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Sumário

Editorial..................................................................................................................................... 3

Maconha: aspectos de uma construção facetada do chamado “ópio do pobre” e as vítimas


preferenciais das políticas criminais beligerantes
Laís Rosatti................................................................................................................................ 7

Choque de ordens: drogas, dinheiro e regimes normativos em São Paulo


Gabriel de Santis Feltran .......................................................................................................... 25

A política de enfrentamento como produtora de dano: a epidemia de crack no contexto


da saúde pública contemporânea
Isabela Bentes ......................................................................................................................... 41

Crack – entre deslocamentos, territorializações e resistências: uma caça às bruxas


contemporânea
Laís Rosatti.............................................................................................................................. 48

Em busca da luz: a encruzilhada entre a fé e as drogas na Cracolândia de São Paulo


Marcos Antonio de Moraes (Montanha), Carlos “Comunidade”, Roberta Marcondes Costa,
Thiago Godoi Calil, Marcelo Ryngelblum, Glauber Castro, Raonna Caroline Ronchi Martins ............. 69

Exposição e invisibilidade: as narrativas de usos e controles de drogas consideradas ilícitas


Selma Lima da Silva, Rubens de Camargo Ferreira Adorno .......................................................... 83

CAPSad como espaço de resistência, cuidado e afirmação da vida


Elza Cândido de Farias ........................................................................................................... 101

“Diálogos na Luz”: uma intervenção psicológica a partir da clínica ampliada e da gestão


do cuidado em saúde na “Cracolândia”
José Tiago Cardoso, Flávia de Lima Cunha, Milena Vieira Silva, Milena Castilho Miyamoto,
Rosemary da Silva Queiroz ...................................................................................................... 114

Internação compulsória como opção de tratamento a dependentes de crack


Amanda Menon Pelissoni, Danuta Medeiros, Mayra Cecilia Dellu, Regina Figueiredo,
Soraya Souza Cruz Ferreira, Wendry Maria Paixão Pereira, Fernando Lefèvre,
Ana Maria Cavalcanti Lefèvre .................................................................................................. 129

Inclusão de familiares de pessoas com necessidades decorrentes do consumo de


álcool e outras drogas na atenção em saúde
Helton Alves de Lima, Isabel Bernardes Ferreira ....................................................................... 141
A arte utilizada na atenção de adolescentes em situação de vulnerabilidade social
e uso abusivo de drogas
Jéssica Magalhães Tor ............................................................................................................ 151

Projeto “Um Brinde à Saúde!” - promoção, discussão e criação publicitárias de peças


de incentivo ao consumo consciente do álcool
Regina Figueiredo, Marta McBritton, Elisa Codonho Premazzi, Claudia Reggiane,
Adriana Navarro Nabeiro, Regiane Garcia ................................................................................. 163
Editorial

E
sta edição do Boletim do Instituto de Saúde proibicionismo” e essa edição especial da revista
(BIS) contém artigos que discutem a ques- Bis, que apresenta investigações recentes que
tão das drogas com abordagens que ultra- têm como pressuposto a abordagem antiproibi-
passam o modelo proibicionista de combate às cionista e de redução de danos.
drogas e à lógica do Estado mínimo, que produ- Os artigos apresentam uma abordagem
zem efeitos nefastos nas políticas de saúde e re- multidisciplinar com uma abrangência social,
fletem na saúde física e mental dos seres huma- política, pedagógica, psicológica, priorizando as
nos. São discussões que possibilitam que se ul- questões das políticas de saúde, em seus con-
trapasse a linha tênue entre a justiça e a saúde, teúdos: os contextos históricos de construção
possibilitando a percepção dos indivíduos como da política de proibição das drogas no Brasil,
sujeitos, que produzem afetos, que têm desejos com o caso da maconha, demonstrando a inten-
e que podem, com seus saberes, contribuir para ção de incriminar práticas de populações mar-
a construção de outras formas de fazer políticas ginalizadas (negros e pobres) em contraposição
de saúde; ou seja, que vejam o indivíduo em sua à liberação das drogas das elites, discutida por
integralidade, seu contexto e história. Lais Rosatti; o mercado de drogas “por dentro”,
Em 2015, o Instituto de Saúde, como mem- sua questão monetária e moral, a partir de uma
bro do Grupo de Estudos Drogas e Sociedade (GE- perspectiva etnográfica exposta por Gabriel Fel-
DS), promoveu o curso “Perspectivas para Além tran; as tentativas de desterritorizalização e as
do Proibicionismo: drogas & sociedade contempo- resistências que se dão na caça aos usuários
rânea”, em parceria com a Faculdade de Saúde de crack, expostas por Isabela Bentes; as terri-
Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), torizalizações discutidas pelo ponto de vista da
da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estu- Bioética, apresentada por Laís Rosatti; a ques-
dos sobre Drogas (ABRAMD), da Rede Brasileira tão da religiosidade e da espiritualidade das
de Redução de Danos e Direitos Humanos (RE- pessoas que usam drogas verificada nos “flu-
DUC), da Associação Brasileira de Estudos So- xos” de crack, observados por Carlos Montanha
ciais do Uso de Psicoativos (ABESUP), do Centro e colegas; outras formas de uso e controle de
Brasileiro de Informações sobre Drogas Psico- drogas, como o crack, apresentadas por Selma
trópicas da Universidade Federal de São Paulo L. Silva e Rubens Adorno; o modelo de assis-
(CEBRID/UNIFESP), da Plataforma Brasileira de tência à saúde enquanto espaços de afirmação
Política de Drogas (PBPD) e do Conselho Regio- da vida proposto pelos CAPS-ad, discutido por
nal de Psicologia de São Paulo (CRP-SP). Des- Elza Farias; a experiência de utilização de está-
te curso, resultaram o livro “Drogas & Socieda- gios de clínica ampliada de Psicologia nos es-
de Contemporânea: perspectivas para além do paços de “Cracolândia”, relatada por José Tiago

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Cardoso e colegas; a percepção de estudantes estigmatizantes de seus usuários, que deslocam
de Saúde Pública sobre a internação compulsó- a questão de saúde para uma questão penal.
ria como opção de tratamento aos usuários de Tudo isso é saúde! ou a falta de saúde: as
crack, analisados por Amanda Pelissoni e co- condições em que os sujeitos vivem ou sobrevi-
legas; os efeitos do crack sobre o desenvolvi- vem; as formas em que as políticas públicas in-
mento gestacional, pesquisado por Alessandra cidem sobre a população – principalmente a vul-
Timóteo e colegas; a importância da inclusão nerabilizada –, aspectos que deveriam edificar as
de familiares na atenção em saúde dos usuá- políticas de saúde.
rios de álcool e outras drogas, salientada por Abordar o tema das drogas e saúde, por-
Helton Lima e Isabel Ferreira; a utilização da tanto, exige a construção de uma visão crítica do
arte na atenção a adolescentes em situação de “quadro” vigente composto por vários “cenários”.
vulnerabilidade e uso abusivo de drogas, feita “Quadro”, frente aos quais podemos elaborar es-
por Jéssica Tor; e, ainda, a experiência de pre- tratégias e perspectivas de cuidado social e de
venção ao abuso de álcool e de seus impactos saúde, questionar modelos vigentes e realizar
na prevenção sexual, promovida pelo Instituto intercâmbio de saberes e articulações, visando
Cultural Barong, abordado por Regina Figueire- projetar um novo “quadro” que integre as pesso-
do, Marta McBritton e colegas. as como sujeitos, com estratégias de vida ampa-
Assim, esta publicação também procura con- radas por políticas públicas de promoção ao bem
tribuir para a reflexão e análise crítica das políti- social, à plena cidadania e à saúde.
cas de saúde sob um enfoque que vai além dos
atuais discursos de proibição dessas substân- Regina Figueiredo
cias e seus efeitos e das abordagens punitivas e Marisa Feffemann

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo Boletim do Instituto de Saúde – BIS


Rua Santo Antonio, 590 – Bela Vista Volume 18 – No 1 – Julho 2017
São Paulo, SP – CEP: 01314-000 ISSN 1518-1812 / On Line 1809-7529
Tel: (11) 3116-8500 / Fax: (11) 3105-2772 Publicação semestral do Instituto de Saúde
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Portal de Revistas da SES-SP – http:wwwp:/periódicos.ses.sp.bvs.br
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Tereza Setsuko Toma
Administração
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Márcio Derbli
Capa
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Bianca de Mattos Santos Foto – Paulo Diego de Almeida Souza (Risada)
Ilustrações
Paulo Diego de Almeida Souza (Risada)
Revisão
Regina Figueiredo
Diagramação
Fatima Regina S. Lima
Editoração, CTP, Impressão e Acabamento
Imprensa Oficial do Estado S/A – IMESP

Conselho editorial
Alberto Pellegrini Filho – Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz) – Rio de Janeiro-RJ – Brasil
Alexandre Kalache – The New York Academy of Medicine – Nova York – EUA
Camila Garcia Tosetti Pejão – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Carlos Tato Cortizo – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Ernesto Báscolo - Instituto de la Salud Juan Lazarte – Universidad Nacional de Rosario – Rosario – Argentina
Fernando Szklo – Instituto Ciência Hoje (ICH) – Rio de Janeiro-RJ – Brasil
Francisco de Assis Accurcio – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – Belo Horizonte-MG – Brasil
Ingo Sarlet – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) – Porto Alegre-RS – Brasil
José da Rocha Carvalheiro – Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – Rio de Janeiro-RJ – Brasil
Katia Cibelle Machado Pirotta – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Ligia Rivero Lupo – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Luiza S. Heimann – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Márcio Derbli – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Marco Meneguzzo – Università di Roma Tor Vergata – Roma – Itália
Maria Beatriz Miranda de Matias – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Maria Lúcia Magalhães Bosi – Universidade Federal do Ceará (UFC) – Fortaleza-CE – Brasil
Monique Borba Cerqueira – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Nelson Rodrigues dos Santos – Universidade de São Paulo (USP) – São Paulo-SP – Brasil
Raul Borges Guimarães – Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Presidente Prudente-SP – Brasil
Samuel Antenor – Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo – Unicamp – Campinas-SP – Brasil
Sílvia Regina Dias Médici Saldiva – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Sonia I. Venancio – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil
Tereza Setsuko Toma – Instituto de Saúde (IS) – São Paulo-SP – Brasil

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Maconha: aspectos de uma construção facetada do


chamado “ópio do pobre” e as vítimas preferenciais
das políticas criminais beligerantes
Marijuana: aspects of a faceted construction of the called “opium of the poor”
and the favoured victims of the belligerent criminal policie

Laís RosattiI

Resumo Abstract

Desde tempos imemoriais, o homem buscou estímulos capazes de Since immemorial times, Man looked for stimuli that were able to
alterar seu estado de consciência. Em diversos momentos histó- change his state of consciousness. In various historical moments,
ricos, a maconha assumiu um papel fundamental que reafirmou a the marijuana took a fundamental role that reaffirmed the culture
cultura e a identidade de muitas sociedades. No Brasil, a partir do and identity of many societies. In Brazil, since the moment new
momento em que se suscitou uma moralidade nova em detrimen- morality was sustained in detriment of the one already establi-
to de uma já estabelecida, aclamou-se um inimigo interno que foi shed, it was acclaimed one internal enemy that was submitted to
submetido a manifestações de controle e que construiu no imagi- manifestations of control, and that built in the social imaginary a
nário social um pretexto de contenção da violência para categorias pretext of violence contention for very specific social categories,
sociais muito específicas, criadas a partir de manobras escravis- created from arbitrary averist manouvers. The present article ai-
tas arbitrárias. O presente artigo visa expor uma análise sobre ms to expose an analysis about the selective interventions of the
as intervenções seletivas do Estado que marginalizam usuários e State that marginalizes the drug addicted and small drug dealers;
pequenos traficantes; bem como as soluções penais imediatas de as well as immediate penal solutions of a State of exception that
um Estado de exceção que se convertem no gatilho do arsenal cri- are converted in the trigger of the State’s criminal arsenal, mainly
minoso do Estado, voltando-se, sobretudo, às populações negras, targetting the black, poor and peripheric populations of the big
pobres e periféricas das grandes metrópoles brasileiras. Brazilian metropolis.

Palavras-chave: Maconha; Estereótipo; Estado Bélico. Keywords: Marijuana; Stereotype; Bellicose State.

I
Laís Rosatti (laisrosatti@usp.br) é especialista em Direito Penal e Processual
Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Bioética pela
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Pesquisadora Douto-
randa em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade
de São Paulo.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução sagradas foram substâncias psicoativas como

O
o peyote, o vinho ou certos fungos (p.10-11)6.
uso de substâncias psicoativas foi feito
pela humanidade de diferentes formas A história fabulosa dos deuses e semideu-
–quer medicinal, cultural, ritualística ou ses da antiguidade constituiu a passagem dos
lúdica –, pois o homem sempre buscou modi- tempos onde foi comum seu uso, tanto nos ritos
ficar sua percepção do mundo através de estí- de passagem, como nos sacrifícios cerimoniais:
“As substâncias de aroma perfumado foram co-
mulos capazes de atuar sobre seu psiquismo
mumente usadas como incenso, queimadas sob
no intuito de “provocar alterações dos estados
a orientação de sacerdotes com o fim de agradar
de consciência e a procura de experiências iné-
ou apaziguar os deuses” (p.9-17)16. Assim, perí-
ditas” (p.186)2 . Segundo Antonio Escohotado6,
odos há em que, se por um viés, as substâncias
muitas sociedades reafirmaram sua identidade
psicoativas possuíam função sacramental, divi-
cultural atravessando experiências com alguma
na, portanto, socialmente aceita, e em outros
substância psicoativa:
eram-lhes atribuídas características ocultas,
“Antes que o sobrenatural se concebesse em diabólicas, quando eram, portanto, perseguidas.
dogmas escritos, castas sacerdotais interpre- De acordo com Escohotado6:
taram a vontade de algum deus único e onipo- “Umas presenteavam vítimas (animais ou
tente, percebido em estados de consciência humanas) a alguma deidade para obter
alterada foi o coração de inúmeros cultos, e seu favor, enquanto outras comem em co-
o foi a título de conhecimento revelado pre- mum algo considerado divino. Esta segunda
cisamente. As primeiras hóstias ou formas forma de sacrifício – o ágape, o banquete

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

sacramental – se relaciona quase infalivel- da existência humana, desde tempos imemoriais,


mente com drogas” (p.11) 6 . as ervas têm sido vitais para a administração da
Nas lendas e mitologias, é possível encontrar vida. De acordo com Aldous Huxley14:
o uso de substâncias psicoativas pelos próprios “Na vida individual, para uso cotidiano, sem-
deuses enquanto ato divino. Na mitologia grega, pre houve drogas inebriantes. Todos os seda-
por exemplo, descreve Pierre Commelin, que Mor- tivos e narcóticos vegetais, todos os eufóricos
feu – um dos filhos do deus do sono Hipno – era derivados de plantas, todos os entorpecentes
encarregado de tomar a forma humana a fim de se que se extraem de frutos ou raízes, todos, sem
apresentar aos homens durante o sono. Possuía exceção, são conhecidos e vêm sendo siste-
uma papoula na mão e, ao tocar a pessoa com maticamente empregados pelos seres huma-
o caule da planta, permitia-lhe adormecer. Chega- nos, desde épocas imemoriais” (p.39)14.
va trazido por suas asas, sempre que os grandes A influência antropológica exercida sobre o
deuses precisassem ou sempre que os homens desenvolvimento das práticas religiosas de diver-
desejassem repousar. Seu pai Sono e seus outros sos povos primitivos que fizeram uso de alguma
irmãos Sonhos, tinham morada em uma caverna substância psicoativa está diretamente vincula-
na Ilha de Lemnos – segundo Homero – ou no país da às questões que envolveram a mitologia e a
dos Cimérios – segundo Ovídio. Eram responsá- história;
veis por promover o esquecimento da tristeza e
...“além do mais, é coisa comprovada pela
dormiam dispersos sobre papoulas (p.180-181)3.
história que a maioria dos contemplativos
As primeiras referências do cânhamo sur-
trabalhou sistematicamente para poder mo-
gem sendo empregadas nos cerimoniais em tem-
dificar o equilíbrio químico de seu organismo,
pos de domínio assírio e datam do século IX a.C.,
tendo em vista criar condições internas favo-
segundo Escohotado6. A resina de cânhamo foi
ráveis a inspiração mística” (p.103)14.
utilizada também pelos egípcios na confecção de
incensos cerimoniais conhecidos como kiphy. Já Desta forma, houve o desempenho de uma
na Europa Ocidental, este autor relata que, por função primordial na vida individual e comunitária
volta do século VII a.C., os celtas exportavam cor- do ser humano no processo civilizatório. Porém,
das e estopas de cânhamo pelo Mediterrâneo. Já no decurso do tempo, práticas antes estimula-
na Índia, o cânhamo teria brotado ao cair do céu das e socialmente aceitas por serem identifica-
gotas de ambrósia divina o que, segundo a tradi- das com o divino sofreram estreitamento, através
ção brahmânica, “agiliza a mente, concede lon- de proibições e perseguições pela imposição de
gevidade e potencia os desejos sexuais” (p.16)6. estigmas demonizantes.
É, segundo o autor, mencionado, ainda, como a Nesse sentido, é possível identificar um viés
bebida preferida do deus guerreiro Indra, sendo segregatório desenvolvido no avançar da civiliza-
considerado como transformador da rotina sen- ção, que permeou as esferas sagradas ou praze-
sorial, fonte de vida e felicidade (p.115)7. rosas da vida humana e que fortaleceu o estigma
A natureza é responsável pela produção de social, limitando a soberania do indivíduo sobre si
um complexo laboratório químico e alquímico, do mesmo e sujeitando-o à autoridade social da qual é
qual muitas das substâncias medicamentosas parte integrante. Porém, “a História nos ensina que
devem suas propriedades curativas às ervas que nenhuma droga desapareceu ou deixou de ser con-
elas contêm, de modo que em todas as etapas sumida em decorrência de sua proibição” (p.40)5.

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Duas substâncias psicoativas se destacaram “Das chamadas “toxicomanias elegantes”,


no cenário em que figurou o século XIX, tanto por que são as mais sérias (opiomania, morfino-
suas semelhanças no modo como eram emprega- mania, cocainomania, etc.) o ópio e seus de-
das desde os primórdios da humanidade, como rivados nunca representaram papel saliente
também por suas características sociais antagôni- em nosso mercado interno, porque jamais
cas que se descortinaram no decorrer do tempo e foram aqui objeto de uma traficância verda-
que perduram em pleno século XXI, a saber: o ópio deiramente organizada e estável. (...) O maior
e a maconha. Com o tempo, o ópio e a maconha problema, que persiste e que cresce assus-
deixaram de ser vegetais mágicos ligados a ritos tadoramente, entretanto, é o da maconha.
e sacramentos e percorreram caminhos distintos. Enquanto a cocaína, pelo seu alto custo, se
Para Bucher2, as condições de vida influen- limita em grande parte a certos círculos res-
ciaram fortemente os hábitos de consumo de tritos de pessoas mais abastadas, a maco-
uma determinada população que era parte de nha, ou “opio do pobre”, favorecida pela larga
determinado contexto social, econômico, político produção nacional, alastrava-se por todas as
e cultural. Se, de um lado, a influência europeia camadas da população, sem que nada per-
exercida em terras tupiniquins obteve do ópio o turbasse a sua marcha” (p.28-29)11.
apanágio do homem branco, de outro, a maconha
Enquanto o ópio era receitado de “boa-fé” por
trazida como alento pelo negro escravizado erigiu
médicos e comumente utilizado pelas classes mais
como algo pernicioso e imoral. Tal fato se eviden-
favorecidas da elite branca escravista – ou ainda,
cia nos escritos de autores como Pernambuco Fi-
da categoria dos poetas, artistas e sonhadores –, a
lho e Adauto Botelho9:
maconha tinha em si um “problema avassalador”:
“Principalmente em relação ao opio, outr’ora trazia consigo reminiscências da escravidão, sendo
os casos que se notam eram na sua maioria utilizada pelas classes consideradas subalternas,
provenientes da boa fé de medicos que, para degeneradas e marginalizadas. Desse modo, os
um mal qualquer doloroso, aconselhavam ao habituados ao ópio – fossem moderados ou imode-
seu cliente o uso de injecção de morphina ou rados –, apenas se limitavam a chamar a atenção
qualquer outra medicação opiacea; facto que de revistas ou periódicos, ao invés de juízes ou po-
apezar do conhecimento que possuimos dos lícias, como se pode observar no trecho seguinte:
perigos do habito, ainda, infelizmente se veri-
”Este formidável consumo não cria proble-
fica hoje. Actualmente, porém, é pela procura
mas de ordem pública ou privada. Ainda que
de volúpia e sensações estranhas e novas que
se contem por milhões, os usuários regula-
os individuos, via de regra snobs, cançados
res de ópio não existem nem como casos clí-
dos prazeres habituaes, se viciam” (p.14) 9.
nicos nem como marginais sociais, o costu-
me de tomar esta droga não se distingue de
qualquer outro costume - como madrugar ou
O tratamento dado ao ópio e à maconha no Brasil
transnoitar, fazer muito ou pouco exercício,
Em linhas gerais, nota-se que o Brasil sofria o
passar a maior parte do tempo dentro ou fora
reflexo do que se passava no continente europeu.
de casa...” (p.32-33) 6 .
Esta tese se reforça quando comparada à análise
realizada por João Bernardino Gonzaga11, ao tratar Tratava-se, portanto, de um assunto alheio
do que chamou de “toxicomanias elegantes”: à esfera jurídica, política ou de ética social – de

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acordo com o autor –, uma vez que não causa- “maconhismo” a “plebeísmo” (p.243)18 – mostra
va incômodo que pessoas bem integradas so- certa discrepância ao mencionar que, no Brasil,
cialmente usassem ópio por décadas através de o vício é uma “sociose deselegante” (p.246)18 co-
recomendações médicas. Diferentemente, o uso nhecida nos bairros mais desfavorecidos:
da maconha pelo negro brasileiro foi considerado “O canabismo é uma toxicose que se pode-
“coisa de sem-vergonha” praticada por descen- ria dizer deselegante, em contraposição aos
dentes de escravos – fato que, segundo Bucher2, males sociais elegantes de que falam Pedro
justificaria os sentimentos racistas existentes na Pernambuco Filho e Adauto Botelho, quando
elite social da época e que perduram ainda na
cuidam da morfinomania, da heroinomania,
contemporaneidade.
da cocainomania. De fato, essa heterotoxico-
Assim, embora os vícios elegantes exerces-
se é preferencialmente encontrada nas clas-
sem uma forte influência enquanto atributo das
ses menos favorecidas da fortuna. O hábito
classes favorecidas na Europa, a comunidade
pelo cânhamo é visto entre os pobres; entre
negra destacou-se no Brasil como um movimen-
indivíduos de pequena ou nenhuma instru-
to de contracultura das camadas mais pobres e
ção; - carregadores, marinheiros, decaídas e
marginalizadas do povo.
alguns soldados. A diamba ainda é o ópio dos
A simples existência do negro africano no
pobres...” (p.252) 18 .
Brasil, – escravo ou liberto – bem como de seus
descendentes, significaria possuir uma carga es- O autor descreve uma série de fatores de-
tigmatizada de selvageria e depravação. A “infe- terminantes e graduais que seriam fonte da de-
rioridade da raça subjugada” agregada ao eleva- gradação dos sujeitos enquadrados nessa con-
do potencial de causar degeneração e promiscui- dição de “desajustados sociais” e que teria por
dade formavam um cenário antagônico que peri- termo a delinquência:
gava subverter a “moralidade branca civilizada”. “Nessa sociose deselegante é frequente o de-
Com isso, a maconha se tornou uma substância semprego, e quem ler as observações ante-
cada vez mais indesejada e colocada à margem riores verá que os indivíduos sem profissão
das elites, enquanto o ópio mantinha sua postura são em grande número, campeando a malan-
de vício elegante e socialmente admitido. dragem entre eles, vivendo de expedientes
Pernambuco Filho e Adauto Botelho10 tratam e iniciativas mais ou menos indecorosas. A
da questão da substância – até então aparente- desagregação familiar é a consequência da
mente desconhecida – como um vício avassala- vida nômade dessa gente; não constituem
dor capaz de gerar estado de alerta:
lar; não possuem casa; vivem ao relento, em
”Embora quase desconhecido, existe um ví- baixo das pontes e nas beiras dos cais. Ra-
cio originário da África e que atualmente in- ramente são casados. Raramente têm prole.
vade de um modo assustador o interior do A inatividade e o desemprego geram, nes-
Brasil e já merece atenção dos dirigentes de ses deslocados sociais, o concubinato, as
alguns Estados do Norte. Chama-se a esta ligações passageiras e a inadaptabilidade
toxicomania o vício da diamba” (p.25) 10. ao casamento. A sua capacidade produtiva
Em consonância, Décio Parreiras18 – embora é pequena; vivem em geral de salário baixo,
tenha se preocupado com a etimologia que envol- apelando para o crédito, cada vez menor,
ve o “canabismo”, que em suas palavras associa mesmo na aquisição de gênero de primeira

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necessidade. É acentuado o seu atraso pe- XXI, quando ainda é notadamente manifesta a ar-
dagógico; quase todos são analfabetos; os bitrariedade seletiva com a qual o próprio Esta-
que escapam a essa rubrica são indivíduos do se direciona aos setores mais vulneráveis da
de baixo nível de instrução (77,0% - segundo sociedade, tentando excluir permanentemente a
dados de Eleyson Cardoso). Eles são desajus- população deixada à margem por esse mesmo
tados profissionais; as suas atividades rara- Estado, que preferiu atender ao pânico das eli-
mente provêm de um prévio ensinamento e tes. Nesse sentido, é interessante trazer a ale-
regime de seleção e educação ocupacionais. goria utilizada por Vera Malaguti Batista1, sobre
Não têm religião, nem fé; são-lhes indiferen- a desigualdade:
tes. Está aí o pária, o ilota, o homem despre-
“A figura da mãe no Brasil se decomporia em
zado pelos seus semelhantes e excluído da
duas: a de uma mãe biológica, a cujo corpo
vida em sociedade, caminhando fatalmente
não se tem acesso, mas que é socialmente
para o último degrau dessa sociose, que é a
reconhecida, e a de uma mãe preta à qual se
delinquência” (p.265) 18 .
tem acesso, mas que não é socialmente reco-
Em outras palavras, a exaltação do belo pe- nhecida. Se as amas-de-leite, as mães pretas,
las classes elitizadas preferiu o ópio e enfatizou e as babás ofereceram seus corpos e seu leite
que a maconha foi usada pelas classes mais des- para os filhos da elite, o que teria acontecido
favorecidas: inicialmente pelos africanos escravi- com os filhos das amas-de-leite? Estes foram
zados e, depois, disseminada por traficantes aos sempre um estorvo, no mundo escravo e no
sertanejos que pertenciam às classes mais bai- mundo pós-emancipação, povoando as rodas
xas e excluídas da sociedade. de expostos, vagando pelas cidades, realizan-
Quando há rupturas no modo de convivên- do pequenos biscates” (p.65)1.
cia de uma determinada população, a comunida-
de segregada enfraquece e seus indivíduos pas- A questão do estereótipo está atrelada à su-
sam a assumir uma posição de isolamento frente premacia ideológica que emergiu no Brasil com
à ausência de espaço participativo para a per- o elo criado a partir da relação dominadores-do-
petuação de sua cultura e identidade. A fim de minados. Embora o negro escravizado estivesse
conservar suas tradições, os africanos trazidos emancipado para viver dignamente para cumprir
compulsoriamente como escravos mantiveram com seus deveres e usufruir dos seus direitos
consigo e transmitiram, entre outras, a cultura da como parte do corpo social, a elite branca escra-
maconha. Contudo, como é possível perceber, ao vista não deixou de consolidar seus valores re-
ser introduzida no Brasil, deparou-se com o julga- manescentes de superioridade formados a partir
mento depreciativo sobre o hábito trazido e até de suas concepções higienistas vigentes até os
então desconhecido, sendo causa de manifesta dias de hoje: para o homem branco, o estereótipo
condenação moral e criminal por não estar san- médico; para o negro, o criminal. Assim, a reação
cionadas pelas autoridades médicas ou jurídicas conservadora cria um inimigo, delimita-o e se mo-
desse período. biliza para destruí-lo.
Ao longo do século XIX, nota-se que não Stuart Mill17 refere que o obstáculo ao pro-
houve grandes mudanças na realidade social gresso do indivíduo e da sociedade, é a imposi-
hostil em que foi escrita a história da escravidão ção de um padrão já estabelecido e o não reco-
no Brasil e nem houve progresso até o século nhecimento do outro, ou seja, é a supressão da

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

individualidade, das variações e das experiências Desde o século passado, no entanto, uma
de vida próprias de cada pessoa e que, conse- outra designação chama a atenção, aquele
quentemente, culminam em seu estranhamento: do “ópio do pobre”, como se existisse uma
“Assim como é útil que enquanto a humanida- relação conatural entre a papoula e a can-
de é imperfeita deva haver diferentes opini- nabis. Não obstante, o senso popular atribui
ões, da mesma forma deve haver diferentes funções semelhantes aos dois produtos. Ele
experiências de vida; um livre espaço deve deve ter suas razões para assim proceder; lo-
ser dado às variedades de caráter, sem dano go, deve tratar-se de funções antropológicas
a outros; o valor de diferentes modos de vida convergentes, cuja simbólica se trata de com-
deve ser provado de forma prática, quando preender, se se quiser entender a presença
qualquer pessoa ache adequado experimen- das drogas na sociedad” (p.92) 2.
tá-los. É desejável, em suma, que em assun-
tos que não concernem principalmente aos
outros, a individualidade deva se declarar. Estigmatização, controle social e criminalização
Onde, não o próprio caráter da pessoa, mas Como já mencionado, essa manifestação
as tradições ou costumes de outras pesso- de controle social – de um poder estigmatizador
as sejam a regra de conduta, há falta de um e punitivo das minorias – constrói no imaginário
dos principais ingredientes da felicidade hu- social um pretexto de contenção da violência ur-
mana, e bastante do principal ingrediente de bana de categorias sociais específicas, associa-
progresso individual e sócia” (p.84) 17. das à pobreza, violência e delinquência. Nesse
De acordo com Gilberto Velho25, as drogas sentido, de acordo com Batista1:
possuem um significado particular envolto em di- “O processo de demonização das drogas, a
ferentes culturas e em diferentes sociedades não disseminação do medo e da sensação de in-
homogêneas e que, a despeito de diferentes mo- segurança diante de um Estado corrupto e
dos de construção da realidade, souberam lidar ineficaz, vai despolitizando as massas urba-
com elas sem que seu uso significasse um gran- nas brasileiras, transformando-as em multi-
de tumulto na vida social. Assim, ao contrário do dões desesperançadas, turbas linchadoras
senso comum, não é a natureza das substâncias a esperar e desejar demonstrações de for-
psicoativas um elemento gerador de criminalida- ça” (p.35) 1 .
de e violência, mas a proibição, a marginalização
A desorganização do Estado de Bem-Estar
e a repressão do uso e do contexto de uso; razão
Social favorece a representação das drogas ilí-
pela qual a pedagogia do terror lança mão de um
citas pelos governos e pelos meios de comuni-
dos seus melhores artifícios: a demonização da
cação como “praga apocalíptica”, segundo Esco-
droga. Bucher2 propõe a seguinte análise:
hotado6, servindo de bode expiatório responsá-
“Se o tabaco foi, logo após a descoberta das vel pela insegurança e violência, razão pela qual
Américas, chamado de “erva santa”, a maco- deve ser duramente punido o seu comércio ou
nha, por não conter a “bendita nicotina”, con-
uso. A normativa jurídica é a expressão máxima
tinuava revestida da aura de “erva maldita”,
dos discursos estigmatizadores construídos em
ou, ainda, “erva do diabo”...
torno da droga, tal qual menciona Rosa Del Ol-
(...) mo4. Assim,

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

“Ao agrupá-las em uma só categoria se pode Maria Lúcia Karam15 enfatiza que a raciona-
confundir e separar em proibidas e permitidas lidade deve ser prevalente e impositiva de maior
quando for conveniente. Ele permite ademais tolerância para com as dessemelhanças, uma
incluir no mesmo discurso não só as carac- vez que nem tudo o que se desconhece ou rejeita
terísticas das substâncias, senão também as é necessariamente mau. Ao contrário, tal diversi-
do ator – consumidor ou traficante -, indivíduo dade deve ser compreendida como um de tantos
que se converterá no discurso, na expressão outros fatos da vida, que requer igualmente har-
concreta e tangível do terror. Umas vezes será monia e reciprocidade, de modo que:
a vítima e outras o vitimizador. Tudo depende “Quando se pretende discutir políticas e atos
de quem fale. Para o médico, será o “enfer- de governo em um estado Democrático de
mo”, que há de submeter a tratamento para Direito, há que se resgatar a racionalidade. E
reabilitá-lo; ao juiz, verá nele o “perverso” que a prevalência da racionalidade impõe o afas-
se deve castigar como lição. Mas sempre será tamento da enganosamente salvadora inter-
útil para a manifestação do discurso que per- venção do sistema penal, assim afastando
mita estabelecer a polaridade entre o bem e o uma forma de controle que pouco controla,
mal – entre Abel e Caim – que o sistema social que, paradoxalmente, estimula o lucro incen-
necessita para criar consenso em torno dos tivador da produção e distribuição das mer-
cadorias que proíbe, que cria violência e cor-
valores e normas que lhe são funcionais para
rupção, que, direta ou indiretamente, torna
sua conservação. Por sua vez, se desenrolam
mais problemático o consumo das substân-
novas formas de controle social, que ocultam
cias que diz querer evita” (p.252-253) 15.
outros problemas muito mais profundos e pre-
ocupantes” (p.04) 4. Portanto, a criminalidade associada ao uso da
maconha, além de ser comumente relacionada aos
A justificativa para a criminalidade sempre se
setores mais desprotegidos da sociedade, está in-
volta contra os setores mais frágeis da socieda-
serida no discurso da espiral do entorpecente, on-
de. A despeito de todos os esforços voltados aos
de bastaria que o sujeito se aproximasse da subs-
estudos, análises e controvérsias sobre a maco-
tância para que caísse no vício e no crime. Esta
nha, muitos autores se posicionaram no sentido
é a premissa que cria os estigmas demonizantes,
de desconstruir essa opinião generalizada. Gonza- dissemina o medo e garante poder suficiente para
ga11 pontua que a maconha não é habituógena e controlar a violência gerada pelo próprio sistema e
nem cria crises de abstinência, sendo que “O que que recobra sujeição a um controle muito mais for-
resulta das inúmeras pesquisas realizadas é que te, valendo-se da resposta mais antiga que a socie-
a maconha possui toxicidade mais fraca do que o dade moderna tem se deparado: a repressiva.
ópio ou a cocaína, por exemplo, e inferior mesmo, As intervenções indiscriminadas, violentas,
sob certos aspectos, até à do álcool” (p.47)11. desumanas e estigmatizantes, caracterizam os
O antagonismo em torno da maconha está usuários a partir de um sistema que reforça as de-
situado para além da existência e do uso de uma sigualdades, colocando-os cada vez mais à mar-
substância psicoativa: a discriminação se volta gem e promovendo uma verdadeira aniquilação
notadamente às classes desfavorecidas e de- humana desses sujeitos. As penalidades legais e
samparadas, galgando, então, pelos grilhões dos o poder da sociedade sobre o indivíduo são res-
efeitos negativos do medo e da criminalidade. ponsáveis, em grande parte, pelo fortalecimento

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

do estigma social, na medida em que impõem a principalmente às classes possuidoras, que


obrigação de adaptá-lo a um modo de vida ideal e devastaram não só as fronteiras, como tam-
que visa o bem-estar social dentro de um padrão bém as raízes que agregaram cada homem à
pré-constituído. Contudo, reprime o indivíduo en- sua terra e à sua tradição” (p.268) 24.
quanto sujeito detentor de sua própria autonomia
Winfried Hassemer12 faz alusão ao ideário
e que, sucumbido a essas regras de conduta, na
construído sobre o Direito Penal como portador
maioria das vezes busca ajustar-se à imposição
de esperança para solucionar grandes incômo-
desse modelo estabelecido.
dos sociais e políticos, com o objetivo de atender
Del Olmo refere que “Os estereótipos ser-
ao que chamou de “demanda urgente de ação”,
vem para organizar e dar sentido ao discurso em
que se pauta nas vedações penais, intervenções
termos dos interesses das ideologias dominan-
e sanções. Refere também que “Suas doutrinas
tes; por ele, no caso das drogas se oculta o polí-
preventivas prometem a recuperação dos crimi-
tico e econômico, dissolvendo-o no psiquiátrico e
nosos condenados e intimidação dos criminosos
individual” (p.7)4. Desse modo, segundo a autora,
potenciais, ou seja, de nós todos” (p.83-84)12.
a droga se encontra sob o domínio não só da mo-
Pontua, ainda, sobre a crescente judicialização e
ral e do discurso ético-jurídico, mas também do
como esta se desloca desde a criminalização da
estereótipo médico-sanitário.
vida cotidiana à substituição de normas sociais
O discurso inflamado de “guerra às drogas”
por normas penais:
traz significados que se cruzam sob diversas pers-
“Não me volto contra uma modernização do
pectivas históricas. Se, por um lado, refere-se ao
direito penal no sentido de sua adequação
aumento do uso de psicoativos devido à desorga-
a novas morais ou novos perigos. Volto-me
nização social, bem como ao relaxamento da fisca-
contra uma complementação cega de nos-
lização nas zonas de ocupação e de beligerância,
sos instrumentos de solução de conflitos por
por outro, declara uma guerra onde o estado de ex-
meio de medidas penais, somente porque
ceção sempre se volta a um mesmo grupo de refe-
elas são, comparativamente falando, bara-
rência. O controle é uma das estratégias de um Es-
tas, e no caso individual, atacam agudamen-
tado Penal reativo a fim de manter a contenção dos
te e prometem efetividade em face do proble-
assim considerados “desajustados sociais” através
ma global. Eu defendo a ponderação e dispo-
de políticas criminais beligerantes que conduzem
nibilidade para a crítica. Então restará exem-
seu poder disciplinar estabelecendo interpretações
plarmente demonstrado que as medidas pe-
normativas a fim de desenvolver um funcionamento
nais não servem tão bem para a prevenção
padrão que é responsável por encarcerar amplos
do perigo, como nós realmente precisamos,
setores da população em nome de um discurso mo-
ou que princípios irrenunciáveis do Estado de
ral esquizofrênico e imediatista. Assim, “Uma legis-
Direito, como a presunção de inocência ou a
lação, cuja finalidade é defender os cidadãos, sub-
proporcionalidade da sanção, impedem uma
mete o usuário a condenações que arruínam suas
solução efetiva do problema.
vidas muito mais do que o uso da maconha em si”
(p.150)23. Segundo Mariano Ruiz-Funes24: (...)
“As tensões de crise manifestaram os contras- A pena poderá somente manter vivo o seu
tes permanentes dos interesses e das lutas sentido, caso o direito penal não se degene-
de classes, que causaram maior incômodo re em uma moldura para todas as soluções

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

dos problemas. A segurança das normas fun- Para o autor, as fiscalizações repressivas
damentais, por meio do debate público e da seriam a solução para interromper o curso de
sanção, precisa de concentração e saliência, uma marcha que ameaçava corromper o tradicio-
ela precisa de seriedade, obrigatoriedade e nalismo e a “degeneração da raça” e levariam a
uma especial fidelidade manifesta aos princí- termo, portanto, o “flagelo social” protagonizado
pios na ameaça de pena, no processo penal pela maconha:
e na execução da pena” (p.96) 12. “Dispõe atualmente o Brasil de um aparelha-
A exemplo disso, na década de 1940, al- mento perfeito de fiscalização do comércio e
guns autores adeptos do viés sanitarista acredi- uso de entorpecentes e de repressão ao seu
uso abusivo. Com a experiência de mais de
tavam que o uso da maconha estava em vias de
dois decênios de aplicação de uma legislação
“erradicação” e, consequentemente, diminuiriam
que tem sofrido modificações à medida que se
os riscos da tão temida degeneração branca. Al-
tornam necessárias, podem hoje as autorida-
guns trechos denotam essa mesma ideia de des-
des brasileiras exercer um controle uniforme
fecho do caso “problemático” da maconha e o
sobre o uso dos entorpecentes em todo o terri-
possível avanço no combate, sempre com respal-
tório nacional. Já conseguimos uma grande vi-
do na medicina e nas leis vigentes à época, como
tória, erradicando do nosso país as toxicoma-
se pode analisar nos recortes realizados a partir
nias, que praticamente não existem mais no
de alguns escritos de Cordeiro de Farias8:
solo brasileiro, tão insignificantes o número de
“Com o controle hoje existente em quase to- toxicômanos que de quando em vez surgem,
dos os países do mundo, sobre o uso de en- num ou noutro ponto do país e imediatamente
torpecentes, nós achamos muito mais apa- submetidos à vigilância e tratamento obriga-
relhados para fazer frente à disseminação tório pelas autoridades sanitárias e policiais.
das toxicomanias, do que no após-guerra de (...)
1918 (p.149) 8 .
Preparados como se acham e cientes do in-
(...)
cremento da toxicomania que surgirá no após-
O problema do uso da maconha ou diamba,
-guerra esperam o Serviço Nacional de Fiscali-
como é conhecida no Brasil a Cannabis In-
zação da Medicina e a Comissão Nacional de
dica – o hashih dos árabes ou marijuana da
Fiscalização de Entorpecentes, em cooperação
América Central e dos Estados Unidos, está
com os órgãos de que dispõe em todo territó-
perfeitamente localizado e em vias de solu-
rio brasileiro, poder enfrentar a avalanche de
ção satisfatória. toxicômanos e os traficantes que tentarão dis-
(...) Medidas de repressão contra o uso e cul- seminar o vício dos entorpecentes em nossa
tura da maconha foram tomadas oportuna- terra. Basta que cada um de nós continue a
mente, conseguindo as autoridades sanitá- cumprir as suas obrigações, fazendo com que
rias e policiais evitar sua disseminação e so- sejam respeitados os dispositivos da nossa lei
bretudo impedir o comércio clandestino des- de entorpecentes. As autoridades sanitárias,
ta planta, que os traficantes começavam a restringindo o uso de tais substâncias às
intensificar, transportando-a para os centros necessidades estritas, reclamadas pela
onde se encontravam viciados e fumadores aplicação clínica, evitarão a formação de
de maconha ou marihuan” (p.152)8 . viciados pelo uso imoderado de entorpecentes.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

As autoridades policiais e aduaneiras, vigilantes vida tradicionais. Com isso, criou-se uma situação
contra os traficantes, evitarão o comércio ilícito nova que se apresentava como uma ameaça de
destas drogas no nosso território. As classes mudança em torno das pessoas próximas de um
médica e farmacêutica, cônscias das suas mesmo segmento social, como no caso das cama-
responsabilidades, continuarão a nos prestar das médias e altas da sociedade.
a sua inestimável cooperação, evitando a O cenário atual demonstra que, mesmo
generalização do uso de entorpecentes, fator após décadas, a resposta repressiva não foi a
que seria acrescido às causas de degeneração melhor solução e que a beligerância do Estado
de nossa raça. (...) Só então poderá haver con- se volta não contra as drogas em si, mas con-
fiança de que finalmente se irá pôr um termo tra uma parcela muito específica da população,
a este flagelo social, que tanto tem coopera- refletindo uma interpretação histórica arbitrária
do para a degradação da espécie humana” que se abate sobre a pobreza, sobre a população
(p.152-153) 8. negra e periférica das grandes metrópoles bra-
Nesse sentido, Parreiras18 corrobora e inclu- sileiras, o que ameaça e fomenta situações de
sive atribui à maconha uma gênese criminógena, extrema violência e vulnerabilidade.
responsabilizando-a pelo cenário carcerário da Sabe-se, por exemplo, que a população ne-
qual atribui o que chama de “delinquência caná- gra é a maior vítima da violência dos agentes do
bica”, como se pode verificar: Estado – que, por sua vez, deveria protegê-la e
garantir-lhe direitos, violando princípios constitu-
“A delinquência canábica tem características
cionais. A prática de racismo é crime imprescrití-
muito próprias e muito especiais. Saibam dis-
vel previsto pela Constituição da República Fede-
so os senhores membros do conselho de ju-
rativa do Brasil, em seu artigo 5º, XLII19:
rados e os meritíssimos juízes criminais quan-
do tiverem de julgar, trazendo a circunstância “Todos são iguais perante a lei, sem distinção
em foco, como derimente ou como agravan- de qualquer natureza, garantindo-se aos bra-
te. Após conhecer mais de uma centena de sileiros e aos estrangeiros residentes no País
depoimentos, quase todos no meio carcerá- a inviolabilidade do direito à vida, à liberda-
rio, estou convicto que o pito de pango é um de, à igualdade, à segurança e à proprieda-
fator frequente na gênese e no desenvolvi- de, nos termos seguintes:
mento do crime no Brasil, máxime nas regi- (...)XLII. a prática do racismo constitui crime
ões nordestinas. A maconha é, de fato, um inafiançável e imprescritível, sujeito à pena
fator criminógeno” (p.266)18 . de reclusão, nos termos da lei” 19.

De acordo com os estudos de Velho26, o uso Corrobora a Lei nº 7.716 de 198920, que de-
da maconha no Brasil apresentou uma transfor- fine os crimes resultantes de preconceitos de ra-
mação no uso e no contexto de uso, onde inicial- ça ou de cor e prevê a consequência da perda de
mente foi consumida por negros escravizados, cargo ou função quando praticados por agentes
bem como por seus descendentes e pelas cama- do Estado:
das populares de diversas regiões do país, sendo, “Artigo 1
posteriormente, disseminado nos setores médios Serão punidos, na forma desta lei, os crimes
e nas elites a partir da década de 1960 com a di- resultantes de discriminação ou preconceito de ra-
fusão da contracultura, que rejeitava os modos de ça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” 20.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Artigo 16 O poder público federal instituirá, na forma


Constitui efeito da condenação a perda do da lei e no âmbito dos Poderes Legislativo e
cargo ou função pública, para o servidor Executivo, Ouvidorias Permanentes em Defe-
público”20. sa da Igualdade Racial, para receber e en-
caminhar denúncias de preconceito e discri-
A Lei nº 12.288 de 201022 também traz minação com base em etnia ou cor e acom-
à luz o Estatuto da Igualdade Racial, que as- panhar a implementação de medidas para a
segura a defesa dos direitos étnicos individu- promoção da igualdade.
ais e coletivos e o combate da intolerância
Artigo 52.
étnica:
É assegurado às vítimas de discriminação
“Artigo 1º.
étnica o acesso aos órgãos de Ouvidoria
Esta Lei institui o Estatuto da Igualdade Ra- Permanente, à Defensoria Pública, ao
cial, destinado a garantir à população negra Ministério Público e ao Poder Judiciário, em
a efetivação da igualdade de oportunidades, todas as suas instâncias, para a garantia do
a defesa dos direitos étnicos individuais, co- cumprimento de seus direitos.
letivos e difusos e o combate à discriminação (...)
e às demais formas de intolerância étnica. Artigo 53.
Parágrafo único: Para efeito deste Estatuto, O estado adotará medias especiais para coi-
considera-se: bir a violência policial incidente sobre a popu-
I – discriminação racial ou étnico-racial: toda lação negra.
distinção, exclusão, restrição ou preferência Parágrafo único: O Estado implementa-
baseada em raça, cor, descendência ou origem rá ações de ressocialização e proteção da
nacional ou étnica que tenha por objeto anular juventude negra em conflito com a lei e
ou restringir o conhecimento, gozo ou exercí- exposta a experiências de exclusão social.
cio, em igualdade de condições, de direitos hu- Artigo 54.
manos e liberdades fundamentais nos campos O estado adotará medidas para coibir atos
político, econômico, social, cultural ou em qual- de discriminação e preconceito praticados
quer outro campo da vida pública ou privada; por servidores públicos em detrimento da
(...) população negra, observado, no que couber,
o disposto na Lei 7.716 de 5 de janeiro de
Artigo 10.
1989”22.
Para o cumprimento do disposto no art. 9º,
os governos federal, estaduais, distrital e mu- Verifica-se, portanto, que apesar de toda
nicipais adotarão as seguintes providências: a poética legislativa – inclusive, com a garantia
de políticas públicas – sobre as vulnerabilidades
(...)
da população negra sujeitas à arbitrariedade do
IV. implementação de políticas públicas pa- Estado e à truculência das polícias, ainda as-
ra o fortalecimento da juventude negra sim, é possível constatar na prática que “A jus-
brasileira. tiça se converte em instrumento para o controle
Artigo 51. diferencial das ilegalidades populares” (p.51)1.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Ruiz-Funes24, ressalta que “A criminologia da só de civis, mas também de militares, que aten-
guerra não consiste só em que produz fatos deli- tem contra o Estado Democrático de Direito:
tuosos, senão em que cultiva e favorece disposi- “Artigo 5º.
ções criminais, ou cria-as” (p.38)24. XLIV. Constitui crime inafiançável e impres-
critível a ação de grupos armados, civis ou
militares, contra a ordem constitucional e o
O colapso do modelo proibicionista
Estado Democrático de Direito”19.
O colapso do proibicionismo torna rentável
o mercado clandestino que arrebanha frações de Sob tal perspectiva, Hassemer12 refere que
pessoas deixadas à margem, onde a maior ser- no conceito de “ordem” aplicado pelas polícias,
ventia do tráfico não é a do traficante varejista não estão subentendidos os “pressupostos dos
– que é o mais aparente e punido nas malhas direitos fundamentais”, que implicam o reconhe-
do sistema penal –, mas da estratégia econômi- cimento do outro ou do senso comum, tal como
ca e financeira formada a partir da lavagem de ocorreria sob a égide de uma ordem libertária:
capitais realizada pela elite dos “grandes empre- “A polícia precisa desses pressupostos no Es-
sários da droga”, que arregimentam o pequeno tado de Direito como precisa do ar para res-
tráfico e permanecem impunes, usufruindo dos pirar, sem esses pressupostos a polícia não
frutos colhidos do encargo dos sobreviventes da-
pode dar dois passos, ou caso contrário, ela
quilo que Anthony Henman chamou de “guerra et-
abre caminho pela força. Esses pressupos-
nocida” (p.91)13.
tos não podem, porém, ser produzidos com
Assim, o baixo tráfico parece ínfimo se com-
meios policiais. Concretamente: a polícia não
preendido enquanto estratégia de sobrevivência,
está em condições de transformar uma “so-
já que os setores mais vulneráveis da sociedade
ciedade de cotovelos” em uma sociedade de
são as principais vítimas da criminalidade e da
indivíduos atenciosos. Ela não está em con-
violência gerada não pelo baixo tráfico, mas pela
dições de substituir ou de apoiar normas so-
ação das polícias militarizadas, que são o olho
ciais em atrofia, bem como normas legais por
criminoso da arbitrariedade do Estado e que lan-
meio de medidas policiais.
çam mão da sua pedagogia do terror para atuar
(...)
nas linhas de frente contra as “rodinhas de con-
sumidores” e contra aqueles que determinem ser Ela não pode conduzir esse processo, mas
traficantes. Para Ruiz-Funes24: somente o incomodar, enquanto ela proceda
“Devemo-nos referir ao desalento que acom- eventualmente a uma tentativa, por meio de su-
panha o regresso das frentes de combate, que as medidas, de criar os pressupostos da liber-
é um ativo fator criminógeno. Os que voltam, dade e de obrigar ao senso comum” (p 180)12.
trazem uma mentalidade bélica e hão-de efe- O Estado reativo, ao instalar suas políticas
tuar um ajuste social, cujas dificuldades en- criminais beligerantes, eleva os psicoativos a um
gendram esse forte desalento; o seu fracasso plano normativo de controle a fim de legitimar a
se traduz em toda sorte de condutas de oposi- intervenção penal. Logo, a resposta repressiva se
ção, uma das quais é o delito” (p.156) 24. apresenta anacrônica quando a sociedade é con-
De acordo com o artigo 5º, XLIV, da Consti- siderada no seu conjunto, uma vez que nenhuma
tuição19, é crime a ação de grupos armados, não espécie de proibição ou repressão, no decorrer

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

dos séculos, se mostrou capaz de impedir que “Artigo 5º.


os psicoativos fossem utilizados e, menos ainda, Todos são iguais perante a lei, sem distinção
que deixassem de alcançar seus destinatários fi- de qualquer natureza, garantindo-se aos bra-
nais. Para tanto, o autor reporta a necessidade sileiros e aos estrangeiros residentes no País
de uma polícia disposta a se “integrar para baixo” a inviolabilidade do direito à vida, à liberda-
(p.185)12, ou seja, capaz de estabelecer na pon- de, à igualdade, à segurança e à proprieda-
ta, o acolhimento e a participação dos cidadãos. de, nos termos seguintes:
Compreender e reconhecer a questão “do outro” (...)
significa atuar na defesa da vigência e da amplia- X. São invioláveis a intimidade, a vida priva-
ção dos direitos humanos. da, a honra e a imagem das pessoas, asse-
A Constituição19 dispõe, em cláusulas pétre- gurado o direito a indenização pelo dano ma-
as, que a dignidade da pessoa humana é fun- terial ou moral decorrente de sua violação”19.
damento do Estado Democrático de Direito. Seu
Evidente, não raras vezes, a função puniti-
artigo 1º assim descreve:
va, ao ignorar o princípio da intervenção mínima,
“Artigo 1º: extravasa de seus justos limites, culminando em
A República Federativa do Brasil, formada pela um “panpenalismo” do Estado, que demonstra
união indissolúvel dos Estados e Municípios e mais manifestações de força do que obras de
do Distrito Federal, constitui-se em Estado De- justiça, transformando sujeitos em verdadeiros
mocrático de Direito e tem como fundamentos: arautos de suas próprias condenações. O Estado
(...) de Bem-Estar Social foi substituído pelo Estado
III. a dignidade da pessoa humana”20. de controle, embora o desarrimo dos princípios
de um Estado garantidor não suste a circulação
O artigo 34 do mesmo dispositivo legal cor-
das drogas, mas cria um sistema punitivo des-
robora e somente admite intervenções – e em
proporcional vertical, que advém de uma lógica
caráter de exceção - se com a finalidade de asse-
punitiva e moralista que não reduz a demanda
gurar a observância dos princípios fundamentais:
e oferta, mas incita o modelo bélico, afronta os
“Artigo 34.
direitos fundamentais e insulta a dignidade da
A União não intervirá nos Estados nem no
pessoa humana, que recai, na maior parte das
Distrito Federal, exceto para:
vezes, sobre as populações mais vulneráveis.
(...)
Por isso, o modelo proibicionista comprova,
VII. Assegurar a observância dos seguintes
empiricamente, que o arquétipo de controle pe-
princípios constitucionais:
nal, que visa à resolução imediata das demandas
(...)
sociais no que tange à oferta e demanda de dro-
b) direitos da pessoa humana”19. gas denuncia a falência do próprio sistema penal.
Consequentemente, entre os direitos funda- O Estado e a sociedade consentem no sentido de
mentais, estão incorporados o direito à vida, à li- que não se deve ter prazer naquilo que é por eles
berdade, à igualdade e à segurança, direitos que considerado inconveniente ou imoral e, então, to-
estão sujeitos, portanto, à não inviolabilidade, as- mam a iniciativa do controle dos outros, impon-
sim como a garanti à intimidade e à vida privada, do-se à sua autodeterminação em favor do que
como destaca a Constituição19: consideram ser condição desejável à natureza

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

humana e indicando o padrão a ser seguido sem da droga”, de acordo com o parágrafo 1º, pode
questionamentos por todos. ser firmado por perito ou por “pessoa idônea” –
Novas substâncias surgem no mercado pa- definição ainda mais tendenciosa, pois dispensa
ralelo cotidianamente e, quando o Estado se co- conhecimento técnico. Assim,
loca no encalço de cada uma dessas eclosões “Artigo 28.
hodiernas, assinala sua incompetência para lidar Quem adquirir, guardar, tiver em depósito,
com a questão, visto que elas sempre alcançarão transportar ou trouxer consigo, para consu-
sua finalidade. A parte disso é de conhecimento mo pessoal, drogas sem autorização ou em
público as experiências internacionais bem-suce- desacordo com determinação legal ou regu-
didas no âmbito das inovações legislativas sobre lamentar será submetido às seguintes penas:
políticas de drogas – onde os resultados têm se I. Advertência sobre os efeitos das drogas;
apresentado mais eficientes com o não proibicio- II. Prestação de serviços à comunidade;
nismo em países como Holanda, Portugal, Finlân- III. Medida educativa de comparecimento a
dia, Espanha, Estados Unidos, e, mais recente- programa ou curso educativo.
mente, no Uruguai – e a disparidade do fracasso § 1º. Às mesmas medidas submete-se quem,
retumbante que tem refletido a repressiva políti- para seu consumo pessoal, semeia, cultiva
ca de “guerra às drogas” do Brasil. ou colhe plantas destinadas à preparação
A Lei nº 11.343 de 200621, que trata de po- de pequena quantidade de substância ou
líticas de drogas, é carregada de lacunas e de produto capaz de causar dependência física
“normas penais em branco”, como se pode de- ou psíquica.
preender na descrição em que droga é definida § 2º. Para determinar se a droga destinava-se
como qualquer substância capaz de causar de- a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza
pendência, assim compreendidas, aquelas elen- e à quantidade da substância apreendida, ao
cadas nas “listas do Poder Executivo da União”. local e às condições em que se desenvolveu
No entanto, muitas outras substâncias que se a ação, às circunstâncias sociais e pessoais,
enquadram na condição de provocar dependên- bem como à conduta e aos antecedentes do
cia são comercializadas livre e legalmente. agente 22.
Além disso, é evidente que não deve estar a (...)
cargo das polícias a definição de quem deve ser Artigo 50.
considerado “dependente” ou “traficante”, dado Ocorrendo prisão em flagrante, a autoridade
os contextos e circunstâncias, embora o artigo de polícia judiciária fará, imediatamente, co-
28 da mesma lei21 – que descriminaliza o uso municação ao juiz competente, remetendo-
de drogas não determine a quantidade para ates- -lhe cópia do auto lavrado, do qual será dada
tar uso ou tráfico, deixando ao arbítrio das polí- vista ao órgão do Ministério Público, em 24
cias e do juiz a deliberação dessa qualificação (vinte e quatro) horas.
segundo a “quantidade apreendida”, o “local e às §1. Para efeito da lavratura do auto de
condições em que se desenvolveu a ação”, “às prisão em flagrante e estabelecimento da
circunstâncias sociais e pessoais” e, por fim, à materialidade do delito, é suficiente o laudo
“conduta e os antecedentes do agente”. No caso de constatação da natureza e quantidade da
da prisão em flagrante que trata o artigo 50, o droga, firmado por perito oficial ou, na falta
laudo de constatação da “natureza e quantidade deste, por pessoa idônea”21.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

No Brasil, as discussões sobre políticas de liberdade de expressão, constitucionalmente con-


drogas têm avançado consideravelmente nos úl- sagrada, é utilizada, em seu fundamento constitu-
timos anos, não só pelas mobilizações antiproibi- tivo de Estado Democrático de Direito e não ape-
cionistas em favor do uso e do cultivo para uso nas como um Estado de Direito. Nesse sentido,
próprio e recreativo da maconha, como também confirma a referência de Winfried Hassemer12, de
pelas comprovações científicas que têm vislum- que “o poder repressivo estatal deve ser conduzi-
brado nessa substância vastas possibilidades do “com o mais profundo respeito possível ante os
terapêuticas – outra situação recorrente que en- seres humanos e à sua liberdade” (p.156).
frenta, ainda, inclusive por parte do Estado. Para A maconha é a representação evidente da
Hassemer12: guerra que a proibição declara a todas as drogas.
“O Estado é aquele que tanto distribui espe- É o bode expiatório, o pretexto de um Estado de ex-
rança como também o terror; ele se aproxima ceção permanente que se perpetua e se legitima
e pune e o seu poderio deve ser quebrado, no encalço das verdadeiras vítimas do alto tráfico
devendo ser transformado, por meio da lei e de um sistema econômico corrupto e recessivo.
que também o domina, em serviço da liber-
dade dos cidadãos” (p.169-170)12.
Considerações finais
Ao final dos anos 1990, a luta contra a proibi-
Apesar de muitas sociedades terem reafir-
ção de drogas começou a ganhar força no cenário
mado sua identidade cultural atravessando ex-
internacional, com a “Million Marijuana March” e
periências com alguma substância psicoativa,
com a “Global Marijuana March”, a princípio, em
no avançar da civilização houve o fortalecimento
Nova York, e, aos poucos, aderida por várias cida-
dos estigmas sociais que permearam as esferas
des ao redor do mundo. A “Marcha da Maconha”
– como ficou conhecida no Brasil – surgiu com o sagradas ou prazerosas da vida humana, limitan-
intuito de pleitear mudanças legislativas a fim de do a soberania do indivíduo sobre si mesmo ao
que houvesse novas políticas públicas que regula- sujeitá-lo à autoridade social da qual era parte
mentassem o comércio, o cultivo e o uso da ma- integrante. Todavia, nenhuma droga, no decorrer
conha para fins recreativos, medicinais ou indus- da história, desapareceu ou deixou de ser consu-
triais. Inicialmente, manifestações e marchas com mida em decorrência de sua proibição, tampouco
essa finalidade foram objeto de dura repressão. A deixou de alcançar seu destinatário final.
primeira, ocorrida em 2008, foi durante três anos A cultura da maconha foi introduzida no Bra-
proibida sob o pretexto de que seria apologia ao sil pelos africanos trazidos como escravos. Ao se
crime e à formação de quadrilha; contudo, não só deparar com o julgamento depreciativo sobre tal
não deixou de acontecer, como também atraiu a hábito recreativo não padronizado na época, re-
cada ano um maior número de ativistas. caiu sobre eles manifesta condenação moralista
Somente em 2011, a “Marcha” teve o aval sobre essa substância que, apesar de pouco co-
do Supremo Tribunal Federal, porém, neste mes- nhecida, foi demonizada.
mo ano, a manifestação realizada na cidade de A presença da maconha na sociedade brasi-
São Paulo foi marcada por forte truculência poli- leira, desde então, não foi caracterizada pela re-
cial, levando alguns ativistas à prisão. Atualmente, latividade cultural, nem mesmo por possuir uma
a Marcha da Maconha ocorre pacificamente, sem carga de diferenças geográficas, históricas e an-
impedimentos e sem a repressão do consumo. A tropológicas pertencentes a um costume de uso

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

milenar africano. Pelo contrário, diferentemente proibicionismo, que afeta as parcelas mais vulne-
do ópio que era difundido como substancia de ráveis da sociedade, as principais vítimas da cri-
“boa-fé” pela elite branca escravista, a maconha minalidade e da violência gerada não pelo baixo
foi protagonista de um “flagelo social” ao ser tráfico, mas pela ação criminosa e arbitrária des-
associada às classes escravizadas considera- se mesmo Estado repressor em sua luta contra
das degeneradas e violentas. Assim, a maconha os usuários e contra o tráfico varejista.
se tornou uma substância que suscitou o pâni- O colapso do proibicionismo torna rentável
co das classes elitizadas da época, sendo cada o mercado clandestino onde a maior serventia
vez mais indesejada e marginalizada, enquanto o do tráfico não é a do pequeno traficante – que é
ópio mantinha sua postura de vício elegante so- punido nas malhas do sistema penal –, mas da
cialmente aceito. estratégia econômica ilegal realizada pela classe
A forma de como se reproduziu, no negro, a dos “grandes empresários da droga”, que arregi-
“mácula” da “erva maravilhosa”, se expandiu en- mentam o pequeno tráfico e permanecem impu-
tre as minorias sociais, tornando-se um símbolo nes, usufruindo dos frutos colhidos do encargo
marginal característico dos descendentes de es- dos sobreviventes de uma guerra diária e tenden-
cravos, mas também das demais populações ex- te a alvejar principalmente a população negra e
cluídas. Em outras palavras, a exaltação do belo pobre das periferias das grandes cidades.
conferida ao ópio pelas classes elitizadas, enfa- O Estado hegemônico, portanto, se con-
tizando a maconha como demoníaca, já que tem substancia nos crimes que diz combater quando
uso que provém de escravos africanos e, depois, declara um estado de exceção permanente, que
disseminado entre os sertanejos e prostitutas se excede em legalismos e despreza a democra-
dos cais, setores esses pertencentes a classes cia, suprimindo direitos a fim de impor obediência
mais baixas e excluídas da sociedade. a qualquer custo. Contudo, reconhecer a compe-
Somente na década de 1960, com os movi- tência do Estado para interferir na esfera indi-
mentos de contracultura que rejeitavam os modos vidual é submeter-se à esfera de influência que
de vida tradicionais, a maconha fomentou enquan- transfere ao Estado o direito de decidir.
to ameaçava a uma temível mudança, ou seja, co- Não é razoável que o Estado do Bem-Estar
meçou a fazer parte de um contexto completamen- Social seja substituído pelo Estado de controle,
te novo pânico nas elites brasileiras – agora por onde as normas sociais são sucumbidas pelas
outro motivo que não o de outrora: não estava sen- normas penais, culminando na criminalização de
do repelida, mas sim, absorvida pelos seus entes. condutas normais da vida cotidiana, por não ide-
Porém, a construção ideológica do final do alizar para além do proibicionismo.
século XIX nunca esteve tão em voga no século Novas “drogas” surgem no mercado para-
XXI: ela reformulou e impôs a intervenção de um lelo cotidianamente e, quando o Estado se co-
Estado reativo beligerante e genocida, capaz de loca no encalço de cada uma dessas eclosões
encurralar nas trincheiras os setores desfavore- hodiernas, retrocede a um modus operandi rudi-
cidos da população, passando a persegui-los na mentar e selvagem de deliberar com hipocrisia
favela, e não mais na senzala, pelo mesmo uso e sobre uma realidade de busca constante e uni-
venda de maconha. versal, que resiste a séculos e que por proibi-
A mola propulsora da pedagogia do terror ção alguma, ontem ou hoje, deixou ou deixará de
da qual lança mão o Estado é a bandeira do simplesmente ser.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Choque de ordens: drogas, dinheiro e regimes


normativos em São Paulo
Clash of orders: drugs, money and normative regimes in Sao Paulo, Brazil

Gabriel de Santis FeltranI

I
Resumo Abstract

Este artigo tematiza a ordem urbana em São Paulo a partir de uma This article discusses the urban order in São Paulo from an
perspectiva etnográfica, privilegiando a operação cotidiana dos mer- ethnographic perspective, that highlights the everyday operation
of illegal drug markets. I argue that the monetary dimension
cados ilegais de drogas. Argumento que a dimensão monetária ins-
inscribed in the question of drugs has been obscured in favor of its
crita na questão das drogas tem sido obscurecida em prol de sua thematization as a moral problem and in religious terms. The result
tematização como problema moral e em termos religiosos. O resulta- is functional to the contemporary construction of the urban conflict
do é funcional à construção contemporânea do conflito urbano como as war, which radicalizes the alterity between groups: the city would
guerra, o que radicaliza a alteridade entre recortes da população: a have internal enemies to fight against and the drug would feed them
cidade teria inimigos internos a combater e a droga os alimentaria (although the money that takes place in its exchanges is welcome).
(ainda que o dinheiro que se produza em suas trocas seja bem-vin- The radicality of this contemporary construction, in São Paulo, is
explored from an ethnographic situation involving a child, who at 7
do). A radicalidade dessa construção contemporânea, em São Paulo,
years of age is among the “enemies of the order”.
é explorada a partir de situação etnográfica envolvendo uma criança,
que aos 7 anos de idade já figura entre os “inimigos da ordem”. Keywords: Drugs; Ilegal market; Marginalization.

Palavras-chave: Drogas; Mercado ilegal; Marginalização.

