. Márcia Dutra Lopes Matrone)

Comentários
O inciso V tipifica como infração ética a assinatura de petições, recursos ou
qualquer documento levado a juízo, ou mesmo utilizado para fim extrajudicial,
que não tenha o advogado diretamente feito ou colaborado. Essa é uma infração
muitas vezes desconhecida por advogados, que resolvem “ajudar” colegas
impedidos, suspensos ou que por qualquer razão não possam subscrever
documentos.
Atuando desta forma, o advogado não só comete a infração descrita neste
inciso, como ainda poderá incorrer em outras, como facilitação do exercício da
advocacia por pessoa sem inscrição ou impedida de fazer, como também assume
o próprio risco do patrocínio, respondendo eventualmente por responsabilidade
civil profissional, inerente ao subscritor das petições.
Não se considera infração ética a remessa de petições ou quaisquer minutas
elaboradas por um advogado aos seus superiores hierárquicos ou sócios, com
vistas a realizarem críticas, sugestões, acréscimos, ou mesmo para lhes dar
ciência. Isso porque tal procedimento caracteriza colaboração e concordância
entre eles, sendo salutar e eficiente para a prática da redação jurídica e maior
qualidade dos trabalhos. A subordinação hierárquica não se confunde com
subordinação técnica, de modo que cometerá infração ético-disciplinar o
superior que exigir de seu subalterno a participação em documento que não
elaborou e que com o qual não concorde.
Por fim, fica acomodada neste inciso a questão do “plágio” em relação à
reprodução de peças e petições forenses. Isso porque petições forenses não são
protegidas por direito autoral, tendo a Turma Deontológica de SP respondido
consulta exatamente a este respeito, que serve de orientação aos casos concretos
em andamento, A orientação não é só da OAB, já que o STJ, nos autos do
julgamento do REsp 351.358/DF, também deixou a questão solucionada,
entendendo que as petições judiciais possuem caráter utilitário, não inovador,
diverso de criações literárias.
Pelo viés da ética profissional, tem-se que é inegável que a cópia da peça
escrita por colega, ainda que não reste comprovado que seja sua criação
intelectual ou inovação científica, não é conduta que se espera de um
profissional, não prestigia nem contribui para a nobreza ou a dignidade da
advocacia, nem para a confiança que é depositada no profissional pelo cliente,
devendo cada advogado desenvolver seus escritos e arrazoados próprios, ainda
que seguindo tese jurídica de conhecimento público. Em razão disso, o CFOAB
tem acomodado a questão neste inciso, determinando que a cópia de petições e
arrazoados judiciais violariam o inciso V do art. 34, na medida em que não
teriam sido produzidos pelo próprio advogado, situação que se assemelha
também à utilização de modelos e cópias extraídos indistintamente da internet.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.
“E-3.916/2010 – EXERCÍCIO PROFISSIONAL –
PROCURADORIA DE ASSEMBLEIA LEGISLATIVA –
SUBSCRIÇÃO DE PEÇAS POR PROCURADOR-CHEFE E
PROCURADOR-COORDENADOR CONJUNTAMENTE COM O
PROCURADOR REDATOR DA MINUTA INICIAL E, EM CASO
DE INFORMAÇÕES EM MANDADO DE SEGURANÇA, COM
A AUTORIDADE COATORA – INEXISTÊNCIA DE
VEDAÇÃO ÉTICA, DESDE QUE SE VERIFIQUE QUE
TODOS OS COSSUBSCRITORES TENHAM
EFETIVAMENTE COLABORADO PARA A ELABORAÇÃO
DO DOCUMENTO – INTELIGÊNCIA DO ARTIGO 34, V, DO
ESTATUTO – VEDADAS AS CHAMADAS ‘PEÇAS PRONTAS’
E ‘MODELOS PADRÃO’ – CASO DE PATENTE
TRANSGRESSÃO AOS DEVERES DO ADVOGADO – ARTIGO
2º DO CED – IMPOSSIBILIDADE DE SE COMPELIR O
ADVOGADO A SUBSCREVER O DOCUMENTO –
SUBORDINAÇÃO HIERÁRQUICA QUE NÃO IMPLICA
SUBORDINAÇÃO TÉCNICA – ARTIGO 31, § 1º DO ESTATUTO
E ARTIGO 2º DA RESOLUÇÃO 03/92 DESTE TRIBUNAL.
Inexiste vedação à subscrição de peça por Procurador-Chefe e
Procurador-Coordenador da Área de Contencioso Geral da
Procuradoria da Assembleia Legislativa em conjunto com o
Procurador que elaborou a minuta inicial, desde que tenham
todos os subscritores efetivamente colaborado para a
preparação do documento, em atenção ao artigo 34, V, do
Estatuto da Advocacia. Da mesma forma, não se vislumbra
violação ética a assinatura dos Procuradores em conjunto com a
autoridade coatora a título de informações em mandado de
segurança, caso se verifique ter ocorrido contribuição – ainda que
mínima ou de mera concordância – por parte de cada um dos
signatários. Pune-se, por outro lado, o advogado que subscreve
as chamadas ‘peças prontas’ ou baseadas em ‘modelos-padrão’,
indubitavelmente de autoria de outrem, por configurar violação
aos deveres do advogado, elencados no artigo 2º do CED. Nada
obstante, a subscrição da peça deve ser voluntária, cometendo
infração ético-disciplinar o superior que exige de seu subalterno que
subscreva documento com o qual este não concorda. Inteligência da
Resolução nº 03/92 deste Tribunal. Precedente: E-2.669/2002.”
(Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 16/09/2010, do parecer e
ementa do Rel. Dr. Gilberto Giusti)

“EXERCÍCIO PROFISSIONAL – A SUBORDINAÇÃO


ADMINISTRATIVA NÃO OBRIGA A UMA
SUBORDINAÇÃO TÉCNICA – DETERMINAÇÃO PARA
QUE PETIÇÃO ELABORADA POR TERCEIRO SEJA
ASSINADA PELO ADVOGADO – DETERMINAÇÃO PARA
ACEITAÇÃO DO CARGO DE DEPOSITÁRIO DE BENS. O
advogado de autarquia não está obrigado a subscrever petição
elaborada por seu superior hierárquico, cujo teor lhe atribui o
encargo de depositário de bem submetido à constrição em execução
judicial. Comete infração ético-disciplinar o superior que exige
de seu subalterno a participação em documento que não
elaborou e que com o mesmo não concorda. Inteligência da
Resolução n. 03/92 deste Sodalício. Embora não seja aconselhável,
inexiste impedimento para que o advogado exerça o cargo de
depositário de bens penhorados e de procurador do exequente. Proc.
E-2.669/02.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 21/11/02 do
parecer e ementa do Rel. Dr. Cláudio Felippe Zalaf)

“EMENTA: REPRESENTAÇÃO PROCEDENTE –


REPRODUÇÃO DE PETIÇÃO FORENSE IPSIS LITTERIS -
VIOLAÇÃO AO ART. 34, V, DO EAOAB
Embora as petições forenses não estejam protegidas por direito
autoral, a reprodução de peças idênticas não é conduta de se esperar
do profissional da advocacia, que deverá desenvolver suas petições
de forma pessoal mesmo que siga orientação de tese preexistente. A
cópia ipsis litteris de petições de colegas configura a infração do
inciso V do art. 34 do EAOAB, com imputação da penalidade de
censura, prevista no art. 36, I, do EAOAB, neste caso convertida em
advertência, ante a primariedade das representadas. (OAB/SP TED
II – Processo 0027/20015 – Rel. Karina Penna Neves)
Comentários
O inciso VI trata da infração ética do profissional advogar contra literal
disposição de lei, a famosa “aventura jurídica”, ou seja, sabendo que seu cliente
não terá razão na lide a ser enfrentada, por expressa disposição de lei, ainda
assim aceita o encargo de atuar em juízo.
Quando o profissional advoga contra literal disposição de lei, mas
fundamentando tal pretensão justamente na sua inconstitucionalidade, injustiça
ou com base em decisão judicial anterior, presume estar atuando de boa-fé, sem
que se configure a infração ora comentada.
O profissional não está obrigado a promover medidas e apresentar recursos
que entenda ser contra literal disposição de lei, ainda que exigidos pelo cliente.
Portanto, se o profissional entender que a medida é incabível, protelatória ou
inapta para alteração do julgado, não terá obrigação de agir.
Na situação descrita acima, deverá o patrono comunicar de forma clara e
expressa ao cliente, informando sua posição e estratégia profissional, abrindo
possibilidade de o cliente constituir outro advogado, caso seja de seu interesse
prosseguir de forma diversa daquela que está sendo orientado. Caso, ainda, o
cliente recuse a nomeação de outro profissional, deverá o advogado renunciar ao
mandato, mas com tempo suficiente para que o cliente constitua outro, não
podendo simplesmente abandonar a causa.
Por fim, não é demais lembrar que o advogado tem por obrigação dar ampla
ciência ao cliente de todos os riscos da demanda, tanto em relação às chances de
êxito, como também acerca de eventual sucumbência a ser fixada em seu
desfavor, no caso de insucesso da demanda.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.
“E-4.032/2011 – PATROCÍNIO – RECURSO QUE O
ADVOGADO CONSIDERA INCABÍVEL OU INÚTIL –
FACULDADE DE NÃO RECORRER. Não há dúvida de que o
advogado, não só tem ampla e total liberdade, mas, o dever de
abster-se de patrocinar causa contrária à ética e à moral e a
aconselhar o cliente a não ingressar em aventura judicial, como
determinam os arts. 2º, VII, e 20 do CED. Também tem o
advogado total liberdade para não recorrer quando entender
que a sentença está bem fundamentada e que eventual recurso
seria protelatório ou inútil. Por outro lado, é, também, dever do
advogado sempre, e de forma clara e inequívoca, informar o seu
cliente de eventuais riscos de sua pretensão, seja do ajuizamento
da ação, seja da apresentação de recurso, das chances de êxito, e
das consequências que poderão advir do ato processual
pretendido. Em quaisquer das hipóteses, insistindo o cliente na
apresentação do recurso, não pode o advogado abandonar a
causa, ficando-lhe facultado apresentar o recurso ou renunciar
ao mandado, dando ao cliente, neste último caso, tempo
suficiente para a nomeação de novo procurador que assumirá a
apresentação do recurso. O advogado renunciante ficará
responsável pelo cumprimento dos prazos processuais no curso dos
dez dias seguintes à notificação da renúncia. É, aliás, o que dispõem
os 5º, § 3º da EAOAB e arts. 8º e 12 do CED. Precedentes: E-1.411;
E-3.880/2010; E-3.835/2009; E-3.433/2007.” (Turma Deontológica,
OAB/SP, v.u., em 18/08/2011, do parecer e ementa da Rel. Dra.
Célia Maria Nicolau Rodrigues)

“PATROCÍNIO – RECURSO QUE O ADVOGADO


CONSIDERA INCABÍVEL OU INÚTIL – FACULDADE DE
NÃO RECORRER. Nos termos do art. 2º, inciso VII, do CED, que
determina ao advogado aconselhar o cliente a não ingressar em
aventura jurídica, bem como do art. 8º, que lhe impõe o dever de
avisar ao cliente dos riscos de sua pretensão e das consequências
que lhe poderão advir da demanda, o advogado não está
obrigado a atender seu cliente, interpondo recursos que saiba
incabíveis ou inúteis. Por outro lado, o advogado está obrigado a
comunicar isto ao cliente com tempo suficiente para que ele
possa constituir outro patrono, caso ainda assim pretenda
recorrer. Diante de eventual recusa na nomeação de outro
patrono, deve o advogado renunciar ao mandato, também com
tempo suficiente para que o cliente constitua outro advogado.
Proc. E-3.880/2010.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em
17/06/2010, do parecer e ementa do Rel. Dr. Zanon de Paula Barros)

Comentários
O inciso VII em questão trata da infração de violação de sigilo profissional,
sem que haja justa causa para tanto. O sigilo profissional é algo tão importante
dentro da advocacia que mereceu, tanto no Código de Ética anterior, como no
atual, capítulo próprio (Capítulo V do Novo CED).
O tema do sigilo é bastante sensível dentro da advocacia e da sociedade
como um todo, e visa garantir prerrogativas profissionais. A essência acerca do
tema foi mantida no Novo CED, porém com algumas ampliações, a exemplo da
previsão e garantia de sigilo profissional também em processos administrativos,
e não só nos judiciais, como era anteriormente.
O sigilo profissional é de ordem pública, implícito, presumido e natural da
relação entre advogado e cliente, que está justamente pautada na confiança. O
sigilo profissional interessa à própria sociedade, tendo em vista que assegura o
pleno direito de defesa do cidadão, garantindo ao cliente a inviolabilidade dos
fatos por ele expostos ao seu advogado, daí seu status de ordem pública.
A privacidade se dá não só em relação aos fatos de que o advogado tome
conhecimento no exercício da profissão, mas também aos fatos a que tenha tido
acesso em razão de funções desempenhadas dentro da OAB, não apenas no que
toca às correspondências escritas, mas de qualquer ordem, e-mail, telefonemas,
mensagens etc.
O dever de sigilo profissional é ainda mais forte do que o dever de sigilo em
geral, pois no caso da advocacia decorre de expressa disposição de lei, enquanto
no trato da vida civil diária, decorre da cláusula geral da boa-fé e dos deveres de
consideração a ela inerentes (quando não previstos em contrato).
O sigilo atinge e obriga todos os inscritos na OAB, advogados, consultores,
advogados públicos, diretores jurídicos e estagiários, que não poderão revelar
nenhum tipo de informação conhecida em decorrência da relação profissional a
terceiros.
A justa causa, única hipótese que abrandaria a inviolabilidade do sigilo
profissional, está ligada às circunstancias imperiosas que levem o advogado a
revelá-lo em sua defesa, nos termos do art. 36 do Novo CED, ou seja, em face de
situações fortes o bastante para justificar serem reveladas pelo advogado em
defesa própria, ou ainda em situações ligadas ao direito à vida, à honra, ou
quando fosse afrontado o profissional pelo próprio cliente. Nesse caso, o
profissional poderá utilizar-se de tal prerrogativa, porém, nos limites estreitos de
sua defesa, responsabilizando-se por eventuais excessos.
Por fim, nos termos do art. 19 do Novo CED, existindo interesses
conflitantes entre clientes do advogado que se mostrem inconciliáveis, deverá o
causídico optar por um dos mandatos, renunciando aos demais, porém mantendo
sempre o sigilo profissional em relação às informações e fatos que teve acesso
em decorrência da relação.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“EMENTA N. 215/2013/OEP. Recurso ao Órgão Especial. Processo


disciplinar. Sigilo. Art. 72, § 3º, do EAOAB. Juntada de cópia de
petição inicial de representação a processo judicial. Petição já
protocolada na Seccional, com indicação de número de processo.
Violação ao sigilo. Infração disciplinar.
1) O sigilo do processo disciplinar, previsto no art. 72, § 3º, do
Estatuto, até o seu trânsito em julgado, visa resguardar o advogado
representado de exposição à comunidade e preservar sua reputação
profissional, porquanto a simples informação de que tramita
processo disciplinar contra o profissional pode prejudicar sua
confiabilidade, muito embora o processo seja arquivado
posteriormente.
2) Dessa forma, viola o sigilo profissional, sujeita a sanção
disciplinar, a conduta de advogado que anexa cópia de petição
inicial de representação já protocolada na OAB, com número de
processo, a processo judicial movido contra outro advogado, com a
finalidade única de fazer prova contra ele, sem qualquer utilidade ao
deslinde da causa.
3) Recurso conhecido e provido. Brasília, 9 de junho de 2013.”
(CFOAB, Recurso n. 49.0000.2013.001578-9/OEP. Relator:
Conselheiro Federal Felipe Sarmento Cordeiro (AL). DOU, S.1,
18.12.2013, p. 85/92)

“E-3.941/2010 – SIGILO PROFISSIONAL – QUEBRA POR


ADVOGADO, EM CAUSA PRÓPRIA, PARA PROPOSITURA
DE AÇÃO JUDICIAL CONTRA EX-CLIENTES – LIMITES.
A quebra de sigilo é possível, de forma excepcional, por justa causa
(art. 34, VII, do Estatuto da Ordem) e em defesa própria, porém
sempre restrito ao interesse da causa. O advogado não pode
transmitir informações que recebeu, em sigilo profissional, para o
benefício de terceiros ou para fazer denúncias, sob pena de quebra
do sigilo profissional, que consiste em dever profissional.
Desaconselhável, no caso, a advocacia em causa própria.
Inteligência do artigo 25 do Código de Ética e Disciplina.
Precedentes: E-3.738/2009; E-2.899/04; E- 2.810/03; E-2.992/04”.
(Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 21/10/2010, do parecer e
ementa do Rel. Dr. Eduardo Teixeira da Silveira)
“Sigilo Profissional. Revelação, por advogado, em petição
judicial, de informações confiadas pelo constituinte sem
autorização expressa e em seu prejuízo. Violação dos mais
comezinhos princípios éticos do advogado. Plenamente
caracterizada a infração ao art. 34, inciso VII, do EAOAB e aos
arts. 25 a 27 do CEDOAB. Aplicação de sanção disciplinar de
censura, com fundamento no inciso II do art. 36 da Lei n° 8.906/94.
Ausência de punição disciplinar anterior. Atenuante. Conversão da
sanção em advertência, sem registro nos assentamentos do inscrito,
nos termos do parágrafo único do art. 36 c/c inciso II do art. 40,
ambos do EAOAB. Jaraguá do Sul, 11 de abril de 2014.” (TED/SC,
Processo Disciplinar nº 541/2008. Relator: Fernando Mayerle.
Acórdão nº 20/2014)

Comentários
O inciso VIII trata da infração ética cometida em duas hipóteses diferentes,
quais sejam: o profissional que estabeleça conversas e tratativas com a parte
contrária sem autorização de seu próprio cliente, ou na segunda hipótese, sem a
ciência do advogado daquela parte com quem esteja inadvertidamente tratando.
Tendo em vista que a relação profissional advocatícia está pautada na
confiança, o advogado deve fidelidade plena ao seu cliente, o que impede o
profissional de procurar a parte contrária sem autorização do seu constituinte.
Se é certo que a simples tratativa com a parte diversa sem autorização do
cliente já configura a infração deste inciso, não há a menor dúvida em relação ao
entabulamento de acordo no processo sem a ciência de seu cliente, que deverá
sempre, autorizar e estar de acordo com todos os termos e valores.
Além disso, ainda que possua autorização expressa do seu cliente, também
comete infração ética aquele que estabelece entendimentos com a parte adversa
que já possui advogado constituído, sendo que esta aproximação somente não
será considerada como infracional quando o profissional, desconhecendo se a
parte possui ou não patrono, ou na dificuldade comprovada de encontrá-lo (e-
mails enviados e não respondidos, carta registrada ao seu endereço recusada etc.)
entra em contato para justamente lhe solicitar este encaminhamento, limitando-
se a pouco falar sobre o caso.
Tratativas para acordo com a parte adversa sem o conhecimento do seu
advogado, ainda que sejam reservados seus honorários, configuram igualmente
violação a este dispositivo, pois daquelas tratativas deveria ter participado o
patrono constituído.
O entendimento entre advogado e a parte adversa é desaconselhável porque
além abrir margem a debates não jurídicos, não técnicos e muitas vezes
tendenciosos a considerações e discursos emocionais, também poderia colocar a
parte leiga em situação constrangedora e desconfortável, já que, em diversos
casos, poderia estar desqualificada tecnicamente para debater o assunto,
desconhecendo seus próprios direitos. Daí a importância de as tratativas e
entendimentos serem sempre entre advogados, que poderão debater em
igualdade de condições, já conhecendo os limites dos direitos e dos deveres de
seus clientes.
A infração disciplinar em questão vem reforçada também no Código de
Ética, em seu art. 2º, inciso VIII, “d”, como um dos comportamentos de
abstenção do advogado.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“E-3.842/2009 – CONTATO DO ADVOGADO COM A PARTE


CONTRÁRIA – NECESSIDADE DE PRÉVIA
AUTORIZAÇÃO DO SEU CLIENTE E DO ADVOGADO DA
PARTE CONTRÁRIA, SE JÁ CONSTITUÍDO – EXEGESE
DOS DISPOSITIVOS DO EAOAB E DO CED – SITUAÇÃO
EXCEPCIONAL QUE JUSTIFICA A DISPENSA DO
ASSENTIMENTO DO ADVOGADO EX-ADVERSO –
CAUTELAS A SEREM OBSERVADAS – ABSTENÇÃO DA
DIVULGAÇÃO DA ADVOCACIA COM OUTRA ATIVIDADE A
ELA ESTRANHA. O contato do advogado com a parte contrária
deve obedecer às regras dos Artigos 34, VIII, do EAOAB e 2º, §
único, VIII, ‘e’ do CED, que devem ser interpretadas como
contendo dois requisitos: prévio consentimento do cliente e
assentimento do advogado ex-adverso, se já constituído. Apenas
em situações excepcionais, como ausência de informações
corretas sobre a localização do advogado ex-adverso, é que se
permite ao advogado contatar diretamente a parte contrária,
restringindo o contato ao absolutamente necessário, tomando
ainda assim as cautelas necessárias para evitar futuros
problemas éticos. Deve ainda se abster de promover a divulgação
da advocacia com outras atividades a ela estranhas.” (Turma
Deontológica, OAB/SP, v.u., em 10/12/2009, do parecer e ementa
do Rel. Dr. Eduardo Teixeira da Silveira)

Comentários
O inciso IX trata da infração ética de prejudicar, mediante culpa grave do
advogado, interesse de seu cliente a ele confiado, o que poderá acontecer de
diversas formas, sendo as mais usuais levadas ao Tribunal de Ética, o abandono
do processo, a não adoção de alguma medida essencial à defesa da parte, o não
comparecimento em audiência, não atendimento de providência que leve a
extinção do feito, a demora na propositura de ação judicial contratada, entre
outras situações concretas que tragam prejuízo ao constituinte.
A responsabilidade do advogado é de meio, de modo que o cliente ter
insucesso na demanda, ainda que em decorrência de uma má estratégia adotada
pelo profissional, não configura infração ética. É necessário que tenha havido
um prejuízo efetivo por culpa grave do profissional no exercício do mandato, ou
seja, alguma situação em que tenha agido com desídia ou extrema imprudência,
negligência ou imperícia.
Não é rara a ocorrência de expedição de ofício à Ordem por parte de
magistrados, quando se depararam com situações processuais que levem a parte
a prejuízo em razão de culpa grave do advogado, especialmente em matéria
penal, com réu preso, quando o juiz se depara com processo onde o mandatário
deixa de apresentar manifestações importantes, razões finais, ou deixa de atender
outro tipo de providência essencial. Nesses casos, o próprio magistrado oficia a
Ordem.
No entanto, um problema bastante frequente que aparece em representações
iniciadas por ofício de juízos é a falta de cumprimento dos requisitos de uma
petição inicial de representação, pois geralmente o ofício não narra os fatos
ocorridos, mas apenas limita-se a juntar cópia de uma ação judicial, requerendo
providências da Ordem. Nesse caso, não é possível que o TED dê andamento a
esta representação, pois não é de sua atribuição “procurar” no processo judicial
eventual infração profissional. É necessário que já venha o ofício instruído de
forma suficiente a ser identificada a conduta e o tipo, sob pena de não
prosseguimento desta representação.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“EMENTA N. 105/2014/SCA-PTU. Prescrição. Questão de Ordem


Pública. Inocorrência. Art. 43 do EAOAB. Alegação de atipicidade
dos fatos. Prejuízo causado ao cliente por culpa grave.
Configuração. Manter conduta incompatível com a advocacia.
Concessão parcial.
1) A prescrição pode ser suscitada em qualquer fase do processo e
deve ser analisada a priori, visto tratar-se de matéria de ordem
pública.
2) Não decorrido lapso temporal superior a cinco anos capaz de
configurar a prescrição da pretensão punitiva, tampouco tendo
permanecido paralisado o processo por mais de três anos pendente
de despacho ou decisão, não há que se falar na ocorrência de
prescrição.
3) Comprovada a demora do advogado em prestar os serviços
advocatícios para os quais fora contratado, causando gravame
ao cliente, incide o representado nas sanções do art. 34, inciso
IX do EAOAB.
4) A infração prevista no art. 34, inciso XXV, do EAOAB exige,
para sua configuração, que a conduta adotada pelo advogado seja de
caráter habitual, e não meramente episódica.
5) Remanescendo apenas a conduta infracional prevista no
inciso IX do art. 34 do EAOAB, deve-se convolar a pena de
suspensão em censura, nos termos do art. 36, inciso I, da Lei n.°
8.906/94.
6) A conversão da sanção de censura em advertência só é admitida,
no âmbito do processo administrativo disciplinar, nos casos em que
houver a presença de circunstância atenuante, quais sejam: a falta
disciplinar for cometida na defesa de prerrogativa profissional,
quando for primário o Representado ou tiver este exercido cargo de
conselheiro ou dirigente da OAB (art. 36, parágrafo único, c/c art.
40, ambos do EAOAB).
7) Recurso parcialmente provido. Brasília, 19 de agosto de 2014.”
(CFOAB, Recurso n. 49.0000.2013.015561-0/SCA-PTU. Recdos:
Conselho Seccional da OAB/Paraná e Outro, Relator: Conselheiro
Federal Carlos Roberto Siqueira Castro (RJ), DOU, S.1,
02.09.2014, p. 69/71)

“EMENTA N. 019/2014/SCA. Pedido de Revisão. Art. 73, § 5º, do


EAOAB. Hipótese de erro de julgamento. Improcedência do pedido
revisional. Não se confunde o feito revisional com recurso que tenta
revolver matéria de mérito julgada em sede própria, por ocasião do
recurso. Inocorrência de erro de julgamento quando provada
nos autos a culpa grave do autor em ter deixado de contestar a
reconvenção em ação de valor considerável, sem requerimento
de produção de prova. Desídia configurada que tipifica a
infração prevista no inciso IX do art. 34 do Estatuto da
Advocacia e da OAB. O requerimento de desistência do
representante após as condenações do TED e do Conselho Pleno da
Seccional, não conduz ao arquivamento, diante da finalidade da
OAB enquanto órgão disciplinador do exercício profissional, que
visa coibir as infrações éticas tipificadas no Código de Ética e
Disciplina da OAB. Pedido de revisão que se julga improcedente.
Determinação de devolução do valor recolhido a título de preparo.
Brasília, 03 de junho de 2014.” (CFOAB, Pedido de revisão n.
49.0000.2014.004427-7/SCA. Reqda.: Terceira Turma da Segunda
Câmara do CFOAB. Interessado: Conselho Seccional da
OAB/Santa Catarina. Relatora: Conselheira Federal Valéria
Lauande Carvalho Costa (MA), DOU, S.1, 06.06.2014, p. 199)

Comentários
O inciso X trata da infração ética cometida pelo advogado que atua em
processo judicial de forma consciente e pessoal com o fim de acarretar sua
anulação ou nulidade. A descrição do inciso não exige outros requisitos,
bastando a atuação consciente e própria do profissional (por ação ou omissão),
que assim agirá, provavelmente, na expectativa de obter alguma vantagem para
si ou para seu cliente, embora o ponto central deste tipo infracional seja o tempo
perdido do processo, não exigindo a configuração de alguma vantagem
financeira necessária.
Este inciso guarda relação com os princípios modernos do direito, que
buscam nortear o comportamento das partes segundo um padrão de cooperação e
lealdade, tanto em relação ao trato da vida civil, como também no âmbito do
processo.
A ideia é que o processo sempre caminhe para frente, com vistas a atingir a
tão desejada prestação jurisdicional pelas partes, constituindo infração
disciplinar a atuação premeditada do profissional com o objetivo de nulidades ou
anulações, o que fará com que o processo volte e retroaja no tempo, em prejuízo
não só das partes, mas de todo sistema judiciário e da própria sociedade.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

Comentários
No inciso XI em referência, os elementos caracterizadores da infração são: o
abandono da causa sem justo motivo ou o abandono da causa antes do prazo de
dez dias da comunicação da renúncia do mandato pelo profissional ao cliente.
O advogado não poderá deixar de conduzir um processo, de apresentar
petições, manifestações, recursos, sem um motivo relevante que justifique sua
ausência. Uma vez aceita a procuração, deverá agir no feito em todas as
oportunidades pertinentes, sempre com diligência e presteza, segundo a
estratégia que entender cabível.
Tem-se ainda, que segundo se infere do § 3º do art. 5º do EAOAB e art. 112
do Novo CPC, o advogado que renunciar ao mandato deverá continuar a
representar o constituinte durante os 10 dias seguintes da comunicação da
renúncia, salvo se substituído antes do término desse prazo. Assim, não poderá o
advogado deixar de agir, e, portanto abandone a causa, enquanto ainda não
cumprido o prazo em questão.
Em um caso ou outro, deixando o advogado de promover o andamento do
feito, desatendendo as intimações a ele dirigidas, incorrerá em infração ética,
sujeitando-se ainda pela responsabilização pelos danos causados, dolosa ou
culposamente, aos clientes ou a terceiros (responsabilidade civil).
A renúncia é um direito do advogado que não depende da concordância do
cliente e pode ser exercido em qualquer fase ou grau de jurisdição, dispensando,
inclusive, de apresentar as razões pelas quais está deixando o patrocínio,
bastando que haja comunicação ao cliente.
Um problema recorrente nos procedimentos de renúncia é a falta de
comprovação de que o cliente foi comunicado da cessação do patrocínio. No
entanto, não seria razoável que o advogado ficasse eternamente vinculado ao
patrocínio de uma causa porque o cliente se recusa a assinar a ciência da
renúncia ou porque simplesmente sumiu, de modo que não será caracterizada
infração ética se o advogado demonstrar que tentou por todos os meios dar a
respectiva ciência ao constituinte, especialmente enviando carta registrada ao
endereço constante na procuração (art. 6º do Regulamento Geral do EAOAB).
Em último caso, o advogado ainda poderá publicar em Diário Oficial a renúncia
da ação, desobrigando-se do mandato após dez dias, o que não será considerado
cometimento de infração ética.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“EMENTA 091/2010/SCA-TTU. Advogado que abandona a


causa que lhe confiada, causando prejuízo à parte, sem justo
motivo e sem sua anuência, transgride a norma prevista no
artigo 12 do Código de Ética e Disciplina – CED, passível da
punição constante no inciso XI do artigo 34 c/c art. 35, inciso II
e art. 37 do EAOAB. Brasília, 16 de agosto de 2010.” (CFOAB,
Recurso n. 2008.08.00852-05/SCA-TTU. Rel. Conselheira Federal
Vera de Jesus Pinheiro Corrêa (AP). DJ. 19/10/2010, p. 25)

“EMENTA N° 026/2008/2ª T-SCA. O abandono da causa sem


qualquer comunicação ao cliente caracteriza infração
disciplinar capitulada no artigo 34, inciso XI do EAOAB. O
advogado contratado, que, inclusive, recebeu honorários para
defender interesse de constituinte e abandona a causa, deixando
transcorrer in albis o prazo para o recurso sem comunicar ao
cliente, comete infração disciplinar passível de punição, na
forma do artigo 34, XI c/c o artigo 36, I do EAOAB. Brasília, 07
de abril de 2008.” (CFAOB, Recurso nº 0693/2006/SCA – 02
Volumes – 2ª Turma. Relator: Conselheiro Federal Djalma Frasson
(ES), DJ. 17.04.2008, p. 746, S.1)
“EMENTA N° 116/2007/2ª T-SCA. Intimação para sessão de
julgamento em processo disciplinar no âmbito da OAB feita por
correspondência para o endereço profissional do advogado
constante do seu cadastro na Seccional onde se encontra inscrito –
Validade – inteligência do artigo 137-A do Regulamento Geral do
Estatuto da Advocacia e da OAB – Preliminar de cerceamento de
defesa que se rejeita. – Profissional que abandona a causa para a
qual foi contratado, propiciando o arquivamento do processo
sem julgamento do mérito e não comunica ao cliente deixando
ocorrer a prescrição de seus supostos direitos, causando-lhe,
assim, prejuízos irreparáveis, transgride a norma disciplinar
prevista no artigo 34 inciso IX do Estatuto da Advocacia e da
OAB. Brasília, 08 de dezembro de 2007.” (CFOAB, Recurso nº
0652/2006/SCA – 02 Volumes – 2ª Turma, Relator: Conselheiro
Federal Djalma Frasson (ES, DJ, 20.12.2007, p. 45, S.1))

Comentários
Nos termos do art. 5º, LXXIV, da CF o Estado prestará assistência judiciária
gratuita aos mais necessitados que comprovarem insuficiência de recursos. Essa
assistência se faz por meio da Defensoria Pública, que, nos termos do art. 134 da
CF, é instituição essencial à função jurisdicional do Estado, a quem incumbe
orientação jurídica, promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os
graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma
integral e gratuita.
Tendo em vista a fragilidade que muitas vezes acomete esta instituição no
que toca à infraestrutura para atendimento da população, e para fins de suprir a
demanda e dar direito ao contraditório pleno (direito de defesa) para toda a
população, existe um vínculo por convênio entre os Estados e a OAB para que
igualmente se promova a assistência jurídica gratuita à população mais carente.
Assim, na impossibilidade de atendimento dos mais necessitados pela
Defensoria ou na falta desta em determinada circunscrição, o advogado que se
colocou à disposição nos cadastros da Ordem para atuação em favor deste
convênio, não poderá, mais tarde, recusar-se a prestar a assistência sem justo
motivo, o que se vier a acontecer, estará infringindo este inciso e cometendo
infração ética.
A motivação para eventual recusa será avaliada pela própria OAB,
aceitando-se a justificativa de mudança de cidade, incompatibilidade ou
impedimento posterior e outras. Já argumentos mais rasos como discordância em
relação ao direito da parte ou mero argumento de impossibilidade não são
aceitos.
Note-se que o advogado cadastrado no convênio a prestar essa assessoria
será remunerado mediante honorários advocatícios pagos pelo Estado nos
patamares da Tabela da OAB. Não é necessário que o patrono firme procuração
ad judicia com a parte assistida, dadas as peculiaridades do convênio. Tem, por
fim, que o advogado que participe de convênio para assistência jurídica não está
impedido em relação à advocacia contra o Estado, posto não manter com esse
ente federativo qualquer vínculo jurídico.
Tem ainda que se considera captação indevida de clientela o advogado passar
a atender como particular parte assistida pelo convênio de assistência judiciária
para a execução da sentença, quando já nomeado para a fase de conhecimento do
processo.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“E-4.041/2011 – CONVÊNIO OABSP E DEFENSORIA PÚBLICA


DO ESTADO DE SÃO PAULO – ATENDIMENTO PARTICULAR
PARA A EXECUÇÃO DA SENTENÇA – CAPTAÇÃO DE
CLIENTELA. O convênio celebrado entre a OABSP e a Defensoria
Pública do Estado de São Paulo estabelece, como obrigação imposta
ao advogado em termos processuais, a de atuar de forma diligente
nos feitos judiciais ou administrativos, acompanhando-os até o
trânsito em julgado, adotando todas as medidas processuais cabíveis
para o melhor resguardo do interesse do assistido, incluindo a
impetração do habeas corpus. A fase de cumprimento da sentença
não é lide nova e nem autônoma, tanto é que o advogado não
precisa de nova procuração para executar a sentença. Assim, faz
parte da obrigação do causídico promover a execução do julgado,
como forma de trabalho a ser realizado, mas não como condição de
êxito para o recebimento de seus honorários. Constitui captação de
clientela atender como particular parte assistida pelo Convênio de
Assistência Judiciária firmado entre a OABSP e a Defensoria
Pública, para a execução da sentença quando já nomeado para a fase
de conhecimento do processo. Precedente E-3853/2010.” (Turma
Deontológica OAB/SP, v.u., em 15/09/2011, do parecer e ementa do
Rel. Dr. Luiz Antonio Gambelli)

“Acórdão nº: 200/2012 EMENTA: RECUSA À PRESTAÇÃO DE


ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA – NÃO CUMPRIMENTO DE
ATO PROCESSUAL MESMO APÓS INTIMADO
PESSOALMENTE – Não comprovado justo motivo, o advogado
não pode recusar-se a prestar assistência jurídica pelo convênio
da Assistência Judiciária ao necessitado. Prova documental não
impugnada de intimação pessoal do advogado para
cumprimento de ato e de posterior substituição por outro
profissional para cumprimento. Inteligência dos artigos 34, XII
do E.OAB e 46 do CED/OAB – Pena de Censura, convertida em
advertência em ofício reservado na forma do artigo 36, I e seu
parágrafo único do EAOAB.” (OAB/SP, TED-IX, 23.11.2012. Rel.
Dr. Taddeo Gallo Júnior)

“Acórdão Nº: 166/2012 EMENTA: Recusar-se o advogado a


prestar, sem justo motivo, assistência jurídica, quando nomeado em
razão de convênio – reconhecimento de violação ético disciplinar
prevista no art. 34, XXII – procedência da Representação, em razão
da primariedade do Representado, condena-o à pena de censura
convertida em advertência – condenação decretada.” (OAB/SP,
TED-IX, 28.09.2012, Rel. Dr. Pedro Luiz Stucchi)

E-3.191/05 – COMISSIONADOS NO CONVÊNIO PGE/OAB E


NA ADVOCACIA PRIVADA – RECOMENDAÇÃO QUANTO À
PRÁTICA DE ANGARIAÇÃO DE CAUSAS E CLIENTES
SERVIDOS PELA ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA (EAOAB, ART.
34, IV) – RESSALVA DOS IMPEDIMENTOS DECORRENTES
DO EVENTUAL EXERCÍCIO DE CARGOS PÚBLICOS. Não há
impedimento ético aos advogados que exercem a assistência
judiciária, em nível municipal, de participação no Convênio
OAB/PGE, salvo quanto aos exercentes de cargos na Administração
Municipal (EAOAB, art. 30, I). Tal impedimento não se aplica
pelo tão só fato de participarem do Convênio PGE/OAB, em
relação à advocacia contra o Estado, posto não manterem com
esse ente federativo qualquer vínculo jurídico. Descabe,
outrossim, ao Tribunal de Ética e Disciplina, por extrapolar de sua
função de orientação deontológica (CED, art. 49), a análise jurídica
da constitucionalidade da manutenção de serviço de assistência
judiciária por Municípios, assunto esse afeto às competentes
comissões temáticas da OAB, cumprindo ao Conselho Federal
ajuizar eventual ação direta de inconstitucionalidade e demais ações
pertinentes (EAOAB, Art. 54, XIV).” (Turma Deontológica
OAB/SP, v.u., em 21/07/2005, do parecer e ementa do Rel. Dr. Luiz
Francisco Torquato Avólio)

Comentários
O artigo em referência traz a situação do advogado que publica na imprensa,
desnecessária e habitualmente, comentários e opiniões relativas a processos em
andamento, seja com intuito de promoção pessoal, seja com intuito de
influenciar opinião pública.
Como já dito em incisos anteriores, o sigilo profissional é inerente ao
exercício da advocacia, e independe do pedido do cliente, já que é considerado
de ordem pública. A confiança é a base da relação entre advogado e cliente, de
modo que o profissional deve sempre agir com parcimônia, sobriedade e
discrição.
Não apenas pela questão em si do sigilo, mas as publicações na imprensa
poderão constranger o cliente e provocar clamor público em relação à
determinada causa, inclusive com pré-julgamento midiático sobre determinado
assunto, prejudicando a imparcialidade do próprio magistrado em casos mais
simbólicos, o que é bastante temerário, já que as nuances e aspectos técnicos do
processo não serão, e nem poderiam ser, neste momento analisados.
Desta forma, alegações forenses e aspectos relativos a processos em trâmite
deverão ser tratados no âmbito da justiça, devendo o advogado evitar tais
aparições e publicações na imprensa de forma habitual e desnecessária.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“EMENTA Nº 145/2006/SCA. Publicidade dada pelos recorrentes


na imprensa de que a empresa do recorrido estaria negociando
ou estudando a hipótese de negociar precatórios. Infração ao
art. 34, inciso XIII, do EAOAB. Provimento negado ao recurso.
Brasília, 05 de junho de 2006.” (CFOAB, Recurso nº
0803/2005/SCA. Recorridos: Conselho Seccional da OAB/São
Paulo e Outro. Relator: Conselheiro Federal Alfredo José Bumachar
Filho (RJ). DJ 18.07.2006, p. 218, S. 1)
Comentários
O inciso XIV ora em comento estabelece como infração disciplinar do
advogado deturpar, no bojo do processo, o teor de textos de leis, de citações
doutrinárias, de jurisprudência, depoimentos, documentos e alegações da parte
contrária, com vistas a confundir sua contraparte ou iludir o juiz da causa,
induzindo-o a erro.
A ação prevista no tipo infracional é de deturpar, que significa estragar,
corromper, viciar, desfigurar, poluir, enfim, adulterar de alguma forma o sentido
de algo com a intenção de confundir ou iludir, neste caso, a outra parte ou o juiz.
Portanto, são dois os requisitos que deverão coexistir para concretização do tipo:
(i) deturpação por ação ou omissão e (ii) dolo específico de enganar, iludir.
O advogado, no exercício de sua profissão, é indispensável à administração
da justiça, exerce função social, presta serviço público e nos processos judiciais
contribui – ao postular decisão favorável ao seu constituinte – para o
convencimento do julgador, constituindo seus atos nesta função, munus publico,
conforme estabelece o artigo 2º e seus incisos 1º e 2º deste próprio EAOAB.
O munus publico com o qual é revestido o exercício da profissão de
advogado requer responsabilidade com relação aos atos que pratica no processo
e pressupõe que as citações realizadas, as transcrições de lei e os documentos
juntados ou comentados correspondam à realidade. Tal responsabilidade
inclusive é pessoal, quando se utiliza da prerrogativa de declarar a autenticidade
de cópias de peças do processo judicial, conforme estabelece o inciso IV do
artigo 425 do Novo Código de Processo Civil.
Compreende, entre os deveres do advogado, a maneira responsável de lidar
com a transcrição, citação ou utilização de qualquer forma, de textos de leis,
julgados, ensinamentos doutrinários, ou qualquer documento existente no
processo. O teor destes instrumentos não pode ser moldado de acordo com a sua
vontade ou conveniência, com alteração do texto original, citação de trechos que
apenas lhe interessam, subtração ou omissão de outros que possam dar outro
sentido, tudo com o intuito de confundir a parte contrária ou induzir a erro o
julgador e desta forma, obter decisão que atenda aos interesses de seu
constituinte.
A utilização de guia de custas judiciais de forma adulterada ou mesmo a
reutilização de guia de processo diverso ou outras inconsistências verificadas no
documento, também configuram a infração deste inciso.
A tentativa do advogado em convencer o juiz de sua interpretação em relação
a determinado texto de lei faz parte e é inerente ao trabalho do profissional, o
que não se confunde, no entanto, com a infração ora analisada, que trata da
deturpação de escritos ou documentos para forjar uma interpretação e conclusão
que não existem, pelo menos daquela forma.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“DETURPAÇÃO DE TEXTO LEGAL (ART. 34, INCISO XIV,


DO EAOAB). REQUISITOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO
DA EXISTÊNCIA DE DOLO ESPECÍFICO NA CONDUTA DO
REPRESENTADO. IMPROCEDÊNCIA DA REPRESENTAÇÃO.
1) Para a caracterização da infração disciplinar prevista no
inciso XIV do art. 34 do EAOAB, faz-se necessária a
coexistência de dois requisitos, consistentes na deturpação, por
ação ou omissão, do texto transcrito, e na intenção do advogado
de confundir o adversário ou a parte julgadora (dolo específico).
2) É dever do advogado conhecer as normas que regem sua
profissão, como o Estatuto da Advocacia e da OAB (Lei n.°
8.906/94) e o Código de Ética e Disciplina, e suas alterações
legislativas, visto que seu desconhecimento não exime eventuais
responsabilidades do causídico nem convalida possíveis erros aos
quais o mesmo possa vir ser induzido.
3) Ausente comprovação de que o representado tenha agido com o
especial fim de iludir os julgadores através da citação errônea de
norma disciplinar, imperioso se faz o arquivamento da
representação.
4) Representação disciplinar que se julga improcedente com a
consequente absolvição do representado.
Brasília, 4 de fevereiro de 2015.” (CFOAB, 1ª Turma da Segunda
Câmara, Ementa n. 003/2015/SCA-PTU, Representação n.
49.0000.2013.013990-7/SCA-PTU. Relator ad hoc: Conselheiro
Federal Wilson Sales Belchior (PB), DOU, S.1, 23.02.2015, p. 77-
78)

“PATROCÍNIO INFIEL. ACORDO EM AÇÃO TRABALHISTA.


