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Reabilitação Neuro-Oclusal e Leis Planas de

Desenvolvimento do Sistema Estomatognático.


Neuro-oclusion Rehabilitation and Planas´ Laws of
Development.
NEI COSSIO SENANDES
Cirurgião Dentista formado pela UFRGS, curso extensivo em
Ortopedia Funcional dos Maxilares pela SOBRACOM.
RAFAEL FERREIRA
Cirurgião Dentista formado pela ULBRA, curso extensivo em
Ortopedia Funcional dos Maxilares pela SOBRACOM.
DANIEL RANGEL BRIZOLA
Cirurgião Dentista formado pela UFPel, curso extensivo em
Ortopedia Funcional dos Maxilares pela SOBRACOM.

RESUMO:
Esta revisão de literatura tem por objetivo mostrar ao cirurgião-
dentista clínico geral e ao especialista em Ortopedia Funcional dos
Maxilares uma visão geral sobre a Reabilitação Neuro-Oclusal e Leis
Planas de Desenvolvimento do Sistema Estomatognático.

ABSTRACT
The aim of this review is to show to the dentist who works with
Orthodontics and Dento-facial Orthopedics an overview Neuro-oclusion
Rehabilitation and Planas´ Laws of Development.

UNITERMOS
Mastigação – Desenvolvimento Maxilofacial – Reabilitação.

KEYWORDS
Mastication – Maxillofacial Development – Rehabilitation.
INTRODUÇÃO
A filosofia da Reabilitação Neuro-Oclusal (RNO) é o resultado
da experiência clínica do Dr. Pedro Planas. Pode ser definida como a
parte da Odontologia que estuda a etiologia e a gênese das alterações
funcionais e morfológicas do sistema estomatognático, e tem por
objetivo investigar as causas que as produzem e eliminá- las, sempre que
possível e reabilitar ou reverter as lesões por meio de desgastes oclusais
seletivos e aparelhos ortopédicos funcionais. Tal terapêutica pode ser
aplicada desde o nascimento até a velhice. (PLANAS 6 , 1988)
Os conceitos de RNO se relacionam com o crescimento e
desenvolvimento fisiológicos e com a manutenção da homeostase do
sistema mastigatório. Eles baseiam-se nos movimentos mandibulares
executados primordialmente pela mastigação e amamentação. Dessa
forma a terapia deve ser iniciada o mais cedo possível, evitando-se
assim o estabelecimento de alterações de prognóstico
8
desfavorável.(SIMÕES , 1998)
Através dessa revisão de literatura pretende-se introduzir o
cirurgião-dentista clinico-geral e os especialistas em Ortopedia
Funcional dos Maxilares e Ortodontia à filosofia da RNO.
MASTIGAÇÃO
A mastigação é o elemento desencadeador do desenvolvimento
ósseo facial. Ela deve ser feita sobre alimentos secos e duros, que
promovam uma intensa função mastigatória, com amplos movimentos
de lateralidade, com o maior número de contatos dentários fisiológicos,
obtendo-se assim uma maior eficiência mastigatória. (PLANAS 6 , 1988;
SIMÕES 8 , 1998}
A mastigação deve ser bilateral alternada, com movimentos
protrusivos durante o processo de incisão. Dessa forma e com uma
alimentação consistente, que produza desgastes fisiológicos e
movimento dentário, se atinge a oclusão dinamicamente equilibrada. Os
movimentos mandibulares látero-protrusivos e o impacto oclusal
adequado são condições essenciais para adaptação contínua às
demandas funcionais. (PLANAS 6 , 1988; SIMÕES 8 , 1998}
As propriedades mecânicas dos alimentos são um referencial
importante para a diferença quantitativa da atividade muscular entre o
lado de trabalho e o de balanceio.
