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VIDEOGAMES E GUERRA: REPRESENTAÇÕES SOBRE

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945), DE


Ateliê de História WOLFENSTEIN 3D A CALL OF DUTY: WORLD AT WAR

Cássio Remus de Paula 1


Marco A. Stancik 2

INTRODUÇÃO

A procura por diversos tipos de fontes documentais intensi-


ficou-se a partir de 1929, com o advento da Escola de Annales.
Entretanto, alguns tipos de fontes documentais são ainda pouco
utilizadas (MARROU, 1978; REIS, 2000). Esta limitação pode ser
observada, especialmente, no uso de imagens. Isto ocorre com
fotografias, pinturas, e até mesmo com videogames.
Ao mesmo tempo, a variedade de videogames é muito ampla e
cresce sem cessar. O pequeno número pesquisas históricas volta-
das ao seu emprego revela um potencial subutilizado, quando não
ignorado. O presente trabalho pretende assim oferecer modesta
contribuição tendo em vista tal lacuna na escrita da história, por
intermédio da análise de jogos de videogame cuja temática é a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Assim, são analisados jogos
tais como Wolfenstein 3D, os primeiros Medal of Honor, Battlefield
1942 e a série Call of Duty.
A questão perseguida diz respeito a perceber as representações
por eles veiculadas relativas ao conflito, considerando-se que, mes-
mo sendo destinados a momentos de lazer, não deixam eles de vei-
cular um discurso a respeito.
Palavras - chave:
Videogames, Segunda Guerra
Mundial, Representações,
1.1 O lúdico como um suposto atributo natural
Iconologia, Iconografia.

Etimologicamente, a palavra jogo vem do latim iocus: passatem-


po sujeito às regras. Entrementes, o termo conhecido atualmente
se refere ao play inglês, que se modificou do original plegan. Ainda,
refere-se à origem alemã pflegen, ou ao holandês plegen. Mas no
Resumo: A Segunda Guerra
inglês atual, play significa jogar sem seguir um determinado número
Mundial (1939-1945), na forma de regras, mais próximo ao ato de brincar. Por sua vez, game remete
como foi apresentada em vide- ao lúdico, pois é cercado de regras estritas (FILHO, 2008, p.48).
ogames, é o tema do presente
trabalho. Seu objetivo é analisar Assim, o game é atualmente assimilado aos jogos eletrônicos,
as representações imagéticas mas segue suas regras estritas. Difere, portanto, do play, por não
por eles veiculadas a respeito
de diversificados aspectos do
conflito, tais como a apresenta-
ção dos combatentes das forças 1 Graduado em Bacharelado em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa
Aliadas e do Eixo. Para tanto, é (2012). Email: remus_stuka@hotmail.com
empregado o método iconográ- 2 Orientador. Doutor em História pela UFPR. Professor do Depto. de História e do Pro-
fico/iconológico. grama de Mestrado em História da UEPG.

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oferecer determinadas liberdades àquele forçados a competir, de forma a garantir


que joga. Embora no inglês o verbo play sua sobrevivência. Assim se posicionando,
esteja vinculado ao ato de jogar videoga- Huizinga propõe que o jogo é algo que o
me, no presente trabalho, remeter-se-á ao ser humano teria herdado da condição ani-
lúdico no lugar da brincadeira. mal - ou seja, na sua percepção, é algo que
Segundo Albornoz, todo jogo é tomado antecede a cultura, defendendo assim uma
de imprevisibilidades (ALBORNOZ, 2009, tese das mais controversas.
p. 78). Requer raciocínio ágil, tal como o Por isso, prossegue o autor, o jogo teria
jogo esportivo, por exemplo. Além de re- talvez até mesmo auxiliado no processo de
querer atenção consigo mesmo, o atleta, tal constituição da cultura. A linguagem por si
como qualquer outro sujeito que joga, deve só é uma convergência do jogo, pois surgiu
zelar pelas reações do companheiro. Logo, com o intuito de comunicar, ensinar e co-
não há uma tática previamente elaborada, mandar. Torna-se, tal como toda herança
contando com as improvisações do ambien- cultural, um domínio de sabedoria – o ho-
te em que está inserido enquanto joga. mem aprende a jogar e toma tal ato como
Porém, a prática do jogo e seu principal um aspecto natural da vida. Está inserido
objetivo, a obtenção da vitória, remetem no cotidiano do homem como forma de
a tempos remotos, fazendo parecer que a espaço lúdico no meio do sério – assimila-
competitividade é natural, e não construí- se ao entretenimento, ao lazer, ao relaxa-
da cultural e historicamente. mento.
Desde os primórdios da humanidade as Nos termos de Huizinga, pode-se pro-
criaturas vivas de todos os reinos da ta- por, portanto, que jogar é algo inerente à
xonomia, desde a estrutura mais complexa natureza humana, pois está associado à so-
da animália até um simples espécime fungi brevivência do ser e à competição, e logo,
parecem jogar, ou seja, competir em prol também à guerra e ao domínio. Inclui-se
da sobrevivência. E assim, no mundo na- nesta percepção a vida política, de forma
tural também se evidencia a competição, que expandir um território, ou o simples
por exemplo, na luta para adquirir alimen- ato de recorrer à diplomacia constituem
to, água e calor. formas de jogar.
Seguindo tal lógica, o historiador holan- Do mesmo serve para qualquer outro
dês Johann Huizinga propõe o jogo como tipo de competição, seja esta econômica
uma característica natural herdada pelo ser ou intelectual – o jogo é puramente estra-
humano, lembrando que até os cães: tégia de domínio delimitada por suas re-
gras, tomado muitas vezes por improvisos
Convidam-se uns aos outros para brincar – um conceito que viria a ser utilizado nos
mediante um certo ritual de atitudes e
gestos. Respeitam a regra que os proíbe
videogames.
morderem, ou pelo menos com violência, a Portanto, caminhando em direção dis-
orelha do próximo. Fingem ficar zangados tinta de Huizinga, ao ter videogames como
e, o que é mais importante, eles, em tudo
isto, experimentam evidentemente imenso
objeto de análise, propõe-se que estes
prazer e divertimento (HUIZINGA, 2000). dialogam com a sociedade, cultura e his-
tória. São eles tomados como produtos da
Dessa forma, Huizinga entende o jogo cultura humana, que entre outras funções,
como um processo de constituição da cul- tanto são produtos, como veiculam repre-
tura. Afinal, conforme aponta o autor, tan- sentações relativas ao mundo, conforme
to o animal quanto o homem estiveram será discutido a seguir.

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1.2 Reflexões Para o desenvolvimento das análises das


teórico-metodológicas mensagens veiculadas pelos videogames, to-
mando-se pelo pressuposto que são represen-
Os videogames em determinados aspec- tações do real, opta-se pelo emprego do mé-
tos tendem a lembrar o cinema, por se tratar todo iconológico-iconográfico proposto por
de uma fonte visual que simula movimentos. Kossoy (2001), a fim de desvelar tais aspectos.
Devido a esta semelhança, propõe-se uma Tal método tem por base a análise das
análise empreendida a partir das proposi- imagens por meio de sua inserção e percep-
ções de autores tais como Kossoy (2001) e ção em contraponto com o contexto históri-
Burke (2004), nos aspectos relativos à análise co que reproduzem; mediante, não menos,
de imagens; e Morettin (2003) e Navarrete a análise dos elementos componentes dos
(2008) em torno da problemática do traba- diferentes estágios dos videogames analisa-
lho com o cinema. dos. Assim, estes serão explorados em bus-
Tendo-se em vista que se concebe que ca de formas de comunicação não-verbais,
os videogames tendem a veicular determi- embora não se despreze as verbais, registra-
nadas representações do real, ao abordarem das através dos mais variados recursos, tais
temas relacionados à Segunda Guerra Mun- como gestos, poses, olhares, expressões fa-
dial, o conceito de representação é utilizado ciais, orientações do corpo, posturas, orga-
a partir das proposições de Roger Chartier nização e disposição dos objetos, presença
(1991, 2001). de elementos e objetos de caráter simbóli-
Destaque-se, em tal sentido, a propos- co, vestimentas e ambientação.
ta de Chartier de buscar estabelecer, como Seguindo além dos recursos visuais, em-
objetivo da História Cultural, a percepção bora em menor escala que as imagens apre-
das diferentes formas de dar a ler um deter- sentadas, incluem-se as análises das mensa-
minado aspecto do real. Nas suas palavras: gens verbalizadas por personagens dos jogos.
“A história cultural, tal como a entendemos, Em suma, pretendeu-se analisar seu discurso,
tem por principal objetivo identificar o modo entendendo-o a partir da idéia de que “todo
como em diferentes lugares e momentos conhecimento é produzido por um determi-
uma determinada realidade social é constru- nado autor, que focaliza um determinado pú-
ída, pensada, dada a ler” (CHARTIER, 2002, blico, dando ao seu texto uma forma e um
p. 16-17). E assim a relevância da noção de conteúdo” (NAVARRETE, 2008, p. 25).
representação está no fato de ela nos possi-
bilitar perceber a existência e a concorrência
de diferentes concepções do mundo social, 1.3 Estrutura do trabalho
valores, ideias (CHARTIER, 2002; 1991). In-
clusive por intermédio de um videogame. O material essencial para a realização
Sobre a relação entre filmes, imagens em deste trabalho são os jogos eletrônicos Wol-
movimento, videogames e representações, fenstein 3D, Medal of Honor, Medal of Honor:
tem-se em vista particularmente que “no filme Underground, Call of Duty, Call of Duty 2, Call
há lapsos a todo o momento, porque a realida- of Duty 3 e Call of Duty: World at War. De
de que se quer representar não chega a escon- posse destes, joguei um por um, concluin-
der uma realidade independente da vontade do do todas as missões, mais de uma vez, para
operador”. Isso pode nos auxiliar a perceber ao obter informações e elementos necessários
não-visível por intermédio da análise do visível para realizar as análises aqui propostas.
(MORETTIN, 2003, p. 14-15). A partir dos videogames de guerra, pro-

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ponho uma análise daqueles que simulam aos jogos eletrônicos, independente de suas
episódios da Segunda Guerra Mundial. Esta respectivas plataformas. Apresentam-se al-
análise tem por principal foco os conceitos guns clássicos, como títulos de Medal of Ho-
presentes no conteúdo destes games em suas nor ou Battlefield, discutindo de que forma as
referência históricas. Ou seja, os referentes nações inseridas nos mesmos são apresenta-
cenários, combates ocorridos e aparição de das em tais jogos eletrônicos - ou seja, quais
personagens, fictícios ou reais. Outro aspec- as representações que os games mais antigos
to trabalhado diz respeito a perceber como exibem sobre a Segunda Guerra Mundial.
foram apresentadas as representações sobre Finalmente, proponho uma análise ico-
os Aliados e o Eixo – personificações e demo- nográfica e iconológica da série Call of Duty,
nizações, a partir do conceito de iconografia e destacada por ter o intuito de não mais ape-
iconologia proposto pelos historiadores Peter nas entreter, mas por servir de simulador de
Burke (2004) e Boris Kossoy (2001). guerra àqueles que procuram também viven-
Em suma, atento ao conteúdo disponibi- ciar passagens da história, tal como está nos
lizado pelo jogo Call of Duty: World at War, livros ou no cinema, e como os conceitos de
da empresa americana Treyarch, devido a guerra são inseridos nas séries de tal game a
seu lançamento recente, sendo este um dos partir da produção norte-americana.
mais atuais jogos que referenciam a Segunda
Guerra Mundial até então lançados. Neste,
abordam-se os combates finais daquele con-
flito, ora a partir do americano na conquista 2. REPRESENTAÇÕES SOBRE HE-
do Monte Shuri, ora no avanço do soviético RÓIS E SEUS OPONENTES ATRA-
pelo cerco de Berlim. VÉS DE IMAGENS
Busca-se, assim, perceber e analisar as
representações veiculadas pelos jogos de vi- 2.1 Iconografia e iconologia
deogame, tendo em vista particularmente na interpretação de imagens
evidenciar qual imagem ele constrói sobre o Antes de tentar ler imagens “entre linhas”, e
soldado americano, alemão, soviético e japo- de usá-las como evidência histórica é pruden-
nês durante a Segunda Guerra Mundial. te iniciar pelo seu sentido. (...) Imagens são
feitas para comunicar. Num outro sentido
Inicialmente, proponho expor os con- elas nada nos revelam. (BURKE, 2004, p.43).
ceitos de heroicização e demonização. Tais
conceitos, analisados a partir das concepções Segundo as proposições de Peter Burke,
do historiador Peter Burke (2004) sobre o devemos atentar que toda imagem deve ser
trabalho do historiador com imagens, auxi- considerada se tendo em vista o seu contex-
liam na compreensão das personificações de to. Conhecer somente o contexto, contudo,
diversas nações inseridas nos videogames, não é suficiente. Burke destaca assim estra-
dentro do contexto da Segunda Guerra Mun- tégias empregadas na análise das imagens,
dial. Ou seja, como é possível perceber nos entre as quais o presente trabalho dá espe-
jogos eletrônicos a concepção das produto- cial destaque ao trabalho com a “iconogra-
ras quanto, por exemplo, os americanos, em fia” e a “iconologia”.
seu estereótipo de herói, e os alemães, em Ao tratar da iconografia, alguns aspec-
seu estereótipo de vilão. tos observados são o “quem” da imagem -
Em seguida, apresentam-se leituras so- ou seja, o autor e o exposto na imagem; o
bre os games em si, lembrando que videoga- “quando” - época em que foi construída, ou
mes, no presente trabalho, são referências a que época ela remete; o “onde” - espaço

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geográfico em que a imagem foi produzida; que deixa de lado o orgulho para salvar uma
o “para quem” - a quem se destina a figura; causa ou alguém. E, mesmo que tenha me-
“por quê” - seus propósitos, e qual o objeti- dos e dificuldades, consegue dominá-los e
vo de ela ser exibida; e o “como” - que indica superá-los, transformando-se em salvador.
as formas em que elas foram fotografadas ou Tende assim a ser adorado pelos demais, de
pintadas (BURKE, 2004; KOSSOY, 2001). forma similar aos super-heróis das revistas
A iconologia, por sua vez, procura enten- em quadrinhos, ou o “mocinho” de um fil-
der a imagem em seu determinado contexto me de ação.
e pode ser entendida como “hermenêutica” Um modelo clássico de herói da ficção
visual, sem se excluir a tentativa de interpre- americana é o personagem Capitão Amé-
tar a imagem conforme foi exposta à época - rica, da “DC Comics”. Tal figura é a perso-
tipo de leitura nomeada por Erwin Panofsky nificação dos Estados Unidos como super-
como Zeitgeist, ou “fantasma do tempo”. herói. Seu fenótipo, em uma concepção
(BURKE, 2004, p.45). moderna, é o que instantaneamente reme-
temos à postura do homem branco, alto,
loiro e de olhos azuis ao herói americano.
2.2 O modelo de herói Capitão América, sobretudo, veste-se com
as cores da bandeira americana e usa ape-
Mediante a análise que utiliza a icono- nas um escudo, ou seja, ataca apenas para
grafia aliada à iconologia, podem-se tirar di- se defender (CHAGAS, 2008, p.142). Tor-
versas conclusões sobre uma interpretação nou-se um ícone de herói tão popular, que
de imagem, e como ela expressou aspectos serviu de incentivo aos jovens americanos a
do imaginário desde o momento em que foi se alistarem nas Forças Armadas dos Esta-
produzida e veiculada. Uma dessas conclu- dos Unidos (CHAGAS, 2008, p.140).
sões diz respeito ao trabalho empreendido Por sua vez, a heroicização pode ser re-
no sentido de fazer a heroicização de perso- metida à glória de tal forma que se eleva ao
nagens e situações, além da depreciação do endeusamento. O herói endeusado é cen-
Outro (BURKE, 2004). tralizado em prol de seus atributos de gran-
Um modelo mais simples de herói deza, como aconteceu com a estátua do im-
pode ser o seguinte, conforme proposto perador Augusto. Burke a analisa como uma
nas palavras de Lutz Müller:
(...) imagem memorável, [onde] Augusto é
representado usando uma armadura, segu-
O mito do herói, da pessoa que tem coragem rando uma lança ou um estandarte e levan-
para vencer todas as adversidades e superar tando a mão como se estivesse proclaman-
todos os medos, que consegue penetrar em do vitória. (...) Os pés descalços do sobera-
esferas até então desconhecidas para adqui- no não são um sinal de humildade, como
rir novos conhecimentos, que põe em risco a pode pensar o espectador moderno, mas
própria vida para salvar mesmo que seja uma um meio de assimilar Augusto a um deus.
única pessoa, sempre fascinou os homens de Durante seu longo reinado, a imagem oficial
todas as culturas e de todas as épocas (MÜL- de Augusto permaneceu a mesma, como se
LER, 1987, p.3). o imperador tivesse descoberto o segredo
da eterna juventude (BURKE, 2004, p.83).
Em suma, pode-se dizer que o herói é
uma personificação do mito, um persona- A heroicização surge a partir da glori-
gem muito presente nele, geralmente apre- ficação dos atributos de um personagem,
sentado como corajoso, altruísta, inteligen- real ou fictício, quando desperta no imagi-
te e forte. É o modelo humano perfeito, nário coletivo.

