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MANUELA CARNEIRO DA CUNHA (ORG.

)
FRANCISCO M. SALZANO
NIÉDE GUIDON
ANNA CURTENIUS ROOSEVELT
GREG URBAN
BERTA G. RIBEIRO
LÚCIA H. VAN VELTHEM
BEATRIZ PERRONE-MOISÉS
ANTÓNIO CARLOS DE SOUZA LIMA
ANTÓNIO PORRO
FRANCE-MARIE RENARD-CASEVITZ
ANNE CHRISTINE TAYLOR
PHILIPPE ERIKSON
ROBIN M. WRIGHT
NÁDIA FARAGE
PAULO SANTILLI
MIGUEL A. MENÉNDEZ
MARTA ROSA AMOROSO
TERENCE TURNER
BRUNA FRANCHETTO
ARACY LOPES DA SILVA
CARLOS FAUSTO
MARY KARASCH
MARIA HILDA B. PARAÍSO
BEATRIZ G. DANTAS
JOSÉ AUGUSTO L. SAMPAIO
MARIA ROSÁRIO G. DE CARVALHO
SILVIA M.SCHMUZIGER CARVALHO
JOHN MANUEL MONTEIRO
SÓNIA FERRARO DORTA

HISTÓRIA
DOS ÍNDIOS
NO BRASIL
2? edição

FaPESP
Fundação DE AMPARO Á Pesquisa
^fefe. _SMC
y, -T^ i i ltlUsicir«i o! Ti in s
DO ESTADO Dt SÃO PAuuí COMHAN H A DaS
I LiriRAS iD... JL1"l>.. 1 ..,
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C:op>rinht © 1992 hy os Autores

Projeto editorial:
NrCIS.O DF. HISTÓRIA INDÍGF^A E DO INDIGENISMO

Capa e projeto gráfico:


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Assistência editorial:
Mjrta Rosa Amoroso

Edição de texto:

Otanlío Fernando Nunes Jr.

Mapas:
Alíàa Roíla
Tuca Capelossi

Mapa das etnias:


Clame CA)hn

FJmundo Peggion

índices:
Beatriz Perrvne- Moisés
Clame C^hn
Edgar Theodoro da Cunha
Edmundo Peggion

Sandra Cristina da Silva

Pesquisa iconográfica:
Manuela Cimeiro da Cunha
Marta Rosa Amoroso
Oscar Cuilávia Saéz
Beatriz Calderari de Miranda

Revisão:
Cármen Simões da Costa
FJiana Antonioli

1^ edição 1992

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (iip)

(Câmara Brasileira do Lixro, sp. Brasil)

História dos índios no Brasil / organização Manuela Carneiro

da Cunha. —São Paulo Companhia das letras


:
Se-
AL BR
cretaria Municipal de Cultura f*pf.sp. 1992 :

Bibliografia
F2519
ISBN S5-7164-260-5
.H57
1998x
1. índios da América do Sul
— Brasil — História 1

Cunha. Manuela Carneiro da.

(Di>-980.41
921393

índices para catálogo sistemático


1 Brasil índios História 980 41

1998

Todos os direitos desta edição leservados à


KDl rC)R.\ St:H\\ARt J'. l.Tlí.V

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ARQUEOLOGIA AMAZÒNICA

Anna Curtenius Roosevelt

Tradução: John Manuel Monteiro

Amazónia tem sido há muito tempo fo- isotópica das amostras biológicas pré-histó-
um

A
co de debate a respeito do impac- ricas permite datações precisas e fornece in-

to do ambiente úmido tropical sobre formações quantitativas sobre o modo de sub-


o desenvolvimento das culturas indí- sistência e o meio ambiente antigos. A análise
genas. Muitos vêem a Amazónia como um am- osteológica dos refugos humanos gera infor-
biente pobre para o homem, um "falso paraí- mações sobre padrões de dieta, saúde e ativi-

so" que inibiu o crescimento populacional e dade. O estudo dos artefatos revela significa-
o desenvolvimento cultural, em comparação tivos padrões tecnológicos, iconográficos e es-
com as áreas áridas montanhosas e costeiras tilísticos. Estes estudos têm fornecido novas
do oeste da América do Sul. Do mesmo mo- informações importantes sobre as caracterís-
do, suas culturas pré-históricas têm sido asso- ticas das seqiiências culturais e das ocupações
ciadas a influências, migrações e invasões pro- na Amazónia indígena.
venientes do exterior. Apenas raramente a Os novos trabalhos oferecem evidências de
Amazónia é como um ambiente rico pa-
vista uma longa e substancial seqiiência de desen-
ra a adaptação humana e fonte de inovação e volvimento indígena na Amazónia, muito mais
difusão de cultura pré-histórica. Não é fácil es- complexa, e menos produto de influências
tabelecer qual o ponto de vista mais correto, externas, do que se pensava. Isto sugere, ao
dada a parcimónia de informação arqueológi- que
contrário das interiDretaçóes precedentes,
ca básica. as terras baixasda Grande Amazónia podem
Uma nova visão da pré-história amazónica ter sido ocupadas muito cedo, sendo o lugar
começa a emergir do trabalho de campo re- de origem de alguns importantes desenvolvi-
cente e da reavaliação do trabalho de campo mentos culturais para as Américas. A sequên-
anterior. As novas pesquisas revelam imi rico cia preliminar abrange, em primeiro lugar,
patrimônio arqueológico, mais bem presena- a difusão da ocupação de caçadores-coletores
do e mais substancial do que antes se imagi- nómades, tanto nas várzeas (juanto em áreas
nava. Para a exploração deste património, têm mais altas, no final do Pleistoceno; em segui-
sido transpostas fronteiras disciplinares, uma da, algumas das primeiras manifestações de
ve/ (jue muitas questões arqueológicas reíjue- ocupação sedentária, horticultura e cerâmi-
reni resjjostas das áreas das ciências biológi- ca do Novo Mundo, nas várzeas, durante o
O scnsoriamento
cas, ge()(juímicas e geofísicas. Iloloceno; e, finalmente, as sociedadt^s indí-
remoto produz informações sobre o arranjo de genas de tamanho e complexidade cultural
sítios V as escavações estratigráficas re\(>lam consideráveis no período pré-hist()ric<) tardio.
estruturas e construções; o cuidadoso penei- \a culnunância da ocupaçãt) pré-hist(')rica,
ranicnto do solo traz à tona uma abundância entre os séculos \' e W , a densidade da po-
de obietos diversos. \ análise laxionómica e puhição nativa atingiu uma magnitu(l(> não
54 IIISU^KU 1H>S INOIOS \l) UlxVSll

^ reconhooida aiittMionnonto. A maior parte da


extensão das \ ár/eas dos principais rios pare-
ce ter estado repleta de assentamentos hnma-
guidade,
agrícolas,
foram interpretadas como
ou as datas foram contestadas ou ig-
noradas (Evans e Meggers, 1968; Rouse e A\-
não-

nos, e consideriheis sistemas de terraplenagem laire, 1978; Meggers e Evans, 1978, 1983; Roo-
l' í
lA
v<
foram elaborados tanto nas \ ár/.eas (juanto nas sevelt, 1978, 1980, 1989b, 1991a; Roosevelt et

r^^ áreas intertln\ iais. Este rico e complexo qua-


dro da Amazónia pré-histórica contradiz an-
alii,

1981).
1991; Simões, 1981; \argas, 1981; Williams.
Quando, em meados deste século, as pri-
tigos pontos de \ ista baseados na ideia da po- meiras pesquisas profissionais revelaram a exis-
breza ambiental. tência de culturas construtoras de sambaquis
Inovação cultural e desenvolvimento não nas várzeas da Grande Amazónia, estas foram
eram esperados na "floresta ilmida tropical", geralmente atribuídas a influências externas.
considerada nniito densa para o deslocamen- .\s sofisticadas culturas de origem andina fo-
to fácil, muito pobre em recursos animais e ve- ram consideradas como tendo decaído sob a
getais comestí\eis para manter caçadores- influência do ambiente tropical, sendo suas
coletores, por demais uniforme em termos cli- populações dizimadas pelos rigores ambien-
máticos para suscitar a irrigação e com solos tais (Meggers, 1954; Meggers e Evans, 1957).

muito empobrecidos para a agricultura inten- Contudo, novos resultados de testes radio-
siva (.\ltenfelder Silva e Meggers, 1963; Lviich, carbónicos mostram que as terras baixas tive-
1978; 1983; Meggers, 1954, 1971; Sanders e ram prioridade cronológica sobre as áreas
Price, 1968; Stevvard, 1949). Sem a possibili- montanhosas no desenvolv imento da cerâmi-
dade da agricultura intensiva, pensava-se que ca e das ocupações sedentárias. Existe um con-
o crescimento populacional dos indígenas te- senso em torno das evidências recentes que
ria sido limitado e o desenvolvimento cultu- confirmam a hipótese de que a influência pro-
ral local restrito a sequências relativamente veniente das terras baixas tropicais contribuiu
curtas e simples. para o desenvolvimento da agricultura e da
As maiores inovações culturais pré-histó- complexidade cultural nos .\ndes (Burger,
ricas na América do Sul —
agricultura, cerâ- 1984, 1989; Sauer, 1952; Lathrap, 1970. 1971.
mica e complexidade cultural eram consi- — 1974, 1977; Tovvle. 1961; Lanning. 1967; Sto-
deradas como provenientes dos Andes, domí- ne, ed., 1984). Nos Andes centrais, tanto a ce-
nio do Império Inca, e portanto seu desenvol- râmica quanto as grandes e permanentes con-
V imento na Amazónia foi geralmente atribuí- centrações populacionais apareceram muito
do a influências externas. A seqiiência das cul- mais tarde que nas terras baixas.
turas locais na Amazónia foi interpretada co- .\s mais antigas culturas complexas conhe-
mo produto de uma série de invasóes e migra- cidas na .\mérica do Sul ainda parecem ter se
ções andinas. O padrão de vida característico desenvolvido na área andina no período pré-
da Amazónia indígena na atualidade peque- — cerâmico tardio, cerca de 2500-1000 a.C. mui-
nos grupos vivendo em bandos independen- to antes que na .Amazónia, onde elas parecem
tes e igualitários e aldeias com modo de sub- ter surgido pela primeira vez no primeiro mi-
sistência baseado em agricultura itinerante, lénio a.C. Entretanto, apesar de as sociedades
caça e pesca — foi projetado nos tempos pré- complexas da .\miuónia aparecei^em niiiis tiir-
históricos como produto da degeneração das de que as primeiras andinas, não é niiiis pos-
culturas andinas no pobre ambiente tropical sível tratá-las como provenientes dos .\ndes.

úmido. Está claro que os "cacicados" na .Xnuizònia


A teoria "ambiental", quando primeiramen- prov ieram diretamente de culturas cerâmicas
te aplicada às terras baixas tropicais enquan- anteriores da .\miizònia oriental, bem distan-
to orientação para a pesquisa de campo, te dos .\ndes. A mais antig-a delas foi encon-
tornou-se uma espécie de profecia auto-expli- trada no baixo Anuuonas e sua intluèjicia
cativa,que evitava as evidências que não se difundiu-se, a partir d;u, em diriH;ão às v ;úv.e;is

coadunavam. Indícios de ocupações pré-cerà- pré-audinas, e não o contrário. Muitas das so-
micas aparentemente precoces têm sido con- ciedatlos complexas das torras baixas paixvom
testados ou ignorados; e quando as ocupações duração que, ao in-
ter sido culturas dt^ longa
cerâmicas nas terras baixas produziram rt>sul- vés de terem dccaulo no ambiente tn^pical.
tados radiocarbónicos indicativos de sua anti- autos croscorauí em escala o sofisticação ao
VKQIEOLOGIA AMAZOMCX

longo do tempo, e muitos dos seus sítios carac- floresta tropical úmida com solos ácidos po-
terizam-se como urbanos em tamanho e com- bres, incapazes de proporcionar aos caçadores-
plexidade. coletores uma abundância de animais e plan-
Entretanto, resta explicar por que os An- tas comestíveis e inadequados para a adoção
des tiveram as primeiras sociedades comple- da agricultura intensiv a. Esta limitação na pro-
xas e por que as amazônicas surgiram quando dutividade do modo de subsistência foi vista,
surgiram. A resposta parece repousar tanto em por seu turno, como fator que constrangia o
aspectos ambientais quanto na demografia his- aumento da densidade populacional e a per-
tórica. A ascensão de precoces culturas com- manência dos assentamentos e, em conse-
plexas nos Andes parece estar relacionada com quência, as possibilidades de desenvolvimen-
o aumento da densidade populacional e da to autóctone de culturas complexas.
competição num território ecológica e topo- Entretanto, as várzeas amazônicas, locais
graficamente circunscrito. Apesar de os ricos onde a grande maioria das pessoas viveu nos
recursos de fauna e flora dos rios e estuários tempos arcaicos, divergem de modo conside-
amazônicos fomentarem, desde cedo, grandes rável deste quadro de ambiente de floresta tro-
assentamentos permanentes, o aumento da pical úmida. A maior parte destas áreas pos-
densidade populacional regional parece ter ne- sui ricos solos aluviais e um clima sazonal ca-
cessitado de muito mais tempo nas vastas ex- racterístico do cerrado, com floresta tropical
tensões da Amazónia que nos Andes, e as mais seca e vegetação de savana. A área apresenta
antigas sociedades complexas amazônicas co- vantagens no suporte dos grupos humanos em
nhecidas apareceram mais de mil anos após relação à região andina, onde se destacam cli-
as primeiras andinas. Parece que as vastas ex- mas muito áridos, solos freqiientemente pou-
tensões da Amazónia foram mais capazes de co vantajosos, temperaturas diminutas e bai-
absorver a expansão populacional que os cir- xa biomassa. As várzeas da Amazónia, com
cunscritos vales dos z\ndes. A emergência de precipitações relativamente abundantes, for-
culturas complexas naAmazónia parece ter tes radiações solares e solos ricos, oferecem
ocorrido apenas quando a intensificação do alta quantidade de biomassa aproveitável e ex-
crescimento populacional ao longo das várzeas celentes recursos para o cultivo de plantas.
dos rios provocou uma competição pelas ricas A Amazónia é freqiientemente considera-
áreas agriculturáveis e de pesca (Carneiro, da como um ecossistema pobre em nutrien-
1970; Lathrap, 1970, 1974). tes,embora a disponibilidade destes varie
Assim, a seqiiência pré-histórica que está enormemente em função da geologia (Stallard,
emergindo para a ^Amazónia não sustenta a vi- 1980, 1982; Nordin e Meade, 1985; Hartt,
são de uma ocupação pré-histórica prejudica- 1874). Nas chapadas pré-cambrianas e nas pla-
da por um meio ambiente pobre em recursos. nícies terciárias, encontram-se florestas tropi-
Ao invés de sequências culturais curtas e de- cais e savanas pobres; por outro lado, em alu-
rivadas, e de ocupações ligeiras, temos agora viões recentes e em terrenos calcários carbo-
evidências de uma seqiiência longa e comple- níferos e cretáceos no alto e no baixo Amazo-
xa, de ocupações substanciais de prolongada nas, encontram-se ricas florestas tropicais e sa-
duração, de sociedades complexas de larga es- vanas. O potencial agrícola do Amazonas foi

cala e de consideráveis inovações e influências considerado como típico dos solos de terra fir-

partindo da Amazónia para outras áreas. me da floresta tropical úmida, os oxissolos e


ultissolos. Mas as rochas sedimentares alcali-
OS AMBIENTES AMAZÔNICOS nas ou as rochas ígneas máficas enriquecem
A do desenvolvimento cultu-
teoria ambiental de vastas áreas da Amazónia, particu-
os solos
ral da Amazónia não previu corretamente a larmente ao longo da base das montanhas an-
história indígena da região devido, em parte, dinas e das altas planír-ies do baixo .\mazonas.
ao nosso pouco acurado conhecimento das ca- A importância dos solos ricos em nutrientes
racterísticas do ambiente para a adaptação hu- nestas formações rochosas não foi reconheci-
mana, (jue fornecia, assim, implicações erra- da primeiramente ponjue o sistema de classi-
das sobre o possível caráter e exti-nsão da ocu- ficação mais adotado para os solos do sistema
pação humana. O habitat básico dos povos tropical usava o termo latossolo indistintamen-
pré-históricos foi caracterizado como densa te para todos os solos tropicais de terra firme.
o

