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Brasília, 17 a 21 de agosto de 1998 - Nº 119

Data (páginas internas): 26 de agosto de


1998.

Este Informativo, elaborado a partir de


notas tomadas nas sessões de julgamento das
Turmas e do Plenário, contém resumos não-
oficiais de decisões proferidas pelo Tribunal. A
fidelidade de tais resumos ao conteúdo efetivo
das decisões, embora seja uma das metas
perseguidas neste trabalho, somente poderá
ser aferida após a sua publicação no Diário da
Justiça.

ÍNDICE DE ASSUNTOS
Agravo Incompleto e Justiça Gratuita
Cerceamento de Defesa: Inocorrência
Convenção Coletiva de Trabalho
Exame de Dependência Toxicológica
Extradição e Prisão Especial
Habeas Corpus: Conhecimento
IOF: Incidência na Operação de Factoring
Liberdade de Escolha do Defensor pelo Réu
Reajuste Inicial de Aposentadoria
Reestruturação de Carreiras e Concurso
Regime Inicial de Cumprimento da Pena
Representação da Vítima
Responsabilidade Objetiva
Serviços de Telecomunicações: Lei 9.472/97
Taxa e Capacidade Contributiva

PLENÁRIO
Reestruturação de Carreiras e Concurso
Por maioria, o Tribunal julgou improcedente
a ação direta de inconstitucionalidade requerida pelo
Partido dos Trabalhadores - PT contra dispositivos da
LC 10.933/97 do Estado do Rio Grande do Sul que, ao
criar a carreira de Agente Fiscal do Tesouro do Estado,
nela consolidando as atribuições das carreiras de
Auditor de Finanças Públicas e de Fiscal de Tributos
estaduais as quais entram em extinção, concedera aos
servidores destes cargos o direito de optarem pelo
enquadramento nos cargos da nova carreira ou de
permanecerem no exercício de suas respectivas
funções. Reconheceu-se a inexistência de impedimento
à opção assegurada pela norma impugnada, tendo em
vista a afinidade de atribuições das carreiras
consolidadas. Vencidos os Ministros Néri da Silveira,
Maurício Corrêa, Sydney Sanches, Moreira Alves e
Celso de Mello, que julgavam parcialmente procedente
a ação, ao fundamento de que o dispositivo impugnado
possibilita a admissão, sem a exigência de concurso
público (CF, art. 37, II), na carreira de Agente Fiscal
do Tesouro do Estado, cujas atribuições são mais
amplas do que aquelas dos cargos em extinção.
ADIn 1.591-RS, rel. Min. Octavio Gallotti, 19.8.98.
Convenção Coletiva de Trabalho
Submetido ao referendo do Plenário a
decisão do Min. Marco Aurélio, relator da ação direta
ajuizada pela Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Transportes Marítimos, Aéreos e
Fluviais, que suspendera a eficácia do art. 19 da MP nº
1.620-38/98, no ponto em que revogou os §§ 1º e 2º do
artigo 1º da Lei 8.542/92 ("§ 1º - As cláusulas dos
acordos, convenções ou contratos coletivos de
trabalho integram os contratos individuais de
trabalho e somente poderão ser reduzidas ou
suprimidas por posterior acordo, convenção ou
contrato coletivo de trabalho. § 2º - As condições de
trabalho, bem como as cláusulas salariais, inclusive
os aumentos reais, ganhos de produtividade do
trabalho e pisos salariais proporcionais à extensão e à
complexidade do trabalho, serão fixados em contrato,
convenção ou acordo coletivo de trabalho, laudo
arbitral ou sentença normativa, observadas, dentre
outros fatores, a produtividade ou a lucratividade do
setor ou da empresa."). Após o voto do Min. Marco
Aurélio, relator, referendando a suspensão cautelar do
dispositivo impugnado (RISTF, art. 21, V), sob o
entendimento de não estarem caracterizados os
requisitos de relevância e urgência necessários à
edição de medida provisória, o julgamento foi
suspenso em virtude do pedido de vista do Min.
Nelson Jobim. ADInMC 1.849-DF, rel. Min. Marco
Aurélio, 19.8.98.

Extradição e Prisão Especial


O Tribunal, por maioria, confirmando
despacho do Ministro Celso de Mello, Presidente,
indeferiu pedido feito por súdito estrangeiro,
submetido à prisão preventiva para extradição, no
sentido de que lhe fosse concedido o direito à prisão
especial garantido aos parlamentares nacionais, sob a
alegação de ser membro de parlamento estrangeiro.
Entendeu-se que o art. 295 do CPP ("Serão recolhidos
a quartéis ou a prisão especial, à disposição da
autoridade competente, quando sujeitos a prisão antes
de condenação definitiva: ... III - Os membros do
Parlamento Nacional, do Conselho de Economia
Nacional e das Assembléias Legislativas dos
Estados;") comporta interpretação restritiva, não sendo
possível estender o benefício excepcional da prisão
especial por analogia. Vencido o Min. Marco Aurélio,
que entendia aplicável à espécie o referido dispositivo,
tendo em vista a inviolabilidade do direito à igualdade
garantido aos estrangeiros residentes no País (CF, art.
5º).
Prisão Preventiva para Extradição (AgRg) 315-
Áustria, rel. Min. Octavio Gallotti, 20.8.98.