I
Gabriel de Santis Feltran (gabrielfeltran@gmail.com) é Doutor em Ciências
Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, Professor do Departamento
de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos e Coordenador Científico
do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) ligado a Faculdade Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ao Centro Brasileiro de
Análise e Planejamento.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução Largo. A polícia aparece, entretanto, retomando a

O
situação. Faz os meninos sumirem e a ordem se
artigo explora uma situação na qual “me-
reestabelecer. Essa é a situação empírica que,
ninos de rua”II e entregadores de panfle-
desdobrando-se neste artigo, enseja uma análise
tos disputam sua permanência no Largo
sobre drogas, dinheiro e ordem urbana.
dos Jasmins, local de comércio intenso, ao lado
Conversando com os atores inscritos no ce-
de uma estação de metrô e de um terminal de
nário descrito, encontram-se justificativas diferen-
ônibus, em área abastada do quadrante sudoes-
tes: comerciantes do Largo, apoiando os entrega-
te da metrópole da cidade de São Paulo. A dis-
dores de panfleto, dizem que os meninos de rua
puta pelo território é viril e eles se confrontam à
são “trombadinhas”, têm roubado os passantes,
força – ameaças de lado a lado, pauladas, idas
teriam batido em uma senhora, usam e vendem
e vindas. A cena, entretanto, não chega a ser
droga. Do outro lado, os meninos dizem que os
notada por muita gente que passa rápido pelo
entregadores de panfleto são “vermes”, que ame-
açaram incendiá-los enquanto dormiam, os agre-
diram, e “correm com polícia”: “chamam polícia
II
Ao longo do texto, destaco expressões de uso corrente em campo, com
intenção descritiva, ou ênfases do texto, com intenção analítica. Entre aspas pra nós toda hora, fi!”. Os panfletos, ainda mais
estão conceitos também usuais em campo, mas nem sempre compreensíveis
para o leitor não especialista, como “crime”, “disciplina”, etc. Todos os no- grave, seriam “coisa do diabo” (oferecem servi-
mes próprios de lugares, ruas, personagens e instituições, no corpo do texto,
são fictícios, de modo a preservar os interlocutores de campo. ços de búzios, tarô, trabalhos para amarração de

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

amor) III. Os dois lados querem ordem e querem altamente lucrativo frente às outras possibilidades
tranquilidade. Os critérios de tal ordem, entretan- de obtenção de renda desses sujeitos. A dispu-
to, são díspares. Mais precisamente, vamos nos ta, violenta, se faz no plano dos operadores mais
dedicar a compreender esse choque de ordens baixos desses mercados. Entre os que percebem
normativas, ambas inscrevendo mundos urbanos menos claramente sua dimensão, transnacional.
em busca de justiça. A bibliografia recente sobre as marginalida-
Não me dedicarei aos eventos espetaculares des urbanas dedicou-se intensamente às esferas
da violência criminal ou policial – em São Paulo, morais e políticas do conflito urbano, do crime e
policiais já chegaram a matar 493 pessoas em da violência no Brasil contemporâneoV. Avança-
uma única semana, depois de terem 45 colegas mos muito nessa compreensão, a partir de um
mortos em uma noiteIV. Concentrarei minha aten- giro descritivo iniciado há mais de uma década,
ção à rotina de eventos que, acumulando-se so- que escapava tanto às análises normativas da
cialmente ao longo dos dias, meses, anos, dé- política, quanto ao economicismo próprio da tra-
cadas, e objetivando a plausibilidade da guerra, dição marxista latinoamericana18,55. Hora de reto-
possibilitam que erupções como essa sejam fre- mar esses avanços, mas inscrevendo agora com
quentes. A aposta é que, a partir dessa situação mais centralidade a dimensão monetária da re-
empírica, de suas linhas de força, a análise possa gulação moral, política e violenta dos mercados
ser útil para pensar outras situações de conflito e formais, informais e ilícitos nos quais os grupos
ordenamento urbano em São Paulo, talvez em ou- estudados se inscrevem, pois, fala-se muito em
tras cidades brasileiras. Para isso, seguramente é dinheiro nas margens da cidadeVI.
preciso falar sobre dinheiro: os meninos negros na Tenho como pressuposto que o dispositivo
praça, entre muitas outras coisas que fazem, tam- das drogas24 e, especialmente, o obscurecimen-
bém operam um posto avançado de uma “biquei- to cotidiano da dimensão monetária desse dis-
ra”, um ponto de venda de drogas: eles trabalham positivo, é central para a construção da ordem
em um mercado ilegal e fazem dinheiro circular; urbana nos termos de uma guerra moral. Guer-
assim, produzem valor3,23,31,32,36,37. A capilaridade ra travada no plano dos valores, essencializados
da distribuição que permitem e essa circulação em sujeitos18,40,43, que justificaria a ação objetiva
monetária interessam a essa análise. Os entrega- das forças da ordem. Guerra justaVII, entendida
dores de panfleto que os achacam, vestidos com como moral porque erigida contra sujeitos – pes-
placas que anunciam serviços esotéricos, são soas de carne e osso, classe, gênero, raça, sexo
também “funcionários”, negros, de um casal de
jovens empresários do ramo da leitura de sorte,
V
Especialmente sobre a dimensão propriamente política de organização do
brancos. O conflito entre eles, justificado em ter- “crime”, em especial do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo,
como em Hirata36, Feltran16, 17, Mallart41, Dias14, Biondi4, Biondi e Marques5;
mos morais dos dois lados – e isso já seria motivo Malvasi42, Padovani47. Em outros estados brasileiros o caminho foi similar:
suficiente para guerrear – oculta ainda uma dispu- Dassi12 e Vieira58, em Florianópolis; Lyra39 e Grillo31 no Rio de Janeiro; Sá49 em
Fortaleza; Costa&Oliveira11, em Corumbá; Schuch50 em Porto Alegre, entre ou-
ta pelo ponto comercial do Largo dos Jasmins37, tros. Machado da Silva40 e Misse44 talvez tenham sido os sociólogos que mais
precisamente demarcaram as conexões analíticas e teóricas entre economia
e política, nos mercados ilegais.
VI
Dos Racionais MC’s: “em São Paulo, Deus é uma nota de cem” ou “Vida
loka original, dos barraco de pau/ Percebeu que o vil metal só não quer quem
III
O cenário brasileiro popular é, como se sabe, de expansão do léxico neopen- morreu”, ao MC Guimê “contando os plaquê de 100, dentro de um Citroën”.
tecostal muito capilar no cotidiano de grupos marginalizados. Sobre a agência VII
Como tal, o lugar da religião em sua explicação é central, em ambos os
do diabo e a expansão pentecostal ver Almeida2, Birman&Machado6, Côrtes9, lados. As noções de guerra justa e pacificação, religiosamente concebidas
Marques45, Fromm27. e politicamente implementadas, muito presentes no cotidiano das políticas
IV
Durante os episódios conhecidos como ‘Crimes de Maio’, em maio de de segurança contemporâneas, têm lastro histórico secular: ver Gomide34 ou
2006. Ver Adorno&Salla1 e Feltran 17. Pacheco de Oliveira46.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

e idade definidos – que se identificariam com o picolé de fruta, a estudante com o ombro tatua-
‘crime’, com a marginalidade, e que partilhariam do, um homem de terno cinza falando ao celular.
os vícios nocivos à boa sociedade. Vejo centenas de outros passantes, a pé ou nos
Argumento aqui que essa guerra moral, em- muitos carros parados no farol, também em mo-
bora justificada em si mesma, não dispensa, entre- tocicletas. Refaço a conta: são certamente milha-
tanto, o dinheiro que se produz na venda de drogas. res de transeuntes à vista, para quem observa o
Ao contrário, ao fazer a guerra contra os operadores Largo dos Jasmins, em São Paulo, logo após o
baixos dos mercados ilegais, busca-se fomentar os horário de almoço, em um dia de semana. O Lar-
mercados que os empregam e se apropriar do va- go tem uma estação do Metrô, conexão entre du-
lor que produzem. Do outro lado, os grandes ope- as grandes linhas, e um Terminal de Ônibus. Nas
radores de mercados ilegais igualmente fazem sua calçadas, também por isso, o comércio informal
guerra ao sistema considerando, também – embora é pujante. A despeito da crise econômica, o mo-
longe de ser somente isso – os lucros que ela po- vimento é intenso. Negócios, tempo livre, estudo,
de oferecer. Quando se figura a guerra como fator trabalho. Muitos passam pelo Largo e, portanto,
que justifica o esforço de ordenar a cidade, há dis- ali se fixa uma centralidade urbana29. A circula-
cursos e contra-discursos morais produzidos dos ção de algo – pessoas – implica a fixação de uma
dois lados do confronto, mas há também dinheiro outra coisa: negóciosVIII.
a ser disputado. Interessa-me, há algum tempo, es- O cheiro de urina seca pelo sol vai e vem
pecificamente a expansão de contra-discursos mar- com o vento, conforme a tarde passa. É notável
ginais20,25,35 paralelo à intensificação da circulação para quem se senta por ali para ver a vida, fa-
monetária nas quebradas de São Paulo. zer trabalho de campo. Um pino de cocaína vazio
enfeita o jardim onde estou, como tantos outros
dejetos – papelões, embalagens velhas, garrafas
Descrição
plásticas usadas que se acumulam, sem exces-
Esse artigo se organiza em três momentos
so, nos canteiros e sarjetas. Muitas latas de alu-
narrativos, descritos com a maior densidade pos-
mínio já foram dali recolhidas por uma senhora
sível: 1) a cena etnográfica, contexto no qual se
que frequenta o lugar há mais de uma década.
desenrola o conflito a ser estudado; 2) os per-
Onde há dinheiro circulando, há os que ganham,
sonagens desse conflito, com centralidade para
os que perdem, os que gastam demais e os que
Pingo, que com seus colegas figura o avesso da vivem gastando o que ganham das sobras dos
ordem hegemônica, mas se inscrevem em outra primeiros, reproduzindo ciclos de trocas mone-
ordem valorativa; 3) os regimes normativos des- tárias em diferentes escalas. Essa dinâmica já
sas ordens, desses mundos sensíveis em guerra. foi lida como integradora de uma única esfera
Ao final, delineia-se o argumento de inferência: de circulação de capital, enfatizando o dinheiro
esse choque de ordens, na forma como se figu-
ra, têm sido funcional à circulação monetária nos
mercados legais e, portanto, à consolidação da A percepção de fixação e circulação, portanto, depende das séries teleoló-
VIII

gicas da ação a considerar, em cada situação analisada. A referência teórica


ordem urbana hegemônica. é, aqui, calcada na sociologia formal de Georg Simmel. Sobre o dinheiro, por
exemplo, é notável como estabilidade e circulação, destilação e aceleração
A cena: se associam, fixando ou fazendo fluir, a depender da cadeia de ações que
se observa: Among the many services of money, I will mention here only the
Muitos passam rápido: uma senhora negra facilitation of trade, the stability of the standard of value, the mobilization of
values and the acceleration of circulation, and the distillation of values in a
de óculos escuros, uma japonesa chupando um concentrated form52 (p.187).

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

como mediador universal52,IX; também já foi pen- hegemônica da guerra contra as drogas, que se
sada como algo que se estratifica, clivada em di- traduz em guerra urbana.
ferentes mercados61, cada um socialmente mar- Tempo é dinheiro na metrópole; em atitude
cado pelas classes que os operam. Concebo aqui blasé, os passantes seguem seus caminhos pelo
a circulação monetária como sendo uma única Largo dos Jasmins sem olhar para o que está ao
dinâmica, por ser inteiramente interconectável seu lado, nenhum deles nota o meu observarXI.
pelo dinheiro. No entanto, parece-me evidente Há gente usando dinheiro, falando em celulares
que essa dinâmica não dispensa checkpoints ou que custam dinheiro, fazendo dinheiro em seus
marcação social de sujeitos e objetos nela ins- trabalhos, preparando-se para o mercado de tra-
critos, diferenciando-os socialmente38. A análise balho nos cursinhos do entorno. Duas agências
de posições e sujeitos que se inscrevem situacio- de grandes bancos ao lado, supermercados de
nalmente nessa dinâmica, sempre marcada por redes transnacionais, financeiras, franquias, lo-
fronteirasX, terá como referência central o conflito jas de roupas, sapatos, lingerie, empréstimos;
urbano em suas modulações situadas8. pequenas lanchonetes, padaria e bares. Muitas
Assim, os meninos de rua que conhecere- marcas de cerveja (o mais difundido dos entor-
mos adiante não são excluídos de todo mundo pecentes) à vista. Duas mulheres jovens fazendo
social, mas pertencem – como sujeitos e obje- programa passam rápido pela entrada do metrô,
tos – a essa dinâmica monetária, regulada por encontram seus parceiros, desaparecem. Há or-
muito consenso, muito conflito e muita violên- ganizações não governamentais (ONGs) e cadei-
cia, a depender da situação em questão. Não rantes pedindo doações para instituições. O lugar
resta dúvida de que, na imensa maioria das é um ponto relevante de circulação de dinheiro na
vezes, ocupam as posições mais subalternas, metrópole26,48.
mais submetidas à violência e privações de toda A ciclofaixa em uma das grandes avenidas
ordem, e que são excluídos da esfera dos direi- que cercam o Largo dos Jasmins é usada, na con-
tos da cidadania. Por isso mesmo, reagem atual- tramão, por catadores de material reciclável, que
mente aderindo a outras ordens, nas quais têm me falam de dinheiro, depois de duas ou três fra-
muito mais protagonismo e ganhos simbólicos, ses. Estão ali porque a faixa exclusiva também
como veremos. Não há dúvida, tampouco, de torna mais segura a rolagem de suas carroças
que estão incluídos como inimigos na figuração puxadas à mão, os protege (e a seus cachorros)

IX
No prefácio à terceira edição de Filosofia do Dinheiro, David Frisby28 nota XI
As relações que George Simmel53 faz entre o caráter blasé metropolitano e
que: “A work which focuses upon the money economy as a site of modernity a economia monetária interessam ao argumento desse artigo: “A essência do
and upon the role of money in a mature capitalist society as the universal me- caráter blasé é o embotamento frente à distinção das coisas; não no sentido
diator between things, as the universal equivalent of all values, gives attention de que elas não sejam percebidas, como no caso dos parvos, mas sim de
to the sphere of circulation, exchange and consumption. Our participation in tal modo que o significado e o valor da distinção das coisas e com isso das
the money economy necessitates entering a sphere in which we are distanced próprias coisas são sentidos como nulos. Elas aparecem ao blasé em uma
from objects by means of a mediator, in which we participate in a ‘labyrinth of tonalidade acinzentada e baça, e não vale a pena preferir umas em relação
means’ and abstract relations between things, in which the dynamic mediator às outras. Essa disposição anímica é o reflexo subjetivo fiel da economia
of all values ‘emerges as the secure fulcrum in the flight of phenomena’.(...) monetária completamente difusa. Na medida em que o dinheiro compensa
This sphere of money exchange itself acquires an autonomy in which exchange de modo igual toda a pluralidade das coisas; exprime todas as distinções
‘is not the mere addition of two processes of giving and receiving, but a new qualitativas entre elas mediante distinções do quanto; na medida em que
third phenomenon”28 (p.xix). o dinheiro, com sua ausência de cor e indiferença, se alça a denominador
X
Segundo Simmel55, “Man’s position in the world is defined by the fact that in comum de todos os valores, ele se torna o mais terrível nivelador, ele corrói ir-
every dimension of his being and behavior he finds himself at every moment remediavelmente o núcleo das coisas, sua peculiaridade, seu valor específico,
between two boundaries. This condition appears as the formal structure of sua incomparabilidade. Todas elas nadam, com o mesmo peso específico, na
our existence, filled always dith different contents in life’s diverse provinces, corrente constante e movimentada do dinheiro; todas repousam no mesmo
activities, and destinies. (...) The boundary, above and below, is our means for plano e distinguem-se entre si apenas pela grandeza das peças com as quais
finding direction in the infinite space of our worlds” (p.1-2). se deixam cobrir”53 (p.581-582).

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

do trânsito feroz. Os ciclistas, amantes do espa- dinheiro, desdenhando de alguém, mais ou menos
ço público, passam pelas carroças em capace- assim: “O problema é que ele acha que tem dinhei-
tes coloridos, bermudas acolchoadas, e saúdam ro... tem o cenzinho mil guardado, a mulher dele
seus puxadores com toda a civilidade: “Tira essa ganha uns 15 mil por mês...”. Eu e o carroceiro nos
porra daí, ô caralho!”. De chinelo e pés gastos, o entreolhamos. Ele estranha minha cumplicidade,
carroceiro – Jair – se enfurece: “Porra não! Pooo- não deveria ser assim, mas cita os Racionais para
orra não! Porra é o seu cu, filho da puta!”. E sai eu ouvir: “Eu só registrei, né? Nem era de lá...”,
resmungando alto, gesticulando amplo. Em meio sorrimos, eu sei o que a citação quer dizer, trans-
à multidão, entretanto, sou o único a ouvi-lo; e só formada em provérbio. E completo a estrofe: “Os
porque estava ali para isso mesmo. Ao me ver mano tudo só ouviu, ninguém falou um “a”/Quem
sorrindo bem perto dele, o homem se volta a mim tem boca fala o que quer, pra ter nome...”; damos
e esbraveja: “Nós que tamos na rua é proceder risadaXII. Enfim, algo comum entre nós. A cidade
de cabo a rabo! Mas se quiser arrumar (confu- é muito conflito. Tiro algumas fotos dele e do ca-
são), arruma também! Arruma sim!!!”. chorro. A carroça segue e, já ao longe, seu dono
Puxo assunto. Ele faz menção de me xingar esbravejava contra outro ciclista.
– eu me pareço muito mais com o ciclista do que Os personagens:
com ele, afinal. Mas desiste, ao mesmo tempo eu Se alguns passam, mais ou menos rapida-
lhe dava atenção. Ainda assim, Jair aperta minha mente, outros ficam e dormem no Largo, às vezes
mão com muito mais força do que deveria. Sente por anos. D. Zezé, que antes recolhera as latas de
raiva. Me mostra sua carroça, e tira dela uma sa- alumínio, está há mais de dez anos por ali. Ela or-
cola com muitos fios de cobre (para mostrar-me ganiza detalhadamente seu material, coletado em
o tesouro, obtido no dia, que diz que vai render muitos sacos plásticos, de diferentes cores. Mas
quase R$20). Mostra-me que ela tem valor, que é para três meninos de rua que meu olhar se dirige
não deveria ser tratada assim. Me avisa, em se- mais atentamente, é neles que se fixa: o menorzi-
guida, que tem uma “quadrada” [arma de fogo] nho, Pingo, não tem mais de 7 anos de idade; os
escondida ali. Não tem, evidentemente, mas não outros dois talvez 9 e 11. Os três pequenos estão
se conforma com o xingamento do ciclista, queria acompanhados por Bia, menina de 20 anos, cabe-
tê-la, volta a falar dela em seguida. Conta-me, na los crespos presos para trás, vestindo top curto e
sequência, que ganhou R$ 50 de uma senhora shorts jeans, chinelo, roupa de casa. Os meninos
pela manhã, de esmola, que fumou um (baseado, estão sem camisa, de bermudas, chinelos, bonés.
“paranga” de R$10) e guardou R$ 40 para bebida As camisetas estão estendidas nos arbustos, tor-
e ‘aditivos’ da comemoração de natal. “Vou pas- nados varais, de casa. Olho para eles, o maior me
sar suave”, me diz. Como pode o ciclista xingar olha também, aceno com a cabeça.
sua carroça, ignorar suas virtudes? Observo-os por minutos, e depois caminho
Jair faz todo dia o percurso da Rua Augusta pelo Largo perdido em pensamentos. Volto ao
até o Jabaquara, ida e volta. Olhos verdes, mãos chão quando dois dos meninos passam correndo
muito grossas, dentes completamente podres e
um cachorro bem cuidado o acompanham: “esse
cachorro é de grife”. Ao nosso lado, um homem ne- XII
A letra citada é parte da canção “Jesus Chorou”, dos Racionais MC’s, prin-
cipal grupo de rap paulista. No contexto da canção, um rapaz negro e jovem,
gro, camisa rosa de colarinho, bem passada, anda que fala demais após fumar um baseado, difamando os parceiros, é obser-
vado com reprovação pelos colegas. Moralidades marginais em construção.
com outros dois homens de negócios, falando de Jair se referia a isso, ao ver outro rapaz negro falando demais, ao telefone.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

por mim, rápido, com uma mochila preta na mão, velho, sem perceber - muitos o fazem). E prossi-
“dando fuga”. Imagino que a tinham roubado de go: “foi por causa daquela mochila que eles ta-
alguém. Olho imediatamente para trás, de onde vam levando?” Não. “Não é roubada não”, ele me
vinham. Por que fugiam bem pelo meio da praça, diz. Haviam recolhido suas roupas rapidamente,
não por outra rota? São crianças, pensei. Mas são do varal, e as levavam na mochila, ao avistarem
crianças de rua, malandros, também pensei. São? a polícia. Eu continuo: “que aconteceu, os homi
Será que estou vacilando? E minha mochila? Não tavam na bota deles, né? Vocês conhecem esses
estou com ela. Confiro meus bolsos, meu celular polícia?”. Ele acena positivamente com a cabeça,
segue ali, não fui roubado. Uma viatura da Polícia são conhecidos, fazem rondas de rotina por ali; e
Militar passa por dentro do Largo, enquanto isso, me conta que vieram porque eles haviam atacado
no encalço dos pequenos. Os policiais olham pa- os entregadores de panfleto.
ra todos com ar entediado - rotina. Logo depois
– o diabo e os “vermes”
deles, Pingo, o mais novinho, vem andando len-
“Nós foi pra cima daquele cara lá, que falou
tamente, agora vestindo uma blusa de frio cinza
que ia tacar fogo em nós quando nós tivesse dor-
escura, sem camisa por baixo. Eu tinha reparado
mindo... Aquele verme lá, chama polícia toda hora
nele minutos antes - por que trocara de roupa?
pra nós, fi! Nós já falou pra num chamar, ele vai e
Para “se disfarçar”, claro. Ele levanta o ca-
chama! - Que cara, o do bar?”, eu pergunto. “Não,
puz enquanto eu me dava conta disso. A blusa é
aquele de amarelo lá, do outro lado da rua”. Vejo
muitos números maior que o dele, como o boné.
um sujeito com camisa amarela a cem metros
Ele caminha como um menininho, de rua, meio
malandramente. Mas está só, uma criança que de nós, imagino ser aquele. Ainda em dúvida, lhe
perdeu sua referência. Chega perto de mim, eu pergunto outra vez, para me certificar: “Que ca-
o acolho com o olhar, o movimento das sobran- ra é esse, o de camisa amarela?’. O menino já
celhas. Recosta-se no banco onde estou, fica a meio cansado da minha falta de percepção, insis-
um metro de mim. Pergunto: “e seus parceirinhos? te: “...o do outro lado lá, que mexe com coisa de
Passaram rápido aqui hein?”. Ele me olha e seu diabo. diabo?”, pergunto. “É, do diabo, fi!, ele me
rosto de criança me marca, sinto muita compai- reafirma muito convicto, já conformado com mi-
xão. Desconfia, mas têm medo nos olhos. Suas nha demora em entender, meio desinteressado
sobrancelhas esquerdas, sob o boné grande de por isso mesmo, e observando tudo à volta mui-
aba reta, têm estética bem cuidada: risquinhos to atentamente, tenso, querendo encontrar seus
raspados, estilo favela. Seu corpinho de criança é, parceiros. Vendo que eu prosseguia perguntando,
ao mesmo tempo, de músculos definidos, exerci- me diz: “foi esse mesmo que tentou agredir meu
tados no dia-a-dia, corpo menos infantil que a ida- irmão”. Finalmente vejo o homem-placa do outro
de. É uma criança, não é mais. Expressa no corpo lado da rua. Não a camisa, mas a placa que por-
as marcas do conflito urbano. Suas palavras são tava nas costas, sobre a cabeça, anunciado seus
tão objetivas quanto só as palavras de crianças serviços, é que era amarela. Continuo a conversa
podem ser. Mas as preocupações não: “Por onde com Pingo: “Vocês três são irmãos? eu pergunto.
eles foram?”, me pergunta; “Viraram ali à esquer- Não, só o menor é meu irmão”.
da, perto da entrada do metrô, não vi mais eles”. “Olha lá os meninos!”, eu digo. Os dois,
Ele precisa saber, está só: “Atravessaram a rua?”. que haviam fugido deixando-o para trás, já es-
“Não sei, cara” (eu o trato como se fosse mais tavam de volta para buscá-lo. Acenando para o

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

meu interlocutor desde o outro lado da rua, in- e aparece um segundo rapaz, Orelha, 20 anos de
terrompem nossa conversa. Ele vai encontrá-los, idade, ainda mais bem vestido que Dionísio, tam-
de imediato, muito feliz, já conversando aos gri- bém calçando tênis Nike.
tos com eles. Eu fico sabendo, com meus parcei- Ao chegar, Orelha cumprimenta os meninos
ros, de como a confusão tinha começado: Pin- um a um, com muita consideração. Todos juntos,
go e seus dois companheirinhos, armados com inicia-se uma resenha rápida entre eles, sob uma
lâmpadas fluorescentes compridas e um cabo das árvores do Largo – “as ideia”, o debate, pa-
de vassoura, haviam atacado um “homem-placa” ra sumariar, como dizem, a situação ocorrida. O
que distribuía panfletos oferecendo serviços de que aconteceu? Como todos se portaram, quais
leitura de sorte no Largo. Tinham-no feito correr, as reações, quem está certo, quem está erra-
por isso a polícia apareceu. O conflito foi traduzi- do? Eu chego a poucos metros para acompanhar
do por Pingo em termos neopentecostais, velho- a discussão, muito interessado. São tantos os
-testamentistas: Tarô, “coisa do diabo”. transeuntes que os meninos não notam minha
Depois de se enfrentarem fisicamente, e presença próxima. Depois da resenha rápida,
tendo equilibrado suas forças, os dois lados da Dionísio e Orelha, os dois “disciplinas”, dois me-
contenda buscaram reforços, na tentativa de ex- ninos com postura de homens, dirigem-se imedia-
pulsar os oponentes. Ambos têm a quem recor- tamente aos entregadores de panfleto; argumen-
rer, em busca de justiça, na São Paulo contempo- tam por um minuto e, não obtendo sucesso, uma
rânea. Os meninos de rua, de seu lado, imedia- nova cena de conflito se estabelece. Bia, Pingo e
tamente buscaram o “crime”, chamando à cena seu irmão correm até lá. Quando argumentos não
“disciplinas” do tráfico de drogas localXIII. Argu- bastam, a força aparece. Gritaria, ameaças e, na
mentaram junto aos rapazes que conhecem, du- confusão, vejo Pingo avançar por detrás dos de-
as quadras abaixo, que o entregador de panfletos mais, pequenininho, postura bélica, portando seu
os agredira e ameaçara atear-lhes fogo. Quando cabo de vassoura, destemido; os rapazes todos
voltaram à praça depois de fugir da polícia, por is- correm atrás dos entregadores de panfleto, que
so, o irmão e o amigo de Pingo não estavam sós. são forçados a recuar, fugir do lugar. Os meninos
Junto com eles, Dionísio, de 17 anos, na função haviam vencido outra batalha, Pingo retornava
de ‘disciplina’, viera averiguar o que acontecera. com seu cabo de vassoura partido ao meio.
Também de “bombeta”, bermuda e camiseta, pe- Os meninos todos se reúnem novamente
le escura, calçando um tênis Nike, tatuagens no embaixo de uma árvore do Largo, sorridentes,
antebraço, o rapaz tinha o perfil imediato do jo- animados. Eu me aproximo e eles estão comen-
vem encarcerado de São Paulo; mas jamais se- tando a cena, revisitando as falas da contenda:
ria confundido com um morador de rua. Bia, que “Vai tacar fogo em quem, maluco? Cê é louco?”.
os acompanhava e havia igualmente desapareci- Dão risadas, satisfeitos. Reparo, nesse momen-
do, também retorna com eles. Mais um minuto, to, que um menino bem jovem, Arrelia, magro,
com o rosto maquiado como palhaço e uma pe-
XIII
Rapazes que tem como responsabilidade, pela consideração que têm dos
ruca de cabelos azuis enrolados, chapéu por ci-
demais parceiros de atividade, a manutenção da ordem em espaços nos ma, entra na praça. Ele, que vinha para traba-
quais atuam, intermediando debates sobre quaisquer situações de conflito.
Dionísio e Orelha não eram irmãos, membros batizados do Primeiro Comando lhar com malabares no semáforo, também estava
da Capital, mas sabiam bem como se age em contexto de conflito, na era PCC
em São Paulo. Sobre a operação cotidiana do senso de justiça do PCC em acompanhando o desenrolar do conflito em meio
São Paulo há uma bibliografia recente vasta: Biondi4; Feltran16,17, 18 , Hirata36;
Malvasi42; Marques45, entre outros. aos passantes. Arrelia então também se junta ao

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

grupo, feliz e falando muita gíria. A chuva começa- A praça era deles, nesse momento. Olho pa-
va, era esperado que alguns se abrigassem sob ra todos sob a árvore, uma luz bonita da tarde,
a árvore. Ainda assim, Dionísio alerta aos demais da chuva chegando, iluminava os rostos. Bia co-
sobre minha presença, desconfiado, e todos me menta que a chuva estava apernando: “agora tá
olham em seguida. Pingo diz que já tinha fala- molhando!”. Eu repito a mesma frase, levantando-
do comigo. Percebendo a situação, falo com eles -me. A cena se desfaz, contingente. Arrelia se le-
demonstrando ter entendido o que acontecera, vanta, se despede no seu estilo engraçado: “Falô
participando da brincadeira de todos com Pingo, rapa! Falô malocada, Falô geral! Eu fui!”. Corro
o mascotinho que voltara da batalha com seu ca- até um dos bares populares do Largo. Olho para
bo de vassoura quebrado. Eles olham para mim, trás e já não vejo os meninos sob a árvore, nem
sorrimos uns aos outros. Arrelia também se posi- em nenhuma outra parte. Não sei como desapa-
ciona demonstrando estar do mesmo lado - ele é receram tão rápido.
bem novinho, uns 14 anos, bem branquinho, cara – trabalhadores, patrões, policiais,
de estudante de ensino público. Quando abre a camelôsXIV
boca, só sai gíria, eu acho engraçado e dou risa- Tomo uma coca-cola no bar. A chuva arrefe-
da, os demais também. Rimos todos da maneira ce. Dois policiais a pé atravessam o Largo pelo
como ele, figura aparentemente tão frágil, falava caminho que os meninos fizeram em seus ata-
como homem feito: “É! Ameaçou, ameaçou, e aí? ques e suas fugas. Em seguida, permanecem
E pra fazer? É homem pra ameaçar tacar fogo postados, de braços cruzados, exatamente no
nos moleques, mas não pra fazer? Aí rapa, a rua local em que os entregadores panfletavam. Não
é a rua!”. Todos sorriem, os meninos tinham um há dúvida: eles haviam sido chamados para uma
palhaço malandro e um tiozinho que os haviam ronda por ali. O movimento de pedestres retoma-
assistido, estavam com eles. A rua tem momen- va seu vigor. Mais cinco minutos e a dupla de po-
tos engraçados, de felicidade, é preciso aprovei- liciais refez o caminho, no sentindo contrário, de-
tar. Todos sabiam que a polícia voltaria à carga. saparecendo próximo ao terminal de ônibus. Os
Dionísio e Orelha, que foram chamados, es- homens-placa, então, retomaram suas atividades
tão satisfeitos, dão retaguarda aos pequenos, no mesmo ponto em que estavam, distribuindo
estão no centro da roda, cercados pelos meni- seus panfletos anunciando leitura de tarô, agora
nos e por Bia, que sorri feliz para eles. Assim uns mais próximos dos outros.
se reforçam laços: Dionísio e Orelha trabalham Se os meninos tinham ido buscar reforços
na biqueira mais próxima, os meninos fazem pe- junto aos “disciplinas” do tráfico local, os homens-
quenos “corres” para eles (levar um dinheiro, uma -placa haviam relatado o ocorrido aos seus pa-
trouxinha, um pino, pegar uma cerveja) e todos trões, que por sua vez buscaram reforço policial.
se ajudam na necessidade. São traficantes? Se- Os patrões, inclusive, apareceram em seguida: um
riam, se pegos pela polícia - mesmo Pingo, aos 7 casal de jovens empresários brancos, “de classe
anos de idade. Assim se tecem amores: Orelha e média”. Fui em sua direção, claro. Peguei um dos
Bia já estavam lado a lado. Dionísio e ele foram panfletos que distribuíam, parei e li interessado,
chamados, disciplinaram o homem-placa do dia- enquanto escutava a conversa entre eles. O jovem
bo, o puseram para correr. “Macumbeiro do ca-
ralho! Vai vender essas porra na casa do chapéu
agora!”. Todos sorriam. XIV
O verso é parte da letra “A Cidade”, de Chico Science e Nação Zumbi, de 1994.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

patrão tentava acalmar seus trabalhadores: “Olha, lhes ofereciamXV. Mas não resta dúvida: com o
tranquilo, já conversei com o responsável da po- movimento que há por ali, outros assumiriam es-
lícia, ele já tá sabendo; vai intensificar as rondas sa função, em breve. A partir desses enfrenta-
bem aqui. Falou que teve assaltos na região, que mentos corriqueiros, desses conflitos na base da
são esses meninos, que eles já estão de olho”. hierarquia social, territorializam-se as fronteiras
Eu estava literalmente ao lado deles, escutando de alteridade entre grupos sociais, mas também
a conversa, mas o fluxo de gente é tamanho que entre setores legais e ilegais da economia, pro-
sequer me notaram. Isso se repetia, pensava so- tegidos cada um por seus agentes de regulação
bre isso. Os empregadores tentavam fazer seus (que têm suas normas, moralidades e valores e,
funcionários não desanimarem do trabalho, claro. no limite, sempre estarão dispostos a usar a for-
Tentavam dar o suporte para que prosseguissem ça em suas funções).
sua panfletagem, sua atividade econômica. O ho-
mem que mais enfrentara os meninos, nitidamen-
te, estava contrariado. Olhava para os empregado- Regimes normativos de ordenamento urbano
res dizendo: “se continuar assim, eu quero meu Jair, D. Zezé e Pingo, é claro para quem os
dinheiro e vou embora. Negro, diz querer uma rela- vê de perto, são perfis totalmente diferentes de
ção de trabalho justa: desse jeito não tem condi- ‘moradores de rua’. Ao observador externo, entre-
ções”. Negro, funcionário, não acredita no patrão, tanto, fazem parte de um mesmo ‘tipo de gente’,
que diz que a polícia vai ajudar. Mas tampouco, que se reproduz trazendo problemas para a ci-
seguramente, bota muita fé na capacidade bélica dade. Uma população que também inclui outros
dos meninos. E quer se diferenciar deles. Volta ao marginais: presidiários, prostitutas de rua, usuá-
seu lugar, segue panfletando; atravesso a rua, re- rios de crack, trecheiros, favelados em geral13. Se
torno, passo novamente por ele e pego mais uma a cidade é muito conflito, eles estão do mesmo
vez o panfleto, observando o modo como ele con- lado e, seguramente, se reconhecem hoje como
versa agora com seus colegas, demonstrando a em um mesmo lado, formando uma comunida-
descrença na resolução do conflito. É muita gente de distinta da minha por uma fronteira difícil de
passando. O patrãozinho jovem se afasta, os me- transpor, nos cotidianos. Comunidade política,
ninos de rua não aparecem mais. porque ritualiza suas normatividades, seus códi-
Os policiais de fato passam mais intensa- gos de conduta, valores, devires compartilhados.
mente, nas horas que se seguem, e que sigo ob- E que busca meios materiais para seguir existin-
servando o Largo dos Jasmins. Por algum tem- do, expandindo-se. Daí seu empenho em expan-
po a ordem estava garantida pela presença po- dir os mercados que pode controlar.
licial. Os meninos desapareceram do Largo nas Grupos marginalizados de São Paulo erigem
semanas seguintes, os homens-placa seguiram a “guerra ao sistema” (que inclui a guerra ao diabo)
ali durante todas as vezes que estive no local. A como a grade de plausibilidade mais legítima pa-
biqueira na qual Dionísio e Orelha trabalhavam ra sua ação cotidiana. A performance mais ou me-
seguiu funcionando a duas quadras do Largo. nos virtuosa de cada sujeito, tendo por base essa
Os meninos, entretanto, perderam por algumas
semanas seu “posto avançado” no Largo dos
Jasmins, ou seja, perderam a capilaridade dos XV
Algo muito similar ocorreu em outras situações em que acompanhei a rela-
ção entre pontos de venda de droga e policiamento, como em Feltran17. Vale,
negócios que Bia, Pingo, seu irmão e seu amigo também aqui, o modelo de “relações com a polícia” proposto por Whyte60.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

matriz valorativa, define as reputações para mais estatal minimiza a expansão do “crime” nessa di-
ou para menos, parametra o arbítrio em situações reçãoXVI. Mas a proposta de monetarização das re-
de contenda, torna-se critério de comparação entre lações sociais, de ampliação da mediação do di-
situações em que há de se fazer justiça. Moralida- nheiro, conecta essas ordens justamente por ser
des, códigos de conduta, normatividades, sensos o dinheiro desprovido de qualidades substantivas
de justiça coexistentes. A avaliação das performan- em seu cerne; eis o caminho contemporâneo mais
ces, nesse regime normativo, independe do dinhei- profícuo para a expansão do “mundo do crime”,
ro que um ou outro possuem: trata-se de saber ar- que favorece explicitamente pequenos e grandes
gumentar, desenrolar, debater, sempre procurando patrões, de negócios legais e ilegais. Não o ca-
evitar os desfechos violentos, à espreita. Guerra minho moral, legitimar seus valores e sensos de
ao sistema, ente tão presente quanto perverso, co- justiça. O caminho do dinheiro, que não encontra
mo o diabo, que “fode tudo ao seu redor”, como diz resistência de ninguém: “quanto mais você tem,
o rap. A norma é combater o sistema, “correr pelo tanto mais você quer”.
certo”, e mais ainda para quem tem o compromis- A cena aparentemente irrelevante dos meni-
so com o “crime”, quem corre com o “Comando”. nos de rua se enfrentando com entregadores de
É evidente, no entanto, que “bater de fren- panfleto é de riqueza analítica notável, por isso
te com o sistema” não é a única referência para mesmo. Nesses rituais cotidianos33 de recurso
a ação observável desses atores, até porque se à força e posterior justificação57, o que está em
sabe que, no limite, ou seja, quando se precisa questão é nada menos do que a construção dos
recorrer à violência, a correlação de forças lhes é critérios de plausibilidade da ordem social, e dos
muito desfavorável. Conflitos de magnitudes diver- atores da ordem urbana, ordem também mercan-
sas, tais como os crimes de maio em 2006, as til. Se aquele não fosse um ponto comercial im-
chacinas de Sorocaba em 2012 ou de Osasco, em portante, o conflito não aconteceria. Não se trata
2015, demonstram a desproporção de força em de um problema moral - os meninos roubam, os
favor do sistema. O confronto rotineiro entre meni- entregadores são do diabo. Trata-se, sobretudo,
nos de rua e homens-placa no Largo dos Jasmins, de um conflito por posições frente ao mercado
também. Os meninos não têm nenhuma condição informal-ilegal que se territorializa na praça. Ago-
de se contraporem à força dos policiais militares ra está mais evidente o lugar que a dimensão mo-
do lugar, nem ao dinheiro dos patrões dos ho- netária do dispositivo das drogas, em geral oculto
mens-placa, que os colocam ali. O PCC tampouco na produção cotidiana da ordem urbana como or-
tem poderio bélico para enfrentar a polícia paulis- dem moral, ocupa em nosso problema.
ta, que tem efetivo de mais de 130 mil policiais – ordem, dinheiro e drogas
militares, cerca de 30 mil civis, em 2016. Do alto de uma escada enorme, um homem
Todo regime normativo se ampara, em última conserta a fiação do poste com seu macacão
análise, na possibilidade de recorrer à força legíti- azul, botas pretas, sem luvas. Uma menina muito
ma weberiana, para produzir ordem. Em São Paulo,
coexistem tanto a ordem estatal, quanto a do “cri-
me”, ambas com setores populacionais distintos XVI
Concordo com Luiz Antonio Machado da Silva que, em comunicação pessoal,
me sugeriu considerar o regime normativo evangélico, ainda em franca expan-
as legitimando, ambas com possibilidade constru- são nas periferias urbanas, como um regime de mediação entre as duas ordens
econômicas e armadas que provém do “crime” e do direito estatal. O regime
ída por décadas de recurso à força armada, se evangélico, em termos teóricos, difere dos demais, sobretudo por não possuir
recurso à violência disponível, ao menos ainda, para impor suas premissas
necessário16,20,21. A muito maior capacidade bélica localmente. Mas o dinheiro também circula por ele de modo crescente.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

masculina (ou será um menino, será ele “trans?”) operação é regulada pelo Primeiro Comando da
segura um skate e tem pernas cabeludas; um ra- Capital, o inimigo público número um, em São
paz muito jovem responde mensagens no celular; Paulo. É a guerra contra “marginais” como Pingo,
três estudantes filmam algo seriamente, deve ser ainda que ele tenha 7 anos de idade, que objeti-
um vídeo para trabalho de escola. Policiais mi- va a guerra contra o “crime”, ainda que o dinheiro
litares, brancos e negros, homens e mulheres, que ele ganhe seja bem-vindo nas lanchonetes
fazem ronda. Negócios, trabalho, estudo, tempo do Largo dos Jasmins. Ser marcado como inte-
livre, outra vez; gênero, raça, sexualidade; agen- grante do “crime”, ao contrário de D. Zezé, é a ca-
tes estatais e não estatais; geração, classe, per- tegoria fundamental que situa Pingo do lado de lá
formances sociais muito marcadas pela desigual- da guerra urbana. Na guerra, o Estatuto da Crian-
dade. O Largo é heterogêneo e a construção de ça e do Adolescente não deve operar, a situação
nossos juízos se faz associando, por conexão es- é de exceção.
tética, as grandes categorias de sentido. A des- A centralidade do tráfico de drogas para
crição etnográfica, por isso mesmo, aposta que essa marcação, e em especial a disputa pela
para além de marcar as grandes categorias de economia do tráfico, estrutura as posições fren-
essencialização - pobre, hetero, preto e jovem, te ao conflito urbano. Pingo está ali combatendo
em suas múltiplas combinações - podem também “vermes” e o “diabo”, seus adversários na ter-
focar nas mediações que as situam em lugares ra, “pelo certo”, na sua concepção infantil. Com
de sentido distintos: há muitos tipos de morado- sua idade já aprendeu que o sistema é injusto,
res de rua, como Pingo e D. Zezé, como muitos preconceituoso, agride a ele e aos seus, não os
tipos de “trans”: uns são “travecos”, outros são reconhece como pessoas, os quer matar incen-
cross-dressers. É importante notar que eles têm diados, os ignora e humilha cotidianamente. Re-
lugares distintos na política de lugares sociais, força a percepção da justeza de sua guerra ao ver
situacionalmente associados ou não: cross-dres- que os “vermes” da polícia se associavam aos
sers são tão discriminados pela Igreja Católica “vermes” do diabo. Percebe ainda mais justeza
quanto travecos, mas não pela polícia; D. Zezé é em sua guerra quando recorre aos “disciplinas”
tão moradora de rua quanto Pingo, mas a ordem com seus parceirinhos, sendo prontamente aten-
urbana a aceita no Largo por mais de uma déca- dido; Dionísio e Orelha são por ele considerados,
da, enquanto expulsa Pingo e seus colegas dali prezam pela ordem, têm proceder, e ainda vivem
depois de algumas semanas. ostentando valores. Vencem, inclusive, a primei-
A questão se relaciona, basicamente, à in- ra batalha, quando se enfrentam na mão com os
tensidade do conflito urbano que um e outro po- entregadores, em situação justa. Só abandonam
dem causar. Pingo, aos 7 anos de idade, já está a luta quando a polícia chega, “aí é covardia”. Pin-
situado na ponta de lança desse conflito (ele par- go sabe, entretanto, que para muito “Zé Povinho”,
ticipa, além das marginalidades de rua, de uma ele é um marginalzinho e poderia morrer. Mas só
“rede de relações” criminais que efetivamente a justiça divina é real. Deus é o juiz, ele está do
disputa a circulação de dinheiro dos mercados lado “certo”.
ilegais, seus pontos, seus lucros). Não é ape- A questão parece ser inteiramente mo-
nas uma criança de 7 anos que a polícia reprime ral - não há uma dimensão econômica explíci-
na praça; é a capilaridade social e, sobretudo, ta nessa disputa, na perspectiva de Pingo, por
econômica do tráfico de drogas, cuja norma de mim reconstruída. Os meninos não enfrentam os

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

entregadores de panfleto por dinheiro, em sua (ou prestam outros favores) para que os policiais
percepção. Creem que são homens como quais- reforcem a ronda ali, protegendo seus funcioná-
quer outros homens, que têm de combater os rios, portanto seus negócios. Dionísio e Orelha,
que os combatem, resistir, aprendem assim des- na operação da biqueira em que trabalham, se-
de muito novos, muito antes de se tornarem adul- guramente também convivem com o pagamento
tosXVII. Não se sentem funcionários de uma rede rotineiro a policiais – talvez não os mesmos que
multimilionária de negócios transnacionais, como os expulsaram da praça – fazerem vistas grossas
o tráfico de drogas. Não se sentem precarizados, ao funcionamento de seu negócio.
só estão “no corre”. “De igual”, em sua concep- Há dinheiro mediando o conflito entre os
ção. Mas eles mesmos se interessam muito, e meninos de rua e os entregadores de panfleto,
progressivamente mais, pelos bens de consumo na medida em que circula de seus mercados
que o mundão oferece. “Você é o que você tem”. àqueles que os protegem imediatamente. Mas
Os empregadores dos entregadores de pan- também entre os disciplinas e patrões que estão
fleto não pensam no “certo”, nos termos dos me- por detrás deles e as polícias estatais. Patrões
ninos de rua ou do PCC, evidentemente. Nem em negociam esses valores. Há dinheiro, portanto,
Deus nos mesmos termos. Mas têm a absoluta sendo agenciado pelas moralidades e normati-
convicção de que agem de modo correto, pagan- vidades em questão. Há mercados, moralmente
do seus funcionários, fazendo um negócio lícito, regulados, e nessa fronteira a droga tem um pa-
“não roubam ninguém”. Por isso chamam a polí- pel fundamental, na medida em que é o negócio
cia para se proteger – e a seus funcionários – da- ilícito que estrutura todos os demais, pela sua
queles que são bandidos, criminosos, ainda que organização transnacional e sua capacidade de
entre eles haja a uma criança de 7 anos, outros acumulação, capilarização e distribuição de ren-
dois de 9 e 11 anos de idade. Para eles os meni- da, sendo ainda assim fortemente moralizado.
nos de rua devem ser presos, como eu os ouvi di- A normatividade moral-religiosa de grupos
zer explicitamente. E eles, patrões e seus funcio- fortemente marginalizados é velho-testamentista,
nários, estão ali trabalhando, portanto devem ser em cenário de expansão pentecostal agressiva45.
protegidos. Mercado informal, não importa, mas A normatividade político-econômica do “crime”,
é trabalho, deve ser protegido pelos policiais, pe- que incide ativamente sobre a produção da or-
lo Estado, por razões evidentes. dem urbana em locais próximos a pontos de ven-
da de drogas no varejo, é igualmente velho-testa-
mentista. Ambas são funcionais a um dispositivo
Considerações finais moral-econômico-político de mercado, que reivin-
Sabemos, ao menos desde os trabalhos dica legitimidade pública à propriedade privada e
fundadores de Whyte60 e de Michel Misse44, separação estanque entre mercados e moralida-
no Brasil, como funcionam as mercadorias po- des, admitindo a desigualdade social desde que
líticas em atividades econômicas como as que se pregue a igualdade política. O PCC, ator funda-
estão em pauta, informais, ilegais; seguramen- mental na regulação prática da vida no crime, na
te os patrões, trabalhadores, pagam “por fora” rua, na cadeia e nas instituições de internação
em São Paulo, é profundamente moderno nessa
medida. Não importa quanto dinheiro você tenha,
Sobre a masculinidade nesses contextos, Gimeno30 oferece insights rele-
XVII

vantes. se você é patrão ou empregado: importa que é

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

um “irmão, é sujeito homem” – até que se prove 5. Biondi K, Marques A. Memória e historicidade em
o contrário – e pode falar “de igual”. De um la- dois “comandos” prisionais. São Paulo: Lua Nova. 2010;
79:39-70.
do, extrema capacidade de vocalização do sujeito
6. Birman P, Machado CB. A violência dos justos: evangé-
(até Pingo, de 7 anos, deveria ser ouvido na rese- licos, mídia e periferias da metrópole. Rev. Bras. Ci. Soc.
nha), de outro, legitimação para a desigualdade (Impresso). 2012; 27(80):55-69.
econômica crescente entre os “irmãos”. 7. Cabanes R. Economie morale des quartiers populaires de
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sociais, resulta a ordem urbana - tão contingente
9. Côrtes M.. O mercado pentecostal de pregações e teste-
quanto concreta. Nela se constrói o dispositivo munhos: formas de gestão do sofrimento. Relig. Soc. (Im-
das drogas. E a ordem momentânea, inclusive a presso). 2014; 34(2):184-209.
que estabiliza esse dispositivo, se candidata a se 10. Cruz E. O valor do certo: uma etnografia urbana da cir-
tornar norma na medida em que essas ações se culação e da moral entre adolescentes periféricos. Projeto
de Pesquisa de Mestrado em Sociologia. São Carlos: UFS-
repetem e, ao fazê-lo, se constroem como rotina.
Car; 2015.
A ordem urbana é, em termos práticos, a resul-
11. Costa GVL, Oliveira GF. Esquemas de fronteira em Co-
tante, sempre situada, do conflito ocasionado pe- rumbá (MS): negócios além do legal e do ilegal. Dilemas:
la coexistência entre diferentes normatividades, Revista de Estudos de Conflito e Controle Social. 2014;
que em última instância têm o recurso à força co- 7(2):207-232.
mo modo de legitimação. Quando a ordem urba- 12. Dassi T. “A vida é loka”: experiências e moralidades en-
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na vira guerra, a força se dirige a todos os inimi-
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a tendência é que não haja outro valor de media- tivas. Ed 1. Florianópolis: UFSC; 2012. p.151-186.
ção tão aceito quanto o dinheiro. As drogas, e os 13. De Lucca D. L’invention de la population de rue. In: Ca-
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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

A política de enfrentamento como produtora


de dano: a epidemia de crack no contexto da
saúde pública contemporânea
The policy of confrontation as a creator of harm: the crack epidemic in the context
of contemporary public health

Isabela BentesI

I Resumo Abstract

O artigo apresenta os resultados de uma pesquisa realizada entre The essay presents the results of a research done through the years
os anos de 2012 a 2014, na cidade de Natal - Rio Grande do Nor- of 2012 to 2014, in the city of Natal - Rio Grande do Norte, located in
te, localizada no nordeste do Brasil, região com maior número de Northeastern Brazil, region with the greatest number of crack users in
usuários/as de crack do país, em que tinha por objetivo investigar the country, with the goal of investigating how the discourse of crack
como o discurso da epidemia de crack foi capaz de mobilizar a for- epidemic was capable of mobilizing the elaboration of public policies
mulação de políticas públicas em saúde a fim de diminuir os danos in health in order to reduce the damage caused by abusive crack use
provocados pelo uso abusivo de crack e de situações de vulnerabi- and of the associated situations of vulnerability. The intent of this re-
lidades associadas. A intenção desta pesquisa veio contribuir com search is to contribute with the debate that has been made evident,
elementos no debate que tem sido evidenciado em que a opção por in which the option for characterize the drug situation as a health, not
caracterizar a questão das drogas como saúde, e não segurança public security, question has been established as the hegemonic dis-
pública, tem fundamentado o discurso hegemônico de combate ao course in the fight against crack. The methodology initially came from
crack. A metodologia partiu inicialmente de uma análise sistemática a systematic analysis of journalistic articles published in the newspa-
de matérias jornalísticas publicadas no jornal Tribuna do Norte en- per Tribuna do Norte between the years of 2010 and 2014, used data
tre os anos de 2010 a 2014, utilizou dados da pesquisa “Perfil dos from the research “Perfil dos Usuários de Crack e/ou Similares no Bra-
Usuários de Crack e/ou Similares no Brasil”, assim como a realiza- sil” (Profile of users of crack and/or similars in Brazil.), as well as the
ção de entrevistas semiestruturadas com agentes do plano “Crack implementation of semi-structured interviews with agents of the plan
é Possível Vencer” e de agente do programa “Consultório de Rua”. “Crack é Possível vencer” (Crack, it is possible to win) and of agents of
Concluiu-se que o discurso da epidemia, longe de qualquer relação the program “Consultório de Rua” (Street Clinic). It was concluded that
com os determinantes epidemiológicos da saúde pública, ela é ca- the discourse of an epidemic, far from having any relationship with the
racterizada a partir da construção social do pânico moral e da histe- epidemiologic determinants of public health, is characterized through
ria social protagonizado fundamentalmente pela mídia e pelo poder the social construction of moral panic and social hysteria led funda-
público, e legitimados pelo saber médico dominante. Na implemen- mentally by the media and by public power, and legitimised by the do-
tação do plano “Crack é possível Vencer” concluiu-se que, longe de minant medical knowledge. In the implementation of the plan “Crack,
atender aos usuários/as em situação de vulnerabilidades através é possível Vencer” it was concluded that, far from aiding the users in
dos acessos às redes de saúde e assistência social, ele foi capaz vulnerable situations through access to the health network and social
de intensificar o processo de administração da exceção através do assistance, it intensified the process of an administration of excep-
aumento repressivo nas cenas de consumo de crack, amplificando tion through increased repression in the sites of crack consumption,
os processos de produção de dano à saúde pública. amplifying the processes of damage production to public health.

Palavras-chave: Epidemia, Crack, Saúde. Keywords: Epidemic, Crack, Health.

I
Isabela Bentes (isa.bentes@gmail.com) é Cientista Social pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, Mestre em Sociologia pela Universidade de
Brasília. Atualmente é doutoranda em Sociologia – Cidades e Culturas Urba-
nas da Universidade de Coimbra, e integrante do Núcleo de Estudos Interdis-
ciplinares sobre Psicoativos- NEIP.

|41
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução organizada e distribuída a partir de determina-

O
das práticas procedimentais7. Tal discurso, es-
artigo traz à tona o debate acerca das
truturado a partir de atuações fundamentalmen-
políticas de enfrentamento ao crack, em
te da mídia e da classe política do país, baseou-
especial, o programa “Crack é Possível
-se em uma noção de que algo deveria ser feito
Vencer”, do governo federal em parceria com os
para combater esse mal iminente que vinha des-
governos estaduais e municipais, que apresenta
truindo famílias e levando os jovens à condição
a questão da prevenção, do cuidado e da segu-
de indigência, lançando mão de uma subjetiva-
rança como estratégia para findar o consumo de
ção imagética em que as figuras dos usuários
crack no Brasil. Inserido no conjunto de políticas eram associadas a “zumbis”, e que era neces-
públicas de enfrentamento ao crack, foi realiza- sário combater o vetor dessa moléstia que ma-
do após pesquisa nacional encomendada pela taria o indivíduo em pouco tempo e que, portan-
Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas to, deveria ser combatida: o crack. Tal fenômeno
(SENAD) à Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), que não é exclusivo no Brasil: os Estados Unidos lan-
sistematizou o perfil dos usuários de crack e/ou çou, em primeira mão, o discurso da epidemia
similares nas 26 capitais brasileiras e no Distrito do crack em torno de 1980, discurso respon-
Federal, apontando a existência de 370 mil pes- sável por um crescente número de publicações
soas que fazem consumo regular de cocaína fu- nos principais jornais, descrevendo histórias as-
mada – crack, pasta base, merla – o que corres- sustadoras, fazendo o então presidente Ronald
ponde à 0,8% da população das capitais4. Reagan discursar cadeia nacional de televisão
Esta política estruturou-se a partir da or- sobre a tolerância zero e a formulação de cru-
dem de um discurso baseado na fundamenta- zadas contra esse “mal” como meios de com-
ção epidemiológica do consumo de crack, em bater o crack. A mídia, a guardiã do consenso3,
que sua produção foi controlada, selecionada, instrumento por excelência da difusão desse

|42
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

discurso, garante e legitima um controle social de interesse7. Partindo deste cenário, as políticas
ainda maior da população, principalmente àque- de enfrentamento ao crack, foram destrinchadas
la que corresponde a uma identidade “suspeita” ao longo desse artigo.
e responsável pela disseminação desta molés-
tia: o povo negro e empobrecido pelo capital.
Reinarman e Levine8 lembram que esse período, Método
conhecido como drug scare em referência ao red Muitos dos dados aqui apresentados foram
scare implementada pelo presidente McCarthy resultados das discussões da equipe de Natal
em 1950 ao referir-se à política de combate ao – Rio Grande do Norte, durante a pesquisa do
comunismo, iniciou a histeria midiática e a aten- “Perfil dos Usuários de Crack e ou Similares nas
ção política a partir dos anos 1980, quando o 26 capitais e DF”, composta por antropólogos,
formato da cocaína fumada apareceu em alguns sociólogos, cientistas sociais e enfermeiras. O
bairros empobrecidos, embora desde 1970 já te- método adotado na primeira etapa da pesquisa
nha havido a explosão do consumo de cocaína. consistiu no mapeamento das cenas de consumo
A construção social da epidemia de crack, existentes na cidade de Natal, que serviram à se-
que herdou tal conceito para referir-se a tal mani- gunda etapa da pesquisa, em que os endereços,
festação de uma doença, utilizando o termo utili- horas e dias da semana foram pré-determinados
zado para falar sobre a propagação de doenças, pela FioCruz para realização de recrutamento de
como a malária, a peste negra, a gripe espanhola usuários, entrevistas e testagens. Assim, foram
e o HIV/aids, foi instrumentalizada para a realiza- adotadas duas metodologias na pesquisa: a Time
ção de políticas emergenciais legitimadas a partir Location Sampling (que possibilitou o acesso às
de um pânico moral e de uma histeria social que populações flutuantes de usuários de crack e ou
implica na reação oficial fora de proporção fren- similares e seus padrões de consumo nas cenas
te a usuários, conclamando especialistas a falar de consumo) e a network scale-up, que viabiliza a
“em uma só voz” sobre taxas, diagnósticos, prog- estimativa de usuários de crack no país.
nósticos e soluções6. Tal epidemia, portanto, trata As entrevistas foram realizadas em escolas
de um episódio em que um determinado grupo de e pontos de atenção à saúde da cidade de Natal,
pessoas passa a ser definido como perigoso aos sempre próximos das cenas de consumo, confor-
valores e interesses societários, apresentado de me nos encaminhamentos da coordenação geral
forma estereotipada pela mídia e estigmatizado da pesquisa. Uma equipe dirigia-se às possíveis
por barricadas morais mobilizadas por editores s cenas de consumo em determinados hora e dia,
mídia, bispos, políticos e especialistas socialmen- com uma hora de antecedência visando à obser-
te aceitos1. Formuladas as condições para a pro- vação do local e início do processo de aproxima-
pagação do pânico moral que apresenta o uso co- ção com os/as usuários/as presentes naquela
mo algo negativo, irracional e lamentável, promove “cena”, quando eram entregues instrumentos de
incidentes chocantes e medos ampliados10. redução de danos, como preservativos e instru-
A análise desse movimento é, portanto, um ções de diminuir o dano provocado pelo uso abu-
instrumento que permite entender como temores sivo do crack, além de ser feito o convite para
e preocupações expressam lutas de poder entre participar do estudo.
grupos sociais, valores e normas, uma vez que Para aqueles/as que apresentavam inte-
esses nunca são espontâneos e desprendidos resse em participar eram entregues convites

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

nominais com o local a comparecer para a reali- de crack; políticas públicas sobre crack e outras
zação da entrevista. Chegando ao local, o usuário drogas; pesquisas sobre drogas, religião, família;
era encaminhado para equipe entrevistadora, pa- eleição e drogas) – categorias formuladas para
ra responder a um questionário que identificava localizar somente os textos com notícias e ma-
a sua trajetória de vida, padrões de consumo de térias de todo o estado do Rio Grande do Norte.
drogas e envolvimento com a Justiça. As entre-
vistas tinham duração, em média, de 25 minu-
tos, quando depois eram encaminhados/as pa- Resultados e discussão
ra testagem de HIV/aids, através do teste rápido O material catalogado sobre crack no jor-
HIV-1/2 na Bio-Manguinhos em que, através dos nal Tribuna do Norte resultou em 719 notícias
coquetéis de antígenos presentes, pode-se de- de 2010 e 2014, tratando: 353 notícias sobre
tectar a presença de anticorpos específicos da apreensão, crimes relacionados tráfico de dro-
infecção pelo HIV tipos 1 e 2 e, em seguida, eram gas, 93 sobre os usos do crack, 12 sobre polí-
realizados os testes das hepatites viraisII. ticas públicas sobre crack e outras drogas, 14
Dando continuidade às entrevistas, poste- sobre pesquisas a respeito de droga, 12 sobre
riormente se tentou contatar a maior parte dos religião, família e drogas e 9 sobre eleição e
responsáveis pelo comitê gestor do plano “Cra- drogas, demonstrando que o tema se tornou re-
ck é Possível Vencer”, da cidade. Entretanto, só corrente nas mídias. As publicações realizam a
duas entrevistas semiestruturadas foram realiza- construção de um cenário grotesco, formulando
das: uma com a responsável pelo segmento das uma identidade social de usuários/as em situa-
políticas de saúde adotadas no plano, uma vez ção de extrema indigência, em que se estabe-
que não foi possível identificar os outros atores lecem “cenas” em que há o consumo recíproco
sociais envolvidos da formulação, implementa- de uma substância antropomorfizada: usuários/
ção e aplicação deste programa na cidade, e a as consumindo e sendo consumidos pelo cra-
outra com um agente de redução de danos do ck. Essas cenas, cunhadas pejorativamente de
programa “Consultório de Rua”, em que possibi- “cracolândia”, são traduzidas como um todo ho-
litou determinar as ações junto a essa determi- mogêneo para todas as regiões do país, des-
nada população em situação de vulnerabilidades considerando particularidades de dinâmicas e
associadas. fluxos que existem em cada local. Tal constru-
Posteriormente, foi realizada uma análise ção imagética é tomada como referência para a
sistemática de matérias jornalísticas publicadas constituição de uma noção epidêmica em que a
online no jornal local Tribuna do Norte, durante os questão central não é a difusão de uma determi-
anos de 2010 a 2014 – período de implementa- nada doença em larga escala, mas sim a ideia
ção dos planos de enfrentamento ao crack. Es- de que, no primeiro contato com o crack, o indi-
sas matérias foram categorizadas conforme os víduo já se torna dependente, portanto, um do-
subtemas: apreensão, crimes relacionados tráfi- ente que foi infectado por um vetor contaminado
co de drogas; os usos do crack; mortes por uso junto ao qual o óbito será imediato.
Contrapondo este cenário, a catalogação
das reportagens permitiu verificar que não hou-
II
Os testes de escarro para identificação de doenças pulmonares não foram ve nenhum registro de mortes decorrentes ao
realizados por falta de equipamentos disponíveis nos centros de atendimen-
tos de saúde básica da cidade de Natal. uso do crack, ou seja, casos de overdose ou

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

outras causas relacionadas diretamente ao uso entanto, essa teatralização na política não condiz
dessa substância. Entretanto, há um mecanis- com os dados retirados da pesquisa da FioCruz,
mo semântico em que mortes relacionadas ao que estabelece que esses usuários consomem,
crack (ou seja, mortes associadas ao mercado em média, 16 pedras por dia4.
ilegal das substâncias psicoativas tornadas ilí- A conjuntura brasileira permitiu o surgimen-
citas) são tomadas como fundamento de uma to da discussão de que a questão das drogas
relação de causa-efeito, onde o se estabelece não deveria mais ser tratada como questão de
que o crack leva o indivíduo à morte, não ques- segurança pública, mas sim como um caso de
tionando a estrutura social alicerçada nas dinâ- saúde pública. Entretanto, a fundamentação pu-
micas da cadeia produtiva posta na ilegalidade nitivista continua predominante nas políticas pú-
dessa substância, bem como o aumento da re- blicas sobre drogas, fazendo que não haja, es-
pressão, dos conflitos gerados pela disputa de sencialmente, distinção entre saúde pública ou
território do varejo das drogas, dos acertos de segurança pública e termine adotando modelos
contas, dentre outros instrumentos extralegais de intervenção que reforçam o estigma, a exclu-
deste mercado. são social e a higienização dos espaços públicos
Ao destrinchar minuciosamente os fatos tra- das cidades.
zidos no jornal, percebeu-se que existe um dispo- O plano “Crack é Possível Vencer” tem es-
sitivo de agendamento diário em que as matérias se modelo e foi o maior projeto de caráter nacio-
e reportagens são lançadas com diferentes títu- nal de combate ao crack a reforçar esse discurso
los, embora possuam, em seu conteúdo, a repe- através do financiamento e parcerização das cha-
tição de algo já publicado anteriormente. Ou se- madas “comunidades terapêuticas” como instru-
ja, as matérias editadas diariamente fazem com mento do Sistema Único de Saúde. Essas insti-
que exista permanentemente abordagem acerca tuições, em sua maioria, são de caráter religioso
do crack. Na pesquisa, observou-se 59 notícias e ausentes de estrutura e de profissionais espe-
relacionadas à apreensão de crack, que geraram cializados que possibilitem, de forma integral, a
118 matérias com títulos e datas diferenciados, atenção aos internados compulsoriamente em
porém de mesmo conteúdo. situação de abuso de substâncias psicoativas ilí-
Em relação aos dados jornalísticos obser- citas. Vale ressaltar que profissionais da saúde,
va-se que, em período pré-eleitoral e em conso- como psiquiatras, psicólogos e terapeutas ocu-
nância a megaeventos ocorridos no Brasil, há o pacionais apontam a baixa eficácia do tratamen-
perceptível o aumento de projetos de lei e de am- to de usuários em situação de abuso internados
pliação de políticas públicas sobre drogas, como, compulsoriamente2.
por exemplo, a massificação de ações de interna- Esses resultados apresentados constituem
ção compulsória para indivíduos em situação de o pânico moral e histeria social deste tempo. Tais
abuso. Numa delas, descreve que o deputado fe- elementos, vai dizer Tonry10, apontam:
deral Osmar Terra, autor de um projeto de lei que “Moral panic was something negative, irrational,
endurece a política sobre drogas no país, teria and regrettable; shocking or frightening incidents
subido ao púlpito do Parlamento com um saco na occurred, raw emotions took over, fears magni-
mão simulando que ali continha a quantidade de fied, panic set in, inhibitions weakened, and public
pedras que um usuário de crack consumiria em officials overreacted. Whether, however, the result
um dia – algo em torno de 50 a 100 pedras. No of a moral panic is negative and to be regretted

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

depends on its nature and result, and who makes Considerações finais
the assessment” (p.86).
9
As políticas de enfrentamento às drogas tra-
zem consigo o fundamento da prevenção ao crime,
Thompson9 (p.4) afirma que muitas pessoas
ou seja, a eliminação de um potencial criminoso, ou
que acreditam que a sociedade esteja ameaça-
no caso, daquele visto como “doente” que precisa
da moralmente creiam que ela necessita de um
ser resgatado. Entende-se que essa população usu-
renascimento dos valores tradicionais, o que as
ária de drogas como o crack, em sua maioria negra,
levaria a defender uma forma idealizada do que
pobre e vulnerável socialmente tem recebido uma
teria sido a ordem social do passado. No entan-
dupla associação punitivista, tanto nos segmentos
to, no que diz respeito às drogas, falar em ordem
da segurança pública, como da saúde pública, pre-
social do passado não significa resgatar seus pa-
sentes nos discurso da união das forças institucio-
drões de consumo, de produção e de comércio
nais e da sociedade civil para derrotar este mal.
regulados. Ao contrário, significa manter a ordem
O sentimento geral de terror na sociedade ga-
social do passado que conquistou políticas de
rante que toda política em caráter emergencial de
proibição associadas aos discursos de abstinên-
enfrentamento tenha plena aceitação, reforçando
cia do uso de qualquer droga hoje ilegal.
paradigmas médicos que fortalecem as formas tra-
A situação de pânico social, portanto, es-
dicionais de punição como tratamento, traduzindo-
conde as desigualdades sociais, os processos de
-se em internações forçadas, fortes relações com
exclusão social dos indivíduos com direitos nega-
instituições religiosas, utilização de trabalhos for-
dos, camuflando através do discurso da epide- çados (ou a chamada laborterapia), etc, que se re-
mia, que estabelece relação de causalidade en- velam nas denúncias de maus tratos e estruturas
tre o consumo de crack e a pobreza. Entretanto, precárias de atenção, negação das identidades di-
a realidade social apresenta o consumo de crack, ferenciadas transformadas em patologiaIII, onde as
assim como o uso abusivo de álcool, não como propostas de “cura” associadas a abstinência sig-
geradores da pobreza, mas sim como derivados nificam a abrupta retirada do indivíduo de seu meio
dela: indivíduos usuários que formam essa mas- social o que resulta no rompimento de relações so-
sa marginal têm situação de pobreza anterior ao ciais já estabelecidas com outros indivíduos de si-
consumo. O discurso da epidemia, dessa forma, tuação semelhante, isolando-os em instituições to-
é mais um instrumento manipulador a ocultar as tais, vigiando-os e punindo-os pelos atos “errône-
raízes da desigualdade social e da exclusão so- os” promovidos ao longo da vida pregressa dos/as
cial, da pobreza e de outros fatores associados a usuários/as em situação de abuso. Desta forma,
essas situações de vulnerabilidade. as políticas de saúde e segurança possibilitaram o
Ao dissimular a pobreza como causa do uso enrijecimento da política criminal e a produção de
de crack, o pânico moral afirma-se como mais dano social através de políticas de enfrentamento
um dispositivo de controle social disciplinador às drogas, que na atual conjuntura não têm previ-
da sociedade a uma ordem hegemônica, relação são de serem revisadas, tampouco refundadas.
Estado-sociedade onde o primeiro estabelece
práticas de vigilância e controle para que seja
possível a manutenção do privilégio de exercer III
Por exemplo, a população transexual, assim como a de profissionais do
sexo, que registra alto consumo de crack, é associada ao uso por ter sua si-
o aparato de controle social e das situações de tuação de subjetividade particular questionada, situação frente a qual muitas
vezes a “cura” para a droga, na verdade reveste a não discussão de sua
desigualdade. situação de discriminação social e de gênero.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Referências 5. Foucault M. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola; 2004.


