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unidade I

áfrica
Introdução à história da África

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Introdução à história da África

Elisa Larkin Nascimento

Ao final da leitura, você deverá:


• Enumerar as razões que levam ao abandono do conceito de raça.
• D escrever porque a África é considerada o berço da humanidade e da
civilização.
• D escrever a natureza da escravidão mercantil européia na África e a
diferença entre ela e algumas das diversas formas de escravidão que
ocorreram no mundo antigo.

1. África, berço da humanidade


Lembre e reflita sobre o que você viu na escola e em seus livros quando
algum professor mencionava a espécie humana. Ele fazia a identificação da
espécie com a imagem do homem branco. Teorias pseudocientíficas de
hierarquia entre as “raças” destituíam o africano de sua condição humana. Na
mais generosa hipótese, ele e outros povos “selvagens” ou “primitivos” seriam
classificados como seres sub-humanos ou irremediavelmente inferiores.
Enquanto protagonista da história e da civilização, o ser humano era tido como
branco quase por definição.
Mas você vai aprender que o conhecimento científico, ao contrário, indica
a África como berço da humanidade e do desenvolvimento civilizatório. Ao
mesmo tempo, ele nos demonstra que a velha divisão da humanidade em
diferentes “raças” carece de fundamento biológico, constituindo, na verdade,
construção histórica, cultural e social.
Já no século XIX, a teoria da evolução das espécies postulava a possibilidade
de uma lenta transformação de espécies de símios em seres cada vez mais
humanos. A idéia era separar o ser humano da família dos macacos, em tempos
relativamente recentes.
Destacados entre esses
Nas décadas de 1960 e 1970, o descobrimento e a análise de restos levantamentos são as
descobertas da família
fósseis dos hominídeos (espécies que antecedem os seres humanos modernos), Leakey na África oriental.
de seus ambientes e dos objetos por eles criados, permitiram construir uma
idéia mais precisa de evolução e do avanço técnico desde há cinco milhões de
anos.
Verifica-se assim, - passando por ancestrais pertencentes a várias espécies
do gênero Australopithecus e às espécies primitivas do gênero Homo (desde
o Homo habilis até o neandertal e seus pares) - que o caminho evolutivo
conduz o Homo sapiens ao homem moderno. Hoje é consenso que esse
processo evolutivo teve seu começo na África. Há quase dois milhões de anos,
o Homo erectus, hominídeo autor de importantes avanços na manufatura de
implementos como o machado, saiu da África em ondas migratórias rumo à
Ásia e à Europa, assim iniciando o povoamento do mundo. 33
O consenso científico sustenta que o homem moderno (Homo sapiens
sapiens) também evoluiu na África e de lá saiu, há mais ou menos150 mil anos,
em uma segunda fase de ondas migratórias através da Eurásia. Além das ossadas
fósseis, os mais antigos indícios de cada aspecto de sua presença, desde a
manufatura de implementos até a arte primitiva, encontram-se na África.
Ademais, as pesquisas na área da genética, indicam nitidamente uma
origem comum do homem moderno na África, complementando as outras
evidências. Uma das mais destacadas equipes de pesquisa genética concluiu
que a transformação de formas arcaicas de Homo Sapiens em formas modernas
ocorreu primeiramente na África, (...) e todos os humanos de hoje são descendentes
daquelas populações. (WILSON, apud. LEAKEY, 1995, p. 99).
Ao espalhar-se pela Eurásia, os humanos que saíram do continente africano
deram início a um processo de intercâmbios genéticos o qual não cessou até
hoje. Tal intercâmbio resultou no aparecimento de características novas às
populações locais.
Há aproximadamente trinta mil anos, aparecem os primeiros vestígios de
criação artística, assinalando nova fase no desenvolvimento da vida humana.
Por volta de dez mil anos atrás, encontram-se os primeiros indícios da prática
agrícola.
É mais ou menos nessa época que verificamos a presença no Brasil de uma
antiga população humana. Na década de 1970, foram encontrados em Minas
Gerais os restos, datados de uns doze mil anos atrás, de uma mulher que passou
a ser chamada Luzia.
A face de Luzia, reconstituída em 1999, revela o que os cientistas brasileiros
antes julgavam “inconcebível”: feições nitidamente negróides. Ela fazia parte
Inconcebível, de de uma população que teria chegado ao continente sul-americano há mais
acordo com Walter
Neves, arqueólogo ou menos quinze mil anos através do Pacífico. Pertenceria, talvez, à mesma
da USP, citado em “A matriz populacional negra dos indígenas da Austrália, do sudeste da Ásia, e
primeira brasileira”,
revista Veja, 25 de das ilhas da Indonésia e Timor. Esse fato surpreendeu a comunidade científica
agosto de 1999. por contrariar a teoria antes vigente de uma origem única dos povos das
Encontram- Américas, em migrações posteriores de tipos mongolóides vindos da Ásia pelo
se espécimens
semelhantes, datadas de Estreito de Bering. Entretanto, no contexto da história das migrações humanas
mais ou menos a mesma primordialmente originárias da África, a identidade negróide e miscigenada do
época, na América do
Norte, na Colômbia, e povo de Luzia não causou nenhum espanto.
Terra do Fogo.

Raça, verdade científica ou invenção ideológica?


A idéia das chamadas raças humanas surgiu quando cientistas europeus
quiseram categorizar as diferenças entre os seres humanos oriundos de
regiões afastadas da Europa. Aparências distintas foram associadas a supostas
diferenças biológicas, constituindo o conceito geográfico de “raça”. Imaginou-
se uma hierarquia de capacidade intelectual e civilizatória em que as raças
não européias seriam classificadas como inferiores. A idéia da superioridade
da raça branca, supostamente comprovada pela ciência, passou a justificar
procedimentos de dominação de outros povos, como a escravidão, a conquista,
o colonialismo e o imperialismo. Hoje, o peso esmagador dos dados científicos
fundamenta os seguintes pontos de consenso:

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• A interação e miscigenação entre grupos humanos desde tempos
remotos, ao contrário do suposto isolamento das populações oriundas
de regiões específicas, esvazia a noção das raças geográficas.
• Os seres humanos pertencem todos à mesma espécie. O maior peso
da opinião científica indica que eles evoluíram de uma ancestralidade
comum iniciada na África.
• É maior a gama de variações genéticas ligadas às habilidades humanas
dentro de qualquer “raça” específica do que entre as raças geográficas.
• Os dados científicos indicam apenas diferenças minúsculas entre as “raças”
geográficas, e essas diferenças não estão ligadas à capacidade intelectual
ou à personalidade e constituição psicológica das pessoas.

2. África, berço da civilização


A África tem sido palco de alguns dos maiores avanços tecnológicos da
história, entre eles a prática agrícola, criação de gado, mineração e metalurgia
(do cobre, do bronze, do ferro, do aço), o comércio, a escrita, a arquitetura
e engenharia na construção de grandes centros urbanos, a sofisticação da
organização política, a prática da medicina e o avanço do conhecimento e da
reflexão intelectual. Foi também centro do desenvolvimento de civilizações,
uma das mais avançadas da experiência humana. Entretanto, a imagem de
seus povos como não construtores do conhecimento ou da tecnologia,
complementada pela idéia de suas civilizações como “importadas” ou erigidas
por povos estrangeiros, ainda molda o conceito comum da África como um
continente sem história. Apenas muito recentemente, há o reconhecimento de
uma África histórica repleta de grandes realizações.
Ao abordar a história africana, é preciso ampliar a perspectiva para muito
além dos últimos quinhentos anos, que constituem apenas uma minúscula parte
dessa história. Aliás, o ufanismo em torno da expansão européia quinhentista
tende a distorcer nossa visão histórica em geral, reduzindo o mundo antigo a
um imobilismo primitivo que não o caracterizava. Os povos antigos, até mesmo
africanos, navegavam os mares à procura da rota para as Índias, milênios
antes das caravelas portuguesas e espanholas. Os egípcios construíam navios
de grande porte desde o terceiro milênio a.C., e há indícios de que enviavam Mouro vem do termo
frotas até à Irlanda à procura de estanho para fazer o bronze. O mundo antigo grego mauros - (escuro
ou negro) e era aplica-
caracterizava-se por ativo comércio e intercâmbio cultural entre a África, do pelo exército roma-
a Europa, Sumer e Elam, a Índia, a China e Ásia oriental, e provavelmente as no aos africanos que
invadiram, por volta
Américas. de 50 a.C., a região dos
atuais países de Morro-
Os mouros, basicamente povos africanos islamizados, dominaram a cos e Argélia. A dinastia
dos Almorávidas, um
península ibérica durante séculos, ocasionando um verdadeiro iluminismo na dos principais agen-
Idade Média européia ao protagonizar o avanço dinâmico do conhecimento tes da dominação da
Península Ibérica, era
humano. Na Europa, naquela época, não havia dúvida quanto à identidade marcadamente negro-
africana dos mouros, como testemunham o personagem Otelo, de Shakespeare, africana. A palavra “ára-
be” não tem implicação
bem como retratos pintados e bustos esculpidos à época. etnológica, designando
populações islamizadas
africanas, semitas e
miscigenadas. A identi-
ficação do árabe como
“branco” perpetua
noções equivocadas de
uma etnologia35 ultra-
passada.
A circunscrição do olhar histórico aos últimos quinhentos anos reforça a
imagem construída, muito recentemente, dos povos africanos como primitivos
ou eternos escravos. Ao deixar de lado 5.500 anos de desenvolvimento africano
que antecedem o período da escravidão mercantil, essa perspectiva encoberta
um fato incontestável: os africanos viveram apenas uma ínfima parte de seu
tempo histórico amarrados aos grilhões da escravidão mercantil. Durante
milênios, foram agentes ativos do desenvolvimento da civilização humana em
todo o mundo.
Você já havia pensado nisso? O período da escravidão mercantil e da
colonização e descolonização da África correspondem a menos de 8% dos seis
mil anos da história africana! Ou seja, os africanos viveram 92% de sua história
exercendo sua soberania e contribuindo para a construção da civilização e do
desenvolvimento em todo o mundo. Observe a linha do tempo da história
africana apresentada a seguir:

Civilização dinástica egípcia seus antecedentes

4000 A.C. 700 A.C. 300 A.C. 0 300 D.C. 500 D.C. 1000 D.C. 1500 D.C. 2000 D.C.

Estados antigos
(Meroe, Núbia, Kush)
25ª Dinastia Outros Estados e impérios africanos
os Reis Núbios no Egito Escravidão Mercantil

2.1 Escravo = negro?


No Brasil, é tão forte a identificação da origem africana com a condição
escrava que a palavra “negro” é usada como sinônimo de escravo. Entretanto,
a escravidão atingiu vários povos do mundo, até os brancos europeus, e não
apenas os africanos. Aliás, o vocábulo “escravo” deriva de eslavo, em decorrência
da escravização de europeus de língua eslava, muito comum durante o Império
Romano e a Idade Média.
Em termos qualitativos e quantitativos, os sistemas de escravidão no
mundo antigo variavam, porém todos diferiam da escravidão praticada
pelos europeus na África nos últimos séculos. Em Atenas, a escravidão por
dívida foi substituída pela captura e venda de prisioneiros de guerra oriundos
das sociedades ao redor do mar Egeu. Ao apogeu dessa prática, os escravos
formavam um terço da população.
A escravidão O Império Romano praticava o escravismo em escala maior. Entre os séculos
permaneceu como
uma instituição social e II a.C. e IV d.C., a captura de escravos passou a ser uma das principais razões
econômica significativa para o expansionismo militar romano. Obtinha-se escravos principalmente em
na Europa ocidental
medieval. Da Idade guerras contra os povos “bárbaros” da Europa ocidental e oriental: germanos,
Média até o início do
século XIX, os escravos eslavos, bretões, gregos, celtas e outros. Calcula-se que um terço da população
eram capturados era constituída por escravos.
principalmente nas
regiões da Europa
oriental, Ásia central
e Irã.

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2.2 A natureza inédita da escravidão mercantil européia na África
É comum a alegação de que a escravização de africanos no contexto da
expansão européia e da colonização das Américas nada tinha de especial, pois
os africanos já escravizavam seus próprios irmãos e os europeus apenas se
engajavam em um comércio legítimo já estabelecido. Tal visão omite o aspecto
inédito e fundamental do escravismo mercantil europeu: com base nas teorias
racistas, que destituíam os africanos de sua condição humana, tornava-os
animais de carga ou ferramentas para geração de lucro, estampando-os com a
marca de uma inferioridade inata em que o cativeiro seria sua “salvação”.
As formas de servidão praticadas na África baseavam-se na captura de
prisioneiros de guerra. A condição servil era reversível e não reduzia o indivíduo
à condição de simples mercadoria. Além de manter intacta a sua humanidade,
o cativo gozava de certos direitos e ao sair da servidão podia elevar seu nível
social. Havia reinados em que era rigorosamente proibido mencionar a origem
servil de uma pessoa; assim, um antigo cativo podia tornar-se chefe de aldeia.
Quando, em algumas partes da África nos séculos XVIII e XIX, o tráfico tornou-
se prática maciça, tratava-se não de um fenômeno africano, mas da integração
das sociedades locais ao sistema econômico capitalista mundialmente
dominante.
Ademais, a enorme escala em que a escravidão mercantil operava na
África levou a um significativo processo de despovoamento do continente e
contribuiu para a desestruturação do seu processo de desenvolvimento. Nem
de longe essas conseqüências se comparam àquelas provocadas por formas
anteriores de servidão.

2.3 Unidade e desenvolvimento na história africana


Há uma unidade subjacente à continuidade de desenvolvimento em todas
as regiões africanas. Esse fato reflete um processo que remonta aos tempos
em que surgiam a prática da agricultura e da criação de gado, bem como a
tecnologia do ferro. O povoamento do continente envolvia deslocamentos de
populações com origens comuns que se estabeleciam em terras novas como
grupos distintos, consolidando novas identidades ao mesmo tempo em que
conservavam semelhanças derivadas das tradições originais.
As fases férteis do Saara e sua lenta transformação em deserto provocaram
migrações e intercâmbios entre seus habitantes e vizinhos. Seguiam populações
em direção ao leste, nordeste, norte e sul, onde se misturavam a povos locais.
Assim, o Saara-Sudão seria um ponto de difusão de elementos culturais e
simbólicos, bem como de instituições e atitudes sociais, comuns a povos
africanos geograficamente muito distantes entre si. O domínio da tecnologia do
ferro se integra a esses fluxos, formando um fator de desenvolvimento comum
entre os povos do continente.
A civilização clássica do Egito pode ser identificada como outra fonte Trata-se não de dialetos
comum, refletida em vários aspectos de fluxo cultural. Mais de mil línguas (equívoco comum no
Brasil), mas de línguas
distintas derivam de alguns poucos grupos lingüísticos, e há indícios de que a africanas. Cf. Lopes,
1988
língua egípcia antiga tenha sido uma espécie de língua-mãe do continente.

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2.4 Temas gerais da história africana
Aqui você vai estudar considerações breves, e portanto superficiais, sobre
temas que perpassam a experiência africana de modo geral, no intuito de
esboçar um quadro em que os Estados e Impérios listados na cronologia possam
ser contextualizados. Qualquer generalização, evidentemente, contempla as
exceções.

2.4.1 O saber e o progresso tecnológico


Em todo o continente e em diversas épocas, os povos africanos
desenvolveram sistemas de escrita e de altos conhecimentos na astronomia,
na matemática, na agricultura, na navegação, na metalurgia, na arquitetura
e na engenharia. Na medicina, praticavam desde a cesariana até a autopsia,
passando por vários outros tipos de cirurgia, para não mencionar a vacina
contra a varíola e outras doenças. Construíram cidades belíssimas e centros
urbanos de conhecimento internacional que abrigavam bibliotecas enormes
em Timbuktu e os maiores lucros eram obtidos com o comércio de livros.
Criaram filosofias religiosas, sistemas políticos complexos e duráveis, obras de
arte de alta sensibilidade e sofisticação. A riqueza do ouro e do marfim africanos
não apenas compunha as moedas como decorava os lares e as beldades da
Índia, da China e da Europa. O melhor ferro no mercado internacional do século
XII, de acordo com al-Idrisi (apud. Davidson, 1974), era o da África central e
meridional.
Assim, não apenas o acúmulo de riqueza e a centralização do poder, como
também o desenvolvimento tecnológico, cultural e humano caracterizaram a
experiência africana, que se integrava ao mundo antigo em um intercâmbio
dinâmico.