VALOR ÍNFIMO, FALSIFICAÇÃO DA ASSINATURA DO
CLIENTE. INFRAÇÃO CARACTERIZADA. Comete grave
infração disciplinar o Advogado que, em Ação Trabalhista, na qual
representa o trabalhador, faz acordo por valor ínfimo, muito abaixo
do valor líquido do pedido e falsifica a assinatura do cliente na
petição do Acordo. Configuração das infrações tipificadas nos
incisos VIII (estabelecer entendimento com a parte adversa sem
autorização do cliente ou ciência do advogado contrário), IX
(prejudicar por culpa grave, interesse confiado ao seu patrocínio),
XIV (deturpar o teor de dispositivo de lei, de citação doutrinária e
de julgado, bem como de depoimentos, documentos e alegações da
parte contrária, para confundir o adversário ou iludir o juiz da causa
e XIX (receber valores, da parte contrária ou de terceiro,
relacionados com o objeto do mandato, sem expressa autorização do
cliente), do art. 34, do EAOAB. Gravidade latente. Antecedentes.
Pena de suspensão aplicada acima do mínimo legal que se justifica.”
(OAB/SP, Vigésima Primeira Turma Disciplinar da Ordem dos
Advogados do Brasil, Acórdão 228, Processo Disciplinar
21R0000122012, v.u., Relator João Carlos Rizolli, Sala de Sessões,
30/08/2013)

“Não conhecimento – Guias de preparo que foram reutilizadas


de outro processo – Data do recolhimento que são bem
anteriores à sentença e à interposição do recurso – Litigância de
má-fé caracterizada – Necessidade de apuração de eventual
infração disciplinar, porque enquadrada na hipótese do art. 34,
XIV e XXV, da Lei n° 8.906/94 (EA) – Recurso não conhecido,
com observações.” (TJSP, Apelação n. 991.07.081242-0, Comarca:
Ribeirão Preto, Relatora Des. Ligia Araújo Bisogni, julgamento em
27.10.2010)

Comentários
O inciso XV estabelece a infração disciplinar que o advogado comete ao
imputar a terceiro fato definido como crime, em nome e sem autorização de seu
constituinte. A redação do inciso não faz nenhuma ressalva se a imputação de
crime for real ou falsa, se admite exceção da verdade ou não, bastando que tal
imputação, sem autorização específica por escrito do cliente, seja em si
considerada conduta antiética.
Seja como for, e apesar do texto de lei não ponderar se a veracidade ou não
da afirmação poder desqualificar eventual infração, é bom que se lembre de que
a acusação inverídica de crime contra alguém constitui calúnia, crime contra a
honra, previsto no art. 138 do Código Penal, com pena de detenção para aquele
que o pratica.
Portanto, não apenas pelo viés exclusivamente ético que deve nortear a
conduta profissional, mas também dada a grande responsabilidade que existe ao
imputar a terceiro, inveridicamente, fato definido como crime, o legislador
exigiu a autorização por escrito do cliente.
Caso o advogado efetivamente possua autorização escrita do cliente, não
haverá qualquer infração ética, de modo que eventual responsabilidade será
daquele que optou em fazer tais afirmações, respondendo por eventuais excessos
ou dano, funcionando o advogado apenas como um porta-voz do seu cliente, que
não possui jus postulandi, embora ainda, deva atuar o profissional de forma
honesta e nos limites da lealdade processual.
É por essa razão que é fortemente recomendável que ao se fazer
requerimento de abertura de inquérito policial ou denúncia criminis, que resulta
em imputação de fato que possa ser considerado crime a terceiros ou à parte
adversa, deverá ser previamente requerido ao constituinte o instrumento de
mandato com poderes específicos para este fim, com a indicação precisa de qual
a pessoa a ser demandada e a tipificação da conduta a ser imputada, de acordo
com os dispositivos do Código Penal, e/ou ainda, fazer com que o cliente assine
conjuntamente o expediente, demonstrando inequivocamente sua ciência de
todos os termos.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“FALSEAMENTO DA VERDADE EM JUÍZO. CONDUTA


CONDUZIDA PELA MAIS EVIDENTE MÁ-FÉ. IMPUTAÇÃO A
TERCEIRO, COMO ADVOGADO DO CONSTITUINTE,
SEM AUTORIZAÇÃO POR ESCRITO DESTE, DE FATO
DEFINIDO COMO CRIME. PRÁTICA DE ATO
CONTRÁRIO A LEI, VISANDO FRAUDÁ-LA,
COMPORTAMENTO INCOMPATÍVEL COM A DIGNIDADE
DA ADVOCACIA. VEDAÇÃO ÉTICA PREVISTA NOS ARTS.
1o E 6o DO CÓDIGO DE ÉTICA E DISCIPLINA DA OAB.
PROCEDÊNCIA. CONJUNTO PROBATÓRIO HARMÔNICO E
COERENTE COM O PEDIDO DA REPRESENTAÇÃO. PENA
DE SUSPENSÃO. PREVISÃO LEGAL DA MEDIDA NO ART.
37, INCISO II, DO EAOAB.” (OAB/SP, Vigésima Primeira Turma
Disciplinar da Ordem dos Advogados do Brasil, Acórdão 238,
Processo Disciplinar 21R0002532010, v.u., Rel. ad hoc: Dr. Mario
Sérgio Caputi de Silos, Sala de Sessões, 21/02/2014)

“ADVOGADO E DEVER ÉTICO DE RESPEITO E POLIDEZ NO


USO DA PALAVRA. PROIBIÇÃO DE IMPUTAÇÃO A
TERCEIRO DE FATO DEFINIDO COMO CRIME, SEM
AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DO CONSTITUINTE. Advogado
que em suas petições utiliza palavras e frases com excesso de
adjetivação pejorativa e sem sentido ‘utilitas litis’ contra autoridades
constituídas, imputando a terceiros fatos definidos como crimes
sem autorização expressa do constituinte, incide na infração
disciplinar prevista no inciso XV, do artigo 34, da Lei no
8.906/94 e viola os deveres profissionais previstos nos artigos 44 e
45, do Código de Ética Profissional, devendo receber a pena de
censura convertida em advertência em ofício reservado e sem
registro nos assentamentos, diante da presença de circunstância
atenuante, conforme previsão do parágrafo único, do artigo 36 c/c
inciso II, do artigo 40, ambos da Lei nº 8.906/94”. (OAB/SP, Oitava
Turma Disciplinar da Ordem dos Advogados do Brasil, Acórdão
934, Processo Disciplinar 08R0001512011, v.u., Rel. Dr. Nilson
Bélvio Camargo Pompeu, Sala de Sessões, 30/11/2012)

“INFRAÇÃO ÉTICO-DISCIPLINAR. IMPUTAÇÃO A


TERCEIROS DE FATO DEFINIDO COMO CRIME.
ARGUMENTAÇÃO VISANDO INDUZIR O JUIZ DA CAUSA
EM ERRO. ASSINATURA DE ESCRITO DESTINADO A
PROCESSO JUDICIAL QUE O CAUSÍDICO NÃO ELABOROU.
REPRESENTAÇÃO PROCEDENTE. Não socorre à representada,
aliás, a compromete, a alegação de que a petição por ela assinada,
fora elaborada e era de responsabilidade de outro Causídico.
Infração disciplinar configurada.” (OAB/SP, Vigésima Primeira
Turma Disciplinar da Ordem dos Advogados do Brasil, Acórdão
119, Processo Disciplinar 269/2009, v.u., Rel. Dr. Waldemir Reche
Juares, Sala de Sessões, 27/05/2011)

“Advogado que pede explicações ao Juízo em decorrência de


carta precatória ter sido juntada com data anterior a data da
efetiva juntada. Mero pedido de aplicações sem que haja
imputação de crime contra o cartorário. Falta de prova efetiva da
acusação. Inexistência de infração ética disciplinar –
Improcedência da Representação.” (OAB/SP, Vigésima Primeira
Turma Disciplinar da Ordem dos Advogados do Brasil, Acórdão
167, Processo Disciplinar 05R0001102009, v.u., Rel. Dr. José
Carlos Kalil Filho, Sala de Sessões, 28/09/2012)
Comentários
O inciso XVI trata da infração praticada pelo inscrito na Ordem que,
regularmente notificado, desatenda, em prazo estabelecido, determinação
emanada da própria entidade, que deverá ter competência para tanto.
Um exemplo bastante frequente é a determinação de entrega e devolução da
carteira da Ordem pelo advogado suspenso ou excluído das atividades
profissionais. No caso de advogado suspenso, tendo em vista que a suspensão é,
via de regra, temporária, a não entrega da carteira significa cometimento de nova
infração, a ser apurada em novo procedimento perante a Ordem, com nova
penalidade.
Sabe-se que a entrega da carteira da Ordem não impedirá completamente a
atuação profissional do suspenso, mas a inibirá, especialmente no âmbito da
jurisdição contenciosa.
Já com relação ao advogado definitivamente excluído, medidas judiciais
poderão ser tomadas para que efetue a devolução da carteira, já que não mais
faria sentido a propositura de novo procedimento disciplinar, que somente
submete inscritos nos quadros da Ordem.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

SUSPENSÃO DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL –


OBRIGATORIEDADE DE ENTREGA DA CARTEIRA DE
ADVOGADO À ENTIDADE – UTILIZAÇÃO DE MEIOS
ADMINISTRATIVOS OU JUDICIAIS EM CASO DE
DESOBEDIÊNCIA. Advogado suspenso ou excluído do exercício
de suas atividades profissionais está obrigado a entregar sua
Carteira Profissional à Ordem dos Advogados do Brasil.
Ocorrendo a desobediência, medidas administrativas ou judiciais
devem ser tomadas para a efetivação desta decisão pelo Conselho
Seccional. No caso de suspensão e ocorrendo a desobediência,
nova infração estará sendo cometida, possibilitando a imposição
de penalidade. Inteligência do artigo 74, inciso XVI, do art. 34 e
item II do art. 37 do EAOAB.” (Turma Deontológica OAB/SP,
Proc. E-2.636/02, v.u. em 19/09/02 do parecer e ementa do Rel. Dr.
Cláudio Felippe Zalaf)

“ADVOGADO – PENA DE SUSPENSÃO – EFEITOS. O


advogado suspenso deve entregar a sua Carteira Profissional à
Ordem dos Advogados do Brasil, o que o inibe, sob o ponto de
vista prático, de realizar uma série de atos de sua vida
profissional, notadamente no âmbito contencioso. O advogado
suspenso não pode praticar mais atos no processo, sob pena de
nulidade. Caso o advogado desconsidere a pena aplicada,
incidirá em nova infração ética. O advogado suspenso não pode
receber honorários profissionais decorrentes de indicação feita a
colega devidamente habilitado, no curso da pena, reservado o
direito aos honorários proporcionais percebidos antes da penalidade.
O advogado suspenso deve substabelecer seus poderes, sempre com
a anuência de seus constituintes, podendo o substabelecimento ser
firmado pelo prazo em que a penalidade foi imposta. Inteligência
dos artigos 74, inciso XVI, do art. 34 e item II do art. 37 do
EAOAB.” (Turma Deontológica OAB/SP, E-3.180/05, v.u., em
16/06/2005, do parecer e ementa do Rel. Dr. Carlos Roberto Fornes
Mateucci)

Comentários
O inciso XVII em referência é bastante grave e trata da conduta do concurso
a clientes ou a terceiros, pelo advogado, para realização de ato contrário à lei ou
destinado a fraudá-la. O direito de defesa do cliente deverá acontecer dentro dos
meios lícitos que a legislação brasileira dispõe, limitado aos preceitos éticos e
honestos do trato civil da vida, sendo vedada a utilização de meios ilícitos ou
fraudulentos para “melhor” defesa da parte.
O exemplo mais recorrente na advocacia são as chamadas “casadinhas”,
ações judiciais simuladas de natureza trabalhista, onde os advogados das partes,
em conluio, simulam demanda judicial, porém com os termos do acordo já
acertado previamente com vistas a obter a coisa julgada material em favor da
empresa.
Outro exemplo é a demanda trabalhista de sócio de empresa para vir-se
desobrigado das responsabilidades futuras sobre dívidas, já acertado de antemão
com a parte contrária em nem se defender ou defender-se de forma inadequada.
Também a utilização de alvará de soltura já revogado ou falso na liberação de
cliente preso.
A conduta prevista neste inciso é bastante reprovável e prejudica em demasia
a seriedade, a dignidade e a credibilidade da profissão e dos profissionais, sendo
por isso a sanção aplicável mais severa.
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

“E-3.956/2010 – MANDATO – OUTORGA DE PROCURAÇÃO


POR CLIENTE COM PODERES LIMITADOS AO ADVOGADO
PARA UM ÚNICO ATO PROCESSUAL – PRETENSÃO
ESPECIFICA DO CLIENTE COM A ANUÊNCIA DO
ADVOGADO – APRESENTAÇÃO SOMENTE DE
CONTESTAÇÃO, VIA PROTOCOLO, EM RECLAMAÇÕES
TRABALHISTAS – INÉRCIA INTENCIONAL EM TODOS OS
DEMAIS ATOS PROCESSUAIS TANTO NA FASE COGNITIVA
QUANTO NA EXECUTÓRIA COM BASE NOS PODERES
RECEBIDOS – ATITUDE NÃO RECOMENDÁVEL, POIS
ADENTRA NA ANTIETICIDADE – CONTRATAÇÃO FORMAL
REPETE INÉRCIA PROFISSIONAL COM INTUITOS
ESTRATÉGICOS DEFINIDOS – O ADVOGADO NÃO PODE SE
PRESTAR A PRODUZIR ATO PROCESSUAL INÓCUO COM
FUNDAMENTO CONTRATUAL E PODERES RECEBIDOS –
ANTIETICIDADE. Em que pese a vontade do cliente em contratar
advogado para um único ato processual de contestação notadamente
na Justiça do Trabalho, expressada tal vontade no instrumento de
mandato e contrato formal de honorários, deixando transcorrer sem
manifestação os demais atos processuais por estratégia do cliente,
tanto na fase cognitiva quanto na executória, tal atitude se reveste de
antieticidade que afronta os princípios morais que deve guarnecer a
classe dos advogados. A inércia e a ciência do advogado com seu
cliente, numa expressa intenção protelatória do feito, adentra num
conluio contra os princípios mais elementares da ética profissional,
mantendo atitude incompatível, com a advocacia, a teor do que
dispõe o artigo 34, incisos VI; X; XVII; XXV do Estatuto da
Advocacia (lei 8.906 de 04 de julho de 1994).” (CFOAB, do parecer
e ementa do Rev. Dr. Cláudio Felippe Zalaf, vencido o rel. Dr. José
Eduardo Haddad – Presidente Dr. Carlos José Santos da Silva)

“EMENTA: RECLAMAÇÃO TRABALHISTA SIMULADA


Comete infração ético-disciplinar o advogado que age em conluio
com o outro, simulando a existência de litígio trabalhista,
objetivando a homologação judicial para acordo preestabelecido em
prejuízo dos interesses do real mandante, fraudando a Lei.”
(OAB/SP, TED SP II Processo 2682/03 – Sessão de 27/06/2007,
Presidente Carlos Penña, Rel. Ana Regina Galli Innocenti)

Comentários
O inciso XVIII trata da solicitação ou recebimento pelo advogado de
importância para aplicação ilícita ou desonesta, o que se configura grave
infração ética. A aplicação ilícita é aquela que viola a lei de forma expressa e a
aplicação desonesta, embora não viole algum tipo específico, mostra-se contra a
ética, a lealdade, a moral, o que por si só já pode ser considerada reprovável e
igualmente ilegal.
As normas de comportamento honesto estão mais do que presentes do
Direito Moderno, não sendo mais possível afirmar que algo é “imoral, mas não
ilegal”, já que se imoral, se desonesto, se antiético, inafastavelmente será ilegal,
ainda que por violação à cláusula geral de boa-fé objetiva, que dita regras de
conduta durante todo trato da vida civil.
São diversos os tipos de aplicação ilícita ou desonesta por parte do advogado
ao receber dinheiro do seu cliente, podendo ser lembrada a destinação de
dinheiro para “gratificações” de servidores públicos, como oficiais de justiça,
cartorários e outros.
Para fins de efetivação do tipo infracional, não é necessário que o advogado
receba efetivamente os valores, bastando que os haja solicitado.
O advogado deve evitar lidar com valores diversos que não sejam os
honorários contratados ou relacionados com pagamento de custas e despesas, já
que sua atuação profissional não deve envolver intermediações, comissões e
trânsito de valores. Recomenda-se, até mesmo, que a parte contrate diretamente
eventuais assistentes técnicos ou outros profissionais que sejam necessários no
curso da ação, sem que haja a intermediação do causídico, embora possa ele,
indicar profissionais de sua confiança.
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

“EMENTA 297/2010/SCA-STU. A solicitação e recebimento de


importância objetivando concurso a cliente para realização de
ato contrário à Lei configura infrações disciplinares previstas
nos incisos XVII, XVIII, XX e XXV, do art. 34, da Lei nº
8.906/94. Pena de suspensão de 09 (nove) meses reduzida para seis
meses pelas atenuantes do art. 40, II, III e IV, do EAOAB. Recurso
conhecido e improvido. Brasília, 06 de dezembro de 2010.”
(CFOAB, 2ª Turma da Segunda Câmara, Recurso n. 2009.08.08390-
05/SCA-STU, Rel.: Conselheiro Federal Valmir Macedo de Araújo
(SE), DJ. 23/12/2010, p. 12)

“Prestação de concurso a cliente para prática de ato contrário à lei


caracterizada. Conversas telefônicas que evidenciam ajuste de
valores para aplicação ilícita e conduta incompatível com a
advocacia. Prova suficiente para caracterizar infração ética aos
incisos XVII, XVIII e XXV, do art. 34, do Estatuto da
Advocacia. Procedência da representação.” (OAB/SP, Terceira
Turma Disciplinar da Ordem dos Advogados do Brasil, Acórdão
7850, Processo Disciplinar 03R0017902009, v.u., Rel. Dr. Fernando
Hellmeister Clito Fornaciari, Sala de Sessões, 28/06/2012)

Comentários
O inciso XIX em questão trata da infração ética de o advogado receber
valores da parte contrária ou de terceiros, sem expressa autorização de seu
cliente, e que se relacione ao mandato, o que poderia acontecer por meio de
tratativas diretas ou por meio de levantamento de valores depositados nos autos
judiciais.
Sendo a relação do advogado com seu cliente de confiança e devendo o
advogado abster-se de lidar com valores que não sejam seus próprios honorários,
é evidente que não poderá receber quaisquer quantias, vantagens ou benefícios
ligados ao processo e que não estejam expressamente autorizadas pelo
constituinte, o que se configuraria falta bastante grave, além da clara quebra de
confiança, passível inclusive de gerar a revogação de seu mandato.
Justamente pela relação com o cliente ser baseada fundamentalmente na
confiança, o tipo infracional se configuraria ainda que o recebimento não
implique prejuízo ao cliente, lembrando que o simples fato de o advogado
estabelecer entendimentos com a parte contrária, sem autorização do cliente, já
seria infração ética, nos termos do inciso VIII, sendo que o recebimento de
quantias é uma hipótese agravada.
Em havendo expressa autorização do cliente, se o recebimento de valores for
para fraudar a lei ou qualquer tipo de destinação ilícita ou desonesta, estar-se-á
igualmente em frente à infração disciplinar, ainda que não seja a deste inciso.
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

“EMENTA N. 051/2014/SCA-STU. RECURSO INTERPOSTO


PELO REPRESENTANTE CONTRA DECISÃO NÃO UNÂNIME
QUE ABSOLVEU OS REPRESENTADOS, AQUI RECORRIDOS
– PREENCHIMENTO AOS REQUISITOS DO ARTIGO 75 DA
LEI NO 8.906/94 PARA SUA ADMISSÃO – ACUSAÇÃO DE
COMETIMENTO DE INFRAÇÃO PREVISTA NO ARTIGO
34, XIX, POIS TERIAM OS ADVOGADOS
REPRESENTADOS LEVANTADO VALOR A TÍTULO DE
HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS SEM PRÉVIA
AUTORIZAÇÃO DO CONSTITUINTE, E SEM COMUNICÁ-
LO ACERCA DO LEVANTAMENTO – ABSOLVIÇÃO PELO
CONSELHO SECCIONAL QUANTO À SEGUNDA
REPRESENTADA DE FORMA UNÂNIME DIANTE DA
AUSÊNCIA DE SUA PARTICIPAÇÃO NO LEVANTAMENTO
DO VALOR, E NÃO UNÂNIME QUANTO AO PRIMEIRO
REPRESENTADO – RECURSO AO CONSELHO FEDERAL
CONHECIDO QUANTO A AMBOS OS PEDIDOS DE
CONDENAÇÃO – ADVOGADO QUE LEVANTA VALORES
DEPOSITADOS EM JUÍZO, A PRETEXTO DE
RECEBIMENTO DE HONORÁRIOS, SEM QUE O
CONSTITUINTE TENHA RECEBIDO SUA PRÓPRIA
PARCELA, E SEM QUE TENHA ANUÍDO COM O
LEVANTAMENTO E RETENÇÃO A TÍTULO DE
HONORÁRIOS PELO ADVOGADO, AINDA QUE SEJA
INCONTROVERSO O VALOR A QUE TEM DIREITO O
ADVOGADO, COMO OCORRE NO CASO INCORRE EM
INFRAÇÃO PREVISTA NO ARTIGO 34, XIX DO EAOAB,
MERECENDO PENA DE SUSPENSÃO A TEOR DO ARTIGO
37, I, DO MESMO DIPLOMA LEGAL – SEGUNDA
REPRESENTADA QUE NÃO TEVE PARTICIPAÇÃO NO
LEVANTAMENTO, MANTIDA SUA ABSOLVIÇÃO –
RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO PARA REFORMAR A
DECISÃO DA OAB/PA E CONDENAR O PRIMEIRO
RECORRIDO A PENA DE 30 (TRINTA) DIAS DE SUSPENSÃO
DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL. Brasília, 17 de março de
2014.” (CFOAB, 2ª Turma da Segunda Câmara, Recurso n.
49.0000.2013.015120-3/SCA-STU. Relator: Conselheiro Federal
João Bezerra Cavalcante (GO), DOU, S.1, 25.03.2014, p. 105/106)

“EMENTA Nº 049/2010/SCA/2ª T. Advogado com Poderes


Específicos Para Transigir – Configura Locupletamento à Custa do
Cliente – Levantamento do depósito de oblação em proveito
próprio sem anuência do constituinte – Ocorrências das
infrações previstas nos incisos XIX, XX e XXI, do Art. 34, do
EAOAB. Recurso não conhecido. Brasília, 17 de maio de 2010.”
(CFOAB, 2ª Turma da Segunda Câmara, Recurso n. 2008.08.07076-
05 – 03 Volumes/SCA-2ª Turma. Relator: Conselheiro Federal
Valmir Macedo de Araujo, Relator, DJ, 15.06.2010, p. 32)
“Ementa 101/2001/SCA. Advogado que descumpre obrigação
contratual de ajuizar ação reparatória e celebra, sem poderes, acordo
extrajudicial de irrisório e ridículo valor. Quitação por uma das
clientes, semianalfabeta, sobre cuja autenticidade pesa dúvida
ponderável. Poderes de administração e atos de liberalidade.
Cobrança de serviços advocatícios não prestados. Estatuto, art. 34,
incisos VIII, IX, XIX e XX.” (CFOAB, 2ª Turma da Segunda
Câmara, Recurso nº 2.379/2001/SCA-SC. Relator: Conselheiro
Sergio Ferraz (AC), DJ 07.11.2001, p. 454, S. 1)
Comentários
O inciso XX é um dos mais suscitados e recorrentes quando se fala em
processo disciplinar perante os Tribunais de Ética. Trata do tipo infracional de o
advogado se locupletar, por qualquer forma, à custa do cliente ou da parte
diversa, por si ou terceiro. É figura equivalente ao enriquecimento ilícito.
O ato de locupletar-se quer dizer enriquecer-se, aumentar patrimônio próprio
em detrimento ou prejuízo de alguém. Esse locupletamento pode acontecer de
diversas formas, como recebimento de honorários para propositura de ação ou
tomada de providências, sem que o faça, levantamento de alvará de
levantamento sem repasse dos valores levantados ao cliente, apropriação de
valores destinados pelo cliente para pagamento de custas judiciais ou impostos,
entre várias outras formas.
A cobrança de honorários acima da tabela da Ordem, embora possa constituir
falta ética prevista nos artigos 33 e 36, II, do Estatuto e artigo 49 do CED, não
necessariamente será o caso do tipo infracional do locupletamento, que trata de
casos mais graves, às vezes até com viés criminal. No entanto, existem alguns
julgados do CFOAB entendendo pela configuração de locupletamento na
cobrança abusiva de honorários (50%), embora, haja perante o mesmo
colegiado, divergência a este respeito.
O levantamento de valores sem repasse ao constituinte (tipo infracional deste
inciso) é muito usual e frequente na seara trabalhista, quando o cliente muitas
vezes (e infelizmente) é pessoa humilde e menos capacitada de acompanhar o
processo, vindo a descobrir muito tempo depois.
Dada a gravidade do tipo infracional e suas consequências, não é possível
admitir presunção de recebimento de valores com locupletamento, devendo o
representante comprovar o ato por meio de recibos de pagamento, comprovante
de depósito, apresentação do alvará levantado com assinatura do advogado etc.
Por outro lado, o advogado também não poderá justificar a não aceitação ou
não localização do cliente para elidir a infração ética, devendo, neste caso,
promover a respectiva consignação em juízo dos valores devidos.
Além do prisma ético, o locupletamento ainda possui um viés civil e penal,
pois aquele que injustamente se locupletou de dinheiro alheio, deverá responder
pela reparação (devolução, correção, juros), e eventual crime de apropriação
indébita.
Note-se que a devolução de valores no curso do processo disciplinar, depois
de instaurado, não exime o tipo infracional, que já foi efetivado, servindo apenas
para abrandar a penalidade quando de sua dosimetria. Caso a devolução de
valores tenha ocorrido antes do ajuizamento da representação disciplinar, com a
respectiva correção e juros em favor do prejudicado, entende-se pela não
configuração do tipo, que não subsiste mais em seus critérios objetivos.
O recebimento e retenção de valores locupletados, segundo redação do
dispositivo, poderão ser diretos e pessoais, como também por meio de pessoa
interposta, o que não afasta a responsabilidade do profissional.
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

“RECURSO N. 49.0000.2015.000338-9/SCA-TTU. EMENTA N.


044/2015/SCA-TTU. Processo Administrativo de natureza ética e
disciplinar. Locupletamento à custa do cliente. Pena de suspensão
por 30 (trinta) dias, perdurável até a efetiva devolução do valor
recebido para a adoção de medidas administrativas junto ao INSS.
Ausência de comprovação da prestação dos serviços. Recurso
para o Conselho Federal que não se conhece por ausência de
atendimento dos pressupostos de admissibilidade (art. 75 do
Estatuto). Decisão unânime. Brasília, 14 de abril de 2015.”
(CFOAB, Renato da Costa Figueira, Presidente. Aldemario Araujo
Castro, Relator. (DOU, S.1, 28.04.2015, p. 122/123))
“RECURSO N. 49.0000.2014.012304-9/SCA-TTU. EMENTA N.
025/2015/SCA-TTU. Recurso ao Conselho Federal. Recebimento
de valores sem a comprovação do devido repasse aos clientes.
Locupletamento e violação ao dever de prestar contas. Faltas
disciplinares capituladas nos incisos XX e XXI, do artigo 34, do
EAOAB, devendo a pena de suspensão perdurar até o momento da
satisfação integral da dívida, devidamente corrigida, conforme
prevê o § 2º, do artigo 37, do EAOAB. 1) Tendo o advogado
constituído recebido dinheiro a título de honorários contratuais,
tem o dever de prestar contas dos serviços profissionais
prestados e, na ausência de prestação dos serviços contratados,
a sua imediata devolução. 2) Recurso conhecido e não provido.
Brasília, 04 de fevereiro de 2015.” (CFAOB, Renato da Costa
Figueira, Presidente. Pelópidas Soares Neto, Relator. (DOU, S.1,
25.03.2015, p. 136/138))

“RECURSO N. 49.0000.2014.005989-7/SCA-TTU. EMENTA N.


020/2015/SCA-TTU. Recurso ao Conselho Federal.
Locupletamento. Levantamento de valores de alvará. Repasse
somente após formalizada a representação e quase dois anos
após o recebimento. Infração configurada. Notificação para
sessão de julgamento. Prazo inferior a 15 dias. Comparecimento à
sessão e realização de sustentação oral. Nulidade inexistente.
Ausência de prejuízo à defesa. Recurso parcialmente provido. 1)
Advogado que recebe valores constantes de alvará judicial e não
repassa imediatamente os valores destinados a seu cliente,
permanecendo em sua posse por quase dois anos e somente
vindo a realizar depósito na conta do cliente depois de
formalizada a representação perante a OAB, comete a infração
disciplinar prevista no art. 34, inciso XX, da Lei nº 8.906/94. 2)
Não configura violação ao art. 53, § 2º, do Código de Ética e
Disciplina, se o advogado é notificado para a sessão de julgamento
sem a antecedência mínima de 15 dias, mas comparece ao
julgamento e realiza a defesa oral das razões recursais, porquanto
não demonstrado prejuízo à defesa, não se declarando nulo ato
processual se da nulidade não resultar prejuízo para a acusação ou
para a defesa. 3) Processos disciplinares em curso, sem o trânsito
em julgado ao tempo da condenação não podem ser utilizados para
majorar a sanção disciplinar de suspensão do exercício profissional
acima do mínimo legal, sob pena de violação ao princípio da
presunção constitucional de inocência – ou não culpabilidade. 4)
Recurso parcialmente provido para reduzir a suspensão do exercício
profissional ao mínimo legal de 30 (trinta) dias, excluída a
prorrogação da sanção, já reconhecida pelas instância de origem.
Brasília, 17 de março de 2015.” (CFAOB, Renato da Costa Figueira,
Presidente. Valéria Lauande Carvalho Costa, Relatora. (DOU, S.1,
25.03.2015, p. 136/138))

“RECURSO N. 49.0000.2014.012811-0/SCA-PTU. EMENTA N.


013/2015/SCA-PTU. Recurso contra decisão não unânime proferida
pelo Conselho Seccional da OAB/GO. Patrocínio Infiel. Preclusão.
Locupletamento e ausência de prestação de contas (art. 34, incisos
XX e XXI do EAOAB). Ônus da prova que recai sobre a acusação.
Inocorrência. Honorários contratuais. Ausência de limite máximo
preestabelecido. Manutenção da decisão proferida pelo Conselho
Seccional. 1) A ausência de manifestação tempestiva quanto a ponto
omisso pelo órgão julgador, sem a interposição de Embargos de
Declaração ou de Recurso ao Tribunal ad quem, e que somente é
alegado novamente em sede de recurso de caráter extraordinário,
acarreta a preclusão da matéria. 2) É do representante o ônus da
prova da acusação, consistente na descrição clara e completa dos
fatos ocorridos e que entenda configurarem infração ético-
disciplinar, não sendo permitido aos órgãos julgadores do sistema da
OAB decidir favoravelmente a uma condenação disciplinar por
meio de meras ilações. 3) A fixação dos honorários advocatícios
contratuais deve observar os valores mínimos estipulados pela
Ordem dos Advogados do Brasil, não havendo, contudo,
qualquer determinação legal que fixe limite máximo para sua
cobrança. 4) Havendo cobrança de honorários acima do limite
mínimo estabelecido pela tabela da OAB e inexistindo proveito
pecuniário superior ao repassado ao constituinte, não há que se
falar na ocorrência de infração ético-disciplinar. 5) Recurso que
se conhece e nega provimento. Brasília, 4 de fevereiro de 2015.”
(CFOAB, Cláudio Stábile Ribeiro, Presidente. Wilson Sales
Belchior. Relator ad hoc. (DOU, S.1, 23.02.2015, p. 77-78))

Comentários
O inciso XXI trata da recusa injustificada na prestação de contas ao cliente
de quantias recebidas dele ou de terceiros por conta dele. Esta também é uma
infração bastante frequente no âmbito dos processos disciplinares, geralmente
presente em conjunto com a infração do inciso anterior, do locupletamento.
A prestação de contas errada (contas mal prestadas) ou que deixa o cliente
insatisfeito, com razão ou sem razão, não se confunde com recusa injustificada
de prestação de contas, hipótese do inciso, devendo neste caso, o cliente procurar
a via própria da Justiça para discutir valores.
É necessário que o advogado se recuse a prestar contas de forma
injustificada, sem dar nenhuma satisfação, sem dar a devida atenção ou oferecer
o cuidado que a situação exige. O dever de prestar contas é inerente ao mandato,
podendo o cliente solicitar a qualquer momento durante o curso da ação, ou
deverá ser de iniciativa do advogado, sempre, com o recebimento de valores no
curso da demanda ou com o fim e arquivamento dela. A prestação deverá ser de
fácil entendimento contábil.
A prestação de contas após a instauração do procedimento disciplinar não
afasta a conduta antiética, apenas faz desaparecer a dívida ou a obrigação. O
CFOAB tem se posicionado no sentido de que a inércia e a demora excessiva na
prestação de contas se equiparam à recusa.
O crédito de honorários do advogado ou mesmo o adiantamento de custas
não exime do profissional o dever de prestar contas ao mandante, que deverá
sempre acontecer em relação a quaisquer quantias recebidas. Ainda que o
advogado possua autorização específica do cliente para compensação
automática, ainda assim deverá prestar as contas. Cláusula contratual ou inserida
na procuração desobrigando o advogado desse dever é nula, sendo um direito
irrenunciável do constituinte.
Como comentado no inciso anterior, a recusa do cliente em aceitar ou assinar
documento de prestação de contas oferecido pelo profissional, não o exime de
suas responsabilidades, devendo neste caso, propor a medida judicial cabível,
geralmente consignação em pagamento, no caso de valores a serem repassados.
A jurisprudência do CFOAB admite, excepcionalmente, a desclassificação
das infrações disciplinares tipificadas no artigo 34, incisos XX e XXI, da Lei
8.906/1994, para a violação ao preceito ético do artigo 11º do Novo Código de
Ética e Disciplina, que estabelece que a conclusão ou desistência da causa, com
ou sem a extinção do mandato, obriga o advogado à devolução de bens, valores e
documentos recebidos no exercício do mandato, e à pormenorizada prestação de
contas.
A suspensão do advogado por recusa na prestação de contas será pelo prazo
mínimo de 30 dias e o máximo de 12 meses, porém, esta é uma das hipóteses do
Estatuto em que há previsão de se prorrogar a suspensão de forma
indeterminada, ou seja, até que sejam prestadas. É o que determina o § 2º do art.
37 do EAOAB.
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

“RECURSO N. 49.0000.2013.002074-3/OEP. EMENTA N.


138/2015/OEP. Recurso ao Órgão Especial. Acórdão unânime da
Terceira Turma da Segunda Câmara. Violação ao artigo 34, incisos
XX e XXI, do EAOAB. Suspensão do exercício profissional até a
satisfação integral da dívida. Recorrente que declara em petição
judicial ter ciência de endereço atualizado do recorrido.
Ausência de justificativa para não repassar o valor
indevidamente apropriado em reclamação trabalhista há mais
de 08 (oito) anos. Recurso não provido. Brasília, 20 de outubro de
2015.” (CFOAB, Claudio Pacheco Prates Lamachia, Presidente.
Ercílio Bezerra de Castro Filho, Relator ad hoc. (DOU, S.1,
18.11.2015, p. 86))

“RECURSO N. 49.0000.2015.004495-9/SCA-STU. EMENTA N.


156/2015/SCA-STU. Recurso ao Conselho Federal.
Locupletamento e ausência injustificada de prestação de contas.
Desclassificação. Parcial provimento. 1) A realização de acordo
entre as partes, com a quitação dos valores reclamados, juntada do
acordo aos autos antes do julgamento pelo Tribunal de Ética e
Disciplina, com expresso requerimento de desistência da
representação, considerada ainda a primariedade do advogado, é
circunstância que não deve passar à margem da valoração do
julgador, que não deve se mostrar insensível à tentativa das partes
de por fim à demanda. 2) A jurisprudência deste Conselho Federal
admite, excepcionalmente, a desclassificação das infrações
disciplinares tipificadas no artigo 34, incisos XX e XXI, da Lei nº
8.906/94, para a violação ao preceito ético do artigo 9º do Código
de Ética e Disciplina, que estabelece que a conclusão ou desistência
da causa, com ou sem a extinção do mandato, obriga o advogado à
devolução de bens, valores e documentos recebidos no exercício do
mandato, e à pormenorizada prestação de contas, não excluindo
outras prestações solicitadas, pelo cliente, a qualquer momento. 3)
Recurso conhecido e parcialmente provido, para desclassificar as
infrações disciplinares para violação ao preceito ético do artigo 9º
do Código de Ética e Disciplina, cominando a sanção disciplinar de
censura, convertida em advertência, em ofício reservado, sem
registro em seus antecedentes, dada à primariedade. Brasília, 22 de
setembro de 2015.” (CFOAB, Luciano Demaria, Presidente. José
Alberto Ribeiro Simonetti Cabral, Relator. (DOU, S.1, 16.11.2015,
p. 170))

Comentários
O inciso XXII trata do exercício abusivo, por parte do profissional, do direito
que lhe é conferido pelos artigos 7º, inciso XV, do EAOAB e 107, I, II e III, do
Novo CPC.
É assegurado ao profissional o direito de retirar os autos do cartório ou
secretaria quando neles, por determinação judicial, lhe competir a palavra, de
forma a possibilitar melhor análise e compreensão de seu conteúdo. A lei
estabelece que a vista dos autos deve ser conferida pelo prazo legal, assim
entendido o lapso temporal necessário à adoção das medidas judiciais ou
administrativas cabíveis.
Em não havendo prazo assinalado para adoção de medidas judiciais, será
permitido ao profissional formular pedido de vista dos autos pelo prazo de cinco
dias. Em algumas comarcas a carga rápida também já foi regulamentada e
permite que o advogado retire um processo para cópias, ainda que não seja
procurador de qualquer das partes, procedendo à sua devolução uma hora depois.
A retenção dos autos por tempo superior ao permitido pode prejudicar o
direito da parte adversa, motivo pelo qual o profissional infrator deverá ser
intimado para proceder à sua imediata devolução. Caso desatenda a providência,
será expedido pelo Juízo mandado de busca e apreensão dos autos judiciais, a ser
cumprido pelo Oficial de Justiça, o que inegavelmente faz caracterizar a
abusividade da conduta descrita no inciso.
Sem a necessidade de expedição de mandado de busca e apreensão, ou seja,
se intimado a devolver o processo, o advogado o fizer imediatamente, a princípio
não fica caracterizada a abusividade da conduta, a não ser que esta prática seja
reiterada ou que comprovadamente tenha trazido prejuízo à parte adversa.
O inciso trata ainda do extravio dos autos, figura mais grave do que a própria
retenção, já que se trata de desaparecimento do processo, definitivamente ou
não. O desaparecimento do processo evidentemente traz prejuízo às partes, que
deverão promover sua restauração a partir de cópias e protocolos.
Debate-se muito acerca da penalidade aqui atribuída ao profissional, que é de
suspensão, nos termos do art. 37, I, do EAOAB, entendendo grande parte dos
causídicos ser demasiadamente drástica quando comparadas aos demais tipos
infracionais. Mas seja como for, não se pode esquecer que o processo representa
fisicamente o direito da parte e, assim, do cidadão e da própria sociedade, razão
pela qual deverão os patronos manuseá-los e conservá-los com extremo zelo e
responsabilidade.
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

EMENTA N. 042/2014/SCASTU. “I. Recurso ao Conselho Federal.


Preliminar de prescrição. Inexistência de prescrição própria (prazo
de 05 anos) ou intercorrente (03 anos). Hipóteses de interrupção da
prescrição (art. 43, § 2º, II, do EAOAB). Prescrição que se
interrompe com a notificação válida do recorrente e com a
prolatação de decisão condenatória pelo primeiro grau de jurisdição
(Tribunal de Ética e Disciplina da OAB). II. Mérito. Decisão não
unânime de Conselho Seccional. Comprovação da existência de
falta disciplinar. Advogado que faz carga dos autos e retém
abusivamente o feito pelo lapso temporal de 20 (vinte) meses,
somente devolvendo o processo judicial após ser regularmente
intimado, deixando expirar o prazo assinalado pelo juiz.
Configuração da infração contida no art. 34, XXII, da Lei
8.906/94. Manutenção da decisão condenatória que aplica a pena de
suspensão pelo prazo de 30 (trinta) dias. III. Pedido alternativo de
conversão da pena de suspensão em advertência. Impossibilidade.
Incidência do contido no art. 37, I, da Lei nº 8.906/94. IV. Recurso
conhecido e improvido. Brasília, 17 de março de 2014.” (CFOAB,
2ª Turma da Segunda Câmara, Recurso n. 49.0000.2013.013491-
7/SCA-STU. Relator: Conselheiro Federal Evânio José de Moura
Santos (SE), DOU, S. 1, 25.03.2014, p. 105/106)

“EMENTA N. 106/2014/SCA-STU. I. Representação originária


perante o Conselho Federal. Extravio de autos disciplinares que
se encontravam em curso perante a Segunda Câmara do
Conselho Federal. Necessidade de reconstituição dos feitos
disciplinares e atraso no julgamento dos recursos. II. Condenação de
G.R.A. Alegação de caso fortuito e força maior inconsistente.
Furto dos autos. Não comprovação da existência de subtração
de feitos ético-disciplinares. Fortes indícios da prática de ilícitos
penais por parte do advogado que registra Boletim de
Ocorrência inverídico. III. Advogado já punido em outro feito com
pena de exclusão dos quadros da OAB por ser considerado
moralmente inidôneo e pela prática de crime infamante (art. 34,
XXVII e XXVIII conjuminado com o art. 38, II, da Lei nº.
8.906/94). IV. Dosimetria da sanção disciplinar. Advogado que
possui péssimos antecedentes profissionais e que se porta com
culpabilidade elevada. Gravidade e torpeza da conduta que
justificam o acréscimo da pena fixada, tornando-a definitiva em seu
patamar máximo – 12 (doze) meses de suspensão. V. Existência da
circunstância agravante da reincidência. Aplicação dos arts. 39 e 40
da Lei nº. 8.906/94. Fixação de pena de multa no valor de 05 (cinco)
anuidades. VI. Condenação do advogado E.A.M. Realização de
carga dos autos e entrega do processo ao cliente. Falta ética
consumada. Ausência de excludente ou exculpante em favor do
advogado. Prerrogativa de carga dos autos que pertence ao
advogado e não ao seu cliente. VII. Extravio dos autos.
Desnecessidade de dolo ou culpa para a configuração da
infração ético-disciplinar contida no art. 34, XXII do EAOAB.
VIII. Fixação da pena de 60 (sessenta) dias de suspensão, tornada
definitiva ante a ausência de circunstâncias atenuantes e agravantes.
IX. Recomendação da abertura de processo de ofício para promover
a exclusão do advogado G.R.A. dos quadros da OAB/SP em razão
da aplicação de 03 (três) penas de suspensão (art. 38, I, Lei nº.
8.906/94) e Adoção de providências perante este Conselho Federal
da OAB. X. Encaminhamento de cópias dos presentes autos a
Superintendência da Polícia Federal de Brasília/DF no escopo de
promover a apuração da suposta prática dos crimes tipificados nos
arts. 299, 340 e 356 do Código Penal. XI. Representação julgada
procedente. Brasília, 16 de setembro de 2014.” (CFOAB, 2ª Turma
da Segunda Câmara, Representação n. 2011.10.04405-05/SCA-
STU. Relator: Conselheiro Federal Evânio José de Moura Santos
(SE), DOU, S.1, 01.10.2014, p. 132/134)
“RETENÇÃO ABUSIVA DE AUTOS – INFRAÇÃO
DISCIPLINAR – SUSPENSÃO POR 60 DIAS – ART. 34, XXII,
C/C ART. 42 LEI 8.906/1994. A retenção de autos, por cerca de
um ano, por advogado devidamente intimado, com mandado de
busca e apreensão expedido e devolvido, é considerada abusiva.
Infração prevista no artigo 34, inciso XXII. Aplicação da sanção
descrita no art. 37, I, combinado com art. 42, todos da Lei
8.9106/1994 – EAOAB – Pena de suspensão por 60 (sessenta) dias
dadas as circunstâncias dos antecedentes.” (OAB/SP, Segunda
Turma Disciplinar da Ordem dos Advogados do Brasil, Processo
Disciplinar 03202/2013, v.u., Relatora Dra. Karina Penna Neves)

“RETENÇÃO DE AUTOS – TESE ASSENTADA PELO


CONSELHO FEDERAL DA OAB – ADVOGADO
DEVIDAMENTE NOTIFICADO PARA DEVOLVER AUTOS –
IRRELEVANTE PARA A CONFIGURAÇÃO DA RETENÇÃO
ABUSIVA DE AUTOS, O DOLO OU QUE O FATO TENHA
CAUSADO PREJUÍZO ÀS PARTES – PENA DE SUSPENSÃO –
PRAZO DE 30 (TRINTA) DIAS. DECISÃO UNÂNIME.”
(OAB/ES, TED 4º Turma, Processo 52.426-01, Relator Dr. Rodrigo
de Albuquerque Benevides Mendonça, julgado em 05/07/2007)

Comentários
O inciso XXIII tipifica como infração disciplinar a ausência de pagamento
dos valores devidos à OAB (especialmente anuidade), após o recebimento de
notificação da entidade.
O advogado suspenso temporariamente dos quadros da Ordem também está
obrigado a manter o pagamento de anuidade, conforme Súmula nº 03/2012
editada pelo próprio Conselho Pleno da OAB. O raciocínio não se aplica ao
advogado licenciado, que neste caso não está sujeito ao pagamento de anuidades,
mas desde que se manifeste expressamente nesse sentido, ou seja, sem que haja
requerimento correspondente, haverá obrigatoriedade do respectivo
recolhimento.
A inércia do profissional após o recebimento da notificação caracteriza a
infração, ensejando a aplicação da sanção prevista no art. 37 do Estatuto, que é a
suspensão, de modo que a penalidade deverá ser prorrogada até a integral
quitação do débito, com seus respectivos consectários, observado o limite
prescricional para cobrança da dívida, disposto no art. 206, § 5º, I, do Código
Civil e na Súmula nº 06/2014 do Órgão Especial do CFOAB, que é de cinco
anos, contados a partir do primeiro dia útil posterior ao vencimento da cota única
fixada pela Seccional no correspondente exercício.
A prescrição de cinco anos para cobrança da dívida, que deverá ser feita
judicialmente, interrompe-se por qualquer ato, ainda que extrajudicial, que
importe o reconhecimento do direito, conforme preceitua o art. 202, inciso VI,
do Código Civil, a exemplo da própria notificação inicial para quitação do
débito, expedida pela Seccional.
O advogado inadimplente com a Ordem será notificado por edital pela
imprensa oficial, não sendo necessária a intimação pessoal por carta enviada aos
seus endereços (exceção prevista no §5º do art. 137-D do Regulamento Geral).
No entanto, o processo judicial de cobrança ou ainda eventual acolhimento
de prescrição civil das anuidades não se confunde com a infração ética tratada
neste inciso, sendo matéria estranha ao processo disciplinar, que tem por escopo
a apuração da falta disciplinar e a imposição de penalidade administrativa.
O Provimento 111/2006 do CFOAB dispõe sobre a legalidade de remissão ou
isenção, pelos Conselhos Seccionais, do pagamento de contribuições, anuidades,
multas e preços de serviços, devidos à Ordem dos Advogados do Brasil, pelos
inscritos que atenderem aos requisitos do provimento. O benefício será
concedido de ofício ou mediante requerimento do interessado ou de seu
representante legal e após certificação do implemento da condição (exemplos:
portador de necessidades especiais, perda da visão em ambos os olhos, mulher
advogada, no ano do parto ou da adoção, entre outras circunstâncias).
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

EMENTA N. 052/2015/SCA-TTU. Recurso ao Conselho Federal.


Infração disciplinar. Inadimplência. Anuidades. Suspensão.
Constitucionalidade. Prescrição. Art. 206, § 5º, I, do Código Civil.
Inocorrência. Interrupção. Notificação para pagamento. Recurso não
provido. 1) Constitui infração disciplinar deixar o advogado de
pagar as contribuições devidas à OAB, depois de regularmente
notificado a fazê-lo, podendo a sanção disciplinar ser
prorrogada até a quitação integral, nos termos do art. 37, § 2º,
do EAOAB. 2) Nos termos da Súmula 06-OEP, o prazo
prescricional para cobrança de anuidades devidas à OAB é de 05
(cinco) anos, nos termos do § 5º do art. 206 do Código Civil. O
termo a quo para a contagem do prazo prescricional é o primeiro dia
útil posterior ao vencimento da cota única fixada pela Seccional no
correspondente exercício. 3) A prescrição interrompe-se por
qualquer inequívoco do credor, ainda que extrajudicial, que importe
o reconhecimento do direito, conforme preceitua o art. 202, inciso
VI, do Código Civil. Assim, a notificação inicial para quitação do
débito, expedida pela Seccional, tem o condão de interromper a
prescrição, quando não negada a dívida pelo advogado inadimplente
com as anuidades objeto de processo disciplinar. 4) Recurso
conhecido e não provido. Brasília, 19 de maio de 2015.” (CFOAB,
2ª Turma da Segunda Câmara, Recurso n. 49.0000.2014.005003-
3/SCA-TTU. Relator ad hoc: Conselheiro Federal Kaleb Campos
Freire (RN), DOU, S.1, 29.05.2015, p. 287-288)

“EMENTA N. 167/2014/SCA-STU. Recurso ao Conselho Federal.


Infração disciplinar. Inadimplência de anuidades (art. 34, XXIII
c/c art. 37, § 2º da Lei nº. 8.906/94). Alegação de nulidade
processual inexistente. Existência de prescrição civil. Possibilidade
de declaração incidenter tantum (art. 206, § 5º, I, do Código Civil).
Prorrogação da suspensão até o adimplemento das obrigações.
Exclusão. Recurso parcialmente provido. 1) Inconstitucionalidade a
cobrança de anuidades pelos Conselhos Seccionais da OAB. Arts.
34, inciso XXIII, e 37, § 2º, ambos da Lei 8.906/94, e art. 5º, inciso
XIII, da Constituição Federal. Inocorrência. Refoge à competência
administrativa deste E. CFOAB a declaração de
inconstitucionalidade de Lei Federal. Presume-se constitucional a
cobrança de anuidades pela OAB imposta no art. 37, § 2º, do
EAOAB, visto que o dispositivo não foi declarado inconstitucional
por decisão definitiva dos órgãos competentes do Poder Judiciário,
seja nas vias do controle concentrado ou no âmbito do controle
difuso de constitucionalidade. 2) Constitui infração disciplinar
deixar o advogado de pagar as contribuições devidas à OAB,
depois de regularmente notificado a fazê-lo, podendo a sanção
disciplinar ser prorrogada até a quitação integral da dívida, nos
termos do art. 37, § 2º, da Lei Federal nº 8.906/94. 3) A
prorrogação da sanção disciplinar encontra limite na prescrição para
a cobrança dos respectivos débitos de anuidade, que segue a regra
do art. 206, § 5º, I, do Código Civil, que determina o prazo de 05
(cinco) anos para a cobrança de dívidas fundadas em instrumentos
público ou particular. Precedentes deste Conselho Federal. 4)
Recurso parcialmente provido para excluir da condenação a
prorrogação da sanção disciplinar imposta, uma vez que as
anuidades objeto do processo disciplinar foram alcançadas pela
prescrição. 5) Recurso conhecido e parcialmente provido. Brasília,
02 de dezembro de 2014.” (CFOAB, 2ª Turma da Segunda Câmara,
Recurso n. 49.0000.2014.009336-3/SCA-STU. Relator: Conselheiro
Federal Luiz Cláudio Silva Allemand (ES). Relator para o acórdão:
Conselheiro Federal Evânio José de Moura Santos (SE), DOU, S.1,
10.12.2014, p. 178/179)

“RECURSO N. 49.0000.2013.000571-8/TCA. EMENTA N.


007/2015/TCA. ANISTIA. PAGAMENTO DE ANUIDADES.
PORTADORA DE MOLÉSTIA GRAVE. PROVIMENTO N.
111/2006. ROL NÃO TAXATIVO. REQUISITOS. DOENÇA
INCAPACITANTE PARA O EXERCÍCIO PROFISSIONAL.
IMPOSSIBILIDADE DE PAGAMENTO DE ANUIDADES
FACE AO CUSTEIO DO TRATAMENTO. AUSÊNCIA DE
DEMONSTRAÇÃO. RECURSO PROVIDO. 1. O rol contido no
Provimento nº 111/2006 não é taxativo, podendo as seccionais,
dadas as peculiaridades do caso concreto, estender a sua concessão
a casos semelhantes àqueles ali contidos. 2. Para a concessão da
anistia de anuidades tendo por fundamento o diagnóstico de
moléstia grave, necessário se faz a demonstração de que essa
doença incapacita o advogado para o exercício profissional, o
que não é a hipótese dos autos. 3. Recurso provido. Brasília, 17 de
março de 2015.” (CFOAB, Antonio Oneildo Ferreira, Presidente.
Erick Venâncio Lima do Nascimento, Relator ad hoc. (DOU, S.1,
30.03.2015, p. 338/339))

Comentários
O inciso XXIV trata da inépcia no exercício profissional. A incidência em
erro de que trata este inciso é caracterizada pelo cometimento de grosseiro
desacerto técnico por parte do advogado, de forma habitual, evidenciando sua
falta de aptidão para o exercício da profissão advocatícia.
Por erro compreende-se o abundante uso de expressões sem sentido ou
inadequadas, o desconhecimento da interpretação legal que enseja a aplicação da
lei de forma totalmente inapropriada à causa patrocinada, a formulação de
pedidos contrários ou incoerentes aos fatos narrados e ao próprio direito, o
descuido de redação que demonstra falta de empenho em aprimoramento
técnico, a inobservância de requisitos essenciais à adoção de medidas judiciais
ou administrativas, a interposição de recursos equivocados ou perdas de prazos
processuais.
O erro tratado nesse inciso não se confunde com a atuação de um advogado
que não detenha a melhor técnica ou estratégia, é necessário mais do que isso
para a configuração do tipo infracional.
A inépcia profissional resta configurada quando os erros são cometidos de
forma reiterada, ou seja, frequente, ao longo da carreira do profissional, e em
mais de um processo patrocinado pelo advogado, ou seja, dentro de uma
amostragem mais ampla.
Assim, mero erro de português que não teve o condão de influenciar
negativamente o resultado do processo ou mesmo a perda de uma audiência, de
um prazo processual de forma isolada, ainda que prejudique o cliente, não será
considerado erro reiterado para os termos deste inciso, embora possa,
eventualmente, nesses casos, incidir em tipo infracional diverso, a exemplo de
causar prejuízo ao cliente (inciso IX).
A efetiva suspensão por inépcia profissional perdura até que preste novas
provas de habilitação, o que em outras palavras, quer dizer aprovação em novo
Exame de Ordem, nos termos do § 3º do art. 37 do EAOAB.
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

“EMENTA 119/2011/SCA-TTU. Processo Administrativo


Disciplinar – Reter abusivamente autos judiciais, não os devolvendo
mesmo após notificada pelo Poder Judiciário e pela própria OAB –
Inépcia profissional inegavelmente evidente e demonstrada –
Aplicação da sanção de suspensão por 30 (trinta) dias,
subsistente até submissão e aprovação em novo exame de ordem
– Conduta ofensiva aos incisos XXII e XXIV, do artigo 34, do
Estatuto – Pedido de revisão interposto após o trânsito em julgado
do acórdão que apenou a recorrente, instruído sem a prova da
submissão e aprovação em novo exame de Ordem a que se negou
procedência – Acórdão unânime – Recurso para o Conselho Federal
ao qual não se conhece por ausência de atendimento aos requisitos
de admissibilidade impostos no artigo 75, do Estatuto da Advocacia
– Decisão unânime. Brasília, 05 de julho de 2011.” (CFOAB,
Terceira Turma da Segunda Câmara, Recurso 2010.08.05433-
05/SCA-TTU. Relator: Conselheiro Federal Délio Fortes Lins e
Silva (DF), DOU, S. 1, 16/08/2011, p. 126)
“EMENTA 124/2011/SCA-TTU. Processo Administrativo de
Natureza Disciplinar – Inépcia profissional demonstrada e
comprovada com documentos integrantes dos autos – Regra do
inciso XXIV, do artigo 34, do Estatuto, aplicada em desfavor do
representado para suspendê-lo do exercício profissional até que
se submeta a novo exame de Ordem e logre aprovação – Decisão
unânime na Seccional – Recurso ao Conselho Federal que não se
conhece por ausência de atendimento dos pressupostos de
admissibilidade contidos no artigo 75, do Estatuto – Decisão
unânime. Brasília, 05 de julho de 2011.” (CFOAB, Terceira Turma
da Segunda Câmara, Recurso 2010.08.06698-05/SCA-TTU.
Relator: Conselheiro Federal Délio Fortes Lins e Silva (DF), DOU,
S. 1, 16/08/2011, p. 126)

“EMENTA Nº 175/2009/SCA. Não comparecimento do advogado


a 16 (dezesseis) audiências de conciliação e saneamento e a 1
(uma) audiência de instrução e julgamento, cujos processos
foram extintos pela MM. Juíza dos feitos. Caracterização de
abandono das causas, em circunstâncias que comprometeram a
conduta profissional do advogado, tendo-se, por isso, como
configuradas as infrações definidas nos incisos XI e XXV do art.
34 do EAOAB. Não caracterização, porém, da infração do inciso
XXIV uma vez que a inépcia profissional somente se configura
com a prática reiterada de erros graves, ao longo do exercício
profissional. Recurso de que se conhece e a que se dá provimento
parcial, para o fim de excluir a infração por último referida e, assim,
reduzir a pena de suspensão aplicada, de 90 (noventa) para 60
(sessenta) dias. Brasília, 14 de setembro de 2009.” (CFOAB,
Segunda Turma da Segunda Câmara, Recurso nº 2008.08.04950-
05/SCA, 2ª Turma. Relator: Conselheiro Federal Paulo Roberto de
Gouvêa Medina (MG), DJ, 06.10.09, p. 262)

“ABANDONO DE CAUSA E INÉPCIA PROFISSIONAL –


AUSÊNCIA DE ELEMENTOS CARACTERIZADORES –
ABSOLVIÇÃO. Não configura infração disciplinar descrita no
artigo 34, inciso XI, o advogado que justificadamente deixe de
manifestar-se nos autos e, com sua inércia, não causa prejuízo
ao cliente. Do mesmo modo, não havendo reiteração de erros em
peça processual, não há como configurar o inciso XXIV, do
artigo 34, do Estatuto da OAB. Absolvição que se impõe.”
(OAB/SP, Décima Turma Disciplinar da Ordem dos Advogados do
Brasil, Acórdão 1306, Processo Disciplinar 10R0001522010, v.u.,
Rel. Dr. Cristiano Biem Cunha Carvalho, Sala de Sessões, 14 de
dezembro de 2012)
“INÉPCIA PROFISSIONAL – ARTIGO 34, XXIV, DO EAOAB
– Para a caracterização de inépcia é necessária a verificação de
que o profissional cometa erros reiterados, erros esses de fato,
de direito, grosseiros, abundantes, com uso de expressões sem
sentido, imprecisas, eivadas de aberrações jurídicas ou pedidos
absurdos contrários à liturgia processual que demonstrem
deficiência de formação em vários processos. Não se
comprovando erro ou reiteração, não há que falar em punição.
Improcedência. Arquivamento.” (OAB/SP, Nona Turma Disciplinar
da Ordem dos Advogados do Brasil, Acórdão 119, Processo
Disciplinar 09R0002782011, v.u., Rel. Dr. Taddeo Gallo Junior,
Sala de Sessões, 31 de agosto de 2012)

“INÉPCIA PROFISSIONAL – Não atendimento de


determinação exarada em acórdão proferida no sentido de que
o advogado deve frequentar cursos de reciclagem profissional,
sob pena de instalar-se de ofício processo que vise sua suspensão
até que preste novas provas de habilitação – Caracterização da
infração prevista no artigo 34, XXIV do Estatuto da OAB – Pena de
suspensão da atividade profissional pelo prazo de 30 (trinta) dias –
Prorrogação até que preste novas provas de habilitação, como
previsto no § 3º, I e II, do artigo 37 do Estatuto da OAB.” (OAB/SP,
Segunda Turma Disciplinar da Ordem dos Advogados do Brasil,
Processo Disciplinar 0068/2010, v.u., Rel. Dra. Maria Cristina
Lapenta, Sala de Sessões, 27 de março de 2013)
Comentários
O inciso XXV trata de um tipo infracional grave, mas também bastante
subjetivo e indeterminado, que é a conduta incompatível com o exercício da
advocacia, que reverbera na reputação geral dos profissionais.
Muitas das hipóteses de infrações contidas nos vários incisos deste art. 34
podem ser entendidas como ocorrência em conjunto com o inciso em referência,
por configurarem conduta incompatível com a advocacia, porém neste caso,
aplicando-se ao caso apenas uma sanção (a mais gravosa).
O parágrafo único do art. 34 traz de forma ilustrativa – e não taxativa –
outras situações que podem ser consideradas condutas incompatíveis com a
advocacia, como, por exemplo, a prática reiterada de jogo de azar, não
autorizado por lei, a incontinência pública e escandalosa e embriaguez ou
toxicomania habituais.
Isso porque se espera que o advogado seja polido, sóbrio, civilizado em suas
condutas, pondo-se como exemplo à sociedade e, sobretudo, aos seus clientes,
que confiam que este atuará com clareza e urbanidade ao buscar soluções legais
aos problemas jurídicos que lhe são apresentados.
Não seria plausível que o profissional da advocacia seja conhecido por suas
práticas vexatórias, seja no âmbito pessoal ou profissional, ou que seja apontado
como amoral, ou viciado em substâncias e jogatinas, vez que com essas maneiras
reiteradas coloca em descontentamento a si e a toda a classe jurídica.
Via de regra, é necessário que a conduta incompatível seja praticada de
forma habitual e não um mero episódio isolado, a menos que um ato específico
tenha sido grave o bastante de arranhar a dignidade da classe profissional de
forma bastante abrangente, situação que autorizará a configuração da infração.
A sanção para este tipo de infração é de suspensão, nos termos do art. 37, I,
do EAOAB.