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sites/www.icict.fiocruz.br/files/Pesquisa%20Nacional%20 american penal culture. New York: Oxford University Press;
sobre%20o%20Uso%20de%20Crack.pdf. 2004.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Crack - entre deslocamentos, territorializações e


resistências: uma caça às bruxas contemporânea
Crack – among the displacements, dominion and resistances: a contemporaneous witch hunt

Laís RosattiI

Resumo Abstract

O uso de substâncias psicoativas foi uma prática necessária na vi- The use of psychoactive substances was a practice needed on the
da individual e comunitária do ser humano. Para diversas socieda- individual and the community life of human beings. In many socie-
des, o espaço de lazer sempre esteve associado à ideia do “estar ties, the space of leisure had always been associated to the idea of
fora de casa” - a margem do domínio imposto pela representação staying “out of home” - on the edge of the dominion imposed by the
do poder familiar - para estar em um espaço de trânsito, de transe, family power representatives - to be instead on a state of transition,
de lazer. Entre deslocamentos e territorializações, o crack migra of trance, and of fun. Among of dislocations and territoriality, the
para a região central da cidade de São Paulo e configura novas crack migrates to the central region of São Paulo City, and configu-
lógicas de apropriação, que serão alvo de demonstrações de força res newappropriation logics, that will be the target of power demons-
exercidas através da hegemonia do Estado e do paternalismo da trations carried out through the State’s hegemony and medicine’s
medicina. Assim, busca-se analisar dilemas Bioéticos que surgem paternalism. Thus, Bioethics dilemmas that come since the moment
a partir do momento em que há conflitos entre a determinação in that there are conflicts between the determination to keep the
para assegurar a autonomia pessoal do indivíduo e o autocontrole personal autonomy of the individual, and the self-control to protect
para proteger a autonomia do outro. Quando se desloca o caráter the autonomy of others, is analysed.. When the ethic character of
ético das relações humanas para uma tecnificação dos problemas human relations is exchanged for a technification of the ethical pro-
éticos - onde as questões humanas passam por um juízo moral blems - where the human problems pass for a moral judgment that
que as substitui por problemas técnicos especializados e suscetí- transforms them into specialized technical problems susceptible to
veis de soluções profissionais que interferem na esfera individual professional solutions that intervene on the individual sphere - it
- significa submeter-se à esfera de influência que transfere ao Es- means to submit yourself to the sphere of influence that transfers to
tado e à medicina o direito de decidir sobre a vida, e sobre o que the State and to medicine the right to decide about life, and about
diz respeito à ética da vida. what concerns to the ethics of life.

Palavras-chave: Bioética; Crack; Cidade. Keywords: Bioethics; Crack; City.

I
Laís Rosatti (laisrosatti@usp.br) é especialista em Direito Penal e Processual
Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Bioética pela
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Pesquisadora Douto-
randa em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade
de São Paulo.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução ácido lisérgico), além de fungos e cogumelos

S
visionários. Com essa variedade de drogas, e
abe-se que, em determinadas socieda-
a potência que deriva de suas misturas, um
des, o homem afastava-se da casa para
bruxo europeu competente poderia induzir
laborar, ausentando-se, muitas vezes, por
variados transes” 9 (p.53).
longos períodos. À mulher, no entanto, era atri-
buída a função de cuidar das lavouras, da pro- Muitas substâncias, a exemplo das solaná-
le e das tarefas domésticas. Com isso, em suas ceas – tais como a beladona, a datura e a man-
tarefas rotineiras, teria descoberto as proprieda- drágora - foram largamente utilizadas não só em
des psicoativas de muitas plantas e fungos, com rituais e cerimônias, como também na vida secu-
as quais passou a ter uma profunda relação de lar. O vinho, muito associado ao deus grego Dioní-
conhecimento e prática, passando a desenvolver sio – ou Baco para os romanos – era considerado
pomadas, unguentos, elixires, bebidas, entre ou- um símbolo ritualístico para uns e de paganismo
tros. Para Antonio Escohotado9, e heresia para outros. Algumas tradições abstê-
“As fórmulas de unguentos que nos transmi- mias afirmavam, inclusive, que quando Lúcifer
tem Cardano ou Porta, não só continham ha- caiu dos céus, se uniu a Terra e produziu a videi-
xixe, flores de cânhamo fêmea, ópio e solaná- ra9. Com isso, muitos fiéis e adeptos aos cultos
ceas, se não também ingredientes de alta so- oferecidos a Baco foram perseguidos e acusa-
fisticação como a pele de sapo (que contém dos de heresia, pois, sob o efeito do vinho ou de
Dimetiltriptamina ou DMT) ou farinhas conta- substâncias análogas, lhes era imputado o envol-
minadas por ferrugem (que contém amida do vimento em orgias e bacanais que comumente

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

ocorriam nos campos e florestas. Sabe-se que se reinseriram na sociedade, não como uma prá-
esses locais eram preferencialmente utilizados tica amadora de mulheres camponesas em es-
como espaços de transe, facilitado pelo contato treita relação com o sobrenatural, mas enquanto
direto com a natureza e seus elementos – ou se- instrumento de um saber médico:
ja, se deslocavam para um espaço fora do âmbito “Superar a caça às bruxas incluía duas par-
característico da submissão e do recato próprio tes. Primero era necessário reduzir o reputa-
dos espaços domésticos. Assim, emergiu uma damente sobrenatural a algo prosaico, como
horda que suscitou a mistificação de certas con- as propriedades de certas plantas. Logo, era
dutas responsável por condenar um sem número preciso mostrar que o prosaico apresentava
de mulheres, na sua maioria, às fogueiras: grande utilidade para todos, sendo pura e
“Na realidade, quanto mais sofresse a bruxa nes- saudável medicina”9 (p.64).
te mundo menos havia de padecer no outro. Is-
Contudo, o julgamento depreciativo sobre o
so explica também que lhe podia ser negado um
livre arbítrio não padronizado das formas de alte-
advogado defensor, e que os atalhos comuns não
ração da consciência se revela nas condenações
serviriam; ainda que o esposo atestasse tê-la visto
moralistas, notadamente porque a consciência
dormir ao seu lado, por exemplo, era aconselhável
transcende a qualquer conhecimento empírico.
desconfiar, pois “a mulher poderia estar na orgia,
Segundo Cláudio Cohen e Flávio Carvalho Ferraz6,
e ter na cama um demônio transfigurado com seu
Sigmund Freud teria arrolado três grandes golpes
aspecto”. Tampouco é prova de inocência resistir à
narcísicos da humanidade: o cosmológico, o bio-
tortura, pois tais coisas frequentemente devem-se
lógico e o psicanalítico, de modo que:
a “encantamento diabólico”9 (p.55-56).
“Este último atingiu o sujeito da certeza e da
A questão que envolveu as substâncias psi- razão, à medida em que a psicanálise, descre-
coativas permeou a medicina e a religião em um vendo o inconsciente, apontou para o fato de
contexto transversal de devoção e cura; que vi- que a existência de uma consciência não era
ria a determinar mais tarde quem seriam os su-
condição suficiente para que o indivíduo fosse
jeitos centrais de inúmeros conflitos. Assim, em
completamente senhor de si. A descoberta de
um primeiro momento, a gênese da questão teria
Freud demonstrava que um indivíduo se en-
sido designada pela consequente formação de
contrava sujeito a aspectos inconscientes que,
pequenos grupos que se unificavam em um es-
influenciando profundamente sua configura-
paço determinado com o mesmo objetivo de alte-
ção psíquica, não se deixavam sujeitar pela
rar seus estados de consciência compartilhados
consciência ou pela razão”6 (p.39).
com seus grupos de referência, bem como pelo
que viria a ser a estratificação de seus bodes ex- Portanto, é pretenso mensurar e realizar ju-
piatórios reconfigurados nas gerações vindouras ízos de valor sobre os estados de alteração de
e com a mesma memória histórica. consciência, quando não se pode determinar exa-
Com passar do tempo, as mesmas substân- tamente o que é a consciência, tampouco seus
cias – antes condenadas enquanto objeto simbó- limites. Autores como Gilberto Velho21 reforçam
lico e irrefutável da prática de heresia – passa- essa ideia:
ram a fazer parte de uma nova construção que “Faz parte de um conjunto ao qual pode es-
veio a se pautar nos discursos sustentados por tar integrado de modos distintos. Por meio
médicos e boticários, de modo que aos poucos da antropologia e da história, sabemos como

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

diferentes culturas criaram um espaço pró- suas dinâmicas temporais e espaciais, bem co-
prio para o consumo dos mais variados tipos mo às suas práticas comunitárias. “Portanto, não
de drogas, muitas vezes em contextos reli- estamos falando de uma sociedade de pequena
giosos, em rituais e cerimônias específicos. escala, tribal ou camponesa, mas de um mundo
Registram-se diversos casos em que a droga metropolitano na sociedade industrial de gran-
é um veículo privilegiado para a comunicação des números e extrema diversidade”.21 (p.26). A
com o mundo dos espíritos e com o sobrena- partir do momento em que a manutenção de um
tural”21 (p.26). controle social passou a favorecer – de diferen-
tes maneiras – a disputa pelo território em um
No entanto, há muito se buscou na limita-
jogo de interesses muito presente nas dinâmicas
ção da soberania do indivíduo, sua sujeição à
que envolvem fronteiras e definições morais pa-
autoridade social da qual é parte integrante, a
ra sociedades padronizadas, o conceito de caça
fim de exercer juízos de valor sobre sua capaci-
às bruxas também se deslocou de um Estado te-
dade de autodeterminação e de adequação aos
ológico para um Estado terapêutico, que agora
arquétipos de uma normalidade já estabelecida,
se volta contra novos “desajustados sociais” e,
visando manter ditames de um poder coercitivo
consequentemente, com novas lógicas para lidar
contra todas as formas de obtenção de prazer
com as “bruxas” contemporâneas.
sobre o corpo e sobre a consciência e valendo-
Para diversas sociedades, os espaços
-se, para tanto, de um ideário segregatório e de
de divertimento sempre estiveram associados
acompanhamento curativo para tais “condutas
à ideia do “estar fora de casa”, desde a mais
desviantes”.
tenra idade. O “furtar-se” do lar para estar nos
Para de Gilberto Velho, não há como pres-
espaços comunitários, por exemplo, demonstra
supor comportamentos e atitudes homogêneos
que em tais áreas se permitia realizar tudo aqui-
dentro do que se costuma chamar de “mundo
lo que no âmbito do lar era sabidamente vigiado
das drogas”, pois, trata-se de uma noção muito
ou proibido. A rua sempre foi caracterizada pelo
ampla a partir da qual é preciso estabelecer dis-
movimento: o trânsito, o transe, o lazer. É por si
tinções e particularidades. Assim,
só, um lugar de transformações físicas, mas tam-
“Essas diferenças, até certo ponto, acom-
bém, de estímulos das mais diversas formas de
panham as fronteiras da estratificação so-
percepção e de alteração de consciência. A rua
cioeconômica mais geral. Mas associam-se
é sinônimo de liberdade. É a margem do domínio
também a distintas orientações e tradições
imposto pela representação da casa e do poder
culturais e às particularidades no consumo
familiar. É um espaço de identificação com o tem-
de drogas específicas como maconha, coca-
po e com o território, quer seja simbólico ou real.
ína, crack, ácido, álcool, etc. Historicamente,
Contudo, a percepção transversal da vida
por sua vez, a mesma droga pode apresentar
que acontece na rua, subtrai de um sujeito seu
usos e padrões de consumo muito diferencia-
direito a estar “na rua” e é substituída arbitraria
dos”21 (p.24).
e quase automaticamente pela construção ide-
Portanto, nota-se claramente que o uso de ológica de um sujeito “da rua”, utilizando práti-
substâncias psicoativas está presente na socie- cas reiteradas que estabelecem um processo si-
dade, acompanha e se transforma com ela ao lon- lencioso de institucionalização do ser humano e
go do tempo, pois a ela se adequa e também às de gentrificação urbana. Tal fato ocorre em um

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

processo que constrói, no ideário social, uma meretrício estava oficialmente confinado, mais
perspectiva facetada de um “submundo” e de precisamente no entorno das ruas Itaboca e Ai-
uma “sub-humanidade” que emerge como uma morés. Porém, com um decreto governamental
“mancha” na cidade, a partir da criação e repro- que colocou termo às atividades do meretrício
dução de uma nova característica de desajuste com o consequente fechamento das chamadas
social que surge a partir das margens. zonas, a prostituição passou a se deslocar e a
se estabelecer mais precisamente na região dos
Campos Elíseos, formando as primeiras “man-
A presença do crack nas regiões marginais chas” que demarcavam um território que seria
urbanas – o caso do Centro de São Paulo denominado “Boca do Lixo”, nas imediações das
Através dos relatos trazidos por Heroito de ruas e avenidas como a dos Timbirás, São João,
Moraes Joanides13, por exemplo, é possível re- Barão de Limeira, Duque de Caxias, largo General
alizar um recorte de como o fim das zonas de Osório e a dos Protestantes, ocupadas por toda
prostituição, que funcionavam na região central sorte de seres marginais13.
da cidade de São Paulo, tornou mais evidente a Todavia, o que se estava a extinguir, na ver-
circulação e o tráfico de substâncias psicoativas dade, não era a prostituição em si, mas a área de
que, na verdade, sempre estiveram presentes co- confinamento, o que levou muitas daquelas mu-
mo um pano de fundo no local. Segundo o autor,
lheres a migrarem para cidades interioranas, on-
o conceito de submundo não se caracteriza por
de as casas de tolerância ainda eram regulamen-
um local qualquer de determinada cidade, mas
tadas. Já as mulheres que por alguma razão não
sim, se define como:
podiam ou não queriam se valer dessa prerrogati-
“O conjunto de seres humanos que nela vi- va, habitavam pequenos quartos localizados nas
vem, à margem da lei ou dos bons costumes, proximidades das estações ferroviárias da Luz e
bem como a ambiência dentro da qual os Sorocabana, onde surgia uma nova modalidade
seus destinos se arrastam. É pois designativo de prostituição, agora negociada a céu aberto.
mais de classe, digamos assim, que propria- Tal fato ocorreu, segundo o autor, porque as ferro-
mente de local, já que os lugares frequenta- viárias e os portos eram caracterizados pela pas-
dos por aqueles que a ela pertencem, onde sagem obrigatória de grande fluxo de pessoas
se reúnem, residem ou exercem os seus mis- que, ao migrarem de uma localidade à outra, se
teres ilícitos, pode que sejam vários e disper- estabeleciam temporariamente em suas adjacên-
sos, espalhados por toda a extensão de uma cias pela facilidade de mobilidade e pela proximi-
cidade grande. Em algumas cidades, porém, dade das regiões centrais. Com isso, Joanides13
pode vir a ocorrer que um grande número de infere que, atrelada à figura de estigma da “mu-
marginais acabe por se concentrar num mes- lher da vida”, havia a representação masculina do
mo local. A causa de tais concentrações, o malandro, ou seja, daquele que se valia de sua
foco que atrai, arregimenta e aglutina essas atividade ilícita ligada à prostituição – como no
populações de proscritos é, invariavelmente, caso dos rufiões e dos exploradores do lenocínio.
a prostituição”13 (p.25). Isso abriu precedentes para que outros modos
O autor refere que até a década de 1950, de delinquência aderissem aquele modo de vida
o “submundo” urbano paulistano estava con- territorializado e fossem a gênese de inúmeros
centrado no bairro do Bom Retiro, onde ainda o conflitos. Com a dispersão da prostituição para

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

outros locais, a presença dessas substâncias – precisamente nas ruas do Bronx, em Nova York, e
antes figurante – começa a se destacar, aos pou- em seguida chegou no Brasil. Não se sabe ao certo
cos ganha contornos e se torna protagonista de como e nem por intermédio de quem – e ainda se
uma nova dinâmica urbana. configura um mistério os porquês – a substância
A circulação e o comércio de muitas substân- ter se instalado, em princípio, na periferia da região
cias nas regiões centrais ocorreram a partir de um leste da cidade de São Paulo. No entanto, há algu-
grande fluxo de pessoas que se deslocavam dos mas hipóteses. De acordo com Escohotado9, uma
bairros mais afastados para os grandes polos ur- das possíveis razões que teriam sido propulsoras
banos em busca de melhores oportunidades de vi- da gênese do crack na América Latina
da e de trabalho. A cocaína, por exemplo, se apre- “Deriva de restrições à disponibilidade na
sentava como uma substância capaz de provocar América Latina de éter e acetona – substân-
alterações de consciência que favoreciam a manu- cias imprescindíveis para transformar a pas-
tenção dos estados de vigília e de atenção, além ta base em cloridrato de cocaína – seguin-
de ser símbolo do luxo e do status social, própria do diretrizes da DEA norte-americana, logo
das classes mais elitizadas da sociedade. Se, por apoiadas pela ONU. Já antes de a autoridade
um lado, a cocaína foi o apanágio que estava ao internacional se decidir a entorpecer o uso
alcance das classes mais favorecidas, por outro, – destes precursores, nos países produtores
e anos depois – o surgimento de uma substância de cocaína era tão custoso obter e armaze-
alternativa derivada e mais acessível como o cra- nar éter e acetona como folhas de coca. Bas-
ck, foi, em um primeiro momento, a personificação tou estorvar ainda mais sua obtenção para
da pobreza e por isso usado pelas “camadas mais que começassem a exportar pasta base, e
baixas da população, como os meninos de rua e o picaresco mercado negro norte-americano
os mendigos do centro”19 (p.69). fez o resto. O crack é um efeito da guerra à
Assim, é possível ressaltar que com o adven- cocaína, e concretamente das medidas toma-
to do crack, outras substâncias solventes e inalan- das contra os dissolventes necessários para
tes, até então facilmente adquiridas e comumente sua purificação”9,III (p.182).
utilizadas nos espaços públicos – tais como cola
Tudo indica que as principais causas foram
de sapateiro, o cheirinho da loló, o lança-perfume,
as barreiras formadas contra países, como a Bo-
entre outras – foram perdendo adeptos e pas-
lívia, no que tange à importação brasileira da
saram a ceder espaço a uma nova e promisso-
coca e a necessidade indispensáveis de instala-
ra substância que emergia no mercado paralelo:
ção de refinarias em outras localidades. Não se
mais barata, de efeito mais rápido e menos da-
pode determinar a veracidade total dos dados
nosa em relação à cocaína aspirada ou injetadaII.
trazidos por Uchôa19, todavia, é interessante
É consenso entre autores que lidam com o
assunto, que as primeiras aparições do crack surgi-
ram nos Estados Unidos na década de 1980, mais
Tradução livre: “Deriva de restricciones a la disponibilidad em Lationoamérica
III

de éter y acetona – sustancias imprescindibles para transformar la pasta base


em clohidrato de cocaína – seguiendo directrices de la DEA norteamericana,
luego apoyadas por la ONU. Ya antes de que lá autoridad internacional se de-
cidiera a entorpecer el uso de estos precursores, em los países productores
II
Isto porque, desde o seu surgimento até o presente momento, não se tem de cocaína era tan costoso obtener y almacenar éter y acetona como hojas de
notícias ou indícios de casos de óbito por overdose de crack, e problemas coca. Bastó estorbar aún más su obtención para que empezaran a exportar
respiratórios que eventualmente foram diagnosticados, não se divergem dos pasta base, y la picaresca del mercado negro norteamericano hizo el resto. El
comumente apresentados por usuários de quaisquer substâncias fumígenas crack es um efecto de la guerra a la cocaína, y em concreto de las medidas
legalizadas, como o tabaco. tomadas contra los dissolventes necesarios para sú purificación9 (p.182).

|53
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

considerar o fato de que seus argumentos se- favelas, a maior violência era institucional, produ-
guem no mesmo sentido: zida através das chacinas praticadas pelas polí-
“A pressão policial no início dos anos 80 para cias que encontravam suas vítimas preferenciais
identificar os laboratórios de refino de cocaína nas “rodinhas de consumidores”.
que começavam a se instalar em algum dos Contudo, sabe-se também que o advento
pontos dos Estados Unidos forçaram os trafi- do crack foi um elemento desestabilizador de um
cantes a “terceirizar” a função de refino com mercado em consolidação e é notório, ainda hoje,
grupos de outros países. O crack teria surgido que não há mercado de drogas sem que haja pro-
no momento de maior pressão da polícia e de teção ou interesse policial. Assim sendo, trata-se
maior dificuldade para exportar a massa, por apenas um recorte horizontal no plano micro que
exemplo, para o México e Peru. A solução foi dialoga com todas as formas de corrupção que
“trabalhar a massa” que estava parada para assolam o país verticalmente no plano macro.
não perder dinheiro. Assim, a criação do cra- Em pouco tempo, os grandes fluxos migrató-
ck teria sido motivada por esses fatores: gran- rios e deslocamentos espaciais das periferias pa-
de quantidade de pasta-base e dificuldade de ra o centro de São Paulo – enquanto processo de
manda-la para o refino, trabalho que necessi- fuga dos incontáveis assassinatos que ocorriam
ta de estrutura especializada”19 (p.37). constantemente nessas regiões periféricas – re-
De acordo com o autor, o irromper do crack sultaram na territorialização da então denominada
surgiu, tanto pela própria questão da proibição da “terra do crack”, ou “Cracolândia”, pois um aglo-
circulação de insumos para o refino da cocaína no merado de pessoas se apropriando dos centros e
exterior – tais como éter e acetona –, quanto pela das grandes avenidas inspirava mais segurança e,
questão econômica e de mercado, já que o crack consequentemente, maior visibilidade, sobretudo
necessita de insumos disponíveis e de fácil mane- porque as chacinas das periferias eram ignoradas
jo, o que torna o produto mais acessível ao usuário. ou omitidas e, caso possíveis assassinatos vies-
A rota do crack no contexto brasileiro de- sem a ocorrer no “fluxo”IV estabelecido nas regiões
monstra como ocorreram os deslocamentos da centrais, teriam maior visibilidade. Além disso, tam-
substância ao surgirem e migrarem da Zona Les- bém facilitaria a obtenção das mais diversas subs-
te da cidade de São Paulo para o Centro da cida- tâncias devido ao circuito estabelecido pelo tráfico
de. Sabe-se que ao chegar ao Brasil, o crack te- no local, assim como os acertos valiosos que per-
ria desembarcado na cidade de São Paulo, mais mitem o funcionamento do mercado por intermédio
precisamente nas regiões periféricas abrangidas de relações alimentadas pela ilegalidade mantida
pela Zona Leste, em bairros como São Mateus, pelos próprios agentes do EstadoV. Demarcada
Cidade Tiradentes e Itaquera. Outros bairros co- inicialmente nos arredores das ruas Guaianazes,
mo Parque São Lucas, Itaim Paulista, Jardim Ro- Triunfo e Vitória, bem como em alguns trechos
mano e Jardim das Oliveiras, também foram con- das avenidas Cásper Líbero, Duque de Caxias e
templados. A consolidação do mercado do crack
nessas regiões periféricas ocorreu em um mo-
mento de construção e equalização das questões IV
Na gramática utilizada nas ruas, é uma maneira de fazer referência ao aglo-
merado de pessoas que se estabelecem ou se deslocam nos espaços com-
pautadas no plano democrático. Porém, a despei- preendidos pela Cracolândia.
V
Acertos valiosos que permitem a funcionalidade do mercado, tais como a
to do diagrama da democratização crescente e compra de arrego e suborno, que se consubstanciam em uma mescla que
envolve a gestão do Estado e a gestão do crime, voltadas a uma delimitação
dos processos de regulação dos homicídios nas e circunscrição espacial.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Ipiranga, além de outras extensões, como a Santa uso, movidas, geralmente, por interesses de ca-
Cecília e a Baixada do Glicério, a Cracolândia é, atu- ráter político-econômico, a fim de promover uma
almente, a região de maior concentração de consu- reforma urbana para “revitalizar” a cidade:
midores de crack e está localizada hoje, entre a “É a tentativa de resolver, através da reforma
Rua Helvétia e a Alameda Dino Bueno, também no do espaço em questão, um problema antigo
entorno da Rua dos Gusmões, Rua Apa e baixos do do uso do espaço público dessa área, ou
viaduto do Minhocão. Assim, adere às dinâmicas seja, a grande concentração de usuários de
da metrópole e é cerceada pelo tripé proteção-cui- crack, de população de rua e de atividades
dado-controle, que permeiam tanto o contexto das ligadas ao tráfico de drogas e à prostituição
vivências dos usuários, como dos diversos atores – todas elas questões sociais. Em suma, usa-
que assombram e interferem no meio, como se es- se da intervenção e da reforma urbana para
tivessem envolvidos em uma missão de caça às resolver uma “questão social”14 (p.227).
bruxas contemporânea. Interessante mencionar os
Com isso, sabe-se que vários projetos enca-
relatos trazidos por Taniele Rui16: beçados pela Prefeitura de São Paulo e pelo Go-
“...a tensa convivência com as diversas polí- verno do Estado de São Paulo, que visavam à ex-
cias (civil, militar, guarda metropolitana e até pulsão de moradores da região, não se preocupam
seguranças privados. São apenas uma breve com a situação dos usuários em si – que, na ver-
parcela de uma série de outros atores sociais dade, “importam pouco” – mas, com a utilidade
que, cada um a seu modo, também assom- econômica do território, por intencionarem a valori-
bram, circundam e constituem toda a região. zação da região a fim para ser explorada por gran-
A lista segue: moradores do local, das imedia- des incorporadoras, construtoras e pela especula-
ções e das pensões, comerciantes e frequen- ção imobiliária de um modo geral. Assim, iniciou-se
tadores do bairro, transeuntes, trabalhadores uma série de intervenções eivadas de violações de
dos arredores, profissionais da imprensa, estu- direitos humanos visando à desocupação e a deso-
dantes realizando os mais diversos trabalhos bstrução da Cracolândia e seus arredores.
de conclusão de curso (inclusive eu), membros Em 2009, o “Projeto Ação Integrada Centro
de várias instituições religiosas, fiscais da pre- Legal”, teve por objetivo acabar com o tráfico e
feitura, associações civis de moradores e co- “tratar” os usuários, contando, para tanto, com
merciantes, ONGs, grupos de artistas e suas ações de agentes de saúde, agentes sociais e
intervenções, ativistas, urbanistas, movimen- agentes do Estado, como a Polícia Militar e a
tos sociais de luta por moradia, defensores Guarda Civil Metropolitana – que abordavam e
dos direitos humanos, serviços públicos de revistavam os usuários, detinham-nos caso não
saúde e de assistência, PCC, interesses polí- possuíssem documentos e cometiam atos de vio-
tico-eleitoreiros, construtoras imobiliárias, in- lência forçando a dispersão para outras regiõesVI.
vestidores internacionais”14 (p.221). A operação perdurou até 2012.

Sem considerar o sofrimento social nem as


mais diversas configurações da formação dessas VI
Sabe-se que, dentre outras práticas, as polícias tinham o hábito de jogar as
“manchas” urbanas, inúmeras intervenções de viaturas sobre grupos de usuários para forçar que se deslocassem para as
ruas adjacentes, e então, seguindo-os, jogavam as viaturas contra os grupos
caráter higienista e de contenção foram realiza- novamente, para que voltassem a se dispersar. E o faziam o tempo todo, no
intuito de não permitir que ficassem parados nas ruas por muito tempo, como
das para desocupar esses espaços públicos de quem brinca de “gato e rato”.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

No mesmo ano, deu-se início à “Operação usuários em seu campo, agindo por “repre-
Sufoco” (ou “Operação Dor e Sofrimento”), que sentação” das políticas do Estado e do Mu-
foi a mais violenta até então, marcada por for- nicípio que ali marcam seu território de atua-
te truculência e repressão policial, internações ção a partir de agentes que muito pouco tem
involuntárias e compulsórias, sendo denunciada a oferecer aos usuários a não ser a ideia abs-
por grave violação de direitos humanos. Diferen- trata de sair dalí e propor tratamento. É tam-
temente do projeto de 2009, a reação dos usuá- bém característico desse espaço a intensa
rios frente a esta operação resultou em uma re- mobilidade, com pessoas chegando a saindo
sistência territorial muito maior. a todo tempo, mas também com a existência
Em 2013, iniciativas diferentes foram imple- de pessoas que ali vivem, nos prédios ou na
mentadas para lidar com a questão. De um lado, rua há muito tempo”1 (p.07).
pelo Governo do Estado, o “Programa Recomeço”, O “incômodo” gerado pela permanência da
que dispõe de atendimento estruturado para usu- população usuária de crack nesses locais públi-
ários, porém utiliza de uma proposta sanitarista cos fere uma série de interesses – quais sejam,
que envolve altas exigências, visando o combate entre outros, os de ordem político-econômica, de
e a abstenção ao crack. De outro, pela Prefeitura, Estado, médico-sanitária e jurídico-penal – e se
o “Programa de Braços Abertos”, implementado apoia em um não direito a ter direitos, havendo,
a fim de desenvolver uma proposta diferente das de um lado, incontáveis tentativas de remaneja-
anteriores, através de intervenções que não vio- mento compulsório de caráter higienista, euge-
lassem direitos, permitindo que os usuários pu- nista e segregatório que busca reduzir a autono-
dessem frequentar os serviços livremente e com mia dos usuários ao máximo a fim de exercer o
baixas exigências quanto ao uso do crack. No en- controle e a disciplina sobre eles – e, de outro,
tanto, este programa careceu de verbas e os ser- a autodeterminação dos usuários para formar e
viços oferecidos são bastante precários. manter essas “manchas” urbanas, através da lu-
Portanto, a “preocupação” exacerbada com ta pelo espaço e pela apropriação da cidade –
a presença de usuários de crack nas ruas do cen- com a ocorrência de diferentes deslocamentos,
tro, não é da ordem da integração, mas da con- de novas chegadas e de outros retornos.
tenção; procura evitar que a territorialização des- De acordo com Marco Segre17, a ética pode
sa área transborde para outras regiões da cidade ser considerada como um ramo da filosofia que
e atinjam outros setores, pois, como é sabido, compreende a possibilidade de cada ser humano
atualmente o crack já não é privilégio das classes se posicionar individualmente frente às mais diver-
baixas da sociedade. Assim: sas situações passíveis de estudo ético, onde a
“Outro aspecto que condiciona essa tempo- questão que envolve o uso de psicoativos está in-
ralidade refere-se aqui tanto a uma tempo- serida. Tal conceito de ética, segundo o autor, se
ralidade de uso, como a uma territorialidade contrapõe ao conceito de moral – que resulta em
urbana que é a todo momento, ocupada e juízos de valor estabelecidos pela sociedade que
desocupada, empreendida e destruída pela implicam obediência, ou seja, trata-se de uma opo-
ação da polícia e dos funcionários do Estado, sição que exclui a autonomia crítica do indivíduo.
particularmente os da remoção e limpeza ur- A existência de uma moral no cenário de
bana. Além desses, outros agentes sociais e usos de crack reforça a ideia de potência da vi-
da saúde passam a interpelar diariamente os da inserida nas dinâmicas frenéticas do fluxo: o

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quanto os usuários querem e conseguem per- que lhe é conexo, o hospital. Até pouco tempo
manecer vivos – apesar de todo o contexto que o hospital foi um lugar ambíguo: de constata-
envolve as dinâmicas sociais, como a criminali- ção para uma verdade escondida e de prova
zação da pobreza, a precariedade e a vulnerabi- para uma verdade a ser produzida”11 (p.197).
lidade – e como essas composições “negativas”
O modo como esses usuários são vistos no
se desconstroem ao longo do tempo. Diz-se que
contexto de um “não lugar” no mundo e de um
os usuários, de um modo geral, são desprezados
“não estar” na vida, de gente “em excesso”, se
pelo crime; são pessoas deslocadas, que transi-
associa comumente ao mal-estar, à eugenia, ao
tam o tempo todo e que passam a vida sendo ins-
medo e ao perigo, tal como analisado por Zyg-
titucionalizadas, circulando entre as instituições
munt Bauman2:
e a rua. Mas é preciso lembrar que são serem
“As “classes perigosas” originais eram cons-
humanos que, como quaisquer outros, possuem
tituídas por gente “em excesso”, temporaria-
direitos e deveres que devem ser respeitados.
mente excluída e ainda não reintegrada, que
À parte disso são eles os “bodes expiató-
a aceleração do progresso econômico havia
rios” para justificar a violência urbana ao mesmo
privado de “utilidade funcional”, e de quem a
tempo em que demonstram, dia após dia, que
rápida pulverização das redes de vínculos re-
a falência do sistema de controle social a muito
tirava, ao mesmo tempo, qualquer proteção.
estabelecido sempre precisará manter uma qui-
mera no imaginário social para assegurar suas As novas classes perigosas são, ao contrário,
demonstrações de força, quer pela hegemonia aquelas consideradas incapacitadas para a
do Estado, quer pelo paternalismo da medicina. reintegração e classificadas como não assi-
Nesse sentido, Michel Foulcault11, menciona que: miláveis, porque não saberiam se tornar úteis
nem depois de uma “reabilitação”.(...) Hoje a
“Por muito tempo e ainda em boa parte nos
exclusão não é percebida como resultado de
nossos dias, a medicina, a psiquiatria, a justi-
uma momentânea e remediável má sorte,
ça penal, e a criminologia ficaram nos confins
mas como algo que tem toda a aparência de
de uma manifestação da verdade nas nor-
definitivo. Além disso, nesse momento, a ex-
mas de conhecimento, e de uma produção
clusão tende a ser uma via de mão única. É
da verdade na forma da prova: esta tendendo
pouco provável que se reconstruam as pon-
sempre a se esconder sob aquela e procu-
tes queimadas no passado. E são justamente
rando por meio dela justificar-se. A crise atu-
a irrevogabilidade desse “despejo” e as es-
al destas disciplinas não coloca em questão
cassas possibilidades de recorrer contra es-
simplesmente seus limites e incertezas no
sa sentença que transformam os excluídos
campo do conhecimento. Coloca em questão
de hoje em “classes perigosas” 2 (p.22-23).
o conhecimento, a forma de conhecimento, a
norma “sujeito-objeto”. Interroga as relações Constantemente se retrata o cenário de uso
entre as estruturas econômicas e políticas de do crack de forma obscura e vil. Em suma: um
nossa sociedade e o conhecimento, não em palco assustador do que pode resultar esse tipo
seus conteúdos falsos ou verdadeiros, mas de “desajuste social” daqueles que se recusam
em suas funções de poder-saber. Crise por a viver de acordo com os arquétipos ditados por
consequência histórico-política. Seja inicial- uma moral maniqueísta do senso comum e op-
mente o exemplo da medicina, com o espaço tam por viver a vida a seu próprio modo. Porém,

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existe a realidade criada que constrói e a realida- tradicionalmente parte da região do baixo
de ignorada que descontrói esse “cenário tene- meretrício da cidade de São Paulo, um es-
broso”. De acordo com Joanides13: paço de intersecção das estações de trens e
“A esfera de vida na qual se movem os desa- ônibus (em razão de ali ser o local da antiga
justados é um mundo à parte, com suas pró- rodoviária da cidade de São Paulo), bem co-
prias normas e convenções, suas idiossincra- mo pelo comércio vinculado a empresas de
sias, concepções e aspirações peculiares – e transporte – legais e clandestinos – para os
onde os valores morais inerentes ao homem, Estados do Maranhão e Piauí e para o Pa-
por imorredouros, transfiguram-se, transves- raguai. Assim, entendemos esse espaço no
tem-se, mutilam-se na adaptação aos requisi- quadro dos chamados “ilegalismos urbanos”,
tos do meio. Assim é que ali se faz da sensua- que, por sua vez, repõe em termos locais as-
lidade o simulacro do amor, da notoriedade o pectos das chamadas “cidades globais”, com-
substitutivo do renome, da vaidade a contra- partilhando com essas os diversos mecanis-
fação do verdadeiro orgulho, e na associação mos e agenciamentos entre o Estado e os
de interesses escusos é que se vai encontrar mercados paralelos”1 (p.06).
o arremedo da amizade”13 (p.28). Essa “mancha” urbana – além da questão
Nas palavras de Rui, o território compre- territorial – também é caracterizada pela relação
endido pela Cracolândia pode ser caracterizado de convivência e de respeito entre os usuários,
por um “lugar degradado” e também de degre- como também pelos signos que caracterizam a
do16 (p.223). Na verdade, é um território itineran- interação entre eles e deles com o meio, através
te, mas também um espaço de acolhimento e de uma moral característica, de uma gramática
de trocas: trocas de afeto, de sentimentos, de própria e de determinadas lógicas que são por
histórias, de vivências; que fazem da Cracolândia todos do fluxo compreendidas e que aos poucos,
além de uma sociedade funcional, uma terra de se adequam às previsibilidades e imprevisibilida-
oportunidadesVII: des cotidianas de cada um. Nas palavras de Co-
“O espaço dessa “mancha” urbana nos foi hen e Ferraz6:
aparecendo como um local em que ocorria “O princípio do reconhecimento da dignida-
um intenso sistema de trocas. Trocas de ob- de da natureza racional do ser humano, se
jetos, alimentos, bebidas, drogas e também tomado em sua radicalidade, só é factível ao
de afetividades, sexualidades, emoções. Es- abrigo de um sistema democrático. Mais do
se território de trocas se enraizava nos circui- que isso: à medida que este princípio pres-
tos de rua e de fluxos com as periferias da supõe a igualdade dos direitos humanos e o
cidade e com a antiga ocupação da região, reconhecimento de todos os seres humanos
como pessoas individuais, já se leva em con-
sideração o respeito pelo minoritário e pelo
VII
Em pouco tempo de escuta na região, é possível conhecer minimamente diferente. Deste modo, a ética das relações
uma fração de vida de algumas pessoas que vivem ali. Soube recentemente
da história um homem que na década de 90, recém-chegado na cidade de
caminha da justiça para um ponto ulterior,
São Paulo, foi acusado e preso por ter “batido” uma carteira nas proximi-
dades da Rodoviária Velha. Ficou preso por anos e, ao cumprir sua pena,
que é o da tolerância”6 (p.48).
não conhecia ninguém na cidade, tampouco tinha para onde ir. Com a única
referência que tinha, voltou ao único lugar que conhecia, que era a região da Ao contrário do que fora estabelecido pe-
Luz, ponto de chegada de sua cidade natal e onde tudo aconteceu, tendo lá
permanecido até então. lo alheamento geral da sociedade, sabe-se, por

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exemplo, de certas práticas que reforçam a fun- introduzido um tubo, canudo. Embaixo, um
cionalidade dessas dinâmicas. Pesquisas como pouco de água. O pote é recoberto com pa-
as realizadas por Selma Lima da Silva18, ao final pel laminado perfurado. A pedra de crack é
da década de 1990, com usuárias de crack que colocada sobre os furos do papel para ser
se prostituíam na região da Luz, demonstraram queimada junto com as cinzas de cigarro. As-
que, mesmo duas décadas depois, muitas des- pira-se a fumaça que desce para o interior do
sas mulheres continuam no fluxo – e vivas. Isso pote. Esse é o sistema tradicional, adotado
se deve ao fato de que “o consumo do crack, pelos viciados americanos. Algumas pessoas
mais do que uma adesão à substância, é uma preferem fumar a pedra direto num cachim-
adesão a uma forma de viver no circuito da rua, bo. Neste caso, a fumaça, não concentrada,
onde observa-se a existência de algumas formas evapora-se com facilidade. Outros acoplam
– mesmo que incipiente – de cuidados com a saú- cachimbos tradicionais a recipientes impro-
de e com o corpo dentro neste estilo de vida”18. visados onde possa ser possível colocar um
Ou seja, apesar de incontáveis intervenções de pouco de água para concentrar mais a fuma-
saúde que ocorrem no local, muitas dessas práti- ça. Esse sistema é o mais usado na periferia
cas de cuidado já ocorriam por iniciativa própria, e no Centro de São Paulo”19 (p.54).
mesmo que aparentemente rudimentares.
Dessa forma, o cachimbo também é uma
Um recorte importante – entre tantos outros
forma de integração, pois há troca de informa-
– que exemplifica como ocorrem essas intera-
ções são as dinâmicas que envolvem os cachim- ções que variam desde a compra de insumos e
bos. Não se trata simplesmente de um cachim- sua confecção, até a discussão sobre o melhor
bo, mas de toda uma lógica a sua volta: a prefe- cachimbo a ser fumado, saberes que são pas-
rência e o modo de como ocorrem as confecções sados de pessoa para pessoa, do mais novo ao
dos diferentes tipos, seu uso e seus contextos mais velho. É possível encontrar, também, nas
de uso são também um importante indicativo de narrativas de Rui16, alguns relatos sobre como
uma pragmática do fluxo, desde os mais primi- certos espaços de consumo podem ser identi-
tivos – como os criados a partir de potes de io- ficados não somente pelas pessoas que ali co-
gurte – aos mais sofisticados e que demandam mumente frequentam, mas também, pela obser-
o domínio de certas artes – como os feitos de vação dos objetos e insumos deixados no local.
cobre. Entretanto, antes de qualquer coisa, os ca- Além disso, o autor relata que os cachimbos, em
chimbos são, além de uma estratégia de sobre- determinadas ocasiões, também servem de obje-
vivência, um meio de integração com quem está to de troca com valor de mercado. Assim:
no fluxo e uma ponte com quem está fora dele. “Com folha de alumínio, isqueiro cortado ao
Uchôa19 traz alguns exemplos: meio, cano de PVC, porcas de parafuso, sa-
“Os que eram apresentados à droga a fu- colas plásticas, pedaços de bambu, de ante-
mavam em cachimbos feitos com pedaços na de rádio ou de guarda-chuva, é possível
de antena de carro, bocal de lâmpada, co- fazer um recipiente que, ao receber uma ba-
pos de iogurte e água mineral (...) A manei- se, em muitos casos protegida por um papel
ra de fumar crack é curiosa, rudimentar. Os alumínio picotado com algum material cor-
cachimbos são improvisados com potes de tante, está pronta para que o pó de crack,
iogurte, por exemplo. Na metade do pote é ou a pedra inteira, se misture às cinzas de

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cigarro. O uso de latas de refrigerante ou em- Nenhuma linguagem hegemônica tem a


balagens de iogurte também é comumente prerrogativa de subtrair o caráter ético e político
observado. A territorialidade de uso importa das relações humanas e de suas circunstâncias
aqui porque, quando o cenário não possibilita – sejam quais forem –, nem de demarcar os limi-
a feitura desses objetos, o cachimbo se torna tes de autodeterminação do sujeito ético, já que,
mercadoria. Na região mais pública da “Cra- pela definição de Cohen e Ferraz6, é “aquele indi-
colândia”, cachimbos são fabricados e ven- víduo que pode reconhecer os conflitos que repre-
didos por alguns comerciantes do local, por sentam o significado de estar no mundo, sendo
comerciantes de drogas, que fazem a venda que é a resolução destes que o permitirá autode-
casada da pedra com o cachimbo, e por ou- terminar-se”6 (p.39). Assim, assumir tal postura
tros usuários”16 (p.338). é retroceder a desdobramentos vazios que envol-
Portanto, a Cracolândia pode ser pensada vem nada mais do que objeto conhecedor e obje-
como um espaço público onde diferentes atores to conhecido: uma estratégia de poder, disciplina
interagem, de modo que, dentro deste, compre- e dominação. De acordo com Marco Segre17,
ende-se ainda um espaço privado com regras e “Não serão mais colegiados de médicos ou
dinâmicas próprias. Portanto, atrelado ao cachim- de juízes (ou de qualquer outro grupamento
bo, há uma questão ética do uso e de outras prá- corporativo) que haverão de decidir sobre ma-
ticas que envolvem certas gramáticas e simbolo- térias que dizem respeito aos aspectos mais
gias próprias do “fluxo” – enquanto espaço priva- íntimos da vida de cada ser humano. São
do – que se inter-relacionam – ainda que indireta- eles, somos nós, todos os seres humanos,
mente – com o meio compreendido pelo espaço atuando como sujeitos (e não como objetos)
público. Desta forma, na perspectiva de Cohen e de nosso destino, que vamos nos manifes-
Ferraz6, poderia se compreender como um des- tar sobre o que considerarmos adequado ou
locamento dos direitos humanos para uma ética inadequado, construtivo ou destrutivo, para o
das relações aprendida por todos os indivíduos nosso convívio em sociedade”17 (p.27).
que desejem se relacionar. Para Adorno1:
“Outros comportamentos eram a manuten-
ção de certa “etiqueta” que se diferenciava Da invisibilidade social à autonomia
entre uma regra “moral”: camuflar o cachim- É necessário compreender que as substân-
bo e não fumar crack na presença de “famí- cias psicoativas estão presentes na sociedade e
lias”, isto é, casais ou adultos acompanhados em diferentes camadas sociais, onde o crack –
de crianças; o que era anunciado com um enquanto bode expiatório e objeto de discrepân-
aviso “Olha a família”, “Olha o anjo”, repas- cias entre discursos e práticas - é um exemplo
sado boca a boca pelo espaço em que a “fa- de como as manobras se voltam, sobretudo, aos
mília” passava. A “etiqueta” social era apli- usuários mais facilmente identificados nos es-
cada em relação aos atores externos que ali paços públicos e que “incitam” um pânico geral,
entravam para abordá-los: agentes de saúde, sendo, portanto, mais suscetíveis à ideia de uma
agentes sociais, jornalistas e nós mesmos, os “não autonomia” que demanda diferentes modos
pesquisadores, isso significava pedir licença de intervenção, tais como as médico jurídicas –
para fumar durante a conversa e não soltar a principalmente quando se trata das internações
fumaça na cara das pessoas “1 (p.10). forçadas – e as realizadas por terapeutas “leigos”

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e que visam a uma “conversão” do usuário a algu- apreciada na civilização, é a beleza. Exigimos que
ma religião abstêmia ou à alguma espécie de sis- o homem civilizado venere a beleza, onde quer
tema terapêutico de abstinência total e universal. que ela seja na natureza, e que a produza em ob-
A invisibilidade social do usuário de crack jetos, na medida em que for capaz de fazê-lo”12
perdura até o momento em que a presença dele (p.37). Assim, o autor menciona que a sujeira pa-
e de seu grupo de referência começa a causar rece inconciliável com a civilização e que a or-
um mal-estar pelos estigmas que estão constan- dem, tal qual, é determinada pelo ser humano co-
temente associados à ideia de sujeira, encrenca mo uma “espécie de compulsão de repetição”12
e sordidez: a única face da moeda em que as (p.38), que estabelece quando, onde e como algo
mídias se empenham em mostrar e o único mo- deve ser feito. Ou seja, um modelo padrão forma-
mento em que os usuários aparecem tendencio- do a partir de juízos valorativos do “dever ser”.
sa e socialmente visíveis. Em entrevistaVIII, quan- Assim, quando determinados grupos não se
do questionada sobre quem seriam as pessoas adequam a esses arquétipos de belo, saudável
“invisíveis”, Adela Cortina declara: e funcional, o biopoder se estabelece de diferen-
“São as totalmente marginalizadas pela socie- tes maneiras na socapa da ordem para reclamar
dade. Não possuem carteira de identidade, a “legalidade” sem questionamentos no controle
nem domicílio reconhecido... As populações dos corpos e na produção de uma verdade abso-
tentam ocultar-lhes ou porque são pobres; ou luta que precisa ser mostrada, ainda que seja só
porque são doentes; ou quando julgam que uma face dela. É, nada mais, do que um modo
não tenham nada de interessante a oferecer de exercer o poder disciplinar para gerir de algu-
a elas, as sociedades; ou porque a vida lhes ma maneira os “desajustados sociais” e, assim,
relegou o papel de “insignificantes”. Existe um dissimular resultado sobre uma verdade que, de
número enorme de cidadãos esperando pa- acordo com Foucault11, não é a verdade que é,
ra passar da invisibilidade a visibilidade (...) O mas aquela que se dá.
restante da humanidade deveria se esforçar Contudo, sabe-se que tais demandas são
para contrariar os interesses dos que buscam mais sociais do que específicas, o que descons-
condenar alguns à sombra. Para que os “invisí- trói a ideia da “não autonomia”, a partir do mo-
veis” consigam se estabelecer como pessoas, mento em que o usuário tem autodeterminação
a primeira providência seria apoiá-las na con- para participar ativamente da sua própria vida,
cretização de suas necessidades essenciais mesmo que a seu próprio modo, e ninguém pode
de sobrevivência, como o comer e o vestir-se. dizer que está fazendo isso errado.
Mas os passos mais importantes vêm depois, Historicamente, a dominação do homem pe-
e consistem em enxerga-los e transferir poder lo homem na relação conquistadores-conquista-
a eles para que consigam, por si, controlar dig- dos ocorre através dos mais diversos modos de
namente as próprias vidas”5 (p.18). demonstrações de força, onde as internações se
destacam porque são sempre um exercício de po-
De acordo com Sigmund Freud12, “Logo no-
der inquestionável, capaz de considerar arbitraria-
tamos que a coisa mais inútil, que esperamos ver
mente os elementos apropriados para o confina-
mento sempre que houver um “desvio” do normal
Entrevista cedida por Adela Cortina ao Centro de Bioética do Conselho
VIII
padrão. A ética é uma questão essencialmente hu-
Regional de Medicina de São Paulo – CREMESP - após conferência proferida
no VII Congresso de Bioética. mana, onde a noção de bem e mal, certo e errado

|61
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

exerce um papel importante nos dilemas que per- comum com o “aprisionamento criminal”, pois visa
meiam a vida: de um lado, pode-se questionar se ao bem-estar da coletividade, porém, com apenas
o usuário de crack tem direito de exercer sua auto- um detalhe capaz de diferir um do outro: no primei-
nomia para optar pelo tratamento que deseja; de ro caso, o indivíduo não tem a possibilidade de lutar
outro, se o médico tem o dever de tratá-lo involun- pelos seus direitos como o tem, em prerrogativa, no
tária ou compulsoriamente. De acordo com Cohen segundo caso – que pode vislumbrar, ainda que tar-
e Ferraz6, quando se trata de ética das relações, é diamente, a sua liberdade. Para Stuart Mill14,
necessário considerar o acesso ao “outro” e o mí- “À parte dos dogmas peculiares de pensadores
nimo de identificação com ele na condição de um individuais, há também no mundo como um
ser racional tal qual o próprio eu, compreendendo- todo uma crescente inclinação a exagerar
-o também como um fim em si. Contudo, a liberda- indevidamente os poderes da sociedade sobre
de de um homem é ameaçada a partir do momen- o indivíduo, tanto pela força de opinião quanto
to em que se estabelece sobre ela a liberdade de até mesmo pela força da legislação; e como a
outros homens, a fim de manter a ordem e a dis- tendência de todas as mudanças acontecendo
ciplina. Assim, nas palavras de Richard Bucher6: no mundo é de reforçar a sociedade e diminuir
“De fato, desde o século passado, a toxicoma- o poder do indivíduo, esta invasão não é um
nia circula entre a medicina e a justiça, tor- dos males que tendem a desaparecer espon-
nando-se objeto de uma atenção tanto solícita taneamente, mas, ao contrário, crescer cada
quanto inócua porque totalmente inoperante vez mais terrível”14 (p.32-33).
na tentativa de pôr diques à sua expansão.
Assim, quando há um desequilíbrio entre a de-
Rotulada quer de doença, quer de delinquên-
terminação para assegurar a autonomia pessoal e
cia, ela suscita querelas de competência entre
o autocontrole para proteger a autonomia do outro,
médicos e juristas, resultando em propostas
desloca-se o caráter ético das relações humanas
inadequadas e ineficazes; assim, a medicina
para uma tecnificação dos problemas éticos, onde
associa a toxicomania ao vício, psiquiatrizan-
os problemas humanos passam por um juízo moral
do o consumo de drogas mas estimulando, si-
que os substitui por problemas técnicos especializa-
multaneamente, a produção de novos produ-
dos e suscetíveis de soluções profissionais, sobre-
tos psicotrópicos que rapidamente se infiltram
tudo em relação a questões de caráter médico jurí-
na caixa de Pandora do usuário de drogas; a
dico, onde as internações forçadas são um exem-
justiça, por sua vez, introduz a distinção entre
plo. Ao tratar da soberania e da disciplina no que
drogas legais e ilegais e preconiza a repres-
tange à medicina e ao direito, Foucault11 pontua:
são do uso e a indicação do usuário, mas não
consegue sustar, pelos mecanismos jurídicos “É precisamente com a medicina que
habituais, o aumento do consumo”6 (p.202). observamos, eu não diria a combinação,
mas a permuta e o confronto perpétuos dos
Portanto, as internações forçadasIX são uma
mecanismos das disciplinas com o princípio
forma de “aprisionamento terapêutico” que têm a
do direito. Os desenvolvimentos da medicina,
manutenção da ordem social como denominador
a medicalização geral do comportamento,
dos discursos, dos desejos etc. se dão onde
IX
As internações “forçadas” são identificadas aqui como as involuntárias e os dois planos heterogêneos da disciplina e
compulsórias, uma vez que em ambas, está ausente o consentimento do
usuário e muito incisiva a sua recusa. da soberania se encontram”11 (p.294).

|62
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Dessa forma, é possível, a partir dessa pre- I. Deve ser precedida da elaboração de do-
missa, analisar a propostaX suscitada pelo Projeto cumento que formalize, no momento da ad-
de Lei nº. 7663/2010 que pretende alterar dispo- missão, a vontade da pessoa que solicita a
sitivos da Lei nº. 11.343/2006, que trata de po- internação; e
líticas de drogas, definindo condições de atenção II. Seu término dar-se-á por determinação do
aos “dependentes de drogas” que sabidamente médico responsável ou por solicitação es-
agravam a condição do usuário; ainda que na re- crita de familiar, ou responsável legal.
ferida Lei a medida indicada seja claramente a de §3º. A internação compulsória é determina-
prevenção ao uso indevido através de políticas de da, de acordo com a legislação vigente, pelo
redução de danos e não de internações. Assim, juiz competente”4,XI.
Projeto de Lei nº. 7663/2010, dispõe:
Tal proposta é obscura e institui as interna-
“Art. 23-A. A internação de usuário ou depen-
ções forçadas como uma forma de contenção e não
dente de drogas obedecerá ao seguinte:
de tratamento, pois em nenhum dos casos há previ-
I. Será realizada por médico devidamente re-
são de permanência máxima, sendo que a liberda-
gistrado no Conselho Regional de Medicina
de do usuário permanece condicionada à determi-
(CRM) do Estado onde se localize o estabe-
nação médica – no caso da internação involuntária
lecimento no qual se dará a internação e
–, ou do juiz – no caso da internação compulsória
com base na avaliação da equipe técnica;
–, o que legitima, indiretamente, que o usuário per-
II. Ocorrerá em uma das seguintes situações:
maneça internado por prazo indeterminado, como
a) Internação voluntária: aquela que é con-
ocorre em algumas instituiçõesXII. Desse modo, é
sentida pela pessoa a ser internada;
possível analisar, ainda, que tal Projeto de Lei ab-
b) Internação involuntária: aquela que se
sorve os tipos de internações psiquiátricas aplica-
dá sem o consentimento do usuário e a pe-
dos pela Lei nº. 10.216/2001, que dispõe sobre a
dido de terceiro; e
proteção e os direitos das pessoas portadoras de
c) Internação compulsória: aquela determi-
transtornos mentais e redireciona o modelo assis-
nada pela Justiça.
tencial em saúde mental, como se pode verificar:
§1º. A internação voluntária:
“Art. 6º. A internação psiquiátrica somente se-
I. Deve ser precedida da elaboração de do-
rá realizada mediante laudo médico circuns-
cumento que formalize, no momento da ad-
tanciado que caracterize os seus motivos.
missão, a vontade da pessoa que optou por
Parágrafo único. São considerados os seguin-
esse regime de tratamento; e
tes tipos de internação psiquiátrica:
II. Seu término dar-se-á por determinação do
médico responsável ou por solicitação es- I. 
Internação voluntária: aquela que se dá
crita da pessoa que deseja interromper o com o consentimento do usuário;
tratamento. II. Internação involuntária: aquela que se dá
§2º. A internação involuntária: sem o consentimento do usuário;

Grifo do autor.
XI

X
Ressalte-se que os Projetos de Lei não possuem força legislativa. Porém, no Sobretudo, em instituições privadas, cujos valores são altíssimos para a
XII

caso em questão, as internações ocorrem em consonância com o disposto manutenção do “tratamento”. Há relatos e denúncias sobre muitas comuni-
na Lei nº. 10.216/2001 (Lei de Saúde Mental), mas indiretamente se valem dades terapêuticas que se valem da laborterapia de má-fé, onde se torna um
desta Proposta que visa alterar a atual Lei nº. 11.343/2006 (Lei de Drogas) negócio muito lucrativo e que tem como pano de fundo o trabalho análogo ao
e que atualmente aguarda apreciação pelo Senado Federal. escravo desses usuários.

|63
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

III. 
Internação compulsória: aquela determi- para essas minorias. Nesse sentido, Paulo Anto-
nada pela Justiça” XIII ,15. nio de Carvalho Fortes10, seguindo o pensamento
Todavia, apesar de se tratar de um Projeto rawlsiano, verifica que:
de Lei – que se vale de mecanismos de uma Lei “Não é a magnitude da população que deve
vigente – no caso, a Lei de Saúde Mental, mas ser a orientadora das ações, como seria em
que atende a outras especificidades, como no ca- uma orientação maximizadora de benefícios,
so da Lei de Drogas – mesmo não sancionado, já mas sim as necessidades dos mais desfavo-
produz efeitos na prática, sendo que, inclusive, recidos. Assim, a saúde global orientada pela
não se mostram adequados ao que se propõe, equidade deveria ser desenvolvida no sentido
uma vez que essa prática ilegal de promover in- de eliminar ou, ao menos, reduzir ao mínimo
ternações contra a vontade do usuário, além de possível as desigualdades desnecessárias, evi-
inconstitucional – porque fere direitos fundamen- táveis e injustas, que existem entre grupos hu-
tais e princípios constitucionais – não têm se manos com diferentes níveis sociais”10 (p.121).
mostrado adequada para os usuários, sobretudo Portanto, é relativa à questão que versa so-
àqueles que não podem, não conseguem ou não bre o discernimento ou sobre o poder de decisão
querem interromper o uso da substância, sobre- do usuário a partir do juízo de valor alheio, incum-
tudo do crack. bindo a aquele a decisão de aceite ou de recusa
De acordo com Claudio Cohen e José Álva- pelo tratamento que não é proposto, mas impos-
ro Maques Marcolino7, a autonomia deve ser en-
to, quer por força de um paternalismo médico ou
tendida tanto como um princípio filosófico quanto
de uma hegemonia jurídica, uma vez que a livre
uma ação humana e que remete a noções co-
decisão cabe ao usuário sobre a sua pessoa ou
mo a de autogoverno, liberdade de direitos e de
seu bem-estar. Assim, segundo Cohen e Marcoli-
escolha individual, de modo que seu exercício
no7, por exemplo, o tratar um paciente sem o seu
prescinde do reconhecimento de sua existência,
consentimento é um comportamento descrito co-
de capacidade para exercê-la e de elementos
mo paternalista:
que permitam uma opção. Ou seja, consideran-
“A justificativa de uma conduta paternalista
do que a bioética se fundamenta no tripé auto-
sempre se fundamenta nos princípios da be-
nomia-beneficência-justiça, o usuário que deci-
neficência e da não-maleficência. No sentido
de por continuar a fazer uso de sua substância,
mais geral, um princípio de beneficência ou
recusando-se, portanto, a aderir a propostas de
de não-maleficência requer que se favoreça
tratamento que prescindam de internações, po-
a execução, por outras pessoas, dos seus in-
de ser considerado um sujeito autônomo dentro
das suas especificidades, enquanto parte ativa teresses importantes e legítimos, e que não
das dinâmicas que ocorrem nos cenários de uso causem dano a outro. A questão atual é deli-
de crack, sobretudo nas conhecidas “zonas de mitar o que venha a ser beneficência e para
tolerância”, como é o caso da Cracolândia, não quem se está sendo beneficente (...) O pater-
podendo ser objeto de uma medida segregatória nalismo é um comportamento impositivo da
que visa higienizar a cidade sem promover saúde prática médica. O comportamento paterna-
lista é um problema de difícil avaliação, de
quando e quanto ele se justifica, sendo o cer-
XIII
Grifo do autor. ne de muitos problemas éticos”7 (p.58).

|64
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Contudo, quando se trata das internações for- mínimo que o desenvolvimento pode oferecer
çadas – assim compreendidas as involuntárias e as para minorar suas aflições, pois uma vez que
compulsórias – a noção de beneficência e de não- existem os benefícios da modernidade, não
-maleficência é obscura, pois é inconcebível que se admite voltar sem ofensa a um mínimo éti-
uma pessoa que foi submetida a internações invo- co de decência. Perpetua-se também para a
luntárias ou compulsórias por mais de dez vezes manutenção das maravilhas do mundo selva-
possa ter sido suscetível de uma beneficência ou gem. Com a negação à impossibilidade total,
de uma não-maleficência, principalmente quando, do respeito às diferenças físicas, psíquicas e
no lapso temporal entre uma e outra, o indivíduo sociais de cada um, do respeito aos costumes,
tenha retornado às ruas com as mesmas vulnerabi- do senso de pertença à comunidade, à famí-
lidades que possuía antes, além de uma carga de lia, à etnia. À música local, à língua, ao dialeto,
estigma a mais, como geralmente ocorreXIV. Consi- às vestimentas, à culinária, junto, certamente,
derar o uso do crack como uma “anormalidade”, com a Utopia!” 22 (p.135-136).
onde a resistência dos usuários em apropriar-se
Submeter uma pessoa a uma internação da
da cidade se torna um símbolo de perigo e ameaça
qual não consente e, inclusive, se recusa, além
à coletividade e não de proteção e preservação de
de subtrair sua autonomia e seu direito de deci-
um grupo de referência, significa ignorar que o es-
dir, mostra-se muito mais como uma hostilidade do
tigma que os envolvem adoece muito mais. Nesse
coletivo em detrimento do individual do que como
sentido, Lívia Maria Armentano Koenigstein Zago22
um dever médico ou jurídico. Assim sendo, se por
argumenta que os limites da ciência entre o acaso
um lado, o aprisionamento revestido de internação
e a escolha devem considerar a dignidade da pes-
aparenta ser uma boa e razoável medida que tem
soa humana, a razoabilidade e o respeito. Assim:
por finalidade a saúde mental do usuário e a conse-
“Paralelamente a todo o desenvolvimento
quente proteção da comunidade, certamente não
científico e tecnológico do nosso admirável
assume esse papel para cada um desses usuários,
mundo novo, o fenomenal mundo selvagem se
sobretudo porque não há violação de qualquer lei
perpetua. Tal fato ocorre por diversas razões,
criminal para que se justifique, independentemente
ou seja, pela falta de humanismo e sensibilida-
dos sinônimos utilizados com potencial terapêuti-
de dos poderosos, pela desídia dos Estados,
co – “confinamento”, “aprisionamento”, “custódia”,
em todo o mundo e em todos os níveis, que
“proteção”, “internação” – mas sim, uma nova so-
infligem ao ser humano, sobretudo aos mais
capa dos malefícios passados com o propósito de
pobres, opressão, tortura, humilhação, o mais
introduzir benefícios contemporâneos.
profundo desrespeito à dignidade da pessoa
O Código de Ética Médica8 garante ao pa-
humana. Os mais pobres são carentes do
ciente o exercício do direito de decisão sobre si
mesmo e veda ao médico valer-se de sua autori-
dade a fim de cercear esse direito. Assim,
XIV
Não é incomum que os usuários que foram submetidos a internações
forçadas por diversas vezes sejam reconhecidos tanto nas instituições como “Art. 24. Deixar de garantir ao paciente o
nos serviços de saúde – ainda que entre eles não haja qualquer relação,
uma vez que, na maior parte das vezes, ocorrem internações em lugares exercício do direito de decidir livremente so-
diferentes, fora da cidade ou até mesmo do Estado. Além disso, é sabido
que mesmo entre os próprios usuários que estão no fluxo, aquele que já bre sua pessoa ou seu bem-estar, bem como
foi institucionalizado, se destaca por utilizar – até inconscientemente – uma
gramática e hábitos muito particulares desses lugares. Um exemplo clássico exercer sua autoridade para limitá-lo.
que pode ser suscitado é o caso de usuários que “decoram” as doze tradições
do Narcóticos Anônimos (N.A.). (...)

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Art. 31. Desrespeitar o direito do paciente que um Estado hegemônico e uma medicina pa-
ou de seu representante legal de decidir li- ternalista subjuguem o direito do usuário de de-
vremente sobre a execução de práticas diag- cidir pelo modo menos hostil para lidar com seu
nósticas ou terapêuticas, salvo em caso de corpo, sua mente, suas vulnerabilidades; mesmo
iminente risco de morte” 8,XV. quando a própria lei estabelece métodos com
Desta forma, não se pode considerar que a maior chance de aderência pelo usuário, exata-
privação de liberdade atende aos melhores inte- mente pela não imposição da abstenção total e
resses do usuário, quer passivamente - por “dei- universal à substância, mas por iniciativas alter-
xar” de garantir seus direitos – ou ativamente – nativas que visem a promover o seu empodera-
como no “desrespeitar” o direito do paciente. A mento e a sua autonomia através de uma forma
“Declaração Universal sobre Bioética e Direitos de uso consciente – uma vez que existe a possi-
Humanos”20 tem como um dos seus objetivos bilidade de que esse uso não deixe de ocorrer – e
principais, “promover o respeito pela dignidade que seja capaz de minimizar em grande parte os
humana e proteger os direitos humanos, assegu- riscos e os danos decorrentes de um uso que,
rando o respeito pela vida dos seres humanos embora possa ser nocivo ao indivíduo, não ultra-
e pelas liberdades fundamentais, de forma con- passa a esfera da autolesão, ou seja, carece de
sistente com a legislação internacional de direi- potencial para atingir a terceiros.
tos humanos”20. Entre os principais princípios, Nesse contexto, as estratégias de redução
destaca-se: de danos se mostram como alternativas viáveis
e que obedecem a uma ética que, ao invés de
“Art. 3. a) A dignidade humana, os direitos hu-
delimitar o usuário, fornece condições para que
manos e as liberdades fundamentais devem
possa autodeterminar-se.
ser respeitados em sua totalidade.
b) Os interesses e o bem-estar do indivíduo
devem ter prioridade sobre o interesse exclu-
Considerações finais
sivo da ciência ou da sociedade.
Em síntese, compreende-se que muitas so-
(...)
ciedades reafirmaram sua identidade cultural vi-
Art. 6. a) Qualquer intervenção médica pre-
venciando diferentes experiências através do uso
ventiva, diagnóstica e terapêutica só deve ser
de alguma substância psicoativa. Com o avançar
realizada com o consentimento prévio, livre e
do processo civilizatório e das constantes mu-
esclarecido do indivíduo envolvido, baseado
danças sociais, houve uma ruptura com essas
em informação adequada. O consentimento
dinâmicas, onde todas as condutas considera-
deve, quando apropriado, ser manifestado e
das incógnitas eram reputadas como nefastas,
poder ser retirado pelo indivíduo a qualquer
estabelecendo-se, então, uma moral onde cada
momento e por qualquer razão, sem acarre-
indivíduo deveria sujeitar-se ao arquétipo da so-
tar desvantagem ou preconceito” 20,XVI.
ciedade da qual fosse parte integrante, a fim de
É inconcebível que, a despeito de positiva- que a ordem social e o controle dos corpos fos-
das tantas garantias de direitos, ainda prevaleça sem mantidos. Assim, o Estado de Bem-Estar So-
cial foi substituído pelo Estado de controle, onde
as normas sociais da vida cotidiana passariam a
XV
Grifo do autor.
XVI
Grifo do autor. obedecer a determinadas condições “desejáveis”

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

de natureza humana e que, quando não aquiesci- vontade –; já a segunda, se apresenta como uma
das, cominariam em alguma espécie de “desajus- alternativa viável que implica em reduzir os danos
te social” a ser sofreado. causados pelo mau uso ou uso abusivo da subs-
Entretanto, apesar dos diques colocados à tância, sem que a abstinência seja um fim em si,
sua expansão e do poder exercido sobre a liberda- de modo que o livre-arbítrio do usuário é elemento
de e autonomia do indivíduo a fim de tolher suas essencial para a proposta, que lhe permite aderir
vontades e necessidades, sabe-se que nenhuma ou não, respeitando sua liberdade e alcançando o
substância psicoativa deixou de ser consumida usuário de acordo com suas particularidades.
no decorrer da História – pelo contrário – continua
a eclodir atualmente, com novas características e
lógicas de uso, sempre ao alcance de quem pos-
sa satisfazer. Desta forma, assim como outras
Referências
substâncias, o crack – enquanto objeto teórico
1. Adorno RCF, Rui T, Silva SL, Malvasi PA, Vasconcellos MP,
deste estudo – surge com suas próprias dinâmi-
Gomes BR et al. Etnografia da Cracolândia: notas sobre uma
cas e contextos de uso e se mantém ao abrigo pesquisa em território urbano. Saúde e Transf. Soc. 2013;
de uma “mancha” citadina sui generis que busca 4(2):4-13.
se resguardar das mais diversas demonstrações 2. Bauman Z. Confiança e medo na cidade. Tradução: Aguiar
verticalizadas de força e de violações de direitos E. Rio de Janeiro: Zahar; 2009.
humanos que ocorrem nos espaços públicos, so- 3. Bucher R. Drogas e drogadição no Brasil. Porto Alegre:

bretudo no que tange ao território específico em Artes Médicas; 1992.


