Você está na página 1de 181

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

Reitor Edward Madureira Brasil


Vice­Reitor Sandramara Matias Chaves

FACULDADE DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO


Direção Angelita Pereira de Lima
Vice­Direção Andréa Pereira dos Santos

PROGRAMA DE PÓS­GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO ­ PPGCOM


Coordenação Dra. Andréa Pereira dos Santos
Vice­Coordenação Dra. Ana Rita Vidica Fernandes

Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida, desde que citada a fonte. Todos os direitos desta
edição reservados ao Programa de Pós­Graduação em Comunicação da Faculdade de Informação e
Comunicação da Universidade Federal de Goiás.

Disponível em http://mestrado.fic.ufg.br e https://semic.fic.ufg.br

Editoração, formatação e preparação dos originais: Geisa Müller de Campos Ribeiro


Diagramação: Kamilla Cristina da Cunha Santos
Ilustração: Mayllon Oliveira

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


RESPONSÁVEL: GEISA MÜLLER

Seminário Nacional de Mídia e Cultura (12. : 2018: Goiânia, GO)

S471a
Anais do XII Seminário Nacional de Mídia e Cultura [recurso eletrônico] Organizado por Suely
Gomes, Geisa Müller, Mayllon Oliveira. –
Goiânia: PPGCOM/FIC/UFG, 2018.
180 p.

ISSN 2179­ 2860

1. Comunicação. 2. Mídia. 3. Cultura. I. Gomes, Suely. II. Müller, Geisa. III. Oliveira,
Mayllon.
CDU: 316.77

PPGCOM/FIC/UFG

Universidade Federal de Goiás ‐ Campus Samambaia 
Faculdade de Informação e Comunicação ‐ Rua Samambaia 
Programa de Pós‐Graduação em Comunicação ‐ Sala 16 
Caixa Postal 131 . CEP 74001‐970 . Goiânia‐Goiás . Brasil 
Telefone: (62) 3521‐1514 
XII SEMINÁRIO NACIONAL DE MÍDIA E CULTURA

REALIZAÇÃO
Programa de Pós­Graduação em Comunicação
Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás – FIC/UFG

COMISSÃO ORGANIZADORA
Suely Henrique de Aquino Gomes
Claudomilson Braga
Rosana Maria Ribeiro Borges
Geisa Müller de Campos Ribeiro
Mayllon Oliveira
Eduardo Portanova Barros
Pedro Faria
Carlos Henrique Martins (UFG)
Denise Soares (UFG)
Elisa Manuela Ferreira Cardoso (UFG)
João Victor Mariano Barbosa Inácio Lauriano (UFG)
Juliana Cristina Barbosa Albuquerque (UFG)
Kamilla Cristina da Cunha Santos (UFG)
Karen Muzany (UFG)
Louise Ramiro Costa (UFG)

COMITÊ CIENTÍFICO
Dra. Adriana Rosa Cruz Santos (UFF)
Dr. Alexandre Tadeu dos Santos (UFG)
Dra. Ana Carolina Rocha Pessôa Temer (UFG)
Dra. Andréa Pereira dos Santos (UFG)
Dra. Ângela Teixeira de Moraes (UFG)
Dra. Cicilia M K Peruzzo (FIAM/FAAM)
Dr. Claudomilson Fernandes Braga (UFG)
Dr. Dalton Lopes Martins (UNB)
Dr. Deyvisson Costa (UFMT)
Dr. Eduardo Portanova Barros (prof. Visitante PPGCOM/FIC/UFG)
Ma. Filipe Reis
Ma. Frederico Oliveira
Ms. Geisa Muller (UFG)
Dr. Goiamérico Felicio Carneiro dos Santos (UFG)
Dr. João de Melo Maricato (UnB)
Dra. Kelley Cristine Gonçalves Dias Gasque (UNB)
Dra. Luciene de Oliveira Dias (UFG)
Dr. Luiz Antonio Signates Freitas (UFG)
Dr. Magno Luiz Medeiros da Silva (UFG)
Dra. Marcia Tondato (ESPM)
Dra. Marli dos Santos (Cásper Líbero)
Ma. Mariana Reis Mendes (UFG)
Dra. Mônica Rodrigues Nunes (USP)
Dra. Nélia Rodrigues Del Bianco (UNB)
Ma. Pedro Simon Gonçalves Araújo (UFG)
Ma. Raniê Solarevisky de Jesus (UFG)
Dr. Ricardo Pavan (UFG)
Dra. Rosana Maria Ribeiro Borges (UFG)
Dra.SimoneAntoniaciTuzzo (UFG)
Dra.Suely Henrique de Aquino Gomes (UFG)
Dr.Tiago Mainieri Oliveira (UFG)
Dra.Valquíria Aparecida Passos Kneipp (UFRN)
Ma. Weber Feliz de Oliveira (UFG)
Anais de Resumos Expandidos do
XII Seminário Nacional Mídia e Cultura

TEMA
Utopias e Distopias: Modos Culturais, Mídia e Cidadania

Outubro de 2018
SUMÁRIO

Apresentação..................................................................................................................................................... 6
Tema Central..................................................................................................................................................... 8

GT Interfaces da Comunicação
Crônica em movimento: (in)confidências cotidianas no transporte coletivo de Goiânia...................... 10
Trabalho e envelhecimento: o ser, o estar e o vivenciar face à conjuntura político­tecnológica
contemporânea.................................................................................................................................................. 14

Representações sociais de jovens de Goiânia: análise do Jornal Daqui.................................................... 17

Mineração de tweets no apoio à análise da disputa eleitoral presidencial.............................................. 20

Comunicação e saúde pública: a universidade na prevenção ao vírus hiv/aids.................................... 26

Aplicabilidade da pesquisa ação e da pesquisa participante no campo da comunicação...................... 30

Lobby e comunicação pela perspectiva dos profissionais de relações públicas....................................... 36

Objetividade jornalística: discussões e reflexões sobre uma possibilidade de construção de


conhecimento..................................................................................................................................................... 40

Comunicação e educação na perspectiva dos profissionais da educação a distância............................ 44

A percepção dos profissionais de comunicação das Instituições Públicas de Ensino Superior em


Goiás sobre comunicação pública.................................................................................................................. 49

GT Mutações Discursivas, Comunicação, Literatura e Consumo


Insurgente: crônica da repressão policial em três manifestações contemporâneas................................ 56

O desejo invejoso: uma perspectiva de cercas e pontes no ato do consumo........................................... 61

Tecnologia ancestral: a lírica performática e a estética de resistência em “lundu” de Tatiana


Nascimento........................................................................................................................................................ 65

Novos mercados e consumo: um estudo teórico do perfil dos leitores da darkside books................... 69

Follow me: a era dos consumidores consumíveis........................................................................................ 72

Elas Falam de Si: A expressão artística de mulheres goianas por meio da literatura............................. 75

GT Identificações Culturais e Produção de Sentidos


Amizade e desavenças: jogadores, seus perfis e vínculos em mmorpg.................................................... 80

A contribuição de Raymond Williams para a comunicação: uma análise a partir da obra“cultura


e sociedade”....................................................................................................................................................... 83

Saúde e significações em um mundo disperso: estudo de caso sobre a primeira capa de revista sobre
a prep no Brasil.................................................................................................................................................. 87
Oliver Queen, Daniel Rand e o jogo das identidades como ganho narrativo em Arrow e Iron Fist.... 92

Super­ heróis como fenômeno da cultura midiática: em busca de sentido na sociedade contempo­
rânea.................................................................................................................................................................... 96

Mídia, cultura e tecnologia: o corpo plugado e a imersão.......................................................................... 98

O espaço fílmico como elemento de mediação comunicacional e produção de sentido: uma análise
de pendular........................................................................................................................................................ 101

Gari: heróis da rua............................................................................................................................................ 104

GT Corpo, Gênero e Subjetividade


Abusos e superações: perfis de mulheres que sofreram com relacionamentos abusivos...................... 108

Escrevendo utopias menores........................................................................................................................... 111

Destituir a si mesmo: a subjetividade do ser em revolta............................................................................. 114

Mãos na massa: rede e diálogos na cozinha da folia................................................................................... 117

A invisibilidade das mulheres na ciência: análise da produção científica de docentes dos cursos de
mestrado em Letras e Linguística e em Matemática da Universidade Federal de Goiás – Campus
Samambaia......................................................................................................................................................... 121

A permeação da violência doméstica e das representações sociais na novela “Segundo Sol”.............. 125

Em defesa da diferença: por outras epistemologias indígenas, quilombolas e negras nas universi­
dades................................................................................................................................................................... 129

Padrão da cobertura de feminicídios e punibilidade dos agressores: o que a imprensa nos conta ao
longo das décadas............................................................................................................................................. 134

Novas produções de sentido: o caso do Ministério Evangélico LGBTQ+ “movimento cores”............ 137

Vestir para reconhecer e resistir: por um olhar queer do dispositivo da moda...................................... 140

Imagens, Cinema e Cultura Visual


Do avesso: a desconstrução do vídeo 24 hours Psycho de Douglas Gordon........................................... 145

Infância e youtube: a performance da proximidade.................................................................................... 149

Grupodidatismo em gameplays: inovações narrativas............................................................................... 152

Por uma noção de transparência: em busca do realismo fotográfico dos anos 1920.............................. 156

Baby Driver: remix como narrativa................................................................................................................ 160

Swordswoman: a representação da mulher espadachim nas séries vikings e Game OfThrones......... 163

A pose fotográfica nos retratos dos álbuns de família: uma proposta de cruzamento de imagens..... 169

Star Wars e as novas configurações narrativas no cinema......................................................................... 172

A descrição Imagética na hashtag #PraCegoVer: Uma Análise a partir da relação entre texto e
imagem............................................................................................................................................................... 175

A Twitch como meio emissor de uma mensagem....................................................................................... 178


APRESENTAÇÃO

O décimo segundo Seminário Nacional Mídia, Cidadania e Cultura – XII Semic –


promovido pelo Programa de Pós­Graduação em Comunicação, Cultura e Cidadania da
Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás – PPGCOM/FIC/
UFG, nos dias 18 e 19 de Outubro de 2018, em Goiânia, teve como tema central "Utopias e
Distopias: modos culturais, midia e cidadania”.
A escolha do tema central para o evento foi extremamente feliz pois marca os 50 anos
do movimento estudantil que assolou Paris em maio de 1968 e se propagou para outros
países nas décadas seguintes. Talvez, uns dos mais conhecidos slogans do movimento, e que
resistiram até os dias de hoje, sejam “é proibido proibir”; “As armas da crítica passam pela
crítica das armas”; “Professores, vocês nos fazem envelhecer” ­ os dois primeiros inspirando
canções como ”É proibido proibir”, de Caetano Veloso, “É proibido fumar”, de Roberto
Carlos, e “Caminhando”, de Geraldo Vandré – que embalaram a juventude brasileira nos
anos mais extremados da ditadura militar no país.
O ano 1968 foi, na perspectiva de Cardoso¹, o “ano síntese de contradições e
mudanças radicais na história mundial”. Zuenir Ventura² dá uma dimensão desse
acontecimento quando pondera que “ao se comportar como se fosse um ser animado
suspeita­se que 1968 não foi um ano, mas um personagem – inesquecível e que teima em não
sair de cena”. Podemos dizer que esse movimento inaugurou uma ébria utopia libertária das
diferenças. Foi responsável por instaurar as “novas esquerdas” e oxigenar os movimentos
de minorias políticas³ (feministas, homossexuais, ambientalistas) ao confrontar as categorias
universalizantes e totalitárias – sustentáculo do marxismo ortodoxo4.
A intenção dos organizadores do evento ao elegerem “utopias e distopias” como tema
central marcando os 50 anos de maio de 68 foi propiciar espaço de reflexão e respeito às
diferenças, sob a perspectiva da Comunicação. “Diferenças que têm um caráter pluralista, e
não dicotômico, no sentido de que são vistas, percebidas e, mais importante de tudo, sentidas
nas mais diversas áreas do conhecimento, tanto científico quanto popular”, nos elucida Prof.
Eduardo Portanova, na defesa e apresentação do evento.
Discutir tais questões se torna relevante frente às guinadas ultradireitistas,
ultraconservadoras e ultranacionalistas que assolam o mundo e que culpabilizam os
protagonistas do movimento de 68 de imporem “a nós todos um relativismo intelectual e
moral. Os herdeiros de maio de 68 fizeram prevalecer a ideia de que não havia mais
diferenças entre o bem e o mal, a verdade e a feiúra. A herança de maio de 1968 introduziu o
cinismo na sociedade e na política”5. Pelo confronto com os ideais marxistas, a rebelião de
maio de 68 é responsabilizada pelo fortalecimento do capitalismo, do consumismo e
individualismo.
Nesse momento delicado de nossa política, é necessário alinharmos estratégias,
saberes e práticas e nos prepararmos para os enfrentamentos dos desafios que nos esperam. É
necessário restituirmos a ludicidade política, a solidariedade e a crença que embalaram a
juventude de 68 de que profundas mudanças sociais podem ser provocadas para a
instauração de um novo arranjo social, sem perder a doçura, o bom­humor, mesmo que de
forma debochada ou escrachada, marca da nossa juventude – se isso for possível nesses
tempos estranhos que atravessaremos. É necessário que as estruturas desçam novamente as
ruas6.

6
Desta forma, elegemos o XII Semic como locus privilegiado dessa espera que nos
levou, sob a ótica da Comunicação, a reflexões, debates, proposições, deliberações rumo à
defesa e luta por uma sociedade mais justa, mais plural e democrática, retomando o
imaginário a utopia motivadora da geração de 68 de que um outro mundo é possível,
tomando cuidado para que não caiamos em outros modos de dominação e submissão.
Restauremos nossa capacidade de sonhar, imaginar e lutar por um mundo melhor. Riscos são
imanentes às aventuras de ousar, mas não podemos nos paralisar diante desses.
Para conduzir as reflexões tão necessárias quanto desejadas no contexto político atual,
contamos como as participações dos professores Teixeira Neto ­ que proferiu palestra sobre
“Utopias e distopias: Entre a vida e a arte de viver” ­ e Cleomar Rocha ­ que nos levou ao
imaginário de uma cidade tecnológica com a fala “Humanidades Digitais: Entre a vida e a
arte de viver”. Ficam aqui registrados nossos agradecimentos pela magnitude da doação de
seus tempos para abrilhantar nosso evento.
Aqui disponibilizamos a miríade de pensamentos e proposições de nossos autores.
Pluralidade, fragmentações, recortes epistemológicos que representam as diferentes e
diversas possibilidades de se analisar, criticar e pensar a comunicação e seus problemas de
pesquisa. Esperamos que sirvam de inspiração para pensarmos a Comunicação sob a ótica
dos acontecimentos contemporâneos. Há de se problematizar sobre papel da mídia pós­maio
de 68. Desvendar como os meio de comunicação se apropriaram dos ideais do movimento e
os tornaram mercadorias, sinalizando para uma vida feliz e libertária ­ “Liberdade é uma
calça velha, azul e desbotada”7. Seria a mídia o poderoso dispositivo que na
contemporaneidade nos tornou o que somos? Fica a questão que, apesar dos nossos esforços,
ainda não foi plenamente respondida.
No mais, minha gratidão a todos e todas (autores e autoras, avaliadores e avaliadoras,
mestrandos e mestrandas, docentes do PPGCOM, funcionários e funcionárias da FIC­UFG,
oficineiros e oficineiras) pela parceria e por acreditar que somos capazes de dialogar e
enfrentar as diversidades. Fica um convite para cada participante: “Seja realista: peça o
impossível”8.
Obrigada por terem participado do XII SEMIC. Que venha o próximo!

Suely Henrique de Aquino Gomes


Coordenadora Geral do XII SEMIC

¹ CARDOSO, Lucileide Costa. Ecos de 1968: 40 anos depois. Revista do Centro de Artes, Humanidades e Letras
vol. 2 (1) 2008.
² (2008, apud CARDOSO, 2008, p. 6)
³ Esses movimentos não estavam presentes em maio de 68, mas tomaram impulso a partir desse acontecimento.
4 Araújo, Maria Paula Nascimento. A utopia fragmentada: as novas esquerdas no Brasil e no mundo na década
de 1970. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000.
5 Discurso de Sarkozy, atual presidente da França, citado por Cadoso (op. Cit, p. 6).
6 “Em 1968, uma das frases mais famosas que apareceu nos muros de Paris foi: ‘As estruturas não caminham
pela rua!’ [...] A resposta de Jaques Lacan foi que, em 1968, na verdade, aconteceu exatamente isto: ‘As
estruturas desceram indubitavelmente às ruas’.” In: As estruturas não caminham pela rua!" O maio de 68,
segundo Zizek. Artigo publicado originalmente pelo jornal La Repubblica, em 14/04/2008. Disponível em
http://slavoj­zizek.blogspot.com/2009/12/as­estruturas­nao­caminham­pela­rua­o.html. Acessado em
Dezembro de 2018.
7 Anúncio televisivo de calças jeans, nos anos 1970, “que exibia um grupo alegre de rapazes e moças apinhados
num trem, percorrendo campos verdes e ensolarados ao som do jingle: “Liberdade é uma calça velha, azul e
desbotada” (CARDOSO, op cit, p. 9).
8 Uma das pichações dos muros de em Paris em Maio de 68. Gabriel Kwak. As lições de 1968, 40 anos depois.
Disponível em <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/getulio/article/viewFile/61600/59779>,
acessado em Dezembro de 2018.

7
TEMA CENTRAL

Utopias e Distopias: Modos Culturais, Mídia e Cidadania

A intenção é refletir a respeito das diferenças. Diferenças que têm um caráter


pluralista, e não dicotômico, no sentido de que são vistas, percebidas e, mais importante de
tudo, sentidas nas mais diversas áreas do conhecimento, tanto científico quanto popular.
Não se trata só de A ou B. Sem uma reflexão sobre nossas utopias e distopias, portanto,
ficamos à deriva, sem rumo. Mesmo sendo a utopia uma ilusão, continuamos nosso sonho.
Mas e se não sonharmos mais? Há quem enxergue tudo de outra forma, sem esperança. Essa
outra forma é o niilismo reativo, recalcitrante, pessimista. Esse niilismo negativo, digamos,
chama­se distopia. Um nada. É o contrário da utopia. Porém, e daí a importância do debate,
a utopia pode se transformar em algo perverso, como no 11 de Setembro de 2001, por
exemplo, quando terroristas atacaram a então inexpugnável nação norte­americana.
Esse conflito Teixeira Coelho, um dos nossos convidados, denominará de “guerras
culturais” (e a Comunicação é que dá visibilidade a isso tudo). Diz ele que essas várias
culturas estão permanentemente em guerra, uma guerra – como toda guerra ­ paradoxal, isso
porque ela se intensificou no século 20 graças aos mesmos meios tecnológicos que têm
servido, por outro lado, para nossa difusão cultural, que é a temática das polaridades. As
polaridades (teoria­empiria, mente­corpo, indivíduo­sociedade) nem sempre tomam uma
configuração oposta. São antagônicas, sim, mas, simultaneamente, complementares.
Em meio a isso, a cultura, a mídia e a cidadania. Resta saber se o “desencantamento
do mundo” weberiano, considerando aqueles termos “tópicos”, traveste­se, na atualidade,
de uma ontologia niilista. Leia­se: o sentimento de perda da realidade. Não foi Heidegger
que propôs um mergulho profundo no Ser? Ser, este conceito universal, mas que, segundo
Heidegger, permanece obscuro. O resultado está aí sob uma forma interrogativa que este
seminário nos aponta. O que motiva o ser? Qual é, na verdade, para citar uma ideia de outro
alemão, Georg Simmel, o “rei secreto” (imaginário) desta época? Este encontro, portanto, que
esperamos seja proveitoso, é só um minúsculo passo para nosso longo caminho investigativo
em função dessa vasta e desafiadora constelação simbólica dos contrários, das positividades
e negatividades culturais. Isso porque, para o pior ou para o melhor, não se interage no
vazio. Para finalizar, poderíamos citar outro pensador das polaridades (entre vários outros),
além de Teixeira Coelho, que faz um questionamento sério: “Como pode o homem, apesar
da vida, tornar­se poeta”. Esse é o ponto. Esse é o ponto entre a vida e a arte de viver.

Prof. Dr. Eduardo Portanova Barros

8
GT Interfaces da
Comunicação
Coordenação Andréa Pereira dos Santos e Filipe Reis
CRÔNICA EM MOVIMENTO: (IN)CONFIDÊNCIAS COTIDIANAS NO
TRANSPORTE COLETIVO DE GOIÂNIA

Amanda Lopes Sales1


Juliana França Oliveira2
Angelita P. Lima3

RESUMO

Goiânia segue o modelo de 90% do Brasil no que diz respeito ao fornecimento


de transporte coletivo para a população (GOMIDES, 2006). Conforme o padrão
nacional, o transporte público da capital goiana é formado por frotas de ônibus urbanos,
administradas por empresas privadas escolhidas pela administração municipal por meio
do modelo de licitação.
Nos ônibus que cortam Goiânia e Região Metropolitana (RMG), trabalhadores e
estudantes passam boa parte de seus dias no trajeto entre a casa, a escola/universidade e
o local de trabalho.
A empresa responsável por operar o transporte coletivo e organizar a rede de
transporte de forma integrada em toda a RMG é a Rede Metropolitana de Transporte
Coletivo (RMTC), criada em 2008 para esse fim. A organização atual da RMTC atende
a 18 municípios da RMG que abrangem uma área de 6576 km². Operam no sistema 293
linhas de ônibus convencional e 10 linhas de Citybus que, apesar da capacidade menor,
fornece aos passageiros um ambiente mais confortável com ar-condicionado e poltronas
acolchoadas. O sistema é composto, ainda, por 21 terminais de integração, que
permitem aos usuários fazer integração entre diversas linhas utilizando uma tarifa-única,
e mais de 6400 pontos de embarque e desembarque (RMTC, 2018).
A situação generalizada de caos e má administração do transporte público
municipal em Goiânia também segue a tendência nacional. “O tempo excedente nas
viagens poderia ser aproveitado para outras atividades remuneradas ou para a satisfação
de necessidades básicas, como de lazer, por exemplo. Além disso, as longas viagens são
responsáveis por reduções na produtividade do trabalhador urbano” (GOMIDE, 2003, p.

1
Amanda Sales é graduanda em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, na Universidade
Federal de Goiás, em Goiânia. E-mail: amandalopessales@gmail.com;
2
Juliana França é graduanda em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, na Universidade
Federal de Goiás, em Goiânia. E-mail: jufrancaoliv@gmail.com.
3
Profª. Drª. na Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás.
angelitalimaufg@gmail.com
10
14). A estrutura do transporte coletivo é formada pelos ônibus, linhas, pontos, terminais,
mas também pela massa orgânica que faz toda a infraestrutura ser necessária. Os
passageiros do transporte coletivo de Goiânia são os instigadores deste trabalho que
investiga in loco os diálogos do cotidiano. Apesar do objeto empírico da pesquisa ser o
transporte coletivo de Goiânia, é possível ampliar este foco para o efeito dos
deslocamentos cotidianos nos habitantes das cidades.
O gênero jornalístico utilizado para dar vida a estes personagens reais
encontrados nos ônibus e terminais foi a crônica. Além de ser um gênero que se
consolidou no país de modo distinto ao do resto do mundo, a produção da crônica
brasileira permite também uma variedade de abordagens. “Crônica, modernamente,
como se pratica no Brasil, é literatura, que vai da emoção à ironia” (LAGE, 2005, p.
28). Diante de uma história que as autoras ouviram como espectadoras indiretas, surgiu
a inquietação de concretizar os diálogos que (in)surgem no transporte coletivo pelo
prisma do jornalismo. Diante da narrativa, observou-se que as conversas entre pessoas
em situações cotidianas, como o trajeto nos ônibus, constituem crônicas orais e
inconscientes. Sendo assim, as crônicas que escrevemos são resultado do princípio de
que há semelhanças entre a oralidade e este gênero escrito.
Neves (2012, p. 82) acredita que a crônica é um gênero de “língua escrita com
alto grau de coloquialidade, que toca a natureza da língua falada”, que pode ser expressa
no texto utilizando recursos de formulação textual como os parênteses e os travessões,
por exemplo. As (in)confidências ditas e ouvidas nos ônibus, durante as viagens
cotidianas, resultarão em um livro-reportagem de crônicas. Desse modo a área
abrangente deste compilado de crônicas será o Jornalismo Literário. Por Jornalismo
Literário não podemos ter em mente “um subgênero do jornalismo a que chamaríamos
tradicional, cujas fundações baseiam-se na distinção entre informação e opinião”, mas
“um conjunto composto por diferentes categorias textuais e gêneros discursivos”
(PASSOS E ORLANDINI, 2008, p. 78 e 79).
É evidente que as impressões das autoras terão peso no momento de captar os
diálogos e transformá-los em crônicas. Esta noção se justifica com a inserção do gênero
na categoria do jornalismo opinativo. No entanto, o foco escolhido nas narrativas é a
influência da oralidade na produção de crônicas e a existência de características do
gênero nos diálogos. Para construir estas crônicas do diálogo inconcluso, devemos nos
valer de recursos da oralidade, típicos da linguagem falada, no texto escrito. Neves

11
(2012, p. 95) justifica esta possibilidade após exame que faz da crônica e que “mostra-a
como um gênero que muito comodamente revela as próprias características que a
definem, quando aciona recursos prioritariamente ligados à produção de língua falada”.
A abordagem da pesquisa é qualitativa e o método é o Etnojornalismo, ou seja, a
Etnografia aplicada ao campo do Jornalismo. Esse método, utilizado principalmente em
trabalhos de Jornalismo Literário, proporciona ao profissional se aprofundar de uma
maneira que outros métodos mais conhecidos no meio acadêmico não proporcionam.
Este método se baseia, como sugere Travancas (2006) na imersão. Deste modo, não
haveria método mais adequado para a elaboração de um livro-reportagem do que o
etnojornalismo, já que as autoras pretendem extrair a matéria prima das crônicas das
vivências apreendidas em viagens de ônibus por Goiânia. No que tange à publicação das
crônicas, o estudo de Chiquin (2005) dá conta de que o gênero não se torna ‘menos
jornalístico’ por não ter sua publicação em um periódico e posteriormente em um livro,
uma vez que não é apenas seu suporte que o insere no campo da comunicação.
Tendo em mente a possibilidade concreta de publicação da crônica em livro,
surge como opção o livro-reportagem. Apesar de, como sugere o nome, este tipo de
publicação servir como suporte das reportagens em profundidades, é possível adaptar
sua funcionalidade para a publicação de crônicas em caráter experimental.Neste sentido,
como dito anteriormente, as autoras pretendem seguir o modelo de Lima (2009),
reunindo de dez a quinze crônicas agrupadas que, de alguma forma, proporcionem
críticas sociais e uma possível reflexão sobre as histórias orais e cotidianas que, aos
ouvidos leigos, podem soar como frivolidades.
A pesquisa em questão permitiu além da elaboração do livro, a conclusão de que
as narrativas orais inerentes ao ser humano podem resultar em narrativas jornalísticas
ricas e capazes de diversificar a produção da área, bem como contribuir para a pesquisa
acadêmica nos cursos de Jornalismo.

Palavras-chave: Jornalismo. Crônica. Transporte coletivo. Goiânia.

REFERÊNCIAS

CHIQUIM, Giovana. A impressão do cotidiano: um estudo das ambiguidades da crônica


e a transgressão de seu caráter efêmero. Estação literária, Londrina, vol. 11, p. 27-40,
jan/jul, 2013. Disponível em: http://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL11-Art2.pdf
Acesso em: 27 de abril de 2018.

12
GOMIDE, Alexandre de Ávila. Transporte urbano e inclusão social: elementos para
políticas públicas. 2003. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/28 93
Acesso em: 21 de abril de 2018.

_________. Mobilidade urbana, iniquidade e políticas sociais. 2006. Disponível em:


http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/4511 Acesso em: 21 de abril de 2018.

LAGE, Nilson. Teoria e técnica do texto jornalístico. São Paulo: Campus, 2005.

NEVES, Maria Helena de Moura. As estratégias discursivas e suas implicações na


relação entre oralidade e escrita: um estudo do parêntese na crônica. Lingüística,
Montevideo, vol. 27, n. 1, p. 77-97, jun, 2012. Disponível em:
http://www.scielo.edu.uy/scielo.php?script =sci_arttext&pid=S2079-
312X2012000200005&lng=es&nrm=iso. Acesso em: 13 de abril de 2018.

PASSOS, Mateus Yuri; ORLANDINI, Romulo Augusto. Um modelo dissonante:


caracterização e gêneros do jornalismo literário. Contracampo, Rio de Janeiro, v. 18, n.
2008, p. 75-96, jan./jun, 2008. Disponível em: http://www.contracampo.uff.br/index.php
/revista/article/view/335/139 Acesso em: 29 de abril de 2018.

REDE METROPOLITANA DE TRANSPORTES COLETIVOS – RMTC, 2018.


Informações Institucionais. Disponível em: http://rmtcgoiania.com.br/sobrea-a-
rmtc/informacoes-institucionais. Acesso em 28 de abril de 2018.

TRAVANCAS, Isabel. Fazendo etnografia no mundo da comunicação. In: Duarte, Jorge;


BARROS, Antônio (Organizadores). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação.
2. ed. São Paulo: Atlas, 2006.

13
TRABALHO E ENVELHECIMENTO: O SER, O ESTAR E O VIVENCIAR
FACE À CONJUNTURA POLÍTICO-TECNOLÓGICA CONTEMPORÂNEA

Adriane Geralda Alves do Nascimento Cézar1

RESUMO

Esse trabalho objetivou compreender os significados assumidos pelo contínuo do


trabalho no processo de envelhecimento, face às características político-tecnológicas
contemporânea, para uma categoria específica de análise: os docentes da Universidade
Federal de Goiás, com idade igual ou superior a 60 anos, que, mesmo aposentados,
continuam muito ativos no mercado. O trabalho foi estruturado por meio de pesquisas
bibliográficas e uma pesquisa de campo, qualitativa, utilizando-se a técnica de
entrevistas em profundidade, aplicadas a uma amostra de dezessete entrevistados,
composta por professores da UFG, já aposentados, com 60 anos ou mais. Os resultados
constituem dados parciais de uma pesquisa de doutorado.
O rompimento da rigidez fordista via um novo arranjo de mercado, ancorado
pelas características da flexibilização: automação, avanços tecnológicos, busca de novos
nichos de mercado, dispersão geográfica e fusões, pautou-se na flexibilidade dos
processos de trabalho, mercados, produtos e também nos padrões de consumo, com
ênfase nas tecnologias e nas respostas rápidas (HARVEY, 2014; ANTUNES, 1999).
Esse novo modelo exigiu também modificações na própria postura do trabalhador: no
âmbito da empresa, o individualismo, a competitividade e a eficácia, passaram a
acarretar a desqualificação daqueles menos preparados ou menos aptos, além de
invalidação daqueles que estão envelhecendo ou jovens demais, com pouca qualificação
(CASTEL, 2009).
De forma geral, os pesquisados deste estudo (docentes do serviço público
federal) não se reconheceram como uma força de trabalho a mercê dos moldes de um
trabalho degradante e exigentes da força física. Mesmo não se reconhecendo nessa
situação e considerando-se privilegiados por isso, essa característica não deixou de ser

1
Doutora em Sociologia, pela Universidade Federação de Goiás, linha de pesquisa: Trabalho, Emprego e
Sindicatos. Mestre em Administração, pela Unisinos. Especialista em Recursos Humanos, pela
UniAnhanguera. Graduada em Relações Públicas, pela Universidade Federal de Goiás. Professora
Adjunta do Curso de Relações Públicas, da Faculdade de Informação e Comunicação, da Universidade
Federal de Goiás (FIC- UFG). E-mail: adriane400@hotmail.com
14
relatada pelos participantes dessa pesquisa: um grupo com alta formação intelectual2,
que tiveram oportunidades face aos estudos, e que conseguiram um posicionamento
social com salários relativamente dignos.
Esses fatores, por sua vez, refletiram numa velhice mais segura e numa
aposentadoria com bom retorno financeiro. O trabalho para os docentes concursados
entrevistados foi muito mais visto como algo prazeroso, elemento vital, de realização
pessoal e fonte de motivação, do que um elemento de desprazer, adoecimento,
sofrimento, dor e, unicamente, recompensa financeira. Isso permite inferir que o
exercício do trabalho docente, que abre possibilidades de formação de carreiras, em
universidades públicas, está, por sua vez, muito mais caracterizado como um trabalho
que proporciona prazer, estabilidade, certezas pessoais e futuras, além de abrir
possibilidades longínquas de atuação no mesmo tipo de atividade, inclusive, pós-
aposentadoria e velhice.
Desse modo, tem-se que o trabalho assume significados diversos que estão
relacionados ao modo como os indivíduos estruturaram suas carreiras ao longo de suas
vidas, suas relações sociais e, sobretudo, o tipo de trabalho exercido. Apesar de maior
parte de nossa sociedade ser marcada por uma força de trabalho explorada e de grande
número de trabalhadores idosos viverem em condições precárias, sendo obrigados a se
manter com uma renda mínima3 (o que dificulta sua saída de condições de pobreza e
vulnerabilidades), os pesquisados desse estudo, de forma contrária, afirmaram ter um
bom retorno financeiro advindos de seu trabalho e que o mesmo representa mover de
vida e realização de contínuo, mesmo diante da aposentadoria e do envelhecimento.

Palavras-chave: Trabalho. Envelhecimento. Docentes Federais. UFG.

2
Os dados relativos ao Censo Demográfico do IBGE (2010), referentes a algumas características das
pessoas com 60 anos ou mais de idade, demonstram que 50,2% possuem menos de 4 anos de estudo,
32,3% possuem entre 4 e 8 anos de estudo e apenas 17,4% possuem 9 anos ou mais de estudo. Desse
modo percebe-se que o grupo pesquisado constitui não se encaixa nos dados característicos da população
de 60 anos ou mais.Fonte: IBGE. Síntese de Indicadores Sociais, 2010.
3
Os dados relativos ao Censo Demográfico do IBGE (2010), referentes a algumas características das
pessoas com 60 anos ou mais de idade, demonstram que 43,2% vivem com renda domiciliar per capita de
até 1 salário mínimo, 29% vivem com renda per capita de mais de 1 até 2 salários mínimos e 22,9%
vivem com renda per capita de mais de 2 salários mínimos. Fonte: IBGE. Síntese de Indicadores Sociais,
2010.
15
REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? ensaio sobre as metamorfoses e a


centralidade do mundo do trabalho. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1997.

________. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho.


São Paulo: Boitempo, 1999.

BRASIL. Instituto brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Síntese de indicadores


sociais: Uma análise das condições de vida da população brasileira 2010. Estudos e
Pesquisas: informação demográfica e socioeconômica. n. 27, Rio de Janeiro, 2010.
Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/>. Acesso em: 17 out. 2016.

BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista: a degradação do trabalho no


século XX. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1981.

BULLA, Leonia Capaverde; KAEFER, Carin Otilia. Trabalho e Aposentadoria: as


repercussões sociais na vida do idoso aposentado. Revista virtual textos e contextos, n.
2, ano II, dez. 2003. Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/view/957/737>. Acesso
em: Jan de 2016.

CAMARANO, Ana Amélia; KANSO, Solange; MELLO, Juliana Leitão e. Como vive o
idoso brasileiro? In: CAMARANO, Ana Amélia (org.). Os Novos Idosos Brasileiros:
Muito Além dos 60? Rio de Janeiro: IPEA, 2004. 604 p.

CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. 8. ed.


Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

HARVEY. David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2014.

16
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE JOVENS DE GOIÂNIA: ANÁLISE DO
JORNAL DAQUI

Gardene Leão de Castro1

RESUMO

Ao atuar no plano da representação social, a mídia se consolida como formadora


de opinião pública, utilizando-se de recursos discursivos para legitimar seus enunciados.
Ao utilizar essas ferramentas, elaborando discursos que supostamente representariam “a
verdade”, os veículos de comunicação dãoespaço a representações sobre diversos atores,
dentre eles, a juventude.
Atualmente, devido ao sentimento de insegurança e ao medo do crime
propagado também pela mídia, as pessoas se posicionam a favor de medidas mais duras
e punitivas contra jovens, como a proposta de Redução da Maioridade Penal. Por isto,
inicialmente, o objetivo dessa pesquisa foi perceber como os jovens são representados
no Jornal Daqui, veículo de maior circulação impressa em Goiás, em estudo
comparativo entre 3 meses dos anos de 2010 e 2014.
Escolhi o Daqui por dois motivos: o primeiro é que o diário é um importante
veículo formador de opinião em Goiás, possuindo, atualmente, a maior tiragem de
jornais impressos do Estado e a 5ª maior tiragem de impressos no Brasil, ficando atrás
somente do Super Notícia, O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo.
Para se ter um índice de comparação, em Goiás, enquanto o Daqui está em 5º lugar no
ranking nacional o jornal O Popular, segundo com maior circulação do Estado, aparece
em 47º lugar no ranking nacional
O segundo motivo de escolha está vinculado ao perfil editorial da publicação.
Conforme anunciado na página virtual da Organização Jaime Câmara, o Daqui é
voltado para o público “C e D” da capital goiana e região metropolitana e possui uma
linguagem mais “acessível” para este público, “mostrando o que de mais importante
acontece de forma simples e dinâmica”. A delimitação de um perfil de leitor, que
também contempla os jovens moradores das periferias de Goiânia, com idade entre 14 a
29 anos, foi também outro fator que me instigou.

1
Professora Doutora na Faculdade de Informação e Comunicação. Doutora em Sociologia. E-mail:
gardeneleao@gmail.com
17
Após estudar o polo da emissão do discurso midiático, através da análise das
notícias sobre jovens vinculadas no Daqui, surge, então, a questão: como esse discurso
é recebido por esses jovens? Por isto, nessa pesquisa, a intenção foi também investigar
as representações sociais de jovens de Goiânia sobre os discursos midiáticos,
envolvendo a temática da criminalidade e violência, a respeito de si. Através de uma
sociologia compreensiva, tento compreender os conteúdos de sentido sobre mídia,
juventude e violência por meio das representações sociais.
O estudo das representações sociais sobre a violência entre os jovens ganhou
espaço nos últimos anos por meio da Teoria das Representações Sociais. Contudo, a
recepção de jovens sobre as representações sociais em diversos produtos midiáticos é
objeto de poucos estudos. Fruto da própria invisibilidade, as representações sociais
produzidas por jovens sobre os diferentes discursos envolvendo a temática da
criminalidade não tiveram eco suficiente na academia. Resta a lacuna de compreender
os discursos produzidos por estes jovens, a partir do processo de negociação de
sentidos com os discursos midiáticos.
É importante entender as representações sobre os jovens, analisando se eles
compartilham os mesmos significados, se o fazem de forma parecida ou a razão pela
qual compartilham ou não determinados significados. É preciso considerar a
capacidade de autonomia das juventudes. No contexto das teorias pós-críticas da
juventude, aparece a noção de subjetivação. Tal corrente teórica, também adotada nessa
pesquisa, afirma que os sujeitos ora são configurados em consonância com os modelos
regulatórios, ora são resistentes aos mesmos. Tal discurso valoriza a diversidade das
juventudes, reconhecendo a importância da construção social do indivíduo.
Através dessa pesquisa, pode-se perceber que, desde 2010, o Daqui faz uma
forte ligação entre juventude, pobreza e o perigo em seu discurso. Em 2014, tal
representação foi deslocada para a explicação do aumento da violência em Goiânia e em
Goiás como consequência do envolvimento de jovens com o uso e com o tráfico de
drogas. Após a análise das notícias, utilizando como referencial teórico a Teoria das
Representações Sociais, buscou-se compreender como jovens de diferentes classes
sociais (alta, média e baixa), moradores de Goiânia, recebem, compreendem e
(res)significam as representações midiáticas envolvendo a temática da criminalidade e
violência na juventude. Percebe-se que jovens não assimilaram o conteúdo midiático
sem criticá-lo. Para eles, o Jornal Daqui é sensacionalista, violento, com notícias

18
superficiais que subestimam a capacidade de intepretação de seu público leitor. Apesar
de vivenciar a violência de formas distintas, eles foram unânimes ao afirmar que a mídia
não é imparcial ou neutra ao retratar o seu cotidiano.

Palavras-chave: Mídia. Violência. Juventude. Representações Sociais. Comunicação.

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, G. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: UFMG,
2007.

CASSAB, M. A. T. Jovens pobres e o futuro: a construção da subjetividade na


instabilidade e incerteza. Niterói: Intertexto, 2001.

FARIA, M. Representações sociais da violência na juventude goianiense. Goiânia:


UFG, 2007. Dissertação (Pós-Graduação em Sociologia) - Programa de Pós-graduação
em Sociologia, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2007.

FRATTARI, N. Discursos e representações do medo da violência na cidade de Goiânia.


In: SOUZA, D. (Org.). Violência urbana em Goiás: práticas e Representações.
Goiânia: Cânone Editorial, 2011. p.79-113.

_________. Sentimento de Insegurança na Cidade de Goiânia. In: SOUZA, D. (Org.).


Violência urbana em Goiás: Práticas e Representações. Goiânia: Cânone Editorial,
2011. p.31-51.

MISSE, M. Crime, sujeito e sujeição criminal: aspectos de uma contribuição analítica


sobre a categoria “bandido”. Lua Nova, São Paulo, 2010.

_________. Sobre a construção social do crime no Brasil: esboço de uma intepretação.


Acusados & Acusadores - Estudos sobre ofensas, acusações e incriminações. Rio de
Janeiro: Revan, 2008.

MOSCOVICI, S. A psicanálise, sua imagem e seu público. Petrópolis: Vozes, 2012.

PORTO, M. S. G. Sociologia da Violência: do conceito às representações. Brasília:


Verbana Editora. 2010.

SOARES, Luiz E. Juventude e violência no Brasil contemporâneo. In: NOVAES, R;


VANNUCHI, P. Juventude e Sociedade: trabalho, educação, cultura e participação.
São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.

SOUZA, D. Juventude e violência: do conhecimento empírico às representações sociais.


In: Oliveira, D; FREITAS; R. TOSTA, T. (Orgs). Sociologia e Educação em Direitos
Humanos. Goiânia: UFG/FUNAPE, 2010.

19
MINERAÇÃO DE TWEETS NO APOIO À ANÁLISE DA DISPUTA
ELEITORAL PRESIDENCIAL

Isadora Campos Vaz1


Kátia Kelvis Cassiano2
Douglas Farias Cordeiro3

RESUMO

O crescente número de dados gerados e disseminados nas mídias sociais tem


servido de insumo para uma diversidade de estudos, análises e geração de
conhecimento. Neste sentido, considerando o cenário eleitoral, as redes sociais podem
ser destacadas como um dos canais de maior acessibilidade e riqueza de dados no que se
refere às opiniões da sociedade com referência a candidatos ou partidos políticos
(ATTUX, 2017).
Terra (2010) define mídias sociais como um mecanismo explorado por
indivíduos, baseado na utilização de tecnologias e políticas na web, com o propósito de
compartilhamento de opiniões, ideias, experiências e perspectivas. A Figura 1 apresenta
as redes sociais com maiores números de usuários ativos. É possível observar que o
Twitter se destaca como uma das redes sociais do tipo microblog com maior quantidade
de usuários ativos. Ainda de acordo com o Portal Statista, o Twitter possui uma média
de postagem de 500 milhões de tweets por dia, e 200 bilhões de tweets por ano. Os
dados gerados por meio dos tweets são consideravelmente úteis no que se refere à
análise de opiniões e sentimentos (SILVA, 2016), subárea da mineração de dados.

1
Graduanda em Gestão da Informação (UFG), bolsista PIBIC. Isafranta92@hotmail.com
2
Doutorado em Engenharia de Sistemas e Computação (UFRJ), professora adjunta da Faculdade de
Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. katiakelvis@ufg.br
3
Doutorado em Ciência da Computação e Matemática Computação (USP), professor adjunto da
Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. cordeiro@ufg.br
20
Figura 1- Usuários ativos em redes sociais

Fonte: Statista

De acordo com Castro e Ferrari (2016), a mineração de dados pode ser descrita
como o processo de, a partir de uma base de dados, filtrar os dados úteis e extrair
informações relevantes para a formação de conhecimento, podendo ser aplicada nos
mais diversos contextos, como no desenvolvimento de análises com base no conteúdo
dos dados textuais acerca dos sentimentos expressados.
Segundo Gomes (2012), análise de sentimentos auxilia na determinação
automática de sentimentos em textos, podendo ser utilizada para formar avaliações a
partir de comentários e opiniões, atribuindo a este dado textual um valor numérico entre
zero (negativo) e um (positivo).
Para desenvolvimento deste trabalho foi utilizada a metodologia KDD
(Knowledge Discovery in Databases), que prevê a geração de conhecimento a partir de
bases de dados (FAYAD, 1996). Neste sentido, foi definido como amostra um conjunto
de tweets no intervalo de quinze dias (19 de Agosto a 02 de Setembro de 2018),
escolhido por estar em conformidade com a realização de uma série de entrevistas com
os presidenciáveis em uma rede de TV aberta, e com avaliações das candidaturas no
Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Foi realizada a extração dos dados por meio da API do Twitter. Para tanto, foi
desenvolvido um código Python que permitiu a conexão à API e conversão dos mesmos
para o formato CSV (do inglês, CommaSeparetedValues). Durante esta etapa, foram

21
considerados os seguintes dados: nome de usuário, texto do tweet, e data de postagem.
Os dados foram submetidos a um tratamento e filtragem, sendo removidos emojis e
retweets(recurso que permite o compartilhamento de uma postagem anterior).
Os dados foram indexados de acordo com as datas de postagem e de acordo com
os candidatos presidenciáveis com candidatura registrada junto ao TSE no período
considerado na amostra, sendo submetidos a rotinas de mineração de dados para análise
de sentimentos.
Para a realização da extração de dados foi considerado na consulta o termo
“#eleicoes2018”, o que permitiu a captura de 89.323 tweets. Após a filtragem dos
dados, fase em que foram removidos os retweets, foram obtidos 26.189 tweets (29% dos
dados capturados). A amostra foi submetida a uma segunda filtragem, para remoção de
tweets com ocorrência de dois ou mais candidatos, o que poderia representar ruído nas
avaliações dos sentimentos.
A Figura 2 apresenta a distribuição das menções considerando a amostra total e
as amostras filtradas. É possível observar que na amostra geral o candidato Bolsonaro
apresenta uma quantidade de menções consideravelmente maior, enquanto nas amostras
filtradas, os candidatos Bolsonaro e Lula apresentam valores relativamente próximos.
Considerando o conjunto de dados referentes à amostra com os dados filtrados,
foi construída uma visualização com referência temporal, apresentado na Figura 3
(apenas para os cinco candidatos com o maior número de menções). Através desta
visualização é possível observar, por exemplo, picos de menções, como ocorre com o
candidato Bolsonaro, no dia 29 de Agosto de 2018, dia que sucede sua entrevista em
estúdio a um telejornal de uma rede de TV aberta, e com o candidato Lula, no dia 01 de
Setembro de 2018, dia que sucede a Sessão Plenária Extraordinária do TSE em que foi
julgada a candidatura do mesmo.
Finalmente, os dados foram submetidos a rotinas de mineração de dados para
análise de sentimentos. Os resultados demonstram que, em uma visão generalista, a
maior parte das menções realizadas se refere a emoções negativas em relação aos
candidatos (valores menores que 0.5), com alguns registros mais isolados de
comentários positivos.