“RECURSO 2009.08.08802-05/SCA-TTU. EMENTA


203/2011/SCA-TTU. Processo Ético Disciplinar – Advogado que,
além de exercer a profissão impedido de fazê-lo
temporariamente em decorrência de aplicação de sanção de
suspensão, deixa de cumprir determinação emanada de órgão
da OAB após regularmente notificado e mantém conduta
incompatível com a advocacia – Pena de suspensão aplicada de
30 dias, cumulada com multa – Ofensa aos incisos I, XVI e XXV,
do artigo 34, do Estatuto – Recurso ao Conselho Federal
interposto de acórdão unânime e que não atende aos pressupostos de
admissibilidade do artigo 75, da Lei 8.906 – Arguição de prescrição
que se rejeita – Recurso que se conhece tão somente em relação à
arguição da prescrição, para negar-lhe provimento – Acórdão
unânime. Brasília, 23 de agosto de 2011.” (CFOAB, Renato da
Costa Figueira, Presidente em exercício. Délio Lins e Silva, Relator.
(DOU, S. 1, 02/12/2011, p. 197))

“EMISSÃO EPISÓDICA CHEQUE SEM FUNDOS –


ATIVIDADE PESSOAL NÃO PROFISSIONAL DO
ADVOGADO. INFRAÇÃO DISCIPLINAR NÃO
CONFIGURADA – A emissão eventual de cheque sem fundos,
ainda que constitua fato lamentável e não tendo ocorrido no
exercício da atividade profissional não pode ser enquadrado como
“conduta incompatível com a advocacia” que se caracteriza pela
habitualidade. Decisão unânime. Improcedência da representação.”
(TED/ES – PROCESSO 62.492-02, 1º Turma, relator. Dr. José
Alexander Bastos Dyna, julgado em 22/07/2004)

“E-3.182/05 – MONOGRAFIA – ADVOGADO REMUNERADO


PARA FAZÊ-LA PARA CURSOS DE GRADUAÇÃO E PÓS-
GRADUAÇÃO – PRETENSÃO DE PRESTAR ESSE TIPO DE
ATIVIDADE EM FACULDADES – INTENÇÃO DE AFIXAR A
OFERTA NOS QUADROS DE AVISO – INFRAÇÕES ÉTICAS,
CIVIS, CRIMINAIS E DISCIPLINARES. Advogada que,
remunerada ou não, pretende ser contratada por alunos de cursos de
graduação ou pós graduação para elaborar Monografia, eiva toda a
sua classe. Afasta-se do eixo insculpido nos princípios da moral
individual, social e profissional traçados pelo art. 1º, do Código de
Ética. Contamina o dever de preservar a honra, a dignidade e a
nobreza da profissão (Inciso I, do par. ún., do art. 2º do CE). Enodoa
a sociedade porque empresta concurso aos que atentam contra a
ética, a moral, a honestidade e a dignidade da pessoa e, portanto,
infringe a letra ‘d’ do inciso VIII, do par. único, do art. 2º do Código
de Ética. Torna-se indigno e desprestigia toda a classe (art. 31, da
Lei 8.906/94). Pratica ato contrário à lei, fraudando-a, motivo por
que o inciso XVII, do art. 34, da mesma lei o alcança. Torna-se
moralmente inidôneo e mantém conduta incompatível com a
advocacia (art. 34, incisos XXV e XXVII, da Lei 8.906/94).
Conduz-se ao ato ilícito (art. 927, do C. Civil). Abraça o art. 171, do
Código Penal. Enfim, faz soar as palavras de Francis Bacon de que
‘Não há devassidão mais vergonhosa para o homem do que a
falsidade e a perfídia’.” (OAB/SP, Turma Deontológica, V.U., em
16/06/2005, do parecer e ementa do Rel. Dr. José Roberto Bottino,
Rev. Dra. Maria do Carmo Whitaker – Presidente Dr. João Teixeira
Grande)

Comentários
O inciso XXVI em referência trata da falsa prova de qualquer dos requisitos
para inscrição na Ordem, hipótese passível de levar o representado à exclusão
dos quadros de inscritos, sem que o recurso contra a decisão tenha efeito
suspensivo.
Nos termos do que preceitua o artigo 8º do Estatuto, para habilitar-se como
advogado é necessário ser civilmente capaz, apresentar diploma ou certidão de
graduação no curso de direito, obtido em instituição oficialmente credenciada e
autorizada, ser eleitor e estar quite com serviço militar, ter sido aprovado no
Exame de Ordem, possuir idoneidade moral e não exercer atividade
incompatível com a advocacia, além de prestar compromisso perante o
Conselho. Todos estes requisitos são cumulativos, haja vista que a ausência de
um deles impossibilita a inscrição nos quadros da OAB.
Estas condições são essenciais para garantir o bom exercício profissional
daquele que almeja advogar, e é elementar que cada um deles seja pautado pela
absoluta legalidade, o que implica dizer que falsificar qualquer destes pré-
requisitos constituirá infração disciplinar. Tem-se que a omissão de impedimento
no pedido de inscrição se equipara a falsa prova dos requisitos para inscrição,
assim como a descoberta posterior de fraude durante o exame, ou seja, aquelas
pessoas que pagam para obter as respostas previamente à sua aplicação.
A infração aqui manifestada consuma-se quando o bacharel em direito
apresenta a documentação ou a informação falsa no ato da inscrição. Se a
falsidade for suscitada durante o processo de inscrições, esta será suspensa até
que se decida sobre a questão. Se descoberta depois de consumada a inscrição, o
profissional responderá disciplinarmente, sendo o tipo tão grave, que a sanção
será de exclusão, sendo inclusive esta uma das hipóteses de exceção do efeito
suspensivo do recurso interposto contra a decisão, ou seja, nesse caso, o efeito
recursal será meramente devolutivo para que não se prolongue a situação de um
falso advogado atuando.
A hipótese em referência também se aplica ao estagiário, ao requerer seu
ingresso e inscrição como tal na Ordem.
A sanção para este tipo de infração é de exclusão, nos termos do art. 38, II,
do EAOAB.

RECURSO N. 49.0000.2012.005143-5/OEP. “EMENTA N.


073/2014/OEP. FRAUDE NO EXAME DE ORDEM. EXCLUSÃO
DOS QUADROS DA OAB. APLICAÇÃO NO ARTIGO 34,
XXVI, EM INFRATORES QUE NÃO FAZIAM PARTE DOS
QUADROS DA OAB NO TEMPO DO FATO. PRESCRIÇÃO.
INOCORRÊNCIA. 1. No caso de fraude em exame de ordem,
aplica-se o artigo 34, XXVI do EAOAB, culminando-se,
consequentemente, na sanção prevista pelo artigo 38, II,
exclusão dos quadros da OAB. 2. O artigo 34, XXVI, aplica-se
mesmo àqueles que no tempo da infração não fizessem parte dos
quadros da OAB, pois os que prestam exame para se inscrever na
OAB, logicamente, não fazem parte de seus quadros. 3. Não incorre
em prescrição que não permaneceu paralisado por mais de três anos
pendente de despacho ou movimentação, nem decorreu lapso
temporal superior a 05 (cinco) anos entre a instauração do processo
disciplinar e a primeira decisão condenatória recorrível de órgão
julgador da OAB. 4. Recurso conhecido e não provido. Brasília, 1º
de dezembro de 2013.” (CFOAB, Claudio Pacheco Prates
Lamachia, Presidente. Carlos Frederico Nóbrega Farias, Relator
(DOU, S.1, 15.04.2014, p. 152/160))

RECURSO 49.0000.2012.005143-5/SCA-PTU. “EMENTA


141/2012/SCA-PTU. Recurso ao Conselho Federal. Exclusão dos
quadros da OAB. Fraude no Exame de Ordem. Art. 34, inciso
XXVI, do Estatuto. Falsa prova dos requisitos para inscrição nos
quadros da OAB. Infração disciplinar caracterizada. Exclusão.
Competência. Conselho Seccional. Convalidação da decisão do
TED pelo acórdão recorrido. Prescrição. Inocorrência. Recurso
conhecido e improvido. 1) A competência para exclusão do
advogado dos quadros da OAB é do Conselho Seccional, nos
termos do art. 38, parágrafo único, do Estatuto. Contudo,
sobrevindo acórdão unânime do Conselho Seccional, que analisa
detidamente as provas dos autos e mantém a exclusão, não importa
nulidade. 2) A infração disciplinar prevista no art. 34, inciso
XXVI, do Estatuto, se consuma no momento em que o bacharel
em direito, de posse de documentos que indiquem a falsidade
das informações contidas, os apresenta à Seccional, para
realizar sua inscrição. 3) Quanto à prescrição, constata-se que o
processo não permaneceu paralisado por mais de três anos pendente
de despacho ou decisão, nem decorreu lapso temporal superior a 05
(cinco) anos entre a instauração do processo disciplinar
(07.07.2008) e a primeira decisão condenatória recorrível de órgão
julgador da OAB (17.03.2011), razão pela qual estão afastadas as
hipóteses de prescrição previstas no art. 43 do Estatuto. 4) No
mérito que se refere ao mérito, há prova nos autos de que a
recorrente participou de esquema fraudulento para obter
aprovação no Exame de Ordem da OAB/Goiás no ano de 2006,
consistente no pagamento da quantia em dinheiro para que
obtivesse acesso às respostas das provas antes de sua aplicação.
5) Recurso conhecido e improvido. Brasília, 10 de dezembro de
2012.” (CFOAB, Gilberto Piselo do Nascimento, Presidente. Tito
Costa de Oliveira, Relator ad hoc. (DOU. S. 1, 17/12/2012, p. 135))

Comentários
Muito embora a idoneidade moral seja um conceito particular, subjetivo, é
notória a existência de um comportamento-padrão esperado do profissional, que
consiste na observância do princípio constitucional da moralidade, evidenciando
a probidade, a honestidade esperada de um advogado, mesmo na postura de vida
privada, que vai, ainda que indiretamente, refletir no âmbito público.
É o conjunto de predicados que sugerem o indivíduo à estima pública. Ser
idôneo significa ser conveniente, acertado, apropriado ao desempenho da função
que lhe é infligida. Considera-se idôneo aquele advogado de boa índole, probo,
digno da confiança de seu cliente, da sociedade, e do Judiciário, já que
indispensável à Justiça.
Considerando que o advogado deve zelar pela justiça e pela pacificação
social, já que elementar à convivência humana, não é coerente que se admita
aquele profissional de postura reprovável ou suspeita.
Assim, o cometimento de crimes ou atos que deponham negativamente, sem
margem de dúvidas, em relação à moral e às virtudes do sujeito que o cometeu,
haverá a concretização desta infração, grave o bastante para que o advogado seja
excluído dos quadros da Ordem, já que desqualifica a dignidade da classe como
um todo, inclusive afetando a credibilidade dos demais profissionais.
A sanção para este tipo de infração é de exclusão, nos termos do art. 38, II,
do EAOAB.
“RECURSO N. 49.0000.2012.001752-0/OEP. EMENTA N.
052/2013/OEP: Desvios de recursos em proveito próprio. Danos
aos cofres de entidade. Autenticações falsas. Crime infamante
que repercute contra a dignidade da advocacia. Tipificação de
inidoneidade moral, diante da gravidade das infrações
cometidas no exercício profissional, maculando o prestígio e a
honra da classe. Penalidade de exclusão. Art. 38, II, c/c o art. 34,
XXVII, da Lei n. 8.906/94. Brasília, 18 de setembro de 2012.”
(CFOAB, Miguel Ângelo Cançado – Presidente ad hoc. Daniela
Rodrigues Teixeira – Relatora. (DOU. S. 1, 02/05/2013, p. 104))

Comentários
O inciso XXVIII trata da infração ética de praticar crime infamante, que é
aquele que, em razão das circunstâncias e meios empregados na realização,
ocasiona um repúdio social maior, desqualificando e desonrando o seu autor do
crime perante toda a sociedade.
Os crimes denominados infamantes não estão previstos ou especificamente
tipificados na legislação penal brasileira, mas encontram-se mencionados neste
Estatuto, não só no inciso em referência, como ainda nos arts. 8º e 4º. O crime
infamante retira a idoneidade moral aquele que tiver sido por ele condenado, de
forma que não poderá exercer a profissão de advogado ou mesmo requerer
inscrição da Ordem, salvo reabilitação judicial.
Os crimes infamantes, para fins de configuração da infração deste inciso, a
gerar exclusão do advogado dos quadros da Ordem, deverão ter sido julgados na
esfera penal comum com trânsito em julgado, sem que antes possa ser atribuída
tal sanção ao representado. Exemplos de crimes infamantes seriam casos de
pedofilia, abusos sexuais, cometimento de crimes reiterados por formação de
quadrilha, entre outros que causem absoluta repulsa social, comprometendo as
virtudes e qualidades morais da pessoa que o pratica e consequentemente
maculando a classe como um todo.
A sanção para este tipo de infração é de exclusão, nos termos do art. 38, II,
do EAOAB.

“RECURSO N. 49.0000.2013.011669-2/SCA-TTU. EMENTA N.


130/2013/SCA-TTU. Prática de crime infamante. Conduta
incompatível com a advocacia. Descumprimento do dever de
manter ilibada reputação pessoal e profissional, conforme artigos 2º,
§ único, incisos I e III, do CED, e artigo 31, caput, do EAOAB.
Infração disciplinar prevista no artigo 34, incisos XXV, XXVII e
XXVIII, do EAOAB. Recurso ao CFOAB. Julgamento unânime do
acórdão recorrido. Ausências dos pressupostos de admissibilidade.
Ausência de contrariedade do acórdão recorrido, contrariando a Lei
n. 8.906/94, o Regulamento Geral, o Código de Ética e Disciplina e
os Provimentos, assim como ausência de demonstração de
divergência jurisprudencial entre a decisão recorrida e precedente de
órgão julgador do CFOAB ou de outro Conselho Seccional, faz com
que o recurso esbarre no óbice de admissibilidade, previsto no
artigo 75 do EAOAB. Manutenção da decisão recorrida e
desprovimento do recurso. Brasília, 1º de dezembro de 2013.”
(CFOAB, Renato Costa Figueira, Presidente. Inácio José Feitosa
Neto, Relator ad hoc. (DOU, S.1, 12.12.2013, p. 176/178))

“RECURSO n. 49.0000.2012.001752-0/OEP. EMENTA n.


052/2013/OEP: Desvios de recursos em proveito próprio. Danos
aos cofres de entidade. Autenticações falsas. Crime infamante
que repercute contra a dignidade da advocacia. Tipificação de
inidoneidade moral, diante da gravidade das infrações
cometidas no exercício profissional, maculando o prestígio e a
honra da classe. Penalidade de exclusão. Art. 38, II, c/c o art. 34,
XXVII, da Lei n. 8.906/94. Brasília, 18 de setembro de 2012.”
(CFOAB, Miguel Ângelo Cançado – Presidente ad hoc. Daniela
Rodrigues Teixeira – Relatora. (DOU. S. 1, 02/05/2013, p. 104))
“RECURSO N. 49.0000.2012.012293-6/SCA-TTU. EMENTA N.
30/2013/SCA-TTU. 1. Processo Administrativo de natureza ética e
disciplinar. Arts. 34, inciso XXVII, e 38, inciso II, do Estatuto da
Advocacia e da OAB. Conduta do profissional que o tornou
moralmente inidôneo para o exercício da advocacia. 2. Prazo de
noventa dias previsto no art. 70, parágrafo terceiro, do Estatuto. Não
se caracteriza como hipótese de prescrição distinta daquelas
previstas no art. 43 do mesmo diploma legal. 3. A prática de crime
infamante justifica a exclusão dos quadros da OAB, conforme
prescreve o art. 38, inciso II, do Estatuto. Necessidade de
trânsito em julgado da decisão penal condenatória. Precedentes.
4. Exclusão dos quadros da OAB por tornar-se, o profissional,
moralmente inidôneo para o exercício da advocacia. Violência
sexual contra crianças e adolescentes. Registro de imagens das
ocorrências, inclusive com a participação direta do recorrente.
Natureza extremamente repulsiva e especialmente grave das
condutas consideradas. É seguro o entendimento
jurisprudencial que, respeitado o contraditório e a ampla
defesa, é admitida a utilização no processo administrativo de
‘prova emprestada’ devidamente autorizada na esfera criminal.
5. Utilização do escritório profissional do recorrente para a
realização das práticas repulsivas. A ordem jurídica impõe um
padrão de comportamento moralmente adequado ao advogado
numa série de situações de sua vida privada, mesmo que não
estrita, direta ou imediatamente abrangidas no exercício
imediato da profissão. Ausência de refutação ou negativa
quanto aos fatos imputados. 6. Mero erro ou equívoco na redação
do acórdão não caracteriza condenação baseada em matéria estranha
à representação e, para a qual, não houve defesa. O acusado não se
defende de uma qualificação jurídica ou de um fundamento legal. 7.
Pena de exclusão dos quadros da OAB mantida. Decisão unânime.
Brasília, 12 de março de 2013.” (CFOAB, Renato da Costa
Figueira, Presidente. Aldemário Araujo Castro, Relator. (DOU. S. 1,
19/04/2013, p. 211))

“RECURSO 49.0000.2012.001798-5/SCA-TTU. EMENTA


073/2012/SCA-TTU. Processo ético. Recursos ao Conselho Federal
da Ordem dos Advogados do Brasil. Advogado. Para exclusão de
advogado dos quadros da OAB em representação promovida sob a
eiva de cometimento de crime infamante (artigo 34, inciso XXVIII,
do EAOAB), exige como pressuposto, tenha a sentença penal
condenatória transitado em julgado. À míngua do trânsito em
julgado a condenação criminal imposta ao representado, sobretudo
quando pendente de recurso manejado à Instância Superior,
inexistirá ainda crime, menos ainda crime infamante, pois enquanto
não condenado em definitivo milita em seu favor o princípio da
presunção de inocência (artigo 5º, inc. LVIII, Carta da República
Federativa vigente), o que impede tenha como sofrer os efeitos de
uma condenação penal ainda sem trânsito em julgado. Decisão de
procedência da representação que se reforma tornando-a sem efeito.
Brasília, 17 de abril de 2012.” (CFOAB, Délio Fortes Lins e Silva,
Presidente em exercício. Renato da Costa Figueira, Relator. (DOU.
16/05/2012, S. 1, p. 117))

“RECURSO 2010.08.04333-05/SCA-STU. EMENTA


298/2011/SCA-STU. Representação. Pena de exclusão dos quadros
da OAB. Conduta moralmente inidônea para o exercício da
advocacia. Prática de crime infamante. Incidência do art. 34, incisos
XXVII e XXVIII da Lei n. 8.906/94. Advogado condenado em
decisão judicial transitada em julgado por prática de crime de
formação de quadrilha com pena de reclusão de sete anos e seis
meses em regime fechado resulta, disciplinarmente, em pena de
exclusão dos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil, nos
termos do art. 38, inciso II da Lei n. 8.906/94. Brasília, 13 de
dezembro de 2011.” (CFOAB, Walter Carlos Seyfferth, Presidente.
Valmir Macedo de Araújo, Relator ad hoc. (DOU, S. 1, 21/12/2011
p. 133))

Comentários
O inciso XXIX em questão trata da infração ética do estagiário, quando este
praticar ato excedente de sua habilitação. O estagiário regularmente inscrito nos
quadros da OAB está limitado a certas atribuições no exercício profissional,
condizentes com a sua capacitação naquele momento de aprendizado. Assim,
tendo em vista que ainda não possui formação completa nem preencheu os
requisitos autorizadores do exercício da profissão, deverá abster-se de praticar
certas condutas, sob pena de exceder sua habilitação e assim praticar infração
ética.
Para que o estagiário esteja apto a exercer sua função deverá, segundo o art.
9º do EAOAB, atender aos seguintes requisitos: (a) capacidade civil; (b)
inscrição eleitoral e quitação relativa ao serviço militar; (c) não exercer atividade
incompatível com a advocacia; (d) possuir idoneidade moral; e (e) prestar
compromisso no Conselho Seccional.
A inscrição deverá ser requerida no Conselho Seccional em cujo território
esteja localizado o curso jurídico do estagiário, devendo estar submetido à Lei
11.788/2011, especialmente no que se refere ao período de duração de dois anos
do estágio. Além dessas legislações, o Regulamento Geral também possui
capítulo próprio tratando do estágio profissional de forma pormenorizada
(Capítulo V).
O estagiário poderá, nos termos do art. 3º, § 2º, do EAOAB exercer a
advocacia em conjunto com advogado e sob responsabilidade deste, o que quer
dizer que poderá postular em qualquer órgão do Poder Judiciário, bem como
exercitar as atividades de consultoria e assessoria jurídicas, desde que sob a
supervisão de um advogado (poderá assinar em conjunto peças que colaborou na
confecção).
Poderá ainda, isoladamente, mas sob responsabilidade do advogado, nos
termos do art. 29, § 1º, incisos I, II e III do Regulamento Geral da OAB, retirar e
devolver autos em cartório, assinando a respectiva carga, obter certidões de
peças ou autos de processos em curso ou findos com os escrivães e chefes de
secretarias, ou, ainda, assinar petições de juntada de documentos a processos
judiciais ou administrativos, sempre inserindo ao final do número do registro na
OAB, a letra E.
Bom lembrar ainda que o estagiário não faz jus ao recebimento de
honorários, já que está em período de aprendizado e sob supervisão de um
profissional, estando, no entanto, plenamente atingido pelo dever de sigilo
profissional tratado tanto no EAOAB, como no CED.
A sanção para este tipo de infração é de censura, nos termos do art. 36, I, do
EAOAB.

“E-4.023/2011 – ESTÁGIO PROFISSIONAL – INSTITUIÇÃO


DE ENSINO SUPERIOR – DEPARTAMENTO DE ASSISTÊNCIA
JUDICIÁRIA – PRESTAÇÃO DE ORIENTAÇÃO JURÍDICA A
DETENTAS QUE JÁ POSSUEM ADVOGADO CONSTITUÍDO
OU DEFENSOR NOMEADO – VEDAÇÃO – CONSIDERAÇÕES
EM TESE. O estágio profissional de advocacia, no âmbito das
instituições de ensino, é submetido à Comissão de Estágio e Exame
de Ordem, a quem compete a celebração dos competentes convênios
e o subsequente credenciamento de escritório modelo de assistência
judiciária, assim como a fiscalização dessa atividade. Os atos de
advocacia, previstos no artigo 1º do Estatuto, podem ser
subscritos por estagiário inscrito na OAB, mas sempre em
conjunto com o advogado ou o defensor público, devendo a
atividade consultiva de assessoramento jurídico a detentas
realizar-se da mesma forma. Não se afigura, contudo, consentâneo
à ética profissional prestar assessoramento jurídico a pessoa
recolhida em estabelecimento prisional que já possua advogado,
constituído ou nomeado, salvo hipótese de urgência, ou mediante o
consentimento do cliente, hipótese em que caberá ao defensor, caso
não pretenda atuar conjuntamente com o novo defensor,
substabelecer ou renunciar ao mandato. Precedente: E-4016-11.”
(Turma Deontológica, OAB/SP, v.u., em 18/08/2011, do parecer e
ementa do Rel. Dr. Luiz Francisco Torquato)
“E-4.045/2011 – HONORÁRIOS SUCUMBENCIAIS –
DESTINAÇÃO AO ADVOGADO – COMPENSAÇÃO EM
ACORDO – PARTICIPAÇÃO DE ESTAGIÁRIO.
I. É posicionamento unânime deste Tribunal, que os honorários de
sucumbência pertencem integralmente ao advogado, que não deve
abrir mão deste direito, na medida em que foi fruto de intensa luta
da classe, que se arrastou por muitos e muitos anos, só sendo
coroada de êxito com o advento da Lei n. 8.906/94 – Estatuto da
Advocacia.
II. É, porém, permitido ao advogado na montagem de acordo,
transigir em seus honorários. Em caso de acordo, quando a parte
paga os honorários do advogado ex-adverso, os honorários assim
recebidos compensam os contratuais quando houver estipulação
neste sentido expressamente acertada com o cliente (E-3758/2009).
III. O estagiário durante o período de estágio, não faz jus aos
honorários sucumbenciais. Segundo ensina Paulo Luiz Netto
Lôbo: ‘A atuação do estagiário não constitui atividade
profissional; integra sua aprendizagem prática e tem função
pedagógica’. Portanto, tal atuação, que tem suas atividades
isoladas restritas àquelas estabelecidas no artigo 29 do
Regulamento Geral, e todas as demais, sob a responsabilidade
expressa de um advogado, nos termos do artigo 3º, § 2º, da
EAOAB, por se tratar de aprendizagem prática e com
finalidade pedagógica, não se constituindo em atividade
profissional, não gera participação nos honorários de
sucumbência. Se, porventura, após inscrito na OAB como
advogado, permanecer no escritório em que estagiou e atuando
no processo, terá direito aos honorários sucumbenciais, na
proporção do trabalho executado, no período e na estrita
condição de advogado. Por outro lado, se houve algum acordo com
o advogado que se retirou em relação aos honorários de
sucumbência, este tem que ser respeitado pelos três, como exige a
ética.” (Turma Deontológica, OAB/SP, v.m., em 15/09/2011, do
parecer e ementa do Rel. Dr. Guilherme Florindo Figueiredo e com
declaração de voto divergente do Julgador Dr. Luiz Antonio
Gambelli)

Parágrafo único. Inclui-se na conduta incompatível:


a) prática reiterada de jogo de azar, não autorizado por lei;
b) incontinência pública e escandalosa;
c) embriaguez ou toxicomania habituais.

Comentários no inciso XXV acima, que trata da conduta incompatível com a


advocacia.

Comentários
O art. 35 em referência traz os tipos de sanções a serem aplicadas ao
representado, após decisão transitada em julgado, em representação disciplinar
regularmente processada. As sanções possíveis, conforme os quatro incisos, são
a censura, a suspensão, a exclusão e a multa, e serão aplicadas conforme o caso
concreto e conforme previsão trazida pelos arts. 36, 37 e 38 do EAOAB.
A multa, prevista no inciso IV, é sanção acessória e somente poderá ser
aplicada em conjunto com uma das outras três sanções, sendo, portanto,
agravante.
Consoante disciplina do parágrafo único, as sanções deverão constar nos
assentamentos do inscrito, após o trânsito em julgado da decisão, ou seja,
quando o resultado do processo seja definitivo. No entanto, o parágrafo único em
referência excetua a publicidade da sanção, quando for o caso de censura. O
registro em referência será feito na Seccional onde o advogado tenha sua
inscrição principal.
O registro no assentamento do advogado das penas de suspensão ou
exclusão, além de assegurar sua própria execução, interessa a toda sociedade, daí
a sua necessidade de publicidade, já que nessas condições, o profissional não
poderá representar interesses de quaisquer clientes ou pessoas interessadas. O
advogado suspenso, além de não poder atuar em assuntos extrajudiciais, poderia,
no âmbito judicial, ter seus atos considerados nulos, o que traria prejuízo enorme
ao seu cliente, que não teria condições de ter ciência do fato. Mesmo raciocínio
se aplica ao profissional excluído, já que nem mesmo é mais advogado.
Já a exceção de publicidade da pena de censura se justifica tendo em vista ser
uma sanção leve, que em tese não compromete a credibilidade do profissional e
nem o impede de exercer a advocacia, podendo ser uma única ocorrência na vida
profissional do advogado, que muitas vezes pode ter agido sem dolo ou intenção
de cometer infração disciplinar. Também não há necessidade de publicidade para
fins de garantir a própria execução da sanção, em se tratando de censura.
Os tipos de infração que atraem a incidência de cada uma das sanções aqui
previstas, e suas características próprias, serão tratados nos artigos seguintes. Os
julgados contendo a aplicação de cada uma das penalidades estão distribuídos de
forma ilustrativa nos XXIX incisos do art. 34 do EAOAB acima.
Comentários
O art. 36 trata da sanção de censura, branda do ponto de vista disciplinar e
aplicável, portanto, quando diante de situações menos gravosas envolvendo a
atuação do advogado.
Conforme inciso I deste art. 36, a censura será aplicável nas hipóteses
previstas nos incisos I a XVI e XXIX do art. 34 do EAOAB, ou seja, nos casos
de exercício ilegal da profissão, sociedade irregular, captação indevida de
clientela, assinatura de documentos que não tenha confeccionado, advocacia
contra literal disposição de lei, violação de sigilo profissional, entendimentos
irregulares com a parte adversa, prejuízo ao cliente, provocar intencionalmente
nulidade processual, abandono de causa, recusa em prestar assistência jurídica
sem justo motivo, publicação habitual em imprensa acerca de alegações
forenses, deturpação de teor de dispositivo de lei, imputação a terceiro de fato
definido como crime, descumprimento de determinações da Ordem ou ato
excedente de estagiário, infrações estas já comentadas, uma a uma, acima.
Já a teor do inciso II deste art. 36, a censura será aplicável nos casos de
violação a preceito do Código de Ética e Disciplina com um todo, estando entre
alguns exemplos a cobrança imoderada ou irrisória de honorários, o ingresso de
procuração em autos que já tenha advogado constituído, a manutenção de mais
de cinco processos em Seccional diversa daquela onde tenha o advogado sua
inscrição principal, e todas as demais orientações do Código de Ética e
Disciplina da Advocacia.
Por fim, o inciso III do dispositivo prevê a censura também nos casos de
violação a preceito do EAOAB, quando para a infração não se tenha
estabelecido sanção mais grave, ou seja, eventual violação não prevista
especificamente nos XXIX incisos do art. 34, mas que contrarie, por si só, outras
determinações e mandamentos desta lei.
O parágrafo único do art. 36 trata da possibilidade de conversão da sanção de
censura em advertência, mediante envio de ofício reservado, sem registro nos
assentamentos do inscrito, o que somente poderá acontecer se presente
circunstância atenuante (art. 40 do EAOAB), como primariedade do
representado, cometimento da falta na defesa de prerrogativa profissional,
exercício de cargo ou função na OAB ou clara falta de intenção no cometimento
da infração, embora a conversão da penalidade não seja obrigatória ao julgador,
mas sim decorrente de sua análise e própria ponderação.
Muito embora a advertência não fique registrada nos assentamentos do
advogado, tem-se que para fins de julgamento em processos disciplinares, a
informação deverá ser disponibilizada, já que o advogado beneficiado com a
conversão uma vez, não poderá dela se beneficiar novamente sob o pretexto da
primariedade, que seria sempre mantida.

RECURSO n. 49.0000.2014.014549-5/SCA-TTU. “EMENTA N.


149/2015/SCA-TTU. Recurso ao Conselho Federal. Contrato de
honorários condicionando a devolução dos honorários profissionais
contratados em caso de insucesso de concessão de ordem de habeas
corpus. Impossibilidade. Aviltamento de honorários. O advogado
não deve estabelecer cláusula contratual determinando a devolução
de honorários profissionais em caso de insucesso de demanda, sob
pena de aviltamento de honorários, uma vez que, restituídos os
valores ao cliente, implicará, necessariamente, a prestação de
serviços profissionais de forma gratuita, fora dos casos legalmente
admitidos. Por outro lado, o descumprimento da cláusula contratual,
constatada a improcedência do habeas corpus, não implica
locupletamento, porque os serviços profissionais foram
efetivamente prestados. Descumprimento contratual que deverá ser
discutido no Poder Judiciário. Recurso parcialmente provido para
desclassificar a conduta do recorrente para violação ao preceito do
artigo 41 do CED e, nos termos do art. 36, II, parágrafo único, da
Lei nº 8.906/94, cominar-lhe a sanção disciplinar de censura,
convertida em advertência, em ofício reservado, sem registro em
seus assentamentos. Brasília, 30 de novembro de 2015.” (CFOAB.
Renato da Costa Figueira, Presidente. Valéria Lauande Carvalho
Costa, Relatora ad hoc. (DOU, S.1, 09.12.2015, p. 133))
Proc. Disciplinar nº 1219/2009-0. “Ementa: Advogado que alterna
em sua defesa motivos pelos quais deixou de comparecer a
audiência de instrução trabalhista revela conduta merecedora de
censura, ainda quando, a sentença em desfavor de sua cliente resulte
da confissão dela quanto à inexistência da relação de emprego. O
aparelhamento de recurso ordinário seguido da renúncia ao
mandato, a primariedade do representado, a evidência de sua
inexperiência profissional e a ausência de efetivo dano
processual ao cliente, constituem circunstâncias atenuantes que
ensejam, no tipo aberto da norma, a conversão da censura em
advertência por oficio reservado sem registro nos assentamentos
corporativos. Aplicação dos artigos 36, II, e seu Parágrafo único da
Lei 8.906/94 e 1º e 2º do Código de Ética e Disciplina da OAB.
Relator voto vencedor: José Adriano Pinto.” (OAB/CE. J.
18.12.2012, 1ª Sessão Extraordinária, Procedente, v. maioria)

Acórdão nº: 193. PD22R000175/2011. “EMENTA:


REPRESENTAÇÃO CONTRA ADVOGADO PROMOVIDA POR
JUIZ DE DIREITO, EM RAZÃO DA FALTA DE
APRESENTAÇÃO DE INSTRUMENTO DE MANDATO, E
MESMO APÓS DUAS INTIMAÇÕES, RESTOU
DESCUMPRIDA. Configura infração ao que preconiza o artigo
5º do EAOAB, o que caracteriza infração, ao artigo 34 inciso VI
do EAOAB, sanção disciplinar de CENSURA (art. 35, inc. I do
EAOAB), com a conversão em ADVERTÊNCIA, em ofício
reservado, SEM registro nos assentamentos do advogado, tendo
em vista ausência de punição disciplinar anterior (art. 40, inc. II
do EAOAB).” (OAB/SP. Sala das Sessões, 21 de março de 2014.
Rel.: Dr. Nilton Luiz de Oliveira, Presidente: Dr. Miguel Ângelo
Guilen Lopes)
Comentários
O artigo 37 trata da sanção de suspensão, penalidade considerada grave do
ponto de vista disciplinar e aplicável, portanto, quando diante de situações mais
delicadas e traumáticas envolvendo a atuação do advogado.
Conforme inciso I, a suspensão será aplicável nas hipóteses previstas nos
incisos XVII a XXV do art. 34 do EAOAB, ou seja, nos casos de fraude à lei por
concurso a clientes ou terceiros, solicitação ou recebimento de valores para
aplicação ilícita, recebimento de valores da parte contrária à revelia do
constituinte, locupletamento indevido, falta de prestação de contas, retenção
abusiva de autos, inadimplência de anuidade, reincidência em erros reiterados
que evidenciem inépcia profissional e, por fim, atos ou conduta incompatível
com a advocacia, e cada uma dessas infrações é comentada no art. 34 acima.
Já a teor do inciso II, a suspensão será aplicável nos casos de reincidência em
infração disciplinar. Embora o texto não seja expresso, é evidente que segundo a
interpretação sistemática de toda lei, é necessário que a infração anterior esteja
transitada em julgado, não sendo passível de cômputo para tal providência, a
decisão condenatória ainda pendente de recurso, ou menos ainda, o simples
ajuizamento de representação em andamento.
O § 1º do referido dispositivo trata do prazo da suspensão, que será aplicada
ao representado, sendo o mínimo de 30 dias e o máximo de 12 meses, segundo
os critérios de individualização previstos no capítulo, ou seja, circunstâncias
agravantes ou atenuantes. Assim, dispõe o art. 40, parágrafo único, “b”, do
EAOAB, que os antecedentes profissionais, as atenuantes descritas nesse mesmo
art. 40, o grau de culpa revelada, as consequências da infração, serão todos
considerados pelo julgador, segundo sua melhor análise, para o fim de decidir
sobre o tempo da suspensão.
No período fixado, não poderá o advogado praticar nenhum ato inerente à
advocacia em todo o território nacional, o que engloba não só a via judicial
contenciosa, mas também a consultiva, no sentido de orientação, formalização
de consultas, legal opinion etc., já que se configuram de forma privativa à
advocacia.
O § 2º do mesmo dispositivo trata de eventual prorrogação da pena de
suspensão nas hipóteses dos incisos XXI e XXIII do art. 34 do EAOAB, ou seja,
recusa na prestação de contas e inadimplência em relação ao pagamento da
anuidade. Nesses dois casos específicos, a suspensão perdurará até que satisfaça
integralmente a dívida, inclusive com correção monetária. Lembre-se que contas
mal prestadas não se confundem com recusa em prestar contas. Caso o cliente
não concorde com a prestação apresentada, deverá demandar na via própria sua
pretensão, não sendo fato submetido ao regramento do inciso XXI do art. 34
desta lei, que claramente trata da recusa injustificada de prestação de contas ao
cliente de quantias recebidas dele ou de terceiros por conta dele, sem que seja
possível se aprofundar na questão de valores.
Uma vez feita a prestação de contas ao cliente, o representado deverá
informar ao Tribunal de Ética correspondente, que tomará as medidas e
providências necessárias para o encerramento da penalidade do profissional. A
prestação de contas pelo advogado após o ajuizamento da representação não o
exime da configuração da conduta antiética infracional, respondendo nesse caso,
com a sanção sem prorrogação, que não faria mais sentido já que as contas
acabaram por prestadas.
Por fim, o § 3º do dispositivo em referência trata da hipótese de o advogado
ser suspenso em decorrência de erros reiterados que evidenciem inépcia
profissional, situação em que a sanção perdurará, até que preste novas provas de
habilitação, que seria o de passar novamente em Exame de Ordem.

RECURSO n. 49.0000.2013.002074-3/OEP. “EMENTA n.


138/2015/OEP. Recurso ao Órgão Especial. Acórdão unânime da
Terceira Turma da Segunda Câmara. Violação ao artigo 34, incisos
XX e XXI, do EAOAB. Suspensão do exercício profissional até a
satisfação integral da dívida. Recorrente que declara em petição
judicial ter ciência de endereço atualizado do recorrido. Ausência de
justificativa para não repassar o valor indevidamente apropriado em
reclamação trabalhista há mais de 08 (oito) anos. Recurso não
provido. Brasília, 20 de outubro de 2015.” (CFOAB, Claudio
Pacheco Prates Lamachia, Presidente. Ercílio Bezerra de Castro
Filho, Relator ad hoc. (DOU, S.1, 18.11.2015, p. 86))

“EMENTA: PROCESSO DISCIPLINAR PERANTE O TED –


ABANDONO DA CAUSA – PREJUÍZO AO CLIENTE –
COMPROVAÇÃO DOS FATOS ALEGADOS – PROCEDÊNCIA
DA REPRESENTAÇÃO – Advogado que recebe procuração de
cliente e deixa de cumprir seu ‘munus’ incorre na prática de falta
ético disciplinar prevista no art. 34, IX e XI e art. 12, CED.
Representação procedente. Acordam os membros da Turma, por
unanimidade, nos termos do voto do Advogado Julgador, em julgar
procedente a representação para aplicar a penalidade de censura
prevista no art. 36, II, da Lei nº 8.906/94, convertendo a pena de
censura em suspensão, pelo prazo de 30 (trinta) dias, de acordo
com o art. 37, II, do EAOAB”. (OAB/DF, Processo nº
26677/2008, Relator Luiz Humberto Vieira Guido, 07.05.2013, 2ª
Turma do TED/OAB-DF)
Comentários
O artigo em referência trata da sanção mais drástica prevista no Estatuto, que
é a exclusão dos quadros da Ordem. Isso quer dizer que, excluído da Ordem, o
representado não será mais advogado, estando inabilitado para praticar qualquer
atividade ligada à advocacia, não apenas a atuação contenciosa.
As hipóteses de exclusão estão previstas nos incisos I e II, sendo no primeiro
caso decorrente da aplicação, por três vezes, de suspensão transitada em julgada
e no segundo caso, para as infrações definidas nos incisos XXVI a XXVIII do
art. 34 do EAOAB, ou seja, no caso de falsa prova de qualquer dos requisitos
para inscrição na OAB, tornar-se moralmente inidôneo para o exercício da
advocacia ou a prática de crime infamante.
Dado o cenário e consequência drástica da sanção de exclusão, esta somente
se efetivará quando houver manifestação favorável de dois terços dos membros
do Conselho Seccional competente. Isso quer dizer que o Tribunal de Ética vota
no sentido da exclusão (decisão do relator), mas que somente se confirmará com
a manifestação do Conselho Seccional.
Nesse sentido, o Órgão Especial do Conselho Pleno do Conselho Federal da
Ordem dos Advogados do Brasil aprovou a Súmula 07/2016/OEP, com o
seguinte enunciado: “Processo de exclusão – instrução e julgamento. Compete
exclusivamente ao Conselho Seccional a instrução e julgamento dos processos
de exclusão, mediante a necessária manifestação favorável de dois terços dos
seus membros (art. 38, parágrafo único, Lei 8.906/1994).” Ou seja, a tramitação
do expediente de exclusão perante o TED garante que não ocorra a supressão de
instância, mas necessariamente o procedimento será submetido ao Conselho
Seccional, ainda que seja mediante recurso de ofício do próprio TED no caso
deste votar pela procedência da penalidade de exclusão.
O processo de exclusão é autônomo e tem início ex officio, lembrando que,
na hipótese do inciso I, o procedimento se instaura a partir da terceira
condenação de suspensão transitada em julgado, mas de forma apartada, ou seja,
não é processado no bojo do próprio processo de suspensão, sendo necessária a
abertura de um novo procedimento, após o trânsito em julgado da terceira
suspensão. O critério do inciso I é meramente objetivo, bastando a verificação
das três suspensões anteriores para a aplicação deste art. 38.
Com relação ao prazo prescricional das três suspensões, o Conselho Federal
da OAB, ao interpretar referido dispositivo, concluiu que a pretensão punitiva
para fins de aplicação do art. 38, I, do EAOAB será de cinco anos, considerando
o termo inicial da contagem a data da última suspensão transitada em julgado, e
não de cada uma delas. Já o termo final, para o CFOAB, seria a data da
instauração do procedimento disciplinar de exclusão ou, ainda, o próprio
julgamento da representação ex officio.
Assim, a pretensão punitiva da exclusão prevista no art. 38, I, do Estatuto
prescreverá em cinco anos contados a partir do conhecimento do fato, que é
justamente a ocorrência da terceira suspensão, até a data da efetiva instauração
do novo procedimento, que será causa interruptiva da prescrição.

RECURSO N. 49.0000.2011.003312-8/SCA-TTU. EMENTA N.


143/2014/SCA-TTU. Recurso interposto contra acórdão
unânime do Conselho Seccional do Rio de Janeiro em processo
disciplinar de exclusão ex officio, com fulcro no art. 38, I do
EAOAB, em que se encontram preenchidos os requisitos de
mais de três suspensões transitadas em julgado, devidamente
certificadas pela Secretaria da OAB. Julgamento ocorrido
dentro do quinquênio, já que a última condenação ocorrera em
03/07/2006 e a condenação se deu em 01/07/2011. Afastamento
da arguição de prescrição ainda, diante da farta jurisprudência
do Conselho Federal da OAB no entendimento de que em
hipótese de reincidência punitiva de suspensão, em processo de
exclusão, a prescrição tem como termo inicial o trânsito em
julgado da última decisão condenatória, esta ocorrida em 03 de
julho de 2006. Prescrição intercorrente inexistente por ausência de
paralisação por mais de três anos. Recurso conhecido, mas
improvido, mantendo-se a pena de exclusão, afastando-se a
prescrição. Brasília, 02 de dezembro de 2014. Renato da Costa
Figueira, Presidente. Valéria Lauande Carvalho Costa, Relatora.
(DOU, S.1, 10.12.2014, p. 180/182)

RECURSO N. 49.0000.2014.010649-3/SCA-STU. EMENTA N.


172/2014/SCA-STU. Exclusão. Verificada a ocorrência de pena
de suspensão, por três vezes, transitadas em julgado, aplica-se a
exclusão prevista no art. 38, I do EOAB. Para efeitos de
prescrição, o termo inicial conta-se a partir do trânsito em
julgado da última suspensão aplicada. Observado o quórum
privilegiado previsto no art. 108 do Regulamento Geral. O critério
estabelecido no art. 38, I do EOAB é objetivo, não importando se as
penas de suspensão estão ainda sendo cumpridas. Brasília, 2 de
dezembro de 2014. Paulo Roberto de Gouvêa Medina, Presidente
em exercício. Luciano Demaria, Relator. (DOU, S.1, 10.12.2014, p.
178/179)

RECURSO N. 49.0000.2014.003823-4/SCA-PTU. EMENTA N.


113/2014/SCAPTU. Exclusão. Aplicação da penalidade de
suspensão por mais de três vezes. 1) Recurso contra decisão
unânime do Conselho Seccional da OAB/SP, que aplicou a pena
de exclusão, com fundamento no art. 38, I, do EAOAB. 2)
Observância do quórum qualificado do Conselho Seccional para
manifestação acerca da penalidade de exclusão. 3) Afastada a
alegação de nulidade da citação, considerando que os meios legais
para notificação do representado foram obedecidos, mediante
remessa de correspondência ao endereço cadastrado no Conselho
Seccional e, posteriormente, publicação de Edital. 4) Afastamento
da arguição de prescrição, pois no caso de exclusão pela
aplicação, por três vezes, da penalidade de suspensão, a
prescrição tem como termo inicial o trânsito em julgado da
última decisão condenatória que aplicou a pena de suspensão. 5)
Farta documentação comprovando a existência das penalidades de
suspensão, tendo sido atendida a exigência de manifestação de, no
mínimo, dois terços dos membros do Conselho Seccional. Recurso
conhecido e improvido. Brasília, 19 de agosto de 2014. Claudio
Stabile Ribeiro, Presidente. Luciano Jose Trindade, Relator. (DOU,
S.1, 02.09.2014, p. 69/71)

RECURSO n. 49.0000.2014.010606-1/SCA-STU. “EMENTA N.


018/2015/SCA-STU. Pena de exclusão em virtude da aplicação, por
três vezes, de pena de suspensão. Aplicação do artigo 38, I do
EAOAB. Critérios meramente objetivos. Verificada a incidência.
Punição que se impõe. Decisão que se mantém. Brasília, 17 de
março de 2015.” (CFAOB, Luiz Cláudio Allemand, Presidente.
José Norberto Lopes Campelo, Relator. (DOU, S.1, 25.03.2015, p.
133/135))

“Processo nº 017.629/11. Órgão julgador: CONSELHO PLENO.


Processo disciplinar. Aplicação da pena de exclusão dos quadros da
OAB. PROCESSO DISCIPLINAR INSTAURADO NOS TERMOS
DO INCISO I, DO ART. 38, DA LEI 8.906/94. A
REPRESENTADA POSSUI 05 (CINCO) SUSPENSÕES EM SUA
FICHA CADASTRAL. AUSÊNCIA DE REABILITAÇÃO.
APLICAÇÃO DA PENA DE EXCLUSÃO DOS QUADROS DA
OAB. DECISÃO MAJORITÁRIA.” (OAB/RJ, Órgão julgador:
Conselho Pleno, Rel. Déa Rita Matozinhos Oliveira, 23/06/2015)

Comentários
A última sanção prevista no Estatuto, além daquelas já comentadas nos
artigos anteriores, é a multa pecuniária, que poderá variar entre o mínimo de
uma anuidade e o máximo de dez vezes seu valor, sendo aplicada
cumulativamente com a censura (art. 36) ou suspensão (art. 37), havendo
circunstâncias agravantes, que estão elencadas no parágrafo único do art. 40.
Isso quer dizer que a multa não será aplicável isoladamente, sendo necessária
que haja a imputação da sanção de censura ou suspensão ao representado, que a
ela será cumulada com multa, dependendo da culpa revelada na situação, as
circunstâncias e consequências da infração e a reincidência do profissional.
A decisão entre uma anuidade e seu décuplo não possui um critério
totalmente objetivo, apesar de as agravantes estarem mencionadas de forma
expressa no parágrafo único do art. 40, sendo essa dosimetria da avaliação
individual do próprio julgador segundo sua análise em relação àquelas
circunstâncias.

RECURSO n. 49.0000.2015.006773-6/SCA-TTU. “Ementa n.