Alterações na função mastigatória são responsáveis por
mudanças ósseas, não somente na zona circundante a inserção muscular,
mas também na morfologia do viscerocrânio. (TOKIMASA9 , 2000)
Diminuição do ângulo goníaco e da largura do arco zigomático
foram encontrados em ratos alimentados com dieta macia. Em ratos com
redução da função mastigatória, foi encontada uma menor formação de
osso cortical. (TOKIMASA9 , 2000)
A morfologia óssea dentofacial do adulto é resultado da carga
biomecânica da mastigação e do impacto oclusal, de acordo com sua
intensidade, direção, período e duração, dependendo do mecanismo de
adaptação muscular a estas forças. (SIMÕES 8 , 1998}
Alterações na dieta também foram responsáveis por diferenças
no crescimento do osso nasal e da pré- maxila, em ratos submetidos a
uma terapêutica hormonal e variações na consistência da dieta. Os
grupos que receberam uma dieta sólida apresentaram um maior
crescimento ósseo do que os que receberam uma dieta pastosa, tanto no
grupo que recebeu hormônio, como no grupo que não recebeu
hormônio. (TOKIMASA9 , 2000)
A mandíbula exige corticais mais espessas, que resistam às
forças mastigatórias, as quais se dissipam dentro da sua própria
estrutura. O maxilar apresenta uma estrutura predominantemente
trabecular, com corticais finas, sujeitas a forças de compressão, ligada
diretamente ao crânio, sem maiores junções musculares. Por causa
dessas diferenças estruturais, esses ossos obedecem a leis de
desenvolvimento diferentes. Essas leis são descritas a seguir.
(PLANAS 6 , 1988; SIMÕES 8 , 1998}
LEI DA MÍNIMA DIMENSÃO VERTICAL DE OCLUSÃO
E DO ÂNGULO FUNCIONAL MASTIGATÓRIO PLANAS
(AFMP)
Relação cêntrica (RC) ou posição retrusiva de mandíbula é a
situação dos côndilos nas Cavidades Glenóides, quando eles ocupam a
posição mais superior e posterior. Dessa posição o côndilo parte para
todos os movimentos possíveis, exceto para trás e para cima.
Partindo da relação cêntrica, fecha-se a boca lentamente até
atingir o primeiro contato oclusal. Esta é a oclusão cêntrica (OC), a qual
pode coincidir com a posição de intercuspidação máxima (PIM). Nesse
caso a oclusão cêntrica é a funcional. (PLANAS 6 , 1988; SIMÕES 8 ,
1998}
Pode ocorrer da OC ser diferente da PIM. Nesse caso, ocorre um
deslocamento da mandibular até a PIM, fazendo com que haja uma
diminuição da dimensão vertical do 1/3 inferior da face. Essa posição
deslocada da mandíbula, onde ocorre o maior número de contatos
oclusais é a oclusão funcional (OF). (PLANAS 6 , 1988}
Partindo da OF para as posições de lateralização da mandíbula,
ocorrerá sempre um aumento da dimensão verical do 1/3 inferior da
face. Quando o aumento da dimensão vertical é igual para os dois lados,
isso significa que o paciente tem condições mecânicas para executar
uma mastigação bilateral alternada. Caso o aumento seja maior em um
dos lados, o paciente tem condições de mastigar no lado onde o aumento
é menor, ou seja, o lado da mínima dimensão vertical. (SIMÕES 8 ,
1998}
Quando se está diante de uma oclusão cruzada, esse é sempre o
lado da mínima dimensão vertical, e é o lado onde o paciente tem as
condições mecânicas para executar a mastigação. (JÚNIOR3 , 1994;
PLANAS 6 , 1988}
A contração muscular é mais eficaz e econômica quando o
músculo esta em seu comprimento ótimo, que para PLANAS 6 (1988) é
no lado da mínima dimensão vertical de oclusão. (MONGINI5 , 1998;
PLANAS 6 , 1988}
O AFMP é medido por Planas, utilizando-se uma placa
transparente presa a uma armação de óculos. Nos incisivos inferiores é
colocado um estilete de aço preso com godiva. Ao movermos a
mandíbula lateralmente, estes movimentos produzem dois ângulos na
placa transparente. Esses são os AFMP. (PLANAS 6 )
Existe uma técnica simplificada, preconizada pelo Dr. José
Lázaro Barbosa que consiste em desenhar os AFMP diretamente nos
dentes inferiores, tomando como ponto fixo os dentes superiores. Para
tanto, coloca-se a ponta de um lápis nos incisivos inferiores, apoiada
também entre os incisivos superiores. Assim, ao deslizarmos a
mandíbula nos movimentos de lateralidade esse fica impresso nos
incisivos inferiores.
