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O QUINTO

EVANGELISTA
O (Des)evangelho Segundo José Saramago

SALMA FERRAZ
1997
2

Agradecimentos

Raquel Ferraz, Kirlan Ferraz, Ellen Eni Martins, Margarida


Arcari, Sr. Antônio, D. Mercedes, Rogério.

À querida Regina pelas sugestões no texto final.

Para todos os meus antepassados da Família Ferraz, pelo


exemplo de coragem, luta e obstinação.

o meu amor
a minha gratidão

EM ESPECIAL: Profa. Dra. TANIA CELESTINO DE


MACÊDO e Profa. Dra. SUELY F. VILLIBOR FLORY
3

“Talvez eu escreva, em parte, para


preencher com outros sonhos o lugar
esvaziado de Deus. Porque esse é, afinal, o
lugar para se sonhar.”
Salman Rushdie

Obs.: O título desse livro foi retirado do artigo intitulado “O Quinto


Evangelista ou da Tigela Ao Graal” da Dra. Teresa Cristina Cerdeira
da Silva (UFRJ). In: Anais do XIV Encontro de Professores
Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa. Porto Alegre:
Edipuc, 1994, p. 182-190.
4

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...............................................................................................8

CAPÍTULO I - UMA HISTÓRIA ARQUICONHECIDA ........................................10

CAPÍTULO II - EM NOME DO HOMEM.............................................................17

2.1. A presença de Deus na obra de Saramago............................. 17


2.2. Calidoscópio profano........................................................... 22
2.3. Um estilo endiabrado........................................................... 25

CAPÍTULO III - O QUINTO EVANGELISTA...................................................... 42

3.1 - José - O bode expiatório do Evangelho......................................... 44


3.2 - Maria - uma segunda Eva............................................................. 54
3.3 - Santa Madalena........................................................................... 62
3.4 - Cristo- Uma cobaia de Deus........................................................ 72
3.5 - Os heterônimos do Cristianismo.................................................. 83
3.6 - Santo Lúcifer- O quarto homem da
Trindade......................................................................................... 105

CONCLUSÃO - A HERESIA DO SARAMAGUIANISMO..................................111

BIBLIOGRAFIA....................................................................................................113
5

NUM MEIO-DIA de fim de primavera


Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino
A correr e rolar-se pela erva
E arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.


era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro.
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era a pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o espírito Santo andava a voar
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele
tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e
menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na
cruz
E deixou - o pregado na cruz que há do céu
E serve de modelo às outras.
6

Depois fugiu para o sol

E nasceu pelo primeiro raio que apanhou.


Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

...

Diz-me muito mal de Deus.


Diz que ele é um velho estúpido e doente,
sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências,
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a
fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido"-
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua
glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para a casa

................................................
7

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.


Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

..................................................................

(Trechos de "O Guardador de Rebanhos"


parte VIII - Alberto Caeiro)1

1 Fernando Pessoa. O Eu Profundo e os outros Eus (sel. poét.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p.
142-146.
8

INTRODUÇÃO
“Deus está irremediavelmente sozinho. Deus está na
escuridão, o próprio Deus luta, procura, quer alguém que
Lhe estenda a mão, O ajude”.
HILDA HILST

Quando escrevemos sobre José Saramago, parece que tudo o que


fazemos é liliputiano, pois tudo o que temos pela frente é dantesco. Mas há que
se tentar e o faremos a partir de um dos seus livros mais conhecidos e
polêmicos, O Evangelho Segundo Jesus Cristo2, um livro polêmico porque
algumas fumaças antigas nublaram o seu lançamento em Portugal. O livro do
escritor português, com a sua interpretação livre e profana da vida de Cristo, foi
excluído pelo subsecretário de Estado, Souza Lara, da lista de candidatos
portugueses ao Prêmio Europeu de Literatura em 1992. O governo recusou-se
a inscrever o livro no mencionado prêmio, depois voltou atrás devido à péssima
repercussão do fato e foi desautorizado pelo póprio autor. Este episódio foi o
estopim de uma batalha diplomática entre o escritor e o governo português,
culminando no auto-exílio de Saramago nas Ilhas Canárias, na Espanha. Em
outro episódio constrangedor, o arcebispo de Braga “excomungou” o
“evangelho de Saramago”, num retrato da polêmica que a obra causou entre
teólogos, jesuítas e pensadores católicos ortodoxos em Portugal.
Tudo isso fará com que Saramago, numa atitude de inconformidade,
se auto-exile nas ilhas Canárias, na Espanha. Após todos esses incidentes, a
Igreja silenciou, temendo recriar mais um mártir cultural, a exemplo de Martin
Scorsese, autor do filme A última tentação de Cristo (1988), recebido pelos
extremistas religiosos com ameaças e manifestações de protesto e Nikos
Kazantzakis, autor do livro de 1954 com o mesmo título do filme citado,
condenado como herético pelo Papa Pio XII.
Há muitas vertentes que podem ser exploradas no livro do escritor
português: a) A gênese do ESJC ao longo da obra de José Saramago; b) as
confluências textuais; c) a tipologia abrangente do narrador; d) a
carnavalização dos personagens bíblicos, etc.
No presente livro abordaremos de maneira panorâmica a gênese do
ESJC, as confluências textuais presentes nesse (des)evangelho e a
tipologia/estilo abrangente do narrador/evangelista. No entanto, nos deteremos
com maior afinco no aspecto mais importante do livro: os personagens do
evangelho acanônico. Alguns deles milenarmente rejeitados pela Igreja
Católica, como Madalena e o Diabo, serão elevados à categoria de santos, e

2 Para o presente livro utilizaremos apenas a abreviatura ESJC. Todas as citacões do livro referir-se-ão
à 5a reeimpressão, publicada pela Companhia das Letras de São Paulo, 1992.
9

outros, consagrados pelo cristianismo, como José e Maria, serão rejeitados pelo
quinto Evangelista.
Este evangelho humanista é construído por um evangelista que relê
episódios bíblicos dificilmente questionados, pelo lado demoníaco, instaurando
assim um "mundo às avessas", um (des)evangelho marcado pela "cosmovisão
carnavalesca", segundo os estudos de Mikhail Bakhtin.
A Historiadora Teresa Cristina Cerdeira da Silva, em seu livro José
Saramago - entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, afirma que
Saramago reescreveu através dos seus livros anteriores ao Evangelho uma
"nova história de Portugueses (e não mais de Portugal)..."(p.28), pois relê a
História pelo lado dos perdedores, dos fracassados, compondo "romances onde
a marginalidade ganha voz e inverte o modelo ideológico" ( p. 266).
Podemos ir mais longe e dizer que o autor agora resolveu reescrever,
não outra história de portugueses, mas a maior e mais conhecida história do
mundo ocidental, a "história afinal arquiconhecida"(p. 127), a História de
Cristo, privilegiando não mais a História do Cristianismo, mas a História dos
Cristãos, projeto este que será complementado por In Nomine Dei, novamente
pelo lado dos perdedores, dos pecadores, dos fracassados, dos milenarmente
rejeitados, construindo o que Roberto Pompeu de Toledo chamou de Teologia
do Ateu3, e que nós denominamos de O Quinto Evangelista - O
(Des)evangelho Segundo José Saramago
Utilizaremos o prefixo Des, no sentido de "ação contrária",
"negação", "privação"4 do sentido primeiro da palavra "Evangelho", que
procede do grego euaggélion: "boas novas" ou "coisa que se tem por
verdadeira, ou que é digna de crédito"5. E, Evangelho Segundo Saramago, pois
após negar o sentido das "boas novas" presentes nos Evangelhos Canônicos, de
desconstruir a História mais conhecida do Ocidente, ele a partir daí, construirá
uma outra história, um outro Evangelho, Segundo Jesus Cristo, não o mito, mas
o homem, um Evangelho Antropocêntrico, porque na composição desta nova
teologia, "há um religioso que espreita e salva com terna complacência, por
acreditar nelas, essas figuras frágeis e indefesas que são os seres humanos"6.
Cremos que assim será possível darmos um pequena colobaração
para o entendimento destas "boas novas" apresentadas pelo Quinto Evangelista
que escreve um evangelho EM NOME DO HOMEM e não mais EM NOME DE
DEUS.
Antes, porém de estudarmos esses aspectos, somos tentados a
enquadrar o livro de Saramago dentro de uma certa tradição em parodiar,
dessacralizar os Evangelhos Canônicos. Tal tradição remonta à Idade Média,

3 Vide artigo intitulado "Cristo e o Deus Cruel". In: Revista Veja, São Paulo, 1992, p. 90-96.
4 Cf. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 540.
5 Id. Ibid., p. 736.
6 Roberto Pompeu de Toledo. Op. cit., p. 96.
10

afinal o enredo não passa de uma história muito antiga. E é exatamente nesse
contexto, desta História Arquiconhecida, que situamos O Quinto Evangelista.
11

“O impacto que sua vida (a de Cristo) e


doutrina provocaram nos contemporâneos
atingiu tal intensidade que, hoje, ainda, vibra.
Talvez, ser Deus seja, apenas, isso.”
Paulo Leminski
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CAPÍTULO I
UMA HISTÓRIA ARQUICONHECIDA

"Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer


rir da verdade, fazer rir a verdade porque a única
verdade é aprendermos a nos libertar da paixão
insana pela verdade." Umberto Eco, O Nome da
Rosa. p. 552.

Parece que revisitar a história de Cristo tem sido uma tendência


constante desde a década de setenta de nosso século, acentuando-se
intensivamente a partir dos anos noventa, gerando aquilo a que poderíamos
chamar de "boom" dos estudos históricos sobre Cristo.
Na introdução de seu livro A Marginal Jew - Rethinking the
Historical Jesus (Um Judeu marginal - Repensando O Jesus Histórico), John
Meier nos esclarece que o Jesus da História é "...o Jesus que podemos 'resgatar'
e examinar utilizando os instrumentos científicos da moderna pesquisa
histórica" (p. 35), ou seja, o Jesus que nasceu mais provavelmente em Nazaré, e
não em Belém, por volta de 7 ou 6 a.C., alguns anos antes da morte do rei
Herodes, O Grande (4. a.C.). Nesses estudos históricos, o que ocorre não é que
se negue a fé, mas prescinde-se da mesma, pois nessas pesquisas o aval da
ciência é o que importa. A fé, dizendo o óbvio não precisa de provas para ser
confirmada, ou então não seria fé, mas embora não precise da ciência
comprovativa, de certa forma a deseja. O grande problema é que a busca do
Jesus histórico produz mais dúvidas do que certezas.
James H. Charlesworth, no final do seu livro Jesus Within Judaism
(Jesus dentro do Judaísmo), enumera nada menos que 151 obras publicadas a
partir da década de setenta sobre o Cristo Histórico. Citemos algumas das
principais dessas, publicadas no início desta década: Verdade e ficção na
Bíblia, de Robin Lane Fox (1992); Jesus, o Judeu de Geza Vermes (1990); A
marginal Jew - Rethinking the Historical Jesus, de John Meier (1991); The
Historical Jesus de John Dominic Crossan (1991), Jesus - a life, de A. N.
Wilson (1992) e Jesus de David Flusser (1998). No geral, entre os mais
conhecidos, há cerca, de 80.000 mil livros publicados sobre Jesus e cerca de
1000 cursos sobre religião e ciência em todo o mundo, além de 4.800 Scholars
pesquisando as Escrituras só nos Estados Unidos. O que ocorre é que
historiadores dos mais variados credos e posições filosóficas, ateus, cristãos,
13

judeus, agnósticos, marxistas, todos têm escrutinado abundante e


cuidadosamente a vida de um judeu chamado Jesus Cristo, ou seja, tem-se a
impressão de que jamais, em todo o tempo, pesquisou-se, discutiu-se tanto
sobre o Cristo Histórico como agora.
A preocupação desses estudiosos se volta para o problema central
que visa a descobrir quem era Jesus realmente, pois há uma névoa mística e
espessa que encobre a biografia de Jesus. Colaboraram para esta abordagem as
descobertas de inúmeros sítios arqueológicos e uma nova mentalidade na
abordagem do assunto. Se esses estudos ainda não revelam a verdadeira
trajetória de Jesus, pelos menos “os textos evangélicos encontram um fundo
histórico, um país, um território.7”
Com relação ao Cristo da Fé, ao Cristo Teológico, é aquele
considerado pelos cristãos como "O cordeiro de Deus que tira o pecado do
mundo" (São João 1:29), aquele que foi "ferido pelas nossas transgressões e
moído pelas nossas iniqüidades" (Is. 53:5), O Leão da Tribo de Judá, Salvador
de toda a humanidade, crucificado injustamente para expiar a culpa de todos os
pecadores e que há de voltar para julgar vivos e mortos. O Cristo da Fé não
precisa da pesquisa histórica para ser legitimado e o mais ardoroso defensor da
tese de que a sacralidade da fé se basta é o historiador americano Luke Timothy
Johnson da Universidade Emory. Não enumeraremos aqui as principais obras
de centenas de teólogos, das mais diversas posições e tendências, que se
debruçam sobre o mesmo, pois seria uma tarefa extremamente exaustiva e
porque não dizer quase impossível, pelo excessivo número de publicações
existentes
José Saramago, ao revisitar a história de Cristo literariamente e
publicar seu livro no final de 1991, além da vontade de fazer um novo
evangelho, mais humanista que os canônicos, de reconstruir um Cristo e um
Deus diferentes, não sabemos se propositada ou coincidentemente, aproveitou o
que poderíamos chamar da "crista da onda" da abordagem feita pelos
historiadores acima mencionados. Porém, esta releitura dos textos bíblicos é
muito antiga, pois já na Idade Média era comum a paródia sacra, ou seja,
paródia de cenas e episódios bíblicos, como nos festejos de Corpus Christi, e
na representação dos milagres e os mistérios.
Na literatura universal, só para exemplificar, mencionemos três
clássicos que revisitam a história de Cristo: Vida de Jesus de Ernest Renam, A
vida de Nosso Senhor de Charles Dickens, El Espiritu Del Cristianismo y su
Destino de G. W. F. Hegel, Barrabás de Par Lagerkvist (laureado com o Nobel
de Literatura), O Homem que Morreu de D.H. Lawrence, O Homem de Nazaré
de Anthony Burgess (que deu origem ao filme de Zefirelli) e O Nazareno de S.
Asch.

7 Ricardo Arnt. Procura-se Jesus. In: Revista Super Interessante. São Paulo: Ed. Abril, Abr., 1996,
p. 56.
14

Em 1951, A última tentação de Nikos Kazantzakis foi condenado


pela igreja ortodoxa grega e, em 1954, o papa Pio XII declarou que a obra era
herege. O messias do escritor grego era muito diferente do messias cristão:
fraco, doente, possuía problemas psicológicos e era enamorado por Madalena,
sendo amigo íntimo de Judas Iscariotes. Na cruz, no último momento, Cristo
agonizante pensa como teria sido sua vida, se tivesse vivido como um homem
normal, casado, tido filhos, e imagina seus momentos amorosos com Madalena.
Tudo isto não passou de um delírio, mas a Igreja Católica não o perdoou. Seu
Cristo era demasiado humano, razão pela qual não agradou.
No cinema, a trajetória de Cristo foi muito complicada. Em l910,
surgiu o primeiro filme sobre Cristo e, em l912, com a benção da Igreja, foi
gravado Da Manjedoura para a Cruz, produzido e dirigido por Cid Hopper
com o ator Handerson Bland no papel de Cristo. Em 1916, foi filmado
Intolerance (EUA) do diretor B. W. Griffith. Este filme proporcionou um
situação constrangedora, em especial, por causa do tratamento dado ao episódio
das Bodas de Caná, em que Cristo, participando de uma festa de casamento,
transforma a água em vinho. Nele, Cristo parece insinuar que estaria aprovando
o álcool, quando, paralelamente à filmagem e exibição do filme, surgia o
movimento anti-alcoólico cristão na América ou a tão conhecida Lei Seca. O
filme só foi liberado depois de ter sido colocada uma legenda sobre esta cena,
esclarecendo que o vinho era usado pelos judeus como uma oferenda a Deus,
isentando Jesus de qualquer responsabilidade pelo álcool.
Esses filmes, em preto e branco, mais se assemelharam a cartões
postais ou quadros em movimento, acompanhando a precariedade de técnicas e
recursos presentes no início do cinema mudo. A Igreja os abençoou, como meio
de propagação e pregação da verdade, mas desde o início, controlou-os. Foi
como se a Igreja possuísse o "direito de propriedade" sobre as filmagens da
vida de Cristo ou "até o monopólio da representação de Cristo e sua
significação". Pareceu possuir "uma licença exclusiva de distribuição"8.
Citemos, na seqüência, os principais filmes e a inovação que
apresentaram em relação aos anteriores, ou o motivo da polêmica: em Rei
dos Reis (EUA, 1927), do diretor Cecil Bedinil, o qual demonstrou um certo
descuido com a precisão histórica, Madalena foi uma cortesã rica e,
estranhamente, foi amante de Judas Iscariotes. O filme, pertencente ao cinema
mudo, trazia legendas explicativas sobre as cenas e apresentava uma mistura de
sexo, luxo e piedade, nele já se delineando o perfil do Cristo hollywoodiano:
espetacular e sentimental.
Por outro lado, em Gólgota (França, 1935), do diretor Julian Dirrive
tivemos, pela primeira vez, um Cristo que fala (os filmes anteriormente

8 Harvey Cox, Professor de Teologia. In: Jesus Cristo no Cinema, documentário produzido pela CTVC,
EUA, 1992, do Diretor Martins Goodsmith, trad. Linke Peres A. de Araújo e exibido no Brasil pela
TV Cultura em Abr., 1994.
15

mencionados pertenciam ao cinema mudo), porém sua pessoa não aparece nas
filmagens. O enredo foi filmado, a partir do ponto de vista de Cristo; em
Barrabás (1935), o rosto de Cristo foi vetado na Grã-Bretanha, continuando
invisível, pois a Igreja assim o exigiu.
Em 1913, o Conselho Britânico de Censura Cinematográfica deixou
bem claras as seguintes proibições nos filmes sobre a vida de Cristo: a)
nenhuma nudez e b) nenhuma representação(visível) da pessoa de Cristo. Como
a pressão da Igreja foi muito grande, os diretores de cinema apelaram para um
recurso que deu certo. Por vezes, filmaram-se enredos que giraram em torno de
outras figuras paralelas dos Evangelhos ou da própria História, pois assim
poder-se-ia injetar histórias de sexo, traição e violência. Assim, Cristo poderia
aparecer no filme, como um pano de fundo, transformando-se em uma silhueta,
isso devido ao "peso da carga teológica" que sua figura representava. Cristo,
quando protagonista, não viria a se envolver com ações plausíveis e "reais", não
brigando, não amando, tornando-se “morno”. Com este artifício foi mais fácil
enganar a censura e alcançar o sucesso, como em Ben Hur, King of Kings, etc
Na seqüência, temos Rei dos Reis (EUA, 1961), de Nicolas Ray, que
ficou indeciso sobre o dilema humano/divino da vida do Cristo, prejudicando,
em muito, a aceitação do filme; The Greatest Story Ever Told, de George
Steven, filme este em que se buscou uma precisa veracidade histórica e no qual
os judeus foram absolvidos do papel de assassinos de Cristo. Um fato
interessante, nesse filme, é que muitos episódios foram montados a partir da
visualização de quadros famosos, como, por exemplo, a santa ceia, filmada a
partir da visualização de um quadro clássico de Leonardo da Vinci; O
Evangelho Segundo São Mateus (Itália, l964), do diretor marxista Pier Paolo
Pasolini, procurou recuperar o aspecto épico da vida de Cristo em detrimento
do Cristo ideológico criado pela Igreja.
Em Godspell (EUA, 1973), de David Greene, tivemos uma sátira
irreverente e animada, na qual, pela primeira vez no cinema, foi apresentado
um Cristo contemporâneo, com cabelo afro e sapatilhas, vestido como um
palhaço, um Jesus dos anos 60, que só trazia diversão e, surpreendentemente, o
filme foi bem aceito pelos fundamentalistas; Jesus de Nazareth (1977), filmado
em quatro episódios, de Franco Zeffirelli, alcançou um estrondoso sucesso, pois
além da magnífica interpretação de Robert Powell e de todos os demais atores,
o filme foi cuidadosamente montado para não agredir nenhuma denominação
religiosa ou corrente teológica e atingir milhões de pessoas de todos as crenças
e todos os credos; A vida de Brian (EUA, 1979), de Terry Jones, constituiu uma
comédia que salientava a linguagem de uma época, ironizando os clichês (do
vocabulário, da entonação de voz, de postura) dos filmes anteriores sobre Cristo
e satirizando a iconografia cristã. O filme causou muitas controvérsias, pois
fazia comédia sobre episódios considerados sagrados pela Igreja e usava uma
linguagem extremamente irreverente.
16

Martin Scorsese, brilhante cineasta, baseado no romance de Nikos


Kazantzakis, polêmico escritor grego, filmou A última tentação de Cristo (The
Last Temptation of Christ - EUA, 1988), com o ator Willam Dafoe no papel
principal, recuperando um Cristo introvertido, egocêntrico, com graves
conflitos psicológicos, sadomasoquista, na busca de um equilíbrio muito difícil,
entre a natureza humana e divina de Cristo, gerando protestos violentos nos
Estados Unidos e em toda a Europa9. Os fundamentalistas, novamente, não
entenderam que as cenas mais audaciosas do filme, como a da Madalena e
Cristo fazendo amor, só se passaram nos delírios de Cristo na cruz, mas não
aconteceram na "realidade" do filme.
Se a Igreja controlou o retrato de Cristo durante 1900 anos, com o
surgimento do cinema não foi diferente. O cinema, por sua vez, construiu de
diversas maneiras a imagem de Cristo como herói: bondoso e sofrido,
revolucionário, com graves problemas psicológicos e assim sucessivamente.
Segundo críticos e teólogos do documentário Jesus Cristo no Cinema, a "cada
nova idéia, a cada nova imagem, a cada novo desafio, a cada nova concepção
ideológica e intelectual, corresponde um novo Cristo" e acrescentam que "toda
a representação de Cristo deve ser de certa forma dupla, histórica e
contemporânea"10, para ser entendida tanto no Cinema como na Literatura. E
vale a pena lembrar que todas as formas de questionamento dos Evangelhos,
quer na literatura, no teatro ou no cinema, foram quase sempre consideradas
sacrilégio.
O musical Jesus Christ Superstar (EUA, 1973), do autor Normam
Jewison, baseado na ópera rock do mesmo nome, de Tim Rice com os autores
Ted Nuley e Carl Anderson, respectivamente, nos papéis de Jesus Cristo e
Judas Iscariotes, levantou igualmente novas discussões. Judas, um negro,
acusava Jesus: "Inflamaste os que te escutavam e crêem que és o Messias. E te
ferirão se descobrirem que se enganaram. Nazaré, teu famoso filho devia ter
permanecido como o pai, carpinteiro". O filme todo foi uma mistura equilibrada
do sagrado e do profano, juntaram-se rock, guerra do Vietnam com música
barroca; Jerusalém, a cidade santa, foi profanada por roqueiros negros, por
chineses, por personagens que se assemelharam a "ratos do porão", e o Templo
foi comparado a um Shopping Center, misturado com um mercado árabe e um
bordel.
Com relação ao envolvimento de Cristo e Madalena, o musical
também explorou este filão, e Judas foi implacável: "Posso compreender que
ela agrada, mas deixar que te beije, que te afague os cabelos...". Madalena
também explicitou seus sentimentos: "Não sei como amá-lo!?... Eu o quero
9 Monsenhor Peter G. Finn da Arquidiocese de Nova York ,assim se pronunciou sobre o filme: "A igreja
acha o filme moralmente ofensivo, historicamente e ideologicamente impreciso, degradante para a
pessoa de Cristo e realmente muito ofensivo para toda a comunidade cristã". (Entrevista concedida ao
documentário Jesus Cristo no Cinema).
10 Harvey Cox. In: documentário citado, grifos nossos.
17

tanto." É a instauração do profano, pois Judas, após ter traído Cristo, acusou
Deus de tê-lo predestinado ao papel de traidor. Suas palavras finais, antes de
enforcar-se, foram: "Nunca saberei porque me escolheste. Para o teu crime.
Para esse teu sangrento crime... Tu me mataste." E o próprio Cristo exigia de
Deus, por meio de um rock misturado a gritos desesperados: "Quero saber, meu
Deus. Quero ver, meu Deus, porque razão tenho de morrer... Disseste-me como
e onde, mas não a razão". Em meio a esta agonia, apareceram no filme dezenas
de imagens de quadros da Idade Média e da Renascença sobre a crucificação de
Cristo.
Herodes, por sua vez, acusava Cristo de ir para a cruz de livre e
espontânea vontade, não dando a ele a chance de salvá-lo, e que Cristo fazia o
papel de "títere inocente", um superastro no auge da glória, no momento de
instalar a Jesusmania. No instante final, na cruz, Cristo, revoltado com os
propósitos de Deus, proclamava: "Vou beber o veneno do teu cálice. Prega-me
na tua cruz. Quebra meu corpo. Sangra-me, açoita-me. Mata-me, mas faze-o
agora, antes que eu mude de idéia." E a mensagem central do musical foi esta:
Cristo, um mísero "títere", que teve apenas alguns minutos de glória, como um
superastro, nada mais.
O musical/filme terminou com a seguinte canção: Jesus Cristo...
Jesus Cristo... Quem és? Parece que esta pergunta tem permeado todos os
estudos, filmes, musicais, livros, que versam sobre o Cristo Histórico e o Cristo
da fé.
Em 1989 o diretor Denys Arcand filma Jesus de Montreal, uma
produção conjunta entre Canadá e França com Lothaire Bluteau e Catherine
Wilkening. O enredo é o seguinte: um diretor de teatro assume uma montagem
da Paixão de Cristo e introduz algumas alterações conceituais no texto e no
papel principal. O espetáculo é combatido pela Igreja Católica de Montreal e o
diretor acaba sendo martirizado, como um Cristo moderno. Denys Arcand relê
o Evangelho Segundo São Marcos, em busca dos novos fariseus.
A “onda” chega até a década de noventa com inúmeros cds e
musicais profanos. Em 1997 o conjunto Marilyn Manson lança um cd intitulado
Antichrist Superstar, cujas letras “disparam como uma metralhadora
preferencialmente contra as religiões, criando um universo povoado de vermes
famintos, anjos decaídos, demônios sedentos de vítimas e corpos mutilados.”11
Dogma, Estados Unidos 1999 de Kevin Smith, choca os católicos
conservadores já que é um pastiche cômico dos dogmas do catolicismo. No
enredo da comédia dois anjos desobedecem as ordens de Deus e por isso são
expulos do Céu. Ao contrário de Lúcifer, os protagonistas não são condenados
ao Inferno, e sim a vagar pelo Estado americano de Wisconsin. Os anjos caídos
- Loki e Bartleby - desafiam as ordens divinas e não descansam até encontrar
uma saída jurídica que lhes permita retornar ao paraíso. Mas se assim
11 Okky de Souza. Rock do susto. In: Revista Veja, São Paulo, Abr., 1997, p. 135.
18

procederem, provarão que Deus é falível e aniquilirão todas as Suas criações.


Alguém deve impedi-los e quem é escolhida é Bethany que trabalha numa
clínica de abortos e é a última descendente da Virgem Maria. No filme, para
desespero dos católicos conservadores, Deus é uma mulher pop, um anjo abaixa
as calças e fornece provas definitivas e indiscutíveis de que sua espécie não tem
sexo. Por outro lado, a preocupaçao dos dois profetas que seguem Bethany é
fazer sexo. O enredo inclui ainda um décimo terceiro apóstolo que diz que foi
excluído das Escrituras por ser negro.
Em 1997, o dominicano Frei Betto lança sua biografia de Jesus -
Entre Todos os Homens, tentando “demonstrar a identidade entre Jesus Cristo e
Erneto Che Guevara”, na tentativa, talvez, de delinear para Che o perfil de
Cristo latino-americano.12 O autor também se empenha numa tarefa muito
difícil - humanizar a figura de Cristo sem contrariar o relato do Novo
Testamento. Também nesse ano a Companhia das Letras traduz para o
português a versão de Deus - uma biografia de Jack Miles
Em 1997 a Record verte para o português O Evangelho Segundo o
Filho do representante da esquerda literária americana - Norman Mailer. Trata-
se de uma tentativa arrojada de escrever sobre Jesus na primeira pessoa, dando
oportunidade para que o próprio Cristo relate os acontecimentos sobre sua vida
simplesmente a vida de um homem que se torna mais sábio com o decorrer dos
anos. O narrador se utiliza da primeira pessoa, mas mesmo assim o ponto de
vista é exterior. O Evangelho de Mailer acaba por recriar um Cristo muito mais
humano do que divino e que não poupa crítica aos relatos dos outros quatro
evangelistas bíblicos: “Porquanto não diria que as palavras de Marcos sejam
falsas, elas contêm muito exagero. E mais ainda as de Mateus, e Lucas, e João,
que me atribuíram frases que nunca proferi, descrevendo-me como amável,
quando eu estava pálido de ira. Eles escreveram muito anos depois de minha
partida, apenas repetindo o que escutaram de homens mais velhos. Muito
velhos, mesmo. São Histórias tão sem fundamento quanto um arbusto
despreendido de suas raízes e que vagueia ao léu, tangido pelo vento.”13
A história do Cristo Histórico e do Jesus da Fé vem sendo recontada
e retomada pela História, pela Literatura e pelo Cinema, através de gerações,
séculos após séculos, pois há uma íntima ligação entre Teologia e Literatura.
Segundo Frye (1973, p.21), em sua Anatomia da Crítica, apesar da tipologia
bíblica ser uma linguagem morta e desconhecida até por eruditos, "a literatura
ocidental tem sido mais influenciada pela Bíblia do que por qualquer outro
livro..." Não é difícil constatar que não existe nenhuma outra história mais
representada do que esta nas artes plásticas nos últimos dois mil anos.
Por sua vez, logo após o lançamento do ESJC, também
aproveitando a "crista da onda", o escritor americano Gore Vidal, lançou, em

12 Para maiores esclarecimentos vide artigo Um Cristo latino-americado. In: A Notícia: Florianópolis, p. 15.
13 Norman Mailer. O Evangelho Segundo o Filho. Rio de Janeiro: Record, 1998, p. 7.
19

novembro de l993, Ao vivo do Calvário - O Evangelho Segundo Gore Vidal, no


qual literatura e ficção científica se misturam perfeitamente. O livro nos fala de
um vírus de computador que contamina e cancela toda a memória existente no
século XX sobre os quatro Evangelhos Canônicos. A única saída dos teólogos é
retornar ao ano 96 d.C. por meio de uma espécie de máquina do tempo, um
teletransportador, e convencer São Timóteo a compor a sua versão da vida de
Cristo, devendo escrever o seu evangelho e guardá-lo na catedral de
Tessalônica, que seria descoberta durante uma escavação arqueológica no final
do século XX.
A nova tecnologia científica e televisiva permite que São Timóteo
seja transportado para o passado em relação ao seu tempo, revisitando algumas
das principais passagens da história do Cristianismo, conforme a imaginação
sarcástica do autor. O trabalho de São Timóteo é muito complexo, pois além de
sofrer interferências do passado, sofre igualmente interferências do futuro, uma
vez que pode ver, através de um televisor, todo o "proselitismo ignorante e
vulgar dos fanáticos"14.
A carnavalização, a sátira deslavada faz-se presente, os personagens
bíblicos nos são apresentados com a seguinte performance: São Paulo,
desonesto, corrupto, devasso, homossexual, mentiroso, dado a luxúrias,
vingativo, capitalista, escravagista; uma "espécie de Fred Astaire que mistura
espetáculos de magia e sapateado aos seus sermões e prega contra o sexo, mas
insiste em apalpar as partes pudendas do belo São Timóteo"15; São Timóteo,
extremamente indolente nos trabalhos eclesiásticos, bissexual, bem dotado
sexualmente, amante do apóstolo Paulo; Cristo, charlatão, mentiroso, que
prometeu voltar e não voltou, comilão, gordo e pachorrento, um mero líder
populista, cujo milagre da multiplicação dos peixes, nessa versão, não passava
de desculpas para suprir sua gula. Neste evangelho, nos são relatadas todas as
orgias dos "santos" nos primórdios do cristianismo.
Como a tecnologia de teletransporte permite, diversas pessoas de
influentes redes de televisão americana são teletransportadas para as primeiras
décadas do século I da nossa era. A pirataria tecnológica invade a Teologia e
manipula as alterações do novo Evangelho de Timóteo a favor de seus próprios
interesses. O espaço se dilui, o tempo também, uma mesma pessoa pode voltar
ao passado com idades e idéias diferentes num só momento e confrontar-se
consigo mesma. O principal interesse das redes de televisão americana consiste
em conseguir a maior audiência do milênio e transmitir a crucifixão, ao vivo,
do Gólgota. Porém, na hora suprema, descobrem que, no passado, quem foi
crucificado foi Judas, e não Cristo.
N'O Evangelho Segundo Gore Vidal, não existe nada que não seja
profanação dos Evangelhos Bíblicos. O autor desconstrói e dessacraliza

14 Diogo Mainardi. "Rosário de Deboches". In: Revista Veja, São Paulo, Nov., 1991, p. 130.
15 Id. Ibid., p. 130.
20

sistematicamente todos os personagens bíblicos, os fundadores do cristianismo,


ataca passado, presente e futuro, com grande humor e sátira. Satiriza e
carnavaliza a figura de Cristo, transformando-O num charlatão obeso e
mentiroso. Mas o seu principal objetivo é mostrar que "a fé deve ser combatida
a todo instante porque é sempre manipulável"16 e prejudicial.
Em 1999, R. D. Bertozzi lança no Brasil Depois da Tempestade um
romance de ficção científica cujo enredo é o seguinte: no deserto de Negev, em
Israel, uma expedição de padres arqueólogos encontra os fragmentos do maior
ícone do cristianismo: a cruz onde Cristo foi crucificado. Acontece que nos
fragmentos sagrados da cruz de Jesus - são encontrados alguns fios de cabelos
do Mestre. A partir desse fato, desencadeia-se uma misteriosa trama liderada
pelo cardeal Clive que deseja clonar Jesus, pois crê que somente este fato
revolucionário traria a fé de volta às pessoas e a harmonia à terra. Para isto
conta com o apoio da alta cúpula da Igreja Católica e, a partir daí passa a
procurar uma noviça virgem e virtuosa que pudesse ser a mãe do Cristo
clonado.
Jim Crace, autor britânico - lança em 1999 – Quarentena - um
romance que se constrói a partir do inusitado, da ironia e da audácia, relatando
os quarenta dias que Cristo passou no deserto, acompanhado de quatro
personagens extremamente estranhos. Jesus, o quinto elemento, é ali chamado
pelo apelido íntimo que o narrador lhe dá – Gally – e tem um perfil físico
afeminado. Sua função maior nos parece ser sobreviver a própria quarentena
em meio a uma paisagem inóspita de uma Judéia imaginária de 2000 anos atrás
do propriamente salvar vidas humanas. Na realidade os milagres se Jesus
acontecem sem que ele se dê conta disso e o autor recria um Cristo humano.
Não é ele quem realiza os milagres, mas as pessoas que o cercam durante a
quarentena no deserto. São elas, em especial o mercador Musa, que interessado
no que possa lhe render financeiramente, quem constrói os milagres e os
propaga. Até o assassinato bárbaro de uma mula pode transformar-se num
milagre, descambando para a pura sátira
Nem o próprio Gally – Cristo – um jovem Galileu ingênuo e
analfabelto, tem consciência de que ele é o enviado, o Cristo e, além disso, ele
crê em vários messias e espera por eles:

“...porque, como todo novato seguidor de deus, ele


também tinha esperanças na imortalidade e rezava para
ver os messias. Rezava para que eles viessem à Terra a
fim de tornar deus mais palpável, a fim de ser mediador
entre deus e os conflitos do mundo. Mas será que os
messias enxotariam os romanos e os deixariam ficar,

16 Diogo Mainardi. Op. cit., p. 130.


21

incólumes? Nesso ponto, Jesus não admitia uma


perspectiva única.” p. 109, grifo nosso.

Em meio ao inusitado, o narrador é implacável com Deus. O


narrador de Quarentena sempre se refere a Deus, em letras minúsculas, só
utiliza a maiúscula quando – através do discurso indireto livre - penetra nos
pensamentos de Jesus. O Deus de Jesus/Gally é o Deus das iniciais maiuscúlas
enquanto que o deus do narrador, sempre será um deus com minúscula:

“Não, não, a palavra “deus” não é forte o suficiente para


que procuro”, p. 56

“Porque com o diabo se pode negociar e depois exorcizar.


Deus, porém, é implacável e instável. Ninguém pode se
desfazer de deus.” p. 190, grifo nosso.

Aqui o evangelho de Crace, que também é ateu, vai ao encontro do


evangelho de Saramago, pois critica Deus, a Trindade e o papel de Cristo nessa:

“Ele era um ovo imerso em água fervente, uma trindade


de gema, clara e casca fundidas e divididas” p. 76,
grifo nosso

Por outro lado, Crace é complacente com o o demônio, tal como


Saramago:

“... o demônio era apenas uma desculpa; uma justificativa


para as fraquezas de uma pessoa, alguém em quem pôr a
culpa.” p.147

“De fato, o demônio era a prova viva da existência de


deus, porque tudo o que deus criou é fraco, maculado e
imperfeito por desígnio. O caldeirão de deus rachara
dentro do fogo, para que seus filhos e filhas, com seu
trabalho e orações, pudessem restaurá-lo até a perfeição.
O demônio ocupava as rachaduras e esperava de tocaia
como um ladrão. Deus o colocou ali. Negar a presença
do demônio era se virar contra as máculas perfeitas de
deus.” p. 148, grifos nossos

“Graças a deus até mesmo pelo demônio, porque o


demônio era sinal de deus.”, p. 148, grifo nosso.
22

Com uma certa dose de humor, Crace acerta o tom e mostra os


limites entre a locura e a fé de um povo e, principalmente que o próprio
Messias não se dá conta de quem ele é e espera pelo Salvador. Se ele se
transformará num enviado é por culpa de um mercador que pretende enriquecer
a partir da imagem que ele cria do jovem Galileu.