22
Figura 2 - Menções dos candidatos nos tweets das amostras consideradas

Figura 3- Evolução das menções dos candidatos no período considerado

23
Figura 4 - Evolução temporal da média dos sentimentos associados aos candidatos

A solução apresentada neste trabalho é potencialmente relevante do ponto de


vista de desenvolvimento de plataformas de críticas, opiniões e/ou reclamações, tendo
como base a análise de sentimentos em mídias sociais. É importante ressaltar, ainda, que
tal prática corrobora com as premissas do processo eleitoral, no que tange à avaliação
do cenário eleitoral, acompanhamento dos candidatos, execução das atividades do
processo e garantia de participação e informação aos cidadãos brasileiros.

Palavras-chave: Eleições. Análise de mídias sociais. Análise de sentimentos.


Mineração de dados.

REFERÊNCIAS

ATTUX, R. C. Predição dos resultados das eleições de 2014 para presidente do


Brasil usando dados do Twitter. 2017. 48 f. Monografia - Universidade Federal de
Uberlândia, Uberlândia, 2017.

CASTRO, L. N.; FERRARI, D. G. Introdução à Mineração de Dados: conceitos


básicos, algoritmos e aplicações. São Paulo: Saraiva, 2016.

FAYYAD, U.; PIATETSKY-SHAPIRO, G.; SMYTH, P. From Data Mining to


Knowledge Discovery in Databases. AI magazine, v. 17, n. 3, 37-54, 1996.

24
GOMES, H. J. C. Text Mining: Análise de Sentimentos na classificação de notícias.
2012. 69 f. Dissertação (Mestrado em Estatística e Gestão da Informação) - Instituto
Superior de Estatística e Gestão de Informação, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa,
2012.

SILVA, N. F. F. da. Análise de sentimentos em textos curtos provenientes de redes


sociais. 2016, 138 f. Tese (Doutorado em Ciência da Computação e Matemática
Computacional) — Universidade de São Paulo, São Carlos, 2016.

TERRA, C. F. Usuário-mídia: a relação entre a comunicação organizacional e o


conteúdo gerado pelo internauta nas mídias sociais. 2010, 217 f. Tese (Doutorado
em Interfaces Sociais da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

25
COMUNICAÇÃO E SAÚDE PÚBLICA: A UNIVERSIDADE NA PREVENÇÃO
AO VÍRUS HIV/AIDS

Rafael Borges Marques1


Johnny Ribas da Motta2
Bruno Roque3
Eva Márcia Arantes Ostrosky Ribeiro4

RESUMO

O objetivo desta pesquisa é analisar a percepção dos jovens universitários quanto


à prevenção ao vírus HIV/AIDS, a partir de ações realizadas pela Universidade Federal
de Goiás/GO, sendo esta uma representante do Estado, considerada como instância
normativa e de controle da comunicação pública para formalização da participação
social na esfera pública (MATOS, 2007). Como questão pesquisa, tem-se a seguinte
indagação: qual a percepção dos universitários quanto às ações de comunicação
realizadas pela universidade pública para a prevenção ao vírus HIV/AIDS?
Caracterizada como pesquisa qualitativa do tipo exploratória, a coleta de dados
foi realizada nos meses de agosto e setembro de 2018, por meio de entrevistas em
profundidade com acadêmicos da instituição, tendo como técnica de amostragem a não
probabilística por conveniência.
Os dados coletados foram analisados a partir da perspectiva da Análise
Descritiva e Análise de Conteúdo bardaniana (2011) com codificação em ciclos de
Saldaña (2013). Pela concepção teórica de autores que tratam de comunicação pública
(ZÉMOR, 2005; BRANDÃO, 2007; DUARTE, 2012), com consulta de documentos do
Ministério da Saúde e de organizações envolvidas na prevenção do vírus, procura-se
contextualizar e embasar o desenvolvimento deste trabalho.
Como justificativa, são considerados os dados do Boletim Epidemiológico
publicado pelo Ministério da Saúde em 2017, que aponta para uma crescente incidência

1
Graduando do 3º período do curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás. E-mail:
borgesrm@hotmail.com
2
Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás.
Especialista em Gestão da Comunicação Pública e Empresarial e bacharel em Comunicação Social -
Jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná. E-mail: johnnyribasdamotta@hotmail.com
3
Graduando do 3º período do curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás. E-mail:
roque.ufg@gmail.com
4
Professora substituta do curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás. Mestre em
Comunicação pela Universidade Federal de Goiás. Especialista em Marketing pela Fundação Getúlio
Vargas, graduada em Relações Públicas pela Universidade Federal de Goiás. E-mail:
evaarantesribeiro@gmail.com
26
de contágio pelo vírus HIV/AIDS em população jovem, com idade entre 25 e 39 anos.
Estes dados se agravam ao apontar um crescimento de 35% de diagnósticos positivos
entre jovens de 15 a 24 anos. As estatísticas sobre os hábitos de prevenção a Doenças
Sexualmente Transmissíveis (DSTs) dos jovens brasileiros revelam que este grupo
(pessoas entre 15 e 39 anos) faz parte de um público alvo prioritário para as campanhas
de conscientização, porém, evidencia-se que somente ações esporádicas ficam na
memória, às vezes nem por seu conteúdo, mas pelo seu formato (como a inserção de
figuras públicas em campanhas de comunicação, como foi o caso da cantora
PablloVittar), ou as tradicionais ações em época de carnaval, por exemplo.
A partir dos dados coletados, observa-se que termos como “universidade, papel
e educação” são evocados constantemente pelos entrevistados, assim como se constata
o conhecimento da doença por este grupo, mas, diverge com os hábitos da não
utilização dos métodos de prevenção. Neste sentido, observando a problema
apresentada, tem-se como amparo teórico os escritos de Zémor (2005), ao calcar a
legitimação da comunicação pública na “legitimidade do interesse geral”, razão pela
qual, acontece no espaço público sob o olhar do cidadão. Para o autor, suas finalidades
públicas não podem estar dissociadas das finalidades das instituições públicas, pautadas
no ato de informar; ouvir as demandas, as expectativas, as interrogações e o debate
público; contribuir para assegurar a relação social e de acompanhar as mudanças, tanto
as comportamentais quanto das organizações sociais.
Com base neste pensamento, Duarte (2012) reitera que a comunicação pública
ocorre em dinâmica informativa e interativa entre instituições públicas e atores sociais,
objetivando a viabilização do direito social coletivo e individual, quanto à informação, o
diálogo e a expressão. Desta forma, o exercício da comunicação pública está
relacionado a uma concepção cidadã do fazer público, logo, envolvendo diretamente
temas próprios ao interesse coletivo, que neste caso, versa-se sobre a importância de
abordagens comunicativas que visem à prevenção ao vírus HIV/AIDS, tema de interesse
público.
Ao tratar de interesse público, McQuail (2012) fundamenta a partir de três
características, a saber: i) interesse público como expressão da “vontade geral”, da
vontade da maioria; ii) interesse público como princípio normativo absoluto,
independente da vontade da população; e, iii) interesse público como expressão de
interesses que presumivelmente todos têm em comum. Nesta perspectiva, estendendo a

27
concepção de (fazer) comunicação pública de Estado a todas as suas instituições,
identificam-se as universidades públicas como ambientes viáveis para esta prática, ao
refletir sobre o seu papel fundamental para a conscientização e educação (FREIRE,
1980).
Neste sentido, indaga-se sobre o papel do Estado e das instituições públicas que
estão em contato direto com jovens e que não instrumentalizam suas abordagens,
falhando nos debates e em ações de prevenção as DSTs. Contudo, os apontamentos
iniciais exercem mais um papel de alerta do que de diagnóstico, em que se versa o papel
do Estado, aqui representado pela universidade pública, pois a saúde é, afinal, elementar
na constituição de uma sociedade sadia, e o Estado, por intermédio da comunicação
pública, devem aperfeiçoar seus processos e estratégias, com o intuito de educar e
conscientizar a população.

Palavras-chave: Comunicação Pública. Universidade. HIV/AIDS. Ministério da Saúde.


Saúde.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, I.; CARDOSO, J. M. Comunicação e Saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz,


2007.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

BRANDÃO, E. P.; BUENO, W. C.; MARTINS, L.; MATOS, H.; MONTEIRO, M. G.;
NOVELLI, A. L. Conceito de comunicação pública. In: JORGE DUARTE. (org.).
Comunicação pública: estado, mercado, sociedade e interesse público. São Paulo: Atlas,
2007.

DUARTE, J. (Org). Comunicação Pública: estado, mercado, sociedade e interesse


público. São Paulo: Editora Atlas, 2012.

DUARTE, M. Comunicação e cidadania. In: DUARTE, Jorge (org.). Comunicação


Pública: Estado, mercado sociedade e interesse. -2. ed. - São Paulo: Atlas, 2009.

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

KUNSCH, M. M. K. Gestão estratégica em comunicação organizacional e relações


públicas. In: ENDECOM – Fórum Nacional em Defesa da Qualidade do Ensino de
Comunicação, 2006, Universidade de São Paulo.

MATOS, H. Comunicação pública, democracia e cidadania. In: LÍBERO, ano 2, nº


3/4, 1999.
28
MCQUAIL, D. Atuação da mídia: comunicação de massa e interesse público. Porto
Alegre. Ed. Penso. 2012.

SILVA, L. M. Comunicação Pública: estado, governo e sociedade. Brasília: Casas das


Musas, 2003.

SALDAÑA, J. (2013). The Coding Manual for Qualitative Researchers. London:


Sage.

SAÚDE, M. Relatório de monitoramento clínico do HIV. Brasília, 2017. Disponível


em: <http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2017/relatorio-de-monitoramento-clinico-do-hiv>.
Acesso em 7 jul. 18.

SAÚDE, M. Sistema Único de Saúde. Princípios do SUS e princípios organizativos.


Disponível em: <http://portalms.saude.gov.br/index.php/sistema-unico-de-
saude/principios-do-sus>. Acesso em: 01 mai. 2018.

WOLTON, D. Informar não é comunicar. Porto Alegre: Sulinas, 2011.

ZÉMOR, P. As formas da comunicação pública. In: JORGE DUARTE (org.)


Comunicação pública: estado, mercado, sociedade e interesse público. 2.ed. São Paulo:
Atlas, 2009.

ZÉMOR, P. La communication publique. Presses Universitaires de France-PUF, 2005.

29
APLICABILIDADE DA PESQUISA AÇÃO E DA PESQUISA PARTICIPANTE
NO CAMPO DA COMUNICAÇÃO

Keyla Rosa de Faria1


Andréa Pereira dos Santos2

RESUMO

Ao pesquisar, empregam-se métodos para obter respostas/soluções a uma dúvida


ou problema. Essa busca contínua aponta diversos caminhos ao conhecimento. Assim,
este trabalho objetiva expor o conhecimento produzido sobre dois tipos de pesquisa
alternativa – a pesquisa-ação e a pesquisa participante – e apontar as diferenças entre
essas pesquisas; coletar e organizar dados sobre as duas formas de pesquisa. Procura
compreender a aplicabilidade da pesquisa-ação e da pesquisa participante, e para isso
buscou responder a seguinte problemática: Como está o uso da pesquisa-ação e da
pesquisa participante na Ciência da Comunicação?
A resposta para este questionamento ocorreu a partir da pesquisa bibliográfica
realizada em três bases de dados, a saber: CAPES, Scielo e Google Acadêmico. Os
procedimentos para a coleta dos dados foram executados em três momentos: 1. busca
nas bases bibliográficas dos termos – título, assunto, autor, idiomas, períodos. Nesta
etapa a pesquisa foi realizada de forma ampla/geral; 2. emprega os mesmos itens de
busca do primeiro, mas incluiu o período entre 2010 a 2018; 3. busca neste estágio foi
mais restrita, com o intuito de encontrar publicações dentro do campo da Comunicação,
os termos utilizados na busca foram – título, autor, idioma (português), período de 2010
a 2018, e no assunto a Comunicação.
Empregou esses procedimentos de recuperação da informação nas bases de
dados, tanto do termo pesquisa-ação, como da pesquisa participante, porém executados
em momentos diferentes para obter extrato individual de cada termo pesquisado. A
pesquisa bibliográfica em livros, artigos científicos e anais de encontros científicos,
contribuíram no levantamento dos dados teóricos e históricos sobre a pesquisa-ação e a
pesquisa participante. Onde a primeira tem por objetivo melhorar as práticas sociais e
educativas, já que possui o caráter participativo e colaborativo, se manifesta de diversas

1
Mestranda do Programa em Comunicação, Mídia e Cultura pela Universidade Federal de Goiás.
keylarosa6@gmail.com
2
Prof.ª Dra. do Curso de Biblioteconomia e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
Universidade Federal de Goiás. andreabiblio@gmail.com
30
formas. Dependendo da sua aplicação, e do contexto que está sendo implantada a
pesquisa, ela se molda ao pesquisador e aos pesquisados. Por sua aplicabilidade ser feita
em grupo, os partícipes aprendem com suas experiências, e a partir delas transformam o
meio no qual ocorreu a intervenção da pesquisa, visto que, um dos propósitos da
pesquisa-ação é resolver ou esclarecer os problemas identificados.
Desta forma, o pesquisador encontra flexibilidade para estruturar o esquema
metodológico, segundo os hábitos, os costumes e a disciplina instituída no espaço
geográfico a ser pesquisado. O exercício de conscientização dos grupos ou indivíduos é
tarefa árdua, e os limites metodológicos tradicionais às vezes não conseguem alcançar
esta subjetividade do comportamento, por melhor e mais estruturada que seja a
metodologia.
A diferença entre a pesquisa tradicional e a pesquisa-ação está na atuação dos
investigados, já que uma vê os pesquisados como indivíduos passivos, que possuem
armazenamento de informações, e os sujeitos considerados incapazes de perceberem e
de encontrarem soluções para os problemas que os cercam.
No campo da Comunicação a pesquisa-ação foi aplicada como forma de
melhorar os modos de comunicação dos grupos populares. Seu caráter social, político e
educativo se encaixa dentro da perspectiva da Educomunicação, uma vez que está
direcionada para a transformação social. Na pesquisa participante o foco está mais no
pesquisador, do que no pesquisado, outro fator é a ausência de ação dentro dos grupos
escolhidos, onde esses continuam as atividades diárias, comuns, sem ter objetivos
específicos para trabalhar, em prol da pesquisa.
Portanto, essa pesquisa tem um viés, dentro do contexto da pesquisa
antropológica ou etnográfica, e a preocupação do pesquisador está em ter um certo
relacionamento com o grupo pesquisado e minimizar a estranheza dentro do grupo
escolhido para campo de pesquisa. A inexistência da ação e do agir revela uma das
diferenças entre as pesquisas alternativas. Essas diferenças podem advir do construto em
que as pesquisas foram elaboradas, já que, a pesquisa-ação tem origem estadunidense,
com embasamento sociológico, e a pesquisa participante surgiu na América Latina, com
a atenção voltada ao processo educacional dos trabalhadores rurais.
Os estudos voltados à pesquisa participante dentro da Comunicação Social
começaram no final da década de 1980 e início de 1990, mas em seguida houve um
descrédito, e esse, é fruto do fato de que a metodologia desta pesquisa não está sendo

31
discutida nos manuais ou nas obras que contenham publicações sobre os métodos de
pesquisa. Esses dois tipos de pesquisa são rejeitados, devido a sua cientificidade. O
levantamento dos dados, por meio da pesquisa às bases de dados Capes, Scielo e
Google Acadêmico permitiu vislumbrar a usabilidade dos referidos métodos de pesquisa
no Campo da Comunicação.
Ao pesquisar pelo termo pesquisa-ação de forma ampla, ou seja, selecionando
todos os campos de opções de busca, recuperou na Capes 24.440 (vinte quatro mil,
quatrocentos e quarenta) itens; no Google Acadêmico 1.240.000 (um milhão, duzentos e
quarenta mil) itens bibliográficos; Scileo 57.245 (cinquenta e sete mil, duzentos e
quarenta e cinco). Na segunda parte da busca pelo termo pesquisa-ação no período de
2010-2018 obteve os seguintes números: Capes 11.107 (onze mil, cento e sete) itens;
Google Acadêmico 868.000 (oitocentos e sessenta e oito mil) itens; Scielo 3.679 (três
mil, seiscentos e setenta e nove) itens. Ao incluir na terceira parte da busca o assunto
“comunicação” no período de 2010 a 2018 recuperou os seguintes dados: Capes 76
(setenta e seis) itens; Google Acadêmico 127 (cento e vinte sete) itens; Scielo 138
(centro e trinta e oito).
Percebe-se que ao inserir o termo “Comunicação” no assunto entre os anos
2010/2018 ocorre uma diferença de aplicabilidade da pesquisa-ação, como método. O
Google Acadêmico apresenta a maior desproporção, ou seja, nas diversas áreas do
conhecimento obteve 868.000 itens, e com área de conhecimento definido – a
Comunicação – recuperou apenas 127 itens. Com relação à pesquisa participante os
resultados foram: busca geral Capes 14.311 (quatorze mil, trezentos e onze) itens;
Google Acadêmico 118.000 (cento e dezoito mil) itens; Scielo 1.088 (um mil e oitenta e
oito) itens; selecionando a opção por período de 2010/2018 revelou o seguinte: Capes
5.917 (cinco mil, novecentos e dezessete) itens; Google Acadêmico 87.200 (oitenta e
sete mil e duzentos) itens; na Scielo 271 (duzentos e setenta) itens; Ao incluir o na
seleção o assunto “Comunicação” no período de 2010/2018 as publicações recuperadas
são escassas: Capes 44 (quarenta e quatro) itens; Google Acadêmico 67 (sessenta e sete)
itens; Scielo 1 (um) item.
Os resultados apontam que a aplicabilidade da pesquisa-ação e da pesquisa
participante na área da Comunicação está associada à Educomunicação, as quais exigem
do pesquisador dedicação e domínio das questões práticas e teóricas. Os estudos que

32
envolvem ação exploram comportamentos, que podem ser conscientes, ou não, todavia
os aspectos simbólicos estão tanto no campo educativo, como no comunicativo.
Ao analisar os dados coletados e fazer a proporcionalidade de publicação no
âmbito geral e específico utilizando o termo “Comunicação”, a pesquisa participante
teve mais aplicabilidade do que a pesquisa-ação no campo das Ciências da
Comunicação, apesar de que a pesquisa participante é vista com muita semelhança à
pesquisa-ação, e os pesquisadores ao utilizar tanto uma, como a outra podem nomeá-las
como sendo uma, mas na verdade aplicam a outra. Essa similaridade nos métodos
contribui para a confusão entre os dois tipos de pesquisa alternativa. A partir dos
conceitos exposto sobre a pesquisa-ação e pesquisa participante pode-se dizer que elas
não surgiram para substituir as pesquisas tradicionais, mas para investigar e produzir
novas formas de conhecimentos sociais e novos relacionamentos entre pesquisador e
pesquisado.
Conclui-se que a usabilidade da pesquisa ação e participante dentro da
comunicação é restrita devido às críticas, já que consideram o campo pesquisado por
essas pesquisas complexo e dinâmica, o qual pode ser alterado antes mesmo da pesquisa
ser finalizada. E pela pouca disseminação e informação sobre as pesquisas alternativas
dentro do campo da Comunicação.

Palavras-chave: Pesquisa ação. Pesquisa participante. Metodologia. Pesquisa


alternativa.

REFERÊNCIAS

BARBIER, René. Pesquisa ação. Brasília: Liber Livro, 2004.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues; BORGES, Maristela C. A pesquisa participante: um


momento da educação popular. Rev. Ed. Popular, Uberlândia, v. 6, p.51-62, jan./dez.
2007. Disponível em:
<http://www.seer.ufu.br/index.php/reveducpop/article/view/19988/10662>. Acesso em:
23 jul 2018.

CARR, Wilfred; KEMMIS, Stephen. Teoria crítica de la enseñanza. Barcelona:


Martinez Roca, 1988.

CERVO, Amado L.; BERVIAN, Pedro A.; SILVA, Roberto da. Metodologia
científica. 6. ed. São Paulo: Pearson, 2007.

33
DEMO, Pedro. Metodologias alternativas - algumas pistas introdutórias. In. DEMO,
Pedro. Metodologia científica em ciências sociais. 3. ed. rev. ampl. São Paulo: Atlas,
2014. p. 229-257.

FALS BORDA, Orlando. Aspectos teóricos da pesquisa participante: considerações


sobre o significado e o papel da ciência na participação popular. In: BRANDÃO, C. R.
Pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 1982.

FRANCO, Maria Amélia Santoro. Pedagogia da pesquisa-ação. Educação e Pesquisa,


São Paulo, v. 31, n. 3, p. 483-502, set./dez. 2005. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n3/a11v31n3>. Acesso em: 21 jul. 2018.

FREIRE, Paulo. Criando métodos de pesquisa alternativa: aprendendo a fazê-la melhor


através da ação. In: BRANDÃO, In: BRANDÃO, C. R. Pesquisa participante. São
Paulo: Brasiliense, 1982.

GAJARDO, Marcela. Pesquisa participante: propostas e projetos. In: BRANDÃO,


Carlos Rodrigues. Repensando a pesquisa participante. 3. ed. São Paulo: Brasiliense,
1999. p. 17-50.

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projeto de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas,
2010.

HAGUETTE, Teresa Maria Frota. Metodologias qualitativas na sociologia. 2. ed.


Petrópolis: Vozes, 1990.

KEMMIS, E. ;MCTAGGART, R. Cómo planificar investigaciónacción. Barcelona:


Laertes, 1988. Disponível em: <https://pt.scribd.com/doc/316111101/Como-Planificar-
Investigacion-Accion-Kemmis-E-y-McTaggart-1992>. Acesso em: 22 jul. 2018.

MARTINS, Gilberto de Andrade; THEÓPHILO, Carlos Renato. Metodologia da


investigação científica para ciências sociais aplicadas. 2. ed. Atlas: São Paulo, 2007.

MIRANDA, Marília Gouveia de; RESENDE, Anita C. Azevedo. Sobre a pesquisa-ação


na educação e as armadilhas do praticismo. Revista Brasileira de Educação, v. 11, n.
33, set./dez. 2006. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S1413-
24782006000300011>. Acesso em: 21 jul. 2018.

MORIN, André. Pesquisa-ação integral e sistêmica: uma antropopedagogia renovada.


Tradução Michel Thiollent. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

PEREIRA, E. M. A. Professor como pesquisador: o enfoque da pesquisa-ação na prática


docente. In: GERALDI, C. M. G.; FIORENTINI, D.; PEREIRA, E. M. A. (Orgs.)
Cartografias do trabalho docente - professor (a) - pesquisador (a). 2. ed. Campinas,
SP: Mercado das Letras, 2001. p. 153–181.

PERUZZO, Cicilia Maria Krohling. Da observação participante à pesquisa-ação em


comunicação: pressupostos epistemológicos e metodológicos. In: COLÓQUIO
BRASIL-ITÁLIA DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 3, Belo Horizonte. Anais...
Belo Horizonte: Intecom, 2003. Disponível em:
34
<http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2003/www/pdf/2003_COLOQUIO_peru
zzo.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2018.

PITANO, Sandro de Castro; ROSA, Carolina Schenatto da; DAUDT, Paloma de


Freitas. Conhecer e transformar pesquisa-ação e pesquisa participante em diálogo
internacional. Reflexão e Ação, v. 22, n. 2, p. 483-492, 2014.

SCHAUN, Angela. Educomunicação: reflexões e princípios. Rio de Janeiro: Mauad,


2002.

SOARES, Ismar. Educomunicação e terceiro entorno: diálogos com Galimberti,


Echeverría e Martín-Barbero. Revista Comunicação e Educação, ano XV, n. 3,
set./dez. 2010. Disponível em:
<http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/44845/48477>. Acesso em: 23 jul
2018.

STRECK, Daniel R. Pesquisa (ação) participante e convergências disciplinares


Reflexões a partir do estudo do orçamento participativo no sul do Brasil. Civitas, Porto
Alegre, v. 13, n. 3, p. 477-495, set./dez. 2013. Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/civitas/article/viewFile/16525/10876>.
Acesso em: 19 jul. 2018.

THIOLLENT, Michel Jean Marie; COLLETE, Maria Madalena. Pesquisa-ação,


formação de professores e diversidade. Acta Scientarium. Human and Social
Sciences, Maringá, v. 36, n. 2, p. 207-216, jul./dez. 2014. Disponível em:
<http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/view/23626/pdf_3
4>. Acesso em: 21 jul. 2018.

THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo, Cortez, 1992.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Repensando a pesquisa participante. 3. ed. São


Paulo: Brasiliense, 1999. p. 82-102.

TRIPP, David. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa,


São Paulo, v. 31, n. 3, p. 443-466, set./dez. 2005. Disponível em:
<http://w.scielo.br/pdf/ep/v31n3/a09v31n3>. Acesso em: 21 jul. 2018.

35
LOBBY E COMUNICAÇÃO: O QUE PENSAM OS PROFISSIONAIS DE
RELAÇÕES PÚBLICAS?

Bruno Roque1
Johnny Ribas da Motta2
Rafael Marques Borges3
Laís Forti Thomaz4

RESUMO

O presente estudo tem como objetivo analisar a percepção dos profissionais de


Relações Públicas sobre Lobby, atividade essa, aceita como ocupação pelo Ministério
do Trabalho brasileiro, amparada pela portaria Nº 397, de 09 de outubro de 2002. A
partir desta perspectiva, propõem-se uma pesquisa qualitativa do tipo exploratória, com
coleta de dados realizada entre agosto e setembro de 2018, tendo o público alvo
composto por profissionais de Relações Públicas que atuam no município de
Goiânia/GO. A técnica de amostragem utilizada é a não probabilística por conveniência
e como instrumento de coleta de dados utiliza-se um formulário, com envio por e-mail e
redes sociais (Whatsapp e Facebook), considerado por Mattar (1994) como questionário
auto respondido, em que o entrevistado lê e responde de forma direta no instrumento de
coleta, sem que haja intervenção do entrevistador.
Os dados coletados foram tratados no software Iramuteq 0.7 alpha 02, e como
método proposto para análise dos dados foi utilizada a Análise de Similitude, a partir da
Árvore Máxima de Palavras. Justifica-se este estudo, tendo em vista a pouca literatura
sobre Lobby no Brasil e sua imbricação com as Relações Públicas, vê-se uma latente
possibilidade de abertura de discussões, principalmente, diante da carga negativa

1
Graduando do 3º período do curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás. E-mail:
roque.ufg@gmail.com
2
Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás.
Especialista em Gestão da Comunicação Pública e Empresarial e bacharel em Comunicação Social -
Jornalismo, ambas pela Universidade Tuiuti do Paraná. E-mail: johnnyribasdamotta@hotmail.com
3
Graduando do 3º período do curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás. E-mail:
borgesrm@hotmail.com
4
Professora do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás. Pesquisadora de Pós-
Doutorado e Professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San
Tiago Dantas - Unesp, Unicamp e PUC-SP, no qual obteve os títulos de Doutora e Mestre na área de
Instituições, Processos e Atores (linha de pesquisa: Relações Exteriores dos Estados Unidos), com estágio
de pesquisa de doutorado na Georgetown University (BEPE/Fapesp). E-mail: laisthomaz@gmail.com

36
atribuída ao termo pelo senso comum, devido uma construção social e midiática
(MANCUSO e GOZETTO, 2018).
O Lobby vem sendo associado de forma pejorativa às práticas ilícitas, como
corrupção e tráfico de influência, porém, como propõe Ferreira (2006), Lobby se trata de
um instrumento democrático de defesa de interesse que media as relações entre os
diversos grupos de pressão da sociedade e os detentores do poder por eles eleitos, assim,
transmitindo seus interesses e desejos aos ocupantes dos poderes Legislativos e
Executivos, em todas as esferas governamentais.
Considerando o cenário atual brasileiro, com um governo com características
intervencionistas, é importante obter mecanismos que tragam maior transparência e
accountability(prestação de contas) a democracia, e que consigam estimular a
participação da sociedade no processo de formulação de leis (FERREIRA, 2006;
ANGÉLICO, GOZETTO e MANCUSO, 2016). No Brasil, há um amparo constitucional
para a formação de grupos de pressão, em referência ao art. 5º, inciso XVII e XVIII da
Constituição, que assegura a ampla liberdade de associação para fins lícitos (ARAGÃO,
1994).
Portanto, é um direto de pessoas físicas, instituições, empresas, grupos da
sociedade e movimentos sociais de assegurar seus interesses diante do poder público.
Sendo assim, o presente estudo toma como base a visão acadêmica a respeito do termo
Lobby, tendo em vista que a atividade está presente dentro do leque de possíveis
atuações de um profissional de Relações Públicas. A partir desta perspectiva, indaga-se:
"O que pensam os profissionais de Relações Públicas sobre o Lobby no Brasil?”.
Para que essa pergunta seja respondida é necessário encontrar os pontos de
confluência teórico-práticos entre Lobby e Relações Públicas, além de entender o
desinteresse dos profissionais desta área em produzir e atuar, visto que a atividade já
esteve mais presente neste cenário. Um exemplo da atuação do Lobby no Brasil foi o
VII Congresso Brasileiro de Relações Públicas, realizado em Brasília em 1982, com
participações internacionais de especialistas, entre eles Phillip Kotler, que evidenciou a
utilidade profissional dolobbyng no âmbito das Relações Públicas.
Na época, os profissionais de Relações Públicas reivindicavam a destinação de
uma parcela do mercado no exercício das atividades profissionais como lobistas
(GOZETTO, 2005). Deste modo, entende-se que há uma relação direta entre os termos
Lobby e Relações Públicas, ambos em seus pontos comuns, exercem as funções como

37
mediadores de relacionamentos, transmissores de informação e comunicadores. No
entanto, é preciso defini-las para que não sejam enxergadas como sinônimos, pois a
Relações Públicas é tida como área capaz de se comunicar com os diversos públicos que
constitui a sociedade, um dos quais é o poder político, já o Lobby se limita a influenciar
as decisões no poder público (LODI, 1986). Por fim, cabe salientar que as questões
principais expostas nesse estudo buscam evidenciar o perfil demográfico e a percepção
dos profissionais no que tange às práticas de Lobby e as Relações Públicas em
Goiânia/GO.

Palavras-chave: Lobby. Relações Públicas. Grupos de Pressão. Comunicação.


Influência.

REFERÊNCIAS

ABRIG. Lobby entra na lista de ocupações reconhecidas pelo Ministério do


Trabalho. Disponível em: <https://static.poder360.com.br/2018/02/Nota-Lobby-
CBO.pdf>. Acesso em: 28 de setembro de 2018.

CAMARA GOVERNAMENTAL. Portaria nº 397, de 09 de outubro de 2002.


Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=0B39D1C
37DB8698344DE88D500EF8E3B.proposicoesWeb2?codteor=382544&filename=Legis
lacaoCitada+-INC+8189/2006>. Acesso em: 28 de setembro de 2018.

CAMARGO, B. V. ALCESTE: um programa informático de análise quantitativa de


dados textuais. In: MORERIRA, Antônia Silva Paredes et al. (Orgs). Perspectivas
teórico-metodológicas em representações sociais. João Pessoa-PB: Editora
Universitária, 2005. 603 p.

CAMARGO, B. V.; JUSTO, A. M. Tutorial para uso do software de análise textual


IRAMUTEQ.

CONSTITUIÇÃO. Art. 5, inc. XVII da Constituição Federal de 88. Disponível em:


<https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10730422/inciso-xvii-do-artigo-5-da-
constituicao-federal-de-1988#>. Acesso em: 29 de setembro de 2018.

CONSTITUIÇÃO. Art. 5, inc. XVIII da Constituição Federal de 88. Disponível em:


<https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10730389/inciso-xviii-do-artigo-5-da-
constituicao-federal-de-1988#>. Acesso em: 29 de setembro de 2018

CONSTITUIÇÃO. Art. 87, § 1, inc. II da Constituição Federal de 88. Disponível em:


<https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10693742/inciso-ii-do-paragrafo-1-do-artigo-87-
da-constituicao-federal-de-1988#>. Acesso em: 28 de setembro de 2018.

38
CONSTITUIÇÃO. Constituição da República Federativa do Brasil 1988. Disponível
em: <https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/91972/constituicao-da-republica-
federativa-do-brasil-1988#par-1_art-87_inc-II>. Acesso: 29 de setembro de 2018.

DE ARAGÃO, M. Grupos de pressão no Congresso Nacional: como a sociedade


pode defender licitamente seus direitos no poder legislativo. São Paulo: Maltese, 1994.

FERREIRA, Denilson Santos. Lobby político: uma ferramenta de comunicação social a


serviço da democracia. 2006. 61 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em
Comunicação - Habilitação em Publicidade e Propaganda) - Escola de Comunicação,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.

GOZETTO, A. C. O. Breve histórico sobre o desenvolvimento do lobbying no Brasil.


Revista de informação Legislativa, Brasília, v. 1, n.1, p.7-316, 2005.

LODI, J. B. Lobby: grupos de pressão. São Paulo: Pioneira, 1986.

MANCUSO, W. P.; ANGELICO, F.; GOZETTO, A. C. O. Ferramentas da


transparência: o possível impacto da Lei de Acesso a Informações Públicas no debate
sobre a regulamentação do lobby no Brasil. Revista de Informação Legislativa, v. 53,
p. 1-20, 2016.

MANCUSO, W. P.; GOZETTO, A. C. O. Lobby e políticas públicas no Brasil. In:


LUKIC, Melina de Souza Rocha; TOMAZINI, Carla (Org.). As ideias também
importam: abordagem cognitiva e políticas públicas no Brasil. Curitiba: Juruá editora,
2013, v.1, p.21-39.

______. Lobby e políticas públicas. Rio de Janeiro: FGV, 2018.

MANTIERI, C. E. Relações públicas e Lobby. In: I Sembrap, Seminário Brasileiro de


Valorização da profissão de Relações Públicas, Anais... 2007, Salvador.

MATTAR, F. N. Pesquisa de marketing: metodologia, planejamento, execução e


análise. 2.ed. São Paulo: Atlas, 1994, v.2.

FILHO, P. J. Ministro de Estado do Trabalho e Emprego. Portaria nº 397, de 09 de


outubro de 2002. Disponível em: <http://portalfat.mte.gov.br/programas-e-acoes-
2/classificacao-brasileira-de-ocupacoes/legislacao/>. Acesso em: 28 de setembro de
2018.

PINHO NETO, J. A. S. O contexto histórico do nascimento das relações públicas. In:


MOURA, Cláudia Peixoto (Org.). História das relações públicas: fragmentos da
memória de uma área. Porto Alegre, RS: EDIPUCRS, 2008.

REBOUÇAS, E. Lobby nas políticas e estratégias de comunicações: a movimentação


dos atogres sociais no Brasil e no Canadá. In: XXVII Congresso Brasileiro de Ciências
da Comunicação, 2004, Porto Alegre, Intercom, Anais... São Paulo: Intercom, 2004.

39
OBJETIVIDADE JORNALÍSTICA: DISCUSSÕES E REFLEXÕES SOBRE
UMA POSSIBILIDADE DE CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTO

João Barbosa1
Ângela Teixeira de Moraes2

RESUMO

Com base na necessidade de continuar aproximando teoria e prática no campo


da comunicação, este trabalho tem o objetivo de refletir criticamente sobre os conceitos
de objetividade jornalística e como eles influenciam na busca por uma verdade
construída num campo não científico, bem como as possibilidades de enxergar o
jornalismo como ambiente propício para a produção de conhecimento.
Para tanto, o trabalho lança mão da metodologia de Pesquisa Bibliográfica para
realizar tais discussões, buscando autores que discutem epistemologicamente os
conceitos de verdade, objetividade e produção de conhecimento. Antes de iniciar as
discussões, é importante explicar que o entendimento de objetividade apresentado neste
estudo possui um viés baseado em visões do campo jornalístico, apesar de o termo ter
sido herdado das ciências e da filosofia. Deste modo o campo do jornalismo deve ser
classificado como dado à objetividade, implicando em uma obrigação em prestar contas
em relação a uma realidade exterior, fazendo com que o objetivo do jornalismo seja o de
mediar uma realidade social, criando conteúdos que possam ser assimilados por
indivíduos ou grupos.
Apesar de a origem datar de séculos atrás e sua disseminação moderna ter
ocorrido junto com o positivismo, é importante destacar que as pesquisas sobre
objetividade dentro dos estudos do campo do jornalismo se intensificaram com base na
hipótese do newsmaking. Em resumo, a hipótese do newsmaking é entendida como um
campo que emprega seus estudos na produção e nos produtores da notícia, ao atentar-se

1
João Victor Mariano Barbosa Inácio Lauriano é mestrando do Programa de Pós-Graduação em
Comunicação da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. E-mail:
neojoaobarbosa@gmail.com.
2
Ângela Teixeira de Moraes é professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação na Faculdade
de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. Doutora em Letras e Linguística com
ênfase em filosofia da linguagem e análise do discurso. E-mail: prof.atmoraes@gmail.com.

40
em como essas rotinas industriais influenciam na representação e reconstrução dos
fatos, indo de encontro com a ideia de que o jornalismo é um espelho da sociedade.
Dentro desse arcabouço teórico encontram-se uma série de pesquisadores que
fizeram estudos e críticas sobre o conceito de objetividade jornalística, entre eles estão
os estudos realizados por Gaye Tuchman, que, com base em pesquisas etnográficas,
concluiu que em uma redação o jornalista objetivo é aquele que consegue fazer a
distinção entre o que pensa e o que é notícia, porém todos os rituais estratégicos
identificados apenas apresentam uma tentativa de se chegar à objetividade, não
atingindo essa finalidade. Pelo contrário, os métodos utilizados pelos repórteres podem
resultar em efeitos inversos do pretendido. Já outros autores entendem a não existência
de uma objetividade no jornalismo não como uma causa do sistema informacional
contemporâneo, mas sim devido à produção e atividade realizadas pelos jornalistas, ou
seja, as rotinas produtivas aos quais os jornalistas são submetidos.
Além disso, o entendimento é de que a objetividade jornalística não é um
conceito global, sendo possível perceber que cada país e região possuem seus próprios
entendimentos sobre o termo, sendo possível concluir que não existe um único conceito
de objetividade e reafirmando o entendimento de que é um conceito construído
socialmente. Porém, buscando uma representação mais filosófica do conceito de
objetividade no jornalismo, é possível apresentar o conceito como algo ligado à
produção de conhecimento e, com base nisso, os problemas envoltos aos estudos da
objetividade jornalística deixam de ter apenas características éticas e morais para ganhar
contornos epistemológicos.
Em um sentido epistêmico da distinção entre objetivo e subjetivo, uma
afirmação ou discurso só pode ser considerado como objetivo se for reconhecido como
verdadeiro ou falso independente dos sentimentos ou predileções que o receptor possa
ter, já uma afirmação é considerada subjetiva se, para sua compreensão, seja
essencialmente necessário o uso dos sentimentos dos receptores ou observadores.
Quanto ao papel do jornalista em meio a essa discussão, é possível sim considerar o
repórter como um indivíduo objetivo, mas somente se ele conseguir se guiar pela
imparcialidade, se abstrair da maior quantidade de características pessoais possíveis.
Porém, mesmo seguindo esses procedimentos, é sabido que a objetividade não é
completa, surgindo o que se pode chamar de graus ou níveis de objetividade, sendo
possível inferir que existirem áreas em que as informações são mais objetivas do que

41
em outras. Sendo assim, sobre o risco de se atingir um baixo nível de objetividade, é
possível compreender que esse risco é menor no jornalismo investigativo, onde é
possível perceber na pauta elaborada pelo repórter uma semelhança estrutural ao elenco
de hipóteses que guia as pesquisas científicas. Tendo como resultados no campo do
jornalismo a revelação de fatos que eram desconhecidos, e na ciência a descoberta de
uma realidade físico-natural.
Sendo assim, porque o jornalismo não é popularmente reconhecido como
produtor de conhecimento? Sobre esta questão, é possível entender que a falta de
credibilidade no jornalismo como construtor de conhecimento esbarra na falta de
transparência dos métodos utilizados na produção das notícias, já nas publicações
científicas, em que o método utilizado para se chegar a determinada resposta está
sempre à disposição do leitor, garante uma maior sensação de objetividade e
comprometimento. Complementando esta visão, entende-se que, com base na teoria da
verdade como correspondência – o entendimento de verdade se refere a descrição de
como são as coisas no mundo, e essas descrições serão consideradas verdadeiras ou
falsas em função de as coisas serem de fato como são descritas –, o jornalismo está sim
num campo epistemológico muito próximo ao das ciências, justamente por conseguir
relacionar a linguagem com a realidade.
A grande diferença fica por conta de que o jornalismo trabalha mais com uma
realidade social do que com uma realidade natural, como as ciências tradicionais. Por
fim, não se pretende classificar o jornalismo como uma ciência, mas é possível que
ambos possam ser caracterizados como epistemicamente objetivos, já que tanto o
jornalista como o cientista têm o objetivo de investigar fatos que não dependem das
atitudes, de preconceitos e de vieses de qualquer tipo. Com isso, é possível acreditar que
este seja o momento de o jornalismo se aproximar cada vez mais dos métodos
científicos para que, ao mesmo tempo em que garante um resultado mais próximo da
realidade, também consiga reconquistar a confiança e credibilidade que vem perdendo
devido ao advento das novas mídias – em especial as redes sociais digitais –, que têm
potencializado a desinformação e prejudicado a garantia do direito à comunicação e
informação.

Palavras-chave: Conhecimento. Jornalismo. Newsmaking. Objetividade Jornalística.


Verdade.

42
REFERÊNCIAS

ALSINA, Rodrigo. A construção da notícia. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2009.

DEMENECK, Bem-Hur. Objetividade Jornalística: o debate contemporâneo do


conceito. Dissertação (Dissertação em Jornalismo) – UFSC. Florianópolis, 2009.

KNOLL, Gabriel de O. Pereira. Conceito de objetividade no jornalismo: uma retomada


para a historicidade do conceito a uma definição filosófico-jornalística com base nas
pesquisas de Stephenie Martin. In: XI Congresso de Ciências da Comunicação na
Região Sul. Anais... Chapecó, 2010.

KOVACH, Bill; ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo: o que os


jornalistas devem saber e o público exigir. São Paulo: Geração Editorial, 2004.

LISBOA, Sílvia Saraiva de Macedo. Jornalismo e a credibilidade percebida pelo


leitor: independência, imparcialidade, honestidade, objetividade e coerência.
Dissertação (Dissertação em Comunicação e Informação) – UFRS. Porto Alegre, 2012.

PIMENTEL, Aldenor da Silva; TEMER, Ana Carolina Rocha Pessôa. Newsmaking in


Portuguese: uma discussão das hipóteses de Gaye Tuchman no contexto brasileiro. In:
Comunicação & Informação. Goiânia, 2012, v. 15, n. 2, p. 116-132.

PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. A apuração da notícia: métodos de investigação na


imprensa. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2010.

SERVA, Leão. Jornalismo e desinformação. São Paulo: Editora SENAC, 2001.

SIGNATES, Luiz. A comunicação como ciência básica tardia: uma hipótese para o
debate. In: XXVI Encontro Anual da Compós, Anais... São Paulo, 2017.

TAMBOSI, Orlando. Elementos para uma epistemologia do jornalismo. Revista


Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 26, p. 40-52, 2003.

TAMBOSI, Orlando. Jornalismo e teorias da verdade, Revista Brasileira de Ciências


da Comunicação. São Paulo, v. 30, p. 35-48, 2007.

TEMER, Ana Carolina Rocha Pessôa; NERY, Vanda Cunha Albieri. Para entender as
teorias da comunicação. Uberlândia: EDUFU, 2009.

TUCHMAN, Gaye. A objetividade como ritual estratégico: uma análise das noções de
objetividade dos jornalistas. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: questões, teorias e
“estórias”. Lisboa: Vega, 1999, p. 74-90.

43
COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO NA PERSPECTIVA DOS
PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Bruno Eduardo Slongo Garcia1


Johnny Ribas da Motta2
Claudomilson Fernandes Braga3

RESUMO

O presente estudo tem por finalidade analisar, sob a ótica dos profissionais que
atuam na aprendizagem, a importância dos processos comunicativos para a Educação a
Distância. A Educação a Distância (EAD) é uma modalidade de ensino abrangente,
tendo como função a inclusão e democratização, por meio da ampliação do acesso ao
ensino para uma parcela expressiva da população. Tratar-se de uma modalidade não
tradicional e tipicamente relacionada à era tecnológica, dispondo de um acervo de
técnicas a disposição da sociedade. Ainda, sua eficácia é comprovada de forma inegável
e caracteriza a democratização do saber, considerando-a como a educação do futuro.
A modalidade é composta pela presença de um tutor, com adaptação da
linguagem, equipe multidisciplinar e blendedlearning4, integrando, as particularidades e
especificidades como o público a ser atingida, continuidade do ensino, prática e a
realidade, em que a crescente utilização de tecnologias chama a atenção dos
planejadores educacionais para a educação, ao proporcionar benefícios como
oportunidades de aprendizado, atualização das competências humanas, redução dos
custos relacionados à educação, nivelamento das desigualdades sociais, conciliação da
vida profissional, pessoal e agregação de experiências internacionais, por meio da
modalidade a distância. Considerando a inserção das tecnologias na educação, é
necessário observar de forma estratégica caracterizando-as a partir das Tecnologias da

1
Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Contabilidade da Universidade Federal do Paraná.
Especialista em Gestão de Negócios (UFPR) e bacharel em Administração pela Pontifícia Universidade
Católica do Paraná. E-mail: bruno.garcia@pucpr.br
2
Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás.
Especialista em Gestão da Comunicação Pública e Empresarial e bacharel em Comunicação Social -
Jornalismo, ambas pela Universidade Tuiuti do Paraná. E-mail: johnnyribasdamotta@hotmail.com
3
Doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2011). Pós-doutor em
Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás/ Universidade Estadual do Rio de
Janeiro. Professor adjunto da Universidade Federal de Goiás nos cursos de Relações Públicas e Gestão da
Informação e no Programa de Pós-graduação em Comunicação PPGCOM (Especialização e Mestrado).
E-mail: milsonprof@gmail.com
4
Refere-se a um sistema de formação onde a maior parte dos conteúdos é transmitida em curso à
distância, normalmente pela internet, entretanto inclui necessariamente situações presenciais, daí a origem
da designação blended, algo misto, combinado. Também é conhecido como ensino híbrido.
44
Informação e Comunicação (TICs), em um momento em que os ambientes de
aprendizagem convergem e dialogam com campos de experiências que, por sua vez,
processam mudanças na educação.
Com intuito de atingir o objetivo proposto, elaborou-se um roteiro de entrevistas,
para conhecer o perfil demográfico e o posicionamento quanto à importância da
comunicação nesta modalidade de ensino. Para a coleta dos dados, foram considerados
os atores envolvidos nas práticas pedagógicas da EAD, como tutores, coordenadores,
professores e facilitadores. A amostra foi composta de maneira intencional, a partir do
convite a 20 profissionais residentes na cidade de Curitiba/PR, que desempenham
funções relacionadas à modalidade em instituições públicas e privadas, previamente
identificados pelas atividades dentro das organizações em que atuam, e encontram-se
nos mais diversos níveis de ensino.
Os dados foram tratados e analisados a partir da perspectiva da Análise de
Conteúdo proposta por Bardin (2009) e as técnicas de codificação elaboradas por
Saldanã (2013), sob a acepção da Avaliação em Aprendizagem (ROMANOWSKI,
2008; GARCIA, 2013;). Os achados contribuem para compreensão da perspectiva dos
profissionais da área. A partir das mesmas, foi possível estabelecer que os profissionais
consideram o conceito de comunicação dinâmico, caracterizado por um processo em
que a informação integra a mensagem e esta é codificada por atores.
A importância de se estabelecer um conceito de comunicação torna-se relevante
na discussão do presente estudo, qual permite compreender se há um consenso entre os
respondentes. Conforme observado, há um consenso da dinamicidade do conceito a
partir da informação, configurada como mensagem em relações construtivas. E a partir
da comunicação, a EAD se desenvolve como um diálogo reflexivo. Ademais, a
comunicação envolve múltiplos fatores e atores, e ao mencionar a avaliação para a
interação com a tecnologia, surgem os diferentes perfis.
A miscigenação dos fatores comportamentais requer abordagens dialógicas
abrangentes, como um aparato de mediação entre o ator e a aprendizagem, considerando
que o distanciamento físico requer uma aproximação comunicativa intermediada. Por
fim, é possível estabelecer que coexista a necessidade de avaliar não somente a
mediação tecnológica, mas, os atores envolvidos.
A comunicação é um processo interativo, para tanto, é necessário considerar os
atores sociais envolvidos, como professores, tutores e estudantes. Nesta perspectiva, é

45
estabelecido o pensamento de uma aprendizagem que é compartilhada por meio da
comunicação. Conclusivamente, o pensamento dos profissionais da EAD é estabelecido
em uma linha tênue entre a comunicação e a dinâmica, destacando que será efetiva a
partir do processo avaliativo e implementador, no momento em que a comunicação é
reconhecida como necessária para qualquer momento de aprendizagem. O estudo
contribui para a compreensão da perspectiva profissional sobre a comunicação do
estudante para os fatores e atores envolvidos, de forma breve contribui a ampliar o perfil
profissional da área ao compreender os processos comunicacionais e suas contribuições
para a aprendizagem, principalmente na modalidade a distância.