56 iiisTOKiv mis iNnuis \t> niivsii

sem atentar se estes tornia\ ain os ricos altisso- pré-histórico. Os dados apresentados pelo ra-
los de terra roxa ou os notaxelniente pobres dar rastreador têm re\elado grandes áreas com
oxissolos e ultissolos. Os alíissolos tèin demons- padrões de erosão típicos de \egetação aber-
trado iim alto potencial para o cultivo, sendo ta, sugerindo a existência de desflorestamen-
usados na agricultura comercial intensi\a em to mesmo sob os climas mais áridos do passa-
ili\ do mundo, como para o cultix
ersas partes do; ademais, os padrões de variação biogeo-
da cana e do abacaxi no Havaí e do arroz seco gráfica das espécies, a geomorfologia do
no sudeste da Ásia (Roose\elt, 1980). passado e o pólen paleontológico, todos suge-
Não foram seriamente consideradas, igual- rem (jue o clima sazonal de sa\ana foi ainda
mente, as \ astas extensões dos ricos solos alu- mais generalizado que no presente (Ab'saber.
\ iais das \ amazônicas (jue se desenxol-
ár/.eas 1977, 1980; Abs>-, 1979; Kronberg et alii. 1991:
\ eram a partirde sedimentos erodidos dos An- Campbell e Fraile); 1984; Prance, org., 1982:
des. Estes solos, abrangendo os molissolos, Tricart, 1974).
\ertissolos, inceptissolos e entissolos, configu- Embora se tenha pensado que a formação
nmi um conjunto \ iilorizado mundialmente por da floresta seca e da \egetação de sa\ana era
seu potenciiil para o cultivo intensivo tanto de produto de exploração predatória recente des-
culturas anuais de grãos, como o milho e o ar- tas áreas (Sioli, org., 1984), as e\idências ar-
roz,quanto de culturas industriais, como o al- queobotânicas proxenientes das no\as esca\a-
godão e a juta. Estes solos são característicos ções aí realizadas (Garson, 1980; Roose\elt.
de áreas de iilta produtividade como as bacias 1980; Roosevelt, 1989b, 1990a. 1990b, 1991a:
dos rios Nilo e Ganges e o cinturão do milho Smith e Roosevelt, s.d.) demonstram que es-
da América do Norte. Na Amazónia, as áreas tes tipos de \ egetação têm se apresentado nes-
mais extensas destes solos encontram-se no in- tas áreas de forma generalizada há muitos mi-
terior e nos deltas dos rios costeiros, como os lhares de anos. Se eles são produto da explo-
lhanos da Amazónia boli\ iana, as planícies da ração humana, então ela começou há milhiu-es
ilha de Marajó, a planície costeira da Guiana e de anos. Botânicos e geógrafos têm encontra-
o delta do rio Apure, no médio Orinoco, áreas do evidências de repetidas queimadas na flo-
estas nas quais se localizavam as principais so- resta realizadas há mais de mil anos, tendo iil-
ciedades complexas pré-históricas tardias, tais gumas áreas sido retomadas pela floresta alta
como as culturas Moxos, Chiquitos e Marajoa- após a dizimação das populações nativas pela
ra (Brochado, 1980; Roosevelt, 1980, 1991a). Pa- conquista europeia (Bush et iilii, 1989; G.
ra alcançar alta produtividade estas terras re- Prance, A. Anderson, P. Fearnside e C. l hl.
querem \ários beneficiamentos tais como a sul- comunicação pessoal; dados Geochron de ra-
cagem para ventilação, canais para drenagem, diocarbono G.\-12513. 12514).
capinação constante e a construção de canais Diferentemente da floresta úmida tropiciíl
e aterros para o transporte, mas estas são ati\ i- madiua, as áreas de xegetação rasteira, iis ma-
dades que demandam investimentos de traba- tas de savana, a floresta seca e a floresta se-

lho em larga escala que as sociedades comple- cundária oferecem uma maior quantidade de
xas normalmente empreendem. biomassa apro\eitá\el para a caça e coleta, e
O clima da maior parte da Amazónia (Gal- seus solos presenam melhor seus nutrientes.
vão, 1969; Nimer, 1979; Segnif/lBGE, 1977) .Assim, é possí\el que a .\m;izónia tenha sido
tem sido igualmente mal interpretado, sendo ainda niiiis propícia à ocupação hunuma no pe-
geralmente caracterizado como unifonnemen- ríodo pré-histórico do cjue é em nossos dias.
te de floresta tropical De fato, grandes
úmida. Entretanto, a relação entre mudanças ambien-
áreas da Amazónia possuem um clima sazo- tais específicas e a ocupação lunnana pré-
nal de savana (clima A\v do sistema de Koep- histórica não está ainda seg\n~amente estaln^
pen), com precipitações relati\amente baixas lecida. tle\ ido à tlitk uldade do entnvru/a-

e sazonais e vegetação de floresta de galeria, nu nto das e\idências paleontologicas bnitas


floresta seca e savana. O desfolhamento inten- com as poucas seqiièncias arqueológicas e\is-

sivo que ocorre nestas áreas, nos meses de se- tentt^s. O estabeK\Mmento de seqiièncias ar-

ca,aparece nas imagens do Landsat. A Ama- (jueológicas mais regionali/ada.s, a coleta do


zónia foi, da mesma forma, ainda menos dtMi- rt>stivs arcpu^ologiciís de plantas e anim.iis o a
samente recoberta de florestas no período datação mais precisa do y^o\c\\ \xAo acvlerador
ARQUEOLOGIA AMA/ÓNKA

de massa espectrométrica de radiocarbono po- plificado as populaçóes esparsas, a agricultu-


derão colaborar na elucidação do problema. ra simples e a organização política e social ru-
A disponibilidade de nutrientes na Amazó- dimentar que se esperaria encontrar nas flo-
nia proporciona uma das chaves para o enten- restas tropicais úmidas. Este quadro era, por-
dimento da abundância de recursos para a ex- tanto, projetado para os tempos pré-históricos

ploração humana, assim como a disponibilida- como característico da adaptação ao ambien-


de de água, sol e tecnologia. x\reas interflu\ iais te amazónico. Entretanto, parece agora pro\ á-
de baixos nutrientes não são ricas em caça, velque os índios da Amazónia atual represen-
pesca ou plantas comestíveis, e possivelmen- tem remanescentes geograficamente marginais
teteriam sido pouco propícias à vida antes do dos povos que sobreviveram à dizimação ocor-
desenvolvimento do cultivo de plantas comes- rida nas várzeas durante a conquista europeia.
tíveis. Em contraposição, as várzeas dos rios As nov as evidências arqueológicas provenien-
formadas de áreas geológicas ricas em elemen- tes das várzeas sugerem terem aí existido, por

tos apresentam concentraçóes de pesca e ca- mais de mil anos, sociedades complexas po-
ça que poderiam ter sustentado populaçóes de pulosas vivendo em assentamentos de escala
caçadores-coletores. Entretanto, as flutuações urbana, com elaborados sistemas de agricul-
sazonais dos rios e os baixos níveis de fotos- tura intensiva e de produção de artesanato e
síntese limitavam a produtividade calórica e com rituais e ideologias hoje ausentes entre
proteica da fauna e da \egetação natural das os índios da Amazónia. De fato, os índios da
várzeas, que permanecia muito abaixo dos ní- atualidade (Hames e Vickers, orgs., 1983) pa-
veis que a agricultura intensiva das várzeas recem mais próximos, em termos da adapta-
proporcionaria. Assim, as populações que cul- ção ecológico-cultural, dos mais antigos hor-
tivaxam plantas domésticas poderiam ter se es- ticultores e cultiv adores de raízes, de cerca de
tabelecido de forma mais densa, permanente 2800 a.C, do que dos povos pré-históricos
e sobre áreas maiores da Amazónia do que tardios.
aquelas que persistiram apenas na exploração É evidente que algo aconteceu desde os
dos recursos naturais do meio ambiente. tempos pré-históricos para íilterar a adaptação
Desta forma, enquanto habitat da ocupação nativa. O atual modo de vida dos índios pare-
humana pré-histórica, a Amazónia surge co- ce ter sido fortemente influenciado por diver-
mo mais rica, complexa e variada do que pen- sas mudanças importantes que ocorreram no
sávamos. Mais significativo para a compreen- decorrer da conquista da Amazónia pelos eu-
são dos padrões da adaptação nativa e desen- ropeus. Em primeiro lugar, houve uma dramá-
volvimento cultural é, provavelmente, o fato de ticaqueda da densidade populacional, a qual
que existiram determinadas áreas nas quais a essencialmente eliminou a necessidade ou a
abundância de recursos sustentava populações possibilidade da exploração intensiva do solo.
caçadoras-coletoras, horticultoras e agriculto- Em segundo lugar, os conquistadores se apo-
ras durante longos períodos, e que nestas áreas deraram das áreas de melhores recursos da
se desenvolveram grandes populações indíge- Amazónia, afastando a maior parte dos índios
nas. E importante, para a consideração do fu- para as áreas interfluv iais pobres em recursos.
turo da Amazónia, o fato de o habitat ter su- Em terceiro lugar, os conquistadores desarti-
portado determinados tipos de exploração in- cularam os complexos político e militar dos na-
tensiva por longos períodos. Estes métodos tivos, substituindo-os pelos seus, com os (juais
nativos de produção sustentada, com uso in- foram capazes de organizar a exploração dos
tensivo do solo, podem ser modelos mais apro- recursos em bases nacionais. Portanto, a adap-
priados para a exploração futura da .Amazónia tação etnográfica deve ser considerada, em
do que o sistema indígena da coivara e da ca- parte, como uma adaptação às conseqiiências
ça ou os sistemas de exploração industrial das da concjuista, e não apenas às características
sociedades modernas. do ambiente amazónico.
A interjiretação convencional do quadro et-
projp:ç.\() etnográfica na amazónia nográfico atual da .Amazónia apresentava pro-
o ambiente e a pré-história da Amazónia têm blemas para a artiueologia. pois pressupunha
sido mal interpretados também em função de que o padrão básico do modo de vida indíge-
seu cpiadro etnográfico, pois este tem exem- na não hav ia mudado desde ant(>s da conquis-
58 msTOKiv nos ivnios vo hiumi

ta, projetaiulo-se assim o presente etiiogiúti- se Arcaica da cerâmica incipiente. Existem al-
co para a pré-história. Ao cx)ntrário, estamos guns indícios de que aqui, como possivelmente
descobrindo que as sociedades indígenas pós- em outras partes da América do Sul, houve
conquista dixeriíem em mnitos aspectos das uma se(iiiência tecnológica começando com
sociedades pré-históricas cjiie as precederam. os líticos rudimentares lascados por percussãa
Neste sentidci. a artjneologia pode vir a desem- passando para os líticos lascados por pressão
penhar nm importante papel nos futnros es- e retornando às pedras rudimentares lascadas
tudos amazònicos, elucidando a ocupação in- por percussão. Dadas as limitações, o que se
dígena antes da conquista europeia e forne- pode concluir é que esta seqiiência de artefa-
cendo informações comparativas para a tos parece indicar a ocupação de caçadores-
interpretação etnognífica das sociedades atuais coletores nómades dedicados à caça de gran-
(Roose\elt, 19S91)). Assim, a etno-arqueologia des animais seguida pela ocupação mais se-
da Amazónia precisa ir além das projeções re- dentária de caçadores-coletores mantidos pelo
trospecti\as para testar suposições arqueoló- apresamento intensivo de pequenas espécies
gicas a respeito dos atuais índios amazónicos. e, possivelmente, pela horticultura incipiente.
Para compreender as transformações que
ocorreram desde a conquista, faz-se necessá- COMPLEXOS PALEOIXDÍGENAS
rio forjar laços teóricos e empíricos entre a ar-
E PROTO-ARCAICOS
queologia, a etno-história e a etnografia des- As evidências provenientes das ocupações
tes povos. paleoindígenas e da primeira fase arcaica na
Grande Amazónia são as que seguem.
OS PRIMEIROS CAÇADORES-COLETORES Diversos conjuntos de artefatos líticos las-
cados por percussão foram identificados nas
INTRODUÇÃO terras altas ao norte do Orenoco e ao sul do
Existem evidências dispersas de ocupação hu- Amazonas. Um destes conjuntos foi encontra-
mana antiga disseminada ao longo da bacia do no Abrigo do Sol no rio Galera, no sudoes-
amazônica e regiões adjacentes no decorrer te do estado do Mato Grosso, no sul da bacia
do Pleistoceno tardio e no início do Holoce- amazônica (Miller, 1987; Puttkamer, 1979). Es-
no. Estas evidências consistem na localização te abrigo arenítico com arte rupestre apresenta
de artefatos líticos na superfície, alguns pou- artefatos líticos lascados por percussão em ní-
cos abrigos com depósitos pré-cerâmicos e nu- veis estratigráficos inferiores, bem como ma-
(<
merosos sambaquis pré-cerâmicos e em está- teriiU cerâmico nos níveis superiores. Suas ca-
gio inicial de cerâmica. As primeiras fases de madas pré-cerâmicas produziram divers;is da-
(<
ocupação de coletores na Amazónia não foram tações radiocarbònicas na faixa de cerca de

(<
bem estudadas porque nós, arqueólogos, te- 10000-7000 a.C. Uma outra data. de 12500
mos estado mais interessados nas ocupações a.C., foi registrada anoniiilamente no ciu^ão

(< cerâmicas mais recentes. Muitos pesquisado- dos níveis mais altos da estratigrafia. Os uten-
res não aceitavam a existência de ocupações sílios provenientes do abrigo incluem niacha-
c< muito antigas ou consideravam impossível re- dinhas toscas, núcleos, lascas e raspadores de
colher evidências a respeito de tais ocupações, superfície plana, aparentemente piu-a a con-
(<
devido à carência de materiais líticos para a fecção de gravuras rupestres. Estas, por seu
confecção de utensílios e à impossibilidade da turno, abrangem círculos rajados, faces huma-
i localização de restos biológicos antigos. Porém, nas estilizadas ou mascaras, triângulos púbi-
(< existem muitas áreas com recursos líticos na cos femininos, motivos baseados nos pés hu-
Amazónia e restos biológicos arqueológicos manos, ciuadrúpedes. motivos geométricos
i são comumente preservados nos trópicos pe- sombreados e cav idades para trituramonto e
la carbonização, pelas condições anaeróbicas raspagem. .\ cobertura de pedra que pwtogo
i
ou nos solos argilosos. este importante sítio presenou n\stos disse-
i Sem dúvida, mesmo os escassos achados cados de vegetais comestíveis, cascas de cara-
i oferecem evidências para uma seíiiiència an- cóis, ossos e fragmentos ile aivos o fltx^hus;
tiga de considerável extensão e complexida- mas, suas posições estratigi-âticiís e assiviuções
i de, compreendendo uma Fase Paleoindígena, não foram ainda clarificadas. O pouco contn>-
<< uma Fase Arcaica da pré-ceràmica e uma Fa- \c estratigráfico durante a escavação o os gran-
VHQUF.OI.OGIA AMAZONK A 59

des distúrbios ocorridos no sítio fazem com dem ter sido usadas para encastoar lanças ou
que a associação entre datas, evidências líti- dardos e os raspadores devem ter sido utiliza-

cas e atividade humana permaneça nebulosa. dos para a preparação das peles de animais ex-
No de Goiás, diversos sítios pré-cerâ-
sul tintos que pastavam na savana.
micos foram localizados em grutas com arte No sítio padrão de Taima Taima no norte

rupestre (Schmitz, 1987). As ocupações mais da Venezuela, os arqueólogos encontraram


antigas datam do período entre 8000 e 6000 pontas do tipo Jobo deste complexo associa-
a.C. e são caracterizadas pela variedade de das aos ossos de um mastodonte sul-americano
utensílios unifaciais de quartzo lascados por extinto, encontrado com uma ponta de projé-
percussão e, notavelmente, grandes utensílios til na cavidade do corpo, produzindo uma sé-

unifaciais de lâminas com fortes marcas de uso rie de datas radiocarbónicas entre 12000 e

em uma das extremidades. A abundância de 10000 a.G., a partir dos ossos, associados ao
ossos de animais e restos de plantas achados carvão e galhos de madeira retirados do estô-
que o clima era ligeiramen-
nestes sítios indica mago do mastodonte (Bryan, 1983; Brxan et
te mais que a subsistência humana era
frio e alii, 1978). Alguns levantaram dúvidas a res-
baseada na caça de grandes animais e em ár- peito deste sítio devido a seu caráter úmido
vores frutíferas. Peixes, mariscos e caça de pe- (Lynch, 1983), mas as datações radiocarbóni-
queno porte também apareceram nestes sítios. cas de diferentes materiais são consistentes e
No período de 6000 a 4000 a.C, a dieta pas- o depósito estava selado por camadas estéreis
sou a destacar espécies menores; pontas de datadas de 8000 a.G.
projéteis com pedúnculos e aletas, bem como Também no escudo das Guianas foram des-
uma grande variedade de outros tipos de uten- em forma de
cobertas várias pontas bifaciais
sílios começaram a ser utilizados. por percussão ou por pressão,
folhas, lascadas
No norte da Amazónia, diversos complexos grandes e pequenas, semelhantes aos artefa-
de líticos lascados por percussão foram encon- tos líticos das ocupações paleoindígenas em
trados nas savanas e nas florestas do escudo outras regiões do Novo Mundo. Estes sítios
das Guianas, o divisor entre os rios Amazonas abrangem o rio Ireng no distrito de Rupununni
e Orenoco, localizado na Venezuela e na Guia- e o rio Guyuni no distrito de Mazaruna, am-
na. Várias pontas bifaciais de jaspe calcedô- bos localizados na província de Essequibo na
nio foram encontradas por garimpeiros na Guiana; Ganaima e o rio Paragua no estado de
Grande Savana e no rio Paraguai, na Venezue- Boli\ar na Venezuela (ver referência abaixo);
la; utensílios rústicos de basalto foram acha- e o complexo Sipaliwini das terras altas do Su-
dos em Tupuken, na serra da Nutria, também riname (Boomert, 1980a). Feitas de uma va-
na Venezuela; e diversos instrumentos de lâ- riedade de materiais como quartzo, calcedó-
minas sílicas e felsíticas surgiram em Tabatin- nia, jaspe e sílex, as pontas medem de cerca

ga e na savana Rupununni da Guiana (Boo-


mert, 1980a; Rouse e Allaire, 1978; Rouse e
de 5 cm e 19 cm e abrangem imia variedade
de formas: lanceoladas, estriadas, acintunidas,
i
Gruxent, 1963; Gruxent e Rouse, 1958-9; farpadas e com pedúnculo. O lascamento é,
Evans e Meggers, 1960; DuPouy, 1956, 1960). algumas vezes, delicado e bem controlado e
Apesar de rusticamente lascados, os líticos a maioria dos utensílios é mais fina que acjue-
de jaspe escavados por mineiros na profundi- les lascados por percussão acima menciona-
dade de um a três metros certamente são ar- dos. As formas e o tamanho relativamente
tefatos. Nestes, as lascas foram remo\ idas em grande dos utensílios parecem consistentes
faixas paralelas e percebe-se um retoque ser- com o seu uso para encastoar flechas ou dar-
rilhado nas suas bordas. As formas destes uten- dos. Havia, igualmente, em Ganaima, raspado-
sílios incluem pontas triangulares com pedún- res plano-convexos, choppers, utensílios em
culo, pontas lanceoladas em forma de folhas forma de facas e machados. Não existem as-
e raspadores plano-convexos. Os líticos de sí- sociações anjueológicas para estas pontas e,

lex de Tabatinga apresentam superfícies den- portanto, não se sabe se elas datam de épocas
tadas ao longo de suas bordas. Todos os uten- nas (juais a fauna de grande porte freqiienta-
sílios nos conjuntos de líticos lascados por per- va as savanas. Desconhecem-se totalmente os
cussão mostram-se relativamente grossos, sítios dos (juais elas são provenientes.
variando entre 7 cm e 20 cm. .As pontas po- Outro possível estilo paleoindígena ou pio-
t>0 lllSTOKl\ nos INOIOS \t) BK\.SII

to-arciíico, de artetatos líticos lascados por analógicos às sequências de outros lugares, e


pressão da tase Kiioine, toi encontrado na pró- estas mudanças podem refletir a troca no uso
pria Amazónia, na região do baixo Ama/.onas de lanças para dardos tipo ataltl na caça.
^Simões, 1976; Sniith, 1879; Roosevelt. 1989a Mantém-se incerta, para esta área, a relação
e b). Relati\aniente grandes (6 cm a 13 cm), entre os de pressão e os líticos de per-
líticos