Serviços de Telecomunicações: Lei 9.472/97


Concluído o julgamento de medida liminar
em ação direta requerida pelo Partido Comunista do
Brasil - PC do B, pelo Partido dos Trabalhadores - PT,
pelo Partido Democrático Trabalhista - PDT e pelo
Partido Socialista Brasileiro - PSB, contra dispositivos
da Lei 9.472/97 (Lei Geral de Telecomunicações), que
dispõe sobre a organização dos serviços de
telecomunicações, a criação e funcionamento de um
órgão regulador e outros aspectos institucionais, nos
termos da Emenda Constitucional 8/95 (v. Informativo
87). O Tribunal, por votação majoritária,
acompanhando o voto do Min. Nelson Jobim,
indeferiu o pedido de suspensão cautelar de eficácia
concernente ao art. 210 da Lei 9.472/97 ("As
concessões, permissões e autorizações de serviço de
telecomunicações e de uso de radiofreqüência e as
respectivas licitações regem-se exclusivamente por
esta Lei, a elas não se aplicando as Leis 8.666, de 21
de junho de 1993, 8.987, de 13 de fevereiro de 1995,
9.074, de 7 de julho de 1995, e suas alterações.").
Considerou-se que o dispositivo impugnado não afasta
a exigência de licitação, mas apenas estabelece para os
serviços de telecomunicações um procedimento
licitatório específico, previsto na própria Lei 9.472/97,
tendo em conta a natureza destes serviços. Vencido o
Min. Marco Aurélio, relator, sob o entendimento de
que a CF, ao atribui à União Federal competência para
legislar sobre normas gerais de licitação e contratação
(CF, art. 22, XXVII), não autoriza estabelecer normas
particularizadas para determinadas modalidades de
serviços.
ADInMC 1.668-DF, rel. Min. Marco Aurélio, 20.8.98.

Taxa e Capacidade Contributiva


Iniciado o julgamento de recurso
extraordinário afetado ao Plenário pela Segunda Turma
(v. Informativo 112) em que se discute a
constitucionalidade da taxa de fiscalização dos
mercados de títulos e valores mobiliários, instituída
pela Lei 7.940/89. O Min. Carlos Velloso, relator,
proferiu voto no sentido da constitucionalidade da
referida Lei, afastando a tese da empresa recorrente na
qual se sustenta que a variação do valor da taxa em
função do patrimônio líquido do contribuinte
equivaleria à adoção desse patrimônio como base de
cálculo do tributo, descaracterizando a natureza
contraprestacional da taxa. Salientou, ainda, que a
tabela prevista na Lei questionada — que é apenas
uma referência sobre um valor fixo, não estabelecendo
progressividade de alíquotas — observa o princípio da
capacidade contributiva, que também pode ser
aplicado às taxas (CF, art. 145, § 1º: "Sempre que
possível, os impostos terão caráter pessoal e serão
graduados segundo a capacidade econômica do
contribuinte, facultado à administração tributária,
especialmente para conferir efetividade a esses
objetivos, identificar, respeitados os direitos
individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os
rendimentos e as atividades econômicas do
contribuinte."). Após os votos dos Ministros Nelson
Jobim, Maurício Corrêa e Ilmar Galvão,
acompanhando o voto do Min. Carlos Velloso, o
julgamento foi adiado em virtude do pedido de vista
do Min. Marco Aurélio.
RE 182.737-PE, rel. Min. Carlos Velloso, 20.8.98.

IOF: Incidência na Operação de Factoring


Indeferida medida liminar em ação direta
requerida pela Confederação Nacional do Comércio -
CNC contra o art. 58 da Lei 9.532/97 ("A pessoa física
ou jurídica que alienar, à empresa que exercer as
atividades relacionadas na alínea "d" do inciso III do
§ 1º do art. 15 da Lei nº 9.249, de 1995 ( factoring),
direitos creditórios resultantes de vendas a prazo,
sujeita-se à incidência do imposto sobre operações de
créditos, câmbio e seguro ou relativas a títulos e
valores mobiliários - IOF às mesmas alíquotas
aplicáveis às operações de financiamento e
empréstimo praticadas pelas instituições
financeiras."). Ao primeiro exame, o Tribunal
considerou que a CF autoriza a União Federal a
instituir impostos sobre operações relativas a títulos ou
valores mobiliários (CF, art. 153, V), operações estas
em que estão incluídas as de factoring. Além de julgar
ausente a plausiblidade jurídica necessária para a
concessão da medida liminar, não se reconheceu,
também, a existência do periculum in mora.
ADInMC 1.763-DF, rel. Min. Sepúlveda Pertence,
20.8.98.

PRIMEIRA TURMA
Regime Inicial de Cumprimento da Pena
As condenações do réu por fatos posteriores
ao crime podem ser consideradas para a fixação de
regime inicial de cumprimento da pena mais gravoso.
Com esse entendimento, a Turma indeferiu habeas
corpus contra acórdão do Tribunal de Alçada Criminal
de São Paulo que, embora afastando a reincidência e
os maus antecedentes do paciente de modo a reduzir a
pena cominada ao mínimo legal (5 anos e 4 meses de
reclusão por roubo à mão armada), mantivera a
imposição do regime fechado para o início de
cumprimento da pena aludindo não só à gravidade do
crime em abstrato — fundamento este que, por si só,
ambas as Turmas do STF entendem inidôneo para
autorizar a adoção de regime mais gravoso ao réu —,
mas também às condenações do réu por fatos
posteriores.
HC 77.483-SP, rel. Min. Sepúlveda Pertence, 18.8.98.

Liberdade de Escolha do Defensor pelo Réu


Tratando-se de recurso do Ministério
Público contra a decisão que rejeita a denúncia,
configura cerceamento de defesa a falta de intimação
do réu para constituir advogado para o oferecimento
das contra-razões. Com esse entendimento, a Turma,
afirmando o direito do réu de escolher o seu próprio
advogado, deferiu habeas corpus para anular o
processo criminal a partir das contra-razões, inclusive,
uma vez que o juiz nomeara de ofício defensor público
sem a prévia intimação do paciente. Precedentes
citados: HC 67.755-SP (RTJ 142/477) e RHC 63.979-
AL (DJU de 30.5.86).
HC 75.871-RJ, rel. Min. Ilmar Galvão, 18.8.98.