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2.3 A construção do herói Capra ficou atônito: “Aquilo me deixou ater-


rorizado. Minha primeira reação foi a de que
durante a guerra estávamos mortos, nunca poderíamos ganhar
aquela guerra [...] como aconteceu com os
O herói de guerra não é diferente. Ele austríacos, [...] com os países da Europa. Foi
aquela fotografia que os venceu. Quando vi
é representado como aquele que luta pelo aquilo, simplesmente pensei: ‘Como podere-
bem, na percepção de sua respectiva origem, mos vencer esta enorme vontade de lutar?’.
tal como o soldado americano para os Esta- Rendam-se ou vocês serão mortos - era isso o
que o filme dizia. (TOTA, 2000, p.24).
dos Unidos e afronta os inimigos de sua nação
em prol de sua causa, seja política ou moral.
A imagem é um elemento que congela
(MÜLLER, 1987)
uma referência do tempo, cujos atos serão
Ora, seu caráter é apresentado com tão
lembrados tendo em vista a forma como fo-
elevado, que arrisca a própria vida para de-
ram registrados (KOSSOY, 2001).
ter uma desgraça maior, tal como a vitória do
inimigo, ou gasta seu tempo em boas ações,
como a atenção às vítimas de guerra ou com o 2.4 A depreciação do Outro
abastecimento de provisões para os necessi-
tados. Essa imagem é narrada e divulgada por Ora, enquanto há a heroicização, há tam-
fotografias no cotidiano dos países em confli- bém o seu oposto, que funciona como pro-
to, e sempre serão elevados como defenso- cesso contrário à glorificação, atribuição de
res da paz, e/ou apresentados como modelos coragem e valorização dos atos. Trata-se da
a serem seguidos pelos demais cidadãos. representação do inimigo, percebido como
Tal concepção é também perceptível no o Outro. Este é desonrado, covarde e assas-
cinema hollywoodiano, ainda quando retrata sino.
o cenário da Segunda Guerra Mundial, em Tal empreendimento funciona no senti-
que o americano, ou britânico, dispõe da do de promover a desconstrução dos valo-
ética para derrotar seus inimigos. Ética por- res do Outro, tal como na Segunda Guerra
que parece ser justo, e luta para não morrer; Mundial os Estados Unidos empenharam-se
ou, detém o avanço dos inimigos alemães ou em fazer com a Alemanha e vice-versa. Não
japoneses. Torna-se assim o herói do filme, obstante, também desvalorizava a cultura de
e portanto, o símbolo de herói para sua na- certos aliados, como por exemplo os sovié-
ção. Em muitas ocasiões, exerce o papel de ticos, devido à ideologia socialista - ao mes-
“exército de um homem só”. Ou seja, da- mo tempo em que estes desconstruíam a
quele que, individualmente, com seu próprio imagem positiva do capitalismo. Porquanto
empenho e mesmo sacrifício, realiza a luta exista o ideal de “certo”, que é o modelo
até obter, ou não, a vitória. de “herói”, existe também o “errado”, que é
Até mesmo o estético das passeatas e uni- visto como vilão e precisa ser combatido.
formes militares pode ser empregada como Esse processo de transformação que as-
uma forma de heroicização dos combatentes simila indivíduos e grupos em heróis é uma
de um Exército, ou mesmo de uma nação e/ das formas assumidas pela propaganda ideo-
ou ideologia. lógica, muito praticada em tempos de guer-
Até mesmo Frank Capra, considerado um ra. Sobre tal aspecto, a historiadora Maria
dos mais destacados “fabricantes” do sonho Helena Capelato, que escreveu sobre popu-
americano, ficou impressionado com a ideo- lismo em Multidões em cena, afirma tal ideia
logia estetizada nazista. Em abril de 1942, ele
[e Anatole Litvak] (...) viram O triunfo da von- de forma que pode ser inserida no contexto
tade, o já famoso filme de Leni Riefenstahl. do nazi-fascismo:

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A propaganda contribui para nos fazer viver Os estereótipos mais grosseiros estão ba-
uma outra vida. Ponto de sujeição sem des- seados na simples pressuposição de que
recalque, ponto de quaresma sem carnaval, “nós” somos humanos ou civilizados, ao
ponto de regra sem desregramento, a histeria passo que “eles” são pouco diferentes de
das massas mostra, de uma certa maneira, os animais como cães e porcos (...). Eles são
traços dessa opressão específica (CAPELATO, transformados em exóticos e distanciados
1998, ps.58-59). do eu. E podem mesmo ser transformados
em monstros (BURKE, 2004, p.157).
Tal propaganda também tende a se ser-
vir dos mais variados recursos, a fim de di- Este conceito de “Outro” pode não apenas
vulgar, por exemplo, o cinema. Se a ima- ser observado no cinema ou nos quadrinhos,
gem da instabilidade de força dos alemães mas como qualquer outro meio, seja como
aterrorizava os americanos, era preciso propaganda política (cartazes de guerra, pin-
criar, no mínimo, um contrapeso a fim de ups), ou como outras formas de arte e entre-
ridicularizá-los. Um notável exemplo de sá- tenimento - inclusive nos videogames, que há
tira, lançada no tempo em que os Estados décadas simulam passagens da Segunda Guer-
Unidos ainda não estavam em guerra, foi o ra Mundial. Neste, a concepção de herói em
longa-metragem “O grande ditador”, que relação às outras formas de demonstração do
começou a ser produzido ainda antes do americano é inclusa, dado que grande parte
início do conflito. das produtoras de games de guerra são ameri-
O filme foi interpretado por Charles canas. Ao mesmo tempo em que se percebe a
Chaplin em uma alusão irônica a Adolf Hi- heroicização, é visível também a depreciação
tler, representado por intermédio do per- do Outro, seja do Eixo, ou dos próprios alia-
sonagem Adenoid Hynkel. O atroz ditador, dos dos Estados Unidos, como em alguns de-
assim personificado por Chaplin, em seus les se observa em relação à União Soviética.
gritos, fazia até mesmo os microfones se Acompanhemos, portanto, como tais ce-
contorcerem de pavor, além de brincar com nários e personagens inseridos no contexto da
o globo terrestre como se fosse uma mera Segunda Guerra Mundial foram representados
bola inflável (STEIW, 2008, p.64), nos jogos de videogame produzidos nas últi-
A sátira também é uma forma de desvir- mas décadas, tendo em vista particularmente
tuar os valores do Outro e aludi-los como aqueles que obtiveram maior aceitação entre
capazes de conduzir ao erro. Ora, se tal na- o público consumidor.
ção não adota a democracia como base de
sua política, é porque está errada e precisa
ser percebida, a fim de moldar as ideologias 3. REPRESENTAÇÕES DO HERÓI E
daquele que a percebe. DO OUTRO EM JOGOS ELETRÔNI-
Mas, enquanto para a América a ascen- COS DE GUERRA
são de Hitler fosse mal recebida, na Alema-
nha, ele era representado como o símbolo 3.1 Os primeiros videogames
da esperança para o povo cuja nação ha-
via sido humilhada pelo Tratado de Versa- 3.1.1 A criação de Spacewar!
lhes (HOBSBAWM, 1995). Doravante, sua como precursor dos jogos ele-
imagem de herói se ampliou, mesmo que trônicos
culpando os judeus pela crise da Alemanha,
fator que contribuiu para a heroicização do O primeiro jogo eletrônico que viria a
führer por parte dos adeptos ao nazismo. anteceder os atuais videogames surgiu em
Conforme indica Peter Burke: 1951, quando Ferranti apresentou um com-

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putador na sessão de ciências do Festival de


- Deveria demonstrar as capacidades do com-
Berlim. A máquina servia exclusivamente putador, usando quase todo seu potencial;
para rodar o jogo Nim, que simulava um jogo - Deveria ser interessante e interativo (dife-
de damas (GIBSON, 2009, p.18). rente toda vez que rodado);
- Deveria envolver o usuário de maneira atra-
Mas o videogame que conceituou a tec- tiva e prazerosa; ou seja, deveria ser um jogo
nologia de entretenimento surgiu em 1961, (UOL JOGOS, 2012).
desenvolvido pelos estudantes da Massachu-
setts Institute of Technology (MIT) Steve Rus- “Deveria ser um jogo” justamente por
sel, Dan Edwards, Alan Kotok, Peter Samp- se delimitar às regras de um. O jogo con-
son e Martin Graetz. Chamava-se Spacewar!, sistia em duas naves que batalhavam entre
e fora programado para funcionar em um si atirando projéteis. No centro do campo
computador TX-0 “Tixo”. Porém, surgia um de batalha, havia uma estrela que servia de
modelo mais moderno de máquina, o PDP-1. campo gravitacional que atraía as naves para
Com isso, os estudantes objetivaram, com o si – podendo atrapalhar ou auxiliar um joga-
programa recém-criado, demonstrar os re- dor contra o outro. Como fundo, servindo
cursos oferecidos pela nova máquina (GRA- de cenário, havia pequenas partículas que
ETZ, 1981). Seus criadores apresentaram os aludiam a corpos celestes (GRAETZ, 1981),
seguintes tópicos sobre Spacewar! : conforme a Figura 1:

Figura 1 - O primeiro jogo eletrônico, Spacewar!, de 1961. Disponível em: http://zarsoft.info/info/


Games/Spacewar/spacewar.gif Acesso em: 17 jun. 2012

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Spacewar!, por sua vez, não foi comerciali- vendas foi Pong (GIBSON, 2009; UOL JOGOS,
zado e não gerou nenhuma fonte de renda para 2012).
os criadores até então. Porém, em 1971, a em-
presa Magnavox comprava a criação de Ralph
Baer, quem inventou um videogame acoplável 3.1.2 Battlezone, o primeiro FPS
em uma televisão comum – o conhecido Odys-
sey. No console, era possível jogar 12 videojo- Porém, o primeiro FPS (first-person
gos diferentes, todos rodados a partir de dois shooter) surgiu apenas em 1980, enquanto
jogadores (GIBSON, 2009, p.18). Pacman, Asteroids e Space Invaders faziam
Spacewar! foi uma criação sem classificação sucesso de vendas (GIBSON, 2009; UOL
de gênero, ou seja, embora fosse um jogo de JOGOS, 2012). Em games de primeira pes-
combate, era ainda um precursor de outros soa, o usuário joga a partir da visão do pro-
que estavam por vir. Ao mesmo tempo em que tagonista, como se ambos fossem o mesmo
originou futuros games com a temática de com- observador. Neste ano, era lançado o Bat-
bate espacial, também se dirigiu a outro ramo tlezone para Atari, desenvolvido por Ed Rot-
de jogos de ação: os simuladores de guerra. berg (DADGUM.COM, 2012). O cenário do
No ano seguinte, Nolan Bushnell e Ted Da- game é em 3D e dá a sensação ao jogador de
bney criaram o primeiro fliperama do mundo, o mesmo estar controlando um tanque de
o Computer Space, que rodava o Spacewar! dos guerra a partir de seu interior, como sugere
estudantes da MIT. A ideia chamou a atenção a Figura 2.
da empresa Nutting Associates e Bushnell e foi Battlezone chegou até a ser produzido
contratada pela mesma para fabricar os flipe- em uma versão exclusiva para cavalaria blin-
ramas. Pouco depois, o técnico saiu da empre- dada dos Estados Unidos para que os opera-
sa para fundar a Atari, lançando o videogame dores de tanques treinassem pontaria (UOL
homônimo em 1973. Seu primeiro sucesso de JOGOS, 2012).

Figura 2: O primeiro FPS, Battlezone, de 1980.


Disponível em:
<http://images.wikia.com/videogamehistory/
images/7/7d/Atari_BattleZone_Screenshot.gif>
Acesso em: 20 jun. 2012.

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Ateliê de História

3.2 Interpretação dos jogos que simulam a


Segunda Guerra Mundial
3.2.1 Wolfenstein 3D
Nos anos 1990, os primeiros jogos de Em uma leitura iconológica da imagem,
videogame a abordar a Segunda Guerra observa-se, em primeiro plano, o soldado
Mundial vieram a ser apresentados no estilo americano cuja aparência assemelha-se mui-
FPS. O primeiro mais renomado do gêne- to ao estilo de Rambo: não veste camisa, ex-
ro foi Wolfenstein 3D (1992), da id Software, pondo os músculos; calça coturnos e prende
o qual rodava originalmente na plataforma uma bandana vermelha ao pulso. A carabina
MS-DOS e era dividido originalmente em que carrega é fictícia e dispara aleatoriamente
três capítulos. Neles, o jogador controla o para o alto. Ao mesmo tempo em que o inimi-
espião americano William “B.J.” Blazkowi- go alemão recebe um golpe, também dispara
cz, o qual foi aprisionado no fictício castelo seu rifle de assalto, uma alusão anacrônica à
alemão Wolfenstein (GAME VICIO, 2012) e M16. Um terceiro soldado que corre parece
procura seu caminho de fuga combatendo carregar uma MP40, esta correspondente ao
diversos soldados nazistas, dentre os quais, exército alemão de sua época.
está o próprio führer dentro de uma arma- Quanto às expressões das figuras, per-
dura robótica.
cebe-se que Blazkowicz demonstra total
A análise da imagem do pôster de divul-
gação de Wolfenstein 3D pode nos oferecer
concentração em seu golpe, de forma que
elementos para perceber algumas represen- é perceptível o uso de sua força contra o
tações veiculadas pelo game: alemão; este, por sua vez, apresenta uma
melancólica expressão de dor. Sua postura
corporal, decorrente do golpe recebido, evi-
dencia que ele, incapaz de se defender, foi
completamente subjugado e está prestes a
jazer no solo.
Mas, uma leitura iconográfica desta ima-
gem pode revelar alguns de seus elementos
e o contexto em que foi apresentada. A prin-
cípio, analisemos alguns aspectos relativos
ao herói da figura. Em sua forma de se tra-
jar, carrega as cores da bandeira dos Estados
Unidos: o azul das calças e o vermelho da
bandana. Sua superioridade física, evidencia-
da pelos músculos bem-definidos, neutraliza
o inimigo com um único golpe.
Ao derrubá-lo, Blazkowicz coloca-se no
centro da imagem. Provavelmente, visando
não utilizar de violência gratuita na imagem,
mesmo se tratando de um jogo de tiro, a cena
apresenta um confronto sem o disparo da
contra o adversário, ainda que os três perso-
nagens utilizem armas de fogo. Não obstante,
a arma que o protagonista usa é proporcional
ao tamanho do corpo, convertendo o herói
Figura 3: Capa de Wolfenstein 3D, de 1992. Disponível em: <http:// em um verdadeiro exterminador da ameaça
cidadegamer.com.br/wp-content/uploads/2012/07/wolf3d-capa-
cover.jpg>, acesso em 19 jul. 2012. nazista.