2.4.2 Natureza do Estado político e da propriedade


O hábito de identificar a constituição de grandes Estados e Impérios como
indicador do progresso político reflete um critério um tanto arbitrário, pois as
sociedades pequenas se demonstraram capazes de criar formas de governo
democráticas, igualitárias e duradouras. Contudo, a existência de grandes
Hoje, no contexto Estados e Impérios no contexto africano – o de Mali abrangia um território
dos organismos maior que o Império Romano – nos leva a registrar algumas reflexões sobre
multilaterais do
direito internacional, o características do Estado na África.
modelo do consenso
político oriundo Prevalecia na maioria dos casos a monarquia espiritualmente fundada,
de sistemas não
europeus, inclusive os ou seja, os poderes políticos procediam da sanção espiritual coletivamente
africanos, ganha cada reconhecida, e a pessoa do monarca (que não era considerado divino)
vez mais peso como
referência no exercício incorporava o consentimento de Deus ao bem-estar de seu povo.
da democracia entre
as nações. Ao mesmo tempo, os sistemas políticos eram marcados pela descentralização
do poder, em grande parte proveniente de um fato básico que os marca como
africanos: a propriedade coletiva da terra – ou talvez melhor dito, a ausência do
princípio de propriedade da terra. A terra, como o ar, era um bem comunitário
indivisível e inalienável. As questões e os conflitos em relação à terra, a
administração de seu uso, eram atributos de chefes autóctones, enquanto os
impostos e outras exigências do Estado incidiam sobre os homens e os bens
38 móveis.
Aqui reside o perigo da aplicação aos Estados africanos de conceitos
formulados a partir da história européia, como o do feudalismo. Se não existia nos
Estados africanos a propriedade privada da terra, não havia feudo, e portanto não
lhes cabe a noção de feudalismo. Da mesma forma que constitui um equívoco a
aplicação do rótulo “escravismo” aos sistemas de servidão praticados na África,
na medida em que os iguala ao escravismo mercantil europeu, o conceito de
feudalismo também se revela equívoco.
Outra característica do Estado africano é o papel do rei como regulador da
distribuição de riqueza implícito no próprio monopólio real. Além de acumular
riqueza, o soberano o distribuia, e sem esse poder não lhe seria possível exercer
a autoridade investida na função real. Baseando-se em extensas pesquisas, Basil
Davidson (1974, p.91-92) assim conclui:
Em Gana, por exem-
plo, ao rei pertencia o
Essas sociedades africanas nunca desenvolveram a autocracia do ouro em pedra, mas
governo feudal que repousava sobre a alienação da terra daqueles que a o ouro em pó ele
deixava ao povo. A
cultivavam. Não ocorreu no seu caso tamanha e tão crucial estratificação da famosa ostentação do
sociedade. Construídos sobre a propriedade coletiva da terra ..., esses reinados Imperador Mansa Musa
de Mali, ao viajar para
permaneciam muito mais amplamente democráticos, mesmo considerando o Meca distribuindo ouro
crescimento constante do poder real após a metade do século XV, do que seus aos povos locais, é um
exemplo simbólico.
contemporâneos na Europa.

2.4.3 O ethos da sociedade matrilinear


O sistema matrilinear caracteriza as sociedades africanas desde tempos
imemoriais. Trata-se de um sistema de partilha de direitos e responsabilidades
em que a mulher desempenha importantes funções e goza de direitos
sociais, econômicos, políticos e espirituais. Seu papel era marcante na sucessão
real, na herança de bens materiais, e no exercício do poder político.
Ki-Zerbo observa (1980, p. 755) que o parentesco uterino parece ter saído
das profundezas da pré-história africana, do momento em que a sedentarização No mito fundador da
civilização egípcia,
do neolítico tinha exaltado as funções domésticas da mulher, a ponto de torná-la Osíris e Ísis exerciam
o elemento central do corpo social. O profundo impacto dos sistemas patriarcais em conjunto o poder
político o espiritual. Ísis
do islamismo e do colonialismo europeu que introduziram novos esquemas de reconstitui e ressuscita
Osíris após seu assas-
organização social e de exercício do poder não conseguiu eliminar do ethos sinato.
social africano o legado dessa milenar proeminência da tradição matrilinear.
No Egito, a mais fa-
mosa, a faraó Hatshep-
São vários os exemplos de mulheres soberanas no Egito. Em Núbia, a sut, assumia todas as
linhagem das rainhas Kentakes reinou durante seiscentos anos por direito funções de chefia do
Estado. Outras, como
próprio e não na qualidade de esposas, à frente da adminstração civil e militar. Nefertiti, reinavam
Angola nos dá o exemplo da Rainha N’Zinga, Gana o de Asantewaa, e assim por em conjunto com os
maridos.
diante: a história da África é repleta de rainhas estadistas e guerreiras.
As Kentakes reinaram
Cumpre observar que o sistema matrilinear foi associado ao suposto atraso de 300 a.C. até 300
depois da era cristã.
africano por antropólogos convencidos da superioridade da cultura ocidental. Amanirenas, em 29 a.C.,
atacou as legiões roma-
O patriarcalismo seria, para tais cientistas, um dos fatores que fez da civilização nas e liderou durante
européia o estágio mais avançado de um suposto progresso universal dos povos cinco anos uma guerra
de resistência nacional.
– modelo a ser almejado pelos primitivos.
Cheikh Anta Diop, autor de estudos aprofundados sobre o tema, indaga
qual a civilização mais avançada: a que nega à metade da população sua
plena condição humana, ou aquela que reconhece e estimula nos cidadãos
de ambos os sexos a capacidade de realização pessoal e participação na vida
coletiva? Que o digam as sociedades ocidentais modernas ao sofrer profundas 39
pressões e modificações sociais, políticas e econômicas oriundas da falência do
patriarcalismo. O “último estágio” do desenvolvimento humano vai cedendo, e o
modelo das sociedades africanas matrilineares oferece exemplos para orientar
esse movimento.

2.5 Algumas matrizes culturais africanas


A seguir você vai estudar algumas das matrizes principais a partir das
quais se desenvolveriam os Estados e as sociedades africanas que os europeus
encontrariam mais tarde.
Entre seis mil e quatro mil anos antes da era cristã, já existiam concentrações
de populações de prática agrícola incipiente ao lado dos rios Nilo, Niger e
Congo que protagonizaram avanços no conhecimento e na tecnologia. Os
Isonghee de Zaïre utilizavam uma espécie de ábaco, e povos da África central
construíram os túmulos ciclopeanos, entre as primeiras obras monumentais da
humanidade.
2.5.1 Civilizações clássicas: Egito, Núbia, Axum
É no vale do rio Nilo que se desenvolveu a maior civilização clássica africana,
a egípcia, cujas origens estão na migração de africanos vindos do oeste, sul
e sudoeste, provocada em parte pela desertificação do Saara. A tradicional
localização do Egito no “Oriente próximo” assim constitui um equívoco
geográfico, histórico e etnológico que ainda predomina no imaginário social e
em muitas obras sobre a África, as quais deixam de incluir o Egito como parte
de sua história.
A civilização egípcia foi autora de avanços tecnológicos revolucionários,
talvez a mais importante da história humana - a invenção da escrita. Conheça
outros avanços:
• A civilização egípcia, mais de quatro mil anos antes da era cristã,
desenvolveu um calendário mais exato que o ocidental moderno.
• As pirâmides demonstram uma engenharia extremamente precisa há
quase cinco mil anos.
• Os papiros de Ahmes e de Moscou mostram uma matemática avançada e
abstrata desenvolvida desde treze séculos antes de Euclides.
• A medicina era praticada e pesquisada desde 3.200 a.C. por Atótis, e
a partir de 2.980 a.C. sofreu avanços consideráveis com Imhotep. Os
papiros descobertos por Smith (1.650 a.C.) e Ebers (2.600 a.C.) revelam
conhecimentos médicos avançados, incluindo “as primeiras suturas e
fitas; os começos da antissepsia com sais de cobre” e “a existência de
uma medicina objetiva e científica..., fundamentada na atenta e repetida
observação do doente, na experiência clínica e num conhecimento da
anatomia que até o momento ninguém suspeitava”. (Comentários de J.H.
Breasted, tradutor do papiro Smith e de P. Ghalioungui, apud. Newsome,
in: Van Sertima, 1983).
Estes são apenas alguns exemplos do avançado conhecimento do Egito,
onde estudaram sábios gregos como Sócrates, Platão, Tales, Anaxágoras e
Aristóteles.
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O chamado pai da história, Heródoto, também observou a intimidade
entre a África e as origens do Egito quando afirmou que entre os egípcios e
os etíopes, não gostaria de dizer quem aprendeu com quem (Apud. Davidson,
1974, p. 12-13). O testemunho de Heródoto não foi levado muito a sério por
cientistas europeus comprometidos com a tese de uma origem estrangeira da
civilização egípcia. A partir da década de 1950, entretanto, o químico, arqueólogo A expressão “etíope”
e antropólogo senegalês Cheikh Anta Diop realizou obra extensa de pesquisa referia-se a antes a to-
dos os africanos, termo
científica que derruba as teses erigidas para “provar” tal origem externa. “negro”.
Outros autores como Théophile Obenga, Martin Bernal, Basil Davidson, Cheikh Anta Diop
- Fundador do pioneiro
Ivan Van Sertima, Runoko Rashidi levantam dados que reforçam o registro Instituto Fundamental
feito desde os séculos XVIII e XIX por pesquisadores europeus (Gerald Massey, da África Negra (IFAN)
em Dacar, com seu
Godfrey Higgins, George Rawlinson, John Baldwin, Albert Churchward e outros) laboratório de análises
sobre as persistentes evidências de que a civilização africana expandiu-se por de rádio carbono.
meio do mundo antigo, estabelecendo-se como um dos principais esteios do Obra clássica recente
é Atenas negra, de Mar-
desenvolvimento humano. tin Bernal.

A origem da civilização da antiga Grécia constitui tema central nesse


contexto. Ainda prevalece o chamado modelo ariano, que postula uma origem
européia. Contrapõe-se a esse modelo o depoimento dos próprios gregos
antigos, o qual reconhecia grande influência do conhecimento anteriormente
desenvolvido no Egito sobre sua herança intelectual e cultural. As investigações
científicas fundamentam um modelo afroasiático que confirma a tese de Diop:
o Egito africano destaca-se entre as raízes da civilização ocidental.
O Egito manteve intercâmbio com o restante da África desde a época da
quarta dinastia (c. 2620-2480 a.C.), quando grandes expedições marítimas eram
enviadas ao sul pelo Mar Vermelho. Comerciantes egípcios seguiam ao sul e ao
ocidente do continente, chegando talvez até à beira das florestas do Congo.
Também ao leste e ao norte, havia intercâmbios com os povos e civilizações
arábicas, sumerianas e elamitas (persas). A tradição egípcia e as ruínas de grandes
complexos arqueológicos atestam contatos importantes com a Índia por meio
de Harappa/Mohenjo-Daro, uma rica civilização urbana do terceiro milênio a.C.
criada por gente negra que exibe semelhanças com o contemporâneo Egito
dinástico. Quanto à Europa, as Nossas Senhoras negras, resquícios do culto a Ísis
na Europa oriental e ocidental, configuram apenas um entre muitos registros
do seu íntimo e prolongado contato cultural com o Egito.

Núbia
Ao sul do Egito, Núbia – rica em ouro, ébano e cultura humana – acompanhou
as mais longínquas origens da cultura egípcia. Lá floresceu o império de Cush,
com capital em Napata, cujos dirigentes lideraram o próprio Egito durante o
período da 25ª dinastia (c. 750 a 660 a.C.). Mais tarde, o centro cushita desloca-
se para Méroe, de onde supõe-se que a tecnologia do ferro se espalha para o
sul e o ocidente da África. De aproximadamente 200 a.C. até o quarto século
da era cristã – em um período em que o Egito já se encontrava sob o domínio
macedônio e romano – o Império Meroítico de Cush tinha sua própria escrita,
construía grandes centros urbanos com templos e pirâmides, manufaturava
metais e engajava-se em um ativo comércio internacional com países remotos
como a Índia e a China.

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Axum
No norte da Etiópia, tem início no quinto século a.C. o Estado de Axum,
fruto de intensa interação africana com o sul da Arábia. Assim, a lenda da aliança
da rainha de Sabá com Salomão, sendo seu filho Menelik o mítico fundador da
Etiópia, não carece de fundamento histórico. A partir de aproximadamente 50
d.C., o porto de Adulis se tornaria um centro mundial de ativo comércio com a
Ásia através do oceano Índico. Adulis fazia parte de uma cadeia de portos que
subiam o litoral desde a região centro-africana. O rei Ezana de Axum, primeiro
monarca convertido ao cristianismo, derrotou Méroe no quarto século d.C. e
inaugurou a era do cristianismo etíope, fenômeno que recorda os três papas
africanos da igreja católica: Vítor I, que assumiu a cadeira papal em 189, Miltíades
(311), e Gelásio I (492). A cultura urbana de Axum daria origem a um dos mais
duradouros impérios da história. A Etiópia das dinastias zagüe e salomônicas
sucumbiria apenas à invasão da Itália fascista em 1935, reinstalando o imperador
Haile Selassie em 1941.

2.5.2 Os bérberes
Os descendentes dos migrantes do Saara-Sudão rumo ao norte, na época
da seca, são os bérberes, donos de uma língua e escrita próprias e de um denso
complexo de tradições culturais. Sem unificar-se em uma entidade política, os
reinados bérberes desenvolveram uma intensa atividade comercial responsável
pelo estabelecimento de intercâmbios pelo Saara com povos africanos ao
sul. A base desse comércio era a troca do sal e o cobre pelo ouro e o marfim.
Bérbere - O termo
Seu comércio mediterrâneo, em relação estreita com os fenícios, integrava o
designa um grupo interior da África aos circuitos do mundo antigo. Nem os fenícios e nem Roma,
lingüístico e não étnico
ao conquistar a região, conseguiu domar o espírito de independência e a
especificidade cultural dos bérberes.

2.5.3 África ocidental


Os descendentes daqueles que migraram do Saara-Sudão em direção ao
sul se misturaram a populações locais, praticando a agricultura e a mineração.
O fator mais importante no seu desenvolvimento seria a tecnologia do ferro, de
modo geral a partir de 500 d.C., que também propiciou o sucesso de Méroe e
Axum. No comércio de ouro e marfim, intermediado pelos berberes, fundou-se
em parte a base econômica de grandes Estados africanos ao sul do Saara, entre
os primeiros do Império de Gana.
Quase um milênio antes da era cristã, surge na confluência dos rios
Niger e Benue a civilização nok, conhecida pelas suas sofisticadas obras de arte.
Com o uso do ferro, sua rica cultura duraria até o início do terceiro século da era
cristã.

2.5.4 África central e meridional


O grande fenômeno das migrações de povos do grupo lingüístico banto,
a partir de 2.500 anos, estava consubstanciado pelos estudos que apontam a
sua origem na região da atual Nigéria e Camarões. Lá teria surgido há milênios o
“banto original” – do qual derivariam centenas de línguas africanas modernas. A
42
múltipla trajetória dos que falavam essa língua, os levaria em grupos pequenos
rumo ao sul, para o Congo, ou em direção ao leste e depois ao sul. O domínio O termo banto
da tecnologia do ferro confunde-se com essas migrações, embora não se saiba refere-se ao grupo
exatamente quando e de que forma. A diáspora banta prolongou-se da bacia lingüístico e não tem
conotação etnoló-
do Congo ao sul, sudoeste, e sudeste, lentamente deslocando ou absorvendo gico.
populações locais.
Entre os povos originais que resistiram a essa “invasão” banta e continuaram
vivendo da caça e coleta, estão os san e os khoi-khoi. Cabe lembrar a seu
respeito o alerta de Davidson (1974, p. 56) quando assinala que de forma
nenhuma o chamado primitivismo desses povos implicaria em inferior talento
ou inteligência. O modo de vida social deles, individual e coletivo, com sua força
e sua flexibilidade, suas minúcias de limites e equilíbrio, sua nua simplicidade de
forma combinada com tolerância para tensões e erros, não dá lugar para tal idéia.

2.5.5 O Islão
Embora externo ao continente africano, o Islão constitui uma matriz
civilizatória na medida em que sua expansão tem impacto importante sobre a
formação e/ou a sustentação de vários estados políticos. Cabe lembrar alguns
fatos básicos em relação a esse fenômeno, ressalvados os perigos de qualquer
generalização.
De forma geral, não se trata de uma superposição de elites ou classes
dirigentes “árabes” sobre sociedades e populações originais, muito embora
a expansão islâmica implicou em violentos conflitos, obrigando à supressão
de intensa resistência. Entretanto, as estruturas dos Estados islamizados
costumavam manter a forma descentralizada característica dos africanos. A
expressão “sociedades africanas islamizadas” reflete o fato de que os povos, as
sociedades e as estruturas de Estado preservavam a essência de sua identidade
africana.
Na maioria dos casos, a imposição da religião islâmica era relativa,
sobretudo fora dos grandes centros urbanos. As religiões e os costumes nativos
continuavam vigentes, mesmo que as lideranças locais ou as elites assumissem,
por vezes de forma bastante simbólica, a religião do prestígio e do poder.
A extensão e intensidade da influência cultural do Islão variam de acordo
com o lugar. De grosso modo, na África oriental dos grandes centros urbanos
medievais as populações absorveram de forma mais atenuada a prática e os
preceitos islâmicos, enquanto que em algumas áreas da África ocidental, o Islão
implantou-se de uma forma ortodoxa “mais realista que o rei”.