feitas de qiuu-tzo on sílex mnito tino, estas pon- cussão, apesar de exemplos de ambos os tipos
tas triangulares têm bases pednncnlares on ba- terem sido achados no mesmo sítio, como na-
\'/ ses cònca\as atinadas pela remcx^-ão de nma quele do rio Paragua na Xénezuela. Até surgi-
grande lasca de nm dos lados (Roosexelt, rem sítios mais bem documentados, permane-
19S9a). Estes ntensílios são tão bem lascados ce a dificuldade de se a\aliarem os significa-
quanto os iU"tetatos lascados por pressão do es- dos dos diferentes estilos de lascamento. Uma
tilo piíleoindígena do escndo das Gnianas, po- importante questão a ser sublinhada é que os
rém, eles são mnito mais largos e finos em re- primeiros complexos líticos nas terras baixas
lação a sen comprimento. A largura e os tra- são ecológica e tecnologicamente muito mais
ços de uso em seus lados sugerem que alguns \ariados do que as expectativas arqueológicas
foram usados tanto como facas quanto como supunham, baseadas em analogias com os
projéteis. O grande tamanho e as extremida- complexos paleoindígenas exteriores à bacia.
des pontudas das pontas bitaciais pro\enien-
tesdo Pará sugerem seu uso como arpões em COLETORES INTENSHOS DO PERÍODO
caçadas de animais de grande porte. Um exem-
ARCAICO: COMPLEXOS PRÉ-CER.\MICO
plar relati\amente similar, de quartzo branco
E CERÂMICO INCIPIENTE
com foi encontrado em uma das
pedúnculo, Diversos complexos pré-cerâmicos, possivel-
ilhas da \ árzea da Baixa Amazónia, perto de mente do período Arcaico tardio, têm sido
Belém (Museu Goeldi) e constitui uma e\ idên- identificados e podem ilustrar a transição da
cia da existência de embarcações ao tempo da subsistência baseada na caça e coleta para a
manufatura dos utensílios. Como nenhum des- agricultura incipiente, e do estágio pré-cerà-
tes líticos foi recuperado no seu contexto ar- mico ao cerâmico.
queológico, suas posições cronológicas e seu Diversos abrigos rochosos parecem possuir
contexto no sítio permanecem desconhecidos. depósitos líticos pré-cerâmicos tardios. Arte-
Do ponto de vista estilístico, eles datam pro- tatos de ametista e Ciílcedónia, lascados por
\a\elmente de 8000 a 4000 a.C. (Simões, 1976; percussão, foram encontrados na ca\erna dos
VV. Hurt, comunicação pessoal). Nas proximi- Ga\ iões e em outras caxernas de componen-
dades dos locais onde algumas destas pontas tes múltiplos, na área de CiU^ajás, ao sul de Be-
foram encontradas existem sítios com extensa lém (Museu Goeldi, Grupo de Siil\"tUiiento. co-
e policrómica arte rupestre, mas estes não fo- municação pessoal). Quatro datações entre
ram datados. cerca de 6000 e 4000 a.C. (Geochron
Parece lógico considerar que estes estilos G.\-12509, 12510, 12511; Teled>iie 1-14. 912) tlv
de pontas lascadas por percussão e por pres- ram verificadas nos restos de plantas carboni-
são pertencem ao mesmo período geral das zadas pro\enientes dos níxeis pré-cerâmicos
culturas paleoindígenas de outras iegiões, de da ca\ erna citada. Os bem presen ados restos
cerca de 12000 a 7000 a.C, isto porque alguns de plantas ciu-bonizadas e de aniniiiis estão
de seus estilos correspondem aos complexos presentemente em estudo nas ca\erniis. Estes
líticos paleoindígenas documentados e data- abrangem sementes de palmeiras, anores tni-
dos para outras áreas da América do Sul tíferas, conchas de moluscos e ossos.

(Schmitz, org., 1981-4; Schmitz, 1987; Lynch. Artetatos líticos lascados por percussão to-
1978, 1983; Br>an, 1978, 1983; Br>an et alii, rain recolhidos também na C^ue\a de El Elt^
1978). Ademais, nenhum artefato de estilo si- fante ao norte do estado de Bolívar no Oivuiv
milar foi encontrado nas bem estudadas ocu- CO \ene/,nelano. Neste sitiix cerâmicas e data-
pações da Grande Amazónia de períodos mais ções radiocarbònicas da era cristã toram
recentes. Maiores e com um acabamento mais associadas aos objetos liticivs, nuis. pcira os vh\s-

fino, as pontas lanceoladas e com pedúnculos ijuisadores, a estratigrafia indica\a que a as-

podem ser anteriores às toscas pontas de pe- sociação deri\;i\a mais da mistura do que da
dúnculos menores, se consideradas em termos contemporaneidade dos objetos ^\ai\[;is e Sa-
\KQl KOI.OGIA A\l AZÓNÍf \ 61

noja, 1970). A maneira pela qual os abrigos Hurt e Blasi, 1960; Laming e Emperaire, 1957;
rochosos e cavernas pré-cerâmicas estão rela- Bryan, 1983). Muitos dos sambaquis, localiza-
cionados com os sítios abertos mantém-se in- dos estratigraficamente embaixo dos compo-
certa, mas eles podem ter representado ocu- nentes de estágios cerâmicos posteriores, têm
pações sazonais ou esporádicas provenientes uma relação topográfica com as característi-
de outros sítios mais permanentes. Outro pos- cas geológicas provenientes das mudanças do
sível conjunto do Arcaico tardio consiste em nível da água, ocorridas no período entre cer-
abundantes fragmentos líticos lascados por ca de 6000 e 4000 a.C. (Irion in Sioli, 1984).
percussão, recolhidos na superfície terrestre Ao que parece, o período em que o nível do
do escoadouro do Tocantins, perto da represa mar era mais alto resultou no desenvolvimen-
de Tucuruí, no Brasil (Araújo Costa, 1983). to de condições lacustres e de estuário em tor-
Ainda não se identificou nenhum sítio de as- no do baixo Amazonas e de outros rios que de-
sentamento associado a este conjunto. sembocam no Atlântico.
Outro conjunto de artefatos líticos toscos A estratigrafia cultural e natural dos sam-
lascados por percussão foi identificado em baquis é interessante. Muitos deles têm cama-
grandes e numerosos sambaquis, ao longo do das inferiores pré-cerâmicas, mas nas cama-
baixo Amazonas e em sua foz, nas costas da das superiores aparecem raros exemplares de
Guiana e na foz do Orenoco (Nimuendaju, cerâmica simples, com tempero de areia oxi-
1949; Hartt, 1883, 1885; Hilbert, 1959a; Har- dada ou conchas. Os sambaquis da Guiana e
ris, 1973; Smith, 1879; Monteiro de Noronha, do baixo Amazonas estão frequentemente co-
1862; Ferreira Penna, 1876; Osgood, 1946; bertos com amontoados de terra contendo ce-
Evans e Meggers, 1960; Simões, 1981). O com- râmica pré-histórica mais recente e machados
plexo parece representar a transição do arte- de pedra polida. Ossadas humanas também
sanato do estágio pré-cerâmico ao cerâmico são comuns nos sambaquis, mas não foram ain-
inicial. O material inclui núcleos lascados por da analisadas. Como alguns sambaquis arcai-
percussão, alisadores, raspadores, cinzéis, lâ- cos de outras partes, muitos destes amontoa-
minas e facas de gume de sílex ou sílex impu- dos abrangem diversos hectares de largura e
ro, como também utensílios de pedras comuns muitos metros de profundidade, indicando as-
para corte, trituração, raspagem e percussão. sentamentos relativamente grandes e perma-
Os utensílios costumam da frente pa-
se afinar nentes. A sequência sugere a transição de uma
ra trás, e a maior parte deles é menor que os fase pré-cerâmica de coleta intensiva de ma-
utensílios do provável complexo paleoindíge- riscos para outra de coleta intensiva de plan-
na descrito acima. Líticos parecidos foram en- tas e de cultivo incipiente, com cerâmica. Nes-

contrados no período pré-cerâmico tardio, em te sentido, este estágio parece representar uma
sítios temporários do período cerâmico inicial, fase de intensificação da subsistência e do
e em sambaquis na costa caribenha da Colôm- crescimento populacional similar àquela do
bia (Reichel-Dolmatoff, 1965a e b, 1985), ain- Mesolítico no Velho Mundo.
da que esta similaridade não tenha sido ainda Extensivamente explorado por investigado-
registrada pela literatura. res do século XIX e do início do século XX
Até recentemente, poucos destes conjun- (Verril, 1918), mas não investigado intensiva-

tos receberam alguma datação radiocarbôni- mente mais recentemente, este estágio de ocu-
ca. Devido à suposição de que as sociedades pação nas terras baixas da América do Sul foi
das terras baixas tropicais teriam sofrido um descrito por arqueólogos profissionais apenas
retardamento cultural, estes conjuntos inicial- em 1945, com referência à planície costeira da
mente foram considerados como provenientes Guiana (Osgood, 1946). Mais tarde, a fase dos
do período pré-histórico tardio. Porém, data- samba(juis da Guiana foi batizada Alaka (Evans
ções radiocarbônicas realizadas em diversos e Meggers, 1960). Esta fase niainfesta-se em
sambaciuis apontaram datas do sexto ao quin- numerosos sambaqui.<> nas antigas praias e nos
to milénio a.C>. (Hoosexeit et alii, 1991; Simões, mangues pantanosos da plainVie costeira da
1981; .\r(|ui\()s Snnthsoiúan, Registros de Ha- (íuiana. Estes amontoados têm uma abundân-
diocarbono; Williams, 1981), indicando uma cia de artefatos líticos rudimentares ou lasca-
antiguidade sinúlar às fases do litoral, ao sul dos por percussão, e nos níveis mais altos
da foz do Amazonas (llurt, 1968, 1974, 1986; encontram-se, além dos líticos, algumas raras
IIISTOKIX nos INOIDS \t) HKVSll

Fazenda Tapennha, cerâmicas oxidadas e teniptrachis com saibro sição tecnológica da subsistência de coleta pa-
região de
ou conchas. Os \asos eram, em sua maior par- ra a agricultura. No entanto, aparentemente
Santarém, Pará.
Vista de uma
te, simples cuias sem decoração. houve também, com o passar do tempo, uma
fazenda de açúcar Entre os restos biolójíicos dos sambaquis da mudança ambiental do ní\el do mar. que
do século XIX, e o Fase Alaka, predominam os moluscos, mas tornou-se mais bai.xo.
rio Ituki.
existem também raros vertebrados, tanto aquá- Por algum motivo, apenas recentemente es-
ticos quanto terrestres, além de numerosas se- te importante complexo foi datado com radio-
pulturas humanas. Restos de plantas estão pre- carbono, apesar da abundante presença de car-
embora ainda não tenham sido siste-
sentes, vão e ossos adequados para o teste. Quando
maticamente coletados ou identificados. Da definida a fase, pensa\ a-se que era de data bas-
camada inferior para a superior nos sítios da tante recente, sendo interpretada como uma
.\laka, parece existir uma mudança dos mo- fase pré-cerâmica tardia que perdurou até o
luscos de águas mais salobras para os adapta- primeiro milénio d.C. A introdução da cerâ-
dos à água doce. A mudança dos moluscos e mica nesta fase foi inteipretada como pro\e-
dos líticos bem como o aparecimento da ce- niente dos Andes. Entretanto, a posição estra-
Sambaqui de
Taperinha. 5000
râmica foram originalmente interpretados co- da Alaka corresponde a uma posição
tigráfica
anos a.C, 1989. mo sendo primordialmente produto da tran- cronokSgica mais antiga. No topo de muitos
sambaquis encontram-se di\ersas camadiís de
amontoados de terra contendo cerâmica de-
corada das fases arqueológicas posteriores na
área. No sambaqui de Barambina. três data-
ções radiocarbônicas, realizadas nas ciuiiadas
contendo cerâmica incipiente, produzinun re-

sultados entre 4000 e 3000 a.C. ^\\ illiams,

1981), muito antigas para esta cenimica ser de-


rivada da tradição andina, tiue se iniciou mais
de 2 mil anos depois. Os conjuntos pre-
cerâmicos nas camadas mais baixas dos sam-
baquis podem, consetiiientemente, ser ainda
mais antigos.
Há mais de cem anos os cientistas notaram
a presença de muitos sambaquis simiUuvs ao
longo do estuário ama/ònic«.\ ao norte do Ri-
rá, um ptHíco a sudtvste da to/ do .\m;uonas

(Monteiro de Noronlia. 1S62; Fenvira IVnna.


ISTfS). Esca\ações ivcentes ivali/adas em di-

\ersos (.lestes sambaquis (Siíuõe.s, U)Sn mos-


\KyiEOLOGIA AMAZÓN"!C:\ 63

traram-nos como sendo do estágio cerâmico base arredondada e bordas cónicas, arredon-
inicial. O
complexo é chamado de Mina pois dadas ou quadradas, e cerca de 3% da cerâ- gfàS)
os sambaquis têm sido explorados para obten- mica apresentou incisóes curvilíneas e retilí-
ção de cal. As datas radiocarbônicas publica- neas nas bordas. O uso culinário da cerâmica
>.©
das variam entre 3000 e 2000 ou 1500 a.C, é comprovado pelos resíduos de cinzas no ex-
dependendo de como cada um defina o fim terior dos vasos. O componente cerâmico ini-
da fase, e um registro de 3500 a.C. inexplica- cial foi denominado Taperinha, em referência

velmente não foi publicado pelos pesquisado- ao sítio (Roosevelt, 1989a e b; Roosevelt et alii,

res (Arquivos da Smithsonian, Washington 1991). A idade deste sambaqui cerâmico foi es-

D. Clifford Evans). Os artefatos do


C, arquivo tabelecida entre 5000 e 4000 a.C, tendo sido
sítioeram abundantes, incluindo cerâmica, lí- baseada em doze dataçóes radiocarbônicas
ticos lascados por percussão, pedras não tra- realizadas em carvão, conchas e carbono pro-
balhadas, e utensílios e ornamentos tanto de veniente da cerâmica, sendo também realiza-
ossos quanto de conchas. Os líticos lascados da uma datação da cerâmica por termolumi-
incluíam possíveis raspadores e facas, e as pe- nescência. Já os sedimentos lacustres associa-
dras da região foram utilizadas para martelar dos ao sistema de terraço dorio no qual o sítio

e quebrar nozes, ou como pilões e machados foi localizado provêm de entre 8000 e 6000
rústicos. A cerâmica apresentou rude tempe- Meticulosamen-
a.C. (Irion in Sioli, org., 1984).

ro de conchas ou, raramente, de saibro, sendo da mais antiga cerâmica co-


te datada, trata-se

a decoração limitada ao corrugado raspado e nhecida das Américas, achado este que não se
à pintura vermelha. A forma principal destas coaduna com as expectativas dos antropólogos
cerâmicas era a de cuias abertas. Entre os res- ambientalistas que enfatizam a transitorieda-
tos da fauna, destaca\a-se o bivalve Anomalo- de dos assentamentos indígenas e o retarda-
cardia brasiliana, mas não foram coletados res- mento cultural da região.
tos de plantas para identificação. Restos ósseos Os restos de subsistência dos sambaquis
foram recolhidos, porém não analisados osteo- consistem principalmente em mariscos, sen-
logicamente até o momento. Os pesquisado- do também identificados alguns peixes bem
res não coletaram sistematicamente restos de preservados e raros ossos de mamíferos e rép-
plantas, e portanto reconstruíram o modo de Instrumentos líticos

subsistência como sendo baseado apenas na da região de


Santarém: ponta
coleta marinha. Porém, a presença de utensí- lascada por
lios para o processamento de plantas sugere pressão (9,5 cm),
que também estas podem ter sido utilizadas do rio Tapajós, Pará.

intensivamente.
Uma no baixo Amazonas foi
fase paralela
identificada mais de cem anos
atrás no sam-
baqui de Taperinha, perto de Santarém, na
borda de um terraço ribeirinho do Pleistoce-
no tardio (Hartt, 1874, 1883, 1885; Roosevelt,
1989a e b; Roosevelt et alii, 1991; Smith, 1879).
O sambaqui é bastante extenso, apresentando
em torno de 6,5 m
de profundidade e diver-
sos hectares de Os líticos lascados do sí-
área.
tio compõem-se de toscos artefatos de sílex lo-

cal, laminados por percussão. Estes incluem

lascas utilizadas, raspadores, gumes, cinzéis e


outros utensílios. O conjunto encontrado no
sítio também contém machados, pedras de

(juebrar nozes, moedores, alisadores e utensí-


lios de ossos e chifres.

O sambaíiui também apresentou rara cerâ-


mica avermelhada com tempero de saibro. .-Vs

únicas formas resumem-se a cuias abertas, de


64 msTóKiA DOS Índios no brasil

sões ao oeste e sul do .\mazonas brasileiro e


i
nas áreas leste e sudeste da ilha de Marajó. Po-
dem existir ainda outros tipos de sítios de ocu-

pação do estágio Arcaico no interior de Mara-


jó, pois os mapas de Radam brasileiros da ilha
revelam um extenso sistema de paleocanais de
período hidrográfico mais antigo, estimado em
cerca de 8000-3000 a.C. (J. S. Lourenço e W.
Saulk, comunicação pessoal; Roose\elt, 1991a).
As evidências existentes sugerem que as fu-
turas pesquisas e escaxações estratigráficas do
baixo Amazonas poderão re\elar um extenso
horizonte mais antigo de ocupações humanas
sedentárias baseadas na coleta intensiva de
fauna e plantas aquáticas e, tal\ez, também na
agricultura incipiente.