Exame de Dependência Toxicológica


A simples afirmação do réu no sentido de
que é dependente de drogas não torna obrigatória a
realização do exame de dependência toxicológica,
cabendo ao juiz avaliar, no caso concreto, esta
necessidade. Precedentes citados: HC 73.075-SP (DJU
de 3.5.96); HC 69.733-SP (DJU de 21.5.93); HC
69.995-RS (RTJ 146/874) e RHC 61.716-MG (RTJ
118/83). HC 76.581-MG, rel. Min. Octavio Gallotti,
18.8.98.
Habeas Corpus: Conhecimento
A inabilitação para o exercício de cargo ou
função pública como pena acessória de condenação
criminal não enseja o cabimento de habeas corpus,
instrumento voltado unicamente à salvaguarda do
direito de ir e vir. Com base nesse entendimento, a
Turma não conheceu de habeas corpus impetrado em
favor de prefeito condenado pela prática do delito
tipificado no art. 1º, I, do DL 201/67, na parte em que
se pretendia afastar a execução da pena acessória de
inabilitação para o exercício do cargo antes do trânsito
em julgado do acórdão penal condenatório.
Precedentes citados: HC (AgRg) 70.033-SP (RTJ
147/642); HC 74.777-CE (DJU de 27.6.97); HC
75.624-RS (5.12.97) e HC 73.831-SC (DJU de
14.11.96).
HC 76.605-SP, rel. Min. Sepúlveda Pertence, 18.8.98.

Reajuste Inicial de Aposentadoria


O critério de reajuste inicial de
aposentadoria previdenciária fixado pelo art. 41, II, da
Lei 8.213/91 ("Art. 41. O reajustamento dos valores
de benefício obedece às seguintes ordens: ... II - os
valores dos benefícios em manutenção serão
reajustados, de acordo com as suas respectivas datas
de início, com base na variação integral do INPC,
calculado pelo IBGE, nas mesmas épocas em que o
salário mínimo for alterado, pelo índice da cesta
básica ou substituto eventual."), não ofende as
garantias da irredutibilidade do valor dos benefícios e
da preservação do seu valor real (CF, arts. 194, IV e
201, § 2º). Com esse entendimento, a Turma afastou a
tese de inconstitucionalidade do mencionado art. 41,
II, mediante a qual se pretendia, por via de
conseqüência, a subsistência da Súmula 260 do extinto
TFR ("No primeiro reajuste do benefício
previdenciário, deve-se aplicar o índice integral do
aumento verificado, independentemente do mês da
concessão, ...").
RE 231.412-RS, rel. Min. Sepúlveda Pertence,
18.8.98.

Agravo Incompleto e Justiça Gratuita


Ainda que beneficiária da justiça gratuita,
incumbe à parte fiscalizar a formação do agravo de
instrumento, instruindo o traslado com todas as peças
processuais exigidas por lei. Com esse entendimento, a
Turma, por maioria, indeferiu habeas corpus,
confirmando decisão do STJ que negara provimento a
agravo regimental em agravo de instrumento por falta
de peça obrigatória. Vencido o Min. Sepúlveda
Pertence que, considerando ser o agravante
benefíciário da justiça gratuita, permitia a
complementação do agravo de instrumento.
HC 77.317-SP, rel. Min. Sydney Sanches, 18.8.98.

SEGUNDA TURMA
Representação da Vítima
A representação da vítima prescinde de
rigor formal, bastando a demonstração inequívoca de
seu interesse na instauração da ação penal. Com base
nesse entendimento, a Turma, embora entendendo
aplicável à Justiça Militar o art. 88 da Lei 9.099/95
("Além das hipóteses do Código Penal e da Legislação
especial, dependerá de representação ação penal
relativa aos crimes de lesões corporais leves e lesões
culposas."), indeferiu habeas corpus impetrado por
policiais militares por considerar suprida a falta de
representação formal do ofendido, tendo em conta seu
depoimento judicial no sentido de ver seus ofensores
processados. Vencidos os Ministros Néri da Silveira e
Marco Aurélio, que deferiam o writ. Precedentes
citados: HC 73.226-PA (DJU de 3.5.96); HC 68.877-
RJ (RTJ 139/211).
HC 77.238-RS, rel. Min. Maurício Corrêa, 17.8.98.

Cerceamento de Defesa: Inocorrência


Com base no art. 565 do CPP ("Nenhuma
das partes poderá argüir nulidade a que haja dado
causa..."), a Turma, por maioria, indeferiu habeas
corpus em que se alegava cerceamento de defesa pelo
fato da apelação ter sido arrazoada pelo próprio réu
(que não é advogado), após o mesmo haver impedido a
atuação de defensor público. Vencido o Min. Marco
Aurélio, que deferia a liminar por entender
imprescindível, no caso, a apresentação das razões de
apelação por defensor devidamente constituído.
HC 76.669-SP, rel. Min. Nelson Jobim, 17.8.98.