140/2015/SCA-TTU. Recurso ao Conselho Federal. Inadimplência
das Anuidades. Penalidade de suspensão, cumulada com multa de
uma anuidade. Ausência de agravantes. Exclusão da multa.
Possibilidade. 1) Faz jus o recorrente a exclusão da multa
cominada na forma do art. 39 do EAOAB, vez que possui
comprovada ausência de punição anterior. Precedentes. Alega
necessidade de suspensão do feito face a repercussão geral
reconhecida nos recursos que discutem acerca da inadimplência da
anuidade. Alegação infundada. 2) Inobstante ser inquestionável a
independência das instâncias, imperioso registrar que o
sobrestamento processual é situação excepcional que não pode
servir para patrocinar a impunidade, principalmente, quando não há
justificativa plausível nos autos. Apreciação do mérito.
Impossibilidade. 3) Tendo em vista que o fundamento único para o
não conhecimento do recurso interposto à Seccional foi a sua
intempestividade, não cabe, pois, a este CFOAB, adentrar no exame
da matéria fática e meritória, sob pena de incorrer em supressão de
instância, uma vez que a Seccional não analisou tais argumentos,
por ter o recurso esbarrado no óbice de admissibilidade constituído
pela intempestividade. Precedentes. 4) Recurso conhecido e
parcialmente provido apenas para excluir a multa de 01 (uma)
anuidade imposta, tendo vista a primariedade do recorrente.
Acórdão: Vistos, relatados e discutidos os autos do processo em
referência, acordam os membros da Terceira Turma da Segunda
Câmara do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil,
observado o quorum exigido no art. 92 do Regulamento Geral, por
unanimidade, em acolher o voto da Relatora, parte integrante deste,
conhecendo e dando parcial provimento ao recurso. Impedido de
votar o Representante da OAB/Pernambuco. Brasília, 10 de
novembro de 2015.” (CFAOB, Iraclides Holanda de Castro,
Presidente em exercício. Daniel Blume, Relator ad hoc. (DOU, S.1,
16.11.2015, p. 171))

“Processo Disciplinar nº 143/2012. Acórdão nº 126/2014. Ementa:


Advogado. Facilitação da advocacia para terceiro não inscrito nos
quadros da OAB. Prova contundente demonstrando a materialidade
da conduta. Infração caracterizada. Ofensa aos princípios éticos.
Art. 34, inciso I, da Lei n° 8.906/94 do EAOAB. Procedência. Pena
de censura. Gravidade e circunstâncias da conduta
desfavoráveis. Incidência cumulativa de multa. Arts. 39 e 40 do
EAOAB”. (OAB/SC – Rio do Sul, 08 de agosto de 2014. João
Leonel Machado Pereira, Presidente. Izaque Góes, Relator)
Comentários
O artigo 40, caput, e seus quatro incisos tratam das atenuantes no momento
de aplicação das sanções disciplinares, as hipóteses para tanto.
O inciso I trata da falta cometida na defesa de prerrogativa profissional, que
são aquelas elencadas nos arts. 6º e 7º deste EAOAB, ou seja, são direitos
garantidos ao profissional de exercer a plena defesa de seus clientes de forma
independente, autônoma, com destemor, sem subordinação ou hierarquia em
relação a juízes, promotores e outros operadores do Direito, sempre com o
objetivo de assegurar a ampla defesa do mandante.
O inciso II elucida a questão da primariedade, ou seja, do bom
comportamento profissional até então praticado pelo representado, comprovado
por meio da inexistência de faltas disciplinares anteriores. A existência de
processo disciplinar em andamento, mas sem trânsito em julgado, de eventual
infração disciplinar, não poderá servir de base para afastar a atenuante, devendo
neste caso, o advogado ser considerado primário, já que as vias recursais
poderão torná-lo isento daquela acusação.
O inciso III, por seu turno, dispõe sobre o exercício assíduo e proficiente de
mandato ou cargo em qualquer órgão da OAB, o que sugere seriedade e
presunção de conduta ética por parte daquele que desempenha ou desempenhou,
especialmente porque o faz ou fez de forma voluntária em benefício da
dignidade da classe.
Por fim, o inciso IV traz a última atenuante que versa da prestação de
relevantes serviços à advocacia ou à causa pública, pelas mesmas razões do
inciso anterior.
O parágrafo único e letras “a” e “b” do dispositivo em referência dispõem
justamente sobre os critérios que farão revelar a conveniência da aplicação
cumulativa da multa ou de outra sanção disciplinar mais grave, bem como acerca
do tempo de suspensão e o valor aplicável, ou seja, circunstâncias eventualmente
agravantes.
Essa análise se dará considerando os antecedentes profissionais do inscrito,
das atenuantes descritas nos incisos anteriores, o grau de culpa revelada pelo
advogado, as circunstâncias e as consequências da infração, devendo sempre
estar bem fundamentadas e justificadas, sob pena de aplicar-se a dosimetria
mínima.

RECURSO n. 49.0000.2014.008835-8/SCA-TTU. “EMENTA n.


139/2014/SCA-TTU. Recurso ao Conselho Federal.
Locupletamento. Levantamento de alvará. Ausência de repasse.
Confissão. Infração disciplinar. Dosimetria. Violação ao art. 40,
parágrafo único, da Lei nº 8.906/94. Recurso parcialmente
provido. 1) A infração disciplinar pela qual restou punido o
recorrente está cabalmente comprovada, seja pelo alvará de
levantamento, seja pela confissão, razão pela qual deve ser mantida
a condenação. 2) Quanto à dosimetria, o art. 40, parágrafo único,
da Lei nº 8.906/94, estabelece que os antecedentes profissionais
do inscrito, as atenuantes, o grau de culpa por ele revelada, as
circunstâncias e as consequências da infração serão
consideradas para o fim de decidir sobre o tempo de suspensão.
3) Assim, a majoração do tempo de suspensão do exercício
profissional, sem a devida fundamentação, impõe a reforma da
decisão e a redução para o mínimo legal de 30 (trinta) dias. 4)
Recurso parcialmente provido. Brasília, 04 de novembro de 2014.”
(CFOAB, Renato da Costa Figueira, Presidente. Cícero Borges
Bordalo Júnior, Relator. (DOU, S.1, 17.11.2014, p. 96/97))
“Acórdão Nº: 140. EMENTA: ADVOGADO QUE,
CONTRATADO PARA PROPOR AÇÃO TRABALHISTA, NÃO
SE DESINCUMBE DE SUA OBRIGAÇÃO CONTRATUAL.
CULPA GRAVE CONFIGURADA. NÃO DEVOLUÇÃO AO SEU
CONSTITUINTE DOS DOCUMENTOS INDISPENSÁVEIS À
INSTRUÇÃO DO PROCESSO. CIRCUNSTÂNCIA
AGRAVANTE DE ABUSO DE PODER OU DEVER
INERENTE À PROFISSÃO. INTELIGÊNCIA DO ART. 34, IX
DO EAOAB C/C ARTIGO 9º DO CED. APLICAÇÃO DA PENA
DE CENSURA CUMULADA COM PENA DE MULTA NO
VALOR DE UMA ANUIDADE. ART. 36, I e II C/C LETRAS ‘a’
e ‘b’ DO PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 40 – EAOAB. NÃO
CONVERSÃO DA CENSURA EM ADVERTÊNCIA EM OFÍCIO
RESERVADO POR ESTAR A ATENUANTE DE PUNIÇÃO
DISCIPLINAR ANTERIOR (Art. 40, II, EAOAB) INSERIDA NA
FACULDADE DO JULGADOR. INTELIGÊNCIA DO ‘caput’ DO
PARÁGRAFO ÚNICO E SUAS ALÍNEAS ‘a’ e ‘b’ DO ARTIGO
40 – EAOAB”. (OAB/SP – Sala das Sessões, 16 de dezembro de
2011. Rel. Dr. Nelson Freitas Prado Garcia – Presidente Dr. João
Carlos Rizolli)

Comentários
O artigo em referência dispõe acerca da reabilitação do advogado que tenha
sido condenado em infração disciplinar definitivamente. O processo de
reabilitação é prerrogativa do advogado condenado por infração disciplinar,
desde que preenchidos dois requisitos: decurso de um ano do cumprimento da
penalidade e desde que traga provas efetivas de bom comportamento.
No caso de sanção disciplinar que resulte a prática de crime, o pedido de
reabilitação depende também da correspondente reabilitação criminal, que é o
quanto disposto no parágrafo único do dispositivo.
O primeiro requisito para requerer a reabilitação é de natureza objetiva e de
fácil aferição, bastando que o advogado demonstre que transcorreu efetivamente
um ano do cumprimento da penalidade disciplinar que lhe foi imposta. Já o
segundo requisito é de natureza subjetiva, não havendo um rol de provas ou
situações concretas que comprovem o bom comportamento, mas que segundo
uma interpretação lógica, poderiam ser aferidas mediante certidões judiciais e
declarações de clientes (especialmente aquele prejudicado com a falta anterior,
que teve seu dano corrigido) ou de autoridades vinculadas à Ordem.
Não cumpre o requisito de bom comportamento aquele advogado que no
curso do cumprimento da penalidade que se pretende reabilitar, seja novamente
alvo de novo processo disciplinar, ainda que não julgado, ou ainda, esteja
envolvido em inquéritos policiais, ações criminais etc.
A reabilitação do advogado poderá ser requerida a qualquer tempo e cabe em
qualquer tipo de penalidade, sendo o objetivo apagar aquela sanção dos
antecedentes do advogado, como se voltasse ao estado anterior que se
encontrava antes da penalidade. Assim, tem-se que a reabilitação retira do
assentamento do inscrito informações sobre sanção anteriormente sofrida.

RECURSO N. 49.0000.2014.005105-4/SCA-STU. “EMENTA N.


001/2015/SCA-STU. I. Recurso ao Conselho Federal. Reabilitação.
Impossibilidade. Ausência do cumprimento da pena
anteriormente imposta. Exigência do art. 41 do EAOAB. II. A
reabilitação tem como pressuposto a existência de provas
efetivas de bom comportamento (art. 41, Lei n. 8.906/94). Não
atende o requisito de bom comportamento aquele que teve
contra si instaurado outro processo disciplinar após a aplicação
da pena que se pretende reabilitar. III. Em se tratando de falta
disciplinar de que resultou dano a cliente, é indispensável que o
inscrito demonstre haver reparado esse dano, que o cliente disso o
isentou ou que tal reparação se revela, hoje, impossível. Aplicação
subsidiária das disposições pertinentes do Código Penal, que se
reportam à disciplina do instituto da reabilitação, uma vez que é a
mesma a natureza do instituto, no âmbito do processo ético-
disciplinar. Ausência de referida prova na presente sublevação. IV.
Alegação de impossibilidade de utilização de processo disciplinar
como instrumento para obrigar a reparação civil. Inapropriedade.
Incidência do art. 37, § 2º, da Lei n. 8.906/94. V. Recurso conhecido
e improvido. Brasília, 04 de fevereiro de 2015.” (CFOAB – José
Alberto Ribeiro Simonetti Cabral, Presidente em exercício. Evânio
José de Moura Santos, Relator. (DOU, S.1, 23.02.2015, p. 79))

“EMENTA: ADVOGADO EXCLUÍDO DOS QUADROS DA


OAB/MS – PEDIDO DE REABILITAÇÃO – INEXISTÊNCIA DE
PROVA DE PRESTAÇÃO DE CONTAS AOS CLIENTES
REPRESENTANTES – DÉBITOS PENDENTES COM
ANUIDADES – AUSÊNCIA DE BOM COMPORTAMENTO –
PEDIDO NEGADO. O pedido de reabilitação, formulado com base
no caput do artigo 41, do EAOAB implica prova de bom
comportamento. O Requerente que não presta contas para todos os
clientes representantes e se encontra em débito com anuidades de
1997, 1998, 1999 e 2000 não preenche este pressuposto legal,
ensejando o indeferimento do pedido de reabilitação”. (OAB/MS,
Proc. SED nº 2080/06. Relator de Julgamento: Conselheiro Renato
Chagas Côrrea da Silva. Julgado na Sessão do Conselho em
26/10/07. Publicado no DJ nº 1701, p. 320, 01/04/08)

Comentários
O artigo 42 esclarece acerca da consequência lógica da aplicação das sanções
disciplinares de suspensão ou exclusão, ou seja, trata do impedimento do
exercício do mandato profissional no período de suspensão e evidentemente da
impossibilidade de fazê-lo após sua exclusão.
O impedimento tratado no dispositivo transborda a questão da advocacia
contenciosa e se estende para todo o tipo de advocacia, como o procuratório
extrajudicial, trabalhos jurídicos de consultoria, assessoria e as funções de
Diretoria Jurídica, em qualquer empresa, pública, privada ou paraestatal, nos
termos do Provimento 66/1988 do CFOAB.
Não há nulidade por falta de ciência pessoal do representado no que toca ao
cumprimento da sanção de suspensão, bastando que seja o edital publicado
regularmente em imprensa oficial.

“Acórdão 20446 – Nr. Processo: 6949/2010. IMPEDIMENTO DO


EXERCÍCIO PROFISSIONAL. EDITAL DE SUSPENSÃO.
Não há nulidade por falta de ciência do Representado, quando o
edital de suspensão é publicado regularmente na imprensa
oficial, em face do disposto nos arts. 137-D, § 5º, e 139 do
Regulamento Geral e art. 69, § 2º, da Lei 8.906/94. EXERCÍCIO
DO MANDATO QUANDO SUSPENSO. Infração disciplinar
caracterizada nos arts. 34, I, e 42 da Lei 8.906/94, quando o
advogado suspenso exerce o mandato. Representação procedente.
Pena de suspensão por 30 dias, nos termos do art. 37, 11 da Lei
8.906/94.” (OAB/PR. Relator 29663 Lucio Bagio Zanuto Junior,
Segunda Turma, unânime, 28.10.2013)
Comentários
O artigo 43 em referência trata do tema prescrição da pretensão punitiva nos
processos envolvendo infração disciplinar. O caput do artigo determina que
prescreve em cinco anos a pretensão à punibilidade das infrações disciplinares,
contados da data da constatação oficial do fato. Essa é a prescrição para entrar
com a petição inicial, para o início da representação. Ou seja, da ciência que a
parte tenha do fato, o prazo máximo que o interessado tem para reclamar, é de
cinco anos.
Diferente do caput, o § 1º trata da prescrição intercorrente, ou seja, aquela
que se efetiva no curso da representação e não antes, desde que o processo fique
paralisado sem qualquer andamento por três anos, pendente de despacho ou
julgamento. Neste caso, o processo deverá ser arquivado de ofício, ou a
requerimento da parte interessada, sem prejuízo de serem apuradas as
responsabilidades pela paralisação.
O processo que esteja pendente de julgamento há três anos, porém com
andamento normal de manifestações e defesa, não está fulminado pela
prescrição, sendo necessário, segundo o texto de lei, que o processo esteja
paralisado por três anos, pendente de julgamento.
A grande questão e dúvida que surge é quando se enfrenta uma nulidade de
julgamento, que ao ser desconsiderado, poderá fazer com que o procedimento
tenha ficado três anos pendente de um válido julgamento, atraindo a prescrição.
A posição do Conselho Federal é que julgamento nulo não pode ser considerado
para quaisquer fins, ou seja, é tratado como se não tivesse existido, culminando,
assim, como dito, com a ocorrência de prescrição intercorrente (ver julgado
abaixo).
O § 2º do dispositivo em referência trata das causas interruptivas da
prescrição. A teor do inciso I a prescrição interrompe-se pela instauração de
processo disciplinar ou pela notificação válida feita diretamente ao representado,
enquanto o inciso II trata da interrupção decorrente da decisão condenatória
recorrível de qualquer órgão julgador da OAB.
Nos termos do item I, da Súmula 01, do Conselho Federal, se, durante o
curso do prazo prescricional, ocorrer alguma das hipóteses de interrupção da
prescrição, quais sejam: a) instauração de processo disciplinar; b) notificação
válida feita diretamente ao representado; c) decisão condenatória recorrível de
qualquer órgão julgador da OAB, o prazo interrompido recomeça a contar por
inteiro.
A prescrição pode ser suscitada em qualquer fase do processo e deve ser
analisada de antemão, visto tratar-se de matéria de ordem pública.

RECURSO n. 49.0000.2013.002156-1/OEP. “EMENTA n.


123/2015/OEP. Recurso ao Órgão Especial. Prescrição.
Inocorrência. Ausência de transcurso de lapso temporal superior a
05 (cinco) anos sem a prolação de decisão condenatória. Ausência
de paralisação do processo por mais de três anos, pendente de
despacho ou decisão. Marcos interruptivos do curso da prescrição,
que não foram considerados pelas recorrentes. Inteligência do artigo
43, § 2º, da Lei n. 8.906/94. Recurso não provido. Brasília, 20 de
outubro de 2015.” (CFOAB, Claudio Pacheco Prates Lamachia,
Presidente. Felipe Sarmento Cordeiro, Relator. (DOU, S.1,
29.10.2015, p. 238))

“PRESCRIÇÃO. PRETENSÃO PUNITIVA. NOTIFICAÇÃO


PESSOAL. LUSTRO TRANSCORRIDO. AUSÊNCIA DE CAUSA
INTERRUPTIVA. RECONHECIMENTO DE OFICIO. Opera-se a
prescrição da pretensão à punibilidade das infrações
disciplinares se da data da notificação pessoal passar cinco anos
sem que tenha ocorrido qualquer causa interruptiva da
prescrição. Reconhecimento de oficio, ao teor do que dispõe o
artigo 43 do Estatuto.” (OAB/TO, Luiz Antônio Monteiro Maia –
Presidente do Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos
Advogados do Brasil. Veruska Rejane Figueiredo Gomes Vargas –
Membro do TED/Relatora)

RECURSO 49.0000.2011.001869-7/SCA-PTU. “EMENTA


043/2012/SCA-PTU. Recurso Especial – Nulidade absoluta da
intimação inicial – Reconhecimento – Nulidade do Feito –
Prescrição intercorrente quinquenal – Ocorrência –
Conhecimento de oficio – Possibilidade – Matéria de ordem pública
– Extinção da pretensão punitiva – Arquivamento da
representação – Recurso conhecido e provido. 1. A intimação do
representado em processos éticos disciplinares tem que se dar na
pessoa do representado, sendo absolutamente nula a intimação feita
através de pessoa estranha ao representado. 2. Prescrição
intercorrente é matéria de ordem pública devendo ser conhecida de
oficio. 3. Transcorrendo mais de cinco anos entre a data da
instauração do processo ético-disciplinar e a data do primeiro
julgamento válido pela OAB caracteriza a prescrição
intercorrente. 4. Ocorrendo a prescrição intercorrente extingue-
se a pretensão punitiva. Recurso conhecido e provido.
ACÓRDÃO: Vistos, relatados e discutidos os autos do processo em
referência, acordam os membros da Primeira Turma da Segunda
Câmara do CFOAB, por maioria, em conhecer do recurso e dar-lhe
provimento, nos termos do voto do Relator, que integra o presente.
Brasília, 17 de abril de 2012.” (CFOAB, Gilberto Piselo do
Nascimento, Presidente. José Sebastião Espíndola, Relator para o
acórdão. (DOU. 16/05/2012, S. 1, p. 111))

RECURSO N. 49.0000.2011.005182-3/OEP – “EMENTA N.


130/2014/OEP. Embargos de Declaração – Omissão que se sana
para apreciar a questão arguida, relativa ao quórum existente por
ocasião do julgamento perante o Conselho Seccional da OAB/SP –
Ausência de quórum mínimo exigido pelo artigo 108, § 1º do
Regulamento Geral do Estatuto da OAB – Nulidade do julgamento
e por conseguinte do acórdão – Declara-se nulo o procedimento
desde o julgamento perante o Conselho Seccional da OAB/SP,
para que outro se realize com atenção ao quórum mínimo
exigido – Última causa interruptiva do fluxo do prazo
prescricional mantida hígida, portanto, passa a ser a
condenação emanada de julgamento realizado perante o TED
da OAB/SP, ocorrida há mais de 05 (cinco) anos, sendo cogente
o reconhecimento de ofício da prescrição, causa extintiva da
punibilidade, a teor dos artigos 43, caput e § 2º, II, e 48 do
EAOAB, 61 do CPP, 219, § 2º, 5º, 267, § 3º, 301, § 4º, do CPC, 4º,
II, 5º LIV, LV, 93, IX, da CRFB/88, 1.3.B do Pacto Internacional de
direitos civis e políticos, 1º, 9º, 25º, 29º, da Convenção Americana
sobre Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica) –
Embargos de Declaração conhecidos e providos parcialmente com
efeitos infringentes. ACÓRDÃO: Vistos, relatados e discutidos os
autos do processo em referência, acordam os membros do Órgão
Especial do CFOAB, por maioria de votos, observado o quorum
exigido no art. 92 do Regulamento Geral, conhecer e dar
provimento aos Embargos de Declaração para anular o julgamento
proferido pela IIIª Câmara da OAB/SP, nos termos do voto
divergente do Conselheiro Federal Pedro Paulo Guerra de Medeiros
(GO) e, por unanimidade, decidiu o Órgão Especial reconhecer, de
oficio, a prescrição, nos termos do voto do Conselheiro Pedro Paulo
Guerra de Medeiros (GO). Impedido de votar o representante da
OAB/São Paulo. Brasília, 17 de março de 2014. Claudio Pacheco
Prates Lamachia, Presidente. Pedro Paulo Guerra de Medeiros,
Relator para o acórdão.” (DOU, S.1, 04.06.2014, p. 120/124)

O título II do EAOAB disciplina as finalidades da Ordem dos Advogados do


Brasil, bem como regulamenta sua organização, composição, divide atribuições
entre seus órgãos, define as regras para as eleições e mandatos em seus órgãos.
Comentários
Diante de tal dispositivo, cabem algumas considerações acerca da natureza
jurídica da OAB, bem como das funções que despende e da relação que mantém
com o Poder Público.
Como vemos, a OAB é entidade caracterizada como serviço público,
possuindo personalidade jurídica própria, razão pela qual não mantém qualquer
vínculo de subordinação ou funcional com os órgãos da Administração Pública,
direta ou indireta.
Ainda, importante lembrar que a OAB goza de imunidade tributária em
relação aos seus bens, rendas e serviços, conforme disposto pelo parágrafo 5º do
art. 45 do EAOAB.
Sobre a natureza jurídica da OAB e, no caso, tratando do regime jurídico dos
seus funcionários, vejamos trecho da decisão do Supremo Tribunal Federal na
ADin 3026/2006, em que figurara como relator o ex-Ministro Eros Grau:

“A OAB não é uma entidade da Administração Indireta da União. A


ordem é um serviço público independente, categoria ímpar no
elenco das personalidades jurídicas existentes no direito brasileiro.
A OAB não está incluída na categoria na qual se inserem essas que
se tem referido como ‘autarquias especiais’ para pretender-se
afirmar equivocada independência das hoje chamadas ‘agências’.
Por não consubstanciar uma entidade da Administração Indireta, a
OAB não está sujeita a controle da Administração, nem a qualquer
das suas partes está vinculada. Essa não vinculação é formal e
materialmente necessária. A OAB ocupa-se de atividades atinentes
aos advogados, que exercem função constitucionalmente
privilegiada, na medida em que são indispensáveis à administração
da Justiça (artigo 133 da CB/88). É entidade cuja finalidade é afeita
a atribuições, interesses e seleção de advogados. Não há ordem de
relação ou dependência entre a OAB e qualquer órgão público. A
Ordem dos Advogados do Brasil, cujas características são
autonomia e independência, não pode ser tida como congênere dos
demais órgãos de fiscalização profissional. A OAB não está voltada
exclusivamente a finalidades corporativas. Possui finalidade
institucional. Embora decorra de determinação legal, o regime
estatutário imposto aos empregados da OAB não é compatível com
a entidade, que é autônoma e independente.”

Conclui-se de tal decisão que a OAB pode ser considerada como uma
instituição pública sui generis, não se equiparando às chamadas autarquias em
regime especial ou agências, nem mesmo aos demais conselhos de fiscalização
profissional.
O dispositivo ora em comento demonstra que as finalidades da OAB vão, de
fato, muito além dos interesses profissionais da classe dos advogados, ou mesmo
da fiscalização profissional destes. Destaquemos algumas das finalidades que
demonstram a função de prestigiar interesses gerais que são acometidas para a
OAB:

a) Defender a Constituição Federal e a ordem jurídica do Estado


democrático de Direito;
b) Defender os direitos humanos e a justiça social;
c) Pugnar pela boa aplicação das leis e pela rápida administração da justiça
e pelo aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas.

Como se vê, trata-se de questões de autêntico interesse geral e não apenas


dos advogados, razão pela qual as finalidades da OAB impedem que seja
comparada aos demais conselhos profissionais ou às autarquias de regime
especial que integram a Administração Pública indireta dos entes federativos.
Comentários
O presente dispositivo define a estrutura orgânica da OAB em toda a
federação. Cada um de tais órgãos recebe disciplinamento específico nos
próximos capítulos do EAOAB, conforme veremos adiante.
De se destacar assim quais são os órgãos da OAB:

a) Conselho Federal;
b) Conselhos Seccionais;
c) Caixa de Assistência dos Advogados (que podem ser criadas nas
Seccionais com mais de mil e quinhentos inscritos);
d) Subseções.

Deve-se observar que os Tribunais de Ética e Disciplina não constituem


órgão autônomo, integrando o próprio Conselho Seccional do qual fizer parte.
O parágrafo 5º do presente artigo, por sua vez, assegura imunidade tributária
em favor da OAB. Trata-se de uma hipótese da chamada imunidade tributária
recíproca, prevista no art. 150, VI, “a”, da Constituição Federal, decorrendo da
própria natureza de serviço público da OAB.
O novo parágrafo 6º foi alterado pela Lei nº 13.688/2018 (publicada em
03/07/2018), que criou e instituiu o Diário Eletrônico da Ordem dos Advogados
do Brasil, a ser disponibilizado para as publicações de atos, notificações e
decisões emanadas pela Ordem. Isso significa que haverá um veículo eletrônico
específico da Ordem disponível na internet para suas publicações, o que passa a
valer a partir de 03/01/2019.

Comentários
As contribuições e anuidades fixadas pagas pelo advogado são fixadas pela
própria OAB, através de ato administrativo.
Tal disposição decorre de uma relevante constatação, objeto de anterior longa
discussão jurisprudencial. Discutia-se se as contribuições fixadas pela OAB e
impostas aos advogados teriam a natureza de tributo.
Caso se considerasse como de natureza tributária a anuidade fixada pela
OAB, então ela somente poderia ser instituída através de lei formal, pela
incidência do princípio constitucional da legalidade estrita em direito tributário
(art. 150, I, da Constituição Federal).
A matéria pacificou-se no sentido de não se reconhecer índole tributária nas
anuidades da OAB, que, portanto, podem ser validamente fixadas por ato
administrativo da própria OAB. Vejamos alguns julgados sobre o tema:

“PROCESSO CIVIL E ADMINISTRATIVO – EXECUÇÃO PARA


COBRANÇA DAS CONTRIBUIÇÕES DA OAB. A OAB é
classificada como autarquia sui generis e, como tal, diferencia-se
das demais entidades que fiscalizam profissões.
1. A Lei 6.830/80 é o veículo de execução da dívida tributária e não
tributária da Fazenda Pública, estando ambas atreladas às regras da
Lei 4.320, de 17/3/64, que disciplina a elaboração e o controle dos
orçamentos de todos os entes públicos do país.
2. As contribuições cobradas pela OAB, como não têm natureza
tributária, não seguem o rito estabelecido pela Lei 6.830/80.
3. Embargos de divergência providos.” (STJ, 1ª Seção, Embargos de
Divergência em Resp nº 463.258/SC, rel. min. Eliana Calmon, DJ
29.03.2004 – sem grifos no original)

“PROCESSO CIVIL – ADMINISTRATIVO – EXECUÇÃO


LEVADA A EFEITO PELA OAB PARA COBRANÇA DE
ANUIDADES – JULGADO DA CORTE DE ORIGEM QUE
RECONHECE A NATUREZA TRIBUTÁRIA DA
CONTRIBUIÇÃO, BEM COMO A NECESSIDADE DE SEGUIR
O RITO DA LEI 6.830/80 – RECURSO ESPECIAL –
PRETENDIDA REFORMA – ACOLHIMENTO.
- Diante da natureza intrínseca da Ordem dos Advogados do Brasil
- OAB, que não se equipara à autarquia propriamente dita, denota-
se que as contribuições recebidas pela entidade, efetivamente, não
possuem natureza tributária. Pensar de modo diferente, data venia,
é crer que a OAB faz parte da Administração Pública e que os
valores que recebe a título de anuidades equivalem a dinheiro
público.
- A corroborar com esse entendimento, a douta Ministra Eliana
Calmon já assentou, ‘com base na jurisprudência da Corte e na
doutrina, ser a OAB autarquia especial, mas as contribuições por ela
cobradas não têm natureza tributária e não se destinam a compor a
receita da Administração Pública, mas a receita da própria entidade,
o que afasta a incidência da Lei n. 6.830/80’ (RESP n. 497.871-SC,
in DJ de 2/6/2003).
- Recurso Especial conhecido e provido para o fim de que a
execução a ser promovida pela Ordem dos Advogados do Brasil -
OAB observe o disposto nos artigos 566 e seguintes do Diploma
Processual Civil.” (STJ, 2ª T., Resp 449.760-SC, rel. Min. Franciulli
Netto, DJ 12/04/2004)
“OAB. CONTRIBUIÇÃO. NATUREZA JURÍDICA NÃO
TRIBUTÁRIA. EXERCÍCIO DA PROFISSÃO. DEVER DE
QUITAÇÃO.
As anuidades cobradas pela Ordem dos Advogados do Brasil –
OAB não têm natureza jurídica tributária, visto que a entidade é
considerada uma autarquia sui generis, não se incluindo no conceito
jurídico de Fazenda Pública. A jurisprudência dos Tribunais
Superiores é pacífica quanto à ausência de mácula na imposição da
penalidade de suspensão ao advogado inadimplente de suas
anuidades. Matéria enfrentada pela Corte Especial deste Regional,
que rejeitou a arguição de inconstitucionalidade dos artigos 34,
XXIII e 37 da Lei nº 8.609/94 (sessão do dia 23/09/2010). A CAA é
um órgão indissociável da OAB, que não é de adesão facultativa.
Ação improcedente.” (TRF4, 3ª T., Apelação Cível nº
2006.70.03.000797-9, Rel.ª Maria Lúcia Luz Leiria)

Assim sendo, pode a OAB fixar e cobrar diretamente seus inscritos as


anuidades fixadas.
A OAB, ainda, para instruir a cobrança poderá expedir certidão de dívida
ativa, dando início diretamente a uma ação de execução por quantia certa que
seguirá o Código de Processo Civil e, não a Lei 6.830/1980, que é reservada às
execuções fiscais.

Comentários
A contribuição aqui referida é a contribuição sindical prevista nos arts. 578 e
seguintes da Consolidação das leis do trabalho (CLT) que em seu art. 579
estabelece a obrigatoriedade de todo trabalhador, inclusive os autônomos ou
profissionais liberais, que participem de uma determinada categoria econômica
ou profissional, recolher a contribuição sindical.
No caso dos advogados, o pagamento da anuidade da OAB já os isenta da
contribuição sindical prevista no art. 579 da CLT.
Assim sendo, no caso dos advogados, a contribuição sindical é facultativa.

Comentários
Trata-se de serviço essencial para advocacia, de tal sorte que, não obstante a
gratuidade da prestação, que se dá em benefício da advocacia, o período de
serviço será considerado serviço público, inclusive para fins de disponibilidade e
aposentadoria.

Comentários
Há, portanto, a concessão de legitimidade ativa para os Presidentes dos
Conselhos Seccionais e das Subseções para agirem judicial e extrajudicialmente,
em nome da OAB, contra aqueles que violarem os propósitos e finalidades do
EAOAB.
Ainda, podem intervir nos processos em que figurem advogados como
indiciados, acusados ou ofendidos.
Trata-se de forma de salvaguardar os fins do EAOAB, bem como de
propiciar o exercício das próprias finalidades da OAB, conforme vimos quando
da análise ao art. 44.

Comentários
Devemos nos atentar que o presente dispositivo fora objeto de arguição de
inconstitucionalidade junto ao STF, através da ADIn 1.127-8, que ao final fora
julgada parcialmente procedente.
Após o julgamento, deu-se interpretação conforme a Constituição ao
presente dispositivo, para o fim de determinar que os Presidentes das Seccionais
ou Subseções, ao exercerem o direito aqui previsto, devem motivar o pedido,
desde que seja compatível com as finalidades do EAOAB e da própria OAB,
além de ter de arcar com os custos da requisição e ressalvando-se os documentos
cobertos por sigilo.
Comentários
O Conselho Federal da OAB é composto por 81 Conselheiros Federais,
sendo correspondente a três Conselheiros de cada Estado e três do Distrito
Federal. Trata-se do órgão supremo da OAB e último grau recursal nos
processos na OAB, como por exemplo, os processos ético-disciplinares.
Os ex-presidentes, enquanto membros honorários, possuem direito de
participação das deliberações do Conselho Federal, porém não possuem direito a
voto, somente direito a voz.
Os Presidentes dos Conselhos Seccionais poderão participar das sessões do
Conselho Federal, porém por não integrá-lo não terão direito ao voto. Ser-lhes-á
assegurado, entretanto, o direito a voz.
Deve-se lembrar da seguinte regra geral: todo Conselheiro Federal terá
direito a voz e voto. O Presidente do Conselho federal exercerá, também, o voto
de qualidade. Os ex-presidentes do Conselho Federal, bem como os Presidentes
dos Conselhos Seccionais terão direito a voz.
A estrutura, o funcionamento e as competências do Conselho Federal são
disciplinados, também, dos artigos 62 a 104 do Regulamento Geral da OAB, dos
quais aconselhamos a leitura.
Muito importante é a fixação das atribuições acometidas ao Conselho
Federal pelo art. 54 do EAOAB. Cabe destacarmos algumas:

a) Editar e alterar o Regulamento Geral, Código de Ética e Disciplina e os


demais Provimentos (inciso V)

Quanto a esta atribuição, lembrar sempre: o CFOAB possui competência


para editar e alterar atos administrativos da OAB. O CFOAB não pode alterar o
Estatuto da Advocacia e da OAB que é veiculado por meio de lei federal e,
portanto, somente pode ser alterado por via legislativa, pelo Congresso Nacional;
b) Intervenção nos Conselhos Seccionais (inciso VII)
Poderá ocorrer na hipótese de quaisquer dos Conselhos Seccionais violarem
o EAOAB, o CED ou o RGEOAB. A intervenção dependerá de aprovação de
dois terços das delegações do Conselho Federal, assegurado o direito de defesa
ao Conselho Seccional objeto da intervenção. Caso acatada a intervenção, será
nomeada diretoria provisória por prazo determinado;
c) Ajuizamento de Ação Direta de Inconstitucionalidade e demais ações
cuja competência lhe seja outorgada por lei (inciso XIV)
O Conselho Federal da OAB é legitimado ativo para propositura de Ação
direta de Inconstitucionalidade, bem como para Ação declaratória de
Constitucionalidade, conforme previsto no inciso VII do art. 103 da Constituição
Federal.
Comentários
Os Conselhos Seccionais possuem área territorial por todo o Estado-membro
e o Distrito Federal correspondente. É composto pelo seu Presidente, Vice-
Presidente, Diretores e Conselheiros. Os Conselheiros de cada Seção serão em
número proporcional ao de inscritos. O número mínimo de Conselheiros em
cada Seção é de 30 e o máximo de 80. Cada Conselheiro possui direito a voz e
voto nas deliberações do Conselho Seccional.
Os ex-presidentes do Conselho Seccional e o Presidente do Instituto dos
Advogados local possuem direito a voz nas deliberações, sem direito a voto.
Estando presentes nas sessões do Conselho Seccional, o Presidente do
Conselho Federal, os Conselheiros Federais integrantes da respectiva delegação,
bem como o Presidente da Caixa de Assistência dos Advogados e os Presidentes
das Subseções, terão direito a voz nas deliberações, conforme aferimos do
parágrafo 3º do art. 56.
O parâmetro para as atribuições dos Conselhos Seccionais são as próprias
atribuições do Conselho Federal, uma vez que nos termos do art. 57 do EAOAB,
os Conselhos Seccionais exercem e observam as competências e vedações que
vigoram ao Conselho Federal, naquilo que couber.
O art. 58 traz competências privativas dos Conselhos Seccionais, as quais
devem ser lidas atentamente para realização do Exame de Ordem. Destacamos
algumas:
a) Primeiro grau recursal (inciso III)
O Conselho Seccional exerce a função de primeiro grau recursal das decisões
tomadas no âmbito dos processos na OAB. Por exemplo, uma decisão tomada no
respectivo Tribunal de Ética e Disciplina estará sujeita a recurso ao Conselho
Seccional ao qual integra, conforme art. 76 do EAOAB;
b) Realizar o exame de ordem (inciso VI)
Importante lembrar que o exame de ordem é unificado nacionalmente,
portanto, é regulamentado pelo Conselho Federal da OAB. Os Conselhos
Seccionais possuem a atribuição de realizá-lo, porém não a de regulamentá-lo;
c) Intervenção nas Subseções ou na Caixa de Assistência ao Advogado
(inciso XV)
Poderá ocorrer quando quaisquer das subseções vinculadas à respectiva
Seccional, ou a Caixa de Assistência aos advogados cometer violação ao
EAOAB, ao CED ou ao RGEOAB. A efetivação da intervenção dependerá de
aprovação por dois terços dos Conselheiros da respectiva Seccional, assegurando
o direito de defesa para respectiva Subseção ou Caixa de Assistência.
Ainda, o inciso XVI do art. 58 do EAOB prevê que caberá ao Conselho
Seccional o desempenho de outras atividades definidas pelo Regulamento Geral.
O RGEOAB, por sua vez, confere outras atribuições aos Conselhos Seccionais
em seu art. 105, o qual sugerimos a leitura integral.
Destaque-se, contudo, a legitimidade ativa ao Conselho Seccional para
ajuizar, após deliberação: a) ação direta de inconstitucionalidade de leis ou atos
normativos estaduais e municipais, em face da Constituição Estadual ou da Lei
Orgânica do Distrito Federal; b) ação civil pública, para defesa de interesses
difusos de caráter geral, coletivos e individuais homogêneos; c) mandado de
segurança coletivo, em defesa de seus inscritos, independentemente de
autorização pessoal dos interessados; d) mandado de injunção, em face da
Constituição Estadual ou da Lei Orgânica do Distrito Federal.

O Quinto Constitucional está relacionado ao inciso XIV do art. 58 acima,


bem como previsto no Provimento 102/2004. A Constituição Federal, por meio
do art. 94, determina que 20% das vagas de alguns Tribunais (ou seja, 1/5)
devam ser preenchidas por advogados ou integrantes do Ministério Público, e
não por juízes de carreira que passaram em concurso público. O objetivo do
Quinto é a oxigenação das ideias, a pluralidade de conhecimentos e a
democratização pela experiência que estes profissionais da advocacia ou do MP
tiveram em suas carreiras.
A OAB forma as listas com o nome dos advogados para indicar a ocupar as
vagas destinadas ao Quinto Constitucional e encaminha aos Tribunais para que
sejam escolhidos, após votação e procedimentos próprios.
Quem tem legitimidade para escolher os nomes dos advogados é o Conselho
Seccional, justamente nos termos do inciso XIV, e não poderá ser nenhum dos
membros do Conselho nem integrante de nenhum órgão da OAB (nem mesmo se
esse advogado pede licença ou renúncia do cargo durante seu mandato).
O advogado que pretende ocupar a lista do Quinto deve preencher os
requisitos previstos no art. 94 da CF e no Provimento 102/2004, tais como:
notório saber jurídico, reputação ilibada, mínimo 10 anos de advocacia,
anteriores ao requerimento, pelo menos 5 anos de advocacia no âmbito daquele
Estado onde localizado o Tribunal ao qual pretenda ingressar e, por fim, não
pode ser maior de 65 anos na data de formalização do pedido.
Comentários
As subseções podem ser criadas pelo Conselho Seccional, sendo que após
sua criação constituem parte autônoma do próprio Conselho Seccional.
Podem abranger área equivalente a um ou mais municípios, ou até mesmo
parte de municípios, inclusive da Capital do Estado, como se dá, por exemplo,
no Estado de São Paulo. A criação de subseção depende da existência de pelo
menos 15 advogados nela estabelecidos profissionalmente.
Caso possua mais de 100 advogados, a subseção poderá contar, também,
com um Conselho próprio, em número a ser fixado pelo Conselho Seccional.
As subseções podem instaurar e instruir processos disciplinares, que serão
julgados pelo TED.
Recomendamos, também, a leitura dos arts. 115 a 120 do RGEOAB, que
tratam especificamente das Subseções.
Comentários
As Caixas de Assistência dos Advogados são órgãos com personalidade
jurídica própria, que podem ser criados pelos Conselhos Seccionais que contem
com mais de 1.500 inscritos.
A finalidade das Caixas é a de prestar assistência aos inscritos nos quadros
da OAB através de benefícios, convênios e, inclusive, seguridade complementar.
Sua diretoria é composta por cinco membros.
Na hipótese de a Caixa de Assistência ser extinta ou ter suas atividades
desativadas, o seu patrimônio será incorporado ao do respectivo Conselho
Seccional a que estiver vinculada.
Comentários
As eleições para todos os cargos eletivos da OAB devem ocorrer na segunda
quinzena do mês de novembro, do último ano do mandado.
Todos os mandatos na OAB são de três anos, sendo que a posse dos eleitos
nos Conselhos Seccionais se dá em primeiro de janeiro do ano subsequente ao da
eleição. No âmbito do Conselho Federal, os mandatos têm início em primeiro de
fevereiro do ano subsequente ao da eleição.
São requisitos de elegibilidade para qualquer cargo:

a) Situação regular perante a OAB;


b) Não ocupar cargo exonerável ad nutum;
c) Não ter sido condenado por infração disciplinar, salvo estando
reabilitado;
d) Exercer efetivamente a advocacia há no mínimo cinco anos.

A eleição da Diretoria do Conselho Federal possui requisitos específicos,


previstos no art. 67 do EAOAB.
A Diretoria do CFOAB é composta por um Presidente, um Vice-Presidente,
um Secretário-Geral, um Secretário Adjunto e um Tesoureiro.
O registro de chapa para candidatura à Diretoria do Conselho Federal deve
vir acompanhado de apoio de no mínimo seis Conselhos Seccionais.
Importante frisar que todos os integrantes da chapa para a Diretoria do
Conselho Federal devem ser Conselheiros Federais, com exceção do Presidente.
O art. 66 do EAOAB traz as hipóteses de extinção do mandato. Vejamos:

a) Caso ocorra qualquer hipótese de cancelamento de inscrição ou


licenciamento profissional. O cancelamento da inscrição e o
licenciamento profissional possuem suas hipóteses previstas,
respectivamente, nos arts. 11 e 12 do EAOAB;
b) Caso o titular do mandado sofra condenação disciplinar;
c) Se o titular do mandato faltar a três reuniões ordinárias consecutivas,
sem justo motivo, não podendo ser reconduzido no mesmo período de
mandato.

Por fim, o voto é obrigatório para todos os advogados inscritos da OAB,


sendo que o não comparecimento para votar, injustificadamente, ocasionará a
imposição de penalidade de multa equivalente a 20% do valor da anuidade. A
justificativa deverá ser apresentada por escrito e será examinada pela Diretoria
do Conselho Seccional.
Comentários
As regras e procedimentos do processo disciplinar contra advogados e
estagiários de Direito estão previstos neste Estatuto, no Código de Ética e
Disciplina, no Regulamento Geral e Provimentos. No entanto, o art. 68 busca
esclarecer acerca da aplicação subsidiária de outras legislações, deixando claro
que a primeira a ser trazida é o Código de Processo Penal.
Isso quer dizer que, quando o processo disciplinar deixar de prever ou
regular alguma situação específica, a legislação penal comum será invocada e
utilizada para preenchimento da lacuna. A razão para tanto é simples: a decisão
final em ambos pode implicar uma sanção, uma penalidade.
De modo diferente do Processo Civil, perante o processo administrativo, ao
representado revel, não se aplicam os efeitos da revelia, seguindo o quanto
disposto no Processo Penal comum. Ou seja, muito embora sua defesa fique
evidentemente prejudicada quando não comparece aos autos, já que será
defendido por advogado dativo que desconhece os fatos, o efeito drástico da
revelia, de se presumirem verdadeiros os fatos narrados na inicial, não se
concretiza automaticamente.
Quanto aos demais procedimentos, internos dentro da OAB, mas não
disciplinares, aplicam-se primeiro as regras do procedimento administrativo
comum e, não havendo estas, as da legislação processual civil.
O processo disciplinar, embora obedeça a regras e formas preestabelecidas
neste Estatuto, não é marcado por extremo formalismo e rigidez, quando
comparado à via judicial, havendo certa flexibilidade com relação aos prazos de
manifestações ou outras providências, que podem ser prorrogados havendo
motivo relevante.

“EMENTA N. 147/2015/SCA-STU. RECURSO N.


49.0000.2015.002435-0/SCA-STU. Recurso ao Conselho Federal.
Locupletamento. Ausência de provas de que a advogada recorrente
tenha locupletado-se dos valores contestados pelo representante,
pela ausência de prova do levantamento de alvará. Princípio in
dubio pro reo. Provimento do recurso. 1) A ausência de provas
inequívocas da prática de infração disciplinar por parte do advogado
indica a aplicação do princípio in dubio pro reo, de modo que a
existência de meros indícios nos autos não é suficiente para
fundamentar a aplicação de sanção disciplinar. 2) O art. 68 do
Estatuto estabelece a aplicação subsidiária da legislação
processual penal comum aos processos disciplinares. 3) Nesse
passo, o art. 386 do CPP autoriza a absolvição sumária do acusado,
mencionando a causa na parte dispositiva, desde que reconheça,
dentre outros, não existir prova suficiente para a condenação. 4)
Recurso provido. Brasília, 20 de outubro de 2015.” (CFOAB,
Luciano Demaria, Presidente. João Bezerra Cavalcante, Relator ad
hoc. (DOU, S.1, 27.10.2015, p. 73))

“Proc. E-4.513/2015 – PROCESSO DISCIPLINAR – CONSULTA


INTEGRAL AOS AUTOS – DIREITO DAS PARTES E DE SEUS
REPRESENTANTES – MEMORIAIS – ENTREGA NOS
ESCRITÓRIOS PROFISSIONAIS DOS RELATORES – FALTA
ÉTICA POR INCIVILIDADE, EXCETO SE OS RELATORES
EXPRESSAMENTE AUTORIZAREM TAL ATO. As partes e seus
representantes têm o direito de examinar integralmente os autos dos
processos disciplinares, sem qualquer restrição, tirando deles as
informações que julgarem de seu interesse. Como acontece no
processo penal, que se aplica subsidiariamente ao processo
disciplinar, consoante o art. 68 do EAOAB, os atos processuais
praticam-se nas serventias respectivas. Excetuam-se apenas
situações de graves riscos para os direitos do réu, o que não ocorre
no processo disciplinar. Assim, procurar o relator no local onde ele
exerce sua advocacia para tratar de questões relativas ao processo
disciplinar constitui falta ética decorrente da incivilidade do ato. A
expressa concordância do relator obviamente exclui a falta ética. A
aplicação de penalidades por falta ética, quando ocorrer, dependerá
do exame concreto do fato ocorrido, não podendo ser tratado em
tese.” (OAB/SP. 21 de Maio de 2015, do parecer e ementa do Rel.
Dr. Zanon de Paula Barros, Rev. Dr. Pedro Paulo Wendel Gasparini,
Presidente Dr. Carlos José Santos da Silva)
Comentários
O art. 69 traz o regramento dos prazos de manifestação nos processos em
geral da OAB, uniformizando-os para 15 dias. Ou seja, qualquer que seja a
providência a ser adotada, defesa prévia, manifestações, razões finais, recursos,
embargos de declaração, serão todos de igual prazo, ou seja, 15 dias.
Como a defesa prévia é anterior à efetiva instauração do procedimento
disciplinar, para que não subsistisse qualquer dúvida, o Novo Código de Ética
traz o prazo de 15 dias da defesa prévia no seu art. 59, embora na verdade nem
fosse necessário um regramento próprio.
Os §§ 1º e 2º tratam do termo inicial para contagem do prazo nos casos de
comunicação por ofício reservado, de notificação pessoal, ou publicação no
Diário Eletrônico da OAB, de modo que o termo inicial para contagem inicia-se
sempre no primeiro dia útil seguinte.
O § 2º foi alterado pela Lei nº 13.688/2018 (publicada em 03/07/2018), que
criou e instituiu o Diário Eletrônico da Ordem dos Advogados do Brasil, a ser
disponibilizado para as publicações de atos, notificações e decisões emanadas
pela Ordem. Isso significa que haverá um veículo eletrônico específico da
Ordem disponível na internet para suas publicações, o que passa a valer a partir
de 03/01/2019. A redação do § 1º do EAOAB fala em “dia útil imediato”,
enquanto o § 2º do EAOAB fala em “dia útil seguinte”. A diferenciação na
redação desses parágrafos poderia gerar, de fato, uma dúvida na contagem dos
prazos, afinal, por que empregar redação diferente quando significariam a
mesma coisa?
O termo “imediato” quer dizer, agora, neste momento, imediatamente, o que
poderia sugerir que o prazo seria iniciado no mesmo dia, caso este dia seja útil,
em se tratando de correspondências pessoais ou ofícios reservados. Ocorre que a
contagem do prazo a partir do mesmo dia em que recebida a notificação poderia
violar o Pleno Contraditório e a Isonomia das partes no processo, já que o
horário do recebimento da correspondência, se às oito horas da manhã, ou se às
17 horas, poderia impactar no prazo da parte para defesa ou de tomada de
providências.
Para sanar qualquer dúvida, o Regulamento Geral do EAOAB resolveu a
questão por meio do art. 139, que determina que “O prazo para qualquer recurso
é de quinze dias, contados do primeiro dia útil seguinte, seja da publicação da
decisão na imprensa oficial, seja da data do recebimento da notificação, anotada
pela Secretaria do órgão da OAB ou pelo agente dos Correios”. Assim, seja
como for, os prazos serão sempre contados a partir do dia útil seguinte à decisão,
seja na hipótese do § 1º ou do § 2º do EAOAB.
Algumas Seccionais seguem os mesmos trâmites da jurisdição comum no
que toca às comunicações pessoais, ou seja, contam o prazo a partir da juntada
do aviso de recebimento da correspondência nos autos da representação, embora
não seja esta a disposição do EAOAB e do Regulamento Geral, que disciplinam
que, nos casos de recebimento de comunicação por ofício reservado, ou de
notificação pessoal, o prazo se inicia no dia útil seguinte ao do recebimento, data
esta que será anotada pela Secretaria do órgão da OAB ou pelo agente dos
Correios.

“EMENTA N. 102/2015/OEP. RECURSO N.