LEI DE DESENVOLVIMENTO PÓSTERO-ANTERIOR E
TRANSVERSAL DE OSSOS E DENTES
O recém nascido apresenta uma distoclusão fisiológica ao
nascer, a qual deve ser corrigida com estímulos, também, fisiológicos.
Ao ser amamentada no peito, a criança projeta para frente a sua
mandíbula, com o auxílio dos músculos pterigóides laterais. Dessa
maneira, as ATM de ambos os lados são excitadas, promovendo o
crescimento e desenvolvimento da mandíbula, no sentido póstero-
anterior, como um todo. (PLANAS 6 , 1988; SIMÕES 8 , 1998}
Ao passar do leite materno para uma alimentação mais
consistente, a criança passa a desenvolver a mastigação. Qua ndo a
criança mastiga o alimento de um lado, o côndilo desse lado (lado de
trabalho) realiza, basicamente, movimentos de rotação, enquanto o outro
côndilo (côndilo de balanceio) realiza movimentos de translação,
semelhantes àqueles realizados pela amamentação. Nesse caso, o
estímulo de crescimento e desenvolvimento ocorre em apenas uma das
ATM´s, a do lado de balanceio fazendo com que o crescimento ocorra
unilateralmente. (PLANAS 6 , 1988; SIMÕES 8 , 1998}
Com o impacto da mandíbula sobre a maxila, esta cresce em
sentido póstero-anterior no lado de trabalho, uma vez que é aí que ela
sofre os efeitos da mandíbula. Nesse lado ocorre também o seu
crescimento transversal. Na mandíbula, notamos um aumento de sua
espessura no lado de trabalho, embora no lado de balanceio ela esteja
mais afastada do plano sagital mediano, em função de uma deflexão
sofrida. (PLANAS 6 , 1988; SIMÕES 8 , 1998}
Uma mastigação correta é feita alternando-se os lados de
trabalho, dessa forma, o crescimento se processa nos dois lado da
mandíbula. Além disso, a mastigação bilateral é condição para uma
estabilidade oclusal. (PLANAS 6 , 1988; SIMÕES 8 , 1998}
Quando é desenvolvida a mastigação unilateral no paciente, este
pode vir a apresentar uma assimetria facial em decorrência de um
crescimento maior da mandíbula no lado de balanceio e da maxila no
lado de trabalho. Ocorre ainda desvio da linha média inferior para o lado
de trabalho.(ALMEIDA1 , 1998; KILIARIDIS4 , 1999; PLANAS 6 , 1988;
POIKELA7 , 2000; SIMÕES ,8, 1998)
Trabalhos experimentais em ratos mostram que quando os
mesmos não apresentam uma função mastigatória eficiente, em
conseqüência de um alimentação macia, eles apresentam uma menor
dimensão dos côndilos mandibulares. A localização da cavidade
articular em coelhos mostrou-se alterada quando os animais foram
submetidos a um período de mastigação unilateral. Dessa maneira, o
côndilo do lado de balanceio ficou posicionado mais anteriormente, e o
do lado de trabalho, ficou mais profundo na cavidade, com uma menor
carga na eminência. (KILIARIDIS4 , 1999; POIKELA7 )
O desenvolvimento maior da mandíbula ocorre do lado de
balanceio uma vez que neste lado ocorre uma maior movimentação do
côndilo pelo músculo pterigoideo lateral, promovendo assim uma maior
estimulação do mesmo, o qual é um importante centro de crescimento
da mandíbula. (ALMEIDA1 , 1998; PLANAS 6 , 1988; SIMÕES ,8, 1998)
Quando ocorre a mastigação num determinado lado, devido ao
arco de fechamento da mandíbula, esta faz uma força na maxila de distal
para mesial, movimentando os dentes e o osso nesse sentido. A reação a
esta força é aplicada na mandíbula, com os dentes e osso se
movimentando de mesial para distal. Quando a mastigação é bilateral
alternada, ocorre um alternância desses deslocamentos, fazendo com
que o crescimento ocorra de maneira equilibrada. Assim sendo, ocorre
crescimento sagital da maxila no lado de trabalho e da mandíbula no
lado de balanceio. (ALMEIDA1 , 1998; PLANAS 6 , 1988)
DESENVOLVIMENTO VERTICAL DOS DENTES
A boca permanece a maior parte do tempo sem contatos entre os