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Ateliê de História

Outra mensagem que podemos extrair da indesejável, por significar uma afronta aos va-
capa do jogo é o propósito do conteúdo do lores americanos.
game: a temática ação. Observa-se um com-
portamento incomum do soldado alemão ao 3.2.2 Medal of Honor
fundo, que corre na direção do inimigo ao in-
3.2.2.1 Medal of Honor
vés de rendê-lo com sua arma, enquanto este
se distrai no golpe contra o alemão. Esta ideia Pelos seguintes anos, a heroicização dos
remete à interação do game, que implica em personagens americanos em videogames se
ser tomado apenas por momentos de ação, e evidenciou e permaneceu como padrão, fato
nunca de ócio. Ou seja, mostra que o inimigo que não deve causar estranheza, uma vez
não é tático e que o protagonista deve se de- que todos os jogos de renome foram pro-
fender de incansáveis ondas de alemães. duzidos por empresas dos Estados Unidos.
O impacto dessa imagem para o público Transcorridos sete anos após o sucesso de
norte-americano do início dos anos 90 impli- Wolfenstein, era lançado, para a plataforma
ca no uso da força física, estereotipada pelo Playstation, o FPS Medal of Honor (1999), da
excesso de músculos do agente. Não obs- Dreamworks Interactive. O Guinness World
tante, percebe-se que expressa a liberdade, Records 2009: Games intitula tal jogo como a
sentimento muito enfatizado pela nação, ao mais bem-sucedida série de videogames de
passo que o herói do game não veste camisa Segunda Guerra: “Até hoje, mais de 31 mil-
ou farda, ao mesmo tempo em que os ale- hões de cópias de Medal of Honor foram ven-
mães se apresentam devidamente uniformi- didas desde o lançamento do primeiro jogo,
zados em fardas da Heer, ou seja, do Exér- em 1999” (SHOEMAKER, 2009, p. 48).
cito nazista. O conjunto de cores das vestes A capa de Medal of Honor não foge do
de Blazkowicz se une ao sentimento de li- padrão da imagem do soldado que é o de-
berdade, o transformando em uma ameaça fensor e o herói da pátria, expressa em
à rígida disciplina nazista, que é, sobretudo, Wolfenstein 3D, embora o faça de maneira
referenciada neste videogame como opres- menos exagerada.
sora da liberdade - no conteúdo do jogo,
esta opressão é literal, visto que se passa nas
prisões do castelo. Em relação ao sujeito he-
rói, podemos perceber que:
Pode ser mais bem entendido se analisarmos
alguns de seus elementos mais importantes,
que tomaram corpo nos Estados Unidos prin-
cipalmente a partir da primeira metade do sé-
culo XX. Um deles é a democracia, sempre as-
sociada aos heróis americanos e, em especial,
às idéias de liberdade, de direitos individuais e
de independência. A democracia, a liberdade e
os direitos individuais estavam garantidos para
todo o povo americano, superando diferenças
de classe, credo e raça (TOTA, 2000, p.19).

Dessa forma, os americanos apresenta-


vam-se como os representantes da liberdade
e democracia, ao mesmo tempo em que o Figura 4: Capa de Medal of Honor, de 1999, para a plataforma
Outro figurava como uma representação que Playstation. Disponível em: <http://www.centraldegames.com.
br/wp-content/gallery/ps1/medal-of-honor-ps1.jpg>, acesso em 15
remetia ao erro, em preferência a uma opção ago. 2012.

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Ateliê de História

A capa da Figura 4 enfoca o protagonista nhecido para referenciar lendas heróicas das
do jogo, o americano James Steven “Jimmy” histórias de guerra.
Patterson. Percebemos que o cenário é geo- O “exército de um homem só” é uma re-
graficamente irreconhecível, embora referen- ferência àqueles militares em guerra que são
cie à guerra: ruínas ao fundo, o excesso de fu- superefetivos e cumprem seus objetivos com
maça e poeira, os arames farpados. A cor ala- determinação e autoconfiança. Estes perso-
ranjada do cenário sugere ainda um ambiente nagens são muito enfatizados em filmes de
“infernal”, tornando o cenário um ambiente ação, como o próprio Rambo de Stallone, ou
destruído pelo fogo das bombas. As silhuetas em metragens do gênero, como naquelas em
dos aviões que sobrevoam aludem ao modelo que estrelam Jean Claude Van Damme ou Ar-
americano C-47 Dakota, máquina de trans- nold Schwartznegger. Este tipo de filme era
porte padrão de paraquedistas americanos. um gênero muito comum na década de 1980,
Mas, a única figura que se diferencia e recebe e apresentava como elemento principal a so-
destaque em cores do resto do cenário é o brevivência em meio à guerra. Em Medal of
americano, com a farda da Airborne. Honor, Patterson cumpre tal papel, dado que
Embora Patterson esteja no centro da figu- durante o jogo, por exemplo, chega a destruir
ra, ele não é apresentado enfaticamente. Este, uma fábrica de água pesada e uma fábrica de
ao contrário de Blazkowicz, apresenta-se de mísseis V-2.
forma muito mais pensativa: na própria Figura Patterson, o personagem da imagem, se-
4, nos deparamos com o soldado refletindo, ao gundo somos informados nos documentos li-
contrário daquele da Figura 3, em que o perso- berados durante o próprio game, é um tenente
nagem apenas age. Patterson é centrado. Sua formado pela Officer Candidate School em 1942,
pose o coloca com ambos os pés no chão e o e em 1944, é aceito como integrante da OSS -
olhar direcionado à sua frente, com atributos o que é paradoxal em relação à Imagem 4, que
de um soldado confiante: é decidido e marcha o coloca como um mero soldado no front.
em direção a seus objetivos – o que não é pos- Sua primeira missão consiste em um obje-
sível perceber na capa de Wolfenstein 3D. tivo simples: resgatar um piloto da inteligên-
Todavia, é um ordinário soldado no front. cia americana, cujo avião foi derrubado em
Suas pernas entreabertas estão quase curva- Dubuisson, na França. Os documentos que o
das – essa pose o apresenta como um soldado piloto carrega são de suma importância para
atento e disciplinado, com a arma bem segura as operações dos aliados, e Patterson precisa
nas mãos; evidencia-se a prontidão do mesmo evitar que caiam em mãos inimigas. A data da
para se agachar, mirar e disparar, como um missão não foi escolhida aleatoriamente: 12 de
bem-treinado soldado. Não obstante, a arma junho - seis dias após o Dia D, conforme infor-
que ele segura é uma BAR. Essa metralhadora mado no próprio game.
foi muito utilizada na guerra como alternativa às Pelo caminho, Patterson combate soldados
submetralhadoras, rotulada como Light Machi- de infantaria leve da Wehrmacht, além de agen-
negun, ou seja, possui a função de dar cobertura tes da Gestapo e cães treinados. Após recupe-
ou supressão aos companheiros de combate. rar os importantes documentos, o agente é es-
No entanto, na imagem, ele está sozinho. calado para missões cada vez mais ousadas.
Isso remete à ideia central do Medal of Honor, Na segunda missão, iniciada no dia 15 de
de como a jornada do protagonista em guerra julho de 1944, o objetivo de Patterson é des-
é crucial para a queda da Alemanha Nazista – truir a railcannon Greta, que ameaça os navios
o que remete à sua pose confiante. Em suma, aliados na costa da Normandia. Para chegar
um “exército de um homem só”, jargão co- até a arma, o protagonista se disfarça de capi-

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tão da Wehrmacht e carrega documentos fal- sente seus documentos, sempre o fazem na lín-
sos de identificação. gua inglesa, com inequívoco sotaque alemão.
É revelador o modo como os alemães Ou seja, a pronúncia alude à leitura alemã de
abordam o americano disfarçado. Para melhor uma escrita em inglês. E, embora nos arquivos
perceber tal aspecto, a seguir são transcritas acessíveis dentro dos extras do jogo referencie
algumas falas realizadas durante a missão: a preparação de Patterson, incluindo o apren-
dizado da língua alemã, em nenhum momento
- Sir, are you lost? durante todo o jogo sua voz é ouvida.
- Are new here, sir? Entrementes, o fato de os alemães do jogo
- Sir, I need to see some identification.
- May I see your papers, please? se comunicarem somente em inglês deve-se,
- You don’t have the proper identification.
- I’m sorry sir, but I can’t let you in. provavelmente, à intenção de facilitar ao joga-
- Your papers are in order. dor a compreensão daquilo que eles solicitam,
- Sir, the papers are not in order.
- Forgive me, sir. indagam ou informam. Pode indicar também
- What unit are you from? a forma como Patterson os compreende, sa-
- Sorry sir, have a good night.
(MEDAL OF HONOR, 1999) bendo-se que o mesmo tem conhecimento
do alemão, sendo entendido com a mesma
Estas falas se diferenciam dependendo da facilidade que o inglês – embora com sotaque
situação. O soldado alemão pode solicitar para alemão.
ver os documentos, ou respondem à exibição Mas a interação dos inimigos se percebe
dos documentos, ou indicam desconfiança em também quando os agentes da Gestapo cum-
relação à verdadeira identidade do americano. primentam o disfarçado Patterson com o Sieg
Quando solicitam ao protagonista que apre- Heil nazista.

Figura 5: Soldado da Gestapo cumprimenta com o Sieg Heil. Disponível em:


<http://i1137.photobucket.com/albums/n513/mecha-neko/MedalOfHonor/MedalOfHonor_PSX_png_26.png> Acesso em 18 ago. 2012.

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Este cumprimento era dito e realizado tal 3.2.2.2 Medal of Honor: Under-
como na Figura 5 – o corpo ereto, com o bra- ground
ço direito levantado a 70º - embora, em tal
imagem, ao invés de estender o braço direi- Por sua vez, a continuação de Medal of
to, o soldado cumprimenta com o braço es- Honor para a plataforma Playstation, e desta
querdo. Foi usado a partir da década de 1920 vez também para Game Boy Advance, rece-
como saudação exclusiva do Partido Nacio- bia um novo subtítulo: Underground, além de
nal-Socialista Alemão dos Trabalhadores”. uma protagonista, a francesa Manon Batiste.
Heil significa saúde para os alemães – não A história de Medal of Honor: Under-
apenas física, mas espiritual (EVANS, 2012). A ground (2000) se passa antes do primeiro
partir da nomeação de Hitler como Führer em jogo da série. As primeiras missões ocorrem
1933, o cumprimento se modificou para Heil na França, cenário da resistência antinazista,
Hitler (salve Hitler). Doravante, nas passeatas em 1942.
pró-nazismo e discursos de Hitler o público Nesta data, os nazistas tomavam contro-
gritava “Heil Hitler!”, e entre os militares do le absoluto sobre a França, e na ausência de
III Reich, a saudação se tornou continência. um exército francês efetivo, senão de treina-
Porém, como alusão ao nazismo, o cumpri- mento e armamento obsoletos, a resistência
mento deixou de ser legal após a guerra até foi a principal responsável pela sabotagem do
os dias de hoje (EVANS, 2012). maquinário alemão na França e no combate
Em Medal of Honor, essa continência, armado contra os militares ocupantes. A re-
ao ser realizada pelos agentes da Gestapo, sistência tornou-se comum nos países sem
é acompanhada de falas como “Sieg Heil!”, exército efetivo, tal como na Polônia e Bie-
“Hello!” e “Captain!”, mas nunca referen- lorrúsia, além de existir na própria Alemanha
ciando Hitler, embora o cenário seja intei- e entre os povos judeus dos países ocupados
ramente adornado de bandeiras e brasões pelos nazistas. Na França, por sua vez:
com suásticas. O caráter conflitivo se torna evidente na
Ao longo do jogo, percebemos que, em- memória de organizações constituídas, tais
bora Patterson esteja disfarçado de capitão como as famílias políticas ou ideológicas.
Para ficar no caso francês, posso falar da
da Wehrmacht, ao apresentar os documen- memória da Resistência. É sabido que a Re-
tos – como se vê na Figura 5 – a cor da far- sistência francesa teve componentes muito
da em seu braço é azul marinho, ao invés da diversificados: grupos comunistas, grupos
gaullistas, grupos que haviam optado por
oliva do exército. Mas, ao selecionar a pis- uma resistência organizada dentro do país,
tola, sua farda está na cor apropriada. Isso é e que aderiram mais ou menos rapidamente,
possivelmente um bug relacionado à missão ou mais ou menos lentamente, ao general De
Gaulle (POLLAK, 1992).
a seguir, em que Patterson se disfarça de ofi-
cial da Kriegsmarine, aí correspondendo ao A princípio, portanto, a resistência ope-
uniforme azul marinho. Mas, quando nesta rou com a divulgação de panfletos e com a
se troca o passaporte pela pistola, ele está propaganda antinazista, e conforme foi cres-
novamente vestido em trajes oliva. cendo, organizou operações armadas e sa-
O game mantém o imaginário com a heroi- botagens.
cização dos americanos e a depreciação dos Em Medal of Honor: Underground, a pri-
alemães até seu término, sempre objetivando meira missão se passa em Paris. Dessa vez,
a sabotagem de protótipos e a destruição de porém, o jogador controla uma mulher: Ma-
documentos, alternando entre missões de es- non Batiste, integrante da Resistência Fran-
pionagem e tiroteios contínuos. cesa que, conforme avança em suas missões

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durante o game, ingressa como membro da A Figura 6 retrata a protagonista com


