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Candidata ao Amor

Joan Hohl

Sabrina 1338

Copyright © 1981, 1999 by Joan Hohl Originalmente publicado em 1999 pela Kensington
Publishing Corp.
Título original: Morgan Wade's Woman (Never Say Never)
Tradução: Débora Guimarães Isidoro
Editora e Publisher: Janice Florido
Editora: Fernanda Cardoso
Editoras de Arte: Ana Suely S. Dobón, Mônica Maidonado
Paginação: Dany Editora Ltda.
Ilustração da Capa: © Lucky in Love / Daeni, Pino via Agentur Schlück GmbH
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 — 10s andar
CEP 05424-010 — São Paulo — Brasil
Copyright para a língua portuguesa: 2004 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Impressão e acabamento:
RR DONNELLEY
Tel.: (55 11)4166-3500

PROJETO REVISORAS
Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos.
Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente
proibida.
Cultura: um bem universal.

Doação: MARISA NISHIMURA


Digitalização: Palas Atenéia
Revisão: Fabiane
Que decisão tomar diante de um homem sexy?

Rica e bonita, Samantha Denning era uma mulher independente,


determinada a permanecer assim. Mas após a morte do pai
descobriu que no testamento dele havia a chocante exigência de
que ela se casasse antes de completar vinte e cinco anos, ou seja,
dali a cinco meses! Caso contrário, perderia o direito à herança.
Para ajudá-la a resolver esse impasse, a melhor amiga de
Samantha lhe apresentou o sexy Morgan Wade. No início, a
intenção era de que a união fosse apenas um acordo comercial…
Mas quando Morgan decidiu encarar o casamento de um ponto de
vista mais pessoal, Samantha descobriu emoções que jamais
imaginara sentir e que estavam fazendo com que ela reavaliasse
seus sentimentos… principalmente os relacionados ao coração!
Joan Hohl, autora que figura na lista de livros mais vendidos do
jornal The New York Times, tem cativado as leitoras com suas
histórias de sonhos e fantasias de amor. Ela sabe como ninguém
prender a atenção dos leitores do começo ao fim do livro. E adora
receber cartas das leitoras!

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— Samantha Denning… Morgan Wade — Babs fez as
apresentações com simplicidade.
Sam ergueu os olhos e foi atingida pelo impacto daquele
olhar. Era como se houvesse de fato sofrido um golpe físico. Nunca
antes vira olhos tão negros e profundos.
— É um prazer, sr. Morgan — disse, respondendo ao
cumprimento oferecido com tom rouco e perturbador. Lutava
contra um desconhecido sentimento de pânico enquanto os olhos
permaneciam fixos nele.

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Capítulo I

Sam passou pela porta do enorme edifício que abrigava os


escritórios da Baker, Baker e Simmes, Advogados, e parou na
calçada com ar impaciente. Onde estava o motorista? Notava os
olhares admirados dos homens que por ela passavam, mas já
estava acostumada. Só precisava pisar em uma via pública para
receber esses olhares e, em alguns casos, ouvir comentários que a
desagradavam.
Não havia dúvida de que Samantha Denning era uma
mulher de beleza impressionante. Com um metro e setenta
centímetros de estatura e um corpo esguio, ela possuía pernas
bem torneadas e curvas suaves nos lugares certos. O rosto tinha
um formato oval perfeito. A pele era clara, com faces rosadas e
lábios muito vermelhos ocultando dentes brancos e alinhados.
Sobrancelhas escuras e encurvadas emolduravam os olhos verdes,
mas o que se via primeiro eram os cabelos. Espessos, longos e
ondulados, eles tinham a cor do mogno polido. Soltos, eles
pareciam ter vontade própria. Agora, presos como estavam em um
coque elegante, combinavam com perfeição com o tailleur verde e
as botas pretas de saltos quadrados. O ar sombrio era a única
concessão que ela fazia ao luto. Mechas rebeldes escapavam do
coque e dançavam com alegria em torno de seu rosto, desafiando
a impressão criada pelas roupas e acessórios.
O Cadillac parou junto ao meio-fio. Antes que ela pudesse
dar os passos necessários para chegar ao carro, o motorista saltou
do banco da frente e foi abrir a porta de trás.
— Onde esteve? — Samantha perguntou irritada.
— Desculpe, srta. Sam, mas o tráfego está horrível —
explicou ele.
Estivera tão distraída com os próprios pensamentos
enquanto esperava, que nem notara o intenso movimento de
automóveis.
— Sim, eu sei, e lamento ter sido ríspida, Dave. Vamos para
casa.
Dave sorriu e guiou o carro em meio ao trânsito pesado. Era
típico de Samantha se desculpar depois de perder a paciência. Ela
era determinada, altiva e imperiosa na maior parte do tempo com
a família e os amigos, mas raramente usava um tom de voz menos
que delicado com os empregados.
Dave trabalhava para os Denning há quinze anos, ele como
motorista, sua esposa Beth como cozinheira. Respeitavam o sr.
Denning e gostavam de sua segunda esposa, bem como de sua
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jovem meia-irmã Deborah. Mas adoravam Sam, aquele raio de luz
cintilante e rebelde, desde o dia em que ela chegara à casa em
Long Island. Dave sorriu novamente ao lembrar aquele dia sete
anos atrás.
A casa fora invadida pela ansiedade, pois a sra. Denning
exigira a mais completa perfeição em tudo para o primeiro
encontro com sua enteada. Até a reserva normal do sr. Denning
parecera ruir enquanto ele e Dave esperavam pelo avião. Haviam
imaginado receber uma tímida menina de dezessete anos, e quem
se aproximara deles fora uma rainha.
— Olá, papai — ela dissera com tom leve e encantador antes
de beijá-lo.
Depois se virara sorrindo ao ser apresentada ao motorista.
Dave vestia o habitual uniforme cinza, e ainda ria quando se
lembrava daquele dia.
— Meu motorista? — Sam perguntara séria. — De jeito
nenhum. Não vestido desse jeito. Não suportaria ser vista por aí
conduzida por um pingüim. — Então ela sorrira. — Por favor, sr.
Dave, quando estiver a meu serviço, use suas roupas comuns.
E ele fora conquistado para sempre.
O mesmo padrão se repetira quinze minutos mais tarde,
quando chegaram à casa da família e Samantha conquistara a
madrasta e a meia-irmã, bem como todos os empregados. Desde
então, ela comandara o espetáculo.
Ouvira a história há anos. Sabia como o quieto e reservado
Charles Denning fora para a Inglaterra numa viagem de negócios e
retornara quatro meses mais tarde com uma belíssima esposa de
uma rica família britânica. Sendo também muito rico, ele comprara
uma imensa casa em Long Island para ela. Mas nada parecia
contentá-la, nem o marido, nem a casa e nem mesmo a filha que
ela tivera dezoito meses depois do casamento. Ela sentia saudade
dos amigos, do país e da família, e recusava-se a fazer novas
amizades na terra do marido, referindo-se a todos os seus
habitantes como estranhos. Quando Samantha tinha dois anos, ela
voltou para a casa da família levando a filha. Embora Charles
Denning houvesse brigado pela custódia da criança, a família de
sua ex-esposa era poderosa e vencera a batalha, e ele tivera de
contentar-se com algumas poucas visitas durante muitos anos.
Imediatamente após a morte da mãe de Samantha, ele
instruíra seus advogados para notificar a família de que Samantha
deveria ser enviada ao lar paterno. Aluna de um internato para
moças na Suíça, ela havia solicitado permissão para concluir seus
estudos e realizar planos feitos anteriormente para uma turnê pela
Europa em companhia de uma amiga americana. O pai atendera
ao pedido, mas prometera a si mesmo que, quando a tivesse em
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casa, a manteria ali.
Samantha parecia relaxada e satisfeita no banco do Cadillac,
mas por dentro estava fervendo. Como ele havia sido capaz disso?
Por quê? Revia mentalmente o encontro de que saíra há pouco e o
que o precipitara.
Todos se haviam reunido na biblioteca na tarde anterior. Sua
madrasta, Mary, calma depois de ter tomado o tranqüilizante
receitado pelo médico, sua meia-irmã, Deb, ainda pálida e perdida,
o noivo de Deb, Bryan Tyson, e Sam. O sr. Baker havia solicitado
que se reunissem às três horas para a leitura do testamento. A
leitura transcorrera sem interrupções durante a divisão dos bens
deixados para os empregados, e então havia chegado a vez da
família. Ele explicara em detalhes que toda a herança de Deb só
poderia ser recebida depois de seu casamento com Bryan. Sam se
surpreendera com a enormidade das posses do pai, e ainda estava
pensativa quando o sr. Baker pronunciara seu nome e começara a
revelar a vontade de seu pai para a filha.
A princípio ela o encarara perplexa, depois quase saltara da
cadeira.
— Isso é absurdo. Vou contestar o testamento.
— Meu pai antecipou que teria essa reação, e por isso me
pediu para perguntar se pode ir encontrá-lo em seu escritório
amanhã, às dez horas.
— Estarei lá — ela confirmara irritada antes de deixar a sala
sem ouvir o restante da leitura.
Estava saindo desse encontro com os advogados, pai e filho,
e o sr. Baker, com cerca de oitenta anos e uma impressionante
bagagem profissional, fora direto ao assunto.
— Srta. Denning, não existe a menor possibilidade de
contestação quanto ao testamento deixado por seu pai.
— Como não? Os termos são absurdos!
— Talvez não sejam comuns, mas não há nada de ilegal
neles. — Pois, para ela, os termos do testamento eram quase
criminosos.
Podia lembrar com impressionante clareza as palavras lidas
por Baker Filho na tarde anterior.
1 — Se ela se casasse com um cidadão americano antes de
completar vinte e cinco anos de idade (o que aconteceria em cinco
meses), receberia a soma de cinco milhões de dólares, a serem
controlados por seu marido e pelo sr. Baker, com uma generosa
mesada para seu uso pessoal.
2 — Se num período de cinco anos esse casamento ainda
permanecesse intacto, o controle do dinheiro passaria a ser
dividido entre ela e o marido.
3 — Se o casamento se dissolvesse nesse período, o
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dinheiro seria reintegrado ao patrimônio de seu pai, e ela passaria
a viver com uma mesada muito menor.
4 — Se ela preferisse não se casar no tempo determinado,
teria apenas uma pequena mesada e a casa que dividiria com a
madrasta até o dia de seu casamento ou de sua morte.
— Estou disposta a contestar o testamento. Ainda tenho a
herança deixada por minha mãe. — Sabia que o valor se
aproximava de duzentos mil dólares americanos.