Palavras-chave: Comunicação. Educação a Distância. Profissionais da EAD. Teoria da


Comunicação. Aprendizagem.

REFERÊNCIAS

ARRUDA, Eucidio Pimenta; ARRUDA, DurcelinaEreni Pimenta. Educação à distância


no Brasil: políticas públicas e democratização do acesso ao ensino superior. Educação
em Revista, v. 31, n. 3, 2015.

BATISTA, Anderson Hernandes. O perfil do profissional de sucesso do mundo


moderno, Editoração eletrônica. E-book, 2004.

BORGES, Felipe Augusto Fernandes. A EaD no Brasil e o Processo de Democratização


do Acesso ao Ensino Superior: Diálogos Possíveis. EAD em Foco, v. 5, n. 3, 2015.

BRAGA, Eliana Mara. Competência em comunicação: uma ponte entre aprendizado e


ensino na enfermagem. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo/SP, 2004.

CAETANOL, Camilla Barreto Rodrigues Cochia; COSTA, Maria Luiza Furlan;


QUAGLIA, Isabela. Estratégia para a democratização do acesso ao ensino superior. In:
ESUD - XI Congresso brasileiro de ensino superior. Anais do Congresso.
Florianópolis, SC, 2014.

DA SILVA, Renata Gomes; DE OLIVEIRA, Eloiza Gomes. A EaD Contribui Para a


Democratização Do Acesso À Educação Pública?. SIED: ENPED - Simpósio
Internacional de educação a distância e encontro de pesquisadores em educação a
distância. Anais do Congresso. São Carlos, SP, 2012.

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação?. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

FERNANDES, Domingos. Para uma teoria da avaliação no domínio das


aprendizagens. Estudos em avaliação educacional, v. 19, n. 41, p. 347-372, 2008.

46
GARCIA, Rosineide Pereira Mubarack. Avaliação da aprendizagem na educação a
distância na perspectiva comunicacional. Universidade Federal do Recôncavo da
Bahia, Cruz das Almas/BH: UFRB, 2013.

KENSKI, Vani Moreira. O desafio da educação a distância no Brasil. Revista


Educação em Foco, v. 7, n. 1, 2002.

LEMGRUBER, Márcio Silveira. Educação a Distância: para além dos caixas


eletrônicos. In:2º Simpósio hipertexto e tecnologias na educação, Anais do Simpósio,
Recife/PB. v. 73, 2008.

DA SILVA, Andreza Regina Lopes et al. Modelos utilizados pela educação a distância:
uma síntese centrada nas instituições de ensino superior brasileiras. Revista Gestão
Universitária na América Latina-GUAL, v. 4, n. 3, p. 153-169, 2011.

MARTINI, Amanda Laurentina Gomes; PERIPOLLI, Odimar João. Os meios de


comunicação como ferramenta pedagógica. Eventos Pedagógicos, v.2, n.2, 26-36,
2011.

MARTINS, Karine; FROM, Danieli Aparecida. A Importância da Educação a


Distância na Sociedade Atual, 2016. Disponível em:
<http://www.assessoritec.com.br/wp-content/ uploads/sites/641/2016/12/Artigo-
Karine.pdf.> Acesso em: 25 mar. 2018.

DE MEIRELLES JUNIOR, Julio Candido; DO AMARAL MEIRELLES,


CamylaDelyz. A educação à distância: democratização e universalização do
conhecimento. In: SIED: Enped-simpósio internacional de educação a distância e
encontro de pesquisadores em educação a distância. Anais do Congresso, São
Carlos/SP, 2012.

MENDONÇA, Clarissa Gonçalves Pereira. Fatores críticos de sucesso da Educação a


Distância no ambiente corporativo. 2015. Trabalho de conclusão de curso de
especialização. Universidade federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS, 2015.

MUGNOL, Marcio. A Educação a Distância no Brasil: conceitos e


fundamentos. Revista Diálogo Educacional, v. 9, n. 27, p. 335-349, 2009.

NETTO, Carla; GIRAFFA, Lucia MM; FARIA, Elaine T. Graduações a distância e o


desafio da qualidade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010.

DE SOUSA SILVA, Vanderson. Políticas públicas para a educação a distância:


democratização do ensino superior?. Educação Unisinos, v. 18, n. 2, p. 112-120, 2014.

OMENA, Anderson Carlos de Carvalho; CAVALCANTE, Maria do Carmo Galindo;


FINGER, Andrew Beheregarai. Políticas Públicas para a Democratização do Ensino:
Uma análise do programa Universidade Aberta do Brasil na Universidade Federal de
Alagoas, 2016. Disponível em: <http://www.profiap.org.br/profiap/eventos/2016/i-
congresso-nacional-de-mestrados-profissionais-em-administracao-publica/anais-do-
congresso/40708.pdf.> Acesso em: 6 mai. 2018.

47
PEREIRA, Alice Theresinha Cybis; SCHMITT, Valdenise; DIAS, M. R. A. C.
Ambientes virtuais de aprendizagem. AVA-Ambientes Virtuais de Aprendizagem em
Diferentes Contextos. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna Ltda, p. 4-22, 2007.

PRETI, Oreste et al. Educação à distância: uma prática educativa mediadora e


mediatizada. 2008. Disponível em:http://www. nead. ufmt. br/pesquisa/pdf/5. Pdf.
Acesso em 5 mai. 2018.

ROMANOWSKI, Joana Paulin. Avaliação da aprendizagem na educação a distância:


análise da prática para início de conversa. Eccos revista científica, v. 10, n. 2, 2008.

SALDAÑA, Johnny. The coding manual for qualitative researchers. London: Sage,
2015.

SANTOS, M. C. D. Importância da Comunicação na EAD Virtual: Enfoque conceitual


e dialógico. In: 17º Congresso internacional abed de educação a distância. Anais de
Congresso. Manaus/AM. 2011.

SARTORI, Ademilde Silveira. A Comunicação na Educação a Distância: o desenho


Pedagógico e os modos de interação. Anuário Internacional de Comunicação
Lusófona, p. 313, 2012.

SILVA, DOS SANTOS; ET OLIVEIRA, María de Fátima; DEL SOCORRO, María.


Interação e Comunicação em Educação a Distância. Sector Educacional, v. 5, 2011.

SOUSA, Robson Pequeno de; MOITA, Filomena da, CARVALHO; Ana Beatriz
Gomes. Tecnologias digitais na educação. Campina Grande: EDUEPB, 2011.

SOUZA, Wanderson Gomes de; GOMES, Celso Augusto; MOREIRA, Simone de


Paula Teodoro. Educação a Distância como possibilidade de democratização do
ensino superior: uma discussão à luz do pensamento de Democracia e Educação de
John Dewey, 2014. Disponível em:
http://www.abed.org.br/hotsite/20ciaed/pt/anais/pdf/348.pdf. Acesso em: 25 mar. 2018.

VALENTE, José Armando. Pesquisa, comunicação e aprendizagem com o


computador. O papel do computador no processo ensino-aprendizagem. In: Gestão
escolar e tecnologias. p.22-31, 2005.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Desafios culturais da comunicação à


educação. Comunicação & Educação, n. 18, p. 51-61, 2000.

TEMER, ACRP; SANTANA, MJS. Educação e Comunicação em Paulo Freire: reflexões


sobre jornalismo de serviço à luz do pensamento freiriano. Comunicação & Mercado,
UNIGRAN-Dourados-MS, v. 3, n. 8, p. 4-15, 2014.

48
A PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE COMUNICAÇÃO DAS
INSTITUIÇÕES PÚBLICAS DE ENSINO SUPERIOR EM GOIÁS SOBRE
COMUNICAÇÃO PÚBLICA

Stephanie Silva1
Tiago Mainieri2

RESUMO

Muitos fatores dificultam a aplicabilidade da comunicação pública: estrutura


inadequada, falta de servidores, equipes sobrecarregadas, gestão que não valoriza e que
não possui visão estratégica da comunicação, mudanças constantes na equipe, falta de
investimento em qualificação e capacitação dos profissionais, entre outros. Nos últimos
anos, os órgãos e instituições públicas conseguiram superar algumas dessas
dificuldades, porém, a maioria das instituições continua distante das práticas segundo os
princípios teóricos da comunicação pública.
Diante dessa realidade, pode-se questionar se somente a estrutura e os aspectos
operacionais são impeditivos para a atuação segundo os princípios da comunicação
pública ou se tem faltado aos servidores encarregados dessa função um “espírito público
para lidar com a comunicação de interesse coletivo” (DUARTE, 2011, p. 128). Para
buscar compreender o porquê da comunicação pública ainda ser um conceito de difícil
aplicabilidade nos órgãos e instituições públicas é que se levantou como problema de
pesquisa Como a percepção dos profissionais de comunicação que atuam nas
instituições públicas de ensino superior em Goiás influencia na prática da
Comunicação Pública nessas instituições?
De acordo com Chaui (2008), a formação de uma pessoa, a história de vida e
suas experiências influenciam na forma como as coisas são percebidas. Para a autora
(CHAUI, 2008, p. 135), a percepção é o conhecimento de um sujeito corporal, assim, as
condições do sujeito são tão importantes quanto as condições dos objetos percebidos.

1
Aluna do Programa de Pós-Graduação em Comunicação em nível de Mestrado da Faculdade de
Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás – FIC/UFG, na linha de pesquisa Mídia e
Cidadania. Especialista em MBA em Marketing pelo IPOG (2012), graduada em Comunicação Social
com Habilitação em Jornalismo pela UFG (2008). E-mail: stephaniesilvajornalista@gmail.com.
2
Professor do Programa de Mestrado em Comunicação na linha de pesquisa em Mídia e Cidadania da
Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás – FIC/UFG. Pós-Doutor pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro - ECO/UFRJ, doutor em Ciências da Comunicação pela
Universidade de São Paulo – USP. E-mail: tiagomainieri@gmail.com.

49
Com esse objetivo, o primeiro passo metodológico da pesquisa foi conhecer a amostra
de profissionais de comunicação que atuam nessas IES, levantar quem são os servidores
(efetivos, comissionados, temporários ou terceirizados), assim como bolsistas ou
estagiários, que compõem as equipes de comunicação dos
departamentos/coordenações/secretarias de comunicação das quatro IES públicas do
estado de Goiás: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano (IF
Goiano), do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG), da
Universidade Estadual de Goiás (UEG) e da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Para identificar esses profissionais, levantou-se dados dos sites institucionais do
IFG, IF Goiano, UEG e UFG sobre as equipes de comunicação. Após esse
levantamento, verificou-se com os gestores de comunicação de cada uma dessas
instituições se a listagem das equipes de comunicação disponibilizadas nos sites estava
atualizada e qual era o quadro atual desses servidores. O segundo passo metodológico
da pesquisa foi a realização de uma análise documental para conhecer melhor o perfil
desses servidores, pesquisou-se os dados disponíveis sobre esses profissionais no Portal
de Transparência Federal, no Portal Goiás Transparente e na Plataforma Lattes.
A identificação da equipe e o levantamento do perfil dos profissionais de
comunicação do IFG, IF Goiano, UEG e UFG possibilitou a listagem de dados que
influenciam na percepção desses profissionais como tempo de vínculo com a
instituição, formação profissional e experiências profissionais anteriores. Para um
melhor entendimento dessa percepção, além de analisar os dados obtidos com o perfil
levantado, buscou-se também ouvir qual é a compreensão do conceito e dos princípios
de comunicação pública desses profissionais. Assim, o terceiro passo metodológico foi
o envio de um questionário com 35 perguntas fechadas e semifechadas entre os dias 23
de agosto a 20 de setembro via e-mail por meio da plataforma Google Forms para 110
profissionais que integram as equipes de comunicação do IFG, IF Goiano, UEG e UFG.
As perguntas abordaram questões como características da comunicação pública,
espaços de manifestação dos cidadãos, classificação de informações quanto ao
atendimento ou não do interesse público, opinião sobre atividades que integram ou não
a função social de um profissional de comunicação, entre outras. O questionário
continha perguntas com múltiplos formatos, opções com escolha única, opções com três
ou mais escolhas e opções com escala de Likert. Da amostra de 110 profissionais para

50
os quais o link do questionário foi enviado via e-mail, 38 responderam ao questionário,
o que representa 34,5% da amostra total.
Para análise das respostas, utilizou-se os estudos de Zémor, Duarte, Brandão e
Koçouski e sintetizou-se o conceito de comunicação pública no entendimento de uma
comunicação dialógica orientada pelo interesse público que preza pela transparência e
promove a cidadania. Além do conceito sintetizado, a análise foi norteada também pelos
pré-requisitos da comunicação pública estabelecidos por Jorge Duarte (2007): a
transparência, o acesso, a interação e a ouvidoria social. Apesar de 84,2% dos
profissionais terem respondido que a comunicação pública deve ser priorizada nas IES,
a maioria dos profissionais elegeram como características totalmente essenciais em uma
comunicação para ela ser considerada pública particularidades da comunicação
organizacional como o zelo pela imagem da instituição (84,2%), a publicidade
institucional (60,5%) e a definição e divulgação da missão, da visão e dos valores da
instituição (52,6%).
Outros dados que também revelam a falta de clareza dos profissionais sobre o
conceito de comunicação pública foram encontrados nas atividades consideradas pelos
profissionais como totalmente integrantes à função social de um profissional de
comunicação de uma IES pública. Enquanto 86,8% consideraram promover a instituição
na mídia para o fortalecimento da imagem e identidade institucional uma atividade
integrante à função social do profissional de comunicação, somente 39,5% elegeram
estimular a sociedade a participar da gestão da instituição. Por esses e outros resultados
obtidos com o questionário e com o levantamento do perfil dos profissionais,
compreende-se que os profissionais de comunicação das IES públicas do estado de
Goiás possuem uma percepção distorcida da comunicação pública.

Palavras-chave: Comunicação Pública. Percepção. Instituições públicas de ensino.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Elizabeth Pazito. Comunicação Pública: 17 anos depois. In: MORAES,


Ângela; SIGNATES, Luiz (Org). Cidadania comunicacional: teoria, epistemologia e
pesquisa. 1.ed. Goiânia, GO: Gráfica UFG, 2016. p. 113-130.

BRANDÃO, Elizabeth Pazito. Conceito de Comunicação pública. In: DUARTE, Jorge


(Org.). Comunicação Pública: estado, mercado, sociedade e interesse público. 2.ed. São
Paulo: Atlas, 2009. cap 1.

51
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República ederativa do Brasil recurso
eletrônico . Brasília, D : Supremo Tribunal ederal, Secretaria de Documentação, 2017.

BUCCI, Eugênio. O Estado de Narciso: a comunicação pública a serviço da vaidade


particular. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13.. ed. São Paulo: Editora Afiliada, 2008.

CHAUI, Marilena. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de


Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, set./dez. 2003. Disponível em:
<http://advivo.com.br/sites/default/files/documentos/Chaui_2003_A_universidade_public
a_sob_nova_perspectiva.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2018

CORTINA, Adela. Cidadãos do mundo: para uma teoria da cidadania. Tradução: Silvana
Cobucci Leite. São Paulo: Loyola, 2005.

DUARTE, Jorge. Comunicação pública. In: LOPES, Boanerges (Org.). Gestão em


comunicação empresarial: teoria e técnica. Juiz de Fora, MG: Multimeios, 2007.
Disponível em: <http://www.jforni.jor.br/forni/files/ComP%C3%BAblicaJDuartevf.pdf>.
Acesso em: 27 set. 2017.

DUARTE, Jorge; VERAS, Luciara (Org). . Brasília,


DF: Casa das Musas, 2006.

DUARTE, Jorge; MONTEIRO, Graça. Potencializando a comunicação nas organizações.


In: KUNSCH, Margarida M. Krohling (Org). Comunicação Organizacional: linguagem,
gestão e perspectivas, volume 2.São Paulo: Saraiva, 2009.

______. Instrumentos de Comunicação Pública. In: DUARTE, Jorge (Org.).


Comunicação Pública: Estado, mercado, sociedade e interesse público. 2.ed. São Paulo:
Atlas, 2009. Cap. 4.

______. Sobre a emergência do(s) conceito(s) de comunicação pública. In: KUNSCH,


Margarida Maria Krohling (Org). Comunicação pública, sociedade e cidadania. São
Caetano do Sul, SP: Difusão Editora, 2011.

FIDALGO, António. Percepção e experiência na Internet. In: CORREIA, João Carlos;


FIDALGO, António; SERRA, Paulo (Orgs.). Mundo Online da Vida e Cidadania.
Informação e Comunicação Online – Volume III. Covilhã, Portugal: Universidade da
Beira Interior, 2003.

FLICK, Uwe. Introdução à Pesquisa Qualitativa. 3. ed. Trad. Joice Elias Costa. Porto
Alegre: Artmed Editora, 2009.

FLORCZAK, Rosângela. Comunicação e incomunicação nas organizações educacionais:


riscos e possibilidades. In: Congresso brasileiro de ciências da comunicação, 33, 2010,
Caxias do Sul. Anais... Caxias do Sul: Intercom, 2010b. Disponível em:
<http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2010/resumos/R5-1616-1.pdf>. Acesso
em: 16 mar. 2018.
52
______. O lugar da comunicação na gestão educacional: dimensões possíveis. In:
Congresso brasileiro científico de comunicação organizacional e de relações públicas, 4.,
2010, Porto Alegre. Anais eletrônicos... Porto Alegre: Abrapcorp, 2010a. Disponível em:
<http://www.abrapcorp.org.br/anais2010/GT2/GT2_Rosangela.pdf>. Acesso em: 16 mar.
2018.

HASWANI, Mariângela Furlan. Comunicação Pública: Bases e Abrangência. São Paulo:


Saraiva, 2013.

KOÇOUSKI, Marina. Comunicação Pública: construindo um conceito.In: MATOS,


Heloiza Helena (Org.). Comunicação Pública: interlocuções, interlocutores e
perspectivas. São Paulo: ECA/USP, 2013.

KUNSCH, Margarida M. Krohling. Comunicação Organizacional: surgimento e evolução


das práticas, conceitos e dimensões. In: PEREZ, Clotilde; BARBOSA, Ivan Santo.
Hiperpublicidade: fundamentos e interfaces. v. 1. São Paulo: Saraiva, 1997.

KUNSCH, Margarida M. Krohling. Comunicação pública: direitos de cidadania,


fundamentos e práticas. In: MATOS, Heloiza Helena (Org.). Comunicação Pública:
interlocuções, interlocutores e perspectivas. São Paulo: ECA/USP, 2013.

KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Universidade e comunicação na edificação da


sociedade. São Paulo: Loyola, 1992.

LÓPEZ, Juan Camilo Jaramillo. Advocacy: uma estratégia de comunicação pública. In:
KUNSCH, Margarida Maria Krohling (Org). Comunicação pública, sociedade e
cidadania. São Caetano do Sul, SP: Difusão Editora, 2011.

MAINIERI, Tiago. Um peso, duas medidas: desvelando a comunicação pública na


sociedade midiatizada. Goiânia, GO: Gráfica UFG, 2016.

MATOS. Heloiza. A comunicação pública na perspectiva da teoria do reconhecimento. In:


KUNSCH, Margarida Maria Krohling (Org). Comunicação pública, sociedade e
cidadania. São Caetano do Sul, SP: Difusão Editora, 2011.

MONTEIRO, Graça França. A singularidade da comunicação pública. In: DUARTE,


Jorge (Org.). Comunicação Pública: estado, mercado, sociedade e interesse público.
2.ed. São Paulo: Atlas, 2009.

OLIVEIRA, Maria osé da Costa. Comunicação organizacional e comunicação pública.


In: MATOS, Heloiza Helena (Org.). Comunicação Pública: interlocuções, interlocutores
e perspectivas. São Paulo: ECA/USP, 2013.

ROLANDO, Stefano. A dinâmica evolutiva da comunicação pública. In: KUNSCH,


Margarida Maria Krohling (Org). Comunicação pública, sociedade e cidadania. São
Caetano do Sul, SP: Difusão Editora, 2011.

SMITH, Plínio Junqueira. A percepção como uma relação: uma análise do conceito
comum de percepção analytica. Revista de Filosofia, v. 18, n. 1, p. 109-132. 2014.
53
Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/analytica/article/view/2326>. Acesso
em 08 mar. 2018.

WOLTON, Dominique. Informar não é comunicar. Tradução de Juremir Machado da


Silva. Porto Alegre: Sulina, 2011.

ZÉMOR, Pierre. As formas da comunicação pública. In: DUARTE, Jorge (Org.).


Comunicação Pública: estado, mercado, sociedade e interesse público. 2.ed. São Paulo:
Atlas, 2009.

54
GT Mutações Discursivas, 
Comunicação, Literatura e 
Consumo
Coordenação Goiamérico Felício e Janaína Jordão
INSURGENTE: CRÔNICA DA REPRESSÃO POLICIAL EM TRÊS
MANIFESTAÇÕES CONTEMPORÂNEAS

Bruno Souza Destéfano1


Angelita Pereira Lima2

RESUMO

A PEC 55, antiga 241, foi aprovada com 53 votos a favor em segunda votação
realizada em sessão plenária do Senado. A medida que criou teto para o gasto público já
havia sido aprovada em primeira votação no mês anterior (novembro de 2016) e foi
promulgada no fim do mesmo ano. Nos dias das deliberações legislativas, duas grandes
manifestações contrárias ao projeto de emenda ganharam forma por intermédio de
outros atos e ocupações de estudantes em diferentes unidades de ensino do país: a de 29
de novembro e a de 13 de dezembro de 2016, realizadas nos arredores do Congresso
Nacional, em Brasília.
Meses depois, no centro de Goiânia, outro protesto resultante de uma greve geral
também ganhou espaço, porém com objetivos diferentes (ou nem tanto assim). No dia
28 de abril de 2017, diversos estudantes, docentes, grupos organizados e trabalhadores
em geral se reuniram para realizar uma manifestação contra a reforma trabalhista e a
reforma previdenciária propostas pelo governo Temer. Ambos os cenários de protestos
decorreram em tempos diferentes, com motivações diferentes, e em um contexto
espacial diferente.
Contudo, há um complexo jogo de ações nas duas narrativas que veio
instrumentalizado por fumaça, tiros de borracha e sangue: a repressão policial e a força
coercitiva deste instrumento de violência. Diversas narrativas surgiram entre as
violências destas manifestações, mas talvez ainda existam vozes sufocadas que
necessitem um instrumento específico para se projetarem, e essas vozes podem inferir
significado por si mesmas nos moldes da repressão policial. A pesquisa que sustenta
este trabalho se baseia nas seguintes questões: é possível enxergar traços de confluência
entre as histórias?

1
Graduando em Comunicação Social – Jornalismo na Faculdade de Informação e Comunicação da
Universidade Federal de Goiás | souza_bs@hotmail.com
2
Profª. Drª. na Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás
angelitalimaufg@gmail.com
56
Esses pontos de conexão podem gerar algum entendimento perante o motriz da
violência policial nas manifestações contra a PEC 55/241 e as reformas do governo
Temer, tal como o perfil das vítimas e o grau de repressão por meio de marcadores de
diferença (raça, classe e gênero)? Por meio de histórias singulares de sujeitos
pertencidos em um mesmo contexto socio-histórico, há uma linha narrativa em comum?
“Insurgente: crônica da repressão policial” é um projeto experimental construído no
formato de um livro-reportagem sob a ótica de vítimas que sofreram repressão policial
nestas três manifestações.
O objetivo é, por meio de crônicas (breves textos), formular uma crônica maior
sobre a violência policial, no sentido de compreender as motivações dos agentes
coercitivos, compreender as consequências na vida dos sujeitos-vítimas (e da sociedade
como um todo, levando para o lado simbólico sobre o que o ato de manifestar
representa) e compreender a experiência que é passar por esse tipo de repressão.
Com base no referencial teórico em Jornalismo Literário e as metodologias de
imersão, entrevistas em profundidade, construção de cena e diálogos, o resultado
esperado do trabalho é a produção de uma narrativa que produza empatias sociais entre
pesquisador, pesquisados e leitores. Além disso, a construção de um material voltado às
experiências das vítimas estabelece novos registros para apreender e interpretar os
recentes acontecimentos históricos os quais não devem ser esquecidos nem distorcidos.
Narrar experiências de vida exige um comprometimento que vai além de simples
técnicas predeterminadas, ainda mais quando o enredo é entendido apenas por um viés
da realidade socio-histórica. As vozes sufocadas, em um contexto amplo e complexo, só
conseguem respirar através de um diálogo franco e que trabalhe com a narração,
apuração e investigação de maneira humanizada. Afinal, são pessoas de carne e osso
que querem comunicar as suas ideias sem que o microfone seja constantemente retirado
de suas mãos. Mudanças incomodam. Vozes que buscam modificações estruturais são
vistas como ameaça. Transformar é um ato político e necessário, até mesmo quando
estamos falando sobre contar histórias de violência. Afinal, balançar o status quo dentro
do aparato jornalístico é mais do que elaborar notícias com várias vertentes de
pensamento: é, também, pensar formas de lidar com inquietações coletivas. É, também,
promover a consciência coletiva. É preservar a memória, humanizar ideias e promover a
transformação social tendo em vista as pessoas e o contexto que estão inseridas. É
imergir nesse mesmo contexto e construir pontes de diálogo.

57
Observar realidades que correspondem as nossas é parte de um trabalho que
envolve o campo da pessoalidade e o campo do "outro". Pois, ao mesmo tempo em que
as codificações subjetivas estão intrínsecas nesta prática, as vivências de personagens
em segundo, terceiro e quarto plano também orientam a experiência na sua forma ampla
e complexa. O trabalho de campo nas manifestações de 2016 (Brasília) e de 2017
(Goiânia) fomentou a importância de elaborar um projeto jornalístico sobre a violência
policial e suas consequências na vida das pessoas imersas nestes contextos. Para além
do relato pessoal, estender a mão para buscar mais informações oriundas de outros
horizontes abre caminho para o diálogo entre os valores inerentes ao "eu" e ao "nós", ao
entendido como "individual" e ao social.
Dessa forma, o método etnográfico já foi parcialmente aplicado por meio da
observação participante nos levantes populares de Brasília e de Goiânia, que são os
pontos-chave do livro-reportagem e da elaboração das crônicas dialogadas com a
experiência do pesquisador e as experiências das vítimas da violência policial. Adiante,
haverá a intersecção entre o material coletado e confeccionado (fotografias, crônica e
perfil literário-jornalístico), e as entrevistas em profundidade.
Ademais, todas as entrevistas serão disponibilizadas no site de podcasts
<souzabs.wixsite.com/insurgente> para estabelecer um acervo contendo materiais
sonoros das três manifestações, já que as vozes das vítimas são fundamentais no registro
das recentes histórias de repressão policial no país. É necessário registrar para que os
acontecimentos não sejam esquecidos ou distorcidos. É necessário compor a nossa
própria história, tanto na integralidade (no caso, a inserção dos áudios completos na
plataforma web) quanto na significação (uso das entrevistas e da experiência pessoal na
elaboração das crônicas para o livro-reportagem).

Palavras-chave: Manifestação. Repressão. Violência policial. Crônica. Jornalismo


Literário

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e


história da cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

CARVALHO, D.; JR., R. T.; BRAGON, R. & ÁLVARES, D. Manifestação tem


confronto com a polícia na frente do Congresso. Folha de S. Paulo, São Paulo, 29
nov. 2016. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/11/1836828-
58
manifestacao-tem-confronto-com-a-policia-na-frente-do-congresso.shtml>. Acesso em:
5 abr. 2018.

DUARTE, J.; BARROS, Antonio (Org.). Métodos e Técnicas de Pesquisa em


Comunicação. São Paulo: Atlas, 2006.

GALVÃO, M. C. B. (2010). O levantamento bibliográfico e a pesquisa científica. In L.


J. Franco, & A. D. C. Passos (Orgs.), Fundamentos de epidemiologia. 2.ed. São Paulo:
Manole. Disponível em:
<http://www2.eerp.usp.br/Nepien/DisponibilizarArquivos/Levantamento_
bibliografico_CristianeGalv.pdf>.

GODOY, Arilda Schmidt. Pesquisa Qualitativa: tipos Fundamentais. Revista de


Administração de Empresas, São Paulo, v. 35, n.3, p, 20-29, Mai/Jun. 1995.

HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade. São


Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

IANNI, Octávio. A Questão Social. Ci. &Tróp., Recife, v. 17, n. 2, p. 189-202, jul./dez.
1989.

LEMOS, Cláudia. A crônica como contraponto à objetividade do jornalismo


brasileiro na virada do século. Disponível em:
<www.intercom.org.br/papers/2000/gt22/gt22a6>. Acesso em: 8 mai. 2018.

LIMA, Edvaldo Pereira. O que é livro-reportagem. São Paulo: Brasiliense, 1998.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do


jornalismo e da literatura. Barueri, SP: Manole, 2004.

MARTINEZ, Monica. Jornada do Herói: estrutura narrativa mítica na construção de


histórias de vida em jornalismo. São Paulo: Annablume, 2008.

MATTOS, Marcelo Badaró. Greves, sindicatos e repressão policial no Rio de Janeiro


(1954-1964). Rev. Bras. Hist., São Paulo, v. 24, n. 47, p. 241-270, 2004. Disponível
em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
01882004000100010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 08 abr. 2018.

MEDINA, C. de Araújo. Entrevista – o Diálogo Possível. São Paulo: Ática, 1990.

PM diz que protesto tinha “terroristas” e que estudante agredido é “guerrilheiro”. O


Popular, Goiânia, 04 mai. 2017. Disponível em:
<https://www.opopular.com.br/editorias/cidades/pm-diz-que-protesto-tinha-terroristas-
e-que-estudante-agredido-%C3%A9-guerrilheiro-1.1269643>. Acesso em: 5 abr. 2018.

RESENDE, Anita Cristina de Azevedo. Da relação indivíduo e sociedade. Educativa,


Goiânia, v. 10, n. 1, p. 29-45, nov, 2017. Disponível em:
http://seer.pucgoias.edu.br/index.php/educativa/article/view/173. Acesso em: 08 abr,
2018.

59
Rio de Janeiro (cidade). Secretaria Especial de Comunicação Social. New Jornalism: a
reportagem como criação literária. Rio de Janeiro: A Secretaria, 2003.

ROVIDA, Mara Ferreira. Etnografia e reportagem jornalística: aproximação possível


para uma metodologia de pesquisa empírica. Líbero, São Paulo, v. 18, n. 35, p. 77-88,
jan/jun, 2015.

SOUZA, Fabio Alcides. O Jornalismo Literário em Crônicas de Cecília Meireles.


Darandina Revista eletrônica, Juiz de Fora, v. 9, n. 1, p. 1-14, 2015.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: porque as notícias são como são.


Florianópolis: Insular, 2004.

TUZINO, Yolanda Maria Muniz. Crônica: uma intersecção entre Jornalismo e


Literatura. 1979 Disponível em: <http://www.bocc.ubi.pt/pag/tuzino-yolanda-uma-
interseccao.pdf>. Acesso em 05 mai. 2018.

WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2005.

60
O DESEJO INVEJOSO:
UMA PERSPECTIVA DE CERCAS E PONTES NO ATO DO CONSUMO

Karen Muzany1
Janaína V. de Paula Jordão2

RESUMO

Esse trabalho se trata de uma reflexão acerca dos desejos que norteiam o
processo de compra de bens na vida social, tendo como elemento indicatório o
sentimento de inveja. Pretende-se então, refletir como a inveja se insere nas escolhas
dos bens de consumo, sendo estes configurados como cercas ou pontes no convívio
humano, como já colocado por Douglas e Isherwood (2006). Para tanto, se trata de uma
abordagem qualitativa de natureza básica exploratória, através da pesquisa bibliográfica.
Dentro desse universo de possibilidades, na hora da decisão de compra as
indagações acerca do pensamento é um ponto que vários pesquisadores se debruçam
criando inúmeras possibilidades para entender a mente do consumidor como Veblen
(1983), Simmel (1983), Baudrillard (1995), Bourdieu (2007), Bauman (2008). Entender
o desejo é detectar a emoção inconstante que participa ativamente no cotidiano das
pessoas, onde perpassam pelo consciente e inconsciente em suas atitudes na hora de
escolher o que possuir e as indicações de valor dessa aquisição para exemplificar o seu
ser.
A inveja é um desejo que pode aparecer em todas as culturas, sendo vista em
muitos momentos históricos nos contextos mais distantes. Seus primeiros estudos
aparecem com autores como Aristóteles (2000), Tomás de Aquino (1895), Kant (1973) e
Espinoza (1983) que indicavam a possibilidade de estímulo desse sentimento a partir da
vida social. Dessa maneira, tanto homens como mulheres são passíveis dessa emoção,
pois o confronto com as diferenças faz com que as pessoas entrem em um processo de
comparação social. Logo encontramos as duas raízes da inveja explicitadas por Alberoni
(1996), primeiro repelir o desejo adquirido e desvalorizar ou desmerecer o inalcançável
e segundo o julgar, comparar o seu valor diante de outrem.

1
Mestranda em Comunicação, Mídia e Cultura pela UFG, Pós-Graduada em Marketing e Estratégia
Digital pela Faculdade Araguaia, Bacharel em Comunicação Social – Habilitação em Publicidade e
Propaganda pela PUC-GO. E-mail: karen.muzany@gmail.com
2
Doutora em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de
Goiás, Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFG e Professora
no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e no curso de Publicidade e Propaganda da FIC/UFG.
E-mail: janainajordao@ufg.br
61
Essa segunda raiz já foi defendida muito antes por Aristóteles (2000), onde dizia
que a inveja é um pesar diante do sucesso obtido através dos bens do outro em relação
ao que possuímos, portanto, competimos com que está próximo, como vizinhos, primos,
irmãos, colegas de trabalho e profissão, e assim sucessivamente. Quem complementa
posteriormente essa questão é Festinger (1954) que compreende a exigência
comparativa desde a infância, onde são encontrados os primeiros confrontos entre os
entes familiares, sejam irmãos, amigos, colegas de escola, que no decorrer da vida ou
ficam para trás ou nos superam de alguma maneira gerando a avaliação dos pares, o que
ocasiona os temidos sentimentos invejosos.
Para alguns autores como Byington (2002) que estuda a psicologia simbólica
baseada nos estudos de Freud e Jung, a inveja nada mais é que um símbolo com intuito
de agir como função estruturante para o controle social, assim ela foi mal interpretada
desde os seus primórdios, isso porque, o sentimento é tão criativo que motiva a busca
pelo inalcançável, o novo, o crescimento constante, que de certa maneira deveriam ser
ocultados para manter o controle nas mãos de quem detém o poder.
Dentro dessa vertente, um dos primeiros fatores que desqualificaram a inveja é
encontrada na religião, sendo constituída como símbolo estruturante no conhecimento
de vida dos indivíduos com exemplos claros entre o bem e o mal, como Adão e Eva e o
fruto proibido ou a crucificação de Jesus Cristo. Pois é proibida pela bíblia, tida como
pecado capital que deve ser ocultado em suas vivências sociais (CUKIER, 2011).
Essa percepção está pautada nas ideologias de igualdade que de acordo com
Bourdieu (2007b), surgiram como uma espécie de ressentimento para assegurar o ethos,
mostrando que para alcançar a ascensão é necessário seguir as normas religiosas. Nesse
contexto, a inveja possui caráter processual de elaboração simbólica, moldando
estruturantes de comportamento, dispensando a sua importância e passando a ser
ocultada como o ciúmes, a raiva e a sexualidade. O desejo invejoso possui mecanismos
para se originar, sendo eles classificados segundo Alberoni (1996) como indicação e
identificação.
No caso do consumo, a indicação é o primeiro fator a se observar, onde a mídia
(marketing e propaganda) e suas personificações mostram aos seus públicos o que se
deve desejar a partir de vertentes culturais e comportamentais que credibilizam o valor
daquele bem e/ou serviço. Já na identificação, o perceber no outro é ponto de partida,
ver como aquelas atribuições realmente fazem sentido, quando de posse de outra pessoa,

62
como um vizinho por exemplo. Geralmente, a identificação acontece dentro dos círculos
em que o indivíduo está inserido. Neste momento, começa o processo de competir ou
se deprimir, ser criativo ou se destruir, em tal caso, usar como uma ponte para conseguir
saciar o seu desejo ou se cercar e permanecer onde está.
Esses conceitos se interligam nas relações sociais com a mídia e as pessoas no
círculo social, gerando uma cadeia de consumo a partir de uma emoção específica.
Porém, todo o processo é individualista, criando-se uma perspectiva competitiva e
criativa que conduz a encontrar a ponte para alcançar o desejo, ou mesmo depressiva e
conflituosa que adentra em uma cerca de consumo. Assim, este artigo propõe entender
essas conexões entre os fenômenos, a fim de esboçar uma probabilidade de exploração
desses elementos dentro do consumo e posteriormente analisar de que maneira é
introduzido na mídia.

Palavras-chave: desejo; inveja; bens; consumo; relações.

REFERÊNCIAS

ALBERONI, Francesco. Os invejosos: uma investigação sobre a inveja na sociedade


contemporânea. Tradução de Elia Edel. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

APPADURAI, Arjun. A vida social das coisas: as mercadorias sob uma perspectiva
cultural. Trad. Agatha Bacelar. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense,
2008.

ARISTÓTELES. Retórica das paixões. Trad. Isis Borges B. da Fonseca. São Paulo:
Martins Fontes, 2000.

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Trad. Artur Morão. Rio de Janeiro:


Elfos ed; Lisboa: Edições 70, 1995.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transforação das pessoas em


mercadoria. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. Daniela Kern,


Guilherme J. F. Teixeira. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007a.

______. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007b.

BYINGTON, Carlos Amadeu Botelho. Inveja criativa: o resgate de uma força


transformadora da civilização. São Paulo: Religare, 2002.

63
CUKIER, Rosa. Psicossociodrama da inveja: atire a primeira pedra se você puder!
Rev. bras. Psicodrama [online]. 2011, v.19, n.1, p. 13-33. Disponível em:
<http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psicodrama/v19n1/a02.pdf>.

DOUGLAS, Mary; ISHERWOOD, Baron. O mundo dos bens: Para uma antropologia
do consumo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.

ESPINOZA, Benedictus de. Pensamentos metafísicos: Tratado da correção do


intelecto, Ética, Tratado político, Correspondência. Trad. Marilena de Souza Chauí. 3.
ed. São Paulo: Abril Cultural (Coleção Os pensadores), 1983.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo. Trad. Julio Assis


Simões. São Paulo: Studio Nobel, 1995.

FESTINGER, Leon. A Theory of Social Comparison Processes. Human Relations,


1954, n. 7, p. 114-140.

GIGLIO, Ernesto Michelangelo. O comportamento do consumidor. 3. ed. São Paulo:


Pioneira Thomson Learning, 2005.

JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Valor-aparência: aparências de classe e hierarquias


do cotidiano. Tese (Doutorado em Sociologia) – Faculdade de Ciências Sociais, UFG.
Goiânia, 2015.

KANT, Immanuel. Metafísica dos Costumes. Trad. [primeira parte] Clélia Aparecida
Martins; Trad. [segunda parte] Bruno Nadai, Diego Kosbiau e Monique Hulshof.
Petrópolis: Editora Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2013.

KLEIN, Melaine. Inveja e Gratidão e outros trabalhos. Tradução da 4. ed. Inglesa.


Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991.

KOTLER, Philip; ARMSTRONG, Gary. Princípios de marketing. Trad. Cristina


Yamagami. 12. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.

LAZARUS, Richard S. Progress on a cognitive-motivational-relational theory of


emotion. American Psychologist, 1991, v. 46, n. 8, p. 819-834.

MEYER, Michel. A retórica. Trad. Marly N. Peres. São Paulo: ática, 2007.

PLATÃO. The republic of Plato. (A. D. Bloom, Trans.). New York: Basic Books,
1991.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da


desigualdade entre os homens. Trad. Laurent de Saes. São Paulo: Edipro, 2015.

SIMMEL, G. A natureza sociológica do conflito. In: Moraes Filho, Evaristo (org.). São
Paulo, Ática, 1983.

VEBLEN, Thorstein. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições.


São Paulo: Abril Cultural (Os economistas), 1983.
64
TECNOLOGIA ANCESTRAL: A LÍRICA PERFORMÁTICA E A ESTÉTICA
DE RESISTÊN IA EM “LUNDU” DE TATIANA NAS IMENTO

Juliana Cristina B. Albuquerque1


Goiamérico Felício C. dos Santos2

RESUMO

O objetivo deste artigo é investigar a subjetividade lírica presente na obra lundu


da poeta contemporânea Tatiana Nascimento. A análise tem como aparato bibliográfico
as proposições de Zumthor (2018) e Bosi (1977) investigando assim o lirismo e o viés
performático presente nos versos da artista. Perscrutaremos as características estéticas
da obra buscando a compreensão em torno da relação eu lírico/eu autobiográfico e do
termo tecnologia ancestral, proposto pela própria artista, em lundu.
Partindo dessa concepção adorniana de visão crítica e libertadora da arte
investigaremos o primeiro livro de poesias da poeta contemporânea Tatiana
Nascimento, brasiliense, doutora em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC). lundu é o primeiro livro lançado da artista, ou melhor,
pluriartista, pois Tatiana é também cantora e performer poética, a obra foi publicada
pela padê editorial 3em 2016, apresenta 83 poemas e está em sua segunda edição.
As sensações poéticas presentes na obra lundu apresentam um forte diálogo com
a estética adorniana, se para Adorno a arte define-se como uma antítese social da
sociedade por meio do seu caráter de ruptura com os parâmetros sociais impostos, sendo
visto que na concepção adorniana, a arte enquanto forma de conhecimento é
fundamental ao conhecimento da realidade, logo a realidade revela seu prisma social, ou
seja, existe nessa relação um triângulo simbólico, na base podemos colocar a realidade e
a sociedade, no topo a arte pontuando assim uma forte relação de significados e
significância entre os objetos. É neste campo que muito nos interessa o diálogo entre
literatura, sociedade e resistência.

1
Mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás UFG Goiás, e-mail:
jucrisalbuquerque@gmail.com
2
Doutor em Letras pela PUC-RJ. Pós-Doutor em Literatura e Comunicação, Pela UNISINOS e UNR-
Universidade Nacional de Rosário, Argentina. Prof. da UFG-Universidade Federal de Goiás. Integrante
da LP Mídia e Cultura do PPGCOM-UFG e o GP-Comunicação, Discursos e Poéticas do Consumo –
PPGCOM-ESPM;SP, e-mail: goiamerico@gmail.com
3
A poetisa Tatiana Nascimento utiliza-se de licença poética em sua obra, assim o nome da própria editora
fundada por ela é grafada com letra minúscula, do mesmo modo que o título do seu livro de poesia
analisado neste artigo também se apresenta com letra minúscula.
65
O movimento negro feminista e LGBT (Lésbica, Gays, Bissexuais, Travestis,
Transexuais ou Transgêneros) são temáticas fundamentais na compreensão acerca da
estética presente em lundu que aqui nomearemos como estética de resistência,
utilizando Bosi (1977), que se contrapõe a estética do racismo (Flores, 2007). São
muitos os meandros sociais, artísticos e políticos que explicam o modo como originou-
se e cristalizou-se o processo de retração da população negra, mas em contrapartida
neste artigo analisaremos a subjetividade lírica construída pela poeta feminista e negra
Tatiana Nascimento que busca em sua militância artística uma forma de romper essas
estéticas padronizadas de raças e gêneros, além de dar voz a um coletivo, as poesias da
artista militam e ecoam quer seja por onde perpassam.
Ao analisar a obra lundu fica claro que não se pode dissociar o eu lírico do eu
autobiográfico, eles estão entrelaçados por todos os versos de Tatiana Nascimento,
subjetividade esta composta de significados e fundamental na compreensão da obra.
Este trabalho se baseia na análise de poemas, associando alguns poemas as
principais vertentes percebidas na obra. A nomeação de uma estética de resistência,
vislumbrada a partir da teórica de Bosi (1977) diz respeito a dois pontos cruciais da
poética da autora, também apontados como subjetividade lírica, o primeiro foi
analisado frente à tecnologia ancestral, a tecnologia, por metonímia, entende-se como
técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular, neste caso a tecnologia
ancestral proposta pela poeta diz respeito a sua ancestralidade negra e os conhecimentos
e memórias (sofrimentos) do coletivo de dois povos os africanos e os afro-brasileiros.
Como se percebe em poesias que são analisadas neste trabalho, sendo assim,
representa as temáticas mais latentes da obra, que o próprio título do livro indica; o
segundo ponto apresenta uma relação à performance presente em Zumthor (2018), onde
relacionamos com a visão o canadense McLuhan (1972), Tatiana apresenta uma
performance desde a visualidade de sua poesia, sentido de desconstrução das palavras à
resistência estética dessa poética narrando identidades subjetivas que começam a tomar
o seu espaço legítimo de representação nas artes.
O artigo tem como finalidade a construção de uma investigação consolidada em
referências bibliográficas do campo da literatura buscando o diálogo com
representações temáticas extremamente contemporâneas possibilitando a compreensão
em torno de novas narrativas poéticas.

66
Palavras-chave: Subjetividade lírica. Performance. Estética. Resistência. Feminismo
Negro.

REFERÊNCIAS

ADORNO, T. W. Teoria estética. Lisboa: Edições 70, 1970.

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos,


2009.

ALENCAR, M.C.F. A cultura popular sertaneja em José de Alencar e Juvenal


Galeno. Belo Horizonte: Doutorado em História, Literatura e Cultura
Popular/Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG, 2015. Tese (Doutorado em
História, Literatura e Cultura Popular). Disponível em:
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUBD-
A5FMMD/tese_manoel_carlos_fonseca_de_alencar_final.pdf?sequence=1%20. Acesso
em: 12 de julho de 2018.

BAYER, Raymond. História da estética. Lisboa: Estampa, 1979.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In.


______. Magia e Técnica: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo:
Brasiliense, 1994. p. 165-196.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo Cultrix, 1977.

CANAL BRASIL. Lázaro Ramos entrevista Djamila Ribeiro e Tatiana Nascimento no


programa Espelho. 2018. (23m15s). Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=xuaA2SlcNis>.Acesso em: 11 de julho de 2018.

COMBE, Dominique. A referência desdobrada: o sujeito lírico entre a ficção e a


autobiografia, Revista USP, v. 84, p. 112-128, dezembro/fevereiro, 2009-2010.

COMO EU ESCREVO. Entrevista com Tatiana Nascimento. Disponível em:


<HYPERLINK "https://comoeuescrevo.com/tatiana-nascimento-dos-santos/"
https://comoeuescrevo.com/tatiana-nascimento-dos-santos/ >. Acesso em: 10 de julho
de 2018.

