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Disciplina

As análises do autor se voltam a criação de formas particularmente


refinadas de disciplina, tendo como objeto os mais pequenos e
detalhados aspectos do corpo de cada pessoa. Sugere também a ideia que
a disciplina tenha gerado uma nova economia e uma nova política dos
corpos. As instituições modernas pediam que os corpos fossem
individualizados segundo os seus escopos, e também para o
adestramento, a observação e o controle. Portanto, sustenta, a disciplina
criou uma forma de individualidade totalmente nova para os corpos, que
lhes permitiu adimplir o dever nas formas das organizações econômicas,
políticas e militares que emergiram na idade moderna e ainda
continuam.

Esta disciplina das individualidades constrói para os corpos que controla


quatro características, e constrói por reflexo uma individualidade que é:

● Celular – determina a distribuição espacial dos corpos;


● Orgânica – assegura que as atividades requeridas para os corpos
sejam “naturais” para os mesmos;
● Genética – controla a evolução no tempo da atividade dos corpos;
● Combinatória – faz com que a força combinada de mais corpos se
fundam em uma força de massa.
Foucault sugere que esta individualidade possa ser integrada em
sistemas oficialmente igualitários, mas que utilizam a disciplina para
construir relações de poder desiguais.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Vigiar_e_Punir

From Archaeology to Genealogy


Foucault explicitly presents ​The Order of Things as an “archaeological”
approach to the history of thought. Three years later, in 1969, he
published ​The Archaeology of Knowledge,​ a methodological treatise that
explicitly formulates what he took to be the archaeological method that
he used not only in ​The Order of Things but also (at least implicitly) in
History of Madness and ​The Birth of the Clinic​. The key idea of the
archaeological method is that systems of thought and knowledge
(epistemes or discursive formations, in Foucault’s terminology) are
governed by rules, beyond those of grammar and logic, that operate
beneath the consciousness of individual subjects and define a system of
conceptual possibilities that determines the boundaries of thought in a
given domain and period.​[estruturalismo] So, for example, ​History of
Madness should, Foucault maintained, be read as an intellectual
excavation of the radically different discursive formations that governed
talk and thought about madness from the seventeenth through the
nineteenth centuries.
Archaeology was an essential method for Foucault because it supported a
historiography that did not rest on the primacy of the consciousness of
individual subjects; it allowed the historian of thought to operate at an
unconscious level that displaced the primacy of the subject found in both
phenomenology and in traditional historiography. However,
archaeology’s critical force was restricted to the comparison of the
discursive formations of different periods. Such comparisons could
suggest the contingency of a given way of thinking by showing that the
people living in previous ages had thought very differently (and,
apparently, just as effectively). But mere archaeological analysis could
say nothing about the causes of the transition from one way of thinking
to another and so had to ignore perhaps the most forceful case for the
contingency of entrenched contemporary positions. Genealogy, the new
method first deployed in ​Discipline and Punish,​ was intended to remedy
this deficiency.
Foucault intended the term “genealogy” to evoke Nietzsche’s genealogy
of morals, particularly with its suggestion of complex, mundane,
inglorious origins—in no way part of any grand scheme of progressive
history. The point of a genealogical analysis is to show that a given
system of thought (itself uncovered in its essential structures by
archaeology, which therefore remains part of Foucault’s historiography)
was the result of contingent turns of history, not the outcome of
rationally inevitable trends.
https://plato.stanford.edu/entries/foucault/#ArchGene
Genealogia - Michel Foucault

Utilizado pelo filósofo francês ​Michel Foucault ​(1926-1984) em suas


reflexões sobre as tecnologias e dispositivos de saber-poder, o método
genealógico consiste em um instrumental de investigação voltado à
compreensão da emergência de configurações singulares de sujeitos,
objetos e significações nas relações de poder, associando o exame de
práticas discursivas e não-discursivas. O desenvolvimento das análises
genealógicas contribui para o exame do biopoder, poder que governa a
vida, o que leva Foucault a investigar diferentes dispositivos,
considerados conjuntos articulados de discursos e práticas constitutivos
de objetos e sujeitos, produtivos e eficazes tanto no domínio do saber
quanto no campo estratégico do poder. A genealogia do sujeito moderno
desdobra-se no exame de três dispositivos distintos: o disciplinar, que
toma o corpo como foco de estratégias de saber-poder, desenvolvendo
tanto uma microfísica do poder quanto uma anatomia política dos
indivíduos; o dispositivo de segurança que desenvolve uma biopolítica
das populações, considerando o ser humano como espécie; e o
dispositivo da sexualidade, que emerge do questionamento e da
intervenção em relação ao sujeito, considerando distintos modos de
subjetivação.