Responsabilidade Objetiva
A Turma, por maioria, determinou a subida
de recurso extraordinário interposto por empresa
privada prestadora de serviço público de transporte,
mediante o qual se impugna acórdão de Tribunal de
Alçada Civil do Estado de São Paulo que entendera ser
da recorrente o ônus da prova com relação a culpa
exclusiva ou concorrente de terceiro envolvido em
acidente de trânsito. Vencido o Min. Marco Aurélio,
relator, que negava provimento ao agravo regimental
por entender que a responsabilidade objetiva prevista
no art. 37 da CF ("As pessoas jurídicas de direito
público e as de direito privado prestadoras de serviços
públicos responderão pelos danos que seus agentes,
nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o
direito de regresso contra o responsável nos casos de
dolo ou culpa.") não se limita aos passageiros
transportados.
AG (AgRg) 209.782-SP, rel. Min. Marco Aurélio,
17.8.98.

Sessões Ordinárias Extraordinárias Julgamentos

Pleno 19.08.98 20.08.98 12


1ª Turma 18.08.98 -------- 41
2ª Turma 18.08.98 17.08.98 144

CLIPPING DO DJ
21 de agosto de 1998

ACO N. 493-MT
RELATOR : MIN. CARLOS VELLOSO
EMENTA: PROCESSUAL CIVIL. PRESCRIÇÃO:
INTERRUPÇÃO. Decreto nº 20.910, de 1932, artigos 1º e
4º. D.L. 4.597, de 1942, art. 3º. Súmula 383-STF.
I. - Prescrição qüinqüenal em favor da Fazenda Pública.
Decreto nº 20.910, de 1932, artigos 1º e 4º. A prescrição
somente pode ser interrompida uma vez, recomeçando a
correr pela metade do prazo, da data do ato que a
interrompeu. D.L. nº 4.597, de 1942, artigo 3º. A prescrição
em favor da Fazenda Pública recomeça a correr, por dois
anos e meio, a partir do ato interruptivo, mas não fica
reduzida aquém de cinco anos, embora o titular do direito a
interrompa durante a primeira metade do prazo. Súmula 383-
STF.
II. - Prescrição reconhecida. Extinção do processo.
* noticiado no Informativo 115

HC N. 75.900-MG
RELATOR : MIN. ILMAR GALVÃO
EMENTA: HABEAS CORPUS. PRISÃO CIVIL.
DEPOSITÁRIO INFIEL. PENHOR MERCANTIL. AÇÃO
DE DEPÓSITO.
As mercadorias dadas em penhor mercantil ao banco, em
razão de contrato de abertura de financiamento, foram
transferidas para a posse do paciente, como fiel depositário,
com as obrigações e responsabilidades inerentes a essa
condição e com expressa vedação de não dispor dos
referidos bens a qualquer título, até que fossem cumpridas
todas as obrigações assumidas. A falta de entrega dos objetos
dados em garantia faz caracterizar a infidelidade do
depositário, que fica sujeito às sanções previstas.
As demais alegações constantes do habeas corpus,
porque dirigidas contra o mandado de prisão expedido pelo
juiz de primeiro grau, não podem ser examinadas nesta
instância, por dizerem respeito a atos supervenientes à
decisão impetrada.
Habeas corpus conhecido em parte e nela indeferido.
* noticiado no Informativo 116

HC N. 76.313-SP
RELATOR : MIN. ILMAR GALVÃO
EMENTA: HABEAS CORPUS. DEFESA. DEFENSOR
PÚBLICO. TESE ADOTADA.
Afasta-se a perspectiva de nulidade levantada na
impetração, em face do prejuízo decorrente da má
articulação do defensor público, se preferiu este, ao invés de
insistir na tese defensiva alusiva à negativa da autoria,
pugnar pela exclusão das qualificadoras, mais consentânea
com a prova dos autos.
De outra parte, não se impediu o tribunal de examinar e
refutar a tese da negativa da autoria, ao se concluir pelo
acerto da sentença de pronúncia e ao identificar a existência
de indícios suficientes para levar o paciente a julgamento
pelo júri.
Habeas corpus indeferido.

HC N. 76.574-SP
RELATOR : MIN. ILMAR GALVÃO
EMENTA: HABEAS CORPUS. CRIME DE
CONCUSSÃO. POLICIAL. PENA E REGIME INICIAL
DE CUMPRIMENTO. AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO.
Não cabe a alegação de que o juiz da condenação não
justificou a fixação da pena e a adoção do regime inicial
fechado, como lhe impunha.
No caso, podem ser identificados dados objetivos e
subjetivos desaconselháveis à fixação, em favor do paciente,
da pena no mínimo legal, inobstante eventual primariedade
técnica, sendo o regime imposto o mais consentâneo, pois
não se pode desconsiderar a intensidade do dolo, a
premeditação e as circunstâncias do crime, em que o
paciente, aproveitando-se de sua condição de policial,
intimidou a vítima, mediante ameaça de prisão, exigindo-lhe
importância em dinheiro.
Habeas corpus indeferido.

HC N. 76.674-MS
RELATOR : MIN. SEPÚLVEDA PERTENCE
EMENTA: I. Habeas corpus: incompetência do STF:
impetração fundada em direito superveniente à decisão
impugnada.
Não é do STF a competência originária para conhecer de
HC que pleiteia a aplicação retroativa, a título de lex mitior,
de direito superveniente à decisão impugnada, que, assim,
não poderia ter examinado a questão.
II. Habeas corpus: incompetência do STF: impetração
com fundamento estranho ao do pedido de revisão
indeferido.
Não é do STF a competência originária para conhecer do
HC, cujo fundamento é estranho ao da revisão indeferida, de
tal modo que possa ser versado em outro pedido dirigido ao
Tribunal da causa: precedentes.
III. Tráfico de entorpecentes: causa especial de aumento
da pena (L. 6.368/76, art. 18, III): fundamentação mais que
suficiente à sua incidência, segundo a jurisprudência
dominante.