3. Os africanos nas Américas antes de Colombo


Os primeiros espanhóis que visitaram o istmo de Panamá e o México
no início do século XVI, entre eles o historiador Pedro, o Mártir, registraram a
existência de povos negros que viviam nas florestas e se engajavam em um
comércio e em uma relação, às vezes, conturbada com os índios, que viviam
ali, ao redor. O fato não lhes causava a estranheza que hoje produz em função
da construção da imagem da caravela como a primeira embarcação oceânica e
do africano atrasado incapaz de navegar os mares. Os europeus quinhentistas
conheciam bem o africano navegador. O próprio Colombo havia viajado na
África, e seu irmão, um comerciante de jóias, lhe trazia notícias de clientes 43
africanos acostumados a viagens marítimas. Tudo indica que fontes africanas
tenham fornecido as informações em que Colombo e o rei de Portugal se
basearam para propor à Espanha a Linha de Tordesillas, como divisória de um
continente de cuja existência ninguém tinha certeza ao assinar aquele tratado.
Colombo foi detido por uma tempestade no porto de Lisboa, após sua
segunda viagem às Américas e quando ainda estava a serviço da Espanha. O rei
de Portugal o convocou à corte, e Colombo apresentou-lhe os índios que trazia,
bem como vários gua-nin, nome indígena das pontas de lança que os nativos
diziam ter comprado dos “homens altos e escuros que chegam de onde nasce
o sol”. Essas pontas de lança eram feitas de uma liga metálica muito específica,
fundida e utilizada na África oriental. O nome da liga, em mandinga, era gua-
nin.
São vastas e variadas as evidências e os indícios da presença africana nas
Américas, sobretudo no México, antes de Colombo. Pesquisas realizadas em
campos científicos tão diversos quanto a arqueologia, a lingüística, a serologia
(estudo das propriedades do sangue), a botânica, a antropologia, a história da
arte, e outros, convergem para essa conclusão. Restos humanos encontrados a
partir da década de 1970 a confirmam. Ivan Van Sertima reúne dados levantados
nessas pesquisas no livro Eles vieram antes de Colombo. Diante do peso de tanta
evidência concreta e amplamente sustentada na investigação científica, fica
nitidamente demonstrado que a única razão da ainda persistente relutância em
aceitar essa tese é o preconceito. Aliás, um preconceito duplo: o que identifica
Os Olmecas são o africano como incapaz de realizar tal feito, e o que se recusa a admitir a
povos que viveram possibilidade de não terem sido os europeus quinhentistas quem primeiro
na região Centro-Sul
do atual México. Sua “descobriu” as Américas.
influência cultural,
contudo, alcançava Van Sertima identifica dois possíveis períodos de contato entre a África
distâncias muito
maiores, como indicam antiga e as Américas. O primeiro teria lugar na época em que Núbia reinava como
vestígios arqueológicos principal poder marítimo mundial, quando aparecem em território olmeca as
encontrados em El
Salvador. Os Olmecas gigantescas cabeças esculpidas em pedra que retratam, com impressionante
predominaram competência e fidelidade a detalhes, rostos de marinheiros núbios com suas
na região
aproximadamente indumentárias típicas. Nessa época aparecem, sem vestígio de evolução anterior
de 1200 a.C. – 400 no México, pirâmides no estilo núbio e conjuntos de elementos culturais cuja
a.C., e de fato muitos
alegam que eles são identidade com os africanos está longe dos limites da coincidência. Ademais, a
a origem de todos os
elementos primários e cerâmica pré-colombiana retrata rostos africanos em abundância, com a mesma
raízes das civilizações minuciosa perfeição realizada nos monumentos de basalto dos olmecas.
mesoamericanas que
se desenvolveriam O segundo contato seria na época do príncipe Abu-Bakari, imperador de Mali
posteriormente.
cuja história é contada por historiadores muçulmanos, seus contemporâneos.
Soberano confinado a um império sem litoral, fascinou-se pelo mar, mandou
construir frotas e lançou expedições ao Atlântico. Em uma delas, o próprio Abu-
Bakari embarcou pelos “rios dentro do mar” – correntezas que levam diretamente
ao continente americano – e nunca mais foi visto. Nos registros do Popul-Vuh,
livro de tradição dos maias, foi exatamente nesse tempo (1311 d.C.) que lhes
apareceu um “príncipe trajando branco vindo de onde nasce o sol”. O mito
maia de Quetzalcoatl, a serpente emplumada, e os costumes, ritos, símbolos, e
vocábulos a ele associados, constituem outro conjunto cultural de coincidência
demasiadamente ampla e perfeita com a africana para ser atribuída à sorte.
Esses exemplos são apenas a ponta de um iceberg cujo enorme peso como
evidência da presença africana nas Américas pré-colombianas ainda não abalou
a convicção eurocentrista, puramente ideológica, de sua impossibilidade. No
44 Brasil, por exemplo, ainda não foi publicado o livro de Ivan Van Sertima.
4. A diáspora africana
O conceito de diáspora, essencialmente o da dispersão de um povo e sua
cultura, aplica-se à essência da experiência histórica e pré-histórica africana
desde o processo de povoação do continente. Aliás, o próprio povoamento
do mundo, que se inicia na África, poderia ser caracterizado, de forma mais
atenuada, como uma diáspora africana. Entretanto, a noção comum é da
diáspora africana como fenômeno ligado apenas ao tráfico escravista, que
trouxe para as Américas uma população numerosa de africanos cativos.
Fundamental a esse conceito de diáspora é a sua dimensão cultural.
As religiões africanas e as matrizes culturais a elas associadas conviveram e
desenvolveram-se de forma rica e complexa dentro das sociedades multirraciais
e pluriculturais das Américas. Essa dimensão cultural da diáspora implica na
afirmação da humanidade dos povos escravizados e sua capacidade de criar e
sustentar civilizações. Também implica na sua ligação contínua com a matriz
original, e portanto, em uma identidade essencial entre os seus integrantes em
todas as regiões e países em que se encontram. Contudo, essas duas condições
têm sido sistematicamente negadas. Parte fundamental da dominação dos
povos africanos tem sido a negação de sua identidade e de sua história. A
afirmação da diáspora surge, então, no sentido de resgatar essas duas dimensões
da experiência dos povos africanos.

FIQUE DE OLHO
• Você aprendeu que o conhecimento científico indica a África como berço
da humanidade e do desenvolvimento civilizatório. Ao mesmo tempo,
ele nos demonstra que a velha divisão da humanidade em diferentes
“raças” carece de fundamento biológico, constituindo, na verdade, uma
construção histórica, cultural e social.
• Os sistemas de escravidão no mundo antigo variavam, porém todos
diferiam daquele praticado pelos europeus na África nos últimos
séculos.
• Os africanos viveram apenas uma ínfima parte de seu tempo histórico
amarrados aos grilhões da escravidão mercantil. Durante milênios, foram
agentes ativos do desenvolvimento da civilização humana em todo o
mundo.

45
Cronologia resumida dos principais estados e civilizações que se iniciam até o século XVIII.

46
N.B. As datas citadas são apenas referências gerais, não se tratando de limites exatos no tempo.
Em geral, as primeiras datas citadas referem-se às mais distantes origens conhecidas e documentadas e as últimas datas referem-se.
47
48
49
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51
unidade I
áfrica
MEIO AMBIENTE, ANTIGOS ESTADOS POLÍTICOS
E REFERÊNCIAS TERRITORIAIS DA DIÁSPORA

52
MEIO AMBIENTE, ANTIGOS ESTADOS POLÍTICOS E
REFERÊNCIAS TERRITORIAIS DA DIÁSPORA
Rafael Sanzio Araújo dos Anjos

Ao final dos estudos desta unidade, você terá subsídios para trabalhar com
os seguintes conteúdos em sala de aula:
• A importância da geografia e do território na investigação das
complexidades da sociedade.
• As grandes unidades ambientais do continente africano.
• A dinâmica geográfica secular do tráfico de povos africanos para a
América.
• As principais organizações políticas e Estados da África até o século XIX.
• Algumas referências territoriais de origem do tráfico na África para o
Brasil.

1. A geografia e o território étnico


Num país como o Brasil, plurirracial, multicultural e continental, a terra, o
terreiro, o território e a territorialidade assumem grande importância dentro
da temática da pluralidade cultural, no seu processo de ensino, planejamento
e gestão, principalmente no que diz respeito às características territoriais dos
diferentes grupos étnicos que convivem no espaço nacional. Preconizamos
que é possível apontar as espacialidades das desigualdades socioeconômicas e
excludentes que permeiam a sociedade brasileira, ou seja, um contato com um
Brasil de matriz territorial complexa, multifacetada e cuja população não está
devidamente conhecida, valorizada e nem incluída.
Podemos apontar a matriz africana presente no país como a principal
referência cultural e étnica da formação do nosso povo mestiço. A incorporação
verdadeira, o respeito e o espaço da cultura africana no Brasil, continua
sendo uma das questões estruturais do país que ainda merece investigação,
conhecimento e ação, ou seja, alcançar o direito efetivo de uma participação Destacados entre esses
plena na vida nacional. levantamentos estão
as descobertas da família
Nesse sentido, as demandas para compreensão das complexidades da Leakey na África oriental.
dinâmica da nossa sociedade são grandes e existem poucas disciplinas mais
bem colocadas do que a geografia para auxiliar na representação e interpretação
das inúmeras indagações desse momento histórico.
A geografia é a ciência do território e este componente fundamental, a
terra, ou o terreiro num sentido amplo, continua sendo o melhor instrumento
de observação do que aconteceu, porque apresenta as marcas da historicidade
espacial; do que está acontecendo, isto é, tem registrado os agentes que atuam
na configuração geográfica atual e o que pode acontecer, ou seja, é possível
capturar as linhas de forças da dinâmica territorial e apontar as possibilidades
da estrutura do espaço no futuro próximo. 53
Não podemos perder de vista que é a geografia que tem o compromisso
de tornar o mundo e suas dinâmicas compreensíveis para a sociedade, de dar
explicações para as transformações territoriais e de apontar soluções para
uma melhor organização do espaço. A geografia é, portanto, uma disciplina
fundamental na formação da cidadania do povo brasileiro, que apresenta uma
heterogeneidade singular na sua composição étnica, socioeconômica e na
distribuição espacial.
O território é na sua essência um fato físico, político, social, categorizável,
possível de dimensionamento, onde geralmente o Estado está presente e estão
gravadas as referências culturais e simbólicas da população. Dessa forma, o
território étnico seria o espaço construído, materializado a partir das referências
de identidade e pertencimento territorial e, geralmente, a sua população tem
um traço de origem comum. As demandas históricas e os conflitos com o
sistema dominante têm imprimido a esse tipo de estrutura espacial exigências
de organização e a instituição de uma auto-afirmação política, social, econômica
e territoral.
São várias as questões estruturais relacionadas à cultura africana que
continuam merecendo investigação, conhecimento e intervenção. Um dos
pontos básicos está relacionado à desmistificação do continente africano,
sobretudo nos seus aspectos geográficos e suas relações com a formação do
território brasileiro, que assume uma posição de destaque na conjuntura atual,
quando demandas significativas da sociedade, principalmente educacionais e
empresariais, solicitam esse conhecimento.
Nessa direção, configura-se uma necessidade de recuperação e construção
de um perfil do continente africano de forma mais adequada. Um primeiro ponto
de partida é o estabelecimento e reconhecimento de outras perspectivas para
a compreensão do tráfico, da escravidão, da diáspora e da tecnologia africana
como elementos formadores e estruturadores da configuração do mundo
contemporâneo. Uma introdução a essas questões estruturais é apresentada
nos tópicos a seguir.

2. O continente africano e o meio ambiente


O território africano, componente fundamental para uma compreensão
mais apurada das questões que envolvem o papel da população de ascendência
africana na sociedade brasileira, não pode deixar de ser entendido como um
espaço produzido pelas relações sociais ao longo da sua evolução histórica,
suas desigualdades, contradições e apropriação que esta e outras sociedades
fizeram, e ainda fazem dos recursos da natureza.
Os povos europeus e seu processo de dominação e exploração do
continente acabaram por fixar uma imagem hostil dos trópicos, cheios de forças
naturais adversas ao colonizador e ocupadas por homens ditos indolentes. Essa
imagem que foi sendo ampliada não considerava os processos históricos como
fatores modeladores da organização social, mesmo diante dos elementos da
natureza. Nesse contexto, não é de causar espanto o lugar insignificante e
secundário que foi dedicado à geografia africana em todas as interpretações e
representações da humanidade.
A notável originalidade da sucessão atual de faixas climáticas e da cobertura
54 vegetal, ordenada de forma quase paralela ao Equador, sofre influência decisiva
da pluviosidade. Em ambos os hemisférios, os regimes das chuvas diminuem,
progressivamente, em direção às altas latitudes. Por possuir a maior parte do
território na zona intertropical (75%), ou seja, entre os trópicos de Câncer, ao
norte e o de Capricórnio, ao sul, a África é o continente mais uniformemente
quente do planeta. Esse calor faz-se acompanhar de seca, crescente em direção
aos trópicos, ou de umidade, geralmente mais elevada nas baixas latitudes.
Observe no Mapa 1 os grandes padrões de vegetação desse continente,
destacando os espaços desérticos no norte e no sul, as áreas com climas
modificados pelas montanhas, os planaltos, assim como os territórios de floresta
equatorial e savana ocupados por extensas bacias hidrográficas.

55
À medida que nos afastamos do Equador, o clima continua úmido, mas as
temperaturas médias diminuem e a amplitude térmica aumenta, caracterizando
um clima tropical. Este ambiente de floresta tropical constitui o espaço de maior
devastação secular, principalmente pelas espécies de valor econômico, como o
ébano e o mogno africano.
Nas ocorrências de clima tropical continental ou semi-úmido, marcado por
duas estações bem definidas (uma seca no inverno e outra chuvosa no verão),
ocorre o domínio das savanas, que ocupam as maiores extensões na África.
Nestes mosaicos de cobertura vegetal está o habitat dos animais de grande
porte, como elefantes, girafas e rinocerontes. À medida que a latitude aumenta,
a umidade do ar e as chuvas ficam mais escassas, a ponto do clima tornar-se
semi-árido. Já a savana cede lugar às extensões de estepes, uma vegetação
rasteira formada por gramíneas e tufos de ervas, que margeiam o deserto. Na
transição do Saara para o ambiente tropical ao sul, esta faixa alongada que se
estende de oeste a leste, da Mauritânia à Etiópia, é chamada de Sahel (zona da
margem do deserto). Esta é a região da fronteira do mundo mulçumano, palco
de uma extensão de conflitos étnicos e religiosos e, conseqüentemente,de
guerras civis e tragédias.
Nas extensões continentais onde vão se instalar as altas pressões ou
anticiclones subtropicais vão ocorrer os grandes desertos da África. Dessa forma,
um terço do espaço africano é constituído por regiões áridas, marcadas pela
escassez e irregularidade da pluviosidade, e também pela baixíssima umidade
do ar e grande variação diária da temperatura.
Com aproximadamente nove milhões de quilômetros quadrados, o
deserto de Saara, no norte da África, vai se estender do oceano Atlântico ao
Mar Vermelho, com variações significativas no seu quadro natural, como por
exemplo: imensos campos de dunas (ergs), afloramentos e grandes planaltos
rochosos. A riqueza do seu subsolo, com grandes reservas de fosfato, gás
natural, ferro e petróleo, é o fio condutor nas explorações industriais (instalação
de refinarias, oleodutos e plataformas de exploração). É importante lembrar as
denominações regionalizadas do grande deserto, como: a Líbia, a Núbia (entre
o Egito e o Sudão), o Tenerê (no Níger), entre outras.
No espaço africano meridional, a aridez subtropical se revela em duas
extensões desérticas. A primeira delas é o deserto do Kalahari, caracterizado
por solos pedregosos de aproveitamento agrícola restrito, mas que possuem
um subsolo rico em minerais, como chumbo, cobre, urânio, e sobretudo,
diamantes. A segunda extensão é o deserto da Namíbia, localizado na faixa
litorânea. A sua formação é decorrente da transformação dos ventos úmidos
de oeste que, ao passarem pelas águas frias da corrente marítima de Benguela,
perdem a sua umidade e chegam quase secos nesta costa atlântica.
No território africano vão predominar os grandes planaltos, com altitude
média de 700 metros, com destaque para:
• os da Etiópia;
• os dos Grandes Lagos;
• os situados no maciço Abamaouá, que ocupa o território dos Camarões e
se estende até a Guiné, no lado Ocidental.
Entretanto, algumas cadeias de montanhas são relevantes como a do Atlas,
56 localizada no noroeste africano e de formação relativamente recente e a do
Drakensberg, situada no extremo sul e constituída por dobramentos antigos.
Os grandes dobramentos responsáveis pela formação das atuais cadeias
de montanhas, os maciços de rochas antigas, foram alterados pelas grandes
pressões. Devido a esse processo físico-químico, as rochas da parte leste da
África foram fraturadas, de maneira que alguns blocos se levantaram e outros
afundaram. As altas montanhas e planaltos foram originados a partir dos blocos
elevados e as fossas tectônicas surgiram dos que afundaram. Grandes lagos
como o Vitória, o Tanganica e o Malavi (antigo Niassa) se formaram sobre essas
fossas tectônicas.
Retorne ao mapa 1. Veja que ele mostra também a distribuição dos recursos
minerais e energéticos, informação básica para compreendermos a cobiça
pela dominação territorial que se processou, de forma secular, no continente
africano.
A expressão geográfica da riqueza mineral da África é um dos fios
condutores básicos para a compreensão do interesse e da exploração mais
intensa que ocorreu em algumas partes do continente e, também, em função
da sua importância em determinados momentos históricos. É relevante
destacar a concentração dos recursos minerais nos extremos sul e norte da
África, assim como na sua área central, que constituem os espaços cuja disputa
pela dominação ocorrem de forma bem evidente.
Por possuir esse extraordinário patrimônio mineral ,secularmente explorado,
a África poderia ser o continente mais rico do planeta.
Com uma área de 30.227.467 km², o continente africano é o terceiro do
mundo em extensão territorial. Está banhado ao norte pelo Mar Mediterrâneo,
ao sul pela junção dos oceanos Índico e Atlântico, a leste pelo Mar Vermelho
e o oceano Índico e a oeste pelo oceano Atlântico. Dessa maneira, a África
encontra-se protegida por dois oceanos, um imenso deserto e um litoral não
muito hospitaleiro, fatos geográficos que possibilitaram a sua permanência,
durante séculos, fora das rotas comerciais.
O isolamento nunca foi completo, o oceano Índico favoreceu o contato
entre a África central e o sul da Ásia, assim como o extremo norte da África
sentiu as influências do mundo mediterrâneo. A desertificação do Saara não
impediu, de modo absoluto, a comunicação entre o Mediterrâneo e a África
tropical. Esse deserto atuou como uma espécie de filtro natural, limitando a
penetração de influências do mundo europeu.
Árabes, indianos, chineses e outros povos orientais há muito mantinham
relações comerciais e miscigenavam-se com os povos africanos. No entanto, as
estruturas sociais mesclaram-se sem provocar rupturas violentas nas sociedades
africanas. Já os povos europeus hostilizaram a imagem dos trópicos, até o ponto
de firmarem teorias errôneas de que as realizações humanas são limitadas pelo
clima tropical.