OSS. Enquanto no primeiro jogo da série uma pose mais montada que a de Patterson
nenhum personagem real do combate tenha na Figura 4 - ou seja, ela olha para a posição
sido referenciado, dessa vez Manon é uma da câmera, como se fosse uma fotografia, ou
alusão à membro da resistência francesa He- um segundo personagem.
lène Deschamps, que inclusive cooperou na Seu traje não alude a nenhum existen-
produção do jogo como consultora (SHOE- te, já que a resistência tampouco o utilizava.
MAKER, 2009, p.49). Mas, a cor de oliva, combinada com os co-
Deschamps, de família militar, iniciou suas turnos - embora perceba-se apenas um pé,
atividades na resistência a partir de 1940 até enquanto o outro esta flexionado por detrás
o fim da guerra. Infiltrou-se na Milícia (setor do título do game - alude à vestimenta mili-
militar francês colaboracionista) e roubou tar. Significa que, embora seja uma mulher,
documentos, os quais marcavam execuções seu papel é em meio ao combate direto, sem
de judeus e membros da Resistência France- que quaisquer adjetivo de fragilidade lhe seja
sa, para posteriormente destruí-los. Foi qua- atribuída devido ao sexo. Faltam-lhe, nessa
se executada por outro grupo da resistência mesma ausência de fragilidade, quaisquer
ao descobrirem seus documentos nazistas adornos habitualmente associados à figura
falsos, e insatisfeita com a crescente rivali- feminina, tais como brincos ou maquilagem,
dade entre os grupos da resistência, veio a por exemplo. Pelo contrário, ela parece es-
trabalhar como informante da OSS. Faleceu tar suja devido ao combate. Mesmo que não
em 2006 (MARTIN, 2012). Embora possu- possua atributos da vaidade feminina, a figu-
am similaridades, Manon é, por sua vez, uma ra de Manon não é nem de longe masculini-
versão feminina do “exército de um homem zada: ela é bela e suas feições são delicadas.
só”, embora desta vez conte com aliados em A capa do jogo não chamaria a atenção se a
meio ao combate - o que não acontece no protagonista se tratasse de uma mulher sem
primeiro jogo da série. atribuições femininas.
Embora o papel da mulher tenha sido im-
portante na guerra, era raro participarem do
confronto direto. O comum era que fossem
escaladas na fabricação de armas ou máqui-
nas de guerra em fábricas de produção mas-
siva ou como enfermeiras. Nos Estados Uni-
dos, por exemplo:
A participação feminina foi especialmente im-
portante nas indústrias da defesa. Entre 1940
e 1944, o número de mulheres trabalhando
na manufatura aumentou 141%. Em Detroit,
em 1943, até 91% das novas vagas criadas em
185 indústrias de guerra foram preenchidas
por mulheres. Mais de 10% dos trabalhadores
da indústria naval eram mulheres. A maioria
desses empregos estava condicionada pelo
“bilhete azul”, pois as mulheres sabiam que
seriam demitidas quando os homens voltas-
sem da guerra (WILLMOTT, 2008, p.125).
Figura 6: Capa de Medal of Honor: Underground, de 2000, para
a plataforma Playstation. Disponível em: <http://4.bp.blogspot. Ou seja, o papel da mulher na guerra era
com/-RUy1sFw6QE4/TWJ4s7KMaYI/AAAAAAAACYo/eWKF0-
NuRC-E/s1600/mohu.jpg> Acesso 5 set. 2012. quase exclusivamente destinado à produção

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bélica, saúde e às vezes administração. Só o disparo, afinal a Panzerfaust emana fumaça,


eram direcionadas ao combate direto quan- é visível que o tanque foi destruído a partir
do parte de uma resistência, mas nunca de de um detonação frontal, e que na mesma
um exército oficial. imagem, é perceptível a fuga de um soldado
alemão próximo à carcaça do tanque. Embo-
A França em 1940 era inacreditável. Não
restara um homem. Foram as mulheres que ra com dificuldade os tanques de guerra fos-
começaram a Resistência. As mulheres não sem destruídos uma vez atingidos na porção
tinham direito a votar, não tinham conta em frontal, a Panzerfaust possuía um atributo em
banco, não tinham emprego. Mas as mulhe-
res eram capazes de resistir (TILLION, apud especial: um projétil de carga oca.
CUNHA, 2011).
O projétil de carga oca contém uma carga
de alto explosivo com uma camisa de cobre
Manon é uma verdadeira combatente, perfilado na parte frontal e um “para-brisa”
diferente das imagens de guerra atribuídas aerodinâmico para dar-lhe a forma balística
às mulheres como burocratas, enfermeiras necessária. Quando a espoleta da base fun-
ciona, ao atingir o alvo, a camisa de cobre
ou pin-ups. Entrementes, ela torna-se oficial é deformada, para formar da carga um jato
apenas devido à sua experiência tomada nos poderoso que penetra a blindagem do alvo e
próprios conflitos, não tendo nunca experi- lança um fluxo de chamas e gás quente den-
tro do tanque (MERETSKOV, 2012).
mentado um treinamento armado - o que
soa estranho, já que em sua primeira missão
neutraliza, com armas toscas, dezenas de O Panzer Tipo III SD.KZF. 141 modelo
milicianos. Ausf.E foi o tanque mais utilizado na tomada
Na Figura 6, porém, percebemo-la por- da França (BURSTEIN, 2009, p.25; LÜDEKE,
tando nos braços uma Panzerfaust - o que 2011, p.70), porém, percebe-se que o veícu-
não é um erro de anacronismo se for aludi- lo destruído pela Panzerfaust na Figura 6 é um
da à missão 5 ou 6, que se passam também modelo Panzer Tiger. O modelo Tiger, ou Pan-
na França. Mas, esta mesma arma é também zer IV, foi primeiramente utilizado em 1942 na
utilizada na primeira missão, que ocorre em campanha da África, e posteriormente no front
1942. Aí, existe um ligeiro anacronismo. A oriental, fabricado justamente devido aos re-
Panzerfaust só foi utilizada pela primeira vez sultados obtidos na campanha da França a par-
em 1943 contra tanques soviéticos e pro- tir do obsoleto Panzer III (LÜDEKE, 2011, pg.
duzida em larga escala em 1944 (WORLD 74). O temido modelo pesava 60.1 toneladas,
GUNS, 2012), sendo que a primeira missão, percorria numa velocidade de 19 a 39 km por
como já dito, ocorre em 1942. Às suas cos- hora e era armado com um canhão de 8.8 cm
tas, percebe-se o cano de uma MP40. Ou e duas metralhadoras MG 34 de 7.92 mm (LÜ-
seja, ambas as armas que carrega são alemãs, DEKE, 2011, p.74).
possivelmente roubadas. Mas, dentre os aspectos inverossímeis per-
É perceptível que a imagem seja uma re- cebidos em Medal of Honor: Underground, um
ferência à missão 1, 5 ou 6 porque as mesmas em especial chama a atenção no conteúdo do
se passam em Paris, e de acordo com o cená- game, novamente voltado aos Panzers. Embo-
rio da figura, trata-se de um ambiente urba- ra munida com Panzerfaust, na quarta parte da
no. Ora, as únicas missões que ocorrem em missão 1, Manon precisa dar dois disparos no
cenário urbano dentro do jogo são em Paris tanque, além de o enfraquecer com bombas
(observa-se que os escombros à esquerda e à molotov (caseiras) e finalizá-lo com tiros de
direita do logo da EA Games são iguais). MG42. Ora, nenhum projétil de metralhadora
Manon está diante de um Panzer. Perce- é capaz de destruir um tanque, a não ser que
bendo que ela posa para a imagem logo após seu motor esteja exposto na porção traseira.

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É possível, ainda, destruir os tanques do gamemodo multiplayer online, embora também fos-
com pistolas Walther P38. se possível jogar single player, ou seja, individu-
Por isso, é importante ressaltar que, em-almente - logo, sem necessidade de conexão
bora sejam aspectos implausíveis, senão im- com a internet. O jogo simula mais de 20 ce-
possíveis, remetem à grandeza de habilidades nários da Segunda Guerra Mundial e não se-
atribuídas pelo jogo à personagem francesa, gue uma sequência de roteiro, ou seja, a cada
que não obstante esteja em desvantagem nu- partida, o jogo é diferente - devido à liberdade
mérica, de treinamento e de arsenal, consegue no mapa, em que o jogador pode seguir como
destruir até mesmo os blindados do inimigo. soldado da infantaria, ou dirigir um tanque, ou
Esta grandeza tende, ao mesmo tempo, a re- pilotar um avião, etc.
baixar aos soldados nazistas em termos de ha- Como já citado, também é possível esco-
bilidade, de forma que estes últimos figuram lher de que lado lutar. Dependendo do cenário
no jogo como inferiores em conflito armado, da batalha, pode-se jogar assumindo o controle
além de serem apresentados como destituídos de um combatente americano, russo ou britâ-
de inteligência suficiente para realizarem umanico; mas, também, como alemão ou japonês
estratégia de combate contra Manon. (os italianos estão excluídos nesta versão de
Doravante, após a primeira missão que se Battlefield 1942).
passa em Paris, Manon Batiste é recrutada pela O oferecimento desta possibilidade de jo-
OSS e participa de missões em Marrocos, onde gar como um soldado do Eixo foi uma neces-
luta contra soldados da Afrika Korps; na ilha gre-
sidade da produtora para que seu título fosse
ga de Creta, dentro do labirinto de Knossos; no
bem-concebido em um aspecto: o jogo online.
castelo de Wewelsburg, central da SS, na Ale- Sendo possível assim jogá-lo, é portanto ne-
manha; em Monte Cassino, na Itália; e por fim,cessário que haja um modo de “time contra
nas duas últimas missões, de volta às ruas da time”, apresentando um grupo dos Aliados, e
França. E, tal como no final do primeiro jogo outro do Eixo.
da série, consegue sobreviver às incontáveis Observa-se assim, que devido a esta possi-
ondas de inimigos. bilidade de jogar figurando como um soldado
nazista, pela primeira vez um jogo foi lançado
com a preocupação de censurar a ideologia de
3.2.3 Battlefield 1942 Hitler: ao longo dos vários momentos do jogo,
não existe nenhuma suástica, nem mesmo nas
Por sua vez, a partir do ano de 2002, bandeiras; porém, a Alemanha é referenciada
tornou-se possível pela primeira vez na his- pela bandeira reproduzida na Figura 7:
tória dos videogames jogar controlando um
personagem que representa um soldado à
serviço do Eixo. Surgia o que viria a ser uma
das mais aclamadas séries de FPS da história:
Battlefield, este primeiro com o título 1942.
É importante lembrar que o jogo não foi dis-
ponibilizado a nenhuma plataforma de vide-
ogames, e foi lançado exclusivamente para
computador. A importância de citá-lo neste
trabalho, porém, deve-se ao fato da possi-
bilidade de escolher o lado em que se quer
lutar, à vontade do jogador. Figura 7: Uma alusão à Reichkriegsflagge. Disponível em: <http://
images.wikia.com/battlefield/images/f/f7/Flag_Germany_1933.
O game foi produzido para se jogar no png >, acesso 13 set. 2012.

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Esta versão da bandeira é uma alusão ção à disposição de armas a serem esco-
ao símbolo da Reichskriegsflagge, bandeira lhidas pelo jogador. Por exemplo, o uso da
de guerra do Reich, mais utilizada em ceri- STG44 quando se joga como assault, rifle de
mônias (MARTIN, 2012). A diferença está assalto alemão criado apenas em 1944, mas
no centro, cuja cruz, na versão do game já disponível no game em batalhas de 1940.
(Figura 7), é uma forma estilizada, mas não Erros mais graves que o anacronismo,
original, da Balkenkreuz, cruz de referência porém, são os erros do uso das armas e suas
à Wehrmacht. Na versão original da bandei- respectivas nações. Por exemplo, quando
ra, por sua vez, tem-se no centro uma cruz se joga com os japoneses, as opções de
de malta germânica. armas, em suas determinadas classes, são
Provavelmente porque os produtores ridículas: Stg44, K-98, Walther P38, Pan-
pensaram em permitir o jogador a batalhar zerschrek, MP18. Nenhuma dessas armas
pelos alemães, é que os símbolos fiéis em é japonesa, mas alemã. O mesmo aconte-
alusão ao nazismo não tenham sido repro- ce com os russos: dispõem de Lee-Enfield
duzidos. Ora, optando pela Alemanha, o No4, BAR, Bazooka, Colt e MP18. Por sua
jogador não estará lutando pela ideologia vez, são cópias de classes dos americanos,
nazista, mas pelo país alemão - o que ex- britânicos e alemães, que não possuem tais
clui o receio de o jogador estar lutando, imprecisões.
virtualmente, pelo III Reich. A bandeira foi Em suma, os soviéticos e nipônicos
escolhida para representar a Alemanha no parecem estar excluídos belicamente por
jogo, por intermédio da inserção da cruz parte dos produtores do game, embora
de centro, também ela ligeiramente modi- participem das batalhas mais importantes.
ficada. Com o Japão, não foi diferente: ao No uso de tanques de guerra ou aviões,
invés de ser representado com a bandei- tais forças armadas podem corresponder à
ra do Exército Imperial, a nação foi aludi- seu uso, mas parecem estar fora da impor-
da com a bandeira nacional japonesa, de tância de uma exatidão do uso bélico por
fundo branco e esfera vermelha ao centro. parte da infantaria. Por exemplo, no jogo,
Os Aliados, porém, são apresentados com os soviéticos nem dispõem da submetra-
suas respectivas bandeiras padrões. lhadora padrão da infantaria do exército
No game, são encontrados diversos er- vermelho, a PPSh.
ros, tanto de anacronismo, quanto de preci- Mas, a sensação que os produtores
são no uso bélico de rifles, pistolas e armas procuram passar em Battlefield 1942 talvez
anti-tanque. O jogador, durante a partida, seja a de liberdade do soldado controlado,
pode escolher entre cinco classes: Scout, ou remetendo a uma interpretação do papel
escolta, em que usa uma sniper rifle; Assault, exercido pelo jogador. O jogo, por não
cuja arma primária é uma metralhadora de possuir um roteiro, dá oportunidade ao jo-
suporte; Anti-tank, em que se usa uma arma gador de poder explorar o mapa à sua von-
anti-tanque; Medic, cuja arma principal é tade e estabelecer sua própria estratégia,
uma submetralhadora, além de o jogador conforme desejar. Assim, ele não é força-
ter a capacidade de curar os companheiros; do a seguir sempre o mesmo caminho ao
e Engineer, em que se usa um rifle ou cara- longo do jogo, mas estabelecer à vontade
bina e a capacidade de consertar veículos a forma como jogar, inovando-a conforme
danificados (ORFANO, 2012). considerar mais vantajoso para emboscar o
É perceptível, em algumas batalhas do inimigo e imaginar seu personagem satisfei-
game, diversos erros anacrônicos em rela- to com o êxito.

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4. A SÉRIE CALL OF DUTY americano controlado pelo jogador é o sol-


dado Martin, proposto como integrante da
4.1 Call of Duty, Call of Duty 2 506ª Parachute Infantary Regiment, escalado
e Call of Duty 3 junto de sua divisão, a 101ª Airborne, para
tomar parte da missão que foi denominada
4.1.1 Representações de Dia D.
dos americanos A primeira missão a ser realizada por inter-
médio do personagem soldado Martin ocorre
na França, após saltar de pára-quedas na
Após os lançamentos de séries como
pequena cidade de Ste. Mere-Eglise, afastado
Medal of Honor e Battlefield, surgiu uma
de seus companheiros. Pouco antes de retor-
grande concorrente, Call of Duty. Vence-
nar para junto de seu grupo, o jogador deve
dor de diversos prêmios, o primeiro título
neutralizar alguns poucos soldados alemães
foi lançado em 2003 para PC e passou a ser
pelo caminho. Nas missões seguintes, após
produzido para videogames somente no ano
diversas batalhas pela França, Martin é esca-
seguinte, com histórias paralelas.
lado para participar de campanhas na Áustria,
Com a exceção das séries Call of Duty:
nos Alpes Bávaros da Alemanha e na Bélgica,
Modern Warfare e Call of Duty: Black Ops, to-
na Batalha de Bulge.
dos os games se passam na Segunda Guerra
A capa de Call of Duty retrata uma das
Mundial. A história se divide em fronts difer-
batalhas entre americanos e alemães:
entes, permitindo-se controlar combatentes
americanos, ingleses e soviéticos - os três es-
tão presentes nos dois primeiros títulos.
Os jogos da série simulam diversas batal-
has cruciais do confronto entre Aliados e
Eixo, como o Dia D, Stalingrado, Ilha Peleliu,
Okinawa, Berlim, El Alamein, entre outras.
Tais passagens da guerra foram bem pes-
quisadas antes de serem transformadas em
game. “Para pesquisar a ambientação de Call
of Duty 2, os artistas do jogo viajaram para
o norte da África e para a Normandia e vol-
taram com 10 mil fotografias, vídeos e grava-
ções de áudio” (SHOEMAKER, 2009, p.47).
O primeiro título, datado de 2003, conta
com três modos de campanha de forma lin-
ear. Joga-se, respectivamente, com os amer-
icanos, ingleses e soviéticos, todos pela Eu-
ropa sob domínio nazista - salvo a primeira
parte da campanha com os americanos, que
é um treino realizado em uma base localiza-
da na Georgia.
O treinamento serve de prelúdio ao
jogador, a fim de familiarizá-lo com os co- Figura 8: Capa de Call of Duty para PC, de 2003. Disponível em:
mandos (como pular, agachar, mirar e atirar) <http://2.bp.blogspot.com/_vUROHOKMYeQ/S7ih3qdd5oI/AAA-
AAAAAAA0/dPF4vRCDcFg/s1600/call+of+duty+1.jpg>, acesso 28
pelas missões que se seguem. O personagem set. 2012.