dentes antagonistas. Eles se encontram durante pouco tempo durante a
deglutição, mas só há contato funcional com fricção oclusal durante os
movimentos de mastigação. (PLANAS 6 , 1988)
Durante a mastigação, são excitadas as ATM´s e os periodontos,
de acordo com seu turno de trabalho ou balanceio. Nesse ato, ocorrerá
intrusão e extrusão infinitamente pequenas, assim como um desgaste
fisiológico das faces oclusais dos dentes do lado de trabalho. Ocorre
uma compensação a esse desgaste, na forma de crescimento ósseo nas
23 horas em que a boca permanece em “repouso”, mantendo a oclusão e
a dimensão vertical. Essa resposta de crescimento é assim produzida:
(PLANAS 6 , 1988)
A mandíbula origina-se durante o seu desenvolvimento por dois
processos mandibulares, que formarão cada uma das hemi-arcadas, a
direita e a esquerda. A excitação de um dente de uma hemi- arcada,
produz a resposta de crescimento de todo o grupo, o que é neutralizada
pelos contatos oclusais com os dentes antagonistas. (PLANAS 6 , 1988)
A maxila é, embriologicamente, formada por três segmentos, os
processos maxilares e o processo interincisivo. Dessa maneira , a
excitação de um dente de um desses grupos, promoverá a resposta de
crescimento de todo o grupo, totalmente independente dos outros
grupos. (PLANAS 6 , 1988)
POSICIONAMENTO DO PLANO OCLUSAL
Ao mastigarmos, no lado de trabalho os dentes mandibulares
comprimem os maxilares em seus alvéolos. Isso ocorre em uma
quantidade muito pequena, a qual aumenta de molar até o canino. Dessa
maneira, o plano oclusal levantará em sua parte anterior, uma
quantidade muito pequena. (PLANAS 6 , 1988)
No lado de balanceio, ocorrerá a perda do contato entre os
antagonistas, ocorrendo uma pequena extrusão dos dentes maxilares
posteriores. Essa pequena extrusão serve para que, na hora do contato de
trabalho, esse ocorra com uma leve sobrecarga oclusal, permitindo uma
boa fricção oclusal e a condução para fora e para frente do maxilar.
(PLANAS 6 , 1988)
CONCLUSÃO
As leis Planas de desenvolvimento estão baseadas na resposta de
crescimento a movimentação mandibular e esfregamento das faces
oclusais dos dentes durante os movimentos de mastigação e
amamentação, e através do correto desenvolvimento desses atos, o
sistema estomatognático pode desempenhar todas suas outras funções.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1- ALMEIDA, D. A ; LINDBERGUE . M.C.A. Circuito das
forças: escultura da arquitetura facial através dos movimentos
fisiológicos. Revista Brasileira de Postura e Movimento2 (4):121-
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2- ARAGÃO, W. Ortopedia dos Maxilares. Pancast
Editorial. São Paulo. 1992 1ª Ed.
3- JÚNIOR, O. S. Incidência de mastigação unilateral em
crianças com dentição decídua e dentição mista, em estágio inicial
com alimentos fibrosos e macios. Revista da Faculdade de
Odontologia de Porto Alegre. 35(1):28-31, ago. 1994
4- KILIARIDIS, S. e cols. Effect of low mastigatory function
on condylar growth: a morfometric study in the rat. Am J Orthod
Dentofacial Orthop; 116: 121-5, 1999.
5- MONGINI, F. ATM e Músculos Crâniocervicais:
Fisiopatologia e Tratamento. Santos Livraria Editora. São Paulo 1998.
1ª Ed.
6- PLANAS, P. Reabilitação Neuroclusal. Medsi. Rio de
Janeiro, 1988. 2ª ed.
7- POIKELA,A. e cols. Location of the glenoid fossa after a
period of unilateral masticatory function in young rabbits. Eur J
Orthod; 22(2):105-12, 2000 Apr.
8- SIMÕES, W. Visão do crescimento mandibular e
maxilar. J. Bras. Ortodon. Ortop. Facial; 3(15):9-18, maio.-jun. 1998.
9- TOKIMASA,C. e cols. Effects os insulin like growth
factor-I on nasopremaxillary growth under different masticatory
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