57
3. A Europa,a diáspora africana e os antigos Estados políticos
O período das grandes navegações e dos “descobrimentos” coincide com
o início do Renascimento, no qual a atividade mercantil vai abrir caminho para
a Revolução Industrial e para o Capitalismo. Este período da humanidade é
caracterizado por uma nova fase das relações entre os povos e entre estes e
a natureza. Em nenhum momento da história dos seres humanos tinha sido
necessária uma acumulação tão rápida de riquezas para a emergência de uma
nova classe e desenvolvimento de um novo sistema econômico e social.
A Europa, com seu território de dimensões reduzidas, pobreza mineral
e uma população insuficiente para ocupar e produzir nas “novas terras
descobertas”, nas quais os europeus haviam chegado nos séculos XV e XVI, vai
encontrar nessas mesmas terras os fatores de produção que lhe são escassos.
A exploração dos recursos naturais, por mão-de-obra escrava, principalmente a
extração dos minerais preciosos da América e da África, impulsionou o comércio
a longa distância e fortaleceu o poder central do Estado, passando a ser a base
do capitalismo comercial e financeiro na Europa e além dela.
O processo crescente de troca e comercialização de mercadorias na
Europa, (o mercantilismo europeu), entretanto, tinha pressa. Essa pressa não
permitia um relacionamento harmônico com as novas sociedades com as quais
entrava em contato. À medida que os povos europeus visavam tirar do meio
tropical tudo aquilo que pudessem oferecer ao seu mercado, delineava-se uma
missão civilizadora que desde então tratou de hostilizar a imagem dos trópicos,
chegando a elaborar teorias que afirmavam que as realizações humanas seriam
limitadas pelo clima tropical. Tais teorias desconsideravam os processos e as
forças históricas como fatores estruturadores do comportamento humano,
mesmo diante das influências dos elementos da natureza.
Não era somente a terra e suas riquezas que interessavam aos povos
europeus, mas também os seres humanos; os colonizadores precisavam de
mão-de-obra para realizar o cultivo e a exploração das minas.
A barreira das condições ambientais e a resistência dos povos africanos
à desestruturação de suas sociedades impuseram gradientes no território
atingido pela retirada de povos para serem escravizados. O tráfico de escravos
da África para a América foi, durante quase quatro séculos, uma das maiores
e mais rentáveis atividades para os negociantes europeus, a ponto de tornar
impossível a contagem precisa do número de africanos retirados de seu habitat,
com sua bagagem cultural, para serem, injustamente, incorporados às tarefas
básicas para formação de uma nova realidade.
Lutas sangrentas, violência, morte, crueldade, situações completamente
novas de deslocamentos e adaptações, tudo isso concorreu para os efeitos
multiplicadores do grande negócio que foi o tráfico de escravos. Do continente
europeu chegavam produtos alimentícios, como: azeite, queijos, vinhos, farinha
de trigo,bacalhau e produtos manufaturados, como ferramentas e tecidos. Do
Brasil e de outras regiões da América exportava-se couro, tabaco, madeiras,
farinha de mandioca, aguardente, derivados de baleia, açúcar e também
diamantes e ouro. Do Oriente vinham as louças, os tecidos, os móveis e outros
produtos (especiarias).
Observe no mapa 2 a dimensão global da diáspora africana, destacando a
dinâmica das principais rotas de deslocamento dos povos europeus e da África,
58
assim como as principais articulações econômicas do Capitalismo primitivo.
mapa 2

59
O mapa-múndi elaborado na projeção cartográfica de Arno Peters (1973)
conserva as reais proporções das terras emersas, elimina, portanto a visão do
mundo na perspectiva eurocêntrica (quando o hemisfério norte é representado
ocupando um terço do planeta). O mapa revela, também, a intensidade do fluxo
existente no oceano Atlântico, ao longo desses séculos (XV-XIX) e aponta o
triângulo econômico entre a África (seres humanos cativos), a América (trabalho
escravo, produtos e riquezas tropicais) e a Europa (acúmulo de riquezas,
enriquecimento e expansão territorial do Estado).

Europa (acúmulo de riquezas,


enriquecimento e
expansão territorial do Estado)

Europa (acúmulo de riquezas,


enriquecimento e África (seres humanos cativos)
expansão territorial do Estado)

É importante frisar que o continente africano foi, ao longo de quatro


séculos, o centro das atenções, da cobiça, da apropriação, da acumulação de
capitais e da desestruturação das sociedades e do Estado.
Reconhece-se hoje que entre os vários fatores que fizeram com que os povos
europeus se voltassem para a África e a transformassem no maior reservatório
de mão-de-obra escrava jamais imaginada pelo homem, o principal deles foi
a tradição dos povos africanos de bons agricultores, ferreiros, construtores,
mineradores e detentores das mais avançadas tecnologias desenvolvidas nos
trópicos.
Outro fator que justificava para o europeu a substituição do índio brasileiro
pelo africano como escravo colonial era que, trocando na África produtos
manufaturados por homens cativos, e na América estes por mercadorias
coloniais, as classes dominantes das metrópoles da Europa apropriavam-se mais
facilmente das riquezas aqui produzidas. Esse jogo de trocas estabelecido pelos
europeus imprimiu relações precisas entre clientes e fornecedores dos dois lados
do Atlântico e, estrategicamente, permitiu que a distribuição das populações
africanas, de diferentes reinos e impérios, fosse realizada indiscriminadamente
nos territórios da América.

60
produtos manutarurados

África

homens cativos

Europa

mercadorias coloniais

América

Rapidamente os mercados transatlânticos se tornam mais importantes do


que as antigas rotas dos mercados transaarianos (floresta-savana-deserto), por
onde passavam e desaguavam, principalmente, o ouro, o sal, a borracha e o
africano escravizado. Esta rota se tornou secundária, diante da força da ligação
savana-floresta-praias.
Uma das conseqüências geográficas mais graves dos processos espaciais
desencadeados pela diáspora africana é a desestruturação dos antigos Estados
políticos do continente, componentes fundamentais para a compreensão da
amplitude das formas de organização social, política e territorial dos povos
africanos.
Estes Estados, preconceituosamente, eram denominados de tribos. Estas
organizações territoriais e políticas, que chamamos aqui de reinos e impérios,
são núcleos e grupamento humanos de domínio com limites e fronteiras
bastante fluidos, que alcançam maior ou menor extensão territorial de acordo
com o nível de autoridade e dinamismo de seus governantes. Suas populações
alcançavam milhares de habitantes, portanto, jamais poderiam ser chamadas
de tribos. Essas expressões não designam, portanto, um Estado político nos
padrões ocidentais, caracterizados por fronteiras rígidas e limites precisos.
Os Estados e formações políticas representados no mapa 3 não
retratam graficamente a complexidade das organizações políticas africanas,
mas pretendemos apenas mostrar a diversidade de unidades territoriais e a 61
distribuição espacial das fronteiras aproximadas das formações políticas que
estruturas espaciais dos principais
estados e formações políticas
da áfrica até o século xix

LEG ENDA
OYO

ZANJ SWAHILE BENIN

NOVA MERINA KWARARAFA

ADAL ADA MAUA

ETIÓPIA LUANGO

IMPÉRIO NÚBIA N’ GOYO

EGITO KACONGO

IMPÉRIO TURCO CONGO

BÉRBERES NDONGO

IMPÉRIO ALMORÁVIDA MBUNDU

TAKRUR OVIBUNDU

REINO JALOFO MATAMBA

IMPÉRIO MALI
Equador KUBA

REINO MOSSI IMBANGWALA

REINO HAUÇAS LUBA


Proibida reprodução parcial ou total por processo mecânico, ótico ou eletrônico sem prévia autorização do autor.

KAARTA LUNDA

SEGU CONF.CHOANA

IMPÉRIO SONGHAY KARIBA

KANEM/BORNOU MONOMOTAPA

DARFUR REINO ZULU

WADAI REINO KHOISAN


ÁREA DE CONTROLE
COMERCIAL DO
ANTIGO REINO
ASHANTE DE GHANA

DAHOMEY ESTADOS IORUBAS


NOTA 1.OS ANTIGOS REINOS DA ÁFRICA CONS- NOTA 2. ESTE MAPA TEMÁTICO NÃO RETRATA
TITUÍ UM DOS COMPONENTES MAIS RELEVANTES A COMPLEXIDADE DAS ORGANIZAÇÕES POLÍ-
DA SUA HISTORIOGRAFIA, SOBRETUDO POR POS- TICAS AFRICANAS, MAS PRETENDEMOS, MOS-
SIBILITAR COMPREENDERAS VÁRIAS FORMAS DE TRAR A DIVERSIDADE E A DISTRIBUIÇÃO DAS
ORGANIZAÇÃO TERRITORIAL, POLÍTICA E SOCIAL.
ENTENDEMOS ESTES ESTADOS COMO NÚCLEOS N UNIDADES TERRITORIAIS QUE FIGURAM COM
MAIS EVIDÊNCIA ATÉ O SÉCULO XIX, DENTRO
DE DOMÍNIO COM LIMITES E FRONTEIRAS FLU- DOS LIMITES OFERECIDOS PELAS FONTES. NA
IDAS, QUE ALCANÇAM MAIOR OU MENOR EX- ÁFRICA ENCONTRA-SE AINDA ORGANIZAÇÕES
TENSÃO NO TERRITÓRIO, SEGUNDOAAUTORIDA- SOCIAISQUECONSERVAMHÁBITOSETÉCNICAS
DADE E DINAMISMO DOS SEUS GOVERNANTES. QUETÊMSUAORIGEMNUMPASSADOREMOTO.

© PROJETO CARTOGRÁFICO E ADAPTAÇÃO HISTORIOGRÁFICA BY GEOG. RAFAEL SANZIO ARAÚJO DOS ANJOS. BRASÍLI
A - DF. CREA 15604/D PROJETO GEOGRAFIA AFRO-BRASILEIRA. CIGA - UNB. BRASÍLIA - DF. 2000 E-mail: cig
a@unb.br

figuram com mais evidência na historiografia africana até o século XIX, dentro
dos limites oferecidos pelas fontes. Observe.
Das organizações políticas que figuram entre as mais antigas no norte da
África oriental, destacamos os Impérios do Egito, do Sudão, da Núbia, o Turco
e da Etiópia. O primeiro deles constitui o mais reconhecido desses estados
políticos, com referências relevantes na história da humanidade, sobretudo,
pelo seu desenvolvimento tecnológico e a forma complexa e elaborada das
estruturas sociais.

62
A questão básica é que são poucas as referências de que o império egípcio,
de localização estratégica no Mar Mediterrâneo, fique no continente africano.
É Importante destacar também, a negligência e exclusão que os outros reinos
dessa região da África sofrem nas reconstituições históricas oficiais em relação
ao Império egípcio.
Na África Ocidental, que tem um vínculo maior com a formação do território
brasileiro, são muito importantes os Impérios de Ghana, Songhai e Mali, que em
função de seus próprios impulsos econômicos e culturais, criaram condições
para o desenvolvimento de outros estados vizinhos, que depois se tornariam
seus rivais.
O Império de Ghana,primeiro estado africano conhecido com precisão, tem
registros dos séculos IV a XI e, era também denominado de Império do Ouro.
Até a “descoberta” da América, este império era o principal fornecedor de ouro
e sal do mundo mediterrâneo e detentor das técnicas avançadas de mineração.
O seu fortalecimento político e militar tem sua origem neste comércio, via rotas
transaarianas, que incluía também, cobre e manufaturados do norte da África.
Uma importante referência do Império de Mali, com registro de expansão
no século XII, é cidade de Tumbuctu com a sua universidade que desenvolveu
pesquisas importantes para a astronomia. O Reino de Songhai com referências
nos séculos XIV e XV, tem na agricultura o seu principal desenvolvimento
tecnológico, principalmente a irrigação de áreas áridas.
Sem alcançar o poderio de Ghana, Songhai e Mali, outras formações
políticas desenvolveram-se por várias regiões africanas. No território da Bacia
do Congo, por exemplo, se configuraram, no final do século XIV, uma série de Bacia do Congo
- Esteve povoada por
reinos bantos com diferentes níveis de integração entre si. O Reino do Congo foi pigmeus (floresta) e
um dos maiores reinos constituídos no sul do Saara. Com registros no século XV bosquimanos (savana),
povos que desenvol-
e fundado por chefes guerreiros e bons caçadores, neste reino as atividades com viam uma economia
ferro e cobre na produção de ferramentas, como a enxada, o arado, machados e mercantil a partir da
conexão com os focos
instrumentos de guerra, são características marcantes dos povos bantos. comerciais da costa
oriental, testemunhada
pela presença de obje-
tos hindus e chineses
do século VIII a X.
4. Referências territoriais de origem de povos africanos e o Brasil
Povos africanos de impérios e reinos diferentes, portanto, com variadas
referências de estruturas sociais, organização política, matrizes tecnológicas e
culturais, vão ser a base do desenvolvimento do sistema escravista no Brasil,
que tem particularidades substanciais em relação às demais regiões da América.
A manutenção dessa estruturação política, econômica e territorial por quase
quatro séculos no território brasileiro e a quantidade de africanos importados
até 1850, não devidamente quantificada, mostra como a sociedade escravagista
conseguiu estabilizar-se e desenvolver-se.
Por outro lado, verifica-se que a continuidade da importação de escravos
conseguiu manter esse sistema por muitos séculos, utilizando-se de mecanismos
reguladores que substituíam o escravo morto ou inutilizado por outro
importado, sem que isso causasse desequilíbrios no custo das mercadorias por
ele produzidas.
Devemos ressaltar que foram as regiões geográficas do Brasil de interesse
econômico europeu que detiveram os maiores fluxos de populações africanas
escravizadas. Os mapas 4, 5, 6 e 7 mostram uma representação gráfica das 63
referências territoriais de origem,na África, do tráfico de povos escravizados
durante os quatro séculos .
No século XVI, a principal referência espacial é dada pelas regiões
caracterizadas como Alta e Baixa Guiné. Os escravos trazidos dessas regiões
foram encaminhados, principalmente, para as áreas açucareiras de Pernambuco
e da Bahia, mas também, foram levados para o Maranhão e o Grão-Pará.
Nos séculos XVII e XVIII, as mais importantes e duradouras extensões
territoriais das rotas do tráfico negreiro se constituiram: as Costas da Mina e
de Angola. Nesse período ocorreram os maiores volumes de povos africanos
transportados para o território brasileiro.
64
No século XVII o tráfico foi dinamizado na Costa de Angola, transportando
povos africanos para a Bahia, Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro, São Paulo e
regiões do centro-sul do Brasil. Na Costa da Mina, o fluxo foi para as províncias
do Grão-Pará, Maranhão e para o território que, atualmente, é o Rio Grande do
Norte.
A primeira metade do século XIX foi caracterizada pelos vários tratados que
visavam a abolição do tráfico negreiro, o que no Brasil só ocorreu efetivamente
em 1850. Neste período, as ligações bilaterais entre os continentes africano e
americano foram desfeitas e as rotas do tráfico triangular entre a América, a
África e a Europa foram destruídas.
A extensão dos impérios africanos e a intensidade do comércio de povos
da África, ao longo dos séculos da diáspora, nos apontam para uma dimensão
ampla e de difícil reconstituição - a caracterização etnológica dos africanos
e de seus descendentes no Brasil.
Foram trazidos para constituir a formação do território brasileiro seres
humanos dos tipos: Minas, Congos, Angolas, Anjicos, Lundas, Quetos, Hauças, Caracterização etno-
lógica - Define qual
Fulas, Ijexás, Jalofos, Mandingas, Anagôs, Fons, Ardas, dentre muitos outros e a origem geográfica
outras, que possibilitaram o que podemos denominar de afro-brasileiros, ou seja, precisa dos grupos
étnicos deslocados ao
brasileiros de matriz africana ou população de ascendência africana. Entretanto, longo dos quase quatro
a referência geográfica precisa não possui uma resposta satisfatória. séculos de tráfico

Com denominações desse tipo, fica “escondida” ou “embutida” uma riqueza


tipológica, ainda não devidamente estudada e nem quantificada.
É importante marcar decisivamente que os povos africanos não foram
responsáveis somente pelo povoamento do território brasileiro e pela mão-de-
obra escrava; eles marcaram e marcam, de forma irreversível, a nossa formação
social, tecnológica, demográfica e cultural, que, ao longo desses séculos, foi
preservada e recriada, mesmo com as políticas contrárias do sistema.
Os povos de matriz africana são os responsáveis pela adequação ,nos
trópicos, das técnicas pré-capitalistas brasileiras, como, por exemplo: a
mineração, a medicina, a nutrição, a agricultura, a arquitetura, a pecuária, a
tecelagem, a metalurgia, a cerâmica, as estratégias militares e a construção. São
responsáveis também pela elaboração do português africanizado e da religião
com a sua cozinha sagrada.