RESUMO
Assim, em resumo, parece possível que tenha
existido tanto uma ocupação pré-cerâmica em
múltiplos estágios quanto um estágio de ocu-
pação cerâmica incipiente na Amazónia.
Restos de fauna do
sambaqui Sugere-se uma possível seqiiência lítica, na
teis. Sepulturas humanas também foram acha-
Taperinha, qual os complexos de artefatos lascados por
Santarém: mexilhão das no sambaqui. Encontraram-se poucos res-
percussão precedem uma de grandes ar-
fase
perolado de água tos de plantas, mas havia a presença de car-
doce (Castalia tefatos lascados por pressão, seguida por ou-
\ ão e de pro\á\eis utensílios processadores de
ambígua). tra fase de artefatos lascados por percussão. As
plantas. Mexilhões aperolados de água doce,
pontas aparentemente manifestam-se ao lon-
tais como a Castalia, eram predominantes
go de toda a sequência. Esta sequência possi-
(Hartt, 1883, 1885; Roosevelt et alii, 1991).
velmente de\e representar diversas fases de
Taperinha não é o único sambaqui do pe-
subsistência: dois estágios de caça de grande
ríodo .\rcaico nas imediações de Santarém. Pa-
porte de fauna extinta e moderna, uma tran-
ricatuba, a oeste de Santarém, também pos-
sição para a coleta intensiva de fauna de pe-
sui um em torno do
e existem vários outros
queno porte e plantas e, então, possi\elmen-
lago Grande de Vila Franca, a oeste da foz do
te, o aparecimento do culti\o de pUuitas.
Tapajós. Existem também vários outros sítios
Escassamente conhecidos, os rehigos ar-
de sambaquis similares ao longo do baixo Ama-
zonas, estendendo-se de Manaus até a foz (Fer-
queológicos ainda não permitem a reconstni-

reira Penna, 1876; Hartt, 1883, 1885; Ximuen-


ção dos sistemas de assentamento e subsistên-

daju, s.d.; Monteiro de Noronha, 1862). cia nem a confinnação de sequên-


nnús antigos
A Fase Castalia de cerâmica temperada cias de desenvolvimento. E inipossÍNel. neste
com conchas, conhecida a partir dos samba- momento, assegunu" se o estilo lítico p^Ueoin-
quis localizados perto de .\lenquer, na margem dígena está relacionado ou não a caça de ani-
esquerda do baixo Amazonas, em frente a San- niiiis de grande porte, pois nenhum dos sítios

tarém (Hilbert, 1959a; Hilbert e Hilbert, encontrados foi adequadamente descrito ou


1980), tem sido considerada muito niiiis recen- testado, .\lguns destes líticos poderiam. pa>-
te que aquelas datas encontradas para Mina \avelmente, ter sido pontas para ai^pòes. lan-
ou Taperinha, mas estas conclusões se basea- ças e propulsores de lança — todos objetos
ram em análises de conjuntos com componen- presumi\elmente usados para a caça de gi-an-
tes múltiplos recolhidos atra\ és de métodos de de porte, .\lguns líticos do estilo .\ivaico ini-
escavação que combinam material arqueoló- cial parecem mais ser utensílios para o aKUe

gico recente com o mais antigo. Existem ou- de animais e para a coiífecção de outtvs obje-
tros sambaquis do período .Vrcaico nas exten- tos (jue não os projeteis. .\ nossa interpivta-
\HyUKOLOGIA AMAZÓNICA 65

ção, no entanto, esbarra na falta de um com- Finalmente, uma outra orientação para as
plexo de utensílios associado, sem falar na ca- futuras pesquisas dos coletores amazônicos re-
rência de restos biológicos. sidiria em uma comparação interpretativa crí-
Os líticos do estilo Arcaico tardio, pelo me- tica entre aqueles antigos e os modernos. Um
nos, são provenientes de sítios mais bem do- número considerável de antropólogos têm es-
cumentados, porém poucos trabalhos até agora tudado os atuais povos da Amazónia como —
têm analisado e relacionado as características os de língua Siriono (Holmberg, 1969) e Gua-
específicas dos sítios e dos restos biológicos jibo (Hurtado e Hill, 1991) —
como exemplos
associados. O tamanho e a profundidade dos da adaptação ecológica cultural do Paleolíti-
sítios, bem como a abundância da flora e da co. Entretanto, estes povos coletores atuais di-
fauna encontradas nos sambaquis, são suges- ferem em vários aspectos importantes das po-
tivos da existência de um sistema de subsis- pulações antigas conhecidas, particularmen-
tência de coleta intensiva e, possivelmente, de te em termos de sua tecnologia, que manifesta
agricultura. Os restos de plantas presentes nos a ausência de lítico lascado utilizável por lan-
sítios ainda não foram sistematicamente cole- ceiros, e em termos de sua subsistência, o que
tados e identificados para apurar a existência inclui, invariavelmente, plantas cultivadas. O
de alguma espécie de planta cultivada. Está fato de os acampamentos dos "coletores" mo-
claro que os mariscos são muito mais eviden- dernos estarem freqiientemente situados no
tes que todos os outros tipos de restos de fau- topo de grandes amontoados artificiais pré-
na, mas os moluscos produzem uma alta pro- históricos, repletos de cerâmica elaborada, de
porção de refugos, comparados a outros tipos milho e de restos de consideráveis estruturas
de fauna comestível, e por isto podem ter si- permanentes, é o principal indício de que es-
do menos importantes do que aparentam tes não são os descendentes diretos dos anti-
(Wing e Brown, 1979). Na ausência de amos- gos caçadores-coletores (Roosevelt, 1991c).
tras vertebrais coletadas sistematicamente e de

dados isotópicos e osteológicos provenientes


ESTILOS DE HORIZONTES ANTIGOS
dos ossos humanos, permanece impossível es- Em algum momento após cerca de 3000 a.C,
timar quantitativamente a composição da die- surgiu, ao longo das várzeas dos rios em di-
ta. Estudos das concentrações isotópicas nos versas partes da Grande Amazónia, um modo
ossos e das doenças dentárias são particular- de vida que parece ter sido bastante similar
mente necessários para a apuração das propor- àquele dos atuais índios amazônicos. Ele coin-
ções dos alimentos animais e vegetais. E pos- cide com o aparecimento dos mais antigos
sívelque o cultivo incipiente de plantas assim complexos conhecidos de cerâmicas elabora-
como a produção de cerâmica tenham come- damente decoradas, os "horizontes" Hachu-
çado durante a ocupação dos sambaquis, fa- rado Zonado e Saldóide-Barrancóide. Estes
vorecidos pelo assentamento sedentário que complexos são comumente chamados de "for-
se baseava na coleta dos luxuriantes recursos mativos", termo que se refere às antigas cul-
aquáticos (Sauer, 1952), ou é possível ainda turas de aldeias de agricultores sedentários,
que a coleta intensiva de plantas ou o cultivo embora estas culturas não aparentem ter sido
tenham conduzido ao sedentarismo (Osborne, totalmente agrícolas na Amazónia. Elas pare-
1977). A investigação destas possibilidades irá cem representar o estabelecimento generali-
requerer evidências biológicas que os arqueó- zado nas terras baixas de aldeias de horticul-
logos apenas começam a coletar na região. O tores de raízes.
bom estado de preservação dos restos huma- Com o surgimento do novo modo de vida,
nos em todos os sambaquis e em muitas ca- houve uma proliferação de assentamentos e
vernas e grutas tornará possível no futuro es- parece ter aumentado a comunicação entre re-
tudos osteológicos e dentais para investigar as giões, aparecendo nas terras baixas uma série
mudanças na dieta, nos padrões genéticos e de estilos de horizontes supra-regionais, com
nos níveis de atividade através do tempo. Tais motivos geométricos e zoomórficos (Meggers
estudos deverão ajudar a determinar o papel e Evans, 1961, 1978; Lathrap, 1970; Cruxent
das migrações nas unidanças culturais e a re- e House, 1958-9; Howard, 1947). Estes estilos
lação entre a sui)sistência e o grau de seden- representam, em cada área, a mais antiga ce-
tarismo. râmica cotn decoração b(Mn elaborada já co-
86 IIISTOUIV nos IMMOS M) liKVSll.

iihecida. As tlises da cerâmica decorada são ca- recem estar confinados ao Orenoco, Guianas,
racterizadas por alças zoomorfas modeladas Antilhas e baixo Amazonas, porém os estilos
por incisões geométricas nas paredes dos \a- Barrancóide são encontrá\eis no Amazonas,
sos abaixo da borda e, às vezes, por pintura ver- Orenoco, Guianas e, possivelmente, também
melha ou \ermelha e branca. Característico na Colômbia caribenha.
dos adornos dos estilos mais antigos é o uso Estes primeiros estilos decorados são basi-
de formas arredondadas modeladas definidas camente estilos "animalísticos", uma vez que
por estrias nas inflexões. A forma predominan- a maioria das representações reconhecíveis é
te dos \ asos é a da cuia aberta, o\al ou circu- de animais. Os adornos das bordas são princi-
lar, apesar de também estarem presentes nes- palmente zoomórficos e mesmo os desenhos
ses estilos assadeiras, garrafas com elaboradas geométricos, localizados nos lados dos vasos,
composições de silhuetas, cachimbos e outras representam características e marcas de ani-
fornias. O tempero é bastante variado, incluin- mais. As raras formas humanas reconhecíveis
do conchas, saibro, cacos, espículas de espon- são, geralmente, animais antropomorfizados.
jas e, raramente, cariapê obtido de cinzas de com focinhos, bigodes e orelhas pontiagudas.
cascas de árvore. As conchas, o saibro e os ca- Esta iconogriífia pode estar relacionada a uma
cos para o tempero parecem ter entrado em subsistência baseada em cultivo de raízes co-
uso mais cedo que a esponja e o cariapê. mestíveis e na proteína animal. \a Amazónia
Apesar das tentativas de agrupar os estilos atual, este tipo de iconografia está associada
em termos de horizontes, na medida em que a uma cosmologia que correlaciona a abundân-
o conhecimento tem se avolumado, também cia de animais e a fertilidade humana a ritos
têm crescido a variedade e complexidade dos xamanísticos que buscam aplacar os Mestres"
estilos, rompendo os agrupamentos estilísticos espirituais dos animais caçados —
espécies de
anteriormente definidos. Em alguns dos esti- seres sobrenaturais talvez representados na an-
los, como o da Fase Tutishcainyo do Amazo- tiga iconografia pelos raros exemplares de ãiú-
nas peruano e a Fase Ananatuba da ilha de Ma- mais humanizados. Este tipo de complexo ri-
rajó, incisões hachuradas são importantes, en- tual seria adequado para sociedades cujo su-
quanto adornos modelados incisos aparecem primento de proteína estava baseado princi-
com certa raridade. Em outros estilos, como palmente em animais (Ross, 1978). .\lém des-
os de La Gruta e Ronquin, incisões de linhas tes aspectos iconográficos, o complexo ritu;il
largas, modelagem e entalhamento são co- é escassamente conhecido. Poucas sepulturas
muns, e há uma decoração complexa de pin- ou outros elementos cerimoniais foram es-
tura vermelha e branca. O primeiro grupo de cavados.
estilos é chamado de Horizonte Hachurado Os primeiros "horizontes" de cerâmica de-
Zonado e o segundo de Horizonte Saldóide- corada são horizontes que apresentam uma
Barrancóide. Os estilos que têm incisões, mo- considerável sobreposição geogiiifica e tem-
delagem e pinturas em vermelho e branco são poral. Muita confusão tem surgido nas tenta-
comumente chamados de Saldóide. Algims es- tivas de tratá-los como horizonte "autênticos"
tilos Saldóide, como o Saladero do baixo Ore- cujos estilos regionais podem ser datados em
noco ou Jauari, perto de Alenquer, no baixo correlação com as nmdanças sincrònicas de
Amazonas, ou, ainda, Wonotobo do Suriname, seus atributos específicos.
combinam incisões hachuradas em zonas, es- Até agora, os estilos Saldóide são os mais
triamento, adornos de modelados-incisos e luitigos estilos datutlos, tendo apaivcido inici;il-

pintura vermelha e branca. Os estilos mais an- mente na baixa e média bacia do Oivuihhx en-
tigos das séries Saldóide-Barrancóide freqiien- tre cerca de 2800-800 e 1000-500 a.C, ivs-
temente não apresentam a pintura \ermelha ptx'tivamente em La Gruta e em Suladetv
e branca do Saladero. Eles são, assim, conm- (Koust> t^ Allairt\ 197S; Uoosevelt. UrS, 1980.
mente chamados de Barrancóide. Os estilos U)91b), permanc(.'cndo no C^rtMioco e nas
que privilegiam o Hachurado Zonado em re- Cíuianas diviM^os séculos após o advetito da era
lação a outras decorações encontram-se difun- cristã. C)s t^stilos Barrancóide substitun^am os
didos em toda a Amazónia, e provável nuMitc estiU>s Siildóide, no baixo (.^ivuivo e \uis CUiia-
existem alguns estilos correlatos ao nortt\ na nas. aproximaiKuutMítt^ entrt^ o advento da era
Colômbia caribenha. Os estilos Saldóide pa- cristã e 500 d.c:.
\Kyri;()i,()(;i \ \\i \zomc \ 67

O mais antigo estilo do Horizonte Hachu-


rado Zonado, o Tutishcainyo antigo, ainda não
foi datado radiometricamente. Acredita-se que
ele tenha começado cerca de 2000 a.C, e em
torno de 800 a.C. o estilo Hachurado Zonado
desaparece da sequência peruana. Ele é se-

guido pelo estilo Barrancóide, que permane-


ce até cerca de 500 d.C. (Lathrap, 1962, 1970;
Lathrap e Brochado, s.d.). Ananatuba, o pri-

meiro de hachura datado no Amazonas,


estilo

parece começar em torno de 1500 a.C. e é


substituído por estilos vagamente Barrancói-
de em cerca de 500 a.C. (Simões, 1969; Meg-
gers, 1985; Meggers e Evans, 1957, 1978; Hil-
f/////
Cerâmica
bert, 1968). pré-histórica da
No baixo e médio Amazonas, complexos região de Santarém.

com hachuras zonadas e ponteados parecem Cacos cerâmicos


da fase inicial de
ter sido substituídos por estilos Barrancóide, Taperinha. O maior
como os complexos de estilo globular da área tem 5 cm de
comprimento.
de Oriximina (Hilbert, 1955, 1968; Hilbert e
Hilbert, 1980). Estespossuem o estriamento
e a modelagem zoomórfica característicos do
Barrancóide e, algumas vezes, a pintura Sal-
dóide. Com tempero de esponja, o estilo Jaua-
ri, proveniente das proximidades de Alenquer,
na margem esquerda do baixo Amazonas, tem
a maioria dos motivos de todos os horizontes
combinados: Hachurado Zonado e ponteado,
estriamento, complexos adornos zoomórficos
e pintura vermelha e branca. O estilo talvez
possa ser datado desde 1300 a.C, mas as rela-
ções estratigráficas e as associações das datas
são incertas (Hilbert e Hilbert, 1980), pois a
coleção tem a aparência de um conjunto mul- Caco da fase
Aldeia de
ticomponente criado pela mistura estrati-
Santarém. O maior
gráfica. tem 20 cm de
Nas proximidades de Santarém, na foz do comprimento.

no baixo Amazonas, a cerâmica do


rio Tapajós,

lago Grande, com ponteado zonado, como a


de Poço e a da cerâmica Aldeia Barrancóide,
permanece ainda sem datação. Estilos Barran-
cóide têm também sido achados na bacia do
Xingu, mas também ainda não foram datados
(Dole, 1961-2). A periodização do surgimento
e desaparecimento dos estilos Hachurado Zo-
nado e Barrancóide-Saldóide no médio e bai-
xo Amazonas é pouco conhecida, mas acredita-
se que o Horizonte Policrômico tardio da i)a-
ciaamazônica se desenvolveu independente-
mente deles (Lathrap, 1970; Lathrap e Brocha-
do, 1980; Meggers e Evans, 1983).
Uma vez (nie o número de sítios com estas
68 iiisTcMUv Pos i\nu>s NO HlUSIl.

ocupações que tèni sido datados é tão peque- SUBSISTÊNCIA E PONOAMENTO


ucx é possí\el que trahiilhos futuros re\eleni NOS PRIMEIROS COMPLEXOS CEIL\MICOS
fases niiiis autigas de cerànuca decorada na Ao tempo do surgimento dos primeiros esti-
Aniiizônia. O conhecimento permanece tão es- los de horizonte, as economias de subsistên-
casso cjue seria difícil pre\er em cjue região
cia da Amazónia parecem ter substituído os
das terras baixas estes estilos apareceram ini-
mariscos, aparentemente pelo cultixo de raí-
ciiilmente. Está claro, entretanto, que a pri-
zes e pela caça e pesca. Não se sabe, ainda,
meira cerâmica da Amazónia antecedeu a
se isto foi apenas uma mudança económica ou
primeira dos Andes, e as primeiras cerâmicas
refletia mudanças no clima e na hidrografia.
decoradas das terras baixas não se parecem
ou mesmo uma combinação de ambas. Com
muito com aciuelas andinas nem em estilo nem certeza, as espécies de mariscos de estuário
em iconografia. Os primeiros estudiosos a fa-
presentes nos sambaquis mais antigos desapa-
zer comparações entre as terras baixas e os An-
recem nos amontoados, e mesmo as espécies
des afirmaram que os estilos das terras baixas
de água doce tornaram-se raras ou ausentes.
de\ iam ser derixados daqueles das terras al-
Os sítios desta fase são mais orientados para
tas, que não
e procuraram achar similaridades
asmargens dos rios atuais e \arzeas dos lagos
se sustentam mais. Os primeiros estilos de ce-
do que para os antigos aspectos hidrológicos
râmica decorada na Amazónia parecem ser ni-
associados aos primeiros sambaquis, sugerin-
tidamente das terras baixas em termos da for-
do uma reorientação ecológica correlaciona-
ma, iconografia e estilo, com cuias de adornos
da, ao menos em parte, a mudanças ambien-
o\ais ou redondos e decoração característica
tais. Apesar de o tamanho dos sítios continuar
nas bordas e paredes dos \ asos. Nenhum esti-
a variar de um a diversos hectares, a acumu-
lo aproximadamente similar foi identificado
lação de refugos diminuiu, e parecem ter si-
nas áreas montanhosas andinas. A área mais
do menos comuns os sítios muito grandes. Tal-
pro\ á\el de origem destes estilos das terras
vez os modos de subsistência e os ambientes
baixas é, portanto, a própria região; na costa
mais antigos tenham permitido uma explora-
caribenha da Colômbia, estilos com hachuras
zonadas, estriamento, incisões e raros adornos
ção mais intensiva em certas localidades favo-
modelados estão datados entre 3500 e 1000
recidas e, com a transformação da base de re-
cursos, de\ido a mudanças ambientais e/ou
1965a e b, 1985). Es-
a.C. (Reichel-Dolmatoff,
económicas, estas grandes concentrações
tes podem representar estilos ancestrais dis-
tantes tanto do Hachurado Zonado quanto do
tornaram-se inviáveis. Pode ser também que
Horizonte Saldóide-Barrancóide. o desem oKimento de uma no\ a economia ba-
Como são poucas as regiões das terras bai-
seada numa agricultura mais eficiente tenha

xas que têm sido prospectadas à procura de ocasionado a expansão de assentamentos per-

sítios, não sabemos se as novas culturas se de-


manentes numa área mais extensa do que era
senvolveram a partir de complexos anteriores possí\el anteriormente, propicianda por al-

pela própria população local em cada região gum tempo, um padrão de assentiuiientos m;iis

ou se os novos padrões se difundiram de gru- numerosos porém de menor tamanho.


