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TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/sg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0207196-62.2008.8.26.0000 e código RI000000EI9IC.
Registro: 2012.0000602356

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos do Apelação nº 0207196-


62.2008.8.26.0000, da Comarca de Guarulhos, em que é apelante PREFEITURA
MUNICIPAL DE GUARULHOS, é apelado APLICON EMPREENDIMENTOS
IMOBILIARIOS LTDA.

ACORDAM, em 15ª Câmara de Direito Público do Tribunal de


Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Conheceram do recurso e deram

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provimento. V.U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este
acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores


ERBETTA FILHO (Presidente sem voto), SILVA RUSSO E RODRIGUES DE
AGUIAR.

São Paulo, 27 de setembro de 2012

KENARIK BOUJIKIAN
RELATORA
Assinatura Eletrônica
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Apelação nº: 0207196-62.2008.8.26.0000
Apelante: Município de Guarulhos
Apelada: Aplicon Empreendimentos Imobiliários Ltda.
Comarca: Guarulhos
Juíza de Direito: Marcelo Tsuno

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VOTO Nº 428

EMENTA: Apelação. Ação declaratória de inexistência de


relação jurídica Tributária. Progressividade de IPTU. Lei
municipal posterior à EC 29/2000.
São constitucionais as alíquotas progressivas fixadas
posteriormente do advento da EC 29/2000. Jurisprudência
do Supremo Tribunal Federal.
A EC 29/2000 atende os princípios constitucionais da
capacidade contributiva e isonomia.
Recurso provido.

Vistos.

Trata-se de Apelação (172/186) interposta


pelo Município de Guarulhos contra sentença (162/165) que
julgou procedente ação declaratória de inexistência de relação
jurídica tributária, por considerar inconstitucional a
progressividade estabelecida pela lei municipal 5.753/01.

Sustenta o apelante que atende o princípio


da igualdade o tratamento diferenciado entre desiguais, em

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razão das diferenças de pessoas, atividades ou bens. Nesse

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sentido, a Emenda Constitucional nº 29 de 2000 admitiu a
progressividade fiscal, em razão do valor do imóvel, para o IPTU.
Aduz, ainda, que a distinção entre impostos reais e pessoais é
equivocada, pois todo tributo é pessoal e real, por sempre atingir
um sujeito de direito e um patrimônio. Por fim, acrescenta que a
progressividade fiscal do IPTU é, antes que uma faculdade, um

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dever do legislador municipal, corolário do princípio da isonomia
e da capacidade contributiva.

Foram apresentadas contrarrazões às fls.


206/214, nas quais a apelada aduziu o acerto da sentença,
salientando que: é entendimento do Supremo Tribunal Federal
que, diante da natureza real do IPTU, a Constituição Federal de
1988 somente admitiu a progressividade extrafiscal. Alega,
ainda, que a emenda 29/2000, por afrontar o princípio da
capacidade contributiva, é inconstitucional. Por fim, assevera
que, mesmo se considerando constitucional a emenda, não há
prévia aprovação do Plano Diretor, nem foram obedecidos os
critérios de uso e localização para a cobrança na forma
progressiva.

É o relatório.

O inconformismo da Municipalidade merece


prosperar.

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Inicialmente, não se discute a

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progressividade, de acordo com o critério do valor venal do
imóvel, instituída pela lei nº 5.753/2001, que deu nova redação
ao Código Tributário Municipal, a saber:

Artigo 15- O imposto será calculado com base no


valor venal do imóvel, à razão de:
I- 0,2%, relativamente a imóvel contendo prédio
residencial, independentemente de sua localização.

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II- 0,3%, relativamente a imóvel cuja área, superior a
300m2, contendo prédio residência, exceder a 5
vezes a área edificada e que estiver situado em local
que contar com mais de 2 melhoramentos
mencionados no artigo 9º ou 10 vezes a área
edificada, quando situado em local com até 2 dos
citados melhoramentos.
III- 1,2%, relativamente a imóvel contendo prédio
comercial e/ou industrial, independentemente de sua
localização.
IV- 3%, relativamente a imóveis não edificados,
situados em local que contar com todos os
melhoramentos mencionados no artigo 9º.
V- 1,5%, relativamente aos imóveis não edificados
situados em local que contar com até 4 dos
melhoramentos mencionados no artigo 9º e
VI- 0,75%, relativamente aos sítios de recreio.

Todavia, tem-se que a legislação municipal


aludida foi promulgada em 2001, sendo, portanto, posterior ao
advento da Emenda Constitucional 29 do ano de 2000, a qual
alterou a redação do artigo 156, §1º, da Constituição Federal,
passando a admitir a progressividade fiscal do IPTU.

De acordo com o que ficou estabelecido, a


progressividade pode-se dar em razão do valor venal do imóvel e
com a adoção de alíquotas diferenciadas, de acordo com a

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localização do imóvel e seu uso, tudo sem prejuízo da

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progressividade no tempo para os imóveis urbanos, que não
cumprirem sua função social.