65
FIQUE DE OLHO
• Podemos apontar a matriz africana presente no Brasil como uma das
principais referências culturais e étnicas da formação do nosso povo.
• Os povos europeus, e seu processo de dominação e exploração
do continente africano, acabaram por fixar uma imagem hostil dos
trópicos, como se eles estivessem cheios de forças naturais adversas ao
colonizador e ocupados por homens ditos indolentes. Essa imagem, que
foi sendo ampliada, não considerava os processos históricos como fatores
modeladores da organização social, mesmo diante dos elementos da
natureza. Nesse contexto, não é de causar espanto o lugar insignificante
e secundário que foi dedicado à geografia africana em todas as
interpretações e representações da humanidade.
• Possuidor de extraordinário patrimônio mineral, secularmente explorado,
a África poderia ser o continente mais rico do planeta.
• R econhece-se hoje que entre os vários fatores que fizeram com que os
povos europeus se voltassem para a África e a transformassem no maior
reservatório de mão-de-obra escrava, o principal deles foi a tradição dos
povos africanos de bons agricultores, ferreiros, construtores, mineradores e
detentores das mais avançadas tecnologias desenvolvidas nos trópicos.
• Uma das conseqüências geográficas mais graves dos processos espaciais
desencadeados pela diáspora africana foi a desestruturação dos antigos
Estados políticos do continente, componentes fundamentais para a
compreensão da amplitude das formas de organização social, política e
territorial dos povos africanos.

66
REFERÊNCIAS

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p.174.
ANDRADE, M. C. A. O Brasil e a África. São Paulo: Editora Contexto, 1989.
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Universidade de Brasília, 1989. p. 12-32.
_____________. A geografia, os negros e a diversidade cultural.
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quilombos no Brasil: primeira configuração espacial. 3. ed. Brasília: Mapas
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ÁFRICA contemporânea – História, política e cultura. Revista da Faculdade
Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras. Edição Especial. Porto
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moderna I. Rio de Janeiro: Petrópolis, Vozes, 1985.
KI-ZERBO, J. História geral da África I: metodologia e pré-história da 67
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JESSEN, M.; ARAÚJO, M. Geografia física da África – Pequena monografia.
Maputo: Livraria Universitária,1998. 50 p.
PARKER, G. Atlas da história do mundo. Londres: Times Books, 1993.
VERGER, P. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e
a baía de todos os Santos – dos séculos XVII à XIX. 2. ed. São Paulo: Ed.
Currupio,1978.

68
69
unidade I
áfrica
ESTRUTURA ESPACIAL DO IMPERIALISMO,
independência política no século xx e o
contexto geopolítico contemporâneo

70
ESTRUTURA ESPACIAL DO IMPERIALISMO, A
INDEPENDÊNCIA POLÍTICA NO SÉCULO XX E O
CONTEXTO GEOPOLÍTICO CONTEMPORÂNEO
Rafael Sanzio Araújo dos Anjos

Ao final dos estudos desta unidade, você deverá ser capaz de abordar as
seguintes temáticas em sala de aula:
• Os componentes geográficos fundamentais do “imperialismo” no
continente africano.
• O movimento político-territorial de desestruturação das antigas colônias
européias na África.
• Algumas referências geográficas dos conflitos e tensões na África atual.
• aspectos fundamentais da educação geográfica africana no Brasil.

1. O contexto espacial do imperialismo


Durante três séculos, XVI a XVIII, praticamente não houve oposição na
Europa ao tráfico de povos africanos para a América. A Inglaterra, que mais tarde
lideraria o abolicionismo no mundo, já iniciava uma campanha contra o comércio
de escravos, ainda que indiretamente. A acumulação primitiva de capital podia
considerar encerrado seu ciclo, pelo menos neste país, onde o processo estava
adiantado. Daí para frente, a própria exploração dos trabalhadores nas fábricas
iria assumir o papel principal na reprodução do capital.
Os capitalistas, cujo faturamento dependia da existência de um mercado
de consumo para os bens industrializados, começa a ganhar hegemonia no
tratamento das políticas governamentais e, dentre as tantas bandeiras liberais,
acabaram, também, por levantar a que pregava o fim do tráfico e, posteriormente,
do próprio sistema escravista.
A política abolicionista inglesa – depois incorporada nos meados do
século XIX pelos franceses, holandeses, belgas e alemães – servia para mascarar
um projeto político mais ambicioso e mais complexo: o domínio efetivo do
território da África e da Ásia. O capitalismo já começara a pôr de lado a mão-
de-obra escrava da África, negócio rendoso em que o interesse europeu estava
orientado até o século XIX, embora continuasse desejoso de produtos básicos
tropicais das colônias, como borracha, cobre, manganês, amendoim, cacau,
café, açúcar e outras matérias primas, sem as quais o capitalismo industrial não
poderia continuar se desenvolvendo.
Na África, salvo algumas exceções, como a colônia do Cabo, os europeus
não haviam se implantado efetivamente no território, em nenhuma parte do
continente até o século XIX. Era, dessa forma, uma extensão territorial “aberta”
aos novos ou velhos conquistadores, todos antiescravistas de fachada, mas
nem por isso menos destruidores das sociedades e da cultura africana.

71
A necessidade econômica de ampliar o fornecimento de matérias-primas
para atender às nações insatisfeitas da Europa, bem como o aumento do prestígo
nacional e a busca de solução para o problema do crescimento demográfico
europeu eram os fatores fundamentais para o movimento de ocupação efetiva
do território africano no final do século XIX.
O processo de invasão territorial foi desencadeado por duas estratégias:
• a religião, com o envio de missionários;
• a ciência, com a expansão e financiamento das sociedades geográficas para
conhecimento e mapeamento do continete de penetração complicada.
No final do século XIX, alguns “parcelamentos” do território africano já se
encontram parcialmente apropriados, como:
• as duas áreas (costa de Angola e Mocambique) de controle português;
• as extensões britânica pulverizadas ao norte, ao sul, no leste e oeste do
continente;
• a presença francesa no norte e no oeste africano;
• o grande território desértico da Namíbia de domínio alemão;
• a ocupação belga na bacia do rio Congo;
• as grandes áreas no norte de soberania turca e no leste árabe.
Em 1844 será promovido na Alemanha um encontro estratégico, que ficou
conhecido como a “Conferência em Berlim”, cujo principal objetivo era ajustar
as diferenças internas do imperialismo para “dividir” o território africano.
Essas ações devastadoras de parcelar o continete sem o respeito a suas
unidades lingüísticas ou aos mosaicos culturais das sociedades, vão constituir
os pilares da desestruturação social profunda, que se desencadeará na África a
partir deste momento, em âmbito histórico e geográfico.
A intensão de domínio territorial dos ingleses, franceses e portugueses na
África era muito pretenciosa e estratégica, evidenciando-se áreas de conflitos.
A Inglaterra, pretendia dominar uma faixa de terras contínuas de norte a sul do
continente; a França, por sua vez, “queria” o norte da África, ligando o oceano
Atlântico ao Mar Vermelho, ficando no final da “partilha” com um território de
dominação próximo de vinte vezes a superfície da França. Portugal, a mais pobre
nação imperialista, pretendia adquirir a África Austral, a fim de se comunicar
com os oceanos Atlântico e Índico, ligando a faixa territorial de Angola à
Moçambique.
Esses e outros conflitos de pretensões territoriais foram ”apaziguados” na
Conferência de Berlim, concentrando-se os esforços, a partir daí, para a exploração
e a dominação mais efetiva dos territórios cobiçados. Dessa forma, vão tomar
impulso os grandes investimentos de mineração e agrícolas, sob o comando e
responsabilização das companhias concessionárias. A livre iniciativa do grande
capital passa a ser a tônica da dominação, representada pela intensificação do
trabalho forçado em todo o continente.
Este é o momento em que a África deixa de ser fornecedora de seres
humanos, para exploração do seu trabalho e tecnologia, para que suas sociedades
passem a ser exploradas e desestruturadas em seu próprio território.
72
O mapa 1 – que mostra as fronteiras de referência européia, portanto,
retilíneas e geométricas – mostra a divisão geopolítica efetivamente acordada
entre as potências européias no final do século XIX e início do século XX.

73
Observe, com atenção, algumas constatações espaciais dessa divisão,
meramente européia:
• O espaço de controle francês se concentra no noroeste, no centro da
África e na ilha de Madagascar.
• A Inglaterra, mais pretenciosa, assegura extensas áreas no eixo norte-sul
do continente, com outros territórios pulverizados no golfo da Guiné e
no extremo oeste.
• A Bélgica garante a extensão territorial que ocupa toda a bacia do rio
Congo.
• Os portugueses garantem os territórios de Angola e Moçambique na
África Austral.
• A região do deserto da Namíbia é delimitado de forma geométrica para
ser dominada pelo alemães.
• A Espanha e a Itália, duas nações imperialistas, aparecem com espaços
mais restritos.
A expansão do colonialismo e, posteriormente, do imperialismo trouxe
profundas transformações para as sociedades africanas. A desestruturação dos
antigos estados políticos, da agricultura tradicional, a introdução da privatização
da terra, o trabalho assalariado e o processo de urbanização, foram os fatores
que criaram as condições para o surgimento de novos estratos sociais.
Critérios éticos introduzidos na África pelos europeus criaram e reforçaram
as distinções entre dominadores e dominados. Estes mesmos critérios tornaram-
se os argumentos básicos para os povos europeus e africanos contestarem,
mais profundamente, a dominação. As universidades criadas no território
africano ajudaram a difundir um ensino que acabou revelando a importância e a
maneira como se organizavam no passado as sociedades africanas, conduzindo
a minoria privilegiada a se interrogar sobre a falta de liberdade, oportunidade,
educação e saúde para a população africana dominada. Estudaremos sobre
esse movimento político-territorial da desestruturação das colônias européias
no tópico a seguir.

2. A descolonização e os novos estados políticos


Quando as contradições do sistema imperialista foram sistematicamente
sendo afloradas, o sentimento revolucionário do povo africano reascendeu e
o nacionalismo possibilitou o surgimento de um novo elemento no cenário
geopolítico: o Estado nacional. É importante lembrar que as variedades
administrativas dos impérios coloniais, a inserção das colônias na economia
mundial, a constituição de uma intelectualidade local, o reconhecimento de
referências historiográficas dos territórios explorados, vão caracterizar variados
modelos de descolonização, seja a simples retirada da estrutura européia, seja
a guerra de libertação.
Essas resistências à colonização foram processadas com gradientes de
dificuldades, conforme o nível de organização política das diversas regiões do
continente. Após a Segunda Grande Guerra, os progressos dos movimentos
nacionalistas vão se expandir, sobretudo, na região do Magrheb, no norte da
74 África. Entretanto, é na década de 1960, quando os movimentos nacionalistas
estão mais efetivos, organizados e coerentes, que os novos estados africanos
obtêm expressão no cenário mundial.
Observe nos Mapas 2, 3, 4, 5, 6 e 7 o monitoramento do processo de
independência política ocorrido a partir dos anos 40 do século XX no continente
africano.

75
Algumas referências espaciais são importantes:
1. Período anterior a 1949 – Neste período, destacam-se os contextos
territoriais do Egito e da África do Sul. O primeiro, antiga província do
Império Otomano, em 1882 foi ocupado pela Grã-Bretanha; em 1914 os
britânicos proclamam o protetorado sobre este território e somente em
1922 a independência é alcançada. A dominação racista no extremo sul da
África por esses europeus, a partir de 1815, vai ser marcada por violências
e agressões sociais. Em 1910, cria-se a União Sul Africana e em 1948 a
implementação efetiva do sistema aparthaid. A república independente
ocorrerá em 1961. A Libéria, território estruturado pelos Estados Unidos
para o retorno dos descendentes de africanos ao país, assim como a Etiópia
são registros de autonomia política deste período;
2. 1951-1959 – Na década de 1950 o processo de descolonização já
se mostra mais intenso com a expansão de conflitos e movimentos
nacionalistas. O final da Segunda Guerra Mundial é um dos grandes fatores
desencadeadores desse processo. Nesse período, houve a independência
política dos seguintes estados: Marrocos, Sudão, Líbia, Tunísia, Guiné e Gana
(antiga Costa do Ouro);
3. 1960-1969 – Este foi o período mais movimentado do processo de
descolonização na África. Mais de vinte estados vão se tornar independentes.
Com destaque para a Argélia, que desde 1954 vinha enfrentando uma
guerra, somente encerrada em 1962. Os “novos” países foram os seguintes:
Camarões, Togo, Malagaxe (Madagascar), Zaire (Congo Belga), Somália, Benin
(Daomé), Alto Volta, Costa do Marfim, Chade, República Centro-Africana,
Congo, Gabão, Senegal, Mali, Mauritânia, Serra Leoa, Rodésia, Tanzânia,
Burundi, Ruanda, Uganda, Malauí, Zâmbia, Gâmbia, Botsuana e Lesoto;
4. 1970-1979 – As independências de Angola e Moçambique, antigos
espaços explorados pelos portugueses, foram muito tensas e com guerras
prolongadas. Os interesses econômicos, representados pelo potencial das
plantações de café, jazidas de petróleo e mineração (ferro e diamante),
assim como as suas posições estratégicas, são os contextos financeiros e
geopolíticos que aparecem como “fundo principal” para explicar a resistência
portuguesa nos conflitos de independência. Em 1974, ocorre a vitória do
processo político na Guiné Bissau e em 1975 de Moçambique e Angola;
5. 1980-1989 – Esta é uma década sem registro de novos Estados
independentes, entretanto, em 1980, ocorre na Rodésia uma armada de
nacionalistas que depõe o governo rebelde e é implementada a República
do Zimbábue;
6. 1990-1999 – Nesse período, o mais recente, observa-se os processos de
independência política na Namíbia (1990) e na Eritréia (1993). No Zaire, após
uma rebelião que derruba o governo ditatorial, o Estado político passa a ser
chamado República Democrática do Congo.
A Segunda grande Guerra Mundial além de provocar, de fato, a ruptura
dos elos da colonização e do imperialismo no mundo, evidenciou a divisão
do planeta em dois blocos político-econômico-militar-territorial: o poderio

76
socialista, liderado pela União Soviética, e o bloco dos países industrializados,
com a liderança dos Estados Unidos da América. Nesse contexto, foi formulada
“a teoria dos três mundos”:
• 1° mundo – formado pelas duas superpotências;
• 2° mundo – formado pelos outros países industrializados;
• 3° mundo – formado pelos demais países.
Este é um conceito, já ultrapassado, mas que serviu, e ainda tem servido,
para fazer referência aos países que se encontram marginalizados no sistema
internacional.

3. O contexto geopolítico atual – conflitos e tensões


A ordenação da economia mundial construída nos séculos XIX e XX não
mudou substancialmente. A exploração continua em menor ou maior grau,
em quase todos os países africanos, que não conseguiram consolidar a sua
soberania política com uma verdadeira independência econômica. Após meio
século de formação política, da maioria dos novos estados do continente, a
África ainda tem como problema estrutural aqueles que foram herdados do
colonialismo e do imperialismo, onde as diferentes formas de organização
institucional não conseguiram alterar significativamente os seus aparelhos e
permanecem atrelados ao jogo neocolonial.
A abundância dos recursos minerais, principal fator da cobiça e exploração
secular do território africano, é, sem dúvida, a questão estrutural dos conflitos
políticos, uma vez que o continente detém algumas taxas significativas no
cenário global, a saber:
• 80% das jazidas de diamante conhecidas.
• 60% do ouro do mundo ocidental.
• 30% do alumínio mundial está na África.
• 35% das reservas de zinco do ocidente.
• Na Zâmbia e na República Democrática do Congo encontram-se as
maiores reservas de cobre do planeta.
• No Marrocos estão 50% dos depósitos de fosfato.
Outros grandes conflitos existentes nas nações africanas estão ligados às
heranças coloniais que ainda não foram rompidas; às desavenças oriundas de
grupos étnicos africanos causadores de extensos movimentos migratórios e
pelo questionamento das fronteiras históricas dos antigos reinos em relação
aos limites retilíneos impostos pelos estados europeus.

77
O mapa 8 mostra a divisão oficial do continente, o nome dos países e a
situação dos principais conflitos político-territoriais ocorrentes na década de
1980.

78
O documento cartográfico revela o estado de desordem nas fronteiras;
a presença exaustiva de bases militares; o estado de tensão e de crise aguda
de vários países e a ocupação ilegal e invasão de territórios em pleno século
XX. Estes são contextos geopolíticos que revelam as dificuldades de equilibro
interno e inserção da África no contexto global.
O mapa 9 traz a divisão e a toponímia (nome oficial nos documentos
cartográficos) dos 52 países atuais do continente africano e revela os contextos
de conflitos territoriais, como guerra civil, guerrilha e conflito internacional
ainda existentes na África, no século XXI.

79
A herança de um processo de dominação territorial, que abandonou suas
ex-colônias sem planejamento e transferência do “poder” no sentido amplo, é
refletida neste grave quadro de conflitos no território africano.
O mundo e o olhar da comunidade internacional, descomprometidos com
uma paz durável e um verdadeiro desenvolvimento do continente africano, é
o “fundo” da continuidade e ampliação da extensão dos danos nas sociedades
africanas e nos “novos estados políticos” desenhados e divididos segundo os
critérios e interesses dos dominadores europeus, sem nenhum respeito aos
grupos étnicos.
O comércio de armas, o tráfico de drogas, a seca em vários países (Eritréia,
Somalia, Sudão e Etiópia), a corrupção, a falta de investimentos na saúde e
na higiene, os maus governos e ditaduras, a violação dos direitos humanos
constituem alguns dos problemas estruturais que dificultam a recuperação e
o desenvolvimento da África. Com uma área três vezes e meia maior que a do
Brasil e 800 milhões de habitantes, este é o continente onde 42% da população
ainda estão analfabetas; a expectativa de vida é de apenas 50 anos (nas unidades
políticas onde não ocorre conflito armado) e dos 52 países africanos, 40 estão
entre os 50 mais pobres do mundo (ONU, 2003).
O suficiente, o necessário, o durável ainda não foi feito pela África. O
mundo, a Europa, a América, tem grave responsabilidade nesse processo secular
de falência. Não é mais possível manter a ignorância sobre o que ocorre no
continente e sobre o que é preciso realizar para auxiliar na promoção e respeito
dos direitos humanos, no combate à corrupção, na garantia das liberdades
fundamentais, no apoio à democracia, nas eleições livres, na realização de
bons governos, na prevenção de conflitos, no fortalecimento das missões de
paz, ou seja, na transformação profunda, que o Brasil pode e deve intervir
nesse processo secular de reparação. Este é um importante momento, onde
a estatística que aponta o Estado brasileiro como a segunda maior nação de
ascendência africana do mundo, faz reforçar o comprometimento necessário
do país no auxílio às mudanças no “continente-mãe”.
Vamos estudar no próximo tópico alguns aspectos que vão mostrar a você
a importância geográfica do estudo da África nas escolas brasileiras.