4. Brasil. Câmara dos Deputados. Propostas de Lei e ou-
que se concentra, conhecido por “Cracolândia”.
tras proposições; 2017. [acesso em: 15 jan. 2017] Disponí-
Destarte, intervenções de ordem médico ju-
vel em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichade
rídicas são suscitadas para lidar com a questão. tramitacao?idProposicao=483808
Porém, sabe-se que o bem-estar do indivíduo de- 5. Cortina A. É preciso empoderar os invisíveis! In: Oselka G
ve ter primazia em relação ao interesse exclusivo (coordenador). Entrevistas exclusivas com grandes nomes
da ciência ou da sociedade. O exercício de uma da bioética – estrangeiros. São Paulo: Conselho Regional de
medicina paternalista e de um Estado hegemô- Medicina do Estado de São Paulo; 2009.
6. Cohen C, Ferraz FC. Direitos humanos ou ética das rela-
nico acaba por cercear a autodeterminação do
ções. In: Segre M, Cohen C (organizadores). Bioética. São
indivíduo, violando seus direitos fundamentais e
Paulo: EdUsp; 1995.
deteriorando a dignidade da pessoa humana de
7. Cohen C; Marcolino JAM. Relação médico-paciente: au-
forma difusa nos cenários de uso, desrespeitan- tonomia & paternalismo. In: Segre M, Cohen C (organizado-
do princípios basilares, como a liberdade, a bene- res). Bioética. São Paulo: EdUsp; 1995.
ficência e a não-maleficência. 8. Brasil. Conselho Federal de Medicina. Código de ética médica;
Por fim, conclui-se que procedimentos como 14 out 2010. [acesso em: 15 jan. 2017]. Disponível em: http://
as internações forçadas e as estratégias de redu- portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=ar
ticle&id=20659:codigo-de-etica-medica-res-19312009-ca-
ção de danos, são igualmente ações, porém, com
pitulo-iv-direitos-humanos&catid=9:codigo-de-etica-medica-
estruturas metodológicas muito díspares, onde a
-atual&Itemid=122 .
primeira, segue um padrão que impacta na liber- 9. Escohotado A. Historia elemental de las drogas. Ed. 6.
dade e na autodeterminação do indivíduo – posto Barcelona: Anagrama; 2014.
que submete o usuário a uma abstenção total e 10. Fortes PAC. Valores éticos da saúde global: responsa-
universal da substância, ainda que contrarie a sua bilizando-se pela saúde do outro? In: Porto D, Junior BS,

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

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12. Freud S. O mal-estar na civilização. Tradução: Souza PC. tde-27042008-180551.
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ética, deontologia e diceologia. In: Segre M, Cohen C (orga- ganizadores). Bioética: saúde, pesquisa e educação. Vol. 2.
nizadores). Bioética. São Paulo: EdUsp; 1995. Brasilia: Conselho Federal de Medicina; 2014.

|68
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Em busca da luz: a encruzilhada entre a fé e


as drogas na Cracolândia de São Paulo
In search of Luz: the crossroads between faith and drugs in Cracolândia of São Paulo

Marcos Antonio de Moraes (Montanha)I, Carlos “Comunidade”II, Roberta Marcondes CostaIII,


Thiago Godoi CalilIV, Marcelo RyngelblumV, Glauber CastroVI, Raonna Caroline Ronchi MartinsVII

Resumo Abstract

O Marcos
I uso deAntonio
substâncias psicoativas
de Moraes (Montanha) foié uma prática
morador necessária
da região da Luz e na vi- Thehabitual
frequentador use ofdapsychoactive
Cracolândia, hásubstances
3 anos. was a practice needed on the
daCarlos
II individual e comunitária
“Comunidade” do ser da
é frequentador humano. Para
região da diversas
Luz e socieda-
frequentador habitual da Cracolândia,
individual andháthe
3 anos.
community life of human beings. In many socie-
des, o espaço
III de lazer
Roberta sempre
Marcondes Costa (robertinhamcosta@gmail.com
esteve associado à ideia do “estar ties, the space of
) é antropóloga, leisure
atuante nohad always “A
movimento been
Cracoassociated
Resiste” etoMestranda
the idea doof
Instituto
fora de de Estudos
casa” Brasileirosdo
- a margem dadomínio
Universidade de São
imposto Paulo
pela (IEB/USP).
representação staying “out of home” - on the edge of the dominion imposed by the
IV poder familiar
do Thiago Godoi
- paraCalil
estar(thiguitto@hotmail.com
em um espaço de trânsito,) édepsicólogo,
transe, redutor de danos
family powerpelo Centro de Convivência
representatives É de Lei,on
- to be instead Mestre
a statee Doutorando em
of transition,
Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Pualo (FSP/USP).
de lazer. Entre deslocamentos e territorializações, o crack migra of trance, and of fun. Among of dislocations and territoriality, the
V
para a regiãoMarcelo Ryngelblum
central (marceloryn@gmail.com
da cidade de São Paulo e configura ) é psicólogo
novas e crack
redutor de danos na Cracolândia pelo Centro de Convivência É de Lei.
migrates to the central region of São Paulo City, and configu-
VI
lógicas de Francisco Glauber
apropriação, serão(glauber-castro@outlook.com
queCastro alvo de demonstrações de força ) é res redutor de danos na Cracolândia
newappropriation pelowill
logics, that Centro de Convivência
be the É de Lei.
target of power demons-
VII
exercidas Raonna Caroline
através Ronchi Martins
da hegemonia do Estado(raonnacrm@gmail.com
e do paternalismo da ) étrations psicóloga, psicanalista
carried e Doutoranda
out through em Psicologia
the State’s hegemonyClínica
anddo medicine’s
Instituto de
Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IP/USP).
medicina. Assim, busca-se analisar dilemas Bioéticos que surgem paternalism. Thus, Bioethics dilemmas that come since the moment
a partir do momento em que há conflitos entre a determinação in that there are conflicts between the determination to keep the
para assegurar a autonomia pessoal do indivíduo e o autocontrole personal autonomy of the individual, and the self-control to protect
para proteger a autonomia do outro. Quando se desloca o caráter the autonomy of others, is analysed.. When the ethic character of
ético das relações humanas para uma tecnificação dos problemas human relations is exchanged for a technification of the ethical pro-
éticos - onde as questões humanas passam por um juízo moral blems - where the human problems pass for a moral judgment that
que as substitui por problemas técnicos especializados e suscetí- transforms them into specialized technical problems susceptible to
veis de soluções profissionais que interferem na esfera individual professional solutions that intervene on the individual sphere - it
- significa submeter-se à esfera de influência que transfere ao Es- means to submit yourself to the sphere of influence that transfers to
tado e à medicina o direito de decidir sobre a vida, e sobre o que the State and to medicine the right to decide about life, and about
diz respeito à ética da vida. what concerns to the ethics of life.

Palavras-chave: Bioética; Crack; Cidade. Keywords: Bioethics; Crack; City.

I
Marcos Antonio de Moraes (Montanha) é morador da região da Luz e frequen- V
Marcelo Ryngelblum (marceloryn@gmail.com) é psicólogo e redutor de danos
tador habitual da Cracolândia, há 3 anos. na Cracolândia pelo Centro de Convivência É de Lei.
II
Carlos “Comunidade” é frequentador da região da Luz e frequentador habi- Vi
Francisco Glauber Castro (glauber-castro@outlook.com) é redutor de danos
tual da Cracolândia, há 3 anos. na Cracolândia pelo Centro de Convivência É de Lei.
III
Roberta Marcondes Costa (robertinhamcosta@gmail.com) é antropóloga, VII
Raonna Caroline Ronchi Martins (raonnacrm@gmail.com) é psicóloga, psi-
atuante no movimento “A Craco Resiste” e Mestranda do Instituto de Estudos canalista e Doutoranda em Psicologia Clínica do Instituto de Psiquiatria da
Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). Universidade de São Paulo (IP/USP).
IV
Thiago Godoi Calil (thiguitto@hotmail.com) é psicólogo, redutor de danos
pelo Centro de Convivência É de Lei, Mestre e Doutorando em Ciências pela
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Pualo (FSP/USP).

|69
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução Após alguma reflexão, nos alerta a prestar a


atenção ao lado espiritual existente que justifica a
“Cada um por si e Deus com todos!”
ausência de gatos devido à “energia” muito carre-
(Interlocutor Local)
gada do local, energia pesada: “Gatos aparecem

O
presente artigo busca se aproximar e ilus- por aqui, mas logo vão embora, pois gato é muito
trar a dimensão religiosa e espiritual na re- sensitivo, chega e logo percebe a energia do terri-
gião da denominada CracolândiaVIII, no cen- tório” (Caderno de Campo, 22 de julho de 2011).
tro da cidade de São Paulo. Partindo de experiên- Vale ressaltar que, como entre os autores
cias etnográficas e vivências plurais no territórioIX, há residentes e usuários da região da Cracolân-
constatamos uma intensa presença da espirituali- dia, portanto, grandes “especialistas” práticos na
dade nas vidas, nas falas, nas estórias do bairro, vivência das rotinas, do fluxo da localidade, o ar-
na presença religiosa institucional, nas atuações tigo se utiliza de longas conversas tidas com am-
dos diversos trabalhadores da região, etc. É fei- bos, enquanto estavam sentados nos colchões
ta uma reflexão sobre como a espiritualidade está de uma de suas “malocas”, enquanto esse anfi-
presente na vida das pessoas nesse contexto ilus- trião expressa o tema em questão:
trando, a partir de diferentes religiosidades, como “As coisas espirituais existem e aqui elas tão mais
esta manifestação acontece na vida cotidiana.
evidentes do que em qualquer lugar. Elas convivem
aqui. Todos aqui já tiveram a experiência do portal
Termos locais com relação à Cracolândia serão escritos com itálico.
VIII
para o mundo espiritual. Eu creio que seja para o
IX
Vivências e trabalhos de campo realizados por pesquisas individuais e co-
letivas, seja na vida cotidiana, seja por Redutores de Danos integrantes do inferno. Há horários que esse portal se abre, como
Centro de Convivência É de Lei (ver: www.edelei.org), e por integrantes do
movimento “A Craco Resiste”. se fosse uma troca de plantão” (Montanha).

|70
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Carlos, frequentador do local, acrescenta


que, nesse momento, “sente-se no ar as trocas
de energias” e continua:
“...as forças do bem também estão presentes aqui.
Há uma legião de anjos guerreando aqui. Estamos
no meio da guerra entre o bem e do mal. Só não fi-
ca mais estranho porque as forças do bem tão ga-
nhando. Menos quando o portal tá aberto, dá pra
saber por que rola muito barulho, gritos, cachorros
latindo, ninguém se entende, briga ali, porrada lá.
E não é viagem da droga não!” (Montanha).

Na maloca, esta conversa ocorre entre os


autores e todos concordam com a afirmação fei-
ta. Montanha, então, segue com um desafio:
“...um ateu que ler e disser: “esses caras tão
muito louco de droga” tá desafiado. Qualquer Figura 1
um que ler esse artigo e duvidar tá desafia- Imagem de Nossa Senhora da Luz
do a vim aqui e passar um dia e uma noite”
(Montanha).
comerciantes, devotos e outros passantes1. Os fi-
éis que se dirigiam à pequena ermida para suas
preces começaram a se referir à região como re-
Uma história de fé
gião da Luz, fazendo referência à imagem Santa15.
A região da Luz, antes de se tornar um bair-
Em paralelo à devoção a Santa, nesse perí-
ro, era conhecida como Campo do Guaré. Em lin-
odo ocorreu no Campo do Guaré um dos primei-
guagem indígena, Guaré significa “matas em ter-
ros crimes registrados na cidade de São Paulo,
ras molhadas”, já que se situa na várzea entre os
na época em que era ainda a pacata vila do Pa-
rios Tamanduateí e Tietê.
dre Manuel da Nóbrega: frei franciscano de nome
O início da ocupação da região aconteceu
Diogo foi assassinado por um militar espanhol,
no século XVI, quando um casal de portugueses,
em 1583, segundo registros em ata da Câmara
o carvoeiro Domingos Luís e sua mulher Ana Ca-
da cidade. Segundo levantamento de Arroyo1, o
macho, trouxeram de Portugal uma imagem de
frei “pagou com a morte a insolência de apenas
Nossa Senhora da Luz (figura 01). Em 1579, esta
ter pedido esmola ao soldado”1.
imagem de barro com olhos de vidro foi alocada
Este crime ocorreu nas proximidades da
na pequena ermida erguida no Campo do Guaré15.
pequena Ermida com a imagem da Santa, na re-
A imagem da Santa – que hoje se encontra no
gião da Luz. É Curioso como este cenário atu-
Museu e Arte Sacra de São PauloX –, rapidamen-
almente ainda concentra casos de violência e
te se tornou uma referência religiosa nessa região
intolerância em relação à pobreza e às pessoas
da Luz, ponto de passagem de tropeiros, viajantes,
em situação de rua.
Por muitos anos, a região de várzea Luz foi
X
Ver Museu de Arte Sacra de São Paulo: http://www.museuartesacra.org.br ocupada por fazendas, até que no século XVIII,

|71
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Figura 2.
Mosteiro da Luz
(foto por Militão
Azevedo, 1860).

em 1774, ocorreu a transformação local, com o Posteriormente, em 1881, foi posta a pri-
início da construção do Grande Mosteiro da Luz meira pedra para a construção do Santuário Co-
(figura 2), construção arquitetônica monástica e ração de Jesus, no Largo Coração de Jesus, local
imponente como uma base militar, que simboli- que já há alguns anos se encontra o “fluxo” dos
zava o poder da Igreja Católica com o objetivo de usuários de crack no bairro da Luz15.
impulsionar a ocupação, a habitação e a expan-
são urbana da região15.
Nessa época do Brasil Colônia, porém, era Cruzadas religiosas no “fluxo”
proibida a construção de novos mosteiros fora de No “fluxo”XII é comum se deparar com ma-
Portugal, visto que seu objetivo não era a clausura nifestações da fé como elemento importante na
de mulheres, mas sim a procriação de mulheres elaboração dos momentos de vida e construção
portuguesas e cristãs na colônia15. Por isso, a cor- dos processos de cuidado dos usuários de crack,
te portuguesa tenta o fechamento do mosteiro, o sejam esses pessoais ou institucionais. Monta-
que fez o governo local da época sustentar seu nha, residente e usuário do fluxo, conta que “in-
funcionamento do então ”mosteiro clandestino”XI. dependente da situação as pessoas não perdem
Essa primeira parte rascunhada deste arti- a fé. Todos os dias acordam e falam: Bom dia
go, fez Carlos Comunidades, nosso acompanhan- Cracolândia, Deus abençoe!”.
te da situação e coautor, afirmar: Nesta possível bênção de Deus para com
a região da Luz, trazemos a reflexão sobre as
“...a clandestinidade por opressão continua
comum aqui. E hoje é muito pior, porque não
são só os negros que são escravos” (Carlos XII
Aglomeração de pessoas que fazem uso de crack na região da Luz. Segun-
Comunidade). do Calil, “simultaneamente ao surgimento do termo “fluxo” na cracolândia
começaram a aparecer no território diversas caixas de som pequenas que
funcionam a baterias e pilhas. Em muitas delas ouve-se funk de todos os
lados. Vozes reproduzem as músicas ao vivo entre as pessoas. Sugiro que o
termo “fluxo” na cracolândia dialoga com o fluxo dos bailes funks nas regiões
periféricas. Traços de manifestações populares das margens trazidas para o
XI
Situação comum a outros mosteiros no Brasil nesta época. centro e resignificadas no contexto de uso de crack”6 (p. 70).

|72
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

características deste espaço urbano de uso de mesmo tempo em que acionam à esperança
crack a partir da percepção de uma pessoa que que, somada à fé, é capaz de idealizar certa res-
faz uso dessa substância no “fluxo”: tauração espiritual.
“Esse lugar aqui é como o Vale dos Ossos Se- Quando nos referimos à representatividade
cos! Vê lá, tá lá em Ezequiel...” (Caderno de política, é preciso destacar os jogos imaginários e
Campo, maio de 2013). simbólicos que se interpõem na compreensão de
um sujeito que está sob desamparo social e dis-
A referida passagem bíblica relata o momen-
cursivo. A pregnância imaginária da miséria e de
to em que a Terra se encontrava assolada pela
uma suposta distância dos ideais da cultura pode
morte espiritual de seu povo. Experiências traumá-
ser um impeditivo para essa relação, para o reco-
ticas, como a destruição de Jerusalém em anos
nhecimento de um sujeito de desejo, que quer coi-
antes, são representadas pela desesperança de
sas para além das oferecidas massivamente pela
um povo hebreu lançado à triste sorte. O Vale dos
cultura. É de fundamental importância que o sujei-
Ossos Secos representa o acúmulo de ossadas
to seja levado em consideração também a partir
de um povo que sucumbiu às inúmeras guerras,
do lugar que ele ocupa na lógica do mercado, ou
por volta de 580 a.C., momento justificado pelas
seja, atentar para o lugar de “resto”, de marginali-
incansáveis condescendências aos pecados de
dade que esse sujeito ocupa na estrutura social e
uma nação desacreditada, conforme a Bíblia2. Se-
a suspensão do sentido deste lugar que o susten-
gundo essas escrituras tal movimento é capaz de
ta sob essa mesma condição traumática.
ter como consequência uma calamidade única de-
A identificação do sujeito a este lugar de
vido à tamanha iniquidade2 (cap.7:vers.891).
dejeto é um dos fatores que dificulta o seu posi-
A passagem de Ezequiel apresenta leitura
cionamento na trama de saber e que irá carac-
dúbia, pois, ao mesmo tempo em que aborda a re-
terizar o seu discurso marcado, por vezes, pelo
signação do povo de Israel, traz em si a esperança
silenciamento. A escuta desses sujeitos podem,
de restauração desse povo, por meio da profeti-
tanto lhes propiciar dar andamento a articula-
zação de Ezequiel, que afirma estar sendo levado
ções significantes, rompendo com identifica-
pelo Espírito do Senhor ao Vale dos Ossos e diz:
ções imaginárias, de forma a contribuir para elu-
“Eis que farei entrar o espírito em vós, e vi- cidar alguns dos efeitos subjetivos carregados
vereis. Porei tendões sobre vós, farei crescer pelo peso da moral cristã16.
carne sobre vós, sobre vós estenderei pele e Segundo a antropóloga Helena Hansen, em
porei em vós o espírito, e vivereis”2 (p.578). pesquisas sobre a evangelização de usuários de
O verso 12, sob as palavras “Abrirei a vossa drogas em Porto Rico, as instituições religiosas
sepultura, e a vós farei sair dela”2 (p.578), pode apresentam um olhar que contrasta à visão bio-
ser interpretado como a restauração espiritual e médica da “perda de controle” como diagnósti-
política da humanidade e, por isso, é interessan- co do abuso dessas substâncias vericado, por
te a referência feita ao Vale dos Ossos Secos, exemplo, no DSM IV XIII americano. Para as insti-
aproximando-o ao contexto de uso de crack na tuições que promovem a fé religiosa, a relação
região da Luz. De certa forma, atualmente, os de dependência vem “como o resultado de uma
sujeitos ali presentes também estão com sua
representatividade política reduzida, afogados
XIII
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and
pelo descrédito do preconceito e da moral, ao Statistical Manual of Mental Disorders (DSM)).

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

escolha - a escolha de aceitar ou não a vontade a religiosidade se apresenta como algo importante
de Deus”11 (p.111). no processo de cuidado, aparecendo em diferen-
Incitação parecida às ideias de esperança tes concepções e formulações. Estudos orienta-
surge também quando relacionam a dinâmica do dos por uma lógica conservadora veem a religiosi-
território da Luz ao Salmo 91 da Bíblia: dade como fator importante dentro das propostas
“Não te assustarás do terror noturno, nem da que visam à abstinência e que, geralmente, são
seta que voa de dia, nem da peste que se construídas através de internações (forçadas ou
propaga nas trevas, nem da mortandade que não) em comunidades terapêuticas ou clínicas de
assola ao meio-dia. Caiam mil ao teu lado, e reabilitação, que, em muitos casos, se constituem
dez mil, à tua direita; tu não serás atingido”5 a partir de alguma matriz religiosa.
(Salmo 91). Porém, dar importância à religiosidade no
processo do cuidado dessas pessoas não é prer-
Murakami e Campos14 apontam um olhar di-
rogativa apenas dos que atuam a partir das vi-
ferente sobre a manifestação da fé e da religiosi- sões mais conservadoras. Pesquisas inovadoras
dade, pois a colocam como “busca pelo alívio do na área de Psicologia, como as de Gomes8, que
sofrimento, por alguma significação ao desespero constituem o campo “antiproibicionista” no de-
que se instaura na vida de quem adoece” (p.362). bate das drogas, formulam exemplos de como o
Em conversas sobre o referencial religioso uso das substâncias enteógenasXIV (em especial
entre as pessoas que frequentam a Cracolândia ayahuasca e ibogaína) são formas alternativas de
também aparecem essas posições, como aponta tratamento. Esses tratamentos têm múltiplas fa-
Carlos Camunidade: cetas e possibilidades, mas também põem, em
“Aqui têm fé e esperança. Tem muita solida- lugar especial, esse “encontro com o divino” que
riedade, não tem só sofrimento, tem felicida- dá origem à própria palavra “enteógeno”.
de. O sofrimento é evidente, mas o que ainda A ampla difusão da experiência religiosa co-
impera é a fé. As pessoas têm significação mo potente “porta de saída” para o mundo das
aqui” (Carlos Comunidade). drogas leva ao senso comum de que, na Cra-
colândia, as pessoas “viraram as costas para
Carlos Comunidade, ainda, afirma:
Deus” e, por isso, precisam voltar a exercitar a
“É valida toda forma de amor. Se for do bem
esfera espiritual da vida. Carlos, ao discutir essa
e não prejudicar o próximo. Na bíblia, Deus
ideia, aponta:
dá o livre arbítrio. O que seria o livre arbítrio?
“Esse pensamento é a mesma ideia de quan-
Quando o usuário de drogas se aproxima do
do os jesuítas chegaram no Brasil. Escraviza-
religioso tem segundas intenções: roupa, co-
ram pessoas assim. Evangelizavam como se
mida, dormida, etc. É muito diferente de vo-
as pessoas não tivessem religião. Sabemos
cês que batem mó papo. A troca que tem
que não tem como um pastor, ou qualquer
aqui é humana. É outra coisa. Evangélico
não. Evangélico chega aqui querendo dar a
salvação. Eu não sei se quero essa salvação!
O termo enteógeno deriva do grego antigo. Entheos significa “inspirado
Eu nem sei se existe...” (Carlos Comunidade).
XIV

ou possuído por um Deus” e o sufixo geno designa “geração, produção de


algo”10. Portanto uma tradução possível para enteógeno, que tem forma de
Dentre as pesquisas sobre o cuidado com pes- adjetivo, é aquilo que produz uma inspiração ou possessão divina10. Edward
MacRae dá o seguinte significado para enteógeno: “aquilo que leva alguém a
soas que fazem uso problemático de psicoativos, ter o divino dentro de si”12 (p.16).

|74
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

outro, curar uma pessoa de uma hora para se as pessoas não tivessem religião (Carlos
outra. É um processo” (Carlos Comunidade). Comunidade).
No Brasil, os debates a respeito da apro- Façamos a contextualização do proble-
priação do espaço público pela população pau- ma da criminalidade e das vidas que desviam
perizada têm sido valorizados pelo poder público da norma na “sociedade disciplinar” a partir da
nas duas últimas décadas, impondo muitas ve- noção de biopolítica Foucault7 que analisa a re-
zes ações dos próprios poderes locais, governa- forma dos sistemas penitenciário e judiciário
mentais ou não, que chegam até a expulsão su- que culminam no que ele chamou de “socieda-
mária, ao internamento em hospitais psiquiátri- de disciplinar”. Nesta, haveria uma mudança no
cos, chacinas de índios e de grupos inteiros da entendimento do ato infracional, que não seria
população de rua. Essas ações são realizadas mais um atentado a uma lei natural, religiosa
por vários tipos de pessoas com a conivência ou moral, mas sim a transgressão da lei civil, o
dos poderes locais e, até mesmo, pela própria que coloca o criminoso na posição de inimigo do
força policial. Na falta de uma política pública pacto social. Passa a haver, então, uma preo-
consistente para essa população, os mais va- cupação quanto às circunstâncias subjetivas do
riados segmentos sociais, inclusive pautados ato infracional, o que culmina na tentativa de
por doutrinações dogmáticas, acabam realizan- determinação de um “perfil de periculosidade”
do com desprendimento e boa vontade que se que visa o controle profilático. A tentativa de dis-
apresentam, a proeza de “cuidar”, mantendo as ciplinarização das pessoas passará a executar
pessoas pobres e em situação de rua em um es- um panoptismo por vias institucionais, onde a
tado de indigência, humilhação e assujeitamen- ordem deverá ser garantida por uma série de
to, conforme discute Brito13. instituições marginais ao judiciário – tais como a
A partir das elaborações de Schuch e Geh- escola, os asilos, os hospitais, as igrejas, como
len , interrogamos sobre certa tendência à es-
13
apontam Passos e Benevides13.
sencialização do problema da rua, que está cor- Com essa passagem para a forma discipli-
relacionada com as dinâmicas que conjugam du- nar, a sociedade não mais seria caracterizada pe-
as grandes perspectivas sobre o assunto: uma la exclusão dos indivíduos desviantes, mas pela
pautada pela visão de que o estar na rua é um tentativa constante de enquadramento destes à
problema que requer intervenções e práticas de cultura hegemônica que tampona tantas outras
governo determinadas a suprimir tal fenômeno a formas possíveis de vida. Essa forma de incluir
partir da simples retirada das pessoas na rua; pela exclusão faz com que as instituições disci-
e outra pautada no diagnóstico da causalidade plinares não excluam o indivíduo do meio social
macroestrutural, que subentende as pessoas simplesmente, mas apenas realizem um domí-
que estão na rua a partir de uma despossessão nio específico, colocando-o em outro espaço que
simbólica, como exclusivamente sujeitos da falta. possa controlar sua subjetividade. Essa questão
Nesse sentido, o apontamento de Carlos é é de suma importância para pensar o direciona-
preciso: mento de ações para qualquer sujeito que faça
“Esse pensamento é a mesma ideia de quan- uso da rua.
do os jesuítas chegaram no Brasil. Escravi- Então, por uma via que poderíamos classi-
zaram pessoas assim. Evangelizavam como ficar como biopolítica, passou-se a considerar a

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

itinerância e a mobilidade como características tema e progressivamente foram articulados refina-


próprias dos classificados “em situação de rua” mentos conceituais sobre este modo de vida.
e como práticas de resistência à legitimação da A ruptura com a terminologia “sofredores de
direção oferecida pelas ações governamentais. rua” para “povo da rua”, ou “moradores de rua”
Nesse caso, a itinerância e a mobilidade não são teve como intuito implicar um deslocamento da
apenas faltas a serem civilizadas por práticas de experiência da rua percebida como um sofrimen-
intervenção, mas podem expressar a agência po- to, sob a influência da ética cristã, para a expe-
lítica de certas pessoas que não raro são con- riência da rua como uma possibilidade de vida,
sideradas “bárbaras”, “primitivas” e “zumbis”, o que implica em pensar em outros usos da rua
que os levaria à anteriormente denominada des- que não apenas o traumático17.
possessão simbólica. Nesse sentido, qualquer Buscamos, por meio desse artigo, compre-
intervenção relativa às pessoas em situação de ender a rua e as pessoas que circulam por ela,
rua – como a qualquer outro sujeito – deveria pro- como uma opção imbuída de alguma positivida-
mover uma forma de subjetivação desviante da de. A constituição de uma vida na rua pode ter
lógica que naturaliza o sujeito, com isso tornando uma dimensão afirmativa, como o estabelecimen-
possível a construção de um “si mesmo” a partir to de um modo de vida, ou seja, como algo que
das próprias determinações, ao invés do assujei- traga, de alguma maneira, um sentido de cons-
tamento que ocorre na via contrária às doutrina- trução de uma cultura. Porém, é preciso assinalar
ções religiosas e estatais. que essa construção parte de uma falta, de um
Quando consideramos a agência política des- vazio, de uma destituição. Viver de resto e, ainda
sas pessoas, é preciso refletir sobre a possibilida- assim, viver, coloca o problema da realidade do
de de que certos grupos desejam manter práticas mundo e de sua plausibilidade para aqueles que
autônomas em relação às formas normalizadas de vivem no limite da vida.
inserção social. Sendo assim, a mobilidade e a
recusa ao sedentarismo podem significar contra-
Escravos de Jó
riedade com certa lógica de captura subjetiva e
Montanha, que está inserido nessa situa-
moral presente em nosso modelo de sociedade.
ção, fala sobre a fé, que nunca acaba:
Isso aponta para a necessidade de rever a história
“Nas horas mais difíceis todos nós conversa-
branca e pensar que determinadas populações,
mos com Deus. O mais inacreditável é não
mais do que estarem sendo “deixadas para trás”,
perder a fé. Somos tipo Jó, o cara perdeu tu-
podem estar praticando uma recusa à cooptação
do e tá lá, crendo, a gente também. Quando
por instituições religiosas, inclusive com respaldo
perde a fé a vida não vale mais nada, perde
estatal, e a suas lógicas de fixação e controle de
a esperança. Todos esperam melhoras, pes-
mobilidades, como aponta Scott13.
soal e coletiva” (Montanha).
No Brasil, as primeiras iniciativas de interven-
ção e debate sobre esse conjunto diverso de pes- A quantidade de vezes que o livro bíblico de
soas foram marcadamente filantrópicas e religio- Jó é citado por diferentes pessoas na Cracolân-
sas, momento no qual tal população era entendida dia chama a atenção. Alguns citam passagens
como “sofredores de rua”. Principalmente no final decoradas tal como escritas na Bíblia, outros re-
da década de 1980, tiveram início reflexões sobre o latam à sua maneira:

|76
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

“Você não lê a Bíblia?! Tem que ler! Jó foi aque- disso, podemos dizer que o livro de Jó é a
le cara que sofreu da aposta de Deus com proclamação de que somente o pobre é apto
o Diabo... O Diabo colou no Céu e disse pra para fazer tal experiência e, por isso, é capaz
Deus que apostava que mesmo Jó, que era de anunciar a presença e ação de Deus den-
mó religioso, iria xingar Deus se sua vida fosse tro da história” (cap.42, vers.5)3.
desgraçada. Deus, pra provar, acaba com a vi-
A espiritualidade é como um campo comum
da do coitado [Jó]. Ele perde todo seu dinheiro,
e esperado nas conversas na Cracolândia, espe-
e ele era muito rico, a família toda morre, ele
cialmente aquelas marcadas pelas incertezas e
se fode e fica na rua, todo cheio de problema,
estranhamentos mútuos dos primeiros contatos.
mas mesmo assim ele não fala mal de Deus,
É comum a sensação de que muitas pessoas es-
mas fala várias verdades, é a parte da bíblia
tejam tentando falar exatamente o que imaginam
que fala da gente [nessa hora ele apontou pa-
que queremos ouvir, para assim, conseguirem
ra o fluxo e depois para ele mesmo]...” (Cader-
aquilo que potencialmente podemos oferecer, em
no de Campo, junho de 2013)
especial, quando o interlocutor é colocado nesse
É plausível esta identificação, por parte das lugar de alguém que pode prover algo ou alguma
pessoas que usam crack e que estão em situa- ajuda. Por isso, é comum o primeiro assunto ser
ção de rua, com o sofrimento em vida atraves- sobre Deus, ainda que existam outros pontos de
sado por Jó. Muitos discursam sobre a vida que conversas, esse tema retorna de forma bastante
tinham antes de chegar a Cracolândia. No texto expressiva nos diálogos cotidianos.
bíblico, existem passagens que se adequam com Uma constante no campo de pesquisa é a
a forma como muitas pessoas, estando ou não intensa circulação das pessoas que usam crack
na cena de uso de drogas, especialmente influen- entre a diversidade de instituições religiosas. Es-
ciadas pela grande imprensa, veem o lugar: “... te trânsito parece se configurar como reformula-
terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e ções particulares de práticas e crenças que são
de caos, onde até mesmo a luz é escuridão...”3 reelaboradas de modo flexível e pessoal. Uma
(cap.10, vers.22). dinâmica intimamente ligada às reconfigurações
Lendo algumas análises do texto bíblico, a es- que a região da Luz atravessa na história, como
tória de Jó é tida como certo empoderamento espi- afirma Calil:
ritual das pessoas desfavorecidas economicamen- “... o trânsito constante de muitas pessoas,
te, o que também pode apontar alguns dos senti- migrantes e imigrantes, que impulsionadas
dos para os quais essas passagens se relacionam pela fervorosa economia marginal, informal,
com a vida das pessoas que vivem na Cracolândia: e por vezes ilegal, começaram a redesenhar
“Aspecto importante do livro é que Jó faz a a identidade do bairro”6 (p.30).
sua experiência de Deus na pobreza e margi- Carlos acrescenta a essa perspectiva:
nalização. A confissão final de Jó - “Eu te co-
“Essa área também foi ferroviária e rodoviá-
nhecia só de ouvir. Agora, porém, meus olhos
ria, sempre ponto de chegada de migrantes.
te veem”3 (cap.42, vers.5).
Eles trazem religiões diferentes, daí mistura
“...é o ponto de chegada de todo o livro, trans- tudo. Isso acontece porque Deus é único e se
formando a vida do pobre em lugar da ma- manifesta em todas elas, o importante é que
nifestação e experiência de Deus. A partir as pessoas acreditem” (Carlos Comunidade).

|77
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Essa mistura de tipos humanos apresenta também em outras subjetividades associadas a


grande potência nas relações com a diversidade este contexto. Segundo registro de campo:
e na convivência dos diferentes. É comum uma “No meio do grupo de usuários está uma mo-
circulação estratégica entre diversas instituições ça vendendo café, bolo e cigarro. Porém, ela
a fim de conseguir amparo frente às diferentes não vende bebida alcoólica. Seu nome é Pau-
necessidades de cada momento. Rogério é um la. Paula já ficou na detenção por seis anos,
exemplo de possíveis arranjos de fé construídos a por assalto. Diz que teve que assumir toda
partir da vivência na rua: foi criado em uma famí- a culpa de todo o grupo, acabou sendo a la-
lia católica, carrega consigo a imagem da Virgem ranja da história. Diz não ser usuária de cra-
Maria, mas, em momentos de grande aflição, vai ck, e que ali todos a respeitam muito, que
à pregação das igrejas pentecostais. Protege-se se ela pede para não fumarem muito perto
com patuás de matriz africana, já obteve grande
dela eles a respeitam. Diz que encontrou a
momento de revelação e cuidado com relação ao
palavra de Jesus, e mesmo vendendo cigarro
uso problemático de drogas com o DaimeXV, faz
tem fé que Jesus a perdoa, pois também es-
parte de um bloco afro e, quando necessário, uti-
tá oferecendo alimentação para os usuários”
liza-se dos serviços católicos da Missão BelémXVI.
(Caderno de Campo, julho de 2011).
Como vemos, a Cracolândia é uma experiên-
cia ligada ao sagrado para uma grande diversida- Em alguns casos, o exercício da religiosida-
de de pessoas. Muitos se veem (e são vistos) co- de já acompanhava a pessoa antes de chegar à
mo aqueles que estão numa espécie de purgatório situação de rua; para outros essa dimensão foi
na Terra, que estão pagando seus pecados estan- se desenvolvendo depois de adentrar neste cir-
do ali, ou mesmo, que a experiência que vivem faz cuito. As pessoas, em grande parte, são oriun-
parte do difícil aprendizado que têm que passar das de bairros periféricos, onde há uma grande
nessa encarnação. Muitas vezes, parte do sentido influência e concentração de igrejas evangélicas.
de estar ali passa por sentimentos de culpa, mis- Após entrarem para a vida na rua a influência
turados com a explicação de que estar nesse lugar evangélica (e religiosa como um todo) muitas ve-
é como uma punição por algo que fizeram de erra- zes se intensifica, não só pela quantidade de pre-
do (como usar a droga, roubar, matar, etc). Muitos gações que ocorrem ali (contando, às vezes, até
alegam que a dependência do crack é uma enfer- com trio elétrico), mas pelo fato de que a maio-
midade espiritual e que sua cura está para além ria das pessoas da Cracolândia já tenha passado
dos protocolos médicos tradicionais, caracteriza- por internações que, em grande parte, ocorrem
da como um “espírito do vício”, associando o crack em comunidades religiosas, mesmo na rede pú-
ao Diabo. Nesse sentido, o usuário de crack é um blica brasileira. Uma das instituições que atuam
portador de um mal absoluto sob um espírito res- na área, a “Cristolândia”18, apelido da Missão Ba-
ponsável pelos seus infortúnios. Este sentimen- tista, possui diversas estratégias para evangeli-
to de culpa extrapola a relação direta para quem zar os habitantes da região, em especial, aqueles
de fato faz uso de crack, mas parece presente com uso problemático de crack, realizando desde
a internação gratuita, até a oferta de almoço (só
servido para quem escutar a pregação do pas-
XV
Religião de origem amazônica a partir do sincretismo entre a tradição indí-
gena e a Igreja Católica. Utiliza-se do chá da ayahuasca como dispositivo de tor). Segundo registro de campo, após conversa
comunhão com o sagrado.
XVI
Ver: http://www.missionebelem.com/brasil/. com funcionário dessa instituição:

|78
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

“A “Cristolândia” paga pelas internações em diversidade de negociações possíveis no terri-


média 300,00 reais por pessoa, e que no mo- tório e nas vidas que o ocupam”6 (p.114).
mento (2011) devem ter uns 200 em recupera-
Somando-se a esta perspectiva, as igrejas
ção”. ... diz também que “a Instituição, que exis- podem ofertar a possiblidade de encontro a es-
te a 1 ano e meio recebe muita ajuda externa, sas pessoas, de que se enxerguem entre iguais
doações de alimentos e etc… o próprio colégio e a possível sensação de pertencimento delas a
em frente, doa 5.000,00 reais por mês para um determinado grupo. Hansen11 aponta que a
a Igreja”. Receberam também de doação uma aproximação com Instituições religiosas e a ma-
Kombi, nova, que estava estacionada em fren- nifestação da fé é capaz de redefinir a identidade
te a porta. A placa é do Rio de Janeiro, mas já pessoal, proporcionando uma inversão simbólica,
tem todas as mensagens e logos da “Cristolân- partindo de usuários de drogas possivelmente
dia”” (Caderno de Campo, julho 2011). hedonista para um disciplinado homem de Deus.
Para além da alta oferta de igrejas evan- Essa conversão pode proporcionar o sentimento
gélicas nas periferias da cidade, ou da quanti- de nivelação social, equiparando ex-usuários a
dade de evangélicos em trabalhos “sociais”, há não usuários11.
outros motivos que parecem importantes para Carlos afirma que “a maior parte das pes-
que tais igrejas tenham um lugar de destaque soas do fluxo são evangélicas desgarradas, ca-
na recuperação de usuários problemáticos de tólicos não praticantes e também muito umban-
drogas: o pertencimento a um grupo. Argumen- dista com conhecimento vulgar sobre a religião”.
tado como um dos maiores desafios no “trata- De forma ampla, assemelham-se a constituição
mento” de pessoas que passaram por um uso geral do perfil de pessoas da cidade. As pessoas
problemático ou abusivo de substâncias, em que vivem na Cracolândia afirmam já terem sido
especial aqueles que passaram por lugares so- evangélicas, mas que atualmente são “ovelhas
ciais tão marcados como o “nóia” ou “ex-nóia”, desgarradas”. Outros que se reconhecem do can-
é conseguir que se sintam parte de um grupo domblé, mas que, por outro lado, podem estar
social, que criem para si outra identidade, ou- com a vida “toda errada”, embora continuem afir-
tro lugar onde sejam aceitos. Na Cracolândia, mando a religião e se sentem acompanhadas de
por mais difíceis que sejam as condições de vi- seus guias e orixás.
da, muitos encontram um lugar no mundo, uma Mesmo que se culpem por não estarem fa-
identidade que lhes cabe e pares com quem se zendo direito suas obrigações, isso parece forta-
identificam e reconhecem. Segundo considera- lecer os adeptos do candomblé em relação aos
ções sobre o contexto e as negociações da vi- evangélicos; afinal, não se sentem sozinhos nes-
da na região da Luz, Calil6 aponta que: se momento que vivem, de grande vulnerabilidade.
“Podemos pensar a Cracolândia como um lugar Orixás são plurais e imperfeitos e, sendo assim,
que acolhe indivíduos com trajetórias de vida os erros e “desvios” de seus “filhos de fé” podem
em comum, e que a partir de uma eficiente lei- ser compreendidos como parte do enredo da pes-
tura da cidade abrem possibilidades para de- soa, que não deve necessariamente ser julgadaXVII.
senhar e redesenhar trajetos que dão contorno
a modos criativos de sobrevivência. Caminhos
que podem sim relacionar-se com o uso de dro- Por outro lado, a Mãe Regina, uma mãe de santo de Salvador, afirmou que
XVII

os orixás das pessoas da Cracolândia já estão longe delas (conversa com


gas, mas este sendo apenas um detalhe na mãe Regina em Salvador, 2014).

|79
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Esses elementos da cultura “afro” são muito costelas com certa deformação. Disse que
comuns na região da Cracolândia, a começar pelo aquilo aconteceu porque ele nasceu para ser
fato da grande maioria das pessoas ser negra. oferendado para o demônio, que sua mãe fre-
As pessoas que são dessas matrizes religiosas, quentava a Quimbanda e lhe tinha prometido
muitas vezes, se identificam com o orixá Exu, o como sacrifício. Aquela marca na costela era
mensageiro, aquele que é dono das encruzilha- porque tinham o forçado a nascer de 8 meses
das. A Cracolândia também pode ser vista como (porque, segundo ele, o numero 8 é especial).
uma “super encruzilhada”, segundo o redutor de Mas no processo de forçá-lo a nascer ele aca-
danos da área que é praticante da umbanda: bou sendo machucado, o que lhe deixou com
“...fazer um trabalho ali, o pedido chega na tal marca que o salvou do sacrifício: “Não ofere-
hora, é Sedex! Imagina quantas pessoas já cereis coisa alguma que tenha defeito, porque
não são oferendas naquela encruzilhada”. não seria aceita em vosso benefício.”4. Contou
Montanha afirma que isso acontece porque que foi salvo da morte ao nascer, mas que te-
“aqui você está em um portal, é como se fos- ve uma convivência muito ruim com a mãe e o
se um pedido entregue em mãos” (Diário de pai. Como ele não teria cumprido a função pa-
Campo, 2012). ra a qual seus pais o trouxeram ao mundo ele
era muito mal tratado. Disse, então, que quan-
Montanha também acrescenta comentários
do tinha 17 anos seu Exu lhe pegou e fez com
sobre esse fato:
que ele ficasse vagando na rua durante dois
“...o que tenho observado aqui é a manifesta-
anos. Disse que não se lembra de nada des-
ção de entidades, como a Pomba Gira. Eu cos-
se período, mas que as pessoas lhe contam
tumo falar que aqui é o Reino da Pomba Gira
que ele andava sem parar, sempre com o olhar
e outras entidades da Umbanda, da esquerda.
perdido no horizonte. Depois desse tempo ele
Eu venho observando cada uma dessas pes-
voltou a si. Primeiro deu uma “desandada” no
soas que recebem essas entidades. Eu tenho
crack, mas depois, quando passou a fazer su-
saído com mulheres que quando chegamos no
as obrigaçõesXVIII, deixou daquilo e hoje conse-
quarto, e começamos a transar, a Pomba Gira
gue ter sua dignidade, “com lugar para morar
vem conversar comigo. Eu interajo com ela. O
e tudo mais”, vendendo exemplares da revista
que há de comum é que quando as entidades
OCAS...”XIX (Caderno de Campo, junho de 2015).
vão embora as meninas não lembram de nada
e têm dor na nuca. Todas as Abelhas Rainhas A reciprocidade parece mesmo permear vá-
têm elas. Tem umas que prestam homena- rias esferas de todo o debate em torno da Cra-
gens à elas, usam vermelho” (Montanha). colândia. Um ex-trabalhador da região, redutor de
danos, que possui uma trajetória pessoal dentro
E a Cracolândia, realmente, parece ser um
da umbanda, nos contou que:
lugar de oferendas, sacrifícios e reciprocidades.
Uma passagem do caderno de campo é muito in-
trigante para pensar a concretude que pode ter
esse lugar de pessoa/oferenda:
“Obrigações” aqui se referem aos trabalhos feitos nas religiões afro para
XVIII

“Luiz, depois da empatia criada pelas piadas, os orixás e demais guias espirituais.
A revista OCAS é um projeto de geração de renda para pessoas em situa-
XIX

começou a nos contar sua história. Levantou ção de rua. Os participantes são revendedores de uma revista que lhes custa
1,00 real e é vendida por 3,00 reais. Mais informações em: http://www.ocas.
a camiseta e mostrou seu tórax que tem as org.br/#!quem-somos/c19ug.

|80
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

“... Eu saia de lá [da Cracolândia] mais para lá “Eu ajudei a quebrar! Eu morava na Apa es-
do que pra cá, não me sentindo mal, mas sen- sa época. Destruímos essa imagem porque
tindo uma presença muito forte, e não era do achamos que era um golpe de marketing,
meu Exu, mas do meu Oxóssi, porque eu ia pa- nessa época a Apa estava em evidência. Ele
ra lá com o intuito de, de alguma forma, poder colocou a imagem num ponto estratégico,
ajudar as pessoas, e Oxóssi é isso, essa linha onde ia passar o ministro da cultura. Acha-
de cura, não cura no sentido de que vou levar mos uma atitude oportunista. Eu expliquei
“a cura” pra galera, você entendeu né...” (Ca- pro artista. A Funarte tava ocupada, ele es-
derno de Campo, 13 de setembro de 2015). tava querendo aparecer. Sabe né, tá cheio
Não são apenas os trabalhadores de insti- de oportunista querendo aparecer em cima”
tuições religiosas que são espiritualizados, muitas (Montanha).
pessoas que circulam nesse território, sejam de Por fim, mesmo os trabalhadores e/ou pes-
organizações não governamentais (ONG’s), sejam quisadores que estiveram nesse território, suposta-
militantes, trabalhadores de programas públicos, mente motivados por outros sentidos, acabam, de
seja funcionários do Estado ou da Prefeitura, tam- alguma forma, esbarrando na questão “espiritual”
bém são. AdornoXX em debates públicos sobre a do lugar, nem que seja no sentido de fazer algum
Cracolândia, a definiu como uma “feira de mila- tipo de ritual de proteção antes de chegar, ou um
gres”, onde muitas pessoas estão disputando os ritual de “limpeza” das energias pesadas depois de
usuários para realizar o seu milagre e provar a ver- sair. Montanha aponta que isso acontece porque:
dadeira vocação de sua igreja, religião e deus. “As pessoas vêm aqui cumprir uma missão.
Em 2011, o projeto do artista plástico Zarella Essa conversa não é a toa, era pra aconte-
Neto causou comoção pública, envolvendo a mí- cer. A minha prenda é esse papo. As pessoas
dia, moradores do bairro e usuários de crack na que trabalham na Cracolândia e fazem com
região. Na Rua Apa instalou a imagem da “Nossa prazer é porque vieram ao mundo com uma
Senhora do Crack”9, uma imagem da Virgem Ma-
missão, não tem outra lógica” (Montanha).
ria sob um fundo azul claro e uma luminária. Es-
sa “padroeira dos usuários de crack” não resistiu
dois dias no lugar, pois foi destruída por eles que
Considerações Finais
consideraram a ideia de sua criação e exibição um
O participante do fluxo encerra a nossa con-
absurdo e extremamente desrespeitosa. Segundo
versa sobre o conteúdo desse artigo de um mo-
a matéria jornalística no site G19, o problema seria
do que não poderia ser melhor, inclusive no atual
misturar a imagem de Virgem Maria a do crack: co-
momento político:
mo o crack – que seguramente não é algo de Deus
– se mistura com a mãe de Cristo? “O mundo físico não é nada. É o mundo de
Na conversa que tivemos na “maloca” do ilusão. O que vai prevalecer é sempre o espi-
Montanha durante a escrita desse artigo, o anfi- ritual, o físico é passageiro. O Dória tá falan-
trião explicou o que realmente aconteceu: do um monte de coisas, que vai acabar com
a Cracolândia..., vai nada! Ele não vai acabar
nunca, porque ninguém vence as forças espi-
rituais. Vários já tentaram. Mas quando tenta-
XX
Antropólogo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
que pesquisa e orienta pesquisas sobre a região da Cracolândia. ram acabar com os judeus, os tornaram mais

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

poderosos. Pode até acabar por um tempo, 6. Calil TG. Condições do lugar: Relações entre saúde e am-
mas não vai acabar, é espiritual, não é a von- biente para pessoas que usam crack no bairro da Luz, espe-
cificamente na região denominada cracolândia. 2015. Dis-
tade dos homens” (Montanha).
sertação de Mestrado. São Paulo: FSP-USP; 2015. 145 p.
Consideramos, portanto, o aspecto da espiri- 7. Foucault M. Em defesa da sociedade. Trad. Mana Erman-
tualidade como um tema central do território da Cra- tina Galvão. São Paulo: Martins fontes; 1999.
colândia. É possível ver diversas linguagens para a 8. Gomes, BR. O uso ritual da ayahuasca na atenção às
populações de rua. Salvador: Edufba, 2016.
manifestação da fé, que, de maneiras similares, po-
9. Globo.com. Imagem de ‘Nossa Senhora do Crack’ cau-
rém diferentes, produzem elaborações e fortaleci-
sa polêmica em SP. 23 nov 2011. Disponível em: http://
mentos em oposição à condição de vulnerabilidade g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/07/imagem-de-nos-
que as pessoas atravessam nesse contexto. Con- sa-senhora-do-crack-causa-polemica-em-sp.html
tudo, vale ressaltar a importância de se preservar 10. Goulart SL, Labate BC. O uso ritual das planas de po-
a diversidade da vida e religiosa, e ter o cuidado de der. Campinas: Mercado de Letras; 2005.

evitar a moralização do modo de vida das pessoas 11. Hansen H. Pharmaceutical Evangelism and spiritual capi-
tal: an american tale of two communities of addicted selves.
que ali transitam. Quanto mais presente o monopó-
In: Raikhel E, Garriott. (Orgs.). Addiction Trajectories. Durham
lio de um único olhar, maior o peso da moral sobre and London: Duke University press. 2013; 4:108-125.
a singularidade das pessoas e o lugar que habitam. 12. MacRae E. Guiado pela lua: xamanismo e uso ritual
da ayahuasca no culto do Santo Daime. São Paulo: Editora
Brasiliense; 1992.
13. Martins RCR; A escuta ético-política na rua. 2016. Dis-
sertação de Mestrado. Curso de Psicologia Social. São Paulo:
Referências Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2016. 100 p.
1. Arroyo L. Memória e tempo das igrejas de São Paulo. Ed. 14. Muramaki R, Campos CJG. Religião e saúde mental: de-
2. São Paulo: Companhia Editora Nacional; 2010. safio de integrar a religiosidade ao cuidado com o paciente.
2. Bíblia. A. T. Ezequiel. In: Bíblia. Português. Bíblia sagra- Brasília: Rev. Bras. de Enf. mar-abr 2012; 65(2):361-7.
da: contendo o antigo e o novo testamento. São Paulo: Edi- 15. Museu de Arte Sacra de São Paulo. Programa educati-
ção Pastoral. Editora Paulus. 1990; 37:5-6. vo. Disponível em: http://www.museuartesacra.org.br
3. Bíblia. A. T. Jó. In: Bíblia. Português. Bíblia sagrada: con- 16. Rosa MD. Uma escuta psicanalítica das vidas secas.
tendo o antigo e o novo testamento. São Paulo: Edição Pas- São Paulo: Textura (São Paulo). 2002; 2(2):42-47.
toral. Editora Paulus; 1990. 17. Rosa MD. Psicanálise implicada: vicissitudes das prá-
4. Bíblia. A. T. Levítico. In: Bíblia. Português. Bíblia sagrada: ticas clínico políticas. Porto Alegre. Revista da Associação
contendo o antigo e o novo testamento. São Paulo: Edição Psicanalítica de Porto Alegre. jul. 2011/jun. 2012; vol. 41:
Pastoral. Editora Paulus. 1990; 22:20. 29-40.
5. Bíblia. A. T. Salmo. In: Bíblia. Português. Bíblia sagrada: 18. Trinta DRF. Deus e o Diabo na terra do crack: uma etno-
contendo o antigo e o novo testamento. São Paulo: Edição grafia da “cosmopolítica” Batista. Monografia de Bacharela-
Pastoral. Editora Paulus; 1990. 91:5-7. do. Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, 2014.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Exposição e invisibilidade: as narrativas de usos


e controles de drogas consideradas ilícitasI
Exposure and invisibility: the narratives of uses and controls of illicit drugs

Selma Lima da SilvaII; Rubens de Camargo Ferreira AdornoIII

I
II
III
Resumo Abstract

Quando se estuda o uso de crack parece haver unanimidade: o When the use of crack is studied there seems to be unanimity: use
uso sempre é problemático. Diversos estudos são desenvolvidos is always problematic. Most of the studies are developed with users
com usuários que estão em tratamento e/ou internados. Ou então, who are being treated and / or hospitalized. Or when it comes to
quando se trata de usuários em cenas públicas, da rua, não se in- users in public street scenes, one does not interpret the context, the
terpreta o contexto, a situação de rua e todas as outras questões street situation, and all other social issues involved, but all the ills
sociais envolvidas, mas todas as mazelas são apresentadas por are presented by a monocausality: the drug Taking this into account
uma monocausalidade, a droga. Tendo isso em conta, a pers- , the perspective of this article is discuss that the crack use´s is
pectiva desse artigo é de colocar em discussão a afirmação de would occur without any control on the part of those involved in this
que o uso do crack se daria sem nenhum controle por parte dos practice. It also aims to examine the extent to which so-called “pro-
envolvidos nesta prática. Visa, também, examinar em que medi- blematic uses” (associated with public use scenes), and the how the
da os chamados “usos problemáticos” (associados às cenas de moral anda stigmatizing speeches perform non-visible crack users
uso público) e a produção de discursos morais e estigmatizantes experiences. It was also intended to identify the controlled use and
performam as experiências dos usuários de crack de uso não visí- analyze differents contexts of use, taking into account the knowled-
vel. Pretendeu-se, ao mesmo tempo, identificar o uso controlado e ge built by the users, it is important for the development of public
analisar os diferentes contextos de uso, levando em consideração policies that respects rights autonomies of the users, whether they
o conhecimento construído pelos usuários, fato importante para o have developed problems with uses or not.
desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes e que respei-
tem os direitos e a autonomia dos usuários quer tenham desenvol- Keywords: Social contexts of drugs uses; Controlled use of drugs;
vido problemas com o uso ou não. Crack uses; Drug policy.

Palavras-chave: Contextos sociais de uso; Uso controlado de dro-


gas; Uso de crack; Política de drogas.

I
Este texto é parte da tese “A Exposição e a Invisibilidade: percursos e percal-
ços por Lisboa e São Paulo: as narrativas dos usos e dos controles do uso de
crack”, de Selma Lima da Silva, apresentada ao Programa de Pós-Graduação
de Saúde Pública da USP, São Paulo, 201721.
II
Selma Lima da Silva (selmals@yahoo.com.br) é socióloga, Mestre em Saúde
Pública e Doutora em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universi-
dade de São Paulo.
III
Rubens de Camargo Ferreira Adorno (radorno@usp.br) é antropólogo, Mestre
em Saúde Pública, Doutor e Livre Docente em Saúde Pública. Foi professor da
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

|83
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução a Saúde Coletiva − como movimento que tem


uma história na sociedade brasileira − têm um

A
constituição do uso de drogas como um caráter de natureza mais explicitamente políti-
fenômeno social nas sociedades con- ca do que de atenção médica e psiquiátrica no
temporâneas enfrentará sua trajetória âmbito do consumo e atendimento de serviços
como uma questão biopolítica, desdobrada dessas especificidades.
desde os aparatos jurídicos repressivos do Es- A questão das drogas foi sendo construída
tado ao campo da saúde, sem necessariamen- como um problema “psiquiátrico-médico” sem
te ser tratado, desde o início, como uma ques- que necessariamente fosse discutido por seto-
tão de saúde pública, mas, principalmente, res mais amplos e pertinentes a esse campo,
como uma questão de intervenção médica. As que, por si só, já demandava uma discussão só-
relações de classe, as desigualdades sociais, cio-política e uma compreensão multidisciplinar
as relações de poder, são transversais às polê- mais ampla. Essa questão ficou, no entanto, res-
micas, propostas e políticas de intervenção no trita ao campo da Medicina Psiquiátrica, quando
campo da saúde. Partimos aqui do princípio de não, da Polícia, dependendo do lugar social, gê-
que a Saúde Pública e, mais assumidamente, nero, raça-cor e etnia dos sujeitos que se viam

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

expostos à condição do uso de álcool e drogas. saúde pública/coletiva, notadamente após a


Esse dispositivo médico-policial se desenvolve epidemia do VIH-aids” 3 (p. 543-567).
ao longo do século XX e, mais acentuadamente,
Contudo, o uso de drogas injetáveis...
depois da II Guerra MundialIV,33.
...”só se tornou objeto de preocupação das
O uso de drogas ganhou visibilidade de for-
políticas de prevenção e controle da aids, em
ma mais pública, para além das esferas psiquiá-
1988, quando foram elaboradas as primeiras
tricas e também jurídicas, com o advento da aids;
propostas de intervenção junto a este grupo
embora a compreensão do fenômeno social das
específico. Além disso, até o surgimento da
drogas ainda tenha ficado restrita a uma visão
aids o desconhecimento desse assunto era
epidemiológica que a reduzia à esfera dos cuida-
quase completo, sendo tratado mais no âm-
dos e da intervenção orientada por uma gestão
bito jurídico-penal do que como uma questão
“bioquímica da droga”, isto é, quando se pensa
de saúde pública”19(p.95).
o corpo a partir de um referencial restrito ao seu
funcionamento biológico e a droga como agen- Além disso, até que uma política já adotada
te (desqualificando, assim, contextos e agencia- em outros países fosse possível no Brasil trans-
mentos dos sujeitos que seriam de importância correram mais uns anos, pois o tema do consumo
à área interesse da saúde pública), para intervir de drogas ilícitas sempre foi tratado por ações e
sobre pretensos agravos à saúde da população. operações repressivas como ocorreu em relação
Como o uso de droga – injetável –, nesse momen- ao uso de drogas (cocaína) injetável, o que levou a
to, surge como um problema que se relacionava conflitos, prisões e disputas jurídicas até a edição
com uma epidemia – a aids – passa pertencer de do Decreto nº 42.927, de 13 de março de 1998
maneira mais visível como um problema para a regulamentando a Lei nº 9.758, de 17 de setembro
saúde pública. Nesse contexto, ainda que de for- de 1997, que autoriza a Secretaria da Saúde a
ma instrumental e insipiente, passa a se interes- distribuir seringas descartáveis aos usuários de
sar e escutar possibilidades de compreensão e drogas injetáveis no Estado de São Paulo1.
intervenção a partir da área das ciências sociais A pesquisa sobre o uso de drogas passou
e comportamentais, como aponta Adorno3: a ser tema de interesse da Antropologia, a partir
“A introdução das ciências sociais e, mais re- dos anos 1950 do século passado, quando es-
centemente, da etnografia no campo sanitá- se uso passa a se constituir em “problema das
rio, que atribui às ciências sociais um papel drogas”. No Brasil, até a década de 1990 desse
“técnico” ou de ferramenta para trazer os gru- mesmo século, a pesquisa sobre drogas nas Ci-
pos de difícil acesso para os serviços de saú- ências Sociais era bastante incipiente e focavam
de se relaciona com expressões de caráter mais na violência e criminalidade associadas ao
epidemiológico como maneiras de intervir em tema. Quanto aos estudos etnográficos sobre o
“populações ocultas”, “populações de difícil uso de drogas, até 1994, no país, segundo Ma-
acesso” ou “populações vulneráveis”, esta úl- crae24, podia-se contar apenas com quatro tra-
tima expressão mais largamente utilizada no balhos pioneiros, como os de Velho39, Macrae e
Brasil, passam a fazer parte do repertório da Simões25, Lima24 e Fernandez14.
Epele11 sinaliza a mesma dinâmica com
relação aos estudos sobre o uso de drogas na
A história desse processo no Brasil pode ser consultada em trabalhos como
IV

os de Torcato33. Argentina:

|85
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

“(...) Además de um conjunto de antecedentes enfrentamentos armados e guerras têm lugar e on-
locales sobre el uso de drogas, especificamen- de sofrimentos intensos e demandas de saúde im-
te dentro del domínio de salud mental y de põem suas agendas, fazendo essas tensões pas-
la epidemiologia (...) el desarrollo del conoci- sarem a fazer parte da pesquisa etnográfica11.
miento sobre este tema estuvo forzado, princi- Poder compreender os usos de drogas pe-
palmente, por la emergencia instalada por la la perspectiva do sujeito e de seu contexto de
epidemia del VIH-sida”11 ( p. 35). uso e conhecer o seu entendimento acerca do
A autora destaca que pesquisar o uso de próprio uso é um objetivo que a etnografia pode
drogas definiu novos desafios para as Ciências desenvolver. A pesquisa que aqui apresentamos
Sociais e para a Antropologia e que a noção de “A Exposição e a Invisibilidade: percursos e per-
“populações invisíveis” e de “difícil acesso”V, na calços por Lisboa e São Paulo: as narrativas dos
área da saúde, criaram uma demanda para estu- usos e dos controles do uso de crack”31 objetivou
dos etnográficos como possibilidade de acessar conhecer outros usos possíveis de crack e, tam-
essas populações com desafios metodológicos bém, compreender os significados atribuídos ao
que também se colocavam para pesquisas sobre uso durante as trajetórias de uso dos sujeitos, no
o uso de drogas11: contexto em que estão inseridos, suas práticas
de uso e as estratégias para o controle do uso e
“Trabajar com poblaciones de usuarios/as de
para o uso em si, além de verificar como essas
drogas impone la inclusión y la resolución de
práticas e estratégias se dão, assim como são
las distancias y obstáculos: el estigma, la dis-
construídas na sua experiência e em seus percur-
criminación, la ilegalidade, las sanciones so-
sos de uso, mediadas reflexivamente pelo imagi-
ciales y los estados subjetivos associados al
nário do uso problemáticos. Para isso, além de
consumo de substancias psicoativas. La ob-
se valer de etnografia realizada na cidade de São
servación participante hace possible confron-
tar y neutralizar los sesgos que implica el de- Paulo e de Lisboa, ouviu usuários e ex-usuários
sarrollo de entrevistas em estas poblaciones de crack de uso não visível, nessas duas cida-
y contextualizar em lógicas locales las carac- des, que não estavam em centros de tratamento.
terísticas y consecuencias de determinadas
práticas de consumo de drogas”11 (p.29-30).
Usos controlados de crack:
Epele ainda destaca que o desenvolvimento percursos metodológicos
de estudos antropológicos que abordaram critica- As pesquisas desenvolvidas com usuários
mente o uso de drogas e populações marginaliza- de drogas, em geral, e, com o crack em parti-
das ocorreu em um momento de revisão teórica e cular, os acessam via centros de tratamento
metodológica da etnografia, como método, a partir para usos problemáticos ou, com essa mesma
da entrada dos antropólogos em territórios cerca- perspectiva, enquadram aqueles que se encon-
dos pela violência cotidiana onde intensos conflitos, tram em “cenas” de uso público. Isso acaba por
enviesar tais estudos, pois, o fato de a pessoa
estar em tratamento já deixa claro a existência
V
Essas expressões surgiram na epidemiologia como um campo que buscava do “uso problemático” e reforça, principalmente
estratégias para acessar aqueles grupos que por se considerarem excluídos
ou discriminados eram alvo de intervenções sanitárias e deviam ser atingidos no caso do crack, a noção determinista de que
por medidas de saúde para serem alvo do controle e transmissão de determi-
nadas doenças, em geral doenças transmissíveis. todo uso terá o mesmo fim. Na pesquisa aqui

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

apresentada, realizada em Lisboa e São Paulo31, Este estudo se utilizou da contribuição da An-
a pretensão foi exatamente o contrário, criar um tropologia, mais especificamente da etnografia. Pa-
vínculo para que as pessoas pudessem discorrer ra Geertz17, o que se faz em Antropologia é sempre
livremente sobre suas histórias de vida e os usos uma etnografia e só com base no entendimento do
que faziam, tanto de drogas lícitas, como das ilí- que seja a prática etnográfica é que se compreende
citas, tendo como pressuposto de que havia e/ o que é a análise antropológica como forma de
ou seguiam usando o crack entre as preferências conhecimento. O autor ressalta, porém, que essa
que tinham por esta ou aquela droga. não é uma questão de métodos e procedimentos.
O consumo de drogas por ser uma prática Assim, a prática etnográfica inclui em seus instru-
considerada ilícita e sujeita a reprovação social mentos, segundo ele:
ou funcionar como uma categoria acusatória35 traz “...a observação direta de comportamentos,
maior dificuldade de ser alcançado como objeto a observação participante (quando há um
de pesquisa. Os usuários dessas substâncias pre- maior envolvimento no cotidiano do grupo
ferem manter o uso fora das vistas e do conheci- pesquisado), coleta de depoimentos, história
mento de quem não é partidário de tais experiên- de vida, narrativas orais...”17 (p.7).
cias, visando uma proteção a possíveis problemas
Esta prática proposta por Malinowski introduz
relacionados à justiça e/ou à esfera social – como
o pesquisador no mundo “nativo”. Geertz também
amigos e familiares desconhecedores de sua prá-
destaca que o pesquisador deve ter claro que:
tica, também na escola, no trabalho, etc. Com isso
“...seja qual for seu recorte metodológico, um
acessá-los se torna uma tarefa bastante delicada
determinado bairro, instituição ou seita religiosa,
e de elevado grau de dificuldade, principalmente
ou ainda outro objeto de pesquisa, recomenda o
quando a substância utilizada é o crack.
reconhecimento de que este objeto faz parte de
No caso do crack, muitas vezes, o uso é
uma rede mais complexa”17 (p.5).
omitido ou ocultado também do círculo de amigos
que utilizam outras substâncias em conjunto. Is- O exercício de tornar o estranho familiar e o
so demonstra como o crack consegue acionar o familiar estranho constitui movimento fundamen-
discurso do medo e do determinismo do poder da tal para apreensão da realidade por parte da prá-
substância que direciona os utilizadores para um tica antropológica, tornando possível, desta for-
padrão de consumo sem controle. Dessa forma, ma, uma visão menos contaminada pela natura-
estabelecer uma metodologia que desse acesso lização dos fatos cotidianos e possibilitando per-
aos utilizadores de crack teria de ser construída no ceber os vários sentidos e significados presentes
próprio processo de busca desses interlocutores. nas práticas dos diversos atores sociais. Assim
Becker5 defende a ideia de que a metodolo- sendo, a escolha da Antropologia justifica-se pelo
gia não pode ser pensada “a priori” e sim como próprio objetivo da pesquisa que envolve o con-
consequência do próprio objeto de estudo e das sumo de substâncias psicoativas, conhecidas ge-
relações que se estabelecem no campo da pes- nericamente como “drogas”, neste caso o crack,
quisa. Portanto, tem de ser pensada por quem como comenta Velho36:
está fazendo a pesquisa. Defende ainda, que a “(....) A contribuição da antropologia para a com-
interação pesquisador, contexto e pesquisado preensão desta problemática consiste em mos-
fazem parte do método devendo também fazer trar como existem n maneiras de utilizar as
parte da análise. substâncias, em função de variáveis culturais e

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

sociológicas. Estas não só se somam, como com- cultura, para passar a vê-lo como uma interação
plexificam as distinções que possam ser registra- indivíduo e sociedade e/ou indivíduo e cultura. O
das ao nível da análise bioquímica”36 (p.24). autor aponta, ainda, que o “desviante” não está
fora de sua cultura, na verdade ele apenas faz
Como, no estudo feito com usuários de
uma leitura divergente das regras socioculturais
crack, está se tratando de um comportamento
estabelecidas, chamando a atenção para o cará-
estigmatizante – o consumo de drogas – julgou-
ter político que existe entre o conflito rotulador/
-se necessária a contribuição dos interacionistas
rotulado sobre o “desviante”, resultado da força
simbólicos para analisar tais práticas.
que determinados grupos assumem na socieda-
Com o início da Antropologia Urbana, a pes-
de para poder designar esses indivíduos sem po-
quisa etnográfica deixou de olhar para o outro es-
der social, como “desviantes”.
tranho e distante e passou a olhar para o familiar
Tendo iniciado uma discussão sobre os
e próximo27. Neste contexto, a Escola de Chicago
consumos “problemáticos” em espaço públi-
torna-se um dos expoentes da Antropologia Ur-
co e seus controles em estudo anterior e com
bana e origina a teoria do desvio. Nessa teoria,
o propósito, discutir e desvelar outros consumos
o desviante é entendido como o indivíduo que
possíveis do crack31 buscou-se, para o estudo
transgride as normas socialmente estabelecidas,
relatado, os discursos e práticas dos envolvi-
intencionalmente ou não, devido a algum defeito
dos nesses usos, a polissemia dos significados
caracterológico ou de falha de socialização, sen-
atribuídos pelos sujeitos em variados contextos,
do marginalizado por isso. Nessa concepção, o
práticas e produção dos discursos atribuídos ao
desvio é entendido como algo que o indivíduo traz
crack. Focou-se, também, sobre a forma como
em si e que o afasta do desenvolvimento ideal. a substância é pensada/atualizada pelos diver-
Os interacionistas simbólicos, por sua vez, sos sujeitos que foram ou são consumidores do
irão entender o desvio como consequência da crack. Dessa forma, poder entender como tais
aplicação, pelos outros, de sanções dirigidas ao concepções interferem nos efeitos, tanto do con-
indivíduo que apresenta comportamento diferen- trole do uso, como também de seu descontrole,
te dos socialmente estabelecidos, passando, além de tentar entender quais são os parâmetros
dessa forma, a ser rotulado por tal comportamen- de controle e descontrole acessados e acionados
to. Desse modo, esses autores não entendem o e em que momentos do histórico de consumo.
desvio como algo inerente ao indivíduo, mas co- Buscou-se, assim, verificar o quanto a noção de
mo socialmente produzido, onde tal produção se descontrole está intrinsecamente associada com
faz com o intuito de manter a ordem social. a concepção/crença no poder da substância e co-
Velho37 propôs uma relativização do concei- mo, subjetivamente, o descontrole está associa-
to de desvio. Em seu livro “Desvio e Divergên- do às cenas de uso público.
cia”, discutiu a necessidade de se trabalhar com A proposta de estudar os usos que não
o conceito do desvio de uma maneira mais relati- aconteciam em espaço público, denominado co-
vizada, superando a “camisa de força” de precon- mo “invisíveis” implicou em mais dificuldades de
ceitos e intolerâncias para deixar de vê-lo como acessar pessoas que tinham tais práticas, caben-
patologia em visões que variam de um psicolo- do lembrar que a visibilidade dada pelo espaço
gismo a um sociologismo de produção individual aberto já traz em si uma invisibilidade. Quem olha
e fragmentada, desvinculada da sociedade e da para os usuários nesses espaços não enxerga