49.0000.2013.002168-5/OEP. Recurso ao Órgão Especial.
Intempestividade. Não conhecimento. Todos os prazos para a
manifestação nos processos administrativos regidos pela Lei n.
8.906/94 são de quinze dias, nos termos do artigo 69 do EAOAB,
inclusive para a interposição de recursos. E o termo inicial para
sua contagem se dá no primeiro dia útil seguinte ao da publicação
da decisão recorrida na imprensa oficial. Recurso protocolado
após decorrido o prazo legal de 15 (quinze) dias não pode ser
conhecido, em razão de sua intempestividade. Recurso não
conhecido. Brasília, 18 de agosto de 2015.” (CFAOB, Claudio
Pacheco Prates Lamachia, Presidente. Afeife Mohamad Hajj,
Relator. (DOU, S.1, 09.09.2015, p. 82))

“Acórdão nº 002/2005 – INTIMAÇÃO – é regular a intimação de


parte no processo disciplinar, quando efetuada por meio da
imprensa oficial, conforme previsto no art. 185, do Regimento
Interno da OAB/SC e § 2º do ART. 69, do EAOAB. II – FALTA
DE PRESTAÇÃO DE CONTAS – APROPRIAÇÃO DE
VALORES – Recusando-se o Advogado a apresentar documentos
de despesas que diz ter realizado, presentes estão os requisitos do
artigo 34, inciso XXI, da Lei 8.906. Aplica-se-lhe a pena de
suspensão de 30 (trinta) dias, no mínimo, prorrogável até que
satisfaça integralmente a dívida, inclusive com a correção
monetária, prevista no artigo 37, I, §§ 1º e 2º, da Lei 8.906. Decisão
Unânime.” (OAB/SC, Processo Disciplinar nº 056/2001, TED-II,
julgado em 01/04/2005)
Comentários
O art. 70 trata da competência territorial para julgamento do processo
disciplinar, estabelecendo que será o local onde ocorrida a infração, e não no
local onde os advogados possuem inscrição, salvo se o ato foi cometido perante
o Conselho Federal, quando terá competência originária para processar e punir.
O § 1º atribui o julgamento dos processos disciplinares ao Tribunal de Ética
e Disciplina, do Conselho Seccional competente, instruídos eles pelas Subseções
ou por relatores do próprio conselho. O Novo Código de Ética e Disciplina
trouxe capítulo próprio prevendo a existência dos Tribunais de Ética e suas
principais competências, por meio da Seção I, arts. 70 a 72, de modo a
padronizar e uniformizar sua atuação no plano nacional, o que não existia no
texto anterior. Hoje, todos os Estados-membros da federação possuem Tribunal
de Ética próprio.
O § 2º trata da comunicação acerca da decisão condenatória irrecorrível, que
deve ser feita imediatamente perante o Conselho Seccional onde o representado
tenha inscrição principal, o que não se confunde com a execução da penalidade,
que será realizada em cuja base territorial tenha ocorrido a infração e tramitado o
processo disciplinar.
A fim de evitar e uniformizar as dúvidas que havia sobre a questão, o Órgão
Especial do Conselho Pleno do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do
Brasil editou a Súmula 08/2016/OEP, no seguinte sentido: “Processo disciplinar.
Decisão condenatória irrecorrível. Execução da sanção disciplinar.
Competência. Comunicação de que trata o art. 70, § 2º, da Lei 8.906/1994. A
competência para a execução de sanção ético-disciplinar é do Tribunal de Ética
e Disciplina do Conselho Seccional em cuja base territorial tenha ocorrido a
infração e tramitado o processo disciplinar, exceto nos casos de competência
originária do Conselho Federal, devendo a decisão condenatória irrecorrível
ser imediatamente comunicada ao Conselho Seccional no qual o advogado
tenha inscrição principal, para controle e registro nos respectivos
assentamentos.”
Ou seja, exceto nos casos de competência originária do Conselho Federal, a
execução de sanção ético-disciplinar ocorrerá perante o Conselho Seccional em
cuja base territorial tenha ocorrido a infração e tramitado o processo disciplinar,
devendo a decisão condenatória irrecorrível ser imediatamente comunicada ao
Conselho Seccional no qual o advogado tenha inscrição principal, para fins de
registro nos assentamentos, lembrando que as condenações irrecorríveis
anteriores não só funcionam como critério agravante da pena, como ainda
motivo ensejador de processo de exclusão (três suspensões transitadas em
julgado), daí sua grande importância.
O § 3º trata da suspensão preventiva do advogado que tenha praticado ato
capaz de gerar repercussão prejudicial à dignidade da advocacia como classe.
O Novo CED previu no art. 71, inciso IV, a suspensão preventiva do
advogado nos casos de conduta suscetível de acarretar repercussão prejudicial à
advocacia, nos termos deste Estatuto. Ainda com relação ao Novo CED, houve
previsão no art. 63 da suspensão preventiva, que deverá ocorrer em sessão
especial designada pelo Presidente do Tribunal, quando serão facultadas ao
representado ou ao seu defensor, a apresentação de defesa, a produção de prova e
sustentação oral.
Diferente do regramento geral do art. 70, caput, de que a competência geral
para o processamento das representações disciplinares seja no local em que
cometida a infração ética, o mesmo não sucede nos casos da suspensão
preventiva, que independentemente de onde a conduta tenha ocorrido, a
competência será do local onde o acusado tenha a inscrição principal.
Caso a deliberação seja efetivamente pela suspensão preventiva, o processo
disciplinar tramitará e deverá ser concluído integralmente no prazo máximo de
90 dias, a teor do que dispõe o § 3º. Caso não termine no prazo assinalado, o que
usualmente acontece, dado o exíguo prazo para tantas providências, a suspensão
preventiva cessará imediatamente.
É relevante lembrar que o recurso a ser dirigido ao Conselho Seccional, na
hipótese de suspensão preventiva, não possui efeito suspensivo, pela redação do
art. 77 do EAOAB, ou seja, é uma das exceções em que a penalidade já poderá
ser cumprida imediatamente na origem, enquanto o recurso sobe com cópia
integral da representação.
A redação do Código de Ética anterior dispunha que a defesa ficaria restrita
ao cabimento da sanção preventiva, o que foi retirado no Novo Código,
possibilitado ao acusado defender-se não só do cabimento, mas ainda do próprio
mérito das infrações, situação que na prática, já era o que frequentemente
acontecia.

“CONFLITO DE COMPETÊNCIA N. 2009.08.07669-05/OEP


(SGD: 49.0000.2015.001559-6/OEP). EMENTA N. 011/2015/OEP.
Conflito de competência. Suspensão preventiva. Art. 70, §§ 1º e 3º,
do Estatuto da Advocacia e da OAB. A competência para
conhecer e julgar representação disciplinar no âmbito da OAB
é, nos termos do caput e § 1º do art. 70 do EAOAB, do local do
fato, inclusive para proceder a suspensão preventiva do
profissional. Caso houver, a partir do fato, repercussão
prejudicial dignada a advocacia, nos termos do § 3º do art. 70,
também o Conselho Seccional do local onde tenha inscrição
principal é competente para suspensão preventiva, tornando-se
prevento, nesse caso, o juízo que primeiro instaurar o processo
de representação. Brasília, 13 de dezembro de 2011.” (CFOAB,
Marcelo Cintra Zarif, Presidente em exercício. Paulo Marcondes
Brincas, Relator para o acórdão. (DOU, S.1, 06.03.2015, p. 200))

“Medida Cautelar Nº. 317099/2013. EMENTA: SUSPENSÃO


PREVENTIVA. COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA DO
TRIBUNAL DE ÉTICA E DISCIPLINA. NATUREZA
CAUTELAR. COGNIÇÃO SUMÁRIA, RESTRITA À
REPERCUSSÃO PREJUDICIAL DA SITUAÇÃO À IMAGEM
E DIGNIDADE DA ADVOCACIA. Notório processo criminal
contra o representado, com denúncia recebida e prisão preventiva
decretada. Natureza infamante dos crimes imputados. Prova
documental robusta. Vários e fortes indícios de ocorrência dos fatos
imputados, com envolvimento do representado. Elementos
suficientes à imediata tutela acautelatória. Atos infamantes à
advocacia, com relevante repercussão à dignidade da profissão.
Suspensão preventiva aplicada.” (OAB/RS, Terceira Turma
Julgadora do TED, Relator Daciano Accorsi Peruffo, Porto Alegre,
07 de maio de 2013, por unanimidade)

Comentários
O art. 71 em referência trata da independência e autonomia da jurisdição
disciplinar em relação à comum, o que significa que determinado fato pode ser
questionado concomitantemente perante o tribunal administrativo da Ordem e a
Justiça Comum.
Quando o fato constituir crime ou contravenção, deverá ser comunicado às
autoridades competentes, como o Ministério Público, por exemplo, para fins de
apuração e responsabilidades. O locupletamento de valores, concurso a clientes
para realização de ato contrário lei ou destinado a fraudá-la, solicitação ou
recebimento de importância para aplicação ilícita ou desonesta, entre outros
exemplos de infrações, poderão ser enquadradas como crime.
A decisão da jurisdição penal comum, completa e exauriente na apuração de
crime, vinculará a decisão administrativa, sendo admissível, no entanto, ação
disciplinar posterior à absolvição no foro criminal, tendo em vista que
determinado fato poderá não se qualificar como crime, mas persistir como falta
disciplinar.
Importante destacar ainda que não poderão as partes de processo disciplinar
no qual não exista decisão condenatória definitiva, transitada em julgado, fazer
juntar cópias nos autos judiciais, dado o sigilo que recai sobre o procedimento e
as informações nele contidas reservadas exclusivamente às partes e seus
respectivos advogados, exceto se a utilização das informações ou cópias seja
expressamente autorizada pelo Tribunal de Ética, que será instado
especificamente para tanto, com a posterior decretação de segredo de justiça pela
autoridade competente.

“Proc. TED nº 520/09. EMENTA: DISCIPLINAR.


LUCUPLETAMENTO. Apropriação de bem que pertencia ao
patrimônio alheio. Na esfera criminal, foi objeto de Inquérito
Policial por ‘notícia crime’ por apropriação indébita.
Ressarcimento posterior. Irrelevância. Representação procedente.
Comete infração disciplinar prevista no art. 34, XX, do EAOAB,
punível com a suspensão, o advogado que se apropria
indevidamente de numerário pertencente a seu cliente,
inobstante feito o ressarcimento depois de movida ação de
cobrança e representação junto OAB. Observado o histórico
ético-disciplinar do Representado, aplica-se a pena de suspensão
pelo prazo de 120 (cento e vinte) dias, na forma do art. 37, I e § 1º
do Estatuto da Advocacia e da OAB”. (OAB/MS, Relator da 2ª
Turma Dr. Antonio Gonçalves Neto, julgamento 16.04.10,
publicado no DJ 2257 de 16.08.10, p. 374)

“E-3.868/2010 – SIGILO NO PROCESSO DISCIPLINAR –


PONDERAÇÃO NECESSÁRIA DAS ESPÉCIES DE SANÇÃO E
DA EXTENSÃO DO SIGILO PARA ALÉM DO TRÂMITE
PROCESSUAL, PARA ALCANÇAR A DECISÃO DEFINITIVA
TRANSITADA EM JULGADO, VEDANDO A SUA
UTILIZAÇÃO EM AÇÃO JUDICIAL. Existem três situações
que devem ser bem delineadas para se estabelecer a possibilidade ou
não de se utilizar elementos do processo disciplinar em ação
judicial: a primeira é a do processo em curso, na qual o sigilo deve
ser mantido até decisão definitiva e com trânsito em julgado; a
segunda, a do processo findo, com aplicação da pena de censura, em
que, por força de lei, o sigilo também deve ser mantido (exceção
feita à excepcional necessidade de utilização de documentos do
processo, condicionada à decretação do segredo de justiça pelo juiz
da causa); e, a terceira, nos casos de suspensão e exclusão, nos quais
cessa o sigilo pela publicidade do seu resultado e pelo interesse
público em todas as suas dimensões.” (OAB/SP, Turma
Deontológica, V.U., em 15/04/2010, do parecer e ementa do Rel. Dr.
Diógenes Madeu, Rev. Dr. Luiz Francisco Torquato Avolio)

Comentários
O caput do art. 72 corresponde ao art. 55 do Novo Código de Ética e trata da
forma como deve se iniciar o processo ético-disciplinar, o que deve acontecer
mediante representação de qualquer autoridade ou pessoa interessada.
As representações de processo disciplinar, na maioria dos casos, são
propostas por ex-clientes ou por outro advogado diretamente atingido pela
infração, ou seja, é usual que as representações partam de interessados diretos na
conduta. Nos casos de infrações que atinjam uma gama indeterminada de
pessoas, como panfletagem, utilização indevida de publicidade e outros, a
conduta pode ser comunicada à OAB por qualquer pessoa, já que a todos
interessa. É o que determina o art. 72, ora em comento.
Caso a infração seja comunicada por alguém que não guarde nenhuma
relação com a conduta, direta ou indireta, o Tribunal de Ética poderá rejeitá-la, já
que muito provavelmente motivada por revanchismos ou motivações pessoais.
No entanto, ainda que a infração não seja admitida pela falta de interesse do
representante, o fato é que a OAB deverá, de ofício, iniciar o procedimento, pois
possui dever de agir na correção de condutas antiéticas (dever de investigação).
Segundo o Manual de Procedimentos do Processo Ético-Disciplinar do
CFOAB, as partes são o representante e o representado. O representante pode ser
qualquer pessoa física ou jurídica. O representado é necessariamente advogado,
sociedade de advogados ou estagiário.
O § 1º dispõe que o Código de Ética e Disciplina estabelecerá os critérios de
admissibilidade da representação e os procedimentos disciplinares, o que no
Novo CED está previsto a partir do art. 55. Os requisitos da petição inicial de
representação estão elencados no art. 57 do Novo CED, enquanto os artigos
seguintes estabelecem os demais procedimentos.
O § 2º trata do sigilo do processo disciplinar, estabelecendo que só terão
acesso às suas informações as partes, seus defensores e a autoridade judiciária
competente. O sigilo do processo disciplinar se justifica pelo princípio da
presunção de inocência, já que o advogado injustamente representado poderia ter
sua credibilidade e respeitabilidade comprometidas com a divulgação prematura
de procedimento disciplinar não julgado contra si.
Durante o curso do processo disciplinar, por disposição do art. 137-D do
Regulamento Geral do EAOAB, e com a finalidade de resguardar o sigilo do
procedimento, as publicações indicarão apenas o número do processo, o órgão
processante ou julgador, as iniciais dos nomes das partes, seus números de
inscrição e os nomes, por extenso, de seus eventuais procuradores, também com
seus números de inscrição.
Ao final, transitada em julgado a decisão, deverá ser providenciada a
execução da penalidade na circunscrição de inscrição do representado, quais
sejam, censura (que pode ser convertida em advertência, em ofício reservado,
sem registro nos assentamentos do inscrito, quando presente circunstância
atenuante), suspensão, exclusão e multa (aplicada cumulativamente com a
censura ou suspensão, quando presente circunstância agravante).
A penalidade de suspensão, após o trânsito em julgado da decisão do
Tribunal de Ética e Disciplina, passa a interessar à sociedade como um todo, já
que os atos judiciais praticados por advogado suspenso são considerados nulos.
Nesse momento, a penalidade não fica protegida por sigilo e é inserida no
cadastro pessoal do advogado junto à OAB, de modo que muitos magistrados e
serventias, antes da realização de cargas e audiências, já consultam a situação
cadastral do causídico no website da Ordem, impedindo-o, se for o caso, de atuar
de forma irregular.
Não obstante a situação descrita acima, tem-se que o procedimento perante o
Tribunal de Ética e Disciplina não poderá ser revelado na via judicial, sendo, em
princípio, vedada a utilização de cópias de peças do procedimento disciplinar no
processo judicial, já que as questões são consideradas internas da advocacia e de
competência exclusiva da Ordem.
É evidente, no entanto, que esta regra poderá sofrer mitigação, em especial
em processos judiciais envolvendo justamente advogados adversos, situação que
poderá exigir que sejam feitas certas revelações, no limite da consciência ética
do profissional, que poderá responder por eventuais excessos, sem prejuízo
ainda, caso entenda pertinente, fazer a solicitação formal ao Tribunal de Ética,
justificando os motivos, quando ficará totalmente resguardado.

“RECURSO N. 49.0000.2013.000701-3/OEP. EMENTA N.


170/2015/OEP. Recurso ao Órgão Especial. Acórdão unânime da
Primeira Turma da Segunda Câmara. Acórdão que mantém decisão
monocrática de indeferimento liminar de recurso, por ausência dos
pressupostos de admissibilidade previstos no artigo 75 da Lei n.
8.906/94. Reiteração de tese já analisada pela decisão recorrida.
Publicação no DOU de parte dispositiva do acórdão. Ausência de
nulidade. Obediência ao sigilo imposto pela Lei n. 8.906/94 aos
processos disciplinares. Faculdade de o advogado requerer vista
dos autos ou solicitar cópias do inteiro teor da decisão
publicada, inclusive por meio eletrônico. Ausência de qualquer
ato do recorrente nesse sentido. Recurso não conhecido. Brasília,
30 de novembro de 2015.” (CFOAB, Claudio Pacheco Prates
Lamachia, Presidente. Afeife Mohamad Hajj, Relator. (DOU, S.1,
11.12.2015, p. 201))

“Acórdão Nº: 7936. EMENTA: LOCUPLETAMENTO À CUSTA


DO CLIENTE E PREJUÍZO A INTERESSE CONFIADO A SEU
PATROCÍNIO – Inocorrência – 1. Advogado acusado de
cometimento de infração ético-disciplinar consistente no fato de que
teria se locupletado e causado prejuízo a seus clientes – 2.
Representação formulada por terceiros que não esses clientes –
3. Questão incontroversa nos autos de que o advogado continua
prestando serviços aos clientes – 4. Não se nega que este Tribunal
de Ética visa coibir a má conduta dos advogados no exercício de sua
profissão e que, para tanto, pode analisar as representações
formuladas por qualquer cidadão. Aliás, inclusive, verificando a
ocorrência da prática de qualquer infração pode agir até mesmo de
ofício (art. 72, do Estatuto da OAB). Entretanto, existem algumas
infrações disciplinares, como as imputadas ao Representado
neste processo, que demandam a formulação de representação
pela própria parte que, hipoteticamente, teria sofrido os
prejuízos – Improcedência da pretensão correicional –
Arquivamento do processo.” (OAB/SP, Sala das Sessões, 14 de
dezembro de 2011. Rel. Dr. Ivan Henrique Moraes Lima, Presidente
Dra. Maria Silvia Leite Silva de Lima)
Comentários
Corresponde ao art. 58 do Novo CED e trata do procedimento inaugural da
representação disciplinar, que poderá ser protocolizada perante o Conselho
Seccional ou da Subseção (se esta dispuser de Conselho), momento em que seu
presidente, ao recebê-la, sorteará o relator que irá conduzir a instrução do feito.
Os relatores dos processos disciplinares são advogados com experiência
mínima comprovada, boa reputação, e com notório saber jurídico, nomeados
segundo o regimento interno de cada secional, mas não necessariamente
membros do Conselho Seccional. Aliás, o próprio CFOAB, por meio da Súmula
01/2007, dispôs que “Inexiste nulidade no julgamento de recurso em matéria
ético-disciplinar realizado por órgão composto por advogado não Conselheiro,
designado nos termos do Regimento Interno do Conselho Seccional.” Ora, se
nem mesmo para julgamento de recursos é imprescindível que o advogado seja
conselheiro, menos ainda com relação ao julgamento pelo Tribunal de Ética, que
é a primeira instância do processo disciplinar.
Note-se, ainda, que, devido ao grande volume de representações em
determinadas Secionais, como São Paulo, para garantir celeridade aos
procedimentos, muitos Tribunais possuem Provimentos que delegam a função de
instrução do processo disciplinar aos assessores da presidência em vez dos
relatores, que receberão os processos apenas para julgamento.
Quanto ao parecer preliminar, assim que recebidos os autos, o relator
verificará os critérios de admissibilidade da representação, tais como se a
representação não é anônima, se o representado está inscrito na Ordem, se a
distribuição foi feita conforme a competência, se existem documentos suficientes
a embasar a representação, se o representante é alguém diretamente interessado
na conduta etc. Se atendidos os requisitos, o relator então emitirá parecer
opinando pela instauração, ou se, desatendidos, pelo arquivamento liminar do
processo disciplinar, o que deverá acontecer no prazo de 30 dias, sob pena de
redistribuição do feito para outro relator, garantindo assim, celeridade e maior
eficiência nas respostas da entidade em relação aos procedimentos éticos.
Neste parecer inicial não serão capituladas as condutas ou analisados
aspectos de mérito, mas tão somente os requisitos básicos de admissibilidade da
representação, previstos em sua maior parte no art. 57 do Novo CED, bem como
análise de indícios mínimos de infração, e não assunto fora dos debates ético-
disciplinares possíveis de serem analisados pela Ordem.

Comentários
A capacidade postulatória do representante e do representado é plena. Caso o
advogado representado encontre-se suspenso da atividade profissional em
decorrência de penalidade a ele fixada em procedimento diverso, poderá, ainda
assim, defender-se, apresentar todas as peças processuais e realizar sustentar
oral, já que o procedimento disciplinar perante a OAB não se confunde com a
jurisdição comum, para a qual estaria efetivamente proibido de qualquer atuação,
não tendo o EAOAB ou o Código de Ética feito qualquer limitação a este
respeito, especialmente pelo interesse envolvido nas representações ético-
disciplinares.
Não é demais lembrar ainda que a Súmula Vinculante 5 do STF dispõe que
“A falta de defesa técnica por advogado no processo administrativo disciplinar
não ofende a Constituição”, o que ratifica a atuação das partes mesmo sem
advogado para lhes defender tecnicamente, bem como autoriza a defesa própria
por advogado suspenso, nesse caso, como parte.
Comentários
Nos termos do art. 59 do Novo CED, recebido o processo com a inicial, já
anexada pela secretaria a ficha cadastral e dos antecedentes de infrações e
penalidades, o relator determinará a notificação do interessado (no caso, o
representante) para que se manifeste prestando esclarecimento ou, se
desnecessária tal providência, notificará o representado para apresentação de sua
defesa prévia, ambos em 15 dias.
Oferecida a defesa prévia, que deve ser acompanhada dos documentos que
possam instruí-la e do rol de testemunhas, até o limite de cinco, será proferido
despacho saneador e, ressalvada a hipótese do § 2º do art. 73 do EAOAB,
designada, se for o caso, audiência para oitiva do representante, do representado
e das testemunhas, ou ainda manifestação do relator pelo indeferimento liminar
da representação, que neste caso, será decidido pelo Presidente do Conselho
Seccional, para determinar seu arquivamento.

Comentários
O procedimento disciplinar perante os Tribunais de Ética é menos rígido e
formal quando comparado à jurisdição comum, de modo que os prazos poderão
ser prorrogados, a juízo do relator, diante de motivo relevante, não só em relação
à defesa prévia, como em relação a todas as demais manifestações.
Comentários
Corresponde ao § 2º do art. 59 do Novo CED, de modo que, uma vez não
localizado o representado após três tentativas de notificação, será procedida sua
intimação via Edital de Chamamento, publicado em imprensa oficial do Estado.
Decorrido in albis o prazo da defesa prévia, será declarada sua revelia, com
nomeação de defensor dativo para sua defesa.
De modo diferente do Processo Civil, perante o Tribunal de Ética e
Disciplina, ao representado revel, não se aplicam os efeitos da revelia, seguindo
o quanto disposto no Processo Penal comum. Ou seja, muito embora sua defesa
fique evidentemente prejudicada quando não comparece aos autos, já que será
defendido por advogado dativo que desconhece os fatos, o efeito drástico da
revelia, de se presumirem verdadeiros os fatos narrados na inicial, não se
concretiza automaticamente.
Por outro lado, a atuação do advogado dativo deverá concretizar a
efetividade da defesa, ou seja, não poderá ser admitida atuação desidiosa ou
perfunctória de sua parte, apresentando argumentos rasos e mal fundamentados,
devendo apresentar seu trabalho de forma eficiente.

Comentários
Correspondente ao art. 68 do Novo CED, o dispositivo em questão trata dos
processos de revisão a serem propostos pelos advogados que foram punidos com
sanção disciplinar, sendo apenas duas as hipóteses de cabimento da revisão: erro
de julgamento ou falsa prova. A revisão do processo disciplinar segue a mesma
essência da revisão criminal, prevista no art. 621 do Código de Processo Penal,
que também é baseada em erro de julgamento e falsa prova.
Isso quer dizer que não caberá uma nova análise de mérito da conduta do
advogado e da penalidade fixada em razão de inconformismo ou porque o
causídico renovou sua argumentação. As razões do pedido de revisão deverão
estar bem delineadas naquelas duas hipóteses objetivas possíveis.
A título exemplificativo para o primeiro caso, poder-se-ia pensar em uma
decisão que caminhou durante toda sua fundamentação para uma sanção de
censura, aplicável por disposição legal à infração questionada no processo, mas
acabou, na parte dispositiva e na ementa final do acórdão, prevendo a pena de
suspensão da atividade profissional, sem que tenha o advogado recorrido da
decisão. Neste caso, por um erro efetivo de julgamento, o patrono se vê
impedido de advogar, podendo distribuir pedido de revisão perante o mesmo
órgão, com vistas a afastá-lo.
No segundo caso, a hipótese é de falsa prova, ou seja, após o encerramento
do processo disciplinar, o advogado obtém por outros meios, especialmente o
judicial, prova hábil a demonstrar que determinada prova utilizada contra si para
fins de condenação era falsa, ensejando, portanto, revisão daquela sanção.
Sobre o prazo para se requerer a revisão do processo disciplinar, nada dispôs
o EAOAB, nem o Código de Ética. No entanto, nos termos do art. 68 do
EAOAB, aplicam-se subsidiariamente ao processo disciplinar as regras da
legislação processual penal comum. Portanto, por aplicação subsidiária do art.
622 do Código de Processo Penal, que trata da revisão criminal, tem-se que
igualmente a revisão do processo disciplinar poderá ser requerida a qualquer
tempo.
As demais circunstâncias da revisão criminal, tais como legitimidade,
competência e demais procedimento e processamentos estão previstas todas no
art. 68 do Novo CED.
Comentários
O advogado excluído dos quadros da Ordem em decorrência de processo
disciplinar deverá providenciar a devolução de sua carteira da OAB, o que nem
sempre acontece voluntariamente, de modo que o Conselho Seccional, ou o
próprio TED, poderá adotar medidas administrativas, como cartas, notificações,
ou até medidas judiciais, de obrigação de fazer, para fins de cumprimento da
obrigação.
O advogado suspenso temporariamente que não entrega a carteira à Ordem,
quando solicitada, incorre em nova infração ética, prevista no inciso XVI do art.
34 deste Estatuto.

“PROPOSIÇÃO N. 49.0000.2015.006992-3/OEP. Assunto:


Proposição. Edição de Súmula. Competência para aplicação de
penalidade aos profissionais sancionados que tenham inscrição
principal em outro Estado. Art. 70, § 2º c/c art. 74 do EAOAB.
EMENTA N. 213/2015/OEP. Proposição de Súmula. A competência
para aplicar a penalidade é da Seccional onde o advogado possui
seu registro principal e a partir do qual exerce regularmente a
profissão. Brasília, 30 de novembro de 2015.” (CFOAB, Claudio
Pacheco Prates Lamachia – Presidente, Sérgio Eduardo Fisher –
Relator (DOU, S.1, 11.12.2015, p. 205))
Comentários
Contra decisões do Tribunal de Ética e Disciplina, seja em relação à decisão
de arquivamento prévio da representação, seja em relação ao acórdão proferido
pelo colegiado da Turma Disciplinar, caberá recurso ao Conselho Seccional, que
possui competência privativa para tanto, nos termos dos arts. 58, III, e 76 do
EAOAB.
No âmbito do Conselho Seccional, caso a decisão não tenha sido unânime
ou, sendo ela unânime, venha contrariar as disposições deste EAOAB, decisão
do Conselho Federal ou de outro Conselho Seccional ou, ainda, o regulamento
geral, o Código de Ética e Disciplina e os Provimentos, caberá recurso ao
Conselho Federal. É o que prevê o art. 75 em referência, de modo que o recurso
poderá ser interposto pelo interessado, ou pelo Presidente do respectivo
Conselho Seccional (parágrafo único).
Não é possível a qualquer das partes recorrer de decisão proferida pelo
Tribunal de Ética diretamente ao Conselho Federal, sob pena de supressão de
instância. No caso de recurso ao Conselho Federal, as questões de fato não
poderão ser revistas. Assim, caso o recurso não esteja enquadrado nas hipóteses
ora previstas, restará não recebido.
O recurso no procedimento disciplinar é inominado, e será sempre de 15
dias, a teor do que dispõe o art. 69 do EAOAB. Muito embora o formalismo do
procedimento disciplinar não seja extremamente rígido, admitindo prorrogações
de diversos prazos e manifestações, com relação ao recurso a ser dirigido ao
órgão hierarquicamente superior, não se admite prorrogação de prazo,
considerando intempestivo caso protocolizado após o prazo assinado.
Não existe a previsão de recurso contra decisões interlocutórias proferidas no
curso do processo disciplinar, tendo sido este regramento consolidado pela
Súmula 04/2013 do Órgão Especial do CFOAB, com a seguinte redação:
“Agravo. Falta de previsão legal. Não cabimento no âmbito dos processos
administrativos da Ordem dos Advogados do Brasil. Os recursos são apenas os
previstos no art. 75 do Estatuto e no art. 85 do Regulamento Geral”.
Os principais direitos e obrigações estão dispostos efetivamente neste
EAOAB, mas as regras próprias e procedimentos operacionais em relação aos
recursos estão esmiuçados no Regulamento Geral da Advocacia e no Regimento
Interno de cada Conselho Seccional, e cujas disposições possuem igual força
obrigatória.

“RECURSO N. 49.0000.2015.003341-3/PCA. Ementa n.


114/2015/PCA. Estabelece o art. 75 do Estatuto da Ordem que
caberá recurso ao Conselho Federal nas hipóteses de decisões
definitivas proferidas pelo Conselho Seccional quando não tenham
sido unânimes ou, sendo unânimes, contrariem esta Lei, decisão do
Conselho Federal ou de outro Conselho Seccional e, ainda, o
Regulamento Geral, o Código de Ética e Disciplina e os
Provimentos. A decisão proferida pela Seccional da OAB/RS está
em total consonância com a legislação e com o posicionamento do
Conselho Federal da OAB. O recorrente não apresenta nenhuma
contrariedade à legislação ou a decisões do Conselho para atender
ao disposto no art. 75 do EAOAB. Assim, não estando atendidos os
requisitos de admissibilidade estabelecidos no art. 75 do EAOAB,
voto pelo não recebimento do recurso em exame. Brasília, 30 de
novembro de 2015.” (CFOAB, Cláudio Pereira de Souza Neto –
Presidente, Fernando Carlos Araujo de Paiva – Relator (DOU, S.1,
15.12.2015, p. 250))
Comentários
O artigo 76 trata dos recursos ao Conselho Seccional, que serão interpostos
contra decisões proferidas pelo seu próprio presidente, pelo Tribunal de Ética e
Disciplina, ou pela diretoria da Subseção ou da Caixa de Assistência dos
Advogados.
O Conselho Seccional é composto por conselheiros em número proporcional
ao de seus inscritos, exercendo as competências privativas dispostas no art. 58
do EAOAB, entre elas, inciso III, o julgamento de recursos nas hipóteses aqui
trazidas.
Nos termos do Regulamento Geral, caberá recurso ao Conselho Seccional
contra decisão do Presidente ou da Diretoria da Subseção, mesmo quando
houver conselho na Subseção (art. 143). Também caberá recurso ao Conselho
Seccional, contra decisão da Comissão Eleitoral (art. 130).
Não poderá o Presidente do Tribunal de Ética encaminhar diretamente
processo ao Conselho Seccional, sem decisão colegiada anterior da turma
julgadora do Tribunal de Ética, sob pena de supressão de instância.
O Regimento Interno do Conselho Seccional disciplinará a forma de
cabimento dos recursos no âmbito de cada órgão julgador.

“Acórdão nº: 1433. EMENTA: PROCESSO DE EXCLUSÃO


INICIADO DE OFÍCIO POR PRESIDENTE DE TRIBUNAL DE
ÉTICA DEVIDO A MAIS DE TRÊS SUSPENSÕES DO
ADVOGADO, REMETIDO AO CONSELHO SECCIONAL POR
DECISÃO MONOCRÁTICA – RETORNO PARA DECISÃO DA
TURMA JULGADORA – NECESSIDADE SOB PENA DE
NULIDADE. Presidente do Tribunal de Ética que instaurou de
ofício processo de exclusão de advogado devido a mais de três
suspensões, remetendo ao Conselho Seccional por decisão
monocrática, entendendo o E. Conselho que referida decisão
necessita ser apreciada pela Turma Julgadora do Tribunal de origem
e não só pelo Presidente, sob pena de nulidade, havendo, portanto,
necessidade de julgamento pela Turma Julgadora do Tribunal de
Ética, em conformidade com o Recurso no (...)/SCA-PTU – Ementa
nº (...) – SCA-PTU.” (OAB/SP – Sala das Sessões, 22 de agosto de
2014. Rel. ad hoc: Dr. Cristiano Biem Cunha Carvalho. Presidente
de sala: Dr. Achilles Benedicto Sormani)

“RECURSO N. 49.0000.2015.003704-4/SCA-TTU. EMENTA N.


104/2015/SCA-TTU. Recurso ao Conselho Federal. Mandado de
segurança. Não cabimento na esfera administrativa da OAB.
Inteligência dos artigos 75 e 76 da Lei nº 8.906/94. Súmula
04/2013-OEP. Intempestividade do recurso interposto contra
decisão do Tribunal de Ética e Disciplina. Preclusão. Coisa julgada
administrativa. Recurso não conhecido. 1) No âmbito dos
processos administrativos regidos pela Lei nº 8.906/94, as
decisões proferidas pelos órgãos julgadores somente podem ser
impugnadas por meio dos recursos previstos nos artigos 75 e 76
do Estatuto da Advocacia e da OAB. 2) A intempestividade de
recurso interposto ao Conselho Seccional, contra decisão do
Tribunal de Ética e Disciplina, induz ao trânsito em julgado e à
coisa julgada administrativa, ou seja, o esgotamento dos meios
internos de revisão da decisão, cuja autoridade impede a reabertura
de controvérsia no processo. 3) Recurso não conhecido. Brasília, 18
de agosto de 2015.” (CFOAB – Renato da Costa Figueira,
Presidente. Gedeon Batista Pitaluga Junior, Relator ad hoc. (DOU,
S.1, 26.08.2015, p. 118-121))
Comentários
O artigo em referência trata do efeito dos recursos no procedimento
administrativo regulado por esta lei, determinando que sempre terão efeito
suspensivo em relação à decisão recorrida, exceto quando tratarem de eleições,
de suspensão preventiva decidida pelo Tribunal de Ética e Disciplina, e de
cancelamento da inscrição obtida com falsa prova.
O efeito suspensivo como regra geral se justifica pela presunção de inocência
do representado e pelo fato de se tratar de processo disciplinar, cujas sanções são
extremamente gravosas ao advogado, que poderá ficar suspenso e impedido de
praticar qualquer ato privativo da advocacia em razão de uma condenação
transitada em julgada, daí a necessidade de se aguardar a decisão final.
Por outro lado, existem hipóteses que não justificam o efeito suspensivo ao
recurso, ao contrário, faria a decisão proferida perder ou prejudicar gravemente
sua finalidade prática, de modo que nessas situações, o recurso terá apenas efeito
devolutivo, com possibilidade de execução imediata. As hipóteses trazidas no
dispositivo como exceção ao efeito suspensivo são: recurso contra decisão em
eleições (arts. 63 e seguintes), recurso contra decisão de suspensão preventiva
decidida pelo Tribunal de Ética e Disciplina, e recurso contra o cancelamento da
inscrição obtida com falsa prova.
O efeito meramente devolutivo no caso de eleições se justifica tendo em
vista o encerramento do mandato anterior com o pleito eleitoral, sem que seja
possível a entidade ficar sem novos eleitos nos cargos. A exceção no caso da
suspensão preventiva é a própria proteção da dignidade da advocacia, tendo em
vista a gravidade de ocorrências quando da aplicação dessa medida em relação
ao acusado. Por fim, a última hipótese de não atribuição de efeito suspensivo ao
recurso é o cancelamento da inscrição obtida com falsa prova, o que abriria
margem para retardar e admitir de forma temerária (ainda que temporária) o
exercício ilegal da profissão, além do eventual cometimento de crime na
configuração daquela infração.

“RECURSO N. 49.0000.2015.006114-0/SCA-PTU. EMENTA N.


124/2015/SCA-PTU. Recurso ao Conselho Federal. Notificação
pessoal para os atos processuais. Desnecessidade. Notificações
expedidas nos termos do artigo 137-D do Regulamento Geral.
Validade. Preenchimento de lista de controle de votação.
Desnecessidade. Votação unânime. Suposta irregularidade que não
trouxe qualquer prejuízo à defesa dos recorrentes. Efeito suspensivo
a recurso. Efeito que decorre expressamente do artigo 77 da Lei nº
8.906/94. Impossibilidade de execução das decisões recorridas até
decisão final do processo. O efeito suspensivo atribuído por lei aos
recursos não é discricionário, mas vinculado. Recurso conhecido e
parcialmente provido, para atribuir efeito suspensivo ao recurso
interposto, afastadas as preliminares arguidas. Brasília, 22 de
setembro de 2015.” (CFOAB – Cláudio Stábile Ribeiro, Presidente.
Elton Sadi Fulber, Relator. (DOU, S.1, 29.09.2015, p. 111))

“Ementa 43/2005/OEP: Honorários Advocatícios contratados em


30% sobre o valor bruto do êxito para patrocinar Reclamatória, pelo
empregado, perante a Justiça Trabalhista. Ação extinta por acordo
celebrado entre partes. Cobrança, ainda, de honorários
sucumbenciais, afora descontar reembolso de despesas. Quantias
que somadas ultrapassam o valor recebido pela parte. Cobrança
abusiva de honorários. Violação ao art. 34, item XIX, do
Estatuto da Advocacia da OAB, c/c o art. 38, do Código de Ética.
Recurso conhecido, mas improvido, para manter o julgado da douta
2ª Câmara deste Conselho Federal. Brasília, 07 de novembro de
2005.” (CFOAB, 2ª Turma da Segunda Câmara, Recurso n.
0004/2005/OEP. Origem: Conselho Seccional da OAB/São Paulo,
Processo 6693/99, 13.12.1999. Processo nº SC 1573/2002 de
21.03.2002. Relator: Conselheiro Federal Ímero Devens (ES). Vista:
Conselheiro Sergio Ferraz (AC), DJ, 14.12.2005, p. 377, S 1)
Comentários
Dentre as disposições gerais e transitórias deve-se destacar aquela atinente ao
regime dos servidores da OAB.
Conforme art. 79, a tais servidores se aplicará o regime trabalhista, ou seja, o
regime da Consolidação das Leis do Trabalho. Vimos, quando da análise ao art.
44, que a OAB, por não manter vínculo de hierarquia ou subordinação com
qualquer dos órgãos da Administração Pública, é considerada uma autarquia sui
generis, não sendo compatível com sua natureza jurídica, o regime estatutário
dos servidores públicos. Tal questão fora decidida pelo Supremo Tribunal
Federal, na ADin 3.026.
O parágrafo 1º do art. 79 do EAOAB concede direito de opção ao regime
trabalhista aos servidores da OAB. Tal opção existe pois a Lei 4.215/1963, que
disciplinava o antigo Estatuto dos Advogados, em seu art. 148, estabelecia aos
servidores da OAB o regime estatutário próprio dos funcionários públicos.
Não obstante o regime estatutário na OAB tenha sido extinto pelo Decreto-
lei 968 de 1969, como algumas situações deste tipo ainda existiam em alguns
Conselhos Seccionais, entendeu por bem o legislador em facultar referida opção
nas disposições transitórias do atual estatuto.
TÍTULO I
DA ÉTICA DO ADVOGADO

CAPÍTULO I
Dos Princípios Fundamentais

Comentários
A ética profissional do advogado, objeto da matéria que se denomina
“Deontologia Jurídica”, estuda os deveres éticos da classe advocatícia, os quais,
por sua vez, são regulados pelo Código de Ética e Disciplina (CED) editado pelo
Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (CFOAB).
O atual Estatuto da OAB (EAOAB), editado pela Lei Federal 8.906/1994,
em vez de tratar exaustivamente dos deveres éticos do advogado, os remeteu ao
CED, o qual o advogado é obrigado a cumprir rigorosamente, consoante dispõe
o art. 33 do EAOAB.
O Novo Código de Ética, tal como o anterior, teve seu primeiro título
reservado ao tema “Da ética do advogado”, ao passo que o segundo título é
reservado ao processo disciplinar.
O presente capítulo tratará dos princípios fundamentais que regem a atuação
do advogado, isto é, traçará as normas elementares de cunho ético que devem
fundar a atividade dos advogados, definindo deveres e abstenções, bem como
delineando as diretrizes axiológicas gerais que devem nortear toda atividade
advocatícia, tanto em juízo como fora dele.
Art. 1º O exercício da advocacia exige conduta compatível com
os preceitos deste Código, do Estatuto, do Regulamento Geral,
dos Provimentos e com os princípios da moral individual, social e
profissional.

Comentários
A redação do presente dispositivo é quase idêntica à do art. 1º do CED
anterior e traz as diretrizes deontológicas básicas ao advogado.
O dispositivo em questão subordina o advogado não apenas ao próprio CED,
como também aos demais diplomas normativos que menciona. De se notar, em
especial, que entre estes, o único que possui status formal de lei é o Estatuto da
Advocacia e da OAB, veiculado pela Lei 8.906/1994. O art. 33 do Estatuto, por
sua vez, impõe ao advogado o rigoroso cumprimento das normas constantes do
Código de Ética e Disciplina, cuja edição compete ao Conselho Federal da OAB,
conforme art. 54, V, do mencionado Estatuto. De se destacar, contudo, que o
Código de Ética e Disciplina possui a natureza jurídica de ato administrativo
normativo. Isto é, trata-se de um ato administrativo geral e abstrato, emanado do
Conselho Federal da OAB e aplicável perante a generalidade dos advogados em
seu exercício profissional.
Tratando-se de ato administrativo, certo é que se encontra submetido à estrita
legalidade, devendo, portanto, obedecer aos ditames do Estatuto, com o qual não
pode se incompatibilizar.
Coloca-se, de igual modo, a moral individual, social e profissional como
cerne da conduta do advogado. A moral, no dispositivo ora em comento, acaba
por servir de fundamentação para positivação de diversos deveres que são
atribuídos aos advogados pelos demais dispositivos do CED, que extrairão da
fundamentação moral positivada o seu fundamento de validade, na medida em
que determinarão os deveres advindos de um conceito que é inicialmente
indeterminado no plano jurídico. Neste sentido, por exemplo, as vedações de
patrocínio de causas contra ex-clientes antes do período mínimo de dois anos,
entre outros, que serão individualmente analisados no decorrer dos comentários.
Art. 2º O advogado, indispensável à administração da Justiça, é
defensor do Estado Democrático de Direito, dos direitos
humanos e garantias fundamentais, da cidadania, da moralidade,
da Justiça e da paz social, cumprindo-lhe exercer seu ministério
em consonância com a sua elevada função pública e com os
valores que lhe são inerentes.

Comentários
O art. 2º do Novo CED segue estrutura similar à do art. 2º do CED anterior,
demonstrando, em seu caput, a essencialidade da função despendida pelo
advogado, ao passo que em seus incisos arrola uma série de deveres ao
profissional. A disposição relacionada à essencialidade do advogado advém do
próprio texto constitucional, que em seu art. 133 estabelece o advogado como
indispensável à administração da justiça.
A indispensabilidade do advogado, por sua vez, de natureza constitucional, é
de claro interesse eminentemente público, uma vez que busca assegurar a
assistência jurídica integral aos cidadãos que, quando não detiverem recursos
suficientes para contratação de causídicos privados, deverão contar com
assistência jurídica gratuita a ser fornecida pela Defensoria Pública.

Parágrafo único. São deveres do advogado:


I – preservar, em sua conduta, a honra, a nobreza e a dignidade
da profissão, zelando pelo caráter de essencialidade e
indispensabilidade da advocacia;

Comentários
O Novo CED, assim, tal como o anterior, repisa as características imanentes
à advocacia, entre elas a essencialidade e a indispensabilidade. O advogado, ao
atuar, presta serviço público e exerce função social (art. 2º, § 2º, do EOAB).
Não por outra razão, o EOAB, em seu art. 6º, de igual modo, estabelece
inexistir relação de hierarquia ou subordinação entre advogados, membros do
Ministério Público e magistrados.
A atuação ética do advogado, portanto, deve considerar sua própria
essencialidade, não apenas àquele que o constituiu, mas à Jurisdição estatal
como um todo. De tais características emanam diversas outras disposições, por
exemplo, o § 2º do art. 31 do EOAB, que estabelece que em sua atuação
profissional o advogado não deve ser detido por qualquer receio de desagradar o
magistrado ou a qualquer outra autoridade pública.
A essencialidade da advocacia e a necessidade de impor uma igualdade
hierárquica entre advogados, membros do Ministério Público e magistrados,
conduzem, de igual modo, à existência da imunidade profissional do advogado e
sua inviolabilidade pelos atos que praticar no exercício da profissão, consoante
dispõem os arts. 2º, § 3º, e 7º, § 2º, do EOAB.

II – atuar com destemor, independência, honestidade, decoro,


veracidade, lealdade, dignidade e boa-fé;

Comentários
Basicamente, o inciso II do art. 2º do Novo CED traz a questão da probidade
do advogado em seu exercício profissional. O advogado deve atuar de acordo
com os ditames da boa-fé, da honestidade, o que repercutirá em diversos âmbitos
de sua conduta e, por isso, constitui um dever geral de cada advogado.
De se sublinhar o destaque que referida matéria recebe nas tratativas
relativas às relações do advogado com seus clientes e com a parte contrária.
Outro ponto de grande relevância trazido pelo dispositivo ora em comento é
a independência do advogado, que é um dos aspectos de maior destaque na
atuação do advogado. A independência do advogado deve ser sempre
preservada, não importando se diante de atos praticados judicialmente ou, ainda,
no campo extrajudicial, como em uma atividade de consultoria jurídica.
A independência do advogado, de igual modo, é elemento primordial para o
controle de abusos de autoridade e de respeito ao ordenamento jurídico pelo
próprio governo, razão pela qual liga-se à própria existência de um Estado de
Direito.
A independência da advocacia é, também, projetada na própria estruturação
da Ordem dos Advogados do Brasil, que, segundo o § 1º do art. 44 do EAOAB,
“não mantém com órgãos da Administração Pública qualquer vínculo funcional
ou hierárquico”.
Nas palavras de Paulo Lôbo:

“Na defesa dos interesses sob seu patrocínio, o advogado nunca


deve fazer concessões que afetem sua independência, inclusive em
face do próprio cliente. Na escolha dos meios jurídicos e na
condução de seu trabalho profissional, o advogado nunca deve
permitir que haja tutela direta ou indireta do cliente, de terceiro ou
do magistrado. É sua, inteira e indelegável, a responsabilidade pela
direção técnica da causa ou da questão.
Além da independência técnica, o advogado deve preservar sua
independência política e de consciência, jamais permitindo que os
interesses do cliente confundam-se com os seus. O advogado não é
e nunca pode ser o substituto da parte; é o patrono. Por outro lado,
em momento algum deve ele deixar-se levar pelas emoções,
sentimentos e impulsos do cliente, que deverão ser retidos à porta de
seu escritório” (LÔBO, Paulo. Comentários ao estatuto da
advocacia e da OAB. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 194).

Ainda, não é de se ignorar que o advogado possui o dever de ser fiel à


verdade, o que elucida um verdadeiro “mito” existente na prática forense de que
à própria parte ou ao advogado desta seria lícito mentir. O advogado que
deliberadamente falseia a verdade atua de forma antiética. De igual modo, no
campo processual, referida conduta será considerada litigância de má-fé e
também a violação de um dever processual, conforme arts. 14, I, e 17, II, do
CPC/1973, que são repisados pelo Novo CPC, em seus arts. 77, I, e 80, II.
O próprio Novo CED, como veremos adiante, tal como fazia o CED anterior,
prevê em seu art. 6º que “é defeso ao advogado expor os fatos em Juízo ou
administrativamente falseando deliberadamente a verdade”, denotando-se a
influência que o princípio fundamental da atividade advocatícia ora em comento
gera nas disposições em geral acerca da ética do advogado.

III – velar por sua reputação pessoal e profissional;

Comentários
A reputação do advogado é considerada pelo Novo CED, tal como era
analogamente pelo mesmo dispositivo do CED anterior. O motivo da existência
de referido dever ao advogado se dá, principalmente, pela repercussão dos atos
do advogado para a classe profissional que o mesmo integra, e pela qual deve
zelar. Assim, considera-se que o ato praticado por um advogado individualmente
pode repercutir negativamente para toda a classe dos advogados, razão pela qual
se fundamenta a existência do dever ora em comento. Veremos a aplicação de tal
disposição, por exemplo, na disciplinação da participação de advogados em
programas da mídia, a qual, apesar de não ser vedada, é minuciosamente
regulada, em face da repercussão da participação sobre toda a classe.

Julgados

Ementa: Profissional que age com inobservância do dever legal da


advocacia, incorrendo em falta de dignidade da profissão, falta de
honestidade e irrelevando sua reputação pessoal e profissional,
assim como mantém consulta incompatível com a advocacia –
Infração ético-disciplinar – Configuração. Advogado que resta
vinculado a processo que visa pagamento de diferença em Ação
Judicial, valendo-se de procuração inverídica onde sequer o
constituinte autor da Ação tinha conhecimento de sua existência,
estando aparente a infração ao art. 2º, parágrafo único, I, II e III, do
CED e ao art. 34, XIX e XX, do EAOAB, sendo a procedência do
processo disciplinar a medida de rigor.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de processo disciplinar
10R0002092012, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por unanimidade em
julgar procedente em parte, nos termos do voto do relator e
retificação acima, a representação e aplicar ao querelado a pena de
suspensão do exercício profissional pelo prazo de 06 (seis) meses,
cumulada com multa no valor de 06 (seis) anuidades, por violação
ao art. 2º, parágrafo único, I, II e III, do Código de Ética e
Disciplina e configuradas as infrações previstas nos incisos XIX e
XX, do art. 34, do Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994,
nos termos do art. 37, II, § 1º, combinado com o art. 39, do mesmo
diploma legal. Sala das Sessões, 26 de abril de 2013. Rel. Dr.
Franco Vicente Frontera Filho.

Ementa: Representação originária de magistrado. Alegação de


desrespeito e tumulto. Magistrado que se recusa a constar em ata as
perguntas indeferidas. Independência do advogado. Defesa dos
interesses do cliente. Inexistência de infração ética. Absolvição – o
advogado que agindo respeitosamente se mantém firme, não
submisso e insiste para que o magistrado dê cumprimento a lei,
anotando em ata as perguntas indeferidas, de modo a atuar
honrosamente na defesa dos interesses de seu cliente não comete
infração disciplinar, pois apenas exerce o seu mister, já que não está
o causídico submisso aos desmandos do juiz, não se podendo falar
de quebra de urbanidade.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
05R0004752009, acordam os membros da Décima Oitava Turma
Disciplinar do TED, por unanimidade, nos termos do voto do
Relator, em desacolher a representação e determinar o arquivamento
dos autos, constando queixa indevida. Sala das sessões, 30 de março
de 2012. Rel. Dr. Plinio Henrique Gasparini Campos.

Ementa: Advogado que fornece endereço da própria mãe sendo tal


endereço estranho ao local da ocorrência dos fatos para ajuizar ação
de indenização em favor de cliente que sabia residir em município
diverso – Violação aos incisos I, II e III do art. 2º do CED, ou seja,
não preservou em sua conduta a nobreza e a dignidade da profissão,
bem como não atuou com honestidade, veracidade, lealdade,
dignidade e boa-fé e não velou por sua reputação pessoal e
profissional – Representação procedente.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
10R0002532011, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por unanimidade em
julgar procedente a representação e aplicar à querelada a pena de
censura, convertida em advertência, em ofício reservado, por
violação aos incisos I, II e III do art. 2º do Código de Ética e
Disciplina, nos termos do art. 36, II, parágrafo único, do Estatuto da
Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994, nos termos do voto do relator.
Sala das Sessões, 23 de novembro de 2012. Rel. Dr. Tiony
Aparecido de Barros.

IV – empenhar-se, permanentemente, no aperfeiçoamento


pessoal e profissional;

Comentários
De igual modo, o advogado deve prezar pela sua boa formação para
desempenho dos atos da profissão e seu constante aprimoramento, uma vez que,
consoante já visto, o advogado presta serviço público e exerce função social (art.
2º, § 1º, do EOAB). Os processos judiciais, por sua vez, regra geral, são
públicos, de modo que qualquer pessoa pode ter acesso aos autos.
Desse modo, o exercício de atividades profissionais de forma desidiosa pelo
advogado acaba por atingir toda a classe, uma vez que denota atuação
profissionalmente inepta. De se destacar que o advogado que reiteradamente
incide em erros que evidenciam sua inépcia profissional incorrerá na infração
ética tipificada no inciso XXIV do art. 34 do EOAB, penalizada com suspensão
dos quadros da OAB até que se prestem novas provas de habilitação, nos termos
do § 3º do art. 37 do EOAB.