— Receio que não, srta. Denning — o advogado respondera.
— Antes de morrer, sua mãe mudou o testamento e deixou seu pai
no controle de todos os bens por ela deixados, e esse valor está
incluído no espólio do sr. Denning.
Depois ele havia explicado que seria impossível contestar o
testamento, porque Charles Denning estivera lúcido ao redigi-lo e
justificara os motivos de suas decisões.
E Sam conhecia esses motivos. Seu pai sempre a julgara
teimosa e impulsiva demais, razão pela qual passara a acreditar
na necessidade de um pulso firme para controlá-la. Um marido.
Segundo, ele sempre a quisera vivendo nos Estados Unidos, daí a
determinação de que o marido fosse americano. O fato de ter
estipulado seu vigésimo quinto aniversário como data limite devia
significar que, quanto antes ela estivesse casada, melhor.
O sr. Baker havia explicado que seu cliente mudara essa
data limite três vezes antes de morrer e acabara dando instruções
para que ela fosse novamente alterada um mês antes de seu
aniversário. A morte do milionário invalidara tais instruções.
Sam deixara o escritório com a mente tomada por uma
intensa confusão. Estava quase em casa, e ainda não havia
conseguido ordenar os pensamentos. Cinco milhões de dólares!
Era uma quantia impressionante. Por outro lado, devia ter
esperado algo nesse valor, porque a herança de Deb era
exatamente a mesma. E no entanto, não se sentiria lesada ou
diminuída, caso recebesse menos que a irmã. Passara apenas
nove anos de vida com o pai, enquanto Deb estivera com ele
desde o dia em que nascera.
O Cadillac entrou na propriedade, e Sam olhou para a casa.
A mansão era linda e imponente, e o custo para mantê-la era
assustador. E mesmo assim, seu pai nunca abrira mão dela.
Amava aquele lugar e considerava o dinheiro bem gasto.
Sam entrou e foi diretamente à sala de estar procurando
pela madrasta, pensando em como tudo ali ficara quieto depois da
morte de seu pai. Mary e Deb estavam juntas, conversando em
voz baixa sentadas no sofá. Sam acomodou-se em uma poltrona
perto delas e deixou a bolsa no chão ao lado da cadeira.
— Não posso contestar o testamento — disse com ar
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perdido.
— Oh, minha querida — murmurou a madrasta com tom
penalizado. — Espero que acredite em mim, Sam. Não sabia nada
sobre essas condições estabelecidas por seu pai. Se soubesse,
teria tentado dissuadi-lo. Isso é absurdo.
— Eu sei, mas duvido que tivesse conseguido alguma coisa.
Meu pai sempre quis amarrar-me de alguma forma a este país.
Como se não soubesse quanto eu o amava e a esta terra! Ele não
sabia?
Mãe e filha trocaram um olhar silencioso. Nunca haviam
visto Samantha naquele estado. A jovem ruiva estava quase
sempre zangada e agitada, enfrentando o pai numa eterna batalha
que, suspeitavam, agradava os dois. Também a viram fria e
desdenhosa. Altiva e arrogante. Mas nunca antes uma delas havia
presenciado aquele ar magoado e vulnerável em seu rosto.
— Samantha — Mary começou com tom suave —, não
precisa cumprir essas condições. Será um prazer complementar
sua mesada com parte dos meus recursos.
— Obrigada. — Samantha pegou a bolsa e levantou-se. — Se
precisarem de mim, estarei em meu quarto.
— Sam! — Mas ela já havia saído. — Deb, vá atrás dela. —
Deb subiu a escada e foi ao quarto da meia-irmã, onde parou
hesitante.
— Gostaria de um pouco de companhia?
Sam sorriu com ternura inegável.
— Sua companhia é sempre bem-vinda, meu bem. Entre e
sente-se. Vamos conversar enquanto eu mudo de roupa. — Ela
tirou as botas e o tailleur e foi guardar tudo no armário que
ocupava uma parede inteira.
Deborah sempre havia admirado a beleza estonteante da
irmã, mas sabia que não tinha de que se queixar nesse aspecto,
embora fosse baixinha. Morena, com uma pele clara e impecável,
ela possuía traços delicados e harmoniosos. Sabia que o amor que
sentia pela irmã que só conhecera aos treze anos de idade beirava
a idolatria, mas não estranhava nem questionava a intensidade do
sentimento.
— Já sabe o que vai fazer, Sam?
Os olhos da ruiva encontraram os da irmã através do
espelho.
— Não tenho a menor idéia, Deb. Estou perdida. Meu
primeiro impulso foi o de procurar um emprego, mas que tipo de
trabalho eu poderia fazer? Recebi uma educação esmerada,
cuidadosa e requintada, e tudo que aprendi só serviu para
preparar-me para ser um bibelô. Não sei fazer nada de útil. Sei
cavalgar, nadar, jogar tênis e golfe como poucas pessoas no
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mundo, e também sou capaz de decorar qualquer aposento para
qualquer tipo de festa ou reunião. E quanto dinheiro posso ganhar
com essas habilidades? Talvez consiga um emprego de vendedora
ou balconista, mas quem contrataria a filha de Charles Denning?
Deb não respondeu. Sabia que Sam estava apenas
pensando alto, organizando os pensamentos.
— Sendo assim, resta o casamento em cinco meses, ou o
dinheiro oferecido por sua mãe. A mesada que meu pai estipulou
para o caso de eu não me casar no período determinado é menor
do que tenho recebido desde que vim morar aqui.
— E a herança de sua mãe…?
— Foi incorporada aos bens do papai.
— Não há ninguém com quem possa se casar?
— Oh, sim, alguns… Devo ter recebido umas cinco propostas
de casamento nos últimos dois anos, mas não quero me casar com
nenhum desses homens. Fico horrorizada só em pensar na
possibilidade de passar cinco anos com um deles. — Sam pegou
um roupão no armário. — Vou tomar um banho antes do almoço;
talvez assim consiga relaxar um pouco. Pode pedir para mamãe
atrasar o almoço por alguns minutos?
Deb assentiu sorrindo. Sam havia deixado de chamar Mary
de madrasta há uma semana, desde a morte de Charles em
conseqüência de um fulminante ataque cardíaco. A morte
inesperada devastara a esposa do milionário, e Sam assumira uma
atitude protetora com Mary e Deb.
Na banheira, Sam suspirou e pensou mais uma vez se não
teria sérios problemas emocionais. Sabia que tinha necessidades
físicas normais, porque, em alguns momentos, havia
experimentado uma urgência quase incontrolável e até dolorosa.
No entanto, sempre que um rapaz tentava se aproximar, e eram
muitas as tentativas, e havia no encontro a menor conotação
sexual, ela se sentia paralisada. Podia responder com
tranqüilidade a um inocente beijo de boa noite, mas era só isso. E
estava ficando preocupada. A idéia de uma convivência íntima
com um homem, um marido, era de fato apavorante, e não sabia o
que fazer.
Sam acordou na manhã seguinte com o sol penetrando pela
janela do quarto e um envelope sobre o criado-mudo. O carimbo
era do correio de Nevada.
— Babs — ela murmurou sorrindo antes de abrir o envelope.
Não tinha notícias da amiga há dois meses, quando Babs
telefonara para contar que tivera o segundo filho. Sam leu a carta
rapidamente. Babs começava com sinceras condolências para
todos, dava notícias da própria família, e finalmente chegava à
parte mais importante da mensagem:
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Faremos o batizado do caçula na semana que vem, e Ben e
eu queremos muito que você seja a madrinha de Mark. É claro que
podemos adiar o batizado, caso não se sinta em condições de
viajar, mas creio que será bom para você sair um pouco de casa
neste momento, e estou com muitas saudade. Por favor, diga que
virá. Mande lembranças para sua família. Babs.
Sam dobrou a carta e pensou sobre o convite. Devia ir? A
urgência de escapar era uma constante desde que deixara o
escritório dos Baker. Agora tinha para onde ir. E conversar com
Babs a ajudaria a tomar uma decisão. Ela sempre tivera uma
enorme facilidade para colocar as coisas na devida ordem de
importância.
Sim, era isso. Usando o telefone do quarto, Sam ligou para
seu agente de viagens e pediu reservas no vôo da próxima quarta-
feira para Nevada. Enviaria um telegrama informando a amiga
sobre o horário exato de sua chegada.
Sam soltou o cinto de segurança ao ver o sinal luminoso se
apagar. Sentia-se bem e havia notado os olhares de admiração na
sala de espera do aeroporto. A camisa de seda bege e a calça
marrom realçavam o tom avermelhado de seus cabelos, além de
serem confortáveis e práticas para viajar. Mal podia esperar para
ver a amiga.
Babs sempre havia sido alegre, dinâmica e ousada, e
Samantha, sempre fria e composta, sentira-se imediatamente
atraída pela luz que parecia emanar da encantadora criatura.
Eram amigas desde a infância, companheiras de travessuras no
internato e, mais tarde, confidentes quanto aos rapazes e aos
problemas da adolescência. A amizade amadurecera e ganhara
profundidade, especialmente quando, concluídos os estudos, elas
fizeram juntas uma viagem pela Europa. Depois, quando Sam fora
morar na casa do pai em Long Island, Babs voltara para a família
em Nevada.
Encontraram-se diversas vezes desde então, até que, há três
anos, Babs anunciara seu casamento com Benjamin Carter, um
homem com quem ela se relacionava havia muito tempo e de
quem estava grávida.
Sam havia sido uma das damas-de-honra e sentira uma
simpatia imediata por Benjamin Carter, cujo amor por Babs era tão
evidente quanto se fosse anunciado por uma placa pendurada em
seu pescoço. A única nota dissonante ficara por conta de um dos
padrinhos, que não pôde comparecer e tivera de ser substituído na
última hora, para decepção de Ben.
Sam passara apenas quatro dias em Nevada e só voltara a
ver a amiga em agosto, quando ela fora fazer compras em Nova
York, como era de costume. Samantha se instalara no
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apartamento mantido por seu pai em East Side e convidara a
amiga para hospedar-se nele, pois assim teriam mais tempo para
conversar. E agora estava prestes a reencontrá-la.
O avião aterrissou minutos depois no conturbado terminal
de Las Vegas, onde Babs e o marido a aguardavam com um avião
particular. Babs anunciou que passariam a noite em Vegas,
jantando e jogando em um cassino, e só iriam para casa na manhã
seguinte.
O táxi os levou ao MGM Grand, um hotel de proporções e
luxo impressionantes. Mais impressionante ainda era a quantidade
de hóspedes no saguão àquela hora da tarde. Os três decidiram
descansar até o final do dia, e às sete se encontrariam para jantar.
Sam despediu-se dos amigos, foi para o quarto, tomou um
banho e adormeceu assim que caiu na cama, como sempre
acontecia depois de um vôo com mais de uma hora de duração.