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

singularidades, individualidades. Se eles não con- Ainda, devido a toda a dificuldade para aces-
formam uma grande massa, são conformados por sar interlocutores que quisessem falar sobre su-
julgamentos morais que acabam por unificá-los as experiências, as entrevistas foram iniciadas
em uma categoria de acusação35 em que perdem pela fala da própria trajetória da pesquisadora no
seu direito a humanidade, não sendo “mais iguais campo, sobre o uso de drogas, lícitas e ilícitas na
a nós”, mas sim “pobres coitados que deixam de vida, tencionando equilibrar, mesmo sabendo ser
ser um humano e se tornam zumbis”. Ou melhor, impossível eliminar, a desigualdade que se colo-
não se olha mais para os usuários nesses espa- ca a priori entre a informação dada pelo interlo-
ços, se olha para os espaços que os congregam e cutor e a interpretação desta feita pelo pesquisa-
para suas práticas “condenáveis”, terminando por dor. Também com isso, procurou-se não colocar o
redefinir tais espaços como “terra de ninguém” pesquisadora em posição de alguém que faria um
onde não há regras, aonde, portanto, tudo pode julgamento moral das narrativas, permitindo que o
acontecer, ou melhor, em “terra do crack”, aon- momento apenas propiciasse uma discussão dos
saberes e das experiências vividas e permitindo
de nada de bom pode acontecer, visto que é um
ouvir os interlocutores a respeito da liberação e ou
espaço onde o crack é o soberano.
descriminalização das drogas e o que entendiam
O espaço de uso público do crack, no centro
sobre os termos/categorias “viciados”, “depen-
da cidade de São Paulo, se constitui em terreno
dentes”, “adictos”, “doente”, além do que enten-
fértil para as explicações/ressignificações místi-
diam por controle e descontrole.
cas das trajetórias dos sujeitos. Lá, os próprios
Buscando preservar suas identidades fo-
usuários denominam o local, de acordo com suas
ram atribuídos outros nomes aos interlocuto-
convicções/crenças religiosas, como “Inferno”,
res, mesmo quando alguns deles autorizaram a
“local de provação”, “local pesado onde os gatos
identificação, visto que, como algumas pesso-
não conseguem sobreviver”.
as entrevistadas faziam parte de uma rede de
Todas as entrevistas foram gravadas com
amigos, a identificação de um pudesse identifi-
consentimento dos interlocutores e transcritas. car facilmente outros indivíduos. Também foram
Enquanto conversas informais e descontraídas, omitidos nomes de cidades, bairros de moradia
não promoveram nenhum constrangimento para e locais de trabalho que pudessem facilitar uma
falar sobre o tema, orientaram, em linhas gerais, identificação.
para que falassem de quem eram, de suas tra-
jetórias com o uso de drogas e, especialmente,
com o uso do crack na vida. As entrevistas foram A descoberta dos usos controlados e
conduzidas o mais próximo de uma conversa in- do aprendizado de uso de uma droga: discussãoVI
formal, facilitando o diálogo mais aberto que, se A contracultura dos anos 1960, influenciada
por um lado, geraram narrativas densas, por ou- pela geração beat da década anterior, buscava
tro, não permitiram que alguns dados objetivos novos valores em oposição aos valores da socie-
fossem alcançados, muito embora, isso também dade capitalista e o uso de drogas que fazia parte
se deveu ao fato de narrarem experiências pas-
sadas e que, quando acionadas, traziam à memó-
ria, não apena a lembrança da experiência vivida, VI
Esse artigo não reproduz os resultados mais específicos e conteúdo das
narrativas do estudo “mas desenvolvemos algumas interpretações e conclu-
mas também a reflexão sobre ela. sões que chegamos nessa pesquisa

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

de uma atitude contestatória buscava, além de portanto, mais poder sobre o seu uso e sobre a
tudo, uma autonomia do homem com seu corpo substância, já que o responsável pela sua admi-
e relacionamentos que levassem em conta mais nistração é ele mesmo e não um médico. Para o
os sentimentos do que as convenções sociais, autor, esse conhecimento norteará a experiência
valorizando as experiências espirituais em opo- que terá com a droga, uma vez que os usuários já
sição aos valores materiais vigentes7,9,24. Dessa sabem que efeitos devem esperar, tanto no que
forma, algumas substâncias, como o dietilamida se refere aos desejados, como aos indesejados.
do ácido lisérgico (LSD), a mescalina, o peiote, Cria-se, então, uma “cultura da droga” à me-
os cogumelos e a maconha, começaram a ser dida que se conhece qual a melhor dosagem pa-
utilizadas com o objetivo de ampliação da consci- ra obter os efeitos desejados, como se evitar os
ência visando o autoconhecimento. efeitos indesejados, qual a melhor via de admi-
Foi a partir dessa década também, que a nistração, qual o melhor local para usá-la e com
utilização de substâncias psicoativas entrou para quem. Esse aprendizado é fruto de experiências
os temas de interesse da Antropologia. Alguns do indivíduo que são “testadas” em comparação
estudos tornaram-se referência, como o de Cas- às experiências dos demais. Dessa maneira, os
tañeda9, sobre o uso do peiote, e o de Becker7, efeitos que uma droga pode produzir estão as-
sobre o uso da maconha. Os usos eram estuda- sociados tanto a sua ação fisiológica, como às
dos sob a perspectiva do uso ritual das plantas diferenças individuais e culturais, aos cenários
psicoativas por determinadas sociedades ou gru- de uso e ao conhecimento circulante sobre a
pos, em que se observava que sua utilização no substância.
contexto de uma determinada cultura nunca ex- Zinberg40, em seu livro “Drug, Set and Set-
trapolava os limites dos valores culturais em que ting”, discutiu sobre o uso controlado de substân-
estavam inseridos, não ocasionando abusos ou cias psicoativas. Defendeu que o uso de drogas
problemas para os usuários e suas sociedades. deve ser abordado levando em consideração uma
Nesse contexto, houve maior interesse no complexidade de fatores: os fatores farmacoló-
estudo do uso controlado dessas substâncias, gicos, relativos à atuação da substância em si,
tendo como pressuposto que, também nas so- não estão isolados e nem são independentes do
ciedades complexas existiria um ritual de uso e estado psíquico do indivíduo no momento do uso
iniciação em que ocorreria um aprendizado não e de sua estrutura de personalidade, assim como
só da maneira de usar, como também das sensa- da influência do meio físico e social onde ocorre o
ções esperadas, no gostar dos efeitos, em saber uso e dos significados culturais que lhe são atri-
escolher o melhor local para o uso, na dosagem buídos. Sendo assim, o meio social, através do
adequada e em como evitar os efeitos indeseja- desenvolvimento de sanções e rituais, possibilita
dos, entre outros aspectos, ao que Becker7 cha- o controle do uso de drogas ilícitas ao determinar
mou de “carreia do usuário”. valores e regras de conduta (sanções sociais) e
Becker6, em seu artigo “Consciência, Poder padrões de comportamento (rituais sociais), ge-
e Efeito da Droga”, demonstrou como, tanto no rando, assim, controles sociais informais.
uso das drogas lícitas, como o das ilícitas, exis- Em seu estudo, Zinberg40 acompanhou usuá-
te um conhecimento adquirido pelos usuários. rios de heroína que mantinham um padrão de uso
Porém ressaltou que, paradoxalmente, os usuá- controlado que resultava na redução dos efeitos
rios de drogas ilícitas têm mais conhecimentos e, indesejados e verificou que eram pessoas com

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

outras atividades, que apresentavam o uso do psi- induzindo padrões de uso estáveis. Isso não
coativo apenas como uma pequena parte de suas significa necessariamente níveis mais baixos
vidas. O autor comentou que os estudos da déca- de uso de drogas”20 (,p.243)VII.
da de 1960 igualaram e raramente deram atenção
Grund20 mostra que, quando as drogas es-
ao consumo ocasional ou moderado como padrão
tavam disponíveis, os usuários eram capazes de
viável. Quando isso ocorria, eram vistos como um
manter usos elevados sem desenvolver proble-
estágio transitório para a abstinência ou para a
mas relacionados a esse uso.
utilização compulsiva, além de só abordarem pes-
Gilberto Velho39, com seu estudo “Nobre
soas quem tinha problemas com o uso.
e Anjos”, de 1975 (só publicado em 1998), vai
Somente na década de 1970 a comunidade
abordar o uso de drogas como demarcador de um
científica começou a reconhecer estudos sobre
estilo de vida e de visões do mundo em camadas
padrão de uso. Grund20, em seu estudo “Drug Use
médias da sociedade carioca e que não se cons-
as a Social Ritual: Functionality, Symbolism and
titui como problema para os seus usuários, pois
Determinants of Self-Regulation”, em que acompa-
é utilizado dentro do contexto sociocultural e de
nhou usuários de heroína e cocaína, confirmou o
consumos a que as pessoas estavam integradas.
enfoque de uso controlado das drogas proposto
Macrae e Simões25 aponta o mesmo na pes-
por Zinberg. Porém, para entender os processos
quisa “Rodas de fumo: o uso da maconha entre
de autorregulação Grund introduziu dois novos
camadas médias urbanas”, que traz observação
elementos: a disponibilidade da droga e a estru-
participante e entrevistas com usuários habituais
tura de vida20. Esses, conforme o autor, irão in-
e controlados de maconha que estavam social-
fluenciar no estabelecimento de rituais e regras
mente integrados, com vinculações de trabalho
que promovem a autorregulação.
e à sociedade de consumo. Os autores identifi-
Disponibilidade da droga, rituais e regras
caram que a iniciação do uso da maconha, a per-
formam um trio que se retroalimentam e deter-
cepção dos seus efeitos, o desenvolvimento de
minam o processo de autorregulação que con-
controles informais do uso e as estratégias de
trola o uso de drogas. Mas entende-se que, sob
aquisição e a associação do uso com outras ativi-
uma política proibicionista, a disponibilidade de
dades, promoviam um padrão de uso controlado.
drogas será afetada, o que prejudica a manu-
Alguns autores já demonstraram que os usu-
tenção de rituais e regras, uma vez que o foco
ários de drogas (mesmo os considerados com
do usuário se concentrará em conseguir a droga
usos problemáticos) desenvolvem todo um cálculo
com um afrouxamento dos rituais e regras para
de uso34. Pois que, para conseguir a substância,
a regulação do uso:
fazem todo um planejamento: têm que conseguir
“Como resultado, rituais e regras relaciona- dinheiro e decidir que tipo de atividade desenvol-
dos à droga tornam-se menos dirigidos à ver para isso, ou conseguir algo que possa ser tro-
autorregulação e segurança no sentido de cado pela substância, além do horário que cada
saúde, e mais para salvaguardar, cobrir e fa- atividade deve/pode ser levada a cabo; também
cilitar o uso de drogas e as atividades relacio- têm que escolher em qual local de venda de dro-
nadas (por exemplo, transações de drogas). ga ir ou qual fornecedor procurar, qual quantidade
A disponibilidade suficiente cria, assim, uma
situação na qual rituais e regras podem se
desenvolver restringindo o uso de drogas e VII
Tradução dos autores.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

comprar, quanto consumir, em qual local consu- de redução de danos, fato observado na pesqui-
mir, em qual via de uso irá utilizar para conseguir sa “Usuários de crack e espaços de uso: agen-
os melhores efeitos, quais apetrechos utilizar para ciamentos e relações de trocas em territórios ur-
fazer esse consumo e que outras substâncias uti- banos” (CNPQ: 402697, 2010/2012) coordenada
lizar em conjunto ou não para evitar efeitos inde- por Adorno2 na mesma região entre os anos de
sejados e/ou potencializar os efeitos desejados. 2011 e 2012.
Esses cálculos, para além de demonstrar a agên- Devemos ainda citar o trabalho de Fernan-
cia do usuário para levar a termo o seu consumo, dez , “Coca-Light? Usos do corpo, rituais de con-
14

demonstram, também, que existe um aprendizado sumo e carreiras de “cheiradores” de cocaína em


do uso que é desenvolvido ao longo do seu percur- São Paulo”, que acompanhou um grupo de usuá-
so de utilização da substância. rios de cocaína em dois períodos distintos com
Na pesquisa de mestrado, concluída em um intervalo de 11 anos, verificando a eficácia
2000, com o título “Mulheres da Luz: uma etnogra- das estratégias de controle do uso desenvolvidas
fia dos usos e preservação no uso do crack”, que por esses sujeitos e apontando, como um deter-
teve como objetivo conhecer as relações que se minante do sucesso de tais estratégias, o con-
estabeleceram entre a prática da chamada baixa texto no qual essas estratégias eram utilizadas,
prostituição feminina e a prática do uso de crack, a aprendizagem do uso e as condições socioeco-
Silva32, buscou entender a importância do uso do nômicas dos sujeitos.
crack nesse contexto, qual o papel a droga desem- Decorte10, em seu estudo “Drug users per-
penhava na vida dessas mulheres e como elas ar- ceptions of ‘controlled’ and ‘uncontrolled’ use”, de-
ticulavam a sociabilidade no espaço que passou a senvolveu um estudo que denomina de etnográ-
ser conhecido como “Cracolândia”, que apresenta- fico com 111 usuários experientes de cocaína,
va a superposição das atividades de prostituição com idades entre 19 e 64 anos, em que um terço
e uso de drogas que, historicamente, são/eram al- do total constituído por mulheres com renda entre
vo de ações de repressão policial e de ações sa- 1.120,00 a 1.400,00 dólares por mês e que fa-
nitárias e que procuram/procuraram, em diversos ziam um uso controlado, buscando compreender
momentos segregar e confinar as práticas do mer- porque alguns usuários conseguem atingir e man-
cado sexual. Tais ações voltaram a ser acionadas, ter o uso controlado de cocaína, enquanto outros
atualmente, pela indicação de internação compul- perdem o controle. A média de idade de início de
sória por propostas que defendem essa a forma uso da droga foi de 20 anos e, nos três meses
mais adequada de tratamento para usuários de anteriores à entrevista, 81,1% estavam utilizando
crack, que vem sendo oferecida pelo Estado como em diferentes quantidades e 18,9% não estavam
política pública orientada para a disciplina e o con- mais consumindo. Essa pesquisa, realizada na ci-
trole dos corpos e das práticas15. dade da Antuérpia, Bélgica, pesquisou pessoas
Um dos focos centrais desse trabalho com que não se encontravam em tratamento e não
prostitutas32 foi conhecer as estratégias de con- faziam parte de populações vulneráveis e/ou com
trole e aprendizado de uso de crack e o desenvol- problemas com a polícia e com a justiça. Os par-
vimento de autocuidados. Verificou-se que, além ticipantes foram recrutados na vida noturna da
dessas estratégias existirem, ao longo dos anos, cidade e convidados a responder à entrevista que
as mesmas foram ampliadas e passaram tam- buscava identificar e descrever os mecanismos
bém a incorporar os discursos e as estratégias de controle informal ou de autorregulação dos

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

usuários controlados de cocaína e como esses disponibilizada. Hart mostra que os resultados,
controles eram repassados, O estudo, demons- em linhas gerais, apontam que a escolha de se
trou que os usuários controlados têm papéis sig- autoadministrar cocaína/crack aumentou signifi-
nificativos na vida cotidiana convencional (traba- cativamente com o aumento das doses (0,12mg,
lho, estudos, relações familiares) e baixa vulnera- 0,25mg, 0,50mg) e baixou significativamente
bilidade social, além de conseguirem manter di- quanto menos cocaína foi ofertada e os vales de
versos interesses não centrados nos consumos dinheiro estavam disponíveis, em comparação
de drogas e uma rede de amizades que inclui com os vales de mercadoria21.
também não usuários de drogas. Esses fatores Mesmo em se tratando de estudos epide-
lhes dão uma identidade positiva e estimulam a miológicos que utilizam categorias psiquiátricas
manutenção do uso controlado. tradicionais, encontramos pesquisas que vão
Jackson-Jacobs23, que pesquisou o uso de relativizar o imaginário que foi criado em torno
crack em um contexto protegido, a que deu o tí- dessa droga. Falck e colegas13 desenvolveram
tulo de: “Hard drugs in a soft contexto”, relacionou um estudo longitudinal para saber mais sobre a
as formas de uso com classe social. No estudo dependência de crack. A amostra consistiu de
longitudinal, com usuários da classe média-alta 172 usuários de longo prazo que nunca haviam
americana que frequentavam e residiam em um cumprido os critérios do DSM-IV para dependên-
campus universitário, comparou o uso feito por cia de cocaína ao longo da vida e que não ha-
esses com o uso que se fazia nos “guetos” das viam se submetido a tratamento, entrevistados
cidades americanas, onde a visibilidade dada pe- periodicamente ao longo de 8 anos. Da amostra,
lo uso e as condições socioeconômicas precárias 62,8% cumpriu o critério para dependência e não
das populações que lá residiam tinham papel im- houve diferenças significativas entre os grupos
portante no que era considerado o “problema do que desenvolveram e que não desenvolveram de-
crack”, situação em que os jovens dos guetos so- pendência, quando considerados os dados socio-
friam todas as sanções públicas, morais e legais demográficos; mas houve correlação positiva en-
pelo envolvimento com a droga, inclusive sendo tre dependência e transtorno psiquiátrico antis-
levados às prisões, ação, que retroalimentava o social, hiperatividade e déficit de atenção13. Em
discurso moral do “problema do crack”. termos sociodemográficos, apenas a raça/etnia
Hart e colegas21 desenvolveu pesquisa com se mostrou significativa, com proporcionalmente
usuários de crack entre os anos de 1998 e 1999, menos afro-americanos do que brancos atenden-
tentando demonstrar que esses usuários podiam do aos critérios de dependência de cocaína. Den-
fazer escolhas racionais e não ficavam alheios a tre alguns dos resultados apresentados nesse
outros incentivos devido ao uso grave da droga. estudo, se deu destaque para os listados acima,
Nesse estudo com seis usuários experientes, em com a ressalva para o fato de que é possível se
que houve internação para autoadministração do fumar crack por muitos anos sem se tornar de-
crack, foi disponibilizado um vale de 5,00 dóla- pendente, embora se tornar dependente fosse o
res em dinheiro ou mercadoria como estratégia desenvolvimento mais comum. Isso fez pensar o
de reforço alternativo ao uso do crack. No início quanto essa informação não é considerada nas
do dia, antes de fazer a escolha entre o crack e pesquisas de modo geral: o fato de alguns usuá-
os vales de mercadoria/ ou dinheiro, era permi- rios usarem o crack por longo período de tempo,
tido a eles ter uma amostra da dose que seria sem desenvolverem dependência.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Quando se quer saber mais sobre os pro- Oliveira e Nappo28, em seu estudo “Carac-
blemas associados ao uso de uma substância, terização da Cultura de Crack na Cidade de São
é necessário olhar para todos os aspectos que Paulo”, cujo perfil sociodemográfico da maioria
o compõe e não apenas para a vertente proble- da amostra se compunha de homens jovens, sol-
mática (que, com certeza, também é importante). teiros, de baixo nível de escolaridade e socioe-
Podemos pensar que a política proibicionista de conômico e sem vínculos empregatícios formais,
drogas pode influenciar no desenho de pesquisas identificaram também um padrão de uso contro-
desenvolvidas sobre o tema. Discutindo sobre os lado de crack, caracterizado pelo uso não diário
financiamentos de pesquisas pelo National Insti- e geralmente associado à manutenção dos com-
tute on Drug Abuse (NIDA), nos Estados Unidos, o promissos familiares, de estudo e de trabalho,
neurocientista Hart22 argumenta: bem como ao desenvolvimento de estratégias
“Os cientistas que solicitam verbas ao NIDA intuitivas de autocontrole ou autorregulação que
sabem perfeitamente que devem enfatizar os “consistem em estratégias individuais, fatores de
danos provocados pelas drogas para obter fi- proteção internos desenvolvidos pelo próprio usu-
nanciamento. A situação é bem descrita na ário ao se basear nas suas próprias crenças e
famosa frase de Upton Sinclair: “É difícil le- valores”28, chegando à conclusão que:
var alguém a entender algo quando seu salá- “Assim, acredita-se que tais estratégias pos-
rio depende de não entender”. (...) Não estou sam ser eficientemente incorporadas a pro-
querendo dizer que as consequências negati- gramas de redução de danos, minimizando
vas do uso de drogas não devem ser o foco as implicações de vida associadas ao uso
de pesquisas financiadas pelo NIDA. Investi- compulsivo”27 (p. 670).
gar os aspectos patológicos do consumo de Rui e colegas30 desenvolveram uma pesqui-
drogas é importantíssimo para desenvolver sa de avaliação preliminar do “Programa de Bra-
tratamentos eficazes do vício. Mas a atenção ços Abertos”, da prefeitura de São Paulo, realiza-
desproporcional hoje concedida aos danos do na gestão Haddad que teve início em janeiro
tende a nos atrelar a uma perspectiva dis- de 2014 e foi baseado na redução de danos e
torcida, contribuindo para uma situação na da intersetorialidade, envolvendo secretárias de
qual certas drogas são consideradas um mal saúde, de trabalho, de assistência social e de Di-
absoluto, e em que o uso de qualquer delas reitos Humanos. O referido programa não exigiu
é visto como algo mórbido. Tenho enfatizado dos participantes a abstinência do consumo de
neste livro que a maioria das pessoas que crack, mas ofereceu hospedagem em quartos de
usa qualquer substância ilegal faz isso sem hotéis na região, bolsa de 15,00 reais por dia
problemas. Não se trata de uma aprovação para trabalho de varrição de ruas e de manuten-
da legalização das drogas. É apenas um fato. ção de praças públicas, três refeições diárias no
O foco quase exclusivo nos efeitos negativos restaurante popular “Bom Prato”, além de trata-
também colaborou para uma situação em mento para o consumo do crack e encaminha-
que deparamos com a meta indesejável e ir- mento para as demais questões de saúde. Os
realista de eliminar certos tipos de consumos pesquisadores constataram, no universo de 370
a qualquer custo. Com demasiada frequência pessoas pesquisadas, que 67% dos atendidos
o preço é pago sobretudo por grupos margi- no programa reduziram principalmente o consu-
nalizados”22 (p.292-293). mo de crack, bem como de outras drogas: 54%

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

de redução do tabaco, 44% do álcool, 31% da (percepção e aprendizado sobre a substância


maconha 31%, 51% da cocaína aspirada e 31% e seus efeitos, aprender a distinguir os efeitos,
dos inalantes 31%30. aprender a desfrutar dos efeitos, aprender a ocul-
Os interlocutores identificados na pesquisa tar o uso dos não usuários), e também o resulta-
feita no Brasil e em Portugal31 são oriundos dos do de rituais sociais (com as sansões informais
extratos das classes média e média-alta. Todos grupais e personalidade), os efeitos atribuídos
têm nível universitário, sendo que apenas dois pelo discurso moral e alarmista do uso de dro-
deles não chegaram a obter o título acadêmico, gas também estão reflexivamente presentes e
mas trabalham em áreas correlatas aos cursos constituindo as subjetividades das pessoas que
que não chegaram a concluir. usam drogas (e o crack) e as suas performances
Com relação às estratégias de controle de com ela, tanto para o desenvolvimento de um uso
e para a utilização do crack e a forma como são “controlado”, como do “descontrolado”. Através
entendidas, referidas e acessadas por esses in- desse dispositivo, a droga se torna fetiche e, co-
terlocutores nos dois contextos geográficos de mo tal, agencia seus usos e atualiza os padrões
uso, as narrativas dos usos que fazem das dro- morais de normalidade. Infringir a norma é tam-
gas dispositivos sensoriais e de experiências com bém validá-la/reconhecê-la/reificá-la.
as sensações do corpo e com as emoções são a Como o uso de drogas ilícitas é tomado
parte mais densa do estudo. Essas experiências sempre como problemático e, mesmo podendo
passam a ser, digamos, “moduladas” em função ser demonstrado que os usos nas cenas de uso
do “lugar” em que se encontravam essas pesso- não são homogêneos e que aí, também se en-
as. Por outro lado, visando seguir a linha de pen- contram usos controlados, o fato dos usos sem
samento dos interacionistas simbólicos, como Be- controle estarem na cena de uso já desqualifica
cker, e de teorias do uso como contextuais, como todo o uso, segundo a visão mais geral circu-
a proposta por Zinberg40, foi possível, muitas ve- lante na sociedade. Assim, encontrar pessoas
zes, de uma maneira sistêmica ou esquemática, que fazem/fizeram o uso de maneira controlada,
traduzir os conceitos de controle, de situações, fora das cenas de uso e poder comparar suas
tais como o sujeito no contexto de uso e da droga estratégias e seus alcances, é/foi uma manei-
de uso, nas entrevistas bem como nas observa- ra de contribuir para um aprofundamento do co-
ções de campo. Na verdade, ao tratar do interacio- nhecimento sobre as relações que os sujeitos
nismo são consideradas para além as questões estabelecem com os usos de drogas, ao mesmo
como o aprendizado do uso e o aspecto simbólico tempo em que relativiza(ou) o determinismo far-
do uso entendido como atribuição do sentido. macológico em que a substância tem o domínio
Gomar18, criticando a abordagem dos intera- de todas as esferas da vida do sujeito ou, como
cionistas simbólicos, ressalta que eles não con- diz Decorte, “o farmacocentrismo, que é muitas
seguem se distanciar de um determinismo farma- vezes o paradigma implícito da pesquisa sobre
cológico, pois só a partir da ação farmacológica drogas”10 (p.298).
da substância no organismo é que serão atribuí- Tornar-se um usuário de crack de uso con-
dos pelo sujeito sentidos e significados, ou seja, trolado pode variar de acordo com os contextos
os efeitos. de rua e com os contextos de uso privado. Ainda
Considerando que o uso de uma droga pres- que algumas generalizações possam ser feitas a
supõe um aprendizado, nos termos do Becker respeito da experiência humana com as drogas

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

(e essas serem importantes), focar no sujeito e em condições de proteção social, materiais e am-
em suas possibilidades de agência e no seu lu- bientes extremamente diferentes.
gar social é algo mais abrangente do que pensar Pode-se objetar que pessoas que hoje vi-
apenas em usos e controles desenvolvidos que vem nas ruas e/ou nas cenas públicas saíram de
além de garantir a manutenção de uma vida orga- susa próprias casas e passaram a viver em torno
nizada, garantem a manutenção do uso de forma do fluxo. As histórias que são contadas a respeito
a desfrutar melhor dos seus efeitos. Ao mesmo dessas saídas dizem respeito a conflitos familia-
tempo, demonstra que conhecer os contextos de res, a questões de gênero e/ou sexualidades, ao
uso pode propiciar um saber que não reitere es- envolvimento com algum tipo de delito ou ação
tigmas e preconceitos que terminem por ser mais ilegal – quando não tiveram acesso a recursos de
prejudiciais do que o próprio uso das drogas, pois proteção jurídica –, ou tiveram envolvimento com
mesmo quando o sujeito desenvolve problemas algum circuito da criminalidade, ou não terem
com o uso de drogas e busca tratamento, a sua conseguido se integrarem no mercado formal de
classificação como dependente, que o tira do lu- trabalho. A grande linha divisória entre os usuá-
rios “visíveis” e os “invisíveis”, é o fato de que os
gar de “drogado”, “viciado” – aquele que tem uma
primeiros, além de terem situações econômicas
falha moral –, o recoloca na categoria do que é
e relações sociais mantidas, estão inseridos em
“fraco”, “doente”, que “depende” – e que, portan-
um circuito nos quais atividades como o trabalho,
to, não tem mais autonomia.
o estudo, o lazer lhes propiciavam uma gama de
Se analisarmos o termo “recaída” – muito
interesses diversificados e vínculos que os man-
empregado no discurso terapêutico que visa a
tém na vida, além de não pesarem sobre eles o
abstinência, visto como uma forma de entender
estereótipo de “drogados”.
que faz parte do processo de tratamento –, perce-
Foi interessante observar, pelos relatos,
be-se que é um termo carregado de moralidade,
que um dos efeitos esperados do crack é a in-
uma vez que só recai quem já esteve caído. Re-
trospeção, o recolhimento, o desejo de ficar sozi-
cair, assim, não é um termo científico, mas passa
nho, desfrutar de uma sensação de estar aneste-
a ser empregado por profissionais da saúde e,
siado, um desligar-se. Para que esse efeito não
reflexivamente, pelos usuários problemáticos, seja perturbado, se faz necessária a garantia de
familiares e amigos, termo que, subjetivamente, que ninguém possa interrompê-lo. Mas, mesmo
contribui para estabelecer o lugar da “fraqueza” esse efeito é passível de ser remodelado: ao con-
daquele que não conseguiu seguir o caminho, vis- trário do uso privado, na cena de uso público, a
to que caiu, ou seja, foi de cima para baixo. interação está posta, quer seja com outros usu-
Uma das mais referidas estratégias nos ários, com profissionais da saúde, ativista pelos
dois contextos, de Lisboa e São Paulo, foi “ter direitos humanos, quer com os pesquisadores.
consciência”, o que significa ter o controle sobre Transcrevendo passagem anotada no diário de
o próprio uso. As pessoas também em cena pú- campo durante a participação em um churrasco
blica manifestam essa consciência em seu rela- com usuários de crack, em uma das tendas de
to. Para se “ter consciência” é preciso ter condi- moradia improvisadas junto ao fluxo:
ções mínimas para transformar essa consciência “Estamos no churrasco e enquanto uns se
em realidade. O que ocorre é que os grupos de ocupam de assar a carne e distribui-la aos partici-
usuários de crack dessas duas localidades vivem pantes, um grupo faz um samba animado, alguns

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

usuários dançam, outros cantam, outros conversam tão centrada em ações repressivas e as políticas
e entre essas atividades, também fumam crack. Pa- públicas assimilaram as noções de redução de
rafina, um usuário que estava conversando comigo danos.
e observando outros usuários que fumavam e intera- O fenômeno da demonização e do poder do
giam com várias pessoas ao mesmo tempo fala: “Is- crack na cena pública de São Paulo se deu de ma-
so só acontece porque tamo aqui na Cracolândia” 31. neira tão contundente e eficaz, que, em Lisboa,
Quando os interlocutores se dispõem a uti- encontramos a justificativa de que os efeitos que
lizar o crack, a compreensão constante de que é a mídia performatizava nos usuários de crack não
uma substância perigosa está presente e antece- se encontrava nos usuários dali e esses passa-
de o desejo de uso. As imagens que lhe conferem ram a considerar que não consumiam a mesma
tal compreensão são as de cenas de uso público substância. Na cena portuguesa, mencionavam
associadas ao descontrole, como é possível ob- que o crack “não existe em Portugal e tão pouco
servar em diversas falas. Isso serve para acionar a cocaína” – que julgam de muito baixa qualida-
limites que não devem ser ultrapassados, como de, “fraco” –, em oposição à brasileira – que se-
também para modular a percepção dos efeitos da ria “forte” e, por isso mesmo, capaz de “viciar” e
substância. É interessante observar, ainda, que de gerar comportamentos descontrolados.  
quando se está em cenas de uso, com usuários A discussão sobre uso de crack não conse-
experientes e em um ambiente “protegido”, essa gue ficar isenta do caráter alarmista que cerca a
modulação não se apresenta da mesma forma. discussão sobre o uso de drogas, de uma manei-
Usuários são capazes de interagir com usuários ra geral, correndo-se o risco de ampliar os proble-
e não usuários, ao mesmo tempo em que fumam mas frente à realidade e dificultando o encontro
como demonstra o trecho acima citado. de alternativas para lidar com a situação.
Neste estudo, examinou-se em que medida
os usos problemáticos associados às cenas de
Alguma conclusão uso públicos e a produção de discursos morais e
A produção midiática e demoníaca que foi estigmatizantes performam as experiências dos
dada ao crack em perspectivas, como a do Bra- usuários de crack de uso não visível, problemati-
sil, foi a grande construção da figura do drogado zando a ideia de que o uso do crack se daria sem
durante os anos 2000. Em Portugal, como em nenhum controle por parte dos envolvidos nesta
outros países europeus, a figura do “toxicôma- prática, se apresentando como um caminho “sem
no” foi assimilada de forma mais demonizada e volta”, como se o indivíduo ficasse totalmente to-
menos central no cenário social. Por outro lado, mado pelo efeito farmacológico da substância
nesses países, a influência de governos social- e não sendo mais capaz de tomar decisões – o
-democratas tiveram uma intervenção urbana que, no caso do crack, em especial, é a imagem
também de gentrificationVIII,16 mais “sutil” e não mais difundida.
No grupo estudado, observou-se a constru-
ção de estratégias/conhecimentos relativos ao
Por gentrification entende-se a “criação de áreas residenciais para classes
VIII
modo de usar a substância de maneira a não sen-
médias e altas em bairros de áreas urbanas centrais, articulados a processos
de controle ou expulsão de setores das classes populares, num processo tir ou diminuir os efeitos adversos e indesejados
também assinalado pelo desempenho de determinados estilos de vida e de
consumo, produzindo mudanças da composição social de um determinado e para aproveitar ou intensificar os efeitos deseja-
lugar, bem como tipos peculiares de segregação socioespacial e de controle
da diversidade”, conforme apontam Frugoli e Sklair16 (p.119-136). dos, o que caracterizaria, segundo Becker6, uma

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

cultura da droga. Pelos relatos dos atores envol- inclusive, os afastasse de uma polícia repressiva
vidos nesta prática, notou-se que existe uma dife- e de um Estado encarcerador.
renciação entre os usos, ou seja, existem vários A autonomia – e é preciso ter condições de
usos e o que os diferencia, seriam as caracterís- classe para se ter autonomia principalmente nu-
ticas pessoais, de classe, gênero e, fundamen- ma sociedade como a brasileira – é um fator mais
talmente, o fato dos indivíduos estarem ou não eficaz do que a assimilação de práticas e estraté-
socialmente protegidos. Nessas circunstancias, gias formatadas e universalizantes de controles
o limite entre o uso privado e o uso público vai de uso. A autonomia e as condições de proteção
ser um peso a mais na situação de tornar-se ou social garantem, por si mesmas, uma “estratégia
não um “usuário de crack”. de redução de danos”.
A dificuldade encontrada para localizar pes- Também, podemos constatar, com os en-
soas que usavam crack fora das cenas públicas trevistados, que a recorrência e os apoios te-
de uso demonstrou claramente essa delimitação rapêuticos como recurso à compreensão e à
e o peso do estigma que foi atribuído pela imagem interpretação de si, foram mencionados como
pública dessa droga. Os que concordaram em ser importantes para problemas muito mais gerais e
entrevistados acabaram contribuindo para que se existenciais do que como uma forma para tratar
pudesse expor a complexidade e a riqueza reflexi- dos usos que faziam das drogas. Como referiu
va e densa que existe em torno dos usos de dro- uma das narrativas: “ter alguém para conversar
gas e das censuras que a sociedade impõe a eles. e que te ouça”.
Por um lado, revelam uma condição contemporâ- Os usos de droga, nesse sentido, estão ema-
nea de valorização dos consumos e das emoções ranhados com várias questões da vida, do cotidia-
que pode ser sentida e aferida através dos corpos no ao trabalho, do lazer a momentos de introspec-
quando falam de uma revalorização de seus cor- ção e reflexão, à sexualidade e às relações e, nes-
pos como corpos vivos e que podem ser explora- se sentido, podem revelar muito mais uma com-
dos na extremidade de suas sensações. Há, aí, plexidade e riqueza existencial do que uma falta
um consumo de sensações e emoções. ou um problema. O lugar dos usos de uma droga
Essa mesma observação foi feita nos con- parece estar mais próximo como um lugar no qual
sumos de em cena pública, onde, porém, a si- o indivíduo se realiza, tal como fala Perlongher29 a
tuação de entrevista, de maior proximidade e respeito de certas práticas da sexualidade como a
cumplicidade, feita em lugares mais protegidos e realização de um essencial de si.
livres de influência como as do chamado “fluxo”
presente na rua possibilitaram explorar uma di-
mensão densa, rica e complexa e mais próxima a
discursos compartilhados em usos de drogas em
esferas mais intelectualizadas da classe média. Referências
1. Adorno RCF. A pacificação do uso público do carck e a
Qual o lugar da Saúde Pública/coletiva no
repressão aos usuários: notas a partir de etnografias na
contexto dos usos do crack? Longe de uma inter-
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de respeito aos direitos, à cidadania e a políti- cado das Letras; 2016.
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ção social desses sujeitos; proteção social que, mentos e relações de trocas em territórios urbanos. Projeto

|98
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

CAPSad como espaço de resistência, cuidado


e afirmação da vida
CAPSad as a space of resistance, care and affirmation of life

Elza Cândido de FariasI

I Resumo Abstract

Este trabalho parte da experiência obtida durante estágio no CAPS This work is the result of the experience obtained at CAPS ad,
ad, que se apresenta como espaço de resistência à lógica proibi- a space of resistance to prohibitionist logic and hegemonic
beliefs that blind the humanity look into the problematic user of
cionista e crenças hegemônicas que impossibilitam o olhar para a
psychoactive substances. The internship of the psychologist, either
humanidade do usuário problemático de substâncias psicoativas. A as a professional or as a student, in Public Health denaturalizes
estada do psicólogo, seja como profissional ou estudante, na Saúde and disrupts the prohibitionist look into the use of psychoactive
Pública, convida à desnaturalização e rompimento com o olhar proibi- substances. The intern needs to expand his/her understanding of
cionista lançado sobre o uso de substâncias psicoativas, solicitando the social implications that come up in the form of addiction and
ainda compreensão ampliada das implicações sociais que emergem any other human behavior disorder, which highlights the social
na forma da adicção e outros transtornos do comportamento huma- and political issues that increase the vulnerability of the citizen.
In addition, this study reflects on the psychiatric movement known
no, evidenciando as implicações sociais e políticas que aumentam
as Movimento da Reforma Psiquiátrica and its contributions to
a vulnerabilidade dos sujeitos. Reflete sobre a Reforma Psiquiátrica the health system (SUS – Sistema Único de Saúde), as well as
e suas contribuições para o Sistema Único de Saúde (SUS) assim on the services offered by CAPS, in general, and, particularly, by
como sobre os serviços oferecidos pelo CAPS em geral e particular- the CAPSad, whose goal is to promote the citizen’s autonomy and
mente pelo CAPSad, que tem como estratégia de cuidado fomentar his/her social rehabilitation through the development of singular
a autonomia do sujeito e promover sua reinserção social, utilizando therapeutic projects together with the logic of harm reduction.
para isso, o desenvolvimento de projetos terapêuticos singulares em
conjunto com a lógica da redução de danos. Keywords: Social reinsertion; Prohibicionismo; Harm reduction; Pu-
blic health.
Palavras-chave: Reinserção social; Proibicionismo; Redução de da-
nos; Saúde pública.

I
Elza Cândido de Farias (elzafarias@yahoo.com) é psicóloga Pós-Graduanda
em Saúde Mental pela Universidade Federal Fluminense.

|101
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução Em meio a esse cenário, o Centro de Atendi-

A
mento Psicossocial Álcool e Outras Drogas (CAP-
o longo dos últimos dois séculos, o uso de
Sad) apresenta uma postura dissonante à lógica
substâncias psicoativas tem motivado de-
proibicionista, uma vez que busca trabalhar com
bates em praticamente todas as esferas
a reinserção social, criação de vínculos e autono-
sociais com questionamentos referentes à proi-
mia do sujeito junto a seu território e comunida-
bição e à possibilidade de uso adequado. Pois,
de. No entanto, esse dispositivo tem sua atua-
apesar de não haver notícias de sociedades sem
ção dificultada em virtude da lógica hegemônica
o consumo de entorpecentes, a violência e outros
que ainda demoniza as substâncias psicoativas
problemas relacionados ao tema nunca foram tão
ilegais e consequentemente estigmatiza os adic-
pujantes. Essa violência, no entanto, está con-
tos, corroborando com a perspectiva asilar que
centrada numa parcela da sociedade, em geral,
vem sendo atualizada (por exemplo, na forma das
já marginalizada, seja por sua cor ou condições
comunidades terapêuticas que trabalham com a
econômico-sociais.
internação por até 12 mesesII), tem a abstinên-
A legislação proibicionista de controle ao
cia como meta, aceita internações compulsórias
porte, uso e comercialização de substâncias psi-
e, em muitos casos, utiliza castigos físicos e a
coativas é também utilizada como instrumento
laborterapia como forma de “tratamento” e recu-
de controle social, na forma do aprisionamento
peração do adicto.
e/ou assassinato de classes intituladas como pe-
rigosas. Fazendo com que seja cada vez mais ur-
gente a discussão de flexibilização da legislação II
Embora esse seja o prazo previsto como máximo, há relatos de estadas
maiores. Como essas comunidades não trabalham a autonomia dos sujeitos,
como forma de preservação da vida. é comum que esses se vinculem por falta de outras possibilidades sociais.

|102
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Diante da tensão que se estabelece entre a estendeu e foi aplicada para muitas outras subs-
lógica da proibição com consequente interdição/ tâncias, que passaram a ser, arbitrariamente,
aprisionamento e a possibilidade de fortalecimen- classificadas de ilegais. Vale ressaltar que o uso
to de vínculos e subjetividade do sujeito que em dessas substâncias proscritas era vinculado a
algum momento pode ter feito uma opção equi- determinadas classes sociais ou grupos imigran-
vocada quanto ao uso de substâncias, o profis- tes classificados como perigosos que deveriam
sional “psi” que compõe as equipes de trabalho ser mantidos sob controle, a exemplo da marijua-
vê-se convocado a criar possibilidades de ruptura na pelos mexicanos e do ópio pelos chineses. A
com a lógica proibicionista e, assim, criar espa- rigidez da legislação norteamericana no controle
ços de cuidados, onde há afirmação da vida e in- ao uso, porte e tráfico de drogas não tem sido
serção do sujeito em seu território e comunidade. eficiente na diminuição do uso, ou da violência
que permeia esse mercado ilegal do tráfico de
entorpecentes; antes, tem levado a um crescente
Proibicionismo e controle social encarceramento, chegando Estados Unidos a ser
O uso de substâncias psicoativas é recor- o país com o maior número de presos no mundo,
rente em praticamente toda a sociedade huma- ultrapassando dois milhões de detentos25 (p.62).
nada da qual se tem relatos. O ser humano bus- O modelo bélico adotado pelos Estados Uni-
ca, amiúde, formas alteradas de consciência e dos no combate às drogas serviu de modelo pa-
compreensão da realidade. Grande parte das ra o Brasil, que constituiu uma legislação dura e
substâncias que hoje são proibidas teve seu con- penalizadora. Mesmo as reformas ocorridas em
sumo liberado ou tolerado em algum momento, 2006 na legislação de drogas4, que deveriam ser-
ao longo da história em diversas sociedades15. A vir como uma alternativa à penalização e incenti-
preocupação com o consumo e a necessidade de vo à inclusão e ao tratamento do usuário, ou mes-
erradicação do uso não medicinal das substân- mo à distinção do traficante de pequenas quanti-
cias psicotrópicas, emergiu, particularmente, no dades de substâncias, favoreceu um incremento
início do século XX27. a sua perversidade ao colocar todo o ranço ra-
O proibicionismo, em relação ao uso de subs- cial e discriminatório existente no Brasil a servi-
tâncias psicoativas, surge como política mundial ço da justiça: ao não estabelecer critérios objeti-
encabeçada pelos Estados Unidos da América a vos quanto ao enquadramento (quantidades) de
partir de acordos firmados em 1914 para vigilân- uso e tráfico, deixando a cabo do agente policial
cia e controle na circulação de drogasIII, como pas- ou do juiz determinar como enquadrar o sujeito.
saram a ser chamadas. Dificilmente, em alguma sociedade, critérios tão
Nessa lógica de controle, em 1919, houve a subjetivos poderiam ser equânimes. Em nossa
implantação da Lei Seca nesse mesmo país, que sociedade, onde é prática constante a crimina-
resultou num incremento ao tráfico e violência. Ou lização de camadas e etnias da sociedade, isso
seja, essa lei proibicionista mostrou-se desastro- se tornou ainda mais problemático. O sujeito do
sa e foi abolida em 1933. Mesmo diante da falên- delito ligado às drogas passou a ser julgado, não
cia dessa experiência, a política proibicionista se pelo crime cometido – uma vez que a lei não pre-
vê quantidades objetivas –, mas, como diz Fou-
cault, pela sua periculosidade, sendo punido não
III
Harrison Act, que estabeleceu o controle mais rígido sobre o uso de subs-
tâncias psicoativas. apenas por seu ato no momento e sim por suas

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

virtualidades: potencial futuro de risco para si e A percepção do uso das drogas como ques-
para a sociedade. A pena impingida destina-se, tão penal/judicial, embora hegemônica, não é
não só, a “sancionar a infração, mas a contro- uníssona; há diversos grupos que defendem sua
lar o indivíduo, a neutralizar sua periculosidade, a relação com a saúde e com políticas sociais
modificar suas disposições criminosas”19 (p.22). inclusivas.
O resultado foi um aumento do número de encar-
ceramentos em virtude da aplicação dessa lei.
No ano de 2006, momento de entrada em que Sistema único de saúde: emergência e rupturas
a mesma entrou em vigor, o aprisionamento em A saúde emergiu como preocupação políti-
virtude de tráfico representava 15% da popula- ca do governo brasileiro no início do século XX, a
ção carcerária; já em junho de 2011, esse índice fim de assegurar a produtividade do trabalhador
passou para 22,8%28. Entre as mulheres presas agrário e do imigrante, cuja inserção ocorria, es-
esses números são ainda mais alarmantes: até pecialmente, na produção de café e alimentos.
2005, 34% da população feminina era presa por Tais programas preocupavam-se especialmente
crimes relacionados às substâncias ilegais, em em garantir o “controle de endemias e do sanea-
2015, essa percentagem já ultrapassa 60% entre mento básico dos portos e dos meios urbanos”18,
o número de presas. a fim de que as melhores condições sanitárias
As políticas proibicionistas e sua meta irre- atraíssem trabalhadores estrangeiros e garantis-
alista de abstinência das drogas contribuem dire- sem a sobrevida dos trabalhadores locais. Para
tamente para a marginalização de certos grupos isso, foram adotados programas compulsórios
e camadas sociais. Como aponta Hart20, o cus- de controle sanitário, como a vacinação contra
to humano dessa abordagem é incalculável, uma a febre amarela e a varíola. Essas eram políticas
vez que centenas de milhares de pessoas são fragmentárias e emergencialistas, situação em
encarceradas ou mortas. que as “questões de saúde pública eram trata-
A análise do sistema penal brasileiro de- das pelas autoridades locais”18, que, muitas ve-
monstra a pouca racionalidade e casualidade zes, lançavam mão de força policial para levar a
com que são tratadas as alterações na legisla- cabo seu cumprimento.
ção que tangenciam o uso e tráfico de entorpe- Já nas décadas de 1940 a 1950, com a am-
centes. O aumento das penas e diminuição de pliação do mercado de trabalho urbano, ocorre-
direitos, a demora e a pouca vontade em aplicar ram importantes mudanças sociais, introduzidas
penas alternativas, fazem referência a uma lógica durante o Governo autoritário de Getúlio Vargas,
da culpabilização do sujeito que se envolve nesse tais como a Consolidação das Leis de Trabalho
mercado, reforçando e estigmatizando pessoas (CLT), a estatização da previdência social e a cen-
pertencentes às classes sociais menos favore- tralização de políticas de saúde e educação atra-
cidas. Este quadro perverso se desenha a partir vés do Ministério dos Negócios de Educação e
do interesse em manter sob vigilância e controle Saúde Pública18.
os elementos suspeitos em nossa sociedade. Se O modelo de bem-estar social consolidou-
pelo aspecto humanitário e pragmático, a legis- -se até os anos 1970, assumindo um caráter
lação proibicionista não atende a prerrogativa de compensatório, através de políticas assistencia-
mitigar os problemas relacionados às drogas, por listas e produtivistas, visando o crescimento eco-
outro, limpa da sociedade os indesejáveis. nômico. Isso tornou possível uma melhoria nos

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

indicadores de educação, saneamento básico, di- Parágrafo único: Dizem respeito também à
fusão da rede básica de saúde e vacinação. No saúde as ações que, por força do dispositivo
entanto, na segunda metade da década de 1970, anterior, se destinam a garantir às pessoas e
esse sistema centralizado em nível político e fi- à coletividade condições de bem-estar físico,
nanceiro pelo governo federal entrou em colapso. mental e social”5.
Nesse cenário e com a redemocratização ocorri-
A legislação do SUS, ao estabelecer o cui-
da no final dos anos 1980, tornou-se possível a
dado à saúde, tem como princípios norteadores
discussão ampla, por parte de setores da socie-
a universalidade, garantindo acesso a todos; a in-
dadeIV, de diversos problemas sociais. Especifi-
tegralidade, que diz respeito ao direito a cuidados
camente para a área da saúde foi adotada a Re-
mesmo quando parte de uma minoria em relação
forma SanitáriaV, que levou à criação do Sistema
ao total da população; a equidade, que garante o
Único de Saúde (SUS).
direito ao atendimento respeitando as diferenças
O SUS é sustentado pela Constituição Fe-
individuais; e a descentralização, na qual o muni-
deral Brasileira de 19883, sendo garantidor do
cípio, enquanto “ente federado mais próximo da
cuidado integral à saúde e direito à cidadania.
realidade da população, ganha a atribuição fun-
Nessa legislação a saúde perde a concepção
damental, em recursos para responsabilizar-se
simplista de ausência de doença e passa a ser
pela melhor política de saúde para a população
entendida “como bem estar pleno”, devendo ser
local”12 (p.6). Esses princípios dialogam com os
direito de todos, enquanto dever do Estado, ga-
programas de atendimento ao adicto no país,
rantido mediante “políticas sociais e econômicas
que, mesmo representando uma pequena parce-
que visem à redução do risco de doença e de
la da populaçãoVI, tem direito aos cuidados ofe-
outros agravos”3. Esses termos são ainda am-
recidos pelos programas assistenciais de forma
pliados pela Lei Orgânica da Saúde, Lei 8.0805 e
inclusiva e potencializadora da vida e da “reinser-
8.142 de 19906, que prossegue:
ção” do sujeito na sociedade. Com esses pressu-
“Art. 3º. A saúde tem como fatores determi- postos, torna-se evidente a clara tensão entre o
nantes e condicionantes, entre outros, a ali- campo da saúde, que objetiva oferecer cuidado
mentação, a moradia, o saneamento básico, integral, e o campo penal, que contribui para a
o meio ambiente, o trabalho, a renda, a edu- exclusão de amplos setores da sociedade.
cação, o transporte, o lazer e o acesso aos Foi também na década de 1970 que os psi-
bens e serviços essenciais; os níveis de saú- cólogos passaram a integrar o campo da Saúde
de da população expressa a organização so- Pública, primeiro com um viés de humanização
cial e econômica do País. do atendimento médico, bem como, em virtude
de novas formas de adoecimento relacionadas
com o estilo de vida e a uma maior atenção aos
aspectos sociais como influenciadores da saúde.
IV
Participaram dos debates para estabelecimento do SUS setores da socie-
dade civil através dos Conselhos e Conferências nacionais, estaduais e mu-
nicipais de Saúde, o Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde
(CONASS), que reúne os secretários de Saúde dos 26 Estados e do Distrito
Federal, e o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASE- VI
Os dados agrupam por uso na vida ou em seguimentos, não distinguindo o
MS), que conta com cerca de 90% de afiliação dos municípios18. uso problemático. Ainda assim, a estimativa é de 22,8% da população já utili-
V
Reforma Sanitária é um movimento que permanece atuante no cenário na- zou alguma substância psicoativa ao menos uma vez na vida e 10,3% teriam
cional e tem como pressuposto a concepção de saúde não restrita à dimen- feito este uso13. É importante a observação de que os dados não especificam
são biológica e individual, apontando para as relações entre os serviços de uso problemático de substâncias, tornando o número superior ao observado
saúde e a estrutura social, articulando assim, as dimensões técnica e social por critérios mais específicos. Ao mesmo tempo, é notória a subordinação
no que tange a política, economia e ideologia, numa luta contra hegemônica23. desse órgão de pesquisa ao Ministério da Justiça.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

No panorama das políticas públicas brasileira, residências terapêuticas e das equipes de saúde
emergem discussões concernentes ao tratamen- e de equipamentos intersetoriais que atuem em
to dispensado aos portadores de transtornos seu contexto comunitário de ação.
mentais, uma vez que, até o final dos anos 1970, O CAPS tem valor estratégico para a conso-
em geral, apenas grandes centros urbanos con- lidação da Reforma Psiquiátrica, pois seu aten-
tavam com serviço especializado em Psiquiatria. dimento diário possibilita a organização de uma
Ainda assim, esses serviços se pautavam na lógi- rede substitutiva ao hospital psiquiátrico. Até o
ca manicomial que excluía o doente de seu meio surgimento do CAPS, o tratamento ao portador
social por meio da internação asilar. de transtorno mental estava restrito à exclusão
O movimento antimanicomial, adotado no social por meio da internação em instituição psi-
Brasil no final dos anos 1980, qualificou os servi- quiátrica, assim como o cuidado destinado ao
ços de internação psiquiátrica, reduzindo o núme- usuário de álcool e outras drogas, uma vez que
ro de leitos e estimulando a criação de uma rede não havia políticas públicas de cuidados destina-
substitutiva de atendimento de base comunitária das a essa população. Para essa clientela, des-
em sintonia com os preceitos de Direitos Huma- tinava-se apenas o atendimento em instituições,
nos e de cidadania aos usuários do SUS. Dessa em sua maioria filantrópica,
forma, o SUS rompe com a lógica da internação “...de caráter total, fechado, baseadas em
como único meio de tratamento para o sofrimen- uma prática predominantemente psiquiátrica
to mental, incluindo, posteriormente, o tratamen- ou médica, ou, ainda, de cunho religioso, ten-
to para usuários de substâncias psicoativas. do como principal objetivo a ser alcançado a
A partir da Reforma Psiquiátrica, foi pos- abstinência”9 (p.40).
sível a formulação de novos modos de cuidado
Somente em 2002, o Ministério da Saúde
em saúde e de novos espaços assistenciais que
reconheceu o uso abusivo de álcool e substân-
dialogassem com a territorialidadeVII, a fim de fo-
cias psicoativas como problema de saúde públi-
mentar uma direção terapêutica que preservasse
ca e instituiu o Programa Nacional de Atenção
a convivência e rompesse com a lógica hospita-
Comunitária Integrada aos Usuários de Álcool e
locêntrica. Em 1986, foi criado o primeiro Centro
Outras Drogas, que consiste em um conjunto de
de Atenção Psicossocial (CAPS)VIII na cidade de
políticas públicas
São Paulo, espalhando-se em seguida, como mo-
dalidade de assistência, para todo território na- “...situadas no campo da saúde mental, [ten-
cional. Esse dispositivo visa ao atendimento do do] como estratégia a ampliação do acesso ao
usuário e apoio aos familiares em seu território tratamento, a compreensão integral e dinâmi-
de vida, através do desenvolvimento de projeto ca do problema, a promoção dos direitos e a
terapêutico singular, da dispensação de medica- abordagem de redução de danos” 9 (p.41).
mentos, do acompanhamento de usuários em Para a implementação dessa política de
atendimento ao usuário, o principal dispositivo é
o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas
VII
Esses espaços referenciam a questão de territorialidade, que não supõe
apenas uma questão geográfica, antes falam sobre um “mundo próprio que as- (CAPSad), que opera em consonância com o SUS;
socia ambiente-organismo-afeto como singularidade, como sentido”1 (p.141.).
VIII
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são serviços da Rede de Aten- ou seja, com o uso efetivo dos conceitos de rede
ção Psicossocial (RAPS) destinados a prestar atenção diária a pessoas com
transtornos mentais.  Contam com diversas modalidades para a oferta de e território e com as práticas ampliadas de redu-
serviços específicos a diversas populações, como CAPS I, CAPS II, CAPS III,
CAPSi e CAPSad11. ção de danos. Passaremos a examinar, de forma

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

mais detida, as ações desse dispositivo que atua em fatores biológicos, mas é marcadamente
junto aos usuários de substâncias psicoativas. determinada pela história de vida em determina-
do contexto social, econômico e cultural16 (p.68).
O CAPS é composto por uma equipe mul-
CAPSad: atendimento terapêutico tidisciplinar geralmente formada por médico psi-
e social ao adicto quiatra, psicólogo, enfermeiro, assistente social,
O público que demanda o CAPSad tem em terapeuta ocupacional, além de outros profissio-
comum, em sua grande maioria, além da adicção, nais. Essa equipe de referência atua na oferta de
a exclusão socialIX e, por vezes, a “loucura”1. Para cuidados ao usuário do serviço e de apoio a seus
esses usuários, é essencial o estabelecimento familiares, servindo como porta de entrada para
de projetos terapêuticos individuais que conside- outros atendimentos ou serviços da rede pública.
rem as peculiaridades do sujeito, da sua relação Tal atuação se realiza através de uma rede de
com a substância de uso preferencial ou abusivo, serviços como as clínicas e equipes da Estraté-
de sua saúde física e mental e de seus laços fa- gia de Saúde da Família (ESF), hospitais gerais e
miliares e com a comunidade. Vale ressaltar que dispositivos intersetoriais que se apresentam em
é comum o adicto ter seus vínculos com a família permanente articulação. Partem do entendimen-
e com a sociedade comprometidos a ponto disso to de que, nenhum serviço pode resolver todas
engendrar sua alternativa ao vício. as necessidades de cuidado em saúde em de-
Não é incomum que alguns usuários ou fa- terminado território, mas que o conjunto de servi-
miliares busquem o serviço acreditando que con- ços deve criar uma “rede” que sustente o usuário
seguirão, ou solicitando uma internação como e seus familiares durante ou após o período de
forma de livrar-se do uso problemático de deter- atendimento do CAPS. O sistema de saúde em
minada substância. Para eles, ainda atravessa- rede e o CAPS, em particular, representam um
dos pela crença no “isolamento do doente”, não “espaço de produção de novas práticas sociais
é evidente que a internação é pouco efetiva nos para lidar com o sofrimento psíquico de manei-
casos de doenças psíquicas e mais ainda para ra diferente da tradicional”22, caracterizada pela
a adicção. A proposta do CAPSad em distanciar- internação hospitalar como ponto central para o
-se do modelo asilar é determinada pela política tratamento do usuário de drogas.
do SUS e conta ainda com outros motivos para No CAPS são desenvolvidas diversas ativi-
romper com essa lógica: o usuário de substân- dades para auxiliar no cuidado ao usuário de ál-
cias psicoativas precisa exercitar seu empodera- cool e outras substâncias psicoativas, tais como
mentoX a fim de lidar com situações cotidianas atendimento diário personalizado ao usuário, ser-
de oferta de drogas; aciona os serviços em rede viços sob a lógica da redução de danos, oficinas
de apoio para auxílio da pessoa não acionados terapêuticas, condições para repouso, terapia in-
com a internação que, além disso é cara; consi- dividual, em grupo e para a família, e desintoxica-
dera que a adicção não tem origem unicamente ção ambulatorial (quando necessário)XI.
Quando da chegada ao serviço, seja por
iniciativa própria ou encaminhamento de outro
IX
Referência aos distúrbios psíquicos e neurológicos de diversas ordens.
X
Por empoderamento entende-se como o conjunto de estratégias capazes
de promover o fortalecimento do poder, da autonomia e da auto realização
de usuários e familiares de serviços de saúde, especialmente de grupos em As duas últimas, depende das instalações do CAPSad. Quando não dispõe
XI

situação de exclusão social24 (p.192). das instalações necessárias, é possível acionar os serviços do hospital geral.

|107
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

dispositivo de saúde, ou mesmo judiciário (al- Um dos cuidados especiais apresentado pe-
guns usuários são encaminhados por determi- los serviços no CAPSad é seu foco na família, pela
nação de juízes, como tratamento alternativo à perspectiva de que a adicção, em geral, abala o
penalização), o usuário conta com o acolhimen- funcionamento desse grupo; sem perder de vistas,
to, momento de sua recepção no serviço e es- ao mesmo tempo, que a família pode ser um dos
paço para se conhecer suas demandas, bem co- disparadores do vício. Para isso, as famílias são
mo realizar a apresentação do serviço e para co- incentivadas a desenvolver respostas positivas de
meçar a traçar um projeto terapêutico individual natureza afetiva, cognitiva e comportamental pa-
voltado às suas necessidades. A partir disso, o ra resolver ou reduzir o estresse produzido diante
usuário é encaminhado para os grupos de aten- de eventos negativos, como recaídas, crises diver-
dimento que melhor se adequar a sua demanda, sas, baixa aderência ao projeto terapêutico, etc.
que pode ser de medicação, de terapia, ou de Os atendimentos no CAPSad também objeti-
reflexão, por exemplo. Todos esses atendimentos vam devolver a autonomia do sujeito. Nesse con-
têm como objetivo oferecer ferramentas para o texto, é comum a atuação em parceria com o/a
ganho de autonomia e responsabilização do su- assistente social, no sentido de conseguir bene-
jeito. Os usuários são incentivados a participar fícios junto à Previdência Social, quando o usuá-
da oficina terapêutica, cujo objetivo é tanto o de rio tem esse direito. Uma vez conseguido o bene-
despertar outras áreas de interesse (como o ar- fício, são traçadas, junto ao técnico de referência
tesanato, pintura, música), quanto o de fomentar – aquele que acompanha mais de perto o projeto
uma possibilidade de renda ao usuário. Durante terapêutico de determinado usuário –, as formas
a participação nas oficinas, são acompanhados de administrar os valores recebidos. O objetivo é
por terapeuta ocupacional ou por outros técnicos de que o usuário desenvolva ferramentas de ad-
da casa – enfermeiros, psicólogos, assistentes ministração de recursos, bem como direcione seu
sociais –, que oferecem uma escuta ativa e pos- desejo para outros objetivos além da substância
sibilidades de reflexão, mesmo em momentos de química consumida. Para isso, o técnico elabora
descontração. listas de necessidades, auxilia na abertura de con-
Periodicamente, são realizadas as reuniões ta em instituição bancária, acompanha o usuário
de equipe cujo objetivo é concentrar todos os téc- junto ao banco para ensinar-lhe o uso de cartões
nicos da instituição e discutir e dar conhecimento e máquinas eletrônicas e, muitas vezes, chega a
a todos sobre os atendimentos que estão ocor- fazer a guarda de valores quando solicitado, sem-
rendo, assim como dar direcionamentos, que se pre visando o desenvolvimento de autonomia, au-
façam necessários, a casos específicos que me- toconfiança e responsabilidade do usuário.
reçam maior atenção, seja por necessidade do O trabalho realizado no CAPSad foge à lógica
próprio usuário, seja em virtude de solicitação de tutela do usuário, pois objetiva sua emancipa-
externa, como é o caso de laudos e pareceres ção e autonomia para que possa se inserir na so-
referente à “evolução” de tratamento, solicitados ciedade, encontrando novas formas de expressão
por juízes e equiparados. Semestralmente, é re- e vínculo e que prescinda do uso abusivo de uma
alizada uma reunião com um supervisor que au- substância. Para isso, diverge do paradigma de
xilia no funcionamento em rede, pois verifica as que a adicção é tão somente uma doença genética
demandas de outros serviços, bem como oferece que assujeita o usuário, tirando-lhe as possibilida-
a ponte para o trabalho em equipe ampliada. des de autonomia. Antes, desenvolve e estimula

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

ferramentas de subjetivação e autonomia para fo- com a proibição, contanto que esta última não
mentar novas formas de ser e existir no mundo tenha o caráter radical observado na atualida-
contemporâneo, apesar das muitas mazelas que de. Conta-se com exemplos do uso de políticas
assolam amplas parcelas de nossa sociedade. de redução de danos em países como Holanda
Por outro lado, os profissionais da equipe e Portugal, que, embora não tenham liberado o
costumam ser atravessados constantemente pe- uso de substâncias psicoativas, optaram por ofe-
las limitações dos serviços. Durante o estágio no recer tratamento integral aos usuários. A redução
CAPSad Macaé (no município de São Paulo), hou- de danos adota uma política médico-sanitária de
ve situações em que usuários que necessitavam prevenção, contraponto à visão exclusivamente
de repouso tiveram que ser deitados no chão por combativa, policialesca e militar imposta pela
falta de leito. Ou ainda, situações em que foi ne- “guerra às drogas”25. A adoção dessa medida,
cessário solicitar internação no hospital geral de porém, só se torna possível com a elaboração
referência, pois o serviço não dispunha dos medi- de políticas públicas com vistas ao cuidado da
camentos e condições mínimas necessárias para pessoa e à necessidade de salvar vidas e prote-
atendimento ao público. Em momentos extremos ger a saúde pública e individual; ou seja, faz-se
como esses, o técnico se vê dividido entre os necessário o respeito à singularidade do sujeito
ideais de atendimento integral e a possibilidade e a perspectiva de traçar estratégias mútuas vol-
de internação em um hospital geral, como única tadas à defesa da vida, liberdade e da responsa-
forma disponível para lidar com algumas intercor- bilidade individual.
rências diante à falta de recursos do serviço. A redução de danos é considerada uma polí-
No campo da assistência e cuidado ao usu- tica racional, pois admite que a meta de abstinên-
ário de substâncias psicoativas, manifestam-se cia seja irreal para a maioria das pessoas. Diante
tensões internas e externas, onde a substância dessa realidade, cria mecanismos que dialoguem
deixa de encarnar um “mal absoluto” para dar com o uso moderado ou com o menor impacto
lugar a outros atravessamentos que determinam possível para o sujeito e seu entorno. Reconhe-
a relação de um sujeito com determinada subs- ce, ainda, que as pessoas continuarão a usar
tância. Uma importante premissa de cuidado utili- substâncias psicotrópicas, como sempre fizeram
zada pela equipe do CAPSad, em seu movimento ao longo da história, por isso, volta a atenção à
de resistência à lógica proibicionista ao suspen- pessoa que dela faz uso, garantindo medidas de
der, por exemplo, a abstinência como condição promoção de saúde, prevenção e bem-estar. A
para o “tratamento da droga”, passa-se a propor substância deixa de ser protagonista e o sujeito,
a estratégia da redução de danos como forma de com todos os seus atravessamentos, ganha foco
atendimento ao usuário e como porta de entrada a fim de obter uma melhor qualidade de vida e
para outros cuidados em saúde. ser reinserido na sociedade.
O primeiro programa de redução de danos
adotado no Brasil foi realizado em Santos-SP, em
Redução de danos e sua aplicação 1989, e consistia na troca de seringas e kits pa-
na rede de atendimento ra uso de drogas injetáveis e oferta de preser-
Segundo Rodrigues24, a redução de danos vativos. Os usuários de drogas injetáveis (UDIs)
pode ser vista como uma “medida pragmática, di- foram especialmente visados, uma vez que es-
ferenciada e não excludente”, que pode coexistir tavam mais expostos ao contágio de doenças

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

infectocontagiosas “em decorrência da marginali- Esse movimento, ainda tímido no Brasil,


zação social a eles imposta, que leva à ausência teve início, na Inglaterra, em 1926 quando um
de prestação de serviços públicos de saúde [e] à grupo de médicos divulgou através do Relatório
desinformação”24 (p.68). No entanto, uma medi- Rolleston, que a maneira mais eficiente de tratar
da judicialXII impediu a distribuição das seringas. dependentes seria com a administração controla-
Como alternativa, os agentes de saúde, estimula- da de substâncias como a morfina e a heroína24.
ram o uso de hipoclorito de sódio para desinfec- Em países como a Holanda, onde a redução
ção das agulhas já utilizadas. de danos é amplamente utilizada como estratégia
Foi só em 1993 que, no mesmo munícipio, de saúde e conta com narco-salas, ou seja, com
foi lançada a figura dos “redutores de danos”, lugares abrigados, onde o usuário pode fazer uso
agentes de promoção e prevenção em saúde. Tal de substâncias psicoativas com acompanhamen-
ação foi adotada numa parceria entre organiza- to de profissionais de saúde, tais como enfermei-
ções não governamentais (ONGs) e as autorida- ro. Estas medidas, apesar dos bons resultados
des municipais locais. Seu objetivo era reduzir obtidos na preservação da saúde e vinculação de
os impactos em decorrência da epidemia de aids usuários a outros tratamentos, continuam a so-
que assolou a cidade24 (p.164). A partir de 2002, frer “oposição da Junta Internacional de Fiscaliza-
a política de redução de danos ganhou reconhe- ção de Entorpecentes (JIFE), da União das Nações
cimento como estratégia oficial de saúde pública Unidas (ONU)”34 (p.71). Alega-se que a abertura de
e foi regulamentada pela publicação da Portaria locais de consumo assistido são incentivadores
n.º 1.028 de 1º de Julho de 20058. ao uso de substâncias psicoativas, além de ferir
Com base nisto, é possível definir a redu- acordos internacionais que preveem o combate
dessas. No entanto, o que se vê na prática é a
ção de danos como um conjunto de intervenções
possibilidade atual de fechamento das salas de
singulares, que faz alusão ao uso protegido, à
uso, pois a adicção à heroína não vem contando
diminuição do uso de substâncias, à substitui-
com novos casos na Holanda18.
ção por substâncias menos impactantes para a
Embora a política de redução de danos
saúde do usuário, ou até a abstinência no uso
tenha sido regulamentada através da Portaria n.º
– esta última pode ser buscada a médio ou lon-
1.028 do Ministério da Saúde8, prevendo, além
go prazo, mas não é prerrogativa para a oferta
da troca de seringas, medidas de distribuição de
de ajuda –, conforme Cabalero24 (p.69). Nessa
preservativos, hipoclorito de sódio, lenços para
estratégia não ocorrem julgamentos morais ou
limpeza do local de aplicação e material informa-
punições quando há uso ou recaídas por par-
tivo como medidas de prevenção, não se tem um
te dos usuários. O programa também se ocupa
avanço maior na discussão e ampliação desses
com estratégias de prevenção na forma de edu-
programas. Só houve maior aplicação de medi-
cação, atendimento médico e aconselhamento,
das de redução de danos ao tabaco, substância
entre outras possibilidades.
psicoativa legalizada no Brasil, realizada através
de programas implementados nos CAPSad à po-
XII
Autoridades policiais e ministeriais enquadraram a distribuição de seringas pulação que visa a redução ou à abstinência des-
como crime de incentivar o uso de entorpecentes, previsto no art. 12 §2º, I
e III da Lei de tóxicos. Chegou-se ainda a instaurar inquérito contra os ideali- sa substância. Esse programa é realizado atra-
zadores do programa santista – o Coordenador do Programa de Controle de
Epidemia de Aids e o Secretário de Higiene e Saúde da Cidade e Secretário vés de atendimento, aconselhamento e, mesmo,
de Higiene e Saúde da Cidade, que posteriormente foi arquivado por falta de
provas24 (p.164-165). de medicação, quando necessário, para auxiliar