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A Figura 8 é uma alusão ao cenário do soldado americano no front. Em meio a


francês, já que, tal como em Medal of Ho- escombros, fumaça e tiroteio, quem deve
nor Underground, é o único lugar urbano alcançar um meio de neutralizar a ameaça
disponível na campanha americana. As de- dos invasores é o jogador que controla o
mais missões realizadas pelo intermédio personagem - como aponta o companheiro
de Martin ocorrem, por exemplo, na neve americano. Como simulador de guerra, o
ou na floresta. game reproduz aspectos dos mais variados,
Diferente da maioria dos jogos até o e isso não exclui as ordens dadas aos sol-
momento do lançamento, Call of Duty con- dados. Os objetivos requeridos diretamen-
tava com a inteligência artificial de compa- te por um superior foi inovador em Call of
nheiros, excluindo a sensação de “exército Duty, colocando-o como um mero homem
de um homem só” exercido pelo jogador. que deve conquistar seu prestígio.
Este item é bem percebido na Figura 8, em Não obstante, o fato do americano
que os alemães e americanos trocam tiros apontar para o personagem protagonista
em um ambiente destruído por explosões tem conexão com o título do jogo, que
de artilharia e bombardeios aéreos. é escrito sugerindo o uso de metal bru-
Tal imagem sugere uma fotografia em to, impenetrável, cuja tradução literal é
que o protagonista se ausenta, mas pare- “Chamada do Dever”. Como soldado, o
ce testemunhar a cena. Recebe ordem de jogador tem um dever, que é cumprir as
seu suposto superior - não existem refe- ordens dos superiores para em conjunto
rências de sua posição hierárquica na ima- destruir o inimigo. E, por se tratar de um
gem - munido com um rifle Garand M1, jogo americano, a sugestão de colocar o
tal como seus companheiros. O uniforme jogador no papel de um soldado prestes
que usam é de paraquedista, o qual se a lutar em um cenário tão hostil como o
percebe a insígnia da águia da Airborne no da capa, é uma ótima forma de enfatizar a
braço esquerdo. O soldado em primeiro coragem dos homens da América.
plano na imagem exibe, ainda, o brasão da A imagem apresentada como fotogra-
bandeira dos Estados Unidos no braço di- fia é um “congelamento” de determinado
reito. momento responsável pela visualização
O capacete do personagem que apon- do sentido estético e ideológico (KOS-
ta exibe o símbolo de espadas do baralho. SOY, 2001). Neste sentido, as represen-
Os símbolos eram distribuídos entre es- tações presentes na imagem revelam uma
quadrões de um mesmo regimento para permeação da memória dos combatentes
diferenciá-los - este da Figura 8 era exclu- americanos na França, mesmo sendo esta
sivo do 506º Regimento de Parachute In- uma imagem fictícia que, não obstante, si-
fantary (FALLSCHIRMJAGER.BIZ, 2012), mula passagens históricas. A imagem como
condizendo com o grupo de Martin. propaganda de um game, ambientada na
Para além do muro em ruínas, estão os Segunda Grande Guerra, revela a impor-
soldados alemães disparando os canhões tância que um homem comum - o jogador
antiaéreos de um Flakpanzer IV. A destrui- ao qual o soldado americano aponta, tal
ção de armas antiaéreas é um dos objetivos como o próprio protagonista, Martin - tem
em determinada passagem do game, após em relação ao dever para com os compa-
destruir os alemães que as defendem. nheiros na guerra, que lutam na tentativa
A imagem representa o cenário hos- de expulsar o regime nazista de um país
til de uma batalha presente no cotidiano ocupado.

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4.1.2 O carismático recem, mas também na fisionomia. Tal como


Capitão Price McAleese, Price possui um rosto severo, com
um longo bigode e olhos claros (Figura 9).
No game, durante a campanha com os O personagem fez tanto sucesso no jogo,
britânicos, surge um novo personagem: Pri- que reapareceu em Call of Duty 2 (2005), para
ce. O capitão inglês é formado pela SAS e é PC, tal como aparece na Figura 9. Em missões
integrante da 6ª Divisão Airborne - o perso- cronologicamente anteriores ao primeiro, ele
nagem controlado pelo jogador, Evans, tam- está também presente na campanha dos bri-
bém ingressa na SAS após algumas missões. tânicos. Tornou-se um ícone: não apenas dá
Price participa de diversas sabotagens ao lon- ordens a seus respectivos protagonistas, mas
go do jogo, mas acaba sendo morto pelos ale- os orienta nos momentos de tensão.
mães ao infiltrar em um navio da Kriegsmarine Percebe-se, durante o jogo, que Price é
(CALL OF DUTY, 2003). praticamente imortal, mesmo que atingido
Price, tal como Manon, foi também base- por rajadas de metralhadora ou explosões
ado em um personagem real. No caso de Pri- de granadas. Ele sempre sobrevive e reage
ce, o agente da SAS John McAleese, que ficou como se cada acerto em seu corpo o atin-
conhecido como herói britânico em 1980, gisse somente de raspão. Isso acontece de-
junto de seus companheiros, após salvarem vido à sua importância no enredo do jogo, e
19 reféns das mãos de terroristas na embaixa- os produtores disfarçam seu dano recebido
da iraniana em Londres (HORSFALL, 2012). com gemidos de dor, mas nunca permitindo
Não apenas nos atos heróicos ambos se pa- sua morte.

Figura 9: Capitão Price em Call of Duty 2. Disponível em: <http://smg.photobucket.com/albums/v55/Westy543/Call%20of%20Duty%202/?a


ction=view&current=cptpricecod2jpg.jpg&>, acesso 24 set. 2012

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Isso não significa que o britânico seja in- ideais, ou por questões de caráter ideológi-
vencível diante do inimigo - mas, caso ele co - o que é muito comum pela história de
morresse a cada dano recebido, e portanto todas as nações. Por exemplo, quanto à Ale-
cada vez ocorresse um game over, o jogador manha nazista, existem diversos depoimen-
teria de cuidar não apenas de si, mas tam- tos da insatisfação de militares quanto à polí-
bém do companheiro. Missões em que se tica de Hitler, não excluindo aqueles que um
deve proteger um personagem existem nos dia foram fanáticos pelo nacional-socialismo,
videogames, mas não quando este é um ofi- mas acabaram decepcionados.
cial treinado e intacto. Os personagens alia- A questão de lutar pela Alemanha, e não
dos em Call of Duty que não têm importância pelo nazismo, foi enfatizada por muitos ve-
no enredo, ou seja, servem exclusivamente teranos de guerra alemães após a queda do
para dar mais ação ao jogo e realismo nas III Reich. O psiquiatra Leon Goldensohn en-
batalhas, são porém, mortais. Mas, quando trevistou Karl Dönitz, o almirante e führer
morrem, são substituídos por outros, que sucessor de Hitler responsável pela rendição
logo se unem à frente de batalha. da Alemanha aos Aliados. Lembrando que o
alemão estava em julgamento pendente em
Nuremberg após a guerra, Goldensohn es-
4.1.3 Representações creveu:
dos alemães no front Perguntei o que achava do “princípio do
Führer”. Ele respondeu que nunca havia sido
a favor, porque um homem sempre precisa
Os inimigos alemães também foram ino- de um “corretivo”. Por isso, um chefe de Es-
vados em um aspecto nunca antes visto nos tado necessita de um chefe de estado-maior
jogos. Não são mais representados por in- e outros conselheiros. Ele teria se oposto
a Hitler de alguma maneira, por quaisquer
termédio do emprego de características se- ações ou opiniões expressivas? Não. Ele era
veras em seus rostos, tampouco no corpo um homem do mar, e isso era tudo. A maior
- os olhos profundos e o rosto angular, jun- parte das atrocidades, ele acredita, foi co-
metida por austríacos, ou pelo menos pelos
to de um físico magro e sempre ereto, por bávaros. (...) “Percebo quão impossível isso
exemplo. [os programas de extermínio] deve soar para
Já no primeiro Call of Duty, é perceptível um americano. É algo que não poderia ocor-
rer em uma democracia. Mas em nosso tipo
que muitos dos alemães têm rostos que cor- de governo, era possível” (GOLDENSOHN,
respondem aos ideais ocidentais de beleza 2005, ps.39-40).
masculina, bem-adornados, não mais apenas
cruéis ou severos. Ora, muitos soldados, de ambos os la-
Tal representação não exclui a presença dos, deserdavam seu país ou se rendiam
de outros que figuram em condição dife- diante de inimigos em vantagem numérica.
rente, por exemplo, como homens obesos. Provavelmente, nessa sua nova versão, o
Além disso, também existem aqueles em que jogo tenha se esforçado em dialogar por tais
se percebe o bigode no estilo de Hitler. Tais perspectivas.
inovações talvez se destinem a evidenciar ao Seguindo tal tendência, outra novidade
jogador que se trata de um jogo de guerra, percebida em Call of Duty é o aspecto emo-
e tal como toda guerra, os exércitos são ge- cional dos soldados. Na campanha britânica
ralmente compostos por pessoas ordinárias, do segundo jogo, existe uma passagem onde
entre as quais é grande o número daquelas dois soldados alemães se rendem ao esqua-
que combatem unicamente por obrigação, drão aliado. Um deles implora: “Don’t shoot,
enquanto outra parte luta pela honra de seus please! Nicht schieβen! We have wounded

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here!»; e o capitão Price, então, ordena para - Comrades, this day will be the proudest
day you’ve ever lived! You will fight the fas-
não atirarem, enfatizando se tratar de uma or- cist Nazi invaders with all your strength! For
dem. Os alemães rendidos, até a chegada dos each and every fallen Soviet soldier, you will
britânicos, guardavam vários soldados ameri- make them pay with ten of theirs. There
will be no mercy for defeatists, cowards or
canos como prisioneiros, feridos em macas. traitors. Anyone caught deserting his post,
Percebe-se também que o inimigo ren- will... be... shot! Remember, great Comrade
dido parece se perder em sua fala no inglês, Stalin’s orders: Not one step backward. You
will be well equipped for the battles that lie
misturando-a com o alemão. Diferente dos ahead. You will have food, water, weapons
primeiros Medal of Honor, o inimigo fala sua and plenty of ammunition. What did you sup-
língua original em Call of Duty. Durante as pose the Germans have? Nothing! Their sup-
ply lines are stretched too thin; their dash to
batalhas, os gritos de comando permanecem the Volga has left them without the strength
no original alemão, gravados por dubladores to bring us a proper fight. With our superior
alemães - a pronúncia é correta e não insinua strength and numbers, and our boundless
courage, victory is ours! We shall stop the
nenhum sotaque estrangeiro. Fascist invaders there - at Stalingrad! (CALL
OF DUTY, 2003).

Durante sua fala, aviões alemães Ju-87


4.1.4 Soviéticos representados Stuka atiram nas balsas duas vezes. Nesse ín-
como estalinistas fanáticos terim, muitos soldados soviéticos, amedron-
tados, pulam de seus barcos na tentativa de
A insatisfação de soldados não aconte- se protegerem, mas os comissários disparam
ce apenas com alemães. No primeiro Call suas armas contra os próprios companhei-
of Duty, quando se joga comandando per- ros, pois os consideram covardes e traidores
sonagens que figuram como combatentes - o que é inadmissível a partir das ordens de
soviéticos, existem inúmeras referências ao Stalin, que deixa claro que não se deve dar
fanatismo de alguns comissários em relação um só passo para trás.
a soldados russos hesitantes em batalhar. O otimismo do comissário, porém, ape-
A primeira missão da campanha soviética nas serviu de incentivo para os soldados so-
acontece na travessia do rio Volga, em Stalin- viéticos, pois embora de fato os alemães dis-
grado, em 18 de setembro de 1942. Vários pusessem de menos recursos, os esperavam
soldados russos são transportados em balsas, muito bem-preparados. Os soviéticos, tam-
com comissários gritando em megafones. bém, não dispunham de tantos recursos como
Em um dos transportes está Alexei Ivanovich prometido - no próprio game, ao retornarem
Voronin, protagonista da campanha contro- à margem oeste do Volga, são apresentados
lado pelo jogador, integrante do 3º Exército em fila para que um soldado pegue um rifle, e
de Choque, 150ª divisão de Rifles. Enquanto o seguinte, a munição. Um outro comissário
os alemães mantém a fala germânica, porém, anuncia que, se o primeiro morrer, por sua
os russos do game falam em inglês - carre- vez, o que leva a munição tem permissão para
gado de um forte sotaque da língua eslava, pegar a arma do companheiro caído. Alexei
com erres puxados. Isso facilita o jogo para não recebe uma arma, e portanto, deve dar
os americanos que, com ou sem o uso de le- suporte ao companheiro.
genda, são orientados por sua própria língua Portanto, durante toda a primeira mis-
- como se fosse dublado. são, o protagonista não usa uma arma. Seu
Ele assiste ao comissário que, com sua companheiro, na desatenção do jogador, fa-
robusta voz, fala aos compatriotas pausa- cilmente desaparece; mas, se possível acom-
damente: panhá-lo, ele é destruído por bombas e sua
Ateliê de História UEPG, 1(2): 107-148, 2013 129
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arma não é encontrada em meio à confusão. O próprio Exército Vermelho, como já