Assim, consolidou-se o entendimento de


que são constitucionais, no âmbito da progressividade fiscal do
IPTU, as alíquotas instituídas por lei posterior à promulgação da

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EC 29/00.

Nesse sentido, têm-se os seguintes julgados


do Supremo Tribunal Federal: RE 586.693/SP, RE 466.400
AgR/RS e RE 568.947 AgR/SC, dentre outros:

IMPOSTO PREDIAL E TERRITORIAL URBANO


PROGRESSIVIDADE FUNÇÃO SOCIAL DA
PROPRIEDADE EMENDA CONSTITUCIONAL Nº
29/2000 LEI POSTERIOR. Surge legítima, sob o
ângulo constitucional, lei a prever alíquotas diversas
presentes imóveis residenciais e comerciais, uma
vez editada após a Emenda Constitucional nº
29/2000. (STF Pleno, RE 423.768/SP Rel. Min.
Marco Aurélio, 10/5/2011)

Imperioso acrescentar, ainda, que, a alteração


promovida pela Lei Complementar Municipal
434/2003 de Blumenau traz apenas previsão da
progressividade para o imposto, situação que só é
alcançada com a aplicação do sistema de alíquotas
progressivas estabelecido em leis municipais
anteriores.
Destarte, sendo inconstitucional a tabela de alíquotas
progressivas da lei anterior à EC nº 29/2000, e não
havendo outra tabela de alíquotas progressivas
válida, editada por lei posterior à Emenda, nos
termos da jurisprudência desta Corte, deve ser
aplicada ao caso concreto a menor alíquota de IPTU

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prevista em lei à época da exação fiscal

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respectiva.”(STF, RE 548.020, Rel. Min. Dias Toffoli,
15/06/11)

Antes da edição da aludida emenda, era


realmente vedado à lei municipal estabelecer alíquotas
progressivas, salvo se destinada a assegurar o cumprimento da
função social da propriedade. É o que se depreende do

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enunciado 668 da Súmula do STF, aprovado em 24/09/2003,
conforme segue:

É inconstitucional a lei municipal que tenha


estabelecido, antes da Emenda Constitucional
29/2000, alíquotas progressivas para o IPTU, salvo
se destinada a assegurar o cumprimento da função
social da propriedade urbana.

No caso dos autos, é plenamente exigível a


cobrança do IPTU progressivo, visto que fundamentado em lei
cuja edição ocorreu em 2001, após a promulgação da Emenda
Constitucional nº 29 de 2000.

Vale destacar que o Órgão Constitucional


deste Egrégio Tribunal de Justiça, por votação unânime,
entendeu pela constitucionalidade da EC 29/00, reconhecendo a
inexistência de qualquer violação aos princípios constitucionais
da isonomia e da capacidade contributiva. Confira-se:

Incidente de inconstitucionalidade - Lei 13.250/2001,


do Município de São Paulo, que estabeleceu
progressividade das alíquotas do IPTU de 2002,
tomando como base o valor do imóvel Mandado de

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segurança concedido pela segunda instância para

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declarar inconstitucional a Emenda Constitucional n°
29/2000 que instituiu a progressividade fiscal do
IPTU Incidente de inconstitucional idade suscitado,
sob alegação de que referida EC viola os princípios
constitucionais da isonomia e capacidade
contributiva A EC 29/2001, ao contrário do
alegado, atende ao princípio de tratamento
isonômico dos contribuintes que se desigualam, e o
valor venal do imóvel pode ser tomado como critério
razoável para demonstração de capacidade
econômica do contribuinte Entendimento de boa

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parte dos doutrinadores e do STF a respeito
Incidente julgado improcedente.(Incidente de
inconstitucionalidade de lei nº 149.510-0/5-00, órgão
especial, Rel Des. Walter de Almeida Guilherme, j.
14.11.2007).

Quanto ao atendimento aos princípios da


capacidade contributiva e igualdade, destaca o acórdão que:
“Aplicando-se o princípio da capacidade contributiva, se põe de
acordo com a Constituição tratar desigualmente - porque aí sim
observado o princípio da isonomia - os desiguais, isto é,
proprietários com maior ou menor capacidade econômica. E, é
pensamento que deriva da lógica das coisas, amparado pelo
bom senso, que o valor venal (para todos os efeitos o valor real)
do imóvel pode ser tomado como critério para perscrutar a
capacidade contributiva, salvo, é claro, poucas exceções que,
como tal, não empanam a regra e podem conduzir a tratamento
diferente”.

Portanto, o lançamento tributário do


exercício de 2003 é válido, pois se funda em lei posterior à
Emenda Constitucional 29/2000, a qual, como visto, está em

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ônus da sucumbência.

Relatora
Kenarik Boujikian
conformidade com a Constituição Federal.
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recurso interposto pelo Município de Guarulhos, invertendo-se o
Isto posto, conheço e dou provimento ao
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