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

no controle da ansiedade gerada durante o pro- método MinessotaXIII. O tratamento, muitas vezes,
cesso de independência do tabaco. inclui cultos religiosos, laborterapiaXIV e punições
Os programas de redução de danos estão em físicas e psicológicas. Há relatos de internação
sintonia com a proposta de atendimento e trata- obrigatória, por solicitação da família, e desres-
mento oferecidos pelo CAPS-ad, e podem se con- peito frente à solicitação de saída por parte do
solidar através do consultório de rua, que, muitas usuário. É comum que o usuário desenvolva um
vezes, é uma opção para a atuação de redutores grau de dependência dessas instituições, uma vez
de danos, possibilitando um primeiro contato com que, durante seu tratamento, fica isolado da socie-
o usuário em seu território e servindo como porta dade que é tida como “tentação” e possibilitado-
de entrada para o atendimento geral à saúde. Ain- ra de uma possível recaída; tendo dificuldade de
da assim, devemos considerar as dificuldades de desprender-se da comunidade, ou sofra recaída
realização desses programas quando faltam cla- ao sair do tratamento e da internação. Isso ocorre
reza na legislação e investimentos em redutores porque o trabalho realizado nas comunidades tera-
de danos. Em consequência, é comum a falta de pêuticas acaba não instrumentalizando o usuário
materiais necessários à distribuição à população para lidar com os motivos que o levaram à adicção
usuária de substâncias psicoativas. e, consequentemente, não desenvolve mecanis-
A falta de investimento na ampliação da re- mos de inserção social e vínculo com sua comuni-
de de CAPSad fica clara quando vemos os núme- dade e sociedade de forma geral e rede de apoio,
ros de unidades oferecidas à população. Enquan- diferentemente do trabalho realizado no CAPSad.
to foram abertas 308 unidades de CAPSad até O enfrentamento ao uso abusivo de substân-
janeiro de 2012, o Brasil conta com 1.795 co- cia obtém sucesso quando se utilizam políticas
munidades terapêuticas cadastradas na parceria adequadas que visem, não apenas tirar a droga
com o SUS, segundo o Censo das Comunidades da vida do sujeito, mas colocar outra coisa em seu
Terapêuticas, realizado em 201121. lugar; ou seja, busquem fomentar novos rumos, vín-
As Comunidades Terapêuticas são institui- culos e possibilidades a esse sujeito, que já vem,
ções privadas, sem fins lucrativos e financiadas, em grande parte do tempo, sendo alijado de sua
em parte, pelo poder público. Têm como premissa subjetividade e de perspectivas, o que pode ter fo-
“oferecer gratuitamente acolhimento para pessoas mentado a adicção. Não basta tratar a pessoa co-
com transtornos decorrentes do uso, abuso ou de- mo doente, impotente e por isso tutelá-la. Antes,
pendência de drogas”15. Deveriam ser instituições faz-se necessário dar autonomia, percebendo que
abertas e a adesão a seus serviços unicamente se de uma pessoa que fez uma escolha equivoca-
voluntária, podendo oferecer tratamento de até 12 da, mas que essa escolha não pode rotulá-la de
meses aos residentes, em conjunto com o atendi- modo a tornar-se a única referência a esse sujeito.
mento psicossocial oferecido pelo CAPSad. No en-
tanto, o que se tem oferecido, na realidade, é a in-
ternação em instituições cujas mantenedoras são XIII
“12 Passos”, modelo adotado pelos Alcoólicos e Narcóticos Anônimos,
organizações religiosas, de portas fechadas, que baseia-se no trabalho realizado em grupos de autoajuda, onde há motivação
para a partilha de sentimentos e emoções, de modo a aprender, com o au-
rompem com o trabalho em rede e não permitem o xilio de outros usuários que já estão em tratamento, a identificar e lidar de
uma forma positiva com o uso de substâncias psicoativas. A abstinência é
atendimento em conjunto com os demais serviços a premissa principal e qualquer recaída pode ser punida, culminando com a
expulsão do programa. “Esse tratamento nasceu nos Estados Unidos há cerca
de saúde pública e atendimento psicossocial. Fa- de 50 anos no estado de Minnesota”19.
XIV
Referente tratamento em comunidade terapêutica, consultar: https://www.
zem, em sua maioria, uso dos “12 passos” ou do youtube.com/watch?v=XaogikWaKTQ..

|111
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Considerações finais terapêuticas, que atualizam práticas manicomiais


A legislação penal brasileira, atendendo aos ao empregar “tratamentos” como a laborterapia,
padrões internacionais, ainda proíbe e criminali- os castigos físicos e o isolamento como formas
za diversas formas de interação com substâncias de cuidado ao usuário. Essas formas de “tratar”
psicoativas classificadas como ilegais. Ainda que, rompem com a lógica da inclusão e com a re-
em padrões mundiais, seja crescente a discussão tomada/criação de vínculos com a sociedade e
quanto à regulamentação de possíveis usos tanto com a família. Ainda assim, recebem mais incen-
medicinais quanto hedonistas. No Brasil, essa dis- tivos e já somam maior número de unidades do
cussão ainda é tímida, havendo proibição a toda que os CAPSad e outros serviços em rede.
a forma de uso inclusive medicinalXV, apesar da A sociedade se encontra diante de um im-
comprovada eficácia de vários dos compostos quí- passe: faz-se necessário romper com a lógica
micos provenientes da cannabis, por exemplo. proibicionista para garantir a inserção de parcelas
As políticas proibicionistas vêm mostrando excluídas da sociedade que vêm sendo extermina-
sua total inabilidade para tratar dos problemas, tan- das ou encarceradas. Ao mesmo tempo, a flexi-
to no campo da Saúde Pública, quanto da Segu- bilização das políticas de controle às substâncias
rança Pública. Ainda assim, há uma resistência por psicoativas pode ser a saída para aumentar a se-
parte das autoridades, encabeçadas pelos Estados gurança, pondo fim ao tráfico de drogas. No entan-
Unidos, na aprovação de políticas mais eficazes pa- to, falta vontade política para regulamentar essa
ra controle e cuidado dos cidadãos adictos. Ressal- questão, ao mesmo tempo em que a sociedade
ta-se que a falha na resolução desses problemas se vê como refém de crenças disseminadas pelos
implica, por outro lado, no sucesso do controle so- meios de comunicação que implantam a lógica do
cial, no aumento de verbas destinas à criação de terror e a faz pedir penas mais duras e uma le-
presídios, armamentos e “forças-tarefas”; ou seja, gislação mais conservadora como forma de prote-
representa o enriquecimento de setores da socie- ção. Nesse cenário, os profissionais inseridos na
dade, além de proporcionar formas de controle so- Saúde Mental e, em especial, os psicólogos são
cial de parcelas tidas como perigosas. convocados a criar linhas de resistência, apresen-
A política proibicionista adotada pelo Brasil tando contribuições para fomentar novas formas
de ser e existir aos usuários, formas com maior
apresenta-se como forte entrave à implantação
dignidade e inserção em nossa sociedade.
e ampliação de programas já estabelecidos pe-
las diretrizes do SUS, como a redução de danos,
que, muito embora conte com uma portaria que
a regulamenta, sofre com a falta de investimen- Referências
to e, portanto, de materiais para sua efetivação. 1. Alarcon Sergio (organizador). Álcool e outras drogas: di-
Além disso, a sociedade brasileira demonstra álogos sobre um mal-estar contemporâneo. Rio de Janeiro:
sua postura reacionária e excludente ao apoiar e Editora Fiocruz; 2012.
investir em programas como o das comunidades 2. Araújo T, Erichsen R. Ilegal, a vida não espera. Brasil;
2014. [Documentário].
3. Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil.
XV
O documentário “Ilegal, a vida não espera”. apresenta a luta de pessoas Brasília: Câmara dos Deputados; 1998.
que portando doenças crônicas como epilepsia crônica, esclerose múltipla,
câncer ou fibromialgia, encontraram no canabidiol (CBD), que auxilia ou alivia 4. Brasil. Lei nº 11.343. Institui o Sistema Nacional de Po-
os sintomas. Mas têm problemas na importação, uma vez que não há produ- líticas Públicas sobre Drogas - SISNAD; prescreve medidas
ção no Brasil nem liberdade de importação, uma vez que a legislação proíbe
o uso de canabis para quaisquer fins2. para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social

|112
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas MacRae E, Carneiro H. Drogas e cultura: novas perspecti-
para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito vas. Salvador: EDUFBA; 2008.
de drogas; define crimes e dá outras providências. Brasília: 16. Cruz MS, Ferreira SMB. Determinantes socioculturais
Câmara dos Deputados; 23 de ago. 2006. [acesso em: 26 do uso abusivo de álcool e outras drogas: uma visão pano-
mai 2017]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cci- râmica. In: Cruz MS, Ferreira, SMB. (Organizadores). Álcool
vil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm. e drogas: usos, dependência e tratamentos. Rio de Janeiro:
5. Brasil. Lei nº 8.080. Sistema único de saúde (SUS). Bra- IPUB/CUCA; 2001. p.95-113.
sília: Câmara dos Deputados; 19 set 1990. 17. Fazenda Salva Vidas. [Site]. [acesso em: 22 ago 2017].
6. Brasil. Lei nº 8.142. Dispõe sobre a participação da co- Disponível em: http://www.fazendasalvavidas.com.br/in-
munidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e dex.php/o-tratamento.
sobre as transferências intergovernamentais de recursos 18. Finkelman J. (organizador). Caminhos da saúde pública
financeiros na área da saúde e dá outras providências. Bra- no Brasil . Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ; 2002. 328p.
sília: Câmara dos Deputados; 28 dez 1990. 19. Foucault M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petró-
7. Brasil. Conselho Nacional do Ministério Público. Relatório polis: Vozes; 1987.
nacional da execução da Meta 2: um diagnóstico da investiga- 20. Hart C. Um preço muito alto: a jornada de um neuro-
ção de homicídios no país. Brasília: Ministério Público; 2012. cientista que desafia nossa visão sobre as drogas. Rio de
8. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria 1.028. Determina
Janeiro: Zahar; 2014.
que as ações que visam à redução de danos sociais e à
21. Laboratório de Geoprocessamento do Centro de Ecolo-
saúde, decorrentes do uso de produtos, substâncias ou
gia (LABGEO). Universidade Federal do Rio Grande do Su.
drogas que causem dependência, sejam reguladas por esta
Censo das Comunidades Terapúeticas. Porto Alegre: LB-
Portaria. Brasília; 1 jul. 2005.
GEO/UFRS; 2011.
9. Brasil. Ministério da Saúde. A política do Ministério da
22. Onocko-Campos R, Furtado J. Entre a saúde coletiva e
Saúde para a atenção integral aos usuários de álcool e ou-
a saúde mental: um instrumental metodológico para ava-
tras drogas. Brasília; 2005.
liação da rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)
10. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à
do Sistema Único de Saúde. Cad. Saúde Pública. 2006;
Saúde. DAPE. Coordenação Geral de Saúde Mental. Refor-
22(5):1053-1062.
ma psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil. Docu-
23. Paim JS. Bases conceituais In: Fleury S. (org.). Saúde
mento apresentado à Conferência Regional de Reforma dos
e democracia: a luta do CEBES. São Paulo: Lemos Editorial;
Serviços de Saúde Mental : 15 anos depois de Caracas.
1997.
OPAS. Brasília. 2005.
24. Reis TR. Empoderamento e grupos de mútua ajuda. In:
11. Brasil. Ministério da Saúde. Saúde mental no SUS: os
Alarcon Sergio (org.). Álcool e outras drogas: diálogos so-
centros de atenção psicossocial. Ministério da Saúde, Se-
cretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Pro- bre um mal-estar contemporâneo. Rio de Janeiro: Editora

gramáticas Estratégicas. Brasília; 2004. Fiocruz; 2012.


12. Brasil. Ministério da Saúde Executiva. Sistema único de 25. Rodrigues LBF. Controle penal sobre as drogas ilícitas:
saúde (SUS): princípios e conquistas. Brasília; 2000. o impacto do proibicionismo no sistema penal e na socieda-
13. Brasil. Secretaria Nacional Anti Drogas. Observatório de. Tese. São Paulo; 2006.
Crack, é possível vencer. [acesso: em 22 ago 2017]. Dispo- 26. Rodrigues TMS. A infindável guerra americana: Brasil,
nível em: http://www.brasil.gov.br/observatoriocrack/cuida- EUA e o narcotráfico no continente. São Paulo em Perspec-
do/outros-centros-atencao-psicossocial.html tiva; 2002.
14. Burgierman DR. O fim da guerra: a maconha e a criação 27. Rodrigues TMS. Tráfico, guerra, proibição. In: Labate BC,
de um novo sistema para lidar com as drogas. São Paulo: Goulart SL, Fiore M, MacRae E, Carneiro H. Drogas e cultu-
Leya; 2011. ra: novas perspectivas. Salvador: EDUFBA; 2008.
15.Carneiro H. Autonomia ou heteronomia nos estados al- 28. Rodrigues TMS. Narcotráfico, uma guerra na guerra. 2ª
terados de consciência. In: Labate BC, Goulart SL, Fiore M, ed. São Paulo: Desatino; 2014.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

“Diálogos na Luz”: uma intervenção psicológica


a partir da clínica ampliada e da
gestão do cuidado em saúde na “Cracolândia”
“Dialogs at luz”: a psychological intervention through amplified
clinic and health care management at “Cracolandia”

José Tiago CardosoI, Flávia de Lima CunhaII, Milena Vieira SilvaIII,


Milena Castilho MiyamotoIV, Rosemary da Silva QueirozV

I
II Resumo Abstract
III
IV
O artigo tem como proposta apresentar e discutir o processo de cons-
V This article proposes to present and discuss the process of buil-
trução de uma intervenção clínica denominada “Diálogos na Luz”. Es- ding a clinic intervention called “Dialogs at Luz”. This intervention
ta intervenção foi realizada no serviço de saúde Consultório na Rua, occurred at the health care center “Street Clinic”, of the program
do programa “De Braços Abertos”, no bairro da Luz, no centro de São “Open Arms”, at Luz neighborhood, in Downtown Sao Paulo and is
Paulo - SP e fez parte do processo formativo de um estágio super- a part of a psychology graduation internship. Based on qualitati-
visionado em Psicologia. Assim, ancorada no método qualitativo foi ve method, an intervention-research with the program’s users was
realizada uma pesquisa-intervenção com os usuários do programa na applied, under a damage-reduction perspective, respecting the
perspectiva da redução de danos, respeitando as singularidades e a autonomy and singularities of each person. Therefore, the “Dialo-
autonomia de cada pessoa. Desse modo, a metodologia “Diálogos na gs at Luz” methodology, based on amplified-clinic and health care
Luz”, embasada pelos pressupostos da clínica ampliada e da gestão management assumptions, offers a dialog, sheltering and bonding
do cuidado em saúde, ofereceu um espaço de acolhimento, diálogos space. This relations-production was made through ludic material
e vínculos. Esta produção relacional foi mediada pelo uso de mate- (such as papers, color pencils, stickers, among others) trying to
riais lúdicos (papeis, lápis de cor, canetas, imagens para colagens, meet the individuals needs, meaning, on spontaneous demand of
entre outros) e buscou atender as necessidades de cada usuário, ou each one. As results of this work, 11 (eleven), with 5 (five) to 6 (six)
seja, por demanda espontânea. Como resultados do trabalho, foram participants on each encounter. We present here two representati-
realizados 11 encontros; houve uma média entre 5 e 6 participantes ve cases to the “Dialogs at Luz” functioning as a care device, also
por encontros. Apresentamos dois casos representativos para o fun- some deployments to (re) think analysis-devices built at the clinic
cionamento dos “Diálogos na Luz” como um dispositivo de cuidado, internship supervision space and some implications produced by
também, alguns desdobramentos para (re)pensar os dispositivos de self-analysis. We have concluded that the encounters relations-
análise construídos no espaço da supervisão clínica do estágio, além -production expanded health care possibilities because they op-
de algumas implicações produzidas por autoanálise. Concluímos que timized shelter and bonding exercise, as well as benefitted users
as produções relacionais dos encontros ampliaram as possibilidades participation in face of their real demands.
de se produzir o cuidado em saúde, pois otimizaram o exercício do
acolhimento e do vínculo, bem como, favoreceram a participação dos Keywords: Bonding; Amplified clinic; Health care; Drugs; Supervi-
usuários diante de suas reais demandas. sed internship.

Palavras-chave: Vínculo; Clínica ampliada; Cuidado em saúde; Dro-


gas; Estágio supervisionado.

I
José Tiago Cardoso (jtiagoc@gmail.com) é psicólogo, Mestre pela Universi- III
Milena Vieira Silva (vieira_milena@hotmail.com) é psicóloga pela Universi-
dade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” e Professor e Supervisor dade Ibirapuera.
de estágio em Psicologia da Universidade Ibirapuera e Professor do Centro IV
Milena Castilho Miyamoto (milena_anahi@hotmail.com) é psicóloga pela
Universitário Serviço Nacional do Comércio (SENAC). Universidade Ibirapuera.
II
Flávia de Lima Cunha (flimacun@hotmail.com) é psicóloga pela Universidade V
Rosemary da Silva Queiroz (mariqueiroz.psicologia@gmail.com) é psicóloga
Ibirapuera. pela Universidade Ibirapuera.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução trabalho: os princípios ético-profissionais,

E
o método qualitativo, a pesquisa-interven-
ste artigo tem como objetivo apresentar a
ção, a clínica ampliada, a micropolítica e
construção de um modo de intervenção clí-
as dimensões do cuidado;
nica e de cuidado em saúde5 com pessoas
que (con)vivem na região da Luz (centro da ca- – o desenvolvimento do estágio supervisio-
pital paulista), território popularmente conhecido nado em Psicologia no programa “De Bra-
como “Cracolândia”. ços Abertos” (DBA), desde a abertura da
Neste sentido, utilizaremos os relatos da gestão deste programa para esse, até as
experiência do estágio supervisionado em Psico- duas etapas que compõem seu desen-
logia para evidenciar o processo de construção volvimento: 1) conhecer e participar das
das intervenções realizadas a partir da parce- práticas dos profissionais de saúde do
ria entre o curso de Psicologia da Universidade Consultório na Rua e fazer o levantamen-
Ibirapuera e o programa “De Braços Abertos” to dos grupos e dos cuidados necessários
(DBA)14 da Prefeitura do Município de São Pau- no território, e 2) a construção de interven-
lo - SP, durante o ano de 2016. As atividades ções para as demandas de atendimento
foram desenvolvidas junto à equipe de saúde do psicológico e cuidados em saúde no terri-
Consultório na Rua. tório, item pelo qual apresentamos como
O artigo encontra-se organizado da seguinte esse trabalho foi organizado;
forma: – apresentamos os números das interven-
–pressupostos teórico-metodológicos: em ções a partir de determinados resultados
que apresentaremos os norteadores do e elaborações: apresentado pelas cenas

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

de intervenções relativas a dois casos “...o sujeito do conhecimento se produz em


que se mostraram importantes para o meio às práticas sócio-históricas, ou seja, o
processo de trabalho e análise – cenas conhecimento enquanto produção e o sujei-
desdobradas visando à compreensão dos to inscrito nesse processo se fazem em con-
diferentes modos de construção do víncu- dições determinadas, o que torna imprópria
lo –, seguido pelo levantamento de alguns qualquer alusão acerca de uma possível neu-
pontos de análise ancorados nos pressu- tralidade que nortearia as práticas de pesqui-
postos da Gestão do Cuidado e da Clínica sa” (p.650).
Ampliada; além de trazer alguns desdobra- Utilizamos, assim como Lourau12, o con-
mentos para o (re)pensar os dispositivos ceito de “implicação” que se contrapõe dialeti-
de análise a partir dos encontros da su- camente à suposta neutralidade científica e de-
pervisão clínica do estágio e as implica- marca que “as análises de nossas implicações
ções produzidas pela autoanálise; concretas” estão presentes “na pesquisa, na for-
– sintetizamos com considerações finais so- mação, ou em toda e qualquer prática social coti-
bre a discussão realizada. diana”12 (p.28).
Dessa forma, todas as etapas foram con-
cebidas e construídas a partir de um conjunto de
Pressupostos teórico-metodológicos: dispositivos
pressupostos teórico-metodológicos, os quais
de produção do trabalho e de análises
apresentaremos a seguir:
O primeiro norteador do trabalho aqui apre-
sentado foi o alinhamento das estagiárias-psicó- – o método qualitativo
logas com as práticas de redução de danos re- Uma importante definição das metodologias
alizada no programa DBA e, consequentemente, qualitativas foi produzida por Minayo15 :
no Consultório na Rua. Este alinhamento se deu “...aponta as metodologias qualitativas como:
por algumas vias: participação de reunião com ‘[...] aquelas capazes de incorporar a ques-
a equipe do programa, participação nas práticas tão do significado e da intencionalidade como
de cuidado no território da Luz, leitura e discus- inerentes aos atos, às relações, e às estru-
são de textos teóricos4, 5, 8 e de políticas públicas turas sociais, sendo essas últimas tomadas
previstas no Sistema Único de Saúde (SUS)3. tanto no seu advento quando na sua transfor-
Nesse contexto, nos apropriamos também mação, como construções humanas significa-
das concepções de sujeito e sociedade presentes tivas” (p.510).
nas lutas de movimentos sociais que tiveram seu Desse modo, o trabalho foi concebido uti-
início na década de 1960 e que possibilitaram lizando este método (e das pesquisas de abor-
diversas transformações na sociedade, nas ins- dagem participante), com as vantagens, como
tituições e, também, nas pesquisas em Ciências indica Turato15, de que os profissionais de saú-
Humanas1. Diante dessas construções, constituí- de trazem “devido a sua experiência em assistên-
ram-se os pressupostos que nos orientaram. cia – as inerentes atitudes clínica e existencial” 15
Um dos norteadores metodológicos foi a (p.509. Tais experiências foram fundamentais pa-
compreensão de que não existe nenhuma neutrali- ra a construção do projeto, sobretudo para o uso
dade no processo de trabalho, desde a concepção adequado dos procedimentos, técnicas de coleta
até as análises, como comentam Aguiar e Rocha1. e produção de análises.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Assim, construímos este trabalho a partir objetiva produzir novas possibilidades interven-
dos seguintes instrumentos: participação da di- tivas junto a diversos contextos, territórios e
nâmica dos grupos e da instituição, entrevistas populações.
semidirigidas, registros em diário de campo, pro-
– a pesquisa-intervenção
dução de relatórios semanais das atividades e
Valendo-se dos desdobramentos das meto-
análises de acontecimentos, supervisão semanal
dologias participantes, encontramos na pesquisa-
de todas as atividades, avaliação do processo,
-intervenção subsídios que sustentaram o proces-
planejamento, reformulação das atividades e de-
so de trabalho e que permitiram certa liberdade de
volutiva para a equipe de profissionais de saúde
criação dentro das possibilidades que as relações
do Consultório na Rua.
(“produtoras de afetos”) foram se produzindo.
– a postura ético-profissional em Psicologia A primeira barreira metodológica foi supe-
A primeira preocupação ética do trabalho rar as bases das pesquisas tradicionais (método
está inserida em uma proposta coletiva de prá- das ciências naturais), que definem um lugar es-
ticas da Psicologia como ciência e profissão. Tal pecífico para o pesquisador e para o pesquisa-
construção se pauta em um paradigma ético- do, muitas vezes enrijecendo os procedimentos
-político6,7 que busca, na composição com outras e não permitindo espaços de reflexão sobre os
áreas, produzir exercícios de transformação so- afetos que atravessam o trabalho de pesquisa e
cial, objetivando melhorar a qualidade de vida da de intervenção. Esses consideram que a subjeti-
população, sobretudo das pessoas mais vulnerá- vidade não tem espaço de existência, ficando à
veis psíquica e socialmente7, 10. sombra dos protocolos da pesquisa e negada e,
Este pressuposto está alinhado com o com- portanto, invisibilizada.
promisso da Psicologia com os Direitos Humanos Na contramão desta visão, consideramos,
e está presente em vários documentos que orien- como cita Oliveira1, que a pesquisa intervenção,
taram a nossa atuação: o Código de Ética Profis- permite uma
sional do Psicólogo6, a Lei 8080/1990 (princípio
“...mudança na postura do pesquisador e dos
do SUS – destaque para a Equidade)2, os pressu-
pesquisados, uma vez que todos passam a
postos da Reforma Psiquiátrica8, a Declaração
ser co-autores do processo de diagnóstico
Universal dos Direitos Humanos (1948); a Consti-
da situação-problema e da construção de ca-
tuição Federal Brasileira (1988), a Política do Mi-
minhos para o enfrentamento e solução das
nistério da Saúde para a Atenção Integral a Usu-
questões. É um processo contínuo que acon-
ários de Álcool e Outras Drogas3; e o Código de
tece na vida diária, transforma os sujeitos e
boas práticas científicas da Fundação de Amparo
demanda desdobramentos de práticas e rela-
à Pesquisa de São Paulo (FAPESP)10.
ções entre os participantes” (p. 651).
Nesse cenário, a participação da Psicologia
na dinâmica social se caracteriza pela constru- Outro salto importante se dá pela compreen-
ção de práticas que sejam consoantes com as são em diferenciar análise de interpretação, pois
demandas da população de determinado territó- a necessidade de contextualização da cena, do
rio, a partir da prática da profissão de modo con- acontecimento e da relação dirige a compreensão
textualizado, circunscrita em parâmetros técnico- do fenômeno em um processo analítico, tal como
-científicos e associados a outras áreas do co- aponta Guirado11, e não enquadrado e interpretado
nhecimento. Desse modo, a prática psicológica de acordo com algumas teorias definidas a priori.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

“O diferenciador é a consideração do contex- de lugares ocupados ou que se busca ocupar


to para a produção do sentido. No plano con- ou, ainda, do que lhe é designado, pelo co-
ceitual, o contexto, pela ideia de perlocução letivo, a ocupar, e os riscos decorrentes dos
de Austin, não se põe como o ambiente ime- caminhos em construção. A análise das im-
diato, observável e exterior às pessoas e gru- plicações com as instituições em jogo nas in-
pos, numa relação parte-extra-parte, e sim, tervenções abre caminhos à ruptura com as
como a condição de enunciação, constituinte barreiras entre sujeito que conhece e objeto
de qualquer ato de fala, que responde pela a ser conhecido” (p. 656).
geração de sentimentos, conflitos e expecta-
tivas nos interlocutores” (p.184). – a clínica ampliada
A clínica ampliada também norteou este tra-
Nesse sentido, trabalhamos com o conceito
balho, sobretudo pela sensibilidade em ampliar a
de intervenção, tal como apontam Aguiar e Ro-
clínica para o sujeito. Diferentemente da clínica
cha1, associado
tradicional, que trata de doenças ou de problemas
“... à construção e/ou utilização de analisadores de saúde, é preciso antes olhar para a pessoa na
históricos [que desloca] da figura do analista qual está “encarnada” determinada doença4. Des-
para a de acontecimento, o que já é, em si, um ta forma, constitui-se a necessidade de olhar para
modo de intervir nos procedimentos habituais os sujeitos para além de sua dimensão biológica;
de pesquisa que se pautam na centralização é preciso olhar para as dimensões sociais e psi-
da figura do pesquisador-intérprete” (p.656). cológicas de cada um1- 5, 7, 8, 11, 13, 14, isto é, uma al-
Desse modo, olhando para as relações en- ternativa para reconhecer a humanidade em cada
quanto acontecimentos, atos e discurso9 é possí- um, como apontam Campos e Amaral4:
vel reconhecer que nesse contexto de produção “Clínica do sujeito: essa é a principal amplia-
de relação há um jogo de expectativas entre as ção sugerida. Além disso, considera-se es-
pessoas que ocupam determinadas posições nas sencial a ampliação também do objetivo ou
cenas, o que possibilita a produção de novos sen- da finalidade do trabalho clínico: além de bus-
tidos para os acontecimentos. Tais sentidos não car a produção de saúde, por distintos meios
devem ser interpretados de antemão, mas, ao – curativos, preventivos, de reabilitação ou
contrário, devem ser reconhecidos como o pos- com cuidados paliativos –, a clínica poderá
sível da cena, do acontecimento. Sendo assim, é também contribuir para a ampliação do grau
fundamental contextualizar as posições de cada de autonomia dos usuários. Autonomia en-
pessoa na cena e problematizar quais expectati- tendida aqui como um conceito relativo, não
vas estão em jogo11; a análise da cena permite como a ausência de qualquer tipo de depen-
compreender a produção de subjetividades. dência, mas como uma ampliação da capa-
Com este pressuposto, voltamos ao con- cidade do usuário de lidar com sua própria
ceito de implicação1,12 para completar nosso en- rede ou sistema de dependências. A idade, a
tendimento sobre a intervenção, como explicam condição debilitante – hipertensão, diabete,
Aguiar e Rocha1: câncer, etc., o contexto social e cultural, e,
“...a implicação não é uma questão de deci- até mesmo, a própria subjetividade e a rela-
são consciente de ligar-se a um processo de ção de afetos em que cada pessoa inevitavel-
trabalho. Ela inclui uma análise do sistema mente estará envolvida” (p. 852).

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

A partir desse olhar ampliado para o sujeito e acontecimentos9, 11 que foram se produzindo nas
pela busca de objetivos como a autonomia, a pro- mais diversas relações, tais como: estagiárias-usu-
dução de espaços de cuidado em saúde no territó- ários, estagiárias-profissionais de saúde, estagiá-
rio da Luz foi também marcada por uma constante rias-instituição, estagiárias-território, usuários-usu-
reflexão acerca dos processos da tradicional clíni- ários, usuários-profissionais de saúde, usuários-ter-
ca psicológica11 e pela busca da construção de um ritório, usuários-instituição, entre outras possíveisVI.
espaço para uma clínica em movimento, ampliada Desse modo, tanto os registros como os
e compartilhada. Ou seja, o exercício de autoanáli- processos de análise foram produzindo uma “rea-
se foi preciso para a compreensão das dinâmicas lidade organizacional”5, à qual, segundo Cecilio5,
de produção de afetos e para a abertura às elabo- pode ser denominada de “micropolítica”. Sobre o
rações e cuidados possíveis4-5,8. tema o autor apresenta a seguinte síntese:
Assim, para tornar o trabalho possível, fo- “Podemos considerar a micropolítica nas
mos nos apropriando dos fundamentos da clí- organizações de saúde como o conjunto de
nica ampliada: 1) reconhecer a importância da relações que estabelecem entre si os vários
corresponsabilidade nas relações clínicas que atores organizacionais, formando uma rede
objetivam o cuidado em saúde, tanto das estagi- complexa, móvel, mutante, mas com estabi-
árias-psicólogas como dos usuários; 2) valorizar lidade suficiente para constituir uma deter-
os acontecimentos, a educação em saúde (com minada “realidade organizacional” – dessa
os usuários e os funcionários do DBA), o apoio forma, relativamente estável no tempo, po-
psicossocial (reconhecendo o processo social e dendo, assim, ser objeto de estudo e inter-
o subjetivo de cada um) e as relações com ins- venção. Os atores são portadores de valores,
trumentos gestuais por aproximação, no corpo a
de projetos, de interesses e disputam senti-
corpo, enquanto “diálogos na Luz”; 3) salientar a
dos para o trabalho em saúde. É um cam-
importância do autocuidado (o que envolveu di-
po, portanto, desde sempre, marcado por
retamente a utilização da redução de danos), do
disputas, acordos e composições, coalizões,
trabalho em equipe interdisciplinar e das dimen-
afetos. Um campo atravessado e constituído
sões social e subjetiva que envolvem a clínica; 4)
por relações de poder. Na micropolítica, há
propor o “projeto terapêutico singular”, etapa es-
o “racional”, mas também o “irracional”. Na
ta que, apesar de sua importância, não foi possí-
micropolítica há o que se mostra e o que se
vel de ser realizada devido ao estágio ocorrer nos
diz, mas há o que se oculta e o que não se diz
sábados quando a equipe do DBA se encontrava
tão claramente. Na micropolítica há liberda-
em capacidade mínima; e, por fim; 5) reconhecer
de, mas há também determinação. Na micro-
a necessidade de construção de vínculo entre os
política se veem vetores de mudança, mas
profissionais e os usuários do serviço, valendo-
também muita conservação. Na micropolítica
-se, para tanto, de todos os dispositivos possí-
se produz o cuidado, portanto, os usuários
veis para alcançar este objetivo4.
são parte central da micropolítica das organi-
– micropolítica: o encontro e a produção do zações de saúde” (p. 547).
cuidado
Sensíveis ao compromisso da “clínica do su-
jeito” (da clínica ampliada)4, fomos encaminhan- VI
Cabe ressaltar aqui que não vamos apresentar análises de todas essas
relações, mas apenas de algumas cenas em que algumas dessas relações
do os processos de análise para as cenas e os estão presentes.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Diante desta construção, nos debruçamos relações e questionar os papeis instituídos, pois
sobre os efeitos das relações que eram produzi- é atravessada por vários determinantes sociais
das e verificando se esses efeitos atendiam nos- que interferem nos modos de produção das rela-
so objetivo de produzir relações de cuidado com ções profissional-usuário.
os usuários. Problematizamos as posições nas A “dimensão organizacional” está presente no
relações e fomos criando/inventando estratégias contexto de produção do cuidado, sendo fruto do
de produção do cuidado. Assim, a produção de processo de institucionalização das práticas des-
sentidos (ou não) nas relações produzidas ser- te cuidado, historicamente, das práticas médicas
viu como principal foco de análise, no desafio de e está presente nas relações técnicas e sociais
identificar e potencializar a produção do cuidado. do trabalho (das instituições), como define Cecilio5:
Outro ponto crucial para entendermos a di- “A divisão técnica do trabalho resulta na frag-
nâmica e a complexidade da produção do cuida- mentação de práticas e exige um custoso
do foi o reconhecimento de que há outras dimen- esforço gerencial de coordenação dos traba-
sões que o produzem; ou seja, o cuidado não se lhos e da comunicação entre os vários profis-
produz apenas na/pela relação entre profissio- sionais. A divisão social do trabalho resulta
nais-usuários. Cecilio5 aponta que, além desta em tensões decorrentes das diferentes valo-
“dimensão profissional”, também estão presen- rizações – incluindo as remunerações e os
tes no cuidado a “dimensão organizacional” e a status de poder e autonomia – dos diferentes
“dimensão sistêmica”. Segundo o autor, as “três trabalhadores” (p.549).
dimensões poderiam ser representadas por três
círculos concêntricos, para expressar a ideia de Assim, esta dimensão é fundamental para a
imanência entre elas”5 (p. 548). autoanálise das instituições de cuidado em saú-
A “dimensão profissional” se caracteriza pe- de, pois as demandas não são oriundas de ape-
lo encontro: na relação entre profissional-usuário nas um determinante social e, sendo assim, não
se configura um espaço de potência, de criação, podem ser abordadas por apenas um domínio de
de subjetividade. Nesta dimensão há três compo- saber ou mesmo por técnicas de um só campo
nentes que devem orientar a prática profissional: de saber, já que estas são múltiplas e comple-
o primeiro é a postura ética do trabalhador, que xas e devem ser trabalhadas nesta composição
se coloca na relação com este “outro” (o usuário) demandada. As diferenças entre os profissionais
que demanda alguma forma de cuidado; o segun- que atuam neste campo também são produtoras
do diz respeito à competência necessária ao pro- de relações e interferem diretamente na dimen-
fissional para que possa operar o seu “núcleo de são profissional.
saber”, o domínio técnico-científico diante da pro- Por sua vez, a “dimensão sistêmica” está
blemática apresentada no encontro; e o terceiro relacionada com os processos em rede para os
componente se dá pela capacidade de criação quais os serviços de saúde devem estar organi-
de vínculo entre profissional-usuário, utilizando zados a fim de contemplar as diferentes necessi-
os recursos possíveis dos encontros. Esta última dades dos usuários. De acordo com Cecílio5:
dimensão solicita uma “abertura” do profissional “A gestão do cuidado pode ser pensada, em
para que tal encontro se realize e necessita uma uma perspectiva sistêmica, como o conjunto
disponibilidade para formar novas redes, inventar de serviços de saúde, com suas diferentes
novas tecnologias, (re)significar os sentidos das funções e diferentes graus de incorporação

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tecnológica e os fluxos que se estabelecem en- de 2 técnicas em enfermagem deste programa,


tre eles. Tais fluxos serão definidos por proto- das 4 estagiárias de Psicologia e do professor-
colos, controlados por centrais de vagas ou de -supervisor das mesmas.
marcação de consulta, sempre na perspectiva Uma vez acordada a proposta de constru-
de garantir o acesso dos usuários às tecnolo- ção da intervenção psicológica, o trabalho foi de-
gias de cuidado de que necessitam, por meio senvolvido durante o ano de 2016, aos sábados,
da constituição e gestão de complexas “redes nos horários entre 10 e 12 horas da manhã. Du-
de cuidado” institucionais, operadas por inter- rante o ano, o trabalho foi dividido em duas eta-
médio de processos formais de referência e pas: uma para participação e conhecimento das
contrarreferência, que propiciem a circulação atividades (e demandas) junto à equipe de saúde
das pessoas por um conjunto articulado de do Consultório na Rua, situada na Luz, e outra
serviços de saúde, de complexidades diferen- para a realização da proposta de intervenção a
tes e complementares entre si” (p.549). ser realizada pelas estagiárias.
Na primeira etapa, as estagiárias acompa-
Diante da articulação desses referenciais,
nharam os fazeres e as intervenções dos profis-
planejamos e executamos as intervenções duran-
sionais de saúde – a maioria deles com formação
te o segundo semestre de 2016.
no campo da Enfermagem –, no próprio territó-
rio, onde as práticas de cuidado em saúde eram
O desenvolvimento do estágio supervisionado em mais presentes: acolhimentos, acompanhamen-
Psicologia no Programa De Braços Abertos (DBA) tos – geralmente a pronto socorros com encami-
O estágio supervisionado em “Intervenção nhamentos, de primeiros socorros (como curati-
Clínica em Comunidades (Instituições e Grupos)” vos aos ferimentos) –, entrega de medicação nos
é uma das modalidades obrigatórias para gradu- hotéis da região onde viviam a população usuá-
andos em Psicologia da Universidade Ibirapuera. ria, entre outros cuidados.
Nele, os graduandos se propõem a desenvolver A segunda etapa do trabalho, de intervenção
projetos específicos de intervenção construídos intitulada Diálogos na Luz, foi iniciada a partir do
a partir da participação e conhecimentos dos fa- mês de agosto de 2016, com o objetivo de produ-
zeres institucionais/grupais e da configuração da zir um espaço de interação, acolhimento e diálo-
demanda produzida com os agentes institucio- gos com as pessoas que (con)viviam no território,
nais e a clientela, para que alguns objetivos se- incluindo os profissionais do programa DBA que
jam definidos conjuntamente e, desta forma, pos- estão expostos a essas relações e que, portanto,
também estão sujeitos à angústias, dúvidas, me-
sibilitar produções de cuidado em Saúde Mental
dos, sofrimentos, entre outros sentimentos.
que possam melhorar a qualidade dessa.
Por isso, fizemos contato com a gestão do – organização do processo de trabalho
Consultório na Rua do DBA, realizado no bairro Aos usuários do programa DBA foi apresen-
da Luz, no centro da cidade de São Paulo, por tado, semanalmente, um espaço de cuidado4,5,8 –
meio de uma reunião onde a proposta do estágio para participação por demanda espontânea. Este
foi realizada, além de ser feito o esclarecimento espaço era a ocupação de uma mesa e bancos
dos processos e do contrato psicológico com a (de concreto) que ficava dentro do espaço do DBA,
instituição. Essa reunião contou com a presença onde as estagiárias-psicólogas, utilizando cole-
da gestora do DBA, da enfermeira responsável, tes e crachás de identificação visando facilitar a

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aproximação dos usuários do programa, distribu- de cada uma dessas intervenções, somaram um
íam materiais e se dispunham a receber quem total de 32 produções, onde a média de aten-
quisesse sentar e participar para fazer o que qui- dimentos se constituiu numa variação de 5 a 6
sesse: conversar, desenhar, descansar, observar, usuários atendidos por semana, 85% homens e
etc.; tendo os usuários opção de deixa-las com 15% mulheres (sendo 5% dessas mulheres tran-
as estagiárias-psicólogas ou leva-las consigo. sexuais), com idade entre 15 e 75 anos.
Os materiais para as atividades (de produ- Durante os encontros foram criadas 85
ção livre) eram papéis pardo e sulfite, lápis de produções (desenhos, colagens, escrituras, en-
cor, canetas hidrocor, giz de cera, imagens e pa- tre outras). Todas as produções deixadas com
lavras recortadas de revista, cola, entre outros, a equipe de estagiárias foram expostas em três
que permitiam situações de abertura para diálo- grandes varais na tenda do DBA; montagem que
gos, acolhimentos e o que mais pudessem de- teve participação de usuários, além das estagiá-
mandar. Assim, a proposta de construir diálogos rias-psicólogas. Tal visibilidade gerou afetos que
possíveis, por demanda espontânea – sem exigir foram acolhidos e compartilhados de acordo com
nenhum requisito aos usuários (como assiduida- o vínculo estabelecido com cada um.
de, cumprimento de horários, cumprimento das Alguns casos podem representar o proces-
atividades, permissão institucional, cadastro an- so de trabalho e intervenção proposto nos “Diálo-
tecipado), implicou em uma postura profissional gos da Luz”. Em dois deles, as cenas produziram
ético-política confirmando os pressupostos teóri- sentidos para as nossas análises. Tratam-se de
co-metodológicos adotados. breves relatos sobre dois usuários do programa
atendidos ao longo de alguns encontros: o caso
– instrumentos de registro de dados
de Roberto e o de Pedro (nomes fictícios).
As atividades foram registradas em diversos
instrumentos produzidos: 1) participação da dinâ- – caso 1 – Roberto:
mica dos grupos e da instituição, 2) entrevistas Roberto (R) é um dos moradores da região
semidirigidas, 3) registros em diário de campo, da Luz que participou de quase todos os encon-
4) produção de relatórios semanais das ativida- tros, sempre realizando desenhos (extremamen-
des e análises de acontecimentos, 5) supervisão te detalhados e coloridos) e que muito pouco in-
semanal de todas as atividades, 6) avaliação do teragia no princípio. Tem aproximadamente 40
processo, 7) planejamento, 8) reformulação das anos, deixou a família por problemas relacionais,
atividades e 9) devolutiva para a equipe de profis- fazia uso de substâncias lícitas e ilícitas sempre
sionais de saúde do Consultório na RuaVII. que tinha oportunidade e relatou ter passado pe-
lo sistema prisional.
Durante o período em que participou das ati-
Alguns resultados e elaborações vidades, R detalhou que pretendia deixar a rua, se
As intervenções, no segundo semestre de recuperar do uso de drogas e reconstituir a relação
2016, resultaram em 11 encontros com a pro- com a filha pequena, que não via há muitos anos.
posta do “Diálogos na Luz”. Os relatórios descri- O que chamava a atenção em R, era a sua
tivos e analíticos (diário de campo) desdobrados assiduidade, participação das atividades e tam-
bém pelo pouco contato verbal que estabelecia.
Ele começou a conversar e falar de si depois do
Para informação, não iremos apresentar elementos de todas estas etapas
VII

de Planejamento, a ideia é garantir o atendimento dos objetivos deste trabalho. 4º encontro, cerca de um mês após o início dos

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

“Diálogos na Luz”. Isso demonstra um dos pilares – o que não é comum – ou quando alguém ofere-
da nossa presença, que preservou a individuali- ce) e nem para se alimentar, já que usa o que há
dade e o espaço dos participantes, não forçan- gratuito e disponível na região. Ele diz:
do uma interação verbal, até que partisse deles “Não preciso ter dinheiro para viver na rua.
qualquer intenção de falar. Eu não tenho nada. Minhas roupas são doa-
No 9º encontro, R se aproximou, cumpri- das e troco quando recebo novas. As outras
mentou uma estagiária-psicóloga e explicou que coisas eu arrumo nos serviços que conheço e
não participaria das atividades por estar aguar- dão coisas de graça. Durmo em um albergue
dando o horário de uma atividade com uma esco- e passo o dia me ocupando com as atividades
la de samba, que estava sendo organizada pela que aparecem como esta aqui ou as do Reco-
equipe do Programa RecomeçoVIII, que, neste dia, meço. Já fiz academia lá hoje e essa semana
contou com a participação de uma igreja e mobi- visitei com eles mais um museu. E assim os
lizou toda região, com presença de trio elétrico,
dias vão indo. Até conseguir sair daqui e mon-
palhaços, pula-pula para crianças, distribuição de
tar meu negócio de reciclagem. Aqui não dá
lanches, etc, onde R também faria alguma apre-
pra ficar, é muito violento. Não quero te assus-
sentação neste sentido. Depois de explicar sua
tar, mas aqui o que mais tem é maldade. Já vi
ausência, ele deixou a tenda.
gente dando facada nos outros por nada. O
Dez minutos depois de deixar a mesa pron-
que mais acontece é um bater de frente com
ta, o usuário R voltou à tenda do DBA e explicou
o outro á toa. Então, a forma que encontrei de
que o responsável pela escola de samba onde
sobreviver é ficar invisível, eu passo desper-
faria a apresentação estava atrasado. Ele se sen-
cebido. Sou educado com todo mundo e não
tou, pegou folhas de papel, lápis preto, borracha,
ando em bando, pode reparar” (Usuário R)
giz de cera e lápis de cor e iniciou um desenho
feito com todo cuidado. O desenho ficou pronto De fato, R conversa com quem fala com ele
por volta de 11h50min e, neste meio tempo, R sempre educadamente, mas nunca está acompa-
parou duas vezes para conversar com a estagi- nhado de ninguém. Quando terminava o desenho,
ária sobre seu contato com o DBA. Entre outras conversava com uma estagiária-psicóloga sobre o
coisas, R contou que solicitou uma vaga do pro- que desenhou e agradecia o espaço de diálogo;
grama (hotel e trabalho), mas que recebeu a res- terminava combinando voltar no próximo encontro.
posta de que o programa havia encerrado as ins- Ao final dos trabalhos, no dia do encerra-
crições. R era gari antes de morar na rua, relatou mento do projeto e durante a montagem dos va-
que tem um valor em dinheiro para receber do FG- rais que expunham os trabalhos realizados, R
TS e que, quando conseguir sacá-lo, quer investir nos perguntou se havia algo dele na seleção da
num negócio de reciclagem e deixar a vida na rua. amostra. A estagiária-psicóloga, que estava próxi-
Disse que quase não precisa de ajuda com ma, apontou para o segundo dos três varais onde
questões relacionadas à saúde (está há meses havia peças de autoria de R e lhe disse: «Olhe
sem usar crack e só usa maconha, álcool e coca- para lá. Vocês está ali”. R olhou aparentemente
ína esporadicamente, quando tem algum dinheiro surpreso para cima, deu um passo para trás (o
que ampliou sua visão), respirou fundo e perma-
neceu por um tempo olhando para as imagens e
Programa dirigido a usuários de droga também presente na região da Luz e
VIII

de responsabilidade do Governo do Estado de São Paulo. disse nem se lembrar da produção de algumas

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

delas. Ao sair da posição e se dirigir para a mesa Alegou que, naquele momento, estava melhor e
para produzir seu último desenho R. sorriu para buscava ocupar o seu tempo em não pensar em
as estagiárias, deixando notar os seus olhos ma- determinados aspectos de sua vida, por exemplo,
rejados; estava emocionado.  varrendo o quintal e cuidando das plantas da ins-
Para o nosso projeto, essa demonstração tituição em que fazia acompanhamento. Após al-
de R revela a produção de afeto, de cuidado, de guns minutos de conversa, P falou sobre sua habi-
vínculo nas relações construídas, o que possibi- lidade e paixão em compor músicas, (normalmen-
litou, neste caso, um resgate da história de vida te música gospel), o que considerava que o levava
de sua vida. Pudemos notar que suas produções para mais próximo de Deus. Contou que estava
têm um lugar de reconhecimento da subjetivida- estudando a 8º ano do Fundamental no período
de e apropriação de seu percurso de vida. noturno, que tinha boas notas e que traria seu bo-
– caso 2 – Pedro letim no próximo encontro. Após terminar o seu
No primeiro contato com Pedro (P), o mes- desenho, se despediu e foi embora.
mo estava sentado no espaço onde desenvolvía- No segundo encontro, P chegou ao DBA e
mos as atividades. Logo que o avistamos, uma se dirigiu à estagiária-psicóloga que havia con-
das estagiárias-psicólogas perguntou qual seu versado na semana anterior. Disse que não es-
nome dele e ele respondeu, perguntando em voz tava muito bem, que ficaria pouco tempo e se
baixa: “O meu? Sim, o seu nome”, disse a esta- desculpou por ter tido uma recaída, dizendo que
giária e então, ele respondeu em voz baixa nova- havia comido crack. Naquele momento, sua mão
mente, não sendo possível entender, razão pela estava trêmula e ele, cabisbaixo, estava com difi-
qual a estagiária-psicóloga teve que se abaixar e culdade para pintar o seu desenho. P relatou que
se posicionou na frente e na mesma altura de P quase não foi à escola naquela semana e que es-
para o diálogo fluir. tava muito mal por ter brigado com sua esposa,
P morou em uma cidade do interior de São complementando que a maior parte de sua tris-
Paulo, onde passou sua infância e adolescência. teza seria fruto das relações com as mulheres.
Sua mãe faleceu muito cedo e desde então foi cria- No dia do último encontro realizado, P foi in-
do por seu pai. Relatou estar morando no território formado pela estagiária-psicóloga que aquele se-
da Luz há aproximadamente oito meses e que, um ria o último dia do trabalho. Ele disse que conside-
dos motivos de sua vinda, decorreu pelo uso de rava esse um fato triste, ao qual ela concordou,
drogas, já que passou a vender os objetos de sua falando que para ela e suas colegas de trabalho,
casa, tornando a situação incontrolável. Em decor- o sentimento era o mesmo. P perguntou sobre
rência dessa situação, chegou à conclusão de que seus desenhos, se haviam sido descartados e a
não ficaria perto do pai para não “dar desgosto”. estagiária-psicóloga indicou um de seus desenhos
Depois de relatar sua história à estagiária-psicó- pendurados. P esboçou um sorriso ao ver seus de-
loga, agradeceu a escuta, dizendo: “Obrigado por senhos expostos e logo deu continuidade a outro
escutar um louco”. Frente ao qual a estagiária per- desenho, interagindo verbalmente como nos ou-
guntou: “Mas porque um louco?”. Ele levantou a tros encontros. Ao finalizar, sugeriu que seus úl-
manga da camisa mostrando o braço e disse: “Só timos desenhos também fossem acrescentados
um louco se corta desse jeito”. Depois contou que aos varais. Durante o tempo em que ficamos no
tomava remédio controlado e fazia acompanha- território, P se despediu algumas vezes anuncian-
mento junto ao psiquiatra, pois se automutilava. do a sua ida, mas permanecia sempre por perto.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Alguns apontamentos analíticos: o vínculo – possibilitando uma horizontalidade na relação e


produtor de relações, técnicas e sentidos reconhecendo a sua humanidade, o que permi-
Os dois casos apresentados mostram co- tiu que ele se colocasse na relação de um modo
mo a construção do vínculo é fundamental pa- diferente, não mais como “um louco”, mas como
ra o desenvolvimento do trabalho de cuidado alguém que existe para além dos rótulos associa-
em saúde. Esta só se mostrou possível graças dos a sua condição. A posição corporal, o direcio-
à postura ético-política assumida pelas estagiá- namento da atenção para o usuário e a sustenta-
rias-psicólogas, que conseguiram estabelecer, na ção do olhar e dos gestos foram condições para
relação com os usuários, o reconhecimento de produção desses encontros e possibilitou (con)
suas demandas, operando as técnicas clínicas viver com os afetos produzidos.
(acolhimento, escuta, atenção) diante das neces- – pontos de análise da clínica ampliada
sidades de cada um e respeitando seus tempos, O reconhecimento da corresponsabilidade
limites e questões. nas relações durante o processo de trabalho foi
– pontos de análise da gestão do cuidado se materializando e sendo compreendido e ela-
A construção da dimensão profissional da borado pelos exercícios de análise realizados nas
gestão do cuidado apresentada permite destacar supervisões, nas discussões entre as estagiá-
o tempo que R precisou para poder falar de si, de rias, na escrita dos relatórios e, sobretudo, na
sua vida e de seus planos. Já com P, vimos co- contextualização do momento de vida de cada
mo as produções de afeto foram representadas usuário, respeitando suas histórias de vida. Co-
na relação, no encontro, quando ele conseguiu mo exemplo, R teve sua integridade individual
resgatar seus talentos, seu dom com a música e respeitada e pôde compartilhar sua história de vi-
com os estudos. da quando sentiu que era o momento adequado,
R nos mostrou como fazia uso das redes de sendo garantida, assim, a sua autonomia.
apoio psicossocial e cartografou sua trajetória de Durante todo o processo de trabalho hou-
cuidados: onde dorme, onde come, onde pode ve preocupação por parte das estagiárias-psi-
pensar na sua vida, seu passado, seu futuro. Com cólogas em relação à abordagem utilizada junto
isso, revelou como a dimensão sistêmica da ges- aos usuários do programa. Buscou-se, a todo
tão do cuidado está estruturada naquele território, momento, respeitar o espaço de cada indivíduo
além de ser perceptível, como ele cita todos os ser- tendo em vista o seu contexto de vida e a sua
viços, suas funções, seus tempos e funcionamen- subjetividade. Esses aspectos foram trabalhados
tos. Porém, em momento algum R personificou a fi- em supervisão para aprimoramento da atuação
gura de pessoas (profissionais ou não) como ponte junto aos usuários do DBA, onde, no caso de P,
para sua vivência no território. Frente a isso, nós o a relação foi estabelecida através da construção
respeitamos, preservamos e valorizamos sua au- do vínculo produzida com a intervenção “Diálogos
tonomia, e sempre trabalhamos com as questões na Luz”. Podemos identificar que tal vínculo só foi
que demonstrava ser mais importantes. possível devido à valorização da individualidade
Norteados ainda pelas dimensões do cuida- e do processo psicossocial de P, verificado, me
do, destacamos na dimensão organizacional, o destaque, pela promessa deste usuário em levar
quão importante foi para P, quando a estagiária- o seu boletim escolar, além do dia em que jus-
-psicóloga, não só se aproximou dele, mas se tificou não poder participar da atividade porque
posicionou dirigindo seu corpo ao seu encontro, havia feito uso de drogas.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Nas relações clínicas, todas as narrativas das intervenções e produção de dispositivos para
foram valorizadas, pois os efeitos das produções as análises e autoanálises
relacionais eram entendidos como acontecimen- É importante ressaltar que o planejamento
tos. Assim, o tempo e o espaço de cada parti- das intervenções foi sendo produzido de acordo
cipante foram respeitados. No caso de R, suas com as especificidades do trabalho de estágio re-
demandas foram acolhidas de acordo com o mo- alizado e que, ainda que alguns procedimentos te-
do com que ele as apresentava, o que, na maio- nham sido pensados de antemão, o encontro com
ria das vezes, não era feito de modo verbal, mas a complexidade de cada usuário, a cada encontro,
gestual e/ou presencial. Outra referência ao vín- a cada dia, a cada história, a cada demanda, per-
culo de R, foi o fato dele ir até explicar porque mitiu (re)pensar a prática, (re)planejar atividades e
não poderia participar da atividade por ter outra (re)posicionar as ações e angústias vividas.
programada, ao mesmo tempo em que afirmou Durante o processo de trabalho, o uso de
que participaria numa próxima semana. procedimentos de pesquisa foi ganhando novos
O autocuidado promovido pela ação das contornos e, assim, sendo ampliado para que
estagiárias-psicólogas na Luz, passou pela não os afetos produzidos nos acontecimentos pu-
imposição de qualquer tipo de cadastro ou re- dessem ser trabalhados para o cuidado com as
gistro de frequência dos usuários. Os trabalhos estagiárias-psicólogas, e com os funcionários e
eram iniciados e encerrados no mesmo dia, per- usuários do programa.
mitindo que a dinâmica de fluxo constante fosse Assim, elencamos, como primeiro dispositivo
respeitada. de acolhimento, o grupo de supervisão que sema-
No caso de R, notamos que a promoção de nalmente se reunia para receber a narrativa dos
autocuidado e autonomia se deu no livre trânsi- acontecimentos dos últimos encontros e, princi-
to deste usuário aos grupos semanais e em sua palmente, para reconhecer os lugares ocupados
afirmação de que o projeto lhe trazia benefícios a nas cenas, a produção de afetos, os atravessa-
curto e longo prazo, percebendo alívio das pres- mentos (de ordem política, social, econômica etc.)
sões causadas no seu cotidiano, conforme disse e o que mais precisasse de espaço para ser elabo-
durante uma das interações. rado, dito, acolhido, refletido e referenciado.
Como já mencionado, não realizamos o pro- Embora esse dispositivo grupal tenha tido
grama terapêutico singular dos usuários; esta fun- lugar central na organização e na produção do
ção era feita pela equipe de profissionais do Con- trabalho, os outros dispositivos não foram menos
sultório na Rua do DBA. Como estagiárias-psicólo- importantes: passamos a dar espaço e reconhe-
gas, somente contribuímos com as devolutivas e cer as produções que estavam fora dos tempos
algumas trocas com alguns profissionais presen- institucionais, aos quais estávamos expostos,
tes nos dias de realização do “Diálogos na Luz”. tanto no território do DBA, como na universidade.
Com esses pontos de análise, alguns impor- Desse modo, chamamos a atenção para
tantes acontecimentos ajudaram na construção outros processos que também afetaram direta-
da intervenção clínica e novos dispositivos de mente os modos de subjetivação deste trabalho,
análise surgiram dos encontros que transforma- sendo eles: as conversas entre as estagiárias-
ram as intervenções e os profissionais envolvidos -psicólogas depois do trabalho, no transporte pa-
neste processo, gerando assim, uma autoanáli- ra seus lares; o diário de campo, formatado em
se12: a supervisão clínica, lugar de planejamento relatórios semanais e as narrativas, construídas

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

coletivamente pelas estagiárias-psicólogas; a su- demandas, e que trabalhar com demanda es-
pervisão como espaço para que os outros esta- pontânea é possível em espaços de elaboração
giários, junto ao supervisor, pudessem produzir coletivos, embora seja uma tarefa difícil, visto
espaço de análises diante das problematizações que há expectativas institucionais e pessoais,
e do planejamento de novas estratégias de abor- Por isso, construir espaços de alteridade não é
dagem que fossem demandadas; o processo de simples como a reprodução de técnicas: é preci-
elaboração continuava realizado após a supervi- so reconhecer sua implicação na relação e com-
são e com seus indicativos, permitindo a constru- preender os encontros vividos posteriormente,
ção de um relatório focado em alguns pontos de com a supervisão.
análise, de problematizações e que era compos- O espaço de supervisão de estágio mostra
to com outros trabalhos de referência teórico-prá- como os estudos e as estratégias de cuidado em
ticas; e, o fato de que nosso objeto de trabalho (e saúde necessitam de espaço de produção e ela-
de pesquisa), assim como as nossas posições e boração dos afetos.
lugares, sempre “escapavam”, produzindo afetos No referido estágio, o objetivo não se tra-
desconhecidos e conhecidos não previstos e pos- tou apenas de tirar o profissional de Psicologia
sibilitando movimentos de evolução e involução do isolamento do consultório, mas também de di-
que tiveram papel fundamental na configuração fundir o conhecimento abarcado durante os anos
do trabalho que se produziu coletivamente como de formação acadêmica, visando o bem comum,
uma intervenção em movimento. ampliando assim as possibilidades de qualificar
o trabalho do profissional de Saúde Mental, bem
como as relações com a população que o recebe
Considerações finais e permite que o trabalho aconteça.
Apesar de todos os limites da intervenção re- Para além da questão de ofertar à socieda-
latada, a proposta de construção de um espaço de de o acesso a determinadas práticas, a formação
intervenção e cuidado em saúde foi realizada em do psicólogo precisa também ser permeada pela
movimento, permitindo alcançar dois grandes ob- vivência com novas instituições e novos territórios
jetivos: o primeiro, demostrar que é possível cons- (diferentes dos modelos tradicionais de interven-
truir o espaço de cuidado em saúde para os usuá- ção em Psicologia), produzindo uma experiência
rios de drogas, incluindo aqueles que convivem no profissional e científica composta a partir dos acon-
território da Luz, na “Cracolândia”, buscando práti- tecimentos das reais condições da vida cotidiana.
cas de redução de danos, junto à equipe de saúde A partir deste olhar ampliado para o sujei-
do Consultório na Rua; o segundo, demonstrar que to e da busca de objetivos como a autonomia,
a supervisão clínica de estágios universitários de a produção de espaços de cuidado em saúde,
Psicologia são uma possibilidade de intervenção como ocorreu nesse trabalho com o território
formativa e que permitem a autoanálise12, reco- da Luz, demonstra a importância da constante
nhecendo os limites e possibilidades das relações reflexão dos papéis nas relações institucionais,
clínicas, institucionais e ético-profissionais. permitindo construir espaço para uma clínica em
No que diz respeito às intervenções com movimento, ampliada, compartilhada. Para tanto,
os usuários, vimos que a importância da cons- o exercício de autoanálise auxilia para compre-
trução do vínculo é fundamental para possibili- ender as dinâmicas de produção de afetos e a
tar a produção de relações que atendam as suas absorção de elaborações e cuidados possíveis.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Desde modo as produções relacionais am- 6. Conselho Federal de Psicologia (CFP). Código de Ética
pliam as possibilidades de se produzir o cuidado Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP; 2005.
7. Conselho Federal de Psicologia (CFP). Referências técni-
em saúde, pois otimizaram o exercício do acolhi-
cas para a atuação de psicólogas/os em políticas públicas
mento e do vínculo, bem como, favoreceram a
de álcool e outras drogas. Conselho Federal de Psicologia.
participação dos usuários e proporcionaram seu Brasília: CFP; 2013.
engajamento em elaborar suas reais demandas. 8. Costa-Rosa A, Luzio CA, Yasui S. Atenção Psicossocial:
rumo a um novo paradigma na Saúde Mental Coletiva. In:
Amarante P. (Org.). Arquivos de Saúde Mental e Atenção Psi-
cossocial. Rio de Janeiro: Nau; 2003. p.13-44.
9. Foucault M. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola;
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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Internação compulsória como opção


de tratamento a dependentes de crack
Compulsory hospitalization as a treatment option for crack dependants

Amanda Menon PelissoniI, Danuta MedeirosII, Mayra Cecilia DelluIII, Regina FigueiredoIV,
Thiago Godoi CalilV, Marcelo RyngelblumVI, Glauber CastroVII, Raonna Caroline Ronchi MartinsVIII

Resumo Abstract

O objetivo é identificar as representações sociais contidas nas This study aimed to identify the social representations contained in
opiniões de alunos de pós-graduação de Saúde Pública com re- the opinions of post graduate students in Public Health with regard
lação à internação compulsória, uma das condutas sugeridas pa- to compulsory hospitalization, one of the approaches suggested for
ra resolução da dependência de crack. Foi realizado um estudo the resolution of crack addiction. We conducted a cross-sectional
transversal de abordagem qualiquantitativa utilizando metodologia study approach using the methodology of the Collective Subject Dis-
do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), coletando representações course (CSD), collecting social representations through a self-admi-
sociais por meio de questionário aberto autoaplicável e disponi- nistered open questionnaire and made available online by Qlqt sof-
bilizado on line pelo software Qlqt on line, com 14 estudantes de tware online, with 14 post graduate students from the USP’s Public
pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública da USP. Quanto Health Faculty. Regarding the compulsory hospitalization as a health
à opinião sobre a internação compulsória como estratégia de saú- strategy, the majority of students supported the measure, conditio-
de, a maioria dos pós-graduandos apoia a medida, mesmo con- ning it to a greater structuring of this procedure so that places of
siderando a mesma um “mal necessário”, ou condicionando-a a detention are not seen only as psychiatric deposits. There was great
uma maior estruturação deste procedimento para que locais de dissent regarding guidelines, concepts and positionings on the com-
internação não sejam vistos apenas como “depósitos” psiquiátri- pulsory hospitalization of drug addicts, depending on whether or not
cos. Foi evidenciada grande diferença de orientações, concepções there was a family relationship between them and the respondents.
e posicionamento quanto à internação compulsória quando há e
quando não há vínculo familiar dos entrevistados com relação aos Keywords: Drugs; Compulsory hospitalization; Crack; Social Repre-
dependentes químicos. sentations; Discourse of the Collective Subject.

Palavras-chave: Drogas; Internação Compulsória; Crack; Represen-


tações Sociais; Discurso do Sujeito Coletivo.