FLORES, M. B. Tecnologia e Estética do Racismo: ciência e arte na política da


beleza. Chapecó: Argos, 2007.

GONZAGA, T. A. Cartas Chilenas. Domínio Público: Disponível em:


< http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua000293.pdf >. Acesso em: 11
jul.2018.

JUNTOS NO CANDOMBLÉ. Quem é o Orixá Eleguá. Disponível em:


<https://www.juntosnocandomble.com.br/2016/02/quem-e-o-orixa-elegua.html> Acesso
em: 23 de julho de 2018.

67
MACEDO, Ana Gabriela; RAYNER, Francesca; Género, Cultura Visual e
Performance: Antologia Crítica. Braga, Portugal: Húmus, 2011.

MCLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico.


São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São


Paulo: Cultrix, 2002.

MCLUHAN, Marshall. Visão, som e fúria. In. LIMA, Luiz Costa. Teoria da cultura
de massa. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

NASCIMENTO, Abdias de. O quilombismo: documentos de uma militância pan-


africanista. Petrópolis: Vozes, 1980. Online. Disponível em:
<https://baobavoador.noblogs.org/files/2016/01/O-QUILOMBISMO-Abdias-Do-
Nascimento.pdf> Acesso em: 10 de julho de 2018.

NASCIMENTO, Tatiana. lundu. Brasília: padê editorial, 2017.

NASCIMENTO, Tatiana. Letramento e tradução no espelho de Oxum: teoria lésbica


negra em auto/re/conhecimentos. Santa Catarina. Doutorado em Estudos da Tradução/
Universidade Federal de Santa Catarina- UFSC, 2014. Tese (Doutorado em Estudos da
Tradução). Disponível em:
<https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/128822/331961.pdf?sequence=
1 >. Acesso em :10 de julho de 2018.

PETEAN, A.C. O racismo como questão epistemológica: uma interpretação do


discurso religioso revolucionista da igreja universal do reino de deus. Disponível em:
<http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/bar/33004030017P7/2011/petean_ac
l_dr_arafcl.pdf>. Acesso em: 12 de julho de 2018.

RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia
das Letras, 2018.

ZUMTHOR, Paul. Performance, Recepção e Leitura. São Paulo: Ubu, 2018.

68
NOVOS MERCADOS E CONSUMO: UM ESTUDO TEÓRICO DO PERFIL
DOS LEITORES DA DARKSIDE BOOKS

HávilaSayuri de Oliveira Yoshy1


Luis Gustavo Baima Paiva2
MayllonLyggon de Sousa Oliveira3

RESUMO

A proposta desse trabalho é fazer um estudo sobre o mercado editorial super


segmentado da Editora Darkside. Nesse sentido ele se propõe a estudar, “quais as
características desses novos mercados super segmentados, bem como quais as nuances que
compõem o perfil desse consumidor dos livros da editora”?
O trabalho será feito a partir de uma pesquisa quantitativa e qualitativa, na qual a
primeira busca entender as formas de segmentação a partir das leituras de Kotler (2012) e
Anderson (2006), os números desse mercado editorial no Brasil a partir dos estudos da
pesquisa FIPE da Câmara Brasileira de Livros (2016); já a segunda, nos possibilitará
entender as nuances características da identidade, com base nas leituras de Rolnik (1997),
Hall (2012) e Polon (2015), desse consumidor ativo da editora.
A metodologia está baseada em: a) pesquisa bibliográfica sobre os conceitos que
dão base ao trabalho; b) análise do discurso, a partir de Foucault (2015), nas formas de
comunicação oficiais da empresa para com o mundo (site e redes sociais) e, por último,
análise dos comentários dos clientes com empresa a partir dos meios de comunicação por
ela utilizados.
O mercado editorial é o responsável pela criação, desenvolvimento, publicação e
comércio de livros. É composto por diversos profissionais, das mais diversas áreas, desde
escritores,editores e tradutores a artistas gráficos e publicitários ( EARP; KORNIS, 2005) ;
e se configura como uma das indústrias mais importantes em termos de formação cultural,
educacional,profissional, social e política da sociedade.
Apesar dessa importância, o livro é um produto proporcionalmente pouco
consumido no Brasil, parte disso se deve ao preço dos livros e parte à falta de incentivo da
leitura como hábito do indivíduo. O principal investimento das editoras se dá na produção

1
Graduando em RP na Universidade Federal de Goiás. E-mail: sayuri.havila@gmail.com
2
Graduando em RP na Universidade Federal de Goiás. E-mail: lgbpaiva@gmail.com
3
Mestre em Comunicação e Mídia. Professor substituto no curso de Relações Públicas da Faculdade de
Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. E-mail: mayllon.lyggon@gmail.com
69
de conteúdo, o que envolve os direitos autorais. O catálogo de obras e autores de uma
editora torna-se, assim, seu principal ativo, juntamente com os recursos humanos capazes
de selecionar obras e autores, negociar, obter os direitos autorais e produzir os livros. Com
a difusão da internet surge também no mercado editorial um novo produto, o e-book, livros
digitais normalmente lidos em dispositivos destinados a esse fim.
Uma das maneiras de se categorizar os livros é através do gênero, sendo o Terror
uma dessas categorias e é essa, inclusive, uma das formas de segmentação do público
leitor. A Darkside Books se tornou uma das editoras mais seguidas e apreciadas em um
espaço relativamente curto de tempo. Fundada no dia 24 de outubro de 2012, no exato dia
das bruxas, que serviu ainda mais para o contexto do próprio público alvo da empresa. Em
um momento no qual o mercado editorial estava em declínio a Darkside escolheu apostar
no escuro, como é dito no seu próprio manifesto. Entretanto esse escuro possui o
significado também do obscuro, a empresa decidiu ser a primeira editora brasileira
dedicada exclusivamente ao terror e à fantasia. Com o nicho já pré-estabelecido não
precisou de muito para ela se popularizar entre os amantes desse tipo de literatura, que
antes era marginalizada e muito pouco dedicada pelas editoras.
A editora acertou identificando um problema existente no mercado onde outras
grandes editoras nacionais não investiam. Dessa feita, ela encontra através dessa suposta
falha de mercado uma oportunidade de não só ter seu próprio público cativo, como
também de criá-lo. Esse processo, se consolida, acredita-se tanto na entrega da própria
editora através do produto editorial, como também por meio das formas de interação nas
redes sociais. Presente em quase todas as redes sociais, a Darkside possui uma presença e
persona muito firme e interativa com os fãs respondendo a vários comentários e curtindo
tantos outros ela vai construindo uma relação forte com os admiradores que se tornam os
seus próprios promotores orgânicos.

Palavras-chave: Editorial, Consumidor, Darkside Books, Livro, Marketing.

REFERÊNCIAS

ANDERSON, C. A Cauda Longa: do mercado de massa para o de nicho. Campus, Rio


de Janeiro, 2006.

EARP, F. S.; KORNIS, G. A economia da cadeia produtiva do livro. Rio de Janeiro:


BNDES, 2005.

70
FANTTI, B. Editora sombria DarkSide conquista leitores de terror e fantasia.
Disponível em:
<https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/09/1681261-editora-sombria-darkside-
conquista-leitores-de-terror-e-fantasia.shtml > Acesso 28/08/2018.

FIPE. Produção e vendas do setor editorial brasileiro: ano base 2016. CBL; SNEL.
Disponível em: <http://cbl.org.br/site/wp-content/uploads/2017/05/Apresenta%C-
3%A7%C3%A3o_PesquisaFipe_Ano-Base-2016-ok.pdf>. Acesso em: 25/09/18

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2015.

HALL, S. Quem precisa de identidade? In: SILVA, T. T. (Org. e Trad.). Identidade e


Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

DARKSIDE BOOKS. Manifesto DarksideBooks. Disponível em:


<https://www.darksidebooks.com.br/voce-darksiders/ > Acesso 28/08/2018

MELLO, G. Desafios Para o Setor Editorial Brasileiro de Livros na Era Digital.


BNDES Setorial, n. 36, Setembro, 2012, p. 429-473.

Os livros da DARKSIDE BOOKS. Pipoca e Nanquim Especial #46. Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=q4RVtU6B2ZY&feature=youtu.be>. Acesso
28/08/2018

PEREIRA, A. L.; PEREIRA JÚNIOR, L. L. Hype - O Impacto da Cultura Nerd nas


Mídias Digitais.Trabalho apresentado no XXII Congresso de Ciências da Comunicação
na Região Sudeste,Volta Redonda, 2017.

POLON, L. C. K. Identidade e consumo: reflexões “pós-modernas”. Sociais E


Humanas, SantaMaria, v. 28, n. 03, set/dez 2015, p. 36 -48. Disponível em:
https://periodicos.ufsm.br/sociaisehumanas/article/viewFile/20807/pdf . Acesso em:
25/09/18

RÉGIS, J. A. L. Projeto Gráfico Editorial de um Livro de Terror. 2017. 92 f.


Trabalho de Conclusão de Curso - Centro de Comunicação e Expressão. Universidade
Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina. Disponível em:
https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/182007. Acesso em: 28 ago 2018.

ROLNIK, S. Uma Insólita Viagem à Subjetividade. Fronteiras com a Ética e a Cultura.


In: LINS,D. (Org.). Cultura e Subjetividade: saberes nômades. Campinas: Papirus,
1997

SOUZA, C. A.; PINHEIRO, M. A. E-commerce: um estudo sobre o comportamento


dos consumidores da Nerdstore. Trabalho apresentado no XV Congresso de Ciências da
Comunicação na Região Sul, Palhoça, 2014.

71
FOLLOW ME: A ERA DO CONSUMIDOR CONSUMÍVEL

Mariana de Paiva Araújo1

RESUMO

A relação entre humanos e suas invenções tecnológicas acaba por tornar-se


perigosa. Estes são laços irreversivelmente dependentes. Seriamos capazes de
sobreviver sem as máquinas? Seriamos capazes de sobreviver sem criar máquinas?
Como nos tornamos consumíveis e visíveis pelos algoritmos? Essas perguntas estão
entrelaçadas ao atravessamento das novas tecnologias na cultura, o que impulsiona a
reorganização das relações sociais.
O indivíduo desenvolve interações em formato beta dentro e fora das redes
sociais digitais, ou seja, de forma experimental e líquida. Ao estudarmos as redes
sociais na Internet, percorremos esse mesmo caminho, mas agora, adequando nosso
cenário a um sistema composto pela comunicação mediada por computador (CMC).
Aprofundando o entendimento do tema, Recuero (2009) ainda aponta que é
necessário focar também no ciberespaço, em como as estruturas sociais vão sendo
compostas e como as interações da comunicação mediada pelos computadores
possibilitam a geração de fluxos de informações e trocas sociais que, por sua vez,
impactam essa estrutura. É esta dinâmica que possibilita às redes sociais do ciberespaço
definirem-se como espaços de fala reservado à troca, ao compartilhamento e atualizando
a Internet quanto à interatividade. Reafirmar a identidade individual e reconhecer no
outro a existência do coletivo é fundamental para essa interação, possibilitada por meio
das conexões oriundas da comunicação mediada pelos computadores.
Contudo, como nos relembra Bauman (2005), as conexões estabelecidas nesta
modernidade líquida são efêmeras. Interage-se com os mais variados grupos, dentro e
fora da Internet, mas não se busca nestas interações uma duração permanente. É
possível interagir por um tempo determinado sem, contudo, estabelecer conexões firmes
e duradouras. As conexões podem se dissolver a qualquer momento, respondendo aos

1
Mestre em Comunicação, Cultura e Cidadania pela Universidade Federal de Goiás (2012). Especialista
em Gestão Estratégica de Marketing pela Universidade Estadual de Goiás (2009). Bacharel em
Comunicação Social, habilitação Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal de Goiás (2006).

72
interesses de seus atores. Nessas esferas as relações de consumo passam por uma
transformação simbólica importante: o consumidor, posteriormente prossumidor
(segundo o conceito ativo-passivo de Arlindo Machado) e agora consumidor
consumível, torna-se coautor das narrativas criadas por marcas, meios de comunicação e
demais consumidores pertencentes à rede. Muito além do consumidor que se torna
consumível, é o prossumidor, quem está dirigindo o discurso das RSIs e por isso nosso
engajamento em entender seu comportamento. O prossumidor é o sujeito da Geração
Internet atravessado pelas demandas criadas pela sociedade de consumidores. Tem
sobre si a necessidade não apenas de tornar-se consumível, mas de apropriar-se do
ciberespaço como o seu espaço mais importante de fala.
Nesse sentido, mergulhamos no processo de descoberta e construção das
identidades virtuais. A pergunta a ser respondida nesse estudo é: de que forma a
linguagem publicitária se tornou essencial para indivíduos se comportarem como
marcas nas redes sociais digitais? Para responde-la recorreremos principalmente à
etnografia digital e à análise de discurso (sob o olhar da escola francesa). Deste modo
percebemos que tanto a narrativa coletiva quanto a individual presente nas redes sociais
digitais são fortemente inspiradas em discursos publicitários, próprios até então, de
marcas em busca de seus consumidores.
Tais considerações nos permitem atualizar nossa análise sobre o consumidor
atual: deixa de ser aquele que produz conteúdo em pequena, média e grande escala (o
prossumidor), mas junto a esse comportamento, assume o discurso publicitário para
obter relevância por meio da moeda mais valiosa de nosso tempo: a visibilidade.
Colocamos em pauta o atravessamento do consumo na cibercultura. Principalmente a
partir da ótica de Bauman (2008; 2005) buscamos evidenciar a relação entre a sociedade
de consumidores e as novas tecnologias. As modificações oriundas dessa relação se
refletem na construção da identidade do sujeito, e para compreendê-la recorremos
também ao teórico Stuart Hall (1997; 2005).
Segundo este autor a percepção de uma identidade plenamente completa e
imutável é uma fantasia. As identidades virtuais ou identidades possíveis se apresentam
ao sujeito na mesma velocidade em que a dinâmica cultural se atualiza. Portanto, quanto
mais canais de virtualização, maior a multiplicidade de identidades. Os processos
metodológicos são apresentados de forma discursiva, seguindo a complexidade trazida

73
pela netnografia (ou etnografia virtual) com Kozinets (1997) e as reflexões de Orlandi
(2007) e a escola francesa de análise de discurso.

Palavras-chave: Consumo. Tecnologia. Narrativa. Identidade. Interação.

REFERÊNCIAS

BACCEGA, Maria Aparecida. Comunicação e linguagem: discurso e ciência. São


Paulo: Moderna, 1998.

______. (Org.). Comunicação e culturas do consumo. São Paulo: Atlas, 2008.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

______. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

______. Vida para consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

MACHADO, Arlindo. O sujeito na tela: modos de enunciação no cinema e no


ciberespaço. São Paulo: Paulus, 2007.

ORLANDI, Eni. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes,


2007.

RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2010.

THOMPSON, John B. Mídia e modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis:


Vozes, 2009.

74
ELAS FALAM DE SI: A EXPRESSÃO ARTÍSTICA DE MULHERES GOIANAS
POR MEIO DA LITERATURA

Angelita Pereira de Lima1


Lethycia Santos Dias2

RESUMO

Elaborado como projeto experimental para Trabalho de Conclusão de Curso na


graduação em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo, Elas Falam de Si –
O sentido de ser mulher, escritora e escrever sobre mulheres em perfis de escritoras
goianas consiste na produção de um livro-reportagem com perfis de escritoras nascidas
em Goiás que tiveram obras publicadas nos últimos 10 anos, sendo assim consideradas
contemporâneas. O livro deve ser constituído de um prefácio; dos perfis, que devem
constituir cada um, um capítulo; e por fim, posfácio. Além da produção do livro de
perfis, que se mantém como objetivo geral, são objetivos específicos da pesquisa e de
sua realização: contextualizar historicamente a literatura produzida por mulheres em
Goiás, analisando características gerais; identificar escritoras goianas que atualmente
publicam obras literárias; investigar as temáticas, protagonistas e voz narrativa de obras
literárias produzidas por mulheres goianas; analisar o sentido da escrita e da literatura
para escritoras goianas do cenário atual.
O projeto perpassa questões como a desvalorização de mulheres escritoras
enquanto artistas e intelectuais e a diferença de representação da mulher em
personagens criadas por mulheres, em comparação às personagens criadas por homens.
Espera-se atingir com este projeto uma atualização dos conhecimentos acerca da
literatura produzida por mulheres em Goiás e uma compreensão da importância que a
literatura pode ter para mulheres como forma de expressão artística e pessoal e registro
de suas próprias existências.
O referencial teórico que fundamenta Elas Falam de Si inclui discussões sobre
jornalismo e literatura, a partir de análises sobre narrativas jornalísticas para chegar ao
jornalismo literário e seu principal suporte, o livro-reportagem, e a uma forma de
produção ligada tanto ao jornalismo literário quando ao livro-reportagem: a escrita de

1
Profª. Drª. na Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. E-mail -
|angelitalimaufg@gmail.com.
2
Graduanda em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás. E-
mail: lethyciasdias@gmail.com
75
perfis. Também se discute a questão da mulher na literatura, em geral, bem como no
Brasil e em Goiás.
A pesquisa tem abordagem qualitativa e segue o método etnográfico, utilizando
para coleta de dados os instrumentos mais pertinentes a ela, tais como: levantamento
bibliográfico, pesquisa documental, entrevistas em profundidade e observação
participante. Visto que tal pesquisa ainda se encontra em andamento, os resultados
disponíveis atualmente ainda são incompletos.
A pesquisadora fez um levantamento inicial de nomes de escritoras goianas e de
seus livros e/ou publicações: Bruna Kunchenbecker, autora de O que os olhos não vêem,
as memórias contam (romance); Bruna Martins, autora de Máquina de escrever
(crônicas); Cássia Fernandes, autora de Abracadabras: crio enquanto falo (poesia) e
outros títulos; Carol Oliveira, autora do conto Imersão do medo, publicado na antologia
Sereias: Encantos & Perigos; Dani de Brito, autora de diversos livros infantis; Dheyne
de Souza, autora de Ana & as cartas (romance em coautoria com Wilton Cardoso) e
outros títulos; Keslley Cremonezi, autora dos livros O sabor da vingança (romance),
entre outros títulos; Larissa Mundim, fundadora da editora Nega Lilu e autora de Sem
Palavras (romance em coautoria com Valentina Prado) e outros títulos; Laurenice
Noleto, autora de Flores no Quintal (memórias); e Thaise Monteiro, autora de Modus
Operandi (poesia).
Este levantamento leva a algumas conclusões iniciais. A primeira é de que são
escassos os registros sobre a literatura produzida atualmente por mulheres em Goiás. As
informações estão dispersas, quase sempre online, em meios informais como grupos e
páginas no Facebook; blogs e sites das próprias autoras, matérias e entrevistas
ocasionais em jornais locais, como O Popular e Diário da Manhã; ou perfis das
próprias autoras e páginas de registro dos livros em sites voltados para leitores, como
Skoob e Wattpad. A segunda é que os livros dessas escritoras são publicados por
editoras independentes e de pequeno porte, quase sempre locais (Autografia, Kelps,
Nega Lilu, Plágius, R&F) ou de forma independente, como é o caso dos livros de
KeslleyCremonezi, disponibilizados de forma gratuita no site e aplicativo de escrita e
leitura Wattpad, estando também um deles à venda, em formato digital, na loja online
Amazon. A terceira conclusão, por fim, é de que ainda não há estudos acadêmicos sobre
obras literárias publicadas por mulheres em Goiás durante o período delimitado pela

76
pesquisadora, isto é, os últimos 10 anos, o que nos leva a considerar que a pesquisa
envolvida no projeto experimental Elas Falam de Si tem grande importância acadêmica.

Palavras-chave: Escritoras. Escritoras goianas. Jornalismo literário. Literatura goiana.


Perfis.

REFERÊNCIAS

AIRES, Eliana Gabriel. O conto feminino em Goiás. Goiânia, Editora da UFG, 1996.

BAGGIO, Adriana. Mulher e literatura. GV-executivo, v. 5, n. 2, p. 58-61, maio/junho


2006. Disponível em:
<http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/gvexecutivo/article/view/34344>. Acesso
em: 19 de junho de 2018.

BRITO, Daniela de. Publicações. Disponível em:


<https://danieladebrito.com.br/publicacao/>. Acesso em: 29 de agosto de 2018.

BU, Pilar. Ultraviolenta. Goiânia: Kotler Editorial, 2016.

CREMONEZI, Keslley. O sabor da vingança. Águas de São Pedro: Livronovo, 2014.

DALCASTAGNÈ, Regina. A personagem do romance brasileiro contemporâneo:


1990-2004. Estudos de literatura brasileira contemporânea, n. 26, 2005. Disponível em:
<http://www.redalyc.org/html/3231/323127089002/>. Acesso: 08 de abril de 2018.

DE FARIA MAIA, Débora; COELHO, Arthur. Pesquisar a aflag: redescobrindo as


mulheres da literatura goiana. In: Anais do XI Encontro Estadual de História da
ANPUHGO, v. 11, n.3, p. 131-150, 2016. Disponível em:
<http://www.anais.ueg.br/index.php/anpuhgo/article/view/3958/4001>. Acesso em: 19
de junho de 2018.

DUARTE, Constância Lima. O cânone literário e a autoria feminina. Em Gênero e


Ciências Humanas, p. 85, 1997. Disponível em:
<https://we.riseup.net/assets/127559/Aguiar,+Neuma+G%C3%AAnero+e+Ci%C3%A
Ancias+Humanas.pdf#page=80>. Acesso em: 08 de abril de 2018

FERNANDES, Cássia. Abracadabras: crio enquanto falo. Goiânia, Nega Lilu, 2016.

KUNCHENBECKER, Bruna. O que os olhos não veem: as memórias contam.


Goiânia, 2016.

LAGO, Pilar et al. Leia mulheres: Literatura, empoderamento e divulgação da autoria


feminina em Goiânia. Em Tese, v. 22, n. 3, p. 62-77, 2016. Disponível em
<http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/11417/10706>.
Acesso em: 21 de abril de 2018.

77
LARA, Bruna de. A “ h z h ” t t . Em: Não me khalo, 03 de maio de
2015. Disponível em: <http://www.naomekahlo.com/single-post/2015/05/03/A-
%E2%80%9Cmulherzinha%E2%80%9D-da-literatura>. Acesso em: 08 de abril de
2018.

MARTINS, Bruna. Máquina de escrever. Goiânia, Autografia, 2015.


https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/proposic/article/view/8644453/11876

MONTEIRO, Thaíse. Modus Operandi. Goiânia, R&F Editora, 2017.

MUNDIM, Larissa; PRADO, Valentina. Sem palavras. Goiânia: Nega Lilu, 2013.

OLIVEIRA, Carol. Imersão do medo. In: RUIZ, Graciele (Org.); OLIVEIRA, Flavio P.
(coord.). Sereias: Encantos & Perigos. Rio de Janeiro, Delirium, 2018. p. 35-53

SOUZA, Dheyne de. Ana & as cartas. Goiânia: Plágius Editora, 2011.

TELES, Gilbert Mendonça. Estudos goianos II: a crítica e o princípio do prazer.


Goiânia, Editora da UFG, 1995.

VILAS BOAS, Sérgio. Perfis e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

______. Virginia. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Porto Alegre,
L&PM, 2017.

78
GT Identificações Culturais e
Produção de Sentidos
Coordenação Ricardo Pavan e Rosana Borges
AMIZADE E DESAVENÇAS: JOGADORES, SEUS PERFIS E VÍNCULOS EM
MMORPG

José Abrão1

RESUMO

Este artigo trata sobre a comunicação, interação e dinâmica social entre os


jogadores do jogo MMORPG The Elder Scrolls Online. Argumentamos que os
jogadores não apenas desenvolvem laços sociais significativos no mundo do jogo como
este relacionamento afeta diretamente a forma como o vídeo game é jogado e está
envolvido, da mesma forma, nos sistemas do jogo eletrônico. Falaremos também dos
perfis destes jogadores e como suas características individuais afetam esta dinâmica de
jogo.
Em minha dissertação de mestrado, trabalhei com a questão de como laços sociais
são formados e mantidos em jogos online complexos. Em jogos deste tipo, os jogadores
geralmente se reúnem em guildas ou clãs. É a comunicação e a interação entre estes
jogadores que forma laços de amizade duradouros.
Neste artigo vamos tratar brevemente sobre este relacionamento entre os
jogadores com base em autores selecionados assim como nos dados obtidos durante a
pesquisa de campo. O fator que diferencia os vídeos games de outras mídias é a sua
interação com o mundo digital. O jogo precisa do input do jogador e o sistema reage
conforme suas ações. Mas jogar um vídeo game vai além de apertar botões: a agência
implica que as ações do jogador são significativas, afetando o cibermundo do jogo de
maneira perceptiva e mesmo quantitativa.
A agência é gratificante e confere ao jogador capacidade de tomar decisões e
fazer escolhas (MURRAY, 2003). Sem ela, jogar não seria instigante. Como o jogo é
interessante, Huizinga (2000) argumenta que o ato de jogar cria um círculo mágico,
definido como uma fronteira simbólica e porosa entre o mundo do jogo e o mundo,
digamos assim, “real”. Para o autor, em jogo, os jogadores criam significado pois estão
engajados emocionalmente. O jogo também é uma atividade livre voluntária que traz
consigo suas próprias regras: o mundo dentro das quatro linhas de uma partida de
futebol é outro, em que o que vale dentro do jogo não vale para o mundo lá fora. Essas

1
Mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de
Goiás. jgabrao@gmail.com
80
condições tornam de fato o mundo do jogo um mundo à parte, separado, e que, por sua
natureza, iguala os jogadores que deixam seus status do lado de fora. Usando
novamente um exemplo de futebol: em uma pelada de bairro, os jogadores deixam suas
posições sociais e profissões do lado de fora para assumirem seus papéis de jogador por
um período limitado de tempo. Goffman (2008) defende que as pessoas assumem papéis
sociais na vida pública.
O mesmo vale para os jogos: através das comunidades de jogo, as pessoas
assumem estes papéis sociais através de fachadas que serão empregadas no mundo
digital. Os jogadores conectados passam por este mesmo processo real em que criam
laços e interagem uns com os outros. O autor argumenta que assim que entramos na
presença de outro indivíduo, avaliamos e seremos avaliados a partir de um arcabouço
variado de informações prévias e emitidas um pelo outro e assim o é da mesma forma
nos jogos: uma avaliação entre avatares.
Metodologicamente, relacionamos Goffman com o conceito de mecanismo de
Elster (2003) que é uma relação causal simples que permite reconhecer, mas não prever
padrões, que podem ser interpretados e nos são úteis para a interpretação dos dados
obtidos durante a pesquisa de campo. Interpretando as ações dos jogadores também nos
foi possível relacionar os dados com os perfis de jogadores, estipulados por Bartle
(2016): conquistador, matador, socializador e explorador, que afetam diretamente a
forma como o jogador interage com o mundo digital e com os demais jogadores,
afetando, portanto, as dinâmicas do grupo.
Começar um novo jogo estando sozinho é como chegar em uma festa em que
você não conhece ninguém, e tentar jogar sozinho pode ser um grande problema a longo
prazo, pois o conteúdo mais avançado requer, necessariamente, maior participação de
jogadores e entrosamento entre eles. No caso de The Elder Scrolls Online, o conteúdo
mais veterano são as trials, com mais de 20 jogadores participando, em que cada um
tem um papel claro a ser cumprido e que requer planejamento e comunicação entre eles
para obter o sucesso. Porém, as pessoas também se desentendem ou não se adaptam.
Guildas com jogadores mais antigos podem formar “panelinhas”, alienando os novatos
nos grupos. Sem criar estes laços, o jogador pode acabar desmotivado e saindo do game.
Sendo assim, os jogadores de um clã ou guilda desenvolvem conexões emocionais que
os mantém jogando.

81
Desta forma, os MMORPG são, principalmente, jogos sociais. Enfim, com base
no que foi apresentado, queremos argumentar que o fator social é fundamental para as
dinâmicas dos jogos online em estilo MMORPG e que tais dinâmicas afetam
profundamente a forma como jogo será jogado e a experiência individual de cada
jogador. Da mesma forma, as características individuais do jogador, como seus
interesses e personalidade, irão influenciar no modo com que ele irá interagir e será
tratado pelos demais jogadores. Portanto, ficou claro para nós ao final da pesquisa que
os jogadores permanecem jogando The Elder Scrolls Online por causa dos vínculos
sociais criados dentro do jogo e que os próprios sistemas do jogo são dependentes
destes vínculos, pois todas as suas atividades principais, incluindo aí a trial, seriam
impossíveis de ser realizada sozinha e sem uma comunicação azeitada e de confiança
entre os jogadores.

Palavras-chave: comunicação; mídias; vídeo games; interação; MMORPG

REFERÊNCIAS

BARTLE, Richard A. MMOs From the Inside Out: The History, Design, Fun, and Art
of Massively-Multiplayer Online Role-Playing Games. Nova York, Apress, 2016.

ELSTER, Jon. Alchemies of the mind: Rationality and the Emotions. Cambridge,
Cambridge University Press, 2003.

GOFFMAN, Erving. A Representação do eu na vida cotidiana. 15.ed. Petrópolis,


Editora Vozes, 2008.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. 4.ed. São Paulo, Perspectiva, 2000.

MURRAY, Janet H. Hamlet no Holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. São


Paulo: Editora Unesp, 2003.

82
A CONTRIBUIÇÃO DE RAYMOND WILLIAMS PARA A
OMUNI AÇÃO: UMA ANÁLISE A ARTIR DA OBRA “ ULTURA E
SO IEDADE”

Diogo Carvalho Gondim Teles1


Ricardo Pavan2

RESUMO

Este artigo objetiva evidenciar a contribuição da obra de Raymond Williams,


Cultura e Sociedade (2011), para o campo da comunicação. Para tanto, desenvolve-se
uma revisão bibliográfica acerca das teorias da comunicação da primeira metade do
século XX, destacando-se as principais características das Mass Communication
Research e da Teoria Crítica frankfurtiana, e o surgimento dos Estudos Culturais
Britânicos como um ponto de contraposição a estas duas correntes.
Corrente teórica formalizada no ano de 1964 em torno da implantação do Centro
de Estudos Culturais Contemporâneos (CCS, em inglês) da Universidade de
Birmingham, os Estudos Culturais Britânicos incluem teóricos interessados na
investigação das transformações ocorridas nos valores tradicionais da cultura operária
da Inglaterra, sob uma perspectiva de cultura influenciada pelas relações políticas,
econômicas e sociais. Três livros publicados no final dos anos 50 são considerados
como fundadores dos Estudos Culturais Britânicos: The Uses ofLiteracy (1957), de
Richard Hoggart; The Making of The EnglishWorking-class (1963), de E. P. Thompson;
e Cultureand Society (1958), de Raymond Williams, obra destacada neste artigo.
A discussão sobre a contribuição de Williams (2011) para a comunicação
fundamenta-se inicialmente na definição do conceito de comunicação apresentado pelo
autor, para quem a comunicação é um processo de transmissão e recepção de ideias e
valores essenciais para a constituição da sociedade, ressaltando-se a capacidade do
receptor de responder a esta transmissão de formas imprevisíveis e heterogêneas. Após
a apresentação do conceito de comunicação do autor, traça-se um breve panorama das
principais características das Mass Communication Research e da Teoria Crítica

1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, na linha de pesquisa Mídia e Cultura, da
Universidade Federal de Goiás. Bolsista da FAPEG (Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás).
2
Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2011). Docente do
Programa de Pós-Graduação em Comunicação, na linha de pesquisa Mídia e Cultura, e professor adjunto
no Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás.

83
frankfurtiana, além de seus pontos de divergência e confluência, para finalmente
discutir os pontos onde o pensamento de Williams (2011) se contrapõe ao das duas
correntes teóricas.
Destaca-se a oposição do autor em relação ao modo de se analisar as pessoas
como uma “massa” passiva em sua relação com os meios de comunicação. Ao apontar
para a falsa existência de uma sociedade de massas, salientando o sentido ideológico do
conceito, Williams (2011) relativiza a presença do indivíduo passivo e vulnerável a
influência dos meios de comunicação de massa, característica pressuposta tanto pelas
Mass Communication Research quanto pela Teoria Crítica frankfurtiana. Em sua crítica
específica às Mass Communication Research, o autor aponta para as falhas desta
corrente teórica ocasionadas por uma incapacidade de suas pesquisas em compreender
toda a complexidade presente no processo comunicativo.
A utilização de uma fórmula de comunicação linear, com papéis pré-definidos
para o emissor e para o receptor, resulta, segundo Williams (2011), em um foco
excessivo na instância da transmissão da mensagem e na busca por respostas
homogêneas do receptor ao estímulo provocado pelo emissor. Opondo-se a esta visão
linear de comunicação, o autor vem assim a valorizar a presença de um receptor ativo e
suas diferentes maneiras de dar sentido à mensagem recebida, ressaltando que a
comunicação não se resume ao processo de transmissão, sendo também composta pelos
processos de recepção e resposta (WILLIAMS, 2011, p. 337).
Em relação à Teoria Crítica, o autor aponta para o pessimismo dos
frankfurtianos em relação às transformações culturais intensificadas na primeira metade
do século XX, à medida em que critica a hierarquização entre cultura alta/baixa e reitera
o erro em se analisar as pessoas como “massas”. Williams (2011) oferece subsídios para
relativizar a crítica dos frankfurtianos – em especial, Adorno e Horkheimer (2002) –
acerca da qualidade dos produtos da indústria cultural, ao destacar à existência de
produtos midiáticos de boa qualidade disponíveis para o público, mesmo sendo
desenvolvidos visando o consumo mercadológico, intenção que desestimularia, segundo
os frankfurtianos citados, a emergência de uma razão crítica entre os indivíduos da
“massa”.
O posicionamento de Raymond Williams apresentado em Cultura e Sociedade
(2011), com sua preocupação em contestar conceitualizações presentes em tradições
teóricas consolidadas, apresenta determinadas afinidades entre a Teoria Crítica de

84
Frankfurt e a Mass Communication Research, ao passo que expõe as divergências de
sua visão acerca das transformações na sociedade ocorridas no século XX com a visão
dos estudos desenvolvidos por estas duas correntes teóricas da comunicação. O autor
contribui, assim, para despolarizar o campo da comunicação semeando um caminho
para a relativização do conceito de massas e para a valorização da atividade humana,
que serve de fundamento ao surgimento de estudos de comunicação voltados à análise
mais aprofundada da instância da recepção.
Desta forma, junto dos outros dois autores fundadores dos Estudos Culturais,
Richard Hoggart e E. P. Thompson, Williams (2011) oferece uma abordagem teórica
para os pesquisadores da comunicação que desejam entender a relação que se estabelece
entre os meios de comunicação e sua audiência, a partir de uma perspectiva que
reconhece a capacidade dos receptores de construírem ativamente os sentidos do que
consomem como leitores, telespectadores etc. Nas décadas subsequentes à publicação
de Cultura e Sociedade (2011) – de 1960 adiante – consolida-se a contribuição dos
Estudos Culturais para o campo da comunicação, sendo sua perspectiva de análise
prosseguida e diversificada na Inglaterra por nomes como o do antropólogo Stuart Hall
(segundo diretor do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos e estudioso das
questões de identidade cultural no mundo globalizado), além influenciar no
desenvolvimento dos estudos culturais de outros continentes, como os Estudos Culturais
Latino-Americanos, representados por autores como Jesús-Martín Barbero e Néstor
García Canclini.

Palavras-chave: Estudos Culturais. Raymond Williams. Revisão Bibliográfica. Teorias


da Comunicação.

REFERÊNCIAS

ACSERALD, Marcio; MOTA, Savio Felix. Algumas considerações sobre a história e a


atualidade do conceito de “massa” para a teoria da comunicação. Revista Intexto, Porto
Alegre, n. 24, 2011.

ARAÚJO, Carlos Alberto. A pesquisa norte-americana. In: HOHLFELDT, Antonio;


MARTINO, Luiz e FRANÇA, Vera (orgs.). Teorias da comunicação: conceitos,
escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2002.

85
CUNHA, Raquel Cantarelli Vieira da. Os conceitos de cultura e comunicação em
Raymond Williams. 2010. 109 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação) –
Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília, Brasília.

ECOSTEGUY, Ana Carolina. Os estudos culturais. In: HOHLFELDT, Antonio;


MARTINO, Luiz e FRANÇA, Vera (orgs.). Teorias da comunicação: conceitos,
escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2002.

FERREIRA, Giovandro Marcus. As origens recentes: os meios de comunicação pelo


viés do paradigma da sociedade de massa. In: HOHLFELDT, Antonio; MARTINO,
Luiz e FRANÇA, Vera (orgs.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e
tendências. Petrópolis: Vozes, 2002.

FRANÇA, Vera Veiga. O objeto da comunicação/a comunicação como objeto. In:


HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz e FRANÇA, Vera (orgs.). Teorias da
comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2002.

HORKHEIMER, Max & ADORNO, Theodor. A indústria cultural: o iluminismo como


mistificação de massas. In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da cultura de massa. São Paulo:
Paz e Terra, 2002. p. 169 -214.

RÜDIGER, Francisco. A escola de Frankfurt. In: HOHLFELDT, Antonio; MARTINO,


Luiz e FRANÇA, Vera (orgs.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e
tendências. Petrópolis: Vozes, 2002.

TEMER, Ana Carolina Rocha Pessoa; NERY, Vanda Cunha Albieri. Para entender as
teorias da comunicação. Uberlândia: EDUFU, 2.ed., 2009.

WILLIAMS, Raymond. Cultura e Sociedade. Petrópolis: Vozes, 2011.

______. Communications. London UK: Pelican Book 2º, 1966.

86
SAÚDE E SIGNIFICAÇÕES EM UM MUNDO DISPERSO: ESTUDO DE CASO
SOBRE A PRIMEIRA CAPA DE REVISTA SOBRE A PREP NO BRASIL

Roldão Alves de Barros Junior1


Rosana Maria Ribeiro Borges2

RESUMO

Em abril de 1989, Cazuza apareceu frágil e exposto na capa da principal revista


semanal do país com o título: Uma vítima da aids agoniza em praça pública. As
consequências da exposição estigmatizante no jornalismo voltaram a ser pauta em abril
de 2018, 29 anos após o ocorrido com o cantor, com a capa da edição 1031 da revista
Época, sobre a Profilaxia Pré-Exposição, a PrEP, que é uma das soluções mais novas na
prevenção ao HIV no mundo, com o uso diário de uma pílula para impedir a infecção.
Este estudo analisa então nas inter-relações entre o jornalismo e a saúde. Área
historicamente recente, não regulada no Brasil e em constante mutação, até mesmo pelo
dinamismo das práticas comunicacionais no mundo globalizado, o jornalismo tenta
ajustar-se às questões de consumo enquanto descobre suas limitações éticas ao falar
para e, sobretudo, com pessoas.
Nesse processo desafiador, áreas sensíveis e estratégicas, como a saúde, têm no
jornalismo o aliado e o vilão: divulgações bem embasadas são importantes para as
estratégias de saúde pública, ao passo que comunicações com erros estruturais ou
desvios de conduta podem trazer prejuízos difíceis de serem recuperados, especialmente
no que concerne à produção social de sentidos.
O caso estudado aqui, em que uma grande revista nacional falou sobre o início
da distribuição gratuita de um medicamento estratégico para a prevenção do HIV no
país, ganhou grande proporção entre médicos, pesquisadores, militantes, pessoas
vivendo ou convivendo com o HIV, entidades representativas e boa parte da internet, ao

1
Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Escola de Comunicação da
Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2012). Foi aluno especial das disciplinas de Mídia e Cultura
(2015) e Seminários de Mídia e Cultura (2018) do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. E-mail:
roldao.junior@gmail.com
2
Pós-Doutoranda em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2018),
Doutora em Geografia pelo Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás
(2013), Mestre em Educação Brasileira pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás
(2000), Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Radialismo pela Faculdade de
Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás (1996). E-mail:
rosanaborges.ufg@gmail.com
87
ponto de a própria revista destacar a reportagem como a mais compartilhada do ano, até
aquele momento. Rechaçada pelas principais fontes da matéria e até pelo Ministério da
Saúde, por meio de notas de repúdio, a reportagem O novo azulzinho (THOMAS,
2018), sobre o acesso à Profilaxia Pré-Exposição no Brasil, publicada na edição 1031 da
revista Época, teve também considerável volume de apoiadores.
A discussão gerou, além de críticas e defesas, conteúdos informacionais como
novas reportagens, entrevistas, artigos, posts e vídeos educativos, considerando pontos
não abordados ou abordados de forma 'incorreta' pela revista. A observação dos
argumentos utilizados por defensores e críticos, ambos embasados em dados e discursos
validados, originou a inquietação fundamental para esta análise: é válida para questões
de saúde a inferência de que o jornalismo pode intensificar o que é identificado por
Borges (2013) como pensamento disperso?
A questão resultou na escolha por desenvolver um estudo de caso, em que
optou-se pela abordagem prioritariamente qualitativa, a partir de instrumentos como o
levantamento bibliográfico de referências para questões comuns ao jornalismo, à saúde
e à ciência; a pesquisa documental de notas de repúdio ligadas à reportagem mais
polêmica, até o momento, sobre a Profilaxia Pré-Exposição no Brasil; e a análise do
conteúdo a partir da categorização de expressões-chave utilizadas nas notas críticas ao
trabalho do repórter, na nota de defesa publicada posteriormente pela revista e,
finalmente, na reportagem publicada pela revista Época no dia 2 de abril de 2018.
Com o presente estudo de caso, concluiu-se que apesar de os discursos da
revista e da comunidade científica, a partir das notas analisadas, terem argumentos
válidos, a incidência de expressões-chave ligada a pontos levantados pelo conjunto de
notas críticas foi superior na reportagem. Para além disso, os dados, ao serem colocados
de forma contextualizada e analisadas em conjunto com o discurso, revelaram
equívocos sérios e confirmaram a relevância da apreensão adotada pela comunidade
médica e pelo conjunto de entidades que assinam as críticas, incluindo as principais
autoridades do país.
Como comentaram, temiam que o produto jornalístico pudesse ser utilizado para
o fortalecimento e validação de uma rede de significações negativas e de discursos
estigmatizantes às populações-chave ligadas à Profilaxia Pré-Exposição no Brasil. Para
além de visar contribuir para o fortalecimento dos estudos sobre o jornalismo em saúde
no país refletir sobre os perigos da prática jornalística isenta de escolhas morais em

88
assuntos sensíveis, este estudo objetivou embasar a discussão sem deixar de lado o
contexto atual, de intenso compartilhamento e polarização.
Em meio às discussões contemporâneas sobre o papel do jornalismo para nossas
sociedades e a perda de referências, cabe considerar o potencial dos estudos
relacionando o pensamento disperso à prática jornalística. Ainda pouco adotado nos
estudos da comunicação, conceito pode auxiliar os estudos de recepção, área em
constante desenvolvimento neste século, a partir das novas realidades tecnológicas e dos
novos comportamentos de comunicação da humanidade, cada vez mais alicerçados no
compartilhamento e na visibilidade. As discussões possíveis a partir do conceito
também contribuirão, certamente, para análises ligadas à prática profissional, aos
comportamentos do público e à função social de veículos, mídias e atores nos processos
comunicacionais do nosso mundo globalizado.
A qualidade da informação e fatores de validação da informação a partir de suas
fontes originais ou de compartilhamento, por exemplo, são alguns dos assuntos urgentes
à nossa era, já que o acesso a ferramentas de publicação e compartilhamento derrubou
barreiras e filtros ligados a forma como criamos e consumimos informação. Em um
contexto onde é mais fácil e recorrente a localização de materiais para a validação de
qualquer visão ou ponto de vista, incluindo questões mais delicadas como a saúde e os
direitos humanos, vale o cuidado pela avaliação constantemente dos papeis do
jornalismo, inclusive para a validação de estigmas e fortalecimento de discursos de
ódio.
Tais questões não puderam ser alcançadas de forma completa pelo presente
estudo, como era esperado, por sua complexidade, mas são pontos que podem e devem
ser fortalecidos por pesquisas e análises posteriores e relacionadas, nos campos da
comunicação e da saúde.

Palavras-chave: Jornalismo. Pensamento Disperso. Saúde. HIV. PrEP.

REFERÊNCIAS

REDAÇÃO ÉPOCA. A polêmica da pílula azul: capa de Época provoca


manifestações de leitores em reportagem que narrava novas formas de prevenção à aids.
Disponível em: <https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2018/04/polemica-da-pilula-
azul.html>. Acesso em: 12 maio 2018.

89
BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO: Aids e IST. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.
Disponível em: <http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2017/boletim-epidemiologico-
hivaids-2017>. Acesso em 12 mai 2018.

ABIA. M té ‘A O t í Az ’ v t Ép ép t p
fundamentação. Disponível em: <http://abiaids.org.br/31417/31417>.

ARCO-ÍRIS. Nota de repúdio do Grupo Arco-Íris em relação à matéria da revista


Época sobre a PrEP. Disponível em: <http://www.arco-iris.org.br/destaques/nota-de-
repudio-do-grupo-arco-iris-em-relacao-a-materia-da-revista-epoca-sobre-a-prep/>.
Acesso em: 12 maio 2018.

BORGES, Rosana Maria Ribeiro. Pensamentos dispersos, hegemonias


concentradoras: discursos jornalísticos e movimentos de territorialização no cerrado.
2013. 420f. Tese (Doutorado em Geografia) - Instituto de Estudos Socioambientais,
Universidade Federal de Goiás, Goiânia.

CAPHIV. Nota de repúdio à publicação da revista Época. Disponível em:


<https://caphiv.wixsite.com/caphiv/post-unico/2018/04/03/Nota-de-
rep%25C3%25BAdio-%25C3%25A0-publica%25C3%25A7%25C3%25A3o-da-
revista-%25C3%2589poca>. Acesso em: 12 maio 2018.

CHAUI, Marilena. Cultura e democracia. Crítica y emancipación: Revista


latinoamericana de CienciasSociales, Buenos Aires: CLACSO, 2008. Ano 1, n. 1, p.
53-76, junho 2008.

CLINMANAUS. Nota de esclarecimento. Disponível em:


<https://www.instagram.com/p/BhDKKUVlnbP/>. Acesso em: 12 maio 2018.

CRT DST/AIDS SP. Nota conjunta sobre a reportagem da revista Época sobre
PrEP. Disponível em: <https://www.facebook.com/notes/crt-dstaids-sp-centro-de-
referência-e-treinamento-dstaids-sp/nota-conjunta-sobre-a-reportagem-da-revista-época-
sobre-prep/1625077424212219/>. Acesso em: 12 maio 2018.

DUARTE, Marcia YukikoMatsuuchi. Estudo de caso. In: DUARTE, Jorge; BARROS,


Antonio (Orgs.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. 2. ed. São Paulo:
Editora Atlas, 2010.

FIOCRUZ. Nota de repúdio. Disponível em: <https://www.ini.fiocruz.br/nota-de-


repúdio>. Acesso em: 12 maio 2018.

FOAESP. Nota sobre a reportagem da revista Época. Disponível em:


<https://www.facebook.com/notes/fórum-das-ongaids-do-estado-de-são-paulo-
foaesp/nota-sobre-a-reportagem-da-revista-época/971767556317941>. Acesso em: 12
maio 2018.

FUNDO POSITHIVO. h v g t ít à v t ‘Ép ’.


Disponível em: <http://fundoposithivo.org.br/conselho-se-reune-e-divulga-nota-critica-
a-revista-epoca/>. Acesso em: 12 maio 2018.

90
GRINSZTEJN, Beatriz. Foi um erro lamentável ter aceito ser entrevistada...
Disponível em:
<https://www.facebook.com/beatriz.grinsztejn/posts/1881703728508409>. Acesso em:
12 maio 2018.