po a grupo ou, ainda, se cada cultura foi des- Poucos sítios destas primeiras cKnipaçôes ti>-

locada pelas migrações em massa, substituin- liimdocumentados, muitos pemiiuiecendo Ci>-


do aquelas das populações locais. No passa- bertos por mais de 1 m de sedimentos mais

do, os arqueólogos geralmente acredita\am recentes. .\ maioria tem sido achada ao longi^
que os desenvolvimentos culturais eram espa- das várzeas dos rios, mas as áreas interilux iais

lhados pela difusão ou migração, mas a possi- da .\mazónia têm sido objeto de um reiH^nhe-
bilidade de desenvolvimentos locais paralelos cimento apenas incipiente. Os princip;us srtios
também precisa ser considerada. O aprofun- deste tipo foram localizados na bacia do loa-
damento da pesquisa poderá tornar possível >uli,no alto .\miizonas peruano (I^ithnip.
a comparação das mudanças na genética e fi- 1970),no médio e baixo Oivuíxh^ da \enezuela
siologia osteológica e dental com os padrões (Howaixl. 194o; Kouse e C^ruxent, 1963; C"ru-
de mudança cultural através do tempo, com xtnit t^ Koust\ 1958-9; Sanoja. 1979; Rix^sexelt.
objetivo de testar a utilidade das diferentes ex- 1978. 1980; \ai-gas Arenas, 1981; \at>ras Ait^
planações. nas e Sanoja. 1970; /ucchi e lUrble, 1984\ no
AKQUEOI.OGIA AMAZÔNK;a 69

baixo e médio Amazonas (Hilbert, 1959a, Artefatos da fase


Santarém. Acima,
1968; Hilbert e Hilbert, 1980), e na ilha de
à esqueda: Garrafa
Marajó (Meggers e Evans, 1957; Simões, 1969). em cerâmica pintada
Sítios de antigas aldeias também foram acha- de preto, com
decorações incisas e
dos nas Guianas (Boomert, 1983). A extensão
modeladas (18 cm).
média dos sítios ribeirinhos é de cerca de Acima, à direita:
1 ha, frequentemente com mais de 1 m de pro- Esfinge feminina
em cerâmica
fundidade, indicando que o assentamento pos-
policromada
suía tamanho e estabilidade consideráveis. (30 cm).Ao lado:
Existem também sítios menores em lugares su- Machado de pedra
com 7,2 cm.
jeitos a enchentes sazonais, que possivelmen-
te serviam de acampamentos temporários pa-
ra a pesca, utilizados apenas nas estações
secas.
O sistema de subsistência desta fase de ocu-
pação permanece parcamente documentado, sílfx de 7-9 nnn e numerosas assadeiras de ce-
uma vez que apenas recentemente os ar{}ueó- râmica grossa, como as usadas para gratinar
logos começaram a empregar métodos de pa- e cozinhar mandioca na Amazónia atual. Ape-
leodieta nas terras baixas tropicais. O padrão sar de muitas frutas de árvores terem sido
de subsistência das fases da Tradição La (iru- IdentifRadas nas amostras de solo, não havia
ta, evidenciado nos sítios de La Gruta e Ron- sementes de espécies cultiváveis como milho
quin no médio Orenoco na Venezuela, pode e feijão. C>om base nisso, acredita-se (jue a sub-
servir, a título de experiência, como modelo sistência estava baseada no cultivo de raízes,
para o período. Nesta fase, a subsistência é um na caça e na pesca. As raras pontas triangula-
pouco mais bem conhecida (jue nas outras fa- res de projéteis de quartzo com pedúnculo en-
ses deste estágio ponjue o solo foi bem penei- contradas em La (íruta são consideradas co-
rado e a água foi retirada durante a escavação. mo sendo pontas de flechas, porém, apesar das
O solo do sítio continha muitos estilhaços de precárias condições de preseiAação dos restos
msTouiv nos índios \o huvsii

da tauna apresentadas pelo solo arenoso, sur- zônia atual. Os pontos de encontro incluem
i^inun traunientos de espinhas de peixe (Pinie- a importância do cultivo de raízes sobre o de
lodiddc e Xcniato^iwtlii), als^niis raros mamí- sementes, a importância da proteína animal,
feros aquáticos, incluindo peixes-hoi {Trichc- a ênfase na arte de estilos representati\os de
chiis sp.) e botos {PJiocacnidac), tartarugas e animais e o padrão de assentamento em al-

;ilgims poucos roedores e manuTeros terrestres deias modestas e dispersas. Mas há uma gran-
não identificados. Os resultados da análise de de descontinuidade entre as \ersões pré-
isótopo está\el no colágeno dos ossos huma- histórica e etnográfica atual deste modo de \i-
nos, pro\enientes do sítio de C>oro/.al e repre- da. O estilo simples de \ ida das aldeias essen-
sentando o fim deste estágio no médio Ore- cialmente desapareceu nas várzeas dos rios
noco, apontam para uma dieta — embora não principais da Amazónia durante o primeiro mi-
se limite a esta — de pesca, caça e mandioca, lénio a.C. com
o surgimento do cultivo inten-
porém indicando um quadro distinto daquele sivo de plantas de sementes, com a expansão
esperado para comedores de milho. Os restos das populaçóes humanas e com o desenvoKi-
carbonizados de plantas de La Gruta e Ron- mento de culturas complexas. Assim, de cer-
quin incluem sementes e fintas de árvores de ta maneira, a cultura dos índios dos dias atuais
florestasde galeria e fragmentos de madeira representa um modo de \ ida arcaico que vol-
(Smith e Roose\elt, s. d.). As espécies identi- tou a ser importante devido aos deslocamen-
ficadas incluem Cordia, Byrsonima, Hymenea, tos e perdas demográficas ocorridas durante
Stercidia apetala e raras palmeiras. Nenhuma a conquista europeia. Talvez a história deste
delas pode ser considerada como alimento bá- modo de vida na Amazónia forneça uma cha-
sico, mas acredita-se representarem a vegeta- ve para o esclarecimento das condiçóes que
ção do sítio. o tornaram possível: a baixa densidade popu-
Se as assadeiras indicam que a mandioca lacional e a ausência de competição pela ter-
já era culti\ada no médio Orenoco no decor- ra e seus recursos. Enquanto complexo adap-
rer deste estágio, então sua presença nas ter- tativo, a importância deste sistema de subsis-

precede em muito a introdução da


ras baixas tência parece ter sido a de produzir uma fonte
mandioca na costa peruana em cerca de 1000 de calorias para permitir a melhor administra-
a.C. (Towle, 1961; Lathrap, 1977; Lanning, ção dos escassos recursos animais para suprir
1967). Assim, parece provável que o sistema as proteínas necessárias. Seu desaparecimen-
produtivo da floresta tropical nas terras bai- to das várzeas durante o período da exp;msão
xas, caracterizado pela coivara da mandioca, populacional nos tempos históricos tardios po-
a pesca e a caça, tenha tomado forma na gran- de estar relacionado ã incapacidade deste
de .\mazônia antes que hou\esse qualquer evi- comple.xo horticultor piua explorar os nutrien-
dência de cultivo em qualquer outro lugar. En- tes das várzeas para a produção de proteíniis
tretanto, são fracas as evidências provenientes pro\enientes de plantas com um nível trótlco
dos artefatos referentes à presença da mandio- inferior. Para tanto, o complexo te\e que subs-
ca, uma vez que assadeiras e grelhas podem tituir o culti\ o de nuzes pelo culti\ o de semen-
ser usadas por muitos outros tipos de alimen- tes. Uma vez que o culti\o de plantas anuais
tos, sendo possível confirmar a hipótese a par- exige um padrão de trab;ilho intensi\a não é
tir de outras evidências mais diretas. A eco- surpreendente que, quando as populações da
nomia de subsistência deste importante está- .\mazônia indígena fonun dizimadas depois da
gio de desenvolvimento na Amazónia precisa coníjuista, a subsistência tenha \ oltado a se ba-
ser elucidada em trabalhos futuros. O exame sear no culti\o de raízes.
pelo microscópio de elétrons das abundantes
madeiras carbonizadas pode re\elar a presen- SOCIKDADKS INDK.KN AS COMFl.KXAS
ça do caule da Euphorbiaceae, da família da DA AMAZÓNIA
mandioca.
IMUOIHÇ.U)
RESUMO Durante o primeiro milénio antes e o primei-
Km muitos sentidos, a fase das primeiras al- vo milénio tlepois da era cristã ooorriM-am nas
deias horticultoras da ocupação prt^-histtnica \ar/eas da Amazónia nmdanças signitK\Ui\us
se parece com a ocupação indígena da .\ma- nas ati\ idades, t\»;v aUi t^ i>i^ani/.;ição das SiVii^
XRQIEOLOGIA AMAZÓMCA

dades indígenas. Grandes mudanças ocorre- sos locais de crescimento demográfico e eco-
ram na produção artesanal, na economia, na nómico e de competição pelos recursos e pe-
demografia e na organização social e política. lo trabalho.

Existem, em suma, evidências do surgimen-


REL.\TOS ETNO-HISTÓRICOS
to, ao longo dos principais braços e deltas dos
rios, do que os antropólogos denominam ca-
SOBRE O CACICADO .\.\IAZÒ.MCO
cicados complexos. Os dados sobre o período da conquista na
A arqueologia pré-histórica antiga e os da- Amazónia, da metade do século X\ ao sécu- I

dos históricos mais recentes elam a presen-


re\ lo .XVIII, provenientes de comentários publi-

ça destas sociedades complexas, todas ao lon- cados, transcrições, fac-símiles e traduções


go das \ árzeas dos rios Amazonas e Orenoco (por exemplo, Bettendorf, 1910; De Heriarte,
e nos contrafortes das costas andinas e cari- 1964; Daniel, 1840-1; Palmatar>-, 1950, 1960; /

benhas. Estes extensos domínios abrangiam Markliam, 1869; M>-ers, 1973, 1974; Rowe, org.,

dezenas de milhares de quilómetros quadra- 1952; Denevan, 1966, 1976; Meggers, 1971;
dos, sendo alguns unificados sob chefes supre- Lathrap, 1970; Acuiia, 1891; Gumilla, 1955;
mos. Os cacicados eram belicosos e expansio- Medina, org., 1934; Canajal. 1892; Castella-
nistas, com uma organização social hierárqui- nos, 1955; Bezerra de Menezes, 1972; Morey,
ca, mantida por tributos e por um modo de 1975; Porro, 1989; e outras referências resu-
subsistência baseada na colheita intensiva de midas por Roosevelt, 1980, 1987b) recons-
roças e fauna aquática. O artesanato era alta- troem a história das sociedades complexas no
mente desenvolvido para cerimoniais e comér- período pré-histórico tardio e inícios do his-
cio, manifestando estilos artísticos bastante di- tórico.
fundidos, baseados em imagens humanas, além De acordo com estes dados, os índios esta-
dos motivos mais antigos de animais e formas vam densamente assentados ao longo das mar-
geométricas. Havia um igualmente bem difun- gens e várzeas dos principais rios. Embora as
dido culto de urnas funerárias e adoração dos estimativas quantitativas variem, parece claro
corpos e ídolos dos ancestrais dos chefes. A que, ao longo da maior parte do Amazonas, os
população era densamente agregada ao longo assentamentos eram contínuos e permanentes,
eram ocupados por
das várzeas e alguns sítios havendo que comportavam muitos mi-
sítios

muitos milhares de pessoas. Havia obras de lhares a dezenasde milhares de indivíduos,


terraplenagem em larga escala para o contro- não sendo improv ável que existissem outros
le da água, agricultura, habitação, transporte ainda mais populosos. Estes assentamentos pa-
e defesa. Em um
ou dois séculos de conquis- recem ter estado integrados a grandes terri-

ta, entretanto, as sociedades complexas e suas tórios culturais e políticos, go\ emados por che-
populações desapareceram completamente da fes supremos cuja autoridade baseava-se na
maior parte das várzeas, e nada, mesmo remo- crença na origem divina. A organização social
tamente parecido, pode ser encontrado nas dos cacicados parece, na maior parte dos ca-
atuais sociedades indígenas da Amazónia. sos, ter sido estabelecida ou estratificada em
A ausência de sociedades complexas entre hierarquias sócio-políticas compostas por che-
as sociedades indígenas atuais le\ou, em pri- fes supremos, nobres, plebeus, ser\ os e escra-
meiro que muitos estudiosos não re-
lugar, a vos cativos. As sociedades engaja\am-se na
conhecessem sua existência no passado (Ste- conquista militar de seus vizinhos e alguns dos
ward, 1949). Quando evidências irrefutáveis primeiros conquistadores europeus tiveram di-

foram mais tarde reunidas a partir de achados ficuldades consideráveis em atravessar os ter-
arqueológicos e documentos etno-históricos, ritórios dos cacicados dev ido aos repetidos ata-
a presença destas sociedades na "floresta tro- ques de extensas flotilhas de grandes canoas.
pical" foi atribuída à influência dos .\ndes. En- Um chefe supremo, reiUmente entrevistado
tretanto, o resultadodo trabalho de datação por cronistas durante suas campanhas no mé-
não sustenta a origem externa destas socieda- dio Orenoco, disse que suas batalhas eram ani-
des, cujas formas mais precoces encontram- madas pelo desejo de se apoderarde mais ter-
se nas terras baixas, no leste brasileiro, e não ras tanto agriculturáveis quanto abundantes
perto da Cordilheira dos .\ndes. Suas origens, em pesca, além de mais catixos para trabalhá-
desta fornia, de\em ser procuradas em proces- las. O padrão de conflito não era o dos assaltos
fl

mSTOlUV 1H»S INOIOS M> HlxVSIl.

ospiíiiulicos do \ intíUM^a ou captura de nuillic- nientes dos altos estratos sociais em posição
les. tal como uos dias de hoje, mas existia uma de chefia e especialistas em rituais. As fontes
estrutura de guerra em larga escala orgauiza- também mencionam o que parece ser o cos-
da para defesa e couquista. tume generalizado da genealogia matrilinear
Ao contrário daquelas da Ama/.ônia indígt>- e citam também o uso da endogamia para as
na atuiil, as economias destas sociedades eram mulheres pertencentes à camada da chefia.
complexas e de Ku-ga esciíla, englobando a pro- Em várias sociedades observadas pelo conta-
dução intensi\a de plantas de
e de semen-raiz. to, rapazes e moças eram sujeitos a rituais e
te em campos de
ou monoculturas, a ca-
poli provaçóes de iniciação.
ça e pesca intensiva, o amplo processamento Pela sua natureza, os relatos etno-históricos
de alimentos e a armazenagem por longos pe- não fornecem e\ idências definiti\ as sobre a or-
ríodos. Ha\ia inxestimentos consideráveis em ganização política e social ou informações
estruturas substanciais e permanentes ligadas quantitativas seguras sobre a subsistência ou
à produção, tais como viveiros de tartarugas, a demografia; mesmo assim, as fontes da gran-
represas com pesca, campos agrícolas perma- de Amazónia contêm evidências indiscutíveis
nentes, entre outras. A agricultura baseava-se de sociedades de grande escala, muito popu-
mais na limpeza dos terrenos e nas culturas losas, comparáxeis ao cacicado complexo e aos

anuais do que na derrubada e queimada, o pequenos Estados conhecidos em outras par-


principal método utilizado hoje em dia. Em tes do mundo.
muitos dos cacicados das várzeas, o milho,
mais do que a mandioca, era o principal gé-
CULTURAS DOS HORIZONTES
nero alimentício, e os europeus puderam se
DO PERÍODO PRÉ-HISTÓRICO TARDIO
alimentar de grandes quantidades de milho Os dados arqueológicos sobre a Amazónia
quando viajavam pelos cacicados amazônicos. também oferecem e\ idências da existência de
Os artefatos eram produzidos em larga escala sociedades complexas, localizadas ao longo das
e quantidades de tecidos e cerâmicas decora- várzeas no período pré-histórico tardio. O mi-
das de alta qualidade, assim como diversos lénio anterior à conquista se caracteriza pela
utensílios, alimentos e matérias-primas, eram difusão de estilos de horizonte autênticos, tiús

comercializadas através de grandes distâncias. como o Horizonte Policrómico e o Horizonte


Parece ter havido locais que funcionaram co- Inciso Ponteado. O Horizonte Policrómico
mo mercados, onde o comércio intensivo era caracterizou-se principiílmente pela cerâmica
realizado periodicamente. Correntes com con- decorada com elaborados desenhos geométri-
tas de disco, geralmente de conchas, eram uti- cos estilizados executados com pintunis ^prin-
lizadas como meio circulante tanto no Oreno- cipalmente vermelha, preta e branca) e com
co quanto no Amazonas. incisões, excisões e modelagem. Exemplos de
Havia, regularmente, cerimónias religiosas estilos policrónncos locais são o Marajoara da
comunitárias com cerveja de milho fornecida foz do Amazonas (Meggei^s e Exans, 1957; Rí.x>-
por meio da tributação do dízimo, acompanha- sevelt, 1991a), o Guiuita no médio Amiizonas

das de música e danças. No baixo Amazonas, (Hilbert, 1968), ambos brasileiros, o Caimito
diversas grandes unidades políticas possuíam da alta Aniiizónia peruiuia (Lathrap. 1970; \\"e-

ideologias religiosas legitimadoras da posição ber, 1975), o Napo do iilto Amazonas equato-
das por meio da adoração e deificação
elites, riano (Evans e Meggers. 1968) e o Araracuara
de seus ancestrais. As múmias e as imagens de Caquetá na Amazónia colombiana ^Henv-
pintadas dos ancestrais dos chefes eram guar- ra et alii, 1983; Éden et alii. 1984). O estilo

dadas, em estruturas especiais, junto com ima- de cerâmica do Horizonte Inciso Ponteado
gens de pedra de divindades e com a parafer- apresenta modelagem abundante de ornameti-
sendo especialmente preparadas
nália ritual, tos e incisões profumlas e dtM\sas, idem de ^xmi-

para circular durante as cerimónias periódi- teação. Os motixos plásticos sàix em sua maio-
cas. Existiam especialistas (jue cuida\am das ria, rudes e mal acalxidos, apesar de existiivm
casas religiosas e das cerimónias, bem como exemplos dt> ciMànnca mais tuia e cuidadosa-
adivinhos e curandeiros. Apesar de as nmlhe- uu ntt^ elaborada. .\s fases do Hori/.onte Inci-
res não serem autorizadas a presenciar certas so Ponteado ocorreram em Santarém no lv«-
cerimónias, são mencionadas mulheres pro\e- xo .Vnui/onas ^^Pahnatar\, 1960; Ue/erra do
AKQIK.OI.OGIA AMAZONICA