HC N. 77.013-BA
RELATOR : MIN. SEPÚLVEDA PERTENCE
EMENTA: Prefeito: crimes de responsabilidade do art. 1º do
Dl 201/67: infrações penais comuns, persequíveis por ação
penal pública, a cuja propositura não obsta o término do
mandato do agente: nova jurisprudência do Supremo
Tribunal (HC 70.671).

HC N. 77.216-RO
RELATOR : MIN. SEPÚLVEDA PERTENCE
EMENTA: I. Transação penal (L. 9.099/95): hipótese de
conciliação pré-processual, que fica preclusa com o
oferecimento da denúncia ou, pelo menos, com o seu
recebimento sem protesto, se se admite, na hipótese, a
provocação do Juiz ao Ministério Público, de ofício ou a
instâncias da defesa.
II. Transação penal: inaplicabilidade ao processo por
crime de abuso de autoridade, que se sujeita a procedimento
especial (L. 4.898/65).

AG(AgRg) N. 209.205-SP
RELATOR : MIN. ILMAR GALVÃO
EMENTA: ACÓRDÃO QUE CONCLUIU SER A
AGRAVANTE PESSOA JURÍDICA DE DIREITO
PÚBLICO, SENDO-LHE, PORTANTO, APLICÁVEL A
NORMA DO ART. 19 DO ADCT.
Questão insuscetível de ser apreciada senão por via da
legislação infraconstitucional reguladora da matéria,
procedimento inviável em sede de recurso extraordinário,
onde não tem guarida alegação de afronta reflexa e indireta à
Constituição Federal.
Recurso que, de resto, carece de preqüestionamento.
Agravo regimental improvido.

AG(AgRg) N. 212.009-AM
RELATOR : MIN. MAURÍCIO CORRÊA
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO DE
INSTRUMENTO. AUSÊNCIA DE
PREQUESTIONAMENTO DO TEMA
CONSTITUCIONAL SUSCITADO. REQUISITO
FORMAL INDISPENSÁVEL À ADMISSIBILIDADE DO
RECURSO. SÚMULA 282/STF. MAGISTÉRIO
SUPERIOR. PROFESSOR TITULAR. PROVIMENTO
ATRAVÉS DE CONCURSO PÚBLICO DE PROVAS E
TÍTULOS. PRECEDENTE.
1. Possibilitar-se a abordagem, em sede de apelo extremo, de
tema não tratado no julgado é admitir-se o
prequestionamento implícito, que não é permitido nesta
instância.
2. O art. 206, V da CF, embora não tenha repetido a
exigência do art. 176, § 3º, VI da CF/69, não impede que a
lei estabeleça, para o magistério superior, além da carreira
que vai de professor auxiliar até professor adjunto, o cargo
isolado de professor titular, cujo provimento se dá através de
concurso público de provas e títulos, e não simples
promoção - CF, art. 37, II. Precedente.
Agravo regimental a que se nega provimento.

RE N. 191.552-SP
RELATOR : MIN. OCTAVIO GALLOTTI
EMENTA: Equiparação, em vencimentos, de Diretores da
Câmara Municipal a Diretor da Secretaria de Saúde da
Prefeitura.
Atribuição de isonomia em divergência com o enunciado
da Súmula nº 339 do Supremo Tribunal e, além disso, sem a
configuração da similitude de atribuições.

RE N. 193.932-SP
RELATOR : MIN. MARCO AURÉLIO
IMPOSTO - VINCULAÇÃO A ÓRGÃO, FUNDO OU
DESPESA. A teor do disposto no inciso IV do artigo 167 da
Constituição Federal, é vedado vincular receita de impostos
a órgão, fundo ou despesa. A regra apanha situação concreta
em que lei local implicou majoração do ICMS, destinando-se
o percentual acrescido a um certo propósito - aumento de
capital de caixa econômica, para financiamento de programa
habitacional. Inconstitucionalidade dos artigos 3º, 4º, 5º, 6º,
7º, 8º e 9º da Lei nº 6.556, de 30 de novembro de 1989, do
Estado de São Paulo.

RE N. 195.643-RS
RELATOR : MIN. ILMAR GALVÃO
EMENTA: TRIBUTÁRIO. ICMS. ESTADO DO RIO
GRANDE DO SUL. PRETENDIDA CORREÇÃO DOS
CRÉDITOS ACUMULADOS, EM HOMENAGEM AOS
PRINCÍPIOS DA ISONOMIA E DA NÃO-
CUMULATIVIDADE.
O sistema de créditos e débitos, por meio do qual se
apura o ICMS devido, tem por base valores certos,
correspondentes ao tributo incidente sobre as diversas
operações mercantis, ativas e passivas realizadas no período
considerado, razão pela qual tais valores, justamente com
vista à observância do princípio da não-cumulatividade,
são insuscetíveis de alteração em face de quaisquer fatores
econômicos ou financeiros.
De ter-se em conta, ainda, que não há falar, no caso, em
aplicação do princípio da isonomia, posto não configurar
obrigação do Estado, muito menos sujeita a efeitos
moratórios, eventual saldo escritural favorável ao
contribuinte, situação reveladora, tão-somente, de ausência
de débito fiscal, este sim sujeito a juros e correção
monetária, em caso de não recolhimento no prazo
estabelecido.
Recurso não conhecido.
* noticiado no Informativo 107