O método genealógico surge como questionamento de leituras


metafísicas da história, segundo as quais a pesquisa sobre a origem das
coisas apresentaria como resultado sua essência supra-histórica, o que
permitiria tanto o reconhecimento de seu valor solene, quanto a
descoberta de sua verdade oculta. Como contraponto, Foucault proporá
uma investigação genealógica que problematiza três elementos. Em
primeiro lugar, a genealogia é “dissociativa”, buscando refutar a
existência de essências e identidades eternas, e procurando apresentar os
acontecimentos múltiplos, heterogêneos e disparatados presentes na
origem. Em segundo lugar, ela é “paródica”, destruindo os valores e as
realidades aceitas, negando-se a venerá-los, o que permitiria a liberação
de potências vitais e criativas. Finalmente, a genealogia é “disruptiva” do
sujeito de conhecimento e da verdade, não se limitando a inquirir a
verdade daquilo que se conhece e questionando também quem conhece,
de modo a propor uma crítica do próprio fundamento antropológico do
saber, isto é, do sujeito do conhecimento.

Foucault encontrará no projeto genealógico de Nietzsche um uso bem


definido dos conceitos de “proveniência” (​Herkunft)​ e “emergência”
(​Entsteung​), ambos voltados à problematização da “origem miraculosa”
(​Wunderursprung​) das coisas, com tudo que ela propõe de metafísico e
ilusório às pesquisas históricas, quando pretendem descobrir a essência
das coisas, sua identidade primeira, estado de perfeição e verdade. A
análise da proveniência refere-se à articulação entre corpo e história,
pois é no corpo, segundo Foucault, que os acontecimentos são inscritos.
Mas não se trata de buscar o que é geral e constitutivo de uma
identidade, mas de mostrar a heterogeneidade e a proliferação de
acontecimentos que se encontram na origem das coisas, indicando o que
há de acidental e descontínuo na história. Entendida desse modo, a
proveniência tende a ser omitida das narrativas históricas que, ao
buscarem construir um discurso coerente sobre a origem das coisas,
acabam por desconsiderar elementos que podem causar rupturas à
unidade proposta. Assim que a tarefa daquele que busca realizar uma
“genealogia da ‘alma’ moderna” deve partir da análise minuciosa das
relações entre corpo e história. O exame do sujeito e de suas identidades
remete o genealogista aos diversos acontecimentos heterogêneos pelos
quais ele se forma, de modo que a indicação da proveniência permite a
dissociação do Eu e das identidades constituídas.

A emergência, por sua vez, trata dos acontecimentos, da maneira como


se associam suas significações com as relações de poder; sua análise
procura determinar, na descontinuidade dos acontecimentos, os
diferentes e sempre cambiantes sistemas de submissão a que as coisas
estão associadas, tendo em vista que aquilo que emerge nos
acontecimentos, e sua significação, dependem do estado das forças em
determinado momento. Quando se procura inquirir a emergência, é
preciso atentar às lutas, às confrontações dos adversários, às suas
estratégias e táticas, ao modo como buscam assegurar sua própria
dominação ou então revertê-la, seja pela subversão das regras existentes
ou pela instauração de outras, fazendo com que a sucessão dos sistemas
de dominação esteja, no limite, sujeita ao acaso das lutas. A análise da
emergência propõe uma atenção às relações entre os processos de
dominação e de significação, pois a interpretação dos acontecimentos
está orientada pelas perspectivas daqueles que combatem.

MORAES, Marcos Vinicius Malheiros. 2018. "Genealogia - Michel


Foucault". In: ​Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de
São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em:
<​http://ea.fflch.usp.br/conceito/genealogia-michel-foucault​>
Foucault – Corpos Dóceis

O Corpo Dócil é o primeiro personagem de Foucault, ele é um produto


que está em todas as prateleiras de nossa sociedade, vem nas mais
diversas embalagens e pode ser encontrado em praticamente todas as
instituições. Ele é o corpo que foi trabalhado arduamente. Trata-se,
enfim, do efeito esperado pelo poder disciplinar.

Como um origami, o poder disciplinar nos dobra até obter a forma que
mais lhe apraz.