Menezes, 1972), em no médio Ama-


Itacoatiara tipode influência cultural, ou de verdadeiras
zonas (Hilbert, 1959b, 1968), ambos no Bra- migrações em massa. Os conhecimentos exis-
sil, surgindo também no decorrer da cultura tentes a respeito das sociedades expansionis-
pré-histórica tardia de Faldas de Sanga\' na tas, como as dos Incas gregos e romanos, su-
Amazónia equatoriana (Athens, 1989; Porras, gerem que muitas das mudanças decorrentes
1987), em Camoruco e Arauquin no médio de suas difusões davam-se mais na forma de
Orenoco (Petrullo, 1939; Roosevelt, 1980, aculturação do que por meio de migrações em
1991b) e em Valência na serra marítima cari- massa e da substituição demográfica das po-
benha (Kidder, 1944), todos estes na Venezue- pulações conquistadas. Em vez de se extingui-
la. Ambos os horizontes são relacionados aos rem, as populações locais persistiram, tornan-
primeiros horizontes Hachurado Zonado e do-se filiadas culturalmente aos conquistado-
Saldóide-Barrancóide, mantendo-se o padrão res. Istonão significa que o genocídio não te-
antigo das ten-as baixas de cuias de bordas com nha existido durante as conquistas, mas este
incisões e adornos. Ambos introduziram im- não foi o principal processo causador da difu-
portantes formas e temas novos, tais como as são dos horizontes culturais pré-industriais.
urnas funerárias e as pequenas e grandes efí- Mudanças culturais, ocasionadas pela influên-
gies humanas. cia e interação, conquista e aculturação, apre-
Estes estilos difundiram-se rapidamente em sentam-se como um modelo mais realístico do
territórios comparáveis em tamanho àqueles que a migração para explicar a difusão dos ca-
dos cacicados descritos nos relatos etno-his- cicados pré-históricos tardios.
tóricos. Os estilos de horizonte com as carac- Os arqueólogos têm se preocupado em as-
terísticas temporais e espaciais dos estilos pro- sociar a dispersão dos horizontes às migrações
venientes da Amazónia pré-histórica tardia são das populações de certos grupos lingiiísticos
tradicionalmente interpretados pelos antro- (Lathrap, 1970; Evans e Meggers, 1968). Os
pólogos como evidência da expansão da con- Horizontes Saldóide-Barrancóide têm sido re-
quista dos cacicados ou estados. Antes deste lacionados aos povos de língua Arawak, o Ho-
período, porém, existiam apenas horizontes rizonte Policrômico aos povos de língua Tupi
declinantes — a generalizada série Saldói- e o Horizonte Inciso Ponteado aos povos de
de-Barrancóide e o Horizonte Hachurado Zo- língua Karib. Esta equação monolítica de lin-

nado — os quais são interpretados como pro- guagem, população e cultura material parece
dutos da expansão da antiga horticultura de pouco realista, e os estudos etnográficos não
raízes na Amazónia. Estes horizontes difundi- confirmam estas hipóteses (Black et alii, 1983).
ram-se apenas lentamente no decorrer de mui- Os relatos etno-históricos documentam mui-
tos milénios. Os estilos de horizontes preco- tos cacicados de diversas línguas, e os estilos
ces e tardios parecem ter representado pro- de horizonte da Amazónia atual não estão res-
cessos de interação inter-regionais bem di- tritos a nenhum grupo linguístico particular.
ferentes. Os estilos regionais de horizontes de- Por exemplo, o estilo policrômico amazônico
clinantes apresentam uma relação muito es- do presente é compartilhado por diversos po-
treita entre si e parecem ter tido uma origem vos de diferentes grupos lingiiísticos (T. Myers,
comum, embora não sofram mudanças esti- comunicação pessoal); assim, parece haver
Entre os horizontes au-
lísticas sincrónicas. pouca justificativa para pressupor que os esti-
tênticos, parece ter havido comunicações los policrômicos antigos representam um úni-
estilísticas inter-regionais contínuas, durante co grupo lingiiístico. Igualmente, nenhum sí-
a maior partedo período pré-histórico tardio. tio com cerâmica Siildóide-Barrancóide foi re-

Uma possível explicação para esta comunica- lacionado historicamente aos povos de língua
ção pode ser a existência de redes de alian- Arawak, porque estes estilos desapareceram
ças, casamentos e guerra entre as elites das muito antes que se fizesse qualcjuer obser\a-
culturas regionais dos cacicados. ção sobre as línguas nativas. De (}vuil(juer ma-
.\s primeiras interpretações dos estilos de neira, parece mais prová\el (jue os estilos de
horizonte explicavam-nos em função de migra- horizonte abranjam populações nuiltiétnicas,
ções ou invasões maciças. Evidências estilís- estando ligados a processos sócio-políticos e
ticas, entretanto, não podem revelar se a difu- económicos mais complexos do (jue a uwvd in-
são dos horizontes se deu por meio de algum vasão e migração em massa.
«n

insTOKiv noN índios no bhvsii

O HABITAT DOS KST11X)S DE suíam sistemas de subsistência de agricultura


HORIZONTE PRE-HISTÓRICO TARDIO intensiva, baseados no cultivo de plantas e se-
mentes como fontes básicas tanto de proteína
As fases arqueológicas dos estilos de hori/.on-
{}uanto de amido.
te pré-histórieo tardio parecem ter ocorrido
Apesar de
as imestigações anteriores terem
em de biomas. Muitas das
tipos característicos
enfocado quase exclusivamente os restos líti-
fases tèm sido ideutificadas ao longo dos ban-
cos, barragens e deltas das principais \ árzeas
cos e cerâmicos, existe uma notá\ el abundân-
cia de xariedades de restos biológicos nos sí-
dos rios que contêm sedimentos erodidos dos
tios antigos. Xos casos em que estes restos fo-
Andes. Os maiores complexos de sambaqui
ram coletados para a investigação da
encontram-se em giundes extensões de duvião
subsistência e do ambiente antigos, estes sí-
recente, nas planícies daAmazónia boliviana,
tios produziram milhares de restos de ossos de
no delta do Apiue do médio Orenoco, nas pla-
animais e plantas identificáveis (Roosevelt,
nícies costeiras da Guiana e na ilha de Mara-
1980, 19S4, 1989a e b; Wing. Garson e Simons,
jó, na foz do Amazonas. As fases arqueológi-
s. d.; Garson, 1980; Smith e Roosevelt. s. d.).
cas das áreas interflu\ de baixos recursos
iais
Estes restos têm revelado informações signi-
parecem carecer da complexidade cultural e
ficatixas sobre a subsistência no decorrer do
da magnitude das fases das várzeas.
desen\ oKimento das sociedades complexas.
As únicas exceções são as regiões interflu-
As colheitas de sementes, como o milha pa-
viais que se diferenciam pelos depósitos geo-
recem ter penetrado nos sistemas de subsis-
lógicos que enriqueceram os solos locais com II
tência das \ árzeas da Grande Amazónia du-
nutrientes, como as extensões da costa cari-
rante o primeiro milénio a.C. Xeste períoda
benha da \'enezuela, o alto e médio Xingu, no
hou\e um aumento muito rápido da popula-
Brasil, o sopé andino no iilto .\mazonas e o oes-
ção indígena, a julgar pelo considerável cres-
te do Orenoco. Poucas imestigações foram rea-
cimento no número e no tamanho dos sítios
lizadas nas áreas interfluviaisde baixos recur-
arqueológicos. A presumível vantagem das se-
sos. É, entretanto, admissível que os antropó-
mentes parece ter sido a de permitir a explo-
logos tenham achado restos arqueológicos
ração intensiva dos ricos solos, comparáveis
mais substanciais ao longo dos rios principais
aos da várzea do Xilo. Com as sementes, podia-
e contrafortes andinos simplesmente porque se produzir e estocar uma maior quantidade
estas áreas são mais acessíveis à pesquisa. Xa de amidos e proteínas do que com as roças de
avaliação do papel dos fatores ambientais no raízes e a coleta da flora e da fauna nativas.
desem oKimento das sociedades das terras bai- Em algimias áreas, como nas do Marajó, é pos-
xas, tornar-se-á importante no futuro compa- sível que o cultivo de gramas e quenopódios
rar a ocupação pré-histórica das regiões geo- das várzeas tenha precedido a adoção do mi-
logicamente portadoras de baixos nutrientes lho (Brochado. 1980; Roosevelt. 1991a).
com aquelas regiões de ricos recursos nutri- A julgar pelos resultados do estudo de isó-
cionais. topos estáv eis e de patologias dentáriiis de in-
divíduos do período pré-histórico tiuxlia iis co-
AS ECONOMUS PRÉ-HISTÓRICAS T\RDL\S
lheitas de sementes parecem ter se tomado
Durante muito tempo, os antropólogos acre- bastante importantes no primeiro milénio d.C.
ditaram que a mandioca, a pesca e a caça, pa- período no qual as populações e sítios pn^li-
drão da subsistência dos índios de hoje, tam- feraram. Pelo cjue se sabe deste períoda min-
bém constituíam o principal sistema de todo tas das V lír/eas possuíam densid;ule jx>pulacii>-
o período pré-histórico. Entretanto, este pres- nal extremamente alta; e os relatos dos primei-

suposto se basea\ a em duas ideias agora tidas ros exploradores, os resultados das |">esquis;is
como que o padrão etnognífko
incorretas: aujueobotànicas e estuilos de i.sotoixvs est;ivvis

atual é representativo do padrão antigo; e que de restos ósseos nativos na alta .\miizònia pe-
o ambiente amazônico era muito pobre para ruana e no médio C^renoco venezuelano do-
sistemas agrícolas de tipo mais intensi\o. O cunuMitani a fi>rto éntase no núlho enquanto
que algumas das novas descobertas arqueoló- fonte dv alimento proteica e enei-gética. .\
gicas mostram é (jue muitas das sociedades zooartjueologia e a química dos ossos huma-
pré-históricas das várzeas amazònicas pos- nos ilemonstram que a pi\)tema animal toi
ARQUEOLOGIA AMAZOMCA

mantida em caráter suplementar, com a forte período final da fase, o colágeno dos ossos dos Sítios na ilha de
predominância dos restos de fauna aquática Marajó. Vista aérea
indivíduos pré-históricos apresentou as por-
do grupo Monte
sobre a terrestre, presumivelmente devido a centagens mais baixas de carbono estável e as Carmelo, rio
sua alta biomassa e alto ritmo de reprodução mais altasde isótopo de nitrogénio, caracte- Anajás.
dos peixes neste habitat, em comparação com rísticas dos comedores de milho.

os dos animais terrestres. Embora ainda não tenham sido realizados


As mais antigas evidências arqueobotânicas trabalhos arqueobotânicos no alto Amazonas,
do cultivo de milho foram achadas na Fase Co- os estudos de isótopos estáveis de restos ós-
rozal da região de Parmana, no médio Oreno- seos do primeiro e inícios do segundo milé-
co, sendo esta uma fase de transição entre as nio d.C, provenientes das escavações de Yari-
fases iniciais Saldóide-Barrancóide e o Hori- nacocha na várzea do Ucayali, no Peru, docu-
zonte Inciso Ponteado do período pré-histó- mentam a mesma mudança de um possível
rico tardio (Roosevelt, 1980, 1991b; Van der padrão de mandioca, pesca e caça para o
Merwe, Roosevelt e Vogel, 1981). Aí, uma es- padrão básico de milho (Roosevelt, 1989a).
pécie de milho bastante primitivo, parecido Significativamente, os atuais índios Shipibo
com o tipo Pollo dos Andes setentrionais, en- da comunidade de Yarinacocha consomem a
trou na seíiiiência cerca de 800 a.C, ou seja, mandioca como principal fonte de caloria, re-
nos inícios da fase. Ao tempo do advento da velando que uma importante mudança na sub-
era cristã este havia sido substituído por dois sistência teve lugar entre os tempos pré-his-
tipos mais modernos, especialmente a(iuele se- tóricos e os dias atuais. Mas nenhum estudo
melhante ao tipo Chandelle da região caribe- ecológico do modo de subsistência dos Shipi-
nha. Em c(Tca de 400 d.C]., nesta região, no bo esclarece^ ou e\plic-a as razões p(^las (|uais
msTctiuv PDS i\nu>s no luusii.

a adapta(;ão indígena ao meio ambiente dife- mais recentes do que se havia pensado. Os
reneion-se tanto entre os períodos anteriores estudos químicos dos ossos em toda a Amé-
e posteriores à conqnista. rica sugerem que o milho não se tornou ali-
Existem evidências etno-históricas de que mento básico muito antes do advento da era
a transição da subsistência pré-histórica para cristã (Price, org., 1989; Burger e \an der Mer-
o milho também ocorreu no baixo Ama/.onas, \\e, 1990). .Ademais, existem evidências pro-
pois os primeiros missionários portugueses in- venientes de cavernas secas na Argentina (Fer-
formaram, a respeito dos cacicados do Tapa- nández Distei, 1975) e no Brasil (Miller. 1987;
jós, nas \ izinlianças de Santarém, que estes de- Schmitz, 1987; Schmitz, org., 1981-4; Puttka-
pendiam fortemente do cultivo de milho, em mer, 1979) destacando o precoce cultivo do
vez de mandioca, para sua alimentação (He- milho, sugerindo que o pressuposto da origem
riarte, 1964). Relatos posteriores demonstram setentrional do milho pode ser simplesmente
que houve um retorno à dependência da man- um produto da ausência de indícios provenien-
dioca durante o período colonial (Smith, 1879), tesde outras áreas. Não são conclusivas as evi-
uma \ez que as populações das várzeas foram dências de uma possível dieta de plantas de
dizimadas. Porém, ainda não foram realizados sementes pré-milho; mesmo assim, seguindo
trabalhos arqueobotânicos ou de isótopos pa- a analogiada antiga economia indígena pré-
ra \erificar os relatos etno-históricos. do sudeste dos Estados Unidos, ba-
histórica
O cultivo de sementes deve ter começado seada em plantas de semente, esta economia
logo depois do advento da era cristã, na ilha deve ter sido um desenvolvimento local, ao in-

de Marajó, onde existem grandes extensões de vés de uma economia de difusão.


ricos solos de várzea, mais adequados ao cul- Como foi explicado acima, a arqueobotàni-
tivo de plantas de sementes do que de man- ca e os estudos químicos dos ossos até agora
dioca. Restos ósseos pré-históricas da Fase Ma- realizados indicam que o período de expan-
rajoara, de cerca de 400-1300 d.C, têm pato- são das populações e de desenvolvimento
logias dentárias indicativas de uma base sócio-político acompanhou um crescimento na
alimentar de cereais de sementes duras (Gree- dependência das colheitas de sementes ali-
ne, 1986). O milho, entretanto, não parece ter mentares, como o milho, e o decréscimo do
sido o principal alimento, já que trinta espé- consumo de amidos, provenientes de raízes
cimes de ossos marajoaras produziram evidên- tropicais, e da fauna, padrão característico da
cias isotópicas de consumo de milho em ní- ocupação origiuiil da .\miizônia por ;ildeões se-
veis em torno de apenas 20% a 30% (Roose- dentários, durantes os primeiros dois milénios
velt, 1991a: Tab. 6.7). E possível que cereais a.C. Este padrão demudança para a depen-
nativos ou quenopódios, como o arroz da fa- dência de plantas de sementes como tonte de
mília Leersia hexandra, fizessem parte da die- calorias e proteínas acompanha o processo
ta (Brochado, 1980; Roosevelt, 1991a). A prin- económico que ocorreu durante o período
cipal fonte de proteína animal no Marajó, co- pré-histórico tardio na América do Norte e em
mo em Parmana, era o peixe, e as espécies muitas partes do \élho Munda no decorrer do
representadas pelos ossos animais indicam que estágio Neolítico (Cohen e .\rmelagos, orgs..
em sua maioria estas eram constituídas de pe- 1984).
quenos peixes apanhados mediante o envene- Os padrões antigos contrastam com os pa-
namento de águas nas estações secas. Nos dias drões etnogriíficos de subsistência da Amazó-
de hoje, no Marajó, a alimentação se constitui nia atual, os (juais se baseiam em raízes ami-
de amido de mandioca e carne seca, padrão doadas, suplementadas com pesca e caça ^^Ha-
apropriado à economia predominante de pe- mes e N^ickei-s, oi-gs.. 1983). O desenvxilvimentv^
cuária comercial, e os peixes pccjuenos são ho- da agricultura intensiva tempos pré-
tu>s

je considerados como sem utilidade. histcJricos partx^e ter estado convlacionado à


No passado, supôs-se que o milho havia rápida expansãi> das populações das sixntxla-
chegado às terras baixas, provenient(> da Mc- des compU^xas. Sugestivamente, os desloca-
soamérica, pelo norte dos .\ndes. Entretanto, mentos i> o ilespovoamento do período histó-
as amostras mais antigas de milho do Peru e tutMam com que estas
rico apariMíttMmMitt'
da Mesoamérica têm rece^bido nov as dataçõt^s, txHmomias rt^tornassem aos padrões de culti-
sendo consideradas nmitos milhares de anos vo menos intensivo de raízes e à captura de
\HyiEOLOGIA AMAZÓMCA

animais, próprios às economias do período áreas específicas de artesanato, áreas cerimo-


pré-histórico inicial. Os padrões etnográficos niais, aterros defensivos, cemitérios e amon-
da subsistência indígena de cultivo itineran- toados, além de substanciais restos de estru-
te, a caça e a pesca parecem, assim, represen- turas domésticas e utilitárias, como habitações
tar um retorno a um modo de vida que existia e fornos. Nenhum destes grandes sítios com-
na Amazónia antes do desemolvimento das plexos foi ainda totalmente imestigado. Ape-

economias intensivas dos populosos cacicados. sar de a maior parte das fontes se referir aos
O reconhecimento de evidências específi- assentamentos arqueológicos da Amazónia no
cas de importantes mudanças na subsistência pré-histórico tardio como não urbanos, os sí-
e na demografia é algo novo na antropologia tios arqueológicos e as grandes obras de ter-

da Amazónia. As novas informações sobre a raplenagem na Amazónia do pré-histórico tar-


química dos ossos humanos pré-históricos, os dio são surpreendentemente substanciais e
animais comestíveis e as plantasdocumentam complexos.
a sequência de mudanças tecno-ambientais e As culturas construtoras de sambaquis em
tecno-económicas com muito mais complexi- larga escala desenvolveram-se em muitas áreas
dade do que antes havíamos pensado. As ev i- da Grande Amazónia: nos Llanos de Mojos e
dências de que muitos dos primeiros desen- Chiquitos da Amazónia boliviana (Erickson.
volvimentos culturais —como a cerâmica ini- 1980; Nordenskiõld, 1913, 1916, 1924a e b; De-
cial, o sedentarismo e a agricultura —
devem nevan, 1966), na ilha de Marajó na foz do Ama-
ter ocorrido mais cedo na Grande Amazónia zonas (Derby, 1879; Meggers e Evans, 1957;
do que nas terras altas, tendem a sustentar a Roosevelt, 1991a), nas planícies costeiras das
hipótese de que nossas noções anteriores acer- Guianas (Boomert, 1976, 1980b) e no médio
ca da existência de centros geográficos de ino- Orenoco (Castellanos, 1955; Cruxent e Rou-
vação e influência de culturas orientadoras na se, 1958-9; Denevan e Zucchi, 1978). Estas re-
z\mérica do Sul, no período pré-histórico, pre- giões foram denominadas "florestas úmidas
cisam ser revistas. Ademais, a conclusão de que tropicais", porém todas possuem zonas de v ár-
o desenvolvimento das culturas complexas zea com climas sazonais de sa\ana e com ex-
no período pré-histórico tardio na Amazónia tensões sujeitas a alagamentos sazonais que
está associado a mudanças significativas na deixam ricos sedimentos aluviais. As obras de
demografia e na subsistência prepara o cami- terraplenagem nestas áreas incluem áreas
nho para a compreensão destas culturas co- de cultivo elevadas e com \ alas, diques, canais,
mo produtos da adaptação local à ecologia da poços, açudes, calçamentos, estradas e sam-
Amazónia. baquis para habitação e enterramento. Os
sambaquis de ocupação foram construídos por
PADRÕES DE ASSENTAMENTOS meio do empilhamento de grossas camadas de
PRÉ-HISTÓRICOS TARDIOS solo escavadas de poços localizados em torno
Associado à difusão dos estilos de horizonte dos sítios, ou ainda pela acumulação gradual
do período pré-histórico tardio, ocorre o cres- de restos e ruínas de construções de adobe. Os
cimento em tamanho, número e complexida- habitats das culturas dos sambaquis sofrem
de dos sítios de ocupação humana, no perío- profundos alagamentos sazonais, portanto os
do imediatamente posterior ao adxento da era assentamentos permanentes precisavam ser
cristã. Os sítios ocupados neste período fre- anualmente elevados para locais secos. Entre-
qiientemente ocupam vários quilómetros e tanto, muitos dos samba(iuis pré-históricos fo-