4. A África e a educação geográfica no Brasil


Não podemos perder de vista que, entre os principais entraves ao
desempenho da população de matriz africana na sociedade brasileira, destaca-
se a sua inferiorização na escola. A raíz da desigualdade estaria localizada na
pré-escola. O sistema escolar tem sido estruturado para a perpetuação de uma
ideologia sociopolítica, econômica e territorial que, junto com os meios de
comunicação social, mantém uma estrutura classista, transmissora de valores
distorcidos e individualistas.
Primeiro, são os livros didáticos que têm ignorado o brasileiro de referência
étnica africana e o povo africano como agentes ativos da formação geográfica
e histórica do país.
Em segundo, a escola tem funcionado como uma espécie de segregadora
informal. A ideologia subjacente a essa prática de ocultação e distorção das
80 referências historiográficas, tecnológicas, culturais e de valores tem como
objetivo não oferecer modelos relevantes que ajudem a construir uma auto-
imagem positiva, nem dão referência à sua verdadeira territorialidade e sua
história.
Um componente estrutural na alteração desse quadro de distorção secular
é o reconhecimento, pelo professor, do profundo vínculo existente entre a base
geográfica da África e os eventos históricos. Esta é uma direção fundamental
para uma compreensão mais apurada das questões que envolvem o papel da
cultura de referência africana na formação da sociedade brasileira.
É relevante lembrar que a África foi marcada por vários séculos de
opressão, presenciando gerações de exploradores, de traficantes de africanos
escravizados, de missionários, que acabaram por fixar uma imagem hostil
dos trópicos, cheios de forças naturais adversas ao colonizador europeu e de
homens ditos indolentes. Essa imagem foi sendo ampliada e não considerava os
processos historiográficos como fatores modeladores da organização territorial
e social, mesmo diante dos elementos da natureza. Nesse contexto, não é de
causar espanto o lugar insignificante e secundário que foi dedicado à geografia
africana em quase todos os sistemas e níveis de ensino no Brasil e em vários
outros países.
Na maioria dos livros didáticos de geografia geral e nos atlas geográficos
no país, o continente africano está colocado nas partes finais da publicação e
geralmente com um espaço bem menor que os outros blocos continentais.
Esta maneira de distribuição das terras emersas do globo não obedece a uma
ordem alfabética e nem a uma hierarquia das suas extensões (áreas).
Dessa forma, no sistema de ensino oficial, a África está direcionada para ser
o último continente a ser estudado e como, muitas vezes, o tempo escolar fica
esgotado para o cumprimento do programa por várias questões, este continente
não é estudado devidamente. Verificamos aí um paradoxo estrutural no sistema
escolar uma vez que a África, como berço dos antepassados do homem, deveria
ser ensinado em primeiro lugar.
Quando o continente é estudado, verifica-se a ocorrência de inadequações
metodológicas, como a criação de estereótipos, a utilização de informações
desatualizadas, vários erros e omissões conceituais, bem como a expressão de
preconceitos no texto e nas peças gráficas (mapa, fotos, gráficos, etc.). Estas
incompatibilidades com o processo educacional estão presentes em muitos dos
livros didáticos e atlas geográficos recomendados no país, utilizados sobretudo
no ensino fundamental e médio.
Nos cursos de bacharelado e licenciatura em Geografia, das universidades
públicas ou privadas no Brasil, não existem dados abrangentes da situação.
Entretanto, pesquisa realizada pelo Centro de Cartografia Aplicada e Informação
Geográfica da Universidade de Brasília, em 2002, sobre a existência da disciplina
Geografia da África no ensino superior público e privado, foi apontado que
apenas 15% dos estabelecimentos pesquisados apresentavam uma cadeira
específica referente à temática.
De uma maneira geral, a disciplina Geografia Africana não existe na
estrutura dos cursos e, quando ocorre, está inserida dentro de outra. Existe,
dessa maneira, uma precariedade de espaço real na universidade brasileira para
o desenvolvimento de conteúdos geográficos da África.

81
O estudo do território africano requer uma permanente referência ao
momento histórico, ao tempo dos fatos, evidenciando-se uma íntima relação
entre o espaço geográfico e os eventos da História. Esta é uma das possibilidades
mais coerente para um processo educacional mais realista.
No tópico a seguir você vai encontrar algumas sugestões para auxiliar o
professor a adequar esses conteúdos em suas disciplinas.

5. Eixos temáticos para adequação no processo de ensino – algumas


sugestões
Tomando como referência as recomendações do Projeto Geografia
Afro-Brasileira (1998), cuja estrutura temática busca obedecer a uma ordem
cronológica relacionando tempo e espaço, mas com o cuidado de evitar uma
rigidez linear e restritiva dos fenômenos e fatos da Geografia Africana, sugerimos
os seguintes itens:
1. O quadro ambiental do passado e Pré-História – nesta parte, devem
ser tratados os temas fundamentais do passado geológico e geográfico
da África, como a deriva dos continentes, os períodos das glaciações do
Quaternário, o processo de desertificação do Saara e os registros de vida
humana primitiva no continente;
2. O meio ambiente atual e o espaço africano anterior aos “grandes
descobrimentos” – nesta segunda parte, o educador deve abordar os
temas fundamentais para compreensão da base geográfica recente (clima,
solo, morfologia do terreno, cobertura vegetal, etc.) e os eventos históricos
(as grandes migrações dos povos bantos, por exemplo, e os principais
reinos, impérios e a atividade comercial com outros povos);
3. A diáspora africana: o tráfico negreiro e a colonização do território
– neste tópico, devem ser tratados as novas formas de relação entre os seres
humanos e entre estes e a natureza; o nascimento e desenvolvimento do
capitalismo no mundo; os mecanismos que impulsionaram o tráfico e o
comércio de povos africanos em várias direções do planeta; a América e a
diáspora africana, o Brasil e os quatros séculos de sistema escravista;
4. O imperialismo, o processo de descolonização e a formação de
novos Estados políticos – nesta parte, podem ser abordados os temas
que envolvem o novo momento do capitalismo na África e no mundo; o
alargamento das expedições geográficas no território africano no século
XIX; a partilha do continente entre as potências européias e o contexto
geopolítico no início do século XX e o processo de descolonização e os
novos países da África;
5. As estruturas espaciais da África contemporânea e os conflitos das
fronteiras históricas e as européias – nesta parte final, é interessante
que o professor trabalhe as temáticas da atualidade, como por exemplo, a
distribuição da população, dos recursos minerais, das línguas e religiões, a
divisão política recente e as mudanças nos nomes dos países, as atividades
da agricultura, o processo de urbanização, etc. Este é o módulo para tratar
da Geografia do Militarismo na África, os conflitos e tensões culturais e
étnicas entre os povos africanos e entre estes e os europeus. Finalmente,
82 o educador pode provocar uma discussão sobre a exclusão do continente
africano da globalização. Foi o centro do sistema global ao longo de quatro
ou cinco séculos e agora não mais interessa.
A amplitude das temáticas recomendadas permite que sejam trabalhadas
com diferentes escalas de abordagem, ou seja, lentes com níveis de detalhamento
diversos, dependendo do nível de conhecimento e pesquisa realizada pelo
professor e pelas disponibilidades da escola.
A referência é trazer à luz uma África como entidade territorial importante
para o Brasil, cuja expressão espacial atual é o resultante de um conjunto de
eventos e forças impulsionadas, principalmente, pela Geografia.

FIQUE DE OLHO
• A necessidade econômica de ampliar o fornecimento de matérias-
primas para atender às nações insatisfeitas da Europa; o aumento do
prestígo nacional e a busca de solução para o problema do crescimento
demográfico europeu eram os fatores fundamentais para o movimento
de ocupação efetiva do território africano no final do século XIX.
• Em 1844, ocorreu na Alemanaha a “Conferência em Berlim”, cujo principal
objetivo era “dividir” o território africano entre os países da Europa.
• O parcelamento do continente africano sem o respeito a suas unidades
lingüísticas e aos mosaicos culturais das sociedades é um dos pilares da
desestruturação social profunda que vai se desencadear na África.
• A herança de um processo de dominação territorial que abandonou suas
ex-colônias sem planejamento e transferência do “poder” no sentido
amplo é refletido em um grave quadro de conflitos territoriais, como
guerra civil, guerrilha e conflito internacional, ainda existentes na África
do século XXI.
• D e uma maneira geral, a disciplina Geografia Africana não existe na
estrutura dos cursos e, quando ocorre, está inserida dentro de uma outra.
Existe, dessa maneira, uma precariedade de espaço real nas universidades
brasileiras para o desenvolvimento de conteúdos geográficos da África.

83
REFERÊNCIAS

ADE AJAYI, J. F. et al. Atlas historique de l´Afrique. Paris: Jaguar, 1988.


p.174.
ANDRADE, M. C. A. O Brasil e a África. São Paulo: Editora Contexto, 1989.
p. 80 (Coleção Repensando a Geografia).
ANJOS, R. S. A. A utilização dos recursos da cartografia conduzida para
uma África desmistificada. In: Revista Humanidades. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 1989. p. 12-32.
_____________. A geografia, os negros e a diversidade cultural.
Florianópolis: Humanidades, 1998. p. 93-106 (Série O Pensamento
Negro em Educação – Núcleo de Estudos Negros)
_____________. Distribuição espacial das comunidades remanescentes
de quilombos do Brasil. In: Revista Humanidades. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 1999. p. 87-98.
_____________. A África, a geografia, o tráfico de povos africanos e o
Brasil. In: Revista Palmares em Ação. Brasília: Fundação Cultural Palmares
– Ministério da Cultura, 2002. Ano 1, n. 2.
_____________. Coleção África–Brasil: Cartografia para o ensino-
aprendizagem. 2. ed. Brasília: Mapas Editora & Consultoria, 2005.
_____________. Territórios das comunidades remanescentes de antigos
quilombos no Brasil: primeira configuração espacial. 3. ed. Brasília: Mapas
Editora & Consultoria, 2005.
_____________. Territórios das comunidades quilombolas do Brasil:
segunda configuração espacial. Brasília: Mapas Editora & Consultoria,
2005.
_____________. A África, a educação brasileira e a geografia. In:
Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei n. 10.639/2003. Brasília:
MEC – Secad, 2005. p. 167-184.
_____________. A geografia, a África e os negros brasileiros. In:
MUNANGA, K. (Org.). Superando o racismo na escola. Brasília: Ministério
da Educação – Secretaria de Educação Fundamental, 2005. p. 173-184.
_____________. Geografia, território étnico e quilombos. In: GOMES,
N.L. (org.) Tempos de Lutas: as ações afirmativas no contexto brasileiro.
Brasília: MEC – Secad, 2006. p. 81-103.
DIARRA, S. Geografia histórica: aspectos físicos. In: Ki-Zerbo, J. (Org.)
História geral da África I: Metodologia e pré-história da África. São Paulo:
Editora Ática, 1980. p. 333-349.
ÁFRICA contemporânea – História, política e cultura. Revista da Faculdade
Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras. Edição Especial. Porto
Alegre: FAPA, 1998. n. 21-22.
GIORDANI. I, M. C. História da África anterior aos descobrimentos: Idade
moderna I. Rio de Janeiro: Petrópolis, Vozes, 1985.
84
KI-ZERBO, J. História geral da África I: metodologia e pré-história da
África. (Coord.) São Paulo: Ática/Unesco, 1972.
JESSEN, M.; ARAÚJO, M. Geografia física da África – Pequena monografia.
Maputo: Livraria Universitária,1998. 50 p.
PARKER, G. Atlas da história do mundo. Londres: Times Books, 1993.
VERGER, P. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e
a baía de todos os Santos – dos séculos XVII à XIX. 2. ed. São Paulo: Ed.
Currupio,1978.

85
unidade I
áfrica
A história africana nas escolas:
entre abordagens e perspectivas

86
A história africana nas escolas:
entre abordagens e perspectivas

Anderson Ribeiro Oliva

Ao terminar os estudos desta Unidade, esperamos que você:


• Observe o atual panorama do ensino da história da África nos cursos de
graduação e pós-graduação.
• Identifique os aspectos positivos e os principais problemas da abordagem
da história da África nos livros didáticos de história.
• Reconheça a diversidade e a complexidade das regiões e sociedades
africanas.
• Analise o debate teórico acerca dos usos adequados e inadequados de
conceitos e categorias no tratamento da história da África.
Vivenciamos nos últimos anos um importante debate acerca do
ensino da história da África no país. Órgãos governamentais, instituições de
ensino, acadêmicos, professores, alunos e movimentos sociais organizados
participaram, em vários espaços, de experiências bem-sucedidas. Apesar dos
vários obstáculos que ainda estão sendo superados, é facilmente perceptível
o aumento, nos diversos segmentos educacionais, do reconhecimento e da
valorização das inestimáveis participações africanas na história da humanidade
e do Brasil.
Nesta unidade, dividida em duas partes, você vai estudar a História da
África e algumas possibilidades para abordá-la em sala de aula nos ensinos
fundamental e médio.
Na primeira parte iremos trabalhar com alguns dados sobre o panorama
atual do ensino da história africana no Brasil. São apresentadas informações
acerca do enfoque do tema nos cursos de formação de professores de história e
nos livros didáticos de história. Em relação aos livros didáticos, você encontrará
análises detalhadas, já que o uso desse instrumento pedagógico em nossas
escolas é predominante, apesar de discutível.
A segunda parte é dedicada ao esforço de compartilharmos experiências
didáticas e posturas teóricas que, se empregadas corretamente, podem servir
como bons auxiliares para a atividade docente. O debate compõe a essência
da unidade, envolvendo o uso de representações cartográficas e o emprego de
conceitos e categorias, normalmente encontrados nos escritos acerca da África
e em nosso imaginário coletivo.
Começaremos os estudos com o seguinte questionamento, freqüentemente
repetido por alguns professores, alunos e membros das comunidades
escolares:
87
1. É de fato importante estudarmos a África?
1.1 Por que devemos estudar a história africana?
É preciso ter bons argumentos para responder a questões como esta. Um
bom caminho a seguir seria o da utilização de estratégias que chamassem a
atenção dos “ouvintes” (alunos ou mesmo outros educadores) para a importância
da África na trajetória histórica da humanidade. É claro que também não
podemos esquecer de enfocar seu rico e específico conjunto de sociedades e
experiências culturais, sociais, econômicas e políticas.
Eis alguns elementos para começar a refletir e a construir bons argumentos
sobre a temática.
1. O estudo da história do continente africano possibilita a correção das
referências equivocadas que carregamos sobre os africanos, além, é claro,
de tornar mais denso nossos conhecimentos sobre suas características e
realidades.
2. Devemos enfatizar e valorizar algo que está esquecido por muitos: nossa
ancestralidade africana. É necessário que articulemos dados sobre a
intensa participação africana na elaboração da sociedade brasileira com a
ininterrupta tarefa de combate ao racismo e às práticas discriminatórias a
que estão sujeitos diariamente milhares de africanos e afro-descendentes
espalhados pelo mundo. Se não trabalharmos corretamente com suas
características históricas não é possível construir imagens positivas sobre as
realidades e sociedades africanas.
3. Em uma perspectiva legal e jurídica da questão não se pode ignorar que,
com a Lei nº 10.639/03, o ensino da história da África nas escolas tornou-
se obrigatório. E mesmo antes disso, os próprios Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs) já estabeleciam diretrizes nesse sentido. Ora, se temos de
ensinar, portanto, temos de saber como fazê-lo (isso é óbvio!).
4. E, por fim, existe o caráter formativo/intelectual do assunto, o motivo de
maior importância entre os apresentados. A África possui tantas escolas de
pensadores, de artistas, de intelectuais, e contribuições para o entendimento
e construção do patrimônio histórico/cultural da humanidade que é
inadmissível simplesmente não estudá-la.

1.2 Um olhar panorâmico sobre o ensino da história


da África: obstáculos e perspectivas
O estudo dos seguintes tópicos contribui para a visualização e superação
das maiores limitações encontradas na abordagem da história africana nos
Cursos de Formação de Professores de História:
• mapear as disciplinas que enfocam a África nos Cursos de graduação em
história;
• oferecer cursos de formação, extensão e especialização em temáticas
africanas; e, com destaque especial;
• analisar como a história africana é tratada nos livros didáticos.