Não há quase ninguém que desconheça esta história em que aparece


uma manjedoura, magos, Jesus, Maria, José, revelações, pregações e um fim
extremamente trágico, com humilhação e morte. Pode-se crer ou não na origem
sagrada da história, mas ela é conhecida por todos: um judeu da Galiléia, com
reputação de doutrinador e fama de obrar milagres surge em Jerusalém aos 33
anos, durante a páscoa judaica. A partir daí, em três dias, desenvolve-se uma
história de solidão, humilhação e morte que acompanha a humanidade há vinte
séculos.17 É Norman Mailer que afirma que “a história em si não faz muito
sentido. Deus manda seu filho à terra com o objetivo de salvar a raça humana.
Faz questão que ele venha como um homem de carne e osso para tornar sua
mensagem mais eficiente. Então você lê o Novo Testamento e o que encontra?
Um anjo, um super-homem, alguém superior a tudo, que nunca comete um erro,
nunca falha e faz tudo certo até o fim, e, então, pregado na cruz exclama: ‘Pai,
por que me abandonastes?’ É contraditório.”18
Quer nos parecer que o final do milênio está sendo marcado por
reescrituras romanceadas da Vida e Morte de Jesus Cristo: O Evangelho
Segundo Jesus Cristo de José Saramago, Ao Vivo do Calvário - O Evangelho
Segundo Gore Vidal de Gore Vidal, O Evangelho Segundo o Filho de Norman
Mailer e Quarentena de Jim Crace. Estaríamos nós presenciando na virada do
milênio o surgimentos daquilo que chamaríamos de Evangelistas do Terceiro
Milênio? Citamos aqui Salman Rushie: “Se a religião é uma resposta, se a
ideologia política é uma resposta, então a literatura é uma interrogação.”
Estariam as difíceis interrogações do cristianismo encontrando respostas no
campo próprio da ficção literária? É novamente Mailer quem complementa ao
declarar: “cheguei à conclusão de que talvez a melhor abordagem para essa
história seja a de um romancista.”19
O próprio narrador do ESJC tem consciência de que essa história
vem sendo contada e recontada há mais de 2000 anos ao dizer que, na verdade,
só um "habitante de outro planeta" ou um "ïnimaginável ser ignoraria" (p. 15)
tal história. Perguntamos, por que então, José Saramago resolveu revisitar esta

17 Conforme Maurício Cardoso em "Jesus 2000 - Os desafios do cristianismo às portas do novo milênio"
In: Revista Veja, São Paulo, Dez, 1999, p. 168.

18 Norman Mailer. Rebelde em paz In: Revista Veja, São Paulo: Abril, fev de 1998, p. 10.
19 Norman Mailer. Op. cit., p. 10.
23

"história afinal arquiconhecida" e milenarmente recontada? Ele mesmo


responde, ao permitir que o narrador do Evangelho Segundo Jesus Cristo assim
se expresse: "mas ao narrador deste evangelho não parece que seja a mesma
coisa, tanto no que toca no passado como que o futuro há-de tocar..."(p. 127)
E veremos que não é mesmo. Embora recontando a história mais
explorada nos livros no último milênio, o autor o faz de uma maneira
estranhamente teológica, visto que, apesar de ser uma paródia sacrílega aos
Evangelhos, seu (Des)evangelho não deixa de ser religioso20, uma vez que
defende uma humanismo quase radical, pois escreve seu evangelho IN
NOMINE HOMINIS.
E é EM NOME DO HOMEM, que Saramago constrói ao longo de
toda sua obra um Deus muito estranho que tem um gosto refinado pelo sangue
das meras cobaias humanas - The God of Labyrinth.

20 No sentido de "qualquer filiação a um sistema específico de pensamento ou crença que envolve uma
posição filosófica, ética, metafísica, etc"ou ainda "modo de pensar ou de agir, princípios...", conforme
Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Op. cit., p. 1480.
24

“Jesus é um momento de significação


ininterrupta: um signo de leitura infinita.”
Paulo Leminski
25

CAPÍTULO II
EM NOME DO HOMEM

2.1. A PRESENÇA DE DEUS NA OBRA DE


SARAMAGO

Há de se pensar que a teologia humanista de Saramago inicia-se com


o ESJC, o que não é verdade, pois o gérmen está plantado por toda seus livros
anteriores. Em Levantado do Chão (1982), Memorial do Convento (1983), A
Jangada de Pedra (1986), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1989), a
carnavalização das figuras de Deus, de Cristo, do Diabo, personagens da
“história afinal arquiconhecida”, de episódios do Novo e Velho Testamento,
bem como de sentenças importantes da Bíblia, da Igreja Católica e dos milagres
estão sempre presentes.
Já a partir do seu primeiro romance, Levantado do Chão, Saramago
vai montando um laribinto intrincado em forma de quebra-cabeça, recheando de
farpas e espetadas os tópicos centrais da doutrina cristã. Sobre esse aspecto
percebemos sua obra como uma espécie de laboratório, ao longo da qual é
contruída, tópico por tópico, a sua Teologia do Ateu, pontos esses que irão se
juntar para explodir no (des)evangelho, o Evangelho “às avessas” que é o
ESJC. Porém, de todos os tópicos acanônicos gestados, cuidadosamente, no
decorrer dos seus quatro romances, a figura de Deus merece uma preocupação
especial por parte do escritor, sendo profanada completamente. Há um deus
muito estranho, The God of Labyrith, alusão que fazemos ao livro que Ricardo
Reis, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, sempre carregou consigo e nunca
conseguiu ler. Este Deus do Labirinto é um enigma, uma charada que vai sendo
montada, arquitetada a cada livro do autor.
Quando Saramago relê em suas obras episódios bíblicos em que
Deus está presente, a inversão é marcante, pois tudo é descontruído. O episódio
da expulsão de Adão e Eva do Paraíso é relido em OMRR, p. 223 e 224. De
certa forma é o casal edênico que expulsa Deus do paraíso, instaurando o que
poderíamos chamar de gênesis às avessas, pois há uma releitura demoníaca do
episódio e o absurdo da expulsão dos dois do Paraíso narrada no Gênesis é
questionado. Eva é redimida pelo narrador, que a livra de qualquer culpa e já o
Diabo é excluído de qualquer responsabilidade pela queda e expulsão do
primeiro casal do Jardim do Éden.
O sentido, a mágoa, o sofrimento presentes no episódio da expulsão
de Adão e Eva do Paraíso são totalmente invertidos. Adão e Eva deliciam-se,
26

tranqüilamente, com sua bolacha, numa ceia sagrada e íntima, excluindo Deus
de tal banquete, visto que foram expulsos do Jardim por Ele. Deus fica triste,
sente-se sozinho, pois o paraíso não é mais onde Deus pensara que fosse, dentro
do Jardim do Éden, mas sim do outro lado dos portais deste Jardim e é para lá
que Deus terá que ir quando quiser encontrar suas criaturas e desejar
companhia. A inversão processa-se, a tristeza e o remorso recaem sobre Deus e
não sobre o casal.
Se todos os narradores, instituídos por Saramago no decorrer de sua
obra, têm uma preocupação constante em satirizar os personagens bíblicos,
episódios do Velho e Novo Testamento, os milagres e a Igreja Católica, nada,
em todos eles, é tão marcante como a ironia que destinam à figura de Deus. Há
um perfil específico que os narradores imprimem ao Iahweh de Saramago.
Observemos como já em Levantado do Chão, a preocupacão com
Deus se faz presente:

“...Deus no céu, como podes tu não ver estas coisas, estes


homens e mulheres que tendo inventado um deus se
esqueceram de lhe dar olhos, ou o fizeram de propósito,
porque nenhum deus nenhum é digno do seu criador, e
portanto não o deverá ver.”
LC, p. 220,221.
Há diversas outras sátiras profanas em LC, mas privilegiamos apenas
a citação anterior. O narrador de LC acusa Deus de apoiar o latifundiário e a
própria escravidão, e afirma que Ele simplesmente não existe pois, se existisse,
teria criado o homem pelo menos superior aos carneiros e porcos.
Proporcionalmente à aversão que o narrador demonstra por Deus, já aqui se
nota o seu apego às criaturas humanas que são mais desprezadas por Deus do
que os porcos, pois esses, pelo menos, têm o que comer.
Na citação acima, Deus é inventado, criado pela imaginação dos
homens que esqueceram de dar olhos a este deus e, assim, ele não pode
enxergar o seu criador ou criadores, as mazelas daqueles que o criaram. O fato
de Deus ter sido criado cego pode ter sido por esquecimento ou de propósito,
uma vez que Deus não é digno dos seu criador (O HOMEM) e, dessa maneria,
não o deverá ver. A profanação é evidente, o homem é transformado em criador
e Deus, em mera criatura.
Os contornos do Deus do Labirinto começam a ser tornar um pouco
mais nítidos. Continuemos a observar o amadurecimento desta estranha
ateologia e veremos como se fortalece o perfil do Deus de Saramago.
Analisemos um trecho do Memorial do Convento, obra em que o narrador
assume quase sempre a profanação do discurso religioso, em especial do
personagem divino. Há uma tensão muito forte entre o sagrado e o profano na
obra e o próprio discurso é herético, uma heresia literária, pois os dogmas
27

religiosos são tratados sob o prisma desconcertante da paródia e ironia como


tão bem colocou Tereza Cristina Cerdeira da Silva21:

“...à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o


nada, a ausência, portanto Deus é maneta.” MC, p. 68.

“ Talvez à esquerda de Deus esteja outro deus, talvez Deus


esteja sentado à direita doutro deus, talvez Deus seja só um
eleito de outro deus, talvez sejamos todos deuses sentados...”
MC, p. 238.

Na primeira citação, a blasfêmia ocorre, justamente, pela boca do


Padre Bartolomeu de Gusmão ao afirmar que Deus é maneta, aleijado e além
disso, extremamente solitário. O profano evidencia-se no discurso herético, pois
Deus é comparado a um aleijado de guerra, remetendo-nos ao Deus cego de
Levantado do Chão.
Na segundo trecho acima, o mundo carnavalizado instaura-se. O
próprio modelo uno da Trindade que reúne Pai, Deus Filho e Espírito Santo é
questionado através de uma ironia mordaz. O grande Jeová dos cristãos
aparece, sentado à direita doutro deus e eleito deste deus e, por fim, a heresia
suprema: “talvez sejamos todos deuses sentados...” Ou seja, os verdadeiros
deuses talvez sejam as frágeis figuras humanas.
A Teologia do Ateu amadurece, consideravelmente, no Memorial do
Convento e novos atributos são concedidos ao Deus do Labirinto: aleijado,
solitário, envergonhado da sua criação, um mero deus, eleito por outro deus, um
deus a mais no Olimpo. Proporcionalmente a essa destruição herética dos
atributos divinos, há uma opção quase que radical pelo humanismo, uma vez
que o humano é elevado ao divino.
A ateologia se consolida ainda mais em O Ano da Morte de Ricardo
Reis:
“Deus é o administrador do futuro[...] ou é mau gerente desse
capital, como se desconfia, pois nem o sei destino foi capaz de
prever...” OAMRR, p. 175.

“...toda a gente sabe que Deus castiga sem pau nem pedra, do
fogo é que tem longa prática. OAMRR, p. 373.

No primeiro parágrafo mencionado temos a negação radical da


onisciência divina. No segundo, já prenunciando o caráter sanguinário que lhe é

21 Para maiores esclarecimentos sobre o discurso herético em Memorial do Convento, consultar o item
2.4 A trangressão do código religioso: a heresia, Capítulo 2 do livro José Saramago entre a história
e a ficção: uma saga de portugueses de Teresa Cristina. C. da Silva. Lisboa: Dom Quixote, 1989.
28

atribuído no ESJC, a crueldade de Deus, impiedoso, sem falar na preferência


pelo fogo, do qual “tem longa prática”.
Como constatamos, no decorrer de sua obra romanceada, Saramago
vai montando um grande vitral, “um enigma, um quebra-cabeças, um labirinto,
uma charada...”(OAMRR, p. 362), para compor a imagem definitiva do seu
Deus. Além de satirizar e carnavalizar a imagem de Cristo, pensamentos e
sentenças bíblicas, os milagres e própria Igreja Católica, é em Jeová que se
concentra o principal tópico de sua teologia acanônica. Suas obras funcionam
como um laboratório, no qual o autor concebe e gesta, pacientemente, a figura
divina, pois n’OAMRR, as primeiras dores do parto fazem-se sentir, já há
indícios de que o nascimento se aproxima: “...se reconhecerá quanto é urgente
rasgar ou dar sumiço à teologia velha e fazer uma nova teologia, toda ao
contrário da outra...”, p, 65. E é justamente isso que Saramago faz: acaba com
toda a teologia velha e cria uma nova, em vez de Teocêntrica, Antropocêntrica
por excelência.
Os contornos do Deus do labirinto amadurecem no decorrer da obra
do escritor, e explodem em cascata de “prodigiosa imaginacão” na composicão
do Deus do ESJC.
Se a imagem do Deus do Labirinto é focalizada minuciosamente no
(Des)evangelho Segundo José Saramago, sua surpreendente teologia não
termina neste livro. A peça In nomine Dei funciona em toda a sua composicão
temática e enredo, como um poslúdio comprobatório da mesma.
A peça retrata as disputas sangrentas entre os fanáticos Anabatistas e
os Católicos de Münster em 1.532, e nela Deus é acusado de não ter
exterminado o Mal, por ocasião da queda de Lúcifer, unicamente para que o
homem pudesse ficar sujeito à tentação. Também questiona o fato de Deus
precisar de tantas mortes para provar sua grandeza. A loucura da pregação e o
fanatismo religioso são os tópicos centrais desta peça.
No final de In Nomine Dei, poucos minutos antes de sua morte, a
personagem Gertrud, fiel anabatista, se recusa a renunciar a sua fé e, perante o
bispo Católico Waldeck, pronuncia um discurso que nos parece comprobatório
da doutrina humanista que é O Evangelho Segundo Jesus Cristo:

“O Senhor lhe pedirá contas, como mas vai pedir a mim, e a ti,
bispo, quando chegar a sua vez.
Mas eu perguntarei ao juízo de Deus por que permite Ele esta
mortandade dos homens que vem desde o princípio do mundo,
Estes ódios de crenças, estas vinganças de povos, esta
interminável dor do mundo,
A quem não basta a morte natural.”(IND, p. 146).

Se ousamos afirmar que In Nomine Dei é um poslúdio


comprobatório do Evangelho Segundo Jesus Cristo, o fazemos baseados no fato
29

de que sua temática, o seu enredo e os principais questionamentos ali


apresentados são mencionados pelo próprio Deus em tensa conversa com
Cristo, no episódio da barca, que será estudado detalhadamente no terceiro
capítulo deste livro. Mencionamos apenas um trecho da fala apocalíptica entre
Deus e Cristo:

“A inquisição é outra história interminável(...) A Inquisição, também


chamada Tribunal do Santo Ofício, é o mal necessário, o
instrumento crudelíssimo com que debelaremos a infecção que um
dia, e por longo tempo, se instalará no corpo de tua Igreja por via
das nefandas heresias em geral(...) incluirá luteranos e calvinistas,
molinistas e judaizantes, sodomistas e feiticeiros, mazelas algumas
que serão do futuro, outras de todos os tempos(...) Condenará a quê?
Ao cárcere, ao degredo, à fogueira. À fogueira, dizes, Sim, vão
morrer queimados, no futuro, milhares e milhares e milhares de
homens e mulheres, De alguns já tinhas falado antes, Esses foram
lançados à fogueira por crerem em ti, outros sê-lo-ão por
duvidarem(...) Centenas de milhares, Morrerão centenas de
milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de
dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobriráo
sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro
agoniará, e tudo isto será por minha culpa...”ESJC, p. 390, 391
(grifos nossos).

O parágrafo acima funciona como uma espécie de sumário de tudo o


que temos em In Nomine Dei. A rebelião dos protestantes da Alemanha do
século XVI, “nefanda heresia em geral” inclui uma disputa fanática e sangrenta
entre Católicos, Protestantes Reformistas, Protestantes Luteranos e Anabatistas.
Os mesmos, por causa de uma série de divergências teológicas, envolvem-se
numa tensa disputa, na qual a cidade de Münster, ocupada pelos Anabatistas, é
sitiada por Católicos. Ocorrem discussões, heresias, muita fome, são feitos
muitos reféns, pessoas são queimadas em fogueiras, umas por crerem em Deus,
outras por duvidarem dele; enfim, acabam por se destruírem mutuamente. A
pergunta da personagem Gertrud sobre o porquê de tanta mortandade entre os
homens, dos ódios entre as crenças, das vinganças, da interminável dor do
mundo, nos momentos finais de sua vida, antes de ser sacrificada, já havia sido,
anteriormente, respondida pelo próprio Deus, na Barca, com a maior
naturalidade possível:“A alargar a minha influência, a ser deus de muito mais
gente...” ESJC, p. 370.
Após este pequeno estudo comparativo entre O Evangelho Segundo
Jesus Cristo e os quatro livros anteriores a ele, observamos que além das
confluências textuais do texto de Saramago com o de outros autores, o que será
estudado no próximo tópico, também ocorre um diálogo entre as próprias obras
do autor. Pertinente a assuntos religiosos, ousamos afirmar, emprestando e
30

ampliando um termo usado por Osman Lins, que há um “enredamento”22


teológico, no decorrer da obra do escritor pois, como vimos, há em todas elas
uma preocupação com a temática cristã.
Proporcionalmente à estranha e verdadeira imagem de Deus,
formada no decorrer da obra do autor, localizamos neste labirinto a real
situação daqueles que também ocupam o outro lugar central no (Des)evangelho
do Quinto Evangelista: as meras cobaias de Deus. Os indefesos homens,
confusos e inseguros, são menos considerados que os estorninhos, que os
carneiros, que os próprios e imundos porcos, “pau para toda a colher” ou
“falando em termos gerais, é a melhor coisa que podia ter sucedido aos
deuses.”ESJC, p. 372.
Em toda a sua obra, em especial no Evangelho Segundo Jesus Cristo
“o ateu investe contra a religião e contra os deuses, esses seres cruéis,
profissionais da manipulação do pecado e do sentimento de culpa.”23
Finalizamos este tópico no qual objetivamos localizar a construção
do Deus do Labirinto em algumas obras de José Saramago, citando uma
metáfora para homem na nova “teologia humanista”: “...que os homens são
anjos nascidos sem asas é o que há de mais bonito, nascer sem asas, fazê-las
crescer...” MC, p. 137.
O narrador de Memorial do Convento utiliza uma metáfora quase
lírica para revelar a real situação dos homens. Após decifrarmos a charada
presente nos diversos discursos dos narradores instituídos pelo autor, e
compormos o quadro definitivo do Deus do Labirinto, descobrimos que os
homens, no que concerne à Religião Cristã, aparentam-se, em sua obra, a anjos
sem asas, mutilados, para os quais, infelizmente, não há nenhuma possibilidade
de alçar vôo.
Os inocentes anjos aleijados são sufocados pelo Deus cruel e
sanguinário do cristianismo, meras cobaias, mas, ainda assim, talvez, os
verdadeiros e únicos deuses. Saramago gesta ao longo de toda sua obra, com
um sopro lírico, um evangelho, escrito em nome do Homem, que cuja
construção nos lembra um verdadeiro calidoscópio profano. O que ocorre, no
transcorrer de suas obras é um afunilamento dessa temática, que irá explodir
como vulcão em erupção, jorrando lavas de prodigiosa imaginação no seu
Evangelho Segundo Jesus Cristo.

2.2. CALIDOSCÓPIO PROFANO

22 Osman Lins. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976, p. 95. Sobre este particular o
autor esclarece que: “Podemos com certeza, ir mais longe e afirmar que uma determinada obra enreda
-se, não raro, nas demais obras do mesmo escritor.”p. 95.
23 Roberto Pompeu de Toledo. Op. cit, p. 96, grifo nosso.
31

Antes de nos aproximarmos das “boas novas” presentes no ESJC,


apontaremos algumas confluências textuais ali existentes, procurando
identificar, não as “fontes” de que se teria valido Saramago, para realizar o seu
texto, mas sim o diálogo que seu (des)evangelho estabelece com outros textos.
As confluências textuais são importantes na composicão do livro,
uma vez que o ESJC como escritura-réplica, estabelece um diálogo, na maioria
das vezes, corrosivo, com outros textos, num trabalho intertextual constante e
cabe aqui relembrar que segundo Kristeva “...todo texto se constrói como
mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto.”24
E é Robert Stam quem complementa ao esclarecer que os intertextos
“...são citações conscientes, e até mesmo inconscientes de outros textos. São
fusões e inversões de citações...”25 Esta é uma das chave para a leitura do
romance: citações, intertextualidade, interdiscursividade. Sobre esse aspecto
cabe lembrar que:

“ ...não se trata de uma simples retomada de um enunciado


antigo numa enunciação nova, mas de uma voluntária
apropriação da enunciacão anterior que vem transformada,
travestida, violada quer pela inversão da fórmula consagrada,
quer pelo humor que corrói a citacão literal, quer pelo
deslocamento que impõe ao discurso anterior uma relação
outra com o seu novo contexto. Isto é, insistimos, que é pelo
trabalho da linguagem, que este novo evangelista corrói o
modelo bíblico.”26

Com os Evangelhos Canônicos há momentos em que o autor faz


citações literais dos mesmos (pregação de João Batista no deserto) e em outros
mescla diversos textos bíblicos (crucificados de Séforis). O trabalho de
intertextualidade com os textos bíblicos, algumas vezes reforça o que o
(des)evangelho nos conta (milagre ocorrido com o paralítico) e em outros
auxilia a carnavalização de episódios como no relacionamento de Maria
Madalena e Cristo.
Alguns dos Evangelhos Apócrifos27 (Proto-Evangelho de Tiago,
Evangelho Pseudo-Tomé, Evangelho Árabe da Infância, Evangelho Apócrifo
Segundo Felipe, Evangelho Apócrifo de Nicodemus) são citados em diversas

24 Julia Kristeva. A palavra, o diálogo e o romance. In: Introdução à Semanálise. São Paulo: Perspectiva,
1974, p. 64.
25 Robert Stam. O espetáculo interrompido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 29.
26 Teresa Cristina Cerdeira da Silva . O quinto evangelista ou da tigela ao graal. In: Anais do XIV Encontro
de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa. Porto Alegre:Edipuc,1994, p.187.
27 Segundo Maria Helena de O. Tricca (comp). Apócrifos - Os proscritos da Bíblia. São Paulo: Mercuryo,
1992, p. 12, a palavra apócrifo procede do “grego apokryphos, pelo latim apokryphu, e significa
literalmente algo ‘oculto’, ‘secreto’ e posteriormente o termo passou a ser usado para distinguir
não só o livro de ‘autenticidade duvidosa’, mas principalmente os ‘espúrios’ou ‘suspeitos de heresia’-”.
32

vezes para preencherem os chamados “vazios”28 da narrativa bíblica, ou seja,


aqueles momentos em que o texto bíblico se cala sobre determinado período de
tempo, como por exemplo, o que teria acontecido com Cristo dos 12 aos 30
anos. É reproveitando este “vazio” do relato bíblico sobre a vida de Cristo, que
o autor construirá as suas angústias existenciais, o seu aprendizado com o
Diabo no no deserto, etc. Cabe lembrar que são conhecidos aproximadamente
60 evangelhos apócrifos.
Muitos episódios são recriados a partir de motivos presentes nos
Evangelhos Apócrifos como a criacão da parteira Zelomi, a prova para eliminar
a incredulidade do discípulos Tomé, a existência de outros irmãos de Cristo e a
predileção e amizade especial que Cristo manifestava por Madalena.
O diálogo proposto pelo texto de Saramago, vai além, ao cruzar-se
com outra “série”, quando, por exemplo, recria personagens as quais, além de
serem conhecidas através do discurso teológico, fazem parte da História, como
Cristo e Herodes. Ao lado do Cristo da Fé, do Cristo Teológico, do Cristo
Messias e Redentor, aquele que não precisa ser legitimado pela pesquisa
história, Saramago retoma o Cristo Histórico, aquele que, concretamente,
“viveu e morreu na Palestina antes do ano 70 de nossa era”29. Podemos
observar o peso da história na narrativa, pois temos uma cronologia
determinada, um esquema político-religioso bem delineado e um tempo
litúrgico bem demarcado.
Os críticos já haviam apontado o fato de que Saramago “não é autor
de fazer romances do nada ou de apenas alguns fiapos de História”30,
possuindo a capacidade de viajar no túnel do tempo, reconstituindo a história
como um “arqueólogo do imaginário”, devolvendo, no caso do ESJC, a
arquitetura, os barulhos, os costumes locais, os mercados, o cheiro do sangue
dos sacrifícios no templo de Jerusalém, num perfeito “retrato do cotidiano”,
compondo um admirável “fresco da época”, tratando o romance histórico com
“invenção e fantasia”, segundo Luciana Stegagno Picchio.
Sobre a questão dos tênues limites entre história e ficção na obra de
Saramago, se é que eles existem, seria conveniente falar de “uma História que
se quer ficção e não apenas de uma ficção que compactua com a História”31. É
o próprio romancista, em um artigo versando sobre essa problemática, quem
esclarece que “...estes dois vastos mundos, o mundo das verdades históricas e o

28 O historiador John P. Meier (Um Judeu Marginal - repensando o Jesus Histórico, p. 32), aponta para o
fato de que o próprio cristianismo aceita a existência dos chamados “os anos obscuros” da vida de
Jesus que compreendem praticamente toda a sua vida, exceto três ou quatro anos, correspondentes
aos de seu ministério.
29 James H. Charlesworth. Jesus dentro do Judaísmo. Rio de Janeiro: Imago, 1992, p. 27.
30 Roberto Pompeu de Toledo. Op. cit, p. 91.
31 Teresa C. Cerdeira da Silva. José Saramago - entre a história e a ficção: uma saga de portugueses.
Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 26.
33

mundo das verdades ficcionais, à primeira vista inconciliáveis, podem vir a ser
harmonizados na instância narradora.”32
E é exatamente isso que o autor faz no ESJC, ou seja, os dados
históricos são entretecidos, enredados no tecido ficcional, sem limites e
imposições, conciliados e harmonizados.
Outro intertexto utilizado e, de certa forma, também indicado pelo
próprio narrador, é o intertexto com a pintura, uma vez que alguns episódios
são construídos a partir da observação de certos quadros ou gravuras, como por
exemplo, a cena de abertura, a crucifixão de Cristo. Esta cena, o mórbido
emblema europeu da agonia do filho do homem na cruz que cultua a morte em
vez da vida, foi composta a partir da mescla de três gravuras de Dürer (1471-
1528): Madalena abraçada à cruz, A grande crucifixão e A crucifixão).
Saramago coloriu sua letra com as cores da paleta de Dürer, numa homenagem
da escrita ao artista que é considerado um dos maiores pintores alemães.
A narrativa tem uma correspondência muito próxima com a pintura,
pois além do episódio da crucifixão de Cristo, que abre o livro, ser uma leitura
detalhada das gravuras de Dürer, dois outros episódios do livro, os primeiros
passos de Jesus e João Batista no deserto, guardam profundas relações com,
respectivamente, A Madona da Serpente e São João Batista de Caravaggio33.
A correspondência pintura/literatura é uma estratégia utilizada para aguçar
ainda mais a percepção do leitor, que, se conhecedor de pintura, fará uma
leitura mais profunda do texto.
O diálogo com outros textos da literatura ocorre com a citação de
dois consagrados escritores portugueses: Camões, o príncipe dos poetas
portugueses segundo Hernani Cidade e com o supra-Camões: Fernando Pessoa.
O vilancete extraído diretamente da lírica camoniana (Descalça vai Maria,
descalça vai ao campo... ESJC, p.31) é chamado ao texto de Saramago para
reforçar a dessacralização da personagem Maria e a citação de Pessoa, num dos
momentos mais tensos do livro, a cena da barca, também corrobora a
carnavalização, pois a intenção do narrador é implantar uma dúvida, melhor,
quase certeza, no leitor: o Diabo, talvez não passe de um mero Heterônimo de
Deus, sem nenhuma possibilidade de livrar-se da maldade despótica e
sanguinária de seu criador.
Os intertextos mapeados no ESJC têm uma funcionalidade definida:
corroem o texto primeiro, proporcionam o nascimento de um segundo texto
cuja finalidade é reforçar o posicionamento do autor implícito em relacão às
suas criaturas. O autor compôs um vitral colorido e multifacetado, absorvendo,
transformando, reescrevendo, ironizando, replicando os textos citados,
debruçando-se sobre outros saberes, o que caracteriza toda a obra de Saramago.
Um rico espelho que reflete em si pinturas, escrituras e poesias; enfim, um

32 José Saramago. “História e ficção.” In: Jornal de Letras. Lisboa, 1990, p. 17.
33 Roberto Pompeu de Toledo já havia apontado isso em seu artigo “Cristo e o Deus Cruel”, p. 91-93.
34

calidoscópio desenvangelizador, no qual os únicos canonizados são os seres


humanos.
Todos esses intertextos, aliados a sua “prodigiosa imaginação”, a sua
“fantasia e invenção” e a sua “arqueologia do imaginário”, serão utilizados na
reconstrução do seu Cristo, do seu Diabo, do seu Herodes, do seu evangelho
apócrifo.

3.3. UM ESTILO ENDIABRADO


Para dar conta da riqueza que envolve o estilo e as técnicas do
narrador do ESJC seria necessário outro livro, mas tentaremos de forma, ainda
que panorâmica, abordar os principais recursos utilizados pelo desevangelista.
O encanto por todas as obras de Saramago provém da maneira única como ele
concebe a figura do narrador:

“Quando nos deixamos seduzir pelos romances de Saramago


não é difícil perceber que grande parte dessa sedução nasce do
nosso envolvimento com a figura do narrador. É ele que
parafraseia, parodia, se apropria impunemente do discurso do
outro para amalgamá-lo no tecido novo de seu discurso onde
se cruzam muitas falas, cultas ou populares, citações
camonianas e provérbios que fazem parte do inconsciente
cultural da língua. É ele quem ousa transformar a citação
nesse trabalho consciente e maduro de quem passeia com
intimidade pela língua para criar voluntariamente um
texto de segunda mão.”34

O narrador d'O Evangelho Segundo Jesus Cristo reconta "uma


história afinal arquiconhecida", mas reconhece que, para ele, esta história "não
parece que seja a mesma coisa, tanto no que toca ao passado como que no
futuro há de tocar..." Por outro lado, ao reconstruir a história milenarmente
conhecida, o narrador refere-se ao seu texto, por diversas vezes, como
“evangelho”(p. 221) e se auto-intitula "evangelista", como observaremos no
exemplo abaixo:

"...toda a história de Jesus que já conhecemos foi ali narrada,


incluindo, até, certos, pormenores que então não achámos que
merecessem a pena, e muitos e muitos pensamentos que
deixámos escapar, não porque Jesus no-los disfarçasse, mas
simplesmente porque não podíamos, nós, evangelista, estar
em todo o lado."ESJC p. 308 (grifo nosso)

34 Teresa Cristina Cerdeira da Silva. Op. cit., p. 183 - grifo nosso.


35

Esse narrador/evangelista, ao compor o seu evangelho, utiliza uma


série de recursos. O mesmo não demonstra preferência pelo narrar (telling) ou o
mostrar (showing)35. O narrador, durante toda a obra, mescla a narração com as
descrições e as cenas, raramente utilizando o sumário, alcançando precisão e
perfeição em todas estas técnicas usadas para a construção do enredo. Ao lançar
mão constantemente de cenas, aproxima o texto do teatro.
Sobre o estilo da narrativa bíblica é Mailer quem acrescenta que
sempre “se sentiu incomodado com o desconcertante desequilíbrio do livro do
ponto de vista estético. Alguns trechos são tão extraordinários que só se podem
comparar a Shakespeare. Outros têm um estilo pedestre, sem inspiração, escrito
às pressas.”36
O narrrador do ESJC é detalhista e nada lhe passa desapercebido;
por isso, em certos episódios, utiliza-se de descrições, nas quais ocorre um
lirismo intenso. A presença do narrador, através do discurso figurativo,
denuncia o seu perfil e o seu estilo. Temos descrições metafóricas, descrições
cromáticas, descrições olfativas e descrições cênicas (nas quais o dramático se
faz presente e o narrador desaparece, deixando as personagens face a face,
como no teatro).
Observemos a riqueza das descrições metafóricas:

"Um crepúsculo cinzento confundia o céu com a terra. O sol


ainda não se pusera... José apurou o ouvido, deu alguns
passos, e de repente eriçaram-se-lhe de pavor os cabelos,
alguém gritara na aldeia, um grito agudíssimo que nem
parecera de uma voz humana, e logo depois, um clamor de
novos gritos e prantos encheu a atmosfera, não eram os anjos
chorando sobre as desgraça dos homens, eram os homens
enlouquecendo debaixo de um céu vazio..." p. 112.

Como exemplo de descrição olfativa, temos:

"Calhou estar o tempo como de rosas acabadas de colher,


fresco e perfumado como elas, e as estradas limpas e amenas
como se adiante andassem anjos salpicando de orvalho o
caminho, para depois o varrerem com vassouras de loureiro e
murta."ESJC, p. 407.

Também há descrições extremamente cromáticas:

35 Termos usados por FORSTER, E.M. Aspectos do romance. Porto Alegre: Globo, 1968.
36 Norman Mailer. Rebelde em paz. In: Revista Veja. São Paulo: Abril, 11 fev, 1998, p. 9.
36

"No horizonte, lá no último fim do deserto, apareceu o bordo


duma lua vermelha. Fala, disse André, mas Jesus esperou que
a lua toda se levantasse da terra, enorme e sangrenta, a lua, e
só depois disse ..." p. 436.

Fizemos essa distinção entre descrição metafórica, dramática e


cromática só por uma questão metodológica, visto que elas estão agrupadas
ricamente.
Essas descrições não possuem apenas a função decorativa; pelo
contrário, tornam-se muito importantes ao observarmos que elas são utilizadas
em momentos cruciais da narrativa, acompanhando o posicionamento do
narrador favorável ou desfavorável a determinados personagens. O primeiro
exemplo ocorre após o episódio da matança dos inocentes de Belém, tem um
aspecto trágico e o narrador a utiliza para reforçar a antipatia pelo personagem
José, que nada fez para impedir as mortes das crianças, e contra Deus,
igualmente culpado.
O segundo trecho é de uma descrição olfativa e acontece antes da
narração de uma viagem de Jesus e Madalena. A utilização de "rosas",
"perfumado", "orvalho", "loureiro" e "murta" levam o leitor a quase sentir o
cheiro da estrada, a frescura daquela noite. A maneira como são descritos o
espaço e a atmosfera coberta por uma aura mágica é um índice de que o
narrador simpatiza com o casal e aprova o sentimento existente entre eles. A
pureza e o lirismo pungente da descrição, que inclui "anjos" e "rosas", funciona
como uma metáfora da pureza da relação dos dois, relacionamento este que será
poupado pelo olhar irônico do narrador.
A citação terceira é uma descrição cromática - "uma lua vermelha",
e acontece exatamente no momento em que Cristo vai dizer aos discípulos que
quer morrer apenas como Rei dos Judeus e não como Filho de Deus, tentando
assim evitar o destino sangrento da espécie humana. Cristo espera pela lua para
continuar o seu discurso e a lua vermelha molda os discípulos e Cristo com uma
auréola de sangue e os transforma em espectros da morte. Ela representa,
metaforicamente, o destino da raça humana, conforme se pode ler no episódio
do encontro entre Deus, Jesus e o Diabo na barca, e que seria cumprido caso o
Filho do Homem não conseguisse frustrar o "plano da perdição".
Em outros momentos, o narrador descreve o episódio com tanta
sutileza que o leitor se sente como que observando um quadro, por isso
acrescentamos mais um exemplo, no qual há uma insistência na cromaticidade:

"Olhou José o céu, e em seu coração pasmou. O sol ainda


tarda a despontar, não há, por todos os espaços celestes, o mais
lavado indício dos rubros tons do amanhecer, sequer uma
pincelada leve de róseo ou de cereja mal madura, nada, a não
ser, de horizonte a horizonte, tanto quanto os muros do pátio
37

lhe permitiam ver, em toda a extensão de um imenso tecto de


nuvens baixas, que eram como pequenos novelos espalmados,
iguais, uma cor única de violeta que, principiando já a tornar-
se vibrante e luminosa do lado donde há-de romper o sol, vai
progressivamente escurecendo, mais e mais, até se confundir
com o que, do lado de além, ainda resta da noite." ESJC, p.
24.