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Capítulo II

Que noite! Jantaram no MGM e Babs testou a sorte nas


mesas do cassino, mas quis visitar outros lugares. Passaram pelo
Sands, Ceasars e outros cassinos, e enquanto Ben e Babs jogavam
blackjack ou experimentavam as emoções da roleta, Sam andava
pelas salas atenta a tudo. Não gostava de jogar, mas era divertido
apreciar os jogadores. Fascinante! Estivera em quase todos os
cassinos da Europa, mas nunca havia visto nada como aquilo. A
magnitude da decoração nos diferentes lugares já era um
espetáculo completo, mas o que realmente a absorvia eram as
pessoas. De todos os tipos, de todos os lugares do mundo, dos
mais elegantes aos mais simples (embora simplicidade fosse um
conceito questionável ali). Muitos pareciam não dormir há dias, e o
próprio ar era carregado com a eletricidade gerada pela excitação.
Exceto por um rubor um pouco mais intenso nas faces e um
brilho mais luminoso nos olhos, Sam tinha a mesma aparência de
sempre enquanto percorria as salas de jogos; fria, composta e
altiva, ela tinha a postura da realeza. E em uma cidade onde a
beleza feminina era comum, muitos olhares a seguiam admirados
e fascinados. Olhares masculinos cheios de avidez; olhares
femininos carregados de inveja.
Quando Ben anunciou que era hora de partirem, Sam
surpreendeu-se ao constatar que o dia já havia amanhecido.
Passaram pelo MGM para apanhar a bagagem, e depois seguiram
de táxi até o aeroporto. Uma hora mais tarde, Ben sobrevoava
Vegas a caminho de casa, enquanto Babs dormia profundamente
em seu assento. O vôo foi curto, e logo estavam aterrissando.
A propriedade onde a amiga vivia com o marido era
encantadora, embora não ostentasse o luxo esperado para uma
família rica como a de Ben. Além dos ranchos e do gado criado em
diversas propriedades, eles também eram proprietários de várias
indústrias.
A casa havia sido projetada em forma de ferradura, com
corredores partindo de um hall central. De braços dados com a
hóspede, Babs levou-a para a esquerda, para uma sala ampla e
espaçosa com uma parede toda de vidro. A decoração em tons de
rosa pálido e bege sugeria repouso e leveza.
— Que lugar maravilhoso, Babs! — Sam exclamou,
aproximando-se da parede de vidro para olhar para o terreno nos
fundos da casa. Um imenso gramado servia de cenário de fundo
para arbustos e árvores já florescentes, graças ao tempo
surpreendente quente. À esquerda, no final do gramado, uma
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piscina marcava o centro de um pátio calçado com pedras claras,
e do outro lado, à direita, havia uma quadra de tênis. Também à
direita, porém mais perto da casa, Sam viu várias mesas com
guarda-sóis e cadeiras compondo outro ambiente externo. Tudo
era lindo, e ela olhou para a amiga com um sorriso satisfeito. —
Sua casa é linda.
— Eu sei. Agora venha comigo. Vai conhecer nosso maior
tesouro. — Babs a conduziu para a parte íntima da casa, onde
ficavam os aposentos da família. No quarto do bebê, uma jovem
de aproximadamente dezessete anos estava sentada em uma
cadeira de balanço, lendo para uma criança rechonchuda de uns
dois anos, mais ou menos. Um bebê dormia no berço.
Ao ver Babs, o menino pulou do colo da jovem e gritou:
— Mamãe!
Ao recebê-lo nos braços, ela o beijou e abraçou com carinho.
Depois encarou o menino.
— Benjie, quero que conheça tia Sam.
Benjie fitou-a com aqueles imensos olhos castanhos por um
momento; depois sorriu e estendeu os braços para ela.
— Tia Sam…
Rindo, Sam tomou-o nos braços e se deixou inebriar por seu
perfume suave.
— Um sedutor, como o pai — disse uma voz profunda na
porta do quarto.
O rosto de Ben refletia o orgulho de sua esposa.
— Não tenha dúvidas disso — Sam concordou com tom
divertido. — Depois olhou novamente para o menino. — Não quer
me mostrar seu irmão?
O pequeno assentiu e apontou para o berço.
Samantha aproximou-se e viu ali uma réplica ainda menor
de Benjie. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o menino levou
um dedo aos lábios e sussurrou:
— O bebê dumiu.
Rindo, Sam olhou para Babs e confidenciou:
— Invejo você!
Não era um elogio casual. Era a mais pura verdade. Sentia
mesmo inveja diante da evidente felicidade da amiga, e estava
surpresa e um pouco chocada com essa reação.
Babs sorriu para a jovem que agora estava em pé ao lado da
cadeira de balanço.
— Sam, esta é Judy Demillo, filha da minha governanta e
babá do bebê, entre outras coisas. Por favor, seja muito agradável
com ela, porque não saberia viver sem sua valiosa ajuda.
— É um prazer conhecê-la, Judy. Prometo que serei a mais
doce das criaturas, desde que prometa não abandonar minha
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amiga.
A adolescente sorriu com uma timidez que só realçava seus
encantos.
— Como vai, srta. Denning?
— Encantada, embora cansada.
— Logo poderá descansar, senhorita. Quer que eu leve
Benjie para brincar?
Sam abraçou o menino antes de entregá-lo à babá.
— Preciso de um banho antes do almoço — Babs declarou a
caminho da porta. — E imagino que você também queira se
refrescar, Sam.
Juntas, as duas saíram do aposento e Babs levou a amiga ao
quarto de hóspedes, prometendo que mostraria toda a casa antes
do almoço.
— A refeição será servida em duas horas, e não se preocupe
com nada. Use jeans, ou qualquer coisa que quiser.
Uma hora e meia mais tarde, Babs bateu na porta do quarto
para chamar a amiga. Sam havia desfeito as malas, tomado um
banho e dormido um pouco, mas não o suficiente. Sabia que seu
rosto exibia os mesmos sinais de cansaço que via no rosto da dona
da casa.
— Não estou mais acostumada com a vida noturna — Babs
confessou rindo. — Vou ter de dormir mais um pouco antes do
jantar, se não quiser cair em cima do prato.
— Boa idéia. Acho que vou seguir sua sugestão — Sam
respondeu com um bocejo.
A casa era linda. Enquanto passavam de um cômodo ao
outro, Sam ia notando que a palavra-chave ali era conforto. A
mobília era cara, mas casual, e algumas peças eram antigas e
raras. E no entanto, tudo se encaixava com perfeição, dando à
casa uma atmosfera relaxada e aconchegante. O contraste entre
esse lugar e a casa em Long Island era espantoso. Mais uma vez,
Samantha experimentou aquela estranha pontada no peito,
pensando que aquela era uma casa feita para abrigar uma família,
para criar filhos e viver o amor, um reflexo do contentamento que
Babs e Ben descobriram juntos.
Babs deixou a cozinha para o final. Embora o amor de Sam
pela culinária fosse uma grande surpresa para quem não a
conhecesse muito bem, Babs sabia disso há muito tempo. Seguira
Sam pelas cozinhas de casas e restaurantes por muitos anos,
observando enquanto ela usava todo seu charme para ir
arrancando receitas secretas dos cozinheiros e chefs. Sam possuía
vários cadernos contendo receitas que ela colhera por toda a
Europa.
Sorrindo, ela se aproximou da mulher delicada e morena que
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preparava o almoço em um moderno fogão de aço.
— Sam, esta é minha governanta, Mane Demillo.
— Como vai? Agora sei de onde Judy herdou aquela
espantosa beleza.
— Obrigada, srta. Denning — Marie respondeu sorrindo. Elas
conversaram por alguns momentos, e Sam manifestou sua
apreciação pela cozinha bem equipada. O almoço foi uma ocasião
leve e relaxada. Sam e Ben trocavam piadas como velhos amigos,
e Babs sorria satisfeita com o relacionamento perfeito entre sua
melhor amiga e o homem que amava.
Tomaram café na sala de estar, instalados em grandes e
confortáveis poltronas, e ainda saboreavam a bebida quente e
aromática quando, sonolenta, Babs olhou para o marido e
perguntou:
— Morgan avisou quando vai chegar, querido?
— Ah, sim! Falei com ele há pouco, enquanto você dormia, e
ele prometeu que estará aqui para o jantar.
— Não acredito! Então, ele vai ficar aqui conosco por alguns
dias! Aquele homem precisa descansar. — Ela se virou para Sam.
— Morgan é o melhor amigo de Ben. Morgan Wade. Ele será o
padrinho de Mark. Na verdade, ele também é padrinho de Benjie.
E você seria madrinha dele, se não estivesse passeando por
Vancouver quando o batizamos.
— Não sabe como lamento não ter estado aqui. Teria sido
uma honra batizar Benjie. Quanto ao padrinho… Morgan Wade é
um nome que soa bastante familiar para mim. Eu o conheço?
— Não. Lembra-se do nosso casamento, quando tivemos de
substituir um padrinho na última hora? Morgan devia ter sido o
padrinho, mas não conseguiu chegar a tempo.
Sam sorriu.
Que belo amigo! Se não havia nem se esforçado para
chegar ao casamento do melhor amigo, apesar da rapidez do
transporte aéreo! Havia pensado a mesma coisa na época, mas,
como agora, também não dissera nada.
— Espero que goste de Morg, Sam. Ele é como um irmão
mais velho para mim.
— Ben, francamente! — Babs interferiu rindo. — Morgan não
tem mais do que trinta e dois, trinta e três anos!
— Mesmo assim, eu andava atrás dele como um idiota
quando era criança.
— Morg é criador de gado — Babs explicou para a amiga. —
Ele tem uma propriedade de dimensões impressionantes. Seus
ancestrais iam para a Califórnia, mas passaram por Nevada e
gostaram do que viram. Eles se estabeleceram e nunca mais
saíram daqui. Todos foram criadores de gado, até o pai de Morg,
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George. Dinâmico, ele se interessou por fotografia ainda mais
jovem e nunca mais quis saber do rancho.
Ben assumiu a narrativa:
— Ele herdou o rancho quando Morgan tinha quatorze anos,
mas contratou um administrador para garantir tempo livre e total
liberdade de movimentos para viajar pelo mundo aceitando
propostas de trabalho. Ele fotografava tudo, principalmente a vida
selvagem. Ele e meu pai eram grandes amigos, e Morgan vinha
ficar conosco sempre que George partia em uma nova missão.
Morg passou quase toda a adolescência conosco, vendo o pai
apenas nas férias e nos feriados prolongados.
— Ele é um rancheiro na alma — opinou Babs. — Adora a
terra e os animais, e odeia ter de sair daquela propriedade. Por