RE N. 205.532-PR
RELATOR : MIN. ILMAR GALVÃO
EMENTA: PRECATÓRIOS PENDENTES DE
PAGAMENTO À DATA DA PROMULGAÇÃO DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL. ARTIGO 33 DO ADCT.
RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS QUE IMPUGNAM A
DECISÃO QUE DENEGOU O INGRESSO DE
LITISCONSORTES ATIVOS E A QUE DECIDIU O
MÉRITO DA SEGURANÇA.
Inconciliável em sede extraordinária adentrar-se no
exame da decisão que indeferiu ingresso de litisconsortes
ativos na lide, por envolver tema que se insere nos limites
dos arts. 46 e 47 do Código de Processo Civil.
O acórdão recorrido, ao liberar da incidência da regra do
art. 33 os precatórios requisitórios pendentes de pagamento à
época do advento do texto constitucional, determinando que
fosse feito de uma só vez, malferiu a referida disposição e
destoou da orientação já firmada nesta Corte, no sentido de
que o legislador constituinte, ao se referir aos precatórios
judiciais pendentes de pagamento, não autorizou qualquer
distinção quanto aos relativos aos exercícios anteriores que
não haviam sido pagos na época da promulgação da
Constituição de 1988 (RE 148.445, Rel. Min. Octavio
Gallotti; RE 147.436, Rel. Min. Moreira Alves).
Conhecimento e provimento do recurso do Estado do
Paraná e não-conhecimento do recurso dos pretensos
litisconsortes.

RE N. 207.610-MG
RELATOR : MIN. OCTAVIO GALLOTTI
EMENTA: Taxa de licença para localização. Cobrança por
metro quadrado de área de construção, ou ocupada. Base de
cálculo que apresenta identidade proibida com a do imposto
predial e territorial urbano (art. 145, § 2º, da Constituição de
1988).
Recurso extraordinário conhecido e provido.

RE N. 228.048-SP
RELATOR : MIN. SEPÚLVEDA PERTENCE
EMENTA - I - Agravo de instrumento: traslado: necessidade
de autenticação das peças que o compõem.
Se aplicáveis ao agravo de instrumento as regras
disciplinadoras da produção da prova em juízo, não há como
afastar a incidência, na espécie, do art. 383 C. Pr. Civil,
segundo o qual “qualquer reprodução mecânica, como a
fotográfica, cinematográfica, fonográfica ou de outra
espécie faz prova dos fatos ou das coisas representadas, se
aquele contra quem foi produzida lhe admitir a
conformidade”, já que a agravada admitiu tacitamente essa
conformidade.
De qualquer modo, a MP 1490-15/96 (em vigor na data
da interposição do recurso) dispensou as pessoas jurídicas de
direito público de autenticar as cópias reprográficas de
quaisquer documentos que apresentem em juízo.
II - FINSOCIAL: empresa dedicada exclusivamente à
venda de serviços.
Firmou-se a jurisprudência do STF no sentido da
constitucionalidade, não apenas do art. 28 da L. 7738/89 —
que instituiu a contribuição social sobre a receita bruta das
empresas prestadoras de serviços —, como das normas
posteriores que elevaram até 2% a alíquota da contribuição
devida por essas empresas. Precedente: RE 187.436 (Pleno,
25.6.97).

RE N. 228.080-SC
RELATOR : MIN. SEPÚLVEDA PERTENCE
EMENTA: I - Servidor público estadual: teto constitucional:
equivalência entre os tetos (CF, art. 37, XI).
Se a remuneração do cargo de Secretário de Estado é
inferior à do cargo de Deputado Estadual, não pode o
Judiciário, a pretexto de cumprir a regra da equivalência
entre os tetos (CF, art. 37, XI), desconsiderar a diferença e
adotar, como teto remuneratório dos servidores do Poder
Executivo, a remuneração máxima paga no Legislativo.
Precedentes: RMS 21.946 (Pertence, RTJ 157/898), RMS
21.988 (Pertence, RTJ 160/466), RREE 191.394 e 210.976
(Pleno, 4.3.98, Corrêa).
II - Teto: redução do limite remuneratório (L.C. est.
43/92-SC): inexistência de direito adquirido à manutenção
do limite previsto na legislação revogada, pois é axiomático
não existir direito adquirido a regime jurídico.
III - Lícita a anterior fixação do teto local na
remuneração dos Secretários de Estado e dada a garantia
constitucional da irredutibilidade dos vencimentos, têm os
impetrantes direito a que, da incidência imediata da LC
43/92, não poderá resultar o decréscimo da quantia que
licitamente percebessem, até o montante do teto anterior.
IV- Teto estadual: fixação em montante inferior ao
previsto no art. 37, XI, da Constituição: possibilidade.
V - No art. 37, XI, CF, são previstos dois limites
máximos a considerar na implementação do sistema: o
primeiro, já predeterminado pela Constituição, para cada
Poder; o segundo, a ser fixado por lei da União e de cada
unidade federada, contido, porém, pela observância do
primeiro, mas ao qual poderá ser inferior, excetuadas apenas
as hipóteses de teto diverso estabelecida na própria
Constituição da República (arts. 27, § 2º, e 93, V).

RHC N. 77.348-SP
RELATOR : MIN. ILMAR GALVÃO
EMENTA: RECURSO DE HABEAS CORPUS.
IMPUGNAÇÃO CONTRA ACÓRDÃO DO SUPERIOR
TRIBUNAL DE JUSTIÇA, QUE DENEGOU HABEAS
CORPUS EM QUE SE ALEGARA NULIDADE.
RECURSO EM SENTIDO ESTRITO COM O MESMOS
FUNDAMENTOS.
Havendo recurso em sentido estrito da sentença de
pronúncia, com os mesmos fundamentos suscitados no
habeas corpus, é prudente o exame da nulidade argüida
fazer-se ao ensejo do julgamento do recurso em sentido
estrito.
Recurso não provido.