Há uma preocupação minuciosa, em detalhar, em colorir o texto com


uma abundância significativa de cores vivas como o violeta, o vermelho, o rosa,
o amarelo do ouro, o azul como se todo o livro compusesse um grande quadro,
como se tratasse de uma narrativa pictórica.
Com relação às cenas, o narrador as usa em abundância e nelas estão
concentrados os momentos mais dramáticos do texto. Todas elas estão
permeadas por uma aguda problematização extremamente polifônica.
O importante no diálogo não é a verdade em si, mas a
experimentação da verdade. Percebemos que quase todos os personagens do
ESJC manuseiam perfeitamente os mecanismos do diálogo, manifestam idéias e
levam o seu interlocutor a expressar os seus pensamentos e é dessa forma que
acontecem as réplicas, as tréplicas, o dialogismo. As cenas recheadas de
diálogos se tornam tensas, dinâmicas e ocorrem muitas vezes no que, na
literatura carnavalizada, é denominado de "diálogo no limiar"37: do templo, da
casa, do deserto, do mar. Citemos algumas das principais cenas: pastor Maria
discutindo sobre a matança dos inocentes (p. 115); Jesus discutindo com Maria
sobre a culpa dos pais (p. 213); Cristo e Deus debatendo sobre o sacrifício das
ovelhas (p. 26); Cristo e Maria dialogando sobre a desconfiança de Maria, sua
descrença, a missão de Cristo (p. 295/381/308); Maria e Maria Madalena
contendendo sobre a missão da mãe de Cristo (p.344); Cristo Deus e Pastor
debatendo sobre o destino da humanidade (p. 364 a 393), etc.
Esclarecemos que estão aí relacionadas as principais cenas, aquelas
que possuem maior tensão e significação dentro do texto. Indicamos as páginas,
pois faz parte do estilo do autor não enumerar capítulos, além de compor
parágrafos imensos. Como estudaremos algumas delas detalhadamente em
outras partes deste livro, escolhemos um pequeno trecho de uma cena para
analisarmos como o diálogo se processa, o desaparecimento do narrador, a
extrema dramaticidade e tensão das mesmas e o estilo do autor: a cena entre
Cristo e Maria debatendo a respeito da matança dos inocentes de Belém:

"Queres dizer que os soldados não me mataram porque não


chegaram a ver-me, Sim, Meu pai era soldado, Nunca foi soldado,
Que fazia então, Trabalhava nas obras do Templo, Não

37 Para maiores esclarecimentos consultar Mikhail Bakhtin In. Problemas da Poética de Dostoiévski.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981, p. 100.
38

compreendo, Estou a responder às tuas perguntas, Se os soldados


não chegaram a ver-me, se vivíamos fora da aldeia, se o pai não era
soldado, se não tinha responsabilidade, se nem sequer sabia por que
motivo mandou Herodes matar os meninos, Sim, teu pai não soube
por que motivo Herodes mandou matar os meninos, Então, Nada,
se não tens mais perguntas a fazer-me, eu não tenho mais respostas
a dar-te, Ocultas-me qualquer coisa(...) E depois., Depois voltámos
para Nazaré, E o sonho começou. A primeira vez foi na cova. As
mãos de Jesus subiram de repente até o rosto como se o quisessem
rasgar, a voz soltou-se num grito irremediável, O meu pai matou os
meninos de Belém, Que loucura estás dizendo, mataram-no os
soldados de Herodes, Não, mulher, matou-os o meu pai, matou-os
José filho de Heli, que sabendo que os meninos iam ser mortos não
avisou os pais deles, e quando estas palavras ficaram todas ditas
ficou também perdida a esperança de consolação. Jesus lançou-se
para o chão, a chorar, Os inocentes, os inocentes dizia ele (...) " p.
186, 187, 188.

Nesse exemplo, o leitor é colocado frente a um verdadeiro


espetáculo teatral, e assiste, como num filme, aos diálogos sem intervenção de
ninguém. O narrador do ESJC, explora magnificamente as cenas: modo
dramático, apenas mostra o que acontece, retirando os seus comentários e
deixando o leitor frente a frente com os personagens para tirar suas próprias
conclusões. Na cena acima, o narrador ainda aparece dando informação que
completa a cena "As mãos de Jesus subiram de repente até até o rosto", e
aparece no final, arrematando a mesma "e quando estas palavras ficaram todas
ditas ..." Nesse trecho, ocorre a confrontação do ponto de vista entre Maria e
Cristo sobre a morte dos inocentes de Belém e já podemos observar que suas
falas se contrapõem. Cristo provoca a palavra, sua vida se marcará pela busca
incessante da verdade. Maria tenta refutar, mas Cristo encontra a verdade. A
preferência pelo uso de cenas aproxima o texto do teatro e do cinema e a
narrativa torna-se quase cinematrográfica.
Esta técnica é muito difícil de ser sustentada em textos longos.
Saramago, no entanto, supera todas as restrições, explorando o modo dramático
com capítulos enormes e cenas que ocupam dezenas de linhas, como a cena de
Barca de aproximadamente trinta e sete páginas ( 363-400).
O fato dos parágrafos serem compostos de quase cem linhas, de não
haver enumeração ou divisão em capítulos, de ocorrer a abolição da pontuação
tradicional na introdução das falas das personagens, faz com que o texto
(des)evangélico tenha um aspecto ininterrupto e dinâmico, como se tivesse
diante de si uma enorme tela de cinema; as cenas tornam-se concisas, tensas,
rápidas, instigando o leitor para que prossiga em sua leitura, dançando
encantado ao som da "flauta de Pã". Esse procedimento do narrador, patente em
quase todas as vezes que utiliza o modo dramático, faz com que o texto se
aproxime do teatro. Ou seja, embora intruso, nos momentos mais importantes e
39

decisivos de todo o texto, o narrador se retira, e predomina a tensão dramática,


os diversos discursos se cruzam, as diferentes idéias se manifestam sem a
interferência de ninguém. O leitor tem acesso direto e imediato aos
pensamentos e idéias dos personagens: está no cinema.
O estilo do autor já foi denominado como semelhante a uma "flauta
de Pã", que encanta e seduz o leitor, "fluxo narrativo contínuo", "prosa
magmática", e "miscigenação de expressões"38. Em vez de nova linha com
parágrafo e travessão, o autor coloca as falas dos diálogos na mesma linha,
separando uma fala da outra apenas por uma vírgula e iniciando a frase seguinte
com maiúscula, ou seja, é um texto que tem gana, uma vez que investe contra
as estruturas canônicas da própria língua. Este procedimento corrobora a
tensão das cenas e a emoção da leitura e aproxima o texto do teatro/cinema. Se
os personagens parecem não respirar, muito menos o leitor, que se sente
angustiado como se estivesse dentro de uma montanha russa.
O narrador equilibra perfeitamente descrição, narração e a utilização
de cenas. Raramente utiliza o sumário, mas quando o faz, o efeito é
surpreendente:
"Jesus, como se erguesse do chão uma pesada e longa cadeia
de ferro, recordava a sua vida, elo por elo, o anúncio
misterioso da sua concepção, a terra iluminada, o nascimento
na cova, as crianças mortas de Belém, a crucifixão do pai, a
herança dos pesadelos, a fuga de casa, o debate no Templo, a
revelação de Zelomi, o aparecimento do pastor, a vida com o
rebanho, o cordeiro salvo, o deserto, a ovelha morta, Deus ..."
p.269.

Aí estão resumidos dezoito anos de vida de Cristo e 260 páginas do


livro. A recorrência ao sumário demonstra bem um narrador preocupado com o
"fluxo narrativo contínuo" e com a dinamicidade da narrativa.
Quanto à questão do tempo, nota-se que o narrador do ESJC o trata
de uma maneira diferente, como ele mesmo aponta:

"Foi ontem, e é o mesmo que dizermos, Foi há mil anos, o


tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó, o tempo é
uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz
de fazer mover e aproximar". ESJC, p. 168.

O narrador, diante de sua postura de que "o tempo é uma superfície


oblíqua e ondulante", relata fatos do presente e do passado simultaneamente.
Em alguns momentos, presentifica-se a época do nascimento de Cristo, o início

38 Os termos foram usados respectivamente por Roberto Pompeu de Toledo (os dois primeiros),
Luciana S. Picchio e Antônio Martins Gomes.Vide indicação bibliográfica completa no final do
livro.
40

da era Cristã, perante os olhos do leitor do séc. XX, fazendo com que este
mergulhe naquela época ou dela se afaste. Podemos dizer que há um
embricamento entre o tempo épico da narrativa e o tempo histórico do leitor
buscado pelo texto, que parece querer identificar aspectos semelhantes e
diferentes entre estes tempos. Neste sentido, o pretérito histórico perde sua
noção de passado, adquirindo o sentido de atualidade presente, fazendo com
que o leitor tenha a impressão de que o enredo se desenvolve,
concomitantemente, à sua leitura do livro.
O ESJC é uma obra do século XX que retoma uma matéria
milernamente conhecida; não é apenas um romance de uma época passada e
significativa para toda a humanidade. Mais do que isso, é um texto em que as
épocas se intercruzam e configuram a verdadeira base temporal em que ele se
estrutura, realizando um duplo movimento do presente em direção ao passado e
deste em direção ao presente. A ação do passado é incorporada ao presente do
ato de escrever, o que comprova que o narrador apresenta uma visão
retrospectiva e crítica, pois isso parece fazer parte do "projeto político do autor
que o discurso generosamente realiza: narrar o passado com os olhos fitos no
presente"39.
Como exemplo dessa dupla temporalidade do narrador, que não está
confinado apenas ao presente do discurso, mas mantém seus olhos abertos para
os dois lados, relendo o passado "com a experiência vivida do presente"40,
adquirindo toda uma flexibilidade e transitando tranqüilamente entre o passado,
o presente e o futuro, citamos o exemplo abaixo:

"Porventura parecem tais suposições inadequadas, não só à


pessoa, mas também ao tempo e ao lugar, ousando imaginar
sentimentos modernos e complexos na cabeça de um aldeão
palestino nascido tantos anos antes de Freud, Jüng, Groddeck e
Lacan terem vindo ao mundo(...) " p. 200.

A mobilidade do narrador está evidente no exemplo citado: transita


tranqüilamente entre passado, presente e futuro numa verdadeira distensão
temporal.
Embora presentificando-se simultaneamente aos fatos que narra,
início da Era Cristã, o narrador instituído por Saramago menciona fatos que só
serão entendidos por um leitor que viva no século XX, como por exemplo:
problemas da habitação, o surgimento de Portugal, os estudos antropológicos e
dos baluartes da psicanálise Freud, Jüng, Groddeck e Lacan. A própria
linguagem utilizada pelo narrador, mescla uma linguagem teológica (os
diversos intertextos bíblicos) com uma linguagem descontraída (Xó, burro... p.

39 Teresa Cristina Cerdeira da Silva. Op. cit., p.27.


40 Id. Ibid., p. 27.
41

156), próxima à oralidade, o que resulta numa "miscigenação de expressões",


tendo em vista, justamente, o leitor do século XX.
Estamos diante de um narrador/(des)evangelista que reconta
parodicamente um texto do início do milênio, com os olhos, mentalidade e
preocupação de alguém que vive no mesmo século do leitor. O tempo do
discurso prevalecerá sobre o tempo da história, ocorrendo uma anacronia entre
a ordem da história e a ordem do discurso.
Por outro lado, a maneira como o narrador trata a questão do tempo
como "uma superfície oblíqua e ondulante", na qual projeta simultaneamente
acontecimentos e personagens(bíblicos e/ou históricos), de épocas as mais
diversas possíveis como Caim, o rei David, Cristo, Herodes, Freud, é a mesma
maneira como Deus trata o tempo: "Lembra-te de que eu sou o tempo, e que,
portanto, para mim, tudo quanto está para acontecer, já aconteceu, tudo quanto
aconteceu, está acontecendo todos os dias." ESJC, 388.
O narrador, ao criar o universo ficcional do seu evangelho,
assemelha-se em muitos aspectos a Deus e revela isso ao leitor, ao dizer que
"...mas, nós, sim que, como Deus, tudo sabemos do tempo que foi, e há-de
ser,(...)"ESJC, p. 239 (grifo nosso).
Temos que ser cuidadosos na escolha da melhor classificação para o
narrador do ESJC e, ao fazê-lo, temos que ter uma certa flexibilidade na
escolha da tipologia a ser utilizada, pois dada a riqueza e variedade de seus
procedimentos, pode ser enquadrado em diversas categorias. A nossa
classificação visa a abrir um leque de opções para estudá-lo e melhor
compreendê-lo, sem jamais tentar limitar a sua imensa versatilidade e restringi-
lo a uma única e rígida tipologia.
O narrador do ESJC é um narrador que poderia ser denominado,
segundo algumas linhas teóricas como: Heterodiegético (Genette)41, pois narra
uma história da qual não participa, possuindo o que se chama de focalização
zero e atuando como um soberbo demiurgo plenamente onisciente; seria dotado
de uma "visão por trás" (Pouillon)42, visto que sua onisciência é ilimitada, seu
conhecimento é direto, sem necessidade de nenhum intermediário; Onisciente
intruso (Friedmann)43 devido às suas constantes intrusões na narrativa, ou
narrador autoral (Stäzel) uma vez que se encontra "distanciado e, logo, numa
posição superior em relação ao mundo narrado e às demais personagens".
Conhece absolutamente tudo sobre as personagens e muito mais do que elas,
sabe o que se passa no pensamento destas e transita facilmente no meio dos
seus segredos mais íntimos, contando os fatos por cima, explicitando os
movimentos e as conseqüências mais remotas da ação romanesca. Sua

41 Gérard Genette. Discurso da Narrativa. São Paulo: Brasiliense, s/d.


42 Jean Pouillon. O tempo no romance. São Paulo: Cultrix, Edusp, 1974.
43 Norman Friedman. Point of view in fiction. In: The Theory of the novel. Stevick, Philip (ed.). New
York/London: The Free Press Collier Macmillan, 1967.
42

onisciência é tão elevada, que também nesta sua característica assemelha-se


novamente a Deus, pois a onisciência é um atributo inseparável deste.
Utilizando um discurso de terceira pessoa e sendo o dono da
focalização, o narrador onisciente coloca o leitor próximo ao narrado, pois o
mesmo tem acesso direto ao cérebro e ao coração dos seus personagens,
principalmente quando recorre ao uso das cenas, familiarizando-se com o
mundo romanesco.
Segundo Stäzel, "as diversas situações narrativas se interpenetram e
podem existir, simultaneamente, numa mesma obra literária"44. É o que ocorre
no ESJC, ou seja, a versatilidade do narrador é tão expressiva que, segundo
entendemos, exigiria uma interpenetração simultânea das tipologias acima
mencionadas para um estudo adequado do mesmo. Exemplifiquemos a sua
onisciência:

"Nem sempre é assim, cismava José, com uma amargura tão


funda que nela não entrara a resignação que dulcifica as
maiores dores e apenas podia revestir-se do espírito de
renúncia de quem deixou de contar com o remédio, nem
sempre é assim, repetia, muitos houve que nunca saíram do
lugar onde nasceram e a morte foi lá buscá-los, com o que se
prova que a única coisa realmente firme, certa e garantida, é o
destino, é tão fácil, santo Deus, basta ficar à espera de que
todo o da vida se cumpra e já poderemos dizer; Era o destino
..." ESJC p.123, 124.

O narrador conhece tudo sobre a personagem José, que vive


atormentado pelo problema da culpa e do destino. Nesse exemplo, fica muito
difícil distinguir de quem são as vozes, se estamos diante de uma análise mental
ou monólogo interior45. Os pensamentos de José e do narrador se embricam e
acabam resultando numa terceira voz. Na realidade, pelo que conhecemos de
José até esta altura do texto, é muito improvável que estes juízos sejam apenas
deste personagem, pois o mesmo não possui condições psicológicas para
pronunciar semelhantes sentenças, nem é esta a sua linguagem peculiar. A
ausência de parágrafos reforça esta técnica de fluxo de consciência e corrobora
para a dinâmica da narrativa. No início do exemplo localizamos a fala de José
"Nem sempre é assim". Já no meio, não sabemos quem fala e ao final do
parágrafo, a voz do narrador se destaca: "Era o destino".

44Maria Luíza Ritzel Remédios. O romance português contemporâneo. Santa Maria: UFSM, 1986, p.
49.
45Alfredo L. C. de Carvalho. Foco narrativo e o fluxo de consciência. São Paulo: Pioneira, 1981, p.
54. (neste capítulo o autor reconhece a dificuldade em distinguir precisamente análise mental,
fluxo de consciência e monólogo interior). No entanto, deve-se frisar que é justamente a diluição
de fronteiras entre os dois discursos - do narrador e da personagem - a direção que toma o texto
de Saramago.
43

O narrador do ESJC se aprofunda no subconsciente de seus


personagens, sabe tudo o que pensam, nada lhe é escondido. Desde o início do
romance sabe tudo sobre José, Maria, Cristo, Deus e o Diabo e muito mais do
que eles. Sua onisciência é tão plena que o narrador enuncia isso calmamente
no texto por várias vezes, instaurando a metalinguagem ou as "interpolações
auto-reflexivas"46.
O Quinto Evangelista reconhece que a sua onisciência é semelhante
à divina, isto sem um pingo de modéstia, procedimento este que, de certa
forma, acaba por instigar o leitor a prosseguir a leitura e conhecer como este
demiurgo compôs o seu evangelho. Por outro lado, também reconhece que esta
onisciência divina o aflige, uma vez que, "...nós, pelo contrário, conhecemos
tudo quanto até hoje foi feito e pensado, quer por eles quer pelos outros,
embora tenhamos de proceder como se o ignorássemos...”p. 206.
A onisciência que o aflige e o angustia pode ser a responsável pela
sua instrusão constante, bem como por outra sua característica específica: a
suposição de fatos e falas que só ocorrem em sua mente onisciente, como no
exemplo abaixo:

"Que tem o pai, e ela respondia como quem não dá


importância, São sonhos maus, não podia dizer ao filho, Teu
pai estava a sonhar que ia com os soldados de Herodes na
estrada de Belém, Qual Herodes, O pai deste que nos governa,
E era por isso que gemia e gritava, Por isso era, Não
compreendo que ser soldado de um rei que já morreu traga
sonhos ruins, Teu pai nunca foi soldado de Herodes, o seu
ofício foi de carpinteiro, Então por que sonha, As pessoas não
escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que
escolhem as pessoas, Nunca o ouvi dizer a ninguém, mas
assim deve ser, Por quê os gritos, minha mãe, porquê os
gemidos, É que o teu pai todas as noites sonha que te vai
matar, está visto que Maria não podia chegar a tais
extremos, revelar a causa do pesadelo do marido
justamente a quem tinha, neste pesadelo, como Isaac, filho
de Abraão, o papel de vítima nunca consumada, mas
condenada inexoravelmente". p. 142,143 ( grifos nossos).

No trecho acima, a partir das palavras "não podia dizer ao filho",


acontece um tenso diálogo imaginário, que simplesmente não se concretiza.
Maria e Cristo jamais pronunciaram estas palavras, já que anteriormente,
conforme já apontamos, Jesus deduz a verdade sobre a morte das crianças de
Belém e o pesadelo do pai através dos mecanismos próprios do diálogo. Assim,

46 Simone Pereira Schmidt. “No meu caso, o alvo é Deus: paródia e humanismo no Evangelho de
Saramago.” In: Discursos: Coimbra, 1994, p. 68.
44

verificamos que o diálogo transcrito acima ocorre somente na enunciação do


narrador. Se o leitor não estiver atento à leitura e não identificar o aviso "está
visto que Maria não podia chegar a tais extremos", poderá se confundir e
incorporá-lo aos diálogos da diegese. E mesmo que o leitor identifique esta
estratégia, ficará sempre o efeito de que eles poderiam ter acontecido.
Esse procedimento permeia todo o livro e, não podendo mencionar
exaustivamente todas as ocorrências, citamos mais uma, na qual se consegue
um efeito perfeito:
"... podia, nesta suprema hora, obrar tudo, cometer tudo,
expulsar a morte deste corpo, fazer regressar a ele a existência
plena e o ente pleno, a palavra, o gesto, o riso, a lágrima
também, mas não de dor, podia dizer, Eu sou a ressurreição
e a vida, quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá,
e perguntaria a Marta, Crês tu nisto, e ela responderia, Sim,
creio que és filho de Deus que havia..." p. 428 (grifos nossos).

No exemplo acima, já se nota a carnavalização47, pois umas das


frases mais importantes do Evangelhos "Eu sou a ressurreição e a vida, quem
crê em mim, ainda que esteja morto, viverá...." (São João 11:25), na qual se
baseia a doutrina de vida eterna, fundamental ao Cristianismo, simplesmente
não é pronunciada. Há uma sugestão magnífica de diálogo, mas o emprego do
verbo no futuro do pretérito indica uma ação que poderia acontecer, mas que,
neste caso, não ocorre na diegese, já que o trecho prossegue da seguinte
maneira:

"... mas é neste instante, em verdade último e derradeiro, que


Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz,
ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas
vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para chorar." p.
428.

Esses diálogos imaginários, que denunciam a intrusão extrema do


narrador, são formas de expressar os seus juízos de valor. e é através da
intrusão que o narrador demonstra que tem consciência de si mesmo, do seu
papel dentro da estrutura narrativa como autor de um texto ficcional, "... pois
nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais
nada ... " p. 13.
É através dessa sua consciência de ficcionalidade, ancorada na
metalinguagem, que se vai explicitando o texto parodístico. O narrador faz

47De acordo com Mikhail Bakhtin, literatura carnavalizada é "a literatura que, direta ou indiretamente,
através de diversos elos mediadores, sofreu a influência de diferentes modalidades de folclore
carnavalesco (antigo ou medieval). Todo o campo do cômico-sério constitui o primeiro exemplo
desse tipo de literatura", p. 92.
45

questão de que o leitor tenha sempre isto em mente, pois logo às páginas
iniciais do relato alerta:

"Porém, tendo em conta o grau de divulgação, operada por


artes maiores e menores, destas iconografias, só um habitante
doutro planeta, supondo que nele não se houvesse repetido
alguma vez, ou mesmo estreado, este drama, só esse em
verdade inimaginável ser ignoraria que a afligida mulher é a
viúva de um carpinteiro chamado José, e mãe de numerosos
filhos e filhas, embora só um deles, por imperativos do destino
ou de quem o governa, tenha vindo a prosperar, em vida
mediocremente, mas maiormente depois da morte." p. 15.

Constatamos assim que, já no início do livro, o narrador adverte que


só um "inimaginável ser" desconheceria o texto sagrado e, de certa forma, já
ironiza o repertório bíblico do receptor e sua capacidade interpretativa. Apesar
de não citar o nome de Jesus Cristo, sabe-se que é a ele que o narrador se refere
e o leitor sabe que está diante de texto que procede como "um autêntico sistema
de espelhos deformantes: espelhos que alongam, reduzem e distorcem em
diferentes sentidos e em diferentes graus"48 o texto primeiro.
Temos, dessa forma, um escritura "que esvazia uma estrutura já
esgotada para poder preenchê-la com algo novo"49, ou seja, um novo evangelho
que se propõe em lugar dos "outros", tão divulgados no planeta, postular-se ao
lado dos pecadores e "estabelecer a diferença no coração da semelhança"50. Há
de se frisar, contudo, que a intertextualidade no texto não é pacífica, pelo
contrário, ela se faz problematizadora, evidenciando uma tensão (dialogismo
entre os dois textos, denunciando a hostilidade de um em relação ao outro) e
uma intenção crítica (através da paródia e da ironia, criticar o cerne do
cristianismo e de toda a Teologia), como podemos observar no exemplo abaixo:

"Não faltará já por aí quem esteja protestando que semelhantes


miudezas exegéticas em nada contribuem para a inteligência
de uma história afinal arquiconhecida, mas ao narrador deste
evangelho não parece que seja a mesma coisa, tanto no que
toca ao passado como que ao futuro há-de tocar ..." p. 127.

O caráter parodístico é incontestável, contudo o


narrador/evangelista apresenta seu texto, seu novo evangelho, apenas como
mais uma versão (menos acreditada pela tradição e mais minuciosamente

48Mikhail Bakhtin. Op. cit., p. 110.


49 Maria Lucia P. de Aragão. A Força do Destino. In: Sobre a Paródia. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1980, p. 19.
50 Linda Hutcheon. Uma Teoria da paródia. Lisboa: Edições 70, 1989, p. 19.
46

exegética) do texto primeiro. Faz brotar, explodir do interior do texto bíblico


“...verdadeiramente um outro evangelho, já agora no espaço da ficção, em
pleno domínio do literário, e não apenas um texto qualquer que viesse
blasfemar ou lançar dúvidas sobre as verdades canônicas.”51
Como já foi observado em outro estudo sobre o autor52, a paródia e
a intertextualidade são os procedimentos estéticos preferidos por Saramago na
produção dos seus romances, na busca de uma identidade própria para a
literatura portuguesa dentro do panorama geral da cultura do Ocidente, visto
que "...seus romances são verdadeiras 'releituras' de obras literárias do passado,
as quais são transformadas pelo uso de modernas técnicas narrativas".53
A maior ou menor compreensão, aceitação ou rejeição por parte do
leitor, dependerá evidentemente do grau de conhecimento que ele tem do texto
primeiro: Os Evangelhos Bíblicos. O que interessa no ESJC não é o seu fim,
mas sim sua travessia, pois o narrador principia o discurso in ultima res,
colocando o leitor, ab initio, face a face com o encerramento da diegese/trama,
a crucifixão de Cristo, através de uma prolepse54 já nas primeiras páginas do
livro. O leitor fica sabendo o final da trama na primeira página, não há
suspense, mas mesmo assim ele faz o percurso da leitura até o fim. É a travessia
do ESJC que interessa, e não o seu início ou final.
E as intrusões continuam. E avulta, sob esse particular, a
metalinguagem ou as "interpolações auto-reflexivas", pois "...o autor implícito
concede que seu narrador explicite a labuta com o texto, o aflitivo gesto de dar
ordem à matéria, a confissão da disparidade entre o que pretendia narrar e o que
narra ..."55. O narrador do ESJC por diversas vezes se permite discutir o seu
trabalho, o que seria de certa forma uma "autoparódia"56, fazendo com que o
texto se volte sobre o próprio texto, que a escritura se volte sistematicamente
sobre a escritura, num questionamento do universo ficcional:

"Dizem os entendidos nas regras de bem contar contos que os


encontros decisivos, tal como sucede na vida, deverão vir
entremeados e entrecruzar-se com mil outros de pouca ou nula
importância, a fim de que o herói da história não se veja
transformado em um ser de excepção a quem tudo poderá

51 Teresa Cristina Cerdeira da Silva. Op. cit, p. 187.


52 Odil José de Oliveira Filho. Carnaval no Convento. São Paulo: UNESP, 1993 (Prismas).
53Id. Ibid., p. 86, 112, 120, 121.
54 Conforme Gérard Genette. Op. cit., p. 38, prolepse é "toda a manobra narrativa que consiste em
contar ou evocar de antemão um acontecimento ulterior..."
55 Maria Lucia Dal Farra. O narrador ensimesmado. São Paulo: Ática, 1978, p. 43
56 Simone Pereira Schmidt, em artigo já mencionado, ao apontar o problema da metalinguagem (o
narrador questionando a verossimilhança da narrativa), afirma que "tal procedimento aponta para
uma forma de autoparódia: consciente de seu texto, o narrador ri de si mesmo, o que constitui, nas
palavras de Linda Hutcheon, 'uma maneira de criar uma forma, ao questionar o próprio ato de
criação estética' (Hutcheon, 1985: 21)", p. 68.
47

acontecer na vida, salvo vulgaridades. E também dizem que é


esse o processo narrativo que melhor serve o sempre desejado
efeito de verosimilhança, pois se o episódio imaginado e
descrito não é nem poderá tornar-se nunca em facto, em dado
da realidade, e nela tomar lugar, ao menos que seja capaz de o
parecer, não como no relato presente, em que de modo tão
manifestado se abusou da confiança do leitor, levando-se Jesus
a Belém para, sem tir-te nem guar-te, dar de caras, mal chegou,
com a mulher que esteve de aparadeira no seu nascimento ..."
p. 222.

No exemplo acima, o narrador assemelha-se a um crítico literário


discorrendo sobre as regras do bem narrar, do bem contar e do caráter
verossímil da ficção. Este artifício, que permite ao narrador mostrar ao leitor a
labuta com a palavra, serve para dar uma maior verossimilhança ao ato
ficcional de narrar, fazendo com que o texto ganhe, aos poucos, o estatuto de
um evangelho que tem boas novas importantes a serem reveladas.
Independentemente dessas intrusões, que estão associadas à
onisciência do narrador, das que explicitam o caráter parodístico da obra, das
que concebem diálogos que nunca se realizam, das que problematizam a
palavra, o narrador utiliza a intrusão para passar direta a explicitamente a sua
concepção do mundo ao leitor, pois "sem uma concepção do mundo não se
pode narrar bem ..."57. Suas reflexões ou "interpolações auto-reflexivas", ao
lado de outras concepções expressas pelas personagens, representam
verdadeiras posições filosóficas e questionamentos profundos sobre o
machismo, a eterna culpa que passa de pai para filho, o destino, o
maniqueísmo, etc.
Ao mesmo tempo em que assume um posicionamento crítico e
irônico sobre a preponderância do masculino na religião judaica, recria,
paralelamente, uma interessante personagem feminina: Maria Madalena, a qual
merecerá um estudo mais detalhado no próximo capítulo.
Este evangelista compõe assim um evangelho não só de homens: as
mulheres, as duas Marias, respectivamente mãe e amante de Cristo, têm uma
participação decisiva em toda a ação romanesca e, em especial, na vida do seu
protagonista/herói.
Neste (des)evangelho, o narrador, em suas colocações sempre
constantes sobre o destino, irônica e desalentadoramente critica os "deuses" do
cristianismo, pois eles decidem o destino dos homens; a esses, só resta a
insignificante tarefa de cumpri-lo, uma vez que o livre-arbítrio é abolido em
definitivo e segundo o próprio Deus, "...o homem só é livre para poder ser
castigado"(219). José tem sua trajetória marcada por uma culpa inexpiável, um
57 Georg Lukacs. "Narrar ou descrever". In: Ensaios sobre Literatura. Rio de Janeiro: Brasiliense,
1988, p. 85.
48

destino inexorável, do qual não pode fugir, ocorrendo o mesmo com Cristo, seu
filho.
O que notamos é que, ao longo do texto, constrói-se uma relação de
semelhança entre o narrador e Deus. Aquele, na criação do seu universo
ficcional, não quer ser apenas um outro evangelista. Ele assume explicitamente,
e sem nenhuma modéstia, a posição de demiurgo (" ...nós, sim, que, como
Deus, tudo sabemos..."(p. 239 - grifo nosso), revelando também o poder e o
grau de sua onisciência, visto que "nós, pelo contrário, conhecemos tudo
quanto até hoje foi feito, dito e pensado, quer por eles quer pelos outros..." (p.
206 - grifo nosso). Está em todos os lugares, conhece os pensamentos mais
íntimos das personagens; sabe o fim desde o começo; e, se "para Deus o tempo
é todo um" (p. 49), para ele o tempo "é uma superfície oblíqua e ondulante..."
(p.168).
Ao mesmo tempo em que ressalta a sua onisciência, procura
restringir a onisciência divina, pois "... Deus, se de algo sabe, é dos homens, e
mesmo assim não de todos" (p.77) e "a vida da pobre gente já naquele tempo
era difícil e Deus não podia prover a tudo." (p. 90-grifo nosso).
Interessante ressaltarmos que o narrador, ao referir-se a si próprio,
usa a primeira pessoa do plural - nós, justamente a pessoa verbal que, no Velho
Testamento, marca o discurso proferido por Deus: "Façamos o homem à nossa
imagem, conforme à nossa semelhança..."(Gên. 1:26). Estranhamente,
observamos que será exatamente sobre esta personagem, na narrativa, que o
narrador concentrará toda sua mordaz ironia.
Após localizarmos as raízes da concepção da personagem Deus do
ESJC, de ressaltarmos a funcionalidade dos intertextos aqui presentes e
analisarmos alguns pontos importantes do estilo endiabrado do narrador, que
faz do seu texto um romance quase pictórico e cinematográfico, nos
aprofundemos no ponto principal deste estudo: Vida e Morte de Jesus Cristo,
Vida e Morte de Maria Madalena, Vida e Morte de José, Vida e Morte de
Lúcifer e de outros importantes personagens do QUINTO EVANGELHO, que
foi escrito IN NOMINE HOMINIS.
49

"Jesus foi de fato um profeta muito grande, pois nenhum outro se afogou
como ele tão completamente na humanidade."
Rubens Ricupero

"A humanidade de Jesus exigia que ele compartilhasse a mais escura


treva do destino humano: a condição de supliciado, a morte dolorosa e
injusta por tortura como um dentre milhões de presos políticos e de
consciência ao longo dos séculos, como um dos nossos torturados, dos
nossos desaparecidos do Brasil, do Chile, da Argentina, da América
Latina, como parte da legião anônima de vítimas dos genocídios de
ontem e de hoje."
Rubens Ricupero
50

Antes de entrarmos na composição do Quinto Evangelho, delinearemos


algumas características básicas dos outros quatro evangelistas oficiais do
Cristianismo: São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João.
O Evangelho Segundo São Mateus foi escrito na Síria, em Antióquia, nos
anos 70 e 80, em grego. Seu público foi o das comunidades cristãs e judaicas.
Testemunha o afastamento dos cristãos das sinagogas.
O Evangelho Segundo São Marcos foi escrito na Galiléia, por volta do ano
70, em grego; revela tradicões orais fixadas recentemente. Reinterpreta a saga de Jesus
e sua pregação para as comunidades cristãs em crise com a guerra judaica contra
Roma. Esfria a expectativa do fim do mundo e reacende a esperança no reino de
Deus.
O Evangelho Segundo São Lucas foi escrito em Éfeso, nos anos 80 e 90,
em grego, o melhor grego dos quatro evangelhos. Mostra a expansão do cristianismo.
Triunfa sobre a dispersão provocada pelo fim do mundo que não veio e afirma o
futuro das comunidades cristãs.
O Evangelho Segundo São João foi escrito na Síria, depois da década de
90, em grego. Apresenta um Jesus esotérico, místico e enigmático, que realça sua
presença na comunidade na forma do Espírito Santo. O discursos são longos e as
narrativas amplas. Os monólogos mostram uma religiosidade mística, gnóstica e
esotérica, quase oriental.58 Esses evangelistas dão mais testemunhos de fé do que
verdades históricas e apresentam discrepâncias e contradições inconciliáveis.
O Evangelho Segundo José Saramago, O Quinto Evangelho, foi escrito
em 1994 da Era Cristã, na cidade de Lisboa, na língua “inculta e bela” de Camões, foi
lançado simultaneamente no Brasil e em Portugal e testemunha somente em prol do
homem. Quando lançado, Saramago tinha 69 anos, era e é o português vivo mais
conhecido do mundo: poeta, dramaturgo, tradutor, jornalista, ateu convicto que
resolve olhar, com seus olhos profanos, o sagrado.
Em 1987, teve uma revelação, não à maneira de Saulo de Tarso. Andando
pelas ruas Sevilha, e não de Damasco, Saramago não ficou cego, mas teve uma
inexplicável ilusão de ótica. Acreditou ter lido num jornal exposto numa banca de
revistas uma manchete com o título: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Firmou os
olhos, tudo não passara de um engano visual, mas seu evangelho havia nascido ali,
naquela “revelação”.
Quais serão as “boas novas” do Quinto Evangelista? Como estamos no
reino da paródia, parodiamos o Apocalipse:

“Revelação que o Quinto Evangelista concedeu ao narrador de


estilo camoniano endiabrado, a qual nós, revelamos ao leitor,
para mostrar aos homens o que não deveria ter acontecido e como

58 As presente características foram relacionadas pelo teólogo Paulo Augusto de Souza Nogueira,
Professor de Literatura Bíblica do Instituto Metodista de Ensino Superior de São Bernardo
do Campo no artigo denominado “Procura-se Jesus Cristo”. In: Super Interessante, São Paulo, Ed.
Abril, Abr., 1996, p. 50-51.
51

a história do cristianismo poderia ter sido diferente, se ela tivesse


sido escrita in nomine Hominis, e não, in nomine Dei.”
52

“Se a religião é uma resposta, se a


ideologia política é uma resposta, então a
literatura é uma interrogação.”
Salman Rushdie
53

CAPÍTULO III
O QUINTO EVANGELISTA
“As mentes mais poderosas dos últimos vinte séculos
debruçaram-se sobre esse paradoxo. Algumas das
explicações são belíssimas, outras são muito eficientes,
mas todas são torturadas. Daí cheguei à conclusão de
que talvez a melhor abordagem para essa história seja
a de um romancista.” Norman Mailer

Chegamos ao ponto central desse livro: a composição do Quinto


Evangelho. Cabe salientar que os protagonistas desse romance fogem um pouco
das personagens convencionais dos romances anteriores de Saramago.
O escritor português sempre privilegiou em seus livros os
perdedores, aqueles que não mereceram registro na História oficial. Em
Levantado do Chão (família dos Mau-Tempo), privilegiou os miseráveis
agricultores do Alentejo; em Memorial do Convento (Blimunda e Baltazar), os
condenados pela Inquisicão, as bruxas, os trabalhadores, os visionários; em O
ano da Morte de Ricardo Reis (Lídia, Marcenda), os marinheiros, as
empregadas de hotel, os aleijados à espera de milagre, os prisioneiros políticos;
em A Jangada de Pedra (Joana Carda, Maria Guavaira, José Anaiço, Pedro
Orce e Joaquim Sassa), simples portugueses; em In Nomine Dei, dezenas de
católicos e protestantes desconhecidos.
No ESJC o autor trabalha, pelo contrário, com gente muito
conhecida há séculos na história oficial do Cristianismo e pela própria História,
mas mantém sua opção ideológica clara e inquestionavelmente pelos párias, dos
pecadores milernarmente rejeitados e discriminados, construindo um evangelho
em que prioriza alguns protagonistas que são considerados uma espécie de
“desheróis”: Madalena e o Diabo.
Ao estudarmos o posicionamento positivo ou negativo do narrador
em relação às personagens do ESJC, nunca podemos nos esquecer do aspecto
parodístico do texto, explicitado constantemente pelo próprio narrador.
Recordemos que a paródia opera uma inversão, uma degradação, um
canto que perverte o sentido do outro canto, que "submete a tradição, o
estabelecido, a novas possibilidades de realização..."59, aproxima-se do
burlesco, do profano, é extremamente antagônica em relação ao texto primeiro.

59 Maria Lucia P. Aragão. Op. cit., p. 20.


54

Seu objetivo é "desnudar e descontruir" e "...a sua função é de separação e


contraste"60. Também opera uma inversão, um deslocamento pleno, uma
descontinuidade, uma contra-ideologia, um intertexto das diferenças, instaura o
jogo demoníaco, a divisão ou, noutra formulação, a "repetição com distância
crítica, que marca a diferença em vez da semelhança."61
As preferências do narrador, no sentido de rejeitar ou exaltar as
personagens, podem ser notadas de duas formas: pelos comentários explícitos
que o narrador faz sobre as personagens, ou pela maneira quase sutil como
complementa os diversos discursos presentes no texto, pois há momentos em a
voz do narrador e a das personagens se confundem. Analisemos seus
procedimentos na elaboração de algumas criaturas do seu (des)evangelho..

60 Linda Hutcheon. Op. cit., p. 14.


61 Ibid., p. 50
55

JOSÉ62

Olha o que foi meu bom José


Se apaixonar pela donzela
Dentre todas a mais bela
De toda a sua Galiléia
Casar com Débora ou com Sara
Meu bom José você podia
E nada disso acontecia
Mas você foi amar Maria
Você podia simplesmente
Ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar
De se esconder com Maria
Meu bom José você podia
Ter muitos filhos com Maria
E teu ofício ensinar
Como teu pai sempre fazia
Porque será meu bom José
Que esse teu pobre filho um dia
Andou com estranhas idéias
Que fizeram chorar Maria
Me lembro às vezes de você
Meu bom José meu pobre amigo
Que desta vida só queria
Ser feliz com sua Maria.