isso fiquei tão surpresa quando Ben disse que ele virá ainda hoje,
três dias antes do batizado. Não ficaria surpresa se ele
aterrissasse no domingo de manhã, bem na hora de ir para a
igreja.
Ben sorria como se tivesse os pensamentos tomados por
doces recordações.
— O velho Morgan tentou até escapar da faculdade, mas o
pai dele o convenceu de que uma boa educação era necessária
até mesmo para um rancheiro. Ele trabalhava como um louco
durante os anos de universitário, cumprindo a carga horária de
quatro anos em três e ainda se formando como um dos primeiros
de sua turma. O pai dele morreu na África de uma dessas doenças
raras das quais nunca ouvimos falar por aqui. Morgan estava
cursando o último ano. Então, foi meu pai quem teve de fazer um
enorme sermão para impedi-lo de desistir do curso.
Babs voltou a falar:
— O administrador que George havia contratado não era dos
melhores. Quando Morgan voltou para casa formado aos vinte e
um anos de idade, encontrou um rancho dilapidado e finanças
bastante prejudicadas. Ele tem trabalhado como um louco nos
últimos doze anos para reconstruir a operação. Praticamente vive
da terra e com a terra. Só vai para casa por tempo suficiente para
comer e dormir, e assim mesmo muito pouco. Felizmente, ele tem
a melhor governanta deste lado de St. Louis.
— Não acredito — Sam respondeu com segurança.
— Oh, mas é verdade! E Marie seria a primeira a confirmar o
que digo. Sara Weaver é uma mina de ouro. Ela chegou aqui vinda
da Pensilvânia com a mãe de Morgan, Betty, então recém-casada
com George. E como Betty morreu num acidente de automóvel
quando Morgan tinha apenas dois anos, Sara é a figura materna
mais próxima que ele teve. Exceto, talvez, por sua mãe, querido —
ela concluiu olhando para Ben.
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— Morgan gosta muito de minha mãe, mas quando começou
a conviver mais com ela, já adolescente, seu coração havia sido
irremediavelmente conquistado por Sara.
— Ela deve ter sentido falta dele nesses anos que Morgan
passou fora, na universidade.
— Sim — Ben confirmou. — E ele também sentiu saudade de
Sara. Quando voltou para casa, mesmo com as finanças em estado
tão precário, ele reformou a casa do rancho para ela.
— Devia ver a cozinha, Sam! É o sonho de qualquer
cozinheiro!
— A sua não fica devendo nada a nenhuma cozinha
industrial, Babs.
— Está brincando? Diz isso porque não conhece a cozinha do
rancho de Morgan! Marie fica verde de inveja cada vez que
tocamos nesse assunto.
— Então, é melhor não falarmos mais nisso.
— Tem razão. — Babs levantou-se e bocejou. — Vou ver as
crianças e brincar um pouco com Benjie antes de ir descansar.
Quer vir comigo, Sam?
— Certamente!
Quando saíram da sala, as duas deixaram Ben já cochilando
na poltrona.
Durante a meia hora seguinte, enquanto as duas amigas
permaneceram no quarto das crianças, Sam teve o prazer de dar
uma mamadeira a Mark. Ao segurá-lo nos braços, ela
experimentou mais uma vez aquela mesma pontada de inveja. O
menino era tão pequeno, tão indefeso e lindo, que pela primeira
vez ela imaginou como seria ter seus próprios filhos. Judy chegou
para cumprir o horário de repouso das crianças, e Sam e Babs
também foram dormir.
No quarto, Sam fechou as cortinas e despiu-se, deixando
apenas a calcinha e o sutiã. Minutos depois de ter se deitado, ela
já dormia profundamente. Os raios de sol do entardecer
penetraram por uma fresta entre as cortinas e a acordaram. Ela
olhou para o relógio sobre o criado-mudo, lembrando as últimas
palavras de Babs antes de se despedirem:
— Jantar às oito, coquetéis na sala de estar às sete e meia.
Ainda nem eram seis horas, e Sam cochilou mais um pouco.
Então se levantou para preparar-se para o jantar. No banho
de espuma e sais, ela tentou adivinhar como seria o amigo de Ben.
Não tinha importância. Encolhendo os ombros, saiu da banheira,
secou-se e aplicou uma maquiagem suave. Depois escolheu um
vestido lilás de corte reto e clássico e calçou sandálias pretas.
Enquanto escovava os cabelos, decidiu deixá-los soltos.
Passava das sete e meia da noite quando ela entrou na sala
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de estar, mas não havia ninguém ali. Depois de um instante de
hesitação, Sam decidiu ir à cozinha.
— Posso entrar, Marie?
— É claro que sim, srta. Denning. — A governanta lavava
vegetais na enorme pia de aço.
— Sam.
— Srta. Sam — Marie sugeriu.
— Combinado. — Aproximando-se, ela olhou por cima do
ombro da governanta e perguntou com tom ansioso como o de
uma criança. — O que há para o jantar?
— O sr. Morgan adora um bom filé, e por isso estou
grelhando Delmonicos na churrasqueira lá fora. As batatas
envoltas em papel alumínio já estão entre as brasas por mais de
uma hora. Para acompanhar, teremos brócolis e uma salada mista.
— Com que tipo de molho?
— O meu.
— Humm, mal posso esperar! — Sam exclamou com
sinceridade. — E a sobremesa?
— Surpresa.
— Acho que estou ainda mais ansiosa!
Sam saiu da cozinha e voltou à sala. Ao entrar, ela se viu
diante de três pares de olhos. Por alguns momentos teve a
sensação de que o próprio tempo havia parado e não teve
consciência da figura que compunha ali, parada na porta.
O momento passou e ela entrou na sala, enquanto os três
ocupantes se levantavam ao mesmo tempo. Babs aproximou-se da
amiga com um sorriso de pura provocação.
— Havíamos acabado de dizer que você ainda estava
dormindo, e os rapazes queriam me convencer a ir sacudir sua
cama.
Sam balançou a cabeça.
— Estava na cozinha com Marie.
— Eu devia ter imaginado.
Enquanto conversava com Babs, Sam analisava o homem
parado ao lado de Ben. Ele devia ter pelo menos um metro e
oitenta e cinco de altura, talvez um metro e noventa. Com ombros
largos, pernas longas e um porte atlético, devia chamar a atenção
das mulheres por onde quer que passasse. Não havia dúvida de
que aquele era o homem de aparência mais perigosa que já havia
conhecido, e talvez isso justificasse os arrepios que percorriam
suas costas. Ou seria medo? Medo?
— Samantha Denning… Morgan Wade — Babs fez as
apresentações com simplicidade.
Sam ergueu os olhos e foi atingida pelo impacto daquele
olhar. Era como se houvesse de fato sofrido um golpe físico. Nunca
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antes vira olhos tão negros e profundos.
— É um prazer, sr. Wade — disse, respondendo ao
cumprimento oferecido com tom rouco e perturbador. Lutava
contra um desconhecido sentimento de pânico enquanto os olhos
permaneciam fixos nela, e só conseguiu mover a cabeça em
sentido afirmativo quando Ben ofereceu um martíni.
O contato visual foi rompido quando Morgan atendeu ao
chamado de Ben para ir servir-se de mais uma dose de uísque, e
Sam sentou-se tomada por uma mistura de alívio e aflição.
Permanecia rígida e ereta na beirada da poltrona, com o
rosto composto, embora um pouco pálido, e a expressão neutra
como uma máscara ocultando os verdadeiros sentimentos. Que
tipo de reação tivera àquele homem? Teria entendido antipatia
imediata. Já havia sentido o mesmo várias vezes e por diversas
pessoas. Mas medo? Essa era uma emoção nova, pelo menos
nessas circunstâncias. Era quase como se, em algum sentido, o
homem a ameaçasse. Ouviu Babs falando sem parar e sorriu em
sua direção. Do que ela estava falando?
Não tinha a menor idéia. Quando Morgan aproximou-se com
seu drinque, Sam viu seus olhos brilharem intensamente em
resposta ao seu sussurro de “obrigada”. Ouvir o tremor na própria
voz foi suficiente para que ela recuperasse o controle. Era hora de
parar com essa tolice. Irritada, ergueu o queixo e encarou Morgan
Wade, e dessa vez seus olhos eram frios e duros como
esmeraldas. Podia ver que ele aceitava o desafio. Acertara-o com
uma luva invisível. O duelo entre eles seria inevitável.
Declarada a guerra, Samantha começou a tomar
conhecimento de vozes intrigadas e curiosas. Algo estava sendo
dito sobre os papéis que desempenhariam no batizado, e ela fez
um grande esforço para relaxar e acomodar-se melhor na cadeira.
— Tudo bem com você, Sam?
Sorrindo, ela se limitou a assentir. Teria de interrogar a
amiga mais tarde sobre esse assunto. O que estava bem com ela?
Com o que acabara de concordar? Não tinha a menor idéia.
Ben fez uma pergunta qualquer sobre o rancho, e Morgan
Wade direcionou a conversa para a criação de gado. Assumindo
uma expressão de grande interesse, Sam sorvia pequenos goles
do martíni e o estudava por cima do copo.
Ele parecia confortável em sua cadeira, com as pernas
longas estendidas para frente e cruzadas na altura dos tornozelos.
As mãos eram grandes, os dedos, longos e finos, e Sam sentiu um
estranho arrepio ao ver o indicador acariciando a borda do copo. O
terno de tecido leve, provavelmente caríssimo, era de um tom
castanho que parecia ter sido escolhido de forma a realçar seu
tom de pele, e a camisa bege tinha o colarinho aberto, revelando
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uma pequenina porção do pescoço musculoso.
Samantha sentia-se perturbada pela inocente visão.
O rosto era de uma beleza quase devastadora, mas a
estrutura óssea garantia o aspecto másculo. O queixo era firme e
quadrado, o nariz era longo, mas reto e bem definido, e a boca
sugeria dureza. Os ossos das faces eram altos, e a pele lisa e
bronzeada completava o conjunto harmonioso. Os cabelos eram
tão negros quanto seus olhos, ondulados e mais longos na parte
posterior da cabeça, cobrindo parte do colarinho e a nuca.
— O jantar está servido — Babs anunciou. — Tragam seus
drinques.
Todos seguiram para a sala de jantar, e a ocasião foi um
verdadeiro desastre. Sam foi posta na frente de Morgan, e cada
vez que ele falava, com ela ou com os outros, sentia a raiva e o
ressentimento crescendo. Não era o que ele dizia, mas o tom que
empregava. De fato, era difícil lembrar o que havia dito ao longo
da noite. Só sabia que, ao final do jantar, ela havia dado um rótulo
a Morgan Wade: caubói arrogante.
A comida estava excelente, mas ela não conseguiu comer
muito. A sobremesa, uma deliciosa musse, voltou quase intocada