88
1.3 Ensinar o que não foi aprendido. Será uma tarefa possível?
Parece-nos certo que, se nos cursos de licenciatura disciplinas como
história, arte, geografia e literatura africanas estivessem presentes nos currículos,
os futuros docentes não teriam tantas dificuldades em elaborar instrumentos
teóricos e metodológicos fundamentais para o tratamento da temática nas
escolas. Porém, de forma geral, não é esse o quadro encontrado no ensino
superior brasileiro, e, mais especificamente, nos cursos de história.
A falta de base em estudos africanos nas graduações, o acesso não
orientado aos estudos publicados e a insegurança para montar suas aulas,
figuram entre as principais justificavas utilizadas pelos professores para explicar
os prolongados esquecimentos que envolvem a África em nossas escolas.
Essas questões nos obrigam a reconhecer que o argumento, de que não se
pode ensinar o que não se aprendeu é bastante justo, mesmo que não justifique
um imobilismo absoluto. E, infelizmente, esse é um quadro que atinge ainda a
maioria dos alunos que freqüentam cursos de Licenciatura em história no país.
Para que você tenha uma idéia da situação, veja alguns dados sobre a
questão. Segundo as informações disponibilizadas pelo Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep) participaram do último Exame
Os dados apresenta-
Nacional de Cursos (ENC) realizado em 2003, duzentos e onze cursos de história. dos resultam de uma
Desses, de acordo com o levantamento efetuado a partir das grades horárias extensa busca por
meio da internet nas
disponibilizadas pelas instituições, apenas 68% – ou seja, 32% - ofertavam a páginas das instituições
disciplina História da África. mencionadas.
Apesar das impreci-
Mesmo que a maioria desses cursos tenha começado a oferecer a disciplina sões, pois alguns sites
apenas nos últimos cinco anos, e muitas vezes no conjunto de disciplinas encontravam-se indis-
poníveis ou desatua-
optativas, não podemos negar que esteja ocorrendo um avanço significativo lizados, a ferramenta
nessa área. Isso fica claro quando comparamos esse número com os dados utilizada é válida.
referentes ao período anterior a 1990. Salvo algumas poucas experiências, a
África não recebia atenção no Ensino Superior (Saraiva, 1995: 125-136).

Cursos de História Avaliados pelo ENC - 2003

Cursos que não possuíam a disciplina História da África 143 68%

Cursos que possuíam a disciplina História da África 68 32%

Total 211 100%

Quadro 1. (Fonte: Cursos avaliados pelo ENC/2003, site do INEP, www.inep.gov.br,


e levantamento realizado nos sites das Instituições).

89
Se tal realidade atinge diretamente os professores em formação, é certo
afirmar que os docentes que atuam há mais tempo no magistério não tiveram
muitas oportunidades de cursar em suas graduações matérias específicas sobre
a África. Neste caso, compete às secretarias de educação, ao Ministério da
Educação-MEC e às universidades ofertarem cursos de extensão, formação ou
especialização – presenciais ou a distância - em temáticas africanas.

1.5 A África nos cursos de pós-graduação - notícias e avanços


Apesar dessa paisagem preocupante em relação à abordagem da África
em nossas graduações, não podemos deixar de acreditar que entramos em uma
nova fase no papel ocupado pela África nos cursos de pós-graduação. No final de
2005, como sinal de tempos promissores, estruturou-se o primeiro programa de
pós-graduação (mestrado e doutorado) com linha temática totalmente voltada
para os estudos africanos, composto por qualificado e multidisciplinar corpo
docente. É o Programa multidisciplinar em estudos étnicos e africanos, da UFBA.
Se pensarmos que a presença de mais doutores em África nas universidades
significa a possibilidade de que novos graduandos, mestres e doutores possam
se especializar na área, devemos estimular iniciativas como essa.
No que diz respeito aos cursos de extensão e formação, encontramos
um cenário que, apesar de não ser de todo estimulante, está marcado por
algumas propostas interessantes que usam dois modelos:
Centro de Estudos
Afro-Orientais (CEAO) 1. O presencial – como as experiências na Universidade de Brasília- UnB,
da Universidade
Federal da Bahia. Ver Universidade Federal de Fluminense-UFF, Universidade de São Paulo-USP,
http://www.posafro. Centro Universitário de Campo Grande e PUC de Campinas, entre outros.
ufba.br/
2. A distância - como no caso da Universidade Federal do Espírito Santo-UFES
e da ONG Ágere Cooperação em Advocacy, em parceria com a Secretaria de
Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade- SECAD do MEC.
No caso das pós-graduações lato sensu ou cursos de especialização,
SECAD -Secretaria de algumas propostas chegam quase a uma década de existência. É a situação do
Educação Continuada, curso oferecido pelo Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido
Alfabetização e
Diversidade do MEC. Mendes, no Rio de Janeiro. Nos últimos dois anos a UnB, a PUC de Belo Horizonte
Ver também os e a Universidade Federal de Tocantins, entre outras, também lançaram ou
seguintes sites na
internet: UFES, www. anunciaram a abertura de suas primeiras turmas.
neaad.ufes.br; Centro
Universitário de Campo
Grande, www.unaes.
br/extensão/; PUC
de Campinas, www. 1.6 A África nos livros didáticos de história
puc-campinas.edu.br; e
www.ensinoafrobrasil. No que diz respeito ao trabalho cotidiano dos professores, uma das maiores
org.br/portal/
preocupações está associada à revisão dos livros didáticos de história. Partindo
do princípio de que o material é concebido para auxiliar a atividade docente e
servir como fonte de leitura para os alunos, reformular suas abordagens acerca
da África é medida de caráter urgente.
Das quarenta coleções de história utilizadas no ensino fundamental (de
5ª a 8ª série), entre 1995 e 2005, apenas onze possuíam, entre seus volumes,
capítulos específicos que tratavam a história africana (Oliva, 2003 e 2004).
Para você entender melhor, a análise do conteúdo dos manuais escolares
90 levou em consideração a história da África anterior ao processo de ocupação
Tabela 1
Livros Didáticos de História
utilizados no Ensino Fundamental - 1995/2005
40

35

30
29

25 Livros que possuem


capítulos sobre a África - 28%
20

15 Livros sem capítulos


11
sobre a África - 79%
10

0
A listagem completa
Fonte: levantamento efetuado pelo autor. dos livros pesquisados
está nas referências da
Unidade.

européia, que se estendeu dos meados do século XIX ao anos de 1970. Ele
abrange, portanto, o longo período que se estende desde o processo de
humanização, passando pelo aparecimento das primeiras civilizações e
atingindo os últimos seis milênios de história.
É necessário lembrar que se compararmos a atual configuração dos manuais
com o quadro encontrando há dez anos houve uma mudança importante. Até
1996, a África aparecia apenas como um apêndice da história européia ou do
Brasil. A inclusão de capítulos que versam sobre a história africana, mesmo com
limitações, pode ser entendida com um avanço chave.
Veja agora a análise de alguns acertos e desacertos apresentados nos onze
manuais escolares pesquisados.

2. O Espaço dedicado à história africana


Ao folhearmos os índices dos manuais percebemos uma nítida distorção:
o número de páginas utilizadas para abordar os conteúdos. Não acreditamos
que o valor quantitativo por si só seja relevante. No entanto, se os capítulos
que tratam assuntos ligados à história européia, como a Idade Média e o
Renascimento Cultural, ocupam em média quinze páginas e possuem vasta
bibliografia, seria de se esperar que a abordagem da história africana recebesse
uma atenção, pelo menos, proporcional. Porém, não é o que ocorre na maioria
dos casos.
Em sete dos onze livros o espaço dedicado à África é bem inferior ao
mencionado, variando entre seis a dez páginas. Já três deles reservaram de dez
a vinte páginas ao tema. E, como uma surpresa agradável, encontramos em 91
outras três obras um espaço que supera as vinte páginas. O mais interessante
é que, desses últimos manuais, dois elegeram a África como temática principal
para conduzir a abordagem de seus conteúdos.

tabela 2
números de páginas dedicadas à temática - livros
5
5,0

4,5

4,0

3,5
3
3,0

2,5
2
2,0

1,5

1
1,0

0,5

0,0
fonte: levantamento efetuado pelo autor
Menos de 10 páginas - 5 livros ou 45%
Não somos contra o
estudo desses objetos Entre 10 e 15 páginas - 2 livros ou 18%
históricos, pelo
contrário, eles podem e Entre 15 e 20 páginas - 2 livros ou 9%
devem ser trabalhados.
Seu tratamento em Com mais de 20 páginas - 3 livros ou 27%
sala de aula possibilita
a construção de novos
referenciais teóricos e
imagéticos acerca da
África por parte dos
3. A escolha dos assuntos e os recortes temáticos
alunos, além, é claro,
de serem retratos Uma postura recorrente observada nos manuais é a concentração das
concretos de certas abordagens nos grandes reinos e impérios africanos. Assim, as principais
realidades históricas
encontradas no informações concentram-se nas conhecidas experiências políticas de Gana,
continente. Mali, Songhai, Kongo ou Zimbabwe.
Nesse caso, compete lembrar que, em termos de orientação legal para a
No parecer
(003/2004) formulação dos manuais escolares, o Conselho Nacional de Educação orienta,
aprovado em 2004 entre outros pontos, para a abordagem, justamente, desses tópicos.
para regulamentar
a aplicação da Lei
10.639/03

92
Em História da África, tratada em perspectiva positiva, (...) serão abordados
temas relativos: (...) - à história da ancestralidade e religiosidade africana; - aos
núbios e aos egípcios, como civilizações que contribu íram decisivamente para
o desenvolvimento da humanidade; - às civilizações e organizações políticas
pré-coloniais, como os reinos do Mali, do Congo e do Zimbabwe - ao tráfico e
à escravidão do ponto de vista dos escravizados; - ao papel dos europeus, dos
asiáticos e também de africanos no tráfico; (...) (Conselho Nacional de Educa-
ção, 2004: 12).

Tabela 3
Abordagem sobre os “Reinos e Impérios” africanos
11
10
9
9
8
7
6
5
4
3
2
2
1
0
fonte: levantamento efetuado pelo autor
Aparecem como tema central - 82%
Citado apenas de forma secundária - 18%

O tratamento exclusivo desses temas baseia-se, em princípio, no uso de


referenciais ocidentais para eleger o que é importante de ser ensinado sobre a
África.
Não se deve ignorar a
Reflita: se em relação à história européia estamos acostumados a dedicar existência de forma-
ções políticas ou so-
significativa atenção aos grandes reinos e impérios (basta percorrer os índices ciais com semelhanças
de nossos manuais para constatar a dedicação a essas temáticas) por que às européias, às asiáti-
cas ou às americanas,
devemos usar para a África a mesma fórmula? mas é preciso que se
demonstre e enfatize
Seria o mesmo que afirmar: “os pequenos grupos não merecem ser suas singularidades.
Esse tema será retoma-
estudados”, ou ainda, “diante da impossibilidade de atentar para as centenas do à frente como um
de sociedades que se espalham pelo continente devemos ter como base os dos tópicos tratados na
segunda parte desta
padrões eurocêntricos”. Unidade.

93
As novas correntes de estudos africanistas revelam que, para além desse
recorte, existe uma variedade estimulante de abordagens sobre a história
africana, envolvendo as questões de:
• gênero:
• migrações:
• elaboração de padrões de organização política, econômica e social:
• valores estéticos, filosóficos e culturais,etc.

4. O tratamento da escravidão tradicional africana


Ao analisar a presença da escravidão e dos efeitos do tráfico de escravos
no próprio continente, alguns livros revelam grande descompasso com as
pesquisas elaboradas sobre a temática. Apenas 36% dos manuais fazem menção
às especificidades e características gerais da escravidão tradicional africana,
enquanto os outros deixam a entender que a escravidão teria sido inventada
pela presença árabe ou européia na África. Trabalhos de historiadores como
John Thornton e Paul Lovejoy, apesar de opiniões discordantes acerca de certos
tópicos, revelaram, há um bom tempo, que complexas dinâmicas internas e
externas envolveram o uso da escravidão na África, assim como procuraram
elaborar definições acerca das funções e particularidades de seu uso entre as
sociedades africanas (Thornton, 2003 e Lovejoy, 2002).

Tabela 4
Abordagem acerca da Escravidão Tradicional
11
10
9
8
7
7
6
5
4 4

3
2
1
0
fonte: levantamento efetuado pelo autor
Denominação de Tribal - 36%
Sem referências - 64%

94
Além disso, pelas explicações encontradas, com poucas exceções, os
alunos são levados a pensar que o tráfico de escravos aconteceu sob influência
exclusiva dos comerciantes árabes, europeus e americanos, ignorando a
participação de africanos no processo.

5. A questão dos conceitos


No campo conceitual um dado incômodo ainda é encontrado: o emprego
da nomenclatura tribo para referir-se aos grupos não estatais na África.
Constatamos a presença da categoria em quatro dos onze livros analisados. A
denominação é inadequada e imprecisa, já que seu uso científico foi difundido
em pleno contexto histórico marcado pelas ações colonialistas européias na
África, nos séculos XIX e 20.
Neste caso a nomenclatura tribo era utilizada para reforçar as crenças
da suposta superioridade das civilizações da Europa sobre outras sociedades.
Dessa forma, em vários estudos antropológicos, realizados neste período e
obviamente embebidos nas teorias raciais e evolucionistas, os africanos foram
classificados como: primitivos, selvagens e tribais.

Tabela 5
Referência às sociedades africanas como Tribais
11
10
9
8
7
7
6
5
4
4
3
2
1
0
fonte: levantamento efetuado pelo autor
Livros em que existem comentários explicativos - 36%
Sem referências explicativas - 64%

95
Hoje, nos parece uma ação fora de seu tempo repetir essa terminologia,
mesmo sabendo que novos sentidos foram emprestados à nomenclatura pela
antropologia contemporânea. Acreditamos, no entanto, que no imaginário
geral o termo ainda se confunda com a primeira definição, sendo preciso evitá-
lo.

6. As imagens
No uso dos recursos imagéticos – mapas, fotografias, pinturas e desenhos
– encontra-se, na maioria dos livros (foram analisados apenas nove dos onze
manuais), uma realidade bastante estimulante.
Em relação às representações cartográficas percebemos a tentativa da
reprodução das fluídicas fronteiras construídas entre as diversas sociedades,
reinos e impérios africanos anteriores ao século XIX.
Já em relação às imagens - presentes em um bom número nos livros –
percebe-se a repetição de algumas representações que podem ser agrupadas
nas seguintes categorias:
• Padrões artísticos, estatuária e objetos – máscaras, instrumentos de uso
cotidiano, estátuas e objetos de arte/religiosos.
• Reinos e impérios – imagens da cidade de Tombuctu (no Mali), do Grande
Zimbábue, do Reino do Kongo, da Etiópia Cristã.
• Cenas da escravidão – imagens acerca da escravidão tradicional, atlântica,
árabe e do tráfico de escravos.
• Cenas cotidianas – referências aos comportamentos e práticas ligadas à
urbanística, trabalho, moradia, transporte e arquitetura.
• Fome, miséria e apartheid – imagens que, contextualizadas ou não, remetam
ao conjunto de referências e estereótipos comumente associados à
África.
• O Islamismo em África - mesquitas no Mali, comerciantes islâmicos e
práticas islâmicas.

Preste atenção!
Os recursos não devem ser tratados apenas como ilustrações para os textos,
mas sim como fontes históricas a serem exploradas e decifradas por professores
e alunos. Dessa forma seu uso se transforma em um importante instrumento
para a apresentação, entendimento e compreensão dos padrões arquitetônicos,
das religiosidades, das artes, dos cotidianos e das visões de mundo em África.
Terminada a leitura da análise dos livros didáticos é hora de iniciar a segunda
parte desta unidade. Aproveite a parada para fazer uma análise, você mesmo,
do material de ensino de história existente na sua escola. Como ele retrata a
história africana? Qual é o espaço dedicado ao tema? Que figuras aparecem?

96
Distribuição quantitativa das imagens - Total 108

29

21

15
13
12
10
8

fonte: levantamento efetuado pelo autor


Padrões Artísticos, Estatuária e Objetos - 28% Fome, Miséria ou Apartheid - 11%
Reinos eIimpérios- 19% Cenas Cotidianas - 9%
Mapas - 14% Islamismo em África - 7%
Cenas de Escavidão - 12%

6.1 Abordagens e experiências


Nesta segunda parte da unidade, você irá estudar, inicialmente, uma
possibilidade de trabalho com mapas. Nesse caso, a preocupação centra-se tanto
no reconhecimento das características do continente como no entendimento
de suas singularidades e diversidades. A idéia chave é combater as leituras
simplistas que negam a complexidade africana.
Em seguida, você vai estudar os cuidados que devemos ter ao utilizar
alguns conceitos quando formos nos referir às sociedades e à história africana.
Vamos em frente?
Até a década de 1990, a pequena atenção de nossa historiografia para os
estudos africanos, fez que a trajetória histórica do continente não fosse ensinada
nas escolas brasileiras. Ignorada, ou simplesmente fundida aos estereótipos,
como o de que o continente seria apenas o “local de onde vinham os escravos
para trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar ou nas minas”, a história africana
não aparecia nos programas e nem nos livros didáticos. Apesar dos avanços
observados nos últimos anos, tanto na pesquisa histórica como no ensino,
muito ainda está por ser feito.
Neste caso, para minimizar possíveis desacertos, a escolha dos conteúdos
precisa estar cercada por dois aspectos: os critérios científicos e a revisão dos
mais recentes trabalhos desenvolvidos pela literatura africanista.
97
Ou seja, qualquer sociedade, tema, espaço ou recorte temporal eleitos
para serem tratados exige que você esteja bem preparado. Além, é claro, de
não ignorar que seus esforços iniciais devem se concentrar na desconstrução
dos estereótipos, dos preconceitos e das simplificações.