62 G. Moustaki. Vers. Nara Leão, grav. Rita Lee.


56

3.1 JOSÉ - O BODE EXPIATÓRIO DO


EVANGELHO.

"Mas o bode, sobre que cair a sorte para ser


bode emissário, apresentar-se-á vivo perante o
Senhor, para fazer expiação com ele, para
enviá-lo ao deserto como bode emissário."
Levítico 16:10

A composição do personagem José, conforme já fizemos referência,


é feita a partir dos chamados "vazios" dos textos bíblicos. O Evangelho
Segundo São Lucas, evangelho usado como epígrafe de abertura para o ESJC,
bem como os outros três evangelistas do Novo Testamento, saltam todo o
período da infância de Jesus, e em todos eles pouquíssimos fatos são
mencionados sobre o pai de Jesus. O que os historiadores e teólogos chamam
de "anos escuros da vida de Jesus" coincidem com a obscuridade dos atos da
vida de José. Ele praticamente só aparece no início das narrativas evangélicas:
na anunciação, na fuga para o Egito, na apresentação do menino Jesus no
templo. Depois disso, o José bíblico misteriosamente desaparece. Muito se tem
questionado sobre o Pai de Jesus: era mais velho que Maria? era viúvo? trouxe
outros filhos para o casamento? teve outros filhos com Maria após o
nascimento de Cristo?
Roberto Pompeu de Toledo em artigo intitulado Um certo José, faz
um magnífico traçado psicológico do José bíblico: um estranho e ofuscado
personagem bíblico, solitário e taciturno, talvez triste, algo desamparado, mas
cumpridor de seus deveres. Um homem que a princípio se sentiu traído e com
isto amargurado, mas com a comunicação feita pelo anjo, ele conforma-se com
o destino de marido de conveniência. José era um bom homem, mas mediano,
bem longe da celebridade de Maria ao ter concebido ainda virgem, bem longe
dos excêntricos dotes de seu filho Jesus. Ainda segundo Pompeu, nos primeiros
1000 anos do cristianismo, José não mereceu homenagem da Igreja Católica.
Só em 1129 surge a primeira igreja dedicada a ela, em Bolonha, na Itália. Ele
sequer foi incluído na famosa Legenda Áurea, um repositório de Santos escrito
por Jacopo de Varazze no século XIII. Ele passa a ser cultuado no século XV e
ganha para si o dia 19 de março. Pompeu esclarece que José parece ter sido um
personagem concebido para resolver certos problemas como o da genealogia de
Cristo. O evangelista Mateus concebe uma genealogia para Cristo que começa
com Abraão, chega a Davi, de Davi, 27 gerações depois, deságua em José. Esta
genealogia era necessária para que se cumprisse a profecia de que o Messias
viria da casa de Davi. Lembramos aqui uma coisa interessante: tudo isto era
desnecessário, uma vez que José não era efetivamente o pai de Jesus. Outro
57

problema que José resolve é com relação ao chamados irmãs de Jesus. À Igreja
Católica interessava pregar e provar a virgindade pós-parto de Maria. Sendo
assim, estes irmãos são atribuídos a um primeiro casamento de José, que seria
viúvo quando conhece, não biblicamente, Maria. Pompeu enfatiza que um
marido foi necessário para compor uma família, mesmo que a mulher Maria
prescindisse de seus préstimos para gerar filhos. A realidade é que José, nos
poucos episódios em que atua, parece intimamente mortificado, ferido em seus
brios de varão e de macho. Pompeu afirma que José, é por excelência, aquilo
que no teatro e no cinema se chama de ator coadjuvante, sua função é criar
condições para que os outros brilhem.63 Até no presépio sua função é
decorativa. Lembramos também que muitos judeus da época apontavam que
Jesus era filho ilegítimo de José.
A vida de José, pai de Jesus na terra é misteriosa, mas começa com
um grande ato: ele aceita a gravidez da mulher Maria como obra do Espírito
Santo e passa a ser Pai e Protetor de Jesus, embora muitos o tenham visto
apenas como pai adotivo de Jesus. No passado foi acusado de ser um pai
relapso ou distante. A sua imagem de homem que recebia mensagens do Senhor
por meio de sonhos por muito tempo foi olvidada. Há poucos livros que falam
sobre José e no Brasil foi lançado São José, a personificação do Pai64 escritor
Poe Leonardo Boff. Boff retrata José como artesão que tinha oficina nos fundos
do quintal da casa e ali Jesus teria começado a trabalhar. Boff afirma que
provavelmente José e Jesus ternham trabalhado no campo no cultivo de plantas
e legumes e no pastoreio de cabras, ovelhas e gados. Sobre o fato de não haver
nenhuma palavras dita por José nos Evangelhos, Boff declara: “o silêncio é a
essência de José e a de quem ele personifica: o Pai celeste.”65 O grande
problema sobre este persoangem bíblico é que ele não pronuncia palavra
alguma e desaparece de cena misteriosamente, ninguém sabe como e nem
quando morreu. Só na França mereceu grandes estudos. O própio Corão escrito
em torno dos ano 600, dedica um capítulo a Maria e nenhuma linha José.
José foi retrato nas pinturas sempre como um ancião velho e
barbudo. Durante muitos séculos foi até motivo de graça na arte cristã primitiva
como aquele que não sabia de nada. A partir de 1.300 é reabilitado e passa a ser
considerado herói que trabalhava muito. É o santo Oficial dos Católicos do
México e do Canadá. Em 1570 Johannes Nolanus o retratou como jovem e
vigoroso, sepultando sua antiga imagem de velho barbudo. Segundo o artigo de
Célia Chaim o culto a São José começou provavelmente no Egito, passando
mais tarde para o Ocidente, onde hoje alcança grande popularidade. Em 1870, o

63 Toda esta brilhante análise do personagem José, que nós transcrevemos em discurso indireto livre, foi
feita por José Pompeu de Toledo no artifo Um certo José, publicado na Revista Veja, em 21/12/2005, p.
162.
64 Pelal Editora Verus.
65 Célia Chaim no artigo A Redescoberta de José In: Isto É, 2006, p. 54.
58

papa Pio XII o proclamou Patrono da Igreja Unviersal e, a partir de então, ele
passou a ser cultuado no dia 19 de março. Em 1955, Pio XII fixou o dia 1 de
Maio para São José Operário, o trabalhador. Em 1962, o papa João XXIII
colocou o nome de José no cânone da missa, a primeira inclusão registrada em
mais de 1.300 anos. O escritor Paulo Coelho afirma na entrevista citada acima
que “José é o protótipo da pessoa apenas coadjuvante, silenciosa e
anônima66. Ele ainda é uma sombra, embora benfazeja. É o modelo de cristão
anônimo.” Resumindo poderíamso dizer que José não nasceu santo, foi um
herói trabalhador e que conquistou pelo silêncio e humildade a santidade.
Mas o que nos interessa, no entanto, é o José do Quinto Evangelho.
Já nos comentários iniciais sobre José, logo às primeiras páginas do
romance, o narrador demonstra não ter muita simpatia por ele, pois revela o
ridículo e o cômico dessa personagem:

"Encaminhou-se para um alpendre baixo, que era a barraca do


jumento, e aí se aliviou, escutando com uma satisfação meio
consciente, o ruído forte do jacto de urina sobre a palha que
cobria o chão... Louvou a Deus por, em sua sabedoria, ter
formado e criado no homem os orifícios e vasos que lhe são
necessários à vida, que se um deles se fechasse ou abrisse, não
devendo, certa teria o homem a sua morte." p. 24.

Numa das primeiras aparições de José no texto, já se nota a


insensatez de sua personalidade e o início da profanação, da transformação de
um santo numa figura por demais patética. O ato de urinar e a oração de José
são descritos como extremamente estúpidos, aproximando-se do ridículo. Nessa
primeira participação de José no texto, ele realiza, ao amanhecer, uma estranha
missa, que é permeada por quatro orações, algumas insanas como a acima
mencionada, por um forte desejo sexual e por uma relação sexual com Maria.
O juízo crítico realizado pelo narrador continua:"Já sabemos ser
José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talento
para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura." p. 29
(grifo nosso).
O conhecido carpinteiro bíblico, que ensinou a Cristo os rudimentos
da carpintaria, aqui é transformado num trabalhador que, de vez em quando,
resolve "carpinteirar", que não é muito caprichoso, "sem talento para
perfeições", não sendo capaz de tapar as frestas da casa e construir uma cama
decente para Maria (p.42). Essa parte da composição do personagem José, o
autor provavelmente deve ter se baseado em trechos do Evangelho Armênio da

66 Op. Cit., negrito nosso.


59

Infância de Jesus Cristo - capítulo XXXVIII, no qual encontramos a seguinte


citação:"... pois ele não era muito hábil no ofício de marceneiro."67
No Evangelho apócrifo acima mencionado, há a narração de um
episódio em que Cristo ajuda a corrigir milagrosamente uma obra mal feita por
seu pai. Na continuidade da trajetória de José no ESJC, o narrador continua a
insistir na sua insignificância:

"Porém, porque lhe tivesse faltado na origem o golpe de asa


duma imaginação verdadeiramente criadora, nunca na sua
breve vida será capaz de produzir párabola que se recorde, dito
que merecesse ter ficado na memória das gentes de Nazaré e
ser legado aos vindouros..." p. 30.

A sua escassa importância é tamanha que ao narrador só falta


enunciar que se ele não tivesse vindo ao mundo, não faria falta a ninguém.
A relação sexual entre José e Maria choca o leitor cristão que jamais
esperaria a profanação da virgem, muito menos antes do nascimento de Cristo.
Se em todos os Evangelhos se exclui cuidadosamente toda a participação de
José na concepção de Cristo68, aqui sua participação é relatada e ressaltada
com todas as minúcias, como veremos no exemplo abaixo:

"Sem pronunciar palavra, José aproximou-se e afastou devagar


o lençol que a cobria. Ela desviou os olhos, soergueu um
pouco a parte inferior da túnica, mas só acabou de puxá-la
para cima, à altura do ventre, quando ele já se vinha
debruçando e procedia do mesmo modo com a sua própria
túnica, e Maria, entretanto, abrira as pernas, ou as tinha aberto
durante o sonho(...) Deus, que está em toda a parte, estava ali,
mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver
como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne
dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso
mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a
semente sagrada de José se derramou no sagrado interior
de Maria,(...). Tendo pois saído para o pátio, Deus não pôde
ouvir o som agónico, como um estertor, que saiu da boca do
varão no instante da crise, e menos ainda o levíssimo gemido
que a mulher não foi capaz de reprimir."
p. 27 (grifos nossos)

67 Maria Helena de Oliveira Tricca (comp.) Op. cit., p. 168.


68"E José, despertando do sonho, fez como o anjo do Senhor lhe ordenou, e recebeu a sua mulher:
E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome de Jesus." São
Mateus 2: 24 , 25 (grifo nosso).
60

Prosseguindo a leitura, verificamos que José, além de


profissionalmente incompetente, intelectualmente nulo, é ainda inseguro: chega
a desconfiar de sua paternidade em relação a Cristo, seu filho primogênito,
levantando dúvidas sobre a sinceridade de Maria, suspeitando que ela havia
praticado adultério, e essa dúvida o acompanhará por muito tempo. Sua
insegurança é tão grande que o leva a chamar os anciãos para examinarem a
tigela e a terra que brilhava dentro dela, quase obrigando Maria a passar pela
"prova das águas amargas" (p. 41), que era usada para questões que envolviam
traição. Notamos que José apresenta um caráter fraco e perfil inseguro, na
medida em que busca auxílio dos anciãos para questionar Maria, sua esposa.
Parece que há uma luta interna entre o autor implícito69, que está
meio indeciso em relação a que perfomance conceder a José, e o narrador que
quer dessacralizá-lo. Há momentos em que o narrador se trai e concede a José
pequenos laivos de sabedoria, como na discussão com o velho Simeão. Os dois
polemizam e José aqui se mostra especialista em provocar a palavra. Porém,
mesmo mantendo o domínio durante o diálogo, percebemos quais são suas
verdadeiras idéias e juízos, e estes afastam em definitivo o leitor:

"Que depois, se for varão, será minha e de Deus, Ou só de


Deus, Todos o somos, Nem todos, alguns há que estão
divididos entre Deus e o Demónio, Como sabê-lo, Se a lei não
tivesse feito calar as mulheres para o todo o sempre, talvez
elas, porque inventaram aquele primeiro pecado de que todos
os mais nasceram, soubessem dizer-nos o que falta saber, Quê,
Que partes divina e demoníaca as compõe, que espécie de
humanidade transportam dentro de si..." p. 64.

Este laivo de sabedoria demonstra-se no mínimo contraditório, pois


aí está expresso o pré-conceito contra as mulheres ("inventaram aquele
primeiro pecado" e "Que partes divina e demoníaca as compõe"), relevando
assim uma postura machista que o idiotiza aos olhos do leitor de hoje,
principalmente quando em outras circunstâncias, grita com Maria "Cala-te", ou
"Então José deu um grito, Cala-te"(p. 111), ou ainda quando pronuncia mais
uma de suas desconcertantes orações: "Louvado sejas tu, Senhor, nosso Deus,
rei do universo, por não me teres feito mulher" (p. 27 - grifo nosso).
Há um momento no texto em que o narrador parece se arrepender de
estar construindo esta performance para o personagem José:

"... resultado inesperado que nos deveria fazer refletir se não


teremos andado a ser algo injustos nos comentários pejorativos
que desde o princípio deste evangelho, temos feito acerca da
competência profissional do pai de Jesus." p. 92.
69 Conforme teoria proposta por Wayne C. Booth. Op. cit., p. 88-107.
61

A pouca simpatia do narrador se evidencia na concepção dos


detalhes sobre a morte das crianças de Belém. José, trabalhando no Templo e
aguardando o tempo da purificação de Maria, ouve dos soldados que por ali
passavam sobre as ordens expressas e urgentes de Herodes para executar as
crianças que tivessem até dois anos. Desesperado, José corre em direção à cova
para salvar seu filho Jesus, mas quando lá chega, permanece em silêncio, pois a
matança começara.
Reafirmando sua má vontade para com o personagem, o narrador
nos faz saber, nesse momento crucial e desesperador, o pensamento que ocorre
a José, não perdendo a oportunidade para qualificar a lembrança do pai de
Jesus: "...ora é neste momento da mais sentida aflição que um pensamento
estúpido entra como um insulto na cabeça de José, o salário..." p.109 (grifo
nosso).
E é essa decisão de tentar salvar seu filho, em detrimento das outras
crianças inocentes de Belém, que vai marcar toda a trajetória trágica dessa
personagem dentro do texto. Embora use O Evangelho de Lucas como epígrafe,
Saramago dialogará preferencialmente com O Evangelho Segundo Mateus na
criação do problema da culpa eterna de José com relação à morte dos inocentes
de Belém, visto que no Evangelho de Mateus, José, além de ser avisado pelo
anjo da concepção de Maria, é também orientado para fugir porque Herodes
decretara a matança dos inocentes. No Evangelho de Lucas, pelo contrário,
Maria é avisada da concepção e o episódio da matança dos inocentes
simplesmente não é mencionado.
Antipatizam com ele, além do narrador, o próprio Pastor (Diabo),
que ressalta a culpa de José: "... mas o carpinteiro podia ter feito tudo, avisar a
aldeia de que vinham a matar as crianças, ainda havia tempo para que os pais
delas as levassem e fugissem..." p. 115.
É o autor implícito, que está presente na fala do Pastor para acusar
José. As colocações de Jesus, as quais também responsabilizam José pela morte
das crianças de Belém, corroboram a dramatização negativa do narrador em
relação a esta personagem e são também falas do autor implícito:

"O meu pai matou os meninos de Belém, Que loucura estás


dizendo, mataram-no os soldados de Herodes, Não, mulher,
matou-os o meu pai, matou-os José filho de Heli, que
sabendo que os meninos iam ser mortos não avisou os pais
deles..." p. 187 (grifo nosso).

Há uma mágoa muito profunda, da parte de Cristo em relação a seu


pai José, que se inicia logo após Cristo ter descoberto a verdade sobre as
conseqüências trágicas do seu salvamento, que implicaram a morte dos
inocentes de Belém. De "meu pai", Cristo passa a chamá-lo, como no exemplo
62

acima, de "José filho de Heli". No trecho abaixo, numa nova discussão com
Maria, Cristo exterioriza novamente sua mágoa com um certo desprezo pela
covardia de José, preferindo referir-se a ele como "teu marido", demonstrando
como o seu discurso se contrapõe ao discurso de seu pai e de sua mãe:

"Os romanos não são piores que os soldados do outro


Herodes, decerto não virão sobre mim de espada em punho
para me matarem nem me espetarão numa cruz, não fiz nada,
sou inocente, Teu pai também o era, e vê lá o que sucedeu,
Teu marido morreu inocente, mas não viveu inocente." p. l92.

O grande ato de heroísmo do carpinteiro José, o salvamento de seu


filho das mãos dos cruéis soldados de Herodes, aqui neste (des)evangelho é
carnavalizado, possui o seu duplo - a outra face da medalha: vinte inocentes
mortos. A ação heróica e sagrada se transforma numa ação covarde, indigna,
uma culpa inexpiável. E é a partir deste acontecimento que o narrador se
trasforma num perseguidor implacável de José:

"... porém também capazes de engendrar um monstro, como a


gratidão a Deus porque os soldados deixaram com a vida o seu
filho querido, por ignorância e desleixo, é certo, eles que a
tantos mataram..." p. 120.

Em ESJC a mentalidade de José é tão mesquinha, que ele pensa ter


preservado a Cristo e agradece a Deus, numa prova suprema de insensatez, a
salvação de seu filho, não percebendo no que isto resultou: a morte de vinte
crianças inocentes. Na realidade, não foi ele quem salvou Cristo, e sim os
soldados de Herodes que, por incompetência, não examinaram todas as covas
nos arredores de Belém.
A partir desse fato, a vida de José se transforma num pesadelo
literal . Ele sonha noite após noite que caminha em direção a uma aldeia,
70

vestido de apetrechos militares, armado de lança e punhal, soldado de Herodes.


Neste sonho, quando é questionado para qual lugar se dirige, responde
orgulhoso mostrando o peso de sua missão: "Vou a Belém matar o meu filho, e
quando o disse despertou com um ronco abominável, o corpo crispado, torcido
de terror..." p. 119.
Estamos diante de outra categoria da carnavalização: "A
representação de inusitados estados psicológicos-morais anormais do homem -
toda espécie de loucura (temática maníaca), da dupla personalidade, do
devaneio incontido, de sonhos extraordinários, de paixões limítrofes com a

70 Northorop Frye (Modos da ficão trágica. In: Anatomia da Crítica. São Paulo; Cultrix, 1973, p. 51)
nos informa que "A comédia irônica leva-nos à personagem do ritual do bode expiatório e do
pesadelo, o símbolo humano que concentra nossos medos e ódios."
63

loucura, de suicídios, etc."71 O próprio narrador esclarece a importância dos


sonhos: "O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do
homem diante de si próprio" (p. 38).
José tem consciência de que é culpado e de que essa culpa matará
seu filho Jesus:
"Depois teve um pensamento ainda mais triste, o de os filhos
sempre morrerem por causa dos pais que os geraram e das
mães que os puseram no mundo, e então teve pena do seu
próprio filho, condenado à morte sem culpa. "ESJC, p. 93.

Além de Cristo, outro personagem também reconhece a culpa de


José: o anjo/Pastor que em visita a Maria diz: “...a sombra da culpa de José já
escurece a fronte de teu filho." p. 116 .
A culpa que recai inexoravelmente sobre José nos faz lembrar da
"vítima típica de pharmakós ou bode expiatório"72 da ironia trágica, no sentido
de que José nasceu predestinado à culpa e à morte. Com relacão à figura da
vítima típica, Frye esclarece que: "O pharmakós não é inocente nem culpado. É
inocente neste sentido: o que lhe acontece é muito maior do que algo que ele
tenha feito poderia provocar."73 O que acontece a José, o remorso, a angústia,
os pesadelos, a rejeição por parte de Cristo, a culpa que vai recair sobre seu
filho, sua morte e a de seu filho na cruz, é muito maior do que aquilo que ele
deixou de fazer: avisar os pais das crianças inocentes.
Intrinsecamente ligado ao problema da culpa e do remorso que
atormenta o espírito de José está sua preocupação quase que obsessiva com o
destino seu e de seu filho. Observemos uma conversa de José com o sábio
ancião de nome Simeão, na viagem de Nazaré até Jerusalém: "Fosse o que
fosse, a mim o que me interessa é saber que destino vai ter o meu filho, Se nem
o teu próprio destino podes conhecer," ESJC, p. 68.
José, atormentado pelo remorso e com medo de que Cristo herde
sua culpa, questiona o ancião sobre o destino que teria seu filho. Este ancião
funciona com uma espécie de oráculo, ao constatar que "nem o teu próprio
destino podes conhecer" e ainda prediz o futuro de José:

"Talvez que o destino do teu filho não venhas a saber nunca,


talvez o teu próprio destino esteja para cumprir-se em breve,
não perguntes, homem, não queiras saber, vive apenas o teu
dia" ESJC, p. 68, 69.

71 Mikhail Bakhtin.Op. cit., p. 100.


72 Northrop Frye. Op. cit., p. 47. O autor enquadra nesta categoria Adão, Jó, Cristo e os tipos
contemporâneos: o judeu, o artista, o homem comum e uma espécie de palhaço triste: Chaplin.
73 Ibid., p. 47.
64

Nesta tensa discussão com Simeão, José insiste em questionar o


problema do destino, em certo momentos tenta dominar a discussão, mas é em
vão. Mesmo demonstrando uma certa sabedoria ao emitir um pronunciamento,
o carpinteiro procede de maneira irônica com o ancião ao dizer que "queira
Deus que esta conversa o não faça lembrar-se de ti"(p. 59). O velho Simeão,
com um gesto de cólera, conclui o diálogo e, de uma maneira contundente,
revela a José a grande verdade de sua vida: "Porventura terá Deus quebrado o
selo do teu nascimento antes do tempo e ainda não devesses estar no mundo..."
ESJC p. 59 .
A verdade expressa pelo ancião de que José, talvez, não devesse
estar no mundo, ou ainda, talvez, nem devesse ter nascido, também é comum ao
narrador que, de certa forma, quase mata José em vida:

"Mas o que há de realmente inquietante no rosto de José é a


expressão do seu olhar, se não seria mais exato dizer a falta
de expressão, pois os seus olhos dão a idéia de estarem
mortos..." p. 123.

O narrador é afligido por sua onisciência, pois sabe que José morrerá
muito cedo, mas tem que fingir que não sabe. Trai-se, porém, e revela uma
certa angústia por vê-lo morto.
Ele também insiste que este não é aquele José, que se está no
domínio absoluto da paródia e do carnaval:

"... pois o nosso carpinteiro ouviu e calou, foi a correr salvar


o filho e deixou os dos outros entregues ao fatal destino, nunca
palavra veio tão a propósito" p. 124( grifo nosso).

O narrador compara José a Deus, justamente outro personagem pela


qual demonstra total rejeição. O fato de José engravidar Maria por várias vezes
seria uma forma de compensar os vinte inocentes mortos, compensação que
também seria divina, visto que os dois são igualmente culpados:

"... é que José, ainda que de um modo difuso, que mal lhe
passava ao nível da consciência, supunha agir por conta
própria e, acredite quem puder, com a mesma tenção de Deus,
isto é, restituir ao mundo, por um afincado esforço de
procriação, se não, em sentido literal, as crianças mortas, tal
qual tinham sido." p. 131.

Na citação acima, o narrador concebe um José que age pelos


instintos, sua procriação é intuitiva, como a dos animais; é a zoomorfização de
um personagem que pentence à galeria dos santos do cristianismo.
65

Como resultado da aversão que demonstra pelo pai de Cristo, o


narrador tira-o da trama muito cedo em relação aos demais personagens do
ESJC, levando-o à crucifixão em Séforis, junto com os seguidores de Judas, o
galileu, guerrilheiro perturbador da ordem que se revolta contra o domínio
romano. A crucifixão de José não deixa de ser verossímil pois durante o
governo de Herodes houve nada menos que 2000 crucificados na Judéia. A
morte de José é uma espécie de suicídio, uma vez que não se defende na hora
final em que deveria dizer que era inocente:

"Este é que se dizia sem culpa, o sargento hesitou um instante,


exactamente o instante em que José deveria ter gritado, Estou
inocente, mas não, calou-se, desistiu ..." p. 165.

Usando a técnica de supor diálogos que não acontecem, justamente


devido à agudeza de sua onisciência, o narrador mostra neste instante final a
covardia de José, que não luta pela vida e vai ao encontro da morte, o que nos
reporta novamente ao phamarkós, pois o "patos é aumentado pela mudez da
vítima"74. A carnavalização deste personagem é evidente: muitos de seus atos
são permeados pelo riso; seu maior feito (salvar a vida de Cristo) é
transformado numa profanação ignomiosa; seu caráter é de alguém
extremamente covarde; seu discurso é o discurso do medo, da agonia, dos
sonhos delirantes, da temática maníaca, da culpa, do remorso. Essa é uma culpa
que transcede a sua existência, culpa que levará seu filho a andar nas suas
sandálias, a seguir os seus passos. O narrador encerra a participação de José,
com ele na cruz, morto aos trinta e três anos, destacando o grotesco do cadáver
do mesmo:

"... ao descerem-no da cruz, um pouco arregaçada (a túnica),


lhe davam o aspecto grotesco de um fantoche partido nos
engonços." p. 171 (grifo nosso).

É o percurso de um fantoche, de alguém que é movido por uma


vontade maior que a sua, incapaz de mudar o seu próprio destino, atormentado
pelo problema da culpa, mais uma vítima dos deuses, figura pateticamente
abobalhada, pois, neste evangelho, o pai de Jesus é totalmente dessacralizado,
adquirindo características próprias das frágeis figuras humanas: remorso, culpa,
medo, insegurança, covardia.
A trajetória de José é semelhante ao pharmakós ou ao bode
expiatório, no sentido atribuído por Frye e ainda bode expiatório no sentido
atribuído pelo livro de Levítico (Cap. 16: 1-34), do Velho Testamento.
74 Northrop Frye. Op. cit.p. 45. Sobre o patos, o autor esclarece que: "O patos apresenta seu herói
como isolado por uma fraqueza que fala à nossa simpatia porque se situa em nosso plano de
experiências."
66

Todos os pecados cometidos ao longo de um ano pelos israelitas


eram depositados (simbolicamente) no santuário (templo em forma de tenda),
através de uma série de rituais e sacrifícios. Uma vez por ano, o sacerdote,
vestido com uma roupa especial, escolhia dois bodes que, por meio de um
sorteio, eram destinados, um para expiação (bode emissário) e um para
holocausto a Deus. O bode do holocausto era sacrificado e com seu sangue se
purificava o santuário dos pecados. Com relação ao bode expiatório, o
sacerdote, com as mãos sobre a cabeça do animal, confessava todas as culpas e
pecados dos filhos de Israel. Depois enviava-o para o deserto, para que lá
morresse.
José foi escolhido, predestinado por Deus, a levar a culpa pelas
mortes dos inocentes de Belém75, a ser o bode expiatório deste evangelho,
inevitavelmente condenado à morte.

Outros escritores como Carlos Heitor Cony, reavaliam o papel de


José nos Evangelhos:

"Um personagem como José de Nazaré, que viveu há


2.000 anos, ou mesmo não viveu porque foi inventado
pelos primeiros cristãos, sendo ou não realidade, é de uma
assombrosa grandeza humana.
Nenhum dos gênios, como Homero, Sófocles, Cervantes,
Shakespeare, Balzac ou Tostói, teria criado um homem
como ele, que aceitou participar de um mistério
complicadíssimo para qualquer um, sobretudo para um
humilde trabalhador braçal, perdido numa Galiéia inculta
e não bela.
Humilde em vida, José continuou humilde, mesmo em
sua trajetória através do tempo. Não há catedrais
fabulosas em sua homenagem. Não tem a importância
história de Moisés, Maomé ou Paulo. Nem feitos

75 Se procurássemos uma pintura que contasse sozinha a trajetória do José de Saramago, por exemplo,
poderíamos escolher sem receio o quadro do pintor Giusseppe Anciboldi conhecido como
Herodes com os cadáveres das crianças inocentes. Este pintor, nascido em Milão em 1527,
notabilizou-se por pintar quadros bizarros, compostos a partir de uma mistura de verduras,
utensílios domésticos, animais, pessoas, flores numa grande simbiose de elementos, misturando
aleatoriamente coisas animadas com inanimadas. O seu quadro mais famoso mostra uma gravura
do rostro de Herodes, que é montado a partir de centenas de pequenos bebês minúsculos e
contorcidos, demonstrando bem a loucura maníaca da face de Herodes. Não sabemos se o autor
observou este quadro também, mas ele, trocando-se a figura de Herodes por José, conta
perfeitamente toda a trajetória deste personagem Este quadro é citado e estudado no capítulo
dedicado à loucura, In: Maneirismo: O Mundo como Labirinto, de Gustav R. Hocke. São Paulo:
Perspectiva, 1986, p. 274
67

admiráveis como Francisco de Assis ou Antônio de


Pádua.
Não se conhece uma frase sua. Apenas gestos de
aceitação e proteção."76

O destino de um parvo: culpa, medo, fantoche, bode expiatório e a


cruz como recompensa suprema.

76 Carlos Heitor Cony. Um homem chamado José. In: Folha de São Paulo, 26 março de 2000, p. 1-2
Opinião, grifo nosso.
68

"Maria relembrou as palavras do Anjo,


anunciando-lhe que estaria coberta pela
sombra do Altíssimo. Compreendendo
tamanho fardo, odiou-o. Tanto as
lágrimas envelheceram o rosto que os
olhos não mais reconheceram as
fulgurantes cores do Oriente nem a
direção do templo. Se quando
adolescente tivesse pressentido as futuras
idéias do filho, teria recusado o louvor do
Anjo.
O destino das mães - Maria olhava o
céu com a noite nos olhos - é guardar no
coração o veneno que os filhos destilarão
ao crescerem."

Walmor Santos. Anunciação. In: Além do Medo e do


Pecado. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996.
69

3.2 - Maria - uma segunda Eva


"O anjo fez-lhe a saudação, a saudação sagrada, muito
tempo depois empregada para louvar Maria, a segunda
Eva." John Milton, O Paraíso Perdido, p. 111.

O relato da vida de Maria - Mãe de Jesus nos evangelhos é


extramamente complicado dentro da história do cristianismo, pois há muitos
pontos obscuros sobre sua biografia, e nos quatro evangelhos sua figura é quase
que “eclipsada” nos relatos. Constatemos através dos últimos estudos “das
faces de Maria”:
“Não haverá maior paradoxo na história do cristianismo que o
de Maria, pois a mais eminente figura do culto cristão, depois
do próprio Cristo, é na realidade a mais obscura das
personagens do Novo Testamento. A mãe de Cristo não é,
de fato, a figura central no cristianismo dos primeiros
séculos. O Evangelho segundo João limita-se a uma vaga
referência sobre ‘a mãe de Jesus’ e o de Marcos cita-a apenas
uma vez.”77

É em cima desse silêncio constrangedor dos quatro evangelistas a


respeito das “obscura” mãe de Jesus, que o quinto evangelista construirá sua
segunda Eva - Maria, pois tem consciência de que “ao contrário de constituir
em sério empecilho para o enriquecimento da lenda de Maria, o quase silêncio
dos Evangelhos a seu respeito funciona como um fermento. Para além da
interessante imaginacão popular, sucedem-se diversas fontes literárias, todas
tardias, os assim chamados Evangelhos Apócrifos, etc.”78.
Aproveitando as fendas do discurso teológico, as inúmeras citações
de Maria, presentes nos evangelhos apócrifos, a sua “prodigiosa imaginação”, é
que Saramago vai bordar, caprichosamente, uma biografia “especial” para a sua
Maria, incluindo a sua genealogia, seus pais, suas dúvidas e incertezas, etc. E
os “vazios” dos evangelhos canônicos sobre a Mãe de Cristo, são abundantes:

“...como desenvolver o culto de uma figura quase eclipsada


no testemunho do apóstolos? Como cultuar uma figura que
nem sempre parece convencida da natureza divina de seu
filho, o qual por sua vez, parece recusá-la em uma de sua
mais desconcertantes respostas: ‘Quem é minha mãe?’- Mt.
12:48. Como cultuar, enfim, uma Maria que tinha de início tão
pouco a oferecer à veneraçã popular? Pois, ao contrário de

77 Luis Marques. As faces de Maria. In: São Paulo: Revista Veja, Ed. Abril, Dez., l996, grifo nosso.
78 Id. Ibid., p. 119, grifo nosso.
70

tantos apóstolos, ela não se cingira da auréola de mártir, não


realizara milagre algum e não deixava, enfim, nenhuma relíquia
de si, três elementos essenciais do culto primitivo.”79

Conhecedor de todos esses “vazios”, desses “pontos obscuros” e do


quase total esquecimento dos quatros evangelistas sobre a vida da Mãe de
Jesus, Saramago sabe que tem um terreno inexplorado para plantar e colher
frutos abundantes, e é o que fará. Entre as personagens do ESJC, Maria é vítima
de uma antipatia generalizada, a começar pelo narrador, passando pelo autor
implícito e se estendendo a todas as demais personagens, com exceção de
Maria Madalena. Acontece que a Igreja Católica cultua Maria como
intercessora, intermediária entre os crentes e Jesus, uma espécie de face
feminina de Deus:

“Mariologia é o ensino teológico a respeito de Maria, mãe


de Jesus. A Igreja Católica Romana passou a aceitar
alguns ensinos a respeito de Maria que pela tradição
passaram a ser parte essencial do dogma (crença essencial
a todos os católicos) cristãos. Essas afirmações
dogmáticas incluem a imaculada concepção, a
virgindade perpétua, a impecabilidade, a plenitude da
graça e a assunção corpórea de Maria”80

Os evangelistas Lucas e Mateus declaram que Maria concebeu


virgem, adotando a versão grega de Isaías 7:14. Contudo, o texto hebraico de
Isaís usa a palavra Alma que significa simplesmente uma jovem em idade de
contrarir matrimônio ou até casada, sem nenhuma implicação de virgindiade.
Parece quase certo que toda a implicância na questão sexual no mundo cristão
é resultado de uma tradução errado do texto hebraico.
O narrador, já nos primeiros comentários, ironiza e mostra sua
antipatia absoluta pela mãe de Jesus:

"Sobre os dotes de Maria, por enquanto, só procurando muito,


e mesmo assim não acharíamos mais do que é ... não passa
duma rapariguinha frágil, por assim dizer dez-réis de
gente... Apesar da fraca figura... recolherá bostas secas de
gado ..." p.. 30 (grifo nosso).

"Maria não é piedosa nem justa" p. 31 (grifo nosso).

79 Id. Ibid., p. 112, grifo nosso.


80 Conforme Dicionário de Teologia de Stanley J. Grenz. São Paulo: Vida, 2000, p. 84, negrito nosso.
71

A aversão do narrador por Maria se consubstancia ao caracterizá-la


como uma rapariguinha frágil, recolhendo bostas secas de gado, comparando-a
a um burro de carga, sem piedade, sem justiça, e por fim, mentirosa e maliciosa
como a própria Eva. Com relação à comparação entre Eva e Maria, citamos Le
Goff: "... a ideologia medieval subjacente que faz da mulher um ser falso e
tentador, o melhor aliado do demônio, uma eterna Eva mal resgatada por Maria,
um ser escabroso para quem o vigia."81
Esse problema está baseado na “misoginia arraigada no ascetismo
oriental e na Igreja primitiva, para os quais a mulher, herdeira de Eva,
permaneceria inapelavelmente a ‘lira de satã’.”82
A comparação entre Eva e Maria remonta à Idade Média, no
sentido de que Maria, a santa e justa mãe de Jesus, deveria ter redimido Eva, a
pecadora e mentirosa, mãe de todos os mortais. Em termos teológicos, esta
comparação daria muito o que argumentar e pesquisar. Mas o que nos interessa
é a Maria de Saramago, e é justamente este resgate, no sentido de remissão e
expiação, que não ocorre no Quinto Evangelho. Maria é igual, melhor dizendo,
pior que Eva. Há uma estrutura simbólica que permeia toda a Bíblia, pois "a
cada personagem, a cada acontecimento do Velho Testamento, corresponde
uma personagem e um acontecimento do Novo Testamento."83
Na Bíblia há toda uma série de equivalências alegóricas, simbólicas,
arquetípicas entre o Velho e o Novo Testamento. Nesse sentido, o rei Davi
prefigura o advento de Cristo, o sacrifício de Isaac torna-se uma alegoria do
sacrifício de Cristo e assim seguem-se centenas de exemplos. E, dentro desse
sistema de equivalências, ressaltamos a correta pertinência na comparação de
Maria a Eva, comparação que também é feita pelo próprio narrador, logo no
início da diegese:

"... e se ela, afinal, está a mentir, não o poderá ele saber, mas
ela, sim, saberá que mente e mentiu, e rir-se-á dele por baixo
do manto, como há boas razões para crer que riu Eva de Adão,
de modo mais disfarçado, claro está, pois nessa altura ainda
não tinha um manto que a tapasse." p. 37.

É a carnavalização da Maria Bíblica, aquela santa, piedosa, sendo


essa justamente o contrário. A dessacralização da Maria do ESJC se completa
pela profanação sexual:

"Ela desviou os olhos, soergueu um pouco a parte inferior da


túnica, mas só acabou de puxá-la para cima, à altura do ventre,
quando ele já se vinha debruçando e procedia do mesmo modo
81Jacques Le Goff (org.). O Homem Medieval. Lisboa: Presença, 1989, p. 10.
82 Luis Marques. Op. cit., p. 112 .
83 Ibid., p. 27.
72

com a sua própria túnica, e Maria, entretanto, abrira as


pernas ou as tinha aberto durante o sonho e desta maneira as
deixara ficar, fosse por inusitada indolência matinal ou
pressentimento de mulher casada que conhece os seus
deveres... como a carne dele penetrou a carne dela, criadas
uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente lá se
encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no
sagrado interior de Maria, sagrados ambos... Tendo pois saído
para o pátio, Deus não pôde ouvir o som agônico, como um
estertor, que saiu da boca do varão no instante da crise, e
menos ainda o levíssimo gemido que a mulher não foi capaz
de reprimir." p. 27 (grifo nosso).