em seu prato. Quando Babs a questionou, ela alegou fadiga para
justificar a falta de apetite. E foi alegando novamente fadiga que,
pouco depois de terminarem o café na sala de estar, ela se
desculpou e deixou o grupo.
Ninguém fez comentários, mas ela notou o sorriso
debochado com que Morgan desejou-lhe boa noite. No quarto,
pensou que a agitação a impediria de dormir, mas adormeceu
imediatamente.
Samantha acordou com um lindo sol de primavera e uma
sensação de bem-estar. Enquanto se espreguiçava, ela riu dos
sentimentos que experimentara na noite anterior, dizendo a si
mesma que ele era um homem como qualquer outro, um pouco
convencido demais, mas certamente comum. Não havia em
Morgan Wade nenhuma ameaça para ela. Faria um esforço para
ser agradável diante de sua arrogância, e em quatro dias tudo
estaria acabado. Ele voltaria ao rancho, ela iria para Long Island.
Conformada, Sam tomou um banho e vestiu-se com uma
calça jeans, um suéter simples e sandálias sem salto. Os cabelos
bem escovados foram presos por uma fivela. Faminta, desceu em
busca do café da manhã e encontrou Babs sozinha à mesa. A
amiga informou que Morgan e Ben haviam saído uma hora antes
para tratarem de assuntos que ela desconhecia. A manhã passou
depressa, com Sam visitando o quarto das crianças várias vezes e
apaixonando-se cada vez mais pelos meninos.
Os homens voltaram para o almoço, e Sam se sentiu aliviada
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quando Babs repetiu o procedimento a ser seguido por todos na
igreja dentro de dois dias. Samantha e Morgan trocaram algumas
palavras sobre como haviam preenchido o tempo antes da
refeição, e ela deduziu que, talvez, se não ocorresse nenhum
imprevisto, poderiam concluir o período de estadia na casa dos
amigos sem chegarem à agressão física, afinal.
O café foi novamente servido na sala de estar. Sam já
estava sentada quando os dois homens chegaram e, por alguma
razão, a aparição de Morgan causou um impacto mais forte do que
os anteriores. Talvez fossem as roupas. A camisa branca parecia
brilhar contra a pele morena, e a calça jeans contornava pernas
fortes e musculosas. Ele e Ben estavam descalços, porque haviam
estado cavalgando e removeram as botas antes de entrarem em
casa.
Depois do café, os dois amigos se retiraram alegando
trabalho a fazer, e Babs queixou-se de estar sendo negligenciada.
A expressão aborrecida transformou-se num luminoso sorriso
quando Morgan passou por ela e afagou sua cabeça, arruinando
seu penteado.
— Nenhum homem em sã consciência poderia negligenciá-
la, beleza — ele comentou a caminho da porta.
Sam mudou de posição na cadeira tomada por um súbito
desconforto.
Babs virou-se para ela ainda rindo.
— Esse homem é um mentiroso encantador!
O tom de voz sugeria um afeto tão grande, que Samantha
renovou a determinação de zelar pela harmonia no grupo. Não
correria o risco de ferir os sentimentos da melhor amiga.
Babs serviu mais café para as duas e, com um suspiro de
contentamento, aninhou-se na poltrona.
— Bem, agora podemos ter uma longa conversa. — Ela fez
perguntas sobre Mary e Deb, indagando se o casamento seria
mesmo em outubro. Depois, com toda a delicadeza, ela pediu mais
informações sobre a morte de seu pai. Sam respondeu a todas as
perguntas e revelou as condições do testamento deixado por seu
pai.
— Samantha! Isso é quase vitoriano!
— Eu sei — Samantha sorriu. — Minha reação foi muito
parecida com a sua.
— O que vai fazer? — A pergunta de Babs era a mesma de
todos que tomavam conhecimento das condições do testamento.
— Não tenho a menor idéia.
— É irreal. Positivamente irreal — Babs murmurou
balançando a cabeça.
— Concordo com você.
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O assunto foi encerrado quando elas decidiram ir visitar as
crianças. Quando deixaram a sala, Babs continuava balançando a
cabeça manifestando seu espanto.
Estavam com os meninos há uma hora, mais ou menos,
quando Ben e Morgan entraram no quarto. Sam estava sentada
com Benjie que, ao ver Morgan, desceu de seu colo e correu para
ele com os braços estendidos.
— Tio Mog, tio Mog!
Morgan pegou-o, girou-o no ar e jogou-o para cima, o que o
fez rir.
— O que há de novo, amigão?
Sam prendeu o fôlego ao vê-lo jogar a criança daquela
maneira, mas sorriu ao constatar que o menino ria.
— De novo! De novo! — Benjie pediu enquanto gargalhava.
— Agora não, amigão. Vamos dar uma olhada no seu
irmãozinho, está bem?
— O bebê dumiu.
— Então, vamos ficar bem quietos — Morgan respondeu
sussurrando. Depois, ao se aproximar do berço, ele adotou um
tom normal. — O bebê está acordado! Queria me enganar?
Benjie riu.
Com o menino maior no colo, Morgan se debruçou sobre o
berço e pegou o bebê com a outra mão, acomodando-o de
encontro ao peito. Sam quase parou de respirar ao vê-lo executar
a arriscada manobra, mas relaxou quando percebeu que os dois
irmãos pareciam confortáveis e seguros.
Babs não conteve o riso.
— Quase morri de susto quando o vi fazer isso pela primeira
vez — ela confessou.
Morgan sorriu, satisfeito por saber que a assustara. Ainda
rindo, o que desmentia suas palavras, ele disse:
— Lamento se a assustei, srta. Denning.
Antes que Sam pudesse responder, ele se virou para Judy.
— Também ficou com medo, docinho?
Sam viu um rubor tingir o rosto da adolescente e pensou,
Babs é “beleza“, Judy é “docinho “, e eu sou a srta. Denning. Acho
que isso serve para colocar-me em meu devido lugar.
— Não teria me assustado nunca, Morgan — Judy respondeu
rindo, corando ainda mais intensamente.
Ela é apaixonada por ele, Sam decidiu, notando o brilho nos
olhos da jovem. Morgan olhava para Judy com um sorriso
provocante e envolvente. Era evidente que estava acostumado
com a adoração das mulheres. Por alguma razão, o pensamento a
perturbava.
Algum tempo depois, Babs anunciou:
22
— Hora de dormir.
Benjie tentou escapar do cochilo da tarde, mas Morgan o
convenceu de que um peão de verdade precisa dormir para
crescer forte e domar todos os cavalos do mundo. Depois ele o
entregou a Judy e deixou o bebê com Babs. Beijos foram dados e
recebidos, e Sam, Morgan e Ben deixaram o quarto.
— Irei encontrá-los em um minuto — prometeu Babs.
Sam pensou em ir descansar um pouco, mas desistiu da
idéia ao ouvir o convite de Ben.
— Vamos tomar um drinque na sala?
O anfitrião aproximou-se do bar, mas foi detido pela mão de
Morgan em seu braço.
— Sente-se. Eu sirvo as bebidas.
Sem fazer perguntas, ele preparou martínis para as duas
mulheres e uísque com gelo para os homens. Depois de distribuir
os copos, ele foi se sentar diante da lareira e sorveu um gole de
Jack Daniel's.
Babs entrou na sala e se deixou cair em uma poltrona. No
mesmo instante, ela recebeu o drinque das mãos de Morgan e
saboreou-o com prazer.
— Humm… Que delícia! — suspirou. — Benjie não é um
encanto?
O comentário fez todos rirem. A conversa foi amena e
tranqüila por algum tempo. Depois, quando terminou de beber seu
uísque, Morgan pediu licença para ir tomar um banho. Ben saiu
atrás do amigo, dizendo que um cochilo o renovaria.
Sam e Babs permaneceram sentadas e silenciosas por
algum tempo, saboreando seus drinques. De repente Babs ergueu
o corpo, olhou para a amiga com uma expressão estranha e disse:
— É claro! Essa é a resposta, Sam! Morgan!
— Do que está falando? — Sam perguntou indolente.
— Você pode se casar com Morgan.
— O quê? Ficou maluca?
— Ainda não. Essa é a resposta perfeita para o testamento,
Sam.
— Sam, francamente, não vejo como…
— Sei o que estou dizendo, amiga! Precisa de um marido
dentro de cinco meses, certo? Mas não quer se casar com nenhum
dos homens que já pediram sua mão. Acha que eles querem um
casamento normal? Um relacionamento comum entre homem e
mulher?
— Eu sei que querem.
— Tudo bem. Agora você tem um marido. Sem ter de
cumprir exigências. E Morgan terá uma esposa com dinheiro, algo
de que ele precisa.
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— Não daria certo, Babs. Em primeiro lugar, eu nem conheço
o homem. Em segundo lugar, apesar de precisar de dinheiro, não
creio que ele precise de uma esposa.
— É aí que você se engana. Morgan mal consegue sair de
casa sem ser praticamente atacado por mulheres que querem
arrastá-lo para o altar. E ele não está interessado em casamento.
Oh, sim, ele tem seus casos, e não são poucos, mas está muito
envolvido com o rancho para se incomodar com uma esposa.
— Foi o que eu acabei de dizer. Então, por que acha…?
— Aí está a beleza dessa solução, Sam. Dessa forma,
casado, ele terá uma relativa imunidade contra as felinas, sem as
exigências de um casamento mais… normal. E por que está tão
preocupada por não conhecê-lo? Pense bem, Sam. Pode usar a
casa, onde ele passa pouquíssimo tempo, como uma espécie de
base domiciliar, e ainda viajar pelo mundo sempre que quiser.
Desde que volte para casa e fique por lá por um tempo razoável,
quem poderá questionar essa união ou alegar que houve uma
separação?
— Babs, não sei…
— Pense, Sam. No final de cinco anos, vocês poderão se
separar discretamente, e cada um seguirá seu caminho. Morgan
finalmente terá saído do vermelho, e você ainda terá sua herança
praticamente intacta.
— Você fala como se isso fosse possível.
— Mas é possível! Seria muito melhor se estivesse
apaixonada e se casasse por amor, mas se ainda não encontrou o
Príncipe Encantado em todos esses anos… Não sei. Sinceramente,
não consigo imaginá-lo aparecendo em uma reluzente Maserati
nos próximos cinco meses.
— Eu também não — riu Sam —, mas também não consigo
pensar nessa situação que está sugerindo. Como eu poderia me
aproximar de um estranho e pedi-lo em casamento em troca de
dinheiro? Eu não teria coragem, Babs!
— Não se incomode com os aspectos práticos. Eu posso
conversar com Ben, e ele falaria com Morgan.
— Acha mesmo?
— Sem dúvida nenhuma.
Sam hesitou por alguns momentos. Depois suspirou:
— Tudo bem. Não gosto nada dessa idéia, mas não é pior do
que explorar Mary e viver com o dinheiro dela. — Babs sabia que
esse era o fator decisivo.