apresentam uma considerá\el densidade de ram aparentemente construídos bem acima do


restos culturais e biológicos, com vários me- invel da água nos períodos alagadiços, o que
tros de profundidade. Muitos sítios de ocupa- sugere que estes de\ em ter sido ele\ ados para
ção das várzeas são amontoados de terra arti- a defesa ou a ostentação. Apenas algumas pros-
ficiais, similares aos "tells" do Oriente Próxi- pecções sistemáticas das obras de terraplena-
mo, compostos de sucessivos estágios de gem foram realizadas, e muitas destas constru-
construção e ruínas de construções de terra. ções nas várzeas foram cobertas pela sedimen-
Apesar da existência de numerosos sítios sim- tação. Além dos sítios de ocupação e das obras
ples e pe(|uenos, diversos sítios parecem ser de terraplenagem, podem ser trabalhadas al-
depósitos complexos e multifuncionais, com gumas áreas de depósito de pedras, como acjue-
HisTOKi V nos i\nios \t) bk\sii

la da parte oriental do escudo das Ciiiiauas e de de extensos solos negros ao longo de mui-
da região de C^urajás, ao sul da to/ do Amazo- tos quilómetros (Sternberg, 1960; Hilbert,
nas, que possuem extensos alinliamentos de 1968; Smith, 1980). Os sítios de solos negros,
(K\ans e Mesigers, 1960; Jo-
roclias monolíticas ao longo das margens do baixo Amazonas, são
sé Seixas Lourenço, comunicação pessoal). contínuos por muitos quilómetros. No Brasil,
A escala e a extensão das obras de terraple- estes depósitos são tão extensos, profundos e
nagem da Amazónia são extraordinárias. Em ricos em minerais que são classificados como
muit;is iíieas das \ ár/eas, as construções de ter- recursos agronómicos de grande importância
ra e os sítios se transformaram nas expressões económica, as chamadas "Terras Pretas Indí-
mais proeminentes da topografia, e os siste- genas" (Falesi, 1974). Em regiões como a de
mas de campos de culti\o ele\ ados estendem- Santarém, os sítios arqueológicos tomaram-se
se por muitas centenas de quilómetros qua- o principal recursoem termos de solo para o
drados. Nas extensas várzeas da savana úmi- desenvolvimento da agricultura monocultora
da, praticamente as únicas formas topogrilíl- comercial, durante o século XIX (Hartt, 1885:
cas que se projetam acima das \ árzeas são os Smith, 1879; Steere, 1927).
numerosos amontoados de habitações e cemi- Os maciços sítios de habitação indicam a
térios. Estes sambaquis mantêm uma floresta existência de uma ocupação pré-histórica mui-
antropogênica rica em trutas de árvores. Mui- to mais substancial e sedentária do que a ocu-
tos destes sambaquis possuem de 3 a 10 m de pação fraca e nómade visualizada pelos primei-
altura, mas deve-se considerar que esta altura ros investigadores da Amazónia. Os sítios de
foi reduzida desde os tempos pré-históricos grande ocupação não podem ser ex-plicados
pela erosão e pelo aumento da sedimentação como produto da acumulação proveniente de
nas \ árzeas. Um típico amontoado artificial nos longos períodos de habitações esparsas e iti-

Llanos bolivianos de Mojos é Casarabe, que nerantes, uma V ez que a cronologia indica que
possui mais de 16 m de altura e 20 ha de área eles aumentaram rapidamente, sendo docu-
(Doughertv e Calandra, 1981-2). Outro sítio de mentados, em muitos casos, períodos de cen-
amontoados múltiplos na Amazónia equatoria- tenas de anos, ev idenciados por diversos me-
na tem cerca de 12 km- de área (Forras, tros de refugos. Em muitas regiões, estes sí-
1987), e alguns sítios de sambaquis múltiplos tios representam as populações pré-históricas

na ilha de Marajó têm mais de 10 km- de que aparentemente eram muito mais nume-
área, contendo de 20 a 40 sambaquis indi\ i- rosas em 1500 d.C. que as populações aniiizò-
duais (W. Farabee, notas de campo; Hilbert, nicas atuais. .\ partir da quantidade de fogos
1952). Áreas como as de Llanos de Mojos e e das evidências comparativas em nível mun-
Marajó têm centenas de grandes sítios de sam- dial referentes à razão entre a área dos sítios

baquis e muitos outros ainda não com- e suas respectivas populações, pode-se con-
provados. cluir que um número não pequeno de sítios

Mesmo os sítios arqueológicos produzidos amazónicos abrigav a populações de muitos mi-


pelo mero acúmulo de refugos orgânicos co- lhares de pessoas, sendo alguns suficientemen-
brem uma considerável extensão da superfí- te grandes para terem comportado pelo me-
cie ao longo das margens dos rios Amazonas nos dezenas de milhiires de pessoas.
e Orenoco. Estes massivos depósitos arqueo- Diversos griuvdes cemitérios com centeiuis
lógicos do pré-histórico tardio aparecem fre- de sepulturas foram achados em sítios de
quentemente de forma contínua por vários habitação e em sambai-iuis. De fata nas pros-
quilómetros, com 4 a 6 m de depósitos densa- pecções já realizadas, o número de sítios de
mente atulhados com restos arqueológicos e cemitério supera o dos sítios de liabitaçãa pnv
manchas escuras provenientes dos restos car- vavelmente portiue a maioria dos pesqui,sadi>-
bonizados de plantas. Por exemplo, os sítios de res estava mais interessada nos ricos cemitt^
ocupação de solos negros em Corozal, no mé- rios e não considerou importante levuntur os
dio Orenoco, da Fase Camoruco (cerca de depósitos de habitação. Km sua maioria eles
400-1500 d.C), têm cerca de 4 m de profun- são cemitérios de uruits concentradvis es^xici^il-

didade e mais de 16 ha de área (Koosevelt, nuMite, porém algumas tumbas de covas fun-
1980, 1991b). Na região de Manaus e perto de tlas. cobertas de pedras, ctmtinham, igualmen-
.\ltamira existem sítios de grande protundiíla- te, urnas funerárias ^^CH)oldi. l900^. Nos cerni-
AKyUEOLOGIA AMAZÔMCA

térios, as sepulturas são muito variadas em ter-

mos de tipos e iconografia das urnas, tratamen-


to dos corpos e acessórios. Os variados e ela-
borados conjuntos fianerários são tidos como
representativos de diferenças significativas en-
tre pessoas de distintos níveis sociais. Devido
à proteção que recobre as urnas e ao pH qua-
se neutro do solo nestas áreas, as ossadas hu-
manas estão normalmente muito bem preser-
vadas (Greene, 1986). Apenas alguns destes
restos esqueletais foram levantados ou anali-
sados, mas aqueles conservados em museus e
em coleções particulares ilustram uma popu-
lação fortemente diferenciada em termos de
idade, sexo, doenças, condições fisiológicas,
conteúdo isotópico e robustez. A despeito das
Cerâmica da fase
ricas informações sócio-econômicas que estes
Marajoara. Jarro
vastos cemitérios podem vir a produzir, ne- inciso de Monte
nhum cemitério pré-histórico da Amazónia foi Carmelo, Rancho
até o presente sistematicamente estudado pela
Campo Limpo.
antropologia física.

Assim, a escala e a complexidade dos as-


sentamentos e construções das sociedades do
Grande Amazónia apro-
pré-histórico tardio na
ximam-nas mais das sociedades identificadas,
em outras partes, como cacicados complexos
e estados, do que dos assentamentos da Ama-
zónia indígena atual. A existência desses sítios

e dessas estruturas monumentais permanece,


em termos gerais, pouco reconhecida na lite-
ratura arqueológica das Américas e, ademais,

não é considerada nas caracterizações dos de-


senvolvimentos culturais nativos em termos
hemisféricos.

ARTEFATOS DO ESTILO
DE HORIZONTE:
FUNÇÃO E ICONOGRAFIA
Os extensos e numerosos sítios de ocupação
dos cacicados amazônicos contêm uma abun-
dância de artefatos e de outros restos. Os ar-
tefatosmais numerosos são os cacos de cerâ-
mica e vasos do estilo de horizonte (Howard,
1947; Rouse e Cruxent, 1963; Nordenskióld, Urna funerária com
1924a, 1930; Lathrap, 1970; Meggers, 1947; esfinge policromada
de fvionte Carmelo,
Meggers e Evans, 1957, 1961, 1978; Hilbert, Rancho
1968; Palmatary, 1950, 1960; Roosevelt, 1980, das evidências etno-históricas a respeito da in- Campo Limpo.
1991a e b). Deve ter existido aí uma enorme tensiva produção e comércio artesanal.
produção de alguns artefatos do estilo de ho- A cultura material nos cacicados parece tei-

rizonte, os quais, apesar da pequena quanti- sido muito complexa, tendo sido achada uma
dade de escavações já realizadas, foram reco- grande variedade de tipos de artefatos, incluin-
lhidos aos milhares. A magnitude da produção do cerâmicas, vasos, efígies, estatuetas, prová-
de artefatos arcjueológicos vem ao encontro veis candeeiros, parafernália de drogas, ins-
so IIISTOKIV nos IMMOS Nlí lílUSlI.

truiuentos nuisicais. rocas, selos, tamboretes, c]uais eram veneradas como objetos de culto
de cortar pedras, aniola-
iilisadores, utensílios nos cacicados etno-históricos.A importância
dores de setas, moedores, pilões, raspadores da imagem humana pode, assim, deri\ar do
e orjiamentos de jade e de outras pedras se- emprego da arte para sustentação das preten-
mipreciosas. Existem também muitos objetos sões genealógicas das elites ao poder e prestí-
complexos cujas tuuções são desconhecidas. gio.Imagens masculinas, que são mais raras
A presença nas bacias sedimentares de nume- que as femininas, são representadas principal-
rosos itens de rochas (çneas aponta para o co- mente como xamãs ou chefes. Elas aparecem
mércio de longa distância de líticos. Diversos sentadas em tamboretes, portando chocalhos,
sítios arqueológicos no Orenoco revelam líti- \ estindo chapéus especiais e bolsas a tiracola
cos com características de manufatura, indi- parecendo como figuras alter ego que susten-
cando (jue, em alguns casos, rochas foram im- tam outra pessoa ou animal em seus ombros.
portadas de fora para a manufatura de utensí- A figura alter ego é vista como representação
lios e ornamentos (Roose\elt, 1980). Estudos da transformação do xamã em seu espírito au-
dos elementos e isótopos dos materiais são ne- xiliar durante o transe induzido por drogas.
cessários para traçar a extensão e a história do Existe também a possibilidade de estas repre-
comércio de longa distância dos líticos e ce- sentarem o conceito de hierarquia e subordi-
râmicas. Rocas aparecem com maior freqiiên- nação entre os grupos humanos, sendo as es-
cia e em diferentes tipos depois do advento da tatuetas representati\as de pequenas figuras
era cristã, sugerindo a intensificação e a cres- ligadas a outras maiores que funcionariam co-
cente complexidade da produção têxtil. As ter- mo suportes ou sustentáculos. Nas imagens,
ras ocupadas pelos cacicados são freqiiente- excetuando-se aquelas dos chefes xamãs, as fi-

mente argilosas, de pH alto, consideradas boas guras masculinas raramente aparecem nas re-
para o plantio de algodão, e a produção desta presentações artísticas, com exceção de repre-
tibra pode ter se tornado uma indústria im- sentações genitais apartadas do corpo, como
portante. nas figuras femininas em que os corpos e ca-
A iconografia dos estilos de horizonte po- beças têm formas fálicas.

de oferecer evidências adicionais das caracte- O


que nos interessa é o fato de que na arte
rísticas da organização social, económica e re- antiga as mulheres também são representadas
ligiosa das culturas antigas. A arte dos estilos sentadas em tamboretes, portando súnbolos
de horizonte do período pré-histórico tardio xamanísticos e interagindo como figuras alter
enfatiza a figura humana, característica não ego (Nordenskiõld, 1930). Isto apesar de as
manifesta nos períodos anteriores ou posterio- mulheres xamãs serem raras entre os po\os
res. .\inda que a representação de animais per- atuais e serem proibidas de sentiu^ em tiun-
maneça comum, a humana é normalmente a boretes rituais, considerados como prerrog"ati-
figura maior e mais central, os animais sendo \as do que
chefe, mostram apenas pa-
neles se
freqíientemente apenas acessórios decorativos ra fazer importantes prommciamentos. São
da imagem humana. As figuras animais devem ainda prerrogati\a do xamã, que neles se as-
ter se tornado menos centrais na arte do pré- senta durante os rituais adi\ inhatórios ou de
histórico tardio porque neste período haviam cura. Esta iconografia sugere a possibilidade
deixado de ser o recurso proteico essencial e, de ter existido, nos tempos pré-históricos, uma
em conseqiiência, devem ter passado a ter um maior proeminência religiosa e politica dos pa-
papel ritual menor. A figura humana pode ter péis femininos, fato este que foi conceituado
se tornado mais importante quando a agricul- geralmente pela etno-historia e pela etnogra-
tura intensiva tornou o trabalho e a terra \a- fia como o "inito da mulher anuizònica", da

liosos, e seu controle um fator a demandar jus- um dia go\ernado a .\nuizònia


(inal se diz ter
tificativas ideológicas. Estas figuras encontram- mediante o apresamento do poder xamanisti-
se freqíientemente em contextos mortuários co pela posse das tlautas sagi-adas. A predomi-
e podem estar relacionadas a cultos mortuá- nància das mulheres nas tases da arte da Kiixa
rios de \eneração das elites ancestrais, a exem- Amazónia como nas de Santarém e Manijiura
plo daqueles mencionados pelos conciuistado- (70%-90'r) pode alternatixuinente eshir ivla-
res. A estilização de algumas imagens aproxi- cionada ao reconhecimento da descendência
ma-as das múmias e de seus acessíirios, as lia linhaiícm do chete de niulheivs míticas an-
VKQUEOLOGIA A\IAZÒNK;\ 81

Existem igualmente numerosas pe-


cestrais.
quenas estatuetas pré-históricas representan-
do figuras femininas, ilustrando vários aspec-
tos da reprodução e sexualidade humana, ti-
po de representação que pode ter estado
conectado à organização sócio-política e de-
mográfica dos cacicados (Roosevelt, 1987a). A
análise do papel feminino na arte da Amazó-
nia pré-histórica através do tempo sugere ter
ocorrido uma mudança na ideologia relativa
às prerrogativas dos sexos e, possivelmente, dos
papéis sexuais. Foi principalmente nas primei-
ras sociedades complexas, como a Marajoara
ou Maracá, da foz do Amazonas, que as mu-
lheres foram mostradas em papéis xamanísti-
cos ou de chefia. A mudança iconográfica po-
de refletir oincremento da estratificação so-
cial e política e a perda do poder pelas
mulheres. Esta transformação é vista como ca-
racterísticada transição da sociedade de es-
tamentos a estados, transição que deve ter
ocorrido nas várzeas da Amazónia no período
pré-histórico tardio. muito diferente, e para compreender as razoes Cerâmica da fase
destas características distintivas precisamos Marajoara.
RESUMO conhecer e explicar estas diferenças.
Tanga policromada,
14 cm.
A diferença mais considerável existente entre
o modo de vida indígena do pré-histórico tar-
O SIGNIFICADO HISTÓRICO
dio e o dos dias de hoje foi considerada ape- DAS CULTURAS COMPLEXAS DA AMAZÓNIA
nas raramente pelos estudos etnográficos mo- Até o presente, nenhum dos cacicados ama-
mudanças nos
dernos. Indicativo das drásticas zónicos foi investigado arqueologicamente em
modos de vida indígena produzidas pela con- termos exaustivos, tornando-se, desta forma,
quista é o fato de que os antigos amontoados difícil a avaliação das características e origens
da Amazónia são agora habitados por indiví- destas sociedades. A partir dos antigos pres-
duos que pouco se parecem com os antigos supostos sobre as deficiências ambientais da
habitantes. Em muitas áreas da Amazónia, co- floresta tropical como habitat para o desenvol-
mo na de Marajó, os sambaquis são habi-
ilha vimento cultural e demográfico, o que se es-
tados por colonos de origem europeia ou afri- perava originalmente era que estas culturas
cana. Algims dos maiores amontoados do mun- fossem inferiores em escala e complexidade às
do, localizados na Amazónia boliviana, são, de "altas culturas" dos Andes e da Mesoaméri-
fato, habitados pelos Siriono, ditos coletores ca, sendo seu desenvolvimento inspirado no
primordiais (Holmberg, 1969), porém ignoran- estímulo, senão nas invasóes, provenientes de
tesda maior parte da cultura dos sambaquis. fora. Mas se o meio ambiente tropical não se