As múltiplas Áfricas: diversidades regionais e singularidades históricas

África do Norte

África Ocidental
África Norte - Oriental

África Central Ocidental


África
Oriental

África Central
Sul - Oriental

África Meridional
África no Oceano Índico

Parece evidente que


a longa presença
temporal das
sociedades humanas
em África, com suas
dinâmicas e trajetórias, Para que possamos reconstruir as imagens – muitas vezes marcadas pelos
impossibilita qualquer estereótipos - que povoam as mentes de nossos alunos acerca do continente
esquematização
absoluta de africano é vital realizarmos abordagens que apresentem a África como um
identificação universo plural e complexo. Um dos caminhos a seguir nesse sentido é o do
das afinidades
e características estudo das possíveis divisões e classificações por regiões de suas configurações
encerradas em um
determinado sítio. geográficas, populacionais, históricas, culturais, econômicas, sociais e lingüísticas.
A iniciativa, mesmo que incorrendo em algumas imprecisões e simplificações,
já que as fronteiras estabelecidas não condizem com uma realidade facilmente
98 identificável e, apesar de guardarem elementos em comum, algumas áreas em
África são recortes singularizados pelas suas especificidades, é valiosa por dois
motivos.
Primeiro pela possibilidade de se enfatizar as múltiplas faces da África.
Migrações, trocas mercantis, trajetórias históricas, estratégias de comunicação,
apropriações e invenções culturais encontraram nesses espaços um campo
fértil de desenvolvimento.
Não esqueça de que a maioria de nossos estudantes guarda referências
que resumem os africanos à seguinte definição: são todos negros, divididos
em bantos e sudaneses, e ponto final. A África parece ser assim um continente
amorfo e simplório. Portanto, dirigir seus olhares para as diversas faces africanas
parece ser salutar remédio para a cegueira momentânea.
E, em segundo lugar, abordar cada região especificamente, evitando
um enfoque generalizante e reducionista sobre toda a África, nos parece ser
didaticamente mais correto. Além de facilitar o trabalho em sala de aula, tal
recorte possibilita a utilização de alguns marcos para orientar o tratamento
Não existe um
das características encontradas em diferentes áreas do continente. O mapa 1 consenso sobre essa
reproduz uma das várias possibilidades de visualizarmos conjuntos histórico- divisão. Apresenta-
mos aqui algumas
geográficos detentores tanto de elementos em comum como de diferenças. possibilidades abertas
pelo tema: a do mapa,
com sete áreas, e a

Região Países
elaborada por Alberto
da Costa e Silva, com
quatro espaços.

Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Mali, Guiné-Bissau, Guiné,


África Ocidental Serra Leoa, Libéria, Costa-do-Marfim, Burkina-Faso, Gana,
Togo, Benin, Nigéria, Camarões e Níger.

Chade, República Centro-Africana, Guiné-Equatorial,


África Central Gabão, Congo, República Democrática do Congo, Angola e
Zâmbia.

Sudão, Etiópia, Eritréia, Djibuti, Somália, Quênia,


África Oriental Uganda, Ruanda, Burundi, Tanzânia, Malawi e Moçam-
bique.

Zimbábue, Namíbia, Botswana, África do Sul, Lesoto e


África Meridional
Suazilândia.

África do Norte Egito, Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos e Saara Ocidental

África Insular Cabo Verde e São Tomé e Príncipe


Atlântica
África Insular Madagascar, Comores, Ilhas Maurício e Ilhas
Índica Seychelles.
99
Adotando como modelo a configuração – África Ocidental, África Central,
África Oriental, África Meridional, África Insular Atlântica, África Insular Índica e
África do Norte -, podemos estabelecer uma subdivisão dos 54 atuais países
africanos por essas áreas:
Alguns dos principais Atlas sobre a História e Geografia da África seguem
divisão parecida, apreciando os países dentro de cada conjunto regional, como é
o caso do Altas National Geographic África (2005) e o Geografia Universal (2005).

7. A África entre nomenclaturas. Debates historiográficos e o


cuidado com os conceitos
No decorrer dos séculos XIX e 20, embebidos pelas concepções
evolucionistas, racistas e eurocêntricas, grande parte dos historiadores europeus
afirmava que as sociedades africanas eram “ahistóricas” - por não conhecerem
a escrita e por estarem presas às tradições do passado. Além disso, elas seriam
incapazes de desenvolver qualquer padrão de organização social, político,
cultural ou econômico que se aproximasse dos formatados pelas civilizações
européias ou orientais.
Já para um grande grupo de antropólogos, que desembarcavam na
África junto com os administradores coloniais europeus, os africanos eram
considerados integrantes de “tribos” selvagens e seres primitivos, que não teriam
condições de elaborar formações políticas complexas, construírem grandes
cidades e elaborar padrões sofisticados na arte ou em outros conhecimentos, a
não ser se recebessem o auxílio de indivíduos ou grupos de fora do continente
– fossem eles os árabes, os próprios europeus ou qualquer outra sociedade
“branca” (Lopes, 1995,p. 23 e Mudimbe, 1988, p. 45).
Podemos afirmar, com grande dose de convicção, que esse conjunto de
idéias – mais ou menos modificado - nos atinge até os dias de hoje. Com objetivo
de municiá-lo com argumentos teóricos adequados a fim de evitar repetição
desses estereótipos nas aulas e empregar corretamente alguns conceitos e
categorias, você vai encontrar, nas próximas páginas, um diálogo acerca da
utilização de alguns conceitos como reinos e impérios, tribos, hegemonias
políticas e grupos étnicos, para o estudo das realidades africanas.

8. “Reinos e Impérios” versus as hegemonias políticas


Na abordagem da história africana em nas escolas ou nos livros didáticos
é fácil constatar que um dos temas mais recorrentes é o estudo das grandes
formações políticas africanas, ou seja, dos denominados Reinos e Impérios.
Apesar de não existir qualquer interdição categórica com relação ao uso desses
termos para designar as estruturas políticas em África é preciso alertar para a
necessidade de empregá-los de forma contextualizada.
O assunto pode e deve ser abordado, porque possibilita a construção
de novos referenciais teóricos e imagéticos acerca da história da África por
parte dos nossos alunos. Por isso, acreditamos que seu estudo pode servir de
importante instrumento aplicado na desconstrução das idéias preconceituosas
anteriormente mencionadas. Porém, precisamos ter cuidado para não
supervalorizarmos a abordagem – caindo na armadilha do enfoque eurocêntrico
100
–, esquecendo assim de outros contextos históricos também importantes ou
de transmitirmos aos alunos a idéia de que quando falamos dos reinos na África
seria a mesma coisa de falarmos dos reinos na Europa.
Parece-nos obrigatório dedicar alguns minutos de contextualização e
reflexão histórica para conscientizar nossos alunos de que estamos tratando de
configurações e estruturas diversas. Não ignoramos a existência de organizações
políticas ou sociais africanas semelhantes às de outras partes do globo, mas
é preciso que se demonstre e enfatize as singularidades e especificidades
africanas. Se haviam algumas sintonias, as diferenças também eram evidentes.
Buscando breve entendimento acerca da questão, deveríamos inicialmente
apresentar, em sala de aula, as idéias elaboradas por vários intelectuais que antes,
durante e após os processos de independência política em África, divulgaram
versões da história africana em que o continente se destacava pelas suas faces
de grande autonomia, inventividade e complexidade política/social/cultural.
A existência de complexas organizações estatais e de prósperas
civilizações era o principal argumento desses trabalhos, que ao mesmo tempo
comprovavam a existência de rica trajetória histórica e contrariavam as teorias
que negavam à África qualquer expressão de complexidade nas suas formações
sócio-econômicas (ver mapa 2).
Esses dados, hoje incontestáveis, inquietaram os racistas em todo o mundo
e serviram como argumento para a construção de uma História afrocêntrica
baseada no argumento de que os africanos não só tinham história, mas de que
a África seria o berço da humanidade e das civilizações humanas (Ki-Zerbo,
1979, p. 9-43; Lopes, 1995).
No entanto, parte dos trabalhos elaborados no mencionado período, além
de fazer uso ideológico das teses defendidas, aplicou de forma imprecisa ou
não contextualizada conceitos elaborados pela historiografia européia. Soma-
se a esse elemento a ausência de investigações científicas de maior densidade
- em alguns casos - e a tentativa de valorizar a história africana a partir dos
mesmos argumentos utilizados pelos historiadores europeus para afirmar a
superioridade européia (Lopes, 1995, p. 24-7 e Wedderbun, 2005: 136-140).
Por isso, nos parece evidente que é preciso chegar a um equilíbrio na
abordagem da temática. Não podemos menosprezar a informação de que a
história da África esta intimamente relacionada, até o final do século XIX, com
a existência ou a convivência, em tempos e espaços diversos, das hegemonias
políticas – como Gana, Mali, Songhai, Kongo, Zimbábwe, Etiópia e N’Dongo - e
de sociedades que possuíam outras formas de organização política, estatais ou
não – como os Iorubás, Haússas, Massai, Dogons, entre outros.
Assim, não repetiremos mais as inaceitáveis idéias de que as sociedades
africanas eram incapazes de organizar formações políticas complexas ou de
que eram ahistóricas. Mas também, não faremos uso da retórica que espalhava
a idéia de que a África era importante pelo fato de suas características históricas
serem parecidas ou superiores às européias.
De acordo com historiador congolês Elikia M’Bokolo, podemos fazer uso
de outras categorias para definir essas estruturas e configurações políticas em
África, como, por exemplo, “hegemonias políticas”. O conceito empregado nessa
definição é muito semelhante ao elaborado pelo antropólogo francês Jean-Loup
Amselle, chamado de “sociedades englobantes”. A idéia envolve a perspectiva
de que as relações de poder estabelecidas não se prendiam à questão das 101
fronteiras fixas e da imposição de controle essencialmente centralizado. Os
mecanismos das trocas comerciais, o pagamento de tributos, os movimentos
de reciprocidade, os graus variados de autonomia e os laços de parentesco
compunham variantes chaves dessas formações (ver M’Bokolo, 2003, p. 154-
162). Dessa maneira, a França de Luís XIV, não era o Mali de Sundiata Keita,
assim como o Reino dos Francos não guarda relação de identidade com o Reino
de Oyo.
Enfim, que façamos referência às experiências históricas denominadas em
África como reinos e impérios, desde que alertemos – com alguns minutos
de contextualização e reflexão historiográfica - para o fato de não estarmos
falando das mesmas configurações, estruturas e dinâmicas que caracterizaram
os conhecidos reinos e impérios europeus. É preciso que se demonstre e
enfatize as singularidades e especificidades africanas.

9. “Tribos, nações e países” versus sociedades e grupos étnicos


Devemos fazer o mesmo alerta sobre a designação das sociedades africanas,
que não se organizavam em Estados, como tribais. Tal denominação, encontrada
comumente nos meios de comunicação, nas escolas e no imaginário social
brasileiro, desconsidera um intenso debate acerca da utilização dessa categoria
– tribal - pelas ciências sociais e humanas (Southall, 1997, p. 38-51 e Davidson,
1994, p. 141-145).
Diante do grande suporte que as pesquisas antropológicas e históricas já
deram sobre o assunto, insistir nessa forma de se referir às sociedades da África –
como tribos - não encontra mais uma justificativa aceitável. A recorrência sinaliza
para uma continuidade das idéias divulgadas pelas teorias que defendiam a
suposta inferioridade dos povos africanos perante os europeus, já que, tribo,
aparece na literatura colonialista com o significado oposto ao de civilização. Ou
seja, o termo designaria os grupos “selvagens e primitivos”, portanto, inferiores
às sociedades ou às civilizações ocidentais (Henriques, 2004, p. 51-60; Appiah,
1997, p. 155-192).
Muitos professores e alguns autores de livros didáticos, temendo incorrer
nesse equívoco, passaram a chamar os grupos que não formaram grandes reinos
em África, ou que não eram por esses integrados, por nações e países. Existe
aí o mesmo problema. Não que esses dois termos não possam ser aplicados
no entendimento da África – como tem feito boa parte da historiografia -,
mas se utilizados na escola, para alunos em formação inicial, devemos alertar
novamente para as devidas contextualizações.
Ao afirmar, por exemplo, que determinado grupo africano, como os iorubás
(da África Ocidental, na atual Nigéria), compunham uma nação ou um país, os
professores não devem esquecer de que, os alunos, em princípio, irão empregar
os sentidos atuais dessas categorias para defini-las. Ou seja, se nos relatos
históricos ou estudos historiográficos encontramos esses termos revestidos
de sentidos específicos e claramente diferenciados pelos pesquisadores, para
nossos estudantes seria como se falássemos de configurações ou organizações
contemporâneas (M’Bokolo, 2003 e Thornton, 2003, p. 255-263).
Observe o exemplo: a Nigéria hoje é um país, mas os iorubás do século XIX
não formavam nada parecido com um país, pelo menos na acepção atual do
102 termo.
Não criticamos o uso adequado do conceito/termo - o que é freqüente nos
escritos dos séculos XVI ao XIX -, no entanto, é preciso que contextualizemos
sempre o uso em sala de aula, para que os alunos entendam as diferenças em
relação aos atuais significados.
Parece-nos que uma forma de minimizar o problema é levar para debate em
sala a questão da identidade étnica. Se grande parte das sociedades africanas,
organizadas ou não em Estados, era formada por diversos grupos é preciso dar
visibilidade e faces próprias a esse complexo conjunto de povos. Acreditamos
que o debate acerca da etnicidade se torne vital a tarefa, mesmo sabendo que
o ele não está imune a críticas e problemas.
Neste caso compete lembrar que, em recorte envolvendo os últimos dois
séculos, a identidade de um grupo foi pensada a partir de vários critérios.
Entre meados do século XIX e as primeiras décadas do 20, seriam as
características biológicas o fator principal para designar e qualificar as
sociedades humanas. Este juízo foi substituído, a partir dos anos de 1930-
1940, pelos padrões culturais. Porém, nenhum desses elementos parecia ser
suficientemente completo para dar conta das complexidades e flexibilidades
que envolviam as formulações de classificação ou identificação dos grupos.
Há alguns anos os cientistas sociais trabalham com uma outra categoria que,
apesar de ficar durante algum tempo restrita aos corredores acadêmicos, desde
a década de 1960 ou 1970, marca o cotidiano de algumas sociedades. Falamos
da definição de identidade étnica. De acordo com essa categoria, um grupo é
identificado como X ou Y por se considerar e ser considerado pelas sociedades
envolventes como tal (Poutignat; Streiff-fenart, 1998, p. 55-84 e Barth, 1969, p.
129). Este modelo, de completa aplicação, possibilita o entendimento de que
os grupos elaboram ou se apropriam constantemente de novos elementos
culturais e reinventam suas identidades com grande freqüência.
Um claro exemplo desse comportamento foi comentado pelo filósofo
anglo-africano Kwame Appiah ao tratar da construção da identidade . De acordo
com seus apontamentos a “idéia” de denominar as populações encontradas no
continente como sendo africanos foi empregada inicialmente pelos agentes
externos à África a partir do século 16 ou 17. Porém, ela só começou a ser
incorporada de fato pelas populações do continente a partir do final do século
XIX e, mesmo assim, as múltiplas identidades locais continuaram a ser valorizadas
e a demarcar claras fronteiras entre elas.
Assim, a construção das identidades nacionais englobantes e da identidade
continental de africano ao longo do século 20 não eliminaram as identidades
étnicas. Da mesma forma, a idéia de ser africano apenas adquiriu força quando
sua formulação inicial foi modificada e apropriada pelos próprios indivíduos ou
pelas coletividades que habitavam o continente (Appiah, 1997, p. 243-246).
Parece-nos que um adequado debate e uma razoável apresentação aos
estudos africanos deve passar, mesmo que superficialmente, por essas questões.

103
Reorganizar definições, aplicar as perspectivas do relativismo cultural, atentar
para os anacronismos e imprecisões históricas são bons exercícios para nossos
estudantes.

Considerações finais
Acreditamos que, percorrida a breve abordagem acerca do ensino da
história africana, algumas dúvidas não foram respondidas e algumas trilhas
ficaram por percorrer. Talvez demore mais algum tempo para que possamos
– professores e alunos – abordar a África em sala de aula com desenvoltura e
de forma adequada. As limitações encontradas refletem, ao mesmo tempo em
que se relacionam, nos preconceitos existentes na sociedade brasileira e na
formação de professores dos ensinos fundamental e médio. Apesar de tudo
isso, não é com pessimismo que devemos olhar o presente e o futuro de nossas
abordagens escolares sobre os africanos. Novos tempos surgem.
Louve-se nesse sentido a atuação de alguns pesquisadores atentos à
questão, a ação legal do governo e do movimento negro. Ressalte-se a iniciativa
de Instituições de Ensino e de seus professores que têm promovido palestras,
cursos de extensão e oferecido ou proposto cursos de pós-graduação em
temáticas africanas. A obrigatoriedade de se estudar África nas graduações, a
abertura do mercado editorial - traduções e publicações - para o assunto, até
a maior cobrança de conteúdos acerca da África nos vestibulares são medidas
que possam aumentar o interesse pelo continente que compartilha conosco
a fronteira Atlântica. Talvez assim, em um esforço coletivo as coisas tendam a
mudar.
As histórias do Mali, do Kongo, do N’Dongo, do Zimbabwe, dos iorubás,
dos haúças, dos Umbundos ou Bacongos deveriam estar tão próximas de nós
quanto a história do Império Romano, de Portugal, da França, dos alemães e
romanos. Nossa ancestralidade encontra conexões profundas em ambas as
partes de nossos caminhos Atlânticos.
E, acima de tudo, fica a expectativa de que o momento vivido em relação
ao Ensino da História da África tenha longa vida, e, que permita, em um
futuro não muito distante, enxergarmos a África com outros olhares, menos
sobrecarregados de estigmas e preconceitos. Que a África ocupe sua posição
ao lado dos outros continentes no esforço de compreender e investigar a
trajetória e as realizações da humanidade. Inclusive nas escolas.

FIQUE DE OLHO
• É preciso ampliar os focos de pesquisa e ensino da
• África nas Universidades.
• É necessário ampliar e revisar a abordagem da história africana nos
manuais escolares.
• É essencial empregar corretamente as nomenclaturas quando formos
tratar a África com nossos alunos para evitar a repetição de leituras
simplistas e generalizantes.
104
Referências
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O ensino da história da África


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