I
Amanda Menon Pelissoni é Psicóloga, Especialista em Saúde Pública pela V
Soraya Souza Cruz Ferreira (sorayasouzacruz@gmail.com) é Pós-graduada
Universidade São Camilo e Professora do Centro Universitário Anhanguera. em Sócio-Psicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
II
Danuta Medeiros (danutamedeiros@gmail.com) é Psicóloga, Doutoranda VI
Wendry Maria Paixão Pereira (wndrypaixao@ig.com.br) é Fisioterapeuta, Mestre
pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e Docente do e Doutora pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.
Centro Universitário FIEO. VII
Fernando Lefèvre é ex-Professor Titular da Faculdade de Saúde Pública da
III
Mayra Cecilia Dellu (mayra.cecilia@gmail.com) é Fisioterapeuta, Doutoranda Universidade de São Paulo e atual Pesquisador do Instituto de Pesquisa do
pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e Professora Discurso do Sujeito Coletivo.
e Diretora do Departamento de Fisioterapia e Membro do Comitê Institucional VIII
Ana Maria Cavalcanti Lefèvre (póstumo) foi Doutora em Saúde Pública pela
do Programa de Bolsas de Iniciação Científica da Universidade de Taubaté. Universidade de São Paulo e Pesquisadora do Instituto de Pesquisa do Dis-
IV
Regina Figueiredo (reginafigueiredo@uol.com.br) Socióloga, Mestre em An- curso do Sujeito Coletivo.
tropologia, Doutoranda pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de
São Paulo e Pesquisadora do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da
Saúde de São Paulo.

|129
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução da região, considerada uma das que melhor dispõe

A
de infraestrutura urbana de saneamento, eletricida-
pós a década de 90, o uso da cocaína in-
de, comércio e pequenos serviços6. Essa iniciativa
jetável no Brasil foi sendo substituído pelo
urbanística somou-se, a partir do final de 2011, à
uso do crack, se constituindo como uma das
preocupação turística e de segurança pública com
principais drogas utilizadas por pessoas em situa-
a aproximação dos jogos da Copa do Mundo de Fu-
ção de vulnerabilidade social2. Isso se mostra pre-
sente entre a população frequentadora de vários tebol de 2014, que concentraria maior população e
centros urbanos de grandes capitais, incluindo o da uso do Centro da cidade não apenas pela própria
cidade de São Paulo3, concentrada, nesta última, população da cidade, mas, sobretudo, por turistas.
mais especificamente numa localidade atualmente Tal preocupação não está relacionada ape-
denominada por este motivo de “Cracolândia”, on- nas aos prejuízos econômicos que ações de fur-
de frequentam cerca de 2.000 pessoas, principal- tos e vandalismo possam vir a causar, mas prin-
mente, adolescentes e jovens de 20 a 30 anos4. cipalmente a percalços na organização espacial
Com propostas de reurbanização da região e na imagem do país que possam ser transmiti-
central da cidade pela Prefeitura Municipal do Mu- das internacionalmente para outras nações, que
nicípio de São Paulo5, iniciativas de especulação afetem o turismo e a posição política que o Bra-
imobiliária surgiram pressionando a reorganização sil vem consolidando mundialmente. Entre esses

|130
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

percalços, obviamente, está a explicitação e o drogas, substituindo abordagens policialescas


contato demasiado com populações rotuladas co- que antes supunham a prisão de usuários. A lei
mo “marginais”, como moradores de rua, pedintes federal 11.343/06 orienta a não prisão de usuá-
e usuários-dependentes de crack que, no caso de rios e passa a focar apenas nos traficantes como
São Paulo, frequentam o Centro, estigmatizados alvo de ações de polícia e segurança pública8.
pela mídia que constantemente cita a Cracolândia Essa linha de abordagem segue estratégias
como exemplo de desorganização urbana. ligadas à interpelação, cada vez mais adotada, de
Diante da problemática do uso abusivo de redução de danos, priorizadas pelo Ministério da
substâncias químicas, o Governo brasileiro vem Saúde9, que estava sendo adotada desde 2009
criando estratégias de enfrentamento norteadas pela Prefeitura de São Paulo em parceria com Go-
pela Política Nacional sobre Drogas, sancionada verno do Estado, do Poder Judiciário e do Ministério
pelo Conselho Nacional Antidrogas – CONAD7. Este Público e sociedade civil, no projeto Ação Integrada
documento orienta ações de prevenção ao uso in- do Centro Legal10,11, dirigido a usuários de drogas
devido de drogas, o enfrentamento do tráfico/redu- do Centro de São Paulo, incluindo a Cracolândia.
ção da oferta, a organização intersetorial em prol Esse projeto visa dar atendimento completo às pes-
da promoção de saúde relacionada ao uso de dro- soas que vivem nas ruas sejam elas dependentes
gas, salientando o compartilhamento de responsa- químicos ou não, fornecer tratamento de saúde
bilidades pelas diferentes esferas do governo e a física e psicológica, e inserção social com apoio
sociedade civil na questão das drogas. educacional e capacitação profissional, facilitan-
A linha adotada pelo Governo brasileiro, con- do oportunidades de trabalho e restabelecimento
forme a Resolução nº 3 de 2005 que cria a Políti- de laços afetivo-familiares. Estas ações são feitas
ca Nacional sobre Drogas7, defende que: por agentes comunitários da Secretaria da Saúde
“O Estado deve estimular garantir e promover e agentes de proteção urbana da Secretaria Muni-
ações para que a sociedade (usuários, depen- cipal de Assistência Social por meio de abordagens
dentes, familiares e populações específicas), feitas de dia e de noite, propendendo estabelecer
possa assumir com responsabilidade ética, vínculos e oferta dessas assistências e encaminha-
o tratamento, a recuperação e a reinserção mentos para ambulatórios municipais especializa-
social, apoiada técnica e financeiramente, de dos e centros de atenção psicossocial (CAPS) 12.
forma descentralizada, pelos órgãos governa- Com a aproximação da eleição municipal de
mentais, nos níveis municipal, estadual e fede- São Paulo de outubro de 2011, no entanto, a Pre-
ral, pelas organizações não governamentais”7. feitura de São Paulo lançou o projeto “Nova Luz”,
Assim, o enfoque atual procura valorizar a que na prática, além de procurar reforçar a reocu-
corresponsabilização do usuário, a participação pação da região central da cidade, inclui uma série
da família e a observância às singularidades ter- de medidas que na área de atuação com usuários
ritoriais na tomada de decisões referentes aos de drogas, diverge dos projetos que até então fo-
tratamentos, tornando todos os envolvidos inclu- ram desenvolvidos na região da Cracolândia5.
ídos como “ativos” e, portanto, sujeitos de suas No novo projeto, implementado desde o iní-
escolhas e agentes de suas ações. cio de 2012, há uma participação mais ativa da
Essa perspectiva está salientada nas re- Polícia Militar como agente de abordagem da popu-
centes alterações legais ocorridas em 2006, lação usuária de drogas e uma explícita recomen-
que passaram a dar caráter de saúde ao uso de dação de coação a tratamento da dependência, o

|131
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

que inclui o encaminhamento a internações com- O grupo elegeu como tema as representa-
pulsórias de usuários, ou seja, em detrimento de ções sociais a respeito das orientações de tra-
suas vontades, principalmente de adolescentes13. tamento para usuários dependentes de crack e
Essa nova iniciativa provoca controvérsias na opiniões frente à estratégia sugerida por alguns
medida em que interfere nos padrões de autono- gestores públicos de realizar a internação com-
mia e corresponsabilidade defendida pela Política pulsória desses usuários de drogas. O público
Nacional de Drogas, além de estarem sendo con- estudado foram os próprios estudantes da pós-
testadas por vários especialistas que atuam com -graduação em Saúde Pública da Universidade
o tema de uso de drogas/crack que explicitam que de São Paulo, destacados, porque além de per-
o tratamento depende de participação e iniciativa tencerem a um centro de formação importante
do usuário para ter efeito14. Ao mesmo tempo, a do corpo discente da área, desenvolvem e têm
medida é contestada por profissionais da saúde trajetória de participação nas políticas de saúde
mental ligados à trajetória de luta antimanicomial pública do país, além de serem importantes for-
do país15, 16, que afirmam que a internação com- madores de opinião nessa área.
pulsória se opõe aos princípios da Lei nº 10.216 Por isso, além do objetivo de identificar opini-
da Reforma Psiquiátrica Antimanicomial17 e às di- ões discursivas que expressariam as suas repre-
retrizes da Política de Atenção à Saúde Mental do sentações sociais sobre a dependência de crack,
SUS, que orientam que a internação compulsória principalmente com relação à internação compul-
só pode ser determinada pela Justiça17. sória, buscou-se identificar que outras condutas
Neste sentido, o levantamento da visão de de resolução ou terapêuticas para a questão da
estudantes da área de Saúde Pública sobre a dependência a essa substância seriam sugeridas
questão do crack e, em especial, sobre as pro- por esses estudantes, comparando as sugestões
postas de internação compulsória de seus usu- dadas frente a situações hipotéticas onde hou-
ários, torna-se fundamental, na medida em que vesse envolvimento e vínculo afetivo ou não do
esses se especializam para atuar no SUS - Siste- pesquisado com o usuário.
ma de Saúde Único de Saúde brasileiro, compon- O levantamento de dados foi qualiquantitati-
do uma importante massa de executores e parti- vo por autopreenchimento on line do QLQT softwa-
cipantes de formulação dessas políticas. re. Para o questionário foram incluídas perguntas
de perfil (sexo, idade, cidade de residência, gra-
duação e área de atuação e função) do entrevis-
Método tado, além de dois casos (situações hipotéticas)
O levantamento descrito foi realizado en- desenvolvidos pelos pesquisadores, abordando o
quanto trabalho de grupo final para conclusão tratamento e a internação e uso de do “crack”,
da disciplina de “Representação Social da Saú- com questões no final de cada um deles:
de e da Doença”, do Departamento de Prática de – Caso 1: “Imagine que seu sobrinho faz uso
Saúde Publica da Faculdade de Saúde Pública da de crack e abandonou os estudos. A família já
Universidade de São Paulo, buscando aplicar os conversou com ele e não adiantou. O que você di-
aspectos básicos da teoria da Representação So- ria para seu irmão/ã, os pais dele, para enfrentar
cial1, com um método de levantamento de dados este problema? Por quê?”.
qualiquantitativo desenvolvido para pesquisas – Caso 2: “Existe uma quantidade expres-
sociais no campo da saúde. siva de usuários de drogas que frequentam a

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Cracolândia. Muitos rejeitam qualquer tipo de in- entre 24 a 34 anos; predominantemente mulhe-
tervenção, pois desejam ficar na região. Há uma res (78,6%), que residem na cidade de São Paulo
proposta de intervir na região fazendo a interna- (78,7%).
ção compulsória dessas pessoas. O que você Quanto à graduação, 92,3% tinham forma-
acha disso? Justifique”. ção na área da Saúde com destaque para enfer-
A opção por perguntas no formato de casos meiros (23,1%) e fisioterapeutas (23,1%), embora
adota um procedimento de “técnica encoberta sete diferentes cursos de graduações tenham si-
de pesquisa”19, que busca evitar que os sujeitos do mencionados. Do total, 35,7% atuam como do-
se expressem de modo “politicamente correto”, centes em faculdades particulares no Estado de
omitindo ou transformando propositadamente su- São Paulo e apenas 14,3% dos pós-graduandos
as representações adequando-os à expectativa não estão atuando profissionalmente.
do(s) pesquisador(es).
Para a disseminação do estudo, foram en- Tabela 1: Distribuição do perfil dos
viados emails aos alunos da pós-graduação refe- pós-graduandos.
rida, convidando-os a acessarem eletronicamen-
te através da internet a pesquisa do período de Perfil Pós-graduandos N %

30 de março a 03 de abril de 2012, compondo Idade (anos) 24 - 34 7 50,0


uma amostra de entrevistados espontânea, por 35 - 45 5 35,7
conveniência e não probabilística. 46 -56 2 14,3

O acesso ao questionário on line prescindia


São Paulo 11 78,7
da livre resposta positiva ao TLCE - termo de livre Cidade de
residência São Caetano 1 7,1
consentimento esclarecido.
Pindamonhangaba 1 7,1
Para cruzamento e análise dos dados foi Taubaté 1 7,1
utilizado o software Qualiquantisoft, que permite
além da categorização de ideias centrais (ICs) e Sexo Masculino 3 21,4
quantificação dos conteúdos de discursos simi- Feminino 11 78,6
lares, a elaboração do Discurso do Sujeito Co-
letivo (DSC)18 que revelam as diferentes repre- Graduação Jornalismo 1 7,7
Ciências biológicas 2 15,4
sentações sociais expressas nos pensamentos
Enfermagem 3 23,1
e opiniões individuais dos pesquisados de um
Fisioterapia 3 23,1
determinado grupo social em discursos do gru- Medicina 1 7,7
po (“sujeito coletivo”) ao qual fazem parte, além Nutrição 2 15,4
das expressões-chaves emitidas18 que susten- Psicologia 1 7,7
tam tais opiniões.
Área de Atenção Básica 2 14,3
atuação Clinica Particular 2 14,3
Resultados Docente 5 35,7
Estudante 2 14,3
– Perfil dos Participantes da Pesquisa Hospital 2 14,3
Responderam espontaneamente à pesqui- Outros 1 7,1
sa 14 pós-graduandos da USP/FSP, com média
Nota: A diferença do total graduandos em cada variável é devido à
de idade 35,6 anos (DP=9,1), 50% com idade ausência de respostas.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

– Caso 1 – Discursos Emitidos sobre Orienta- Figura 1: Distribuição das Ideias Centrais (%) re-
ção de Tratamentos em Caso de Dependência de ferentes às percepções dos pós-graduandos so-
Crack em Situação de Envolvimento Familiar bre orientações em caso de situação familiar de
No primeiro caso, foram levantadas as se- uso de crack (Caso 1)
guintes orientações sugeridas para o caso de tra-
tamento de dependência ao crack numa situação
de envolvimento familiar com o pesquisado, ex-
pressas em nove ideias centrais (IC) expressas
pelos pesquisados:

Quadro 1: Ideias Centrais Relativas à Orientação


de Tratamentos em Caso de Dependência de Cra-
ck em Situação de Envolvimento Familiar (Caso 1)

Familiar com uso-dependência de crack


O que você diria para seu irmão/ã, os pais dele,
para enfrentar este problema? Quanto aos Discursos emitidos para justificar tais
Ideia Central A - Encarar o problema ideias, com processo de unificação de trechos ex-
Ideia Central B - Procurar ajuda profissional traídos dos discursos de mesma categoria, cons-
Ideia Central C - Internar truindo discursos do sujeito coletivo, revelam-se:
Ideia Central D - Procurar tratamento de saúde – DSC D relativo a Procurar tratamento de
Ideia Central E - Tirar do convívio de uso Saúde:
Ideia Central F - Procurar a religião
“Diria ao meu irmão para procurar tratamen-
Ideia Central G - Procurar suporte psicológico para os pais
to adequado, sabe que busquem tratamen-
Ideia Central H - Suportar familiar
tos alternativos, pois não creio que exista a
Ideia Central I - Convencer a abandonar o uso
necessidade real de uma internação. Ah !! Eu
diria e apoiaria meu irmão no melhor trata-
Constata-se (Figura 1) uma maior citação
mento, como: terapia, ocupação do tempo li-
da opção pela orientação de busca de tratamen-
vre, remédio. Bom eu ia tentar convencê-lo a
to de saúde (23,3%), excluindo nesta categoria a
fazer um tratamento né! Eh procuraria para
explicitação à internação método de tratamento,
meu sobrinho tratamento adequado né!”.
expresso exclusivamente como IC-D.
Com menor destaque (3,3%), encontram-se – DSC C relativo à Internação do Dependente:
as IC-A, IC-G e IC-I, que a descrevem, respecti- “Bem, diria para internarem o menino, por-
vamente: encarar o problema, procurar suporte que ele deve ser afastado da chance de utili-
psicológico para os pais e convencer o jovem a zar a droga. Olha, verdadeiramente, não me
abandonar “crack”. imagino numa situação desta, mas creio que
Destaca-se ainda, como resolução proposta a internação poderia ser uma saída, porque
pelos pesquisados, a busca pela religião (IC-F), é um problema que foge ao controle dos pais
citada por 9,9%, além do afastamento do depen- né! Bom, embora seja muito doloroso para
dente do convívio social em que utiliza a droga, todos, esta internação seria necessária, eh!
expresso por 6,6%. a internação deve ser feita sim” .

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

– DSC F relativo à Procura pela Religião: Figura 2: Distribuição das Ideias Centrais (%) re-
“Eu diria para procurar ajuda na religião né! ferente à posição frente à internação compulsória
Por que a busca por DEUS dentro da religião de usuários de crack, sem vínculo com o entrevis-
que acredita é importante, pois a fé também tado (Caso 2)
é um agente transformador. Bem, acho que
a oração poderia auxiliar muito neste caso.“

Caso 2 - Discursos Emitidos sobre Interna-


ção Compulsória em Caso de Dependência de
Crack em Situação SEM Envolvimento Familiar
No segundo caso, seis ideias centrais (IC) fo-
ram expressas pelos pesquisados quanto à expo-
sição de internação compulsória do dependente de
crack numa situação sem envolvimento familiar:

Quadro 2 - Ideias Centrais Relativas à Internação


Quanto aos Discursos emitidos para o Caso
Compulsória em Caso de Dependência de Crack
2, os trechos dos discursos emitidos unificados
em Situação SEM Envolvimento Familiar (Caso 2)
por categoria formaram os seguintes discursos
Estranho com dependência de crack de sujeito coletivo:
- O que você acha da internação compulsória? – DSC D referente a Concordar com a Inter-
nação Compulsória:
Ideia Central A - Não é a melhor opção
“Bom, concordo com a internação compulsória,
Ideia Central B - Uma medida arbitraria
eu acho ótimo, acho aceitável... já que fazem
Ideia Central C - Não concordo baixa eficiência
mal para si né? Sabe, a internação é uma solu-
Ideia Central D - Concorda com a internação
ção e o estado deveria fazer convênio com cli-
Ideia Central E - C
 oncordo desde que a internação seja
humanizada
nicas sérias. Olha, a internação talvez seja uma
Ideia Central F - Não concordo solução viável, pois, o ser humano que lá fre-
quenta, chegou a um ponto tão degradante que
não tem mais o poder de escolha. Acredito que
Observou-se que o discurso predominante
é importantíssimo, mesmo que usando de me-
(58,7%) é a favor da internação compulsória dos
didas drásticas, tentar livrar o ser humano do
usuários de crack (IC- D).
vício né? Para livrar as pessoas da droga. Olha,
Como opiniões menos citadas (IC-A, IC-B e
concordo, por mais invasivo que isso possa pa-
IC-C), todas elas expressas por 5,9% dos entre-
recer, é realmente melhor do que deixar os do-
vistados, remetem à contrariedade da internação
entes entregues à própria desgraça. Sabe, acho
por motivos diversos (Figura 2).
muito boa a solução adotada pela prefeitura”.
Se agruparmos as ideias centrais em dois
grupos, sendo eles, os discursos que concordam – DSC F referente à Não Concordância com
com a internação e os que não apoiam esta me- a Internação Compulsória:
dida temos uma prevalência de ideias centrais a “Sabe, acredito que a internação compulsória
favor da internação de 70,5%. é bastante complicada, né? Pois, o usuário

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

tem direito de não ser internado. Ah, a Inter- Neste sentido, ser da Cracolândia significaria
nação compulsória deve ser evitada”. ser “marginal”, “de rua”, alguém sem laços, sem
– DSC A referente a opinião de que a Inter- família, portanto, estranho, que incomoda a orga-
nação Compulsória Não ser a Melhor Opção: nização social, sendo preciso agir sobre. Por isso,
a intenção de tratamento sugerida nos discursos
“Bem, não sei se esta seria a melhor opção...
dos pesquisados é marcada a partir de uma per-
Sabe, creio que o caminho não é este... pois
cepção sanitarista e higienista, que visa à limpeza
forçar a situação poderia levar ao não suces-
urbana “para o bem social”, posicionamento verti-
so da recuperação, né?”.
cal presente na formação das ações da Medicina
Ocidental e dos Discursos Médicos e de Saúde
Pública, como denunciou Foucault22, por isso se
Discussão
mostra incorporado no discurso desses estudan-
A partir da análise de dados percebe-se que
tes e profissionais de saúde pesquisados.
em caso de posicionamento frente a uma situ-
O padrão “marginal” de pessoas acometi-
ação de tratamento de “anônimos” usuários de
crack, os entrevistados pós-graduandos em Saú- das com problemas de saúde mental já havia si-
de Pública da USP tendem a sugerir intervenções do apontado por Reis23 que apontou que pacien-
mais “radicais”, orientando medidas mais induti- tes de hospitais psiquiátricos/manicômios judici-
vas que explicitam a internação compulsória para ários, tinham perfil de baixo nível de escolaridade
a população usuária de crack da Cracolândia. baixo, inserção profissional pouco qualificada e
Tendências de tratamento mais ameno ou origem social mais humilde, demonstrando que
paliativo, como conversas, apoio familiar, apoio a qualificação atribuída a esses doente muitas
religioso, só sugerindo internação em último ca- vezes encobre uma discriminação social.
so, ou não citando esta opção, aparecem predo- Entretanto, há distorções de opiniões sobre
minantemente nos discursos dos pesquisados a internação compulsória quando há cunho afeti-
diante da situação em que se apresenta com en- vo, uma vez que, as medidas sugeridas pelos pes-
volvimento afetivo dos pesquisados com os usu- quisados não são tão congruentes. Os discursos
ários-dependentes de crack. Tal comportamento dos pós-graduandos em Saúde Pública demons-
pode estar associado à percepção do usuário-de- tram que o vínculo afetivo leva à moderação de
pendente da família como alguém da “casa”, co- tratamento, em oposição ao que foi sugerido ao
nhecido, próximo e que, portanto, de afeto e que desconhecido que frequenta a Cracolândia. Trata-
pode ser colocado numa posição de “vítima” da mentos “de familiares”, portanto, expressam o de-
droga; em oposição àquele “de fora”, identificado sejo humanização do “outro” e de seus tratamen-
como desconhecido, anônimo, da “rua” e, por is- tos, os preceitos comportamentais, afetivos e até
so visto pela sociedade como marginal e “droga- religiosos são evidenciados nos DSCs emitidos.
do”. Essa oposição classificatória afeto/conheci- De qualquer forma, em ambos os casos
dos versus estigma/desconhecido já foi exposta salienta-se que pessoas envolvidas com o cra-
por outros autores que analisam a identificação ck são vistas como pessoas-objeto e não sujei-
dos indivíduos nos espaços sociais de sociabili- to de direitos, são “não-sujeitos” sobre os quais
dade da casa e da rua20, que se mostram como se deve fazer algo, pois não seriam sujeitos de
princípios classificatórios importantes e bastante sua própria história, saúde e opções comporta-
correntes na sociedade brasileira21. mentais, inclusive de tratamento, como diz um

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

entrevistado, “não são mais seres humanos do- diferentemente da visão clara e objetiva que se es-
entes entregues à própria desgraça”. perava deste público com relação ao problema da
Esta posição integra preconceitos internaliza- dependência aos psicotrópicos e as normatizações
dos por este sujeito quanto ao tema “drogas”, asso- federais que vem sendo divulgadas aos profissio-
ciado ao censo comum à ilegalidade/desvio. Esse nais e em serviços pelo Ministério da Saúde.
elemento expresso nos discursos e opiniões dos Ao mesmo tempo fica explícita a dificuldade
estudantes profissionais, ou futuros profissionais dos entrevistados analisarem modelos contradi-
de saúde, demonstra despreparação e desatuali- tórios de atuação sobre o problema drogas, uma
zação da classe quanto aos princípios da Reforma vez que o atual projeto de internação compulsória
Psiquiátrica24 que protagoniza a implantação de contraria as metodologias de projetos em vigor,
um novo modelo de atenção em saúde mental no adotados pela Secretaria de Saúde do Estado de
país. Essa política ressalta e embasa que as novas São Paulo27, que atuam sob os princípios da redu-
diretrizes do SUS para a Saúde Mental e uso de ção de danos, fornecendo estratégias de contato
drogas deve ser norteada pela defesa dos direito e vínculos para promoção de saúde28, entre os
humanos para todos os cidadãos, promovendo di- quais se prioriza ações de prevenção de doenças
reitos civis e inserção social dos sujeitos e de seus sexualmente transmissíveis e HIV/aids e promo-
familiares, envolvendo ações e estratégias interse- ção do uso de preservativos, preconizados pelos
toriais, para que possa haver opção por mudança próprios profissionais de saúde.
nos padrões de consumo, busca de tratamentos, Desta maneira constata-se que as repre-
exercício de cidadania e direitos sociais, reinserção sentações e opiniões de pós-graduandos de Fa-
social e familiar e reenvolvimento no ambiente de culdade de Saúde Pública refletem um início de
trabalho e lazer, ou seja, da sociedade. Esses prin- apropriação de sugestões de tratamento pauta-
cípios estão expressos explicitando o direito à indi- das em premissas científicas, como busca de
vidualidade e ao risco de todos os cidadãos25. tratamentos em saúde, de suporte familiar e pro-
Cabe ressaltar, que o modelo proposto pela fissional. No entanto, a especificidade do crack
reforma psiquiátrica não explicita apenas a desinsti- ainda aponta a mistura de percepções do sen-
tucionalização no sentido de desospitalização, mas so comum e mais emocionais, que atribuem a
além da oferta de uma nova terapêutica, visa uma internação compulsória como solução e estraté-
mudança de enfoque de pacientes/doentes que gia sanitária, mesmo que vista como radical, po-
passam à situação de “protagonista da cura” e do rém “inevitável”. Isso demonstra que este público
próprio tratamento26, construindo novas estratégias apoia de forma geral, as políticas adotadas pelos
e competências a partir de sua própria experiência. gestores que as propõem, com visto no projeto
Da mesma forma, surpreende a orientação de atual da Prefeitura Municipal de São Paulo.
busca da religião presente nas respostas em cuja si- Para estes pós-graduandos, a atuação na
tuação há envolvimento afetivo do pesquisado com orientação de medidas de saúde frente à inter-
a condição de uso-dependência de crack, demons- nação de dependentes, quando há vínculo afeti-
trando que os pós-graduandos em Saúde Pública vo envolvido, é diferente da abordagem adotada
não abordam o problema sob a ótica de saúde, mui- com os demais usuários dependentes de crack
to menos de saúde pública, mas de tema de âmbito anônimos socialmente. As medidas familiares
privado, que deve ser resolvido mediante estraté- tendem a ser mais humanizadas e brandas de
gias de impacto emocional e cultural das famílias, apoio psicossocial e, até, de ordem religiosa,

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

enquanto que aos dependentes anônimos é su- seu direito de escolha e, até, do direito de ir e vir,
gerida apenas a orientação à internação compul- precisam ser avaliados à parte de discursos emo-
sória como medida de tratamento. cionais de marginalidade atiçados pela mídia, an-
Alunos de pós-graduação da Faculdade de tes de serem apoiados e praticados por profissio-
Saúde Pública entendem a dependência de dro- nais de saúde, uma vez que notícias recentes tem
gas como um problema ligado à necessidade de demonstrado que atuações mais opressivas têm
intervenção vertical efetiva do Estado sobre o in- levado 20% dos frequentadores de crack a retor-
divíduo, mais próximo às perspectivas de higieni- nar a região e outros 30% transferiram-se para
zação e policiamento sanitário. Ações de saúde usar drogas em outras regiões da cidade, contra
a partir de relações mais horizontais entre profis- o registro de 508 prisões policiais num período
sionais e usuários não são potencializadas frente de quatro meses31. Tais dados demonstram que
a essa problemática – considerada por muitos o intervenções compulsórias geram fuga de pesso-
extremo de dependência de drogas. Entretanto, as que precisam de cuidado, resultando mais em
investir em intervenções humanizadas, incluindo uma aparente higienização social e espacial ime-
contatos mais horizontais com esses usuários- diata do que em resolução do problema.
-dependentes de drogas, valoriza a escolha do in- Jornais atestam31, ao mesmo tempo, que
divíduo, incluindo-o no processo de redução de ações que associam a política de saúde ao uso
danos e retomada de sua cidadania. de drogas com ações policiais também não se
Os dados obtidos da pesquisa expressam mostraram eficaz do ponto de vista da criminali-
desconhecimento ou discordância das políticas dade, uma vez que o tráfico não cessa sua ativi-
nacionais de Saúde Mental e de Prevenção de dade, apenas torna mais rotativa a sua mão de
Drogas que estão sendo cada vez mais ancora- obra do Centro de São Paulo. A dissociação de
das em propostas de redução de danos, huma- ações de saúde com relação às de segurança
nização e cidadania, desinstitucionalização e cor- pública, diante a problemática é fundamental,
responsabilização dos indivíduos, suas famílias e visto que têm alvos, objetivos distintos e práti-
a comunidade onde estão inseridos, pautando-se cas díspares.
pelos critérios de Direitos Humanos29, 30. Portan- A proposta de retenção da polícia não pode
to, essas novas propostas de políticas federais ser estendida às práticas de saúde, com o perigo
na área de Saúde Mental e uso de drogas só se de tornarem-se ações abusivas, como ocorreu na
efetivarão como prática no país, se os estudan- região denominada “Cracolândia”, localizada no
tes da área da saúde forem sensibilizados em Centro da cidade de São Paulo, onde o agrupa-
sua formação a respeito de sua opinião e concei- mento de população, geralmente de rua, forma-
tos, reformulando o modelo médico-interventivo do para consumo de crack era abordado suces-
que predomina nas formações acadêmicas. sivamente por policiais. Numa ocorrência inédita
Ao mesmo tempo, esses estudantes pare- no Brasil, uma dessas pessoas foi representada
cem não ter críticas acerca das contradições ob- pela Defensoria Pública e ganhou determinação
servadas na pesquisa quanto às estratégias de judicial lhe dando direito de ir e vir no espaço pú-
projetos públicos que abordam o crack que são blico sem ser abordado e retido32, de forma a ga-
propostos por diferentes instâncias. rantir seu direito de autonomia e cidadania, além
Cabe ressaltar, que esses modelos de inter- de expor sua posição de usuário como alguém
venção restritiva na qual o individuo é tolhido de que existe e têm uma opção de vida.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Inclusão de familiares de pessoas com


necessidades decorrentes do consumo de álcool
e outras drogas na atenção em saúde
Inclusion of family members of people with needs resulting from the use
of psychoactive substances in health services

Helton Alves de LimaI,


Isabel Bernardes FerreiraII

Resumo Abstract

Este estudo tem como objetivo refletir sobre a inclusão dos familia- This study aims to reflect upon the inclusion of family members
res de usuários de álcool e outras drogas nos serviços de saúde, of alcohol and other drug users in health services, in the context
no contexto das proposições e diretrizes de cuidado da Rede de of the proposals and guidelines of care of the Network of Psycho-
Atenção Psicossocial. Parte-se da consideração de que os familia- social Care. It is based on the consideration that family members
res desenvolvem no cotidiano, ações de cuidado de uma parcela develop daily care actions for a significant portion of the population
significativa da população atendida pelos serviços e, com frequên- served by the services and often present complaints and deman-
cia, apresentam queixas e demandas derivadas da sobrecarga do ds derived from the overload of care. The notion of codependency
cuidado. Aborda-se também a noção de codependência e o modo and the way in which this label is attributed to family members
como este rótulo é atribuído aos familiares. Por fim, são apresen- is also discussed. Finally, psychosocial parameters are presented
tados parâmetros psicossociais para práticas que buscam desen- for practices that seek to develop solidarity, education/orientation
volver a solidariedade, a educação/orientação e o fortalecimento and strengthening of those relatives as a strategy to qualify the
destes familiares enquanto estratégia de qualificação do cuidado integral care of each family unit.
integral de todo núcleo familiar.
Keywords: Family; Substance-related disorders; Mental health
Palavras-chave: Família; Transtornos relacionados ao uso de subs- assistance
tâncias; Assistência à saúde mental.

I
Helton Alves de Lima (lima.helton@gmail.com) é psicólogo com Aprimora- Isabel Bernardes Ferreira (belbernardes5@gmail.com) é Assistente Social,
II

mento em Saúde Coletiva pelo Instituto de Saúde da Secretaria de Estado com Especialização em Dependência Química pela Faculdade de Medicina
de Saúde de São Paulo e Especialização em Saúde Mental e Dependência de da Universidade de São Paulo e Mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia
Drogas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Universidade Católica de São Paulo.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução a relação dual entre o usuário e a droga e, não ra-

O
ramente, coloca o peso da balança nesta última3,
s estudos que enfatizam o contexto fa-
além do tipo de simplificação decorrente desta
miliar de pessoas com necessidades
lógica, que minimiza a complexidade inerente ao
decorrentes do consumo de drogas têm
desenvolvimento dos contextos de vida das pes-
apontado para a existência de vulnerabilidades
soas consumidoras de drogas3. O conjunto de con-
psicossociais diversas, responsáveis pela manu-
dições desfavoráveis e das dimensões que cons-
tenção de condições desfavoráveis que tendem a tituem a vida das pessoas viabiliza situações de
agravar, se não forem devidamente consideradas adoecimento e práticas de cuidado domésticas4
pelas equipes interprofissionais, a saúde de todo que traduzem a vivência de necessidades sociais
o grupo familiar3,12. Dentre estas condições, des- e de saúde diversas8.
tacam-se o aumento das crises e dos conflitos Por meio deste raciocínio, a Política do Mi-
entre os membros da família, com consequente nistério da Saúde para Atenção Integral a Usuá-
enfraquecimento dos laços e possibilidade de rios de Álcool e outras Drogas22 propôs a cons-
rupturas relacionais, gastos financeiros relaciona- trução de lógicas e práticas de cuidado que inte-
dos à dívida de drogas e despesas de tratamento grem o âmbito clínico da intervenção e a Saúde
e/ou decorrentes da situação de desemprego do Coletiva, objetivando a diversificação de esforços
usuário, adoecimento associado a componentes e estratégias para a produção da integralidade.
psicoafetivos, negligência dos aspectos estrutu- A Política reafirma, no seu modo de produção do
rantes da vida – como interesse na própria saúde cuidado, a centralidade na pessoa e em seu con-
e relações sociais – e abandono de projetos de texto de vida, orientando as ações para a iden-
vida pessoais e familiares3. tificação dos fatores de proteção e de risco pre-
O foco na análise do contexto considera as sentes em todos os domínios de vida do usuário,
dimensões socioculturais, políticas, materiais e como também, para o agenciamento de pessoas,
afetivas implicadas na questão do uso prejudicial. instituições, políticas e recursos da comunidade
Desta forma, problematiza e inverte o valor social enquanto subsídios para o enfrentamento das
amarrado à lógica proibicionista, que supervaloriza vulnerabilidades, na lógica do trabalho em rede22.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Com a instituição da Rede de Atenção Psi- ao cuidado, como, por exemplo, na vivência do
cossocial (RAPS) pela Portaria nº 3.088 de 2011, papel de gênero, em que há centralidade femini-
reafirmou-se, no âmbito do Sistema Único de na no cuidado da saúde do grupo familiar4. Esse
Saúde, a Política de Atenção Integral e a promo- fenômeno é observado no cotidiano dos serviços
ção do acesso de usuários e seus familiares aos da Saúde Mental especializados no consumo
diferentes pontos de atenção, bem como a parti- prejudicial de álcool e outras drogas, em que as
cipação ativa destes na construção dos Projetos mulheres protagonizam responsabilidades, como
Terapêuticos Singulares23. Entretanto, nota-se a buscar ajuda e apoiar o tratamento do familiar
necessidade de reflexões e de subsídios teórico- usuário e, com frequência, apresentam sobrecar-
-técnicos que sustentem o repertório de atuação ga relativa à tarefa do cuidado32.
das equipes na construção de suas estratégias Nas condições de adoecimento psíquico e
de inclusão de familiares. A inclusão de familia- transtornos comportamentais (nas quais estão
res no cuidado em saúde mental de pessoas com situadas os transtornos relativos ao consumo de
necessidades decorrentes do consumo de subs- substâncias psicoativas), a Organização Mundial
tâncias psicoativas e/ou dos transtornos mentais da Saúde reconheceu a sobrecarga como fator
é um desafio inerente à construção e qualificação impactante na qualidade de vida dos grupos fa-
da RAPS, que envolve questões políticas, mas miliares que convivem com pessoas acometidas
também, culturais e formativas. por essas problemáticas26. A sobrecarga refere-
Este artigo se propõe a refletir sobre a inclu- -se às vivências destes familiares que, ao assu-
são dos familiares de usuários de álcool e outras mirem o papel de cuidadores de um membro da
drogas na produção do cuidado pelas equipes de família com necessidades de cuidado intensivo
saúde e explora dados relevantes para a compreen- e/ou de longo prazo, enquanto um modo de re-
são da problemática e questões-chaves que insis- organização do núcleo familiar para lidar com o
tem em atravessar o cotidiano da atenção, como a problema apresentado, colocam suas necessi-
sobrecarga do cuidado, o senso comum do estere- dades e desejos pessoais em segundo plano e
ótipo da codependência e as práticas de inclusão assumem tarefas a mais em relação àquelas já
de familiares no contexto da atenção psicossocial. desempenhadas e/ou esperadas4.
A sobrecarga é conceituada a partir de du-
as dimensões: uma objetiva e outra subjetiva. A
Aspectos relativos à sobrecarga do cuidado dimensão objetiva diz respeito às consequências
familiar negativas concretas e observáveis do cuidado,
A família tem sido compreendida como a como as perdas financeiras, as perturbações nas
fonte primária de socialização e aprendizagem rotina dos familiares, as tarefas cotidianas adi-
e, através dela, transmitem-se um conjunto de cionais (alimentação, finanças, frequência ao tra-
crenças, valores, costumes, hábitos e dinâmicas tamento, etc.) e a ocorrência de comportamentos
relacionais. É sabido que a instituição “família” problemáticos e potencialmente embaraçosos
tem passado por transformações diversas, princi- que a família tem que lidar no cotidiano2. A dimen-
palmente no que se refere a sua estrutura e com- são subjetiva envolve as expectativas, crenças e
posição37. Entretanto, no tocante aos papéis, ta- valores familiares, sociais e pessoais que podem
refas e obrigações tradicionalmente a ela atribuí- influenciar negativamente no estado de saúde
das, permanece a expectativa social em relação e qualidade de vida dos cuidadores e reflete a

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

percepção ou avaliação pessoal do familiar sobre membros18. Ao buscarem ajuda, principalmente


si e sobre a situação, enquanto fonte de pensa- na internação, quase metade dos familiares dos
mentos e sentimentos negativos de desamparo, entrevistados relataram que o ato afetou drastica-
tristeza e culpa, bem como, vergonha diante das mente as finanças da família (45,4%). Outros im-
pessoas, pela natureza do estigma relacionado pactos negativos, além do gasto financeiro obje-
aos transtornos mentais2. tivo, foram relatados, como a redução da dedica-
No Brasil, uma pesquisa recente revelou ção pessoal ao trabalho e estudo (58,5%), à vida
que o familiar cuidador, ou seja, aquele que se social (47%), bem como, a presença de situações
responsabiliza por acompanhar, apoiar o trata- estressoras, como ameaças (12%), furtos no am-
mento, assim como responder às outras necessi- biente doméstico por parte do usuário (26%) e o
dades do membro da família com transtorno de- pessimismo em relação ao futuro (29%)18.
corrente do consumo de álcool e outras drogas, A sobrecarga vivenciada por familiares cui-
com frequência são mães (46,5%), seguido por dadores também aparece associada a outros
pais (13,2%), irmãos (12,6%) e esposas (11,2%). fatores presentes no cotidiano doméstico. Os
As mães são as que mais buscaram ajuda para conflitos familiares, com frequência, são precipi-
os usuários (51%), principalmente após observa- tados pela observação e recriminação de alguns
rem comportamentos como agressividade e indi- comportamentos do familiar usuário, como con-
ferença ou por presenciarem o consumo de algu- dutas de agressividade ou de passividade dian-
ma substância psicoativa e sintomas de intoxi- te das demandas pessoais, familiares e sociais,
cação18. A procura por ajuda pautou-se principal- como também, pela exigência de abstinência pe-
mente na busca por recursos como a internação los membros da família, o que revela a presença
(21,5%), os grupos de ajuda mútua (13,9%), os de intensas expectativas que resultam em senti-
profissionais autônomos de Psiquiatria (6,7%) e mentos de fracasso, desamparo e desesperança
Psicologia (1%), bem como os recursos presentes na vivência do familiar cuidador25.
nas próprias redes de suporte pessoais, como a Associa-se ainda à sobrecarga os sintomas
religião (11%) e os parentes e amigos (7%). Entre- ligados à ansiedade, à depressão e a outros pro-
tanto, estes familiares buscaram pouco os servi- blemas de saúde que afetam a qualidade de vida
ços de saúde como hospital (2,2%) e Centro de dos cuidadores20. O impacto da vivência desses
Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad) sintomas tende a comprometer o desenvolvimen-
(2,6%). A média de tempo que levaram para rea- to e a manutenção, pelos próprios familiares, de
lizar essa busca foi de 37 meses e esteve asso- estratégias de enfrentamento adaptativas diante
ciada a dificuldades como o não reconhecimento das situações de conflitos intensos, marcadas
do problema ou a não aceitação do tratamento por sentimentos de desesperança e por vínculos
por parte do usuário, ao desconhecimento sobre afetivos enfraquecidos20.
quais recursos assistenciais procurar, à falta de Outro elemento que parece estar associado
dinheiro e às situações de negligência familiar18. à sobrecarga é o fenômeno do estigma por asso-
Na vivência dessa situação, alguns aspec- ciação e do criticismo público10. É possível acom-
tos de sobrecarga são observáveis nas finanças panhar efeitos dos processos de estigmatização
e na saúde em geral, relatados como os princi- na subjetividade desses familiares, na medida em
pais campos da vida dos familiares afetados pelo que atribuem para si uma marca negativa em su-
transtorno de uso de susbtâncias de um de seus as biografias devido à presença de um usuário de

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

substâncias psicoativas em seu núcleo familiar, es- parecia circular em torno da temática do consu-
timulando situações de isolamento social devido mo do álcool principalmente –, seus comporta-
ao receio de que pessoas próximas tomem conhe- mentos diante do uso de álcool do marido (vistos
cimento da situação e das críticas e julgamentos como permissivos), além do empobrecimento de
que podem vir a receber, principalmente sobre seus suas relações interpessoais e o maior interesse
comportamentos de ajuda e proteção ao usuário10. dessas mulheres pelos problemas do cônjuge do
O estigma, portanto, não só prejudica muitas que de suas próprias necessidades9,33,39.
pessoas com doença mental ou abuso de drogas Com a expansão dos grupos de apoio aos fa-
ou ambos, mas também afeta os familiares des- miliares na década de 1970, o termo codependên-
tes indivíduos10,13,27. Um estudo populacional ame- cia passou a nomear todos aqueles que estabele-
ricano10 constatou que o estigma relacionado aos ciam uma relação afetiva e de convivência com o
familiares de pessoas portadoras de transtorno alcoolista, fossem esses mães, filhos, sobrinhos
mental é menor do que aquele dirigido a quem pos- e amigos. Nesses grupos, a participação das mu-
sui usuários de drogas na família, que tendem a lheres era muito marcada e logo passou-se a as-
ser reconhecidos socialmente como responsáveis sociar a codependência ao sexo feminino7. O mo-
pelo aparecimento do transtorno de susbtâncias e vimento feminista colocou criticou tal associação,
pelas consequentes recaídas, além de serem ava- questionando o modo como o termo codependên-
liados como incompetentes no desenvolvimento cia generalizava condutas diversas e promovia es-
de seus papéis parentais, estando mais propen- tigma sobre as mulheres, atribuindo a elas respon-
sos a serem evitados nas interações sociais, com sabilidades pelo adoecimento de seus familiares
um “estigma por associação”. e, possivelmente, pelas consequências do consu-
mo abusivo de substâncias, como as situações de
violência doméstica16. A crítica do movimento femi-
Codependência e afetividade nista apontava que, para além de características
Sabe-se que o consumo prejudicial de subs- pessoais, muitas destas mulheres mantinham-se
tâncias psicoativas e o adoecimento consequen- nos relacionamentos por consequências sociais e
te podem ser reforçados na dinâmica das famí- políticas mais complexas.
lias, embora, ao mesmo tempo, isto possa cau- Por sua vez, o foco na dinâmica do cuidado
sar um sofrimento importante a estas pessoas36. familiar passou a interessar profissionais da saúde,
No início dos anos 40 nos Estados Unidos, com o com destaque para aqueles engajados na teoria
surgimento dos grupos de mútua ajuda, como os cognitivo-comportamental, que considera a existên-
Alcoólicos Anônimos (AA), as famílias passaram cia comportamentos reforçadores do consumo e a
a integrar essas estratégias no papel de apoio cristalização de condutas nessas dinâmicas familia-
familiar. Na época, as esposas eram as apoiado- res, como o cuidado em excesso, a hipervigilância
ras principais dos alcoolistas em tratamento e, e o controle do outro pelo familiar cuidador30. Sem
por apresentarem comportamentos de excessiva demora, o termo codependência adentrou o campo
dedicação ao cuidado e à recuperação desses, científico e começou a ser apropriado, definido e
receberam o rótulo de codependentes. Esse rótu- validado pela Psicologia, fabricando um sistema de
lo englobava variados elementos constitutivos da classificação no qual um amplo conjunto de carac-
vida destas mulheres, como: a dinâmica relacio- terísticas pessoais e relacionais advogavam pela
nal estabelecida por elas e seus maridos – que aceitação dessa condição por estes familiares15,35.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Se, por um lado, o “movimento” da code- difusas no relacionamento entre seus membros,
pendência gerou um conjunto de características com baixos níveis de diferenciação e individua-
por meio das quais os familiares poderiam se ção entre eles, baixa autoestima, pouco controle
identificar uns com os outros em situações de emocional e sentimento invasivo de culpa16. Um
apoio mútuo, ou serem identificados pelos profis- exemplo é o fato de muitos desses familiares,
sionais de saúde9,34, por outro lado, apontou para desde a infância, assumiram papéis de cuidado e
o fato de que todas estratégias de cuidado exces- responsabilidades demasiadas para a faixa etária
sivo e de controle da pessoa e de seu consumo e/ou momento de vida em que se encontravam6.
de drogas, com efeito, encobriam componentes Logo, é possível compreender que os estu-
psicoafetivos e de personalidade dos cuidadores, dos acerca da codependência têm um papel que
implicados no modo como estes estabeleciam evidencia aspectos geradores e mantenedores
suas relações interpessoais e vinculares16. de sofrimento na vida desses familiares, embora
Para além do imperativo de tomada de cons- seja importante não rotular esses sujeitos, en-
ciência da sua codependência e consequente mu- gessando-os e/ou reduzindo-os a determinados
dança comportamental, conforme observado na papéis e características. A partir da perspectiva
expectativa das propostas dos grupos de apoio de estudos sobre a resiliência1, pode-se construir
mútuo, o que está em questão é a própria com- outros olhares e práticas para encarar a situação,
plexidade inerente à subjetividade e à dinâmica ao se trabalhar com esses familiares a crença de
psíquica destes familiares16. Desde um viés psica- que é possível aprender, mudar, desenvolver no-
nalítico, a relação entre o usuário e o cuidador tra- vas habilidades e aprimorar a comunicação, a
dicionalmente designada de codependência, com autoestima e a responsabilidade, com base no
efeito, remete às estratégias de enfrentamento de desenvolvimento de características positivas. Ou
necessidades muito singulares referentes à consti- seja, para mitigar o sofrimento dos familiares que
vivem diariamente o problema do consumo de ál-
tuição psíquica de cada sujeito e que se misturam
cool e outras drogas, é importante reconhecer os
às relações por ele estabelecida16. Neste viés, o
recursos criativos que um grupo familiar possui
cuidado e a preocupação excessiva para com o ou-
e que pode utilizar em condições estressantes,
tro, associado aos mecanismos de controle, está
previstas ou não, em todo o ciclo vital1.
ancorado em perturbações presentes na formação
do vínculo, que tem sua origem no desenvolvimento
psicossocial, na constituição dos padrões de apego Estratégias de inclusão e participação da família
e na dinâmica psíquica caracterizada pela rigidez e baseadas em parâmetros psicossociais
obsessividade16. Desse modo, o sofrimento decor- Na atualidade, um bom tratamento às pes-
rente desta vivência relacional, em que se assume soas com necessidades decorrentes do consumo
a posição enrijecida de cuidado, se entrelaça com de álcool e outras drogas compreende a escuta
a satisfação, o alívio e o prazer que essa posição e o cuidado ao familiar, assim como o estímulo à
fornece ao psiquismo e à identidade pessoal16. participação ativa deste no processo de cuidado,
Outro aspecto importante da questão é o para que se tenha melhor apreensão do contexto
apontamento de que existem, na biografia des- sociocultural e familiar e seus recursos, limites e
ses familiares cuidadores, componentes psicos- potencialidades19,31.
sociais ligados à vivência em suas famílias de No desenvolvimento da atenção psicosso-
origem marcados pela presença de barreiras cial, a família possui centralidade, na medida em

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

que suas funções são requisitadas enquanto di- tendo em vista as necessidades apresentadas no
mensão produtora de cuidados17. No campo da desenvolvimento do cuidado familiar21.
Saúde Mental, historicamente essa dimensão A relação estabelecida entre o usuário e sua
cuidadora ficou reduzida à prestação de infor- família é apontada como um fator a ser trabalha-
mações sobre o surgimento e a manutenção do do pela equipe, na medida em que se possibilita
adoecimento às equipes dos hospitais psiquiátri- a ressignificação de diferentes aspectos da vida
cos21; ou ainda, como foi visto, reduziu-se à co- e a inclusão social29,32. As relações interpesso-
dependência, num viés corretivo da relação entre ais destes usuários são permeadas por vínculos
o usuário e sua família. Esse tipo de lógica vem frágeis e por preconceitos e rótulos associados à
sendo desconstruída – não sem inúmeros desa- representação social do usuário de drogas: geral-
fios – a partir dos esforços teórico-técnicos e de mente a quem as pessoas próximas atribuem a
militantes empregados na constituição do cuida- causalidade pelos sentimentos de raiva, rancor,
do integral no Sistema Único de Saúde. vergonha e culpa, devido às discussões e humi-
De modo geral, a relação entre cuidado e fa- lhações em diferentes situações do cotidiano e
mília no contexto da Rede de Atenção Psicossocial devido ao afastamento, exclusão e marginaliza-
envolve, no mínimo, três norteadores: a inclusão ção32. Nesse sentido, a inserção da família no
participante da família que coletiviza e partilha cuidado tem por objetivo trabalhar esse conjunto
saberes, práticas e sentidos singulares no desen- de crenças, expectativas e atitudes geralmente
volvimento do cuidado, o acesso à informação e associadas a uma interação baseada em confli-
orientação sobre o processo saúde-doença-cuida- tos e na desqualificação da identidade do usuá-
do e o acolhimento e escuta das dificuldades e ne- rio32; ao mesmo tempo em que se tenta reduzir
cessidades apresentadas pelos familiares7. Estes fatores associados ao desejo e/ou à necessidade
três aspectos se entrelaçam no cotidiano da aten- de internação prolongada enquanto recurso prin-
ção psicossocial, marcando uma diferença em re- cipal do cuidado, visando melhorar as competên-
lação à clínica baseada no sintoma e no recurso cias do cuidado em contexto domiciliar e aquelas
medicamentoso, como também, se distingue em ligadas ao desenvolvimento da vida pessoal24.
relação ao lugar tradicionalmente atribuído à famí- A família, assim como os amigos e a comuni-
lia nesse campo, o de vítima ou culpada pelo ado- dade, é considerada parceira e parte constituinte
ecimento psíquico de um de seus membros21. da rede de apoio que compartilha a responsabilida-
É importante reforçar que a atenção psicos- de pelo cuidado com o usuário e a equipe29,32,33,38,
social desenvolve suas estratégias a partir do con- utilizando combinados e negociações que contem-
texto de vida dos usuários e busca ampliar e qua- plem diferentes aspectos da situação e possibilida-
lificar as redes sociais destes por meio das trocas des dos envolvidos24. Entretanto, a corresponsabili-
sociais efetivas, direcionadas para a reversão dos zação e a continuidade do cuidado não estão dadas
fatores de exclusão que impedem o exercício ple- ou definitivamente conquistadas, mas dependem,
no da cidadania28. A centralidade na família em em grande parte, de um esforço integrador das
toda sua complexidade, assim como preconiza a equipes em reconhecer os desejos, dificuldades e
Estratégia Saúde da Família, é entendida na aten- saberes dos familiares, por meio do qual a escuta,
ção psicossocial como um dos princípios do cuida- o acolhimento, o apoio e a orientação têm papel
do e da reabilitação psicossocial21. A atenção das central, enquanto bases para a construção vincu-
equipes aos familiares, portanto, é imprescindível, lar33. E isso se dá ampliando as possibilidades de

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

troca, acolhimento e comunicação21, superando a possibilidades sempre singulares de modificação


tendência ambulatorial que encerra as possibilida- de estilos de vida dos participantes14.
des de comunicação na agenda do serviço e da Para finalizar, os grupos de familiares têm si-
oferta de ação com dia e hora marcada5. do modelados na perspectiva da oferta de ações de
Na construção de vínculos, a solidariedade e apoio e de educação em saúde, com uma tendên-
o apoio têm papel fundamental, já que a família não cia geral de composição multifamiliar, ou seja, com
é reconhecida apenas como uma rede de apoio ao a presença de familiares de diferentes usuários19.
usuário, mas como pessoas que vivenciam necessi- Essa opção tem revelado seu potencial na medi-
dades diversas5. Antes de significar apenas um arti- da em que a oferta de suporte, ao se conformar
fício que visa melhorar a efetividade de um serviço em estratégia de apoio e ampliação de rede sócio
especializado, a construção do vínculo entre equipe relacional, reconstrói espaços de sociabilidade que
e familiares tem como tarefa o exercício da cidada- facilitam a interação, a troca de experiências, a so-
nia, de forma a garantir a integralidade do cuidado lidariedade e a partilha de narrativas de sofrimento
de todo o grupo doméstico por meio do acolhimen- e desorientação que acompanham o cotidiano de
to das necessidades apresentadas, do direito à muitos familiares, possibilitando a construção de
convivência familiar e do fortalecimento dos víncu- ações de cuidado sobre fatores que vulnerabilizam
los21,29,38. Uma equipe que atua de forma “integra- e fragilizam diferentes aspectos de suas vidas19.
da” com os usuários e seus familiares tende a ser
melhor reconhecida por esses32 que passam a se
sentir cuidados em suas necessidades21, já que a Considerações finais
sobrecarga vivenciada pelos familiares é atenuada O desenvolvimento do cuidado integral previs-
pelo desenvolvimento de estratégias acolhedoras e to na Política do Ministério da Saúde para Atenção
de enfrentamento das situações objetivas, como o Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas envol-
suporte social, o apoio e a orientação4. ve a construção de estratégias que consideram o
Tais estratégias são desenvolvidas pelas contexto de vida dos usuários e a centralidade na
equipes e protagonizadas pelas diferentes catego- família. No caso das problemáticas atravessadas
rias profissionais, por meio de grupos e oficinas pelo consumo prejudicial de substâncias psicoati-
terapêuticas, atendimentos individuais, visitas do- vas, as necessidades sociais e de saúde são múl-
miciliares e busca ativa de familiares pouco pre- tiplas e estão associadas ao comprometimento da
sentes no cuidado19,21. Especialmente no caso dos qualidade de vida de todo grupo familiar e de suas
grupos desenvolvidos no contexto dos serviços de competências para o cuidado. A sobrecarga viven-
saúde, esses devem buscar descentralizar o aten- ciada por familiares cuidadores têm facetas diver-
dimento focado na queixa do sintoma para que sas que devem ser exploradas pelas equipes, não
outros eixos estruturantes do processo saúde- só em seu viés subjetivo, mas objetivo, tendo em
-doença possam ser considerados, principalmente vista que estes dois componentes se afetam mutu-
aqueles ligados à promoção da saúde, agregando, amente, produzindo desfechos negativos relaciona-
assim, em sua oferta, informações qualificadas dos à sobrecarga do cuidado. Dito de outro modo,
sobre o processo saúde-doença-cuidado e o es- a escuta das dificuldades e das potencialidades da
tímulo à interação afetiva, participativa e solidária família que vivência tal situação é fator de fortaleci-
que possibilitam um cuidado baseado na escuta, mento da dimensão cuidadora por ela exercida, por
no acolhimento, na troca, na solidariedade e nas meio do apoio, da solidariedade, da cooperação e

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

da integração com as equipes de saúde, com os esse tipo de desafio num viés exploratório e pro-
recursos comunitários e das políticas públicas. blematizador de suas práticas, as equipes podem
O rótulo da codependência atribuído aos fa- experimentar uma potência de ampliação e qualifi-
miliares foi e ainda é carregado de preconceitos cação de seus repertórios técnicos e políticos favo-
e reducionismos. O modo como seu foco recai ráveis à construção de boas práticas.
exclusivamente em um aspecto da vida desses
familiares (a relação dita disfuncional entre eles
e o membro usuário) pode gerar um preconceito
ainda maior sobre a família e uma inobservân-
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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

A arte utilizada na atenção de adolescentes em situação


de vulnerabilidade social e uso abusivo de drogas
The art used in attention of adolescents in vulnerable social situation and abusive drug consumption

Jéssica Magalhães TorI,

Resumo Abstract

O objetivo desse estudo consistiu em abordar qual a contribuição The objective of this study was to discuss the benefits of arts in te-
das práticas artísticas na atenção de adolescentes em situação enagers life, the ones on abusive drug consumption and vulnerable
de uso abusivo de drogas e vulnerabilidade social. O interesse pe- social situation. The author became involved in this subject during
lo assunto se deu a partir do trabalho prático da autora em seus her trainee work at OSCIP (Civil Society Organization of Public In-
estágios realizados em uma Organização da Sociedade Civil de terest), institution focused on working with kids and teenagers in
Interesse Público (OSCIP), onde o atendimento e a atenção são high social risk and at SAICA (Institutional Reception Service for
destinados a crianças e adolescentes em situação de risco so- Children and Adolescents), there are offered services of housing
cial, e em um Serviço de Acolhimento Institucional para crianças e and food every day and night, to the homeless kids and teenagers.
Adolescentes (SAICA), onde são oferecidos serviços de acolhida e As a method, published works on the adolescence, art and drugs
abrigamento dia e noite a crianças e adolescentes em situação de themes were consulted. The results indicate art can represent tee-
rua. Como método, foram consultados trabalhos publicados sobre nagers feelings and it’s an alternative where they can find pleasure
o tema adolescência, arte e drogas. Conclui-se que a arte pode ser and show their emotions (conflicts) without the drugs effects, this
apresentada aos adolescentes como alternativa de obter prazer way helping with their psychosocial rehabilitation.
e expressar seus conflitos, para dar-lhes uma alternativa às dro-
gas, desta forma contribui como elemento para a sua reabilitação Keywords: Adolescence; Art; Drugs.
psicossocial.

Palavras-chave: Adolescência; Arte; Drogas.

I
Jéssica Magalhães Tor (jessicator.m@gmail.com) é psicóloga pelo Centro
Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas e cursa Especialização
em Intervenções em Pacientes com Transtornos Mentais Graves na Escola
Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP).

|151
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução do desenvolvimento. A intenção desse trabalho é

O
abordar a aproximação de práticas artísticas com
interesse pelo assunto do uso da arte co-
esse público e pontuar seus benefícios, entenden-
mo alternativa na atenção e adolescentes
do a arte como expressão de conteúdos internos
envolvidos com drogas se deu a partir da
(subjetivos) no meio externo (social).
experiência da autora em seus estágios realizados
Dessa forma, este artigo discute, a partir de
em uma Organização da Sociedade Civil de Inte-
um levantamento bibliográfico, as práticas artísti-
resse Público (OSCIP), conhecida pelo nome de
cas na atenção de adolescentes em situação de
“Projeto Quixote”, onde o atendimento e a atenção
vulnerabilidade social e uso abusivo de drogas.
são destinados a crianças e adolescentes em si-
Partindo de uma leitura psicanalítica, caracteriza o
tuação de risco social, e em um Serviço de Acolhi-
período da adolescência em situação de vulnerabi-
mento Institucional para Crianças e Adolescentes
lidade social e o uso abusivo de drogas, bem como
(SAICA) que funciona na cidade São Paulo – SP,
analisa o que a utilização da arte pode proporcionar
conhecido pelo nome de “Casas Taiguara”, onde de benefícios a adolescentes que fazem uso abusi-
são oferecidos serviços de acolhida e abrigamento vo de drogas e estão vulneráveis aos riscos sociais.
dia e noite a crianças e adolescentes em situação
de rua. A situação de vulnerabilidade social e a re-
lação desta com o uso de drogas no processo de A adolescência e seus conflitos
desenvolvimento do indivíduo é um fator importan- A adolescência é entendida como a fase que
te a ser observado durante o processo da adoles- marca a transição da vida infantil para a vida adul-
cência, tendo em vista a complexidade dessa fase ta onde seu maior conflito está ligado à identidade

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

que está se constituindo. Nesse período, o adoles- biopsicossocial. As características psicológicas


cente é marcado por algumas perdas em relação dessa etapa do desenvolvimento têm ligação com
a sua infância e por alguns ganhos em relação ao a cultura e a sociedade onde esse indivíduo está
alcance de autonomia e independência em busca se desenvolvendo. O autor ressalta como impor-
daquilo que chamamos de maturidade. É nesse tante fator de tensão entre os jovens, os aspectos
processo que o indivíduo vai se diferenciando dos biológicos dissociados dos níveis de maturação
modelos que teve durante sua infância e se identi- psicossocial, dessa forma, suas necessidades fí-
ficando em novos grupos, adquirindo novas ideias sicas nem sempre correspondem ao desejo bar-
e o que faz com que o adolescente alcance um rado por forças da cultura e da sociedade, colo-
sentido de identidade pessoal12. cando-o em risco diante de seu desejo. Também
Knobel11 definiu o período da adolescência, nessa etapa do desenvolvimento, o jovem revive
salientando o luto da fase infantil: experiências das relações afetivas primárias infan-
“A etapa da vida durante a qual o indivíduo tis conscientes e inconscientes, onde as relações
procura estabelecer sua identidade adulta, triangulares podem ser experimentadas novamen-
apoiando-se nas primeiras relações objeto- te, tendo em vista a reformulação da vida afetiva.
-parentais internalizadas e verificando a reali- As experiências vividas na adolescência ten-
dade que o meio social lhe oferece, mediante dem, assim, a ser mais intensas se comparadas
o uso dos elementos biofísicos em desenvol- com outros períodos da vida onde a busca de si
vimento à sua disposição e que por sua vez mesmo, a tendência grupal, as crises religiosas e
tendem à estabilidade da personalidade num desafios a autoridades vão caracterizando o pro-
plano genital, o que só é possível quando con- cesso de adolescência. Esse período é essencial
segue o luto pela identidade infantil11 (p.26). para a constituição de identidade do indivíduo.
Devido ao fato da adolescência ser compre- Para o adolescente, algumas situações são vivi-
endida como um período de diversas mudanças, das de forma mais intensa e instável gerando o
dentre elas as identificações com novos grupos e que é conhecido como “síndrome normal da ado-
novas experiências, o uso de drogas pode vir ao lescência”, termo utilizado por Knobel11 que com-
encontro desta fase. Segundo Silva17, a relação preende alguns sintomas característicos dessa
com as drogas pode ser compreendida de três fase, que se manifestam conforme a elaboração
formas: o uso, o abuso e a dependência. Nesse dos lutos infantis vai acontecendo. A compreen-
trabalho será abordado o uso abusivo e a pos- são dessa transição pode contribuir para que
sível dependência a essas substâncias a que esse período se torne menos complicado e seja
esses adolescentes podem ficar sujeitos. Cabe mais aproveitado, pois as resoluções dessa bus-
lembrar que, assim como em qualquer etapa do ca de identificação são essenciais para a conso-
desenvolvimento humano, o contexto no qual o lidação da personalidade do sujeito.
sujeito está inserido será um dos norteadores pa- Durante esse processo do desenvolvimento
ra a constituição de sua personalidade. humano, o individuo começa a separar aquilo que
Assim, Levisky12, ressalta o aspecto social, é representado psiquicamente como “bom” daquilo
definindo a adolescência como um processo den- que é concebido como “mau”. O adolescente ten-
tro do desenvolvimento do indivíduo que pode ser de a apresentar comportamento impulsivo, agres-
compreendido como um período de crise e dese- sivo, instável, arrogante, prepotente, turbulento, re-
quilíbrio no qual se pode presenciar uma revolução volto e começa a desafiar as autoridades, já que na

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

adolescência é experimentada, a todo o momento, estabelece com a substância, desequilibrado


a ambivalência entre conquistar sua individualidade seus meios sociais, suas relações e sua saúde.
e continuar a depender de sua família de infância12. Silva17 define dependência da seguinte forma:
Dentro dessa crise de identidade e confu- “Dependência vem de uma palavra latina que sig-
são onde o adolescente se situa no seu processo nifica dependere, ou seja, estar intrinsecamente
evolutivo, poderá o conflito ter um desfecho posi- ligado a algo ou alguém, no caso à droga. É um
tivo em relação a suas identificações e, assim, vínculo desequilibrado que o indivíduo estabele-
aumentar as possibilidades do adolescente em ce com as diferentes substâncias psicoativas, um
alcançar a lealdade e a fidelidade nessa constan- conjunto de sinais que caracterizam a síndrome
te busca de si mesmo. da dependência. É um fenômeno complexo, que
exige um olhar para o indivíduo em diferentes
fases da sua vida, dentro de um contexto onde
Adolescência e as drogas pode fazer o uso de uma ou várias substâncias
Silva17 estabelece uma diferença entre o lícitas, ilícitas ou ambas”17 (p.36).
uso, o abuso e a dependência de drogas. Na his-
O uso de drogas no contexto da adolescên-
toria da humanidade, o uso de drogas foi passan-
cia pode ocorrer devido a ser um período de des-
do por diferentes formas de consumo, manuseio
cobertas, de mudanças de emoções, de laços
e função, obtendo na atualidade inúmeros signifi-
afetivos, ou por identificação com algum grupo,
cados, entre eles a busca de prazer, o alívio ime-
da necessidade de se destacar em busca de sua
diato de algum sofrimento psíquico, fonte de ren-
identidade, aspectos que estão mais intensos e
da, etc. Quanto ao abuso de drogas, a autora re-
predominantes, além de servir como amenizador
fere ser um comportamento evitável, porém não
para as angústias vividas nessa fase. De acordo
limitado apenas ao indivíduo, uma vez que para
com Osório15, o uso de drogas marca uma regres-
evitá-lo, se faz necessário repensar algumas po- são diante de alguma emergência ou situação de
líticas públicas voltadas para a juventude, princi- angustia ou depressão, ao buscar a droga, o su-
palmente no que se refere à saúde e à educação. jeito está buscando alívio ou proteção que sentira
Pensar em práticas criativas e interessantes na em algum momento da sua infância.
educação é uma forma de mostrar novas possibi- A droga pode ser entendida como um ge-
lidades ao jovem que não seja o uso de drogas. rador de prazer e alivio do sofrimento de uma si-
Diante da metodologia tradicional e pouco tuação, que pode ser relacionada com situações
flexível, observada na educação atualmente e da de fragilidade do ego e como defesa diante da
falta de políticas públicas que orientem o adoles- crise de identidade que acontece nesse período.
cente sobre os riscos e prejuízos a médio e lon- Se comparado o período da adolescência com as
go prazo, o narcotráfico torna-se alternativa mais primeiras vivências infantis, a partir da visão psi-
sedutora por oferecer uma proposta de vida mais canalítica, é possível considerar a droga como um
rentável e com maior reconhecimento profissio- substituto do objeto-mãe, que acolhe e alivia o so-
nal. Vale ressaltar, aqui, que o uso abusivo de frimento, assim como acontecia no período de in-
drogas está sendo definido como aquele traz pre- fância. Assim, se a adolescência é vista como um
juízos para a vida do sujeito. período onde se busca uma redefinição da identi-
A dependência de drogas é mais comple- dade, a droga ajuda a amenizar a angústia frente
xa e se caracteriza pelo vínculo que o indivíduo à crise diante da frustração das perdas infantis9.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

O uso abusivo de drogas não surge apenas prazer e a autoconservação estar relacionada ao
pela substância usada continuamente, outros princípio da realidade. Tal dualidade ganha mais
fatores como a predisposição e a condição so- sentido dentro do processo de desenvolvimento
ciocultural em que o indivíduo está inserido são da libido, onde a pulsão sexual surge apoiada na
fatores de grande colaboração para esse abu- pulsão de autoconservação, passando por diver-
so. Também a falta proteção do adolescente sas transformações, se separando desta última10.
pelo grupo familiar pode ser um fator levado em A pulsão, assim, aparece como o limite daqui-
consideração para esse uso abusivo, já que as lo que se diz ser da mente e daquilo que se diz ser
experiências infantis colaboram para o desenvol- do corpo, sendo composta por quatro elementos
vimento da identidade adolescente e, portanto, principais: a pressão, o alvo, o objeto e a fonte. A
caso quando há falta do grupo familiar, tais rela- pressão seria a força constante que exige o traba-
ções acabam se dando externamente à família, lho psíquico. O alvo é definido como a satisfação
ou seja, no grupo social. Além disso, no Brasil, ou a realização do princípio do prazer. O objeto po-
o Estado também tem função de provedor das de ser entendido como o meio de chegar à obten-
condições necessárias para o desenvolvimento ção da descarga da pulsão – e quando esse objeto
do cidadão. Na falta de todas (ou algumas) des- não aparece em forma de pessoa, pode ser enten-
sas condições, o adolescente se encontra em dido como um desvio. A fonte seria a zona erógena
situação de vulnerabilidade, não contando com corporal sobre a qual se apoia a sexualidade10.
redes de apoio que sirvam de suporte para seu No uso abusivo de drogas, a pressão se
desenvolvimento9. transforma em uma urgência irremediável e o al-
vo aparece ligado ao objeto “droga”, um objeto
desviante, e a ação de drogar-se vêm ao encontro
A visão da psicanálise acerca do sujeito da busca da obtenção do prazer, no alívio em su-
e do uso abusivo de drogas portar os sacrifícios relacionados à sexualidade e
De acordo com Gurfinkel10, a psicanálise, à agressividade que constitui o humano. Freud6
ao abordar o indivíduo utiliza a noção do sujeito, chamou os meios de suportar tais sacrifícios de
que uma realidade psíquica que, diferente da rea- “medidas paliativas”, sendo uma delas o uso de
lidade material ou física, está ligada ao universo substâncias toxicas.
pulsional. A pulsão exerce, assim, importante fun- Freud7 destaca como é importante a pulsão
ção dentro dos eixos metapsicológicos de acordo ser inscrita a partir da representação onde é pos-
com a teoria freudiana, principalmente nos eixos tulada a existência de três estruturas psicopato-
econômico e dinâmico, caminhando em direção lógicas: a neurose, a psicose e a perversão. A
ao tópico referente ao desenvolvimento da libido. perversão passou a ser definida como defesa,
Desde 1905, quando criou este conceito, a partir dos anos 1960, pela escola inglesa de
Freud6 relacionou a noção de pulsão diretamente psicanálise. Radó16 relacionou o uso abusivo de
à sexualidade, apresentando a dualidade caracte- drogas com a fase oral, afirmando a dificuldade
rística das pulsões. Nessa teoria, a dualidade gira do desmame, caso em que manter a droga repre-
em torno da sexualidade e da autoconservação, senta uma fonte de prazer e satisfação absoluta.
dois polos que podem ser trabalhados conjunta- As variações de humor, segundo Birman³,
mente, porém que não podem ser igualado, devi- também podem ser articuladas ao estado de de-
do à sexualidade estar relacionada ao princípio do pressão e mania. Nesses casos, o uso abusivo

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

de drogas constituiria a mania e poderia ser iden- fortalecendo suas relações sociais. Para essa
tificado como a busca desenfreada por satisfa- renúncia, este teórico deu o nome de “subli-
ção, e a depressão é pontuada pela impossibili- mação”, processo onde a criação artística por
dade estabelecida a fim de não fazer uso de dro- ser uma atividade mais aceita socialmente, é uti-
gas. A partir dessa concepção, é possível inferir lizada para canalizar a pulsão. Assim, a renúncia
que, por conta dessa busca em satisfazer seus pulsional é expressa de outra forma, pelo pro-
desejos, o uso abusivo de drogas provém de uma cesso da criação artística.
relação insatisfatória do indivíduo com a mãe en- A concepção de sublimação na concepção
quanto bebê, onde a droga é a tentativa de pre- lacaniana se diferencia da formulação freudiana,
encher essa possível falta. já que Freud priorizou o desvio quanto ao alvo
Ao falar da relação mãe-bebê, surge a ques- da pulsão como principal fator da sublimação,
tão relacionada à figura do pai. O “eu ideal” está enquanto Lacan diz que o objeto é o elemen-
relacionado ao narcisismo primário, definido na to mais importante a ser analisado no processo
teoria freudiana, onde o investimento libidinal do de sublimação. Pensando na arte como sublima-
bebê passa pelo “outro” e não há separação en- ção, o valor atribuído a ela revela um consenso
tre o “eu” e o “outro”. O ideal do eu sugere uma social que depende do contexto histórico, por is-
relação triangular, onde o sujeito é marcado pela so, as obras de arte mais antigas ou as escritu-
inclusão da figura paterna na relação, conceden- ras mais antigas se mostram diferentes das atu-
do ao sujeito a passagem de objeto do desejo da ais. Enquanto Freud diz que a sublimação pode
mãe para uma posição de “desejante”. Na estru- ser uma forma de desvio de um alvo sexual para
tura perversa, existe a impossibilidade da ruptura uma ideia socialmente aceita, desvio que causa
entre o sujeito e o desejo da mãe, porém, na psi- prazer ao sujeito, na concepção lacaniana, a ar-
cose, o sujeito ordena um eu ideal, tendo um ou- te retrata algo desconhecido tanto para o artista
tro onipotente em sua subjetividade; logo, o ou- quando para aquele que aprecia a sua arte, on-
tro não permite ou não anuncia a entrada dessa de o sujeito se depara com algo desconhecido
figura paterna: se o pai existe não é reconhecido que lhe gera sensação estranha, sem explica-
como pai ideal e nem simbólico3. ção ou elemento simbólico significativo, ou seja,
a arte produz o que denomina “angústia”. Quan-
do essa sensação se faz presente (neste caso,
Como explicar a arte a partir da psicanálise? na arte), é vivida como a própria falta que não
Podemos explicar a arte a partir da psicaná- falta mais, experiência que preserva o vazio do
lise utilizando referências de Freud e Lacan. encontro entre o sujeito com esse objeto moti-
Para Freud8, as manifestações artísticas vada pela falta, podendo causar estranhamento
estão relacionadas aos desejos infantis recalca- refletidos neste13.
dos, desta forma a criação estaria ligada a fan- Não é possível falar da sublimação como re-
tasia presente no sonho, no delírio e no brincar presentação de algo, pois aquilo que está subli-
infantil, envolvendo processos psíquicos pare- mado é irrepresentável, já que parte da ordem do
cidos com os processos da produção artística. inominável. Porém a arte é uma forma de expor
Por isso, de acordo com a teoria freudiana, a ar- essa angústia identificada a partir do estranha-
te é capaz de fazer o ser humano renunciar a mento com algo que está além daquilo que é pos-
sua satisfação pulsional em favor da civiliação, sível se expressar em palavras.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Método disponíveis, sendo que sua maioria relata como


Para a efetivação da revisão teórica sobre o se dá o tratamento de adolescentes usuários de
manejo da prática artística aplicado a adolescen- drogas. Utilizando essas mesmas palavras de
tes em situação de vulnerabilidade e uso abusivo busca, no Google Acadêmico, foram encontradas
de drogas foram levantados trabalhos publicados 33.700 resultados, a totalidade voltada para os
e disponíveis na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) tipos de tratamento ou as causas relacionadas
que contempla os indexadores LiLacs, Scielo, In- à utilização das drogas no período de adolescên-
dex Psi e Medline, bem como trabalhos publica- cia, sem nenhum que citasse o envolvimento de
dos e disponíveis no Google Acadêmico. praticas artísticas.
Essa pesquisa foi realizada entre os meses Utilizando as palavras drogas e arte, foram
de abril e maio de 2015. Para a escolha dos tra- encontrados na BVS, 22 resultados voltados para
balhos levantados nesse estudo, alguns critérios assuntos relacionados a medicamentos sem rela-
foram estabelecidos: ter data de publicação a par- ção com o tema e, no Google Acadêmico, foram
tir de 2008, estar traduzido em português; estar encontrados 53.900 itens. Devido à falta de ma-
disponíveis na íntegra; apresentar, em seu conte- teriais completos ou que contemplassem e apro-
údo, a utilização de práticas artísticas utilizadas fundassem os critérios de escolha, estes não fo-
em trabalhos desenvolvidos com adolescentes em ram utilizados.
situação de vulnerabilidades social e uso abusivo Ao cruzar as palavras drogas, arte e adoles-
de drogas. As palavras chaves utilizadas para a cência nas pesquisas no Google Acadêmico, foi
pesquisa foram: adolescência, drogas e arte. De- possível obter o resultado de 388 trabalhos publi-
vido ao reduzido número de trabalhos publicados cados. Na BVS entre os indexadores Lilacs, Medli-
relacionados à arte com adolescentes, foi pesqui- ne, Index Psi e Scielo não foram encontrados ne-
sada também a referência à arteterapia. nhum trabalho publicado e apenas foi utilizado um
artigo que aborda a utilização da arte na atenção
de adolescentes de um Centro de Apoio Psicosso-
Resultados e discussão cial (CAPS) do município de Cascavel, no Paraná.
No acesso a BVS, utilizando as palavras ado- Tendo em vista a pequena quantidade de
lescência e arte. Foram encontrados 89 artigos artigos encontrados com as referências arte, dro-
entre os indexadores Lilacs, Medline e Index Psi. gas e adolescência, a palavra arte foi substituída
Nessa pesquisa, os resultados obtidos, em sua por arteterapia na busca, resultando em 534 tra-
maioria, foram relacionados à saúde do adolescen- balhos encontrados no Google Acadêmico. Des-
te, sem muita relação com a prática artística. No tes foram escolhidos, como de interesse, dois
levantamento feito utilizando o Google Acadêmico, trabalhos sobre a relação adolescência, drogas
foram encontrados 137 trabalhos publicados, em e arteterapia de forma mais específica. Na BVS
sua maioria, artigos voltados à prática educacional entre os indexadores Lilacs, Medline, Indedx Psi
no período da adolescência. Entre eles se inclui um e Scielo não foram encontrados nenhum artigo.
artigo sobre a utilização do “piche” (pichação) no Para este artigo foram selecionados quatro
processo de identificação da adolescência. artigos que contemplavam, quanto ao conteúdo,
Ao utilizar as palavras drogas e adolescên- às palavras chaves adolescência, drogas e arte
cia na BVS, entre os indexadores Lilacs, Index Psi, relacionadas, conforme o quadro ilustrativo do
Medline e Scielo, foram encontrados 112 artigos conteúdo dos mesmos (Quadro 1).