Julgados
Ementa: Representação fundada em inépcia profissional e abuso de
linguagem. Advogado que descuida na redação de petições e comete
erros técnicos injustificáveis. Ausência de zelo que fere sua
reputação profissional e a própria Advocacia, denotando também
falta de empenho em aprimoramento técnico. Utilização, ademais,
de expressões ofensivas e insinuações contra a parte contrária
totalmente descontextualizadas da demanda. Infração por
desrespeito aos arts. 2º, parágrafo único, I, II, III e IV, 44 e 45 do
Código de Ética c/c arts. 33, 34, XV, e 36, II, do EOAB.
Procedência da Representação para aplicação de pena de censura,
convertida em advertência em ofício reservado.
Vistos, relatados e discutidos estes autos do Processo Disciplinar
03R0024072009 (3.981/2008), acordam os membros da Terceira
Turma Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por maioria,
nos termos do voto do relator divergente, em julgar procedente a
representação, e, aplicar ao Representado, a pena de censura,
convertida em advertência, em ofício reservado, sem registro nos
assentamentos do inscrito, por violação ao art. 2º, parágrafo único, I,
II, III e IV, e arts. 44 e 45 do Código de Ética e Disciplina, e
configurada a infração prevista no inciso XV, do art. 34 do Estatuto,
nos termos do art. 36, II, parágrafo único, do mesmo diploma legal.
Vencido o relator originário Felício Helito Júnior.
Sala das Sessões, 28 de junho de 2012. Rel. (voto divergente) Dr.
Antonio de Pádua Soubhie Nogueira.

Ementa: Inépcia profissional. Utilização de expedientes judiciais


manifestamente inapropriados. Caracterização de inépcia
profissional em virtude da prática de erros graves e reiterados em
processos distintos. Infração ao art. 34, XXIV, do EAOAB.
Representação procedente.
Vistos, relatados e discutidos estes autos do processo disciplinar
16R0003422012 (Antigo 255/2012), acordam os membros da
Décima Sexta Turma do Tribunal de Ética da Ordem dos
Advogados do Brasil, Seção de São Paulo, por unanimidade, nos
termos do voto do Relator, em julgar procedente a representação,
por configurada a infração prevista no inciso XXIV do art. 34 do
EAOAB, Lei 8.906/1994, aplicando à representada a pena de
suspensão do exercício profissional, pelo prazo de 60 (sessenta)
dias, prorrogável até que preste novas provas de habilitação,
cumulada com multa no valor de 1 (uma) anuidade, nos termos do
art. 37, I e II, § 3º, do mesmo diploma legal. Sala das sessões, 28 de
março de 2014. Rel.: Dr. Álvaro Fabiano Toledo.

V – contribuir para o aprimoramento das instituições, do Direito e


das leis;

Comentários
Conforme já dito, a advocacia é uma atividade indispensável à administração
da justiça (art. 133 da Constituição Federal e art. 2º do EOAB). Além do mais,
ainda que exercida em caráter privado, o advogado presta serviço público e
exerce função social.
Daí, podemos aferir que a atuação do advogado, enquanto indispensável à
própria função jurisdicional do Estado traz ao profissional o dever de, em sua
atuação, buscar aprimorar as instituições, o próprio Direito e as leis, conforme
veicula o dispositivo ora comentado.
Pode-se concluir, assim, que atuação do advogado constitui autêntico múnus
público, do qual se justifica o presente dever. Neste sentido:

“Múnus público é o encargo a que não se pode fugir, dadas as


circunstâncias, no interesse social. A advocacia, além de profissão, é
múnus, pois cumpre o encargo indeclinável de contribuir para a
realização da justiça, ao lado do patrocínio da causa, quando atua
em juízo. Nesse sentido, é dever que não decorre de ofício ou cargo
público.
(...)
A advocacia, sobretudo quando ministrada em caráter privado, é
exercida segundo uma função social intrínseca. A função social é a
sua mais importante e dignificante característica. O interesse
particular do cliente ou o da remuneração e o prestígio do advogado
não podem sacrificar os interesses sociais e coletivos e o bem
comum. A função social é o valor finalístico de seu mister” (LÔBO,
Paulo. Comentários ao Estatuto da Advocacia e da OAB. 7. ed. São
Paulo: Saraiva, 2013. p. 44).

VI – estimular, a qualquer tempo, a conciliação e a mediação


entre os litigantes, prevenindo, sempre que possível, a
instauração de litígios;

Comentários
Nesse dispositivo, em comparação ao mesmo dispositivo constante do CED
anterior, há o acréscimo da expressão “a qualquer tempo”. A função, nessa
hipótese, é dar ênfase à conciliação entre os litigantes como uma possibilidade
constante, a qual deve ser estimulada pelos advogados.
A conciliação entre as partes conflitantes não só pode como deve ser buscada
mesmo antes da judicialização do conflito, buscando, assim, uma composição
justa entre as partes, prevenindo o litígio.
Contudo, ainda que o conflito seja levado ao Poder Judiciário, nada obsta e,
muito pelo contrário, que a conciliação seja encorajada pelos advogados.

Julgados

Advogado que patrocinou separação consensual – Ação de revisão


de pensão de um dos cônjuges – Inexistência de conflito desde que
resguardado o sigilo profissional – Cliente que confessa o direito do
oponente – Obediência aos arts. 2º, VI, e 8º do CED – Não há
impedimento ético para o patrocínio de defesa do ex-cônjuge varão,
desde que resguardado o sigilo profissional. O advogado deve
informar ao cliente, de forma clara e inequívoca, quanto a eventuais
riscos da sua pretensão, e das consequências que poderão advir da
demanda. O advogado deve estimular a conciliação entre os
litigantes, prevenindo, sempre que possível, a instauração do litígio.
No caso, embora já instaurado o litígio, a conciliação continua
possível e recomendável, buscando o justo, sem prejuízo, para o
cliente. Proc. E-2.914/2004 – v.u., em 18.03.2004, do parecer e
ementa do Rel. Dr. Zanon de Paula Barros.

VII – desaconselhar lides temerárias, a partir de um juízo


preliminar de viabilidade jurídica;

Comentários
A redação do presente dispositivo foi significativamente alterada pelo Novo
CED. O antigo CED impunha ao advogado o dever de “aconselhar o cliente a
não ingressar em aventura judicial”.
A nova redação possui, indubitavelmente, maior clareza semântica, impondo
ao advogado, ademais, um prévio exame de viabilidade jurídica do pleito para
que se possa determinar a existência ou não de uma pretensão de ingresso em
lide temerária, que de pronto deve ser desaconselhada pelo profissional.
A lide temerária é aquela carente de qualquer fundamentação jurídica apta a
lhe dar sustentação e movida pelo intento de prejudicar a parte contrária ou
auferir benefício indevido. Dar-se-á quando o advogado se associar ao cliente
com o supedâneo de prejudicar a parte contrária. Partindo da teoria do abuso de
direito consagrada pelo art. 187 do Código Civil, podemos concluir que o
ingresso em lide temerária constitui um exercício abusivo do direito de acesso à
justiça, assegurado constitucionalmente pelo inciso XXXV do art. 5º da
Constituição Federal.
Exemplificando uma situação de lide temerária, imaginemos um caso em que
o advogado, antes mesmo de ingressar com determinada ação judicial, sabe que
um documento que a instrui é falsificado e, ainda assim, junta-o à sua petição
inicial, pelos benefícios indevidos que referido documento pode trazer ou pelo
prejuízo que pode causar a outra parte.
Deve-se ter em mente, contudo, que a lide temerária não é presumível, deve
ser provada, bem como o dolo que movera a conduta da parte e do advogado.
Julgados

Patrocínio – Faculdade do causídico em recorrer ou não de


sentença. O advogado não está obrigado a intentar medidas
recursais quando entender bem fundamentada a sentença que tenha
sido adversa à causa sob seu patrocínio ou quando entender que
nenhuma alteração poderá o recurso produzir na mesma sentença.
Hipótese em que o mero exercício processual se prestará a
procrastinar o objetivo da demanda e da justiça, muitas vezes, em
prejuízo do próprio cliente. O parágrafo único do inciso VII do art.
2º do Código de Ética indica o dever do advogado de “aconselhar o
cliente a não ingressar em aventura judicial”, o que dá base à atitude
do advogado que se recusa ou simplesmente não recorre de
sentença, nessas circunstâncias. Em qualquer caso, o advogado que
não pretender o recurso deve avisar tempestivamente o cliente, para
que este, se for de seu interesse, constitua outro advogado. (TED
OAB/SP Proc. E – 1.411 – v.u. 19 de setembro de 1996 – Rel. Dr.
José Carlos Magalhães Teixeira.

Ementa: Acusação de promover lide temerária. Provas suficientes a


comprovar que a demanda proposta era correta com base nas
informações recebidas. Não comprovação de estímulo a aventura
judicial. Absolvição que se impõe. Vistos, relatados e discutidos
estes autos de Processo Disciplinar 06R0000142011, acordam os
membros da Sexta Turma Disciplinar do TED, por unanimidade,
nos termos do voto da Relatora, em desacolher a representação e
determinar o arquivamento dos autos. Sala das Sessões, 09 de maio
de 2012. Rel. Dra. Lais Eun Jung Kim.

Ementa: 1. Advocacia pública. Cargo demissível ad nutum.


Patrocínio de demanda contra o município após a exoneração.
Inexistência de sigilo a ser preservado. Não incidência da
quarentena. Incidindo a demanda sobre matéria de conhecimento
público, que exclua o manuseio de informações restritas ou
sigilosas, não há se falar em necessidade de quarentena. 2.
Possibilidade de discussão judicial. Inocorrência de lide temerária.
A simples possibilidade de judicialização de determinada matéria
rechaça a ocorrência de lide temerária, ainda mais se, havendo duas
demandas com o mesmo objeto, uma delas for julgada procedente.
Representação improcedente. Vistos, relatados e examinados estes
autos do Processo Disciplinar 21R0003192010, acordam os
Membros da Vigésima Primeira Turma Disciplinar – TED XXI – da
Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de São Paulo, por
maioria dos votos, nos termos do voto do Relator, em julgar
improcedente a Representação, determinando o arquivamento do
Processo Disciplinar. Sala das sessões, 29 de junho de 2012. Rel.
Dr. Sílvio Bonadio.

VIII – abster-se de:


a) utilizar de influência indevida, em seu benefício ou do cliente;

Comentários
O advogado possui o dever ético de não se valer de determinadas influências
que possua sobre outras pessoas ou instituições como modo de auferir benefícios
para si ou para o cliente.
Imagine-se, por exemplo, o advogado que atua, de igual modo, como
procurador de um determinado Município que autorize que seus procuradores
atuem também no campo privado. Este advogado, além de ser impedido de
advogar contra a Fazenda Pública que o remunera, deverá se abster de utilizar
sua influência como procurador nas instituições municipais para obter benefícios
para seus clientes, ainda que de forma indireta.
Também falta com a ética o advogado que atuar em processo, cujo
magistrado designado na ação seja seu parente ou amigo, ou ainda, caso
mantenha com o magistrado alguma relação negocial. Antigamente, somente a
proximidade entre juiz e parte trazia a situação de suspeição do magistrado, o
que sofreu alteração com o Código de Processo Civil de 2015, que, no seu art.
145, I, estendeu a suspeição do juiz também na relação de amizade ou inimizade
com o advogado da parte.
Julgados

Recurso 2010.08.05316-05/SCASTU. Recte.: R.T. (Advs.: Cristiano


Zanin Martins OAB/SP 172730, Juliana Brotto de Barros OAB/SP
207104 e Outros). Recdos.: Conselho Seccional da OAB/São Paulo
e D.E. Associados. Repte. Legal: C.A.J.D-E.J. (Advs.: Francisco
Gonçalves Martins OAB/SP 126210 e Outra). Relator: Conselheiro
Federal José Alberto Ribeiro Simonetti Cabral (AM). Ementa
030/2011/SCA-STU. Arquivamento de Representação. Indícios de
afrontamento às Normas do Código de Ética. Impossibilidade.
Necessidade de instrução. Recurso provido. 1. O Código de Ética
estabelece como infração disciplinar a utilização de influência
indevida por parte dos advogados a seu favor ou de seus clientes. 2.
Se os representados, expressamente, asseveram que o Representante
utiliza-se de sua influência ou de seus amigos para obtenção de
vantagens há, no mínimo, indícios de infração ética, uma vez que se
encontra ultrapassada a barreira do dever de urbanidade. 3. Nesse
cenário é impossível o arquivamento dos autos, devendo haver, ao
menos, a instrução do processo disciplinar. 4. Recurso conhecido e
provido para modificar a decisão que arquivou os autos,
modificando-a no sentido de ordenar a instrução do respectivo
processo disciplinar. Acórdão: Vistos, relatados e discutidos estes
autos, acordam os Senhores Conselheiros integrantes da Segunda
Turma da Segunda Câmara do CFOAB, por unanimidade de votos,
em conhecer do recurso, dando-lhe provimento, nos termos do voto
do Relator. Brasília, 21 de fevereiro de 2011. Durval Julio Ramos
Neto, Presidente da Segunda Turma da Segunda Câmara. José
Alberto Ribeiro Simonetti Cabral, Relator. (DOU, S1, 05.05.2011.
p. 127).

Ementa: Constitui infração disciplinar facilitar, por qualquer meio, o


exercício de atos de advocacia por quem esteja proibido ou
impedido de fazê-lo. A inclusão de Oficial de Justiça na procuração,
mesmo sendo bacharel em direito, mostra conduta incompatível
com a advocacia, ferindo, frontalmente, o Código de Ética, que
exige que o advogado deve abster-se de utilizar influência indevida,
em seu benefício ou do cliente, bem como mantenha conduta
compatível com seus preceitos e com os preceitos do Estatuto, do
Regulamento Geral, dos provimentos e com os demais princípios da
moral individual, social e profissional. (Proc. 001.813/1997/SCA-
CE, Rel. Irineu Codato, j. 20.10.1997, DJ 31.10.1997, p. 56.512).

b) vincular seu nome ou nome social a empreendimentos


sabidamente escusos;

Comentários
Trata-se de dever existente, tal como outros, por conta da repercussão
negativa que os atos do advogado podem gerar para a classe como um todo,
gerando desprestígio.
Devemos nos ater à atual redação do dispositivo, que fala em
“empreendimentos sabidamente escusos”, ao passo que o dispositivo do CED
anterior, em comparação, falava em “empreendimentos de cunho
manifestamente duvidoso”.
A redação atual é mais restritiva, uma vez que não exige que o
empreendimento associado ao nome do advogado seja duvidoso, mas, sim,
escuso. Deve-se, ainda, provar que a ilicitude do empreendimento em questão ou
o desvio ético do mesmo era de conhecimento do advogado. Caberá ao
advogado avaliar caso a caso a seriedade do empreendimento em que pretende
ingressar.
Devemos mencionar, também, que a Resolução nº 7/2016 do Conselho
Federal da Ordem dos Advogados do Brasil alterou a redação original deste
dispositivo para incluir também o nome social do advogado.
Trata-se de importante avanço para os advogados e advogadas transexuais,
que poderão, portanto, ser identificados profissionalmente pelo seu nome social.

Julgados

E-3219/2005 – Captação – Associação de mutuários – Não sujeita a


registro na OAB – Oferta de serviço advocatício – Advogado
vinculado – Captação de clientela e angariação de causas –
Exercício irregular da profissão. Associação de mutuários que
promove reuniões para a oferta de serviço advocatício, orientando
aspectos jurídicos e contratando honorários, caracteriza exercício
irregular da atividade privativa da advocacia e aos advogados
vinculados as infrações de facilitação do exercício profissional a
não inscritos, captação de clientela e angariação de causas,
concorrência desleal e vinculação de seu nome a empreendimento
de cunho duvidoso, condutas previstas no Estatuto da Advocacia e
Código de Ética e Disciplina. Aplicação do art. 48 do Código de
Ética e Disciplina e remessa à Comissão de Prerrogativas para
providências que entender pertinente. v.u., em 15.09.2015, do
parecer e ementa do Rel. Dr. Jairo Haber – Rev.ª Dra. Maria do
Carmo Whitaker – Presidente Dr. João Teixeira Grande.

c) emprestar concurso aos que atentem contra a ética, a moral, a


honestidade e a dignidade da pessoa humana;

Comentários
Veicula-se, assim, o dever não apenas de o advogado agir diretamente em
consonância com a probidade, tal como já demonstrado quando dos comentários
aos incisos I e II do presente artigo, mas também o dever de o advogado não
colaborar ou atuar em conjunto com aqueles que vilipendiam a ética, a moral, a
honestidade e, ainda, a dignidade da pessoa humana.
O dispositivo ora em comento possuía equivalente no CED anterior, com a
mesma redação.
De se destacar, por fim, que a dignidade da pessoa humana, enquanto valor
base do ordenamento jurídico, deve ser preservada por todos. Contudo, o
advogado, elemento fundamental para realização da justiça, possui um papel
fundamental na efetivação de referido valor, razão pela qual se justifica a
reafirmação deste dever no CED.
d) entender-se diretamente com a parte adversa que tenha
patrono constituído, sem o assentimento deste;

Comentários
Os entendimentos com a parte adversa podem ser no sentido do
estabelecimento de uma transação, mas, não necessariamente ficam restritos a
isso. Qualquer forma de estabelecimento de negociação deve ser precedida de
autorização do próprio cliente, bem como de ciência do advogado da parte
contrária, com o qual, inclusive, deve o advogado estabelecer contato.
De se destacar que, além da regra deontológica contida no dispositivo ora em
exame, a conduta também configura infração ética constante do inciso VIII do
art. 34 do EOAB.

Julgados

Exercício profissional – Entendimento com a parte adversa –


Vedação ética. Deve o advogado abster-se de manter contato com a
parte adversa sem autorização de seu patrono. Tal situação vem em
consonância com o determinado no Código de Ética e Disciplina e
não constitui traição ao mandato recebido. Advogado que infringe
norma ética deve ter sua conduta apreciada por seu órgão de classe.
Proc. E-2.417/2001 – v.u. em 16.08.2001 do parecer e ementa da
Rel.ª Dr.ª Roseli Príncipe Thomé.

Patrocínio – Relação com a parte adversa. Deve o advogado abster-


se de se entender diretamente com a parte adversa que tenha patrono
constituído, sem assentimento deste. Não importa se o advogado
esteja no patrocínio de seu constituinte nas ações que o envolvam
com a parte contrária. Ainda que se trate de atividade
extraprofissional, mas que dependa do conhecimento jurídico, está o
advogado vinculado às regras da deontologia profissional.
Inteligência do art. 2º, VIII, “e”, do Código de Ética e Disciplina.
Proc. E – 1.234 – v.u. – Rel. Dr. Daniel Schwenck.
Recurso 1133/2006/SCA – 02 volumes – Terceira Turma.
Recorrentes: C.A.C. (Advogados: Franco Mautone OAB/SP 30.324
e Franco Mautone Júnior OAB/SP 214.728). Recorridos: Conselho
Seccional da OAB/São Paulo, Presidente do Conselho Seccional da
OAB/São Paulo – Dr. Luiz Flávio Borges D’Urso e M., L.P. e
A.A.S/C LTDA. (Advogado: Fernando Teodoro Brandariz
Fernandez OAB/SP 216.181). Relator Original: Conselheiro Federal
Ricardo do Nascimento Correia de Carvalho (PE). Redistribuído:
Conselheiro Federal Sílvio Neves Baptista (PE). Ementa nº
151/2009/SCA – 3ª T. Infringe a norma do art. 34, VIII, do EOAB,
o advogado que mantém entendimento com a parte adversa sem
autorização do cliente ou conhecimento do advogado contrário. Para
celebração de eventual acordo entre as partes, o advogado de uma
delas deve dar ciência ao advogado ex adverso. Pena de censura
convertida em ofício reservado. Acórdão: Vistos, relatados e
discutidos estes autos, acordam os Senhores Conselheiros
integrantes da Terceira Turma da Segunda Câmara do CFOAB, por
unanimidade, em não conhecer do recurso interposto contra decisão
definitiva unânime do Conselho Seccional Recorrido, que não
contraria Lei, decisão do Conselho Federal, ou de outro Conselho
Seccional, nem o Regulamento Geral, o Código de Ética e
Disciplina e os Provimentos da OAB, nos termos do art. 75 da Lei
8.906/1994. Brasília, 06 de abril de 2009. Pedro Origa Neto,
Presidente da Terceira Turma da Segunda Câmara. Silvio Neves
Baptista, Relator (DJ 21.09.2009, p. 143).

e) ingressar ou atuar em pleitos administrativos ou judiciais


perante autoridades com as quais tenha vínculos negociais ou
familiares;

Comentários
Trata-se de uma modalidade específica do dever previsto na alínea “a”, VIII,
do art. 2º do Novo CED, comentada anteriormente, isto é, uma forma específica
de utilização de influência indevida consistente na propositura de demandas
perante autoridades com as quais o advogado tenha alguma espécie de vínculo.
No campo processual, importante destacar que o CPC de 1973 estabelece tão
somente como hipótese de impedimento ao juiz a de o advogado da parte ser seu
cônjuge, parente em linha reta ou colateral até o segundo grau (art. 134, IV, do
CPC). As hipóteses de suspeição do juiz, no atual CPC, não contemplam a figura
do advogado.
Contudo, o Novo CPC, que passará a vigorar a partir de 18 de março de
2016, prevê hipóteses de impedimento e suspeição ao juiz, diretamente ligadas
ao advogado que funcionar no feito, conforme arts. 144, III, e 145, I, ambos do
CPC de 2015.

f) contratar honorários advocatícios em valores aviltantes.

Comentários
O presente dispositivo constitui uma das novidades do Novo CED, não
possuindo correspondente no CED anterior.
Os honorários advocatícios devem respeitar o valor mínimo da Tabela de
Honorários divulgada pela Ordem dos Advogados do Brasil, não podendo fixá-
los abaixo de tal parâmetro, sob pena de configurar aviltamento de honorários,
conforme prevê o parágrafo 6º, do art. 48 do Novo CED.
Mencione-se que o aviltamento de honorários poderá ser apenado com
censura, nos termos do inciso III, do art. 36 do EAOAB.
Trata-se de conduta que atinge toda a classe, uma vez que a fixação de
honorários irrisórios ofende a dignidade da advocacia, prejudicando todo o
campo de trabalho dos advogados.

IX – pugnar pela solução dos problemas da cidadania e pela


efetivação dos direitos individuais, coletivos e difusos;
Comentários
A advocacia é atividade de relevante função social, razão pela qual é preceito
ético que o advogado, em seu labor, vise não apenas os efeitos individuais de
suas condutas, mas ao contrário, busque, por meio da sua atuação, a efetivação
de direitos individuais, coletivos e difusos dos cidadãos.

X – adotar conduta consentânea com o seu papel de elemento


indispensável à administração da justiça;

Comentários
Trata-se de dispositivo inédito no Novo CED, reafirmando o dever do
advogado de considerar sempre a repercussão social de sua atuação, tendo em
vista o papel fundamental que exerce na administração da justiça.

XI – cumprir os encargos assumidos no âmbito da Ordem dos


Advogados do Brasil ou na representação da classe;

Comentários
Pode ocorrer de o advogado assumir encargos junto à Ordem dos Advogados
do Brasil, como, por exemplo, ocorre quando se integra uma de suas comissões.
Assim, o advogado, ao integrar uma das comissões, deverá cumprir com as
incumbências decorrentes. Ademais, as comissões podem ter seus próprios
regimentos internos, que podem fixar as responsabilidades de seus integrantes.
De igual modo, o dispositivo se aplica àqueles que representarem a classe
dos advogados, como se dá com os detentores de cargos eletivos dentro dos
quadros da Ordem.

XII – zelar pelos valores institucionais da OAB e da advocacia;


Comentários
Os valores institucionais da OAB devem ser visados por todos os advogados
quando de sua atuação profissional.
Tais valores encontram-se nos incisos I e II, do art. 44 do EAOAB e são,
entre outros: a defesa da Constituição, da ordem jurídica do Estado democrático
de direito e os direitos humanos.
Normas correlatas: art. 44, incisos I e II, do EAOAB.

XIII – ater-se, quando no exercício da função de defensor


público, à defesa dos necessitados.

Comentários
Quando o advogado atuar na condição de defensor dativo, em virtude da
impossibilidade da defensoria pública, deverá empregar na causa em questão o
mesmo zelo que empregaria em qualquer outra.
Ao ser nomeado em virtude da falta da defensoria pública, o advogado não
pode recusar a nomeação, salvo por justo motivo, sob pena de configuração da
infração descrita no inciso XII do art. 34 do EAOAB.

Art. 3º O advogado deve ter consciência de que o Direito é um


meio de mitigar as desigualdades para o encontro de soluções
justas e que a lei é um instrumento para garantir igualdade a
todos.

Comentários
Tal como visto no inciso V do artigo anterior, o advogado deve primar pelo
aprimoramento das instituições, do Direito e das leis. Uma forma de
manifestação concreta do referido dever verifica-se com o conteúdo trazido pelo
dispositivo ora em comento.
Dizer que o advogado exerce função social e indispensável à realização da
Justiça implica exigir do profissional do Direito que atue no sentido de reduzir as
desigualdades sociais, assegurando que o constituído tenha voz em Juízo e,
portanto, acesso à realização da Justiça, independentemente de condição social.
Não por outra razão é que o art. 34, XII, do EOAB tipifica como infração
ética a conduta do advogado que “recusar-se a prestar, sem justo motivo,
assistência jurídica, quando nomeado em virtude de impossibilidade da
Defensoria Pública”.
Normas correlatas: arts. 2º, § 1º, e 34, II, do EOAB.

Art. 4º O advogado, ainda que vinculado ao cliente ou


constituinte, mediante relação empregatícia ou por contrato de
prestação permanente de serviços, ou como integrante de
departamento jurídico, ou de órgão de assessoria jurídica,
público ou privado, deve zelar pela sua liberdade e
independência.
Parágrafo único. É legítima a recusa, pelo advogado, do
patrocínio de causa e de manifestação, no âmbito consultivo, de
pretensão concernente a direito que também lhe seja aplicável
ou contrarie orientação que tenha manifestado anteriormente.

Comentários
Este dispositivo enfatiza a independência do advogado nas relações com os
clientes habituais.
Como esposado quando dos comentários ao inciso II do art. 2º, a
independência é uma das características fundamentais da atividade do advogado,
sem a qual inexoravelmente seu múnus restaria gravemente fragilizado e, por
conseguinte, inviabilizado.
Há uma constante preocupação, tanto da legislação quanto da própria classe,
em assegurar a livre atuação dos advogados, vindo sempre à mente a
independência no que tange aos atos praticados perante autoridades, conforme,
por exemplo, preceitua expressamente o § 2º do art. 31 do EAOAB.
Contudo, não é apenas nos atos judiciais ou públicos que a independência do
advogado deve ser assegurada. O que o dispositivo em questão vem a reafirmar é
o imperativo da independência do advogado inclusive nas relações que mantém
com seus clientes, sejam elas de cunho empregatício ou de outro caráter habitual.
O advogado deve preservar sua independência nas referidas relações, não se
envolvendo como parte nos casos de que trata, mas sim como profissional,
técnico, independente, tanto sob a ótica dos meios a serem empregados na
solução do caso que lhe é confiado, como em sua própria consciência.
Não é de se ignorar que um dos elementos clássicos da configuração do
vínculo de emprego entre empregado e empregador é, justamente, a
subordinação, conforme art. 3º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Na
relação empregatícia envolvendo advogado, contudo, a subordinação não deve
ser vista como um acatamento cego às ordens do empregador. O advogado deve
manter sua independência mesmo nessas relações, possuindo liberdade para
definir as medidas que irá adotar sem a intervenção do empregador. Nesses
casos, portanto, haverá a necessidade de se cunhar de uma forma mais branda o
elemento da subordinação na relação de emprego, diversamente do que se dá
classicamente quanto aos demais empregados.
Por fim, cabe reafirmar a possibilidade de o advogado até mesmo recusar o
patrocínio de determinada causa ou manifestar-se em determinado sentido,
quando, por exemplo, o teor a ser defendido contrarie a convicção outrora
firmada pelo profissional, assegurando sua independência para manter-se
coerente aos próprios posicionamentos. O cliente não pode intervir em tal
hipótese, bem como não deve o advogado sujeitar-se a tentativas de intervenção
nesse sentido.

Julgados

Ementa: Advogada que desatende a solicitação eminentemente


técnica de cliente – Convicção da improdutividade da medida –
Mera repetição de pleito liminar já negado em oportunidades
pretéritas nos mesmos autos – Desinteligência do art. 34, IX, do
EAOAB – Princípio da independência técnica do advogado –
Representação improcedente.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
05R0002522009, acordam os membros da Quinta Turma
Disciplinar, por unanimidade, nos termos do voto do Relator, em
desacolher a representação e determinar o arquivamento dos autos.
TED OAB/SP, Sala das Sessões, 28 de junho de 2011. Rel. e
Presidente Dr. Leonardo Fogaça Pantaleão.

Ementa: Dever da independência – Não configuração de falta


disciplinar pela falta de interposição de recurso de apelação em
processo criminal – Improcedência. Não caracteriza a infração
disciplinar prevista no art. 34, IX e XI, do Estatuto da Advocacia e
da OAB, porque o advogado pode estar convencido do
descabimento pelo recurso ou da inutilidade de sua interposição,
ficando tutelado pelo princípio da independência técnica. Logo, por
esse mesmo princípio, entendo também não configurado o
abandono injustificado de causa, mesmo que tenha o acusado sido
intimado para constituir novo defensor, face à sua própria
interposição e recebimento do recurso pelo magistrado.
Representação improcedente.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
04R0005182009 (Antigo 4827/2007), acordam os membros da
Quarta Turma Disciplinar do TED, por unanimidade, nos termos do
voto do Relator, em desacolher a representação e determinar o
arquivamento dos autos.
Sala das Sessões, 24 de setembro de 2010. Rel. Dr. Pedro Emílio
May.

Ementa: Prejudicar interesse confiado ao patrocínio – Recurso


ordinário em ação trabalhista intempestivo – Prova material –
Ausência de destemor e independência profissional – Aventura
judicial – Procedência da representação.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de processo disciplinar
15R0008682011, acordam os membros da Décima Quinta Turma
Disciplinar, em julgar procedente a representação, aplicando ao
representado a pena de censura, convertida em advertência, por
ofício reservado, sem registro nos assentamentos, por violação ao
art. 2º, parágrafo único, II e VII, do Código de Ética e Disciplina, e
infração ao inciso IX do art. 34 do Estatuto da Advocacia e a Ordem
dos Advogados do Brasil, Lei 8.906/1994, nos termos do art. 36, I,
II, parágrafo único, do mesmo diploma legal, por decisão unânime,
nos termos do voto do I. Relator. Sala das Sessões, 13 de maio de
2014. Rel.: Dr. Ezequiel Bergren.

Normas correlatas: arts. 2º, 18 e 31, § 2º, do EOAB.

Art. 5º O exercício da advocacia é incompatível com qualquer


procedimento de mercantilização.

Comentários
A advocacia não pode ser reduzida a mera prática empresarial, fazendo com
que se trate de atividade incompatível com referidos procedimentos de
mercantilização.
A vedação em questão advém da própria natureza da atividade despendida
pelo advogado e a sua manutenção com base na confiança existente entre o
profissional e seu cliente. Um dos princípios fundamentais da atividade do
advogado, conforme já visto, é o da manutenção da honra e da nobreza da
profissão em suas condutas, as quais, por certo, restam fragilizadas por meio de
procedimentos mercadológicos dirigidos à mera captação de clientes.
A advocacia é fundada na confiança e na independência profissional. O
serviço prestado é singular e jamais pode ser reduzido à condição de mero
produto.
Não por outra razão que a angariação de clientes e causas é considerada
infração ética segundo os incisos III e IV do art. 34 do EOAB, tenha ou não a
intervenção de terceiros. Costuma-se dizer que é o cliente que deve chegar ao
advogado e não o inverso.
Entre outros, exemplos de procedimentos de mercantilização: a) advogado
que paga agenciador para angariar clientes para si, pagando-lhe comissão, em
típica operação de corretagem; b) publicidades ostensivas, com caráter
nitidamente mercantilista; c) divulgação de atividade advocatícia em conjunto
com outras atividades etc.
Além dos exemplos comentados anteriormente, em sessão de novembro de
2016, a 1ª Turma Deontológica do Tribunal de Ética e Disciplina de SP analisou
consulta formulada a respeito da advocacia itinerante, tendo concluído pela sua
impossibilidade. Naquela decisão, a OAB a considerou como um claro
fenômeno de mercantilização, captação de clientela e nítida concorrência desleal,
além de atentar contra a nobreza, decoro e dignidade da advocacia.
Relevante notar que havia grande discussão acerca da possibilidade de o
advogado admitir o recebimento de honorários via cartão de crédito, o que por
vezes fora considerado como prática mercantilista vedada pelo CED. Contudo, o
Novo CED expressamente autoriza o pagamento de honorários mediante cartão
de crédito, consoante se vê no art. 52.
A vedação à mercantilização da advocacia é bastante visível quando do
minucioso tratamento ético da publicidade, conforme será visto nos comentários
dos arts. 38 ao 46.

Julgados

Ementa: Exercício profissional – “Advocacia Itinerante” –


Impossibilidade. A chamada “advocacia itinerante”, fenômeno que
consiste no oferecimento da advocacia a torto e a direito, manifeste-
se ela da forma que for, sob o fundamento que for, é
impreterivelmente vedada, por mercantilizar a profissão, configurar
indevida captação de clientela e nítida concorrência desleal, além de
atentar contra a nobreza, o decoro e a dignidade inerentes à
advocacia, a cuja observância e preservação o advogado está
obrigado. Inteligência dos arts. 2º, parágrafo único, II, 5º e 7º, todos
do CED. Proc. E-4.700/2016 – v.u, em 17.11.2016, do parecer e
ementa do Rel. Dr. Aluisio Cabianca Berezowski, Rev. Dr.
Guilherme Martins Malufe – Presidente Dr. Pedro Paulo Wendel
Gasparini.

Ementa: A mercantilização da advocacia e a captação de clientela


são práticas rechaçadas pela ética profissional justamente para evitar
a exposição do advogado à atividade fim, e, ainda, proteção à Classe
profissional, ou seja, há a proteção difusa à advocacia. Os atos
restam configurados com expressões em “inglês” lançadas nas
petições do escritório e que remetem o leitor a ver uma firma e não
um escritório de advocacia, e, ainda, quando no mesmo endereço
funciona uma empresa que capta clientela para lides de massa por
meio de contratos com associações de funcionários públicos. A
violação enseja punição com a pena de censura face à violação aos
arts. 5º e 7º do CED e infração ao inciso IV do art. 34 do EAOAB.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
20R0002182011, acordam os membros da Vigésima Turma
Disciplinar do TED, por unanimidade, nos termos do voto do
Relator, em julgar procedente a representação e aplicar ao
Representado a pena de censura, por violação aos arts. 5º e 7º do
Código de Ética e Disciplina, e por configurada a infração prevista
no inciso IV do art. 34 do Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei
8.906/1994, nos termos do art. 36, I e II, do mesmo diploma legal.
Determinaram por unanimidade, instauração de representação ex
officio em face aos advogados (...), e (...), visando apurar, a
princípio e em tese, violação ao art. 7º do Código de Ética e
Disciplina e infrações aos incisos II e IV do art. 34 do Estatuto da
Advocacia e da OAB, Lei 8.906/1994. Determinaram ainda, por
unanimidade, instauração de representação ex officio em face dos
advogados (...), e (...), visando apurar, a princípio e em tese,
violação ao art. 5º, do Código de Ética e Disciplina, e infrações aos
incisos II, III, IV e XXV do art. 34 do Estatuto da Advocacia e a
OAB, Lei 8.906/1994. Determinaram, finalmente, remessa de
cópias reprográficas deste procedimento ao Ministério Público do
Estado de São Paulo, para juntada nos autos do Inquérito Civil nº
(...), para as providências cabíveis, nos termos do voto do Nobre
Relator.
Sala das Sessões, 10 de maio de 2013. Rel. Dr. Aarão Miranda da
Silva.

Ementa: Panfletagem – Captação de clientela – Vinculação dos


advogados à empresa interposta – Garantia de êxito total nas ações
– Mercantilização – Potencial ofensa à advocacia – Conduta
agravada. Panfletagem feita por empresa à qual o Advogado se
vincula e que a ele carreia ações caracteriza captação e angariação
de causas e, portanto, infração ao art. 34, III e IV, do EAOAB. A
forma massiva como veiculada e a garantia total do êxito
evidenciam a mercantilização dos serviços, potencializando o dano
à Advocacia, justificando o agravamento da pena.
Vistos, relatados e examinados estes autos do Processo Disciplinar
21R0002582011, acordam os Membros da Vigésima Primeira
Turma Disciplinar da Ordem dos Advogados do Brasil, Secional de
São Paulo, por maioria, nos termos do Voto divergente, em julgar
procedente a Representação e aplicar a pena de censura, cumulada
com multa no valor correspondente a 8 (oito) anuidades para cada
Representado, reduzido a 5 (cinco) anuidades, em razão da
atenuante da primariedade, nos termos do art. 36, I, c/c. o art. 39,
ambos do EAOAB.
Sala das Sessões, 25 de outubro de 2013. Rel. Dr. Robson de Melo.

Ementa: Advogado – Angariação e captação de clientes por


terceiros – Mercantilização caracterizada – Sem antecedentes –
Circunstância atenuante – Pena de advertência em ofício reservado.
Configura angariação e captação de clientes, advogado que faz
contrato com empresa distinta do ramo de advocacia e que se utiliza
de outdoors para propaganda no sentido de seduzir pessoas a
ingressar com ações judiciais. Não possuindo o advogado
antecedentes, deve ser considerada circunstância atenuante para
dosimetria da pena.
Vistos, relatados e examinados estes autos do Processo Disciplinar
22R000353/2011, acordam os membros da Vigésima Segunda
Turma Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos
Advogados do Brasil, por unanimidade em julgar procedente a
representação e aplicar ao querelado a pena censura, convertida em
advertência em ofício reservado, nos precisos termos do inciso IV,
do art. 36, parágrafo único, ambos do EOAB. Sala das Sessões, 21
de setembro de 2012. Rel. Dr. Júlio César Torrubia de Avelar.

Normas correlatas: art. 34, III e IV, do EOAB.

Art. 6º É defeso ao advogado expor os fatos em Juízo ou na via


administrativa falseando deliberadamente a verdade e utilizando
de má fé

Comentários
O tema versado pelo dispositivo legal ora em comento relaciona-se ao dever
fundamental do advogado de proceder em sua atuação com boa-fé, sendo fiel à
verdade, consoante visto quando dos comentários ao inciso II do art. 2º.
O papel do advogado não é o de ganhar a causa a qualquer custo,
deliberadamente falseando a verdade, manipulando fatos, com o intuito de obter
êxito nos casos em que atuar. A atividade do advogado deve buscar a paz social,
a justiça, estando, assim, muito acima dos meros interesses subjetivos
envolvidos na questão. Não podem a inviolabilidade do advogado em sua
atuação, bem como as imunidades profissionais, constituírem salvo conduto para
práticas antiéticas, que acabam por denegrir a imagem da advocacia enquanto
classe.
Ademais, o advogado que atuar em desconformidade para com o presente
dispositivo praticará infração ética punível com censura, consoante art. 36, II, do
EOAB.

Julgados

Ementa: Advogado que expõe fato em juízo, falseando


deliberadamente a verdade ou estribando-se em má-fé. Fato
devidamente comprovado. Incurso no art. 6º, do Código de Ética e
Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil, c.c. o inciso XXV,
do art. 34, com a pena prevista no inciso I, do art. 37, da Lei
8.906/1994. Pena de 30 (trinta) dias de suspensão dos serviços
profissionais.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
101/2008, acordam os membros da Décima Turma Disciplinar do
Tribunal de Ética e Disciplina, por unanimidade de votos, nos
termos do voto do Relator, em aplicar ao querelado a pena de
suspensão do exercício profissional pelo prazo de 30 (trinta) dias,
por configurada a infração prevista no inciso XXV do art. 34 do
EOAB.
Sala das Sessões, 25 de março de 2011. Rel. Dr. Mauro Cassalate
Junior.

CFOAB: Advogado que deliberadamente expõe em juízo fatos que


não guardam nenhuma relação com a verdade fática pratica infração
ao CED, pois afronta o disposto no seu art. 6º. Aplicação da pena de
advertência (art. 36, II, do EAOAB), convertida em advertência por
ofício reservado (art. 36, parágrafo único, c/c art. 40, I, tudo do
EAOAB). (Proc. 2.122/2000/SCA-SC, Rel. Clóvis Cunha da Gama
Malcher Filho (PA), Ementa 050/2000/SCA, j. 08.05.2000, por
unanimidade, DJ 18.05.2000, p. 328, S1e. Similar: Proc.
2.227/2000/SCA-SC, Rel. Sergio Ferraz (AC), j. 12.12.2000, por
unanimidade, DJ 21.12.2000, p. 35, S1e.

CFOAB: Recurso 2007.08.07449-05/SCA-PTU. Rcte.: C.A.D.L. e


M.S.C. (Advs.: César Alencar David da Luz OAB/MG 48868 e
Manoel Simão Candea OAB/MG 42709). Rcdo.: Conselho
Seccional da OAB/Minas Gerais. Rel.: Conselheiro Federal Genival
Veloso de França Filho (PB). Rel. ad hoc: Conselheiro Federal
Marcelo Henrique Brabo Magalhães (AL). Ementa 165/2010/SCA-
PTU. Recurso interposto contra decisão do Órgão Especial do
Conselho Seccional do Estado de Minas Gerais. Improvimento.
Condutas praticadas pelos recorrentes configuraram infrações éticas
e ilícitos penais (estelionato, art. 171 – CP). É defeso ao advogado
expor os fatos em juízo falseando deliberadamente a verdade. Pena
de suspensão de 90 (noventa) dias. Acórdão: Vistos, relatados e
discutidos estes autos, acordam os Senhores Conselheiros
integrantes da Primeira Turma da Segunda Câmara do CFOAB, por
unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe
provimento, nos termos do relatório e voto do relator. Brasília, 13 de
setembro de 2010. Gilberto Piselo do Nascimento, Presidente da
Primeira Turma da Segunda Câmara. Marcelo Henrique Brabo
Magalhães, Relator ad hoc (DJ 22.11.2010, p. 34).

Normas correlatas: art. 36, II, do EOAB; arts. 14, I, e 17, II, do atual
Código de Processo Civil (CPC), e arts. 77, I, e 80, II, do Novo CPC, veiculado
pela Lei 13.105/2015.

Art. 7º É vedado o oferecimento de serviços profissionais que


implique, direta ou indiretamente, angariar ou captar clientela.

Comentários
A captação de clientela mencionada pelo art. 7º do Novo CED é uma das
formas de mercantilização do exercício da advocacia, vedada pelo já comentado
art. 5º, bem como tipificada como infração disciplinar no art. 34, IV, do EOAB.
A vedação em questão indica que o advogado não pode ofertar seus serviços
profissionais como se fossem meras mercadorias, por exemplo, por meio de
agenciadores de causas.
É o cliente que deve chegar ao advogado e não o contrário.

Julgados

Ementa: Captação de clientela ocorrida por intermédio de terceiro –


Vedação contida no art. 7º da norma deontológica, infração
caracterizada pela prática de conduta descrita no inciso IV do art. 34
do Estatuto da OAB, pena de censura a teor do inciso I do art. 36
desta última norma.
Vistos, relatados e discutidos estes autos do Processo Disciplinar
07R0000372011, acordam os membros da Sétima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos
Advogados do Brasil, Seção São Paulo, por votação unânime, nos
termos do voto do relator, em julgar procedente a representação e
aplicar ao Representado a pena de censura convertida em
advertência, por violação ao art. 7º do CED, nos termos do art. 36,
II, parágrafo único, do EAOAB.
Sala das Sessões, 28 de Fevereiro de 2014. Rel.: Dr. Akenaton de
Brito Cavalcante.

Ementa: Processo disciplinar. Captação de clientela com


intervenção de terceiros. Caracterizada violação a preceito do
Estatuto da Advocacia e do Código de Ética e Disciplina (arts. 34,
III e IV, do Estatuto, e 7º do Código de Ética e Disciplina).
Representação julgada procedente, com a sanção de censura
convertida em advertência, em ofício reservado, sem registro nos
assentamentos da Querelada, por estar presente a circunstância
atenuante do art. 40, II, do Estatuto da Advocacia (ausência de
punição disciplinar anterior).
Vistos, relatados e discutidos estes autos de processo disciplinar
10R0000692010, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por unanimidade, em
julgar procedente a representação e aplicar à querelada a pena de
censura, convertida em advertência, em ofício reservado, sem
registro nos assentamentos da inscrita, por violação ao art. 7º, do
Código de Ética e Disciplina e configuradas as infrações previstas
nos incisos III e IV do art. 34 do Estatuto da Advocacia e a OAB,
Lei 8.906/1994, nos termos do art. 36, parágrafo único, do mesmo
diploma legal.
Sala das Sessões, 21 de fevereiro de 2014. Rel. ad hoc: Dr. Mario
José Ciapinna Puatto.

Ementa: Captação de clientela – Advogados que se valiam de


agenciador de causas, intermediando clientes – Agenciador que se
passava por advogado – Infração ética grave, eis que, avilta toda a
classe, notadamente a sua grande maioria que arduamente e
honestamente labuta no exercício sagrado da advocacia –
Representação procedente em relação a dois representados por
infração aos incisos III, IV, XXV e XXIX do art. 34 do EOAB.
Divergência do voto de improcedência da representação em relação
a dois representados, propondo a estes o apenamento de censura nos
termos do art. 34, I (segunda figura) e IV, e art. 34, III e IV, da Lei
8.906/1994. Acolhimento e ratificação do voto de improcedência
em relação ao restante advogado representado.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
10R0001432011, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por maioria, nos
termos do voto-vista, em julgar improcedente e determinar o
arquivamento dos autos, face ao querelado (...) e em julgar
procedente a representação e aplicar ao querelado (...) a pena de
censura, por configuradas as infrações previstas nos incisos I
(segunda figura) e IV, do art. 34, à querelada (...), a pena de censura,
por configuradas as infrações previstas nos incisos III e IV do art.
34, ao querelado (...), a pena de suspensão do exercício profissional,
pelo prazo de 3 (três) meses, e ao querelado (...), a pena de
suspensão do exercício profissional, pelo prazo de 6 (seis) meses,
ambos por configuradas as infrações previstas nos incisos III, IV,
XXV e XXIX do art. 34, todas as infrações descritas, de acordo com
o Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994. Com relação aos
querelados (...) e (...), nos termos do art. 37, I, do diploma legal já
citado, ainda com recomendação de extração de cópias destes autos
e consequente remessa ao Ministério Público, considerando a
gravidade dos delitos praticados e ainda que seja instaurado, de
officio, procedimento disciplinar em relação ao advogado (...), nos
termos do voto do relator do voto-vista, retificado.
Sala das Sessões, 09 de novembro de 2012. Rel. (voto vista) Dr.
Murillo Canellas.

Normas correlatas: art. 34, IV, do EOAB.

CAPÍTULO II
Da Advocacia Pública
Art. 8º As disposições deste Código obrigam igualmente os
órgãos da advocacia pública, e advogados públicos, incluindo
aqueles que ocupem posição de chefia e direção jurídica.
§ 1º O advogado público exercerá suas funções com
independência técnica, contribuindo para a solução ou redução
de litigiosidade, sempre que possível.
§ 2º O advogado público, inclusive o que exerce cargo de chefia
ou direção jurídica, observará nas relações com os colegas,
autoridades, servidores e o público em geral, o dever de
urbanidade, tratando a todos com respeito e consideração, ao
mesmo tempo em que preservará suas prerrogativas e o direito
de receber igual tratamento das pessoas com as quais se
relacione.

Comentários
O Novo CED encerra antiga discussão acerca da incidência de suas
disposições, bem como do disciplinamento da atuação sob os seus ditames, sobre
os advogados públicos.
Desse modo, todos os deveres impostos aos advogados em geral deverão ser
observados pelos procuradores federais, estaduais e municipais, sem excluir as
incumbências advindas do regime estatutário a que estejam vinculados por força
do cargo. Assim, os advogados públicos estarão sujeitos a um duplo regramento:
aquele aplicável aos advogados em geral e aquele aplicável aos servidores
públicos do ente federativo a que estejam vinculados.

CAPÍTULO III
Das Relações com o Cliente

Comentários
Tal como visto no capítulo anterior, um dos aspectos fundamentais da ética
do advogado se direciona, justamente, às relações que tanto o advogado quanto o
escritório de advocacia mantêm com seus clientes. Por tal razão, diversos dos
princípios éticos fundamentais da atividade do advogado, já vistos por ocasião
do capítulo anterior, se aplicam às relações mantidas com o cliente.
É deste ponto que os dispositivos do capítulo ora em comento irão tratar,
versando sobre disposições éticas específicas a tais relações, que, conforme
veremos, possuem como alicerce básico a confiança recíproca que deve existir
entre o advogado e o seu constituinte.

Art. 9º O advogado deve informar o cliente, de modo claro e


inequívoco, quanto a eventuais riscos da sua pretensão, e das
consequências que poderão advir da demanda. Deve,
igualmente, denunciar, desde logo, a quem lhe solicite parecer ou
patrocínio, qualquer circunstância que possa influir na resolução
de submeter-lhe a consulta ou confiar-lhe a causa.

Comentários
É dever do advogado informar com clareza ao cliente as reais possibilidades
advindas da demanda pretendida.
O advogado deve, portanto, analisar globalmente a situação levada a si pelo
cliente, verificando e informando a existência de variáveis que possam influir na
pretensão a ser deduzida, bem como as influências geradas pelas mesmas.
Praticará infração ética o advogado que ocultar tais dados com o nítido
intuito de “seduzir” o cliente a lhe confiar a causa, quebrando com a confiança
que norteia a relação entre advogado e cliente.

Art. 10. As relações entre advogado e cliente baseiam-se na


confiança recíproca. Sentindo o advogado que essa confiança
lhe falta, é recomendável que externe ao cliente sua impressão
e, não se dissipando as dúvidas existentes, promova, em
seguida, o substabelecimento do mandato ou a ele renuncie.
Comentários
Afigura-se, neste ponto, absolutamente antiética a conduta do advogado que
oculta variáveis que possam incidir sobre a questão apenas para angariar a causa,
não informando, portanto, ao seu cliente, os reais riscos e possibilidades da
demanda.
Deve o advogado expor os fatos perante o cliente com total transparência,
ainda que isto lhe custe a não captação da causa que chegou a si.
A confiança entre advogado e cliente é um elemento imprescindível da
relação mantida entre ambos. O mandato outorgado cria um vínculo jurídico, por
meio do qual o advogado representará os interesses do cliente. A outorga do
mandato, portanto, deve ser precedida de real existência de confiança entre as
partes.
Sendo elemento tão relevante, a quebra de confiança dá azo a algumas
infrações éticas específicas que podem ser praticadas pelo advogado, a exemplo
dos incisos IX, XX e XXI do art. 34 do EOAB.
Além do mais, deve-se destacar que o dispositivo fala em confiança
recíproca, de modo que o advogado também deve sentir-se confortável acerca da
confiança depositada em seu cliente e na que o cliente deposita em si, de modo
que há a expressa recomendação que, na hipótese de existirem dúvidas sobre a
real confiança que o cliente lhe deposita, o advogado externe o fato ao cliente, a
fim de se esclarecer a situação. Caso ainda assim persista a dúvida, então deve o
advogado renunciar ao mandato ou substabelecer sem reservas.
Veja-se, então, que a carência de confiança é elemento tão grave que conduz
à possibilidade de ruptura do vínculo jurídico existente pelo mandato outorgado,
de tal sorte que se afere que a confiança é o elemento mais importante quando se
fala nas relações estabelecidas entre advogado e cliente.

