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Resenha

SANTO, Milton. A urbanização Brasileira, São Paulo: Hucitec, 1993.

As cidades, e sobretudo, as grandes, ocupam, de modo geral, vastas


superfícies, entremeadas de vazios. Nessas cidades espraiadas,
características de uma urbanização corporativa, há interdependência do que
podemos chamar de categorias espaciais relevantes desta época: tamanho
urbano, modelo rodoviário, carência de infra-estrutura, especulação fundiária e
imobiliária, problemas de transporte, extroversão e periferização da população,
gerando, graças às dimensões da pobreza e seu componente geográfico, um
modelo específico de centro-periferia. Cada qual dessas realidades sustenta e
alimenta as demais e o crescimento urbano, é, também, o crescimento
sistêmico dessas características.
As cidades são grandes porque há especulação e vice-versa; há especulação
porque há vazios e vice-versa; porque há vazios as cidades são grandes. O
modelo rodoviário urbano é fator de crescimento disperso e do espraiamento
da cidade. Havendo especulação, há criação mercantil da escassez e o
problema do acesso à terra e à habitação se acentua. Mas o déficit de
residências também leva à especulação e os dois juntos conduzem à
periferização da população mais pobre, e , de novo, ao aumento da tamanho
urbano.As carências em serviços alimentam a especulação, pela valorização
diferencial das diversas frações do território urbano. A organização dos
transportes obedece a essa lógica e torna ainda mais pobre os que devem
viver longe dos centros, não apenas porque devem pagar caro seus
deslocamentos como porque os serviços e bens são mais dispendiosos nas
periferias. E isso fortalece os centro em detrimento das periferias, num
verdadeiro círculo vicioso. 96
A especulação imobiliária deriva, em última análise, da conjunção de dois
movimentos convergentes: a superposição de um sítio social ao sítio natural e
a disputa entre atividades ou pessoas por dada localização. A especulação se
alimenta dessa dinâmica, que inclui expectativas. Criam-se sítios sociais uma
vez que o funcionamento da sociedade urbana transforma seletivamente os
lugares, afeiçoando-os às suas exigências funcionais. È assim que certos
pontos se tornam mais accessíveis, certas artérias mais atrativas e, também,
uns e outras, mais valorizadas. Por isso, são as atividades mais dinâmicas que
se instalam nessas áreas privilegiadas, quanto aos lugares de residência, a
lógica é a mesma, com as pessoas de maiores recursos buscando alojar-se
onde lhes pareça mais conveniente, segundo os cânones de cada época, o que
também inclui a moda. È desse modo que as diversas parcelas da cidade
ganham ou perdem valor ao longo do tempo. O planejamento urbano
acrescenta um elemento de organização ao mecanismo de mercado. O
marketing urbano ( das construções e dos terrenos) gera expectativas que
influem nos preços.96
Assim, um primeiro momento do processo especulativo vem com a extensão
da cidade e a implantação diferencial dos serviços coletivos. O capitalismo
monopolista agrava a diferenciação quanto à dotação de recursos, uma vez
que parcelas cada vez maiores da receita pública se dirigem à cidade
econômica, em detrimento da cidade social. A lei da escassez se afirma, então,
com mais força, e se ampliam as diferenças já existente entre lugares urbanos,
do ponto de vista das amenidades. O estabelecimento de um mercado da
habitação ‘ por atacado1, a partir da presença do Banco Nacional de Habitação
e do sistema de crédito correspondente, gera novas expectativas, infundadas
para a maioria da população, mas atuantes no nível geral. Como isso se dá
paralelamente à expansão das classes medias urbanas e à chegada de
numerosos pobres à cidade, essa dupla pressão contribui para exacerbar o
processo especulativo. A terra urbana, dividida em loteamento ou não, aparece
como promessa de lucro no futuro, esperança justificada pela existência de
demanda crescente. Como as terras apropriadas, mas não utilizadas, são cada
vez mais numerosas, a possibilidade de dota-las dos serviços requeridos é
sempre menor. Daí, e de novo, uma diferenciação no valor de troca entre as
diversas glebas e assim por diante. É assim que as extensões incorporadas ao
perímetro urbano fiquem cada vez maiores. 97
A organização interna de nossas cidades, grandes, pequenas e médias, revela
um problema estrutural, cuja análise sistêmica permite verificar como todos os
fatores mutuamente se causam, perpetuando a problemática. 97
No Brasil moderno pós-64, conjugam-se como a mão e a luva, as exigências
de inserção em nova ordem econômica mundial que se desenha e as
necessidades internas de um Estado autoritário. A integração dos transportes e
das comunicações, rapidamente modernizados, necessária à visão panóptica
do território, é, igualmente, condição material para a difusão, além das regiões
centrais mais desenvolvidas, de atividades industrias e agrícolas altamente
capitalista. 99