MELO, José Marques de Melo; RIBEIRO, José Hamilton. Jornalismo científico: teoria
e prática. São Paulo: Intercom, 2014.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. À revista Época. Disponível em:


<http://www.aids.gov.br/pt-br/noticias/revista-epoca>. Acesso em: 2 abr. 2018.

MOPAIDS. MOPAIDS publica nota de repúdio a Revista Época. Disponível em:


<http://www.mopaids.org.br/open-not-pag.php?codigo=843>. Acesso em: maio 2018.

PREP BRASIL. O PrEP Brasil repudia... Disponível em:


<https://www.facebook.com/PrEPBRASIL/posts/997709027043930>. Acesso em: 12
maio 2018.

SILVA, André Felipe Cândido da; CUETO, Marcos. HIV/Aids, os estigmas e a história.
História, Ciências, Saúde, Manguinhos, v. 25, n. 2. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo
Cruz, abr/jun 2018, p.311-314.

SONTAG, Susan. Doença como metáfora: aids e suas metáforas. Tradução de Rubens
Figueiredo e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007.

SUPER INDETECTÁVEL. A Rede Mundial de Pessoas Vivendo e Convivendo com


HIV... Disponível em: <https://www.facebook.com/SuperIndetectavel/posts/200701534
9513437>. Acesso em: 12 maio 2018.

TABAKMAN, Rosana. A saúde na mídia: medicina para jornalistas, jornalismo para


médicos. Tradução de Lizandra Magon de Almeida. São Paulo: Summus Editorial,
2013.

THOMAZ, Danilo. O novo azulzinho: a PrEP está mudando o comportamento sexual


dos grupos de risco, sobretudo dos gays. Eles estão abandonando a camisinha,
contribuindo para o aumento de doenças sexualmente transmissíveis. Época, n.1031,
p.34-42., 2 abr. 2018. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2018.

TIMERMAN, Artur; MAGALHÃES, Naiara. Histórias da aids. Belo Horizonte:


Autêntica Editora, 2015.

VASCONCELOS, Rico. Eu me arrependi de ter dado entrevista à revista Época.


Disponível em:
<https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10155426848921444&set=a.1103005414
43.97182.558291443&type=3&theater>. Acesso em: 2 abr. 2018.

WYLLYS, Jean. O desserviço da revista Época para o debate sobre HIV/Aids.


Disponível em:
https://www.facebook.com/jean.wyllys/photos/a.543112092403469.1073741832.16356
6147024734/1756683274379672/?type=3&theater>. Acesso em: 10 abr. 2018.
91
OLIVER QUEEN, DANIEL RAND E O JOGO DAS IDENTIDADES COMO
GANHO NARRATIVO EM ARROW E IRON FIST

Luiz Siqueira1
Goiamérico Felício Carneiro dos Santos2

RESUMO

O presente estudo objetiva a uma análise das séries de TV Arrow, exibida


originalmente em 2012 pela emissora The CW e disponível atualmente pelo canal de
streamingNetflix, baseada nos personagens da DC Comics e Iron Fist, uma produção
original da Netflix em exibição desde 2017, baseada em personagens da Marvel Comics.
O protagonista, em ambas as séries de TV, reaparece em sua cidade natal, após alguns
anos dado como morto, dotado de habilidades especiais que o permite lutar contra
criminosos, o que evidencia assim, a construção de uma segunda identidade à qual é
mantida secreta e em confronto com a anterior, a de homem comum.
À essa reaparição se configura o ponto de partida deste estudo que assim, através
de uma perspectiva narratológica, à qual se ocupa, logo, das ações e atitudes dos
personagens nas séries em questão, tem por intuito refletir sobre o modo como se dá a
construção narrativa dessas séries de TV à luz do conceito de identidade proposto por
Stuart Hall (2006), das características inerentes ao meio televisivo, tomando-se por base
Mittell (2012) e Jost (2007) e das considerações de Campbell (2007) e Robb (2014) a
respeito de super-heróis. Em Arrow, a transformação de Oliver em Arqueiro é
evidenciada e confrontada por meio de suas habilidades, que lhe permitirão cumprir a
promessa realizada em memória de seu pai, e de cujas origens são reveladas através de
flashbacks ao longo dos episódios.
Ao recorrer às suas habilidades, Oliver é desafiado a manter em sigilo, diante
dos mais próximos, sua identidade heroica e o ocorrido durante o tempo em que passou

1
Mestrando em Comunicação no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FIC/UFG. Graduado
em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela UFG. E-mail:
siq.luizc@gmail.com.
2
Pós-doutor em comunicação pela Unisinos/RS (2010) e pela Universidade Nacional de Rosário/Ar
(2010). Doutor em Teoria da Literatura pela PUC-Rio (2005). Mestre em Estudos da Linguagem - Teoria
da Literatura pela Universidade Federal de Goiás (1999). Graduado em Letras pela Universidade Católica
de Goiás (1997). Integra o PPGCOM - Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFG) e o
PPGIDH - Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos. E-mail:
goiamerico@gmail.com.
92
na ilha em que, por meio de flashbacks, se mostra inseguro e indefeso, em divergência
com o Arqueiro que, a cada episódio, risca um nome escrito em um caderno ao eliminar
um dos responsáveis pela corrupção em sua cidade. A oscilação entre herdeiro da
Corporação Queen e justiceiro pelo bem de Starling City por vezes entra em conflito, o
que cabe ao personagem decidir a cada momento, qual identidade prevalecerá. Ao
salvar Malcolm tanto na primeira temporada, em “DeadtoRights”, quanto em “The
Magician”, na terceira, a identidade do herdeiro da Corporação Queen prevalece em
detrimento à do Arqueiro.
Em ambos os casos, Oliver prioriza, em momentos específicos, suas relações
afetivas ao invés de atuar como o vigilante justiceiro e punir Malcolm. Em Iron Fist, a
questão identitária já é um conflito desde os primeiros episódios, uma vez que Danny
Rand precisa provar sua identidade como herdeiro dos Empreendimentos
Rand,desacreditado de ser quem é ao aparecer descalço e com roupas sujas para seus
amigos de infância Joy e Ward Meachum, que agora controlam a empresa. Além de ser
o herdeiro dos Rand, Danny também diz ser outro, o Punho de Ferro, resultado de seu
tempo em K’un-Lun no qual, assim como detalhes do acidente aéreo, é revelado apenas
em pequenos flashbacks ao longo dos episódios, conforme o personagem se recorda ou
tenta meditar. Embora responda a seu médico ser ambos, Danny Rand e o Punho de
Ferro, em determinadas situações, sobressai-se um ao outro, também ilustrando o jogo
de identidades de Hall (2006).
Nesse sentido que, a exemplo do que ocorre em Arrow, a oscilação entre as duas
identidades, quando diante de um conflito, também requer do personagem a decisão de
qual prevalecerá. Embora ainda em sua primeira temporada, os desdobramentos das
hesitações de Danny em agir como o Punho de Ferro, a exemplo de em “Bar the Big
Boss”, permitindo que Bakuto, seu rival mítico, sobreviva, se fazem notáveis ao fim da
temporada, na conversa que Davos tem com Joy, dizendo-lhe que Danny deve ser
morto, transformando-se assim, de amigo a potencial inimigo e quando Danny encontra
próximo aos portões de K’un-lun, local que deveria proteger, homens de seu rival.
Nesse sentido, nota-se que, em ambas as séries, seus protagonistas heroicos ilustram o
jogo de identidades de Hall (2006), no qual se adota posições-de-sujeito diante de
determinadas situações. Como narrativas seriadas, às quais, enquanto produto
televisivo, têm por intuito estabelecer uma relação com o telespectador, porJost (2007),

93
a oscilação entre as posições resulta em um ganho narrativo que interessa às séries de
TV: o adiamento do esperado conflito entre os super-heróis e seus rivais.
Palavras-chave: Séries de TV. Arrow. Iron Fist. Super-heróis. Identidade.

REFERÊNCIAS

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Trad. Adail Ubirajara Sobral. São Paulo:
Pensamento/Cultrix, 2007.

HALL, Stuart. A Identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva


e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.).
Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2007. p.
103-133., Cap. 3.

JOST, François. Compreender a Televisão. Trad. Elizabeth B. Duarte, Maria Lília Dias
de Castro e Vanessa Curvello. Porto Alegre: Sulina, 2007.

ROBB, Brian J. A Brief History of Superheroes: From Superman to The Avengers, The
Evolution ofComic Book Legends. London: Robinson, 2014.

MITTEL, Jason. Complexidade narrativa na televisão americana contemporânea.


Matrizes, São Paulo, Ano 5, n. 2, p. 29-52, Jan/Jun. 2012. Disponível em:
<https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v5i2p29-52>. Acesso em 9 ago. 2018.

“AN INNOCENT MAN”. Arrow: Primeira temporada. Escrito por Moira Kirland e Lana
Cho. Dirigido por Vince Misiano. Netflix.

“BAR THE BIG BOSS”. Iron Fist: Primeira temporada. Escrito por Scott Reynolds.
Dirigido por Andy Goddard. Netflix.

“DEAD TO RIGHTS”. Arrow: Primeira temporada. Escrito por GeoffJohns. Dirigido por
GlenWinter. Netflix.

“IMMORTAL EMERGES ROM CAVE”. Iron Fist: Primeira temporada. Escrito por
DwainWorrell. Dirigido por RZA. Netflix.

“LONE GUNMEN”. Arrow: Primeira temporada. Escrito por Marc Guggenheim e


Andrew Kreisberg. Dirigido por Guy Bee. Netflix.

“PILOT”. Arrow: Primeira temporada. Escrito por Greg Berlanti e Marc Guggenheim.
Dirigido por David Nutter. Netflix.

“ROLLING THUNDER CANNON PUNCH”. Iron Fist: Primeira temporada. Escrito por
Scott Buck. Dirigido por Tom Shankland. Netflix.

94
“SACRI ICE”. Arrow: Primeira temporada. Escrito por Marc Guggenheim e Andrew
Kreisberg. Dirigido por David Barrett. Netflix.
“SHADOW HAWK TAKES LIGHT”. Iron Fist: Primeira temporada. Escrito por Scott
Buck. Dirigido por John Dahl. Netflix.

“SNOW GIVES WAY”. Iron Fist: Primeira temporada. Escrito por Scott Buck. Dirigido
por Tom Shankland. Netflix.

“THE BRAVE AND THE BOLD”. Arrow: Terceira temporada. Escrito por Marc
Guggenheim e GrainneGodfree. Dirigido por Jesse Warn. Netflix.

“THE CLIMB”. Arrow: Terceira temporada. Escrito por JakeCoburn e Keto Shimizu.
Dirigido por Thor Freudenthal. Netflix.

“THE MAGICIAN”. Arrow: Terceira temporada. Escrito por Marc Guggenheim e


Wendy Mericle. Dirigido por John Behring. Netflix.

“THE O ER”. Arrow: Terceira temporada. Escrito por Beth Schwartz e Brian Fors
Sullivan. Dirigido por DermottDowns. Netflix.

“VERTIGO”. Arrow: Primeira temporada. Escrito por Wendy Mericle e Bem


Sokolowski. Dirigido por Wendy Stanzler. Netflix.

95
SUPER- HERÓIS COMO FENÔMENO DA CULTURA MIDIÁTICA: EM
BUSCA DE SENTIDO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Rosana Maria Ribeiro Borges1


Bruno André Cardoso Von Hauer2

RESUMO

Atualmente aumentou o número de pesquisas acadêmicas em torno do tema


super-heróis. O contexto atual, portanto, é de ampliação de novas formas de produção e
consumo audiovisual através da cultura midiática. Neste artigo por meio de uma
pesquisa documental e bibliográfica, vamos analisar a existência de uma cultura heroica
vinculada à popularidade do gênero super-heróis que vem sofrendo adaptações desde à
sua origem nos quadrinhos, passando pela tv, cinema e jogos eletrônicos.
O objetivo é analisar o sentido da permanência dos super-heróis enquanto
produto midiático na sociedade contemporânea. Os super-heróis praticamente são
conhecidos em todas as partes do mundo; são admirados, sobretudo, por sua coragem
para enfrentar o mal, os dominantes e os poderosos.
O heroísmo é um fato profundamente enraizado na psique humana, no
imaginário e no senso moral popular. Atributos heroicos como coragem, dignidade e
altruísmo, inspiram modelos e exemplos em diversos povos e diferentes culturas,
constituindo assim figuras arquetípicas. O herói é uma representação mítica /
arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar de forma
surpreendente um determinado problema de dimensão catastrófica e épica. Situações
de guerra, de conflito e de competição são cenários comuns para feitos considerados
heroicos.
O mito é uma narrativa tradicional com caráter explicativo ou simbólico,
relacionado com o contexto cultural em que é produzido, procurando explicar os
principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do mundo e do
homem por meio de deuses e heróis, que agem como símbolos de arquétipos, oriundos
da psique humana. Como produto da cultura midiática, a figura do super-herói originada
desde a década de 1930 surge como uma das mais relevantes representações da cultura

1
Doutora e Professora da Universidade Federal de Goiás / Faculdade de Comunicação e Informação UFG
/ FIC, e-mail: rosanaborges.ufg@gmail.com
2
Mestrando do Programa de Pós-graduação em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás – UFG
FIC, e-mail: brunovonhauer@gmail.com
96
pop, sendo por isso constantemente readaptada e reapresentada nas mais variadas mídias
(quadrinhos, tv, cinema e jogos eletrônicos), tornando-se assim alvo de pesquisas nas
principais grandes áreas do conhecimento humano como filosofia, sociologia,
antropologia, psicologia e comunicação. Em relação aos termos “pop” e “cultura pop”,
estamos nos referindo ao que Kellner denomina de “cultura da mídia”, isto é,
manifestações culturais produzidas e distribuídas de forma massiva através de meios
de comunicação. Portanto, esse artigo poderá acrescentar conhecimento sobre o sentido
do consumo da narrativa heroica dos super-heróis dentro da indústria do entretenimento
representados pela cultura midiática.

Palavras-chave: Super-herói. Cultura Midiática. Mito. Busca de Sentido.

REFERÊNCIAS

ARANHA, G. Adaptações cinematográficas e literatura de entretenimento: um olhar


sobre as aventuras de super-heróis. Intexto, Porto Alegre: UFRGS, v. 1, n. 20, p. 84-101,
janeiro/junho 2009.

BALOGH, A. M. O Discurso Ficcional na TV. São Paulo: Edusp, 2002.

CAMBELL, J. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento, 1981.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972.

JOST, F. Do que as séries americanas são sintoma? Porto Alegre: Sulina, 2012.

JOST, François. Compreender a televisão. trad. Elizabeth Bastos Duarte, Maria


Lília Dias de Castro, Vanessa Curvello. Porto Alegre: Sulina, 2010.

KELLNER, D. A cultura da mídia: estudos culturais: identidade e política entre o


moderno e o pós-moderno. São Paulo: EDUSC, 2011.

MACHADO, A. A Televisão levada a sério. São Paulo: Senac, 2000.

SILVA, M. V. B. Cultura das séries: forma, contexto e consumo de ficção seriada na


contemporaneidade. Galaxia, n. 27, p. 241-252, São Paulo, jun. 2014.
http://dx.doi.org/10.1590/1982-25542014115810.

VIANA, N. (2011). Breve história dos super-heróis. In: VIANA, Nildo; REBLIN, Iuri
Andréas (Org.). Superheróis, cultura e sociedade. São Paulo: Editora Idéias e Letras.

VIANA, N. (2005). Heróis e super-heróis no mundo dos quadrinhos. Rio de Janeiro:


Achiamé.

97
MÍDIA, CULTURA E TECNOLOGIA: O CORPO PLUGADO E A IMERSÃO

Bruna Rafaella Almeida da Costa1


Rosana Maria Ribeiro Borges2

RESUMO

Propõe-se traçar uma proposta de abordagem do corpo humano na Realidade


Virtual (RV) a partir da leitura cultural que a sociedade se encontra. Para isso, realiza-se
a contextualização sobre cultura e seu cruzamento com as tecnologias que tem seu
desenrolar com a convergência das mídias propondo novos experimentos. A Realidade
Virtual (RV) é uma realidade “que é aceita como verdadeira, embora não
necessariamente exista fisicamente e em termos computacionais, é considerada a forma
mais avançada de interface com o computador” (REDEL; HOUNSEL, 2004 p.02).
Um sistema de RV pode ser resumido através de três características principais:
imersão, interação e envolvimento. Essa nova relação proporcionada por este espaço
revela uma nova forma de se trabalhar as percepções sensoriais do corpo humano.
Dentre os avanços tecnológicos essa base teórica servirá para entender o Áudio 3D na
web. Essa experiência proporciona a sensação de realismo através da percepção sonora
no ambiente virtual. O contexto é voltado para a situação real e virtual do corpo em
meio a esta nova era.
Apoiando-se no trabalho de Santaella (2003) explora-se o Corpo Biocibernético
que é o cruzamento do ser humano com a máquina. Entende-se que a mídia é a extensão
do corpo neste novo viés cultural que tem o ciberespaço como locus de atuação. Busca-
se compreender de que forma o Áudio 3D se torna extensão do corpo a partir do
ciberespaço e assim poder explorar essa tecnologia de forma a entender as funções que
pode exercer para e através do corpo humano. Pode-se localizar o Áudio 3D, como o
próprio “produto midiático”, sendo assim esse Áudio é considerado cognitivo e que
amplia as percepções da comunicação do ser humano com a máquina. O que ajuda a
entender essa mídia como meio, nesse caso, um meio como extensão do corpo, é um

1
Mestranda do Programa de Pós Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás.
Bacharel em Comunicação Social- Rádio e TV pela Universidade Federal do Maranhão. e-mail:
brunaalmeida87@gmail.com.
2
Orientadora do trabalho. Professora Doutora do Programa de Pós Graduação em Comunicação da
Universidade Federal de Goiás na Faculdade de Comunicação e Informação, e-mail:
rosanaborges.ufg@gmail.com

98
estudo que McLuhan explora e Martino (2009) destaca em três proposições: O meio é a
mensagem; Os meios como extensões do homem ; Meios quentes e meios frios.
Para Santos (2014, p.05) as tecnologias de gravação, como o Áudio 3D,
realizam um “registro diretamente dos fluxos do real, sem precisar passar por qualquer
tipo de processo humano, funcionando assim independente de ações de captura do
corpo.” Dessa forma as máquinas estariam registrando o campo real das coisas e indo
além do que os seres humanos seriam capazes de captar desenvolvendo dessa forma a
expansão do sensível, tanto para os humanos quanto para as máquinas. Interessa a partir
da sistematização de Santaella (2003) investigar o Corpo Plugado, pois nesse espaço
entende-se que a troca de informação e conhecimento está mais ligada com a inovação
tecnológica que se nomeia para este entendimento, o Áudio Imersivo, que proporciona a
sensação de realismo através da percepção sonora no ambiente virtual que tem como
recurso obrigatório o uso de fone de ouvido, ou seja, o corpo será plugado na máquina
através desse elemento. O Áudio 3D dentro deste aspecto pode ser caracterizado como
uma tecnologia própria a ser desenvolvida dentro da realidade do corpo plugado.
A partir do momento que o Áudio é trabalhado evidenciando o seu objetivo que
é proporcionar a sensação de imersão ao usuário, este exclui os estímulos que surgem
do mundo exterior e passa a interagir somente no ciberespaço, que como vimos é
característica dessa modalidade. Com base nesta visão de que a mídia é a extensão do
corpo acredita-se que “o ser humano já está imerso em uma era pós-biológica, pós-
humana”. (SANTAELLA, 2003, p.182). Além disso, é possível observar que as
tecnologias e os novos meios são os maiores transformadores do mundo social. Ao
situar as mudanças que ocorrem através da Cibercultura potencializam-se os tipos de
experiências que podem ser desenvolvidas a partir desse espaço. A imersão
proporcionada dentro deste ambiente através do Áudio 3D é capaz de remodelar o corpo
o que fundamenta a mobilização do ser humano para este espaço.

Palavras-chave: Realidade Virtual; Corpo Biocibernético; Áudio 3D.

REFERÊNCIAS

MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera Veiga. Teorias da Comunicação: conceitos,


escolas e tendências. 8. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.

99
REDEL, R; HOUNSELL, M. da S. Implementação de Simuladores de Robôs com o
Uso da Tecnologia de Realidade Virtual. Anais do IV Congresso Brasileiro de
Computação – CBComp 2004. Disponível em:
http://www.niee.ufrgs.br/eventos/CBCOMP/2004/pdf/Robotica/t170100201_3.pdf.
Acesso em: 05 de janeiro de 2018

SANTAELLA, Lucia. Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à


cibercultura. São Paulo. Paulus. 2003.

SANTOS. Luiza. Ensaio sobre a leitura digital como relação humano-máquina: uma
proposta de abordagem a partir das materialidades da comunicação. Anais do XXXIX
Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. São Paulo. 2016. Disponível em:
http://portalintercom.org.br/anais/nacional2016/resumos/R11-0863-1.pdf Acesso em: 27
de dezembro de 2017.

100
O ESPAÇO FÍLMICO COMO ELEMENTO DE MEDIAÇÃO
COMUNICACIONAL E PRODUÇÃO DE SENTIDO: UMA ANÁLISE DE
PENDULAR

Thiago da Silva Rabelo1


Rosana Maria Ribeiro Borges2

RESUMO

O tema do artigo é o uso do cinema como prisma para se pensar a pesquisa em


Comunicação. Nesse sentido, o presente trabalho teve como objetivo investigar a
concepção do espaço fílmico visto no longa-metragem de ficção Pendular (2017), tendo
como base, para isso, o pressuposto de que a forma cinematográfica atua enquanto
elemento de mediação comunicacional e produção de sentido. Através dela, entendemos
que cineastas são capazes não apenas de estabelecer e influenciar interações mantidas
entre personagens, sejam eles ficcionais ou não, mas também de elucidar significações
comunicacionais específicas a partir do uso que fazem da imagem e do som.
No filme, acompanhamos a trajetória de um casal de artistas anônimos a partir
do momento em que decidem morar juntos. Para isso, ambos concordam em alugar um
galpão e, também, em dividi-lo ao meio com uma fita adesiva, no intuito de delimitar
espaços de trabalho que os dois possam utilizar no dia a dia. Aos poucos, no entanto, a
divisão motiva tensões responsáveis por separá-los, sobretudo a partir do que elas
revelam sobre como os protagonistas lidam com suas respectivas subjetividades.
De abordagem qualitativa, o estudo utilizou levantamento bibliográfico e análise
fílmica como instrumentos metodológicos. Nesse sentido, realizamos, a partir dos
estudos de Santos (2004), Sodré (2006) e Marcondes Filho (2013), uma revisão a
respeito do conceito de espaço enquanto elemento afetivo na Comunicação. Também
buscamos em Merleau-Ponty (1999) definições sobre subjetividade que pudessem
contribuir com o debate acerca da trama desenvolvida pelo filme. Em seguida,
decompomos e segmentamos o longa-metragem Pendular a partir dos parâmetros
estabelecidos por Bordwell, Thompson e Smith (2017) para pesquisas interessadas por
fenômenos específicos do cinema, ao passo que o recorte proposto levou em conta a

1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM da Faculdade de Informação e
Comunicação da Universidade Federal de Goiás. E-mail: thirabeloo@gmail.com
2
Pós-Doutoranda em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professora
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação - PPGCOM da Faculdade de Informação e
Comunicação da Universidade Federal de Goiás. E-mail: rosanaborges.ufg@gmail.com
101
relação mantida entre corpos e espaços no projeto. Ao longo do processo de
decomposição fílmica, nos ancoramos em três cenários de estudo.
O primeiro diz respeito à relação que Ele mantém com o galpão alugado; o
segundo, à relação que Ela estabelece com o mesmo espaço; por fim, buscamos
exemplos de cenas e sequências nas quais ambos os personagens interagem entre si e
com o local, simultaneamente. Na etapa final, analisamos a coleta à luz do arcabouço
teórico levantado. Em termos de resultado, a análise demonstrou que o espaço fílmico
em Pendular, quando estudado a partir das teorias interessadas pela influência do
sensível na comunicação, atua como mediador comunicacional e produtor de sentido.
Dessa forma, observamos no filme toda uma dinâmica de corpos e territórios que
revela, expõe, partilha e faz agir, ou seja, que comunica. Em meio a ela, o conceito de
atrito comunicacional proposto por Marcondes Filhos (2013) se destacou, contribuindo
para a refutação de que o relacionamento dos protagonistas é pautado pela
incomunicabilidade, ideia proferida pela imprensa na época de lançamento da obra.
A análise mostrou que é a partir das tensões geradas pela divisão cartesiana do
espaço, entendidas aqui como elementos essenciais da comunicação, que os
personagens se transformam, descobrindo nuances afetivas que não sabiam possuir e
que se mantinham veladas pela rotina. Dessa forma, consideramos que pensar a
Comunicação a partir do filme de Júlia Murat realçou a importância dos afetos para o
campo de estudos em questão. Elementos historicamente ignorados pelo pensamento da
área, são eles que estabelecem os dois sistemas de subjetividades responsáveis por
constituir o cerne dramático do projeto. Justamente por isso, a experiência de analisá-lo
pode ser encarada como um sinal de que a dinâmica comunicacional não se baseia, em
sua essência, na busca por um consenso, por alguma forma de concordância entre as
partes que a compõem.
Consideramos, nesse sentido, que os protagonistas do filme, no intuito de
evoluírem enquanto indivíduos, precisam dos atritos motivados pela já citada dinâmica
de corpos e espaços, tendo em vista as diversas camadas de dominação e sujeição
presentes na maneira que lidam um com a outra. É por isso que consideramos a forma
fílmica como prisma para se pensar a pesquisa em Comunicação. Sua capacidade de
mostrar o invisível, amparada pelos instrumentos próprios da criação fílmica (mise-en-
scène, montagem, fotografia, entre outros), permite ao(à) pesquisador(a) refletir sobre
elementos que podem não ser considerados como deveriam no que diz respeito a uma

102
área de estudos como aquela que nos serve de contexto. Em suma, Pendular nos
permitiu vislumbrar outras possibilidades de investigação voltada aos afetos no campo
comunicacional, principalmente por fazer de sua forma argumentos capazes de ressaltar
a pertinência deste tipo de pesquisa.

Palavras-chave: Cinema. Comunicação. Forma. Pendular. Análise.

REFERÊNCIAS

PENDULAR. Direção: Júlia Murat. Produção: Tatiana Leite e Júlia Murat. Brasil;
Argentina; França. Vitrine Filmes, 2017. Inspirado na performance The Other: Rest
Energy(1980), de Marina Abramóvic e Ulay. Streaming (Net Now).

BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin; SMITH, Jeff. Film art: an introduction.


Wisconsin, Estados Unidos. Editora: University of Wisconsin, 2017.

MARCONDES FILHO, Ciro. O rosto e a máquina: O fenômeno da comunicação visto


pelos ângulos humano, medial e tecnológico – nova teoria da comunicação. São Paulo:
Editora Paulus, 2013.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins


Fontes, 1999.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo, 2004.

SODRÉ, Muniz. As estratégias do sensível. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2006.

103
GARI: HERÓIS DA RUA

Aline Goulart Soares1


Angelita Pereira de Lima2

RESUMO

A rua está inundada de personagens. Prédios, casas, calçadas, trânsito, animais e


pessoas transbordam histórias, e transformam a cidade de Goiânia. Entre avenidas de
propaganda, botecos de esquina e árvores do cerrado, elos são construídos com
trabalhadores. Um olhar mais atento, e mais duradouro, enxerga uma silhueta com
roupa laranja, um carrinho e uma vassoura tirando o lixo do chão. Aquele é o Gari,
trabalhador da limpeza urbana, objeto de estudo deste trabalho de conclusão de curso
(TCC).
O trabalhador da limpeza urbana de Goiânia é um ser social, pois interage com
outros seres humanos e ocupa o mesmo espaço. A Companhia de Urbanização de
Goiânia é uma das empresas mais presentes no dia a dia dos moradores, por executar
ações que interferem diretamente na qualidade de vida, e na sustentabilidade de
Goiânia. A Comurg é responsável pela limpeza, jardinagem, coleta de lixo, iluminação
pública, construção e manutenção de praças.
O principal objetivo do trabalho é identificar o processo de formação de
similaridade do trabalhador com a cidade de Goiânia ao longo da história. E percorrer,
por anos, ruas, trabalho e histórias. A fim de compreender a transformação da cidade e
das pessoas. Como se deu a migração interna na vida dessas pessoas? Como é sua
relação com a vida de gari? O que essas pessoas têm para contar? Como foi vê as
transformações da cidade para estes trabalhadores?
Investigar o dia a dia do trabalhador de limpeza urbana, e descrever a rotina de
trabalho do gari, se faz necessário para entender seu olhar no mundo. O gari é o
trabalhador central da realidade urbana, da vida cotidiana e das diferentes interações dos
sujeitos na cidade. Inúmeras são as mediações do gari, ele participa da transformação da

1
Estudante do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal de Goiás. e-mail:
goulart1604@outlook.com/ alinegoulart2011@gmail.com.
2
Orientadora do trabalho. Professora Doutora do Programa de Pós Graduação em Comunicação da
Universidade Federal de Goiás na Faculdade de Comunicação e Informação, e-mail:
angelitalimaufg@gmail.com

104
realidade urbana, compartilha conhecimento na relação social, interpreta, ele mesmo, os
monumentos de Goiânia e sua história. Para fazer este trabalho, contamos com cinco
personagens; alguns ainda trabalham na profissão, outros estão aposentados. Por meio
de entrevistas, imersão na vida; na casa e no trabalho dessas pessoas, contamos a
história de Goiânia através desses olhares.
Na pesquisa bibliográfica, levantamos estudos sobre a história de Goiânia,
constituída por meio de palavras, concreto e memória. No livro de Márcia Metran de
Mello “Goiânia, cidade de pedras e das palavras”, a história de Goiânia é desenhada
pelo imaginário urbano. Partindo dessa premissa, o cotidiano do gari e suas próprias
apreensões da realidade, se convergem com as transformações da cidade.
A partir do seu cotidiano, o trabalhador vivencia relações sociais no espaço-
tempo, e cria situações que caracteriza seu modo de vida e trabalho, ou seja, aquilo que
o trabalhador faz é parte daquilo que ele é. Pela vivência, o sujeito aprende os hábitos e
valores das pessoas ao redor. Investigar o cotidiano do gari é um trabalho de campo, por
isso, a metodologia usada é a observação participante com entrevistas aprofundadas
com os personagens do livro. Para José de Souza Martins, a vida cotidiana tornou-se
uma nova esperança da sociedade. E a esperança de ver, e tornar-se testemunha da
realidade, conduz o gari na condição de sujeito transformador do mundo.
Portanto, essas histórias precisam ser narradas. Ademais, jornalismo e literatura
são uma confluência das maneiras de narrar, duas vertentes capazes de compartilhar
estruturas, como também desenvolver gêneros artísticos e literários. Para escrever um
livro-reportagem, foi preciso buscar referências em autores de jornalismo literário.
Os autores escolhidos foram Sergio Villas Boas com o livro “Perfis, como
escrevê-los” e Edvaldo Pereira Lima com o livro “O que é jornalismo literário” e o livro
“A jornada do herói” de oseph Campbell. Os perfis literários, cumprem um papel
importante de referenciação humana. Um perfil é capaz de gerar empatia quando
compreendemos a experiência do outro. Além disso, conhecer pontos de vista diferentes
nos ajuda a aprender sobre o mundo.
As trajetórias dos garis são narradas de forma a conhecer a empresa, e a
evolução de todas as estruturas que, todavia narram o dia a dia da cidade. É preciso
transmitir às próximas gerações a História dos trabalhadores da limpeza de Goiânia e,
bem como, motivar outros pesquisadores a estudar a classe dos coletores, varredores,
jardineiros, pedreiros e todos que trabalham para cidade, compartilhando suas

105
experiências, e o sentido do seu dia a dia e do trabalho. Essa narrativa do cotidiano do
gari, faz parte da memória da cidade, e da memória do próprio trabalhador, em uma
tentativa de compreender a sua realidade, e dar sentidos à sua vida.

Palavras-chave: jornalismo literário, jornada do herói, gari, Goiânia.

REFERÊNCIAS

GUIMARÃES, G. T. D et al. Aspectos da teoria do cotidiano: Agnes Heller em


perspectiva I. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. 147 p. Disponível em:
http://www.pucrs.br/edipucrs/digitalizacao/diversos/85-7430-316-X.pdf
Acesso em 14/08/2018

LEFEBVRE, Henri. A revolução urbana. Tradução de Sérgio Martins. Belo


Horizonte: Ed UFMG, 1999.

LIMA, Edvaldo Pereira. O que é livro-reportagem. São Paulo: Brasiliense, 1998.

MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na


modernidade anômala. São Paulo: Hucitec, 2000.

MELLO, Márcia Metran. Goiânia: cidade de pedras e de palavras. Goiânia: UFG,


2006.

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. 10. ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento,
2005.

VILAS BOAS, Sérgio. Perfis: e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003.

Portal da Companhia de Urbanização de Goiânia (COMURG)


http://www.comurg.com.br/. Acesso em 14/08/2018.

106
GT Corpo, Gênero e
Subjetividades
Coordenação Suely Henrique de Aquino Gomes, Luciene Dias
e Deyvisson Costa
ABUSOS E SUPERAÇÕES: PERFIS DE MULHERES QUE SOFRERAM
COM RELACIONAMENTOS ABUSIVOS

Letícia Assis Michalczyk Rocha 1


Angelita Pereira de Lima 2

RESUMO

A construção de perfis jornalísticos de mulheres que sofreram com


relacionamentos abusivos é fruto de uma experimentação literária de pesquisa
jornalística inserida no contexto dos estudos de violência contra a mulher. O projeto
surgiu a partir da elaboração de uma reportagem sobre relacionamentos abusivos,
realizada como produção de uma disciplina do curso de Comunicação Social da
Faculdade de Informação e Comunicação, que alertou a insuficiência de estudos e
espaços de discussão sobre o tema, apontando para a necessidade da elaboração de
trabalhos mais extensos e profundos.
O objetivo do presente trabalho é aumentar o campo de discussão nos estudos de
gênero, oferecendo a compreensão da realidade das vítimas de relações abusivas e de
seus processos de superação da violência sofrida, ligando suas histórias à conjuntura
nacional. O trabalho, realizado com técnicas do Jornalismo Literário, expressa um olhar
diferenciado sobre as estatísticas já estabelecidas por trabalhar a comunicação e
conjunto com a literatura, o que aproxima a interpretação do leitor ao cenário da
realidade das vítimas por se inserir diretamente em suas histórias, desmistificando a
agressão em relacionamentos e auxiliando na compreensão da ocorrência cotidiana de
abusos em relações, incentivando a busca e a análise das raízes desse problema.
Além disso, a imersão nessas histórias expande a atmosfera de discussão e
compreensão da problemática, o que enriquece a literatura a respeito do tema. Apesar
dos estudos de violência e gênero compreenderem que o abuso acontece nas mais
variadas formas de relações, a pesquisa abordou mulheres pertencentes a grupos
específicos, com relatos de relacionamentos amorosos heterossexuais, para analisar as
raízes patriarcais como suporte de comportamentos agressivos dos homens contra suas

1
Graduanda em Comunicação Social – Bacharelado em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás.
E-mail: leticiamichalczyk@gmail.com
2
Profª. Drª. na Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás
angelitalimaufg@gmail.com

108
companheiras. As fontes foram selecionadas com critérios que atendessem à diversidade
e interseccionalidade seguindo o pressuposto de que o abuso ocorre em todas as
camadas sociais. Todas as mulheres entrevistadas saíram da relação violenta há, no
mínimo, seis meses e passaram por um processo de superação da situação, por isso, se
sentem à vontade para publicizar suas histórias.
O trabalho foi realizado em três etapas principais: com o estudo do contexto
social e teórico do tema e da forma de abordagem escolhida, com a aplicação de
questionários fechados para a coleta de dados principais a respeito das vítimas que se
dispuseram a participar da pesquisa e com as entrevistas de profundidade, realizadas em
forma de conversa e guiadas a partir de um roteiro, para a elaboração dos perfis. Os
perfis literários abordam a violência sofrida e a experiência das mulheres em seus
processos de ruptura e superação.
Para a escolha do método de abordagem, foi realizado um estudo do referencial
teórico jornalístico que compreende a ideia de que o jornalismo se insere nos contextos
de violência de gênero como um espectro comunicacional da sociedade, o que expressa
necessidade de estudo e discussão acerca do papel desempenhado pelos jornalistas ao
trabalharem com um tema tão delicado, porém, tão corriqueiro. Por isso, os estudos da
conexão entre jornalismo e literatura abriram caminho para uma conexão que possibilita
novas formas de escrita e novos olhares, apresentando alternativas para o jornalista que
procura diferentes formas de desempenho da profissão.
O trabalho está baseado no referencial teórico do jornalismo narrativo e literário
e, com auxílio das abordagens em estudos de gênero que contextualizam a violência
contra a mulher, os estudos para a elaboração do livro reportagem foram conduzidos de
forma a compreender os contextos históricos da violência e seu percurso alinhado ao
gênero e à estruturação da sociedade patriarcal. Coma pesquisa, foi possível
compreender que algumas mulheres, em situações sociais privilegiadas, como a de
classe e raça, têm maior abertura para falar sobre o tema em suas vidas.
Entretanto, todas as entrevistadas, independente do grupo social no qual se
inserem, acreditam na publicização dos relatos de relacionamentos abusivos como
forma de combate ao problema e querem auxiliar no crescimento do espaço de debate
sobre o tema. O livro-reportagem de perfis de mulheres que sofreram com
relacionamentos abusivos abrange as técnicas jornalísticas estudadas e oferece novos
olhares sobre a discussão acerca do tema, o que enriquece a bibliografia desta luta

109
enquanto mecanismo de conhecimento, aprofundamento do tema e, possivelmente,
fonte para debates. Ainda, auxiliando na valorização da realidade apresentada nos
relatos e compreensão da condição feminina no Brasil e, especificamente, a condição
das mulheres brasileiras em relacionamentos amorosos.

Palavras-chave: Relacionamentos. Abuso. Violência. Gênero. Patriarcado.

REFERÊNCIAS

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

BRASIL. Secretaria de Políticas Para as Mulheres da Presidência da República. Política


Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher. Brasília, DF, 2011.

GALVÃO, Agência de Notícias Patrícia. Violência Doméstica e Familiar. Instituto


Patrícia Galvão. Disponível em:
<agenciapatriciagalvao.org.br/dossies/violencia/violencias/violencia-domestica-e-
familiar-contra-as-mulheres/>. Acesso em: 26 abr. 2018.

LIMA, Angelita Pereira. A notícia de violência contra a mulher e a violência da


notícia. FUNAPE. Goiânia, GO. 2001.

MICHALCZYK, Letícia. Abusos Silenciosos. Lilithiando, 2016. Disponível em:


<lilithiando.wordpress.com/2016/04/08/abusos-silenciosos/>. Acesso em: 26 abr. 2018.

NICOLATO, Roberto. Jornalismo e Literatura: aproximações e fronteiras. Intercom,


2006. Disponível em:
<portcom.intercom.org.br/pdfs/9436889836084530327712814615574213993.pdf>.
Acesso em: 26 abr. 2018.

OLIVEIRA, Priscila Natividade Dias Santos. Jornalismo Literário: como o livro-


reportagem transforma um fato em história. Intercom, 2006. Disponível em:
<intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R0717-1.pdf>. Acesso em: 26 abr.
2018.

SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, Patriarcado e Violência. São Paulo: Expressão Popular:


Fundação Perseu Abramo, 2015.

110
ESCREVENDO UTOPIAS MENORES

Mayllon Lyggon de Sousa Oliveira1


Suely Henrique de Aquino Gomes2
Deyvisson Pereira da Costa3

RESUMO

Concebe-se a sexualidade como um dispositivo construído social e


culturalmente cujo objetivo principal seria a instauração de uma ordem específica
(FOUCAULT, 1998), ou seja, um conglomerado de discursos construídos por meio da
biologia, ciências sociais, igreja e várias outras instituições e/ou construções de
poder/saber cujo objetivo é criar em torno dos sujeitos formas de controle por meio da
sexualidade. E, considerando o queer como um movimento e uma forma de pensar a
vida que vê que as identidades não são mais processos satisfatórios para a determinação
das características e das formas de expressão da sexualidade (LOURO, 1999), o
trabalho pretende entender as formas subjetivas e subjetivantes por meio das quais os
sujeitos queers transformam seu corpo, através do cuidado de si e para a construção
estética de sua existência inaugurando outros lugares, espaços outros, uma sobreposição
e sobredeterminação dos espaços presentes para além daqueles espaços determinados
pelas relações de saber-poder instituídas através das instituições e dispositivos.
Compreende-se esses espaços emergentes como heterotopias, ou seja, utopias
plenamente realizadas (FOUCAULT, 2013). Nesse processo, o trabalho entende o corpo
queer como uma sobreposição das características e das convenções de gênero, mas que
nem por isso é generificado, mas antes, um corpo vibrátil e inserido, tal como o texto,
em uma construção cultural e cuja “arquitetura é política” (PRECIADO, 2014).
Nesses lugares utópicos instituídos e invocados pelos dispositivos para os
corpos, alguns sujeitos, através de uma escrita de si, menor, instauram distopias que
embaralham os discursos, bagunçam as formas de saber, mudam as normas e, mais que
isso, determinam uma nova perspectiva, não mais utópica ou distópica, mas
heterotópica de ser. Através desse relatar a si mesmo (BUTLER, 2015) esses sujeitos de

1
Mestre em Comunicação. Professor substituto no curso de Relações Públicas da Faculdade de
Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. E-mail: mayllon.lyggon@gmail.com
2
Doutora em Ciências da Informação. Professora Titular da Universidade Federal de Goiás. E-mail:
suelyhenriquegomes@gmail.com
3
Doutor em Comunicação. Professor na Universidade Federal de Mato. E-mail:
deyvissoncosta@yahoo.com.br
111
vidas precárias (BUTLER, 2011) estabelecem uma crítica da violência ética. E é aí,
somente aí, que eles são capazes de reverter a ordem das coisas estabelecendo novas
formas de não conformação do seu corpo, ante a invocação performativa de uma
heterossexualidade compulsória do meio em que estão imersos (BUTLER, 2003). Esses
corpos subjetivantes e subjetivados questionam o dispositivo da sexualidade e toda a
sua heteronormatividade. Afinal, é contra as formas de saber, os tipos de normatividade
e as subjetivações que esses corpos-sujeitos colocam em suspeição. Em outas palavras,
é contra a tríplice saber-poder-sujeito – relações que estruturam o dispositivo da
sexualidade – que define o dispositivo da sexualidade que esses sujeitos se colocam.
Dessa feita, é preciso estar atento à composição do dispositivo, ao que eles –
como sujeitos – singularizam, fazendo-o ao instaurar um novo espaço, diferente daquele
previsto para eles no contexto do dispositivo da sexualidade, inaugurando assim as
heterotopias. Nesse processo, que esses sujeitos conseguem estabelecer suas formas de
resistência perante o poder que busca docilizar seus corpos.

Palavras-chave: Corpo. Lugar. Queer. Subjetividade.

REFERÊNCIAS

BUTLER, J. Vida precária. Contemporânea, São Paulo, n. 1 p. 13-33 Jan/Jun. 2011

______. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro:


Editora Civilização Brasileira, 2003

______. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro:


Civilização Brasileira, 2015

DELEUZE, G., GUATTARI, F. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Lisboa:


Assírio e Alvim, 2004

______. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia, v.1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2010

______. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia, v. 3. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996

DERRIDA, J. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973

FOUCAULT, M. A Hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2010

______. A história da sexualidade 1: A vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra,


2015

112
______. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1999

______. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979

______. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008b

______. O corpo utópico: As heterotopias. São Paulo: N-1 Edições, 2013

______. Outros espaços. In:______. Ditos e Escritos III. Estética: Literatura e Pintura,
Música e Cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001

______. Verdade e subjectividade. Revista de Comunicação e linguagem. nº 19.


Lisboa: Edições Cosmos, 1993. p. 203-223. Disponível em:
http://escolanomade.org/wp-content/downloads/foucault_verdade_subjetividade.pdf.
Acesso em: 20 de novembro 2016

______. Vigiar e punir. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2008a

LOURO, G. L.O “estranhamento” queer. In: Anais do Seminário do Fazendo Gênero


VII. Florianópolis, 2006. Disponível em:
http://www.labrys.net.br/labrys11/libre/guacira.htm. Acesso: 29 de março de 17

______. Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação. Rev. Estud. Fem.
2001, v. 9, n. 2, p. 541-553. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2001000200012&script=sci_abstract
&tlng=pt. Acesso em: 30 de junho de 2017.

______. Um corpo estanho. Ensaios sobre a sexualidade e a teoria queer. Belo


Horizonte: Autêntica, 2004

PRECIADO, B. Manifesto contrassexual. São Paulo: n-1 Edições, 2014

______. Multidões queer: notas para uma política dos “anormais”. Estudos Feministas,
v. 19, n. 1, Florianópolis, jan./abr. 2011. p. 11-20. Disponível em:
https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2011000100002/18390
Acesso em 30 de julho de 2017

PRINS, B; MEIJER, I. C. Como os corpos se tornam matéria: entrevista com Judith


Butler. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 155-167, Jan. 2002. Disponível
em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X20020001000
09&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 30 Nov. 2017.

ROLNIK, S. Uma Insólita Viagem à Subjetividade. Fronteiras com a Ética e a Cultura.


In: LINS, D. (Org.). Cultura e Subjetividade: saberes nômades. Campinas: Papirus,
1997

SANTOS, A. R. S. Heterotopias Menores: delirando a vida como obra de arte. 2011.