Julgados

Recurso 49.0000.2014.008565-0/SCA-PTU. Recte.: C.C.B. (Adv.:


Gelpir Ribeiro de Sales OAB/MG 47340). Recdos.: Conselho
Seccional da OAB/Minas Gerais e G.M.P. (Advs.: Fernanda Barroso
Andrade OAB/MG 116741, Mário Henrique Barroso Andrade
OAB/MG 113200 e outros). Relator: Conselheiro Federal Luciano
José Trindade (AC). EMENTA N. 152/2014/SCA-PTU. Infração ao
art. 34, XX e XXI, do EAOAB. Concorrência de atenuante e
agravante. Penalidade de suspensão cumulada com pena de multa.
1) Recurso contra decisão unânime do Conselho Seccional da
OAB/MG, que aplicou da pena de 120 dias, cumulada a multa de 5
anuidades. 2) Advogado que se locupleta de dinheiro de cliente,
obtido pela confiança do mandato. 3) Ausência de prestação de
contas. 4) Farta documentação comprobatória, além de confissão
demonstrando que o representado recebeu valores em juízo e não
prestou contas à cliente. 5) Improcedência das alegações de violação
ao princípio do devido processo legal, ampla defesa e contraditório.
6) Concorrência de circunstância agravante e atenuante. 7) Recurso
conhecido e parcialmente provido apenas para reduzir a dosimetria
da penalidade. Acórdão: Vistos, relatados e discutidos os autos do
processo em referência, acordam os membros da Primeira Turma da
Segunda Câmara do CFOAB, observado o quorum exigido no art.
92 do Regulamento Geral, por unanimidade, em acolher o voto do
Relator, parte integrante deste, conhecendo e dando parcial
provimento ao recurso. Brasília, 04 de novembro de 2014. Cláudio
Stábile Ribeiro, Presidente. Luciano José Trindade, Relator (DOU,
S1, 17.11.2014, p. 92-93).

Recurso 49.0000.2012.001773-1/SCA-TTU. Recte.: V.S.B. (Advs.:


Andrey Cavalcante OAB/RO 303-B e OAB/AC 3501 e Outros).
Recdos.: Conselho Seccional da OAB/Rondônia e M.G.F. (Advs.:
Roberto Vieira OAB/RO 742 e Outro). Relator: Conselheiro Federal
Leonardo Accioly da Silva (PE). EMENTA 072/2012/SCA-TTU.
Nas relações do causídico com o cliente o elemento mais
importante é a confiança. O advogado, na medida em que patrocina
demandas contrárias ao dirigente de uma empresa para quem presta
assessoria jurídica, quebra, intencionalmente, tal vínculo, sendo
desimportante a ausência de coincidência entre as partes na ação
judicial. Configurada a infração prevista no inciso I do art. 34 do
EAOAB e art. 20 do CED. Recurso parcialmente provido, apenas
para converter a pena de censura em advertência em ofício
reservado, sem registro nos assentamentos do recorrente, em razão
da observância da atenuante da primariedade, nos termos do art. 36,
parágrafo único do EAOAB. ACÓRDÃO: Vistos, relatados e
discutidos os autos do processo em referência, acordam os membros
da Terceira Turma da Segunda Câmara do CFOAB, por
unanimidade, em conhecer do recurso e dar-lhe provimento parcial,
nos termos do voto do Relator, que integra o presente. Brasília, 17
de abril de 2012. Renato da Costa Figueira, Presidente em exercício.
Leonardo Accioly da Silva, Relator (DOU. 16.05.2012, S1, p. 117).

Normas correlatas: art. 34, IX, XX e XXI, do EOAB.

Art. 11. O advogado, no exercício do mandato, atua como


patrono da parte, cumprindo-lhe, por isso, imprimir à causa
orientação que lhe pareça mais adequada, sem se subordinar a
intenções contrárias do cliente, mas, antes, procurando
esclarecê-lo quanto à estratégia traçada.

Comentários
Demonstra-se tanto a necessidade de confiança na relação cliente-advogado
como, de igual modo, ressalta-se a independência do advogado nestas relações.
O advogado deve, na condição de patrono da parte, traçar a estratégia e
adotar as medidas que entenda sejam mais propícias a atender satisfatoriamente
os interesses confiados pelo cliente.
Contudo, como vimos quando da análise do inciso II do art. 2º, a
independência é um princípio fundamental da atividade exercida pelo advogado,
de modo que não se subordina às intenções do cliente. O advogado tem o dever
de esclarecer ao cliente as medidas que serão adotadas, bem como as
consequências e possibilidades advindas das mesmas. Entretanto, jamais se
subordina ao cliente na definição de referida estratégia.
Art. 12. A conclusão ou desistência da causa, tenha havido, ou
não, extinção do mandato, obriga o advogado a devolver ao
cliente bens, valores e documentos que lhe hajam sido confiados
e ainda estejam em seu poder, bem como a prestar-lhe contas,
pormenorizadamente, sem prejuízo de esclarecimentos
complementares que se mostrem pertinentes e necessários.
Parágrafo único. A parcela dos honorários paga pelos serviços
até então prestados não se inclui entre os valores a ser
devolvidos.

Comentários
Finalizada a causa para a qual havia o advogado sido constituído, este deverá
restituir ao cliente tudo o quanto recebido em virtude de referida causa, como,
por exemplo, bens, documentos que instruíram o processo, bem como eventuais
valores adiantados que seriam utilizados para pagamento de custas etc.
Feito isso, deverá, ainda, o advogado prestar contas de tudo. Deve-se ter em
mente que a prestação de contas é ao mesmo tempo um dever e um direito do
advogado, sendo incabível a recusa injustificada na prestação de contas quando
solicitado pelo cliente.
Na hipótese de o cliente recusar a prestação de contas ofertadas ou não ser
localizado pelo advogado, o causídico deverá fazer uso da ação de prestação de
contas, de tal sorte que tais fatos não servem de justificativa ao advogado para
não prestação das contas. Ainda que o cliente esteja em local incerto, é cabível
na ação de prestação de contas a citação por edital.
A ação de prestação de contas segue procedimento especial, regido pelos
arts. 914 a 919 do CPC de 1973. No CPC de 2015, passa a existir somente a ação
de exigir contas, regida dos seus arts. 550 a 553. A ação para prestar contas
seguirá, então, o procedimento comum a partir da vigência do novo CPC.
O advogado que se recusar injustificadamente a prestar contas incorrerá na
infração ética tipificada no inciso XXI do art. 34 do EOAB. Ademais, neste caso
a penalidade cabível será a suspensão, que perdurará até que seja cumprida a
obrigação de prestar contas, conforme arts. 37, I, § 2º, do EOAB.
Por fim, mencione-se que, ainda que o advogado preste contas
posteriormente, a recusa anterior já configura a infração ética mencionada. A
posterior prestação de contas será apenas computada para fins de delimitação
temporal da penalidade de suspensão a ser aplicada.

Julgados

Ementa: Retenção de valores – Recusa de devolução e prestação de


contas – Caracterização – Suspensão do exercício profissional por
noventa dias c/c multa de três anuidades. Pena perdurável até
efetiva prestação de contas. Advogado que recebe valores em nome
de seu cliente em demanda indenizatória e não presta contas comete
transgressão gravíssima justificando pena mais severa. Conduta
antiética consumada, ocasionando condenação na esfera cível e
criminal. Violação aos incisos XX, XXI e XXV do art. 34 do
EAOAB. Aplicação das penas de suspensão e multa, ante os
antecedentes do profissional.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
10R0001302011, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, da Ordem dos
Advogados do Brasil, Seção São Paulo, por votação unânime, nos
termos do voto do Relator, em julgar procedente a Representação e
aplicar ao Representado a pena de suspensão do exercício
profissional, pelo prazo de 90 (noventa) dias, prorrogável até a
efetiva prestação de contas do valor recebido, cumulada com multa
no valor de 3 (três) anuidades, por configuradas as infrações
previstas nos incisos XX, XXI e XXV do art. 34 do Estatuto da
Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994, nos termos do art. 37, I, §§ 1º
e 2º, c.c. arts. 39 e 40, parágrafo único, letras “a” e “b”, do mesmo
diploma legal.
Sala das Sessões, 25 de abril de 2014. Rel.: Dr. Jairo de Freitas.

Ementa: Locupletação e falta de prestação de contas – Acordo


realizado depois de instauração do processo disciplinar – Alegação
de similaridade com julgado anterior absolutório – Parte e fatos
diversos. Comprovada a locupletação, o pagamento depois de
instaurado o processo disciplinar impede apenas a continuidade da
suspensão prevista no art. 37, § 2º, do EAOAB, não sendo causa de
absolvição. Sendo partes diferentes nas representações distintas, a
primeira arquivada sumariamente por falta de provas e a segunda
com farta documentação, não é caso de reconhecimento de coisa
julgada. A denúncia é procedente, aplicando ao primeiro
Representado a pena de 30 (trinta) dias de suspensão do exercício
profissional para todo o território nacional, prevista no art. 35, II,
c.c. art. 37, I, do EAOAB, por violação dos incisos XX e XXI, do
Estatuto da Advocacia, considerando a atenuante de primariedade;
e, ao segundo Representado, reincidente, a pena de 90 (noventa)
dias de suspensão do exercício profissional para todo o território
nacional, mais multa de 3 (três) anuidades, penas previstas no art.
35, II, c.c. art. 37, I e II, e art. 39 do EAOAB, por violação dos
incisos XX e XXI do art. 34 do Estatuto da Advocacia.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
10R0000392013, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, da Ordem dos
Advogados do Brasil, Seção São Paulo, por votação unânime, nos
termos do voto do Relator divergente, em julgar procedente a
Representação e aplicar ao primeiro Representado a pena de
suspensão do exercício profissional pelo prazo de 90 (noventa) dias,
cumulada com multa de valor de 3 (três) anuidades, por
configuradas as infrações previstas nos incisos XX e XXI, do art.
34, do Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994, nos termos
do art. 35, II, c.c. o art. 37, I e II, c.c. o art. 39, do mesmo diploma
legal, e, ao segundo Representado, a pena de suspensão do exercício
profissional pelo prazo de 30 (trinta) dias, por configuradas as
infrações previstas nos incisos XX e XXI, do art. 34, do Estatuto da
Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994, nos termos do art. 35, II, c.c. o
art. 37, I, do mesmo diploma legal.
Sala das Sessões, 25 de abril de 2014. Rel. (voto-vista): Dr. Achilles
Benedicto Sormani.

Recurso 49.0000.2014.012437-0/SCA-STU. Recte.: P.R.V.N.


(Advs.: Paulo Roberto Vieira Negrão OAB/TO 2132-B e Outro).
Recdos.: Conselho Seccional da OAB/Tocantins e Raimundo
Nonato Barbosa Pinheiro. Relator: Conselheiro Federal Evânio José
de Moura Santos (SE). Ementa 005/2015/SCA-STU. I. Recurso ao
Conselho Federal. Ausência de prestação de contas. Decisão
condenatória aplicando a pena de suspensão do exercício
profissional pelo prazo de 06 (seis) meses, prorrogáveis, por
expressa violação ao art. 34, XX e XXI, do EOAB. II. Preliminar de
nulidade por vício na intimação para a prática de atos processuais.
Intimação regularmente enviada para o endereço constante do
cadastro do insurgente na OAB/TO, tudo em absoluta conformidade
com o disposto no art. 137-D, do Regulamento Geral do EAOAB.
Inexistência de cerceamento de defesa. III. Mérito. Ausência da
prestação de contas. Conduta irregular de advogado que recebe
veículo de seu constituinte para promover a guarda do bem e o
vende, sem sua autorização, retendo o valor recebido. Violação ao
art. 34, XX e XXI, do Estatuto da Advocacia e da OAB. Grave
agressão aos postulados éticos inerentes ao exercício da advocacia.
IV. Suspensão do exercício da profissão pelo prazo de 06 (seis)
meses ou até que sejam efetivamente prestadas as contas,
ressarcindo ao constituinte prejudicado. Precedentes do Conselho
Federal. V. Recurso conhecido e improvido. Acórdão: Vistos,
relatados e discutidos os autos do processo em referência, acordam
os membros da Segunda Turma da Segunda Câmara do CFOAB,
observado o quórum exigido no art. 92 do Regulamento Geral, por
unanimidade, em acolher o voto do Relator, parte integrante deste,
rejeitando a preliminar de nulidade de intimação para a participação
em ato processual e, quanto ao mérito, conhecendo e negando
provimento ao recurso. Brasília, 04 de fevereiro de 2015. José
Alberto Ribeiro Simonetti Cabral, Presidente em exercício. Evânio
José de Moura Santos, Relator (DOU, S1, 23.02.2015, p. 79).

Normas correlatas: arts. 34, XXI, e 37, I, § 2º, do EAOAB; arts. 914 a 919
do CPC de 1973; arts. 550 a 553 do CPC de 2015; Provimento nº 70/1989 do
Conselho Federal da OAB.
Art. 13. Concluída a causa ou arquivado o processo, presume-
se cumprido e extinto o mandato.
Art. 14. O advogado não deve aceitar procuração de quem já
tenha patrono constituído, sem prévio conhecimento deste, salvo
por motivo plenamente justificável ou para adoção de medidas
judiciais urgentes e inadiáveis.

Comentários
Tendo em vista que ambos os dispositivos possuem forte relação, optamos
por comentá-los em conjunto.
Os dispositivos ora em comento correspondem aos arts. 10 e 11 do antigo
CED, tendo, contudo, se alterado o termo “cessação do mandato” por extinção
do mandato, conforme visualizamos do art. 12 do Novo CED.
Vejamos que com a conclusão da finalidade para a qual havia sido outorgado
o mandato ou com o arquivamento do processo, o mesmo se presumirá extinto.
Há clara ligação entre ambos os dispositivos. O art. 14 determina que o
advogado não aceite procuração de quem já tenha advogado constituído, sem lhe
dar ciência prévia. Caso, contudo, estejamos já diante de causa concluída ou de
processo arquivado, por se presumir extinto o mandato, nos termos do art. 13,
não será necessário dar ciência prévia ao advogado anteriormente constituído.
É o exemplo dos autos que já foram arquivados e, posteriormente, têm o
desarquivamento requerido pela parte por meio de outro advogado. Nesta
hipótese, o novo advogado poderá juntar procuração sem dar ciência ao
advogado anterior, uma vez que já extinto o mandato anterior.
O art. 14 traz duas exceções em que o advogado poderia ingressar em autos
com patrono já constituído: seria por motivo plenamente justificável ou para
tomada de medidas urgentes e inadiáveis. Veja-se que são duas hipóteses, de
modo que, sendo a medida urgente e inadiável em si mesma (exemplo: tutela de
urgência para cobertura médica), não é necessário levar justificativa ao juízo,
bastando deduzir o pedido.
Por outro lado, não estando o advogado perante uma das exceções do
dispositivo, não poderá ingressar nos autos judiciais, cometendo infração ética
se assim o fizer mesmo sem causar prejuízo ao advogado já constituído.

Julgados

Ementa: Conduta de aceitar procuração de quem já tenha patrono


constituído (violação ao art. 11 do CED). Ocorrência. Advogada
que junta aos autos procuração e petição em feito em que atuava
outra causídica. Incorre na violação prevista ao art. 11 do CED, a
advogada que aceita procuração de quem já tinha patrono
constituído, juntando-a aos autos juntamente com pedido de
extinção do feito sem julgamento de mérito. Imposição da pena de
censura, convertida em advertência, em ofício reservado, sem
registro nos assentamentos da inscrita, em face da primariedade.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
20R0003122011, acordam os membros da Vigésima Turma
Disciplinar do TED, por unanimidade, nos termos do voto do
Relator, em julgar procedente a representação e aplicar à
Representada a pena de censura, convertida em advertência, em
ofício reservado, sem registro nos assentamentos da inscrita, por
violação ao art. 11, do Código de Ética e Disciplina, nos termos do
art. 36, II, parágrafo único, do Estatuto da Advocacia e da OAB, Lei
8.906/1994. Sala das Sessões, 10 de maio de 2013. Rel. Dr. Ricardo
Ferreira Dias.

Ementa: Aceitar procuração de quem já tinha patrono constituído,


sem ciência deste – Ausência de motivo justo para adoção de
medidas urgentes e inadiáveis – Ausência de prova de atendimento
às regras do art. 11 do CED – Infração às regras do caput do art. 33
do EOAB – Circunstâncias agravantes – Pena de censura c/c multa
mínima de uma anuidade (arts. 36, II, e 39, ambos do EOAB).
Advogada que aceita procuração de quem já tinha patrono
constituído para atuar em ação trabalhista, sem o prévio
conhecimento do defensor regularmente constituído e sem haver
motivo justo para adoção de medidas judiciais urgentes e inadiáveis;
advogada que não prova ter atendido o preceito contido no art. 11
do CED, fere as regras insertas no caput do art. 33 do EOAB,
sujeitando-se às sanções disciplinares previstas no art. 36, II, e no
art. 39, ambos do EOAB, ou seja, a pena de censura, c.c. multa
mínima de uma (01) anuidade, diante das circunstâncias agravantes
existentes. Vistos, relatados e examinados esses autos do Processo
Disciplinar 11R000358/2010, acordam os membros da Vigésima
Segunda Turma Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina da
Ordem dos Advogados do Brasil, Por votação unânime, acolhe o
voto do relator, para julgar procedente a representação. Sala das
Sessões, 23 de novembro de 2012. Rel. Dr. Miguel Ângelo Guilen
Lopes.

Ementa 122/2001/SCA Recurso conhecido e improvido – Decisão


não unânime do Conselho Seccional – Infração do art. 11 do Código
de Ética e Disciplina não comprovada – Representação arquivada.
Não enseja infração ética receber procuração de constituinte que
manifestou a revogação do mandato dos advogados constituídos,
que aparentemente recusaram o substabelecimento,
injustificadamente, em face de honorários pendentes, mas
espontaneamente não reconhecidos pela parte devedora (Recurso nº
2.399/2001/SCA-SC. Relator: Conselheiro Gilberto Piselo do
Nascimento (RO), j. 12.11.2001, por unanimidade, DJ 08.01.2002,
p. 45, S1).

Ementa: Comete infração ética o advogado que aceita procuração de


quem já tenha patrono constituído nos autos, sem prévio
conhecimento deste. Art. 11 do Código de Ética e Disciplina da
OAB. Pena de censura convertida em advertência em razão de bons
antecedentes. (OAB/SP, Segunda Turma Disciplinar, Processo
0635/2012, Relatora Karina Penna Neves).

Normas correlatas: arts. 44 e 45 do CPC de 1973 e arts. 111 e 112 do CPC


de 2015.

Art. 15. O advogado não deve deixar ao abandono ou ao


desamparo as causas sob seu patrocínio, sendo recomendável
que, em face de dificuldades insuperáveis ou inércia do cliente
quanto a providências que lhe tenham sido solicitadas, renuncie
ao mandato.

Comentários
Advém da necessária diligência que o advogado deve ter no cumprimento do
mandato que lhe fora outorgado. Assim, o advogado deve ter o cuidado de
praticar todos os atos necessários ao bom andamento dos feitos que lhe forem
confiados, informando ao constituinte o surgimento de motivos que
impossibilitem o regular cumprimento do mandato.
Não se deve confundir, entretanto, a eventual demora no andamento dos
feitos com uma suposta desídia do advogado. Fato notório é a existência de
enorme sobrecarga de processos e carência de pessoal e tecnologia no poder
judiciário, de modo que a prestação jurisdicional, frequentemente, é
extremamente morosa, o que não pode ser atribuído ao causídico.
Ademais, o advogado que sem justa causa abandonar os casos que lhe forem
confiados praticará a infração ética definida no inciso XI do art. 34 do EOAB,
punida com censura.
Vê-se, por fim, que a prática da infração em questão demanda a inexistência
de justo motivo para o abandono ao feito. Exemplo de um justo motivo seria,
caso o advogado estivesse impossibilitado por motivos de saúde, hipótese em
que não se verificaria a infração em questão.

Julgados

Ementa: Advogados que mudam de endereço impossibilitando


contato do constituinte, mas que praticam os atos necessários para o
bom andamento processual. Abandono ao processo não
configurado. Afronta ao art. 34, XI, do EAOAB inexistente.
Desamparo. Conduta dos advogados que denota, afronta ao art. 12
do Código de Ética e Disciplina – Reincidência na mesma conduta
tipo – Advogados que se mudaram sem deixar novo endereço, mas
que praticam os atos necessários ao andamento do processo não
agem em abandono processual, mas a figura do desamparo, que é
menos que o abandono, deve ser reconhecida face ao evidente
descaso com o constituinte, o que caracteriza afronta ao Código de
Ética e Disciplina. Pena de Suspensão em razão da reincidência, nos
termos do art. 37, II, do Estatuto da Advocacia.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de processo disciplinar


10R0000862011, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por unanimidade, em
julgar procedente a representação e aplicar aos querelados a pena de
suspensão do exercício profissional pelo prazo de 60 (sessenta) dias,
por violação ao art. 12, do Código de Ética e Disciplina, nos termos
do art. 37, II, do Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994.
Sala das Sessões, 29 de novembro de 2013. Rel. Dra. Yeda Costa
Fernandes da Silva.

Ementa: Advogados que mudam de endereço impossibilitando


contato do constituinte e deixam de praticar os atos necessários para
o bom andamento processual. Abandono ao processo configurado.
Afronta ao art. 34, XI, do EAOAB. Desamparo. Conduta dos
advogados que denota descaso, afronta ao art. 12 do Código de
Ética e Disciplina – Descumprimento da obrigação de manter
cadastro atualizado junto à OAB – Previsão do art. 137, “d”, § 1º,
do Regulamento Geral da OAB – Advogados que se mudaram sem
deixar novo endereço, impossibilitando contato do constituinte e
que, ainda, não praticaram os atos necessários ao andamento do
processo, agem em abandono processual nos termos do art. 34, XI,
do EAOAB. Figura do desamparo que deve ser reconhecida face ao
evidente descaso com o constituinte, o que caracteriza afronta ao
art. 12, Código de Ética e Disciplina. Considerando a reincidência e
como agravantes as circunstâncias e as consequências da infração,
bem como o descumprimento da obrigação contida no art. 137, “d”,
§ 1º, do Regulamento Federal da OAB, aplicável a pena de
suspensão, agravada com multa.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de processo disciplinar
10R0001152011, acordam os membros da Décima Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por unanimidade, em
julgar procedente a representação e aplicar aos querelados a pena de
suspensão do exercício profissional pelo prazo de 90 (noventa) dias,
cumulada com multa no valor de 1 (uma) anuidade para cada
representado, por violação ao art. 12, do Código de Ética e
Disciplina e configurada a infração prevista no inciso XI do art. 34
do Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994, nos termos do
art. 37, II, e art. 39, do mesmo diploma legal.
Sala das Sessões, 29 de novembro de 2013. Rel. Dra. Yeda Costa
Fernandes da Silva.
Ementa: Abandono de causa e desamparo de feitos – O advogado
quando contratado tem a liberdade para escolher a melhor forma
processual para solucionar o problema de seu cliente, para isto é
livre para empregar sua expertise – A perda de um prazo processual
que não tenha natureza peremptória ou que não gere prejuízo ao seu
cliente não configura infração disciplinar – A demora no julgamento
da causa não pode, de forma alguma, ser imputada ao advogado,
mas sim à notória sobrecarga de trabalho e insuficiência de
tecnologia e pessoal do Poder Judiciário – Precedentes do Conselho
Federal da OAB – Improcedência da pretensão correcional –
Arquivamento do processo.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
02R0020672009, acordam os membros da Segunda Turma
Disciplinar do TED, por unanimidade, nos termos do voto do
Relator, em julgar improcedente a representação e determinar o
arquivamento dos autos.
Sala das sessões, 27 de abril de 2011. Rel. ad hoc Dr. Leonardo
Lima Cordeiro.

Normas correlatas: art. 34, XI, do EOAB.

Art. 16. A renúncia ao patrocínio deve ser feita sem menção do


motivo que a determinou, fazendo cessar a responsabilidade
profissional pelo acompanhamento da causa, uma vez decorrido
o prazo previsto em lei (EAOAB, art. 5º, § 3º).
§ 1º A renúncia ao mandato não exclui responsabilidade por
danos eventualmente causados ao cliente ou a terceiros.
§ 2º O advogado não será responsabilizado por omissão do
cliente quanto a documento ou informação que lhe devesse
fornecer para a prática oportuna de ato processual do seu
interesse.

Comentários
A renúncia ao mandato é uma forma de extinção do mandato e uma
faculdade atribuída ao advogado. Constitui ato unilateral seu, que independe,
portanto, da vontade do cliente. Em algumas hipóteses a renúncia será
obrigatória, como, por exemplo, no caso de sobrevir conflito de interesses entre
clientes do advogado, que então deverá optar por um deles e renunciar aos
demais, conforme veremos adiante por ocasião dos comentários ao art. 19. Outro
exemplo é a hipótese de conflito de interesses entre o próprio advogado e o
cliente, devendo então o advogado renunciar ao mandato outorgado.
Após a renúncia, o advogado permanece responsável pela causa pelos dez
dias subsequentes, salvo se em tempo menor o cliente constituir outro advogado,
conforme determina o § 3º do art. 5º do EOAB, bem como o art. 45 do CPC de
1973, que é mantido pelo CPC de 2015, em seu art. 112.
Por fim, ao renunciar ao mandato, deve o advogado comunicar formalmente
ao seu cliente, a fim de que este possa constituir outro causídico. Caso não
comunique, o advogado permanecerá responsável pelo feito.

Julgados

Ementa: Processo disciplinar. Falta de notificação da renúncia de


mandato. Caracterizado o abandono de causa. Aplicação da pena de
censura. Ausência de circunstância atenuante. No exercício
profissional, o advogado que não tiver mais condições e interesses
de atuação deve renunciar ao mandato, com devida notificação à
cliente, observando-se ainda o prazo de 10 (dez) dias do art. 5º, § 3º,
do Estatuto da OAB. Caracterizada a infração disciplinar do art. 34,
XI, do EAOAB.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
03R0017622009, acordam os membros da Sexta Turma Disciplinar
do TED, por unanimidade, em acolher a representação e aplicar aos
Representados a pena de censura, e por maioria de votos, por
configurada a infração prevista no inciso XI do art. 34 do Estatuto
da Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994, nos termos do art. 36, I, do
mesmo diploma legal.
Sala das Sessões, 05 de outubro de 2010. Rel. ad hoc e Pres. Dr.
Ricardo Peake Braga.

Recurso 1136/2006/SCA – 02 Volumes – Segunda Turma.


Recorrente: D.F.B. (Advogada: Elaine Salete Bastiani OAB/SP
185.128). Recorridos: Conselho Seccional da OAB/Paraná e A.B.
(Advogado: Antonio Bassi OAB/PR 3.817). Relator: Conselheiro
Federal Jorge Aurélio Silva (SE). Ementa 081/2007/2ªT-SCA.
Renúncia de mandato – Não pratica infração disciplinar o advogado
que por divergência intransponível com o seu cliente renuncia ao
mandato, com as cautelas do § 3º do art. 5º da Lei 8.906/1994.
Acordão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam
os membros da Segunda Turma da Segunda Câmara do CFOAB,
por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e negar-lhe
provimento, nos termos do voto do Relator. Brasília, 08 de outubro
de 2007. Marcelo Henrique Brabo Magalhães, Presidente da
Segunda Turma da Segunda Câmara. Rel. Jorge Aurélio Silva (DJ
24.10.2007, p. 489, S1).

Normas correlatas: art. 5º, § 3º, do EOAB, e art. 45 do CPC de 1973; art.
112 do CPC de 2015.

Art. 17. A revogação do mandato judicial por vontade do cliente


não o desobriga do pagamento das verbas honorárias
contratadas, assim como não retira o direito do advogado de
receber o quanto lhe seja devido em eventual verba honorária de
sucumbência, calculada proporcionalmente em face do serviço
efetivamente prestado.

Comentários
Caso o cliente opte por revogar o mandato conferido ao seu advogado, sem
que este tenha dado qualquer causa para tanto, tal opção não retirará do
advogado em questão o direito a receber, proporcionalmente, a verba honorária
contratada e a verba de sucumbência que eventualmente vier a ser fixada.
Como se sabe, os honorários de sucumbência são do advogado, e não da
parte (art. 23 do EOAB), razão pela qual não poderia mesmo a parte dispor de
referidos honorários ou privar o causídico que atuou na causa de recebê-los,
ainda que proporcionalmente, caso opte por revogar o mandato.
O mesmo acontece com os honorários contratuais, que deverão ser honrados
de forma proporcional, sob pena de vantagem indevida do cliente, que se utilizou
do trabalho do profissional até o rompimento da prestação de serviço. Caso a
contratação seja com cláusula de êxito (integralmente ou majoritariamente), e
venha o cliente revogar injustamente a procuração do causídico, impedindo a
obtenção do resultado, deverá então remunerá-lo de forma proporcional ao
trabalho realizado, seja por meio de arbitramento judicial, seja por meio da teoria
da perda da chance de obter o resultado.
Ademais, não se pode olvidar que os honorários possuem natureza alimentar,
consoante Súmula Vinculante 47 do STF e art. 85, § 14, do CPC.
O cliente, portanto, pode unilateralmente revogar o mandato outorgado, sem
que para isso necessite do consentimento do advogado. Porém, assim feito, terá
o advogado direito aos honorários contratuais e de sucumbência proporcionais
ao trabalho realizado até então.
Mencione-se que o CPC de 2015, alterando o CPC de 1973 nesse ponto, não
mais permite a compensação de honorários quando houver sucumbência
recíproca, consoante seu art. 86, ficando superado, portanto, o entendimento
trazido pela Súmula 306 do STJ. Isso quer dizer que, sendo cada parte vencida e
vencedora ao mesmo tempo, deverão ser pagos honorários em favor dos dois
patronos.
Por fim, a parte que revogar o mandato do advogado, no mesmo ato, deverá
constituir outro causídico para representá-la (arts. 44, do CPC de 1973, e 111 do
CPC de 2015).

Julgados

Ementa: Patrocínio – Participação de novo advogado constituído –


Revogação de mandato anteriormente outorgado – Desnecessidade
de consentimento preliminar – Preservação dos honorários – Não
incorre em infração ética o advogado que recebe procuração e passa
a postular em processo cujo advogado anterior teve revogados os
poderes conferidos. A revogação de poderes, por parte do cliente,
não depende do consentimento do mandatário, uma vez notificado,
resguardando-se os direitos aos honorários constituídos
formalmente e aos sucumbenciais, proporcionalmente, obedecidos
os parâmetros avençados e os estabelecidos pelo art. 14 do CED.
Vistos, relatados e examinados estes autos do processo disciplinar
de 07R0003532011, acordam os membros da Sétima Turma do
Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil,
Secção de São Paulo, por unanimidade, nos termos do voto do I.
Relator, em julgar extinta a representação e determinando o
consequente arquivamento dos autos.
Sala das Sessões, 24 de Maio de 2013. Rel. Dr. Valsomir Ferreira de
Andrade.

Mandato judicial – Revogabilidade – Interesse do mandante. O


mandato judicial é revogável a qualquer momento pelo mandante
que é o único juiz de seus interesses. Não se aplica aos mandatos
judiciais o disposto na lei civil em relação aos mandatos em geral
porque aqueles têm características próprias. Os mandatos judiciais
não podem conter cláusula de irrevogabilidade por contrariar o
dever de o advogado renunciar a eles caso sinta faltar a confiança do
mandante, o que fica patente com a manifestação da vontade de
revogar. Tendo ocorrido revogação do mandato outorgado ao
advogado anteriormente constituído é lícito à consulente receber
procuração desse cliente.
Proc. E-1.298 – v.u. Rel. Dr. Júlio Cardella.

Normas correlatas: art. 23 do EAOAB; art. 44 do CPC de 1973; arts. 86 e


111 do CPC de 2015.

Art. 18. O mandato judicial ou extrajudicial não se extingue pelo


decurso de tempo, salvo se o contrário for consignado no
respectivo instrumento.

Comentários
Deve-se lembrar, portanto, que, regra geral, o mandato judicial não possui
prazo determinado, vigorando até que concluída a causa ou arquivado o
processo, quando então se presumirá cumprido e extinto, como visto quando dos
comentários ao art. 12.
Caso, contudo, as partes desejem, poderão inserir cláusula que fixe prazo de
vigência determinado para o mandato em questão.

Art. 19. Os advogados integrantes da mesma sociedade


profissional, ou reunidos em caráter permanente para
cooperação recíproca, não podem representar, em juízo ou fora
dele, clientes com interesses opostos.

Comentários
O presente dispositivo repisa o quanto já estabelecido pelo § 6º do art. 15 do
EAOAB, que veda a representação de clientes com interesses opostos por parte
de advogados que integrem a mesma sociedade.
Os preceitos éticos se aplicam de igual modo à sociedade de advogados
naquilo que couber, conforme se afere do disposto no § 2º do art. 15 do EAOAB.
Portanto, uma vez que o advogado não pode aceitar procuração de clientes com
interesses conflitantes, o mesmo se aplica à sociedade de advogados.
De se frisar que, no CPC de 2015, quando o advogado integrar sociedade, o
instrumento de mandato deverá obrigatoriamente conter o nome da sociedade,
seu número de registro na OAB e seu endereço completo, conforme art. 105, §
3º, do CPC de 2015.

Julgados

Ementa: Representação procedente. Advogados integrantes da


mesma sociedade profissional ou reunidos em caráter permanente
para cooperação recíproca não podem representar em juízo clientes
com interesses opostos (violação ao art. 17 do CED).

Vistos, relatados e discutidos estes autos do processo disciplinar


450/2009, na 41ª Sessão de Julgamento, acordam os membros da 3ª
Seção da Décima Sétima Turma Disciplinar, por unanimidade nos
termos do voto do relator divergente, pela aplicação da pena de
censura, por configurada a infração prevista no art. 17 do CED, nos
termos do art. 36, II, do mesmo diploma legal.
Sala das sessões, 11 de abril de 2014. Rel. Dr. Andery Nogueira de
Souza.

Ementa: Advogados que têm o mesmo endereço profissional estão,


de alguma forma, reunidos em caráter permanente para cooperação
recíproca, razão pela qual não podem defender clientes com
interesses antagônicos, sob pena de ofensa ao art. 17 do CED e de
violação ao sigilo profissional. Pena de censura aplicada.
Vistos, relatados e discutidos estes autos do Processo Disciplinar
03R0028762009, acordam os membros da Terceira Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por votação unânime,
nos termos do voto do relator, em julgar procedente a representação,
e, aplicar aos Representados, a pena de censura, convertida em
advertência, em ofício reservado, sem registro nos assentamentos
dos inscritos, por violação ao art. 17 do Código de Ética e
Disciplina, nos termos do art. 36, II, parágrafo único, do Estatuto.
Sala das sessões, 26 de abril de 2012. Rel. Dr. Osmar Geraldo
Pinhata.

Acórdão 876 – Ementa: sócio que se retira de sociedade de


advogados – Possibilidade de advogar para clientes da sociedade de
advogados salvo se provada captação abusiva de clientela ou
concorrência desleal – Princípios constitucionais do livre exercício
profissional, livre iniciativa e livre associação. Saída abrupta, sem
comunicação com antecedência razoável, configura ato deslegal e
contrário dos ditames da ética profissional.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
06R0000452013, acordam os membros da Sexta Turma Disciplinar
do Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do
Brasil, Seção de São Paulo, por maioria, nos termos do voto
divergente do Dr. Ricardo Peake Braga, em julgar procedente a
representação e aplicar aos Representados a pena de censura
convertida em advertência, em ofício reservado, sem registro nos
assentamentos dos inscritos, por violação ao art. 2º, parágrafo único,
II, do Código de Ética e Disciplina, nos termos do art. 36, II,
parágrafo único, do Estatuto da Advocacia e a OAB, Lei Federal no
8.906/1994.
Sala das Sessões, 05 de novembro de 2014. Pres. Rel. Div. Dr.
Ricardo Peake Braga

Normas correlatas: art. 15 do EOAB e art. 105, § 3º, do CPC de 2015.

Art. 20. Sobrevindo conflitos de interesse entre seus


constituintes e não conseguindo o advogado harmonizá-los,
caber-lhe-á optar, com prudência e discrição, por um dos
mandatos, renunciando aos demais, resguardado sempre o sigilo
profissional.
Comentários
Existindo interesses conflitantes entre clientes do advogado, que se mostrem
inconciliáveis, deverá o causídico optar por um dos mandatos, renunciando aos
demais. Não é necessário que o advogado opte pelo primeiro mandato/cliente,
podendo optar por aquele que lhe parecer mais adequado, segundo seus próprios
critérios de prudência e discrição.
O sigilo profissional deverá ser preservado, uma vez que decorrente da
própria atividade do advogado.
A importância do conteúdo do presente dispositivo é tamanha que é objeto de
tutela penal a conduta do advogado que patrocina simultaneamente partes
contrárias na mesma causa, praticando o crime de patrocínio infiel, previsto no
parágrafo único do art. 355 do Código Penal (CP). É o exemplo da popularmente
chamada prática da “casadinha”, em que o advogado pratica ato de tergiversação
por meio do patrocínio simultâneo de ambas as partes e a simulação de litígio
judicial que possui por finalidade a fraude à lei.

Ementa: Advogados e defesa de interesses antagônicos e


conflitantes de seus constituintes. Fatos não provados.
Improcedência da representação. Não estando provada nos autos, de
forma clara e objetiva, a existência do patrocínio em juízo de
clientes com interesses conflitantes e antagônicos, não há como se
condenar os advogados representados por infringência aos incisos
IX e XXV do art. 34 da Lei 8.906/1994 e por violação aos arts. 17 e
18 do Código de Ética da Advocacia, impondo-se a sua absolvição.
Vistos, relatados e examinados estes autos do processo disciplinar
0006/10 – Jaboticabal, acordam os membros da Oitava Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por unanimidade, nos
termos do voto do Relator, em julgar improcedente a representação
e determinar o arquivamento dos autos.
Sala das Sessões, 26 de outubro de 2012. Rel. Dr. Nilson Bélvio
Camargo Pompeu.

Ementa: Lides simuladas – Necessidade prévia de reconhecimento


judicial a viabilizar aplicação de sanções disciplinares à luz do
EAOAB e CED. Tergiversação – Advogado ou procurador judicial
que defende na mesma causa, simultânea ou sucessivamente, partes
contrárias, não sendo o caso dos autos, ante a defesa em ações
diversas. Patrocínio infiel – Ocorrência – Advogado que pratica a
“troca de camisas”, ou seja, ora patrocina causa contra certa pessoa
e, logo após, tem esta como cliente, incorre no patrocínio infiel.
Inteligência do art. 20 do CED. Pena: censura, convertida em
advertência, ante a ausência de punição disciplinar anterior (arts. 36,
II, parágrafo único, c/c art. 40, II, da Lei 8.906/1994).
Vistos, relatados e discutidos estes autos do Processo Disciplinar
13R0001352012, acordam os membros da Décima Terceira Turma
Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina – Ribeirão Preto, por
unanimidade, nos termos do voto do relator, em julgar procedente a
Representação e aplicar ao Representado a pena de censura
convertida em advertência, em ofício reservado, sem registro nos
assentamentos do inscrito, por violação ao art. 20, do Código e Ética
e Disciplina, nos termos do art. 36, II, parágrafo único, do Estatuto
da Advocacia e a OAB, Lei 8.906/1994.
Sala das Sessões, 28 de setembro de 2012. Rel. Dr. Luiz Roberto
Barci.

Ementa: Advogado – Infração disciplinar – Patrocínio simultâneo


ou tergiversação – Inocorrência – Arquivamento da representação –
Advogada que peticiona em processo de execução extrajudicial a
homologação de acordo firmado pelos contendores, tendo em vista
que na hipótese os objetivos são comuns, inexistindo parte contrária
e interesses antagônicos, não há falar em patrocínio infiel
simultâneo, face ao consentimento das partes na atuação do mesmo
profissional, em questão de interesse comum. Transitado em julgado
o acordo formulado, encerra-se o ofício do advogado, facultando a
defender apenas seu cliente.
Vistos, relatados e examinados estes autos do processo disciplinar
0216/10 e Apenso – Guariba, acordam os membros da Oitava
Turma Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina, por
unanimidade, nos termos do voto do Relator, em julgar
improcedente a representação e determinar o arquivamento dos
autos.
Sala das Sessões, 31 de agosto de 2012. Rel. Dr. Bento Ornelas
Sobrinho.

Normas correlatas: art. 355, parágrafo único, do Código Penal.

Art. 21. O advogado, ao postular em nome de terceiros, contra


ex-cliente ou ex-empregador, judicial e extrajudicialmente, deve
resguardar o sigilo profissional.

Comentários
Ao patrocinar interesses voltados contra ex-clientes ou ex-empregadores, o
que o dispositivo ora em comento impõe é que o advogado não faça uso de
informações privilegiadas, que tenha recebido em razão da função de advogado
exercida em favor do cliente anterior.
Isto é, não pode o advogado utilizar de informação obtida em razão de suas
funções contra o seu próprio ex-cliente. O sigilo da relação e das informações
recebidas é não só um direito (inciso XIX do art. 7º do EAOAB), como um
dever do advogado imposto pela norma deontológica e que decorre da própria
natureza da relação mantida entre advogado e cliente, que é baseada na
confiança recíproca. O advogado não pode, portanto, fazer uso das informações
que recebeu de cliente antigo pela advocacia exercida anteriormente, para
patrocinar interesse contra este mesmo ex-cliente.
Para a limitação envolvendo as informações recebidas quando da atuação em
favor do ex-cliente, bem como na mesma causa em que atuou, o advogado
deverá preservar o sigilo sem limite de prazos. Poderá, contudo, advogar contra
ex-cliente em causas posteriores que não tenham qualquer relação com os
assuntos pelos quais tratou outrora com seu ex-cliente.
A jurisprudência do TED da OAB/SP já divergiu a respeito da necessidade
de prazo mínimo entre a extinção do mandato e a possibilidade de advogar
contra ex-cliente. Predomina, contudo, o entendimento de que é necessário
aguardar o prazo mínimo de dois anos.

Julgados

Ementa: Exercício profissional. Advocacia contra ex-cliente.


Limites éticos. Possibilidade – A advocacia contra antigo cliente
somente é possível em causas diferentes das que patrocinou e, além
disso, se não houver necessidade ou risco de uso de qualquer dado
revestido pelo sigilo profissional e, ainda, se inexistir o risco de
vantagens ilegítimas, decorrentes da Advocacia anteriormente
exercida em favor do antigo cliente, independentemente do lapso
temporal decorrido. As ações diversas não poderão ter qualquer
relação fática ou jurídica com aquelas em que tenha atuado, nem
tampouco conexão, entendida esta em sentido amplo. Não há
impedimento ético quanto à possibilidade de o advogado patrocinar
causas contra ex-cliente ou ex-empregador, desde que seja com
fundamentos jurídicos diversos das que havia patrocinado a favor
dos mesmos. Obedecidos esses limites éticos, não é necessário
aguardar qualquer prazo para advogar contra ex-cliente. (E-
4.098/2012, E-4.020/2011, E-3.982/2011, E-3.866/2010, E-
3.918/2010 e E-4.109/2012. Proc. E-m 4.187/2012, v.m., em
22.11.2012, do parecer e ementa do julgador dr. Flávio Pereira
Lima, vencido o rel. dr. Fábio de Souza Ramacciotti, com
declaração de voto parcialmente divergente do rev. Dr. Luiz Antônio
Gambelli, presidente dr. Carlos José Santos da Silva).
Ementa: Exercício profissional – Patrocínio de ação contra ex-
cliente – Vedação ética – Espera de dois anos – Sigilo profissional –
O advogado deve aguardar o lapso de tempo de pelo menos dois
anos, contados da conclusão do mandato, para advogar contra ex-
cliente. Conduta que implica em infração ao disposto nos arts. 19 e
25 do Código de Ética e Disciplina, incisos V, IX e XI do art. 34, do
Estatuto da OAB. Extinção do processo – Advogado que não toma
as providências necessárias para evitar a extinção. Falta de
comprovação de que solicitou ao cliente as informações necessárias
para evitar a extinção. Abandono da causa configurado. Infração ao
disposto no art. 34, XI, do Estatuto da OAB.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Processo Disciplinar
427/2006, acordam os membros do Tribunal de Ética e Disciplina
XI, por maioria de votos, contra o voto do Senhor Relator, para
aplicar ao querelado a pena de censura e multa no valor de 01 (uma)
anuidade, por violação aos arts. 19 e 25 do Código de Ética e
Disciplina e configurada a infração prevista no inciso XI do art. 34,
nos termos do art. 36, I, e art. 39, ambos do EAOAB.
Sala das Sessões, 16 de dezembro de 2011. Rel. Dr. Hamilton
Fernando Ariano Borges – Rel. (voto divergente) Dr. José de La
Coleta.

Exercício profissional – Advocacia contra ex-cliente – Limites


éticos – Lapso temporal de dois anos a contar da cessação dos
serviços deve ser a orientação geral, comportando excepcionalidade.
Nossos clientes esperam de nós advogados não apenas o pleno
domínio da técnica jurídica, da arte e oficio da Advocacia, mas
também e principalmente a confiança e lealdade. O interregno
temporal de 2 (dois) anos a contar da cessação da prestação de
serviços ou vínculo empregatício com o ex-cliente é a orientação
geral a ser obedecida, salvo uma ou outra excepcionalidade, mas
não apenas isto. Deve ainda o advogado, de forma perene,
resguardar o sigilo profissional do que saiba em relação ao seu
ofício, inclusive quanto às informações privilegiadas, bem como, se
abster de patrocinar causa contrária à validade de ato jurídico para o
qual tenha contribuído. Exegese dos arts. 19, 20, 25, 26 e 27 do
CED, art. 34, IV, do Estatuto e Resolução 17/2000, Processo E-
4.109/2012 entre outros precedentes.
Proc. E-4.402/2014 – v.u., em 21.08.2014, do parecer e ementa do
Rel. Dr. Fabio Kalil Vilela Leite.

EXERCÍCIO PROFISSIONAL – ADVOCACIA EM FAVOR DE


EX-FUNCIONÁRIOS – DESNECESSÁRIA JUBILAÇÃO DE
DOIS ANOS – MANUTENÇÃO DO SIGILO – CAPTAÇÃO DE
CAUSAS E CLIENTES. A jubilação de dois anos, recomendada
por este sodalício, é para a advocacia contra o ex-empregador e não
para a advocacia em favor de ex-colega de trabalho contra terceiros.
O advogado, que exerceu o cargo comissionado de Secretário
Municipal, não pode se valer do prestígio do cargo ocupado para
angariar causas de ex-funcionários da municipalidade, e deve
manter perpétuo sigilo sobre todas as informações privilegiadas a
que tenha tido acesso. Proc. E-4.431/2014 – v.m., em 12/02/2015,
do parecer e ementa do julgador Dr. Luiz Antonio Gambelli,
vencido o voto vista do julgador Dr. Cláudio Felippe Zalaf, Rel.
Dra. Célia Maria Nicolau RODRIGUES que aderiu ao voto
vencedor, Rev. Dr. Leopoldo Ubiratan C. Pagotto – Presidente Dr.
Carlos José Santos da Silva.

Normas correlatas: arts. 7º, XIX, e 34, VII, do EAOAB.

Art. 22. Ao advogado cumpre abster-se de patrocinar causa


contrária à validade ou legitimidade de ato jurídico em cuja
formação haja colaborado ou intervindo de qualquer maneira; da
mesma forma, deve declinar seu impedimento ou da sociedade
que integre quando houver conflito de interesses motivado por
intervenção anterior no trato de assunto que se prenda ao
patrocínio solicitado.

Comentários
O dispositivo traz uma modalidade específica de proteção ao sigilo
profissional.
O advogado que atua para a constituição de determinado ato jurídico não
pode, após constituído o ato, impugnar-lhe a validade ou legitimidade, uma vez
que tal ato iria de encontro a sua atuação anterior, violando o próprio sigilo da
relação mantida anteriormente. É o exemplo do advogado que atua para as partes
na elaboração de escritura de divórcio extrajudicial, cujo o qual a intervenção do
advogado é obrigatória. O advogado em questão não poderá, posteriormente,
questionar a validade do ato, uma vez que interveio em sua constituição.
Ainda, é dever do advogado revelar tais circunstâncias ao ser procurado,
declinando seu impedimento ético, portanto.
De se destacar que a redação na vigência do antigo CED, em seu art. 20,
impunha ao advogado a abstenção de patrocinar causas consideradas contrárias à
ética ou à moral. Tais partes foram suprimidas da nova redação.

Art. 23. É direito e dever do advogado assumir a defesa


criminal, sem considerar sua própria opinião sobre a culpa do
acusado.
Parágrafo único. Não há causa criminal indigna de defesa,
cumprindo ao advogado agir, como defensor, no sentido de que a
todos seja concedido tratamento condizente com a dignidade da
pessoa humana, sob a égide das garantias constitucionais.

Comentários
O dispositivo ora em comento reflete o art. 21 do antigo CED, tendo sido
acrescido o seu parágrafo único.
Como já visto por diversas vezes, a atuação do advogado compreende uma
grande gama de deveres éticos. No que tange às causas criminais, até mesmo
pela natureza dos bens jurídicos envolvidos em referidas questões, não é apenas
um direito do advogado, mas um dever assumir a defesa criminal sem que seus
juízos valorativos acerca da eventual culpa do acusado sejam empecilho à
plenitude de defesa que deve garantir por meio de sua atuação.
Contudo, não se pode confundir a plenitude de defesa no processo penal com
um salvo conduto para a prática de infrações éticas, consoante decidiu
recentemente o Superior Tribunal de Justiça nos embargos de declaração no
agravo regimental nos embargos de declaração no Recurso Especial 1.263.951, o
qual será transcrito a seguir.
Não importa o delito de que seja acusado o sujeito. Todos possuem o
fundamental direito ao contraditório e à ampla defesa, assegurados
constitucionalmente. É dever do advogado primar pela observância de referidos
direitos, independentemente da natureza do crime objeto do processo penal, o
que decorre da própria função essencial à efetivação da justiça exercida pelo
advogado, inexistindo causa criminal que se possa classificar de indigna de
defesa.

Julgados

Embargos de declaração no agravo regimental nos embargos de


declaração em recurso especial. Art. 2º da Lei 8.176/1991. Omissão,
ambiguidade, contradição ou erro material. Não ocorrência. Mero
inconformismo. Alegação de que a multa foi a única pena aplicada
pelo tribunal de origem. Pretendida prescrição. Abuso do direito de
recorrer. Propósito procrastinatório. Falta de compromisso com a
verdade. Embargos de declaração não conhecidos. Comunicação à
OAB.
1. Consoante o disposto no art. 619 do Código de Processo Penal, a
oposição de embargos de declaração almeja, em síntese, o
aprimoramento da prestação jurisdicional, por meio da retificação
do julgado que se apresenta omisso, ambíguo, contraditório ou com
erro material.
2. O mero inconformismo da parte com o resultado do julgamento
não se coaduna com a via do recurso integrativo, sobretudo porque a
concessão de efeitos infringentes aos embargos de declaração
somente pode ocorrer em hipóteses excepcionais, em casos de erro
evidente, não se prestando, pois, para revisar a lide.
3. Mesmo já esgotada a jurisdição da instância extraordinária,
percebe-se, com oposição de novos embargos declaratórios, nítida
intenção de procrastinar o resultado final da ação penal, mercê de
tese nova, de suposta prescrição da pretensão punitiva em relação ao
crime pelo qual foi o recorrente condenado.
4. Para tanto, falta com a verdade o advogado do recorrente, ao
afirmar, na petição de embargos, que a pena aplicada ao seu cliente
foi somente a de multa, mesmo ciente de que o acórdão
condenatório, contra o qual o mesmo causídico interpusera recurso
especial, impingiu ao embargante, pela prática do crime positivado
no art. 2º da Lei 8.176/1991, pena privativa de liberdade de um ano
de detenção, além de dez dias-multa.
5. É dever do procurador da parte expor os fatos em juízo conforme
a verdade e não formular pretensão ou apresentar defesa quando
ciente de que são destituídas de fundamento (art. 77, I e II, da Lei
13.105/2015). Ainda que, na jurisdição criminal, esse compromisso
deontológico deva eventualmente ser mitigado em detrimento da
garantia constitucional da amplitude de defesa – que diz respeito
aos fatos imputados ao réu –, é intolerável que se deturpe a nobre
função da advocacia com comportamentos éticos desse jaez perante
uma Corte Superior de Justiça.
6. Embargos de declaração não conhecidos, determinando-se o
trânsito em julgado e a posterior baixa do feito, caso não haja
recurso extraordinário interposto para o Supremo Tribunal Federal,
além de comunicação à Ordem dos Advogados do Brasil, para
conhecimento. (STJ, EDcl no AgRg nos EDcl no REsp 1.263.951-
SP. Rel. Min. Rogério Schietti Cruz. Julgado em 19.05.2015).