A questão do nascimento virginal de Cristo não é questionado nem


por católicos, nem por protestantes. Em geral, todos são unânimes neste ponto,
embora ocorram diversas controvérsias com relação à virgindade pós-parto de
Maria. A Igreja Católica defende a virgindade perpétua de Maria, antes e
depois do nascimento de Cristo, e acredita que os irmãos de Jesus, citados nos
Evangelhos, seriam, na verdade, primos do mesmo. Por outro lado, os
protestantes aceitam o fato de que, após o nascimento virginal de Cristo, José e
Maria se "conheceram", na acepção legítima do termo bíblico, e seus irmãos
seriam irmãos legítimos, filhos de José e Maria.84
Portanto, após séculos de discussão e polêmica em torno deste
assunto, as opiniões se concentram em torno de duas principais correntes
teológicas: virginitas ante partum e virginitas post partum. Mas aqui católicos,
protestantes, cristãos em geral, e principalmente o leitor ocidental, conhecedor
da "história afinal arquiconhecida", ficam estarrecidos perante este discurso
narrativizado85, pois já nas primeiras páginas do livro temos a queda de um
paradigma bíblico de pureza e santidade e a queda das duas correntes teológicas
citadas, visto que, de imediato, a concepção virginal é descartada.
Segundo São Mateus, 1:15, José só conheceu86 Maria após o
nascimento de Cristo. O leitor, ao ser informado pelo narrador, que minucia
todos os detalhes deste ato, que a virgem Maria "abrira as pernas" e balbuciara
"um levíssimo gemido" que não pôde ser reprimido, fica com a respiração
suspensa. A Santa Virgem Maria já começa o texto profanada, abrindo as
pernas e gemendo de prazer sexual, um comportamento mais próprio para uma

84 Sobre esta polêmica, consultar o capítulo II “Família, Estado Civil e Condição como Leigo” de John
P. Meier. In: Um Judeu Marginal - repensando o Jesus Histórico.Rio de Janeiro: Imago, l992,
pg. 312-348.
85 De acordo com Gérard Genette em Op. cit, p. 168, o discurso narrativizado é o relato de um
acontecimento qualquer, no qual não há a transposição de falas, equivalente ao discurso indireto
livre.
86 No sentido bíblico, este verbo refere-se ao conhecimento sexual. "E conheceu Adão a Eva. sua
mulher, e ela concebeu e teve Caim..." Gênesis 4:1
73

prostituta (já que o prazer feminino não era visto como das "mulheres de bem"
pela Igreja) e não para a Santa mãe de Jesus. Mas, muito pior que a sua
profanação sexual, é a sua profanação moral.
A profanação moral de Maria se inicia, como observamos, pelas
constantes intrusões extremamente irônicas do narrador e se acentua com a sua
sexualização. Entretanto, a revelação completa do caráter de Maria ocorre
através de alguns episódios nos quais ela participa ativamente. Examinemos
alguns trechos que evidenciam o seu discurso, a sua fala.
Maria tem medo da verdade e por esse motivo quase nunca inicia
uma polêmica ou uma conversa: quase todas as vezes que entra em ação, é
encurralada por alguém que lhe provoca a palavra e a leva a expressar suas
idéias. Foge do confronto provocado pelo diálogo. Nas poucas vezes em que
participa, sua palavra, seu posicionamento é provocado por um interlocutor
que domina e conduz o diálogo. Ela é forçada, em todos eles, através da
comunicação dialógica, a experimentar o sabor amargo da verdade.
A primeira cena, na qual o narrador aparece apenas indicando as
falas, será a de Maria e Pastor discutindo sobre a morte dos inocentes:

"Disse Maria, Ouvi os gritos. Disse o anjo, Sim apenas os


ouviste, mas um dia os gritos que não deste hão-de gritar por
ti, e ainda antes desse dia ouvirás gritar mil vezes a teu
lado...Disse Maria, Que crime cometeu meu marido. Disse o
anjo, Tu o sabes, não queiras ser tão criminosa como ele.
Disse Maria, Juro..." p.115.

A segunda cena (showing) a ser estudada, é extremamente


dramática. Ocorre quando Cristo e Maria discutem novamente sobre o assunto
dos inocentes mortos, na qual a voz do narrador desaparece por completo:

"... E depois, Veio a correr para te salvar, E depois, Pensou


que não seria preciso fugirmos e deixamo-nos ficar na cova, E
depois, Mais nada, os soldados fizeram o que lhes tinham
mandado e foram-se embora, E depois, Depois voltámos para
Nazaré, E o sonho começou... O meu pai matou os meninos
de Belém, Que loucura estás dizendo, mataram-nos os
soldados de Herodes, Não, mulher, matou-os o meu pai,
matou-os José filho de Heli." p. 187 (grifo nosso).

A terceira cena, tensa por excelência, ocorre no reencontro de Maria


e Cristo:
"Estás em poder do Diabo, disse Maria, e o seu dizer era um
grito, Não foi o diabo que eu encontrei no Deserto, foi o
Senhor, e se for verdade que em poder do Diabo estou, o
Senhor o quis, O diabo está contigo desde que nasceste, Tu o
74

sabes, Sim. sei-o, viveste com ele e sem Deus durante quatro
anos, E ao fim de quatro anos com o Diabo encontrei-me com
Deus, Estás a dizer horrores e falsidades, Sou o filho que tu
puseste no mundo, crê em mim, ou rejeita-me, Não creio em ti
(...)
Não te cremos, disse a mãe, e agora menos que antes, porque
escolhestes o sinal do Diabo..." p. 302.

A quarta cena a ser citada é a cena do diálogo entre o anjo e Maria:

"Então Jesus é filho de mim e do Senhor, Mulher que falta de


educação, deves ter cuidado com as hierarquias, com as
precedências, do Senhor e de mim é que deverias dizer, Do
Senhor e de ti, Não, do Senhor e de ti, Não me baralhes a
cabeça, responde-me ao que te perguntei, se Jesus é filho,
Filho, o que se chama filho, é só do Senhor, tu para o caso,
não passaste de ser uma mãe portadora, Então o Senhor não
me escolheu, Qual quê(...) mas reparou que tu e José eram
gente robusta saudável... " p. 311 (grifo nosso).

Antes de prosseguirmos, já podemos observar que, além do narrador,


Pastor(Diabo), Cristo e o Anjo são outros personagens que também
demonstram evidente antipatia pela mãe de Jesus.
Na primeira cena, Maria age com medo das perguntas do Pastor
(Diabo); ela tem medo de confrontar-se com a verdade que o Diabo está
propondo e com a sua própria verdade, não quer reconhecer a monstruosidade
do crime do seu marido, tranformando-se de certa forma em sua cúmplice.
No segundo trecho, novamente se vê acuada pelas perguntas
inquietantes de seu filho, que é especialista em provocar uma discussão, e acaba
colaborando para que Cristo encontre a verdade de seu passado. Na terceira
citacão, observamos o conflito explícito, a distância imensa do discurso de
Maria e do discurso de seu filho, pois ela não acredita que ele viu Deus; pelo
contrário, afirma que ele anda em poder do Diabo. Na quarta cena, durante a
qual narrador novamente desaparece, notamos a total insignificância de Maria
nos planos divinos. Maria, questionando o anjo, numa das únicas vezes em que
busca a verdade de sua vida, fica decepcionada, pois o anjo lhe informa que ela
não passava de uma "mãe portadora", uma espécie de "barriga de aluguel".
Maria, após isto, em desespero, explicita a sua condição: "Pobrezinha de mim,
que cheguei a imaginar, ouvindo-te, que o Senhor me havia escolhido para ser a
sua esposa naquela madrugada, e afinal foi tudo obra de um acaso..." p. 312.
Mesmo reconhecendo sua condição humilhante, Maria revela uma
arrogância imprópria para um santa. Ela não diz que está humilhada por ser
75

apenas "uma mãe portadora", mas que está triste porque queria ter sido a
esposa do Senhor naquela noite. É a soberba e o orgulho extremo da mãe de
Jesus. O anjo, diante de tanta prepotência, continua acusando Maria, apenas
uma mulher ignorante, por não ter acreditado em seu filho: "... e tu, céptica, e
tu, desconfiada..." p. 313.
A distância entre Cristo e sua mãe, que já era imensa, se transforma
num abismo intransponível, demonstrando bem a oposição de seus discursos:

"Quem é minha mãe, quem são seus irmãos..." p. 324.

"Jesus voltou lentamente a cara para a mãe, olhou-a como se


ela lhe tivesse falado de muito longe, e perguntou, Mulher, que
há entre ti e mim..." p. 346.

"Não há cego tão cego como aquele que não quer ver, disse
Maria. Estas palavras enfadaram muito Jesus, que respondeu,
repreensivo, Cala-te, mulher, se os olhos do teu filho viram o
mal, viram-no depois de ti, mas estes mesmos olhos, que para
ti parece que estão cegos, viram também o que nunca viste e
com certeza não verás." p. 299 (grifo nosso).

O conflito familiar entre Cristo e sua família, aqui expresso, dialoga


com episódios presentes nos Evangelhos. O relato desses conflitos é comum
aos quatro evangelistas. O Evangelista Lucas (2.49), relata o desaparecimento
de Cristo durante três dias e os problemas advindos disso. Também o
Evangelista Marcos relata o conflito familiar:

"E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe:


Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram, e estão lá fora.
E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus
irmãos?" São Marcos 3: 32 e 33 (grifo nosso).

Com relação ao conflito direto entre Maria e Cristo, existe uma outra
passagem relatada pelo Evangelista São João por ocasião do milagre das Bodas
de Caná, extremamente constrangedora para ser explicada pelos teólogos.
Estavam neste casamento Jesus, seus discípulos e sua mãe que, ao observar que
faltava vinho, lhe diz:
"Não tem vinho.
Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? ainda não
é chegada a minha hora." S. João 2: 3 e 4 (grifo nosso).

No ESJC, mesmo o anjo tendo descido dos céus e revelado a Maria a


eleição de Cristo, ela continua a não crer em seu filho: "... pois nele cremos e,
querendo-o o Senhor, viremos a crer no que disse, ..." p. 317.
76

A situação de Maria já é muito difícil, mas o narrador continua se


intrometendo, complicando ainda mais sua posição:

"... Maria deixou de ser a boa mulher que antes havia


demonstrado ser..." p. 125.

"... vai-se-lhes aos poucos a beleza e a frescura; se as tinhas,


emurchecem tristemente a cara e o corpo..." p. 130.

Percebemos, pelos exemplos citados, o desprezo completo do


narrador por Maria, o avesso da Maria bíblica. Para corroborar esta antipatia,
sentimos que o autor implícito se trai e utiliza as falas de Cristo, do Pastor e do
Anjo para fechar um círculo apertado de rejeição junto a Maria, cujo discurso é
o da fragilidade, da insensibilidade, da cumplicidade, do medo à palavra e à
verdade, da desconfiança, da injustiça, da mentira, da descrença, da soberba, do
orgulho, o discurso de uma segunda Eva, tão falha quanto a primeira.
O leitor é orientado pela antipatia do narrador; é influenciado por
algumas bocas(falas) do autor implícito (Pastor, Anjo e Jesus) a rejeitar Maria,
muito mais pela profanação do seu caráter do que pela sua profanação sexual.
Talvez o comportamento moral de Maria espante muito mais o leitor do que a
sua vida sexual.
O narrador retira Maria da trama numa episódio carnavalizado em
que o sagrado se torna profano, o profano sagrado, o baixo se eleva e o elevado
se rebaixa. É o contraste do encontro das duas Maria: a de Nazaré e a de
Magdala. Ciente de que falhara completamente na sua missão, Maria, numa
atitude rara, toma a iniciativa do seguinte diálogo:

"... cruzava-se com Maria de Magdala; trocavam o mesmo


olhar, porém, não falavam, até que a mãe de Jesus fez à outra
sinal para chegar-se a um recanto do pátio, e disse-lhe sem
preâmbulos. Cuida do meu filho, que um anjo me disse que o
esperam grandes trabalhos, eu não posso nada por ele,
Cuidarei, defendê-lo-ia com a minha vida se ela merecesse
tanto..." p. 334.

É o encontro entre a Santa e a Prostituta, aqui com os papéis


invertidos, a Santa é Maria de Magdala e a perversa, a segunda da Eva, é Maria
de Nazaré.
Num dos momentos em que pela primeira vez se nota um laivo de
sabedoria em Maria de Nazaré, pois esse seu comportamento é imprevisível e
nos surpreende, ela se humilha e exalta Maria de Magdala, transferindo a ela a
responsabilidade de acompanhar o destino de Cristo (potestas matria) e aliviar-
lhe os sofrimentos, tarefa para a qual, ela, mãe, havia falhado:
77

"Eu te abençoo, Maria de Magdala, pelo bem que a meu


filho Jesus fizeste, hoje e para sempre te abençoo. Maria de
Magdala aproximou-se para beijar-lhe o ombro em sinal de
respeito, mas a outra Maria lançou-lhes os braços, apertou-a
contra si e as duas ficaram abraçadas, em silêncio, até que se
separaram..."p.345(grifo nosso).

Estamos diante do processo de dessacralização da Virgem Maria,


Mãe de Jesus, em que o sagrado e o profano se confrontam e aqui se mostram
totalmente invertidos, pois "a menipéia é plena de contrastes agudos e jogos de
oxímoros: a autêntica liberdade do sábio e sua posição de escravo, o imperador
convertido em escravo, a decadência moral e a purificação, o luxo e a miséria, o
bandido nobre, etc. A menipéia gosta de jogar com passagens e mudanças
bruscas, o alto e o baixo, ascensões e decadências, aproximações inesperadas
do distante e separado, com toda sorte de casamentos desiguais"87. Estamos
diante das "diversas violações da marcha universalmente aceita e comum dos
acontecimentos, das normas comportamentais estabelecidas e da etiqueta..."88,
ascensão de uma prostituta e decadência de uma santa, numa carnavalização
completa das duas Marias.
Do credo católico, que reza "Ave Maria, cheia de graça, O Senhor é
convosco, Bendita sois vós entre as mulheres e Bendito é o Fruto do vosso
Ventre Jesus", passamos a este novo credo: Pobre Maria, na qual falta graça,
que não és piedosa nem justa, és céptica e desconfiada. Maria, ignorante
mulher, rapariguinha frágil e descrente, não passastes de uma ‘mãe
portadora’ e pobre cobaia é o fruto do vosso ventre Jesus. Para ti não há
amém...

3. 3 - SANTA MADALENA
"Então Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por
Jerusalém - 'ressuscitou, ressuscitou!' E assim o amor de uma
mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais à
humanidade!" Eça de Queiróz In: A Relíquia, p. 121 (grifo
nosso).

A concepção da imagem da mulher como vítima por excelência e


predileção de Satanás, a lira afinada e tocada por esse, remonta à Idade Média,
87 Mikhail Bakhtin. Op. cit., p. 101.
88 Mikhail Bakthin. Op. cit., p. 101.
78

e Maria Madalena foi estigmatizada durante séculos, pela fantasia popular,


como símbolo de decadência, baixeza e pecado; uma prostituta que tentou
atrapalhar com tentações vis o caminho sagrado de Jesus Cristo. Uta Hanke,
uma das maiores teólogas feministas da atualidade esclarece que Cristo foi
caracterizado pela Igreja como um homem livre de qualquer pecado, e
principalmente, livre de qualquer espécie de prazer sensual e que os estudiosos
tentaram afastar a imagem de Cristo das mulheres que o rodeavam, como
consta nas Escrituras89. A Madalena de Saramago vai resgatar o prazer sensual
negado a Cristo pelas Escrituras e pelos pais da Igreja.
Por outro lado, também não é novo, na literatura e no cinema, a
abordagem criativa desta personagem bíblica, nem as tentativas de resgatá-la.
Renan, em sua Vida de Jesus, passou sutilmente pelo problema, não porém,
sem deixar uma pequena brecha: "... mas é provável que elas (as mulheres) o
amassem mais a ele do que à obra; sem dúvida foi mais amado do que amou"90.
No cinema, como já mencionamos no capítulo I desse livro, há uma
série de filmes, musicais e livros que exploram este filão.
Portanto, a tentativa de resgate de Madalena, no sentido da remissão,
não é original em Saramago; o que é original é a maneira definitiva como ele a
faz. Reaproveitando-se novamente do silêncio das escrituras sobre o que que
teria feito Jesus, desde seu nascimento até sua fase adulta, o escritor cria um
enredo particular para Cristo durante essa época de sua vida.
Por outro lado, o enredo do envolvimento ficcional de Cristo com
Madalena tem um aspecto verossímil e até histórico, pois “Jesus era mesmo
solteiro, o que é extraordinário, numa cultura judaica-camponesa que valoriza o
casamento e a família.” O Professor de Novo Testamento da Universidade
Católica da América - John Meier - esclarece que “o celibato como estilo de
vida para o judeu religioso comum, e em especial para um mestre ou
rabino, seria impensável no tempo de Jesus.”91 (grifo nosso).
Nos evangelhos bíblicos, temos três Marias: Maria (mãe de Jesus),
Maria (a pecadora- irmã de Lázaro, aquela que ungiu os pés de Jesus) e Maria
Madalena (mulher da qual Cristo expulsou sete demônios e que, após isso,
passou a segui-lo com seus bens e para a qual Cristo apareceu logo após a sua
ressurreição). Esses demônios que a atormentavam estariam ligados à luxúria,
sedução e prazer. Temos também a menção de uma mulher que quase foi
apedrejada por adultério, mas que não é nomeada92. Surge, a partir disso, a

89 Uta Ranke Heinemann. Eunucos pelo Reino de Deus, p. 15.


90 Ernest Renan. Vida de Jesus. Porto: Chardron, l94l.
91 Ricardo Arnt. Op. cit., p. 54.
92 As informações sobre a vida de Madalena são controvertidas e muitos acreditam que o mesmo nome se
aplica a três mulheres diferentes: aquela que, curada por Jesus, tornou-se sua discípula e foi a primeira
pessoa a vê-lo após a ressurreição; a Maria Betânia mística, irmã de Lázaro e Marta, que lavou com óleos
perfumados os pés de Cristo e depois os enxugou com seus cabelos; e uma pecadora que lhe prestou
79

intrigante pergunta: em qual delas o autor se baseou para compor o


personagem magistral que é a sua Madalena? E a resposta é a seguinte:
provavelmente, ele juntou detalhes da vida de Maria, a pecadora, irmã de
Lázaro, com as informações sobre Maria Madalena, retirada do Evangelho
Apócrifo Segundo Felipe que traz o seguinte texto:

"... a acompanheira (De Cristo é Maria) Madalena. O Senhor


amava Maria mais do que todos os discípulos e a beijou na
boca repetidas vezes." . p. 188 (grifo nosso).

Também poderia ter se baseado nos fragmentos conservados em


papiros do Evangelho de Maria Madalena, escrito gnóstico, em língua copta,
datado do século V. No capítulo X deste Evangelho, nos versículos 11 a l4,
temos a narração de uma discussão entre os discípulos, logo após um breve
sermão de Maria Madalena:

"Será que ele realmente conversou em particular com uma


mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de
opinião e ouvi-la? Ele a preferiu a nós?"
Então Maria se lamentou e disse a Pedro: "Pedro, meu irmão,
o que estás pensando? Achas que inventei tudo isto no meu
coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?"
Levi respondeu disse a Pedro: "Pedro sempre foste exaltado.
Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário.
Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para
rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter
amado mais do que a nós. É antes o caso de nos
envergonharmos..."93 (grifo nosso).

Em outra parte deste apócrifo encontramos ainda:

"Pedro disse a Maria: Irmã, sabemos que o Salvador te


amava mais do que a qualquer outra mulher. Conta-nos as
palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu
sabes e nós nem ouvimos." p. 80 (grifo nosso).

Esses evangelhos apócrifos mostram uma Madalena muito diferente


da Madalena bíblica. Primeiramente, ela é uma mulher que prega para os
discípulos, sendo considerada por alguns e causando inveja entre os outros, por
este mesmo motivo; segundo, ela foi mais amada pelo Salvador do que

homenagem semelhante e foi por ele perdoada. O papa São Gregório I – o Grande - identificou as três
como uma só pessoa e, a partir de então, o culto a santa Maria Madalena floresceu em todo o mundo.
93Marcia Maia. Evangelhos Gnósticos. São Paulo: Mercuryio, 1992, p. 82.
80

qualquer outra mulher e mais do que os próprios discípulos, tendo Cristo


revelado a ela palavras exclusivas que nem mesmo aos seus mais fiéis
discípulos foram confiadas.
Repetindo, o autor provavelmente reuniu detalhes da vida de Maria,
a pecadora, irmã de Lázaro, com as informações abundantes de Maria
Madalena, retiradas dos apócrifos, tudo isto acrescido da amizade da Madalena
bíblica por Cristo, pois foi a ela que Cristo apareceu após a sua ressurreição.
(São João 20: 11 a 18).
O narrador critica por várias vezes o machismo da religião judaica,
se afeiçoa a Maria Madalena e pretende neste evangelho recuperá-la
definitivamente, em termos literários, da estigmatização a que foi submetida
durante séculos, como uma pérfida e leviana prostituta. Durante os primeiros
séculos do cristianismo muitas autoridades cometeram erros absurdos com
relação ao caráter e vida de Madalena. Num sermão pregado em 591 pelo papa
Gregório, o Grande (540-604), este confundiu a prostituta que ungiu os pés de
Jesus da qual Lucas fala no capítulo 7 de seu evangelho, com Maria Madalena
da qual Cristo expulsou sete demônios e que passou a seguir a Cristo com seus
bens, episódio relatado por Lucas no capítulo 8 deste mesmo evangelho. Deste
equívoco nasceu a milenar equívoco de que Maria de Magdala fosse prostituta.
A essa personagem, confere um perfil feminino magnífico e uma estranha
sabedoria. Nas primeiras páginas do livro, faz um falsa prolepse ao descrever
Madalena como loira , para mais tarde, revelar que ela tinha os cabelos
pretíssimos. Vejamos as primeiras descrições de Madalena:

"... movia-se, ondulava, modelando ao andar o balanço rítmico


das coxas, e os cabelos pretos da mulher, soltos, dançavam-lhe
sobre os ombros como o vento faz às espigas da seara. Não
havia dúvida, a túnica, mesmo para o leigo, era de uma
prostituta, o corpo de bailarina, o riso de mulher leviana."
p. 279 (grifo nosso).

O quinto evangelista faz questão de frisar que ela começa sua


participação neste evangelho como uma prostituta, uma mulher leviana para,
posteriormente, de forma progressiva, transformá-la numa santa. Recapitulemos
o caminho que Cristo percorre até conhecer Madalena. Após o episódio do
sacrifício da ovelha (p. 264) no deserto, em que fere seus pés no solo quente
com espinhos e após ser reprovado por seus mestre, o Pastor, Cristo afasta-se
do deserto em direção às margens do rio Jordão. Ali faz alguns amigos (Simão,
André, João), depois dirige-se para Belém, "...quis, porém, o destino que,
passando ele pela cidade de Magdala, se lhe rebentasse ali, do pé, uma ferida
que andava renitente em sarar, e em tal jeito que parecia o sangue não querer
estancar-se.”p. 277. Neste estado, com os pés em sangue, bate à porta de Maria
Madalena.
81

Desconfiando que a narração das intimidades sexuais entre Cristo e


Madalena causariam um impacto no leitor, o narrador procura mesclá-las com
citações literais dos Cânticos dos Cânticos - o Livro de Cantares de Salomão,
num intertexto perfeito com este livro:

"Maria levantou-se, foi trancar a porta do pátio, mas primeiro


dependurou qualquer coisa do lado de fora, sinal que seria de
entendimento, para os clientes que viessem por ela, de que
havia cerrado a sua fresta porque chegara a hora de cantar,
Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do meio dia, sopra
no meu jardim para que se espalhem os seus aromas, entre o
meu amado no seu jardim e coma os seus deliciosos frutos." p.
281.

"As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é
uma taça arrendondada, cheia de vinho perfumado, o teu
ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios
são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela..." p. 282.

O final do primeiro texto bíblico citado acima é a transcrição literal


do Livro Cânticos dos Cânticos, Cap. 4:16 (Levanta-te [...] frutos deliciosos),
correspondente no Livro de Cantares de Salomão, à resposta dada pela esposa
ao convite do rei. A segunda citação igualmente do mesmo livro, Capítulo 7:1-3
("As voltas de tuas coxas são como jóias [...] gêmeos de uma gazela") e
correspondem à descrição das delícias do amor casto entre o rei e sua esposa.
Como podemos notar, a intertextualidade, aqui, santifica a relação entre a
pecadora e o "Filho de Deus", isentando de culpas tal encontro.
Mesmo dando uma aura de santidade ao relacionamento entre Jesus
e Madalena, o narrador não hesita em dar detalhes do ato sexual, entre os dois
como sendo algo extremamente normal:

"... Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não


te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte
de seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de
fogo o rodeava, indo e vindo, que um estrecimento o sacudia
por dentro..." p. 283.

Estranhamente, as cenas que mais poderiam chocar o leitor, as do


relacionamento sexual entre Cristo e Madalena, justamente essas que, no
cinema, causaram tantas polêmicas em vários filmes, aqui "...parecem ser o
último reduto do sagrado no Evangelho, o lugar poupado pelo olhar irônico e
demolidor do narrador"94. A santidade dos cânticos sagrados mesclados aos

94 Simone Pereira Schmidt. Op. cit., p. 75.


82

momentos íntimos dos dois, é um sinal de respeito e de sacralidade que o


narrador confere a esse episódio. O sagrado se instaura, exatamente, no lugar
em que deveria reinar o profano, uma vez que este momento acontece na casa
de uma prostituta, aberta ao atendimento a homem, como era a moradia de
Maria de Magdala. Aqui, o leitor também adquire um certo respeito por esse
relacionamento, que não é tratado pelo narrador como escandaloso.
Porém, mesmo antes de conhecer Maria de Magdala, o Cristo de
Saramago já era dotado de sexualidade, pois ao ouvir o canto dolente de uma
mulher junto ao rio Jordão, "o corpo de Jesus deu um sinal, inchou no que tinha
entre as pernas, como acontece a todos os homens e a todos os animais, o
sangue correu veloz a um mesmo sítio..."(p. 270). Mas é Maria Madalena quem
será a mestra na iniciação sexual de Cristo, quem lhe dará os primeiros
ensinamentos e é a partir desta relação sexual, que sua vida começará a mudar
radicalmente: "... não sou prostituta desde que aqui entraste, está nas tuas mãos
que continue a não o ser..." p. 285.
A carnavalização prossegue, pois é após a relação sexual entre os
dois que a vida e o destino de Maria Madalena mudarão drasticamente. Ela
percorrerá outro caminho que a levará, progressivamente, à santificação. É
através da relação sexual que Cristo expulsa os sete demônios do seu corpo, os
outros homens que a freqüentavam e é através deste ato, considerado
pecaminoso e inaceitável por protestantes e católicos, que a pureza e a
santidade serão alcançadas. Neste caso, é o "pecado" que faz brotar e preservar
a "pureza", é ele que abrirá o caminho da santidade, é através da vivência
erótica que se conseguirá a vivência religiosa. Por intermédio deste
relacionamento, seu corpo e alma começarão a purificar-se, em direção à
pureza dos lírios do campo, citados pelo Cristo da Fé no Sermão da Montanha.
Rejeitado por sua mãe e sua família, que não creêm que ele é o
escolhido de Deus, Cristo volta novamente à casa de Magdala e se surpreende
com a pronta aceitação por parte dela e de sua estranha sabedoria:

"Eu vi Deus(...)
Sou como a tua boca e teus ouvidos, respondeu Maria de
Magdala, o que disseres estarás a dizê-lo a ti mesmo, eu
apenas sou a que está em ti..." p. 306.

"Não sei nada de Deus, a não ser que tão assustadoras devem
ser as suas preferências como os seus desprezos, Onde fostes
buscar tão estranha idéia, Terias de ser mulher para saberes o
que significa viver com o desprezo de Deus, e agora vais ter de
ser muito mais do que um homem para viveres e morreres com
o seu eleito, Queres assustar-me(...) Deus é medonho (...)" p.
309 (grifo nosso).
83

Rechaçado por sua família, Cristo vai encontrar alívio não somente
no corpo de Madalena mas, principalmente, na sua alma pois “... se refugiava
no corpo de Magdala como se entrasse num casulo donde só poderia renascer
transformado." p. 350.
As palavras que surgem dos lábios de Madalena revelam um saber
próprio de uma profetisa hebréia "e agora vais ter de ser muito mais do que um
homem para viveres e morreres como seu eleito... Deus é medonho..." Ela vai
aos poucos assumindo, na vida de Cristo, o papel que era originalmente
destinado a Maria, sua mãe. Porém, percebemos serem algumas falas de
Magdalena da autoria do autor implícito, como essa acusação de que "Deus é
medonho", pois veremos mais adiante, o desprezo veemente dele, em relação à
personagem Deus.
Madalena tem consciência de que vai assumir o papel que era
destinado à mãe de Jesus, o poder mátrio, como protetora e conselheira; por
isso pede:

"... Senhor, dá-me, juntas, as duas dores, se tiver de ser.." p.


331.

"... Maria de Magdala viu-se a si mesma como se fosse


Maria de Nazaré e, levantando-se donde estava, desceu à
borda do mar, entrou na água para estar com ele e disse,
depois de beijá-lo no ombro, Meu filho..." p. 331 (grifos
nossos).

O que a une a Cristo não é apenas um amor carnal, mas é também o


amor de uma verdadeira mãe, não da mãe insegura, "céptica", "ignorante" e
"descrente" de Nazaré, ocorrendo o que poderíamos chamar de uma
transferência das funções maternas. Madalena no Quinto Evangelho é, em
verdade, a genetrix Dei, a geradora de Deus.
O profano se se estabelece e o narrador permite que Cristo assim se
expresse:

"A mim não me chamam Jesus de Belém, apesar de em Belém


ter nascido, de Nazaré não sou porque nem me querem eles
nem os quero eu, talvez devesse chamar-me Jesus de
Magdala, como tu..." p. 332 (grifo nosso).

O "mundo às avessas" se instaura. Cristo gostaria de ser chamado


pelo sobrenome de alguém que passou para as páginas da História e da
Teologia, como a prostituta mais famosa dos dois últimos milênios. O narrador
permite que a sabedoria profética de Madalena se espalhe por todo o livro.
84

Um dos momentos mais carnavalizados do texto, já estudado, ocorre


quando Maria de Nazaré reconhece a sua inteira incompetência como mãe de
Jesus e passa todas as responsabilidades e os direitos a Magdala. Cumpre
lembrar que "todas as imagens do carnaval são biunívocas, englobando os dois
campos da mudança e da crise: nascimento e morte, benção e maldição, elogio
e impropérios, mocidade e velhice, alto e baixo, face e traseiro, tolice e
sabedoria."95 É o encontro da Santa e da Pecadora, da sábia e da tola, aqui
totalmente invertidos: a santa e sábia é Maria de Magdala, "Cuidarei, defendê-
lo-ia com a minha vida se ela merecesse tanto...", e a pecadora e tola é Maria de
Nazaré, "...e eu não posso nada por ele..." (p. 334). A vida das duas Marias
confluem para este momento crucial do texto e aqui percebemos o completo
desprezo do narrador por Maria de Nazaré e a completa admiração e louvação
por Maria de Magdala. Uma é elevada por meio de seu amor; a outra, rebaixada
por causa de sua descrença, pois "trata-se de um culto marianista às avessas: o
verdadeiro nascimento de Jesus, como homem - e a sua dimensão humana é
aqui tudo o que importa - é obra de outra Maria; não a Virgem, mas a
Prostituta..."96 É através do contraste entre as duas Marias que um evangelho
de mulheres desabrocha.
Na hora do milagre da multiplicação dos peixes, Cristo hesita e sua
profetisa particular, lhe diz: "Já chegaste ao ponto donde não podes voltar atrás;
e a expressão da sua cara era de pena..." p. 361.
Ao lado desse dom profético, Magdala se mostra uma verdadeira
conhecedora dos problemas das massacradas mulheres da sua época e
reivindica os direitos das mesmas. De certa forma, acusa Deus por adotar uma
postura machista no que se refere ao prazer feminino:

"Pode ser, mas Deus, que fez o mundo, não deveria privar de
nenhum dos frutos da sua obra as mulheres de que também foi
autor, Conhecer homem, por exemplo, Sim, como tu vieste a
conhecer mulher..." p. 411.

Há todo um lirismo pungente nos diálogos entre Cristo e Madalena.


A linguagem dos dois, que deveria ter um aspecto profano, uma vez que o texto
é paródico, tem um reflexo contundente de justiça e de linguagem teológica:

"Dias passados, Jesus foi juntar-se aos discípulos, e Maria de


Magdala foi com ele, Olharei a tua sombra se não quiseres
que te olhe a ti, disse-lhe, e ele respondeu, Quero estar
aonde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus
olhos, Amavam-se e diziam palavras como estas(...) " p. 431
(grifo nosso).

95 Mikhail Bakhtin. Op. cit., p. 108.


96Simone Pereira Schmidt. Op. cit., p. 76.
85

Se a poesia vem desabrochando, aos poucos, ao longo do livro, nos


diálogos mais importantes entre Cristo e Madalena, justo no relacionamento
mais condenado pela Igreja, ela explode, entra em erupção, um vulcão que
derrama fogo lírico. Neste (des)evangelho, o poético não é um "mero adorno e
complemento da prosa", nem tão pouco "prosa poética", mas uma "atitude
poética"97 que embeleza o texto e nos leva a um conhecimento mais profundo
do misterioso sentimento que une Madalena e Cristo. Essa espécie de amor que
há entre o casal é acompanhada por um lirismo pungente que vai ganhando aos
poucos uma aura sagrada.
O narrador decide redimir a Madalena bíblica, conspurcada e
apedrejada durante séculos. O processo de remissão e santificação passa
justamente pela questão sexual, uma vez que tem os demônios (outros homens)
expulsos do seu corpo, passando a pertencer somente a Cristo. Ela é a sua
iniciadora sexual, mas muito mais que isso, ela é uma grande profetisa, dotada
de uma sabedoria peculiar, sacerdotisa e oráculo inspirado que o orienta nos
momentos mais difíceis de sua missão, tendo recebido essa incumbência da
própria mãe de Jesus, que nela falhara.
Observemos esta cena dramática, tensa e extensa entre Madalena e
Cristo, logo após o infeliz Sermão da Montanha, no qual Deus havia forçado
Cristo a dizer coisas que ele não queria. Neste episódio, o narrador aparece só
no início, indicando as falas e, sorrateiramente, desaparece para deixar Cristo,
Madalena e o leitor sozinhos, diante da tela do cinema:

"Eu sou o pastor que, com o mesmo cajado, leva ao sacrifício


os inocentes e os culpados, os salvos e os perdidos, os
nascidos e os por nascer, quem me libertará deste remorso, a
mim que me vejo, hoje, como meu pai naquele tempo, mas ele
é por vinte vidas que responde, e eu por vinte milhões. Maria
de Magdala chorou com Jesus e disse-lhe, Tu não o quiseste,
Pior é isso, respondeu ele, e ela, como se desde o princípio
conhecesse, por inteiro, o que, aos poucos, temos vindo nós a
ver e a ouvir, Deus é quem traça os caminhos e manda os que
por eles hão-de seguir, a ti escolheu-te para que abrisses, em
seu serviço, uma estrada entre as estradas, mas tu por ela não
andarás, e não construirás um templo, outros o construirão
sobre o teu sangue e as tuas entranhas, portanto, melhor seria
que aceitasses com resignação o destino que Deus já ordenou e
escreveu para ti, pois todos os teus gestos estão previstos, as
palavras que hás-de dizer esperam-te nos sítios aonde terás de
ir, aí estarão os coxos a quem darás pernas, os cegos a quem
darás vista, os surdos a quem darás ouvidos, os mudos a quem

97 Julio Cortazar. Situação do romance. In: Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 7l , 72.
86

darás a voz, os mortos a quem poderias dar vida, Não tenho


poder contra a morte, Nunca o experimentaste, Já, sim, mas a
figueira não ressuscitou, O tempo, agora, é outro, tu estás
obrigado a querer o que Deus quer, mas Deus não pode negar-
te o que tu queiras, Que me liberte desta carga, não quero
mais, Queres o impossível, meu Jesus, a única coisa que Deus
verdadeiramente não pode, é não querer-se a si mesmo..." p.
404, 405.

Cristo quer evitar a cruz e as conseqüências dela, para todos os seres


humanos; não a aceita e, no entanto, Maria Madalena o conforta com um
discurso repleto de sabedoria, mostrando-lhe a impossibilidade de tal querer, o
inexorável do seu destino trágico e que ele deve aceitar com resignação. Seu
discurso é o discurso da sabedoria, do questionamento e da busca da verdade,
do apoio, da compreensão, da amizade.
É o processo de resgate definitivo, em termos literários, da Madalena
bíblica, é a tranformação de uma prostituta em uma santa que, neste caso, tenta
impedir, com um discurso repleto de sabedoria, que Cristo rejeite a cruz, fato
esse que poderia nos autorizar a nomeá-la a discípula amada. Se o leitor se
espanta, inicialmente, pela minuciosa narração da relação sexual entre Cristo e
Madalena, progressivamente vai admirando a sabedoria, o caráter e a conduta
de Madalena e rechaçando o comportamento de Maria de Nazaré.
Em um dos momentos mais dramático de todo o livro, o narrador
resgata, literariamente, e em definitivo, o personagem de Maria de Magdala:

"... mas é neste instante, em verdade último e verdadeiro, que


Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz,
Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer
duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para
chorar." p. 428 (grifo nosso).