148p. Tese de Doutorado. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
2011. Disponível em: http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UERJ_140f007d5704524bc000
611ac0173136. Acesso em: 25 de outubro de 2016.
113
DESTITUIR A NÓS MESMOS: A SUBJETIVIDADE DO SER EM REVOLTA

Augusto Flamaryon Cecchin Bozz Bozz1


Deyvisson Pereira da Costa2
Flávia Luiz Giordano3
Lucas de Freitas Santos4
Marcelo Almeida Duarte5

RESUMO

A sociologia coloca a seguinte questão a cerca das insurgências: o que nos


mobiliza? Esta questão a ocupa desde a sua gênese científica: as massas do séc. XIX, os
proletários de 1929, as lutas por direitos civis de 1970 (GOHN, 2012). Problema
moderno, portanto. E está intimamente ligado às questões secundárias que tratam da
identidade: quem fala, de que lugar se fala e do que se fala. Entretanto, propomos uma
outra questão, um tanto na contramão das pesquisas sociológicas, para ensaiar uma
hipótese modesta. Ao invés de interrogar o que nos mobiliza, gostaríamos de
problematizar o que na insurgência fala através de nós; o que, em seu transir
revolucionário, nos destitui de nós mesmos para fazer, no jogo ininterrupto do devir,
nascer do próprio parto (GUATTARI, ROLNIK 1996).
Colocado deste modo a questão, o objetivo deste trabalho consiste em refletir
sobre os modos de ser sujeito nas insurgências minoritárias que deslocam as
“identidades coletivas” para além-de-nós6. Ao lado das lutas tradicionais contra a
dominação e das lutas contra a exploração de uma classe sobre a outra, é a luta contra
certas formas de assujeitamento (de ser sujeito a) que prevalece agora (LAZZARATO,

1
Professor substituto no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus
Universitário do Araguaia e membro do grupo de pesquisa Limiar – Estudos de Linguagem e Mídia.
2
Professor adjunto no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus
Universitário do Araguaia e membro do grupo de pesquisa Limiar – Estudos de Linguagem e Mídia.
3
Aluna do terceiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus
Universitário do Araguaia e membro do grupo de pesquisa Limiar – Estudos de Linguagem e Mídia.
4
Aluno do terceiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus
Universitário do Araguaia e membro do grupo de pesquisa Limiar – Estudos de Linguagem e Mídia.
5
Aluno do terceiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus
Universitário do Araguaia e membro do grupo de pesquisa Limiar – Estudos de Linguagem e Mídia.
6
Na língua portuguesa, a locução adverbial “além de” possui três sentidos: 1) indicação de algo, 2) coisa
mais adiante e 3) algo fora de um campo restrito. Entretanto, ao empregarmos a loc. adv. com hífen,
sugerimos a ideia de travessia, passagem e ultrapassagem que estão presentes na definição 2 e 3 acima
citadas. Deste modo, o além-de-nós pode ser entendido como “trans-nós”, um movimento de travessia
que nos leva para além de nós mesmos, numa direção incerta, indeterminada e fora do campo restrito da
identidade. Mas também pode ser entendido como o próprio devir das coletividades, uma força pulsante
que liga as pessoas entre si destituindo-as, as transindo e interpelando-as.
114
2014). Dito isto, a reflexão não recai sobre o sujeito em si ou sobre a trivialidade de sua
identidade, enquanto pivô dos movimentos sociais. Ao contrário, tem como espaço de
reflexão 1) as forças do presente que pressionam as formas de ser sujeito à axiomática
capitalística e, a contrapelo, 2) as resistências que afrouxam a bofetadas o torniquete e
escavam buracos nas relações de poder (PELBART, 2016). Diagnóstico do presente (ou
Genealogia de nós mesmos), eis o nosso procedimento metodológico. Simples, mas
tarefa árdua. Pois requer pensar a própria ideia de tempo. Presente é menos estar diante
do que ocorre do que o liame que nos atravessa e nos amarra ao mundo.
O presente é o encavalar do que éramos com o que podemos ser, o limiar, a
fulguração do acontecimento puro (DELEUZE, 1996). Cabe à genealogia desatar o
liame, percorrer o novelo e as tramas para mapear as problematizações que dão ao
presente uma consistência intersticial (FOUCAULT, 2005). Mas cabe também à
genealogia questionar as clausuras forjadas nos abalos da história – forjadas não sem
pressão, nem sem ao menos uma dose de violência – que constituem a nossa visível e
secreta “verdade” presente: Ser, Essência, Humano, Ideia, Comunicação, Eu (ROSE,
2011). Para o olhar genealógico, não há essência que não seja uma fabricação violenta
e, do mesmo modo, não há subjetividade que não seja esculpida à marteladas pelos
acontecimentos e pelos procedimentos minúsculos de Si.
Nos artigos sobre a revolução iraniana da década de 70 e em sua interpretação
sobre as análises de Kant a respeito da Revolução Francesa, Foucault (2010a, 2010b)
afirma que as insurreições pertencem à história, mas ao mesmo tempo lhe escapa
infinitamente. Pertencem à história na medida em que encontram no presente – aqui e
agora, não mais! – o interstício entre o que éramos e o que podemos ser; mas lhe escapa
porque é sempre intempestiva e extemporânea. As insurreições não são da ordem do
indivíduo e sua consciência de classe, mas daquilo que o transe, o atravessa e o faz
palpitar subitamente em todos os cantos.
Os momentos de insurreições ou de revoluções são precisamente aqueles que
deixam entrever o lampejo de um campo de possíveis, que criam novas existências,
produzem uma nova subjetividade. Quando nos revoltamos, o que fala através de nossos
gritos não é palavras de ordem, a identidade ou os direitos fundamentais, mas o
inominável do presente, o intolerável das formas de assujeitamento, o esgotamento de
tudo aquilo que nos liga ao mundo, que nos prende a ele e aos outros. Essas vozes nos
empurram infinitamente para adiante, pois nos abala e nos choca ao manter o seu dedo

115
imperiosamente fixo na direção do desconhecido, do “além-de”. E quando o
desconhecido nos interpela, quando a palavra toma emprestada seu escândalo, força
aquele que a escuta a se arrancar de seu presente para dele devir, tornar-se outro. O
sujeito esgotado das revoluções é aquele que, na intolerância de seu assujeitamento, se
esgota ele mesmo e seu mundo. A subjetividade do ser em revolta destitui a si mesma
para, desse aniquilamento, do vazio que surge, intensificar a potência de novos modos
de ser e estar. Por esta razão, as insurgências caminham, em sua embriaguez, loucura e
êxtase, para além-de-nós, despossuindo e desestabilizando liames do presente. As
revoltas encrustam o eterno retorno do diferente: o devir! Como Deleuze (1992) nos
alerta, não se trata de perguntarmos às insurgências qual dos regimes de vida é mais
duro ou mais tolerável, mas como neles se enfrentam liberações e sujeições outras.

Palavras-chave: Insurgências. Subjetividade. Acontecimento. Transir. Além-de-Nós.

REFERÊNCIAS

DELEUZE, G. O que é um dispositivo? In: Deleuze, G. O mistério de Ariana. Lisboa:


Editora Vega – Passagens, 1996. p. 115-161.

______. Post-Scriptum sobre a sociedade de controle. In: DELEUZE, G. Conversações.


São Paulo: Editora 34, 1992.

GUATTARI, F; ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: 1996.

GOHN, M. Teorias dos Movimentos Sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos.


São Paulo: edições Loyola, 2012.

FOUCAULT, M. Então, é inútil revoltar-se? In: FOUCAULT, M. Ditos e Escritos V:


Ética, Sexualidade e Política. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010a.

______. O Governo de si e dos outros. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010b.

______. Nietzsche, a Genealogia e a História. In: FOUCAULT, M. Ditos e Escritos II:


arqueologia da ciência e história dos sistemas de pensamentos. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2005.

LAZZARATO, M. O governo do homem endividado. São Paulo: N-1, 2014.

PEALBART, P. O Avesso do niilismo: cartografias do esgotamento. São Paulo: N-1,


2016.

ROSE, N. Inventando nossos Selfs: psicologia, poder e subjetividade. Rio de Janeiro:


Vozes, 2011.

116
MÃOS NA MASSA: REDE E DIÁLOGOS NA COZINHA DA FOLIA

Denise Rodrigues Soares1


Luciene de Oliveira Dias 2

RESUMO

Este trabalho apresenta uma análise sobre a formação de uma rede de


sociabilidade entre mulheres que ocupam a cozinha no contexto da preparação para a
Alvorada da olia do Divino Espírito Santo em São oão D’ Aliança, cidade interiorana
situada na microrregião da Chapada dos Veadeiros em Goiás. A existência dessa
sociação, que circula nesse espaço gendrado, partiu de uma pesquisa exploratória que
evidenciou o esforço laboral e de devoção de Inês Carlos Zacarias (74 anos), Nalzira
Carlos Soares (69), Avelina Parode (60), Maria Bonifácia Rodrigues Soares (55), Lenir
Dias (53) e Kamilla Teles Soares (18).
Assim, a presente pesquisa busca entender os processos comunicativos que
sustentam essa rede de sociabilidade a partir da interpretação das construções sociais
desses corpos femininos e suas relações dialógicas na esfera privada do festejo. Para
alcançar esse objetivo, realizamos no mês de maio de 2018 uma observação-participante
natural. Esse método, como definem Marconi e Lakatos (2003), contempla pesquisas
onde quem observa possui relações de pertencimento com o grupo investigado e, em
razão da trajetória de uma das pesquisadoras, este foi escolhido. O diário de campo,
onde se transcrevem as interpretações do vivido e sentido (BRANDÃO, 2007),
complementou o método de coleta de dados. Em campo, acompanhamos Inês Carlos
Zacarias, Nalzira Carlos Soares, Avelina Parode, Maria Bonifácia Rodrigues Soares,
Lenir Dias e Kamilla Teles Soares, mulheres que constituíram uma sociação, em razão
da organização para a Alvorada da Folia do Divino Espírito Santo, uma manifestação
cultural do catolicismo popular.
Percebemos nessa relação, elementos comunicacionais que alcançam a
compreensão dos processos que circundam a composição das redes de sociabilidade em

1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, na linha de Mídia e Cultura, da Faculdade
de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás. E-mail: denisesoaresdrs@gmail.com.
2
Doutora em Antropologia. Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM),
linha de Mídia e Cultura, na Faculdade de Informação e Comunicação, e do Programa de Pós-Graduação
Interdisciplinar em Performances Culturais, da Universidade Federal de Goiás. E-mail:
lucienediasufg@gmail.com.
117
níveis horizontal e local. Sociabilidade, por sua vez, é um conceito sociológico de
origem simmeliana que evidencia os impulsos e propósitos como meios de promover a
união de pessoas e promover inter-relações convergentes com o pensamento em rede.
No entanto, é necessário explicar as redes a partir do uso social e não apenas dos usos
do meio técnico-científico-informacional. Com isso, recuperamos os trabalhos de
Manuel Castells (2005) que embora estude as redes e a sociedade na denominada Era da
Informação, reconhece a existência de redes que mediam informações de maneira
paralela ao contexto virtual e que, inclusive, antecedem esse movimento mais recente.
Quando o autor, ao falar de mediações, afirma que as pessoas integram a
tecnologia em suas vidas (CASTELLS, 2005), realça o movimento de incorporação, o
que não significa, portanto, que as mediações que conectam sujeitos em redes dependem
da tecnologia. Dessa maneira, reconhecer o processo comunicacional dessas redes de
sociabilidade demanda conceber a comunicação como um fenômeno que envolve
dialogicidade.
As contribuições de Paulo Freire (1983) corroboram para a defesa do aspecto
processual e dialógico da comunicação, do qual Dias (2014) se baseia para explicar o
diálogo enquanto condição da existência humana e, por isso, dependente da troca com o
outro. O diálogo, que se encontra também na sociabilidade de Simmel (1983) pela
lógica de conversação, que perpassa a forma, mas que também é extensão, aponta a
autonomia da conversa como um dos nós que tece as redes de sociabilidade. Para
assegurar a congruência da discussão, ressaltamos que a extensão neste texto é
compreendida como meio ou res externa, e não como a transmissibilidade linear que
rompe com a dialogicidade.
Na mesma direção de res externa estão os estudos de Greiner e Katz (2001) que
interpretam os corpos dos sujeitos como participantes dos processos comunicacionais
em razão dos contínuos agenciamentos de produção, armazenamento, transformação e
divulgação de informações. Simmel (1983) também atribui a participação dos sujeitos,
bem como seu envolvimento direto de troca e convivência social, como fator crucial não
só para a composição da sociabilidade, como também da interação, o que podemos
reconhecer como processos comunicacionais. A partir da leitura de Louros (2000), foi
possível identificar na pesquisa de campo, o modo como as estruturas culturais
constroem as relações de gênero que marcam os corpos dessas mulheres definindo sua
presença – e ausência – no rito religioso.

118
Como consequência, percebemos que o fluxo de ação dessas mulheres se
concentra na cozinha, ou seja, no espaço privado da esfera doméstica (SOFFIATI,
1992). Embora a produção dos biscoitos para os foliões e a ornamentação da casa sejam
partes importantes dos rituais da Folia, a maneira de existir desses corpos reproduzem
processos sociais que as colocam como coadjuvantes na organização. Ainda assim,
nesse lugar, essas mulheres desenvolveram autonomia e também articularam uma rede
de sociabilidade que aporta não apenas a perspectiva de sociaçãosimmeliana como,
principalmente, a dialogicidade.
Desse modo, o principal corpo teórico dessa pesquisa, composto por Dias
(2014), Freire (1983), Geertz (2008) e Simmel (1983), orientam a interpretação dos
dados coletados em campo. Para além da apreensão da dimensão cultural e religiosa nos
processos comunicacionais da rede de sociabilidade das mulheres envolvidas na
organização da Alvorada da Folia do Divino Espírito Santo, notamos o diálogo como
um modo de intercâmbio ritual (DIAS, 2014) que compreende o conceito simmeliano.
Como dito, para Simmel (1983), o diálogo envolve duas partes e é uma manifestação
genuína de reciprocidade. Isso significa dizer que formar uma rede de troca pressupõe a
construção de uma relação comunicacional dialógica e, portanto, orgânica e cíclica.
A autonomia para imprimir discursos e compor mediações revela as
consequências do diálogo enquanto proximidade, pois, nos casos em que se observa o
distanciamento da prática dialógica, ocorre uma ruptura no processo de ação para
liberdade, como denuncia Dias (2014). Nesse sentido, não existem razões para não
reconhecer a cultura como produto e produtora dessas redes de sociabilidade, inclusive
porque a experiência dessas vivências culturais não produz apenas sensações, mas,
como afirma Geertz (2008), produz também significados. Nesse contexto, a sociação,
por sua vez, estabelece uma relação dialógica entre sujeitos que utilizam seus corpos
para compor o processo comunicacional. Logo, foi possível interpretar a intenção da
comunicação dialógica construída entre a rede de sociabilidade analisada e perceber a
reprodução de padrões do catolicismo popular.

Palavras-chave: Comunicação. Diálogo. Redes de Sociabilidade. Corpo. Cultura.

119
REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo.


Sociedade e Cultura, 2007, v. 10, n. 1, p. 11-27.

DIAS, Luciene Oliveira de. Desatando nós e construindo laços: dialogicidade,


comunicação e educação. In: SOUZA, Rose Maria Vidal de; MARQUES DE MELO,
José; MORAIS, Osvando J. de. (Org.) Teorias da Comunicação: correntes de
pensamento e metodologia de ensino. Foz de Iguaçu: Intercom, 2014. p. 328- 350.
(Coleção GP’s: grupos de pesquisa, v. 14).

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em rede: do conhecimento à política. In:


CASTELLS, Manuel; CARDOSO, Gustavo (Org.). A Sociedade em rede: do
conhecimento à acção política. São Paulo: Imprensa Nacional, 2005.

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Tradução: Rosisca Darcy de Oliveira. 8.


ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

GREINER, Christine; KATZ, Helena. Corpo e processos de comunicação. Revista


Fronteiras: estudos midiáticos, Porto Alegre, v. 3, n. 2, p. 65-74, 2001.

LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes.


(Org.) O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica,
2000. p. 7-35. Disponível em:
<https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/1230/Guacira-Lopes-Louro-O-
Corpo-Educado-pdf-rev.pdf?sequence=1>. Acesso em 23 de agosto de 2018.

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos da


metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003.

SAFFIOTI, Heleieth I. B. Rearticulando gênero e classe social. In: COSTA, Albertina


de Oliveira; BRUSCHINI, Cristina. (Org.) Uma questão de gênero. Rio de Janeiro:
Rosa dos Tempos, 1992.

SIMMEL, Georg. Sociabilidade: um exemplo de sociologia pura ou formal. In:


MORAES FILHO, Evaristo de (Org.). Georg Simmel: sociologia. São Paulo: Ática,
1983. p. 165-181.

120
A INVISIBILIDADE DAS MULHERES NA CIÊNCIA: ANÁLISE DA
PRODUÇÃO CIENTÍFICA DE DOCENTE DOS CURSOS DE MESTRADO EM
LETRAS E LINGUÍSTICA E EM MATEMÁTICA DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DE GOIÁS – CAMPUS SAMAMBAIA

Hevellin Estrela1
Suely Henrique de Aquino Gomes2

RESUMO

Este trabalho tem como tema gênero e ciência. O objetivo é verificar diferenças
nas atividades científicas de docentes dos programas de pós-graduação (Mestrado) em
Letras e Linguística, Matemática da Universidade Federal de Goiás – Campus
Samambaia, sob a perspectiva de gêneros. Adota-se abordagem quantitativa para
proceder à análise comparativa das atividades acadêmicas e científicas desses docentes
a partir de seus currículos Lattes. Utilizou-se o teste estatístico distribuição de
frequência para verificar possíveis diferenças, estatisticamente significantes, na
produção científica da população estudada.
A variável observada nesse trabalho é a qualitativa nominal, quando não existe
ordenação dentre as categorias e a variável sexo é a que norteia a presente pesquisa. O
referencial teórico desse trabalho baseia-se em autoras como Betoni (2017); Beauvoir
(2016); Praun (2011); Pierucci (2007); Silva (2012); Silva (2008); e Ramos, Neves,
Corazza (2001) que tratam do feminismo e das lutas das mulheres por igualdade e
direitos. Procurou-se discutir também a constituição da ciência moderna; a
comunicação científica nos preceitos trazidos, principalmente, por Meadows (1999),
Mueller (1995), Targino (1998) e a participação da mulher na ciência.
A identificação do sexo do docente e suas produções científicas deu-se
inicialmente pelo site do programa de Letras e Linguística (http://pos.letras.ufg.br/) e
pelo site do programa em Matemática (http://posgraduacao.mat.ufg.br/). O corpo
docente do curso de Letras e Linguística é composto por 24 de mulheres (62%) e 15
homens (38%). Já quando analisamos os professores e as professoras da matemática
temos 27 homens (84%) e 5 mulheres (16%) com um total de 32 professores. Na análise
do curso de Matemática o número de professoras é cinco vezes menor que o número de

1
Bacharel em Biblioteconomia, servidora do IF Goiano, mestranda do PPGCOM/FIC/UFG, e-mail:
hevellinestrela@gmail.com
2
Doutora em Ciência da Informação, professora titular do PPGCOM/FIC/UFG, e-mail:
suelyhenriquegomes@gmail.com
121
professores, o que contribui para a ideia do senso comum que as áreas exatas não são
para mulheres. Além do quantitativo de professores, foram verificadas também as
publicações (artigo, trabalho em evento, capítulo de livro, livro, participação em bancas)
desses professores nos anos de 2017 e 2018/1. Para a análise dos dados, foi considerado
somente o Lattes atualizado no período de dezembro de 2017 a junho de 2018.
Os dados foram coletados no mês de julho do presente ano. Constatou-se que o
total de produção analisada nesse período do curso de matemática é de 380 publicações.
Desse total, 16,05%, ou seja, 61 publicações são assinadas pelas 5 professoras
integrantes do programa. Em média, as professoras da matemática têm 12,2 publicações
para os anos analisados e o desvio padrão se refere a 12,56. Enquanto a média dos
homens no mesmo período é de 11,81 publicações e o desvio padrão consta de 9,79. A
média da produção científica das professoras do Curso de Letras e Linguística no
período analisado (1155 publicações/24 professoras) é de 48,1 publicações, enquanto a
dos homens fica em torno de 46,5 publicações para o mesmo período (608
publicações/15 professores).
Somando-se as produções científicas dos dois cursos analisados no período
analisado tem-se 2.233 publicações. Desse total, as mulheres - independente do
programa a que está vinculada - são autoras de 1.216 publicações (54,46%), o que dá a
média de 41,9 publicações para o sexo feminino. Os homens dos dois programas são
responsáveis por 1.017 publicações (45,54%), resultando na média de 24,2 publicações.
Observa-se que no geral, as médias de produção dos homens são inferiores àquelas das
mulheres.
Um dado interessante que vale ser destacado é que as mulheres participaram de
452 (432 de Letras e Linguística e 20 de matemática) bancas de orientações, enquanto
os homens dos programas participaram de 394 (246 de Letras e Linguística e 148 de
matemática). A escolha do destaque para as participações em banca se dá devido ao que
Olinto (2011) defende, pois ela diz que a distribuição desproporcional entre os fazeres
docentes pode ser uma das possíveis explicações para as dificuldades enfrentadas pelas
mulheres. A autora ainda reforça a ideia de que são vários os indícios e diversos
mecanismos que se estabelecem no ambiente científico que acabam gerando barreiras
para as mulheres progridam profissionalmente.
Por fim, acredita-se que este trabalho cumpriu o seu objetivo inicial de fazer o
levantamento quantitativo de professoras e professores de dois programas da

122
Universidade Federal de Goiás, no intuito de buscar conhecer um pouco do gênero na
ciência e as suas produções científicas. Escolheu-se dois cursos bem distintos,
historicamente com predominância de gênero, homens no curso de matemática e
mulheres no curso de letras, para verificar se o senso comum continua valendo mas só
em relação a quantidade de gênero, uma vez que os dados mostraram que, nos casos
estudados, em termos de publicações (artigo, trabalho em evento, capítulo de livro,
livro, participação em bancas) as mulheres publicaram mais que os homens.

Palavras-chave: Estudo de gênero. Mulheres cientistas. Produção científica. Atuação


feminina. Igualdade de gênero.

REFERÊNCIAS

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira,
2016. v. 2.

BETONI, Camila. Feminismo. 2017. Disponível em:


<https://www.infoescola.com/sociologia/feminismo/>. Acesso em: 14 jul. 2018.

BRASIL. Decreto n. 8.727, de 28 de abril de 2016. Dispõe sobre o uso do nome social e
o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais... Diário
[da] União Federativa do Brasil. Brasília, 2016. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Decreto/D8727.htm>.
Acesso em: 26 jul. 2016.

BRABO, Tania Suely Antonelli Marcelino (Org.). Gênero e educação: lutas do


passado, conquistas do presente e perspectivas futuras. São Paulo: Ícone, 2007.

CRESWELL, J. W. W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto.


2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010.

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de


metodologia científica. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010. 297 p.

MEADOWS, A. J. A comunicação científica. Brasília: Briquet de Lemos, 1999.

MUELLER, S. P. M. O crescimento da ciência, o comportamento científico e a


comunicação científica: algumas reflexões. Revista da Escola de Biblioteconomia da
UFMG, Belo Horizonte, v. 24, n. 1, p. 63-84, jan./jun. 1995.

OLINTO, Gilda. A inclusão das mulheres nas carreiras de ciência e tecnologia no


Brasil. Inc. Soc., v. 5, n. 1, jul./dez. 2011. p. 68-77

PORTAL BRASIL. Mulheres são maioria em universidade e cursos de qualificação.


2016. Disponível em:

123
<http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2016/03/mulheres-sao-maioria-em-
universidades-e-cursos-de-qualificacao>. Acesso em: 22 jun. 2018.

PRAUN, Andrea Gonçalves. Sexualidade, gênero e suas relações de poder. Revista


Húmus, n. 1, jan./abr., 2011. Disponível em:
<www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/revistahumus/article/view/1641>.
Acesso em: 22 jun. 20118.

PIERUCCI, Antonio Flávio. Do feminismo igualitarista ao feminismo diferencialista e


depois. In: BRABO, Tania Suely Antonelli Marcelino (Org.). Gênero e educação: lutas
do passado, conquistas do presente e perspectivas futuras. São Paulo: Ícone, 2007. p.
30-44.

RAMOS, Fernanda Peres; NEVES, Marcos Cesar Danhoni; CORAZZA, Maria Júlia. A
ciência moderna e as concepções contemporâneas em discursos de professores-
pesquisadores: entre rupturas e a continuidade. Revista Electrónica de Enseñanza de
las Ciencias, v. 10, n. 1, 2011. p. 84-108. Disponível em:
<http://reec.uvigo.es/volumenes/volumen10/ART5_Vol10_N1.pdf>. Acesso em: 22 jun.
2018.

REIS, Ângela Cristina Parente de Resende. A influência do feminismo na escolha das


mulheres por carreiras tradicionalmente masculinas. 2013.

SILVA, Elisabete Rodrigues da. A (in)visibilidade das mulheres no campo científico.


Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.30, p.133-148, jun.2008. Disponível em:
<http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/edicoes/30/art09_30.pdf>. Acesso em: 14
jul. 2018.

SILVA, Elizabeth Bortolaia. Des-contruindo gênero em ciência e tecnologia. Cadernos


Pagu, n. 10, 1998. p. 7-20

SILVA, AntonioOzaí da. O papel das mulheres no mundoGrego-romano. Blog da


revista espaço acadêmico. 2012. Disponível em:
<https://espacoacademico.wordpress.com/2012/01/07/o-papel-das-mulheres-no-mundo-
greco-romano/>. Acesso em: 14 jul. 2018.

SILVA, Edna Lúcia da, MENEZES, EsteraMuszkat. Metodologia de pesquisa e


elaboração de dissertação. 4. ed. Florianópolis: UFSC, 2005. Disponível em:
<https://projetos.inf.ufsc.br/arquivos/Metodologia_de_pesquisa_e_elaboracao_de_teses
_e_dissertacoes_4ed.pdf>. Acesso em: 20 jul. 2018.

TARGINO, M. das G. Comunicação científica: o artigo de periódico nas atividades de


ensino e pesquisa do docente universitário brasileiro. 1998. 397 f. Tese (Doutorado em
Ciência da Informação) – Departamento da Ciência da Informação e Documentação,
Universidade de Brasília, Brasília.

WOOLF, Virgínia. A posição intelectual das mulheres. In: WOOLF, Virgínia.


Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Porto Alegre: L&PM, 2018. p.
33-50.

124
A PERMEAÇÃO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E DAS REPRESENTAÇÕES
SO IAIS NA NOVELA “SE UNDO SOL”

Jean Costa Sousa1


Magno Luiz Medeiros2

RESUMO

O artigo tem como objetivo promover a discussão sobre quais os tipos de


violência domésticas e familiar que as mulheres têm sofrido em suas relações afetivas
com seus companheiros/e ou parceiros e como a telenovela mostra essa relação. A
partir da perspectiva da cena de um capítulo da novela “Segundo Sol”.
Para tanto, a pesquisa se divide em conceitual e documental, nos quais teorias e
documento estiveram de forma entrelaçadas. Nesse contexto, buscamos tratar dos
fundamentos teóricos sobre as Teorias das Representações Sociais, dos Meios de
Comunicação, da Violência Doméstica e de Gênero.
A fim de contemplar aos estudos, apresentaremos uma pesquisa documental
realizada no Núcleo de Atendimento à Família e aos Autores de Violência Doméstica,
um programa que atende a população de Brasília/DF, promovido pelo Governo do
Distrito Federal. Também buscamos entre as especificidades e inovações trazidas pela
Lei de nº 11.340 de 07 de agosto de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, com
isso pretendemos provocar reflexão sobre a definição, as tipificações de violência
doméstica e familiar, e como os meios de comunicação – de forma específica a
telenovela - tem trabalhado com a temática.
Além, de possibilitar identificar a relação entre a violência doméstica e familiar,
violência de gênero e as Representações Sociais. Teremos como ponto de partida a cena
do capítulo 70 da novela “Segundo Sol” da Rede Globo, que traz a problemática a
relação de um casal que vivem juntos há mais de 20 anos. Entretanto, uma vida amorosa
bem conturbada de muitas revoltas e indignações da maneira que vivem. A cena mostra
a permeação da violência doméstica entre o casal, e qual as representações sociais da
mulher nesse contexto. No segundo momento, para confrontar com a cena fará parte da

1
Mestrando do Programa de Pós-graduação em Comunicação na Linha de Pesquisa em Mídia e
Cidadania, da Faculdade de Informação e Comunicação – FIC - na Universidade Federal de Goiás - UFG.
E-mail: jeancostadf@gmail.com
2
Orientador, Professor Doutor do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Faculdade de
Informação e Comunicação – FIC - na Universidade Federal de Goiás - UFG. E-mail:
magno.ufg@gmail.com
125
pesquisa uma das perguntas do “formulário de acolhimento” que é utilizado por
especialistas com os participantes que são atendidos no programa de atenção às
mulheres e aos autores de violência doméstica do qual é oferecido pelo Governo de
Brasília Distrito Federal.
Portanto, a pergunta é: “Identificação das formas de violência sofridas durante o
relacionamento (perspectiva do/a profissional): ( ) Física ( ) Psicológica ( )
Sexual ( ) Moral ( ) Patrimonial”.
Nesse sentido, possibilitou identificar a relação entre a violência doméstica e
família, violência de gênero e as representações sociais. De forma constante no campo
dos meios de comunicação tem sido pauta a temática sobre violência doméstica contra
as mulheres. A violência contra as mulheres configura-se como problema histórico que
afeta mulheres em diversos países, independentemente de sua raça, classe social ou
etnia. É uma problemática social, que se materializa nas relações afetivas e domésticas.
Conforme pesquisadores (MELO e TELES, 2003; SAFFIOTI, 2004) apontam,
as mulheres são vulneráveis nessas relações pelo simples fato de serem mulheres
(DINIZ, 1999; MEDEIROS, 2015). É no espaço doméstico onde a maior parte das
agressões ocorre e geralmente é praticada pelos próprios maridos e/ou companheiros.
Considerando a relevância dos meios de comunicação na luta pelo fim da violência
contra as mulheres, cresce em importância a compreensão de como os meios midiáticos
abordam questões ligadas à violência doméstica. Sabe-se que os meios de comunicação
promovem diversos eventos motivadores, com o objetivo de promover a discussão
sobre a violência doméstica e familiar, a cidadania, políticas públicas que beneficiem o
povo, a democracia, e promoção da paz.
Para tanto, propomos como metodologia de pesquisa a análise de conteúdo
como método de investigação por permitir quantificar e qualificar as características da
violência doméstica vivenciada pela personagem da novela “Segundo Sol” da cena
analisada e na pesquisa documental proposta. Entretanto, indica implicações na
pergunta do formulário de acolhimento e permite fazer inferências sobre a cena da
novela e seus possíveis apontamentos.
A confrontação da cena com o resultado da pesquisa documental do formulário
de acolhimento resultou, que as mulheres não sofrem apenas um tipo de violência
doméstica nas suas relações com seu parceiro/ e ou companheiro, pois a pesquisa aponta

126
que as mulheres geralmente carregam associada além de outro tipo de violência
doméstica e familiar a violência psicológica.

Palavras-chave: Representações Sociais. Violência Doméstica. Gênero. Meios de


Comunicação.

REFERÊNCIAS

ARENDT, H. Sobre a Violência. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

BANDEIRA, Lourdes Maria. Violência de gênero: a construção de um campo teórico


e de investigação. Sociedade estado, Brasília, v. 29, n. 2, ago. 2014. Disponível em:
<http://dx.doi.org/10.1590/S0102-69922014000200008>. Acesso em: 05 ago. 2018. p.
449-469

BRASIL. Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência
doméstica e familiar contra a mulher... Diário Oficial da República Federativa do Brasil.
Brasília, 8 ago. 2006. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-
2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 16 jul. 2018.

CHAUÍ, Marilena. Uma Ideologia Perversa. Folha de São Paulo. São Paulo.
Disponível em: Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_1_4.htm>. Acesso em: 05 ago. 2018.

DINIZ, Gláucia Ribeiro Starling. Condição Feminina: Fator de risco para saúde mental?
In: PAZ, Maria das Graças da; TAMAYO, Alvaro (Org.). Escola, saúde e trabalho:
Estudos psicológicos. Brasília: Editora UnB. 1999. p.181-197

FERREIRA, Marcus G. Paul Lazarsfeld (1901-1976). Clássicos da comunicação: os


teóricos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

JORDÃO, Janaína V. de P. Valor-aparência: aparências de classe e hierarquias do


cotidiano. 2015. 324f. Tese (Doutorado em Sociologia) - Faculdade de Ciências Sociais
(FCS), Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2015.

LOURO, Guacira L. Gênero, sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-


estruturalista. 16. ed. São Paulo: Vozes, 2014.

McCOMBS, Maxwell. A teoria da agenda: a mídia e a opinião pública. Tradução de


Jacques A. Wainberg. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

MEDEIROS, Magno. Mídia e poder: dinâmica conflituosa do sujeito-desenate. In:


TEMER, Ana Carolina (Org.). Mídia Cidadania e Poder. Goiânia:
FACOMB/FUNAPE, 2011.

MELO, Mônica de, Teles, Maria Amélia de Azevedo. O que é violência contra a
mulher. São Paulo: Brasiliense. 2003.
127
MORAES, Dênis; RAMONET, Ignácio; SERRANO, Pascual. Mídia, poder e
contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação. São Paulo:
Boitempo; Rio de Janeiro: FAPERJ, 2013.

MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social.


Traduzido do por Pedrinho A. Guareschi. 11. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

ORLANDI, Eni P. Análise de discurso. Campinas: Pontes, 2003.

SAFFIOTI, H. I. B. Violência estrutural e de gênero: Mulher gosta de apanhar? In:


Camargo, M. (Org.) Programa de Prevenção Assistência e combate à violência
contra a Mulher. Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. Brasília: Secretaria de
Políticas para as mulheres, 2003. p. 27-38

SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu


Abramo, 2004.

SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e realidade, v. 20


n. 2, jul./dez. 1995.

TUZZO, Simone A. Deslumbramento coletivo: opinião, mídia e universidade. São


Paulo: Annablume, 2005.

128
EM DEFESA DA DIFERENÇA: POR OUTRAS EPISTEMOLOGIAS
INDÍGENAS, QUILOMBOLAS E NEGRA NAS UNIVERSIDADES

Sckarleth Martins1
Marta Quintiliano2

RESUMO

Há lugares e modos de se produzir e fazer circular o conhecimento na nossa


sociedade. Neste ensaio exploratório problematizamos o estatuto das universidades
brasileiras na sua maneira eurocentrada de produzir conhecimento e o modo como a
inclusão de indígenas, quilombolas e negros, pessoas historicamente excluídas desse
‘lugar’ de constituição do ‘verdadeiro’ científico, provoca um reposicionamento ético e
estético da sociedade nacional como um todo. A partir da etnografia junto aos
estudantes indígenas e quilombolas da Universidade Federal de Goiás, na regional de
Goiânia, acreditamos que se conferirá visibilidade a um modo muito singular de viver o
ambiente acadêmico, que pode ser entendido como um indício de um mundo novo por
vir, resgatando narratividades, interpretações e ciências antes silenciadas.
Como meio de ‘compensar’ as violências históricas e epistêmicas sofridas por
populações tradicionais e negras no Brasil, as Instituições Federais de Ensino Superior
(IFES) aderiram, muito em resposta aos movimentos sociais, Ações Afirmativas no
contexto universitário em várias direções. Essas políticas afirmativas visam equiparar,
reparar e compensar discriminações sociais sofridas por certos grupos sociais e prevenir
que elas se reverberem. Dentre as frentes de ações, há a reserva de vagas por meio da
Lei de Cotas (LEI 12.711/2012), regulamentada pelo Decreto nº 7.824/2012, que
reserva vagas nas Instituições de Ensino Superior (IES) públicas brasileiras para
segmentos sociais historicamente excluídos, combinando a frequência na escola pública,
etnia e renda, que é um importante instrumento para a democratização do acesso à
universidade brasileira.

1
Graduada em Comunicação Social/jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso, mestra em
Comunicação Social pela Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás,
doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Faculdade de Ciências Sociais por
essa mesma universidade.
2
Quilombola do Quilombo Vó Rita, do município de Trindade-Goiás. Graduada em Comunicação
Social/Relações Públicas pela Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de
Goiás, mestranda em Antropologia Social pela Faculdade de Ciências Sociais por essa mesma
universidade.
129
Acreditamos, que em grande medida, a resposta institucional favorável à
inclusão de diferentes em um ambiente elitizado como as universidades públicas, como
pontuam José Jorge de Carvalho (2005) Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula
Meneses (2009) e Boaventura de Sousa Santos e João Arriscado Nunes (2003), resulta
tanto de uma luta histórica, um contexto favorável, como da necessidade de precaver-se
de um olhar malquisto do ocidente, leia-se Europa e Estados Unidos, da perda de
prestígio. Afinal, como levar a sério um país de herança escravocrata, que tem a maioria
da população negra em escolas públicas, mas não há a mesma proporcionalidade no
ensino superior público? Isto é, além da completa invisibilidade estratégica sobre a
educação escolar diferenciada para indígenas e quilombolas.
Dessa forma, durante muito tempo, as universidades públicas agiram diante da
lei, porém, se esquivando da responsabilidade moral de equiparação e promoção da
democratização do acesso ao ensino superior (CARVALHO, 2005). O direito à
educação escolar é assegurado constitucionalmente no seu Artigo nº 205, tornando-se
direito inalienável. Porém, medidas orientadas a um projeto de elite, tornam a educação
escolar uma ferramenta para a discriminação, apagamento das diferenças, e de
promoção de um modo civilizatório, como esclarece Gersem José dos Santos Luciano
(2011). Neste sentido, José de Sousa Martins (1997) esclarece que diante da
naturalização dos mecanismos de exclusão social, há uma oferta precária e mal
orientada para a inclusão, de fato. Assim, mascaram-se ações pretensamente
compensatórias e voltadas para a inclusão, mas que trazem consigo as marcas do
racismo institucional.
Esta pesquisa se justifica pela quantidade expressiva de estudante indígenas,
quilombolas e negros ingressantes na universidade através do Programa UFGInclui, que
cria uma vaga para indígenas e uma vaga para quilombolas em todos os cursos da
graduação (em dez anos de Programa, são cerca de 450 estudantes autodeclarados e
reconhecidos por suas comunidades de origem) e pela Lei de Cotas (50% do total das
vagas associando aspectos de raça, etnia, renda e escolaridade básica no ensino público,
como já dito), alterando a dinâmica estática branca dos cursos da graduação - ainda que
em alguns casos de forma mais ou menos incipiente, como nas áreas tidas como Hard
Science. As diferenças que esses sujeitos trazem em seus corpos, seus modos de ser e
conhecer o mundo exigem da comunidade acadêmica um posicionamento. Neste

130
contexto, há uma distonia, que acreditamos ser programática, entre a obrigatoriedade de
incluir diferentes nas universidades e as políticas ações afirmativas que garantam a
permanência desses, o que seria índice de um racismo institucional. Fala-se de sujeitos
atraentes enquanto ‘objetos’ de pesquisa, figuras exóticas; estranhos, por não
corresponderem ao ideal ascético e elitista esperado.
Estaríamos diante de um jogo de luz e sombra que atenderia a uma lógica
imperialista de se produzir conhecimento, governar e conferir valor a modos de ser e
existir, portanto. Ou seja, há um angustiante não-lugar que induz uma condição de
estrangeiro àqueles/as que nos deveriam ser familiares. Dessa maneira, temos como
objetivo empreender um gesto inicial na direção de uma desobediência epistêmica,
como sugere Walter D. Mignolo (2008), na medida em que, mesmo fazendo uso de um
repertório acadêmico, vislumbramos outras epistemologias, estéticas, ontologias, em
suma, outros mundos possíveis.
Escrever sobre essas experiências anti-imperialistas de conhecimento, requer,
como explica Linda Tuhiwai Smith (2008), reescrever a ‘história’ sob vários pontos de
vista massacrados pela ideologia colonial, porque para entender o presente é preciso
reclamar às narrativas históricas de forma crítica é essencial para a descolonização dos
saberes, metodologias etc. Por isso, acredita-se que uma outra proposta de linguagem ou
a coautoria com estudantes indígenas e quilombolas da UFG não conferem por si, maior
visibilidade aos saberes e experiências destes, assim como não potencializariam, a
contento, suas formas de ver o mundo. Ou seja, nestas epistemologias contracoloniais,
como explica Antônio Bispo dos Anjos (2018), mestre do saber quilombola, estudar
cálculo de área só faz sentido quando associado ao conceito de botânica na plantação
das roças, e lá, fazendo e pensando, associam-se ao que ele esclarece como pensamento
orgânico.
Neste, aprende-se fazendo, faz-se pensando. Há a necessidade de que outros
conhecimentos percorram o imaginário da nossa sociedade para que aprendamos a
respeitar outras formas de bem viver, posicionar a crítica a partir de outros pressupostos.
O mestre quilombola ainda nos esclarece que é preciso dar vazão a uma ética da
confluência, ou seja, “a lei que rege a relação de convivência entre os elementos da
natureza nos ensina que nem tudo que se ajunta se mistura, ou seja, nada é igual”.
(ANJOS, 2015, p. 89), em contraponto ao pensamento da transfluência, no qual nem

131
tudo que se mistura se ajunta. Esse ‘estilo’ provoca deslocamentos quanto às linguagens,
corporeidades, sociabilidades e subjetividades desses estudantes. Isto é, a partir do
encontro com sujeitos que resistem no espaço acadêmico com suas epistemologias, se
posicionando a partir de suas experiências em um espaço que a cada instante expurga os
seus corpos e os seus conhecimentos, o que provocariam de deslocamentos quanto a
práticas pedagógicas, sociológicas e de políticas afirmativas na universidade. Optamos
pela pesquisa etnográfica porque esta se configura como uma abordagem teórica e
metodológica necessária para entendermos melhor o modo como estes estudantes se
engajam no domínio de um novo repertório linguístico, comunicacional e epistêmico
do/no ambiente acadêmico, e em que medida contribuem para o questionamento desses
mesmos pressupostos universalizantes.

Palavras-chave: 1. Epistemologias. 2. Saberes. 3. Indígenas. 4. Quilombolas. 5. Ações


Afirmativas.

REFERÊNCIAS

ANJOS, Antônio Bispo dos. Colonização, Quilombos: Modos e Significações.


Brasília: INCTI, 2015.

ANJOS, Antônio Bispo dos. t “Quilombos como Civilização


Contracolonial”, na Faculdade de Ciências Sociais, da Universidade Federal de Goiás
em 13 de setembro de 2018.

CARVALHO, José Jorge de. Inclusão Étnica e Racial no Brasil: a questão das cotas
no ensino superior. São Paulo: Attar Editorial, 2005.

SMITH, Linda. Tuhiwai. Decolonnizing Methodologies: Research and Indigenous


peoples. New York: Twelfth impression, 2008.

LUCIANO, Gersem, José dos Santos. Educação para manejo e domesticação do


mundo entre a escola real e a escola ideal: os dilemas da educação escolar indígena
no Alto Rio Negro. Brasília, 2011. 368 f. Tese (Doutorado em Antropologia) –
Universidade de Brasília, Brasília, 2011.

MARTINS, José de Souza. Exclusão Social e a Nova Desigualdade. São Paulo:


Paulus, 1997.

MIGNOLO, Walter D. Desobediência Epistêmica: a opção descolonial e o significado


de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e
identidade, Nº 34, 2008, p. 287-324.
132
SANTOS, Boaventura Sousa; NUNES, João Arriscado. Introdução: para ampliar o
cânone do reconhecimento, da diferença e da igualdade. In: ______. Reconhecer para
Libertar: os caminhos do cosmopolitismo multicultural. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2003, p. 25-68.

SANTOS, Boaventura Sousa; MENESES, Maria Paula. Introdução. In: SANTOS,


Boaventura de Sousa. MENESES, Maria Paula (orgs). Epistemologias do Sul.
Coimbra: Edições Almedina, 2009, p. 9-20.

133
PADRÃO DA COBERTURA DE FEMINICÍDIOS E PUNIBILIDADE DOS
AGRESSORES: O QUE A IMPRENSA NOS CONTA AO LONGO DAS
DÉCADAS

Jéssica Estély Chiareli Nazareth1


Angelita Pereira de Lima2
Magno Luiz Medeiros da Silva3
Michele Cunha Franco4

RESUMO

O Brasil começou a rever na prática algumas questões sobre a sua


jurisprudência, visando a garantia real dos princípios de igualdade de gênero, desde a
virada do século. Alguns símbolos desse esforço de mudança são a Lei Maria da Penha,
em 2006; a tipificação do feminicídio, em 2015; e a possível tipificação do estupro
coletivo, ainda em discussão no Congresso. Todas elas podem ser consideradas
resultado direto de dois fatores: as reivindicações dos movimentos feministas que
ganharam corpo em diferentes lugares do mundo, entre eles o Brasil, desde os anos
1950; e as declarações e tratados internacionais pela igualdade entre homens e
mulheres, como a declaração da Década da Mulher de 1976 a 1985, pela ONU.
O avanço das três medidas legais brasileiras, embora sinalize mudanças no
garantia do combate à violência contra as mulheres, contrasta com o aumento de
notificações de crimes motivados por questões de gênero no país. De acordo com dados
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), analisados por Garcia et al (2008),
no Brasil, estima-se que ocorreram mais de 50 mil assassinatos de mulheres entre os
anos de 2001 e 2011 por conflitos de gênero, dos quais pelo menos 1/3 resultou de
violência doméstica e familiar. O Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres
(WAISELFISZ, 2015), por sua vez, demonstra que esse quantitativo é superior ao de
décadas anteriores.
De acordo com o estudo, entre 1980 e 2013 houve mais de 106 mil mortes
violentas de mulheres no país. Um aumento de 252% do número de assassinatos durante
o período compreendido pela pesquisa, que passou de 1.353, em 1980, para 4.762, em
2013. Os índices tornam o Brasil o 5ª país do mundo com maior taxa de feminicídio. No

1
Mestranda, Universidade Federal de Goiás, jessicaestely@gmail.com, Goiânia.
2
Doutora, Universidade Federal de Goiás, angelitalimaufg@gmail.com, Goiânia.
3
Doutor, Universidade Federal de Goiás, magno.ufg@gmail.com, Goiânia.
4
Doutora, Universidade Federal de Goiás, mcfrancojur@gmail.com, Goiânia.
134
entanto, a situação possivelmente é pior, dada a escassez de dados. “O mais claro
sintoma da posição subalterna da mulher na sociedade brasileira” (BLAY, 2008, p.25).
Mesmo subnotificados, os registros existentes permitem perceber a repetição de um
sistema de violência de gênero para o qual Rita Laura Segato chama a atenção em seus
estudos sobre os condenados por estupro da penitenciária de Brasília (2003), bem como
em seus trabalhos relativos à visita que realizou a Ciudad Juárez, no México (2005).
A sua primeira pesquisa, realizada a partir de entrevistas a presos acusados de
ataques sexuais a vítimas desconhecidas nas ruas “respalda a tese feminista de que os
crimes sexuais não são obra de desviados individuais, doentes mentais ou anomalias
sociais, mas sim a expressão de uma estrutura simbólica profunda” (p.38, tradução
livre), muitas vezes nominada “cultura do estupro” entre as ativistas feministas. Essa
estrutura seria compartilhada tanto pelo agressor quanto pela coletividade por meio do
que a autora chama de “imaginário de gênero”. Vale ressaltar que essa estrutura não se
aplica apenas a desconhecidos que atacam mulheres nas ruas. Dentro de casa a história
se repete com amigos e familiares das vítimas, respaldando ainda mais fortemente o
entendimento feminista sobre a existência de um contexto no qual o estupro é
normatizado. Ambas as situações, para Segato, são resultado das construções históricas
de masculinidade e feminilidade. Seja dentro ou fora do lar, o homem estupra ou mata
para dizer que pode, que detêm o controle sobre os corpos femininos, para afirmar a sua
virilidade.
Depois de sua visita à Ciudad Juárez, tomada desde 1993 por uma onda de
assassinato de mulheres que obedece a um mesmo modus operandi, Segato identificou
que os crimes de estupro e feminicídio não só obedecem a uma lógica estrutural apoiada
nas construções do imaginário de gênero, como também se comportam como um
sistema de comunicação, isto é, “ ... os atos de violência se comportam como uma
língua capaz de funcionar eficazmente para os entendidos, os avisados, os que falam
mesmo quando não participam diretamente da ação enunciativa” (SEGATO, 2005,
p.277). Nesse contexto, para a autora, o corpo feminino significa território, e, a partir da
linguagem da violência de gênero, a mulher se anexa como parte de um país
conquistado. Um alfabeto violento, um sistema de comunicação que se instala de
maneira quase automática, de modo que é difícil eliminá-lo. Embora a discussão seja
tão complexa, um dos fatores frequentemente apontados como facilitador dessa
reafirmação da linguagem da violência de gênero, que cresce exponencialmente a

135
revelia de leis mais rígidas e específicas, é a impunidade dos réus, verificável até
quando trata-se da expressão máxima da violência contra as mulheres: o feminicídio.
Conforme aponta pesquisa de mestrado em desenvolvimento, um olhar ao passado, dos
anos 1970 até o início dos anos 2000, pode dar algumas pistas que ajudam a
compreender o fenômeno, especialmente quando observada a cobertura jornalística de
casos de assassinatos de mulheres por questões de gênero.
Está sendo realizada uma análise de conteúdo das publicações do jornal Folha de
S. Paulo sobre cinco casos de assassinatos de mulheres por questões de gênero nas
últimas cinco décadas: a socialite Ângela Diniz (1976); a cantora Eliane de Grammont
(1981); a atriz Daniella Perez (1992); a jornalista Sandra Gomide (2000) e a modelo
Eliza Samudio (2010); de maneira a identificar as possíveis semelhanças entre as
abordagens, em especial na construção de sentidos que apontem para punição dos
agressores. Resultados preliminares indicam que existe um padrão de cobertura
midiática de mulheres que possuem notoriedade. Esse padrão é caracterizado
principalmente pelo fator continuidade, com grande volume de suítes dos casos de
violência, que sugere uma eficácia na punibilidade dos assassinos que foge à regra.
Espera-se, com a finalização da análise de conteúdo das publicações do jornal,
compreender se tal padrão já identificado pode influenciar a construção de sentidos que
apontem para a punição dos agressores.