E, além de o protagonista ter de tomar cui- dito, também era vítima do fanatismo de al-
dado com as intermináveis rajadas de metra- guns de seus superiores pela União Soviética.
lhadora alemãs, precisa também cuidar para Na missão seguinte de Call of Duty, continua-
não retroceder muito no cenário - ou é mor- ção precisa da anterior, os soviéticos devem
to por combatentes representados como retomar a Praça Vermelha.
comunistas fanáticos. No início desta, alguns soldados soviéti-
Mais adiante, porém, Alexei se encon- cos recuam, sendo apresentados como ame-
tra com um sniper soviético que pede para drontados pelas rajadas de tiros das MG42
ajudá-lo a eliminar um dos comissários, que alemãs que os esperam do outro lado da
também atira nos companheiros. É preciso praça. Porém, são mortos por tiros dispara-
retroceder para conseguir a comunicação ne- dos, novamente, pelos próprios comissários,
cessária com o grupo de artilharia, e para isso, que, conforme a trama do jogo, os julgam
Alexei distrai o comissário e o sniper o mata. traidores e covardes. Doravante, os russos
O fanatismo e assassinato gratuito não correm em direção do inimigo, e Alexei en-
eram incomuns, e de sua forma são repre- fim adquire uma arma, conseguida de um
sentados no jogo. Ao mesmo tempo em que companheiro morto. A longa missão termina
Hitler ordenava o assassinato de milhões na na tomada da praça.
Alemanha, Stalin fazia o mesmo na União So- A 26ª missão de Call of Duty encerra o
viética, com seu próprio povo, acusando-os jogo - e a guerra. Se passa na manhã de 30 de
todos de conspirarem contra a “Mãe Rús- abril de 1945, no cerco de Berlim, próximo
sia”. Em muitas situações durante a guerra, ao Reichstag.
as famílias na Rússia não sabiam o que era Na história, o Reichstag, parlamento ale-
pior: os próprios soldados da URSS, ou os mão, era símbolo do III Reich. As primeiras
alemães. O autor do livro “A loucura de Sta- tropas soviéticas o visualizaram em 28 de
lin”, Constantine Pleshakov, conta como sua abril. No dia seguinte, o Exército Vermelho
família foi vítima tanto de comunistas quanto foi barrado à margem do rio Spree pela re-
de nazistas: sistência alemã. No dia 30, porém, atraves-
sam o rio, mas continuam recebendo várias
Minha avó, Anna Fedorovna Zimina (...) tes- baixas na praça Königsplatz, diante do parla-
temunhou cenas horríveis: durante a guerra mento. Durante horas, batalharam até con-
civil, os comunistas assassinaram seu pai no
quintal de casa; alguns anos mais tarde, du- seguirem furar o cerco e entrarem às portas
rante o chamado período de “coletivização”, do Reichstag, cujo interior era ainda defendi-
implantado por Stalin, sua família foi expulsa do pelos últimos soldados alemães (REGA-
da própria casa e destituída de todos os seus
pertences; no auge do Grande Terror, foi acu- LADO, 2009, p.120).
sada de sabotagem e quase perdeu a vida. No jogo, a batalha transcorre até o mo-
(...) Quando os soviéticos começaram a eva- mento em que tomam o parlamento, mas
cuar a cidade, Anna e seu marido receberam
ordens de explodir a usina elétrica onde tra- com uma breve batalha em seu interior - a
balhavam. mas, antes que pudessem cumprir maior parte de tal missão se passa em seu
esse terrível encargo, o Exército Vermelho exterior. Junto de outros homens de seu
fugiu deixando a usina e a família nas mãos
dos alemães. Durante a ocupação alemã, (...) grupo, Alexei chega ao topo do Reichstag
ela [Anna] e sua filha de seis anos - que mais e um combatente, à beira dele, empunha a
tarde seria minha mãe, Elza - foram metralha- bandeira da União Soviética, comunicando
das por soldados romenos. (Felizmente, para
mim, (...) estavam bêbados e então erraram.) os soldados abaixo que o prédio havia sido
(PLESHAKOV, 2008, p.18-19) tomado. Porém, não é uma alusão precisa à

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famosa imagem fotografada naquela ocasião, ocorreu devido ao Grande Expurgo.


por Yevgeni Khaldei. Como resultado, Stalin expulsou 38 mil
Em Call of Duty, na sua edição mais re- oficiais e comissários; homens liderados
cente que retrata a Segunda Guerra Mundial, anteriormente pelo rival do vozhd, Leon
cujo título é World at War, de 2009, o episó- Trotski, foram eliminados - três marechais,
dio se repetiria com outro grupo de sovié- onze generais comissários, todos os co-
ticos, inclusive se passando por cenários já mandantes distritais, os chefes de Estado-
vistos no primeiro game da série, como será Maior das Forças Armadas e centenas de
observado posteriormente neste trabalho. generais. Eram em sua grande maioria ve-
Os heróis soviéticos, porém, nunca foram teranos de guerra, especialistas em estra-
realmente heroicizados durante a ditadura co- tégia. A eliminação destes homens deixou
munista. O marechal Zhukov foi um dos maio- um vazio no brilhantismo estratégico da
res responsáveis pela derrota nazista até o cer- União Soviética, e o meio de obter sucesso
co de Berlim, e era querido pelo próprio Stalin, diante dos nazi-fascistas foi por superiori-
mas não pelo sucessor, Nikita Krushev: dade numérica, sem o uso de estratégias
eficazes (LOSADA, 2009, p.11).
Zhukov tornou-se o ministro da defesa. Mas
Krushev desconfiava de sua lealdade e man- É bastante provável que o americano
dou-o para uma definitiva aposentadoria em com sentimentos patrióticos que joga Call
1957, chegando até a retirá-lo da organização of Duty sinta-se confortável controlando a
partidária do ministério de defesa. Até o fim
de sua vida, o marechal ficou reduzido a uma pele de um compatriota, ou de um inglês,
célula do Partido nas dependências de uma que se auxiliam no front contra os nazistas,
fábrica de maquinários, para sua profunda ao longo da Segunda Guerra. Mas pode
humilhação. (PLESHAKOV, 2008, p.238).
se afigurar inusitado para ele jogar como
Enquanto no primeiro Call of Duty os soviético e perceber a realidade de uma
soviéticos são retratados como fanáti- nação que, ideologicamente, encontra-se
cos, impiedosos com seus próprios com- tão distante.
panheiros, no segundo jogo eles figuram A campanha soviética, no primeiro
como unidos, e lutam em conjunto para Call of Duty, é uma clara referência ao fil-
completar seus objetivos. Entender a Se- me “Círculo de fogo”, em que os russos
gunda Guerra Mundial como uma passa- atravessam o Volga para retomar a Praça
gem brutal da história não é atribuí-la ape- Vermelha; não obstante às rajadas de ti-
nas às atrocidades alemãs, mas por parte ros dos alemães, têm ainda de se preo-
de todas as nações. A crítica presente na cupar com as acusações de covardia dos
campanha dos soviéticos é uma forma de comissários. Muitas passagens do longa-
enfatizar o patriotismo exacerbado, o fa- metragem parecem um déjà-vu àqueles
natismo cego em que a coragem e a supe- que jogam Call of Duty.
rioridade numérica seria a única forma de
deter o inimigo.
Afinal, conforme destaca (LOSADA, 4.1.5 A inserção de
2009), em estratégia, os soviéticos cumpri- poloneses na série
ram um terrível papel: desde a campanha
do Exército Vermelho sobre a Finlândia, O terceiro game da série, Call of Duty 3,
no inverno de 1939, os piores estrategis- ainda mantém as missões em que é possível
tas da União Soviética foram responsáveis jogar como britânico e americano, mas neste
pelos ataques na frente finlandesa. Isso jogo foram excluídas as missões com os sovié-

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ticos, situando-se dessa vez no front ocidental. sáveis pela campanha alemã sobre a Polônia. A
Além das duas nações estarem presentes, é perseguição se dá com o emprego de um tanque
também possível jogar com personagens do Sherman Firefly, o qual o jogador controla. Por
Canadá, Resistência Francesa e Polônia - esta toda a missão, o jogador deve destruir tanques
última surge como uma novidade, já que sem- Panzer e unidades de infantaria. No final, deve
pre foi vista como vítima das primeiras blitz- destruir o Panzer II operado pelo oficial Richter,
krieg alemãs. este nunca exibido fisicamente. A outra missão
Porém, o jogo não retrata as passagens com o polonês, esta ocorrida à pé, tem lugar
ocorridas na Polônia, e sim na França. Os per- também pela França ocupada por nazistas.
sonagens poloneses são sobreviventes do mas-
sacre nazi-soviético e continuaram a lutar junto
de seus aliados. 4.2 Call of Duty: World at War
As missões da Polônia são apenas duas: a
sétima e a décima terceira. Nelas, o jogador Posteriormente, a produtora Treyarch lan-
controla o soldado Bohater Woychek, da 1ª çava, até o momento presente, o último Call
Divisão de Blindados da Polônia. A primeira of Duty retratando a Segunda Guerra Mun-
dessas missões é uma perseguição empreen- dial, com o título World at War (2008), para
dida por ele e pelos companheiros ao coman- PC, “Playstation 3”, “XBOX 360”, “Wii” e
dante alemão de tanques Richter, de alcunha “Nintendo DS”, o quinto título da série. A
Black Baron (Barão Negro), um dos respon- capa é conforme a Figura 10.

Figura 10: Capa de Call of Duty: World at War, de 2008. Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/-YddlI4PmemA/TpR1iewzymI/AAAAA-
AAAAE0/FmA_j4bvu5Y/s1600/call-of-duty-world-at-war-400x5681.jpg>, acesso 13 out. 2012.

Ateliê de História UEPG, 1(2): 107-148, 2013 132


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Diferente dos games anteriores, este Nesta, os japoneses atacaram a China, pro-
trazia uma única campanha dividida em curando estender seu império por temer-
dois momentos, apresentando dois per- em um colapso a partir crise econômica
sonagens em fronts diferentes: soldado C. de 1929 e o crescimento do comunismo
Miller, dos Estados Unidos, e soldado Di- no país vizinho.
mitri Petrenko, da União Soviética (CALL O massacre contra os chineses co-
OF DUTY, 2008). moveu diversas autoridades do mundo,
Um aspecto apresentado nos créditos dentre elas os Estados Unidos, que, como
finais deste game é a seguinte mensagem: punição - tal como apresenta o infográfico
“Dedicated to the veterans of World War do jogo - assinou um embargo de 90% da
II who sacrificed their lives for the pres- exportação de petróleo para os japoneses.
ervation of liberty” (CALL OF DUTY: Em resposta a este embargo, o imperador
WORLD AT WAR, 2008). No entanto, Michinomiya Hiroito ordenou o ataque
não revela nenhuma informação da equipe aéreo à base americana de Pearl Harbor,
de produção sobre colaboradores vetera- ocorrida em 7 de dezembro de 1941, de-
nos - mas um agradecimento dos mesmos sencadeando a declaração de guerra dos
aos veteranos, nomeados um por um, por Estados Unidos contra o Eixo (JURADO,
compartilharem suas histórias e lembran- 2009, p.87-93).
ças. Por sua vez, os agradecimentos são O game tem início com Miller, apre-
dirigidos unicamente aos membros da First sentado no interior de uma cabana de ma-
Marine Division Veterans Association, todos deira, no atol de Makin, em 17 de agosto
americanos (CALL OF DUTY: WORLD de 1942, com as mãos atadas às costas
AT WAR, 2008). junto de seu companheiro, K. Pyle. In-
Embora não se possa esperar que todo tegrantes da 1ª Divisão de Mariners, do
jogador venha a ler tais mensagens, fica 2º Batalhão da Marine Raiders (CALL OF
evidente a representação em forma de DUTY WORLD AT WAR, 2008), eles figu-
reverência aos combatentes que estiver- ram como prisioneiros dos japoneses.
am na Segunda Guerra. Não se trata, no Um oficial japonês, que é apresentado
entanto, de render tais homenagens a to- fumando um charuto, interroga ambos,
dos os combatentes, mas somente àqueles enquanto seu soldado bate em Pyle com
que teriam combatido em nome da causa um bambu. Pyle cospe no rosto do oficial,
apontada como correta: a dos Aliados. que se limpa com a manga da farda. Então,
agride ao soldado rendido, ferindo-o no
olho com o charuto aceso, ordenando que
4.2.1 O inimigo japonês seu soldado o execute. Este desembainha
sua katana e corta o pescoço de Pyle. Em
Quando se dá um “novo jogo”, são exi- seguida, volta-se para Miller, mas, antes
bidos infográficos animados que informam que possa executá-lo da mesma forma, é
ao jogador sobre o contexto da guerra en- assassinado silenciosamente pelos mari-
tre japoneses e americanos, sem nenhuma ners Roebuck e Sullivan. Na Figura 11, o
voz de narração. São exibidos vídeos reais momento da execução de Pyle.
que remetem às situações apresentadas Enquanto dentro da cabana, o jogador
como “atrocidades japonesas” cometidas não pode movimentar Miller, restando-lhe
contra os chineses, ao longo da chamada a opção de assistir à cena. O personagem
Guerra Sino-Japonesa (década de 1930). pode ser controlado a partir da libertação

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Figura 11: Soldado americano prestes a ser executado. Disponível em: <http://image.com.com/gamespot/
images/2008/171/944199_20080620_screen005.jpg>, acesso 13 out. 2012.

dos companheiros, e no exterior da caba- contra o americano serve de prelúdio do


na, o jogador se depara com vários solda- que está por vir. A engine do título da série
dos americanos mortos, presos em toras permitia combates o mais próximo do real,
de madeira. sem haver censura de violência.
Após batalhas travadas entre os ame- Assim, tais passagens da primeira mis-
ricanos e japoneses, o cenário torna-se re- são depreciam os soldados japoneses: eles
pentinamente tranquilo, enquanto avançam são representados como selvagens, reali-
em mata fechada e escura. Um dos ameri- zam emboscadas e armadilhas cruéis, além
canos comenta, “este lugar me dá arrepios”. de lutarem sem se importarem com a vida,
Então, encontram um templo, com tochas sempre em nome do imperador. A ideia é
acesas. Um dos homens se aproxima para firmada ao início da missão, dentro da caba-
averiguar, e neste momento é preso por na. Os japoneses não hesitam em se sujar de
uma armadilha e instantaneamente explode sangue, tampouco têm qualquer misericór-
com bombas japonesas. Pedaços de seu cor- dia diante do inimigo.
po se espalham para os lados, junto de uma Estas representações são uma “forma cla-
torrente de sangue que escorre do soldado ra de propaganda que oferece a oportunida-
inerte e mutilado. Logo em seguida, ouve- de de retratar o comandante de uma manei-
se o grito de “Banzai” de soldados japone- ra heróica” (BURKE, 2004, p.184), de forma
ses, que surgem repentinamente do mato e que o americano no game, enquanto vítima
avançam nos americanos com as baionetas da violência nipônica, é ao mesmo tempo he-
de seus rifles. rói, porque arrisca sua vida pela libertação do
Nunca antes em Call of Duty as mortes Pacífico. A transferência da memória de ve-
foram tão violentas, sendo que a armadilha teranos de guerra para a representação nas

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artes visuais é um hábito antigo. Ora, desde se se desprendessem do corpo - eles não
o século XV, soldados eram enviados ao front gritam, tornando a cena mais cruel.
a fim de registrarem os acontecimentos dos Porquanto anteriormente o inimigo japo-
combates (BURKE, 2004, p.185). E, tal como nês era depreciado, agora ele reaparece na
as lembranças do veteranos no Pacífico, a re- forma de combadentes impotentes, incapa-
presentação do Outro no game é enfática ao zes de defesa e ataque. Não são mais lutado-
se tratar dos “horrores da guerra” (BURKE, res enfáticos em sua ideologia, mas simples
2004). Não que as batalhas no Pacífico não criaturas que, agora inofensivas, são uma
tenham sido violentas - mas o jogo evidencia referência ao poder destrutivo do homem.
apenas a agressão por parte dos japoneses Em chamas, não têm suas feições, tampouco
sobre os americanos. pode-se observar a etnia dos mesmos. São
A missão seguinte ocorre dois anos de- representados como homens comuns, mas
pois, em 15 de setembro de 1944. A pri- cegos e mortos em função da causa pela qual
meira missão serviu de prelúdio às últimas lutavam.
batalhas da Segunda Guerra Mundial, que A terceira missão do jogo é continuação
são vivenciadas durante o game. Agora, Mil- da batalha de Peleliu. Enquanto o jogo carre-
ler participa em um desembarque na Praia ga, um infográfico exibe um caixão, onde jaz
Branca, na ilha de Peleliu. Logo que a missão o sargento Sullivan, morto na missão ante-
tem início, com as inúmeras balsas atraves- rior. Este caixão rapidamente se transforma
sando o mar, o jogador sente-se poderoso em uma estrela dentro da bandeira dos Esta-
com a grandeza dos navios ao fundo e com dos Unidos - uma visível crítica que justifica
a quantidade de soldados prestes a desem- a morte dos soldados norte-americanos em
barcar. Um momento clichê dos jogos que luta pela pátria, como alusão com ares de
simulam desembarques ocorre quando a homenagem aos mortos em combate, reali-
balsa alcança a areia: esta explode por uma zada há mais de 70 anos após o conflito.
bomba inimiga e o protagonista afunda, ten-
do uma visão similar à do longa-metragem 4.2.2 Invasão nazista
“O resgate do soldado Ryan”: ele enxerga o
em Stalingrado
submerso, com as balas passando pela água
e deixando rastros de bolhas. Quando o pro- Terminada a campanha em Peleliu, um
tagonista emerge, apela apoio naval via rá- infográfico centraliza o globo terrestre cin-
dio, eliminando o acúmulo de inimigos que za, na Europa, com uma suástica no lugar da
protegem a beira da praia. Alemanha, e o vermelho da bandeira nazista
Logo em seguida, mais uma passagem im- dominando as demais regiões da Europa. Esta
pressionante é apresentada no game: solda- onda de cor chega até Stalingrado. Enquanto
dos japoneses queimados cambaleiam iner- mostram imagens de devastação da guerra,
tes em direção aos americanos, como mor- uma voz rouca diz em um inglês, com forte
tos-vivos - nesse momento, o jogador pode sotaque russo, as seguintes palavras:
atirar neles, pondo um fim à sua agonia. Se
- The rotten cancer of the fascist Reich ra-
não o fizer, simplesmente caem mortos. O vages Europe like a plague. Their relentless
impacto visual do sofrimento dos soldados, drive into our motherland steals the lives
mesmo que inimigos, provavelmente tende of men, woman, and children alike. The ar-
rogance of their leaders is matched only by
a produzir no jogador uma comoção, que os the brutality of their soldiers. These are the
encara como meros homens, incapazes de darkest days of Nazi occupation of Stalingrad
qualquer mal - e libertos do mesmo, como (CALL OF DUTY WORLD AT WAR, 2008).