O corpo dócil se faz na união destas duas características: utilidade em


termos econômicos e docilidade em termos de obediência política. A
fórmula é simples: o corpo dócil é tão obediente quando produtivo. O
soldado mais mortal e que obedece ordens mais prontamente; o aluno
mais quieto e que tira notas mais altas; o trabalhador mais produtivo e
menos preguiçoso; o doente mais criterioso no hora de tomar seus
remédios e menos queixoso às dores do tratamento.

O corpo se tornou alvo do poder, descobriu-se que ele podia ser


moldado, rearranjado, treinado e submetido para se tornar ao mesmo
tempo tão útil quanto sujeitado.
Pouco a pouco foi dobrado pelo poder, de maneira sutil, através de várias
técnicas de dominação: no espaço, no tempo, nas gêneses, nas
composições. Não que esta criação seja inédita, as relações de força agem
e agiram desde sempre, mas com a modernidade o corpo passou a ser
dividido, separado, medido e investigado em cada detalhe.

Quanto mais dócil, mais dificilmente emperrará a máquina de produção.


Tão reprimido quanto treinado, aceitará facilmente as coisas como são.
Tão submetido quanto lucrativo, se esforçará para entrar no mercado de
trabalho e vender sua força.
No mesmo espaço encontramos divisórias e aberturas de fluxos. O
encarcerado e o trabalhador se confundem, os dois estão presos e não
sabem como escapar. Um por muros altos, outro porque foi
condicionado a obedecer e não sabe fazer de outra maneira. O poder cria
sujeitos que se curvam ao modo de vida capitalista e à sua maneira de
existir.

Se ficarmos com a versão moderna: família/creche, primeiros anos de


treinamento e adestramento; escola/faculdade, onde ao mesmo tempo se
aprenderá um ofício e a melhor obedecer; escritório, momento de
produzir, hora de ser alguém na vida, um membro útil de nossa
sociedade. Caso alguma coisa dê errada: hospital, igreja, hospício,
cadeia.

A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos


‘dóceis’. A disciplina aumenta as forças dos corpo (em termos
econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos
políticos de obediência) […] a coerção disciplinar estabelece no corpo o
elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e a dominação acentuada”

– Foucault, Vigiar e Punir

Enfim, os corpos dóceis são efeitos reais de uma sociedade disciplinar


que produz indivíduos seriados. Ninguém escapa. A violência agora é à
conta gotas, distribuída homeopaticamente ao longo da rotina.

O Poder Disciplinar
Vigiar e Punir compõem o projeto foucaultiano de escrever a genealógica
do indivíduo moderno em termos de “objetivação”. A crítica genealógica
analisa o momento em que homem é feito “objeto” pelas modernas
tecnologias do poder-saber.
Assim, o alvo central das pesquisas que culminaram na “História da
Violência nas Prisões” é, muito mais, a emergência da tecnologia
disciplinar, e não exatamente a história da prisão.
Nessas análises, Foucault indica que as disciplinas incidiram sobre os
indivíduos, mais especificamente sobre seus corpos e “almas”,
procurando tomá-los “perceptíveis”, “manipuláveis” e “manufaturáveis”,
segundo as exigências do modelo de sociedade industrial e capitalista
que estava se estabelecendo.
O poder disciplinar não deve ser reduzido a condição de resultado da
vontade do aparelho de Estado ou de uma determinada instituição, pois
funciona como uma rede que os atravessa, transcendendo-os, já que não
se limita às suas fronteiras. A disciplina é uma técnica, um dispositivo,
um mecanismo, um instrumento de poder; são métodos que possibilitam
o controle do corpo nos menores detalhes, que garantem a sujeição
constante de suas forças, impondo a este uma relação de sujeição:
“docilidade-utilidade” Esta prática disciplinar não atua a partir do
exterior dos indivíduos, de fora para dentro ou de cima para baixo, ela
trabalha os corpos dos homens manipulando e controlando seus
elementos, produzindo seus comportamentos.

A emergência do poder disciplinar é analisada por Foucault a partir de


um quadro histórico bastante complexo, com a explosão demográfica do
século XVIII e o crescimento do aparelho de produção, expressa-se a
necessidade de “fabricar” um tipo de homem que sirva para o
funcionamento e a manutenção da sociedade industrial e capitalista.
Nesse momento, acontece o que o pensador chama de dominação
política do corpo, realizada como resposta à necessidade de sua
utilização. Por um lado, essa utilização é racional, intensa, máxima em
termos econômicos; por outro, este corpo só se toma força de trabalho
quando produzido, lapidado e instrumentalizado pelo sistema político de
dominação característico do poder disciplinar.
“(...) a disciplina é o processo técnico unitário pelo qual a força do corpo
é com o mínimo ônus reduzida como força “política", e maximizada
como força útil. O crescimento de uma economia capitalista fez apelo à
modalidade específica do poder disciplinar, cujas fórmulas gerais, cujos
processos de submissão das forças e dos corpos, cuja 'anatomia política’
em uma palavra, podem ser postos em funcionamento através de
regimes políticos, de aparelhos ou de instituições muito diversas. ”