24
Capítulo III

Enquanto se vestia para o jantar, Sam se sentia nervosa a


ponto de estar enjoada. Não devia ter concordado com Babs. Se
aquele caubói arrogante debochasse de sua oferta, partiria
imediatamente para Long Island, com ou sem batizado. Não.
Primeiro o espancaria. Depois iria embora.
O jantar foi calmo, com Ben e Morgan conduzindo a
conversa, discutindo os méritos das diferentes raças de gado, para
desgosto de Babs.
De sua parte, Sam preferia o silêncio e fazia um grande
esforço para engolir a comida. De volta à sala de estar, com
xícaras de café nas mãos, eles passaram a falar sobre as diversas
atividades dos amigos comuns. Assim que Morgan deixou sua
xícara sobre a mesa, Ben pediu licença pelos dois e, ignorando o
olhar surpreso do amigo, convidou-o a segui-lo.
Sam levantou-se, deu alguns passos pela sala e voltou a se
sentar.
— Acho que precisa de um drinque — disse Babs. Ela mesma
preparou uma pequena jarra de martínis e serviu uma dose para a
amiga, que esvaziou a taça com dois ou três goles. — Meu Deus,
Sam, você precisa relaxar! Se continuar assim, vai acabar tendo
um ataque.
Sam encolheu os ombros e encheu a taça novamente, mas
sentou-se e bebeu o drinque devagar. Babs começou a falar de
roupas, passando delas aos filhos. O tempo parecia se arrastar e
Sam, já com o terceiro drinque na mão, começava a ficar
realmente impaciente quando ouviram os homens voltando.
Morgan seguiu diretamente para a garrafa de Jack Daniel's,
mas Ben parou na porta para anunciar:
— Acho que Benjie está chamando por nós, Babs. — Ela
quase pulou da cadeira para seguir o marido.
Sam bebeu mais um gole do martíni enquanto observava
Morgan, que terminava de preparar o uísque. Ele parecia
completamente calmo, e aproximou-se dela em silêncio. Sem
desviar os olhos dos dela, levou o copo aos lábios para um gole
generoso. Era impossível antecipar seus pensamentos pela
expressão do rosto, tanto quanto era impossível conter o tremor
que dominava seus dedos.
De repente, Morgan deixou o copo de uísque sobre a mesa e
sua voz soou profunda e calma:
— Soube que está interessada em fazer um negócio.
— Um negócio? — ela sussurrou. Sabia que soava estúpida.
25
— Meu nome por seu dinheiro.
— Ah, sim… é isso.
— Quando?
— Bem, não sei, tenho de considerar minha família e…
— Não. O mais depressa possível.
— Mas… mas…
— Quero voltar ao rancho, e você não pode estar pensando
em trazer sua família para cá. Quanto tempo seria necessário para
que eles percebessem tudo? Melhor deixá-los pensar que teve um
romance tórrido que acabou no altar. Certo?
— Suponho que sim.
— Ótimo. Estamos acertados?
— Sim, estamos.
— Muito bem. Amanhã iremos à cidade e daremos entrada
no pedido de licença. Depois, assim que for possível, nós nos
casaremos e iremos para casa.
— Certo — Sam murmurou atordoada.
Nesse momento, Babs bateu na porta entreaberta.
— Posso entrar? — Morgan riu.
— É claro que sim! A casa é sua!
Os quatro conversaram por mais de uma hora, Ben e Babs
aconselhando-os sobre o que devia ser feito. Em um certo
momento, Sam se levantou e disse:
— Bem, se vamos acordar cedo, acho que vou me deitar. —
E ela deixou a sala apressada.
Babs a alcançou no corredor.
— Tudo bem, Sam?
— Sim, tudo bem, mas… É que as coisas estão acontecendo
muito depressa.
— Eu sei, mas acredito que vai dar certo.
— Espero que sim. — Mas a voz de Sam não soava muito
esperançosa.
Os três dias seguintes foram confusos para Samantha. Na
manhã de sábado, ela acordou tensa e com uma terrível dor de
cabeça, certa de que não poderia ir em frente, decidida a desistir
dos planos de casamento. A dor de cabeça e boa parte da tensão
desapareceram com o banho quente. Mais calma, ela se vestiu
pensando que Morgan também podia estar arrependido. Talvez ele
desistisse. Talvez pudessem até rir de tudo aquilo.
Quando saiu do quarto, Sam encontrou Morgan no corredor,
perto do dormitório das crianças. Antes que pudesse abrir a boca
ou simplesmente desejar um bom dia, ele disparou:
— Ia bater na porta do seu quarto agora mesmo. O café está
pronto. Ben e Babs esperam por nós. — Olhando para o relógio
com ar impaciente, ele concluiu: — É melhor nos apressarmos.
26
— Sr. Wade…
— Não acha que é melhor me chamar de Morgan,
Samantha? Já vai longe o tempo em que uma esposa tratava o
marido com formalidade.
Apressado, ele a segurou pelo braço e conduziu até a sala
de jantar, aonde Sam chegou ofegante, não só por ter caminhado
muito depressa, mas por sentir-se emocionalmente abalada. Não
seria capaz de deter o processo, afinal.
— Bom dia, Sam — Babs sorriu ao vê-la. — Vamos à cidade
com vocês. Ben tem algumas coisas para resolver, e você precisa
de um vestido branco.
— Um vestido? Para quê?
— Para quê? Para se casar, é claro! A menos que tenha
trazido um na mala, acho que temos de ir às compras.
— Parece que sua noiva ainda não acordou, Morgan — Ben
opinou rindo.
— Não tenho um vestido branco, Babs, mas não entendo a
necessidade de usar essa cor se…
— Por que não? — Morgan e Babs a interromperam falando
ao mesmo tempo.
— Acho que o vestido branco é indispensável — declarou
Ben.
— Mas…
— Samantha — Morgan voltou a falar com tom firme. — Sei
que disse que tenho pressa, mas isso não significa que não temos
direito a um casamento completo.
— Exatamente — Babs concordou. Sam suspirou resignada.
— Tudo bem, vamos às compras.
— Muito bem. Agora, é melhor tomar o seu café — disse
Morgan.
— Não estou com fome. Quero apenas café puro e um copo
de suco.
—Então, beba o suco—ele ordenou, pegando a garrafa
térmica para servir café em sua xícara e na de Samantha.
O tom de voz despertou em Sam uma raiva súbita e
surpreendente. Era como se ele estivesse lidando com uma
criança! Depois de beber todo o suco, ela observou com tom frio:
— Também não está comendo.
— Porque já fiz minha refeição há uma hora. Não estou
acostumado à boa vida, Samantha. Acordo muito cedo.
Babs riu. Mais irritada do que antes, Sam olhou para a amiga
e a viu comer os ovos com bacon com um apetite invejável.
Minutos depois, os quatro se encontravam perto da Blazer
em-poeirada estacionada diante da casa. Acomodada no banco
traseiro com Babs, Sam mal podia conter o impulso de torcer o
27
nariz. O interior do veículo era tão sujo quanto a parte exterior.
Nesse momento, Morgan sentou-se ao volante e viu seu rosto
refletido no espelho retrovisor. Como se lesse seus pensamentos,
ele comentou:
— Acho que vou aproveitar para mandar lavar o carro.
Samantha não respondeu. Desviando os olhos dos dele,
preferiu fingir um enorme interesse na paisagem além da janela. A
viagem foi breve, e todas as tarefas foram rápidas e simples.
Entraram com o pedido de licença, entregaram todos os
documentos e conversaram com o pastor da igreja de Babs, que
aceitou realizar o casamento no escritório de sua casa na quarta-
feira seguinte, às dez da manhã. Sam acompanhava tudo sem
interferir em nada.
O grupo se separou depois de marcar um encontro para dali
a duas horas, quando almoçariam; as mulheres foram fazer
compras, os homens foram cuidar de seus assuntos, questões cuja
natureza Sam desconhecia. Sabia apenas que Morgan deixaria a
Blazer para lavar.
Samantha não comprou um vestido, porque não encontrou
nada que a agradasse. Sincera, ela admitiu para a amiga que o
problema não estava nas roupas ou nas lojas. Não estava com
disposição para escolher nada. Em vez disso, ela comprou
presentes para os meninos, ignorando a desaprovação de Babs.
Durante o almoço, quando foi informado do fracasso da
expedição de compras, Morgan não teceu comentários, embora
não escondesse o aborrecimento. Quando as mulheres pediram
licença para irem ao toalete, ele pediu o avião de Ben emprestado
para a próxima segunda-feira.
— Certamente — Ben respondeu intrigado. — Onde pretende
ir?
— Las Vegas. Babs e Samantha irão comigo, e lá
encontrarão um vestido para o casamento.
Sam tentou se recusar a ir a Las Vegas, mas os olhos de
Morgan brilhavam de maneira diferente e, interpretando a
mudança como um sinal de perigo, ela mudou de idéia. Poderia
vetar o plano mais tarde.
— Uau! Duas viagens a Vegas na mesma semana!
A exclamação animada de Babs a fez compreender que não
poderia escapar.
Muito bem, ponto para você, caubói, mas juro que comprarei
o primeiro vestido em que puser os olhos, mesmo que seja um
trapo!
Voltaram para casa na Blazer limpa, e a alegria de Benjie ao
receber os presentes comprados por Sam foi o ponto alto do dia.
O domingo passou depressa. Sam acordou cedo e ajudou
28
Marie a preparar o almoço que seria servido a amigos e parentes
em comemoração ao batizado de Mark. Voltaram da igreja numa
longa procissão de carros depois de uma cerimônia rápida, porém
comovente, e a confusão foi inevitável. Havia gente em todos os
cantos da casa, e Sam não conseguia parar nem por um instante.
Melhor assim. Pelo menos podia ficar longe de Morgan. Enquanto
conversava com os pais e a irmã de Babs e com os pais de Ben,
ela tinha consciência de todas as mulheres que pareciam gravitar
em torno de Morgan, atraídas por sua risada profunda ou por sua
voz melodiosa.
Sam estava em pé há dezesseis horas e havia consumido
uma boa quantidade de champanhe quando, por volta das onze da
noite, caiu na cama com um suspiro aliviado. Banindo todos os
pensamentos da mente, ela adormeceu em seguida.
Batidas na porta a despertaram. Antes que pudesse
levantar-se ou pensar em alguma coisa, a cabeça de Babs surgiu
na fresta.
— Acorde, Bela Adormecida! Morgan me pediu para avisar
que pretende partir em uma hora.
Prestes a dizer que Morgan Wade podia ir para o inferno sem
esperar uma hora, Samantha conteve-se ao ver a felicidade
estampada no rosto da amiga.
— Já estou indo. Estarei pronta em trinta minutos.
E ela cumpriu a promessa. Não só a de encontrá-los em
trinta minutos, mas a de comprar o primeiro vestido que
encontrasse, uma linda criação em seda com decote canoa,
mangas de bailarina e corpo e saia justos. Sapatos brancos e bolsa
na mesma cor completaram o conjunto, para alegria de Babs, que
decidiu aproveitar o tempo extra para fazer algumas compras,
também.
Chegaram ao rancho no meio da tarde, a tempo de brincar
com Benjie depois de sua soneca, e o resto do dia foi pacato.
Samantha se recolheu cedo, porque o sono a livrava do
nervosismo causado pela presença de Morgan.
A tensão crescia num ritmo constante, até que, na terça-
feira, Samantha não resistiu e riu diante do ar preocupado da
amiga:
— Qual é o problema, meu bem? Não é todo dia que uma
mulher se casa!
— Eu sei. Mas, caso ainda não tenha percebido, você não
fala com Morgan há dois dias. Sei que não se trata de um
casamento por amor, mas podia ao menos ser educada.
Tomando consciência de que havia sido indelicada e, pior
ainda, em casa de amigos, Sam se esforçou para demonstrar um
mínimo de cortesia durante o jantar. Mais tarde, quando servia a
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quarta dose de martíni para si mesma, ela decidiu que havia
esgotado seu estoque de banalidades. Foi então que Morgan
levantou-se e, relaxado, caminhou até ela para retirar a taça de
sua mão.
— Vamos dar um passeio lá fora — ele convidou. — Há algo
que temos de discutir.
Depois de pedir licença aos amigos, ele a levou ao pátio.
Caminharam em silêncio por alguns minutos, até que, no gramado
além da quadra de tênis, ele disparou:
— O que está querendo dizer com a bebedeira?
— O quê?
— Babs me contou que você raramente bebe. Hoje foram
quatro martínis. Ontem foi o vinho. Está se encharcando de álcool
desde sexta-feira. Se está arrependida, não precisa beber até cair
inconsciente. Diga, e cancelaremos o acordo.
— Não entendi.
— Entendeu. Quer cancelar tudo?
— Não. É,claro que não — ela respondeu depressa. Depressa
demais.
— Não há nada de claro nisso. É melhor ter certeza do que
está fazendo, Samantha, muita certeza, antes que toda essa
história se torne um fato. Um fato irrevogável.
Morgan falava de um jeito estranho, mas, mesmo assim, ela
respondeu:
— Eu tenho certeza.
— Bem… É melhor assim. De qualquer maneira, sugiro que
pare de beber e descanse um pouco. Amanhã teremos um longo
dia.
Morgan segurou seu braço e a levou de volta para casa.
Samantha seguia silenciosa. Quem ele pensava que era? Ninguém
jamais tivera a presunção de dizer o que ela devia fazer. Furiosa,
ela se virou para encará-lo.
— O que pensa que está fazendo?
Depois de terem passado pela sala de jantar e pelo corredor,
agora ele praticamente a arrastava para o quarto. Os dedos
apertavam seu braço cada vez que ela tentava escapar, e a
pressão era dolorosa. Samantha tremia de raiva quando pararam
diante da porta de seu quarto. Segurando seu outro braço, ele se
inclinou para frente e baixou o tom de voz.
— Acalme-se e pare de agir como uma criança mimada. Está
tão tensa que pode acabar sofrendo um colapso a qualquer
momento. Vá dormir, Samantha. Quer ser uma linda noiva, não
quer?
E ele ainda ria!
— Ora, seu…
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Um beijo rápido calou o protesto e a deixou aturdida.
— Durma bem, Samantha.
Morgan abriu a porta do quarto, empurrou-a para dentro e
fechou a porta.
Ela ficou parada no meio do aposento, os punhos cerrados e
o sangue fervendo nas veias.
Devo estar maluca! Por que não acabei com tudo quando