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Figura 12: Soldado alemão executa soviéticos sobreviventes em Stalingrado, em Call of Duty: World at War. Disponível em: < http://
www.mobygames.com/images/shots/l/405407-call-of-duty-world-at-war-xbox-360-screenshot-a-german-soldier.jpg>, acesso 14 out. 2012.

A parte russa da campanha se inicia em são: “Vendetta” - termo italiano para “vin-
plena Praça Vermelha. O cenário, quando gança”. Outros dados também aparecem: é
começa esta missão, poderia ser nostálgico 17 de setembro de 1942 e o personagem
em relação ao primeiro Call of Duty, mas o controlado é o soldado (Dimitri) Petrenko,
contexto é completamente diferente. Inicia- da 62ª Divisão de Rifles.
se com a visão embaçada do protagonista A partir daí, o jogador já pode movimen-
que desperta em meio a uma pilha de corpos tar Petrenko. O cenário é cinza, destruído
ensanguentados, onde um corvo pousa à sua por bombas; poças d’água se misturam ao
frente; levanta voo quando um Panzer chega sangue dos soldados russos mortos, e há
muito perto, com soldados alemães march- moscas, fogo, fumaça e diversos bombar-
ando à frente, enquanto outros estão sobre deiros alemães que sobrevoam muito alto.
o tanque. Percebe-se que o protagonista Dentre a pilha de corpos, um se mexe - está
está em meio à pilha dentro de uma fonte vivo como Petrenko, e pede para que seja
seca. Os alemães checam os corpos de per- silencioso.
to e metralham os que se mexem com suas Neste momento surge mais um persona-
MP40. A cena é reproduzida na Figura 12: gem, o sargento Viktor Reznov - uma perso-
A visão continua estática até que o ini- nificação da mágoa, vingança, rancor e ódio
migo se afasta, porquanto o protagonista se do homem russo contra o alemão. Sua pri-
finge de morto. Então, surge o nome da mis- meira fala, traduzida, é: “faça como eu dis-

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ser, e nós poderemos vingar este massacre”. é apresentado como um sujeito nostálgico.
Esta é a voz do homem que narra o infográ- Quando entra em um bar, que queima parcial-
fico da missão, enquanto esta carrega. mente, diz que o lugar “foi uma vez ecoado
Reznov caça Heinrich Amsel, general com conversas entre amigos e amantes. Não
responsável pelo massacre de soldados e mais”. E em seguida, enfatiza novamente seu
civis russos por aquela região de Stalingra- espírito vingativo: “Marque minhas palavras,
do. Dimitri enxerga o oficial com alguns sol- camarada. Um dia, as coisas mudarão. Leva-
dados pela luneta de um rifle, mas Reznov remos nossa luta até suas terras; seu povo;
lhe explica que é preciso ter paciência, e seu sangue” (CALL OF DUTY: WORLD AT
que sua caça é como a de qualquer outro WAR, 2008). Neste aspecto, provavelmente
“animal”, nas falas do sargento. os criadores do jogo tentaram passar sen-
A personificação de Reznov como o sovi- sações que remetem a sentimentos de vin-
ético magoado em busca da vingança contra gança e nostalgia que tomaram aqueles que
o nazista remete à representação do senti- foram vitimados pela guerra ocorrida no in-
mento de uma nação devastada pelo inimi- terior de suas fronteiras.
go. Ora, por toda a Europa, esta emoção Em determinado momento da missão,
se tornou comum. Diferente dos Estados Reznov é emboscado e cercado por solda-
Unidos, cuja localização geográfica não os dos alemães, após fugir junto de Dimitri de
fez alvo de ataques em seu território, resul- um grande grupo. Representa-se, assim, o
tando em cidades destruídas, a União Sovi- emprego da tortura psicológica pelos ale-
ética tornou-se um cenário devastado pelas mães para com seus inimigos: enquanto dois
bombas alemãs e milhares de civis mortos. deles o rendem com submetralhadoras, um
Apenas no primeiros vinte dias da ocupa- terceiro se aproxima portando um lança-
ção alemã em território soviético, a Rússia chamas e o disparando a esmo para cima, no
perdeu 600 mil combatentes de 3 milhões intuito de exibir sua terrível arma. Antes que
(PLESHAKOV, 2008, p.20). possa queimar Reznov vivo, porém, os ale-
A rivalidade entre a Alemanha e a União mães são alvos de um grupo de soviéticos.
Soviética era ideológica e se acirrava com No final da missão, Dimitri mata o general
a guerra, ora entre comunistas, ora entre Amsel com um tiro de sniper rifle.
nacional-socialistas, de forma que a elimi-
nação física era um atributo sempre enfati-
zado pelos líderes militares. Hitler odiava o 4.2.3 O início do plano
comunismo e Stalin odiava o nacional-socia- de vingança de Reznov
lismo. Mas, tal como na guerra, utilizados
em medidas extremas, tornaram-se seme- Após a passagem anterior do jogo, se
lhantes na eliminação um do outro. O his- passam três anos, chegando a 1945. Tal
toriador e biógrafo de Hitler, Joachim Fest, como a primeira missão com os america-
defende que a política do ditador nazista, nos, “Vendetta” também serviu de prelú-
diferente da de Stalin apenas por não pro- dio às últimas batalhas da Segunda Guerra
por a inserção de uma noção civilizacional Mundial.
de paz para futuro, era de “ganância e am- O infográfico do game agora informa
bição, os dois impulsos motivadores quase que os soldados russos superam os alemães
onipresentes no empenho de subjulgar ou- em 10 por 1 - firmando a ideia segundo a
tros povos” (FEST, 2005, p.171). qual os soviéticos, para compensar falhas
E não apenas magoado, sargento Reznov estratégicas, contavam com a superiorida-

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de numérica. A missão é em Seelow. Matías consciência contra o ego - má consciência


Costilla explica, em seu infográfico, a im- - de Reznov. Cabe então ao jogador decidir
portância da região: se os deixa viver - ou, como diz Chernov,
deixá-los sangrar até a morte, com ainda al-
As colinas de Seelow formavam a última
linha antes de chegar a Berlim. O Exército gumas chances de sobrevivência; ou confir-
[sic] soviético estava decidido a tomar essa mar a morte dos mesmos, executando-os.
barreira natural ao leste de Berlim e, final- Reznov reafirma sua sede vingativa: “agora
mente, conseguiu rompê-la, mas a um cus-
to exorbitante, tanto em homens como em é sua terra; seu povo; seu sangue”, como
material. (...) A desproporção de forças era prometido em Stalingrado.
extraordinária, mas, mesmo assim, os sovié- Ao final da missão, graças à violência
ticos demoraram muito para conseguir abrir
uma brecha. Zhukov planejava massacrar as aplicada por Dimitri no combate contra os
defesas em poucas horas e lançar seus ata- alemães, Reznov lhe dá a chance de des-
que em direção a Berlim, na manhã do dia 16 cansar sobre um tanque até determinado
de abril (COSTILLA, 2009, p.100-101).
ponto da missão. Quanto a Chernov, deixa
claro: “você, não”. Pois, Reznov considera
No game, a data é 18 de abril, dia em que
Dimitri o verdadeiro herói de Stalingrado.
um contra-ataque alemão destroça diversas
O mérito do descanso surge devido a seu
divisões soviéticas, apoiado pela Luftwaffe.
uso de violência.
Mas, no dia seguinte, o Exército Vermelho
consegue tomar a cidade de Seelow (COS-
TILLA, 2009, p.100).
A missão se inicia em um quarto escuro 4.2.4 Ofensiva aliada até
de uma casa de fazenda. Dimitri está ao chão o castelo de Monte Shuri
e três alemães ocupam o cômodo sem per-
ceber que ele está vivo. Quando tenta pegar Após Seelow, o jogo retoma às mis-
a arma do companheiro morto ao lado, um sões com os americanos. Miller porta um
dos alemães o vê e o golpeia com um soco lança-chamas, e de acordo com o sargento
no rosto. Antes de executá-lo, um tanque Roebuck, “precisamos sujar nossas mãos.
T-34 destrói parte da casa e os alemães são Lança-chamas. Iremos queimá-los” (CALL
atingidos e começam a se debater no chão. OF DUTY: WORLD AT WAR, 2008). Esta
Reznov entra no lugar com outro soldado, fala sugere indiretamente que os america-
Chernov. Este recebe ordem do sargento nos jogaram limpo, até então. Estavam im-
para “finalizar aqueles ratos”, mas Chernov aculados, até a necessidade de utilizar o fogo
responde: “não há porque, sargento... eles como arma.
já estão sangrando até a morte!”. Reznov, Ora, as missões ainda ocorrem em Pele-
por fim, diz: “então talvez nosso amigo liu. Esta se passa dentro de trincheiras, em
ajude-os a sangrar mais rápido”, (CALL OF que o uso dos lança-chamas era muito co-
DUTY: WORLD AT WAR, 2008) enquanto mum. Nesta missão, de fato a arma tem
arma o companheiro Dimitri. intenso uso, tornando comum a visão de
Nesse momento, a prometida vingança soldados inimigos queimando até a morte -
de Reznov já está em prática e se estende umas, mais rápidas, outras, nem tanto. Não
até o final do game, favorecendo atrocida- obstante, é um cenário propício ao uso de
des contra alemães, inclusive os rendidos. armas para combate próximo, em que tam-
Por sua vez, Chernov é mais racional. Serve bém pode ser utilizada uma M1897 Trench
de contrabalanço ao fanatismo do sargen- Gun. Esta arma de alto impacto facilmente
to, muitas vezes fazendo o papel de boa despedaça membros do inimigo, tal como

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outras armas de maior calibre no jogo - ou missão sem munição, e deve consegui-la por
granadas. perto, onde um caixote de pára-quedas foi
Novamente, percebe-se a não-censura lhes enviado. Conseguidos os suprimentos,
da produtora em relação à guerra, repre- uma onda de soldados japoneses os ataca
sentada com um realismo bastante intenso. com infantaria e morteiros. A trincheira co-
Por exemplo, na exibição de corpos de feri- berta é a melhor opção.
dos, mutilados e de mortos. Os corpos en- Abrindo caminho durante a subida do
sanguentados, se não estiverem queimados, monte, o esquadrão consegue penetrar no
figuram nitidamente mutilados, sem braços, Castelo Shuri, e até o final de missão, precisa
pernas, ou mesmo a cabeça. Além de mutilar conter as centenas de inimigos bem-posicio-
o inimigo, o tiro destrói sua porção do corpo nados em cada cômodo e porção dos pátios
de tal forma que pode se ver um de seus pul- do castelo.
mões sob a caixa torácica, por exemplo. Em No maior pátio, três soldados japoneses
muitos casos, mesmo perdendo um braço se rendem. Roebuck ordena seus homens
ou uma perna, o soldado ainda agoniza, às para que cessem fogo, e junto de Polonsky,
vezes rastejando na própria poça de sangue. revistam os homens rendidos. De repente, os
Após as batalhas em Peleliu, Miller é en- soldados desarmados começam a empurrá-
viado à ilha de Okinawa com o sargento Roe- los, e dois deles conseguem retirar os pinos
buck e o soldado Polonsky, em 1945. Durante de granadas, agarrando-se aos americanos.
o carregamento da missão, o sargento afirma Miller deve decidir, portanto, qual dos dois
que a moral dos soldados é baixa, e o infográ- companheiros deve salvar - ou qual é possí-
fico indica que as chances de sobrevivência é vel salvar, no inesperado movimento dos ja-
de apenas 1 por 5 - ou seja, o contrário da poneses. Matando o inimigo, o companheiro
abundância de homens presenciada durante consegue se esquivar da explosão, mas não
as missões na Europa. O cansaço é visível, es- há tempo de salvar o outro.
pecialmente na última missão com os ameri- Seja qual for a escolha, o companheiro
canos. Surgem aqui outros elementos de re- que sobrevive se revolta e dirige ofensas aos
alismo, evidenciados pela representação do japoneses, que agora surgem em gigantescas
cansaço físico, moral abatido, desejo de vin- ondas pelo pátio. Com o apoio aéreo, porém,
gança. Roebuck fala pelo esquadrão: a batalha pelo Castelo Shuri é vencida. Se o
jogador decide salvar Polonsky, Roebuck en-
Everything that was asked of us, we’ve done.
Every night we lay in a filthy foxhole praying trega a Miller suas dogtags; pelo contrário, o
the enemy won’t slit our throats. Every day sargento lhe entrega as do soldado. Estão ter-
we spent crawling through the mud and dirt minadas, aí, as missões com os americanos.
while bullets whistled all around. But this
is the last time we’re going to have to put A batalha por Okinawa ocorreu após Iwo
our lives on the line. This is the enemy’s last Jima, e a ilha foi finalmente considerada segu-
stand. When we take Shuri Castle, we go ra em 21 de junho (GALEANO, 2009, p.134).
home. All of us (CALL OF DUTY: WORLD AT
WAR, 2008). Os americanos podiam se considerar vito-
riosos sobre o Japão - mas a Segunda Guerra
O sargento também recebe a informação Mundial só teve término, oficialmente, em 2
de que o Monte Shuri, que seria na história de setembro de 1945, após ataques sobre ci-
uma das últimas linhas de defesa japonesas vis japoneses, com o emprego de armamento
de Okinawa (GALEANO, 2009, p.130-131), atômico.
região que devem ocupar, está praticamente A sensação que o jogo procura transmi-
deserto. Não obstante, o esquadrão inicia a tir, a partir da intenção de seus produtores,

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ao terminar as missões com os americanos, foi levantada uma resistência enfraquecida


é que estes lutaram contra um inimigo co- da cidade alemã:
varde, principalmente quando os soldados
Dia após dia, sua [do Reich] “Tropa de Recru-
se rendem, mas têm a intenção de se matar tamento” saía com a missão de esquadrinhar
com seus inimigos. Ora, como se não bas- firmas privadas e serviços públicos atrás de
tasse, sente-se um libertador do Pacífico, civis aptos para o front. Os números que ele
apresentava, no entanto, não surpreendiam
por onde o Império Japonês se apossara de mais, mesmo depois de ter transformado
diversas ilhas. Este ideal libertador dos im- aquele grupinho aflito de civis num regimen-
périos é símbolo de orgulho para os que se to impaciente por entrar em ação na luta
“Pelo Führer e pela pátria. (...) Cada civil que
denominam democráticos e assim procuram fazia parte da tropa de combate dispunha, e
se apresentar. somente no caso de ter um fuzil, de munição
para cinco tiros” (FEST, 2005, p.37).