As “práticas de objetivação” estão presentes nas mais diferentes


instituições, como também no que há de mais singular nas pessoas, os
seus corpos. A crítica genealógica mostra, na modernidade, em meio ao
grande otimismo nos benefícios da Razão Humana, o momento em que o
corpo foi problematizado política e cientificamente, sendo submetido à
condição de objeto, enquanto alvo privilegiado das disciplinas. Para as
técnicas disciplinares, cada aspecto do corpo deveria ser modificado
conforme as necessidades, correspondendo as exigências políticas e
econômicas de menor capacidade de revolta e maior força produtiva
Constitui-se, assim, toda uma anatomia política do corpo humano, onde
a relação trabalho-sujeição é desenvolvida com base nessa nova
racionalidade política, que tem no corpo o espaço próprio às técnicas
disciplinares.

“A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos


“dóceis”. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos
econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos
políticos de obediência). ”

Foucault faz uma minuciosa descrição da tecnologia disciplinar que,


segundo ele, apresenta como características a arte das distribuições, o
controle das atividades e a organização das gêneses, e a composição das
forças.

A arte das distribuições - a disciplina é um tipo de organização do


espaço. É uma técnica de distribuição dos indivíduos por meio da
inserção dos corpos em um espaço individualizado, classifícatório,
combinatório. Trata-se de fechar, enclausurar, esquadrinhar,
hierarquizar para arrumar. A técnica é capaz de realizar funções
diferentes dependendo do objetivo específico que dela se exija.
Cabe salientar, que entre as características do poder disciplinar esta é a
menos importante, pois as relações de poder disciplinar não precisam
necessariamente de um espaço fechado para que aconteçam Ou seja, na
medida em que se espalham pelo campo social, as disciplinas não
dependem exclusivamente de uma determinada instituição ou de um
conjunto delas para que possam ser praticadas, embora sejam sempre
encontradas nas escolas, fábricas, exércitos, prisões, etc.
O controle das atividades e a organização das gêneses - bem
mais importante que a primeira, essa característica mostra que a
disciplina é um controle do tempo. Estabelecendo uma sujeição do corpo
ao tempo, objetiva extrair dele o máximo de rapidez e eficácia Aqui, o
que vale não é simplesmente o resultado de uma ação. Por exemplo, se
falássemos de uma fábrica, uma empresa ou uma escola o que
interessaria não seria unicamente o resultado final, aquilo que foi
produzido ou aprendido; o mais importante seria todo o seu
desenvolvimento, para ai sim se chegar ao melhor resultado final. Um
controle minucioso de todo o desenvolvimento, de todas as operações
que o corpo realiza é feito através da elaboração temporal do ato, da
correlação de um gesto específico com o corpo que o produz e, por
último, por meio da articulação do corpo com o objeto a ser manipulado.
Foucault acrescenta: “O poder se articula diretamente sobre o tempo;
realiza o controle dele e garante sua utilização. ”

A composição das forças - junta e ordena as forças produtivas, no


tempo e no espaço, objetivando um resultado superior ao somatório das
forças elementares que as compõem: “A disciplina não é mais
simplesmente a arte de repartir os corpos, de extrair e acumular o tempo
deles, mas de compor forças, para obter um aparelho eficiente. ”

Foucault mostra como esta composição de forças está presente,


inicialmente, nos efeitos da utilização do fuzil pelas infantarias na
modernidade. Ao invés de uma tropa lenta com ações imprecisas, a
invenção do fuzil possibilitou uma verdadeira arte de distribuição e
organização dos soldados, bem como a necessidade de sua maior
organização, mobilidade e flexibilidade. Aliada às necessidades
econômicas, a invenção do fuzil estabelece a importância da articulação
dos mínimos gestos dos soldados, dos tempos elementares de suas ações,
bem como dos fragmentos de espaços ocupados e percorridos por esses.

Nunes, Nei Antonio. ​Michel Foucault E a Genealogia Como Crítica Do


Presente: As Práticas Disciplinares E a Analítica Do Poder E Da
Sexualidade.​ 2000.
http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFSC_342011c661d8f7a9fd12165f1c
303ceb