Maria de Magdala profere uma das frases mais profanas,


ateológicas, desse evangelho, pois devido a esta frase, simplesmente não
acontece o tão conhecido milagre da ressurreição de Lázaro, visto que Cristo,
profundamente abalado por tais palavras "deixou cair os braços e saiu para
chorar". Ela rouba o espetáculo e comanda-o, deixando a Cristo um papel
meramente secundário. Se os evangelhos bíblicos dão conta de que Jesus
realizou 31 milagres, por causa de Madalena esse número baixou para apenas
30, já que ela impediu a realização de um deles, e isto em nome de Lázaro, em
Nome do Homem. Após tais palavras, o leitor, se ainda tinha alguma dúvida
sobre o caráter nobre desta personagem, diante desta sabedoria, estranhamente
religiosa, muda em definitivo sua concepção, em relação a ela.
87

Magdalena, vista desta forma redimida e santificada, supera e


extrapola todas as mulheres santas de todo o Velho e o Novo Testamento e,
porque não dizer, os demais perfis de mulheres, criadas ao longo dos romances
anteriores de Saramago. Em termos de psicologia feminina, podemos dizer que
Saramago, com Maria de Magdala, se superou, pois criar uma personagem com
tamanha sabedoria e grandeza é permitido "só aos entendidos nos labirínticos
meandros do coração feminino"(ESJC, p.344), segundo observação feita pelo
próprio narrador. O caminho em direção à santificação completa-se e isso,
podemos observar na narração da crucifixão de Cristo:

"... e este olhar, que é de autêntico e arrebatado amor, ascende


com tal força que parece levar consigo o corpo todo, todo o
seu ser carnal, como uma irradiante auréola capaz de fazer
empalidecer o halo que já lhe está rodeando a cabeça e
reduzindo pensamentos e emoções. Apenas uma mulher que
tivesse amado tanto quanto imaginamos que Maria Madalena
amou poderia olhar desta maneira(...)" p. l6.

Georges Duby faz um estudo dedicado à Madalena. Ele ressalta o


fato de que Madalena não era um modelo de virtude feminina, já que era rica,
“não era virgem, nem esposa, nem viúva e representava a própria
marginalidade, e a mais inquitetante, por todos os pecados de que o seu ser se
deixara tanto tempo cativo – Peccatrix, meretrix.”98. Mesmo assim, foi a única
a permanecer diante do túmulo aberto e a úncia que recebeu a graça de anunciar
a ressureição para os Apóstolos. Amou a Cristo com o amor de mulher, com
amor fervoroso e feminino. Segundo ele

“Madalena chora. Mas não de remorsos, chora de desejo,


insatisfeita, desejo deste homem que ‘em vida amou com tanto
amor’. Lançar-se aos pés de Jesus é um gesto de amante, não
de penitente. Inflamada de amor de amor pelo seu meste,
Maria partiu para o sepulcro; Encontrando-o vazio perseverou
[...] Por ter amado, esperado, confiado, uma mulher mereceu, a
despeito das suas fraquezas – aqui se desmascara a
condescendência masculina, o invencível orgulho de ser
homem - anunciar aos Apóstolos o milagre.”99

O retrato que o historiador Duby faz de Madalena é semelhante ao


retrato ficcional que Saramago faz dela. Duby ainda afirma que por ter sido
uma mulher em detrimento dos doze apóstolos, a escolhida para anunciar o
milagre da Ressureição “foi levantado o opróbrio que impendia sobre a raça

98 Geoges Duby. Maria Madalena. In. As damas do séc. XII, p. 63.


99 Gerges Duby. Maria Madalena. In: As damas do séc. XII, p 44.
88

humana”100. Saramago faz com que Madalena resgate Jesus da quase


assexualidade que os intérpretes da Bíblia legaram ao nazareno. Ela é a
discípula amada, ela intervém no sagrado. É a grande mulher dos evangelhos e
de toda a obra de Saramago, é a resposta definitiva do autor à misoginia cristã.
Segundo Georges Duby no século XII na França, Madalena é
transformada em santa protetora das mulheres e seu dia é e de julho. Sobre
Madalena o historiador afirma:

“Mencionada por dezoito vezes, a Madalena é de todas (as


mulheres do novo testamento) a mais visível, aquela cujas
atitudes e sentimentos são descritos vom mais precisão, muito
menos apagada, abstracta, muito mais liberta da lenda do que a
outra Maria, a Mãe de Deus... Madalena foi a primeira
testemunha da Ressureição, portanto, o apóstolo dos
Apóstolos.”101

Madalena termina sua participação neste evangelho, que trata com


distinção os pecadores, emoldurada com uma "irradiante auréola", própria das
santas retratadas nas pinturas renascentistas, auréola que a destaca,
privilegiadamente, no meio das outras mulheres ao pé da cruz, inclusive a
própria mãe de Jesus. Esta auréola a sacraliza, em definitivo, no texto de
Saramago e Madalena transcende e ofusca todas as demais personagens
presentes na cena da crucifixão. Santa Maria Madalena, discípula amada,
amiga do nazareno, beata enamorada, rogai por nós, pecadores...

100 Op. cit, p. 45.


101 Georges Duby. Maria Madalena. In: As damas do séc. XII, p. 39, negrito nosso.
89

Cobaias de Deus

(Ângela Rorô/Cazuza)

Se você quer saber como eu me sinto


Vá a um laboratório, ou num labirinto
Seja atropelado por esse trem da morte

Vá ver as cobaias de Deus


Andando na rua pedindo perdão
Vá a uma igreja qualquer
Pois lá se desfazem em sermão

Me sinto uma cobaia, um rato enorme


Nas mãos de Deus mulher,
De um Deus de saia

Cagando e andando
Vou ver o ET.
Ouvir um cantor de blues
Em outra encarnação

Nós as cobaias de Deus


Nós somos cobaias de Deus
Nós somos as cobaias de Deus!

Me tire dessa jaula, irmão, não sou macaco


Desse hospital maquiavélico
Meu pai e minha mãe, eu estou com medo
Porque eles vão deixar a sorte me levar
Você vai me ajudar, traga a garrafa
Estou desmilingüido, cara de boi lavado
traga uma corda irmão, irmão acorda!

Nós as cobaias, vivemos muito sós


Por isso Deus tem pena, e nos põe na cadeia
E nos faz cantar, dentro de uma cadeia
E nos põe numa clínica e nos faz voar

Nós as cobaias de Deus...


90

3. 4. CRISTO - UMA COBAIA DE


DEUS
“A Morte de Cristo, que deveria ser a derrota do
cristianismo, acaba sendo um genial lance político que
catapulta o movimento pelos séculos afora. Deus dá a
entender que ele não é tão poderoso quanto se
acreditava. Deixa claro que o poder celestial se resume
a fazer o melhor que pode. Essa fraqueza, aliada ao
poderoso componente dramático de deixar o próprio
filho morrer para nos salvar dos pecados, resulta na
grande força poética do Novo Testamento.”
Norman Mailer.

O historiador norte americano John P. Meyer, em seu livro Um


Judeu marginal - repensando o Jesus Histórico, aponta o fato de que "o
cristianismo tradicional também fala dos "anos obscuros" da vida de Jesus -
quase toda a sua existência, exceto três ou quatro anos..." (p. 32). Ou seja, os
Evangelhos se detêm, praticamente, em três pontos centrais e básicos da vida de
Jesus: l) seu nascimento; 2) a discussão com os rabinos no templo; 3) seu
ministério, que coincide com os seus últimos três anos de vida. Entre o seu
nascimento e a sua participação na discussão com os rabinos no templo de
Jerusalém, por ocasião da Páscoa Judaica, decorrem, aproximadamente, doze
anos, conforme São Lucas 2:4l. A partir deste episódio, os Evangelhos dão um
salto para os últimos três anos de sua vida, incluindo-se aí seu batismo, sua
tentação, suas pregações, seu proselitismo, seu julgamento e sua crucifixão. É
justamente sobre estes "anos obscuros" ou "vazios" dos Evangelhos bíblicos,
juntamente com o diálogo estabelecido com os Evangelhos Apócrifos, que
Saramago vai construir os episódios supreendentes da vida do seu Cristo.
Se por um lado os historiadores querem conhecer um pouco mais
sobre o Jesus histórico, aquele que pode ser resgatado, através de instrumentos
científicos da moderna pesquisa histórica, por outro Saramago quer conhecer
um pouco mais do Cristo da Fé através da ficção, e a exemplo da reconstrução
da personagem Madalena, reconstituirá e resgatará um Cristo mais humano do
que divino, muito mais preocupado com os anseios da alma humana do que
com os desejos absurdos de Deus. No entanto, quando reconstrói a figura do
Cristo da Fé, ao fazê-lo, o autor recupera, automaticamente, o Cristo Histórico,
como já vimos no segunda parte deste estudo.
Já nas primeiras descrições do narrador sobre Cristo, notamos sua
simpatia e piedade por esta personagem:
91

"O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos


homens, sujo de sangue de sua mãe, viscoso das suas
mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram
chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo." p. 83.

O narrador procura, desde as primeiras aparições de Jesus no texto,


frisar constantemente as suas caraterísticas humanas: nasce como qualquer
outro bebê, baba-se, suja-se e é filho de José, sempre preferindo destacar esta
paternidade em detrimento da divina. A preferência pela paternidade humana
também é comum ao próprio Cristo, que num diálogo íntimo com Madalena,
revela:"Quem contigo se deita não é o filho de Deus, mas o filho de José"
ESJC, p. 411.
Após a morte de José, Cristo herda de seu pai uma túnica, umas
sandálias e um sonho (o mesmo de José), ou seja: a culpa. Esta parece ser,
segundo alguns críticos102, uma das temáticas centrais do livro e, em nossas
investigações, podemos afirmar que este motivo teria sido, provavelmente,
retirado do Evangelho de Nicodemus (Apócrifo do tempo de Pôncio Pilatos),
que traz o seguinte trecho:

"Primeiro que tu vieste ao mundo por fornicação; segundo


que o teu nascimento em Belém trouxe como consequência
uma matança de crianças, terceiro..." Capítulo 2:3 - p. 230
(grifo nosso).

Comparemos com o texto do ESJC:

"... nem gente mais culpada terá havido que meu pai, que se
calou quando deveria ter falado, e agora este que sou, a quem
a vida foi salva para que conhecesse o crime que lhe salvou a
vida, mesmo que outra culpa não venha a ter, esta me matará."
p.223.

O diálogo estabelecido entre o texto do Apócrifo e o ESJC parece-


nos flagrante. Primeiro, porque Cristo já nascera em pecado, pela relação
profana de José e Maria; segundo, porque já nasceu culpado das vinte mortes
dos meninos de Belém. Ao calçar as sandálias do pai, escolhe trilhar o mesmo
caminho até a morte na cruz, pois "a retirada da sandália e a doação desta ao
parceiro era para os hebreus a garantia de um contrato."103
O narrador, onisciente, conhece todos os pensamentos de Jesus:
102 Luciana Stegagno Picchio. Op. cit., já havia apontado como temática central do ESJC a "iniludível
culpa do pai", primeiro a culpa de José em relação aos inocentes mortos em Belém, depois a
culpa do próprio Deus por levar seu filho Jesus à morte por pura ânsia de poder.
103Jean Chevallier e Alain Cheerbrant. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982, p.
800.
92

"Pai, meu pai, por que me abandonaste, que isto era o que o
pobre rapaz sentia, abandono, desespero, a solidão infinda de
um outro deserto, nem pai, nem irmãos, um caminho de
mortos principiados." p. 189.

A voz do narrador se confunde com a de Cristo, num imbricamento


de falas. O discurso de Cristo é um discurso angustiado, cheio de perguntas, ele
é um argüidor desesperado que encurrala os seus interlocutores, procurando a
verdade da sua vida, e ela, como veremos, é extremamente trágica.
Numa das primeiras discussões com a sua mãe, com apenas treze
anos, percebemos, novamente, que a oposição dos seus discursos se evidencia
e seu interesse pela verdade já é reprovado: "E que era o que devia ter
pensado, Nem tu podes fazer-me todas as perguntas, nem eu posso dar-te
todas as respostas" p. 143.
Cristo, porém, não segue a advertência de sua mãe; seu caminho é o
da procura da verdade, seja ela qual for. Interrogando Maria, procura a verdade
sobre o seu nascimento:

"O meu pai matou os meninos de Belém, Que loucura estás


dizendo, mataram-no os soldados de Herodes, Não mulher,
matou-os o meu pai, matou-o José filho de Heli..." p. l87
(grifo nosso).

"Teu marido morreu inocente, mas não viveu inocente..." p.


192.

Com a maturidade, Cristo adquire um poder de concisão vocabular


preciso, pronunciando sentenças curtas que revelam uma amargura e um
conflito interior profundo, como nas frases acima. Em quase todos os diálogos
de que participa, domina, perfeitamente, a situação e o comando das
perguntas, levando os seus interlocutores ao desespero, fazendo-os externarem
suas opiniões, até mesmo com relação a sua própria condenação. Esta marca
do personagem Cristo é explicitada pelo narrador que, aos poucos, vai
revelando seu posicionamento favorável ao filho de José: "Ora, se Jesus, que
tão bem encaminhado vinha na ordem e seqüência do interrogatório, como se
na cartilha socrática tivesse aprendido as artes da maiêutica analítica..." p.
231.
Cristo, segundo o narrador, é um mestre na “cartilha socrática” e nas
“artes da maiêutica analítica”, numa discussão com o ancião do templo, busca
respostas para a questão da culpa:
93

"Jesus disse, Não respondeste à minha pergunta... A culpa é


um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai, Esse
lobo de que falas já comeu o meu pai, Então só falta que te
devore a ti. E tu, na tua vida, foste comido ou devorado, Não
apenas comido e devorado, mas vomitado. " p. 213.

Nesse conversa, Cristo obtém a confirmação de suas suspeitas em


relação à culpa que passa dos pais para os filhos. Fica sabendo que "a culpa é
um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai", mas também faz com o
que o ancião expresse a verdade de sua própria vida, bastante trágica. Após
isso, encontra a verdade única de sua culpa. Sua voz e a do narrador se
confundem, mesclam-se, sendo difícil separá-las:

"Está sentado numa pedra... Nasci aqui, pensava, dormi


naquela manjedoura(...) tão pouco ouço os gritos de morte dos
meninos e dos pais que os viam morrer, nada vem romper o
silêncio desta cova onde se juntaram um princípio e um fim,
pagam os pais pelas culpas que tiveram, os filhos pelas que
vierem a ter, assim me foi explicado no templo, mas se a vida
é uma sentença e a morte uma justiça, então nunca houve no
mundo gente mais inocente que aquela de Belém, os meninos
que morreram sem culpa e os pais que essa culpa não tiveram,
nem gente mais culpada terá havido que meu pai, que se calou
quando deveria ter falado, e agora este que sou, a quem a vida
foi salva para que conhecesse o crime que lhe salvou a vida,
mesmo que outra culpa não venha a ter, esta me matará." p.
223 (grifo nosso).

Começa a configurar-se o destino trágico de Cristo, e ele, por meio


da perseguição da palavra, vai montando o quebra-cabeças que será o seu
destino cruel, pois "... já sabemos que esse é o tal destino de que ninguém se
livra..."(p. 119). Nesse ponto, ele já sabe que por sua causa foram mortos os
inocentes de Belém, que seu pai fora culpado e que esta culpa o matará. É o
início da consciência de que está num labirinto complicado do qual não sairá
com vida.
Pelos exemplos estudados, percebemos que o motivo da busca (de
suas origens, das reais condições de seu nascimento, da paternidade legítima ou
não de José), se faz presente na trajetória da personagem Cristo. Depois de uma
tensa discussão com sua mãe, o filho de José parte da casa paterna, em Nazaré,
rumo a Jerusalém, e no templo discute com o ancião. Após este fato, dirige-se à
Belém da Judéia e junto ao túmulo dos vinte e cinco inocentes mortos, em
conversa com a parteira Zelomi, que funciona como uma espécie de oráculo,
encontra parte da verdade sobre sua vida e seu destino.
94

Diretamente ligado ao motivo da busca que leva Cristo a sair da casa


paterna ainda jovem e a peregrinar por vários locais diferentes, está o cronotopo
da estrada, pois "a saída da casa paterna para a estrada e o retorno à pátria são
frequentemente as etapas etárias da vida (parte moço/volta homem); os signos
da estrada são os signos do destino..."104. O filho de José parte da casa
paterna ainda muito jovem, com apenas treze anos e vai em busca de sua
verdade, peregrinando por Jerusalém, Belém da Judéia, pelo deserto, por
Magdala, pelo mar da Galiléia e retorna com dezoito anos, já homem, à sua
pátria, em Nazaré, plenamente ciente de seu destino.
Cristo, numa das poucas vezes em que perde uma disputa oral,
perde-a para o Pastor:
"Escolhe uma ovelha, disse, Quê, perguntou Jesus
desnorteado, Digo-te que escolhas uma ovelha, a não ser que
prefira uma cabra, Para quê, Vais precisar dela, se realmente
não és eunuco (...) Esta é a palavra do Senhor Se um homem
se ajuntar com um animal, será punido com a morte(...)
Ouvide, ouvide, ovelhas que aí estais, o que nos vem ensinar
este sábio rapaz, que não é lícito fornicar-vos, Deus não o
permite, podeis estar tranquilas, mas tosquiar-vos, sim,
maltratar-vos, sim, matar-vos, sim, e comer-vos, pois para isso
vos criou a sua lei e vos mantém a sua providência" p. 237,
238.

O sacrifício de ovelhas é mostrado aqui como um pecado


abominável, enquanto que a fornicação é vista como um ato menos indigno do
que aquele. Nessa disputa Cristo perde e cala-se.
Interessante observarmos que o aprendizado de Cristo é realizado
durante quatro anos em companhia do Pastor/ Diabo. Junto ao motivo da busca,
ao motivo da estrada, associa-se o motivo da provação do herói (não sacrificar a
ovelha inocente), um teste de dignidade e retidão que consistia, justamente, na
eliminação desse ritual sangrento, prova necessária para que Cristo completasse
a sua iniciação. Por ocasião da Páscoa, na hora suprema do sacrifício do seu
cordeiro pascal, Cristo decide:

"Então, Jesus, como se uma luz houvesse nascido dentro dele,


decidiu, contra o respeito e a obediência, contra a lei da
sinagoga e a palavra de Deus, que este cordeiro não morrerá,
que o que lhe tinha sido dado para morrer continuará vivo..."
p. 250.

104 Mikhail Bakhtin. Formas de tempo e de cronotopo no romance. In: Questões de Estética e de
Literatura - A teoria do romance. São Paulo: Hucitec, 1993, p. 242.
95

Numa tensa conversa com sua mãe, ele esclarece e defende seu
próprio comportamento:

"Louvado seja o Senhor que me deu um filho sábio, a mim que


sou uma pobre ignorante, mas sempre te digo que essa não é a
ciência de Deus, Também se aprende com o Diabo, E tu
estás em poder dele, Se foi pelo poder dele que este cordeiro
teve a sua vida salva, alguma coisa se ganhou hoje no
mundo..." p. 254 (grifo nosso).

Cristo marca este cordeiro na orelha para distinguir-se das outras, e


essa mesma ovelha extravia-se três anos após este episódio. O filho de José
encontra Deus, que exige o sacrifício desse animal:

"Não me aborreças, Senhor é preciso, Fala, Posso levar a


minha ovelha, Ah, era isso, Sim, era só isso, posso, Não,
Porquê, Porque ma vais sacrificar como penhor da aliança que
acabo de celebrar contigo, Esta ovelha, Sim, Sacrifico-te
outra(...) Não me contraries, quero esta, Mas repara, Senhor,
que tem defeito, a orelha cortada, Enganas-te, a orelha está
intacta, repara, Como é possível, Eu sou o Senhor, e ao Senhor
nada é impossível(...) Vá, despacha-te, tenho mais que fazer,
disse Deus, não posso ficar aqui eternamente..." p. 263.

A ovelha é sacrificada e Deus suspira de contentamento "Aaaah, era


Deus suspirando de satisfação"(p. 264). Estamos diante do riso carnavalesco e
ele "...é profundamente ambivalente(...) Nele se funde a ridicularização e o
júbilo"105 e nesta cena, através do riso, Deus ridiculariza a tentativa frustrada de
Cristo, para salvar a sua ovelha e rejubila-se por sair vitorioso da situação.
Ao mesmo tempo em que a figura divina e justa da "história afinal
arquiconhecida" é apresentada como sádica, o que corrobora a carnavalização
da personagem, perante Deus e Pastor, Cristo não encontra saída e quase
sempre sente-se como um boneco nas mãos do primeiro. O sacrifício dessa
ovelha é uma prolepse do sacrifício da espécie humana inteira e do próprio
sacrifício de Cristo, representando, alegoricamente, todos os cristãos.
O motivo da busca, o motivo da estrada e o motivo da provação
marcam a trajetória dessa personagem e estão intrinsicamente ligados ao seu
destino, que no ESJC pertence somente aos deuses: eles tomam a iniciativa dos
acontecimentos e a Cristo só resta cumpri-lo, pois segundo Deus ,"Foste
escolhido, não podes escolher..."(p. 37l).
Cristo passa quatro anos no deserto com o Diabo, aprendendo lições
de verdade e vai ao deserto para ser tentado por Deus, levando o Diabo a

105 Mikhail Bakhtin. Op. cit., p. 109


96

exclamar "Não aprendeste nada, vai". (265). É a instauração do "mundo às


avessas", pois estamos diante de uma "clássica síncrise cristã: do tentado contra
o tentador, do crente com o ateu, do justo com o pecador, do mendigo com o
rico..."106, só que totalmente invertida, pois o tentado continua sendo Cristo,
mas o tentador é Deus e não o Diabo. O Diabo aqui ocupa o papel de mestre e
Deus, o papel de tentador cruel.
O narrador explicita, constantemente, o caráter parodístico, em
relação ao Cristo bíblico: "Jesus, em aflição, pediu à sua memória que o
socorresse com algumas apropriadas máximas do seu célebre homónimo e
autor ..." p. 279, grifo nosso.
Os ensinamentos e a iniciação de Cristo passam das mãos do Diabo
às mãos de Maria de Magdala, que se transforma numa espécie de sacerdotisa
particular de Cristo.
O homem moreno, de barba negra, olhos castanhos esverdeados,
confirma o seu papel de cobaia nas mãos de Deus, no episódio da Barca, sem
dúvida, o mais importante de todo o livro, pois ali serão selados em definitivo
o destino de Cristo, do Diabo e de todos os seres humanos, "os nascidos e os
por nascer". Ali, veremos Cristo desesperado em busca da sua verdade e da dos
seres humanos, um Deus insaciável em seu desejo de sacrificar inocentes e um
Diabo querendo salvar a raça humana e o próprio Salvador.
Após o episódio da Barca, que será amplamente analisado no item
seguinte, a condição de cobaia107 acentua-se, uma vez que Cristo não tem
domínio nem sobre suas próprias palavras, como no episódio do Sermão da
Montanha:
"E como, em sua maior parte, esta confiante gente provinha de
baixos estratos sociais, artesãos e cavadores de enxada,
pescadores e mulherzinhas, atreveu-se Jesus, num dia em
que Deus o deixara mais à solta, a improvisar um discurso
que arrebatou todos os ouvintes, ali se tendo derramado
lágrimas de alegria como só se conceberiam à vista duma já
não esperada salvação, Bem aventurados, disse Jesus, bem-
aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus,
bem aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis
saciados, bem aventurados vós, os que chorais, porque haveis
de rir, mas nesta altura deu-se Deus conta do que ali se
estava a passar, e, não podendo suprimir o que por Jesus
tinha sido dito, forçou a língua dele a pronunciar umas e
outras palavras, com o que as lágrimas de felicidade se

106 Mikhail Bakhtin. Op. cit., p. 116


107no sentido de animal acuado, que não tem como fugir do seu destino inexorável, indispensável aos
propósitos sanguinários e despóticos de Deus, objeto de suas experiências, condenado à morte
por antecipação, que tem suas próprias palavras manipuladas por Ele, como no Sermão da
Montanha.
97

tornaram em negras lástimas por um futuro negro, Bem-


aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, quando
vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome
infame, por causa do Filho do Homem, Quando Jesus isto
acabou de dizer, foi como se a alma lhe tivesse caído aos pés,
pois no mesmo instante se lhe representou no espírito a visão
trágica dos tormentos e das mortes que Deus lhe havia
anunciado no mar... Jesus caiu de joelhos e, prostrado, orou
em silêncio, nenhum de quantos ali se encontravam podia
imaginar que ele estivesse pedindo, a todos, perdão..."
(grifos nossos) p. 402-403.

A revisão crítica do Sermão da Montanha processa-se e também é


profanada. O mais conhecido sermão da humanidade cristã, que sintetiza a
postura que o crente deve ter em relação à vida terrena e post mortem, o qual é
retomado, constantemente, em sermões por pastores, presbíteros e padres,
transforma-se num sermão improvisado, provocando "negras lágrimas por um
futuro negro". Deus, ao observar que Cristo está facilitando a vida dos seres
humanos, "força" sua língua a acabar o sermão com duras palavras,
tranformando as bem-aventuranças em terríveis desaventuranças.
A grande verdade é que Cristo não quer a missão que lhe foi
confiada, não quer a "salvação eterna" para os homens, deseja apenas que eles
vivam essa vida, envelheçam e morram em paz. E, sob esse particular, o
narrador procura demonstrar e explorar o lado humano dessa personagem que
os evangelhos bíblicos minimizam, em favor de seus atributos divinos: "Que
me liberte desta carga, não quero mais..." p. 405.
O narrador a esta altura se apieda de Cristo, demonstrando um
carinho por esta personagem:

"Jesus olhava a sua pobre alma e via-a como se quatro cavalos


furiosos a estivessem puxando e repuxando em quatro
direções opostas, como se quatro cabos enrolados em
cabrestantes lhe rompessem lentamente todas as fibras do
espírito, como se as mãos de Deus e as mãos do Diabo, divina
e diabolicamente, se entretivessem, jogando o jogo dos quatro-
cantinhos, com o que ainda dele restava." p. 430.

A consciência plena da condição de cobaia que Cristo ocupa no


texto é comum ao narrador e ao próprio Cristo, como bem demonstra o discurso
indireto livre do trecho acima citado. Ele sabe que sua situação se assemelha à
de um animal que está sendo preparado para um sacrifício, que não tem outra
alternativa, que é indispensável aos planos divinos e que será usado para
preparar o caminho da purgação da raça humana:
98

"Eu sou o pastor que, com o mesmo cajado, leva ao sacrifício


os inocentes e os culpados, os salvos e os perdidos, os
nascidos e os por nascer, quem me libertará deste remorso, a
mim que me vejo, hoje, como meu pai naquele tempo, mas ele
é por vinte vidas que responde, e eu por vinte milhões ..." p.
404.

Lembramos que o nome de Jesus procede do hebraico Yehôsûa


(Josué) e significa “Jeová salva”. Porém, nesse Quinto Evangelho, em função
dos elementos que vimos apontando, ele poderia ser substituído pela denotação
“por meio dele se perde".
Num ato de desespero supremo, Cristo reúne seus discípulos e tenta
salvar a humanidade de uma maneira diferente:

"Que mandas então que façamos, Que ajudeis a minha morte a


poupar as vidas do que hão-de vir, Não podes ir contra a
vontade de Deus, Não mas o meu dever é tentar(...) No
horizonte, lá no último fim do deserto, apareceu o bordo de
uma lua vermelha. Fala, disse André, mas Jesus esperou que a
lua toda se levantasse da terra, enorme e sangrenta, a lua, e só
depois disse, O filho de Deus deverá morrer na cruz para que
assim se cumpra a vontade do Pai, mas, se no lugar dele
puséssemos um simples homem, já não poderia Deus
sacrificar o Filho, Queres pôr um homem no teu lugar, um de
nós, perguntou Pedro, Não, eu é que irei ocupar o lugar do
Filho, em nome de Deus, explica-te, Um simples homem, sim,
mas um homem que se tivesse proclamado a si mesmo rei dos
Judeus, que andasse a levantar o povo para derrubar Herodes
do trono e expulsar da terra os romanos, isto é o que vos peço,
que corra um de vós ao Templo a dizer que eu sou esse
homem, e talvez que, se a justiça for rápida, não tenha a de
Deus tempo de emendar a dos homens, como não emendou a
mão do carrasco que ia degolar João... p. 436.

O seu plano é morrer como um líder revolucionário, a exemplo de


Judas, o guerrilheiro galileu (p.152), opondo-se a Herodes e César, a Roma, ou
seja, ser crucificado como o líder político revolucionário e negar que era Filho
de Deus. Se ele morresse apenas como Rei dos Judeus e não como Filho de
Deus, a espécie humana estaria salva, e o "plano da salvação", frustrado.
Assim, pede que seus discípulos proclamem no templo que ele é um desordeiro,
revolucionário. O momento é tão importante que o bordo de uma lua vermelha
aparece no céu, pois "a morte dos homens heróicos e nobres, é freqüentemente
acompanhada de fenômenos singulares na natureza..."108 Esse vermelho no céu
108 Mikhail Bakhtin. Op. cit, 312.
99

funciona, cromaticamente, como uma auréola que sacraliza o gesto desesperado


de Cristo em não morrer como Filho de Deus e sim como o revolucionário Rei
dos Judeus. É como se a natureza compactuasse com o plano de Cristo na
tentativa de salvar os seres humanos da condenação eterna e de um caminho de
sangue interminável.
Perante os escribas, Cristo afirma ser Rei dos Judeus e nega,
terminantemente, ser Filho de Deus. Perante Pilatos, repete que é o Rei dos
Judeus e que quer governar o povo, protegê-lo contra Roma, atacar os romanos,
enfim, Cristo, praticamente, repete o ato de José: vai ao encontro da morte
numa espécie de suicídio, não deixando outra alternativa a Pilatos, senão
condená-lo. Ele mesmo escolhe a morte na cruz e implora que coloquem em
sua cabeça um letreiro com as palavras: Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus. Nessa
revisão dos motivos que levaram Cristo à cruz, Pilatos também é redimido da
culpa milenar de ser o responsável pela condenação de Cristo. A cobaia vive
seus minutos finais como um rato desesperado, tentando sair de um labirinto
escuro e salvar os homens, mas no meio da agonia final na cruz:

"... Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz


ressoa por toda a terra, Tu és o meu Filho muito amado, em
ti pus a minha complacência, Então Jesus compreeendeu que
viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício,
que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o
princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de
sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda
a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens,
perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez." p. 444, (grifos
nossos).

Com relação ao simbolismo cristão que envolve a cruz,


esclarecemos que é "a teologia da redenção", "o símbolo do resgate devido por
justiça" ou ainda "o símbolo da glória eterna, da glória conquistada pelo
sacrifício"109. Por outro lado, os quatro braços da cruz significariam "o conjunto
da humanidade atraída para o Cristo dos quatro cantos do mundo"110
Neste (des)evangelho, contudo, a cruz adquire significado bem
diferente dos acima mencionados e passa a representar a desgraça, a
condenação inexorável do ser humano, a vergonha eterna e o afastamento
definitivo dos seres humanos de Cristo, pois através dela se opera a perdição.
Se, nos evangelhos bíblicos, a cruz marca o clímax, o ponto inicial do
cristianismo, nesse, muito pelo contrário, a cruz é o marco inicial de uma
enxurrada de sangue inocente que correrá, infinitamente, ao longo de séculos e

109 Jean Chevalier e Alain Gueerbrant. Op. cit., p. 310, 312.


110 Id. Ibid., p. 312.
100

séculos, ou seja, de uma religião anti-humana, que já principia com o cheiro da


morte.
O percurso de Cristo é o de uma cobaia de Deus, usada e manipulada
por ele, com o destino traçado, cobaia que sai morta da experiência central na
qual se fundamenta a religião cristã. Notamos, nitidamente, a opção favorável
do narrador a esse personagem e a sua rejeição, em relação à personagem Deus.
Esse movimento tende a orientar o leitor para que ele se apiede de Cristo e se
revolte contra Deus em seu desejo absurdo de sacrificar seu único filho e as
milhares de débeis figuras humanas.
Se os Evangelhos revelam o que Cristo fez, se os historiadores se
debruçam sobre quem realmente ele foi, Saramago, aproveitando-se dos
"vazios" deixados pelas Escrituras, reaproveitando episódios dos evangelhos
apócrifos, utilizando vários intertextos, preenchendo as "lacunas" deixadas pelo
discurso histórico e, com o auxílio de sua "prodigiosa imaginação", preocupa-
se, principalmente, por quê e para o quê.
101

DEUS E O DIABO111

Deus está debaixo da mesa


O diabo está atrás do armário
Deus está atrás da porta
O diabo está no meio da sala
O que há de errado com meu coracão?
O que há de errado?
Deus está lendo jornal
O diabo está dançando
O diabo está fazendo o jantar
Deus está escrevendo uma carta
O que há de errado com meu coração?
O que há de errado?
Deus está sonhando
O diabo está fazendo discurso
Deus está lavando os pratos
O diabo está tocando piano
Deus é o teto da casa
O diabo é a porta dos fundos
O diabo é o chão da cozinha
Deus é o vão da entrada
O que há de errado com meu coracão?
O que há de errado.

111 Auts. Sérgio Brito, Paulo Miklos e Nando Reis. Grav. Titãs, Disco WEA.
102

3.5. OS HETERÔNIMOS DO
CRISTIANISMO
"Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo"
José Régio In: Cântico Negro.

Antes de entrarmos na análise dos diálogos tensos que ocorrem na


Barca, nos quais observaremos, como o narrador simpatiza com o Diabo e com
Cristo e, como rejeita Deus, citaremos alguns detalhes que auxiliarão o
entendimento deste episódio, por demais importante, e no qual se situa o clímax
do romance.
Muito antes da narração dos momentos cruciais que acontecem na
Barca, já notamos um certa predileção especial do narrador pelo Diabo e como
ele se esforça para delinear, claramente, um novo perfil para o caráter dessa
personagem. Todas as suas aparições no texto são descritas como a aparição de
um anjo: alto, grande com as roupas resplandescentes. Suas palavras são
palavras da verdade, carregadas de sabedoria, poeticidade e filosofia profundas,
sempre à procura da verdade:

"Ainda a barriga não cresceu e já os filhos brilham nos olhos


das mães ..." p. 33.

"O barro ao barro, o pó ao pó, a terra à terra, nada começa que


não tenha de acabar, tudo o que começa nasce do que acabou
..." p. 33.

O Pastor é um dominador absoluto do manejo do diálogo, provoca a


palavra e leva seu intelerlocutor ao desespero. O autor implícito utiliza sua fala
para revelar também sua aversão a Deus:

"Sim, se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era


melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e
um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que
mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco(...).
Deus não vive, é, Nessas diferenças não sou entendido, mas o
que te posso dizer é que não gostaria de me ver na pele de um
deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e
oferece a garganta que vai ser cortada(...). Não tenho deus, sou
como uma das minhas ovelhas, Ao menos dão filhos para os
103

altares do Senhor, E eu digo-te que como lobos uivariam essas


mães se o soubessem..." p. 233.
Aí está a excepcional liberdade de invenção temática e filosófica do
Pastor que vence Cristo nesta discussão, mostrando e questionando o caráter de
Deus e o absurdo do sacrifício de ovelhas.
O narrador concede ao Diabo uma belíssima e estranha sabedoria
que se opõe, brutalmente, ao humor grotesco, atribuído, classicamente, ao
Diabo e que remonta ao folclore medieval112. Se, no cristianismo, "Satanás
desempenha um papel tão importante quanto o Messias"113, neste
(des)evangelho, o Pastor/Diabo é muito mais importante que Ele. Ao Diabo
caberá o papel de legítimo Salvador da raça humana e do próprio Cristo e,
nessa medida, seu papel assemelha-se ao de um herói. É o Diabo quem, durante
quatro anos, ensinará as verdades necessárias à iniciação de Cristo. Um dos
principais testes para essa iniciação era o não sacrifício de ovelhas, teste esse,
em que, como vimos, Cristo foi reprovado, a inexorável força da moira, que
foi mais forte que a sua vontade.
O narrador dá uma pista ao leitor muito importante numa das falas
do Pastor: :
"Os escravos vivem para servir-nos, talvez devêssemos abri-
los para sabermos se levam escravos dentro, e depois abrir um
rei para ver se tem outro rei na barriga, e olha que se o
encontrássemos o Diabo, e ele deixasse que o abríssemos,
talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro."
p. 241- 242.

Esta fala é do Pastor, mas o narrador, querendo deixar mais explícita


ainda esta idéia, e especialista em supor diálogos que não se verbalizam,
complementa antes que o leitor possa idear alguma imagem: "... imagine-se o
escândalo se Pastor se lembrava de abrir Deus para ver se o Diabo lá estava
dentro." p. 242 (grifo nosso).
O leitor deve estar atento a essas indicações, pois tudo leva a crer
que se trata de cara e coroa de uma mesma moeda. Essa questão da ligação
íntima entre os dois torna-se evidente em outros diálogos:

"Eles, quem, Deus, de quem o Diabo diz que sou filho, o


Diabo, que só de Deus o podia ter sabido." p. 358.

"Disse Tiago, Messias ou filho de Deus, o que eu não


compreendo é como soube o Diabo, se o Senhor nem a ti

112 Sobre as diversas faces e mácaras do Diabo, consultar O Diabo - A Máscara sem rosto de Luther
Link. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
113 Carlos Roberto F. Nogueira. O diabo no imaginário cristão. São Paulo: Ática, l986, p. 18.
104

declarou. Disse João, pensativo, Que coisas que nós não


sabemos haveria entre o Diabo e Deus." p. 359 (grifo nosso).

"E como o Diabo, de quem Deus ao princípio fora amigo, e ele


favorito de Deus, comentando-se mesmo no universo que
desde os tempos infinitos, nunca se viu uma amizade igual
àquela..." p. 235 (grifo nosso).