Os civis encontravam-se em delicada si-


4.2.5 Os soviéticos representa- tuação. Por um lado, os soviéticos os amea-
dos como impiedosos e a queda çavam se ajudassem os nazistas; por outro,
de Berlim os nazistas os ameaçavam se cooperassem
com os soviéticos.
Cronologicamente, as missões com os
russos enquanto cercam Berlim ocorrem an- Goebbels havia ordenado que um edital fosse
afixado à porta de cada casa, segundo a qual,
tes das três últimas com os americanos, mas “por ordem do Führer [...] todos os homens
contém um único contexto: a execução de de 15 a 70 anos” deveriam cumprir o chama-
alemães. Logo no começo da missão em que mento às fileiras, sem exceção. “Quem se
esconde covardemente nos abrigos antiaé-
os soviéticos chegam a Pankow, soldados reos”, finalizava, “acabará numa corte mar-
alemães se rendem. Chernov novamente se cial e será punido com a morte” (FEST, 2005,
mostra clemente: p.38).
- Sargent! There are survivors!
- These animals raped and marauded Enquanto carrega a missão seguinte,
their way through the motherland without Eviction, Reznov deixa claro que os velhos,
mercy!” (CALL OF DUTY: WORLD AT os jovens e os fracos agora lutam pela Ale-
WAR, 2008). Em seguida, intervém um co- manha em uma tentativa desesperada de
missário. defendê-la. O jogador é também informado
Um dos soldados alemães grita “nein, das estatísticas de batalha: são 45 mil solda-
bitte!”, mas são todos metralhados. Um dos dos alemães e 40 mil civis que lutam contra
sobreviventes, que agoniza ao chão, leva em 2,5 milhões de soldados da Rússia.
seguida um tiro de pistola na cabeça. E, no Mas, apresentado como sedento por vin-
final da missão, um megafone é usado por gança, Reznov aclama que “se eles lutam pela
um comissário enquanto diversos tanques Alemanha, eles morrem pela Alemanha”. Tal
russos adentram à capital, na tradução em missão começa com uma cena em que um
português: “Cidadãos de Berlim! Um anel soldado alemão está sentado em uma cadei-
de ferro cerca sua cidade podre. Nós esma- ra, cercado por soviéticos que discutem:
garemos todos os que ousarem resistir à ira - He wants mercy!
do Exército Vermelho” (CALL OF DUTY: - You do not deserve mercy.
- What mercy did you show to our people!
WORLD AT WAR, 2008). - Time do die!
O aviso dos comissários aos civis não é - Wait... Wait! He may help us.
uma alusão fictícia. Joachim Fest relata como - Help us? He can die for us.

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E então, o alemão leva um tiro de rifle na ca- o repreende com uma voz triste, lembrando
beça.
- Pfff. (um dos soldados solta um suspiro) que é cruel prolongar a dor de um animal.
- Mudak! As últimas duas missões se conectam dire-
(CALL OF DUTY WORLD AT WAR, 2008).
tamente: uma, diante do Reichstag, e outra,
Chernov, indignado, desabafa: “Isto não é em seu interior.
guerra. Isto é assassinato”. E Reznov responde: Chernov escreve em um diário. O sar-
“Isso é como se termina um guerra, Chernov”. gento, por sua vez, o desmotiva indagando:
(CALL OF DUTY WORLD AT WAR, 2008). “o quê você acha que nos levará para casa?
Doravante, há uma passagem em que um Escrevendo sobre a guerra ou a vencendo?
soldado russo também é mantido prisioneiro Ninguém jamais lerá isso” - e o entrega uma
por alemães, de forma similar à cena do início bandeira da União Soviética.
da missão. O soldado rendido promete que O cenário é o mais violento possível: Ber-
matá-lo não os salvará, e que seus compan- lim é fumaça e ruínas, e dentre os tiros, sol-
heiros não mostrarão misericórdia. O alemão dados alemães jazem enforcados em árvores
responde que seus companheiros não estão fantasmagóricas. O mísseis dos Katyusha dev-
ali - o que não é verdade. Dependendo da ve- astam os prédios. Em pouco o Reichstag já é
locidade do jogador, o soldado russo pode ser visível, e há uma longa travessia até suas por-
salvo ou não da execução. tas. Dessa vez, a cidade é também defendida
Estas cenas, porém, são uma clara crítica pela SS, enquanto atravessam a praça diante
ao método dos soviéticos, em contrapartida do parlamento. Porém, Chernov é morto pelo
a uma luta que os americanos propunham ser lança-chamas de um inimigo, e o sargento re-
justa no Pacífico. Para os russos, conforme cupera seu diário.
apresentados pelo videogame, a guerra se tra- Dependendo das ações do jogador du-
ta de uma imensa vingança que deve ser ex- rante as missões, Chernov chega a conclusões
ercida por eliminação física dos alemães. Este diferentes em seu diário. Em suas palavras, o
raciocínio os tornou aquilo que sempre re- soldado é de fato o oposto de Reznov, e usa
pudiaram: a morte de inocentes ou soldados da misericórdia seu principal argumento. Se
rendidos. Quando dois lados lutam um contra Dimitri divide suas ações entre as ordens vio-
o outro e se aplicam ambos ao extremismo, lentas de Reznov e sua própria consciência, às
confundem-se em semelhanças. O assassi- vezes poupando o inimigo, Chernov conclui
nato indiscriminado por parte dos soviéticos que heróis não precisam justificar seus atos,
significou uma nova onda de horror àqueles embora não os entenda. Caso Dimitri siga to-
que desejavam fôlego porquanto os alemães das as ordens cruéis do sargento, por sua vez
recuavam. “Na Polônia, os soviéticos assassi- o diário revela que o companheiro não é um
naram quase 250 mil pessoas, e nos estados herói, mas propõe ser ele um selvagem, con-
bálticos, quase 200 mil” (VÁZQUEZ, 2009, cluindo que assim também seria todo o resto
p.109). do Exército Vermelho. Mas, se Chernov per-
No final de Eviction há mais uma cena plena cebe que Dimitri é em todos os momentos
de brutalidade, em que dois soldados alemães misericordioso com o inimigo, considera-o
rendidos estão prestes a serem executados. um verdadeiro herói dentro das forças sovié-
Reznov dá a escolha a Dimitri: matá-los de ticas. Porém, a concepção sobre o sargento é
forma rápida, com tiros, ou matá-los de forma a mesma, independente das escolhas do joga-
lenta, com bombas incendiárias molotov. Se o dor: “Reznov, você parece se deliciar com o
jogador optar pelo primeiro método, Reznov abate”. Enquanto Chernov é para Reznov a
o elogia. Mas, se optar pelo segundo, Reznov boa consciência contra o ego do mesmo, é

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também a boa consciência de Dimitri - cuja na metade desta missão, pelo saguão do parla-
má-consciência é o sargento Reznov. As pala- mento, uma gigantesca Reichsadler - o símbolo
vras do diário podem emocionar negativa ou da águia nazista - precisa ser derrubada por
positivamente o jogador, dependendo de suas Dimitri com uma Panzerschrek. As ondas de in-
escolhas pelo game. imigos são infinitas enquanto o símbolo nazista
A última missão de Call of Duty: World at não é destruído. Após sua queda, porém, os
War, como já dito, ocorre no interior do Reich- inimigos deixam de atacar, e os soviéticos po-
stag. Uma forte resistência é encontrada, ain- dem assim prosseguir. A Reichsadler, tal como
da que composta por muitos feridos. Diversos na Figura 13, aparece no jogo como person-
inimigos possuem bandagens ensanguentadas, ificação do fanatismo ao nazismo, e, uma vez
mas lutam sem temer a morte. Uma alusão destruída, deixa de estar presente o desejo
à simbologia germânica é perceptível quando, alemão de proteger o III Reich até a morte.

Figura 13: Interior do Reichstag, na última missão de Call of Duty: World at War. Disponível em: <http://i1-news.softpedia-static.com/
images/extra/GAMES/large/COWAWtextscr_001-large.jpg>, acesso 17 out. 2012.

Dimitri e Reznov chegam ao


terraço do Reichstag e avançam
lentamente até a beirada. Uma
cena história então acontece ao
término do game: a bandeira da
União Soviética é fincada no lugar
da bandeira nazista, celebrando a
vitória final dos aliados e a última
batalha pela Europa - além da vin-
gança de Reznov.
A Figura 14 mostra a fotografia
tirada do soldado Abdoulkhakim
Ismailov - personagem que, tal
como Dimitri, lutou desde Stalin-
grado. Na Figura 15, uma alusão à
Figura 14: KHALDEI, Yevgeni. O soldado soviético Ismailov posa para fotografia sobre o mesma cena reproduzida, mas em
Reichstag ocupado. Disponível em: <http://img.photobucket.com/albums/v642/ antsmi- primeira pessoa, tal como no jogo.
th/reichstag_flag.jpg>, acesso 17 out. 2012.

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Figura 15: Uma visão virtual da vitória sobre o Reichstag. Disponível em:
<http://images.wikia.com/callofduty/images/2/2a/Reznov_and_Russian_Flag_Downfall_WaW.png>, acesso 17 out. 2012.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS em torno da noção de representações.


Entre outras, uma das dificuldades relati-
Apesar do encanto inicial proporcionado vas à carência de discussões historiográficas
pelo tema abordado, a realização do presen- focadas nos jogos eletrônicos, apesar de não
te trabalho ofereceu certa dificuldade, dada a ser o foco de atenção do presente trabalho,
carência de fontes historiográficas a ele dedi- diz respeito a como perceber a interação en-
cadas. Isso torna o presente TCC uma con- tre o jogador e o personagem por ele incorpo-
tribuição naquilo que se refere à análise das rado ao longo do jogo, a qual provavelmente
representações veiculadas por videogames, deve ter peso na recepção das representa-
em particular aqueles cujo tema é a Segunda ções veiculadas. Ora, cabe indagar quem é o
Guerra Mundial. ator, uma vez que o personagem do jogo ele-
Concebe-se assim que trabalhar com vi- trônico é comandado e, pode-se dizer, incor-
deogames focados em tal temática é uma con- porado pelo jogador. Diferente daquilo que
tribuição para a reflexão histórica em torno ocorre no cinema, por exemplo, onde o ator
das posteriores representações construídas e não atende aos comandos do expectador.
veiculadas a seu respeito. Visando superar as É uma situação diferente ainda em re-
dificuldades encontradas para a consecução lação ao romance em primeira pessoa, que
de tal objetivo, foi necessário recorrer às re- possibilita ao leitor vivenciar sentimentos, ex-
flexões propostas para o trabalho com outros periências vividas pelos personagens. Mas, no
tipos de imagens, tais como a fotografia e o videogame, é o próprio jogador que toma as
cinema. Em tal sentido, a leitura iconológica decisões, como na vida real, ao passo que, no
e iconográfica, que possibilita a interpreta- romance, ou mesmo no cinema – por mais
ção de um conteúdo contextual apresentado que se vivencie as sensações - é como se ele,
apenas por meio da imagem, aliada à reflexão sonhando, fosse conduzido, mas não decidis-

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se. Mas, conforme indicado, essas não são viéticos teriam se aliado para se sobressaírem
questões que aqui se pretendeu responder. na guerra contra os americanos. E a Rússia
Naquilo que se refere ao que pode ser figura como a inimiga principal dos Estados
observado a partir da análise das represen- Unidos até o último Call of Duty até então lan-
tações dos jogos analisados, percebe-se nos çado, o Modern Warfare 3.
games uma imensa preferência por cenários Da mesma forma, o que são os jogos Sni-
como a França, ou seja: o símbolo geográfico per Elite, senão uma corrida entre Estados
da libertação, na qual as tropas dos Estados Unidos e União Soviética para estabelecer
Unidos tiveram uma participação especial; o quem consegue ter em mãos os brilhantes
espaço primordial do ataque aliado contra o cientistas alemães? Ora, os soviéticos e os
Eixo; a primeira bem-sucedida invasão dos alemães são ambos inimigos em todo o seu
Aliados contra os Alemães. contexto.
Não causa surpresa que o cenário francês Em meio a tais constatações, uma grande
seja enfatizado. Afinal, foi lá que os america- novidade nos games mais recentes, como é o
nos lutaram contra a ocupação nazista. Seus caso de Call of Duty ou Battlefield é, também,
combatentes figuram assim como verdadei- a possibilidade de jogar incorporando perso-
ros heróis libertadores. O americano é tão nagens que representam militares integrantes
enfatizado como ideal de liberdade que os das forças do Eixo. Não que haja essa pos-
jogos simplesmente omitem que os Estados sibilidade nos modos campanha, mas existe
Unidos estiveram envoltos em atrocidades, nos modos online, nos quais, por exemplo,
como o lançamento das próprias bombas russos lutam contra alemães e americanos
atômicas sobre cidades japonesas. A ênfase lutam contra japoneses. Combates estes que
no proposto heroísmo omite assim as atro- transcorrem em cenários históricos, tal como
cidades por eles cometidos, visando enfatizar o Reichstag ou a ilha de Iwo Jima.
seu ideal de democracia e anti-fascismo. Jogando online, é possível constituir “ti-
Observa-se ainda que os personagens in- mes” alemães, norte-americanos, entre ou-
seridos nestes cenários são personificações de tros, que combatem entre si em meio a uma
suas respectivas nações, conforme represen- luta armada. Pode-se controlar soldados na-
tações muito favoráveis ao norte-americano: zistas, e isso é inovador - os produtores dos
os Estados Unidos são representados como games se viram, pela concorrência da indús-
país e exército libertadores; a União Sovié- tria dos videogames, obrigados a inserirem
tica como uma ameaça; a Alemanha como o em seus jogos a opção de se jogar em rede.
vilão, sob o típico clichê do repressor; o Japão E, ao fazê-lo, permitir a escolha em relação a
como terra de impiedosos selvagens. qual lado aderir, simulando a guerra com gran-
Não é o caso de buscar confirmar ou des- de realismo, tendo em vista as possibilidades
mentir tais percepções, mas de evidenciar oferecidas na escolha em meio ao gigantesco
uma leitura de uma única nação legitima, ao arsenal disponível, dentre metralhadoras, ve-
mesmo tempo, uma única verdade. Afinal, a ículos de combate e, não menos, combaten-
vitória dos russos sobre Berlim acarretou uma tes integrantes de diferentes exércitos e, por
longa guerra. Em Call of Duty: Black Ops, que extensão, defensores de ideologias antagôni-
se passa no contexto da Guerra Fria, Reznov cas.
morre em uma prisão russa e Dimitri morre Possibilidades estas inovadoras e que po-
queimado por um terrível gás, ambos traídos dem e devem dar lugar à reflexão entre his-
pela Mãe-Rússia. Ora, sob tal perspectiva, toriadores e outras áreas da produção do co-
tem-se que cientistas alemães e militares so- nhecimento.

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