tive chance ? Não vai dar certo! Esse homem me despreza, e eu o
odeio! Isso tem de parar!
Pior era sentir a boca fervilhando como se houvesse tocado
algum metal incandescente.
Samantha não fez nada do que havia prometido a si mesma.
O casamento aconteceu na manhã seguinte e foi muito rápido, e
quando ela caiu em si já havia uma aliança de platina em seu
dedo. Receber das mãos de Babs a jóia que deveria ser colocada
no dedo de seu marido foi uma surpresa, porque não esperava que
ele ostentasse nenhum símbolo matrimonial. Ele não parecia ser o
tipo de homem que anda pelo mundo divulgando seu estado civil.
Por outro lado, ainda tinha muito que aprender sobre Morgan
Wade.
Marie preparou um almoço especial e, com a filha Judy,
propôs um brinde aos recém-casados logo depois da cerimônia.
Sam não sabia se devia rir ou chorar, mas sabia que sentia muita
pena de Judy, cujos olhos, sempre que encontravam os de Morgan,
tornavam-se mais tristes e sem brilho.
— Acha que tenho tempo para ligar para casa antes do
almoço? — Sam perguntou a Babs.
— É claro que sim. Use o telefone do estúdio de Ben. Lá é
mais silencioso. — Ela se referia a Benjie, que, incorporado ao
grupo, pulava e falava sem parar.
Sam entrou no estúdio e se virou surpresa ao sentir que era
seguida. Morgan entrou e fechou a porta, apoiando-se nela com ar
negligente e um sorriso calmo nos lábios.
— Gostaria de um pouco de privacidade, se não se importa.
— Eu me importo — ele respondeu direto. — Não vou sair. —
Samantha decidiu que não aceitaria provocações. De costas para o
marido, ela pegou o telefone discou o número de Long Island. Beth
atendeu a ligação.
— Beth, sou eu, Sam. Mary está em casa? Sim, eu espero.
Obrigada. — Menos de um minuto depois ela ouviu a voz da
madrasta do outro lado.
— Samantha? Algum problema, querida?
Adotando um tom leve que nem de longe refletia suas
verdadeiras emoções, Sam respondeu:
— Nenhum. Pelo contrário. — Respirando fundo, ela fechou
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os olhos e deu a notícia sem rodeios. — Acabo de me casar.
— Você… o quê? Samantha, está brincando?
— Não, Mary, estou falando sério. A cerimônia terminou há
poucos minutos.
— Mas… querida, com quem? Eu o conheço?
— Não, mãe. Eu mesma acabei de conhecê-lo. Fui
literalmente tirada do chão. O nome dele é Morgan Wade, e ele é
amigo de Ben e padrinho de Mark. Morgan é rancheiro aqui em
Nevada.
— Sam, tem certeza de que está agindo bem?
— Não sei. Quando é que temos alguma certeza? E não me
importo, porque estou apaixonada. — E surpresa por não ter
sufocado com a declaração.
— Isso é verdade?
— É claro que sim — ela afirmou, consciente da presença
incômoda de Morgan.
A pergunta seguinte a pegou desprevenida.
— Posso falar com ele, Sam?
Sem saber o que fazer, Samantha olhou para Morgan. Como
se houvesse escutado a pergunta, ele se aproximou e estendeu a
mão. Sam se surpreendeu com a delicadeza de seu tom.
— Alô? Como vai, sra. Denning? Sim, eu sei… Foi tudo muito
rápido. Este é um período de muito trabalho no rancho. — Houve
uma breve pausa. — Compreendo, e prometo que levarei Sam
para o Leste o mais depressa que puder. Sim, é claro. — Mais uma
pausa. — Olá. Como vai? — O tom mais leve indicava que ele
estava falando com Deb. — Ela está bem. E é linda e encantadora.
Sim, é claro que pode. — Morgan devolveu o telefone a Samantha
que, chocada, pegou-o com dedos trêmulos.
Antecipando as perguntas da irmã, ela foi direto ao assunto:
— Olá, Deb. Pode me fazer um favor?
— É claro que sim. O que é?
— Telefone para o escritório dos Baker e informe-os sobre a
situação. Diga que mandarei cópias da certidão de casamento
imediatamente. Ah, e mande algumas coisas minhas para cá, sim?
— Sim, é claro. O que quer que eu mande?
— Enviarei uma lista por e-mail. Bem, agora preciso desligar,
meu bem. Babs está esperando por nós para servir o almoço.
— Mas, Sam…
— Eu telefono novamente dentro de alguns dias, quando
chegarmos ao rancho, e então responderei a todas as suas
perguntas. Mas agora tenho de apressar-me. Morgan já está
olhando feio para mim. Mande um beijo para Bryan, está bem? Até
logo. — E ela desligou apressada.
— Agiu muito bem — Morgan a elogiou. — Eu estava
32
olhando feio para você?
Sam decidiu ignorá-lo enquanto se aproximava da porta.
— Com licença — pediu ao notar que ele não se movia.
— Ainda não. Tenho algo a dizer.
Um arrepio percorreu suas costas. A voz subitamente fria e
dura combinava com a expressão de seu rosto.
— Estou cansado do seu mau-humor, Samantha. Ou se livra
dele, ou eu mesmo terei de mandá-lo embora.
— Como se atreve…
— Posso me atrever a muito mais. É só continuar me
provocando. Teve sua chance de desistir, mas preferiu manter o
casamento. Sendo assim, ponha um sorriso nesse rosto lindo,
porque vamos sair daqui agora para nos sentarmos à mesa com
amigos maravilhosos, e é melhor se comportar como a dama que
supostamente é, ou vai se arrepender.
Sam respirou fundo para engolir a raiva, porque as
referências a Babs e Ben eram mais do que corretas.
Envergonhada, percebeu que havia sido grosseira e desagradável
com amigos muito queridos em cuja casa estava hospedada.
— Você tem razão — concordou com um suspiro resignado.
— Vamos declarar uma trégua, está bem?
— Não. Uma trégua é temporária, e precisamos de paz e
concordância permanentes, ou nosso arranjo não terá nenhuma
chance de sucesso.
Durante o almoço, Sam se deu conta do ar aliviado de Ben
diante de sua mudança de atitude. Depois, enquanto ela se
despedia de todos, Morgan punha as malas no carro e prometia a
Babs que traria a esposa para uma nova visita em breve.
Viajaram em silêncio pelos primeiros trinta quilômetros, e
Samantha pulou assustada quando Morgan perguntou:
— Quem é Bryan?
— Quem…? Ah, é o noivo de Deb. Por quê? — Ele encolheu
os ombros e mudou de assunto.
— Sara terá o jantar pronto quando chegarmos em casa. —
Chegar em casa… Era um pensamento estranho para alguém que
seguia para um local desconhecido ao lado de um homem
igualmente desconhecido. Sua casa era em Long Island!
Mas, em vez de protestar ou manifestar os pensamentos, ela
indagou:
— Quem é Sara?
— Sara Weaver, minha governanta.
— Ah, sim, Babs a mencionou. Ela sabe sobre nós?
— Sabe. Eu precisava preveni-la. Aposto que Sara está
limpando a casa desde que recebeu meu telefonema! Se chegasse
em casa com você sem antes avisá-la para que ela pudesse
33
apresentar um lar impecável, acho que teria meu traseiro colado
no chão da cozinha — ele riu.
— Entendo. E… ela conhece as circunstâncias?
— Refere-se às acomodações? — O idiota estava rindo dela!
— Exatamente.
—Não. Eu disse apenas que ela devia preparar um
determinado quarto para acomodá-la. Sara não gostou muito da
idéia, e fui obrigado a improvisar.
— Improvisar… como?
— Disse a ela que, na classe social de onde você vem, é
comum que os casais durmam em quartos separados. Ela aceitou
a desculpa de má vontade.
De má vontade? Uma empregada?
— Não sei se entendo essa sua atitude, Morgan.
— Vai entender quando conhecer Sara. Ela não é uma
empregada comum. É alguém da família. Mesmo que não goste de
você, Sara tolerará sua presença por ser minha esposa. Mas, se
gostar de você, ela provavelmente a adotará e estará tentando
comandar sua vida antes da semana terminar. Seja qual for sua
reação, ela a tratará com respeito. E espero que faça o mesmo,
porque não vou admitir que Sara seja magoada ou mal-tratada.
— Você a ama muito, não é? — Sam perguntou, lembrando o
que Babs havia contado sobre a governanta.
— Muito. E Jacob também.
— Jacob?
— O marido de Sara. Quando meus pais se casaram, Sara
decidiu que sua senhorita Betty não iria para Nevada sem ela. Em
resposta, Jacob decidiu que sua Sara também não iria a lugar
algum sem ele. Eles se casaram três dias depois de meus pais.
— Jake também trabalha no rancho?
— Sim, e muito. Acho que o lugar não seria nada sem ele.
De fato, se meu pai o houvesse deixado no comando quando saiu
vagando pelo mundo, em vez de contratar aquele maldito
administrador, eu teria encontrado uma situação muito diferente
ao voltar para casa. Resumindo, Jake mantém o lugar em ordem e
cuida de tudo que cresce. Ele foi fazendeiro na Pensilvânia, e não
ficaria surpreso se ele conseguisse cultivar um poste de cerca!
Samantha riu, e a tensão se desfez como que por encanto.
Ainda conversaram um pouco sobre Jake e Sara, mas, vencida pelo
cansaço, ela acabou adormecendo e só abriu os olhos quando
sentiu o carro parar de repente.
— O que foi? Por que paramos?
— Chegamos — ele anunciou.
Confusa e sonolenta, olhou em volta e viu que ele
estacionara a Blazer em uma alameda na frente de uma garagem.
34
A casa ficava à esquerda desse edifício, e uma passarela coberta
servia de ligação entre os dois prédios. Os dois desceram do
automóvel, e enquanto Morgan removia a bagagem do porta-
malas, ela olhava em volta e massageava a nuca enrijecida.
A casa era típica dos ranchos do Oeste, construída em forma
de L no meio de um gramado. Ao longe e à esquerda, Sam podia
ver os galpões e o curral. Uma trilha com calçamento de pedras
levava da alameda até a frente da casa. Foi por ela que Morgan a
conduziu até a porta, onde uma mulher baixinha, roliça e
sorridente os esperava.
— Seja bem-vindo, sr. Morgan, e parabéns! — Ela se virou
para Samantha sem esconder a curiosidade e a expectativa.
— Muito obrigado, Sara. Quero que conheça minha esposa,
Samantha. Sam, esta é Sara Weaver.
Sam estendeu a mão.
— Como vai, Sara?
— Bem, e espero que seja feliz aqui, sra. Wade.
— Por favor, Sam — ela a corrigiu automaticamente. — Sara
reagiu como Marie há uma semana.
— Sra. Sam.
— Assim está bem — ela riu.
A sala de estar era espaçosa e clara, decorada de acordo
com as tendências do Oeste com muita madeira e couro. Entre
essa sala e a de jantar havia uma enorme lareira de pedras
cercada por cadeiras e uma mesa de café, e o piso de madeira
polida podia ser visto entre os tapetes que o cobriam e
delimitavam ambientes. No teto, vigas de madeira escura
contrastavam com o branco do gesso, e o ambiente resultante
dessa composição era tão aconchegante quanto um par de braços
abertos. A parede dos fundos da sala era inteiramente de vidro,
como na casa de Babs, e as portas francesas nela existentes se
abriam para uma varanda de madeira com mobília própria para
exteriores. Três degraus ligavam a varanda a um caminho de
pedras que cortava o gramado e seguia sinuoso até a piscina, cuja
superfície azul refletia os raios do sol de final de tarde. Aquele era
o momento do dia que Samantha mais apreciava, quando os
últimos raios de luz banhavam o mundo numa luminosidade
dourada que suavizava até os contornos mais duros. Que
perfeição! Conhecer a casa justamente a esta hora…
Fascinada, Sam virou-se para as duas pessoas que a
observavam em silêncio. Com os olhos iluminados pela admiração,
ela encarou Morgan.
— Sua casa é fantástica!
— Também acho — ele respondeu sem nenhuma hipocrisia.
— Estou certa de que não seria tão linda sem o valioso
35
empenho de Sara.
— Muito obrigada, Sra. Sam.
Como já havia acontecido muitas vezes antes, Samantha
havia entrado e conquistado. Sara era sua aliada. Morgan sorriu
satisfeito por ter testemunhado a formação do laço entre aquelas
duas mulheres tão diferentes.
— Agora venha comigo, sra. Sam. Vou lhe mostrar o seu
quarto. Imagino que queria se lavar, talvez mudar de roupa, e o
jantar está pronto para ser servido. E você também, sr. Morgan.
Trate de ir se lavar, se quiser comer. Não se atreva a sentar à
mesa usando esse jeans.
A idéia de que alguém se atrevia a falar nesse tom com o
poderoso e arrogante Morgan Wade a divertia muito, e Samantha
encontrava dificuldades para controlar o riso. Especialmente
quando ele respondeu:
— Samantha também está usando jeans.
— É diferente. Ela é mulher. Está avisado, Morgan. — Ela
concluiu, esquecendo a formalidade de antes.
Enquanto caminhavam até o quarto, Sara ia identificando
cada cômodo atrás das portas fechadas. O escritório de Morgan, o
quarto dele… Mas nada poderia tê-la preparado para a visão que a
recebeu quando a governanta abriu a porta do quarto que seria
dela. O aposento era decorado todo em branco com tons de azul;
o mais profundo no carpete, um tom mais pálido nas paredes e no
teto, e um azul que lembrava o do oceano nas cortinas e na colcha
sobre a cama. Todo o trabalho em madeira, inclusive a mobília,
era branco. Sam se apaixonou à primeira vista.
— Espero que fique confortável aqui — Sara comentou com
uma certa insegurança. A idéia de um casal que não dormiria no
mesmo quarto não a agradava em nada.
Sorrindo, Sam respondeu:
— Como eu não ficaria? O quarto é adorável!
— E ali está o banheiro — a governanta apontou para uma
porta interna à esquerda da entrada da suíte.
Havia até uma enorme banheira ali.
É como se alguém o houvesse prevenido sobre as coisas de
que mais gosto.
— Não se incomode com as malas — Sara decretou com
firmeza. — Eu cuido disso mais tarde. Refresque-se e desça para
jantar.
Sam sorriu ao ver a governanta sair e fechar a porta,
lembrando-se do que Morgan dissera sobre o comportamento
daquela mulher. Se gostasse dela, ela estaria tentando comandá-
la antes do final da semana.
Bem, aparentemente, Sara havia gostado dela.
36
Capítulo IV