Palavras-chave: Violência de gênero. Feminicídio. Imprensa. Punibilidade.

REFERÊNCIAS

GARCIA Leila, et al. Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil. Instituto de


Pesquisa Econômica Aplicada, 2008. Disponível em
<http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&id=19873> Acesso
em: 02 fev.2017

WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2015: Homicídios de Mulheres no


Brasil. ONU Mulheres. Brasília, 2015. Disponível em: <www.mapadaviolencia.org.br>
Acesso em: 07/05/2018

BLAY, Eva. Assassinato de mulheres e Direitos Humanos. São Paulo: Editora 34,
2008.

SEGATO, Rita L. Território, soberania e crimes de segundo estado: a escritura nos


corpos das mulheres de Ciudad Juarez. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 13, n. 2,
maio-agosto/2005 Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ref/v13n2/26882.pdf >
Acesso em: 15 jun. 2017

136
NOVAS PRODUÇÕES DE SENTIDO: O CASO DO MINISTÉRIO
EVAN ÉLI O L BTQ+ “MOVIMENTO ORES”

Thales Rafael Rodrigues de Moura1


Luiz Antonio Signates Freitas2

RESUMO

Propõe-se a exposição em formato de artigo do trabalho já desenvolvido pelo


referido pesquisador, o qual esteve por 35 dias em pesquisa de campo na cidade de Belo
Horizonte (MG), na Igreja Batista da Lagoinha, unidade Savassi, vivenciando como
observador participante a rotina do intitulado “Movimento Cores”, ministério
evangélico criado pela igreja citada e voltado exclusivamente para a comunidade
LGBTQ+. Tal ministério existe desde 2013 e é estudado por este pesquisador desde
Maio de 2017.
Ora, também frisa-se que a Igreja Batista de Lagoinha é conhecida
nacionalmente pela ampla rede de comunicação que possui, desde rádio, centenas de
contas em redes sociais ligadas a seus ministérios e a existência de figuras específicas –
pastores, cantores – que funcionam como uma espécie de influenciadores digitais,
possuindo juntos mais de 5 milhões de seguidores.
Os dados coletados pelo autor foram transformados num relatório que revelaram
momentos de regularidade, de discrepância e de intensidade, sendo posteriormente
levados para análise. A pesquisa de campo feita entre os meses de Junho e Julho
juntamente com a apresentação de dados pinçados pelo mesmo pesquisador ajuda a
apresentar as demarcações e delineamentos executados por diferentes agentes no
campo. Após essa análise deve-se questionar o porquê dessas instituições tomarem
determinadas atitudes.
Primeiramente, como ponto de partida, o objeto foi estudado à luz dos
dispositivos interacionais em Braga (BRUCK; JESUS, 2011, p. 27-36), no qual o
pesquisador apresenta a Igreja Batista da Lagoinha (sede), a Lagoinha Savassi (local de
funcionamento do Movimento Cores) e o próprio Movimento Cores como três
dispositivos interacionais diferentes, os quais possuem certa interdependência.

1
Mestrando do Programa de Pós Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás.
Bacharel em Direto pelo Centro Universitário de Anápolis. e-mail: thalesrrmoura@gmail.com
2
Orientador do trabalho. Professor Doutor do Programa de Pós Graduação em Comunicação da
Universidade Federal de Goiás na Faculdade de Comunicação e Informação, e-mail: signates@gmail.com
137
Giddens entende à luz de oucault que “a sexualidade não deve ser
compreendida somente como um impulso que as forças sócias têm que conter. Mais que
isso, ela é um ponto de transferência especialmente denso para as relações de poder”
(GIDDENS, 1993, p. 28). O referido autor também nos lembra que a sexualidade é na
verdade um termo que aparece pela primeira vez no século XIX. A sexualidade
começou na se tornar identidade quando começou a existir a mídia (GIDDENS, 1993, p.
32).
A questão comunicacional é que “as identidades, mesmo que demarcadoras de
tradições que se especificam e ganham permanência temporal, são surpreendidas em
negociação de sentidos, em transmutação simbólica”, trata-se da “processualidade dos
símbolos em movimento. O contínuo vir-a-ser dos elementos culturais”, nunca
hipostasiados sob o método próprio das ciências da comunicação (SIGNATES;
DAMASIO, 2017, p. 57).
Sendo assim, estamos tratando de um tema que possui resistências e
adversidades: como uma igreja que se apropria de vários códigos pós-modernos abre
um espaço para que o público LGBT possa produzir relações nela? Em que condições
essas relações são produzidas?
Em seguida, são apresentados os dados elencados como “descobertas” na
pesquisa de campo, onde se apontam quatro tópicos em especial. Tais tópicos objetivam
convergir para as ideias de inclusão e exclusão, entendidas como elementos presentes
no contexto LGBTQ+ e religioso e, em especial, nas relações interacionais entre
ministério (Movimento Cores) e igreja-mãe (IBL).
Notou-se no período de pesquisa como observador participante a tentativa de
invisibilização do Movimento Cores perante toda a estrutura da Igreja Batista da
Lagoinha, a discrepância no número de participantes das reuniões e no atendimento
particular realizado por seus obreiros, a diferença no formato das relações sociais entre
membros do Movimento Cores e membros de outros ministérios da IBL e a
invisibilização da líder do ministério, Priscila Coelho.
Confirmou-se que a esse nível do poder e da cidadania, apesar da característica
conservadora do código religioso da IBL, o Movimento Cores é uma nova linguagem de
um código “perfurado”. Há rupturas e suturas da identidade LGBTQ+. Dessa maneira a
identidade sexual sofre um “corte” que faz com que parte dela seja admitida e outra
renunciada. É lícito ao fiel membro do Movimento Cores fazer parte do universo LGBT

138
e consumir sua cultura, mas ele deve se restringir apenas isso. No código religioso da
IBL nem mesmo o consumo cultural seria aceito.

Palavras-chave: Movimento Cores; Dispositivo Interacional; Subjetividade.

REFERÊNCIAS

BRUCK, Mozahir Salomão; JESUS, Eduardo. Prof. Dr. José Luiz Braga: Dispositivos
interacionais: lugar para dialogar e tensionar conhecimentos // Interactional devices as
places to dialog and to collate knowledge. Dispositiva, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 27-
36, dez. 2011. Disponível em:
<http://periodicos.pucminas.br/index.php/dispositiva/article/view/2817>. Acesso em: 03
Mar. 2018.

BRAGA, José Luiz. Dispositivos interacionais. In: XX Encontro Anual da Compós,


2011, Porto Alegre. Anais do XX Encontro Anual da Compós. Brasília: Compós,
2011. p. 1-15.

GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo


nas sociedades modernas. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1993.

Lagoinha Savassi chega diferente e alternativa. Disponível em:


http://www.lagoinha.com/ibl-noticia/lagoinha-savassi-chega-diferente-e-alternativa/.
Último acesso: 25/02/2018

NEREP. Mesa Redonda. Marcelo Natividade (USP) e Ronaldo Almeida (Unicamp)


26/08/2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Ia26t938PPY&t=1980s
Último acesso: 30/07/2018

SIGNATES, Luiz; DAMASIO, João. Comunicação, identidade e performance: análise


categorial de transições simbólicas como método de estudo dos ambientes de
comunicação, Questões Transversais – Revista de Epistemologias da Comunicação,
vol. 5, n. 9, jan./jun. 2017.

139
VESTIR PARA (RE) CONHECER E RESISTIR: POR UM OLHAR QUEER DO
DISPOSITIVO DA MODA

Marco Aurélio Alves e Silva1


João da Cruz Gonçalves Neto2

RESUMO

Reconhecer-se e ser reconhecido é vital a todo indivíduo. Logo, para Taylor


(2000), esse reconhecimento do outro e de si mesmo recai na essencial compreensão de
todos os elementos que se relacionam e provocam o sujeito à formação de uma
identidade que, ao fugir de uma normalidade imposta pelos dispositivos sociais e
majoritariamente aceita, integra uma política de resistência.
Nessa direção, o movimento queer, principalmente na década de 80, procurou
abraçar não somente os escorraçados do convívio com a normalidade, mas, como
observa Miskolci (2016), questionou as ações resignadas de alguns grupos
homossexuais, que interpelavam a eterna luta binária: hétero versus homossexual e não
constituíam um comando ativo para a desconstrução desse arcaísmo de forma mais
enérgica. Energia essa que potencializou, segundo Butler (2015), os abjetos a
experimentarem o lugar de sujeitos autorizados a denunciar e resistir a práticas
excludentes capitaneadas pelos comandos institucionais, os quais, para Foucault (2015),
marginalizam e pregam uma pedagogia binária performática de gêneros por meio de
tecnologias e ferramentas diversas.
Diante desse cenário, esta pesquisa parte da premissa de que o dispositivo da
moda, as suas construções de estilo, os seus discursos, as suas ações e interpretações
acabam, muitas vezes, interferindo no reconhecimento dialogal que o queer tem de si e
do outro e caminham para desconstruir e comercializar a lógica libertária criada pelos
abjetos – o genderless. Para essa investigação, a nossa primeira tarefa será delinear
teoricamente o queer, a partir das ideias de Butler (2015) e Louro (2015), e o seu
pretenso olhar ao mundo cercado por uma série desses dispositivos que comandam
discursos e enunciados a serviço de um padrão de normalidade de gênero que se quer
ratificar. Para se manter central ao longo de processos de ruptura, o dispositivo da moda,

1
Mestrando em Direitos Humanos no do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Direitos
Humanos da Universidade Federal de Goiás (UFG), e-mail: marcoaurelioas.ufg@gmail.com
2
Pós-doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina e professor na Faculdade de Direito
da Universidade Federal de Goiás (UFG), e-mail: dellacroce2013@gmail.com
140
como aponta Paixão (2017), mostra-se capaz de domesticar, apropriar e comercializar
corpos e suas representações a serviço de uma normalidade falocêntrica,
heteronormativa e binária que solidifica expectativas quanto à expressão de gênero do
sujeito, silencia e amacia os discursos radicais de mudança do status quo.
Logo, nos é cara a ideia de que a moda, perseguindo a noção de Lipovetsky
(2009), não é um mero artifício para cobrir a nudez corporal, muito menos, um adorno
estético, e sim um conjunto de discursos, ações e instrumentos que interagem com uma
realidade e constrói seus significados comprometidos com uma noção que se quer
representada. Logo, esse dispositivo está na rua, no urbano, que não são libertários:
existe o olhar inquisidor – à espreita ou não - para aqueles que recorrerem a estilos não
convencionais – negando, por consequência, aos sujeitos desviantes do padrão, o
reconhecimento devido; invariavelmente, a veste é para ser vista e construir
identificações específicas em franca dinâmica com o íntimo e coletivo.
Sendo assim, Svendsen (2010) sublinha que a moda não deve ser compreendida
apenas como uma linguagem ou como um poder alheio a intencionalidades de seus
criadores, pelo contrário: ela consolida, muitas vezes, a repressão de gênero, levanta a
carga simbólica de violência que uma peça de roupa carrega consigo ao apontar moldes
binários acatados e massificados em estilos a serem obedecidos – que nos faz recordar a
lição de violência simbólica desenvolvida por Bourdieu (1989). Ora, se a moda está no
gênero e o gênero está na moda, uma peça de roupa acaba por domesticar corpos e
performances de sujeitos que aprendem o que é a noção binária de gênero antes mesmo
de serem ensinados a se comportarem de forma a cumprirem as expectativas da
normalidade.
Assim, moda constrói modelos externos, torna-se exemplo e não se preocupa
com a individualidade e sua expressão íntima. Essa é a crítica que Erner (2005) tece ao
afirmar categoricamente que a moda não se deixa dominar facilmente; para ele, somos
vítimas dela, de uma construção pré-moldada e que pouco abre espaço para escolhas
libertárias e rebeldes. A moda não respeita a formação indistinta do gênero de um corpo.
Pelo contrário: castra essa construção, se apropria do novo, do diferente e o torna um
produto amaciado ao gosto da normalidade que se quer conservar. Resistente a esse
processo conservador, a prática queer mostra-se como um grito de resistência a esse
poderio expresso pela moda; se o sujeito não deve receber ingerências quanto à
formação de sua identidade de gênero, logo, não há como se sentir reconhecido com as

141
roupas que reproduzem uma lógica masculina ou feminina tão somente. O dispositivo
da moda, portanto, é inquisidor e pouco receptivo a novos olhares e interpretações que
escapam de uma realidade mercadológica capitalista e profundamente binária quanto à
diferenciação de gêneros.
Sua técnica de ação discursiva e multilinear, assim como o conceito
desenvolvido por Deleuze (1996), é se apropriar de discursos libertários e moldá-los de
acordo com a intenção dos que detêm o poderio político, industrial e social do contexto
analisado. Nesse sentido, é primordial compreender se essa nova práxis legitima essa
rebeldia que, em um primeiro momento, nos parece mais acertada ou se acaba se
deixando engolir pelo discurso contraproducente do dispositivo pesquisado. Essa
posição rebelde frente aos comandos da normalidade sufocante coloca esse indivíduo
em colapso, mas constroi uma ação de resistência. Assim, é necessário abrir outros
caminhos e reinterpretações da realidade imposta pelas instituições sociais infladas de
um poder repressivo.
A moda é um dispositivo inquisidor, excludente e porta-voz das instituições
dominantes, contudo, há, por vezes, criações que contestam esse poder, como a estética
genderless, a moda pensada e criada sem que o gênero interfira em quaisquer processos
criativos de sua confecção, como leciona assinala Afonso e Rodrigues (2017). Esse
novo olhar, como vimos, estabelece uma política de resistência capaz de dialogar com
outros embates sociais em busca do vital reconhecimento, mas que deve cuidar para que
não seja engolido pelas ferramentas e instrumentos desse dispositivo. Ao longo dessa
discussão, manteremos um esforço interdisciplinar de se imaginar o problema partindo
da premissa. Para isso, lançaremos mão da pesquisa bibliográfica dos autores
supracitados e de outros que nos darão aporte e na análise de peças de roupa da coleção
Agenders, da marca Selfbridges, que se pretende genderless.

Palavras-chave: Moda. Dispositivo. Gênero. Queer. Reconhecimento.

REFERÊNCIAS

AFONSO, Fernanda Acosta; RODRIGUES, André Iribure. Com que gênero eu vou? –
as representações do genderless na publicidade de moda em case da marca C&A.
Disponível em: <http://www.en.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/149936
2895_ARQUIVO_ARTIGO_FAZENDO_GENERO_UFSC_2017_.pdf.>. Acesso em:
28 set 2018.

142
BOUCHER, François. História do vestuário no ocidente: das origens aos nossos dias.
São Paulo: Cosac Naify, 2012.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil S.A, 1989.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 8. ed.


Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

CAMARGO, Pedro. Afinal, o que é genderless? Disponível em:


https://elle.abril.com.br/moda/afinal-o-que-e-o-genderless/. Acesso em: 29 set 2018.
DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2005.

ERNER, Guillaume. Vítimas da moda? Como a criamos e por que a seguimos. São
Paulo: Editora Senac, 2005.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. v. 1. São Paulo:


Paz e Terra, 2015.

LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades


modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-


estruturalista. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

______. Um corpo estranho: ensaios sobre a sexualidade e a teoria queer. 2. ed. Belo
Horizonte: Autêntica, 2015.

______. (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 4. ed. Belo Horizonte:


Autêntica Editora, 2018.

MISKOLCI, Richard. Teoria queer: um aprendizado pelas diferenças. 2. ed. Belo


Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

PAIXÃO, Humberto Pires da. Resistência e poder no dispositivo da moda. 2017.


Tese (Doutorado em Linguística) – Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação
em Letras e Linguística, Universidade Federal de Goiás, Goiânia.

PONTUAL, Mariana. Multimarcas Selfridges lança experiência inédita de compras


unissex. Disponível em: < https://ffw.uol.com.br/noticias/comportamento/multimarcas-
selfridges-lanca-experiencia-inedita-de-compras-unissex-357/>. Acesso em: 28set 2018.

SVENDSEN, Lars. Moda: uma filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

TAYLOR, Charles. Argumentos filosóficos. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

SPARGO, Tamsin. Foucault e a teoria queer: seguido de ágape e êxtase: orientações


pós-seculares. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2017.

143
GT Imagens, Cinema e
Cultura Visual
Coordenação Ana Rita Vidica e Eduardo Portanovaes
DO AVESSO: A DESCONSTRUÇÃO DO VÍDEO EM 24 HOUR PSYCHO
DE DOUGLAS GORDON

Lana de Araújo Gomides1


Thiago ernando Sant’Anna e Silva2

RESUMO

A obtenção de novos significados a partir da desconstrução do vídeo tem sido


viabilizada, principalmente, pela convergência de meios como a fotografia, o vídeo e o
cinema. O artista Douglas Gordon tem se destacado nesse âmbito como um videoartista
que pratica sua arte fora das fronteiras dos formatos tradicionais de vídeo e em 1993
emerge em meio ao caos com uma obra que oferece uma oportunidade para a reflexão:
24 Hour Psycho – uma videoinstalação exposta pela primeira vez em Glasgow
(Escócia).
Ele parte de um material de domínio público – neste caso, o filme Psicose
(1960), de Alfred Hitchcock – e insere sua poética arrastada e intensa no plano de
significações. Ao fazer um recorte de 20 minutos do filme, constrói um arranjo
sucessivo de fotogramas – são exibidos dois por quadro - que se prolonga por vinte e
quatro horas. Essa desconstrução, que é mais perceptível no quesito temporal, suscita
níveis de detalhes das cenas que passam despercebidos se contemplados no tempo tido
como normal (o espectador consegue se fixar em pormenores como gestos, expressões,
ações, entre outros).
Dessa forma, é evidente a intenção do artista de problematizar a concepção
convencional de dispositivo tanto cinematográfico quanto do próprio fotograma. O
título da videoinstalação “24 Hour Psycho” introduz o espectador ao que ele está prestes
a contemplar: uma atenuação do encadeamento veloz das imagens que gera uma
intensificação presente não apenas no filme Psicose, mas também na maior parte das
obras que se tem acesso nas salas de cinema atualmente. A proposta é para a reflexão e
não para o mero consumo. Como a exposição acontece em galerias e museus, há uma
nova forma de contemplação em que o observador é convidado a ter uma experiência

1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais
(FAV), Universidade Federal de Goiás, lana_gomides@hotmail.com
2
Pós-Doutor em Arte e Cultura Visualpelo Programa de Pós-Graduação em Artes e Cultura Visual, na
Faculdade de Artes Visuais (FAV), Universidade Federal de Goiás, thiagof.santanna@yahoo.com.br
145
espontânea. Diferentemente das salas de cinema, nesses ambientes há alterações tanto
na forma física de recepção quanto na percepção das imagens.
O observador decide quando parar e quando retomar àquela videoinstalação.
Com o intuito de apreender os resultados dessa vivência, este artigo faz uma relação
entre a obra “24 Hour Psycho” de Douglas Gordon e estudos de autores consagrados da
área da Cultura Visual, como W. J. T. Mitchell (a fim de uma aproximação teórica no
que tange aos estudos das imagens), bem como de especialistas que se dedicam ao
estudo do vídeo, como Christine Mello.
O referencial teórico busca suporte nos pensamentos de Roland Barthes, Antonio
Fatorelli e Nicolas Bourriaud com o objetivo de se aproximar de uma fala acerca desse
consumo convencional dos filmes planejados pela indústria de Hollywood. Ao mesmo
tempo, a escrita relembra a Filosofia da Caixa Preta (1983), de Vilém Flusser. Num
segundo momento, foram selecionados 17 frames da cena clássica do filme Psicose
(1960) para análise descritiva tanto no que tange ao espaço físico da videoinstalação
quanto do plano das significações que a produção proporciona. Após uma minuciosa
observação de cada frame, foi possível observar enquadramento, elementos narrativos,
planos, entre outros fatores constituintes da obra. Ao fim da análise, chegou-se ao
entendimento de que o videoartista Douglas Gordon atua nesse contexto da
desconstrução do vídeo contra a corrente hegemônica e o seu “modo certo de se fazer
vídeo”. Ele desconstrói o filme Psicose (1960), assim como a maneira de assistir e
entender as cenas e entende não apenas o funcionamento dessa “caixa preta” elucidada
por Vilém Flusser, mas também os processos de recepção do sujeito.
Aliando subjetividade e criatividade, intervém no formato convencional
reproduzido no cinema. Ainda que Flusser tenha uma fala voltada para o sentido da
automatização das imagens, o modo criativo do artista quebra com a ideia de que essa
repetição provocada pela automatização causa estereotipia, ampliando todo um universo
de possibilidades. Partindo de conceitos apreendidos com W. J. T. Mitchell, Gordon
permite um contato diferente com o não-visto ou não-visível. Afinal, os espectadores
deixam de ver mensagens implícitas nos filmes feitos para o cinema catedral, como ele
mesmo caracterizaria, sendo que ali há muito que ser lido. Outra percepção possível a
partir dos estudos sobre a tese elaborada por Christine Mello é a de que o artista em
questão, na busca por territórios fronteiriços, fez com que sua obra funcionasse como o
locus do experimentalismo e da desconstrução através da desestabilização do conceito

146
hegemônico de narrativa. E é exatamente por se utilizar da suspensão do tempo que o
trabalho de Gordon proporciona a sensação, para o receptor, de estar frente a um novo
filme. 24 Hour Psycho, definitivamente, leva a sociedade a pensar não tão somente na
obra em si, mas no seu comportamento cotidiano ao que diz respeito à recepção de
imagens. Seu silêncio chama a atenção, o preto e branco da projeção provoca emoções e
seu espaço de inserção intriga.

Palavras-chave: Douglas Gordon. Vídeo. Videoinstalação.

REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. A câmera clara. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

BELLOUR, Raymond. A dupla hélice. In: Parente, A. (org.). Imagem máquina. A era
das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993, p. 214-230.

BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Adriana Hidalgo: Buenos Aires, 2006.

CRARY, Jonathan. A modernidade e o problema do observador. In: Crary, J. Técnicas


do observador: visão e modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Contraponto,
2012, p. 11-70.

DESIGNING video installations with Douglas Gordon. Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=n3mm-LNkmXU&t=442s>. Acesso em: 18 jun.
2018.

DUBOIS, Phillipe. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naif, 2004.

FATORELLI, Antonio. Mutações da imagem. Visualidades, Goiânia, v. 11, n. 1, jan-


jun, 2013, p. 83-97.

GORDON, Douglas. 24 Hour Psycho. 2016. (4m42s). Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=a31q2ZQcETw&t=1s>. Acesso em: 26 jun. 2018.
MACHADO, Arlindo. Repensando Flusser e as imagens técnicas. Revista de
Comunicação e Linguagens, Lisboa, n.25/26, 1999, p. 31-45.

MELLO, Christine. Desconstrução do vídeo/Contaminação do vídeo. In: Mello, C.


Extremidades do vídeo. São Paulo: Ed. Senac, 2008, p.113-168.

MITCHELL, William J. T. Não existem mídias visuais. In: Domingues, D. (org.). Arte,
ciência e tecnologia. Passado, presente e desafios. São Paulo: Editora Unesp, 2009, p.
167-177.

147
MITCHELL, William J. T. O futuro da imagem: a estrada não trilhada por Rancière. In:
Martins, Raimundo; Tourinho, Irene (orgs.). Culturas das imagens: desafios para a arte
e para a educação. Santa Maria (RS): Editora da Universidade Federal de Santa Maria,
2012, p. 19-35.

PARENTE, Letícia. Marca Registrada. 2011. (10m33s). Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=J5RakZ433wA>. Acesso em: 26 jun. 2018.

SOULAGES, François. O registro. In: Soulages, F. Estética da fotografia: Perda e


permanência. São Paulo: Ed. Senac, 2010, p. 315-340.

148
INFÂNCIA E YOUTUBE: PERFORMANCES DA PROXIMIDADE

Ana Júlia de Freitas Carrijo1


Lara Lima Satler2

RESUMO

Este texto é um desdobramento do plano de trabalho de iniciação científica de


título “Infância e YouTube: a recepção infantil de narrativas audiovisuais digitais”, que
está vinculado à pesquisa "Grupodidatismo de youtubers: Em época de espetáculo do
eu, cabem narrativas coletivas?", realizada na Universidade Federal de Goiás, e busca
problematizar os estudos de recepção no contexto digital e propor uma reflexão sobre os
desdobramentos advindos dos usos de plataformas de streaming, em especial o
YouTube, pelo público infantil na contemporaneidade. As narrativas que aparecem nesse
meio são produzidas por usuários da rede que, a partir do momento que se tornam
produtores, são nomeados youtubers. De forma livre e gratuita, os usuários são
convidados a veicular suas produções em canais (páginas personalizadas que hospedam
os vídeos), os quais podem receber inscrições de sujeitos interessados em acompanhar a
rotina de publicações.
O objetivo deste estudo é compreender a estrutura dos vídeos do YouTube e
investigar de que modo as narrativas dos youtubers cativam o público infantil. Para
tanto, nosso esforço analítico procura reconhecer a estratégia narrativa das produções,
examinar os recursos verbais e audiovisuais utilizados por elas e articular essa análise à
recepção infantil.
O referencial teórico que embasa a análise desenvolvida neste texto preocupa-se
em manter a tensão advinda da relação entre produtos midiáticos e seus receptores,
considerando a fecundidade da dinâmica cultural expressa na comunicação social. Esta
análise considera o texto como produto de um contexto social amplo e mantém vivas as
forças comunicativas dos receptores, do meio cultural e das lógicas de produção

1
Graduanda do curso Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda, na
Universidade Federal de Goiás. Atua como pesquisadora júnior do Núcleo de Pesquisa em Teoria da
Imagem, na Faculdade de Informação e Comunicação (FIC/UFG) e é pesquisadora bolsista do programa
de iniciação científica da UFG. E-mail: anajucarrijo@gmail.com
2
Pós-doutorado em Estudos Culturais (PACC/ UFRJ). Doutorado em Arte e Cultura Visual (PPGACV/
FAV / UFG). Professora-pesquisadora na Universidade Federal de Goiás (UFG), na Faculdade de
Informação e Comunicação (FIC). É vinculada ao Núcleo de Pesquisa em Teoria da Imagem (NPTI /
PRPG-UFG / CNPq). E-mail: satlerlara@gmail.com

149
específicas da linguagem construída no YouTube (MARTÍN-BARBERO, 2018). Seria a
construção de uma performance (nos termos de Paula Sibilia (2015)) de proximidade
com o público o segredo do sucesso dos vídeos dos youtubers? Para responder a essa e
a outras inquietações, realizamos um trabalho analítico de materiais audiovisuais
disponibilizados no YouTube, embasados metodologicamente na análise de imagem e
som (ROSE, 2003), desde a seleção dos referenciais teóricos e empíricos até a
codificação dos dados coletados. Realizamos ainda um grupo focal (COSTA, 2005)
com crianças de oito a doze anos, na Escola Sonho Dourado, Setor Jaó, Goiânia (GO),
uma instituição da rede privada, localizada em um setor de classe média da capital. Na
análise de imagem e som, selecionamos três vídeos para investigação, produzidos
peloyoutuber citado mais vezes como preferido pelas crianças, Felipe Neto.
Buscamos verificar a hipótese a qual afirma que a relação de intimidade
estabelecida entre o público infantil e os youtubers é fator importante para consolidação
da linguagem contemporânea típica dos vlogs. Para tanto, definimos quatro unidades de
análise (chamada, apresentação do tema, desenvolvimento do tema e finalização) para
serem investigadas por meio de critérios verbais e audiovisuais. A análise verbal
aborda: 1) diálogo direto com o público; 2) busca por um discurso de autenticidade; 3)
convites à ação; 4) inserção de interlocutor no ambiente do vídeo. A análise audiovisual
observa: a) olhar voltado diretamente para a câmera; b) cenário que simula um quarto
ou um espaço interno residencial; c) efeitos especiais de montagem.
O grupo focal aconteceu no intuito de compreender o processo de negociação,
produção e apropriação de sentido (nos termos de Martín-Barbero (1997) e Stuart Hall
(2003)) realizado pelas crianças em contato com as narrativas dos youtubers a que
costumam assistir. As indagações feitas às crianças abordaram e questionaram suas
preferências de navegação no YouTube, buscando porquês para o fascínio por
determinados youtubers, canais e vídeos. Além disso, questionamos o grau de
interatividade dos colaboradores com a plataforma, isto é, se de fato elas utilizam os
recursos oferecidos pelo YouTube para sentir-se parte atuante do processo
comunicativo. Instigamos os participantes do grupo a refletir sobre os convites à
interação propostos reiteradamente nos vídeos e sobre o comportamento performático
dos youtubers.
Concluímos, a partir da análise de imagem e som, ilustrada por trechos da
transcrição dos vídeos e por frames das produções, que a construção de uma

150
performance e de proximidade entre youtuber e público é a principal estratégia narrativa
dos vídeos analisados. Sob o argumento da autenticidade, as narrativas oferecem
sentidos simbólicos para a apreciação do público que se apropria do discurso. A partir
da dinâmica do grupo focal, concluímos que as crianças não se questionam sobre a
produção do conteúdo ou sobre o porquê de aquela figura estar falando sobre aquele
assunto daquela maneira, nem mesmo se indagam sobre os recursos de edição. Elas se
concentram na performance da proximidade, a qual as convence por conta de uma
estratégia narrativa embasada na busca por um discurso autêntico e familiar.
Perguntamos aos colaboradores sobre o que os fazia gostar dos vídeos. A resposta da
maioria evidenciou o caráter crítico e humorado dos youtubers. As crianças se
assustaram com a ideia de existir um roteiro, mesmo que aberto, para a produção dos
vlogs. Quando provocadas sobre a noção de uma estrutura narrativa construída
previamente visando um discurso coerente com a proposta da autenticidade, as crianças
questionaram se não era "tudo feito no improviso", para usar a fala do colaborador 2.

Palavras-chave: Recepção. Youtubers. Público infantil. Proximidade. Performance.

REFERÊNCIAS

COSTA, M. E. B. Grupo Focal. In: BARROS, A. T., JUNQUEIRA, R. D., Métodos e


técnicas de pesquisa em comunicação. 2. ed. São Paulo: Editora Atlas, 2005, p. 180-
192.

HALL, Stuart. Codificação/decodificação. In: SOVIK, Lívia (org.) Da diáspora -


Identidades e mediações culturais. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2009, p. 365-381.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e


hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios à mediações: 3 introduções. Revista Matrizes,


São Paulo, v. 12, n. 1, jan-abr - 2018, p. 9-31.

ROSE, Diana. Análise de imagens em movimento. In: BAUER, M. W., GASKELL, G.


Pesquisa qualitativa com texto imagem e som. 2. ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes,
2003, p. 343-364.

SIBILIA, Paula. Autenticidade e performance: a construção de si como personagem


visível. Revista Fronteiras – estudos midiáticos, Porto Alegre, v. 17, n. 3, set/dez -
2015, p. 353-364.

151
GRUPODIDATISMO EM GAMEPLAYS: INOVAÇÕES NARRATIVAS

Lara Lima Satler (UFG)1


Laura Vilela Rodrigues Rezende (UFG)2

RESUMO

Estudo que traz um recorte do Youtube como uma plataforma de streaming de


vídeo a fim de observar inovações em narrativas audiovisuais. Possui como hipótese a
premissa de que, se por um lado, o serviço de streaming tal como é configurado
estimula a inovação narrativa em razão da sua heterogeneidade e multiplicidade criativa,
por outro, nota-se, depois de mais de uma década da sua criação, sua convergência
(JENKINS, 2009) com as narrativas televisivas de modo que estas se constituem como
âncoras estratégicas àquelas em diversos sentidos.
Foram eleitos canais indicados por fãs durante uma atividade de grupo focal.
Trata-se de gamers, como são chamados os autores dos canais no YouTube, que aliam o
prazer dos jogos eletrônicos à prestação de um serviço de tutorial e que gradualmente se
torna entretenimento, de modo a criarem narrativas audiovisuais que, simultaneamente,
ensinam a jogar e divertem seu público. Uma vez que distribuem essas narrativas no
YouTube, gamers são também conhecidos como youtubers, embora nem todo YouTuber
seja gamer, isto é, nem todo YouTuber adota a gameplay como estratégia narrativa. No
tocante à definição do que vem a ser gameplay, ressalta-se que, embora o termo seja
traduzido por jogabilidade e Fragoso (2017) tenha discutido a gameplay a partir dos
modos de existência do lúdico dentro do jogo, neste texto ela será classificada também
como um gênero audiovisual difundido por serviços de streamings de vídeo como o
YouTube. Com abordagem qualitativa, foram observadas as seguintes gameplays:
 GOD OF WAR 2 #4 - A Fúria dos Titãs! (Gameplay em Português PT-BR)
 Minecraft: Venom e os Aventureiros - Multiplayer #1 - Construindo o Abrigo.
A partir da sua estratégia narrativa, as gameplays têm se tornando um fenômeno
instigante por provocar mudanças de comportamento entre jogadores (players), a saber:

1
Pós-doutorado em Estudos Culturais (PACC/ UFRJ, 2018); DoutoradoemArte e Cultura Visual (FAV/
UFG,2016). ProfessoraAdjunto da Universidade Federal de Goiás, no Programa de Pós-Graduaçãoem
Performances Culturais (PPGPC/ UFG) e naComunicação Social - Publicidade e Propaganda (FIC/
UFG). E-mail: satlerlara@gmail.com
2
Doutora e mestre em Ciência da Informação (UNB), professora associada da UFG na Faculdade de
Informação e Comunicação. E-mail: lauravil.rr@gmail.com
152
se antes da popularização da gameplay, jogadores se reuniam para jogar em ambientes
como os das lan-houses, hoje é comum que eles se reúnam também para assistir tais
narrativas audiovisuais. Considera-se que o estudo faça parte das comunidades de
prática das Humanidades Digitais, uma vez que se caracterizam pelo conjunto dos
paradigmas, know-how e conhecimentos próprios, mobilizando simultaneamente os
instrumentos e as perspectivas singulares do mundo digital (Manifesto das
Humanidades Digitais, 2018). Neste contexto, são apresentados os conceitos da
Inteligência Coletiva no Ciberespaço e grupodidatismo a partir de práticas que
emergiram do encontro entre sujeitos.
É preciso considerar que muitos desses gamers gradativamente aperfeiçoaram a
técnica de captação do áudio e do vídeo na medida em que aprimoraram suas
competências narrativas, performáticas e jogabilidade. Assim, uma qualidade de
imagem e áudio amadora é associada à gamers que estão no início dos seus canais e, por
consequência, a melhora técnica é narrada nos vídeos como sinônimo do seu
crescimento e sucesso. Em termos de performance, quanto mais espontâneo o gamer se
apresentar diante da câmera, mais autêntica e aceita será sua narrativa. Contudo, tal
espontaneidade possui um protocolo expresso pelo linguajar urbano, cosmopolita e de
classe média alta.
O estudo conclui que, embora segundo Demo (2011, p.57) existam persistentes
desigualdades de acesso, a socialidade observada rejeita a hierarquia favorecendo uma
zona autônoma sempre aberta de comunicação e produção igualitária.
As redes em torno de gameplays possuem como base uma contribuição, em
geral prazerosa de dons livres além do sentimento de proximidade de interesses
fortalecendo os laços e relações de confiança. Vemos cidadãos comuns se tornando
referência, em uma determinada prática, neste caso os jogos, aperfeiçoando suas
técnicas de produção e narração contribuindo para a produção de um conhecimento
tácito, o qual é fortemente definido pela prática e informalidade, mas não menos
importante do que o conhecimento formal, explícito.
A gameplay, tal como se conhece foi sendo criada ao mesmo tempo em que os
jogadores se descobrem enquanto sujeitos produtores de conteúdo no YouTube.
Na análise, o grupodidatismo se expressa, além da produção conjunta com
gamers de outros canais, na opinião do público registrada nos comentários e nas
curtidas das gameplays. Observa-se, quão importante é para os canais esta avaliação do

153
público sobre suas narrativas audiovisuais, que permitem também se obter privilégios
junto ao YouTube. Embora tenha se discutido este aspecto em outro momento, tem-se
que mais vale a interação entre o canal e os seus fãs, pois é desta interação que emerge o
grupodidatismo, ou seja, novos saberes para os youtubers e pistas sobre inovações
narrativas que, ao serem produzidas, agradarão aos fãs. Neste aspecto, nota-se que o
grupodidatismo no ciberespaço é responsável por inovações em termos de gênero e
formatos audiovisuais.

Palavras-chave: Grupodidatismo. Cibercultura.Gameplay. Narrativas.

REFERÊNCIAS

BELCZAK COSTA, Maria Eugênia. Grupo focal. In: DUARTE, J. BARROS, A


(Orgs.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005.
p.180-192

BURGESS, J; GREEN, J. YouTube e a revolução digital: como o maior fenômeno da


cultura participativa transformou a mídia e a sociedade. São Paulo: Aleph, 2009.

BUSA, Roberto. “ oreword: Perspectives on the Digital Humanities”. In Susan


Schreibman Ray Siemens and John Unsworth, eds., Blackwell Companion to Digital
Humanities. Oxford: BlackwellPublishing, 2004.

DEMO, Pedro. A força sem força do melhor argumento: ensaio sobre “novas
epistemologias virtuais”. Brasília, IBICT, 2011.

FRAGOSO, Suely. Os modos de existência do gameplay: um exercício de aplicação


com cities: Skylines. In: Encontro Anual da Compós, XXVI, 2017, São Paulo. Os
modos de existência do gameplay: um exercício de aplicação com cities: Skylines.
São Paulo: Compós, 2017. p.1-22.

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2009. 428p.


Kirschenbaum, M. G. What is digital humanities and what’s it doing in english
departments? ADE Bulletin, n.150 , pag.55-61. 2010. Disponível em:
<https://mkirschenbaum.files.wordpress.com/2011/03/ade-final.pdf>. Acesso em: 22 de
Fev. 2018.

LA CRUZ, S. E. M. Plataformas de vídeo: apontamentos para uma ecologia do


audiovisual na web na contemporaneidade. Vale do Rio dos Sinos,2012. 220 p. Tese
(Doutorado em Ciências da Comunicação). PPG Ciências da Comunicação,
Universidade Vale do Rio dos Sinos.

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São


Paulo: Loyola, 2015. 214p.

154
MANIFESTO das Humanidades Digitais. Disponível em:
<http://tcp.hypotheses.org/411 >. Acesso em: 21 de Fev.2018.

MOTA, José Carlos. Da web 2.0 ao e-learning 2.0: aprender na rede. 2009. 198 f.
Dissertação (Mestrado em pedagogia do e-learning) – Universidade aberta. [s.l.]
Disponível em : <http://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/1381>. Acesso em: 25
de jan. 2017.

RELVA, Vítor. A partilha de informação e aquisição de conhecimento nas Redes


Sociais: a utilização do Facebook e do Google+ pelos estudantes da Faculdade de
Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra: [s.n.], 2015. Dissertação de mestrado.
Disponível em: <http://hdl.handle.net/10316/31181>. Acesso em 20 dez. 2016.

SATLER, L. L. Tramas formativas em audiovisual: ação docente e coletividades.


Mauritius: Novas Edições Acadêmicas, 2017. 265 p.

SIBILIA, P. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto,


2016.

STUMPF, I. R. C. Pesquisa bibliográfica. In: DUARTE, J. ; BARROS, A. (Orgs.)


Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005. p. 51-61.

VANOYE, Francis. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Papirus, 2009, 152p.

WESTENBERG, W. The influence of YouTubers on teenagers. Enschede, 2016. 35p.


Dissertação (Mestrado em Estudos Comunicacionais). UniversityofTwente, The
Netherlands.

155
POR UMA NOÇÃO DE TRANSPARÊNCIA: EM BUSCA DO REALISMO
FOTOGRÁFICO DOS ANOS 1920

Douglas Feitosa Romão1

RESUMO

Com esta exposição objetivamos, por meio de pesquisa bibliográfica, refletir


acerca do Realismo na fotografia e como este teria se relacionado historicamente com a
legitimação de um aspecto documental da fotografia entendido como “transparente”.
Delineamos algumas noções sobre a função da fotografia a partir de Charles Baudelaire
como a apropriação da fotografia enquanto instrumento de representação deslocando-a
do campo das artes e validando um certo caráter epistêmico que lhe seria intrínseco.
Deste modo esperamos refletir sobre alguns processos culturais e regimes de
visualidade do início dos anos 1920 como desdobramentos desta interpretação da
fotografia centrada na máquina. Em particular analisamos a recepção do argumento
realista na Alemanha pela Nova Objetividade, na versão de Albert Renger-Patzsch, cujo
fazer fotográfico costuma ser compreendido como elemento constituinte da
modernização da fotografia de imprensa e publicitária.
A partir da crítica de Charles Baudelaire em Le publicmoderne et
laphotographie (1859) onde opõe-se ao uso artístico da fotografia em defesa da arte
pictórica, poderíamos obter uma certa compreensão de Realismo e transparência
fotográfica ao reservar um lugar de atuação da fotografia nos “arquivos da memória”.
Como se a “máquina” traísse a imaginação e certo progresso industrial fomentasse a
“estupidez da massa”, que veria arte na imagem fiel à natureza - mesmo que não
passasse pelo gênio do artista -, mas não subtraísse a realidade no cálculo racional. Com
o auxílio da leitura de Walter Benjamin em Sobre alguns temas em Baudelaire (1939),
parece-nos que quanto mais Baudelaire agarra-se a certa experiência das belas-artes
tanto mais parece evidenciar seu declínio. Experiência que, em se tratando do campo da
Comunicação, numa interpretação benjaminiana, teria sofrido atrofia crescente quando a
forma antiga de narrativa foi substituída pela informação e em seguida pela sensação.

1
Doutorando e Mestre em Comunicação do PPGCOM da UFF, Niterói, RJ. Bacharel em Filosofia pela
USP, São Paulo, SP. Bolsista CAPES, e-mail: romao.doug@gmail.com
156
Se tomássemos essa experiência da fotografia enquanto informação, seria
necessário crer que haveria um valor epistêmico que orientasse a imagem fotográfica
mantendo uma fidedignidade à natureza. A fotografia pareceria se uma representação da
natureza em si como uma forma não mediada da realidade. O meio seria considerado
transparente. Considerando-se que se origina do latim médio no século XIII, como um
meio que deixa passar a luz e que deixa ver objetos com nitidez, transparência –
transparens, trans- 'através de' + parēre 'aparecer' – não teve seu sentido tão modificado.
Significa na atualidade permitir o acesso de algo através de um meio que não apenas
não o oculte, mas o torne evidente. Parece-nos, então, que esta característica de
transparência seria motivo de especulação na história da fotografia, como elemento
fundamental para sua interpretação realista. Sobretudo por conta do dispositivo
fotográfico, cuja máquina seria isenta da ação humana garantindo uma certa
contiguidade entre um assunto e sua fotografia.
Parece ter sido essa a retomada “realista”, por assim dizer, da Nova
Objetividade de Albert Renger-Patzsch nos anos 1920. Entre os anos de 1928 e 1930, na
Alemanha da República de Weimar, em afinação com a teoria da Sachlichkeit
(Objetividade) no campo artístico, a fotografia alemã pressupunha ser capaz de
demonstrar a significância estrutural dos objetos que isolava. Assim, num argumento
circular sobre a ordem interna do objeto, ela teria objetificado o processo de produção
da imagem, tendo por consequência a retirada do elemento subjetivo da fotografia, isto
é, supostamente permanecendo apenas o real.
Esta tentativa de abordar a fotografia como um instrumento para descobrir o
objeto puro poderia nos auxiliar a refletir sobre a uma retomada realista. A produção
fotográfica, por exemplo em reportagens, teria passado a concorrer fortemente com a
narrativa textual sob a forma visual, como se fosse mais verossímil e narrativa. Assim
parece-nos as apropriações da nova objetividade.
Essa maneira de produzir fotografia teria criado, segundo Herbert Molderings
(1977, p. 83, tradução nossa), a “verdadeira natureza-morta do século vinte: expressão
pictórica do fetichismo da mercadoria.”. Como consequência, criando o que se chamou
transfiguração estética (Verklärung) por Bertolt Brecht e Walter Benjamin. Para este, no
texto “O autor como produtor” (1934) o ímpeto excepcional da fotografia deve-se à sua
técnica de publicação, no caso mencionando-se a imprensa ilustrada (BENJAMIN,
2008). Benjamin compara a força revolucionária do dadaísmo na capacidade de

157
submeter a arte à prova de sua autenticidade, já que suas naturezas-mortas eram feitas
com elementos do cotidiano associados a elementos pictóricos que, quando mostradas
ao público faziam a moldura explodir o tempo (BENJAMIN, 2008). Porém, com a
modernização da fotografia, esta tornou-se cada vez mais matizada e já não poderia
mais fotografar “cortiços ou montes de lixo” sem transfigurá-lo, restando apenas dizer
“o mundo é belo”, em alusão ao livro Die weltistschön de Renger-Patzsch publicado em
1928. Para o filósofo, interpretar o fotolivro de Renger-Patzsch seria obter a
representação do apogeu da Nova Objetividade. Isto é, na leitura benjaminiana, a
obtenção de uma prática que conseguiu transformar a miséria em objeto de fruição, pois
teria captado o mundo segundo a moda, alimentando as massas e abastecendo a
indústria da comunicação sem modificá-la. Assim ocorrendo, pois seria inevitável
atribuir um valor estético, mesmo que ela não fosse artística.
Por isso mesmo, fotógrafos como Renger-Patzsch, que seguiam os preceitos
da Nova Objetividade, estavam de tal modo interessados nas qualidades estruturais e de
uma certa objetificação técnica que teriam sido responsáveis pela criação da fotografia
publicitária. Este tipo de fotografia, apesar de seu caráter comercial, ao ver de Renger-
Patzsch teria qualidade estética do mesmo modo que uma obra de arte. Essa qualidade
fotográfica seria o realismo e a fidelidade de reprodução. Sem se preocupar em
concorrer com a arte pictórica para sua legitimação, o fotógrafo alemão afirmava que as
artes deveriam ser abandonadas aos artistas, pois o esforço de criar imagens pela
qualidade fotográfica, sem alterações, revelava uma natureza que não seria pobre ao
ponto de necessitar aperfeiçoamento, como faziam os pictorialistas. Colocava, então, o
fotógrafo completamente consciente de um certo fazer.
Deste modo, refletir sobre uma noção de transparência parece-nos auxiliar a
compreender a retomada de interpretação realista do mundo, sobretudo após a Grande
Guerra e a desconfiança acerca dos administradores da informação: o estado e
corporações com interesse comercial. Nesta pesquisa vemos o realismo como um
conceito multifacetado que, a depender de sua compreensão, apresenta visões de mundo
contrastantes e estetizadas como diz Benjamin sobre a forma fascista. Por conseguinte,
parece-nos revelar como uma determinada sociedade e periodização histórica
representaram a si mesmas com seus regimes próprios de visualidade. Desse modo,
pensamos que a autonomização da fotografia em relação ao pictórico pode ter ao

158
mesmo tempo caracterizado uma modernidade fotográfica operando uma relação mais
poética com as imagens fotográficas.