Essa dúvida que paira no entendimento do leitor, a partir dos


indícios presentes no discurso do narrador sobre as ligações perigosas entre
Deus e o Diabo, será esclarecida em definitivo na barca.
Mesmo antes do episódio da Barca, a antipatia do narrador em
relação à personagem Deus, já se fazia sentir por todo o texto. O narrador
revisita, criticamente, episódios do Velho Testamento que são considerados
pelos teólogos verdadeiras provas da mais genuína fé dos filhos de Deus e que
raramente são questionadas por outro ângulo.
Vejamos, por exemplo, Jó que, com seus sofrimentos, é visto como
outra cobaia nas mãos de Deus e do Diabo, sofrendo uma série de problemas de
ordem financeira, física e intensos conflitos existenciais, por causa de uma
disputa estúpida entre os dois (p. 133); o episódio envolvendo o erro do rei
Davi ao ordenar o recenseamento de Israel e que resultou na revolta de Deus e
na morte de setenta mil inocentes, é relido, e Davi nos é mostrado como um rei
inconseqüente, que se permitiu, como escolhido de Deus, negociar com o
mesmo e escolher que tipo de castigo preferia e que o mesmo recaísse sobre
seus pobres e indefesos súditos: novamente cobaias, numa negociata entre um
Deus imparcial e um rei ungido e escolhido (p.137); o episódio do sacrifício de
Abraão, ao oferecer seu único filho em holocausto a Deus, também é relido,
visto que o mesmo Deus que salvou Isaque na hora suprema do sacrifício, não
quis salvar a vida das vinte crianças inocentes de Belém, mostrando a extrema
relatividade do juízos divinos (p. 144); também questiona o absurdo que foi o
comportamento de Deus ao não ter aceitar o sacrifício de Caim em detrimento
do de Abel (p. 249), pois Caim ofereceu frutos e Abel, carne com sangue,
dando a entender que desde aquela época, Deus já tinha uma preferência
especial por este líquido vermelho.
Esta revisão de episódios das Sagradas Escrituras era comum no
teatro medieval - "dos mistérios", pois se representava a vida de um santo,
desde a primeira infância até o martírio. No meio da representação, voltava-se
para o sacrifício de Abraão, depois retomava-se o tema do Juízo Final. Isso é
"próprio da visão cristã que unia todos esses episódios no tecido indissolúvel da
História Sagrada em que tudo está ligado a tudo e nada escapa do plano divino.
105

Esta visão universal reúne a multiplicidade de episódios, como em uma ação


única: a da História Sagrada.”114
O narrador proporciona, através do seu evangelho, uma revisão
crítica, um repensar de motivos e porquês destas consagradas cenas bíblicas,
que deveriam servir de paradigma para os cristãos, quase nunca antes
questionadas. Tudo é relido de uma maneira perversa e demoníaca, pois as
atitudes de santos são dessacralizadas e o comportamento vil do pecador Caim
é relido de forma a se tentar um resgate ou, pelo menos, suavizar sua condição
de maior criminoso do Gênesis e de toda a História Bíblica.
Portanto, a releitura dos acontecimentos do Velho Testamento é
profana, visto que "a paródia é a conscientização do ultrapassado, do vigente,
ou melhor, é o lugar onde se manifesta a dúvida sobre os valores
tradicionais."115 E a dúvida e o questionamento da tradição bíblica se instauram,
no episódio de Jó, de Davi, de Deus em relação ao salvamento de Isaque, da
condenação de Caim, miseravelmente, caindo nas desgraças de Deus, sem
nunca ter sabido o porquê. Já por esta revisão carnavalizada, em que há uma
subversão ideológica do texto parodiado, o leitor é levado a antipatizar com o
Deus sanguinário e cruel do Velho Testamento, tendo em vista os elementos
que apontamos.
Quando Deus começa a participar dos acontecimentos que são
parodiados do Novo Testamento, o narrador é implacável em seus comentários
irônicos e depreciativos:

"Deus não perdoa os pecados que manda cometer" p. 161.

"... a palavra que mais vezes lhe sai da boca não é o sim, mas o
não (...)" p. 312.

"(...) em algum lugar do infinito, ou infinitamente o


preenchendo, Deus faz avançar e recuar as peças doutros jogos
que joga, é demasiado cedo para preocupar-se com este, agora
só tem de deixar que os acontecimentos sigam naturalmente o
seu curso, apenas uma vez e outra dará com a ponta do dedo
mindinho um toque a propósito para que algum acto ou
pensamento desgarrados não quebrem a implacável harmonia
dos destinos." p. 310.

Pelas citações acima, percebemos que "o Deus tirânico do Antigo


Testamento é incorporado ao contexto dos evangelhos, negando-se, dessa
forma, o caráter benevolente e misericordioso da nova aliança proposta pelo

114 Anatol Rosenfeld. O Teatro Medieval. In: O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, l986, p. 35.
115 Maria Lucia P. de Aragão. Op. cit., p. 21.
106

Deus do Novo Testamento"116. Assim sendo, temos o retrato de uma


personagem caprichosa, onisciente e maquiavélica. O narrador onisciente, tal
como o próprio Deus, conhece todos os pensamentos dessa personagem e, em
sua antipatia contra ela, identifica- a com outra figura que também tece com
fios de desagrado: José.

"Vista a questão deste ângulo, digamos, teogenético, pode-se


concluir, sem abusar da lógica que a tudo deve presidir neste
mundo e nos outros, que o mesmo Deus era quem com tanta
assiduidade incitava e estimulava José a frequentar Maria, por
essa maneira o tornando em seu instrumento para apagar, por
compensação numérica, os remorsos que andava sentindo
desde que permitira, ou quisera, sem se dar ao trabalho de
pensar nas consequências, a morte dos inocentes de Belém (...)
A cada filho que José ia fazendo, Deus levantava um pouco
mais a cabeça, mas nunca virá a levantá-la por completo,
porque as crianças que morreram em Belém foram vinte e
cinco e José não viverá anos suficientes para gerar tão grande
quantidade de filhos numa só mulher( ...)" p. 131-132.

A antipatia do narrador, e agora provavelmente já do leitor,


evidencia-se, fortemente, no episódio já relatado, no qual Deus obriga Cristo a
sacrificar a ovelha antes negada. Após esta prova tão cruel, Cristo fica
estarrecido, a ovelha morre em silêncio e o narrador informa-nos qual foi a
reação de Deus: "... apenas se ouviu, Aaaah, era Deus suspirando de
satisfação." p. 264.
Na narração do sacrifício da ovelha, a carnavalização da
personagem Deus é clara, pois é ele quem tenta Cristo no Deserto e o derrota.
De todos os personagens com as quais o narrador não simpatiza, Maria, José e
Deus, este último, como já afirmado anteriormente, é o que lhe causa maior
aversão.
O clímax do livro acontece na Barca, onde estão Cristo, Deus e o
Pastor, narrado em mais trinta páginas. O tenso diálogo entre os três ocorre
durante quarenta dias, no tempo cronológico, tempo esse marcado pelos outros
discípulos, pois na Barca o sentido do tempo se perde, ou melhor, o tempo não
existe, visto que "Deus é o próprio tempo" ou "para Deus o tempo é todo
um"(ESJC, p. 49). Estamos, novamente, diante de uma paródia estilizada da
tentação de Cristo no Deserto.
A descrição da aparência de Deus é digna de um deus do Olimpo,
sem se esquecer, contudo, do toque "humano" da abastança ("como um judeu
rico"):

116 Simone Pereira Schmidt. Op. cit., p. 70.


107

"É um homem grande e velho, de barbas fluviais espalhadas sobre o


peito, a cabeça descoberta, cabelo solto, a cara larga e forte, a boca
espessa, que falará sem que os lábios pareçam mover-se. Está
vestido como um judeu rico, de túnica comprida, cor de magenta,
um manto com mangas, azul, debruado de tecido de ouro, mas nos
pés tem umas sandálias grossas, rústicas, dessas de que se diz que
são para andar." p. 364.

A tanta magnificiência opõem-se as sandálias, levando-nos a pensar


que se os seus pés não são de barro, o seu calçado é, ao menos, demasiado
rústico. E é só neste diálogo no limiar, na "terceira margem" do mar, que a
paternidade dupla de Cristo é confirmada:

"Bem vês, eu tinha misturado a minha semente na semente de


teu pai antes de seres concebido, era a maneira mais fácil, a
que menos dava nas vistas ..." p. 366.

Neste (des)evangelho, pela explicação acima, ficamos sabendo que


além de não ter sido concebido por uma virgem, este Cristo é um personagem
híbrido, um semideus por excelência, e isso explica o seu destino fatalista, pois
é o próprio narrador quem informa que "...a única coisa realmente firme, certa e
garantida, é o destino, é tão fácil, santo Deus, basta ficar à espera de que todo o
da vida se cumpra e já poderemos dizer, Era o destino..."(p. 124). Sua origem,
portanto, remete ao mito pagão de filho de um deus e de uma mãe humana117,
reunindo em si "o alto" da divindade e o "baixo" da humanidade. Ainda citando
Flávio Kothe temos: "Isto caracteriza os seres superiores, os heróis e os
aristocratas, mas é também a desgraça, a origem da desgraça do herói."118
E, sob esse particular, como vimos apontando, o personagem Cristo
coloca-se, ele próprio, no limiar entre o divino e o humano, fato que engendra
os seus profundos conflitos existenciais. Por outro lado, o comportamento de
Deus, por ocasião da concepção de Cristo, conforme trecho acima citado
(p.366), assemelha-se mais ao de um demônio da espécie dos súcubos,
imiscuindo-se entre as sementes de Maria e José, do que propriamente de um
Deus, capaz de colocar um ser gerado e pronto, no interior de uma mulher,
como crêem os cristãos.

117Sobre este particular Antônio Martins Gomes (A última tentação de Saramago. In: Jornal de
Letras. Lisboa, Jan, l992, p. 13), informa-nos que a figura de Cristo "continua a ser de alguém
que se eleva acima da raça humana, mas que não chega à categoria de deus. Jesus Cristo é,
assim, visto como um herói que, numa perspectiva mítica, pode ser filho de um deus e de
um ser humano, se coloca a um nível intermédio, tal como os heróis Ulisses, Hércules,
Ájax ou Aquiles. Daí a importância do destino fatalista, condicionante da ação das
personagens..." (grifo nosso)

118 Flávio R. Kothe. O herói. São Paulo: Ática, 1985, p. 25.


108

Nosso semideus híbrido tenta esclarecer, na Barca, os detalhes do


seu destino trágico, pois já sabe que herdou de seu Pai terrestre a culpa e que é
responsável, de certa forma, pela morte dos inocentes de Belém. A condição de
semideus híbrido é explicitada no texto:

"E por que foi que quiseste ter um filho, Como não tinha
nenhum no céu, tive de arranjá-lo na terra, não é original, até
em religiões com deuses e deusas que podiam fazer filhos uns
com os outros, tem-se visto vir um deles à terra para variar,
suponho, de caminho melhorando um pouco uma parte do
gênero humano pela criação de heróis e outros fenômenos ... "
p. 366.

Estamos diante da ironia sarcástica de Deus, que se compara a outros


deuses não cristãos que tiveram filhos com seres humanos, criando heróis
trágicos por excelência. Cristo continua perguntando e Deus respondendo. Ele
persegue a sua verdade e a sua próxima pergunta será por que Deus queria este
filho, ao que Deus responde que precisa dele para realizar seus planos na terra.
A esta altura das especulações e revelações sobre o destino desse
herói trágico, o Diabo/Pastor chega à Barca e a sua descrição também se iguala
ao deus grego Poseidon, O Senhor dos Mares:

"As mãos agarraram-se à borda da barca enquanto a cabeça


estava ainda mergulhada na água, e eram umas mãos largas e
possantes, com unhas fortes, as mãos de um corpo que como o
de Deus, devia ser alto, grande e velho. A barca oscilou com o
impulso, a cabeça ascendeu da água, o tronco veio atrás
escorrendo qual catarata, as pernas depois, era o leviatã
surgindo das últimas profundidades, era, como se viu,
passando todos estes anos, o Pastor(...) " p. 367.

A descrição é cromática, metafórica e o narrador a faz tão ou mais


grandiosa do que a descrição destinada a Deus. Não estamos mais diante de um
monstro repugnante, deformado, com chifres e cabeças, pernas e garras de uma
ave de rapina, com uma segunda face no abdômen ou no traseiro, tal como nas
iconografias e quadros medievais119, mas diante da imagem de um Diabo que é
descrito como semelhante a Deus. Observamos também que o Diabo se eleva
do meio das águas e "o tronco veio atrás escorrendo qual catarata"; se
lembrarmos, com Bachelard, que "a água se oferece pois como um símbolo
natural para a pureza."120, o Diabo já entra purificado na Barca, como se tivesse
acabado de sair de um batismo, para tentar cumprir sua missão maior. Por sua

119 Vide pinturas do pintor holandês Hyeronymos Van Bosch, em especial A tentação de Santo Antônio.
120 Gaston Bachelard. A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, p .139.
109

vez, há uma nova pista para o leitor, "as mãos de um corpo como o de Deus ..."
O narrador compara o Diabo a Deus e o Diabo, ao entrar na barca, ocupará uma
posição estratégica entre Deus e Cristo: é a posição de mediador e de
intercessor, no cristianismo, ocupada pelo Espírito Santo. É como se uma nova
trindade começasse a se delinear.
As relações perigosas entre os dois intensificam-se pelas constantes
pistas fornecidas pelo narrador:

"Jesus olhou para um, olhou para o outro, e viu que, tirando as
barbas de Deus, eram como gêmeos, é certo que o Diabo
parecia mais novo, menos enrugado, mas seria uma ilusão dos
olhos ou um engano por ele induzido ..." p. 388 (grifo nosso).

Satanás, que foi retratado de uma maneira horrível em centenas de


quadros medievais, aqui é descrito como semelhante a Deus, segundo o
narrador, "eram como gêmeos", confirmando nossa desconfiança de que os dois
são faces diferentes da mesma moeda. Na barca, há o desvelamento definitivo
do caráter de Deus e, principalmente, de sua verdadeira face. Este desvelar da
face divina aparece pela primeira vez no ESJC, justamente no momento em que
é feita a comparação com o semblante do Diabo.
Assim, começam a se acentuar as relações perigosas entre os dois.
Cristo, ao tomar conhecimento de que Deus sabia que ele havia passado quatro
anos em companhia do Diabo no deserto, diz : "Quer dizer, fui enganado por
ambos, como sempre sucede aos homens ... " p. 368.
Deus responde a Cristo, dizendo que todos os homens são enganados
pelos dois e complementa, esclarecendo as dúvidas de Cristo e do leitor, que
tanto Cristo como os seres humanos não passam de objeto de disputa nas mãos
dele e do Diabo: "Meu filho, não esqueças o que vou dizer, tudo quanto
interessa a Deus, interessa ao Diabo ... " p. 369.
Deus reconhece que foi ele quem colocou a insatisfação no coração
do homem, mas isso ele retirou do seu próprio coração que andava insastifeito,
pois era Deus de um povo pequeno e insignificante e queria ampliar seus
domínios na terra, e que, para isto, precisaria de Cristo:

"Pois é (...) mas ajudar, podes, Ajudar a quê, A alargar a


minha influência, a ser deus de muito mais gente ... " p. 370.

"... passarei de Deus dos hebreus a deus dos que chamaremos


católicos, à grega, E qual foi o papel que me destinaste no teu
plano, O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que de
melhor há para fazer espalhar uma crença e afervorar uma
fé(...) " p. 370.
110

Aí está a carnavalização do plano da salvação. Estamos diante de um


Deus insastisfeito consigo mesmo, com sua pouca influência na terra e que
resolve alargar os seus domínios, sendo que jamais passou pela sua cabeça a
expiação de Cristo em favor da salvação da espécie humana. Cristo precisaria
morrer, para que o número de seguidores de Deus aumentasse e, dessa maneira,
o ego divino seria massageado. Para corroborar seus intentos despóticos, aos
homens, tal como a Cristo, só restaria o papel de cobaia.
Cristo, a quem só restaria uma glória incerta e futura, compreende as
estreitas relações existentes entre Deus e o Diabo:

"Percebo agora por que está aqui o Diabo, se a tua autoridade


vier a alargar-se a mais gente e mais países, também o poder
dele sobre os homens se alargará, pois os teus limites são os
limites dele." p. 371.

O filho de José percebe que é uma cobaia e tenta buscar maiores


esclarecimentos sobre o labirinto que terá de cruzar:

"E a minha morte, será como, A um mártir convém-lhe uma


morte dolorosa, e se possível infame, para que a atitude dos
crentes se torne mais facilmente sensível, apaixonada,
emotiva, Não estejas com rodeios, diz-me que morte será a
minha, Dolorosa, infame, na cruz (...) " p. 371.

Tudo é planejado maquinalmente, com riquezas de detalhes, por


demais cruéis, por uma mente maquiavélica, satânica. Cristo desesperado,
perante seu futuro trágico, suplica: "Rompo o contrato, desligo-me de ti, quero
viver como um homem qualquer, Palavras inúteis, meu filho(...) ainda não
percebestes que estás em meu poder ..." p. 371.
Cristo, supremo no manejo do diálogo, tenta, desesperadamente, sair
do labirinto em que se encontra, da situação deseperadora de "animal acuado"
e sugere a Deus que faça ele mesmo este papel, conquiste as gentes e os países,
ao que Deus responde, ironicamente, que não pode se dar ao ridículo de sair
por aí, pregando em praça pública, que ele é o deus verdadeiro e não os outros
deuses pagãos. A posição de cobaias dos seres humanos é explicitada,
novamente, por Deus:
"Então servir-vos de homens, Sim, meu filho, o homem é pau
para toda a colher, desde que nasce até que morre está disposto
a obedecer (...) falando em termos gerais, é a melhor coisa que
podia ter sucedido aos deuses." p. 372.

A ironia de Deus é diabólica, ele insiste em explicitar, em tom


sarcástico, o destino de Cristo e da raça humana: cobaias:
111

"Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a


retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que
me vou tornar, Cheia de homens para os devorares, Não
precisa que eu o devore, quem a si mesmo se devorará." p.
372.

O próprio Cristo, num episódio anterior a esse, em conversa com a


mulher que servira de parteira, quando do seu nascimento, já havia
compreendido "a ofuscante evidência de ser o homem um simples joguete nas
mãos de Deus, eternamente sujeito a só fazer o que a Deus aprouver, quer
quando julga obedecer-lhe em tudo, quer quando em tudo supõe contrariá-lo."
p. 220.
A posição de cobaias de Cristo e da espécie humana é reiterada,
diversas vezes, por Deus e pelo narrador. Numa conversa entre um anjo
visitante e Maria, o mesmo explicita a real condição dos seres humanos: "...
quando não passais de míseros escravos da vontade absoluta de Deus." p. 3l4.
A carnavalização é completa e a dessacralização da figura divina
absoluta, pois Deus merece uma relação enorme de adjetivos: tirano, sarcástico,
cruel, soberbo, irônico, maquiavélico, perverso. Não pensa em expiação, em
redenção para o ser humano, apenas como um bom déspota e tirano, em poder e
glória para si, mesmo que isto custe a vida de milhões de pessoas. Cristo, em
angústia, começa a remar e se apossa, temporariamente, da ironia divina: "...sim
senhores, levo-os até à borda para que todos possam, finalmente, ver Deus e o
Diabo em figura própria, o bem que se entendem, o parecidos que são ..." p.
372 (grifo nosso).
Cristo e o leitor já desconfiam, a esta altura, que os dois, na
realidade, são apenas um. A cobaia inexorável rema, desesperadamente, até a
exaustão e não consegue sair "do brilhante círculo mágico", de luz ofuscante
"da armadilha fulgurante de que Jesus imaginara ter-se escapado"( ESJC p.
373- grifo nosso).
O diálogo recomeça mais tenso e dramático. Cristo tenta, de todas as
maneiras, livrar-se da carga que lhe está sendo imposta, diz que não fará
milagres, ao que Deus responde:

"(...) se fosses por esse mundo(...) a clamar que não és


o filho de Deus, o que eu faria seria suscitar à tua passagem
tantos e tais milagres que não terias outro remédio senão
render-te(...) Logo, não tenho saída, Nenhuma, e não faças
como o cordeiro irrequieto que não quer ir ao sacrifício, ele
agita-se, ele geme que corta o coração, mas o seu destino está
escrito, o sacrificador, espera-o com o cutelo(...)" p. 374.
112

Perfeita metáfora e prolepse usadas por Deus ao comparar Cristo a


um cordeiro irrequieto que não tem nenhuma saída a não ser a morte pacífica.
O narrador utiliza a ironia, posiciona-se, negativamente, em relação
a Deus, como podemos observar pelas análises realizadas. Por vezes, como na
cena acima, ou em vários outros diálogos tensos, simplesmente desaparece,
deixando as personagens frente a frente, sem intervenção nenhuma. Em outros
momentos, suspeitamos que seja ele quem aparece, utilizando-se de uma voz
sem dono, como esta que acusa Cristo, na qual não distinguimos quem fala: se é
o Pastor ou o é narrador, numa análise mental daquele:

"Deus, apesar das suas habituais exibições de força, ele é o


universo e as estrelas, ele é os raios e os trovões(...) não tinha
poder para obrigar-te a matar a ovelha, e, contudo, tu por
ambição, mataste-a, o sangue que ela derramou não o absorveu
todo a terra do deserto, vê como chegou até nós, é aquele fio
vermelho sobre a água, que, quando formos, nos há-de seguir
pelo rasto, a ti, a Deus e a mim." p. 375.

Novamente, estamos diante de um imbricamento de discursos, numa


diluição de fronteiras entre o discurso do narrador e da personagem, como
acontece em outros exemplos já estudados. Deus, por sua vez, continua sendo
implacável :"(...) o homem é uma moeda, vira-la, e vês lá o pecado." p. 376
Cristo e o leitor já sabem que Deus se assemelha a uma moeda e que
virando-a aparecerá o Diabo. Deus continua seu discurso, dizendo que só a
visão de um filho de Deus, na Cruz, sensibilizaria as opiniões, que Cristo lhes
deveria contar histórias, parábolas, nem que precisasse "torcer um bocadinho a
lei" (p.376). Deus se situa acima da lei mosaica, permite que ela seja
subvertida, quando é interessante para os seus propósitos malignos. Cristo exige
saber o que vai acontecer após a sua morte, já que será obrigado a aceitar o seu
destino de cobaia. O Pastor enxerga algumas coisas sombrias no tempo que há
de vir, mas não se atreve a pronunciar palavra alguma. Deus se sente
encurralado, numa armadilha, criada por suas próprias palavras, e continua
tentando não responder a Cristo, utilizando-se de evasivas: "Começaste a
morrer desde que nasceste." p. 378.
A hora é tão trágica que Deus adquire um repentino respeito pela
figura de Cristo, pois se sente pressionado por ele e não tem como fugir mais às
suas inquietadoras perguntas. Assim, Deus humaniza-se e consente em
responder-lhe. Mesmo respondendo, tenta amenizar suas colocações, falando
do surgimento de uma igreja e que os homens teriam uma esperança futura.
Cristo percebe o estratagema e se irrita:

"O que quero que me digas é como viverão os homens que


depois de mim vierem (...) Faltam-te os homens, Pois faltam, e
113

para que eles venham a mim é que tu serás crucificado, Quero


saber mais, disse Jesus quase com violência." p. 379.

A agonia é tão intensa que Cristo, em sua justiça e piedade,


praticamente grita com Deus, no afã de saber o que ocorrerá aos homens após a
seu sacrifício. Torna-se mais do que, em toda a sua vida, um perseguidor da sua
verdade e a da dos seres humanos, um argumentador desesperado. No limiar da
Barca, na "terceira margem", do mar, no deserto121 , feito um animal acuado
entre Deus e o Diabo, ele busca, desesperadamente, o propósito da sua vida e
da dos homens.
Deus pretende ser dono de uma verdade única, monológica, oficial e
ditatorial, à qual Cristo se opõe, não concordando e questionando-a. Dessa
forma, ele é forçado a ouvir o ponto de vista de Cristo, que se contrapõe ao seu,
gerando, por meio das réplicas, das tréplicas, uma grande polêmica, e
instaurando o dialogismo no texto:

"Podem os deuses mentir, Eles podem, E tu és, de todos, o


único e verdadeiro, Único e verdadeiro, sim, E, sendo
verdadeiro e único, nem assim podes evitar que os homens
morram por ti, eles que deviam ter nascido para viver para ti,
na terra, quero dizer, não no céu, onde não terás, para lhes dar,
nenhuma das alegrias da vida." p. 380.

A essa altura, Cristo perde a paciência e exige:

“De que me digas quanto de morte e de sofrimento vai custar a


tua vitória sobre os outros deuses, com quanto de sofrimento e
de morte se pagarão as lutas que, em teu nome e no meu, os
homens que em nós vão crer travarão uns contra os outros ..."
p. 380.
Pela maneira como o filho de José conduz as perguntas, percebemos
que ele se conformou com seu destino inexorável. Sua preocupação agora
volta-se para o futuro dos seres humanos. Deus não tem saída, mas tenta, pela
última vez, evitar o relato do seu estranho desejo de matar: "E depois, Depois
meu filho, já to disse, será uma história interminável de ferro e de sangue, de
fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas, Conta, quero
saber tudo ..." p. 381.
A partir da página 381 do ESJC, somos jogados diante de uma das
mais horrendas descrições das inúmeras e sangrentas maneiras de se morrer de
121O termo "deserto" aqui não é utilizado no sentido metafórico, pois segundo o próprio narrador do
ESJC "...o deserto não é aquilo que vulgarmente se pensa, deserto é tudo quanto esteja
ausente dos homens (...)" p. 79 e ainda segundo Roberto Pompeu de Toledo, em artigo já
citado, "a palavra não deve ser tomada em sua acepção geográfica, de extensão de terra
arenosa e árida, mas apenas de lugar não habitado".
114

toda a literatura portuguesa e, porque não dizer, universal, nos reportando a


inúmeros filmes de terror consagrados pelo cinema. Utilizando uma narração
por posteridade ou narração ulterior, o leitor é colocado diante de um parágrafo
ininterrupto, de cento e quarenta linhas, começando pela letra A e terminando
na letra W, nos quais são descritos os diversos e inúmeros tipos de morte de
mártires do cristianismo, numa amostragem tétrica do mais legítimo horror, da
qual reproduzimos só um pequeno trecho :

"Agrícola de Bolonha, morto crucificado e espetado com


cravos(...) Anastásia de Sírmio, morta na fogueira e com os
seios cortados(...) Áurea de Síria, morta por dessangramento,
sentada numa cadeira forrada de cravos(...) Barnabé de Chipre,
morto por lapidação e queimado(...) Cristina de Bolsano,
morta por tudo quanto se possa fazer com mó, roda, tenazes,
flechas e serpentes..." p. 381, 382.

A bárbarie e a sanguinolência da narração das cento e quarenta


linhas deixam o leitor perplexo, mas, para Deus, isso é tudo muito enfadonho;
depois de narrar os mortos cujos nomes começam pela letra C, ele diz: "Para
diante é tudo igual, ou quase, são já poucas as variações possíveis, excepto as
de pormenor, que, pelo refinamento, levariam muito tempo a explicar, fiquemo-
nos por aqui" (p.383). Porém, Cristo exige a continuação do relato da
carnificina e Deus continua abreviando o máximo que pode a explicação dos
motivos das mortes, numa demonstração de enfado, cansaço e menosprezo, por
essa parte do seu plano:

"Eulália de Mérida, decapitada, (...) Fabião, espada e cardas de


ferro(...) Filomena, flechas e âncoras(...) Godeliva de
Ghistelles, estrangulada, Goretti Maria, idem(...) Joana d'Arc.
queimada viva(...) Killian de Würzburg, decapitado, Léger
d'Autun, idem depois de lhe arrancarem os olhos e a língua(...)
Lourenço, queimado numa grelha(...) Margarida de Antioquia,
tocha e pente de ferro(...) Mercúrio da Capadócia, decapitado,
Moro Tomás, idem, Nicásio de Reims, idem, Odília de Huy,
flechas, Pafnúcio, crucificado, Paio, esquartejado, Pancrácio,
decapitado(...) Prisca de Roma, comida pelos leões(...)
Quintino, pregos na cabeça e outras partes(...) Tecla de Icónio,
amputada e queimada(...) Tirso, serrado(...) e outros, outros,
outros, idem, idem, idem. basta." p. 383-385.

Deus aqui pode ser comparado a Baalberith que, nos estudos


demonológicos e na hierarquia diabólica, era um demônio príncipe inspirador
115

do assassinato e da blasfêmia122, tais são os relatos sangrentos que se sucedem


nestas páginas123. É Waldecy Tenório quem brilhantemente afirma que este
relato é pior que a lista de Schindler, e que o leitor que lê Sarmago chega a
sentir saudades de Jack, o estripador. Ele próprio se cansa de tanta matança,
como vimos no final do parágrafo anterior, ao que Cristo responde: "Não basta,
disse Jesus, a que outros te referes ..." (p. 385).
Diante de tanta carnificina, o leitor pode perguntar qual o significado
do homem nos planos divinos. E a resposta é dada pelo próprio narrador, num
intertexto perfeito com diversas passagens da bíblia:

"Senhor, que é o homem para que te interesses por ele, que é o


filho do homem para que com ele te preocupes, o homem é
semelhante a um sopro, os seus dias passam como a sombra,
qual é o homem que vive e não vê a morte, ou poupa a sua
alma escapando à sepultura, o homem nascido de mulher é
escasso de dias e farto de inquietação, aparece como a flor e
como ela é cortada, vai como vai a sombra e não permance,
que é o homem para que te lembres dele, e o filho do homem
para que o visites." p. 172.

O parágrafo acima é composto por uma mescla de citações bíblicas


retiradas do livro dos Salmos e do livro de Jó, e é utilizado, por ocasião dos
lamentos dos parentes dos crucificados em Sefóris, junto aos corpos destes
supliciados e ao corpo do próprio José, demonstrando bem a insignificância do
homem perante Deus, que é um dos pontos centrais do ESJC.
As principais linhas temáticas do livro de Jó são: a não
compreeensão por parte dos homens dos desígnios divinos, o problema da culpa
injusta, o humano questionando os obscuros propósitos de Deus. Da mesma
forma, Cristo, o Filho de José, humanamente questiona os estranhos propósitos
de Deus, tentando, como Jó, achar respostas às suas perguntas inquietadoras.
Nesse sentido, o texto de Jó "ilumina" o ESJC, confirmando o
caráter cético do relato de Saramago. A nota diferente instaurada pelo
(des)evangelho em relação ao texto bíblico citado, é que Deus se lembra dos
homens, porém, para usá-los como cobaias, visto que "o homem é pau para toda
a colher" e "é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses." (p. 372).
Na seqüência da narração dos mortos, com a mesma ironia, Deus
passa a relatar a morte dos mártires que tiveram que mortificar a carne e o
espírito para suportarem as tentações: "... um tal John Schorn, que passou tanto

122 Carlos Roberto F. Nogueira. Op. cit., p. 62.


123 A violência não está apenas nas páginas do romance de Saramago. Advogados alemães no ano de
2000 pediram a inclusão do livro sagrado no rol das publicações perigosas para crianças pelo seu
conteúdo violento. Segundo eles "a Bíblia tem pervesidades como genocídio, racismo, execuções de
adúlteros e homossexuais, assassinato dos próprios filhos." Rev. Veja, n. 32, agosto de 2000, p. 34
116

tempo ajoelhado a rezar que acabou por criar calos, onde, nos joelhos
evidentemente, e também se diz, isto agora é contigo, que fechou o Diabo numa
bota, ah, ah, ah, Eu, numa bota(...) isso são lendas (...)" p. 386.
O peso do elemento irônico e cômico, nas colocações feitas pela
personagem Deus, é surpreendente e cabe lembrar que "a ironia, é, sem dúvida,
um dos fortes elementos da paródia. É a consciência agindo sobre a
tradição"124. Em sua perversidade, a personagem discute com o Diabo os
purgatórios futuros de seus filhos, ironizando-os e zombando, galhofeiramente,
dos mesmos. Ele continua sua narrativa tétrica, às vezes patética, contando os
sacríficios dos anacoretas, dos monges, suas vidas piedosas para enfrentar os
demônios e as tentações, as flagelações, vigílias, orações, até chegar às ordens
monásticas da Idade Média. É um sumário perfeito que abrange, praticamente,
1500 anos.
Em meio a esta narrativa marcada pelo vermelho do sangue dos
inocentes, o Diabo intromete-se na conversa:

"Observa, como há, no que ele tem vindo a contar, duas


maneiras de perder-se a vida, uma pelo martírio, outra pela
renúncia, não bastava terem de morrer quando lhes chegasse a
hora, ainda é preciso que, de uma maneira ou outra, corram ao
encontro dela, crucificados, estripados, degolados, queimados,
lapidados, afogados, esquartejados, estrangulados, esfolados,
alanceados, escorneados, enterrados, serrados, fechados,
amputados, escardeados, ou então, dentro e fora das celas,
capítulos e claustros, castigando-se por terem nascido com o
corpo que Deus lhes deu, e sem o qual não teriam onde pôr a
alma, tais momentos não os inventou este Diabo que te fala."
p. 187.

Se a narrativa por posteridade, feita por Deus, sumariando


aproximadamente 1500 anos, constrange o leitor pelo excesso de sangue e
carnificina, o sumário do sumário, que se volta para as últimas questões, feito
pelo Diabo, tem um efeito (des)evangelizador definitivo sobre o mesmo.
Notamos que o autor implícito mascara-se atrás da voz do Diabo, para reforçar
o comportamento sanguinário e cruel de Deus, bem como seu desejo insaciável
de sangue.
É importante salientar que esta barca parada, por quarenta dias, no
meio do mar, num tempo diferente do cronológico e onde são relatadas tamanha
carnificina, reporta-nos a sua ampla simbologia.
Na simbologia bíblica, a barca significa segurança, proteção e
salvação contra as intempéries do mundo. Veja-se, como exemplo, a Barca de
Noé (Genêsis 7, 8) que também flutuou sobre as águas, durante quarenta dias,
124Maria Lucia P. de Aragão. Op cit., p.21
117

salvando o Patriarca, seus familiares e todos os animais que estavam em seu


interior. No Novo Testamento, os discípulos de Cristo, em sua maioria pessoas
simples, pescadores de profissão, são denominados por ele de "pescadores de
homens" (São Lucas 5:10), ou seja, deveriam deixar de pescar peixes e passar a
pescar homens, no sentido de salvá-los.
No ESJC, todavia, o sentido da barca é totalmente contrário ao seu
significado bíblico, pois aqui ela representa a insegurança e a perdição de todos
os homens "nascidos e por nascer". Se, no Novo Testamento, os pescadores que
remavam nas barcas do mar da Galiléia transformam-se em pescadores de
homens, aqui dois personagens, presentes na Barca, representam o caminho da
destruição e da perdição: Deus, aquele por causa de quem os homens se
perdem, e Cristo, aquele por meio do qual os homens se perdem.
Pelo relato que Deus faz, friamente, das centenas de mortes
sangrentas, esta barca remete-nos à barca dos mortos, encontrada em quase
todas as civilizações e, à figura do barqueiro Caronte, pois, segundo Bachelard,
"a barca dos mortos desperta uma consciência do erro, assim como o naufrágio
sugere a idéia de um castigo, a barca de Caronte vai sempre para os infernos.
Não existe barqueiro da felicidade. A barca de Caronte seria, assim, um
símbolo que permanecerá ligado à indestrutível infelicidade dos homens."125. O
papel desempenhado por Deus na barca, assemelha-se ao de Caronte, no
sentido de barqueiro da morte, aquele por causa de quem todas as almas
encontrarão a perdição.
Saramago escolhe a Barca como cenário do mais importante e tenso
momento de todo o livro e, cremos que essa escolha não é aleatória, pois a
imagem da barca, representando a dialética do Bem (Deus/Anjo) e do Mal
(Diabo/Tentador), pertence à tradição da literatura portuguesa. A barca do
ESJC remete-nos à Trilogia das Barcas, do teatrólogo português Gil Vicente,
que viveu no final da Idade Média e início do Renascimento (1465-1537), em
especial, ao Auto da Barca do Inferno126, auto este que nos apresenta a seguinte
situação: num braço de mar estão ancoradas duas barcas, uma ocupada por um
Anjo e outra pelo Diabo.
Fiel à doutrina teocêntrica de seu tempo e profundo conhecedor da
simbologia e alegoria bíblica, o autor elege, para seus autos, a matéria sagrada
e, no auto mencionado acima, utiliza-se de uma alegoria representativa do
combate entre o Bem e o Mal, colocando as almas numa encruzilhada do mar,
perante as duas barcas; uma que conduz ao Paraíso (Anjo) e outra que conduz
ao Inferno (Diabo). Por seus diversos pecados, as almas sempre acabam sendo
rechaçadas pelo Anjo e, inevitavelmente, terminam embarcando no Batel do
Diabo.

125Jean Chavallier e Alain Cheerbrant. Op. cit., p. 122.


126Segismundo Spina (org., coment. e pref.). Obras-primas do teatro vicentino. São Paulo: Edusp, 1970.
118

Tanto no Auto da Barca do Inferno como no Auto da Alma, o Diabo


nos é mostrado como sedutor, malicioso e, principalmente, irônico, acabando
por aceitar para si, prazeirosamente, os rejeitados pelo Anjo, o que nos remete
de volta à fala do Diabo na barca do ESJC: "...limitei-me a tomar para mim
aquilo que Deus não quis, a carne, com a sua alegria e a sua tristeza, a
juventude e a velhice, a frescura e a podridão..." p. 386.
Voltemos a analisar as evidências do caráter maquiavélico de Deus
pois "os fins justificam os meios, meu filho ..." p. 388.
Ao continuar a narrativa das lutas nas cruzadas, Deus mesmo
reconhece o seu estilo sanguinolento:

"... não, não tenho palavras bastantes para contar-te das


mortandades, das carnificinas, das chacinas, imagina o meu
altar de Jerusalém multiplicado por mil, põe homens no lugar
dos animais, e nem mesmo assim chegarás a saber ao certo o
que foram as cruzadas(...)" p. 388.