Muitos dos antigos sítios têm depósitos de re- constitui como limitação ao desenvolvimento
fugos em profundidade, grandes estruturas de cultural indígena, então estas consideraçóes
terra — de barro cozido para
inclusive áreas não são válidas. De fato, existe uma abmulân-
cozinhar —
objetos cerâmicos monumentais
, cia de evidências indicando que estas socie-
e milho abundante. Contudo, estes mesmos as- dades eram de origem local e que atingiram
pectos raramente são encontrados nas cultu- uma escala significativa e um alto ní\el de
ras etnográficas, que arqueologicamente exi- complexidade. Seu surgimento, no decorrer do
bem depósitos de solo de pouca profundida- último milénio antes do acKento da era cristã,
de e estratigrafia amorfa (Meggers, 1971). E é posterior ao nascimento de sociedades simi-
evidente que a adaptação cultural e ecológica lares nos Andes, em cerca de 2000 a.C. Toda-
dos povos antigos e modernos da .Amazónia é \ia, elas não se inspiraram necessariamen-
S2 niMouiv m>s índios no bkvsii

te nos contatos com us tenus iiltus, pois um dos guia inteipretativo dos cacicados. transferin-
primeiros cacicados, o Marajoara da Tradição do o ónus da investigação para a arqueologia.
Polieròniica, localiza-se na mariíem oriental da Mais importante que a questão da origem
Amazónia, e sua elaborada arte é, em termos dos cacicados amazônicos, há o problema da
de origem geográliea, indiscuti\elmente ania- natureza de sua organização. As sociedades
zònica e não das áreas montanhosas. A julgar amazônicas parecem ser, em termos da exten-
pelos estilos de horizonte e pelo comércio in- são dos domínios do chefe e do tamanho dos
tensixo, os cacicados amazônicos empreende- assentamentos, comparáveis a muitos cacica-
ram contatos de longa distância, mas a exten- dos estratificados ou pequenos estados pré-
são dos primeiros cacicados parece ter se li- históricos, anteriores ou imediatamente pos-
mitado às terras baixas tropicais do norte e do teriores ao advento da escrita. Os territórios
sul. Os cacicados do pré-histórico tardio, do de alguns dos estilos de horizonte amazônicos
Horizonte Inciso Ponteado, como o de Santa- são comparáveis aos de muitas outras socie-
rém, possuem relação estilística com a região dades que foram classificadas como estados,
do Orenoco e a região caribenha da Colôm- tais como a civilização do \'ale do Indus, as ci-

bia e da Venezuela, mas não está claro, devi- vilizações minóica e micênica e os estados afri-
do à carência de cronologias detalhadas, qual canos do período anterior à escrita, como
destas áreas era a doadora. Ashanti e Benim. Certamente, alguns dos sí-

Como do período
os dados arqueológicos tios de ocupação e sistemas de terraplenagem
mais antigo da ocupação pré-histórica antes do dos cacicados amazônicos são mais extensos
advento da era cristã não parecem ser igual- do que os de muitos estados arqueológicos, e
mente substanciais e complexos e não apre- muitos dos sítios das terras baixas parecem ter
sentam os estilos de horizonte autênticos, as- sido tão grandes, tão densamente habitados e
sentamentos e obras de terraplenagem subs- funcionalmente tão complexos quanto os cen-
tanciais, complexos de urnas funerárias e tros urbanos arqueológicos em outros lugares.
artesanato elaborado, parece que as socieda- Apesar de se ter acreditado durante muito
des complexas eram, a exemplo da América tempo que nem cidades nem estados ti\essem
do Norte, raras na .\mazónia até pouco antes se desenvolvido no Amazonas e no Orenoca
do advento da era cristã. Estudos cronológi- em contraste com os Andes e a Mesoamérica,
cos e prospecções regionais dos assentamen- este desenvolvimento pode ter ocorrido mas
tos tornam-se, assim, prioridade máxima das não ter sido reconhecido de\ ido à naturezii de
futuras investigações, necessárias para o for- suas evidências, com a ausência de templos de
necimento de evidências da história dos pa- pedra e\ identes cjue atnussem a atenção. Se
drões arqueológicos que são atribuídos aos ca- os assentamentos, o uso da terra e a organiza-
cicados pré-históricos. ção destes domínios são característicos ou não
O surgimento dos cacicados pré-históricos daquilo que os antropólogos consideram co-
do Horizonte Inciso Ponteado corresponde, mo sociedade urbana e estado é uma questão
em certas áreas, à difusão do cultivo do milho impossível de responder até que suas carac-
nas terras baixas. Porém, não está clara a ma- terísticas possam ser in\estigadiis sistematica-
neira pela qual a mudança económica está re- mente. A aplicabilidade de diferentes nuxie-
lacionada ao desenvolvimento dos cacicados. los teóricos do surgimento da sociedade com-
A compreensão da evolução da sociedade plexa pode ser testada arqueologicamente na
complexa na Amazónia complica-se pela de- Amazónia, mas, piua tanta será necessária a
sintegração dos cacicados nativos no século coleta e a análise de dados especi;ilizados.
XVII. Os sobreviventes retiraram-se para o in-
terior eformaram sociedades de aldeias inde- CONCLUSÕES
pendentes. Muitos aspectos de seus estilos de
vida parecem um retorno a padrões que ante-
A PESQllS.V Fl Tl KA
cedem o surgimento dos cacicados, tais como A história dos pmos das terras baixas tivpicais
a subsistência baseada em plantas amidoadas da Ama/.ònia c nuiito mal diKnnnentada. (.)
e proteína animal e os estilos artísticos prin- pouco que SC sabe sugere a existência de uma
cipalmente zoomórficos. Ksta descontinuida- longa e complexa seqiiència de ivuiviçàiv n\,is,

de cria problemas para a etnografia eminanto apesar da importância dos tropicv>s na lnsti>-
\KguEOLOGiA ama'/onic:a 83

ria da adaptação humana, os detalhes das in-

terações ecológicas e sociais das populações


humanas pré-históricas são completamente
desconhecidos. Com vistas a responder as
questões mais prementes sobre a trajetória das
terras baixas, necessitamos de uma nova estra-
tégia de pesquisa, pois os escassos e disper-
sos dados disponíveis atualmente são inade-
quados para a tarefa. Os antropólogos identi-
ficaram algumas questões significativas sobre
a ocupação humana pré-histórica da Amazó-
nia. As questões mais óbvias relacionam-se às

origens destas sociedades, suas histórias e a na-


tureza de seus sistemas sócio-econômicos, po-
líticos, rituais e ideológicos. Porém, nenhum
destes aspectos foi até o momento investiga-
do sistematicamente com dados arqueológicos,
apesar de existirem numerosos sítios de ocu-
pação pré-histórica bem preservados. Com o
objetivo de compreender melhor as socieda-
des antigas, precisamos considerar quais tipos
de dados específicos são necessários para ava-
liar as teorias. Além disso, para entender as

semelhanças e diferenças das sociedades ama-


zônicas em relação a outras, é importante in-
cluir em nossas pesquisas categorias e medi-
das que permitam a comparação através do
tempo e do espaço, em escala global.
As sociedades amazônicas pré-históricas
compõem um significativo corpo de evidên-
cias para a teoria antropológica, na medida em
que elas parecem contradizer as teorias am-
bientais correntes sobre a natureza do desen-
volvimento cultural indígena nas terras baixas
tropicais. O rápido desenvolvimento dos tró-
picos da América do Sul ameaça destruir es-
tas evidências antes que elas possam ser estu- sárias para a definição das cronologias, das Em cima:
Crânio pré-histórico
dadas. Existe, assim, certa urgência para a in- áreas de atividade e das estruturas internas aos
tardio com forte
vestigação dos recursos de uma
a partir sítios e para coletar restos biológicos e de ar- perda dentária
abordagem compreensiva, rápida e económi- tefatos num contexto comportamental. A aná- e reabsorção
alveolar
ca para a coleta e análise dos dados. Para in- lise dos objetos precisa ser ampliada para in-
Encontrado
vestigar estas sociedades em
termos compa- cluir aspectos microcronológicos, técnicos, nas proximidades
rativos, necessitamos desenvolver estratégias químicos, funcionais e iconográficos dos arte- de Manaus.
Embaixo:
de pesquisa mais adequadas do que as pros- fatos, como também íispectos ecológicos e eco- Calavarium
pecções informais, as escavações experimen- nómicos da flora e da fauna e, finalmente, as- indígena do
século XIX com
tais e as análises tipológicas das variedades de pectos demográficos, fisiológicos e genéticos
grande lesào
cerâmicas tradicionalmente empregadas nas dos conjuntos de esqueletos humanos. de l-liperosteosis
terras baixas. Os assentamentos regionais e os Muitas técnicas práticas foram desenvoK i- porotica. uma
sistemas de uso da terra terão (jue ser siste-
patologia com
das desde cerca de 1950 para coletar informa-
desordens
maticamente investigados, e os sítios e estru- ções detalhadas sobre as características cultu- anêmicas
turas individuais, intensivamente mapeados e rais e biológicas dos povos pré-históricos. Por generalizadas.
Encontrado
testados por amostragem. Prospecções deta- meio das prospecções geofísicas, as estruturas nas proximidades
lhadas e escavações estratigráficas são neces- e áreas de ati\ idade podem ser rapidainenle de Belém.
S4 msroiuv nos imíU)s no iíuvsii.

inapoadas, do tonna econòniita o não destrii- numerosos artefatos e restos biológicos pré-
ti\a, torneceiuU) intonnações substanciais so- históricos. Nossas investigações nos sítios, ar-

bre a composição dos sítios (Lyons e Scovill, (juivos e coleções sistematizadas demonstram
1978; Morain e Bndjíe, 1978; Roose\elt, 1991a; que estes restos estão preserx ados na maioria
Wynn, org., 1986). Esca\ayões estratigráficas dos sítios de toda a Amazónia. Antigos esque-
re\ elani a natureza das sequências, atividades letos amazônicos, restos animais e de plantas
e estruturas por meio do resgate de objetos na- estão preservados em grandes quantidades e
turais e culturais em contextos deposicionais podem ser analisados por métodos osteológi-
e comportamentais (Roosexelt, 1991a e b). A cos, arqueobotânicos e zooarqueológicos con-
coleta de amostras do solo e sua análise reve- vencionais (Garson, 1980; Roosevelt, 1980,
lam a natureza dos depósitos (Eidt, 1984). As 1984, 1989a e b, 1991a; Greene, 1986; Smith
técnicas de peneiramento de grandes quantias e Roosevelt, s. d.; Van der Merwe et alii. 1981;
de solo e a conservação dos objetos podem re- Wing et alii, s. d.). Além disso, em decorrên-
cuperar numerosos artefatos, ossos e restos de cia da extrema sazonalidade da maior parte das
plantas pré-históricos (Pearsall, 1989; Roose- várzeas amazônicas, numerosos organismos
velt, 1984; Wing e Brown, 1979) — dados bá- apresentam anéis anuais que podem ser usa-
sicos para as reconstruções luniiano-ecológicas dos para o estabelecimento de cronologias ar-
e sócio-políticas. A espectrometria de massa queológicas assim como para reconstruções
acelerada permite a datação direta de objetos paleoambientais (por exemplo, Worbes, 1985;
significati\os ao reduzir a quantidade de ma- Worbes e Leuschner, 1986). Os sítios arqueo-
terial orgânico necessário para a análise (Hed- lógicos não só são numerosos como freqiien-
ges e Gowlett, 1986). A análise osteológica de temente de grandes proporções, apresentan-
esqueletos humanos (Cohen e Armelagos, do problemas para a prospecção da superfí-
1984) produz dados detalhados sobre carac- cie mediante métodos convencionais, porém
terísticas demográficas, fisiológicas e genéti- dispõe-se para esta exploração dos métodos
cas das antigas populações. Comparações en- geofísicos de sensoriamento remoto. Apesiir da
tre padrões culturais de enterramentos generalizada existência de opiniões contnírias.
(Brown, org., 1971) produzem informações so- não se conhece nenhum impedimento para a
bre a natureza das diferenciações socio- utilização do sensoriamento remoto ou do mé-
económicas. A química isotópica de ossos an- todo geofísico nas terras baixas, e eles têm se
tigos humanos e animais oferece informações mostrado altamente eficiízes na prospecção de
quantitativas sobre a dieta e o meio ambiente sítios arqueológicos tropicais (.\l\es e Louren-
(Price, org., 1989; Van der Merwe et alii, 1981; ço, 1981; Be\an. 1986; Roosexelt. 19S9K 1990b.
Wing e Brown, 1979), e as adaptações ambien- 1991a). Os futuros trabiilhos iuqueológicos que
tais da flora e da fauna antigas produzem va- explorarem algumas destas técnicas certiunen-
liosas informações cronológicas e ecológicas. te tornar-se-ão extremamente frutíferos em
As várias análises não são muito dispendiosas termos da produção de informações sobre a
nem muito demoradas quando se considera a Amazónia pré-histórica.
grande quantidade de informação detalhada
que elas podem oferecer. SIGNIFICADO DA
Até o momento poucas destas técnicas fo-
PRÉ-HISTÓRIA AMAZÒMCA
ram aplicadas extensivamente na Amazónia. A região amazònica pode produzir significati-

Tradicionalmente, a arqueologia da Amazónia \as informações arciueológicas sobre a histó-


tem sido voltada para a recuperação de cerâ- ria dos poxos e culturas indígenas. Seus restos
micas com vistas a estabelecer comparações arcjueológicos abundantes e bem pi-esen^vidos
estilísticas regionais. Outros restos não são pro- representam uma longa e ino\ adora trajetoria
curados porque acredita-se que o clima teria de deseuNoK imento indígena: dos primeitvs
destruído restos orgânicos e estratigráficos, e caçadores-coletoivs nómades a coletoivs mais
porque o modo de vida da "floresta tropical" stHlcntários, à produção de cerâmica, à agri-

é visto como muito simples para ter deixado cultura e ao sui^gimeuto de sociedades com-
restos estruturais substanciais. Todavia, exis- plexas. Seus sambaquis são os mais antigos sí-
tem abundantes padrões estratigráficos e es- tios da idade cerâmica ja descobertos nas
truturais nos sítios pré-históricos. assim como Américas, e iilguns dos seus centivs do pix^
ARQUEOLOGIA AMAZONICA

histórico tardio, com grandes obras de terra- século XX a existência de sambaquis do perío-
plenagem, estão entre os maiores do Novo do Arcaico na ilha de Marajó, apesar de estes
Mundo. Antigos restos biológicos estão preser- serem citados em pelo menos duas fontes mais
vados na maioria dos sítios e contêm impor- antigas (Penna, 1876; Monteiro de Noronha,
tantes informações económicas e ecológicas. 1862). Além disso, alguns trabalhos realizados
A padronização e distribuição das estruturas, por arqueólogos ou etnólogos amadores con-
instalações e sepulturas e a abundante e so- têm importantes informações arqueológicas
fisticada cerâmica pré-histórica revelam pa- não encontradas nos trabalhos de arqueólogos
drões pré-históricos de economia, demogra- profissionais. Por exemplo, o primeiro sítio ce-

fia, ideologia e organização. râmico de Taperinha foi descrito em fontes do


O fato de a Amazónia ainda ser ocupada por século XIX (Hartt 1885; Penna 1876; Smitli
numerosos povos indígenas enriquece as pos- 1879), mas neste século só foi mencionado em
sibilidades de interpretação antropológica. O publicações por um arqueólogo amador (Pal-

reconhecimento das com ulsi\as mudanças nos matery, 1960). O que parece ter acontecido é
modos de vida indígenas ocorridas na época que os pontos de vista fortemente teóricos e
da conquista europeia oferece à arqueologia cientificistas dos arqueólogos de meados do sé-

histórica e à etnoarqueologia um potencial culo -XX restringiram severamente sua sensi-


único para a produção de informações causais bilidade às fontes.
de alcance geral, inclusive fora da Amazónia. A maior parte da literatura atual sobre a ar-
Devido à disponibilidade de informações so- queologia amazônica carece do tipo de infor-
bre as populações e culturas indígenas da pré- mação necessária para a interpretação segura
história ao período etnográfico, aAmazónia dos achados. Por exemplo, muito poucas obras
pode tornar-se um laboratório para a com- expõem os métodos de escavação e peneira-
preensão das causas da mudança na história mento do solo que foram utilizados pelos ar-
humana. queólogos. E muito poucas obras incluem se-
O que os trabalhos recentes estão desco- quer esboços ou plantas estratigráficas, e as
brindo na Amazónia coloca em dúvida algu- unidades e camadas nas quais o material foi
mas interpretações aceitas sobre o desenvol- coletado raramente são relacionadas à estra-
vimento cultural indígena no Novo Mundo. O tigrafia. Ambos os tipos de informação são ab-
que nós podemos descobrir sobre a evolução solutamente necessários para a interpretação
da sociedade na Amazónia pode ter importan- dos achados.
tes implicações para nossa compreensão do Ademais, a maior parte das evidências ar-
processo em outras partes do mundo. O regis- queológicas recuperadas nos sítios amazôni-
tro arqueológico da ocupação pré-histórica da cos não é divulgada, permanecendo nas cole-
Amazónia possui, igualmente, relevância fora ções de museus. A documentação referente ao
do campo da antropologia, uma vez que esta contexto do material e a associação deste com
exemplifica uma bem-sucedida adaptação de outros artefatos, quando preservada, jaz nos ar-
longa duração dos povos indígenas ao ambien- quivos fotográficos e documentais dos museus.
te tropical, cuja evolução e duradoura estabi- As principais coleções de materiais sobre a
lidade é de grande interesse geral. Amazónia encontram-se nos seguintes mu-
seus: Museu Nacional de Antropologia e Ar-
FONTES queologia de Lima, Museu Nacional do Rio de
Embora e.xtensa, a bibliografia referente à ar- Janeiro, Museu de Etnologia e .\rqueologia da
queologia amazônica é fragmentada e de qua- Universidade de São Paulo, Museu Paulista,
lidade desigual. Em sua maioria, os arqueólo- Museu Paraense Emílio Goeldi, Museu Wal-
gos profissionais têm ignorado as fontes dos sé- ther Roth, Nhiseu do índio .\mericano, em No-
culos W III e .\I.\ pois, segutido eles, estas va York, Museu .\mericano de História Natu-
seriam representativas de registros e pesqui- ral, em Nova York, Museu Peabody de Histó-
sas realizados de maneira não científica e as- ria Natural,na l'niversidade de Yale em New
sistemática. Entretanto, muitos dos trabalhos Haven, Museu Peabody de .Vrqueologia e Et-
antigos contêm importantes informações au- nologia da Universidade de Harvard, Museu
sentes nas fontes mais modernas. Por exem- do Homem, em Paris, e Museu Etnográfico de
plo, não foi mencionada em nenhuma fonte do (Gotemburgo, na Suécia. Os maiores arcjuivos
S6 msTOixiv nos índios \o bk\sii

encontram-so nestes museus, e existem ainda publicadas, pro\enientes de sítios da Amazó-


diversos arqui\os especializados, como os Ar- nia.Algumas coleções se perderam, como aque-
quivos de Antropologia da Instituição Smith- la composta de fotografias em chapas de \idro

sonian em Washiniíton, os (juais contêm gran- da Comissão Geológica Imperial, comandada,


de número de datações radiocarbônicas não na década de 1870, por C. Frederick Hartt.

Revisão técnica:
Maranca e
Sílvia
Wladimir Araújo