Palavras-chave: Transparência. Modernidade. Fotografia. Revista Ilustrada. Realismo.

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, W. Obras escolhidas I. Magia e técnica, Arte e política. São Paulo:


Brasiliense, 2008.

_____. Obras escolhidas III. Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo.


São Paulo: Brasiliense, 2010.

BAUDELAIRE, C. Le public moderne et la photographie. Études photographiques,


Paris, n. 6, Mai 1999. Disponivel em: <http://etudesphotographiques.revues.org/185>.
Acesso em: 10 ago. 2014.

LUGON, O. La Photographie en Allemagne. Anthologie de textes (1919-1939).


Nîmes: Jacqueline Chambon, 1997.

MOIDERINGS, H. Überlegungen zur Fotografie der Neuen Sachlichkeit und des


Bauhauses. Kritische Berichte, Marburg, v. 5, n. 2/3, p. 67-88, 1977.

159
BABY DRIVER: REMIX COMO NARRATIVA

Dayane Costa Oliveira da Silva1


Lucas Alves de Brito2
Bruna Rafaella Almeida da Costa3
Goiamérico Felício Carneiro dos Santos4
Ricardo Pavan5
Rosana Maria Ribeiro Borges6

RESUMO

Analisa-se o filme dirigido por Edgar Wright, Baby Driver (2017), lançado no
Brasil com o nome “Em Ritmo de Fuga”, que conta a história de Baby (Interpretado por
AnselElgort), um jovem apaixonado por música e um habilidoso piloto de fuga, coagido
a trabalhar pelo maior mafioso da cidade, o Doc (interpretado por Kevin Spacey). Ao
apaixonar-se por Debora (Interpretada por Lily James), Baby luta por sua saída do
mundo do crime após seu último assalto.
O objetivo do trabalho é analisar como o filme utiliza-se do remix como recurso
de construção narrativa. A problemática se concentra nos questionamentos levantados
pelo cinema contemporâneo e pela utilização de novos métodos de produção dentro da
cultura midiática — especificamente, o remix. Como metodologia e instrumento de
análise, utiliza-se a Análise Fílmica como proposta por Vanoye e Goliot-Lété (2012)
onde, a partir da decomposição das cenas do filme selecionado em seus elementos
básicos (frames, uso de trilha sonora, tempo de duração), será possível observar como
os recursos sonoros são utilizados na mídia fílmica de forma a construir a narrativa. Em
meio a uma miscelânea de produtos no espaço cultural atual, o cinema mantém seu
status dinâmico e criativo (LIPOVETSKY; SERROY, 2009), abrindo mão de novas
possibilidades técnicas e, assim, mantendo sua vitalidade. Dentre tais possibilidades

1
Mestranda em Comunicação: Mídia e Cultura (UFG). Graduada em Artes Visuais (UFG). E-mail:
dayanecosta91@gmail.com
2
Mestrando em Comunicação: Mídia e Cultura (UFG). Graduado em Comunicação Social: Publicidade e
Propaganda (UFG). E-mail: alvesdebrito.lucas@gmail.com
3
Mestranda em Comunicação: Mídia e Cultura (UFG). Graduada em Comunicação Social: Rádio e TV
(UFMA). E-mail: brunaalmeida87@gmail.com
4
Doutor em Comunicação e docente do PPGCOM da Faculdade de Informação e Comunicação da
Universidade Federal de Goiás. E-mail: goiamerico@gmail.com
5
Doutor em Comunicação e docente do PPGCOM da Faculdade de Informação e Comunicação da
Universidade Federal de Goiás. E-mail: pavan.ufg@gmail.com
6
Doutora em Geografia e docente do PPGCOM da Faculdade de Informação e Comunicação da
Universidade Federal de Goiás. E-mail: professorarosanaborges@gmail.com
160
Baby Driver explora os recursos sonoros a partir do remix, criando camadas diegéticas e
extradiegéticas (dentro do universo fictício e fora do mesmo, respectivamente) que
constituem uma narrativa singular. O termo remix popularizou-se na música através de
artistas como Lee “Scratch” Perry no dube Grandmaster Flash no hip-hip, que
utilizavam fragmentos de clipes sonoros pré-existentes (chamados de samples) para
novas composições (NAVAS, 2012). Entretanto, com os avanços tecnológicos, a
popularização e o barateamento da Internet, softwares e novas mídias, as técnicas de
apropriação do remix perpassaram o campo da música, atingindo várias práticas
culturais e sociais, originando uma cultura doremix que valoriza e potencializa o
cortar/copiar e colar, compreendo tais ações como ferramentas criativas que resgatam
formas do passado e as reinsere em contextos diferentes. Tanto em produções artísticas
como músicas e filmes, como prática do dia-a-dia como escrever em um software editor
de texto e utilizar uma rede social o remix está presente. Assim como Lev Manovich
(2002) argumenta, o remix da era do software e da “computação cultural” é influenciado
pela estética de movimentos como a avant-gardede 1910-1920 e o pós-modernismo
com suas montagens e foto-colagens, aproveitando o excesso de informação disponível
na época, manipulando conteúdos pré-existentes.
Todavia, tais movimentos se diferenciam do remix porque este, ao contrário dos
anteriores,não valoriza o contraste, e sim a continuidade e suavidade com que esses
conteúdos são rearranjados em novas obras. É cada vez mais difícil distinguir o que é
“sample” e o que é “original” em uma nova criação. No filme Baby Driver o remix é um
recurso constante e peça fundamental da obra. Observa-se no filme analisado, que para
criar uma história, o diretor utiliza o remix em várias camadas da narrativa, divididos
em três tipos. Primeiramente, o próprio protagonista é um músico amador que compõe
faixas através de samples, utilizando como matéria-prima desde falas do dia-a-dia
capturadas através de seu gravador, instrumentos analógicos empilhados em sua casa e
trechos de discos antigos que coleciona. Segundo, observa-se que Baby apropria-se de
referências culturais que tem contato durante o filme e as utiliza na sua vida,
construindo sua própria história através desses fragmentos.
Os diálogos escutados em sua televisão, por exemplo, são apropriados em vários
momentos do filme. Por último existe o remix por parte do diretor, principalmente com
o uso de eastereggs, referências culturais que perpassam a própria diegese do filme que
são “sampleadas” na narrativa, retiradas de vários locais como filmes, programas de

161
televisão e músicas para compor a história. Tais elementos constituem uma
característica específica do cinema contemporâneo de se apropriar de elementos
culturais pré-existentes e os ressignificar na tela (LIPOVETSKY; SERROY, 2009).
Esses fragmentos também são recursos comuns no que se define por narrativas
complexas (MITTELL, 2015), colocados como pequenos desafios para o espectador
mais atento, conhecedor da cultura pop, exigindo uma grande atenção cognitiva ao
mesmo tempo que gera um prazer a mais em contraste aqueles que não pegaram as
referências (JOHNSON, 2005).

Palavras-chave: Narrativa. Audiovisual. Remix. Análise Fílmica.

REFERÊNCIAS

JOHNSON, Steven. Everything bad is good for you: how today’s popular culture is
actually making us smarter. New York: Riverhead Books, 2005.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A tela global: mídias culturais e cinema na era
hipermoderna. Porto Alegre: Sulina, 2009.

MANOVICH, Lev. The Language of New Media. MIT Press, 2002.

MITTELL, Jason. Complex TV: the poetics of contemporary television storytelling. New
York: New York University Press, 2015.

NAVAS, Eduardo. Remix Theory: The Aesthetics of Sampling. New York: Springer
Wien, 2012.

VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. 7. ed.


Campinas: Papirus, 2012.

162
SWORDSWOMAN: A REPRESENTAÇÃO DA MULHER ESPADACHIM
NAS SÉRIES VIKINGS E GAME OF THRONES

Larissa Farias Vieira1


Sálvio Juliano Peixoto Farias2

RESUMO

Com a difusão da televisão por assinatura e a disponibilidade dos serviços on


demand e streaming pela internet, as séries – narrativas seriadas – tem ganhado
crescente popularidade. Salientamos, dentro dessa gama de opções, para fins de
delimitação temática e de objeto de análise, as séries épicas: Vikings e Game of
Thrones. Dentro desses universos narrativos nos voltamos para a observação e reflexão
a respeito da representação da mulher espadachim, no caso, a personagem Lagertha
Lothbrok, em Vikings, e Brienne of Tarth, em Game of Thrones.
E por meio dessas personagens entender o que essa representação nos diz a
respeito da associação da força física e a emancipação (empoderamento feminino)
dessas mulheres, ou se essa associação reforma estereótipos de gênero. Assim como,
analisar até que ponto a masculinização – no sentido de que essas mulheres estão
tomando características tidas como masculinas – é uma visão construída pela
normatividade de gênero e de que maneira as personagens conquistam relevância
narrativa por meio da incorporação dessas características. Para além disso, explorar
como o exercício de papéis tradicionalmente masculinos interfere no processo de
construção da identidade de Lagertha Lothbrok e Brienne of Tarth e como isso afeta a
suas relações com as personagens que desenvolvem papéis tradicionalmente femininos.
Por fim, problematizar a questão do empoderamento por meio do desprezo das
características relacionadas ao feminino em detrimento das características masculinas.
O embasamento teórico para a compreensão e observação da temática, se deu
pelo encontro entre os Estudos Fílmicos – que perpassam a televisão e a produção
audiovisual como um todo – e os Estudos de Gênero dos quais surgiram pesquisas
voltadas à compreensão da maneira como os papéis femininos são representados ao
longo da história do cinema e da televisão. Buscando compreender as significações e
ressignificações que as personagens mulheres reverberam dentro das narrativas.

1
Graduanda do Curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal de Goiás. e-mail:
larissa fariasv@hotmail.com.
2
Professor e Mestre em Artes Visuais e Comunicação Visual, e-mail: salvioj@gmail.com.
163
Para os fins da execução da análise foram aplicadas a análise fílmica, que teve
por objetivo um exame mais profundo do produto audiovisual – séries – e de suas
características poéticas e estéticas e da forma como ela se inscreve na tradição e história
cinematográfica (FRANÇA, 2002, p. 60-61). Essa análise se deu em duas etapas: em
primeiro lugar decompor, ou seja, descrever e, em seguida, estabelecer e compreender
as relações entre esses elementos decompostos, ou seja, interpretar (VANOYE, 1994
apud PENAFRIA, 2009, p.1).
Uma vez que essa pesquisa foi composta pela análise de um produto audiovisual,
a análise documental fez-se necessária por trazer a identificação, a verificação e
apreciação de documentos (MOREIRA, 2005, p. 271-272) permitindo verificar o teor e
o conteúdo do material selecionado para análise. E muito mais que localizar, identificar,
organizar e avaliar textos, som e imagem, esse método funcionou como estratégia eficaz
para contextualizar fatos, situações, momentos. E dessa maneira, conseguimos
introduzir novas perspectivas em outros ambientes e construir diálogos entre as
personagens sem deixar de respeitar a substância original dos documentos. (MOREIRA,
2005, p. 276)
Ao fim da pesquisa, constatamos que Lagertha Lothbroke e Brienne of Tarth são
representadas enquanto assumem posições de poder e autonomia. Acerca disso a
provocação de Kaplan (1995, p. 51) reverberou durante todo o processo: quando uma
mulher espadachim está na posição dominante, ela assume uma posição masculina?
Lagertha e Brienne parecem negociar essa noção de representação dominante masculina
quando se comportam ou enunciam como seus congêneres espadachins. Contudo
quando se toma a noção de performance em Butler (2003) nos dá uma alternativa sobre
como observar e analisar essa postura. Uma vez que, as formas como elas representam
pode ser ressignificação de comportamento. Ainda assim, esse caminho tem potencial
subversivo real? Seria essa paródia realmente libertária e progressista? Ou elas estariam
apenas travestindo e reverberando os discursos normativos e estereotipados.
Diferentemente do que foi observado por Kaplan (1995, p. 59) em sua análise do
cinema hollywoodiano, que demonstrava “amplamente as formas pelas quais os mitos
patriarcais funcionam para situar a mulher como silenciosa, ausente e marginal”, essas
duas heroínas mostraram que apesar de falhas em alguns níveis de representação, tem
vozes, são fortemente presentes e conquistam espaços de protagonismo (mesmo que
ainda não um protagonismo completo) nas narrativas. Contribuindo para a

164
desconstrução dos padrões culturais e linguísticos a respeito das oposições
dominador(ativo) e submisso(passivo).
Ao observar a representação física das personagens, a swordswoman Brienne é
vista como uma mulher sem os atrativos físicos esperados de uma mulher e por
consequência, assexualizada e abdicando de seu título de “dama” nobre para poder
seguir o caminho que deseja. Ainda assim, esse caminho é em prol de servir alguém a
todo tempo. Enquanto Lagertha parece ser seu extremo oposto nesse tipo de
personagem, ela é convencionalmente vista como uma mulher bonita e sexualmente
desejável, e por meio da sua habilidade enquanto guerreira e ser alguém estimado
socialmente ela não só almeja, mas consegue conquistar os títulos sociais mais altos de
sua sociedade.
E partindo do pressuposto de que as “representações não apenas são múltiplas,
mas elas podem, também, se transformar ou se contrapor” (LOURO, 2003, p. 102), a
representação de Lagertha foi fundamental. Uma vez que para além de swordswoman,
ela associa e concilia diferentes características de identidade, como a maternidade e seu
posicionamento sexualmente agressivo. Sua performance de swordswoman não
significa uma identidade fixa – estereotipada –, essa personagem constrói suas
significações do decorrer da sua jornada. Nesse ponto Brienne apresentou um abandono
quase total daquilo que normativamente a caracterizaria como uma mulher – ela ainda
apresenta traços de inocência estereotipadas.
Lembramos que ambas produções são de autoria e produção masculina. O fato
dessas narrativas terem proporcionado o aparecimento e o trânsito dessas personagens a
posições de destaque não significa que suas representações estão preocupadas em trazer
características empoderadoras, subversivas ou uma alternativa à narrativa
machista/misógina. Mas não se pode negar que são reformas nas conjunturas clássicas
de narrativas e mostram que a demanda do público (movimentos e teóricas feministas)
surte efeito e tem gerado mudanças.

Palavras-chave: gênero, representação, swordswoman, séries.

REFERÊNCIAS

ABREU, Karen Cristina Kraemer; SILVA, Rodolfo Sgorla da. História e tecnologias da
televisão. BOOC–Biblioteca Online de Ciências da Comunicação, 2012.

165
ALMEIDA, Roberta Regalcce de. O remix midiático das séries de televisão Cowboy
Bebop e Samurai Champloo. 2010. 180 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) -
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010. Disponível em:
<http://www.bocc.ubi.pt/pag/almeida-roberta-o-remix-mediatico-das-series-de-
televisao.pdf> Acessado em: 06 de nov. de 2017

BARROSO, Graciele; NORONHA, Karla Rossana F.R. TV pós digital: novas formas
de construção televisiva na sociedade midiatizada. In: MASCARENHAS, Alan, Elton
Bruno Pinheiro; TAVARES, Olga. Culturas Midiáticas Audiovisuais: estudos. Ideia,
João Pessoa. 2014. 297p. Disponível em:
<http://www.insite.pro.br/elivre/olga_pc_tablet.pdf> Acesso em: 23 de out. de 2017

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de


Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 2003, 235p.

COUTO, Paloma Rodrigues Destro. Um jogo de rainhas: as mulheres de Game


ofThrones. Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-Graduação em Comunicação),
Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, Fevereiro. 2015, 124p.

FRANÇA, André Ramos. Das teorias do cinema à análise fílmica. 2002. 157 f.
Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporâneas), Universidade
Federal da Bahia, Salvador, 2002. Disponível em:
<http://www.andrefranca.com/andre/dissertacao.pdf>. Acesso em: 12 de jul. de 2017

GOMES, Marcelo Bolshaw. Os pergaminhos de Amphipolis: Aforismos meta


narrativos sobre a saga da Princesa Guerreira. Temática, Paraíba, Ano IX, n.10,
out.2013. Disponível em:
<http://www.biblionline.ufpb.br/ojs2/index.php/tematica/article/view/21368/11833>
Acesso em: 11 de out. de 2017.

HALL, C. S., NORDBY, V. J. Introdução à Psicologia junquiana. Trad. por Heloysa


de Lima Dantas. São Paulo, Cultrix, 2005, 122p.

JENKINS, Henry. Venere no altar da convergência: um novo paradigma para entender a


transformação midiática. In: ______. Cultura da Convergência, São Paulo, Aleph,
2008, p. 25-50.

JULLIER, Laurent; MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. Tradução: Magda


Lopes. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009, 285 p.

KAPLAN, E. Ann. A mulher e o cinema: os dois lados da câmera. Tradução: Helen


Marcia Potter Pessoa. Rio de Janeiro, Rocco, 1995, 347p.

LOURO, Guacira Lopes. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. Revista


Pro-Posições, v.19, n. 2(56), MAI/AGO 2008, p.17-23. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf.>. Acesso em: 8 de nov. de 2017

______. Gênero, sexualidade e educação. Uma perspectiva pós-estruturalista. 6.ed.


Petrópolis: Vozes, 2003.

166
MACHADO, Arlindo. A arte do vídeo. São Paulo. 3. ed. Editora Brasiliense, 1995,
225p.

______. A televisão levada a sério. São Paulo. 3. ed. Editora Senac São Paulo, 2003,
244 p.

MACHADO, Liliane Maria Macedo. E a mídia criou a mulher: como a tv e o cinema


constroem o sistema de sexo/gênero. 2006. 244 f. Tese (Doutorado em História) –
Universidade de Brasília, Brasília, 2006. Disponível em:
<http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/3409/1/Liliane%20MariaMacedo%20Macha
do.pdf> Acesso em: 17 de jun. de 2017

MATESCO, Viviane. Corpo, imagem e representação. Rio de Janeiro. Jorge Zahar


Editor 2009. 62p.

MOREIRA, Sonia Virgínia. Análise documental como método e técnica. In: DUARTE,
Jorge; BARROS, Antônio. Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação 2.ed. São
Paulo: Atlas, 2005, p. 269-279.

MULVEY, Laura. Prazer Visual e Cinema Narrativo. In: XAVIER, Ismail. A


experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2003, p. 437-53.

______. Reflexões sobre “Prazer visual e cinema narrativo” inspiradas por Duelo ao
sol, de King Vidor (1946). RAMOS, Fernão (Org.). Teoria Contemporânea do
Cinema. São Paulo: Senac, v. 1, p. 381-392, 2005.

PENAFRIA, Manuela. Análise de Filmes: conceitos e metodologia(s). VI Congresso


SOPCOM. Vol. 6. 2009.

PRESS, Andrea L. Women watching television: gender, class, and generation in


american television experience. Pensilvânia. Universityof Pennsylvania Press. 1991.
238 p.

RAGO, Margareth. Epistemologia feminista, gênero e história. Masculino, feminino,


plural. Florianópolis: Ed. Mulheres, 1998, 25-37p. Disponível em:
<http://files.mudem.webnode.com/200000074-
71426723a2/Epistemologia%20feminista,%20g%C3%AAnero%20e%20hist%C3%B3ri
a.pdf> Acessado em: 08 de nov. de 2017.

RODRIGUES, E. Arquivo X:Um Estudo das Relações entre o Cinema e a Televisão.


2010. Disponível em: <http://www.bocc.ubi.pt/pag/rodrigues-eduardo-arquivo-x.pdf>
Acesso em: 25 de out. de 2017.

ROSÁRIO, Nísia Martins do. Formatos e gêneros em corpos eletrônicos. In:


DUARTE, Elizabeth Bastos; CASTRO, Lília Dias de. (Org.) Comunicação
audiovisual: gêneros e formatos. Porto Alegre. Editora Sulina. 2007, 203 p.

ROSSINI, Miriam de Souza. Convergência tecnológica e os novos formatos híbridos


de produtos audiovisuais. In: DUARTE, Elizabeth Bastos; CASTRO, Lília Dias de.

167
(Org.) Comunicação audiovisual: gêneros e formatos. Porto Alegre. Editora Sulina.
2007, 203 p.

ROVIROSA, Anna Tous. O tratamento da mulher nas séries televisivas norte-


americanas Women'streatment in thenorthamerican tv series. Contemporânea-Revista
de Comunicação e Cultura v.12, n°1, 2014, 234-260 p. Disponível em:
<https://portalseer.ufba.br/index.php/contemporaneaposcom/article/view/8963/7538>.
Acesso em: 20 de nov. de 2017

SACCOMORI, Camila. Qualquer coisa a qualquer hora em qualquer lugar: as novas


experiências de consumo de seriados via Netflix. Revista Temática, v. 11, n. 4, 2015.
Disponível em:
<http://www.biblionline.ufpb.br/ojs/index.php/tematica/article/view/23903/13106>.
Acesso em: 25 de jun. de 2017

SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria queer. Tradução: Louro, Guacira Lopes. Autêntica
editora, Belo Horizonte, 2012. Resenha de: ROCHA, Cássio Bruno Araújo. Um
pequeno guia ao pensamento, aos conceitos, e a obra de Butler. Cadernos Pagu (on-
line version), n. 43, Campinas Jul/Dez. 2014. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332014000200507>.
Acesso em: 19 de nov. de 2017

SANDVOSS, Cornel. Quando estrutura e agência se encontram: os fãs e o


poder. Ciberlegenda, n. 28, p. 8, 2013.

SILVA, Marcel Vieira Barreto. Cultura das séries: forma, contexto e consumo de ficção
seriada na contemporaneidade. Galaxia (São Paulo, Online), n. 27, p. 241-252 (2014).
Disponível em: <http://www.redalyc.org/html/3996/399641253020/>. Acesso em: 23 de
jun. de 2017

SOUZA, José Carlos Arochi de. Gêneros e formatos na televisão brasileira. São
Paulo. Summus, 2004.

VÁZQUEZ, Celia, ed. Diálogos intertextuales: en busca de la voz femenina. Lang,


2010. Disponível em: <http://www.newbooks-
services.de/MediaFiles/Texts/9/9783631589229_Intro_002.pdf>. Acesso em: 10 de nov.
de 2017

WEISS, Gail. Body Images: embodiment as intercorporeality. Nova Iorque. Routledge


1999.

Vikings. Produção: Steve Wakefield, Keith Thompson, Sanne Wohlenberg. Roteiro:


Michael Hirst. HistoryChannel. País de origem: Irlanda-Canadá. 2013-2017. 51
episódios (45 min.) Disponível em: <https://gostream.is/movie/search/Vikings>

Game of Thrones. Direção: D.B. Weiss e David Benioff. Produção: D.B. Weiss, David
Benioff, Carolyn Strauss, Frank Doelger, Bernadette Caulfield, George R.R. Martin.
Home Box Office Inc (HBO). Nova Iorque – EUA. 2011-2017. Formato de exibição:
1080i (16:9 HDTV). Dolby Digital 5.1. 67 episódios (60-80 min. de duração).
Disponível em: <https://gostream.is/movie/search/game+of+thrones>.
168
A POSE FOTOGRÁFICA NOS RETRATOS DOS ÁLBUNS DE FAMÍLIA:
UMA PROPOSTA DE CRUZAMENTO DE IMAGENS

Rafael Delfino Rodrigues Alves1


Ana Rita Vidica Fernandes2

RESUMO

Este artigo busca pensar as relações das poses fotográficas dos retratos de
família, a partir do cruzamento de imagens entre fotografias veiculadas em álbuns de
família impressos, perfis de redes sociais, retratos de anúncios publicitários e outras
fontes a fim de refletir sobre como “fenômenos” da fotografia, especificamente as poses
fotográficas, podem criar um “sistema de pensamento” dessas imagens. Embora exista
uma diferença das mídias escolhidas e do tempo em que foram realizadas, como estes
meios criam um sistema de pensamento através das poses do retrato fotográfico da
família?
Parte-se da discussão teórica proposta por EtienneSamain (2012) que considera a
existência de uma vida própria às imagens, acreditando que por meio de “fenômenos”
elas possam criar um “sistema de pensamento”. Para estabelecer relações possíveis entre
as poses fotográficas em diferentes mídias de diferentes épocas, propõe-se um
cruzamento de imagens, alinhando-se à proposta conceitual-metodológica de Didi-
Huberman (2013), que faz uma atualização/releitura dos processos de produção dos
Atlas Mnemosyne de WarburgAby. A partir disso, Didi-Huberman propõe a realização
de “cruzamentos”, “montagens” e “agrupamentos”, que neste trabalho será realizado
com retratos da família para perceber como as poses fotográficas se relacionam ao
longo do tempo e em diferentes mídias.
Ambos os autores compreendem a imagem como portadora de um pensamento,
que pode ser acessado ao olhar um agrupamento de imagens, cruzando-as e percebendo
as suas possíveis relações. Segue-se esta perspectiva, a fim de refletir sobre as poses
presentes nos álbuns de família cruzando-as entre si e com outras imagens.

1
Mestrando em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade
Federal de Goiás, rafaeldelfino331@gmail.com
2
Doutora em História pela Faculdade de História-UFG (2017) com doutorado sanduíche na École dês
Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS-Paris), professora do Programa de Pós-graduação em
Comunicação da Universidade Federal de Goiás, anavidica@gmail.com
169
A escolha do objeto de estudo, poses fotográficas da família, tanto em álbuns de
família impressos, quanto em publicações de aplicativos midiáticos sociais online e
outras mídias em que a fotografia possa estar presente, deve-se à sua relevância social,
histórica e cultural para a compreensão da relação que as imagens criam em um
universo de fenômenos e significações.
O retrato de família, que segundo Leite (2001, p. 77), é encarado como um
documento fotográfico que leva em consideração o tratamento com a imagem, o seu
trato, uma tentativa de extrair e ao mesmo tempo tratar o que há de mais importante nas
relações familiares de uma época. Enquanto Silva (2008, p. 177), em uma atualização
desta temática, questiona a construção do retrato, do álbum e da própria definição de
família no século XXI, pensado também em sua aplicação em dispositivos no universo
digital e das redes sociais. Ao perceber como o retrato de família insere-se em diferentes
mídias na atualidade e em alguns casos dialoga com poses fotográficas de uma estética
de álbuns de família impressos, pensou-se na relação que essas imagens podem criar em
um sistema para o retrato familiar.
O desenvolvimento do artigo se dará, portanto, a partir de uma apresentação
conceitual sobre retrato de família e seus possíveis álbuns, através de Leite (2001) e
Silva (2008), além da discussão específica sobre as poses e os trejeitos no retrato e em
fotografias familiares, encontrada em Turazzi (1995) e em Muaze (2006). Essa
discussão se liga à metodologia do cruzamento de imagens proposto por Didi-
Huberman (2013), por meio da escolha de uma amostra de uma família e a relação que
o arquivo documental fotográfico têm com várias outras mídias que apresentam o
retrato e outras referências da fotografia envolvendo famílias.
Os critérios da escolha desta família foram feitos em relação à pais/mães que
recentemente criaram um perfil para seus filhos/filhas em uma rede social, como
exemplo o Instagram, e que ao mesmo tempo também apresenta álbuns de família
impressos ou retratos de família com fotos de suas infâncias, assim como da infância de
seus antepassados, com a presença de várias gerações (avôs/avós, pais/mães e
netos/netas, como exemplo prático).
Pautados na literatura apresentada e com uma amostra apresentada, na discussão
teórica e metodológica, o objetivo desta produção científica é compreender o processo
dialógico e de “pensamento das imagens” nos tempos da história e em diferentes

170
dispositivos midiáticos, comparando como é construído um sistema de “pensamento das
imagens” em relações, especificamente, às poses fotográficas do retrato de família.
Assim, por se tratar de uma análise que fica entre a objetividade e subjetividade
das imagens, as expectativas conclusivas são pautadas em uma inicial compreensão de
como os retratos da família se relacionam por meio das poses fotográficas que criam
ideais de construção da família por meio das imagens, que podem se relacionar
independentemente de épocas e plataformas midiáticas.

Palavras-chave: Retrato de Família. Pose fotográfica. Álbum. Pensamento das


Imagens. Cruzamento de Imagens.

REFERÊNCIAS

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos


fantasmas segundo AbyWarburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

LEITE, Miriam Moreira. Retratos de família: leitura da fotografia histórica. 3. ed. São
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.

MUAZE, Mariana de Aguiar Ferreira. Os guardados da viscondessa: fotografia e memória


na coleção Ribeiro de Avellar. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Sér. v.14. n.2. p.
73-105. jul.- dez. 2006.

SAMAIN, Etienne (org.). Como pensam as imagens. Campinas: Editora da Unicamp,


2012.

SILVA, Armando. Álbum de família: a imagem de nós mesmos; tradução Sandra Martha
Dolinsk. São Paulo: Editora Senac, 2008.

TURAZZI, Maria Inês. Poses e Trejeitos: a fotografia e as exposições na era do


espetáculo (1839-1889). Rio de Janeiro: Funarte; Rocco, 1995.

171
STAR WARS E AS NOVAS CONFIGURAÇÕES NARRATIVAS NO
CINEMA

Dayane Costa Oliveira da Silva1


Luiz Carlos Siqueira Filho2
Goiamérico Felício Carneiro dos Santos3

RESUMO

O artigo se propõe a discutir alguns aspectos das configurações narrativas do


cinema contemporâneo, especificamente questões que tangenciam o papel do subjetivo
nas narrativas cinematográficas da última década. Com o avanço tecnológico e uma
modificação da própria essência do cinema, somos impactados com narrativas que
apostam na subjetividade do espectador e sua subsequente subversão de expectativas
para a construção de um discurso narrativo contemporâneo. Através da construção
narrativa que é perpetuada no meio social, somos capazes de materializar ideias,
registrar nossas existências, nos identificarmos e nos comunicar.
Perpassando a oralidade face a face, a escrita e a distribuição em série a partir da
prensa de Gutemberg, o rádio, a televisão, o cinema e a internet, estamos rodeados por
informações transpostas em narrativas e dissipadas no imaginário. Enquanto mídia de
produção e distribuição em massa, o cinema constrói, a partir do audiovisual, narrativas
capazes de dialogar com o espírito do tempo em que estão inseridas, perpetuando
imaginários coletivos. Os estudos da comunicação também vêm atrelados ao contexto
sócio-histórico em que estão inseridos. Incertezas, questionamentos contínuos e
paradoxos permeiam tanto o ethoscontemporâneo quanto os levantamentos teóricos
escolhidos, o que torna a pesquisa um ser pulsante, em constante mudança. Tendências
podem ser apontadas, com um diálogo aberto às mais complexas variáveis.
A partir de alguns apontamentos de Lyotard (2015), discutiremos alguns
elementos acerca da contemporaneidade e da subjetividade presente em seu ethos,
transposta em narrativas. Por outro viés, observamos por Lipovetsky e Serroy (2009)
levantamentos sobre o espaço do cinema na contemporaneidade, em um contexto de
produção que abrange a última década. Por fim, trazemos Legros et al (2014) e Silva

1
Mestranda em Comunicação pelo PPGCOM/UFG. E-mail: dayanecosta91@gmail.com
2
Mestrando em Comunicação pelo PPGCOM/UFG. E-mail: siq.luiz@gmail.com
3
Pós-doutor em Comunicação pela Unisinos, professor da linha Mídia e Cultura do PPGCOM/UFG. E-
mail: goiamerico@gmail.com
172
(2012) e suas considerações acerca do imaginário – suas tecnologias, dentre elas o
cinema, e seu papel na construção de mitos. Sabe-se que, para os gregos, os mitos eram
uma forma de pensamento, contendo a verdade em sua verossimilhança, nascendo na
esfera do sagrado e exprimindo-se, em tempo e espaço determinados, em forma de
narrativa, dotada de linguagem simbólica.
Assim, através de uma pesquisa bibliográfica, do tensionamento entre tais
autores, e por meio de uma perspectiva narratológica, que tem por intuito o estudo de
narrativas, propomos discutir o status das narrativas cinematográficas na
contemporaneidade, seus entrelaçamentos com o imaginário coletivo e sua posição
dentro de uma cultura de massa. Para ancorar os conceitos apresentados, utilizaremos
como objeto focal Star Wars: O Despertar da Força (2015), sétimo episódio da saga
Star Wars (1977-atualmente). Através de filmes espalhados ao longo de quatro décadas,
a franquia apresentou narrativas de cunho mítico, inspiradas deliberadamente na obra de
Campbell (2007) e seu conceito de monomito, ao qual se atém na jornada heroica
composta pelos rituais de passagem separação, diante do qual o personagem heroico se
aventura em uma região desconhecida, frequentada pelo sobrenatural, iniciação, que se
revela por meio de uma vitória obtida com dificuldade e retorno, no qual o personagem
heroico retorno dotado do poder de levar benefícios aos seus semelhantes.
Tratando-se de um produto cultural de massa, podemos visualizar questões
interessantes em sua narrativa. Ao longo de quatro décadas, observamos temas que
refletem o tempo em que foram produzidos: a primeira trilogia, na década de 1980,
apresenta a partir de uma narrativa otimista, questionamentos acerca do pós-Guerra; a
segunda trilogia, no início da década de 2000, explora a ascensão da tecnologia e
questões como a clonagem; a terceira trilogia, em curso, discute as questões da
identidade a partir da subversão do arquétipo heroico. Assim, como se faz perceptível a
partir da relação das obras com o tempo em que foram produzidas, a franquia de filmes
da saga Star Wars evidencia uma das funções do mito, a de propiciar histórias que se
revelem como uma busca de sentido, através dos tempos, para a experiência humana.
Embora a construção mítica em Star Wars seja um assunto debatido no campo
acadêmico a partir de estudos estruturalistas e mitocríticos, aqui nos propomos a pensar
o objeto por outra perspectiva: buscamos compreender, a partir de O Despertar da
Força, filme da terceira trilogia da saga, as possibilidades de transformação desta
narrativa clássica dentro de um contexto contemporâneo atual e tangível, onde a

173
fragmentação e a contradição pela subversão do arquétipo heroico, atravessam o meio
social e são refletidas nos produtos culturais – em questão, no cinema.

Palavras-chave: Star Wars. Narrativa. Audiovisual. Mito.

REFERÊNCIAS

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento, 2017.

LEGROS, Patrick; MONNEYRON, Frédéric; RENARD, Jean-Bruno; TACUSSEL,


Patrick. Sociologia do imaginário. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 2014.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A tela global: mídias culturais e cinema na era
hipermoderna. Porto Alegre: Sulina, 2009.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio,


2015.

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: espírito do tempo 1: neurose. 10. ed.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.

SILVA, Juremir Machado da. As tecnologias do imaginário. 3. ed. Porto Alegre: Sulina,
2012.

174
A DESCRIÇÃO IMAGÉTICA NA HASHTAG #PRACEGOVER: UMA
ANÁLISE A PARTIR DA RELAÇÃO ENTRE TEXTO E IMAGEM

Lorrayne Caroline dos Santos1


Magno Luiz Medeiros da Silva2

RESUMO

O objetivo deste estudo consiste em compreender de que forma a descrição


imagética é utilizada na construção da hashtag #PraCegoVer em publicações no
Facebook das marcas, Samsung e Quem disse Berenice?. Estas marcas foram
selecionadas em decorrência da utilização da hashtag #PraCegoVer, com a premissa de
incluir o deficiente visual nas mensagens comunicacionais das suas fanpages.
“A hashtag consiste em uma categorização de conteúdos publicados nas redes
socias, que possibilitam aos integrantes da rede uma interação dinâmica do conteúdo,
que estão ou são interessadas no respectivo assunto publicado”. Sendo assim, esta
pesquisa baseou-se na seguinte problemática: “Como as marcas utilizam a descrição
imagética na hashtag #PraCegoVer em suas fanpages?”. A hashtag #PraCegoVer é uma
ação comunicacional de disseminação da cultura da acessibilidade nas redes sociais, e
tem por princípio a audiodescrição de imagens para a apreciação de pessoas com
deficiência visual.
O projeto foi idealizado pela professora Baiana Patrícia Silva de Jesus,
conhecida como “Patrícia Braille”, ele foi criado como uma estratégia de inclusão para
pessoas com deficiência visual que, utilizam o Facebook e outras redes sociais com o
auxílio de programas leitores de tela, capazes de transformar em áudio o conteúdo
textual da internet. Contudo, os leitores leem somente caracteres e não pixels. Neste
sentido, a estratégia surge da necessidade de transformar a imagem em elementos
textuais, por intermédio da descrição, para que os leitores de tela consigam transmiti-las
às pessoas com deficiência visual.
A ação, além de visar incluir o deficiente visual nas postagens nas redes sociais
tem o intuito de conscientizar os diversos públicos das marcas para a necessidade de
mecanismos capazes de incluir a pessoa com deficiência visual na sociedade.

1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação na Linha de Pesquisa em Mídia e
Cidadania, da Faculdade de Informação e Comunicação FIC-UFG, email: lorra-c@hotmail.com
2
Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação e
Informação FIC-UFG, email: magno.ufg@gmaiil.com
175
Considerando a caracterização qualitativa da pesquisa, a investigação foi realizada a
partir de uma pesquisa bibliográfica, em qual se estabeleceu uma discussão conceitual
da relação entre texto e imagem, a partir do conceito de imagem de Santaella e Noth
(2005), a relação entre texto e imagem de Barthes (1990) e alguns elementos
constitutivos da análise de imagem proposto pela Joly (2007).
Nesse sentido, optou-se pela união da pesquisa bibliográfica e da análise
estabelecendo uma relação entre texto e imagem, a fim de compreender como as marcas
estão utilizando a hashtag #PraCegoVer como estratégia comunicacional para os
deficientes visuais. Na análise das postagens foram utilizados alguns elementos
presentes na metodologia da Martine Joly (2007) de análise de imagem e os conceitos
de Barthes (1990) para compreender a relação entre a descrição, composta de elementos
textuais com as especificações das imagens analisadas, a fim de identificar os elementos
constitutivos presentes na construção da estratégia comunicacional.
A análise das postagens das marcas e o estudo de sua efetividade
comunicacional permitiu a compreensão implícita global das mensagens. A partir da
análise foi possível perceber que as marcas que utilizam a hashtag #PraCegoVer, não
possuem a mesma abordagem na descritivas das imagens. No caso das duas postagens
analisadas é possível perceber algumas diferenças marcantes na forma de descrição
realizadas pelas marcas.Posteriormente a coleta de informações para a construção do
referencial teórico e diversas leituras sobre a temática da publicidade inclusiva, mais
especificadamente sobre a utilização da hashtag #PraCegoVer como uma estratégia
comunicacional, foi possível perceber por intermédio da análise, que a estratégia não
possui parâmetros de aplicabilidade, uma vez que cada marca possui uma forma
diferente de realizar a descrição das imagens. Após e análise e a percepção sobre a
aplicabilidade da estratégia.
Chega-se à conclusão de que a publicidade vende significados, valores,
sensações, entre outro, tendo como objetivo final o consumo. Ela procura despertar o
desejo nos consumidores a fim de que eles adquiram os bens e os serviços propagados
no momento da divulgação. Portanto, a publicidade é uma estratégia pautada pelos
estímulos dos sentidos, sensações e emoções. Dentro desta perspectiva, percebe-se que
o deficiente visual não possui nesta estratégia a possibilidade de se encantar com a
beleza das postagens e das sensações transmitidas por meio da imagem que possuem
carga simbólica ilimitada, capaz de emocionar, influenciar, conquistar, seduzir e

176
encantar o receptor, pois as descrições imagéticas são realizadas de maneira racional,
superficial e informacional. Por fim, compreende-se por intermédio das análises que
mesmo se tratando de uma estratégia que vise a inclusão da pessoa com deficiência a
utilização da hashtag #PraCegoVer realiza uma abordagem racional, descrevendo
apenas elementos visuais daquilo que constitui a imagem. Sem levar em consideração o
processo de sedução, a criatividade a interatividade, princípios este que regem a
construção das mensagens publicitárias.

Palavras-chave: Comunicação. Imagem. Descrição. Deficiente Visual. PraCegoVer.

REFERÊNCIAS

AMIRALIAN, M.L.T.M. Comunicação e Participação Ativa: a Inclusão de Pessoas com


Deficiência Visual. In:______(Org.). Deficiência Visual: perspectivas na
contemporaneidade. São Paulo: Vetor, 2009. p.19-38.

AUMONT, Jacques. A Imagem. 4. ed. São Paulo: Papirus, 2005.

BARTHES, Roland. A Mensagem Fotográfica. In: BARTHES, Roland. O Óbvio e o


Obtuso: ensaios críticos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. P. 47-83.

CHIACHIRI, Roberto. O poder sugestivo da publicidade: uma análise semiótica.


São Paulo: Cengage Learning, 2011.

JOLY, M. Introdução à análise de imagem. 11. ed. São Paulo: Papirus, 2007.

MARANHÃO, G.A; RIBEIRO, F. V. Publicidade e o consumo. Fundação


Universidade Estadual de Maringá. PDE, 2008. Disponível em:
<http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/ arquivos/955-4.pdf>. Acesso em:
10 jul. 2018 às 20h00.

MEDEIROS, Magno. Publicidade inclusiva sob o olhar da ética e dos direitos humanos.
In: VIDICA, Ana Rita e JORDÃO, Janaína (orgs.). Século XXI: A Publicidade Sem
Fronteiras? V. 4. Goiânia: Imprensa Universitária UFG, 2018.

OLIVEIRA, Rafael Morais. Publicidade Inclusiva: Cidadania no ato da Compra.


Brasília: Centro Universitário. Instituto de Ensino Superior de Brasília, 2013.

PINHO, J. B. Comunicação Mercadológica. São Paulo: Summus, 2002.

RECUERO, R. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.

SANTELLA, Lucia; NÖTH, Winfried. Imagem: cognição, semiótica, mídia. 4. ed. São
Paulo: Iluminuras, 2005.

SPINA, Felipe. Facebook Marketing. 2. ed. São Paulo: Independent, 2012.


177
A TWITCH COMO MEIO EMISSOR DE UMA MENSAGEM

Lara Lima Satler1


Cristian Vargas de Sousa Neves2

RESUMO

Este texto é um desdobramento do plano de trabalho de iniciação científica de


título “A Twitch como forma de manifestação do audiovisual na web”, que está
vinculado à pesquisa "Grupodidatismo de youtubers: Em época de espetáculo do eu,
cabem narrativas coletivas?", realizada na Universidade Federal de Goiás, e busca
entender a plataforma de streaming Twitch como um meio, teorizado por Marshall
McLuhan.
A interface vem de um spin-off, ou seja, uma derivação do site de transmissões
ao vivo Justin.tv, a Twitch herda a forma lifecasting de narrar, sendo esta uma
experiência de narrativa da vida cotidiana em tempo real que age abastecendo a
demanda de um público de jogadores específicos que anseiam por um espaço que une a
narrativa audiovisual sequenciada com os jogos, sendo esse público os gamers. O foco
principal é a distribuição desse conteúdo via streaming. Através de sua própria rede
consegue emitir e receber as informações ao mesmo tempo em que as repassa ao usuário
de jogos em tempo real, incluindo transmissão de competições de eSports, esportes
eletrônicos, além de conteúdos criativos de caráter ao vivo como os talk shows.
Compreender a Twitch como um meio, levando em consideração os escritos de
Marshall McLuhan (1993), em Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem,
possibilita discutir como se dá a relação presente entre produtor e participante de um
canal de transmissão dentro da interface, e consequentemente como é moldado seu
conteúdo.
Para isso é necessário entender que um meio, segundo Adriana Braga (2012), é
tecnologia. Tomar a interface de transmissão de games em estudo como um meio, ou
melhor como uma tecnologia, é dizer que ela consiste em um software de livestream

1
Pós-doutorado em Estudos Culturais (PACC/ UFRJ, 2018); DoutoradoemArte e Cultura Visual (FAV/
UFG,2016). Professora Adjunta da Universidade Federal de Goiás, no Programa de Pós-Graduação em
Performances Culturais (PPGPC/ UFG) e na Comunicação Social - Publicidade e Propaganda (FIC/
UFG). E-mail: satlerlara@gmail.com
2
Bacharel em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal de Goiás. E-mail:
cristianvsn@gmail.com
178
com foco específico em conteúdo relacionado a jogos. Separando os termos para melhor
compreensão, entende-se que a Twitch como um software“congrega a capacidade de
lidar com informações. A partir daí, processa instruções sobre tarefas possíveis de
realizar. Como consequência, desdobra ações concretas aptas a produzir efeitos”
(LADEIRA, 2016, p. 4).
Pensando a plataforma como uma livestreamé valoroso definir os vocábulos
livee stream separadamente. Stream, em um contexto técnico é um “Processo de
distribuição de conteúdos, via Internet, em que o utilizador inicia a sua visualização sem
necessidade de fazer download dos ficheiros que constituem os conteúdos” (ADÃO,
2006, p. 21). O termo live, neste âmbito, pode ser traduzido por “ao vivo”.
Associando então os dois termos à tecnologia empregada na Twitch, esta é uma
plataforma capaz de executar uma ação programada, ou seja, que transmite o conteúdo
armazenado em seu servidor para os usuários ativos. Porém seu diferencial está na
sentença live, pois a Twitch faz a ponte entre o computador do streamere o de quem
assiste. Enquanto o gamer envia seu conteúdo audiovisual em tempo real para o site, o
usuário já o recebe em sua máquina também em tempo real, antes mesmo de ser
armazenado no servidor.
Retornando aos escritos de Marshall McLuhan, o acadêmico diz que todo meio
emite uma mensagem. A mensagem que o meio exibe não deve ser confundida com o
conteúdo dele, como apresentado por McLuhan quando questionado em uma entrevista
ao programa australiano Monday Conference, em 1977, sobre a relação do conteúdo da
televisão e da mensagem da mesma, “o efeito desse grande ambiente de serviço em
você é vasto, enquanto o efeito do programa é incidental” (MCLUHAN, 1977). Isto é, a
mensagem tem grande impacto, tanto na sociedade quanto no indivíduo, enquanto o
conteúdo é incidente, ou secundário.
Assim, após discutir a Twitch como um meio e a tecnologia streamque ela
engloba, sua mensagem se torna clara. A mudança no padrão comportamental dos
consumidores de conteúdo audiovisual na internet, pela plataforma, está na sua palavra-
chave live, como mencionado anteriormente. A conexão entre o streamer, aquele que
constrói o conteúdo, e o usuário, que o consome, é oferecida pelo ao vivo, o que torna a
prática dentro da Twitch muito mais ativa.
No momento em que a narrativa audiovisual está sendo construída há a interação
e interferência de seu público, quase que um feedback instantâneo sobre o que está

179
sendo produzido, de seus consumidores ativos. Concluindo que essa ponte, que o “ao
vivo” gera, a interação, é a sua mensagem, que impacta na forma que a interface se
organiza e seu conteúdo é formado.

Palavras-chave: Audiovisual na web; streaming; plataforma; Twitch.

REFERÊNCIAS

ADÃO, Carlos. Tecnologias de Streaming em Contextos de Aprendizagem,


Universidade do Minho, Guimarães, 2006.

BRAGA, Adriana. McLuhan entre conceitos e aforismos. In: ALCEU - v. 12 - n.24 -


p. 48 a 55 - jan./jun. 2012.

LADEIRA, João Martins. A Organização Do Streaming No Brasil: telmex, globo e a


associação entre telecomunicações e audiovisual, Revista Da Associação Nacional Dos
Programas De Pós-graduação Em Comunicação, Brasília, v.20, n.1, jan./abr. 2017.

MCLUHAN, M. Entrevista concedida ao programa MondayConference. Disponível


em:<https://www.youtube.com/watch?v=fvRMpS-aGLE>. Acesso em: 2 jun. 2018.

MCLUHAN, M. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo:


Cultrix, 1993.

MONTAÑO LA CRUZ, Sonia. Plataformas De Vídeo: Apontamentos para uma


ecologia do audiovisual da web na contemporaneidade, Universidade Do Vale Do Rio
Dos Sinos, São Leopoldo, 2012.

180