Mesmo reconhecendo o seu caráter sanguinário e zoomorfizando


seus filhos, meros animais, a sua ironia é mordaz. O narrador do ESJC nega a
evolução do conceito de um "Deus de Israel", nacional, para um "Deus cristão"
que seria a essência de toda a bondade, o que consistiria um progresso127, visto
que o "Deus de Israel" era um Deus muito violento, que gostava de batalhas
sangrentas e proporcionador de muitas mortes, e o "Deus cristão" seria um
Deus de paz, humildade, felicidade, redenção e vida eterna. Na verdade, o Deus
de Saramago é único, em sua violência e perversidade, tanto no Velho
Testamento como no Novo. A única evolução que há é, em direção à
obstinação implacável pelo poder, o que custará o sangue de milhares de
homens. E o Diabo, estupefato perante tanto sangue e crueldade, assim se
expressa:

"Digo que ninguém que esteja em seu perfeito juízo poderá vir
a afirmar que o Diabo foi, é, ou será culpado de tal morticínio
e tais cemitérios, salvo se a algum malvado ocorrer a
lembrança caluniosa de me atribuir a responsabilidade de fazer
nascer o deus que vai ser inimigo deste, Parece-me claro e
óbvio que não tens culpa, e, quanto ao temor de que te atirem
com as responsabilidades, responderás que o Diabo, sendo
mentira, nunca poderia criar a verdade que Deus é, Mas então,
perguntou Pastor, quem vai criar o Deus inimigo, Jesus não
sabia responder, Deus, se calado estava, calado ficou, porém
do nevoeiro desceu uma voz que disse, Talvez este Deus e o

127Nietzcheaborda a ingenuidade dos teólogos ao afirmarem esta pretensa evolução em O Anticristo.


Rio de Janeiro: Ediouro, p.38-39.
119

que há-de vir não sejam mais do que heterônimos, De


quem, de quê, perguntou, curiosa outra voz, De Pessoa, foi
o que se percebeu, mas também podia ter sido, Da Pessoa.
Jesus, Deus e o Diabo começaram por fazer de conta que não
tinham ouvido, mas logo a seguir entreolharam-se com susto,
o medo comum é assim, une facilmente as pessoas. "p.
390(grifo nosso).

No início do parágrafo, o Diabo defende-se, temendo que toda essa


crueldade lhe seja atribuída, em especial a criação do deus que, no futuro, vai
ser inimigo deste que está na barca. O Diabo, em seu discurso, parece fazer
referência a dois textos de profecias do Velho e do Novo Testamento,
respectivamente dos profetas Daniel e João.
Esclarecemos, a respeito, que esses dois livros proféticos apresentam
um complexo e riquíssimo simbolismo que envolve estátuas, reinos, animais
igualmente simbólicos (bodes, cavalos, carneiros), períodos proféticos (setenta
semanas, 2.300 tardes e manhãs), livros selados, inúmeros anjos, dragrões,
bestas, pragas, trombetas, santuários. Além disso, também falam de um poder
que surgiria nos "últimos tempos", que se oporia a Deus, a besta, aquela que
tem como marca o número 666, enfim o anti-Cristo. Embora esteja fora de
nosso alcance e objetivo a investigação mais profunda de toda esta vastíssima
simbologia, citamos, a título de esclarecimento, alguns trechos destes livros que
nos auxiliarão em nossas observações:

"E proferirá palavras contra o Altíssimo e destruirá os santos


do Altíssimo(...)" Dan. 7:25.

"(...) a besta que sobe do abismo lhes fará guerra, e os vencerá


e os matará" Apoc. 11:7.

"Aquele que tem tem entendimento, calcule o número da


besta; porque é o número de um homem, e o seu número é
seiscentos e sessenta e seis."Apoc. 13:18.

Como constatamos acima, nos livros proféticos, são relatados


detalhes de uma batalha entre Deus e o anti-Cristo, no "final dos tempos". Uma
das denominações atribuídas ao anti-Cristo é "a besta". E a maior preocupação
e temor do Diabo do ESJC é que a criação do "Deus inimigo", ou seja, a besta,
cujo número "é seiscentos e sessenta e seis", seja-lhe, injustamente, atribuída
no futuro ("...salvo se a algum malvado ocorrer a lembrança caluniosa de me
atribuir a responsabilidade de fazer nascer o deus que vai ser inimigo deste...").
Novamente, a partir da fala "Parece-me claro que não tens culpa ..." até "nunca
poderia criar a verdade que Deus é", percebemos que estamos diante de uma
voz sem dono que isenta o Diabo de qualquer responsabilidade sobre a criação
120

do deus inimigo. Esta voz não é de Deus, nem do Diabo e nem de Cristo, pois é
o Diabo quem pergunta e não poderia responder a si próprio, e Deus e Cristo
permanecem calados.
Surge então a seguinte pergunta: quem então está falando? Está
nítido que esta voz sem rosto não é de nenhum dos três, mas ousar é preciso. O
narrador posiciona-se tão favoravelmente ao Diabo e a Cristo, e tão
desfavoravelmente a Deus, em virtude do seu desejo inexplicável e insaciável
de matar milhões de inocentes, que sua voz se corporifica e ele “outra-se”,
juntamente, com o autor implícito, resolvem entrar na barca, tal é a angústia e a
importância deste momento. E entram na barca, para quê? Para
(des)evangelizar, explicitamente, o leitor: "Talvez este Deus e o que há-de vir
não sejam mais do que heterônimos, De quem, de quê, perguntou curiosa outra
voz, De Pessoa ..." p. 390 (grifo nosso).
O diálogo do trecho acima remete-nos, sem dúvida, à literatura
portuguesa, na medida em que "heterônimos" e "Pessoa" estão ligados ao poeta
português Fernando Pessoa128. Quanto às duas vozes saídas do nevoeiro e que
respondem ao Diabo, tendemos a identificá-las, respectivamente, ao narrador e
ao autor implícito que sai da sua camuflagen, do seu silêncio e explicita-se,
surpreendentemente, no momento mais crucial da narrativa, deixando, ainda
que por alguns instantes, o disfarce (Wayne C. Booth) ou a máscara (Wolfang
Kayser)129 cair, para ganhar, se não corpo, uma voz que se mostra apreensiva tal
é a gravidade do momento. Essas duas vozes pairam no ar, para explicitar aos
três e ao leitor, o que todos, provavelmente, já sabiam: o deus inimigo que
surgirá - a besta do Apocalipse, cujo número é 666, o anti-Cristo, não passa de
um heterônimo de Deus, reportando-nos a Pessoa, ao seu fenômeno complexo
de desdobrar-se em vários outros, o esplêndido e espantoso caso de sua vasta
criação heteronímica. A abordagem do problema da heteronímia cristã na barca
denota por si só que estamos diante de uma narrativa dialética. A intrusão do
narrador é tão absurdamente espantosa, entrando na diegese e agindo, que se
faz um silêncio constrangedor e que se impõe a todos.
Todas as pistas fornecidas pelo narrador ao leitor agora se
esclarecem: a sugestão de abrir Deus e encontrar o Diabo dentro dele, a fala do
discípulo Tiago sobre as relações existentes entre Deus e o Diabo, a semelhança
física entre os dois, destacada nas descrições, o interesse dos dois pelos mesmos
assuntos. Com todas essas pistas, o que o narrador quer frisar para o leitor é que
o Diabo é simplesmente um heterônimo de Deus, ou seja, seu alter ego. Mais

128 Fernando Antonio Nogueira Pessoa, autor de Mensagem e com vasta obra heteronímica, tem
desafiado os críticos da literatura portuguesa contemporânea. Na impossibilidade de citar todos
os textos que abordam a questão dos heterônimos de Pessoa, remetemos a um texto clássico de
João Gaspar Simões: Vida e obra de Fernando Pessoa. 2.ed. Lisboa: Bertrand, Amadora, s/d.
129Sobre esta terminologia específica consultar Maria Luiza Ritzel Remédios em obra já citada
anteriormente.
121

antigo que a heteronímia pessoana é o caso da heteronímia cristã, (Deus, Cristo


e o Diabo) dialética por excelência.
Nessa corporificação das vozes do narrador e do autor implícito, que
sai dos bastidores e se desvela, aliada às vozes de Cristo, Deus, Pastor é que
transparece a essência polifônica da obra, pois é nos revelado "um mundo em
processo de construção, mundo de elementos que agem e reagem uns contra os
outros sem resolução possível"130. É a riqueza do discurso "que se converte em
palco de luta entre duas vozes"131, os múltiplos aspectos do cristianismo, a
pluralidade de pensamentos, as diversas falas que se comportam como linhas
cruzadas que darão a verdadeira coloração do romance: a carnavalização e a
(des)evangelização do leitor. É um novo evangelho que se constrói, através da
releitura dos Evangelhos primeiros, um novo evangelho que se permite
debruçar sobre si mesmo e que elabora uma "gênese destruidora."132.
Após esse "susto", o narrador e o autor implícito voltam à sua
condicão e Deus prossegue na descrição do seu desejo absurdo de matança,
revelando as mortes causadas pela Santa Inquisição, e toda a sua obra nefasta:

"Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra


encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o
fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará
sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo será por minha
culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim
este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua
glória, Não quero esta glória, Mas eu quero este poder..." p.
391.

Notamos que há um certo prazer perverso de Deus, ao narrar estes


acontecimentos sangrentos, e Cristo tenta, desesperadamente, livrar a espécie
humana do papel de cobaias indispensáveis aos planos divinos. O próprio
Diabo fica sensibilizado e reconhece a obsessão que Deus tem por sangue: "É
preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue." p. 391 (grifo nosso).
Extremamente assustado com o futuro "vermelho" da raça humana, o
Diabo resolve fazer um proposta última e única a Deus:

"Quero hoje fazer bom uso do coração que tenho, aceito e


quero que o teu poder se alargue a todos os extremos da terra,
sem que tenha de morrer tanta gente, e pois que de tudo aquilo
que te desobedece e nega, dizes tu que é fruto do Mal que eu
sou e ando a governar o mundo, a minha proposta é que

130 David Hayman. Um passo além de Bakhtin - Por uma mecânica dos modos. In: Sobre a Paródia.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro número 62, 1980, p. 3l.
131 Mikhai Bakhtin. Op. cit., p. 168.
132Julia Kristeva. op. cit., p. 76.
122

tornes a receber-me no teu céu, perdoados dos males


passados pelos que no futuro não terei de cometer, que
aceites e guardes a minha obediência, como nos tempos
felizes em que fui um dos teus anjos predilectos, Lúcifer me
chamavas, o que a luz levava, antes que uma ambição de
ser igual a ti me devorasse a alma e me fizesse rebelar
contra a tua autoridade(...) se usares comigo, agora,
daquele mesmo perdão que no futuro prometerás tão
facilmente à esquerda e à direita, então acaba-se aqui hoje
o Mal, teu filho não precisarás morrer, o teu reino será,
não apenas esta terra de hebreus mas o mundo inteiro,
conhecido e por conhecer, e mais do que o mundo, o universo,
por toda a parte o Bem governará, e eu cantarei na última e
humilde fila dos anjos que te permaneceram fiéis, mais fiel
então do que todos, porque arrependido, eu cantarei, os
teus louvores tudo terminará como se não tivesse sido, tudo
começará a ser como dessa maneira devesse ser sempre... "
p. 392 (grifos nossos).

No limiar da barca, no limiar da história da humanidade, são tratadas


as "últimas questões", são experimentadas "as últimas posições filosóficas", as
situações extremadas, os limites entre a vida e a morte, o sonho e a realidade, a
salvação e a perdição, procedimento típico da menipéia que "procura
apresentar, parece, as palavras derradeiras, decisivas e os atos do homem,
apresentando em cada um deles o homem em sua totalidade e toda a vida
humana em sua totalidade."133
As últimas atitudes que envolvem o destino dos deuses e dos
homens são aqui desnudadas pela visão carnavalesca. O discurso do Diabo é o
mais cristão de todos os discursos bíblicos, repleto de piedade, tentando salvar
o Salvador e, por extensão, toda a humanidade, bem como exorcizar o próprio
mal que é Deus. É a instauração da "vida às avessas", do "monde à 1'envers". A
inversão do caráter milenarmente atribuído ao Diabo é completa, pois aqui ele
se apresenta generoso, arrependido, humilde, sagrado, bondoso, características
essas que, nos Evangelhos, são atributos divinos, ou seja, o Diabo aqui é o
paradigma perfeito do Bem. Quando ele sai das águas e entra na barca da
morte, temos a seguinte informação do narrador: "... era, o leviatã surgindo das
últimas profundidades, era, como se viu, passados todos estes anos, o Pastor...".
Vale aqui determo-nos sobre a sua simbologia: "Na bíblia temos um monstro do
mar comumente chamado Leviatã, que é descrito como o inimigo do
messias, e que está destinado a ser morto pelo Messias..."134 (grifo nosso).

133 Mikhail Bakhtin. Op. cit., p. 99.


134Northrop Frye. Op. cit., p. 188.
123

De monstro inimigo que deveria ser destruído pelo Messias, o


Leviatã, pelo contrário, neste evangelho, entra na barca para salvar o próprio
Salvador e a raça humana. Mas são constantes, na carnavalização, as imagens
biunívocas, a este bem que o Diabo representa, a este caráter santo que o
narrador lhe concede, Deus opõe-se com veemência:

"Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível,


ainda pior do que és agora, Porquê, Porque este Bem que eu
sou não existiria sem esse Mal que tu és, (...) enfim, se tu
acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que
tu continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como o Diabo,
Deus não vive como Deus, a morte de um seria a morte do
outro (...)" p. 343 (grifo nosso).

Estamos diante de uma outra característica da carnavalização: a


profanação. O caráter de Deus, em sua postura impiedosa de não conceder o
perdão, da obstinação em manter o mal, é extremamente profanado. Deus é o
Diabo neste evangelho e o Diabo é o Salvador do Salvador. Pastor, após ver seu
plano de salvação frustrado, diz : "Que não se diga que o Diabo não tentou
um dia a Deus ..." p. 393, (grifo nosso).
Cristo vai ao deserto (mar), para ser tentado por Deus, durante
quarenta dias, e a sua salvação é proposta pelo Diabo. É o contraste agudo
entre o sagrado e o profano, entre o bem ( Diabo) e o mal ( Deus). Ao não
aceitar o perdão suplicado pelo Diabo, Deus condena Cristo e todos os seres
humanos ao papel de inexoráveis cobaias e, ao Diabo, o pior dos castigos:
sempre existir.
O narrador afeiçoa-se a Cristo e explicita isso claramente, tem uma
predileção especial pela personagem do Diabo e demonstra sua completa
aversão à personagem Deus. Também podemos observar a posição de cobaia
que Cristo ocupa entre o Deus sanguinário e seu heterônimo, bem como o papel
de cobaia da espécie humana e, em última análise, o papel de cobaia do próprio
Diabo que, como heterônimo de Deus, não pode existir sem ele ou fazer alguma
coisa diferente dele. Deus, o Diabo e Cristo, cuja "fatalidade particular é ter
sido eleito, a contragosto, para cúmplice de Deus em seu projeto
expansionista"135, formam uma nova Trindade, complexa, estranha e
extremamente desunida.
Como vimos, o desprezo a Deus é tão grande, que o narrador,
onisciente intruso, extrapola todos os limites conhecidos de intrusão e permite-
se, apoiado pelo autor implícito, uma participação neste episódio, sem dúvida o
mais dramático e tenso de todo o livro, a ponto de merecer que o demiurgo se
reúna aos deuses na barca.

135Simone Pereira Schmidt. Op. cit., p. 75.


124
125

“- Sim, sou o diabo, repetia ele; não o Diabo das noites


sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo
verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu
aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me
gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai
daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um
troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo,
tudo...”

Machado de Assis. A igreja do Diabo. In: Contos


Consagrados. São Paulo: Ediouro, s/d, p. 43.
126

3.6. SANTO LÚCIFER - O QUARTO


HOMEM DA TRINDADE
O Diabo é um dos personagens que, devido ao papel que desempenha
nos Evangelhos Bíblicos, tem merecido o maior número de adjetivos do milênio.
Relacionemos os mais interessantes: O Semi-hazad, Azazel, Belial, Asmodeu
(hebreus); o Eblis (muçulmano); o “Old Man”(Escócia); o “Macado de Deus”
(Idade Média); o Maligno, o Inimigo, o Tentador, o Maldito, o Pai da Mentira, o
Príncipe das Trevas; adjetivos usados em quase todas as línguas; o Cão, o
Arrenegado, o Beiçudo, o Azucrim, o Tinhoso, o Porco, o Sujo, o Tição, o Coxo, o
Anhangá, o Rabudo, como é chamado no Brasil, ou ainda, segundo a linguagem
rosiana “o que não é mas finge ser”. E como era identificado o Diabo durante a
Idade Média:

"Na Idade Média, o Diabo tinha formas tão espetaculares


quanto aterrorizantes. Os olhos ora se encontravam na ponta
das asas, ora na barriga. A língua era comprida como a de
um réptil. O cheiro insuportável de enxofre anunciava a
presença de Lúcifer, Satanás, Belzebu, Macaco de Deus ou
outra qualquer das centenas de denominações do
Demônio."136

Esse ser nomeado por adjetivos tão pejorativos, já há muito tempo,


contava com admiração e o respeito de Saramago que lhe concede dimensões bem
mais humanas, como observaremos na análise de dois trechos de Memorial do
Convento (l983):

"Em cima deste valado está o diabo assistindo, pasmado da sua


própria inocência e misericórdia por nunca ter imaginado
suplício assim para a coroação dos castigos do seu inferno."
Memorial do Convento, p. 258,259.

O texto acima diz respeito ao esforço titânico de exatamente 600


homens, junto a 400 bois, para conduzirem e empurrarem a pedra dantesca de 3l
toneladas ou duas mil arrobas, denominada pedra de Benedictone, de Pêro
Pinheiro para o Convento de Mafra. As bestas humanas, com as forças exauridas e
os músculos retesados, gemem embaixo do peso da mesma, e, alguns corpos, como
o de Francisco Marques são esmagados sob o peso do carro que conduzia a pedra.

136 Bruno Paes Manso e Fernando Luna. Satã entre nós. In: Revista Veja. São Paulo: Abril, Ed. 1583, ano
32, n. 5, fevereiro de 1999.
127

Tudo isso em nome de uma obra "sagrada", realizada, devido a um voto feito por
D. João V, para que sua mulher lhe desse um herdeiro.
O narrador concebe a imagem de um Diabo inocente e misericordioso,
incapaz de relacionar tal crueldade a uma obra "santa", uma vez que nem mesmo
ele teria "imaginado suplício assim para a coroação dos castigos do seu inferno".
Espanta-se com a missa profana que o padre reza em cima da pedra no dia seguinte
à morte do trabalhador. Neste sentido, o profano instaura-se, o discurso do
narrador é herético, pois é o "narrador que compara a morte de um homem à morte
de Cristo, que inverte o conceito de inferno, que faz do frade o sacrílego, do diabo,
um aprendiz, do trabalhador morto, a vítima imolada"137 e herético também, uma
vez que se posiciona ao lado de seiscentos homens desconhecidos pela história
oficial.
Se em Memorial do Convento o Diabo já nos é mostrado sobre outro
ângulo, no ESJC ele é o grande protagonista e está presente nos momentos mais
cruciais da narrativa, passando de “desherói” para herói. Isso, de certo forma, faz-
nos recordar o satanismo no sentido atribuído por Milton que, em seu grande
poema O Paraíso Perdido, reserva a Satanás o papel de protagonista,
transformando a rebelião do anjo caído em um tema glorioso, privilegiando o
pecado e a revolta, deixando a Adão, praticamente, um papel secundário. Teria
chegado, finalmente A Hora e a Vez de Lúcifer?
Nomodiabopadrofilhospritossantamêin!
A simpatia de Saramago pelo Diabo é, um sentimento não muito
herético, pois está ancorado em verdades presentes na própria bíblia. É Couté
quem constata, após analisar os evangelhos bíblicos, que há um número excessivo
de encontros e diálogos entre Cristo e Satanás. Neles há uma convivência até certo
ponto tranqüila entre os dois, ocorrendo uma certa malealidade no entrechoque de
propostas. Segundo o autor, nos evangelhos bíblicos:

“Jesus suporta pacientemente as investidas do inimigo, não


desdenha sua companhia, não o intima a desaparecer, aceita
inclusive ser trasnportado por ele até os telhados do templo:
tem por assim dizer, uma relacão dialética com o rival, na
qual este também se mosa à altura do tratamento, sem
ofuscar-se em nenhum momento”138 (grifos nossos).

Por outro lado, a presença do mal é essencial para a existência e


fundamentação do cristianismo

137 Tereza Cristina Cerdeira da Silva. Op. cit., p. 92.


138 Roberto Pompeu de Toledo.” A atualidade de Satanás”. In: Revista Veja, São Paulo, Jul., l996,
p. 70-81.
128

"No cristianismo, a presença do Mal, ainda que despido de


formas concretas, é essencial como em nenhuma outra
religião[....] O catolicismo se define por essas oposições
absolutas: o bem contra o mal, o santo versus o pecador, a
salvação contraposta à condenação, a castidade de um lado,
o sexo do outro..."139

Recapitulemos alguns fatos sobre o personagem Diabo. É ele quem


anuncia o nascimento de Cristo a Maria e quem deposita, na tigela, uma terra que,
estranhamente, brilhava; quem acompanha Maria, com aparições fantásticas,
durante toda a sua gravidez; quem aparece na cova, após a matança dos inocentes
de Belém, para acusar José, e por extensão, Maria também. É o Diabo quem, l3
anos após, vem a Belém, para levar consigo uma planta enigmática, que nascera
onde a tigela fora enterrada; quem aparece para Cristo em Belém na gruta e o
convida para ser ovelha do seu rebanho; quem, durante quatro anos, ensinará a
Cristo os mistérios da vida, as lições de sabedoria, como, por exemplo, a estupidez
do sacrifício das ovelhas. É o Diabo, o Bom Pastor, que salva as suas ovelhas, não
permitindo que sejam sacrificadas. É ele quem sobe à barca, na condição revelada
de Leviatã, com a estranha missão de Salvar o Salvador e, por extensão, todos os
seres humanos "nascidos e por nascer".
Com relação a seu nome "Pastor", pelo qual prefere ser chamado,
temos a esclarecer que "o nome não é nunca um mero símbolo, sendo parte da
personalidade do seu portador..."140. Embora devidamente demonstrado nos
diálogos que mantém com Maria e com Jesus é na Barca, que percebemos a
extensão de sua sabedoria:

"... limitei-me a tomar para mim aquilo que Deus não quis, a
carne, com a sua alegria e a sua tristeza, a juventude e a
velhice, a frescura e a podridão, mas não é verdade que o
medo seja uma arma minha, não me lembro de ter sido eu
quem inventou o pecado e o seu castigo, e o medo que neles
há sempre." p. 386.

Referindo-se à narração feita por Deus, das centenas e milhares de


mortes que haveria, em razão do Cristianismo, o Diabo se defende:

"Digo que ninguém que esteja em seu perfeito juízo poderá


vir a afirmar que o Diabo foi, é, ou será culpado de tal
morticínio e tais cemitérios, salvo se a algum malvado
ocorrer a lembrança caluniosa de me atribuir a

139 Bruno Paes Manso & Fernando Luna. Satã entre nós. In: Revista Veja, São Paulo, fev. 1999, ed.
1583, p. 58.
140Ernest Cassirer. Linguagem e Mito. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 68.
129

responsabilidade de fazer nascer o deus que vai ser inimigo


deste." p. 389 (grifo nosso).

É ele que, mesmo sendo um heterônimo de Deus, revolta-se contra


suas idéias despóticas, sua ânsia de poder e de sangue, compadece-se do
destino inexoravelmente trágico que aguarda a humanidade, apieda-se da
situação de animal acuado ocupada por Cristo e propõe uma solução para a
história da humanidade.
Vale relembrar, novamente, alguns trechos do belo discurso
clemente e, substancialmente, cristão e teológico proferido pelo Diabo:

"Quero hoje fazer bom uso do coracão que tenho, aceito e


quero que o teu poder se alargue a todos os extremos da
terra, sem que tenha de morrer tanta gente, [...] a minha
proposta é que tornes a receber-me no teu céu, perdoado
dos males passados pelos que no futuro não terei de
cometer, que aceites e guardes a minha obediência, como
nos tempos felizes em que fui um dos teus anjos
predilectos[...] Porque se o fizeres, se usares comigo, agora,
daquele mesmo perdão que no futuro prometerás tão
facilmente à esquerda e à direita, então acaba-se aqui hoje
o Mal, teu filho não precisarás morrer [...], por toda a parte
o Bem governará, e eu cantarei, na última e humilde fila dos
anjos que te permaneceram fiéis, mais fiel então do que
todos, porque arrependido, eu cantarei os teus louvores,
tudo terminará como se não tivesse sido, tudo começará a ser
como se dessa maneira devesse ser sempre(...) Não me aceitas,
não me perdoas, Não te aceito, não te perdoo, quero-te como
és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Porquê, Porque
este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és(...)"
p. 392 (grifo
nosso).

Aí está toda a humildade, a religiosidade, a grandeza de caráter, toda


nobreza do protagonista deste novo evangelho que, após não ser perdoado por
Deus, desalentado, profere a seguinte sentença: "Que não se diga que o Diabo
não tentou um dia a Deus..." ESJC p. 393.
O Diabo, realmente, tentou Deus, tentou-O para que lhe perdoasse,
para que evitasse a morte de Cristo, para que evitasse tanto derramamento de
sangue inocente, mas o tentado resistiu convicto e não concedeu o perdão. Sua
semelhança com Deus é apenas física, visto que trilham caminhos opostos: o
Diabo procura acabar com o sacrifício das ovelhas; Deus o exige. O Diabo
tenta salvar a Cristo e os seres humanos, Deus não aceita a salvação proposta
por ele e se compraz nos sacrifícios das meras cobaias.
130

Trilham caminhos opostos, mas estão unidos, forçosamente, neste


evangelho humanista, já que o heterônimo não consegue cortar o cordão
umbilical que o liga ao seu criador. O Diabo está condenado a sempre
depender de Deus e nunca ter fim, está predestinado ao pior de todos os
castigos, "ter de existir para sempre" (p. 393), pois segundo o próprio Deus, "...
se o Diabo não vive como Diabo, Deus não vive como Deus, a morte de um
seria a morte do outro..." (p. 393) .
De todas as personagens discriminadas pela doutrina cristã e que
aqui são glorificadas, o Diabo é a que merece uma especial atenção do narrador
que se empenha em sua sacralização, redimindo-o, definitivamente, do papel
milenar de vilão que lhe é atribuído pelos Evangelhos e pela Igreja Católica, já
que o papel de vilão, aqui, é destinado a Deus. A carnavalização do Diabo é
completa, pois aqui ele é o Bom Pastor, o Redentor, o Clemente, o Justo, o
Humilde. Novamente, estamos diante das "diversas violações da marcha
universalmente aceita e comum dos acontecimentos..."141
Quando o narrador revela que Jesus é "...o evidente herói deste
evangelho"(p. 240) está destilando sua ironia, pois sabe muito bem que o
evidente herói deste quinto evangelho e magistral protagonista é o Diabo, pois
é ele quem, na Barca, enfrenta a Deus, de igual para igual, na tentativa de
Salvar o Salvador.
Em sua Teologia do Ateu, Saramago redime o Pastor e transforma-o
num verdadeiro e outra vez Lúcifer142.
Cabe lembrar aqui que “aquele que leva a luz, “a estrela da manhã”,
não foi redimido só por Saramago. Afinal que foi realmente o Diabo? E é
baseado nessa intrigante e milenar pergunta que foram lançados em 1996 dois
já clássicos livros sobre o Diabo, que versam entre outras coisas, sobre o papel
desempenhado pelo Diabo no livro de Jó e a extrema familiaridade e
cordialidade existentes nas relações entre Cristo e o Diabo. O primeiro chama-
se As origens de Satanás, escrita pela americana Elaine Pagels e publicada no
Brasil em 1996 pela Ediouro. O outro intitula-se A Biografia do Diabo, do
argentino domiciliado na espanha Alberto Cousté, publicado também no Brasil
em 1996, pela Editora Record143.Como constatamos, “o Diabo resistiu ao
Renascimento, ao Século das Luzes e à Revolução Industrial. Porque não

141 Mikhail Bakhtin. Op. cit., p. 101.


102 No sentido daquele que tenta espalhar luz, pois segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, p.
1051, temos: "Do latim Lucifer, 'o que leva o archote', 'a estrela da manhã", ou ainda de acordo com a
própria tradição cristã, o primeiro nome atribuído ao Diabo, antes da expulsão do mesmo dos céus.
Tradição essa, que se baseia no esplendorosa descrição do Diabo, antes da sua queda, feita pelo
profeta Ezequiel no Capítulo 28 de seu livro, do qual citamos apenas o versículo 14: "Tu eras
querubim ungido para proteger, e te estabeleci: no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras
afogueadas andavas."
143 Para maiores esclarecimentos sobre estes autores e o conteúdo de suas obras consultar o já citado artigo
“Atualidade de Satanás”, de Roberto Pompeu de Toledo. p. 70-81.
131

resistiria à era da eletrônica, da cibernética e da exploração espacial”144. Numa


época em que o primeiro robô enviado pelos humanos já chegou a Marte, o
Diabo vai muito bem e agradece o ibope.
Se a partir da década de setenta houve uma explosão dos estudos em
torno da figura de Cristo como estudado no Capítulo I deste livro, na década de
noventa explodem publicações que procuram dar resposta a uma pergunta
milenar: Quem foi o Diabo? Qual a sua missão? É o outro lado da moeda que
precisa se desvendado.
No documento publicado pelo Vaticano em fevereiro de 1999
denonimado De Exorcismis et Supplicationibus Quibusdam (De Todos os
Gêneros de Exorcismos e Súplicas), a "Igreja Católica reafirma sua fé no
Maligno, sua confiança na vitória de Cristo e, acima de tudo, uma inesgotável
capacidade de reiventar, pela enésima vez, um inimigo que purga todos nós da
culpa essencial. Somos mal por influência demoníaca."145
Saramago muito antes de Pagels e Cousté já havia respondido tudo
isso no Quinto Evangelho: o Diabo foi e é o Salvador de Cristo e da espécie
humana. Ou melhor, tentou salvar o Salvador-Cristo e os homens, tentou
impedir o surgimento do cristianismo e o caudaloso rio de sangue que brotaria
dali. Tentou , mas foi impedido por Jeová. De certa forma poderemos dizer que
Saramago transformou o Diabo num santo anjo, ou melhor, elevou Lúcifer à
categoria de um Deus, transformando-o no quarto homem da trindade.
Para Saramago o Diabo apenas foi um anjo de luz que tentou salvar
Cristo e os seres humanos, mas está condenado pelos milênios, a continuar
sendo apenas o único heterônimo de Deus.

144 Roberto Pompeu de Toledo. Op. cit., p.73.


145 Bruno Paes Manso et alli. Op. cit, p.59.
132

Suponha que um anjo de fogo


varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
Carlos Drummond de Andrade
133

CONCLUSÃO
A HERESIA DO SARAMAGUIANISMO
"É preciso que o homem se passe, com armas e bagagem, para o
lado do homem." André Breton

Muitas doutrina heréticas surgidas na Idade Média abalaram os


pilares e os dogmas da Igreja Católica, como o monofisismo, o arianismo e o
nestorianismo. O monifisismo, criado pelo bispo Êutiques, superior do mosteiro
de Constantinopla, admitia um Jesus Cristo com uma só natureza: a divina. O
papa Leão, o Grande, convocou o Concílio de Calcedônia, em 451, e julgou a
doutrina do bispo, condenando-a como heresia.
O arianismo, originado pelo bispo Ário de Alexandria, atribuía a
Cristo uma natureza intermediária entre o divino e o humano. Foi condenada
pelo Concílio de Nicéia, em 325. O Nestorianismo foi uma doutrina criada pelo
patriarca de Constantinopla, Nestor. Distinguia duas pessoas em Jesus Cristo:
uma divina e outra humana. A doutrina de Nestor foi julgada no Concílio de
Éfeso, em 431, pelo Papa Celestino I. Nestor negou-se a aceitar a decisão do
Concílio, a doutrina foi considerada herege e contam que sua língua apodreceu
dentro da boca.
Sem dúvida, um dos maiores “hereges” de todos os tempos foi o
monge agostiniano Martim Lutero (1483-1546), que em 1517, rebelou-se
contra o papa Leão X e afixou suas 95 teses heréticas na porta da igreja do
castelo de Wittemberg(Alemanha), “provocando o mais espetacular cisma
religioso da época Moderna: a Reforma Protestante”146. Lutero foi
excomungado por Leão X em 1521.
Há outros hereges menos conhecidos, como o português Pedro Rates
Hernequim, minerador e teólogo por vocação, que foi estrangulado com o
garrote em Lisboa, por ordem da Inquisição, em 1744. Seus restos, conforme a
sentença, foram incinerados e espalhados ao vento, para que nem dele nem da
sua sepultura pudesse haver memória. Henequim, condenado como herege pela
igreja, morreu feliz, crente que havia encontrado o céu. Suas pesquisas
teológicas, feitas durante uma estada em Minas Gerais, revelam que foi no
Brasil que Adão e Eva cometeram o pecado original, provando do fruto da
árvore do conhecimento do Bem e do Mal: uma banana.147

146 Laura Capriglione. Soldados da fé e da prosperidade. In: Revista Veja. São Paulo: Ed.. Abril, Jul.,
1997, p. 92. Cabe esclarecer que um dos motivos que causou a indignação de Lutero foi a venda de
indulgências realizada pelo para Leão X. Para reconstrução da basílica de São Pedro (Roma) o Papa
oferecia a remissão total ou parcial dos penas que o pecador iria sofrer, dependendo da quantia de dinheiro
que o pecador doasse.
147 Relato fornecido por Ernesto Bernardes no artigo O Paraíso perdido. In. Revista Veja. São Paulo, Ed.
Abril, 1997, Abr., 1997, p. 102.
134

A estória das heresias é muito antiga e, no entanto, continua mais


atual do que nunca. Em 1994 da Era Cristã surge a heresia do
Saramaguianismo, lançada também por um português, que não possui, tal como
Lutero, 95 teses heréticas, mas uma só: seu evangelho é construído EM NOME
DO HOMEM, dos párias da História Sagrada (Madalena e o Diabo) e das
milhares de criaturas que pagaram com seu precioso sangue a implantação e
consolidação da Religião Cristã, em detrimento DO NOME DE DEUS.
Esse Quinto Evangelho parodia e carnavaliza os Evangelhos
Canônicos e centra-se naqueles que foram silenciados pela exegese cristã e
reescreve não mais a História do Cristianismo, não mais a história do Filho de
Deus, mas a história da vida, paixão e morte dos cristãos, e de Jesus Cristo, O
Filho do Homem, na defesa de um humanismo radical, o qual se constitui no
cerne da Teologia do Ateu.
O Quinto Evangelho é um Evangelho de homens para homens e em
sua crítica corrosiva ataca a religião cristã, o despotismo tirânico de Deus e das
religiões, os poderes de dominação em geral e tenta resgatar a dimensão
humana do homem. Cabe lembrar que "a paródia possui um caráter positivo,
pois mata para fazer brotar novamente a criação. Recusa e esvazia o modelo
original para recriar e preencher um modelo que lhe é próprio."148 O Evangelho
Segundo Jesus Cristo, por meio de uma ironia mordaz, esvazia o texto primeiro,
os Evangelhos bíblicos; neste sentido, tendo a função de "des", faz brotar um
novo evangelho, voltado para os pecadores, em detrimento dos santos.
Se para Karl Marx a religião não passava de ópio para o povo; se
Freud a considerava como uma manifestação de infantilismo; se Darwin, no
lugar de Adão moldado em barro pelas mãos divinas, nos legou como ancestral
nada menos que um macaco; se Nietzche, filosoficamente, matou Deus;
poderíamos dizer que Saramago cremou o pouco que sobrou do Jeová dos
cristãos.
No Quinto Evangelho podemos afirmar que as três principais
heresias de Saramago são as seguintes: a "demonização" da personagem divina;
a "divinização" e "heroicização" da personagem do Diabo e, principalmente, a
"humanização" radical da figura de Cristo.
A essa luz, verificamos que, se o objetivo central dos Evangelhos
bíblicos era proclamar e reforçar a fé em Jesus Cristo como Filho de Deus,
Senhor, Redentor, Salvador e Messias, o objetivo do Quinto Evangelho é
revelar a dimensão humana de Cristo, o filho de José, o qual, como um ser
humano, tem suas fraquezas, suas dúvidas, suas ansiedades perante um destino
inexorável, praticamente forçado a fundar uma religião que já principia com o
cheiro de morte e de sangue.
O Evangelho Segundo Jesus Cristo revela o humano, ao tematizar
uma história considerada, por muitos, divina. Ou seja, o Quinto Evangelista
148 Maria Lucia P. de Aragão. Op. cit., p. 20.
135

diferencia-se dos outros quatro, pois enquanto esses escreveram seus


evangelhos IN NOMINE DEI, o ateu convicto escreve todo seu evangelho IN
NOMINE HOMINIS, afinal Jesus foi um dos maiores humanistas que o mundo
já conheceu.
Em sua heresia , o quinto evangelista acrescenta o Décimo Primeiro
Mandamento:

“ Amai ao Homem sobre todas as coisas. Amai-O como a ti mesmo,


mesmo que nada mais te seja acrescentado...”
136

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SALMA FERRAZ graduou-se em Letras pela Faculdade Hebraico Brasileira


Renascença de Letras de São Paulo (Hebraica), especializou-se em Literatura
Brasileira e Literatura Infantil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É
mestre em Literatura Portuguesa e Doutora em Literatura Portuguesa pela
Unesp, campus de Assis. Possui Pós doutorado na área de teologia e literatura.
É Professora Adjunta de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de
Santa Catarina – UFSC em Florianópolis e atua na Pós Graduação de Literatura
com a linha de Pesquisa Teopoética - Os Estudos Comparados entre Teologia e
Literatura. É crítica e ensaísta com inúmeros artigos publicados e autora de
diversos livros de crítica literária, entre eles O Quinto Evangelista (UNB, 1998),
As Faces de Deus na Obra de um Ateu (EUFJF, 2004) e No princípio era Deus e
ele se fez Poesia (EUFAC, 2008) Deuses em Poética, UEPB. É contista
premiada e autora do livro de contos Em Nome do Homem(1999) pela Editora
Sette Letras/RJ, O Ateu Ambulante(2001), pela Editora da Furb e A Ceia dos
Mortos (Edição da autora), As malasartes de Lúcifer (no prelo), Dicionário de
Personagens da obra de José Saramago (no prelo), Maria Madalena: a mulher
que amou o Amor (no prelo).