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Quadro 1 – Bibliografia sobre adolescência, drogas e arte/arteterapia ilustrativa pesquisa bibliográfica.

Público pesquisado e a
Prática artística
Artigo relação com as drogas / Resultados Autor (ES) Ano
utilizada
Vulnerabilidade social

Jovens 32 adolescentes do sexo Pichação Verificou-se que a Ceara & 2008


pichadores: masculino com idades en- pichação relaciona- Dalgalarrondo4
perfil tre 13 - 23 anos. se com processos
psicossocial, Jovens de baixo poder de identificação com
identidade e aquisitivo, escolaridade algum grupo, bem como
motivação4. inferior ao esperado pela deixar sua marca na
faixa etária, afastamento sociedade e adquirir
da escola causado visibilidade.
ou por delinquência
ou por limitações
socioeconômicas.

O uso Adolescentes em Estêncil Grafite A utilização dessa Machado14 2013


terapêutico tratamento no CAPSad de prática artística
do Estêncil cascavel que fazem uso e possibilitou a expressão
Grafite com abuso de álcool drogas. dos adolescentes e
adolescentes uma melhor adesão ao
na Oficina tratamento, bem como
de Artes a valorização pessoal e
do CAPSad sua marca no CAPS.
Cascavel14

Arteterapia: 98 jovens de ambos os Intervenções de A arteterapia facilitou Valladares19 2008


Criatividade, sexos internados em uma arteterapia por a expressão da
arte e saúde ala de dependência química meio de pinturas, subjetividade e auxiliou
mental com de um hospital psiquiátrico desenhos, na auto expressão bem
pacientes em Goiânia/GO. moldes, histórias como na elaboração de
adictos 19. e confecção de conteúdos interno sem
mandalas. a utilização da fala.

Arteterapia no Seis adultos-jovens com Produção plástica Com base nesse Valladares20 2011
cuidar e na idades entre 18 - 45 desenho/ estudo, foi possível
reabilitação de anos de ambos os sexos colagem projetiva concluir que a
drogadictos - internados na ala de de alguns arte serviu como
álcool, crack e dependência química em um símbolos como ferramenta para a
outras drogas: hospital em Goiânia/GO. árvore, flor, compreensão das
símbolos coração, sol e dificuldades e anseios
recorrentes20. pássaros. dos dependentes
relacionados à sua
dependência.

Dos artigos selecionados, o primeiro trata uma prática legalizada e foi utilizada como forma
da atividade da pichação envolvendo adolescen- de atrair a população adolescente e jovem para a
tes em situação de vulnerabilidade social. O se- oficina de artes, tendo em vista que esse público
gundo relata a experiência da prática artística do já deixavam suas marcas nas paredes do CAPS.
grafite utilizado através da técnica do estêncil em O terceiro artigo se refere a uma pesquisa que
um CAPSad que atende crianças e adolescentes relata a experiência de sessões de arteterapia
no município de Cascavel, Paraná; essa técnica é aplicadas a adolescentes e jovens dependentes

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

químicos internados em um hospital psiquiátrico com o processo de identificação, bem como dei-
em Goiânia, onde foram feitas 32 intervenções xar sua marca na sociedade pela visibilidade4. De
breves de arteterapia, incluindo pinturas, dese- acordo com o Ceara e Dalgalarrondo4, os relatos
nhos, moldes, histórias e confecção de manda- dos pichadores sobre o piche revelam a necessi-
las, permitindo uma análise a partir da Psicologia dade da expressão da subjetividade de forma a
Analítica, da expressão da subjetividade de ca- demonstrar, através da prática transgressora, a
da participante. O quarto artigo trata da análise exposição a riscos e as reações emocionais da
da produção plástica de alguns símbolos (árvore, visibilidade social.
flor, coração, sol e pássaros), realizada com ado- A arte contida no piche pode ser entendi-
lescentes e jovens internados na ala de depen- da como uma forma de externalizar conflitos in-
dência química de um hospital em Goiânia. teriores e solicitar atenção para suas criações
Segundo Valadares-Torres16, a arteterapia enquanto parte do processo de identificação
pode ser utilizada como ferramenta no processo que, muitas vezes, pode ser vista nos compor-
do cuidar em saúde, sendo entendida como um tamentos transgressores. O adolescente está se
processo terapêutico que utiliza a arte como es- incluindo em grupos para a construção de sua
paço de criatividade, experimentação. identidade, logo, o trabalho em grupo e encontros
No primeiro artigo, a partir da pesquisa desen- realizados para este fim podem ajudar no proces-
volvida com jovens pichadores e grafiteiros, Ceara so da busca de si mesmo.
e Dalgalarrondo4 identificaram como característi- No segundo artigo, que descreve a experiên-
ca comum entre este público o fato de morarem cia da utilização do grafite pelo CAPSad que atende
em periferias e viverem em uma discrepante situ- adolescentes, em Cascavel, Machado14 relata que
ação socioeconômica, apresentando escolaridade a escolha do estêncil grafite como forma de atrair
abaixo da esperada para a faixa etária. Compre- os jovens para a participação da oficina de artes
endendo a pichação como uma prática transgres- surgiu a partir da observação dos piches e marcas
sora que produz escritos e marcas em paredes e nas paredes do próprio CAPS, prática que foi en-
locais públicos, é possível entender que o sentido tendida como uma necessidade de deixar a marca
psicossocial dessa atividade está relacionado aos desses jovens na sociedade e buscar visibilidade.
processos identitários de seus autores (geralmen- A partir dessa percepção, o trabalho de estêncil
te grupos de adolescentes organizados), com ma- grafite foi desenvolvido, buscando criar um novo
tizes relacionados à transgressão, tanto em sua padrão sobre o piche e “legalizar” a prática antes
origem como nos seus desenvolvimentos18. vista como transgressora quando não legalizada.
Foi possível notar, nesse estudo, que a pi- O desenvolvimento desse trabalho teve como ob-
chação ocorria em prédios públicos e de gran- jetivo mostrar novos caminhos a adolescentes em
de visibilidade, tornando esses jovens e suas tratamento nesse CAPS, utilizando o grafite como
ações visíveis; além disso, permitiam a identifi- atividade expressiva relacionada ao tratamento de
cação desses com os grupos que se encontram adolescentes dependentes químicos, possibilitan-
e se formavam a partir do fazer artístico, com- do a valorização de suas potencialidades, autoes-
portamento esse entendido como transgressor, tima e capacidade criativa e motivando atividades
porém que gera identificação e pertencimento sem a necessidade do uso de drogas14.
desses adolescentes com os grupos que partici- Nesses dois primeiros artigos, o piche/gra-
pam. Nesse caso, o piche pode ser relacionado fite é visto como prática transgressora de busca

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

de visibilidade e de identificação em meio a um Segundo Valladares e colegas19, a arteterapia


grupo, quando “legalizada”, ou seja, trazida para aplicada a jovens permitiu, na experiência com
a atividade proposta e institucional, passa a ser esses dependentes de drogas, a valorização do
uma forma de expressão da sua subjetividade e potencial de cada um, colaborando para a melho-
agressividade através da arte, servindo ao trata- ria de sua saúde e qualidade de vida.
mento. Confirmando a posição de Barbieri2, que No quarto trabalho analisado se faz uso da
acredita que “a arte é capaz de produzir novas re- arteterapia com adultos e jovens internados em
presentações, reorganizando o discurso, promo- um hospital em Goiânia, em Goiás, que teve co-
vendo uma nova dinâmica na economia psíquica mo objetivo analisar, através da Psicologia Analí-
e uma subjetividade calcada no desejo” (p.44). tica, os símbolos trazidos durante as sessões e
O terceiro artigo se refere a uma análise apresentado para esses participantes. Os auto-
com base na psicologia analítica, das sessões res concluem que o uso da arteterapia permitiu
de arteterapia aplicada aos adolescentes jovens a expressão dos conflitos e sentimentos de cada
de um hospital psiquiátrico, visando facilitar a indivíduo no meio externo, bem como facilitou a
expressão da subjetividade dos participantes, compreensão das reais dificuldades e anseios
bem como aliviar tensões, medos, expectativas, relacionados à própria dependência às drogas
e externalizar conteúdos internos para sua ela- vividas por cada um desses jovens20. Nesse sen-
boração, favorecendo o trabalho em grupo. Du- tido, acredita-se que a arteterapia, bem como a
rante essas sessões de arteterapia foram con- arte e a criatividade, tiveram um papel autorregu-
feccionadas mandalas, que procuravam auxiliar lador do self (eu)20.
na organização ou reorganização psíquica, pa-
ralelamente ao desenvolvimento de técnicas de
desenhos e pinturas do próprio rosto dos parti- Produção de arte como processo de tratamento
cipantes, como forma de resgatar sua identida- Os resultados dos trabalhos analisados vêm
de, além de utilizar técnicas de desenho e pintu- ao encontro da compreensão de Azevedo1, que
ra para verificar a relação desses dependentes entende a arte como linguagem universal capaz
químicos com o próprio hospital. As estratégias de produzir subjetividades e catalisar afetos, faci-
envolveram também a criação de máscaras, e, litando a troca de experiências em grupo. O valor
posteriormente, a confecção de mãos e pés em da arte estaria, assim, ligado ao seu potencial de
atadura engessada e séries de histórias, onde reabilitação, na medida em que oferece a possibi-
os participantes puderam ler sobre outros, mas lidade do sujeito explorar suas potencialidades na
também contar sua própria história19. busca da conquista de espaços sociais. O sujeito
Nesse contexto, a arteterapia é utilizada, e é capaz de projetar no meio externo seus conflitos
pode ser vista como um processo terapêutico, interiores, valorizando seu potencial criativo, ima-
utilizando as artes plásticas, acolhendo o ser hu- ginativo e expressivo. A arte, assim, serviria como
mano como um todo, auxiliando-o a encontrar no- um instrumento para a inserção do indivíduo nos
vos sentidos para sua vida12. É uma prática que grupos bem como a ressocialização, seguindo a
facilita a expressão dos conteúdos internos, para lógica da configuração psicossocial, respeitando a
serem elaborados e organizados através das ses- subjetividade e a capacidade individual e possibili-
sões, facilitando a expressão da subjetividade tando novos caminhos e novas alternativas para o
dos envolvidos, o seu desenvolvimento interno. enfrentamento de situações de frustração.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Utilizando a psicanálise, é possível refletir adolescente com as drogas pode vir acontecer
com relação às intervenções realizadas com a po- como forma de enfrentar essa situação conflituo-
pulação adolescente em situação de uso abusivo sa de perdas e mudanças que acontecem nesse
de drogas e vulnerabilidade social e a arte. Par- período do desenvolvimento. O contexto social,
tindo dos estudos freudianos, pode-se inferir que onde o adolescente está se desenvolvendo po-
as propostas de intervenções junto a essa popu- de ter grande influência nesse processo de iden-
lação propiciam uma mediação do sujeito com a tificação, sendo visto também como um agente
cultura, mediação esta que se relaciona à renún- frustrador e colaborador para a aproximação do
cia da satisfação pulsional, fortalecendo as rela- adolescente vulnerável a riscos sociais como o
ções sociais. A pichação, por exemplo, pode ser uso abusivo de drogas.
entendida como a forma do sujeito marcar seu Com base na pesquisa realizada, é possível
registro naquilo que é socialmente aceito, apesar identificar que há poucas publicações que abor-
de seu aspecto transgressor, e também adquirir dem a prática artística como uma ferramenta na re-
pertencimento ao grupo e visibilidade social. abilitação de adolescentes. Porém, verifica-se que,
Nos estudos lacanianos, pode-se destacar entre as produções existentes, há relatos de uso
a importante contribuição que o autor traz para da arte e da arteterapia com adolescentes e jovens
se pensar a arte como meio que retrata algo des- como técnica que pode auxiliar na reabilitação des-
conhecido, tanto para o artista quanto para aque- ses adolescentes que se encontram em situação
le que aprecia a arte. Sendo assim, o sujeito ao abusiva de drogas e/ou vulnerabilidade social.
se deparar com o inominável que não pode sim- A prática artística utilizada com adolescen-
bolizar tem uma vivência angustiante, presentifi- tes mostra-se eficaz na reabilitação desses jo-
cada pela própria falta de explicação e compre- vens como uma alternativa diferente das drogas,
ensão, marcando o rompimento do gozo fálico, favorecendo a expressão dos conflitos internos
como o obtido pelo uso das drogas. vivenciados, que podem ser expressos através
As teorias abordadas nesse trabalho, portan- de outra prática social, facilitando a adesão aos
to, contribuem para entender as oficinas desenvol- tratamentos propostos, além de revelar-se como
vidas com adolescentes em situação de vulnerabi- uma possibilidade para a ressocialização des-
lidade social e uso abusivo e drogas que utilizam ses adolescentes.
arte e arteterapia, como propiciadoras processos Partindo da teoria psicanalítica pode-se in-
de subjetivação e pertencimento social. ferir que a arte vem como uma mediação entre
a renúncia da satisfação pulsional e o fortaleci-
mento de relações sociais, onde o sujeito subli-
Considerações finais ma sua satisfação pulsional utilizando práticas
A partir do estudo realizado, pode-se con- sociais mais aceitas. Desta forma, a arte se
cluir que a complexidade do período da adoles- apresenta como aquilo que, ao ser impossível de
cência gera alguns conflitos com relação ao pro- ser falado ou imaginado, coloca o sujeito frente
cesso de identidade. Tendo a compreensão de aquilo que falta, falta que gera angústia. A ar-
que o uso abusivo de drogas pode ser entendido te utilizada como ferramenta para a reabilitação
como um gerador de prazer frente à frustração psicossocial promove um espaço para o sujeito
ou situação de fragilidade ou uma forma de não explorar seu potencial criativo nessa constante
entrar em contato com a falta, a aproximação do busca de si mesmo.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

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Rio de Janeiro: Ed. Standard Brasileira/Imago; 1966. cia de drogas. In: Conselho Regional de Psicologia da 6ª região.
7. Freud S. Esquisse d’une psychologie scientifique. In: La Álcool e outras drogas: São Paulo: CRPSP; 2012. p.35-40.
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Janeiro: Ed. Standard Brasileira/Imago; 1980. 19. Valladares-Torres ACA, Lima APF, Lima CRO, Santos BP-
9. Gorgulho M. Adolescência e toxicomania. In: Filho DXS; BR, Carvalho IB, Tobias GC. Arteterapia: criatividade, arte e
Gorgulho M. Dependência: compreensão e assistência às saúde mental com pacientes adictos. Jornada Goiana de Ar-
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|162
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Projeto “Um Brinde à Saúde!” - promoção,


discussão e criação publicitárias de peças
de incentivo ao consumo consciente do álcoolI
Project Toast to Health! - promotion, discussion and publicity creation of pieces
of incentive to the conscious consumption of alcohol

Regina FigueiredoI, Marta McBrittonII, Elisa Codonho PremazziIII,


Claudia ReggianeIV, Adriana Navarro NabeiroV, Regiane GarciaVI

I Resumo Abstract
II
III
O artigo aborda a experiência desenvolvida no projeto “Um Brin-
IV The article discusses the experience developed in the project “A
de à Saúde”, de promoção da redução de danos no consumo de
V Toast to Health”, to promote the reduction of damages in the con-
VI
bebidas alcóolicas, visando também reduzir seu impacto sobre o sumption of alcoholic drinks, also aiming to reduce their impact on
uso de preservativos e sobre a associação de sexo não protegido the use of condoms and on the association of unprotected sex and
e de exposição doenças sexualmente transmissíveis e HIV/aids e exposure to sexually transmitted diseases Communicable disea-
à gravidez. Foram realizados debates temáticos sobre vulnerabili- ses and HIV / AIDS and pregnancy. Thematic debates on vulnera-
dade e álcool, envolvendo as principais instituições que discutem bility and alcohol were carried out, involving the main institutions
o tema e criado um concurso de confecção de peças para bares that discuss the theme and created a contest to make pieces for
e espaços de lazer frequentado por jovens (porta-copos, porta- bars and leisure spaces frequented by young people (cup holders,
-garrafas, jogos de mesa, cartazes, etc) para difusão em grandes bottle holders, table games, posters, etc.). For diffusion in large
universidades de São Paulo, visando a participação de estudan- universities in São Paulo, aiming at the participation of students of
tes de Artes, Comunicação, Propaganda e Marketing e áreas afins Arts, Communication, Advertising and Marketing and related areas
nesses eventos e na discussão e confecção de mensagens edu- in these events and in the discussion and preparation of educatio-
cativas visando o consumo consciente de bebidas. Os resultados nal messages aimed at the conscious consumption of beverages.
apontaram intensa presença de jovens nos eventos e participação The results showed intense presence of young people in the events
no concurso, criando peças publicitárias educativas que falam na and participation in the contest, creating educational advertising
linguagem jovem para seus próprios pares com uma estratégia de pieces that speak in the young language to their own peers with a
redução de danos. harm reduction strategy.

Palavras-chave: Juventude; Saúde; Álcool; Redução de Danos; Keywords: Youth; Cheers; Alcohol; Harm Reduction; Advertising.
Propaganda.

IV
Elisa Codonho Premazzi (elisacodonho@gmail.com) é graduanda em Ciên-
cias Sociais pela Universidade Federal de São Paulo e ex-estagiária do Ins-
tituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo na parceria
I
O projeto foi executado com apoio da Bristol Myrss Squibb e United Medi- com a Fundação de Desenvolvimento Administrativo do Estado de São Paulo.
cal e contou com a participação de representantes de diversas instituições V
Claudia Reggiani (claudiareggiani@gmail.com) é Psicóloga pela Pontifícia
públicas, privadas e de representação da sociedade civil descritas no artigo. Universidade Católica de São Paulo, musicista e terapeuta e ex-membro e
II
Regina Figueiredo (reginafigueiredo@uol.com.br) é socióloga, Mestre em An- coordenadora de projetos do Instituto Cultural Barong.
tropologia e Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo e Pes- VI
Adriana Navarro Nabeiro (adrinabeiro@gmail.com) é Psicóloga com Especia-
quisadora Científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde lização em Psicologia Hospitalar pelo Sedes Sapientiae e membro técnico de
de São Paulo e colaboradora do Instituto Cultural Barong. projetos do Instituto Cultural Barong.
III
Marta McBritton (martamcbritton@gmail.com) tem Curso Superior de Forma- VII
Regiane Garcia (regiane-garcia@uol.com.br) é psicóloga, historiadora e tera-
ção Especifica em Gestão de Projetos Sociais pela Universidade Nove de Julho peuta sexual pela Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRASH) e
(UNINOVE) e Coordenadora de Projetos e Presidente do Instituto Cultural Barong. membro do grupo técnico do Instituto Cultural Barong.

|163
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Introdução sobre Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, pro-

O
movido pela Secretaria Nacional Antidrogas (SE-
álcool é uma droga legalizada no Brasil.
NAD)22; realizado nas 108 cidades brasileiras que
Suas restrições dizem respeito apenas ao
possuem mais de 200 mil habitantes, das pesso-
consumo entre menores de 18 anos, pú-
as com idades a partir dos 12 anos, 12,3% che-
blico do qual é proibida a venda conforme o Es-
gam a ser dependentes de bebidas alcoólicas.
tatuto da Criança e do Adolescente3, porém, sua As bebidas alcoólicas são também as subs-
propaganda em meios de comunicação de massa tâncias psicotrópicas mais utilizadas por adoles-
e no patrocínio de eventos recreativos (como sho- centes6,13, de forma crescente5, público que asso-
ws e esportes) não foi vetada, como ocorreu com cia seu uso a situações de lazer, festas e a ritos
os derivados de tabaco desde 1996, com lei nº de passagem à vida adulta9. A cerveja ou chopp
9.2941, posteriormente acrescida, em 2000, pe- é a bebida mais consumida, o número de doses
la Lei no 10.1672. Essas restrições se apoiam na consumidas anualmente representando 61% da in-
necessidade de não associar o produto à juven- gestão alcóolica, seguido pelo vinho, com 25%22.
tude, buscando não incentivar o seu consumo. Dos adolescentes, 35% dos adolescentes
A Organização Mundial de Saúde (OMS) indi- consomem bebidas alcoólicas, sendo que 13%
ca que o Brasil é um dos países que mais conso- com alto consumo22, o que atinge o público esco-
me álcool no mundo. Pesquisas apontam que seu lar, fato observado apontado por estudos feitos
consumo é amplo entre a população em geral, com educadores11 e que atinge cerca de 50% dos
chegando a, cerca de, 52% da população brasi- alunos do Ensino Médio público do município de
leira, de acordo com o II Levantamento Domiciliar São Paulo12.

|164
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

As situações de consumo de álcool, quando Disponibilização da Contracepção de Emergência


abusivas, chegam a provocar 90% das interna- (REDE CE)21, realizou, em 2007, o projeto “Um
ções psiquiátricas por drogas no Brasil18 e 50% Brinde à Saúde”.
das vitimações por de morte violenta (homicídios, De forma oposta às campanhas de absti-
suicídios, acidentes de trânsito) em grandes loca- nência mais comuns na área de drogas5, esse
lidades, como ocorre na Região Metropolitana de projeto procurou promover a prevenção do uso
São Paulo5. abusivo de bebidas alcoólicas entre o público jo-
Excetuando os males do álcool, em si, au- vem de universidades particulares da cidade de
tores têm apontado a sua associação com a São Paulo, através da estratégia de redução de
prática do sexo sem proteção9,22, uma vez que o danos, ou seja, da conscientização dos males
consumo ocorre também em locais de encontros do uso abusivo8, acreditando na possibilidade
afetivos e sexuais, incluindo festas, bares ou ba- do desenvolvimento do potencial de autocuidado
ladas, o que promove “relaxamento” da atenção desses jovens e de modelos de uso que incluam
à prevenção, facilitando o não uso de preservati- o exercício da moderação – como um comporta-
vos. Assim, os jovens beberam mais quando es- mento necessário de ser aprendido por todos, de-
tão nos bares ou em “baladas”9. senvolvido e exercido a vida toda tal como faze-
Em pesquisa realizada pelo Instituto Cultu- mos com relação a outros consumos de alimento
ral Barong com 843 jovens de 13 a 29 anos, du- ou itens pessoais.
rante o Carnaval do Guarujá, litoral do estado de O projeto também enfocou e incentivou a
São Paulo, em 2006, entre os que haviam bebido promoção específica da prevenção do uso de ál-
na noite anterior à entrevista o uso de preservati- cool e sua relação com a vulnerabilidade sexual,
vo foi de 37%, comparado com 63,% entre os que procurando a promoção da redução de danos se-
não beberam, 42,3% a menos, entre os 99,3% xuais associadas ao consumo de álcool, aprovei-
que havia ingerido álcool em toda a amostra9. tando a experiência das instituições promotoras
Isso aponta que eventos e locais de lazer e do projeto, tanto na prevenção de gravidez não
frequência do público jovem, que está iniciando o planejada, como nas estratégias de prevenção
consumo de bebidas alcoólica, necessitam ações de DST/aids e promoção de uso de preservativos
de promoção à redução de danos, de forma a mi- e a discussão dessas vulnerabilidades
nimizar os usos abusivos ao álcool, a exposição Além disso, considerando a importância
sexual de risco pelo não uso de preservativos, de se propor estratégias comunicativas que in-
inclusive associada a esse consumo, além de teragissem com a linguagem e os padrões de
orientações de conduta para situações de abuso. comportamento dos jovens, o projeto incentivou
a criação de peças publicitárias de promoção à
redução de danos frente ao uso do álcool pelos
A proposta do projeto-concurso “Um Brinde à próprios jovens – fato que priorizou a inclusão de
Saúde – álcool e consumo consciente” faculdades com cursos de Comunicação Social,
Seguindo as diretrizes de redução de danos Marketing, Publicidade e Designe Gráfico, Rádio
para o uso de álcool recomendados na política e TV e áreas afins, no projeto.
nacional proposta pelo do Ministério da Saúde17, Assim, como etapa pré-projeto, foram es-
o Instituto Cultural Barong15 em parceria com a tabelecidos contatos com diversas universida-
Rede Brasileira de Promoção de Informações e des da cidade. Em seguida foram divulgadas e

|165
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

realizadas as 5 etapas de desenvolvimento que o Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e
compunham o projeto: Crimes (UNODC), a Organização Mundial de Saúde
(OMS), membros da Assembleia Legislativa do Es-
Etapa I – A confecção de debates sobre
tado de São Paulo e da Câmara Municipal de Ve-
álcool e suas bulnerabilidades associadas:
readores do Município de São Paulo, da Coordena-
A confecção de 6 debates sobre o tema ál-
ção Municipal de Saúde Mental de São Paulo, da
cool e seus subtemas relacionados e de vulne-
União Nacional dos Estudantes (UNE), da ONG É
rabilidade: (1) álcool e saúde; (2) álcool na mí-
de Lei, do Conselho Nacional de Auto Regulamen-
dia (3) álcool e Saúde Sexual e Reprodutiva; (4)
tação Publicitária (CONAR), da Associação Bra-
álcool e violência; (5) álcool e imagem da mulher;
sileira de Bares e Restaurantes (ABRASEL) e do
(6) álcool, cultura de massa e meio artístico.
Sindicato dos Produtores de Cerveja (SINDCERV),
Essa etapa buscou integrar os principais
Agência de Notícias da Aids, além de profissionais
atores sociais envolvidos nos temas, como agen-
especializados em sexualidade e juventude.
tes públicos da área de segurança, saúde, enti-
dades que atuam com o tema, pesquisadores e Etapa III – A disseminação do projeto:
até representantes de indústrias de bebidas al- A disseminação do projeto foi definida para
cóolicas e da mídia. Foram agendados debates ser realizada em debates e ações em pelo me-
dentro das próprias universidades que aderiram nos 12 universidades contatadas localizadas na
ao projeto, permitindo a participação e interação Grande São Paulo, com instalação da unidade mó-
dos universitários com as discussões atuais ace- vel (kombi) do Barong, montagem de barracas e
ca do álcool e suas problemáticas. panfletagens durantes 1 dia em cada uma dessas
instituições, oferecendo aos estudantes, além de
Etapa II – A criação do concurso “Um Brinde
materiais sobre o concurso e os debates, também
à Saúde”:
orientações e materiais sobre saúde reprodutiva,
A criação do concurso “Um Brinde à Saú-
sexualidade e uso de drogas lícitas e ilícitas.
de”, que promoveu a produção, pelos próprios
estudantes, de peças publicitárias de incentivo Etapa IV – Site do prêmio “Um Brinde à Saúde”:
ao uso moderado e responsável do álcool. Essa Para dar apoio à divulgação do projeto e
etapa, ao mesmo tempo, visou incentivar ações amparar a pesquisa temática dos estudantes,
socialmente responsáveis entre os futuros pro- ficou definida a criação do um site específico,
fissionais da área de comunicação de massa em que conteria textos de apoio sobre as temáticas
geral, uma vez que universitários das áreas de debatidas nos debates, além de informações so-
marketing, propaganda e publicidade, rádio e TV bre o projeto, os locais e datas dos debates e
foram integrados ao projeto. Para o concurso, foi, sobre o concurso de peças publicitárias.
assim, estabelecida a aceitação de trabalhos in- Etapa VI – Evento final de premiação do
dividuais ou em grupo para as seguintes catego- concurso:
rias de criação de peças publicitárias: a) porta- O concurso teve inscrições abertas para
-copos, b) jogo-americano, c) d) porta-garrafas, d) entrega de peças. Um evento de divulgação de
cartaz, e f) formato livre. vencedores e entrega de prêmios foi proposto e
O prêmio deveria ser divulgado e haveria um amplamente divulgado nas universidades partici-
comitê de avaliação das peças publicitárias inscri- pantes do projeto, no site e nos e-mails dos can-
tas, com convidados de várias instituições, como didatos inscritos.

|166
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Resultados dos Programas Estadual e Municipal de DST/Aids


Entre agosto de 2007 e maio de 2008, o de São Paulo, do Sindicato Nacional da Indústria
projeto se desenvolveu com a parceria de 15 da Cerveja (SINDICERV), da Faculdade de Medici-
universidades localizadas na Grande São Paulo; na do ABC, do Conselho Nacional de Propaganda
sendo que 5 integraram também a realização de e do Instituto Cultural Barong e da REDE CE.
debates: Pontifícia Universidade Católica de São – debate 2: “Álcool e Mídia”, realizado no
Paulo (PUC-SP), Universidade Presbiteriana Ma- dia 14 de setembro de 2007, na Pontifícia Uni-
ckenzie, Universidade Municipal de São Caetano versidade Católica de São Paulo (PUC-SP) com
do Sul (IMES/USCS), Universidade Bandeirantes presença de jornalistas e representantes do Con-
(UNIBAN), Universidade metodista, Faculdade de selho Nacional de Auto Regulamentação Publici-
Educação e Cultura Montessori (FAMEC); e outras tária (CONAR), da União Nacional dos Estudantes
10 apenas a autorização e com seção de seus (UNE) e da Coordenação do Curso de Publicidade
espaços para realização de ações de campo com da PUC-SP.
a unidade móvel do projeto: Universidade de São – debate 3: “Álcool e Saúde Sexual e Repro-
Paulo (USP), Escola Superior de Propaganda e dutiva”, realizado no dia 29 de setembro de 2007,
Marketing (ESPM), Fundação Armando Álvares no auditório da IMES, com terapeutas sexuais, re-
Penteado (FAAP), Faculdade Cásper Líbero, Uni- presentantes da Associação Brasileira de Bares
versidade Estadual Paulista (UNESP), Universi- e Restaurantes (ABRASEL), da Coordenação dos
dade Paulista (UNIP), Centro Universitário Nove Cursos de Comunicação Social da IMES, da União
de Julho (UNINOVE), Universidade de Guarulhos Nacional dos Estudantes (UNE), além de represen-
(UnG), Universidade Metodista de São Paulo e fa- tantes do Instituto Cultural Barong e da REDE CE.
culdades do Serviço Nacional de Aprendizagem
Comercial (SENAC). Além disso, foi realizada ação
de campo também na Escola Panamericana de
Artes, que tem know-how técnico profissionalizan-
te na área de comunicação.
Etapa I – Debates
Foram realizados os 6 debates programa-
dos que tiveram participação de diversas insti-
tuições, incluindo o Programa Nacional de DST
e Aids do Ministério da Saúde, do Programa Es-
tadual de DST e Aids de São Paulo, da Faculda-
de de Medicina da Universidade de São Paulo,
da Agência de Notícias da Aids, da Bristol-Myers
Squibb - Divisão Virologia, da United Medical, da – debate 4: “Álcool e Violência”, realizado no
Semina Indústria e da UNE – União Nacional dos dia 19 de outubro de 2007, no auditório da Faculda-
Estudantes: de de Educação e Cultura Montessori (FAMEC), com
– debate 1: ”Álcool e Saúde”, realizado no representantes do Instituto Médico Legal de São
dia 31 de agosto de 2007, no auditório do Museu Paulo, do Centro de Defesa das Vítimas de Trânsito
de Arte Moderna de São Paulo (MASP) , com pre- (CDVT), da Coordenação da Área Técnica de Aten-
sença de representantes o Ministério da Saúde, ção ao Dependente de Substâncias Psicoativas da

|167
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e da comunicativas, bem humoradas e que procura-
União Nacional dos Estudantes (UNE), além do Ins- vam “lembrar” ou “alertar” os consumidos sobre
tituto Cultural Barong e da REDE CE. cuidados. Apenas algumas utilizaram discursos
– debate 5: “Álcool e a Imagem da Mulher”, que adotavam mensagens de amedrontamento.
realizado no dia 9 de novembro de 2007, no au- As propostas foram analisadas e julgadas por
ditório da Universidade Bandeirantes (UNIBAN), profissionais e entidades convidados das áreas de
com representantes do Instituto Patrícia Galvão, propaganda, marketing, comunicação e saúde,
do Programa de Assistência à Mulher Dependen- além do próprio Instituto Cultural Barong: represen-
te Química (PROMUD) do Instituto de Psiquiatria tantes do Programa Nacional de Hepatites, da Co-
do Hospital das Clínicas e do Sindicato dos Pro- ordenação Nacional de Saúde Mental, do Conse-
dutores de Cerveja (SINDICERV) e do Instituto lho Nacional de Auto Regulamentação Publicitária
Cultural Barong e da REDE CE. (CONAR), do Sindicato dos Produtores de Cerveja
– debate 6 – “Álcool, Cultura de Massa e (SINDCERV), da Associação Brasileira de Bares
Meio Artístico”, realizado no dia 13 de novembro e Restaurantes (ABRASEL), da ONG Dínamo, da
de 2007, no auditório da Universidade Macken- Agência de Noticias da Aids, e do Centro São Paulo
zie, com representantes do COMUDA – Conselho Designer, entre outros profissionais liberais convi-
Municipal de Políticas Públicas de Drogas e Ál- dados, incluindo o advogado Marcelo Guimarães.
cool de São Paulo (COMUDA), do Fórum de Ongs
Etapa III – Disseminação do projeto, dos
Aids do Estado de São Paulo
debates e do concurso através de ações nas
Etapa II – “Prêmio Álcool e Consumo Cons- universidades
ciente – Concurso de Criação de Propagandas So-
cialmente Responsáveis”

O concurso recebeu inscrição de mais de


150 estudantes, totalizando 60 propostas de
peças de comunicação, apresentadas individual-
mente ou em grupo: 11 para porta-copos, 9 para
porta garrafas, 11 para jogos de mesa, 13 para
cartazes e 16 na categoria de formato livre (sen- Foram realizadas ações de campo de 19
do 6 de spots de rádio, 1 de adesivo de mesa, 1 campus das 15 universidades parceiras no proje-
de abadás, 1 protetor de lata, 5 adesivos, 1 de to, além da Escola Panamericana de Artes. Essas
modelos de cadeira e 1 calendário). ações atingiram de 48.000 estudantes universitá-
Essas peças, em sua maioria, compre- rios, com 1.408 oficinas de sexo seguro, 18 ativida-
enderam o mote do projeto de adotar discur- des lúdicas de sensibilização sobre comportamen-
sos de redução de danos, criando mensagens tos de prática sexual de risco, juntamente com 19

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

plantões de aconselhamento e orientação sobre


saúde sexual e reprodutiva, além de realizar 640 re-
ceberam encaminhamentos para testagem de HIV
e 1.280 atendimento para esclarecimento de dúvi-
das, além da distribuição de pelo menos 50.000
preservativos e 50.000 folhetos educativos.
Etapa IV – Criação do site “Um Brinde a Saúde” 1º colocada na categoria “porta-copos”, produzida por Renato Billa,
O Barong publicou na Internet o site www. Rodrigo Susnara, Andréia Zanotto, Danilo Santos e Jjohnny Asnal,
do Curso de Publicidade e Propaganda da UNG – Campus Guarulhos
umbrindeasaude.org.br, contendo textos de apoio
sobre os temas relativos ao consumo de álcool e – na categoria “porta-garrafas” foram apre-
seus riscos associados, além de informações so- sentadas 9 propostas, 5 que atenderem a discur-
bre o projeto, os debates e o concurso e o ende- sos de redução de danos e 4 que se utilizaram de
reço de envio das peças publicitárias propostas discursos de amedrontamento, associando ima-
em formato de CD/DVD. gens ou mensagens apelativas e de morte.
Etapa V – Evento de Divulgação de Premiação
A divulgação dos vencedores do Concurso
“Um Brinde à Saúde” ocorreu no dia 28 de no-
vembro de 2007 via site e e-mail aos vencedores
e a entrega dos prêmios foi realizada no dia 14
maio de 2008, no Auditório do Campus Norte da
UNIBAN. O evento foi aberto com o debate “No- 1º colocada
vas Estratégias para Prevenção ao Consumo Abu- na categoria
“porta-garrafas”,
sivo de Álcool”, com presença de vereadores da
produzida por
cidade, da ABRASEL, da Uniban e do Instituto Cul- Renato Billa,
tural Barong e da Rede Brasileira de Promoção de Rodrigo Susnara,
do Curso de
Informações e Disponibilização da Contracepção
Publicidade
de emergência (REDE CE). e Propaganda
Foram certificados os responsáveis pelas 3 da UNG.

melhores propostas de cada categoria e entre-


gues kits de prevenção de DST/aids contendo – na categoria “cartazes”, foram apresentadas
preservativos e folhetos. Os vencedores ganha- 13 propostas, 10 que atenderem a discursos de re-
ram notebooks: dução de danos, e 3 com discurso de amedronta-
– na categoria “porta-copos”, 7 grupos de mento, adotando associação com terror e morte.
alunos inscritos apresentaram 11 propostas. – na categoria “jogos de mesa”, foram apre-
Em 7 houve adoção de discursos de redução de sentadas 11 propostas, 9 com discursos de redu-
danos e linguagem adotando dicas de consumo ção de danos e linguagem de dica ou bom humor,
moderado com bom humor, e apenas em 4 utili- 1 proposta que adotou discurso científico apontan-
zou-se discursos acusatórios ou de amedronta- do dados de consumo geral e suas consequências
mento associando imagens ou mensagens ape- e 1 proposta com discurso de amedrontamento,
lativas e de morte. adotando associação com terror e morte.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

1º colocada na
categoria “cartaz”,
produzida por Rafael
Favarão, Thiago
Teodoro, Michel
Batista, Vanessa
Bertini, Rodrigo
Correa e Diogo
Carvalho, do Curso
de Publicidade e Prêmio Extra- Especial para o cartaz produzido por Susi N.O.
Propaganda da dos Santos e Vinícius K. Alvarenga, do Curso de Propaganda
UNIBAN do ABC. e Publicidade da UNIBAN/ABC.

1º colocada na
categoria “cartaz”,
produzida por Rafael
Favarão, Thiago
Teodoro, Michel
Batista, Vanessa
Bertini, Rodrigo
Correa e Diogo
Carvalho, do Curso
de Publicidade e
Propaganda da
UNIBAN do ABC.

2ª colocada na
categoria “jogo de
mesa” produzido
por Vânia Marchi e
Akemi Hayashi, do
Curso de Publicidade
e Propaganda –
Faculdade Prudente
de Moraes – Itu.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Como categoria “formato livre”, foram das Outros resultados


16 propostas apresentadas, 12 adotaram discur- Além dos resultados planejados, o projeto
so de redução de danos, dando dicas de consu- permitiu parcerias para eventos colaborativos,
mo e incentivando moderação e autocontrole, de como o lançamento do livro “Propaganda Respon-
forma jovial e cotidiana, 1 adotou discurso cientí- sável: é o que todo anunciante deve fazer” 13. Tam-
fico de fornecimento de informações e dados e 2 bém gerou mídia espontânea em importantes veí-
discursos de amedrontamento. culos de comunicação: 2 canais de televisão: TV
Globo, TV Cultura; 6 rádios (Rádio USP, Rádio El-
dorado, Rádio ABC, Rádio Record, Rádio Trianon
“Tomei banho e saí para a balada...
e Rádio CBN); 2 jornais de grande circulação (Diá-
Na balada encontrei os amigos.
rio de São Paulo e O Estado de São Paulo); além
Bebi e encontrei uma garota. Uma linda garota.
de 6 canais da Internet (Portal da Propaganda, o
Era tudo o que eu queria.
blog de Gilberto Dimenstein, Adnews, Valor Eco-
Tomei uma, duas três tequilas.
nômico, Max Press Net e Agência de Notícias da
Olhei para a garota, não sabia se ela ia, não sabia
Aids), que passaram a discutir o tema, divulgando
se ela vinha...
o concurso, além de motivar a discussão sobre a
Tomei uma cerveja, cheguei nela e dei a minha idéia.
importância de associação entre uso de bebidas
Naquela noite eu já sabia: ela era minha.
alcoólicas e necessidade de uso de preservativo.
Depois de tantas tequilas já sabia o que queria.
A experiência também motivou o projeto de
Transamos ali mesmo na chapelaria e eu não usei
instalação e testagem de máquinas de preserva-
camisinha.
tivos em baresVII, com valores mínimos para cus-
Vacilei, marquei bobeira e quem diria: minha irmã
tear a reposição. Motivou novos debates e ações
virou tia!
em universidades no período posterior ao projeto,
Off: bebi além da conta, transei sem camisinha
em 2008 e motivou a produção de materiais edu-
- Beba consciente e use camisinha !”
cativos para o público integrando o tema álcool
pelo próprio Barong14 e disponibilizados gratui-
(1ª Colocada na categoria “formato livre”, spot de rádio produzido
por Luciano Madeira, Eloisa S. Rito, Milton F. Baungartner e Alex B.
tamente, como a “Cartilha do Homem“ e o DVD
N. Lourenço da UNIBAN do Campo de Marte) “Redução de Danos e Prevenção no Turismo e no
Lazer“VIII, financiado parcialmente pelo Programa
Foi criado, ainda, um “Prêmio Especial” pa- Estadual de DST/Aids, que aborda numa ficção
ra o cartaz “Seu carro pode ser a álcool. Mas o de curta metragem os cuidados com saúde e am-
motorista não”, considerado a criatividade e a sin- biente, incluindo sexo seguro e prevenção de abu-
tetização de uma proposta de redução de danos so de álcool em situações de lazer.
que atinge o público brasileiro e que utiliza um Bastante empenhado e sensibilizado pe-
símbolo nacional (o Fusca), como fator de identifi- la boa aceitação do Projeto, o Barong propôs
cação da mensagem com o público. o Projeto de Lei Estadual nº 227 de 2008, em
Os vencedores receberam certificados e os
1º . colocados notebooks, além de terem seus
s

projetos apresentados a empresas do setor bus- VII


Realizado em 2007, em alguns bares da Vila Madalena e da região da
Baixa-Augusta, com apoio e parceria da Semina Indústria Ltda, a Camisinhas
cando incentivar os empresários a promoverem Express, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (ABRASEL), a Euro
RSGC Brasil, e a União Nacional dos Estudantes (UNE).
essas ações de responsabilidade social. VIII
Link vídeo: http://barong.org.br/wp/prevencao-no-turismo-e-no-laser/

|171
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

tramitação na Assembleia Legislativa do Estado com a realidade em que vivem, onde têm amigos
de São Paulo, que obriga ações visando à redu- que consomem bebidas alcoólicas e as consu-
ção de danos com relação ao consumo de álcool miam desde antes de sua inserção na universida-
e a promoção de prevenção de doenças sexual- de11,22. Isso provavelmente se deve ao fato de que
mente transmissíveis em eventos festivos de discursos de estigmatização e abstinência são os
massa que venham a se realizar no Estado de mais recorrentes em mídias e no imaginário com
São Paulo (ver anexo). relação às drogas, incluindo o álcool, ações pre-
ventivas improvisadas e a-críticas5.
Estratégias que associem a redução de da-
Discussão nos ainda são pouco conhecidas entre o público e
A Política Nacional sobre o Álcool17, de 2007, são minoritárias nas ações das várias instituições
destaca como um dos princípios fundamentais a: sociais que atuam com drogas e álcool, da mesma
“sustentação de estratégias para o enfrenta- forma que as discussões embasadas por olhares
mento coletivo dos problemas relacionados ao social e cultural que ambientam esse uso25.
consumo de álcool, contemplando a interseto- No caso dos jovens, a discussão de estraté-
rialidade e a integralidade de ações para a re- gias de moderação de consumo é imprescindível,
dução dos danos sociais, à saúde e à vida”... . não apenas porque esses usos são característi-
Nesse sentido, o projeto “Um Brinde à Saú- cos de suas faixas etárias de experimentação9,
de” se apresentou como uma estratégia alternati- já apontado em inúmeras pesquisas9,11,12, mas
va importante, que atende não apenas promoção também porque contém elementos simbólicos,
do enfrentamento ao consumo, mas também a seu efeito cultural4. Esses efeitos muitas vezes
proposição de parcerias para a sua efetivação, estão associados à independência, à moda, ao
juntamente com a construção e disponibilização status, sendo, também, proliferados pela própria
“de informações sobre os efeitos do uso prejudi- indústria produtora dessas substâncias, como
cial de álcool e sobre a possibilidade de modifica- é feita, atualmente, com as bebidas alcoólicas
ção dos padrões de consumo, e de orientações e, na década de 1980, com cigarro, “iscas” que
voltadas para o seu uso responsável” 17. nem sempre são vistas criticamente por esse pú-
No Brasil, a maioria das abordagens de pro- blico que é absorvido pela massificação.
moção de saúde com relação às drogas se utiliza Assim, ao invés de promover a prevenção
de uma abordagem biomédica e de saúde higie- de drogas sob uma perspectiva de controle indi-
nista individualizante para promover a prevenção vidual de comportamentos, o projeto do Instituto
dos males causados pelo uso dessas substân- Cultural Barong procurou promover a saúde a par-
cias25, por isso as peças comunicacionais e edu- tir da discussão de saúde em coletividades, pro-
cativas, normalmente, se utilizam de discursos curando evitar o estigma e o aumento da discrimi-
de imposição de medos de doenças e mortes, nação tanto mais vulneráveis ao consumo de dro-
procurando convencer o indivíduo a cessar (absti- gas (no caso do álcool, também os jovens), como
nência) ou conter o uso de substâncias. aqueles que estão acometidos pelo uso abusivo.
Isso explica a proposição dos próprios univer- Nesse sentido, tal como aponta Carlini5, afere o
sitários terem apresentado esse tipo de discurso direito das pessoas de disporem livremente de
em suas peças publicitárias enviadas ao concur- seus corpos e mentes, inclusive de seus esta-
so que integrou o projeto. Essa situação contrasta dos de consciência, a partir de uma ótica mais

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

realista, eficiente e ética de trabalhar no campo seus representantes, como se verificou com a
da prevenção, visando reduzir os riscos que as ABRASEL, têm especial interesse em promover
drogas e o seu abuso possam trazer. atitudes benéficas para seus consumidores, bus-
O projeto atende, assim, às diretrizes da po- cando afastar usos nefastos e associar o uso
lítica nacional de álcool, de incluir a redução de recreativo de álcool em estabelecimentos. Nes-
danos na educação formal de universitários, além se sentido demonstra um grande potencial de
da diretriz de promoção da prevenção as DST/ai- parceria para estratégias de redução de danos,
ds, hepatites virais, associado ao uso de álcool e embora tenha dificuldades de possibilidade de
outras drogas. Além disso, atende a perspectiva, investimentos.
promovido pelo Ministério da Saúde, de: Essa interação é fundamental de ser esta-
“desenvolvimento de campanha de comuni- belecida entre os empresários da área de bares
cação utilizando diferentes meios de comu- e restaurantes, uma vez que pesquisas apontam
nicação, como, mídia eletrônica, impressa, que 70% desejariam “comprar a camisinha num
cinematográfico, radiofônico e televisivo nos bar”9, devido à falta de conhecimento ou interes-
se específico deste setor sobre a Lei Federal nº
eixos temáticos sobre álcool e trânsito, ven-
10.449 de 20024, que dispões que o preservati-
da de álcool para menores, álcool e violência
vo pode ser vendido em qualquer estabelecimen-
doméstica, álcool e agravos da saúde, álcool
to comercial. Poucas localidades, como Pelotas,
e homicídio e álcool e acidentes”17.
no Rio Grande do Sul, que criou lei específica19
A associação entre a prática do sexo des- obrigando a venda de preservativos em estabele-
protegido com relação ao consumo de álcool vem cimentos noturnos, compreenderam a importân-
sendo apontada, não apenas em estudos que cia em associar a prevenção sexual ao consumo
apresentam essa situação em eventos festivos e de álcool, visando à facilitação de acesso aos
de lazer jovem9,22, como em estudos que apontam preservativos e o seu maior uso.
esse uso em situações de turismo e deslocamen- A indústria privada de bebidas, bem como
to de pessoas em geral9,23, para situações de la- as empresas de propaganda a elas associadas,
zer, como em estudos realizados com os próprios ao contrário, embora se mostrem abertas para
portadores de HIV/aids16. Ou seja, efetivamente, parceirizar em eventos de discussão sobre os
não apenas situações que envolvem uso de ál- efeitos e a regulamentação e características da
cool são situações de desconcentração, mas es- propaganda de bebidas (como fez o SINDCERV),
tão correlacionadas, muitas vezes, com locais e se mostraram pouco interessadas e até relutan-
situações de contatos afetivo e sexuais, em que tes em vincular-se financeiramente a projetos de
o consumo dessa substância, assim como de ou- promoção à saúde, embora saibamos que não
tras drogas promove o sexo desprotegido e, em contam com dificuldades financeiras no mercado
especial o menor uso de preservativos9,10,22. brasileiro. Além disso, elas explicitam sistemati-
O projeto desenvolvido também aponta camente a sua defesa pela autorregulação das
a possibilidade de realização de parcerias com peças publicitárias de mídia, contestando quais-
alguns ramos de instituições da iniciativa priva- quer alternativa que represente intervenção e/
da, no que toca a discussão e a promoção de ou regulação externas ou governamentais para
estratégias de prevenção ao uso e suas conse- quaisquer veiculação de seus produtos, como já
quências. Os estabelecimentos comerciais e era de se esperar.

|173
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Considerações Finais Essas ações podem incluir a parceria com


O Brasil ainda precisa avançar nas estra- instituições ligadas à área comercial de bares e
tégias de prevenção às drogas, discursos mo- restaurantes que mostram interesse pelo consu-
ralistas e propagadores da abstinência geral- mo responsável de forma a manter a boa cliente-
mente utilizados não têm tido eficácia. Falta la e o a imagem de seus estabelecimentos.
adesão a modelos de educação, prevenção e
educação que promovam a redução de danos
entre a população, principalmente entre jovens
e adolescentes.
Referências
Isso parece ser primordial para ser cobra-
1. Brasil. Lei nº 9.29. Dispõe sobre as restrições ao uso e
do e vinculado à responsabilidade social também à propaganda de produtos fumígeros, bebidas alcoólicas,
das empresas produtoras de bebidas e suas medicamentos, terapias e defensivos agrícolas, nos termos
agências de propaganda. do § 4° do art. 220 da Constituição Federal. Brasília, 15
Em iniciativas que adotam essa estratégia jul.1996.
comunicacional é possível ancorar a proposta de 2. Brasil. Lei no 10.167. Altera dispositivos da Lei no 9.294,
de 15 de julho de 1996, que dispõe sobre as restrições
atitudes de moderação de consumo direcionadas
ao uso e à propaganda de produtos fumígenos, bebidas al-
à população jovem, principalmente se utilizarem
coólicas, medicamentos, terapias e defensivos agrícolas.
recursos que envolvam a inclusão desses em Brasília, 27 dez. 2000.
debates, produção de peças e outras atividades 3. Brasil. ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente. Bra-
participativas. sília: 2013. (Alterado pelo Projeto de Lei 5.502).
Com relação ao álcool, essa necessidade é 4. Brasil. Lei nº 10.449. Dispõe sobre a comercialização de
evidente e compreendida e vivenciada pelos jo- preservativos masculinos de látex de borracha. Brasília, 9
mai. 2002.
vens que se mostram interessados em participar,
5. Carlini-Cotrim B; Gallina JR, Chasin AAM. - Ocorrências de
como ficou demonstrado nesse projeto. A criati-
suicídios sob efeito de álcool: um estudo na região metropo-
vidade, o uso da linguagem e códigos etários di- litana de São Paulo. Rev. ABP-APAL, 1998; 20(4):146-149.
rigidos a seus pares surge como um universo a 6. Faden V. Epidemiology. In Galanter M (ed.). Alcohol Pro-
ser explorado pelos setores de saúde, organiza- blems in Adolescents and Young Adults. Recent Develop-
ções não governamentais, universidades, mídia ments in Alcoholism. New York: Kluwer Academic/Plenum
e até pelos próprios estabelecimentos de venda Publishers, 2005; 17:1-4.
7. Feffermann M, Figueiredo R. Uma Proposta Construtivista
ou produção de bebidas alcoólicas, permitindo
para a Prevenção ao Abuso de Drogas. Bis - Boletim do ins-
parcerias promovam a redução dos males asso-
tituto de Saúde, 2006, 40:41-47
ciados ao consumo abusivo dessas substâncias. 8. Figueiredo R. Álcool e vulnerabilidade juvenil hoje. Angên-
Especificamente com relação à Saúde Se- cia Aids. [acesso 18 de ago]. Disponível em: http://agencia-
xual e Reprodutiva, se faz necessário uma força aids.com.br/home/artigos/volta_item/220
tarefa que identifique as áreas de lazer e con- 9. Figueiredo R, McBritton. Cultura de turismo e população
sumo de álcool como fundamentais para a pre- litorânea: contatos afetivo-sexuais de Verão. Bis – Boletim
do Instituto de Saúde, 2006; 40: 46-48.
venção do sexo seguro, evidenciando a neces-
10. Figueiredo R, McBritton M, Cunha T. Juventude e Vulne-
sidade de promoção da prevenção de gravidez
rabilidade Sexual em Situações de Lazer-Festa. Bis – Bole-
e doenças sexualmente transmissíveis e promo- tim do Instituto de Saúde, 2006; 40:13-15.
vendo intensivamente o uso de preservativos 11. Figueiredo R, Marquezine IM, Santos M, Fregnani LMP,
nesses lugares. Bico RF, Almeilda NC. Ocorrência de violência e drogas

|174
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

envolvendo alunos de escolas municipais de Diadema – 19. Pereira MO, Farias SMC, Silva SS, Oliveira MAF, Var-
São Paulo. Revista LEVS - Laboratório de Estudos da Violên- gas D, Bittencourt MN, et al. Abordagem educativa com
cia da UNESP/Marília, 2012; 10:87-106. adolescentes acerca do consumo de álcool e outras dro-
12. Figueiredo R, Porto Alves MCG, Escuder MM, Pupo LR.; gas. Reuol – Revista de Enfermagem da UFPE on line, 2014;
Segri NJ. Uso de álcool e drogas entre adolescentes do En- 8(13):661-669.
sino Médio em São Paulo. BIS – Boletim do Instituto de 20. Prefeitura Municipal de Pelotas. Lei Municipal nº 6.199.
Saúde, 2008;, 45:41-42. Cria a obrigação dos estabelecimentos noturnosdistribuí-
13. Galduroz JCF, Noto AR, Nappo AS, Carlini EA. Uso de dro- rem ou comercializarem preservativos, e dá outras provi-
gas psicotrópicas no brasil: pesquisa domiciliar envolvendo dências. Pelotas, 7 jan. 2015.
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meninas em situação de rua de cinco capitais brasileiras – a hegemoniabiomédica e higienista. Bio-Art. Invest., 2015;
1997. São Paulo: CEBRID/UNIFESP, 1998. p.1-120. 15(8):113-121.

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Anexo
Projeto de Lei no 227, de 2008
Obriga a realização de campanhas de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis
e de redução de danos causados pelo consumo de substâncias psicoativas e bebidas alcoólicas
em eventos realizados no Estado e dá outra s providencias.

A ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE que não haja venda de bebidas alcoólicas , não
SÃO PAULO DECRETA: estão obrigados a desenvolver as atividades de
Capítulo I – Das disposições preliminares: que trata esta lei.
Artigo 1° Para os fins desta lei, considera-se: Capitulo II - Da realização de eventos aber-
I – doenças sexualmente transmissíveis tos ao público.
aquelas assim definidas pelos órgãos de saúde
federais e estaduais, Artigo 4° – É obrigatória a realização de
II – substâncias psicoativas aquelas assim campanhas de prevenção a doenças sexualmen-
definidas em portaria da Secretaria de Vigilância te transmissíveis e de redução de danos causa-
Sanitária do Ministério da Saúde. dos pelo consumo de substâncias entorpecen-
tes, incluindo as bebidas alcoólicas em eventos
Artigo 2° Considerar-se realizados no Estado de São Paulo.
– á campanha de redução de danos aquelas
Artigo 5° – As campanhas ser ão executa-
voltadas a prevenir as possíveis conseqüências
das por entidades sem fins lucrativos, coordena-
adversas do consumo de álcool e outras subs-
dorias municipais de saúde ou empresas cadas-
tâncias psicoativas por meio de informações com
tradas junto à Secretaria de Saúde do Estado e
respaldo científico sem, com isso, criminalizar o
que comprovarem habilitação técnica.
usuário da mesma ou fazer apologia ao uso.
Parágrafo único – a comprovação da contra-
Artigo 3° Os eventos de que trata esta lei
tação da entidade ou empresa deverá ser entre-
são aqueles:
gue á Secretaria de Saúde em, no mínimo, 10 (dez)
I – abertos ao público, com acesso gratuito
dias anteriores à data da realização do evento.
ou pago,
II – destinados a público superior a 2.000 Artigo 6° – A Secretaria de Saúde poderá fir-
(duas mil) pessoas, mar convênios com as prefeituras municipais pa-
III – cuja realização se dê pelo poder público ra o recebimento dos documentos e fiscalização
ou dependa de sua autorização. da efetiva realização da campanha.
Parágrafo único
– Os eventos de cunho religioso ou desti- Artigo 7° – O organizador do evento, pessoa
nados à promoção de saúde ou esporte, desde física ou jurídica de direito privado ou público que

|176
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

descumprir as determinações desta lei estará su- Artigo 9° os recursos advindos da aplicação
jeito ao pagamento de multa a ser aplicada pela de multas deverão ser revertidos integralmente
Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. para programas municipais de saúde.
Parágrafo único – os recursos serão desti-
Artigo 8° – A pena para o descumprimento nados, preferencialmente, à programas de saúde
das determinações desta lei são de multa de: desenvolvidos pela prefeitura do município onde
I – 100 ( cem) UFESP’s para eventos de houvera a infração.
acesso gratuito,
II – 300 (trezentas) UFESP’s para eventos Artigo 10° – Esta lei entra em vigor na data
cujo acesso é pago. de sua publicação.
Parágrafo único – A pena será dobrada no
caso de reincidência

|177
Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Informações básicas e instruções aos autores Subtítulos do texto: nos subtítulos não se deve usar números,
mas apenas letras, em negrito e caixa Ab, ou seja, com mai-
O Boletim do Instituto de Saúde (BIS) é uma publicação se- úsculas e minúsculas.
mestral do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da
Corpo do texto: o corpo do artigo deve ser enviado em Times
Saúde de São Paulo. Com tiragem de dois mil exemplares,
New Roman, corpo 12, com espaçamento simples e 6 pts
a cada número o BIS apresenta um núcleo temático, defini-
após o parágrafo.
do previamente, além de outros artigos técnico-científicos,
escritos por pesquisadores dos diferentes Núcleos de Pes- Transcrições de trechos dentro do texto: devem ser feitas em
quisa do Instituto, além de autores de outras instituições de Times New Roman, corpo 10, itálico, constando o sobreno-
Ensino e Pesquisa. A publicação é direcionada a um público
me do autor, ano e página. Todas essas informações devem
leitor formado, primordialmente, por profissionais da área da
ser colocadas entre parênteses.
saúde do SUS, como técnicos, enfermeiros, pesquisadores,
médicos e gestores da área da Saúde. Citação de autores no texto: deve ser indicado em expoen-
te o número correspondente à referência listada. Deve ser
Fontes de indexação: o BIS está indexado como publicação
da área de Saúde Pública no Latindex. Na Capes, o BIS está colocado após a pontuação, nos casos em que se aplique.
nas áreas de Medicina II e Educação. Não devem ser utilizados parênteses, colchetes e similares.

Copyright: é permitida a reprodução parcial ou total desta pu- Citações de documentos não publicados e não indexados na
blicação, desde que sejam mantidos os créditos dos autores literatura científica (relatórios e outros): devem ser evitadas.
e instituições. Os dados, análises e opiniões expressas nos Caso não possam ser substituídas por outras, não farão parte
artigos são de responsabilidade de seus autores. da lista de referências bibliográficas, devendo ser indicadas
somente nos rodapés das páginas onde estão citadas.
Patrocinadores: o BIS é uma publicação do Instituto de Saú-
de, com apoio da Secretaria de Estado da Saúde de São Referências bibliográficas: preferencialmente, apenas a bi-
Paulo. bliografia citada no corpo do texto deve ser inserida na lista
de referências. Elas devem ser ordenadas alfabeticamente
Resumo: os resumos os artigos submetidos para publicação
e numeradas, no final do texto. A normalização seguirá o
deverão ser enviados para o e-mail boletim@isaude.sp.gov.
br, antes da submissão dos artigos. Deverão ter até 200 estilo Vancouver.
palavras (em Word Times New Roman, corpo 12, com es-
Espaçamento das referências: deve ser igual ao do texto, ou
paçamento simples), em português, com 3 palavras-chave.
seja, Times New Roman, corpo 12, com espaçamento sim-
Caso o artigo seja aprovado, um resumo em inglês deve-
ples e 6 pts após o parágrafo.
rá ser providenciado pelo autor, nas mesmas condições do
resumo em português (em Word Times New Roman, corpo Termo de autorização para publicação: o autor deve autorizar,
12, com espaçamento simples, acompanhado de título e por escrito e por via eletrônica, a publicação dos textos envia-
palavras-chave).
dos, de acordo com os padrões aqui estabelecidos. Após o
Submissão: os artigos submetidos para publicação devem aceite para publicação, o autor receberá um formulário espe-
ser enviados, em português, para o e-mail boletim@isaude. cífico, que deverá ser preenchido, assinado e devolvido aos
sp.gov.br e ter entre 15.000 e 25.000 caracteres com espa- editores da publicação.
ço no total (entre 6 e 7 páginas em Word Times New Roman,
corpo 12, com espaçamento simples), incluídas as referên- Obs.: no caso de trabalhos que requeiram o cumprimento da
cias bibliográficas, salvo orientações específicas dos edito- resolução CNS 196/1996 será necessária a apresentação
res. O arquivo deve ser enviado em formato Word 97/2003, de parecer de comitê de ética e pesquisa.
ou equivalente, a fim de evitar incompatibilidade de comu-
Avaliação: os trabalhos são avaliados pelos editores científi-
nicação entre diferentes sistemas operacionais. Figuras e
cos, por editores convidados e pareceristas ad hoc, a cada
gráficos devem ser enviados à parte.
edição, de acordo com sua área de atuação.
Título: deve ser escrito em Times New Roman, corpo 12, em ne-
grito e caixa Ab, ou seja, com letras maiúsculas e minúsculas. Acesso: a publicação faz parte do Portal de Revistas da SES-
-SP, em parceria com a BIREME, com utilização da metodolo-
Autor: o crédito de autoria deve estar à direita, em Times New gia Scielo para publicações eletrônicas, podendo ser aces-
Roman, corpo 10 (sem negrito e sem itálico) com nota de sada nos seguintes endereços:
rodapé numerada informando sua formação, títulos acadêmi-
cos, cargo e instituição a qual pertence. Também deve ser Portal de Revistas da SES-SP – http://periodicos.ses.sp.bvs.br
disponibilizado o endereço eletrônico para contato (e-mail). Instituto de Saúde – www.isaude.sp.gov.br

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Drogas, Saúde & Contemporaneidade

Orientação aos autores - Notas técnicas de Avaliação de obedecer a seguinte estrutura: Introdução que aborde o
Tecnologias de Saúde contexto de realização do parecer ou informe, o problema
estudado, e a tecnologia avaliada; Método com pergunta
Notas Técnicas de Avaliação de Tecnologias de Saúde de investigação estruturada, bases de dados de literatura,
incluem pareceres técnico-científicos e outros tipos de estratégias de busca de informações científicas, critérios
informes rápidos de avaliação de tecnologias de saúde para seleção e análise dos estudos incluídos; Resultados
(ATS), que possam contribuir para subsidiar a tomada de e Discussão que inclua uma apreciação sobre as limita-
decisão sobre incorporação e ou exclusão de tecnologias ções do estudo, a interpretação dos autores sobre os re-
no sistema de saúde. Ensaios e reflexões sobre aspectos sultados obtidos e sobre suas principais implicações e a
metodológicos e sobre políticas relacionadas à ATS tam- eventual indicação de caminhos para novas pesquisas.
bém são bem-vindos. Recomendação que possa subsidiar uma tomada de de-
cisão por gestores nos diferentes âmbitos do sistema de
Tamanho do texto saúde.

• Deve ter até 2.000 palavras (excluindo resumo, tabela, • F ontes de financiamento: devem ser declaradas todas as
figura e referências), no máximo uma tabela ou figura e fontes de financiamento ou suporte, institucional ou priva-
até 10 referências. Sugere-se a seguinte distribuição das do, para a realização do estudo.
partes do texto: Introdução (até 600 palavras); Método
(até 300 palavras); Resultados e Discussão (até 1000 pa- • C
 onflito de interesses: deve ser informado qualquer po-
lavras); Recomendação (até 100 palavras). tencial conflito de interesse.

• O resumo não precisa ser estruturado e deve ter até 150 • A spectos éticos: informar sobre avaliação por um comitê
palavras, e ser apresentado em português e inglês. de ética em pesquisa, quando pertinente.

Estrutura do texto •C
 olaboradores: devem ser especificadas as contribuições
individuais de cada autor na elaboração do artigo.
•Não há uma estrutura para apresentação de Notas Técni-
cas no formato ensaios e reflexões. • A gradecimentos: incluem instituições que de alguma for-
ma possibilitaram a realização da pesquisa e/ou pessoas
• A s Notas Técnicas relativas a pareceres técnico-científi- que colaboraram com o estudo, mas que não preenche-
cos e outros tipos de informes rápidos de ATS, devem ram os critérios para serem coautores.

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