Acórdãos publicados: 362

T R A N S C R I Ç Õ E
S

Com a finalidade de proporcionar aos leitores


do INFORMATIVO STF uma compreensão mais
aprofundada do pensamento do Tribunal,
divulgamos neste espaço trechos de decisões que
tenham despertado ou possam despertar de modo
especial o interesse da comunidade jurídica.

Cartas rogatórias ativas - Ausência de


competência originária do STF - O STF
somente tem competência para processar
cartas rogatórias passivas.

Pet n° 1.553-SP
Relator: Min. CELSO DE MELLO (Presidente)

D
ECISÃO: A Justiça Federal
de primeira instância (Seção
Judiciária de São Paulo)
encaminha, à Presidência do
Supremo Tribunal Federal,
carta rogatória com o objetivo
de solicitar ao Juízo
estrangeiro rogado a execução,
em território da República do
Chile, de diligência
consistente na citação de réu
em processo judicial de
natureza civil.

A providência
ora solicitada pela ilustre
magistrada brasileira rogante,
consubstanciada em típica
comissão rogatória ativa, não
se inclui na esfera de
atribuições jurisdicionais do
Supremo Tribunal Federal,
cuja competência originária,
no tema, restringe-se,
unicamente, às cartas
rogatórias passivas, vale dizer,
àquelas dirigidas pela justiça
estrangeira ao Poder
Judiciário do Brasil.

Na verdade,
somente o instrumento
rogatório emanado de órgão
competente da justiça
estrangeira (carta rogatória
passiva) reveste-se de
idoneidade jurídica para
expor-se ao juízo de delibação
do Presidente do Supremo
Tribunal Federal, para efeito
de eventual concessão do
exequatur.

É por essa razão


que a Constituição da
República, ao dispor sobre as
atividades de cooperação
judiciária situadas no âmbito
da competência internacional
desta Suprema Corte,
subordina o cumprimento das
cartas rogatórias oriundas de
autoridades estrangeiras à
prévia concessão do exequatur
pelo Presidente do S.T.F. (art.
102, I, h, segunda parte).

Como se sabe,
o exequatur - que traduz uma
ordem de execução emanada
do Supremo Tribunal Federal -
somente tem pertinência, em
nosso sistema de direito
positivo, se se tratar de cartas
rogatórias encaminhadas ao
Brasil pela Justiça rogante de
Estados estrangeiros.

Vê-se,
portanto, que a concessão do
exequatur - que se inclui na
esfera de competência
monocrática do Presidente do
Supremo Tribunal Federal, por
efeito de expressa autorização
constitucional (CF, art. 102, I,
h, in fine) - qualifica-se como
ato veiculador de
determinação formal
destinada a viabilizar, no
Brasil, o cumprimento de
certos atos de natureza
processual solicitados, às
autoridades judiciárias
nacionais, mediante comissões
rogatórias provenientes do
exterior.

É interessante
observar que, no Brasil, as
cartas rogatórias passivas
eram inicialmente cumpridas
sem a formalidade da prévia
concessão do exequatur.

Na realidade,
até 1847 - data em que foi
expedido, pelo Ministério da
Justiça, um Aviso
disciplinando o cumprimento
de cartas rogatórias passivas
dirigidas à Justiça do Brasil -,
estas eram encaminhadas
diretamente aos Juízes
nacionais pelas próprias
partes interessadas, sem que
desse fato tivesse ciência o
próprio Governo Imperial
brasileiro (ARTHUR BRIGGS,
“Cartas Rogatórias
Internacionais”, p. 07, 1913,
Imprensa Nacional).

PONTES DE
MIRANDA (“Comentários à
Constituição de 1946”, vol.
III/107, item n. 2, 2ª ed., 1953,
Max Limonad), ao referir-se a
esse período, assinalou:

“Até 1847, as cartas rogatórias,


inclusive executórias, eram cumpridas pelos
juízes, sem qualquer formalidade processual,
recebendo-as diretamente das partes.
Regime de clandestinidade, se bem que
limitado às cartas rogatórias de Portugal.”

Com a
superveniência da Lei federal
nº 221, de 20/11/1894, o
Estado brasileiro instituiu o
exequatur - verdadeiro ato de
caráter político-jurídico -
como requisito necessário ao
cumprimento das comissões
rogatórias encaminhadas pela
Justiça estrangeira: “As
rogatórias emanadas de
autoridades estrangeiras serão
cumpridas somente depois que
obtiverem o exequatur do
governo federal...” (art. 12, §
4º).

O exequatur,
portanto, sob a égide da
Constituição republicana de
1891, achava-se incluído na
esfera de competência
administrativa do Governo
federal, cabendo, então, ao
Ministro da Justiça, a prática
oficial desse ato, consoante
ressalta HAROLDO
VALLADÃO (“Estudos de
Direito Internacional
Privado”, p. 530/531, 1947).

Foi somente
com a Constituição Federal de
1934 que a atribuição de
conceder exequatur deslocou-
se, da instância meramente
político-administrativa, para a
esfera de competência
originária do Supremo
Tribunal Federal: mais
especificamente, para o âmbito
de atuação monocrática do
Presidente do Supremo
Tribunal Federal (art. 77).

Sabemos que
há duas modalidades de cartas
rogatórias. De um lado, as
cartas rogatórias ativas, vale
dizer, aquelas encaminhadas
pelo juiz brasileiro a
magistrados de outros países e,
de outro, as comissões
rogatórias passivas, ou seja,
aquelas que são dirigidas por
juízes de Estados estrangeiros
à Justiça brasileira
(EDUARDO ESPÍNOLA
FILHO, “Código de Processo
Penal Brasileiro”, vol.
VII/611, item n. 1588, 2ª ed.,
1945, Freitas Bastos;
ROBERTO LYRA,
“Comentários ao Código de
Processo Penal”, vol. VI/445-
446, item n. 83, 1944,
Forense; LUÍS CEZAR
RAMOS PEREIRA, “Carta
Rogatória”, in Revista de
Processo nº 34/292, v.g.).