Normas correlatas: arts. 5º, LV, e 133 da CF/1988; art. 2º do EAOAB.

Art. 24. O advogado não se sujeita à imposição do cliente que


pretenda ver com ele atuando outros advogados, nem fica na
contingência de aceitar a indicação de outro profissional para
com ele trabalhar no processo.

Comentários
Na relação mantida entre o advogado e o cliente, vimos que a independência
do causídico é uma constante que deve ser preservada, sob pena de a atuação
restar até mesmo inviabilizada.
Como forma de consagrar a independência do advogado, o presente
dispositivo assegura ao profissional a não subordinação perante o cliente que
queira ver outros advogados atuando em conjunto com o advogado contratado.
Assim, caso não deseje que outros advogados atuem em conjunto, caberá ao
cliente revogar o mandato do seu advogado, constituindo outros. Nessa hipótese,
o cliente deverá pagar os honorários convencionados e o advogado terá direito às
verbas de sucumbência proporcionalmente, consoante disposto pelo art. 16 do
Novo CED.

Julgados

Relação advogado-cliente – Imposição da constituinte de que a


advogada passe a atuar em conjunto com outro profissional –
Recusa legítima da advogada – Inteligência dos arts. 16 e 22 do
CED – Dever de renúncia ou substabelecimento – Fato que não
prejudica o recebimento dos honorários advocatícios, contratados ou
sucumbenciais, a serem calculados proporcionalmente. Da natureza
personalíssima do mandato judicial, e do vínculo de confiança
recíproca que inspira o relacionamento da advogada com a cliente,
decorre que esta não se encontra obrigada a aceitar imposição de
atuar com outro profissional, como dispõe o art. 22 do CED. No
caso de insistência do cliente nesse proceder, deverá a advogada
renunciar ao mandato, cumprindo o prazo legal do art. 5º, § 3º, do
EAOAB. Poderá, outrossim, a Consulente, substabelecer os poderes
que lhe foram confiados a outro profissional, sem que com isso
comprometa o recebimento da honorária a que faz jus, visto que a
existência de contrato escrito de honorários a legitima, nos termos
do art. 22, § 4º, do EAOAB, a proceder à cobrança nos próprios
autos do processo judicial, proporcionalmente ao trabalho realizado
(art. 22, § 3º, do EAOAB).
Proc. E-3.967/2010 – v.u., em 17.02.2011, do parecer e ementa do
Rel. Dr. Luiz Francisco Torquato Avolio.

Art. 25. É defeso ao advogado funcionar no mesmo processo,


simultaneamente, como patrono e preposto do empregador ou
cliente.

Comentários
A figura do preposto jamais pode se confundir com a do advogado. O
preposto é o sujeito nomeado para representar outro em juízo, ao passo que o
advogado representa tecnicamente seu cliente, exercendo sua capacidade
postulatória.
Geralmente, o preposto é nomeado para representar uma empresa em juízo,
por seu sócio ou administrador. Trata-se de situação bastante comum, mormente
na Justiça do Trabalho. Predomina na jurisprudência o entendimento de que o
preposto, nos processos trabalhistas, deve ser empregado da empresa (Súmula
377 do TST). O preposto não pode praticar atos privativos de advogado no
processo.

Julgados

Ementa: Atuação no mesmo processo como advogado e preposto –


Procedência da representação – Infração ao art. 23 do CED – Pena
de censura convertida em advertência nos termos do art. 36, II,
parágrafo único do Estatuto da OAB. Atuação no mesmo processo
como advogado e preposto, vedação infração ética configurada,
aplicação de pena de censura convertida em advertência diante da
inexistência de antecedentes.
Vistos, relatados e examinados estes autos do processo disciplinar
de 07R0008192011 (08.083/38), acordam os membros da Sétima
Turma do Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados
do Brasil, Secção de São Paulo, nos termos do voto do Relator, por
unanimidade de votos. A Turma julgou procedente a Representação,
por infração ao art. 23 do CED, aplicando ao Representado a pena
de Censura convertida em advertência, nos termos do art. 36, II,
parágrafo único do Estatuto da OAB.
Sala das Sessões, 28 de outubro de 2011. Rel. Dr. Luiz Ricardo
Biagioni Bertanha.

Ementa: Advogado que atua como preposto e sequer é constituído


como advogado nos autos não pode ser considerado como tal
profissional e sua atuação se resume aos termos de preposto não
interferindo ou representado seu constituinte legalmente como
advogado – Improcedência da representação – Arquivamento que se
impõe.
Vistos, relatados e examinados estes autos do processo disciplinar
de 09.211/38, acordam os membros da Sétima Turma do Tribunal de
Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de
São Paulo. Por unanimidade de votos, a Turma julgou improcedente
a Representação, determinando seu consequente arquivamento.
Sala das sessões, 29 de junho de 2012. Rel. Dr. Aparecido Romano.

Ementa: Cumulação de função de preposto e advogado no mesmo


processo – vedação prevista no Código de Ética – Comprovação dos
autos da participação em audiência como advogado e preposto –
Representação procedente – Pena de censura, convertida em ofício
reservado – Primariedade observada como atenuante na dosimetria
da pena.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de processo disciplinar
18R0000902010, acordam os membros da Décima Oitava Turma
Disciplinar do TED, por maioria, nos termos do voto do Relator, em
acolher a representação e aplicar ao Representado a pena de
censura, convertida em advertência, em ofício reservado, sem
registro nos assentamentos do inscrito, por caracterizada a infração
prevista no art. 23 do Código de Ética, nos termos do art. 36, II, e do
art. 40, II, da Lei 8.906/1994.
Sala das Sessões, 27 de setembro de 2013. Rel. Dr. Luciano Arias
Rodrigues.

PREPOSTO – EX-EMPREGADO QUE TRABALHAVA NO


DEPARTAMENTO JURÍDICO – IMPEDIMENTO PERENE
DE ADVOGAR CONTRA EX-EMPREGADORA NA ESFERA
TRABALHISTA – MANUTENÇÃO DO SIGILO DOS
ASSUNTOS QUE CONHEÇA EM RAZÃO DE CARGO NAS
DEMAIS ÁREAS. O ex-empregado que atua no departamento
jurídico, ainda que não exercendo a função de advogado, mas como
tarefas administrativas/jurídicas, tais como escolher testemunhas,
documentos para instruir defesas, análise e alterações de teses de
defesas preparadas por escritórios terceirizados e, em especial,
exercendo com regularidade a função de preposto na Justiça do
Trabalho, tem conhecimento de todos os fatos, sujeito à pena de
confissão. Nestas condições, fica impedido de advogar contra a ex-
empregadora na Justiça do Trabalho e este impedimento passa a ser
perpétuo. Nas demais áreas, obriga-se ao sigilo e jamais poderá
utilizar qualquer informação obtida em razão da relação
empregatícia mantida com a ex-empregadora, na defesa dos
interesses desta, nos termos do que dispõe os artigos 19, 20,
25,26,27 do CED, e sujeito à infração disciplinar nos termos do
artigo 34, inciso VII. Precedentes: E-3.982/11; E-3.930/10; E-
4.117/12; E-4.042/11; E-3.262/05. Proc. E-4.512/2015 – v.u., em
21/05/2015, do parecer e ementa da Rel. Dra. Marcia Dutra Lopes
Matrone – Rev. Dr. Luiz Antonio Gambelli.

Art. 26. O substabelecimento do mandato, com reserva de


poderes, é ato pessoal do advogado da causa.

Comentários
O substabelecimento é o ato por meio do qual o advogado transfere os
poderes recebidos do seu cliente para outro advogado.
No caso do substabelecimento com reservas, o advogado transfere parte dos
poderes para outro causídico, porém reserva, ainda, os poderes para si, de modo
que permanece atuando na causa.
No substabelecimento com reservas, o advogado substabelecente permanece
como titular exclusivo dos direitos e deveres do mandato judicial outorgado, de
modo que, por tal razão, trata-se de ato pessoal seu.

§ 1º O substabelecimento do mandato sem reserva de poderes


exige o prévio e inequívoco conhecimento do cliente.
Comentários
O substabelecimento sem reservas é aquele em que o advogado transfere os
poderes a outro advogado, sem reservar quaisquer poderes para si. Por tal razão,
implica a renúncia ao mandato outorgado, extinguindo-o.
Por tal motivo que se exige o prévio conhecimento do cliente acerca do
substabelecimento sem reservas.

§ 2º O substabelecido com reserva de poderes deve ajustar


antecipadamente seus honorários com o substabelecente.

Comentários
Tratando-se o substabelecimento com reservas de ato pessoal do advogado
da causa, cabe ao substabelecido com este convencionar sua participação nos
honorários a serem recebidos.
Não pode o advogado substabelecido com reservas cobrar honorários
diretamente do outorgante do mandato judicial, ou seja, do cliente do
substabelecente.

Julgados

Mandato – Substabelecimento com reserva de poderes – Revogação


– Partilha de honorários. O substabelecente, na qualidade de titular
exclusivo dos direitos e deveres emanados da procuração judicial,
pode, quando deixar de ter interesse no prosseguimento do
substabelecimento outorgado com reserva de poderes, revogá-lo,
sem ferir a ética profissional. Para tanto, deverá a revogação
observar as formalidades hábeis, dando-se ciência do fato ao
substabelecido e ao juízo da causa e seu constituinte, se for o caso.
A partilha de honorários, bem como o trabalho a ser efetuado e a
forma de pagamento, no caso de substabelecimento com reserva de
poderes, segundo recomendação do TED-I, devem ser ajustados
previamente. Caso tal não ocorra, este Tribunal Deontológico está
impedido de se pronunciar sobre o percentual e a forma de partilha
dos honorários contratados, por sua natureza concreta. A
competência do TED-I fica restrita à mediação e conciliação dos
advogados, caso queiram utilizar-se desta prerrogativa para solução
de suas pendências. Inteligência do art. 50, IV, “a” e “b”, do CED.
Precedentes E-2569/2002 e 2891/2004.
Proc. E-3.618/2008 – v.u., em 19.06.2008, do parecer e ementa do
Rel. Dr. Guilherme Florindo Figueiredo.

Substabelecimento sem reservas de poderes – Exigência do prévio e


inequívoco conhecimento do cliente – Parágrafo primeiro do art. 24
do Código de Ética e Disciplina – Relação de confiabilidade que
deve nortear o relacionamento entre o cliente e os advogados,
substabelecente e substabelecido – Direito de escolha do cliente que
poderá optar por advogado diferente daquele pretendido ou indicado
pelo substabelecente – Observações. O advogado que pretender
substabelecer o mandato recebido, sem reserva de poderes, deverá
observar a regra estabelecida pelo § 1º do art. 24 do Código de Ética
da OAB, dando prévio e inequívoco conhecimento ao cliente para
que este concorde ou não com o profissional indicado pelo
substabelecente. Princípio da confiabilidade que deve reger as
relações entre cliente e advogado. Observa-se que o
substabelecimento sem reserva de poderes, a título gratuito, não é
recomendável, por deixar dúvida a respeito da motivação dessa
atitude, tanto do substabelecente como do substabelecido indicado
pelo primeiro, a recomendar o prévio ajuste com o cliente. Direito
aos honorários assegurado pelo art. 22 da Lei 8.906/1994.
Possibilidade de o mandante optar por outro advogado que não o
indicado pelo substabelecente. Princípio da moderação e
proporcionalidade dos honorários.
Proc. E-3.812/2009 – v.u., em 15.10.2009, do parecer e ementa do
Rel. Dr. Benedito Édison Trama.

CAPÍTULO IV
Das Relações com os Colegas, Agentes Políticos, Autoridades,
Servidores Públicos e Terceiros
Comentários
Ao passo que o capítulo anterior teve por objeto as relações mantidas entre
os advogados e seus clientes, neste capítulo o objeto serão, por outro lado, as
relações mantidas pelos advogados entre si, e as relações entre advogados,
autoridades, servidores públicos e demais terceiros, tais como, por exemplo, a
parte contrária.
Veremos que um dos princípios fundamentais de tais relações é a
inexistência de hierarquia entre o advogado e as autoridades judiciárias,
possibilitando, assim, a atuação plena do causídico em favor dos interesses de
seu constituinte.
No mais, o advogado deve tratar todos os envolvidos nos casos em que atue
por ocasião de sua função, com respeito, decoro, boa-fé e urbanidade.

Art. 27. O advogado observará, nas suas relações com os


colegas de profissão, agentes políticos, autoridades, servidores
públicos e terceiros em geral, o dever de urbanidade, tratando a
todos com respeito e consideração, ao mesmo tempo em que
preservará seus direitos e prerrogativas, devendo exigir igual
tratamento de todos com quem se relacione.
§1º. O dever de urbanidade há de ser observado, da mesma
forma, nos atos e manifestações relacionados aos pleitos
eleitorais no âmbito da Ordem dos Advogados do Brasil.
§ 2º No caso de ofensa à honra do advogado ou à imagem da
instituição, adotar-se-ão as medidas cabíveis, instaurando-se
processo ético-disciplinar e dando-se ciência às autoridades
competentes para apuração de eventual ilícito penal.
Art. 28. Consideram-se imperativos de uma correta atuação
profissional o emprego de linguagem escorreita e polida, bem
como a observância da boa técnica jurídica.
Comentários
Ambos os artigos em questão tratam do dever de urbanidade que deve ser
observado pelo advogado em sua atividade. Trata-se de disposições similares
àquelas constantes dos arts. 44 e 45 do antigo CED.
No desempenho de sua atividade profissional e nas relações sociais mantidas
em função desta, deve o advogado tratar a todos com respeito e, de igual modo,
exigir o mesmo tratamento, não faltando com a urbanidade e não admitindo que
outros o façam consigo. Tal exigência deverá ser observada inclusive nos atos
eleitorais praticados por ocasião dos pleitos eleitorais ocorridos no âmbito da
OAB, como, por exemplo, aqueles praticados pelos advogados candidatos a
cargos eletivos.
Não se pode jamais olvidar que o advogado exerce função social e presta
serviço público, de modo que o advogado que falta com seu dever de
urbanidade, seja com relação a outro colega, à própria parte adversa, ou a
qualquer outro sujeito, acaba por macular a própria dignidade da advocacia. O
mesmo se pode concluir acerca do advogado que aceita passivamente a ofensa às
suas prerrogativas.
A boa técnica forense impõe o bom trato e a linguagem polida e harmônica,
inclusive na redação das peças processuais. Tal não significa, contudo, que não
deva o advogado adotar postura combativa quando necessário. Porém, não se
pode confundir a combatividade na defesa dos interesses do cliente com
agressividade ou ofensas que em nada se relacionam ao objeto da causa. Deve o
advogado avaliar cuidadosamente, em cada caso, a medida necessária de seus
argumentos.
Assim, pode-se concluir que o bom trato nas relações envolvendo a atividade
advocatícia constitui tanto um dever próprio como um direito em relação aos
demais.

Julgados

A imunidade profissional conferida ao advogado, ao manifestar-se


no exercício de sua atividade, em juízo ou fora dele, não é absoluta
– Limites impostos pelos textos legais aos excessos cometidos.
Comete falta contra o dever de urbanidade, o profissional que
emprega, no calor do debate judicial, adjetivos e frases agressivas e
deselegantes que não condizem com a necessidade de isenção das
paixões e rancores de seus constituintes. Devem prevalecer
harmonia, cordialidade e boas relações entre os patronos das lides,
especialmente para que ponham de relevo os verdadeiros
argumentos que dão respaldo ao articulado no processo. Em cada
situação compete ao advogado ponderar, com cuidado, se tal ou
qual assertiva, de acordo com as circunstâncias concretas do caso e
a pessoa a quem se dirige, são ou não insolentes e podem ferir a
dignidade alheia. Inteligência do art. 133 da Constituição Federal e
do art. 7º, § 2º, do EAOAB.
Proc. E-2.553/2002 – v.u. em 18.04.2002 do parecer e ementa da
Rel.ª Dr.ª Maria do Carmo Whitaker.
Recurso 49.0000.2012.012278-0/SCA-STU. Rectes.: J.F.P. e J.S.L.
(Advs.: Ana Silva de Luca Chedick OAB/SP 149137 e José Gerson
Martins Pinto OAB/SP 69639). Recdos.: Conselho Seccional da
OAB/SP, E.M. e O.M.M.A.O.M. (Advs.: Estevão Mallet OAB/SP
109014, Renato Noriyuki Dote OAB/SP 162696 e outros). Relator:
Conselheiro Federal Luiz Cláudio Allemand (ES). Relator para o
acórdão: André Luis Guimarães Godinho (BA). Ementa
011/2015/SCA-STU. Recurso ao Conselho Federal. Violação ao
dever de urbanidade. Advogado que profere reiteradamente
expressões ofensivas direcionadas ao advogado da parte adversa.
Imunidade profissional que não pode ser invocada para a prática de
comportamentos antiéticos e ofensivos a colegas de profissão.
Infração ética configurada. Decisão condenatória proferida pelo
Tribunal de Ética mantida. Recurso não provido. Acórdão: Vistos,
relatados e discutidos os autos do processo em referência, acordam
os membros da Segunda Turma da Segunda Câmara do Conselho
Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, observado o quórum
exigido no art. 92 do Regulamento Geral, por maioria, em acolher o
voto divergente do Conselheiro Federal André Luis Guimarães
Godinho, parte integrante deste, conhecendo e negando provimento
ao recurso. Brasília, 04 de fevereiro de 2015. José Alberto Ribeiro
Simonetti Cabral, Presidente em exercício. André Luís Guimarães
Godinho, Relator para o acórdão (DOU, S1, 25.03.2015, p. 133-
135).

Recurso 2010.08.09373-05/SCA-TTU. Recte.: L.A.O. (Advs.:


Diogo da Silva Lima OAB/GO 31313 e outros). Recdos.: Conselho
Seccional da OAB/GO, E.C.C.C., I.P.M., J.G.S.O. e V.G.C. (Advs.:
Edwiges Conceição Carvalho Corrêa OAB/GO 18221, Ismar Pires
Martins OAB/GO 6069, José Geraldo de Santana Oliveira OAB/GO
14090 e Valdivino Gonçalves Corrêa OAB/GO 15223). Relator:
Conselheiro Federal Leonardo Accioly da Silva (PE). Ementa
135/2011/SCA-TTU. 1. Nem sempre expressões fortes e
contundentes usadas por advogado em peça processual podem ser
consideradas como ofensa ao dever de urbanidade previsto no art.
45 do CED, especialmente quando necessárias para o cumprimento
do seu desiderato legal e constitucional de defesa dos interesses de
seus constituintes. Recurso conhecido, mas que se nega provimento.
Acórdão: Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os
Conselheiros Federais integrantes da Terceira Turma da Segunda
Câmara, por unanimidade de votos, em conhecer e negar
provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. Brasília, 17
de maio de 2011. Renato da Costa Figueira, Presidente, em
exercício da Terceira Turma da Segunda Câmara. Leonardo Accioly
da Silva, Relator (DOU, S1, 16.08.2011, p. 127).

Dever de urbanidade: Advogado que se manifesta de maneira


desrespeitosa, irônica, deselegante em petições judiciais as quais
deveria defender interesse de seu cliente viola os preceitos dos arts.
44 e 45 do Código de Ética e Disciplina, sendo-lhe aplicável pena
de censura cumulada com o pagamento de 5 (cinco) anuidades, haja
vista reiterada reincidência em conduta antiética. (OAB/SP,
Segunda Turma Disciplinar, Processo nº 2864/2008, Relatora
Karina Penna Neves)

Normas correlatas: art. 6º do EOAB.


Art. 29. O advogado que se valer do concurso de colegas na
prestação de serviços advocatícios, seja em caráter individual,
seja no âmbito de sociedade de advogados ou de empresa ou
entidade em que trabalhe, dispensar-lhes-á tratamento condigno,
que não os torne subalternos seus nem lhes avilte os serviços
prestados mediante remuneração incompatível com a natureza
do trabalho profissional ou inferior ao mínimo fixado pela Tabela
de Honorários que for aplicável.
Parágrafo único. Quando o aviltamento de honorários for
praticado por empresas ou entidades públicas ou privadas, os
advogados responsáveis pelo respectivo departamento ou
gerência Jurídica serão instados a corrigir o abuso, inclusive
intervindo junto aos demais órgãos competentes e com poder de
decisão da pessoa jurídica de que se trate, sem prejuízo das
providências que a Ordem dos Advogados do Brasil possa adotar
com o mesmo objetivo.

Comentários
Tratando-se de relação profissional mantida entre advogados, aquele que
contratar os serviços deverá agir com respeito perante o colega, assegurando-lhe
remuneração condigna com o trabalho a ser desenvolvido.
O contratante, ademais, não deve tornar o advogado contratado um
subalterno seu, o que implica dizer que deve ser preservado o princípio
fundamental da independência do advogado em sua atuação.
Na hipótese de aviltamento de honorários praticados por pessoas jurídicas,
deverão os advogados responsáveis intervir sobre os órgãos que tiverem poder
de decisão sobre a situação, sem excluir as providências que podem ser adotadas
pela própria OAB.

CAPÍTULO V
Da Advocacia

Art. 30. No exercício da advocacia pro bono, e ao atuar como


defensor nomeado, conveniado ou dativo, o advogado
empregará o zelo e a dedicação habituais, de forma que a parte
por ele assistida se sinta amparada e confie no seu patrocínio.
§ 1º Considera-se advocacia pro bono a prestação gratuita,
eventual e voluntária de serviços jurídicos em favor de
instituições sociais sem fins econômicos e aos seus assistidos,
sempre que os beneficiários não dispuserem de recursos para a
contratação de profissional.
§ 2º A advocacia pro bono pode ser exercida em favor de
pessoas naturais que, igualmente, não dispuserem de recursos
para, sem prejuízo do próprio sustento, contratar advogado.
§ 3º A advocacia pro bono não pode ser utilizada para fins
político-partidários ou eleitorais, nem beneficiar instituições que
visem a tais objetivos, ou como instrumento de publicidade para
captação de clientela.

Comentários
Discussão de longa data na ética profissional da advocacia se direcionava à
possibilidade de advocacia pro bono e a sua própria definição. A advocacia pro
bono é aquela exercida pelo advogado em favor de instituições sociais sem fins
econômicos e aos seus assistidos que não possuam condições financeiras para
contratação de profissionais. É a advocacia “para o bem”.
Tanto o advogado que esteja sendo remunerado e tenha sido efetivamente
constituído como aquele que optar por atuar pro bono ou ainda o advogado
dativo possuem o dever ético de atuar com o mesmo empenho, transmitindo
confiança ao assistido.
O Novo CED, consoante se vê, passa a admitir expressamente a advocacia
pro bono, que conforme se demonstrará nos julgados, era matéria bastante
controvertida.
Certo é que a advocacia pro bono deve, de fato, ser regulamentada, uma vez
que, apesar da nobre iniciativa que reveste o instituto, muitas vezes a prática
pode ser um artifício para camuflar infrações éticas, como por exemplo a
publicidade imoderada, captação de clientela, entre outras formas de
autopromoção que constituam a real motivação por trás do ato de altruísmo.
Desse modo, a advocacia pro bono deverá sempre ser exercida com discrição,
sem se dar imoderada publicidade ao fato, como forma de promoção pessoal do
advogado.
Por fim, vale dizer que o texto original do novo código trazia a previsão de
que a sucumbência do processo judicial pudesse ser revertida ao advogado,
disposição esta que acabou sendo retirada do texto.
Algumas Secionais já possuíam regramento próprio para o exercício da
advocacia pro bono, a exemplo da Seccional São Paulo.
Cabe salientarmos que, além das disposições do NCED, a advocacia pro
bono é também disciplinada pelo Provimento nº 166/2015 do CFOAB.
No que tange ao citado provimento, importante mencionar que o mesmo traz
uma situação de impedimento para a advocacia. Conforme aferimos do art. 4º e
seu § 1º do Provimento 166/2015 do CFOAB, vemos que o advogado fica
impedido de atuar de forma remunerada, por três anos, para aquele que tenha se
valido de seus serviços em caráter pro bono.

Julgados

Advocacia pro bono – Atividade voltada para o bem público, sem


contrapartida financeira – Necessidade de regulamentação
estabelecendo limites e coibindo abusos. A denominada advocacia
pro bono é costume entre os advogados norte-americanos, exercida
especialmente pelas grandes sociedades de profissionais, cujo
modelo começa a ser sugerido no Brasil, onde, de forma mais
discreta já é praticada por muitos profissionais, regulamentada
como assistência jurídica aos carentes (33.000 nesta Seccional),
antiga tradição com assento constitucional e infraconstitucional,
sem receber o charmoso título pro bono, postura que, se de um lado
pode merecer aplausos, por outro lado pode estar acobertando
infrações éticas (captação de causas e clientes, publicidade
imoderada e sem discrição, concorrência desleal, além da obtenção
de dividendos políticos). Tratando-se de situação nova, a matéria
merece regulamentação especial, em face da grande diferença
existente entre o exercício profissional da advocacia na América do
Norte e no Brasil. Mesmo nada cobrando, o advogado é responsável
por eventuais danos causados ao cliente. Inteligência do art. 5º,
LXXIV, da CF, Lei Complementar 80/1944, Lei 1.060/1950 e art.
33, parágrafo único, do EAOAB.
Proc. E-2.392/2001 – v.u. em 19.07.2001 do parecer e ementa do
Rel. Dr. Fábio Kalil Vilela Leite.

E-3.841/2009 – Advocacia pro bono – Exercício por empresa


mercantil por meio de seus advogados – Impossibilidade de
advocacia pro bono – Exercício em nome próprio por advogados
empregados de empresa mercantil – Possibilidade. Advocacia pro
bono exercida, mesmo que apenas em consultoria jurídica, para
pessoas físicas – Impossibilidade – Publicidade pela empresa
mercantil do exercício da advocacia pro bono por advogados seus
funcionários – Impossibilidade. A advocacia pro bono somente
poderá ser exercida por advogados ou sociedades de advogados
devidamente registradas na OAB. Nos termos da Resolução pro
bono do Conselho Secional de São Paulo, da OAB, tais serviços
serão prestados apenas para pessoas jurídicas do terceiro setor que
não os possam custear sem prejuízo de suas atividades. As pessoas
físicas necessitadas deverão ser encaminhadas à Defensoria Pública
ou à Assistência Judiciária. Advogados empregados de empresas
mercantis não estão impedidos de exercer a advocacia pro bono,
mas deverão fazê-lo em nome próprio, sem que haja disso qualquer
vinculação ou publicidade da empresa que os remunera. V.M., em
17.06.2010, do parecer e ementa do Rel. Dr. Zanon de Paula Barros,
com declaração de voto divergente dos julgadores Drs. Gilberto
Giusti e Flávio Pereira Lima – Rev. Dr. Luiz Antonio Gambelli –
Presidente Dr. Carlos José Santos da Silva.

PRO BONO – ONG – ATENDIMENTO AOS NECESSITADOS


ATRAVÉS DE ADVOGADO DA ENTIDADE –
IMPOSSIBILIDADE – ENCAMINHAR OS NECESSITADOS
DE ASSESSORIA JURÍDICA AOS INÚMEROS SERVIÇOS
GRATUITOS EXISTENTES. Advogado de ONG não pode atender
os necessitados com base na Resolução Pro Bono. A Resolução Pro
Bono destina-se, exclusivamente, a pessoas jurídicas sem fins
lucrativos. Advogar na ONG, para seus associados, pode ser
interpretado como benemerência travestida de captação de clientela,
concorrência desleal, práticas condenadas pelo Estatuto da
Advocacia e pelo Código de Ética e Disciplina. Deverão os
hipossuficientes necessitados de assessoria jurídica ser
encaminhados aos inúmeros serviços gratuitos existentes, como o
Convênio OAB/PGE, existente em todo o Estado de São Paulo, os
Centros Acadêmicos das diversas faculdades de Direito, a
Procuradoria-Geral do Estado e a Defensoria Pública do Estado de
São Paulo (Precedentes E-3.765/09, E 3.542/07, E-3.330/06, E-
2.278/00, E-2.392/01 e E-2.954/04). Proc. E-4.0852011 – v.u., em
15/12/2011, do parecer e ementa da Rel. Dra. Marcia Dutra Lopes
Matrone – Rev. Dr. Fabio Kalil Vilela Leite, Presidente Dr. Carlos
José Santos da Silva.

CAPÍTULO VI
Do Exercício de Cargos e Funções na OAB e na Representação da
Classe

Comentários
Veremos no capítulo ora em comento as disposições éticas fundamentais para
a atuação do advogado em representação da classe advocatícia ou no exercício
de cargos ou funções na Ordem dos Advogados do Brasil.
As disposições seguintes, em consonância com os princípios fundamentais
da advocacia, deixam claro que o motor básico de atuação do advogado quando
nestas funções deverá ser o de intervir em prol da classe, jamais valendo-se do
cargo ou função exercidos como modo de favorecer a si ou a terceiros.

Art. 31. O advogado, no exercício de cargos ou funções em


órgãos da Ordem dos Advogados do Brasil ou na representação
da classe junto a quaisquer instituições, órgãos ou comissões,
públicos ou privados, manterá conduta consentânea com as
disposições deste Código e que revele plena lealdade aos
interesses, direitos e prerrogativas da classe dos advogados que
representa.

Comentários
O advogado, ao atuar em órgãos da OAB ou na representação da classe,
exerce função de extrema relevância, devendo, portanto, zelar pela dignidade da
advocacia que representa e com todos os preceitos éticos definidos pelo CED.
Por tal razão, o exercício de cargo de conselheiro ou de membro de diretoria
de órgão da OAB é considerado serviço público relevante, nos termos do art. 48
do EOAB. Trata-se de atividades que são exercidas pelo bem da advocacia, de
tal modo que o mesmo dispositivo estabelece que devem ser prestadas
gratuitamente.
A posse em tais cargos observará a prestação do compromisso definido no
art. 53 do Regulamento Geral do Estatuto da Advocacia e da OAB (RGEOAB).
Normas correlatas: art. 48 do EOAB e art. 53 do RGEOAB.

Art. 32. Não poderá o advogado, enquanto exercer cargos ou


funções em órgãos da OAB ou representar a classe junto a
quaisquer instituições, órgãos ou comissões, públicos ou
privados, firmar contrato oneroso de prestação de serviços ou
fornecimento de produtos com tais entidades nem adquirir bens
imóveis ou móveis infungíveis de quaisquer órgãos da OAB, ou a
estes aliená-los.
Parágrafo único. Não há impedimento ao exercício remunerado
de atividade de magistério na Escola Nacional de Advocacia –
ENA, nas Escolas de Advocacia – ESAs e nas bancas do Exame
de Ordem, observados os princípios da moralidade e da
modicidade dos valores estabelecidos a título de remuneração.
Comentários
Trata-se de uma vedação ética a fim de impedir o favorecimento pessoal ou
de terceiros pelo exercício do cargo ou função em órgãos da OAB.
Assim, ao representar a classe perante quaisquer entidades, sejam públicas
(da administração direta ou indireta) ou privadas, o advogado atuará primando
pela dignidade da advocacia, jamais valendo-se do cargo para auferir benefícios
escusos.
Neste sentido, não poderá firmar negócios junto às entidades em que atuar na
condição de representante da advocacia ou de órgão da OAB, nem adquirir bens
imóveis ou móveis infungíveis colocados à venda pelo Conselho Federal,
Conselhos Seccionais, Subseções e Caixas de Assistência dos advogados.
Importante nos atentarmos que a Resolução nº 4 de 2016 do Conselho
Federal da OAB alterou a redação do caput do presente dispositivo, bem como
incluiu o seu parágrafo único. No que tange ao caput, importante a menção
expressa a bens imóveis ou móveis fungíveis, uma vez que nada haveria de
ilícito. Por exemplo, caso o advogado nas condições preceituadas no artigo ora
em exame adquirisse bens fungíveis, como livros vendidos cotidianamente pelas
livrarias mantidas pela Caixa de Assistência dos Advogados, e que, portanto,
propiciam preços mais atrativos à classe.
O que o dispositivo visa coibir é a aquisição de bens infungíveis, tais como
imóveis, veículos etc., eventualmente colocados à venda por um órgão da OAB.
O parágrafo único, por sua vez, excepciona o exercício de magistério perante
as Escolas Superiores de Advocacia. Desse modo, a prestação de serviços na
condição de professor será cabível sem a vedação ética imposta pelo caput.
Por fim, os requisitos para venda de bens pela OAB e seus órgãos constam
dos arts. 47 e 48 do RGEOAB.

Art. 33. Salvo em causa própria, não poderá o advogado,


enquanto exercer cargos ou funções em órgãos da OAB ou tiver
assento, em qualquer condição, nos seus Conselhos, atuar em
processos que tramitem perante a entidade nem oferecer
pareceres destinados a instruí-los.
Parágrafo único. A vedação estabelecida neste artigo não se
aplica aos dirigentes de Seccionais quando atuem, nessa
qualidade, como legitimados a recorrer nos processos em trâmite
perante os órgãos da OAB.

Comentários
O exercício em cargos ou funções da OAB impedirá o advogado de atuarem
processos disciplinares que tramitem perante os Tribunais de Ética e Disciplina
de todo o território nacional, ou até mesmo oferecer pareceres acerca das
matérias versadas, com o intuito de instruí-los, a menos que seja em causa
própria, quando a regra está excetuada.
Trata-se de vedação que tem por finalidade obstar que o advogado venha a se
valer do cargo ou função exercida na OAB como meio para obter benefícios pela
influência exercida em razão do cargo.
O parágrafo único do referido dispositivo traz uma regra de exceção
atribuída aos Presidentes das Seccionais, que não sofrerão o impedimento
descrito no caput quando forem os legitimados a recorrer nos processos
administrativos em trâmite perante os órgãos da OAB, já que neste caso não
representam interesses particulares das partes, mas sim da própria entidade.

Art. 34. Ao submeter seu nome à apreciação do Conselho


Federal ou dos Conselhos Seccionais com vistas à inclusão em
listas destinadas ao provimento de vagas reservadas à classe
nos tribunais, no Conselho Nacional de Justiça ou no Conselho
Nacional do Ministério Público e em outros colegiados, o
candidato assumirá o compromisso de respeitar os direitos e
prerrogativas do advogado, não praticar nepotismo nem agir em
desacordo com a moralidade administrativa e com os princípios
deste Código, no exercício de seu mister.
Comentários
O presente dispositivo trata das hipóteses de advogado que se candidata a
ocupar cargos pela classe da advocacia no Conselho Nacional de Justiça,
Conselho Nacional do Ministério Público, bem como às vagas asseguradas pelo
quinto constitucional à classe da advocacia nos tribunais.
O advogado, ao se apresentar para ocupar os referidos cargos, deverá prestar
o compromisso mencionado no texto do dispositivo. Ainda que o advogado
passe à carreira da magistratura, mediante, por exemplo, o ingresso nos tribunais
por meio da regra do quinto constitucional, certo é que permanece mandatório –
como ocorre para qualquer outra autoridade ou servidor público – o respeito aos
princípios éticos e ao dever de urbanidade.
O Provimento 139/2010 editado pelo Conselho Federal da Ordem dos
Advogados do Brasil regulamenta a indicação da lista sêxtupla de advogados
para indicação à ocupação de vagas nos tribunais pelo quinto constitucional.
Normas correlatas: arts. 94, 103-B e 130-A da Constituição Federal;
Provimento 139/2010 do CFOAB.

CAPÍTULO VII
Do Sigilo Profissional

Comentários
O Capítulo VII do Novo Código de Ética e Disciplina corresponde ao
capítulo III do antigo código e versa sobre sigilo profissional, tema bastante
palpitante dentro da advocacia e da sociedade como um todo. A essência acerca
do tema foi mantida no novo código, porém com algumas inovações, a exemplo
da previsão e garantia de sigilo profissional também em processos
administrativos, e não só nos judiciais, como era anteriormente; ou, ainda, a
disposição sobre sigilo em relação a fatos de que o advogado tenha tido
conhecimento em razão de função desempenhada institucionalmente na OAB. A
privacidade da comunicação entre clientes e seus patronos visa garantir
prerrogativas advocatícias e o direito do próprio cidadão, daí a sua grande
importância.

Art. 35. O advogado tem o dever de guardar sigilo dos fatos de


que tome conhecimento no exercício da profissão.
Parágrafo único. O sigilo profissional abrange os fatos de que o
advogado tenha tido conhecimento em virtude de funções
desempenhadas na Ordem dos Advogados do Brasil.

Comentários
Parcialmente correspondente ao art. 25 do antigo código, o art. 35 prevê que
o sigilo profissional é inerente à profissão. A relação entre cliente (mandante) e
advogado (mandatário) é baseada primordialmente na confiança (art. 10 do
CED), de modo que tudo aquilo de que o advogado venha a tomar conhecimento
em razão dessa relação está protegido por segredo profissional.
O dever de sigilo profissional não decorre apenas da cláusula geral de boa-fé
objetiva prevista no Código Civil, dos princípios sociais da Constituição Federal
ou mesmo das orientações dispostas no preâmbulo deste código, não se confunde
com os chamados deveres de consideração ou deveres laterais (regras de
comportamento), mas se mostra ainda mais forte, haja vista a proteção especial e
expressa que recai sobre ele, não só neste Código, mas também no Estatuto da
OAB (Lei Federal) e no Código Penal. Ou seja, o sigilo profissional não precisa
estar previsto em contrato, pois é inerente à advocacia, e sua violação mostra-se
extremamente grave e suficiente para configurar infração ética, prevista
especificamente no art. 34, VII, do EAOAB e crime apenado com detenção,
previsto no art. 154 do Código Penal.
A importância do sigilo profissional é tamanha que o Estatuto da OAB prevê,
como direito do advogado, a inviolabilidade de seu escritório profissional, dos
seus instrumentos de trabalho (computadores, servidores etc.) e de sua
correspondência escrita, eletrônica, telefônica, desde que, claro, relacionadas ao
exercício da advocacia.
O parágrafo único ampliou o sigilo profissional não só em relação aos fatos
de que o advogado tome conhecimento no exercício da profissão, mas também a
fatos aos quais tenha tido acesso em razão de funções desempenhadas dentro da
OAB, ou seja, institucionalmente, nos Tribunais de Ética e Disciplina, nas
diretorias, presidência, conselhos, mediações etc., previsão absolutamente
pertinente, mas que não estava contida no texto anterior.
O sigilo profissional ainda é lembrado em outras passagens desse código,
quando trata da renúncia da procuração de um dos constituintes por conflitos
entre eles (art. 20), da postulação contra ex-cliente ou ex-empregador (art. 21),
quando é consultado previamente por uma parte e depois convidado a atuar pela
outra, ou, ainda, na discussão da validade ou legitimidade de ato jurídico com o
qual tenha colaborado (art. 22), situações tratadas isoladamente nos comentários
dos respectivos artigos.
Ainda que o advogado não venha a ser contratado por alguém que lhe
consultou, as informações a que teve acesso são sigilosas. Ainda que recuse por
motivos pessoais o patrocínio da causa, também as informações passadas estão
sob o manto do sigilo.
Assim, pela visão geral do dispositivo, tem-se que todos os fatos de que o
advogado venha a ter conhecimento em razão do exercício da advocacia, seja no
patrocínio dos interesses de seu cliente ou ex-cliente, seja no desempenho de
quaisquer funções institucionais da OAB, estão sob o manto do sigilo
profissional, e assim, deverão ficar devidamente resguardados como garantia e
proteção ao próprio cidadão e à sociedade.

Julgados

Patrocínio contra ex-cliente. Decurso de lapso temporal elástico do


cumprimento do mandato. Fatos novos embasadores do pedido.
Inexistência de quebra de sigilo profissional e de utilização de
informações reservadas e privilegiadas no embasamento da
demanda. Não comete infração disciplinar o advogado que,
cumprido o mandato, e decorridos mais onze (11) anos, aceita
procuração da parte ex-adversa para litigar contra ex-cliente, sem
que para tanto tenha que valer-se de sigilo profissional, nem de
utilizar-se de informações reservadas e privilegiadas para embasar
seu pedido e sua atuação profissional. Recurso provido para
reformar a decisão recorrida e determinar o arquivamento da
representação, à míngua de elementos tipificadores da infração
disciplinar imputada à representada. Brasília, 21 de fevereiro de
2011 (CFOAB, Ementa 014/2011/SCA-PTU, Recurso
2009.08.04074-05/SCA-PTU. Recdos.: Conselho Seccional da
OAB/Santa Catarina e Outro. Relator: Conselheiro Federal
Carmelino de Arruda Rezende (MS), DOU, S1, 05.05.2011 p. 120-
121).

Segredo profissional – Sigilo profissional – Informações


privilegiadas recebidas – Conflito de interesses – Renúncia –
Patrocínio contra ex-cliente em causas e ações com fundamentos
jurídicos diversos – Possibilidade. O Advogado que renuncia a
mandato outorgado em conjunto por dois ou mais clientes, poderá,
posteriormente, assumir o patrocínio contra o seu ex-cliente, desde
que respeite o segredo profissional, o sigilo e as informações
privilegiadas que recebeu. O art. 18 do CED faculta ao advogado a
escolha quando sobrevém conflito de interesses entre os clientes
comuns, todavia, a teor do arts. 19 e 25 do mesmo codex deverá,
sob pena de infração ética, guardar para sempre o segredo
profissional, o sigilo profissional e nunca se valer das informações
privilegiadas contra seu antigo cliente, uma vez que essas condições
são perpétuas, o compromisso assumido no passado tem que ser
respeitado, ainda que tenha havido renúncia, tenha sido destituído
ou expirado o mandato. Inteligência dos arts. 18, 19 e 25 do CED.
Precedentes: E-2.357/2001; E-2.726; E-1.260/1995; E-3.262/2005
(Turma Deontológica, OAB/SP, E-4.042/2011, v.u., em 18.08.2011,
do parecer e ementa do Rel. Dr. João Luiz Lopes).

Advocacia – Sigilo profissional – Patrocínio de causa contra


anterior cliente – Relação cliente advogado que perdurou por 10
anos e envolveu assessoria com o conhecimento de dados a respeito
das contas do condomínio – Vedação. O sigilo profissional deve
ser resguardado eternamente, de modo que, se for necessária a
utilização de qualquer dado sigiloso para a defesa dos interesses
de novo constituinte contra o antigo cliente, ou se desse fato
resultar qualquer vantagem ilegítima, a advocacia, neste caso, é
proibida, independentemente do lapso temporal decorrido. Caso
em que o consulente tomou conhecimento de dados acerca das
regras internas do condomínio, condução de assembleias e
principalmente orientação na prestação das contas do síndico. Ações
cíveis e trabalhistas em que existe potencial risco de utilização de
informações conhecidas no exercício da advocacia. Vedação.
Inteligência do art. 19 do EAOAB. Precedentes do TED I: Proc. E-
4.020/2011 (Turma Deontológica, OAB/SP, E-4.084/2011, v.u., em
15.12.2011, do parecer e ementa do Rel. Dr. Fábio De Souza
Ramacciotti).

Normas correlatas: arts. 19, 20 e 21 do Novo CED, art. 7º, II e XIX, art. 34,
VIII, e art. 72, § 2º, do EAOAB e art. 154 do Código Penal.

Art. 36. O sigilo profissional é de ordem pública, independendo


de solicitação de reserva que lhe seja feita pelo cliente.
§ 1º Presumem-se confidenciais as comunicações de qualquer
natureza entre advogado e cliente.
§ 2º O advogado, quando no exercício das funções de mediador,
conciliador e árbitro, se submete às regras de sigilo profissional.

Comentários
Corresponde de forma parcial ao parágrafo único do art. 27 do antigo código,
porém, com outro tipo de redação e previsão. O art. 36 versa sobre a
dispensabilidade de o cliente solicitar sigilo ao advogado sobre fatos a ele
revelados, sendo o sigilo de ordem pública, implícito, presumido e natural da
relação.
O § 1º seria quase dispensável para o que pretende versar o dispositivo, mas
vem para dar maior ênfase, tamanha a importância que o sigilo profissional
possui dentro da advocacia, de modo que não só as correspondências escritas
estão sob o manto do sigilo, mas toda e qualquer comunicação, de qualquer
ordem, tais como e-mail, telefonemas e mensagens, sendo inviolável o local de
trabalho do advogado e seus instrumentos (art. 7º, II, do EOAB).
O § 2º trata do sigilo sobre fatos que o advogado venha a ter ciência em
decorrência das funções de mediador, conciliador e árbitro, o que também se
tratava de uma regra presumida, que agora veio expressa. Portanto, profissionais
que atuem em Centros de mediação, mutirões de conciliação, Câmaras Arbitrais
e outros, também deverão guardar sigilo sobre as informações daí sabidas.
O sigilo profissional atende a interesse geral da própria sociedade, pois se
mostra indispensável para assegurar o pleno direito de defesa do cidadão,
garantindo ao cliente a inviolabilidade dos fatos por ele expostos ao seu
advogado, daí seu status de ordem pública, não podendo o profissional revelar
quaisquer fatos que a ele foram expostos pelo cliente, nem deles se utilizar em
benefício próprio ou de outros clientes, devendo manter-se em silêncio e
privacidade.
O sigilo atinge e obriga todos os inscritos na OAB, advogados, consultores,
advogados públicos, diretores jurídicos e estagiários, que não poderão revelar
nenhum tipo de informação conhecida em decorrência da relação profissional a
terceiros. Assim, toda e qualquer comunicação, de qualquer ordem, feita entre o
advogado (em sentido amplo) e cliente, presume-se confidencial,
independentemente de solicitação prévia, pedido formal ou informal, contrato
etc., devendo o profissional, inclusive, zelar pela boa segurança e acomodação
de arquivos e documentos, garantindo, assim, sua inviolabilidade, prevista
expressamente no art. 7º, II, do EOAB.
Por outro lado, é bom salientar que o sigilo profissional tratado no EOAB e
no CED refere-se aos fatos conhecidos pelo advogado em razão do próprio
processo, do patrocínio e da comunicação com o cliente, e não a fatos
conhecidos em decorrência de sua própria habilidade e inteligência pessoal, ou a
fatos não relacionados ao exercício profissional, que estão fora, portanto, do
dever de sigilo.
Quando da discussão e votação deste novo código de ética, a secional do Rio
de Janeiro levantou ponto sensível no que toca aos processos em trâmite no
exterior, alegando que, sob a premissa de que fora do país não se aplicaria a
legislação nacional, alguns advogados não respeitariam o sigilo profissional
sobre fatos lá conhecidos, devendo a norma vir expressa nesse sentido, o que, no
entanto, não foi contemplado de forma explícita no novo código.
Ainda que isso não tenha vindo de forma explícita, o fato é que todas as
comunicações do advogado brasileiro com quem quer que seja, no âmbito do
exercício profissional, nacional ou internacional, e todas as informações a que
ele teve acesso em razão do exercício profissional, são alvo de sigilo,
independentemente de onde tramitar o processo, já que as disposições do
Estatuto e do Código de Ética atingem a relação cliente e advogado, desde que
esse possua inscrição em qualquer das Unidades da Federação do Brasil e que
atue a partir dela. O sigilo ainda atinge, nos termos do Provimento 91/2000 do
Conselho Federal, as sociedades de consultoria em direito estrangeiro e os
próprios consultores em direito estrangeiro, que podem, inclusive, perder a
autorização de atuação em território nacional em caso de inobservância.

Julgados

Interceptação Telefônica de Comunicação de advogado no exercício


profissional. É ampla a garantia da inviolabilidade do escritório ou
local de trabalho do advogado, de seus instrumentos de trabalho, e
de sua correspondência escrita, telefônica e telemática relativas ao
exercício da advocacia (Art. 7º, II, Estatuto da Advocacia). A
quebra de sigilo telefônico é medida extrema e excepcionalíssima,
que só deve ser adotada quando fica demonstrada a sua
indispensabilidade e de modo a não ofender as prerrogativas do
profissional do direito, com as cautelas necessárias. Devem ser
reconhecidos o direito de desagravo e consectárias providências em
favor do causídico que sofreu interceptação de comunicação
telefônica, no exercício da profissão, e transcrição desta carreada
aos autos por autoridade. Mas o recurso não é recebido face à
ilegitimidade recursal da recorrente. Brasília, 17 de março de 2014
(CFOAB, Ementa 025/2014/PCA, Recurso 49.0000.2014.001260-
5/PCA. Interessado: Conselho Seccional da OAB/Paraná. Relator:
Conselheiro Federal Ruy Hermann Araujo Medeiros (BA), DOU,
S1, 25.03.2014, p. 133-134).

Sigilo profissional perene – Segredo profissional – Informações


privilegiadas recebidas – Conflito de interesses – Processo extinto –
Patrocínio contra ex-cliente – Possibilidade. O Advogado que
pretenda patrocinar causa contra ex-cliente cujos processos já estão
extintos há mais de 02 (dois) anos poderá fazê-lo, não havendo
impedimento ético para aceitação da causa. Haverá que respeitar
sempre, qualquer que seja o período, o sigilo profissional e os
segredos que as pessoas só revelam a outras de estrita confiança,
seguras de que esses serão preservados, informações essas que
são questões pessoais, de família, de empresa, de Estado, mas
todas de interesse restrito, só reveladas aos eleitos, que é
preceito de ordem pública. Inteligência dos arts. 19, 20, 25, 26 e
27 do CED e da Resolução 17/2000 deste TED I. Precedentes: E-
2652-02; E-2.701/2003; E2.357/2001; E-2.726; E-1260/1995; E-
3.262/2005 e E-4042/2011 (Turma Deontológica, OAB/SP, E-
4.117/2012, v.u., em 19.04.2012, do parecer e ementa do Rel. Dr.
João Luiz Lopes).

Patrocínio contra cônjuge de cliente – Em causa própria –


Aconselhamento – Conflito de interesses – Sigilo profissional
perene – Segredo profissional – Possibilidade – Renúncia do
mandato outorgado pelo cliente. O Advogado que pretenda
demandar em causa própria contra cônjuge de cliente só poderá
fazê-lo após renunciar a todos os mandatos que lhe foram
outorgados por esse cliente. Não é aconselhável postular em causa
própria diante da máxima “A paixão é a antítese da razão”. Deverá
respeitar sempre, qualquer que seja o período, o sigilo
profissional e o segredo que lhe foi revelado, pois esse segredo só
é revelado porque quem o faz tem certeza de que esse será
preservado. Informações que são questões pessoais ou de
família, mas todas de interesse restrito, só reveladas aos eleitos,
que é preceito de ordem pública. Inteligência dos arts. 19, 20, 25,
26 e 27 do CED e da Resolução 17/2000 deste TED I. (Turma
Deontológica, OAB/SP, E-4.126/2012, v.u., em 29.06.2012, do
parecer e ementa do Rel. Dr. João Luiz Lopes)

Normas correlatas: art. 3º, §§ 1º e 2º, da Lei 8.906/1994 – EOAB, art. 10 do


Regulamento Geral e art. 8º do Provimento 91/2000 do Conselho Federal.

Art. 37. O sigilo profissional cederá em face de circunstâncias


excepcionais que configurem justa causa, como nos casos de
grave ameaça ao direito à vida e à honra ou que envolvam
defesa própria.

Comentários
Corresponde, em part