Daí a observação feita por JOSÉ


FREDERICO MARQUES (“Instituições de Direito
Processual Civil”, vol. II/331, item n. 504, 4ª ed., 1971,
Forense):

“De duas espécies são as cartas


rogatórias: quando enviadas do Brasil para
outro país elas se denominam rogatórias
ativas; quando remetidas de país estrangeiro
para serem entre nós cumpridas, elas se
chamam rogatórias passivas” (grifei).

Vê-se, portanto, que a presente carta


rogatória, dirigida por Juiz brasileiro a autoridade
judiciária chilena, com a solicitação formal de prática
processual a ser efetivada no âmbito espacial de uma
soberania estrangeira (ato de citação em processo civil),
subsume-se à noção de comissão rogatória ativa,
insuscetível, por isso mesmo, de ser apreciada, em
instância de mera delibação, pelo Presidente do Supremo
Tribunal Federal.

O Código de Processo Civil, ao disciplinar


as cartas rogatórias ativas (art. 210) e as cartas rogatórias
passivas (art. 211), dispõe - tratando-se de comissões
rogatórias ativas - que estas obedecerão, quanto à sua
admissibilidade e modo de seu cumprimento, àquilo que
dispuser a convenção internacional eventualmente
existente. Na falta de tratado ou acordo internacional, o
instrumento rogatório ativo será remetido à autoridade
judiciária estrangeira, por via diplomática, depois de
traduzido para a língua do país em que houver de praticar-
se o ato rogado.

Constata-se, dessa maneira, que, em sede de


cartas rogatórias ativas, ou seja, daquelas encaminhadas
por juízes brasileiros à Justiça de outros países, o iter
procedimental a elas pertinente não prevê a intervenção do
Presidente do Supremo Tribunal Federal, posto que, ou
deverão ser dirigidas pelos próprios magistrados nacionais
ao Ministro da Justiça, que, por sua vez, encaminhá-las-á
ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil, para que o
Itamaraty, então, proceda à remessa do instrumento
rogatório às missões diplomáticas brasileiras situadas no
exterior, ou observar-se-á a regra fixada em convenção
internacional, quando existente. As missões diplomáticas
brasileiras, por sua vez, submeterão as cartas rogatórias
oriundas do Brasil à apreciação das autoridades
competentes do Estado estrangeiro a que foram destinadas.

No caso presente, trata-se de típica hipótese


de carta rogatória ativa, a que não se aplica, ante as razões
expostas, a disciplina normativa prevista no texto
constitucional (CF, art. 102, I, h, in fine) e no Regimento
Interno do S.T.F. (arts. 225/229), circunstância esta que
afasta, por completo, a possibilidade jurídica de intervenção
processual do Presidente do Supremo Tribunal Federal, a
cujo juízo de delibação - como precedentemente já
enfatizado - estão unicamente sujeitas as comissões
rogatórias passivas, consoante adverte autorizado
magistério doutrinário (CASTRO NUNES, “Teoria e
Prática do Poder Judiciário”, p. 192, item n. 9, 1943,
Forense; THEMISTOCLES BRANDÃO CAVALCANTI,
“A Constituição Federal Comentada”, vol. II/346, 1948,
Konfino; OSCAR TENÓRIO, “Direito Internacional
Privado”, vol. 2/370-372, itens ns. 1218/1222, 11ª ed., 1976,
Freitas Bastos; EDUARDO ESPÍNOLA e EDUARDO
ESPÍNOLA FILHO, “A Lei de Introdução ao Código Civil
Brasileiro”, vol. 3/246-247, item n. 319, 2ª ed., 1995,
Renovar; MARIA HELENA DINIZ, “Lei de Introdução ao
Código Civil Brasileiro Interpretada”, p. 305, item n. 6,
1994, Saraiva; PONTES DE MIRANDA, “Comentários ao
Código de Processo Civil”, tomo III/255, 2ª ed., 1979,
Forense; PINTO FERREIRA, “Código de Processo Civil
Comentado”, vol. 2/10, 1996, Saraiva, v.g.).

Ao contrário do que prescreve o Código de


Processo Penal, que determina o prévio encaminhamento das
cartas rogatórias ativas ao Ministro da Justiça (art. 783), a
legislação processual civil nada dispõe especificamente
quanto a esse procedimento em tema de rogatórias ativas de
natureza civil.

Prática consuetudinária, no entanto, tem


legitimado, mesmo em sede de rogatórias ativas de
natureza civil, a remessa prévia dos respectivos
instrumentos ao Ministério da Justiça, não obstante seja
lícito, até mesmo com fundamento no art. 210 do CPC,
proceder-se ao encaminhamento direto de tais cartas ao
Ministério das Relações Exteriores.

Desse modo, e com apoio na prática


consuetudinária em referência, encaminhem-se os presentes
autos ao Senhor Ministro de Estado da Justiça, a quem
caberá verificar se o instrumento rogatório ativo se acha, ou
não, regularmente instruído e devidamente formalizado.

Transmita-se, ao Juízo Federal rogante (14ª


Vara Federal da Seção Judiciária de São Paulo), cópia
integral do presente ato decisório.

Publique-se.

Brasília, 17 de agosto de 1998.

Ministro CELSO DE MELLO


Presidente

* despacho ainda não publicado


Assessora responsável pelo Informativo
Maria Ângela Santa Cruz Oliveira
informativo@stf.gov.br