Sam olhava para os raios de sol refletidos na superfície da


piscina e pensava em como haviam sido os últimos dez dias desde
que ali chegara. Raramente via Morgan, porque ele deixava a casa
muito cedo e só voltava depois das sete da noite. Então ele
entrava e ia direto para o quarto, tomava um banho, mudava de
roupa e descia para jantar às sete e meia. Depois se sentava com
Sam na sala de estar, onde bebiam café, e finalmente Morgan
preparava um uísque e se retirava para o escritório. Sam não
voltava a vê-lo, exceto quando passava pelo escritório para dizer
boa noite antes de se recolher.
Sara e Jake não dormiam na casa, porque possuíam
acomodações próprias do outro lado da garagem, e nas primeiras
noites Samantha não dormira bem. Mas, depois de constatar que
não ouvia nenhum barulho de seu quarto, nem mesmo os
movimentos do marido pela casa, ela havia relaxado e passara a
dormir melhor.
No primeiro dia depois de sua chegada, ele não havia
trabalhado na propriedade. Morgan a apresentara aos empregados
do rancho com palavras breves e sem muitas explicações, e ela
estranhara o sentimento causado por essa atitude. Não devia se
incomodar com o aparente desprezo, devia? Principalmente
porque, depois das apresentações, Morgan a informara de que ela
era a proprietária de um dos mais lindos animais que habitava o
estábulo, uma égua de porte impressionante e pêlo brilhante.
Poderia cavalgar… sempre que ele tivesse tempo para
acompanhá-la. Havia sido essa a instrução curta oferecida por
Morgan. Antes que tivesse tempo para perguntar quando seria
essa ocasião, ele completara:
— Quando estiver mais habituada à casa… e a mim.
Quantas vezes pensara nessas palavras tentando determinar seu
significado? Ele nunca mais havia falado em levá-la para cavalgar,
e o orgulho a impedia de questioná-lo.
A luz do dia se extinguia. Sam sabia que devia ir se vestir
para jantar, mas, em vez disso, continuava ali parada, imaginando
como Morgan reagiria à surpresa que Sara preparava.
Samantha e Sara se tornaram amigas imediatamente, e
depois do choque provocado pela sugestão de Sam sobre ajudar
com as tarefas domésticas, Sara a aceitara e compreendera sua
necessidade de ocupar-se. Mesmo assim, as tarefas que a deixava
desempenhar eram sempre leves, e sempre com a lembrança de
que Morgan não devia saber de nada. Há dois dias, finalmente
37
Sam conseguira invadir a cozinha.
Na quinta-feira, Jake entrara com a enorme caixa contendo
as coisas enviadas por Deb e fora levá-la ao quarto.
— Aqui estão suas coisas, sra. Sam — ele avisara da porta.
— Oh, obrigada, Jake! — Samantha fora abrir para deixá-lo
entrar. — Imagino que estejam cansados de me ver sempre com
as mesmas roupas.
— Bobagem, sra. Sam. Uma mulher com a sua beleza não
precisa se preocupar com isso — ele respondera com naturalidade
antes de deixar o quarto.
Sara surgira em seguida para ajudá-la a guardar as coisas.
Roupas, sapatos e bolsas foram para o closet, livros foram para as
prateleiras do quarto, e CDs foram deixados com os de Morgan na
unidade de entretenimento instalada em uma das paredes da sala
de estar. Ao ver os cadernos de anotações no fundo da caixa, Sara
se entusiasmara e anunciara a decisão de aceitá-la em sua
cozinha. Qualquer mulher com tantas receitas interessantes devia
ser uma excelente cozinheira.
Desde então, elas se sentavam à mesa da cozinha para
conversar e tomar café sempre que Sara dispunha de alguns
minutos de folga. Estudavam as receitas juntas, e Samantha
traduzia as que haviam sido anotadas em francês. Na tarde
anterior, Sara resolvera experimentar uma delas no jantar de
Morgan, desde que Sam a ajudasse,
As refeições no rancho eram sempre deliciosas, em sua
maioria com um forte toque germânico, algumas bem americanas.
Mas, devido à ampla variedade de alimentos com que estava
acostumada, Sam estava mais do que pronta para a mudança.
Juntas, elas optaram por uma torta Vienense.
Samantha estava tão distraída com os próprios
pensamentos, que se assustou ao ouvir a voz de Morgan.
— O que houve? — ele perguntou surpreso ao vê-la usando
jeans e camiseta. — Não vai se vestir para jantar?
— Que horas são?
— Sete e meia.
— O quê? Não pode ser!
A reação aflita de Sam o divertiu, e ela ouviu as gargalhadas
do marido até a metade do corredor que levava ao seu quarto.
Samantha tomou uma ducha, aplicou uma maquiagem
suave, escovou os cabelos e escolheu um vestido leve e claro para
usar com as sandálias de tiras finas.
Morgan já havia preparado os drinques, quando ela entrou
na sala. Morgan a estudou com insolência, sem disfarçar seu
interesse, e o fato de julgá-lo muito atraente só alimentou o
nervosismo que a consumia.
38
— Gostou do que viu? — ele a provocou. Samantha ergueu o
queixo.
— É só mais um homem.
— E por cinco milhões de dólares você esperava mais, certo?
— Samantha não conseguiu mais conter a ira.
— Como ousa…?
— Acho que logo vai descobrir que sou mesmo muito
ousado, Samantha. — O tom de voz passara de divertido a
ameaçador, e ela sentiu uma pontada de medo.—Vamos jantar?—
Ele se dirigiu à sala de estar, deixando-a sozinha para segui-lo.
Depois do jantar, Sara serviu a sobremesa e esperou ansiosa
por algum comentário de Morgan. Ele provou o primeiro pedaço da
torta de creme e ergueu uma sobrancelha, olhando primeiro para
a governanta e depois para a esposa.
— Uma excelente torta, Sara — disse. — Não creio que a
tenha servido antes.
— Tem razão, sr. Morgan, é a primeira vez que sirvo essa
torta. A receita é da sra. Sam, e ela me ajudou a prepará-la. Fico
feliz por ter gostado.
— Está brincando? Não imaginei que a sra. Sam fosse tão
doméstica!
Sorrindo, Sara deixou a sala balançando a cabeça diante do
humor questionável do patrão.
Sam não disse nada. Sentada diante do marido, ela se
limitou a encará-lo com ar sério enquanto Morgan comia a torta.
Quando terminou, ele suspirou satisfeito.
— Céus! Tudo isso e ela ainda sabe cozinhar! — O tom de
voz sugeria deboche.
Beberam o café em silêncio, Sam irritada, Morgan relaxado e
de bom humor. Assim que terminou de preparar o costumeiro
uísque, ele se retirou para o escritório sem dizer nada.
Sam levou a bandeja de café para a cozinha e elogiou Sara,
que parecia prestes a explodir de orgulho. Ficou acertado que em
breve experimentariam outras receitas, e Samantha se recolheu
sem parar para dizer boa noite a Morgan. Talvez um bom livro
pudesse acalmá-la. E por que estava tão nervosa? Por que se
deixava abalar pelo caubói arrogante?
Como não encontrou nenhum volume interessante nas
prateleiras do quarto, ela decidiu ir examinar as da sala e se
sentiu atraída pela parede de vidro, pelo brilho da lua lá fora.
Hipnotizada pela beleza da noite, não ouviu os passos de Morgan
atrás dela.
— Ainda está muito zangada, Ruiva?
A voz rouca a assustou e ela se virou de um salto.
— Detesto ser chamada de Ruiva!
39
Ele riu e a surpreendeu mais uma vez com o comentário
seguinte.
— Belo vestido. — Sem aviso prévio, Morgan inclinou-se e
beijou-a nos lábios como já havia feito duas vezes antes. — E você
é uma bela mulher. — A boca encontrou a dela novamente, e uma
das mãos tocou sua nuca. A outra a enlaçou pela cintura, e ele a
puxou contra o peito.
Sam ficou paralisada em seus braços por um momento,
tomada pelo choque, mas logo um calor envolvente a invadiu, e
ela reagiu quase sem perceber, correspondendo ao beijo ardente.
A resposta de Samantha o excitou, e Morgan adotou uma atitude
ainda mais ousada, acariciando suas costas com movimentos
lentos e circulares que pareciam incendiá-la.
— Por favor, Morgan — ela pediu ofegante e assustada, os
lábios tocando os dele. — Precisamos parar…
— Não — ele respondeu com voz rouca. — eu quero você,
Samantha, e vou ter você. Agora. — Dito isso, a boca se apoderou
da dela mais uma vez para um beijo ainda mais íntimo e sensual,
e Sam desistiu de lutar. Sabia que seria inútil.
Minutos depois, Morgan a levava para o quarto como o mais
romântico e sedutor dos maridos, carregando-a nos braços
enquanto a beijava.
Sam evitava se mover. Morgan estava dormindo, mas
mantinha um braço sobre seu corpo, e não queria acordá-lo com
seus movimentos. Ela chorava em silêncio.
Sua primeira vez…
Ao sentir a resistência oferecida pela barreira física, ele se
detivera chocado, mas depois prosseguira com imensa ternura e
surpreendente gentileza, despertando nela um desejo quase tão
intenso quanto o dele. Agora era dele. Ou melhor, sempre
pertencera a Morgan. Tinha de admitir a verdade, mesmo que
fosse dolorosa. Desde o início, desde que ele entrara na sala da
casa de Babs e cravara nela seus impressionantes olhos negros,
havia sido dele. Não queria amá-lo. Pensou em Ben, terno e
afetuoso, nos olhos cheios de amor que ele voltava para a esposa,
e soube que aquele era o tipo de homem que desejava amar. Não
um caubói prepotente e debochado que havia rido dela tantas
vezes. Sabia de seu desejo físico. Há pouco pudera comprová-lo. E
mesmo sabendo que não queria amá-lo, admitia para si mesma o
amor que a consumia. E por isso chorava.
Sam acordou sozinha. A casa estava silenciosa, e a luz do sol
além da janela indicava que já era tarde. Só conseguira pegar no
sono no final da madrugada, exausta de tanto chorar, e agora
despertava na cama do marido. Nunca antes havia estado naquele
quarto, mas gostava da decoração em tons de verde e madeira
40
escura. Pela porta entreaberta, podia ver que o banheiro era preto
e branco, um aposento bem masculino.
De repente ela pulou da cama pensando que tinha de sair
dali. O rosto queimava de vergonha. Estava nua! O vestido e suas
roupas estavam na cadeira no canto do quarto, e sabia que
Morgan havia recolhido as peças do chão, onde ficaram
abandonadas na noite anterior.
Vestida, ela correu para o quarto onde fora instalada e
fechou a porta com um suspiro de alívio. Enquanto tomava banho,
decidiu que tinha de partir, mesmo que para isso arrancasse o
coração do peito. Não vê-lo, não estar perto dele… a idéia era
quase insuportável. Mas não tinha escolha. Se ficasse, logo
aqueles olhos negros estariam debochando de seus sentimentos.
Sam fez as malas em tempo recorde. Levaria apenas o
necessário. Sara poderia mandar o resto de suas coisas mais
tarde. Sabia que ela não estava em casa, porque era domingo e
ela sempre ia para sua casa depois de preparar o almoço. Passava
das cinco da tarde. Não sabia se Morgan estava ou não em casa,
porque não saíra do quarto desde que ali entrara depois de deixar
o dele.
Após recolher seus pertences no banheiro, ela voltou ao
quarto e parou apavorada ao ver o marido na porta, apoiado no
batente com um sorriso preguiçoso nos lábios, os polegares
enganchados nos bolsos da calça jeans.
— Vai fugir, Ruiva? — ele perguntou com tom calmo, como
se a situação não o incomodasse.
Precisava manter o controle. Já havia chorado o suficiente, e
agora era hora de mostrar compostura.
— Vou para casa.
— É mesmo? Pensei que já estivesse em casa. E como vai
explicar sua súbita aparição… sozinha? Não acha que vai parecer
um pouco estranho se, depois de declarar-se apaixonada, voltar
para a casa da família duas semanas após o casamento alegando
ter sido violentada?
— Mas… eu não fui violentada! Que absurdo é esse? —
Morgan riu.
— Eu sei que não. Só queria ter certeza de que você
também sabe.
— Não vou ficar aqui — Sam anunciou irritada.
— Por que não?
Os olhos negros a estudavam com interesse e curiosidade, e
de repente ela lembrou que vestia apenas o roupão sobre o corpo
nu. De cabeça baixa, foi guardar a bolsa de maquiagem em uma
valise e deu as costas ao marido.
— Você sabe…
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— Sim, eu sei. Pensou que estivesse comprando o nome de
um homem, e agora descobriu que o homem também faz parte do
pacote.
— Você é muito atrevido! Fizemos um acordo, um negócio!
O casamento é só uma fachada.
— Eu avisei que sou muito ousado, Ruiva. Ainda não viu
nada.
— Já disse que detesto ser chamada de Ruiva. — Ele
continuou como se não a escutasse.
— E eu não fiz esse acordo que você está alegando. Não
nesses termos. Nem quando Ben conversou comigo, nem depois,
quando falei com você. Se havia condições e termos, você se
esqueceu de me informar, e agora é tarde demais para isso.
Lamento se a machuquei ontem à noite, mas não podia adivinhar
seu… estado virginal.
— Não? Que tipo de mulher pensou que eu fosse?
— Uma mulher. Você vai fazer vinte e cinco anos, Samantha!
Ninguém mais espera encontrar uma virgem com essa idade! Não
nos dias de hoje. Já pedi desculpas por não ter sido tão delicado
quanto a situação exigia, mas estou feliz por ter sido o primeiro. —
Sam baixou a cabeça para não dizer que ela também se sentia
feliz por isso.
— E então? Vai fugir? Quer jogar tudo fora porque não tem
coragem para crescer?
— O que quer dizer com jogar tudo fora?
— Quero dizer que não existirão visitas breves e polidas
para manter as aparências. Entrarei com o pedido de divórcio, e
você não receberá sua herança. Terá de viver da generosidade de
sua madrasta, pelo menos até encontrar outro homem que se
disponha a se casar com você dentro das suas condições. Ou até
que se apaixone, se for capaz disso, e então o aspecto físico do
relacionamento não será tão difícil.
— Você é realmente uma besta.
— Talvez, mas não é isso que estamos discutindo. A escolha
é sua. Pode ir ou ficar. Mas, se ficar, o que aconteceu ontem vai se
repetir regularmente. Pode me odiar pelos próximos cinco anos,
mas viverá como uma mulher casada, porque eu cuidarei disso.
Não irá a nenhum lugar sozinha. Se quiser sair, terá de ir comigo.
E não pense que não sou capaz de mantê-la aqui, porque estará se
enganando.
— Não acredito no que estou ouvindo.
— O que esperava? Pensou mesmo que poderíamos viver na
mesma casa por cinco anos sem sexo? Ou imaginava que eu
manteria uma amante escondida em algum lugar e ainda sairia
por aí dirigindo e voltando para casa no meio da noite depois de
42
quatorze horas de trabalho? Ouça bem, Samantha. Se for embora
agora, será o fim. E então? Você vai ou fica?
— Quer uma resposta agora? Não vai me dar um tempo para
pensar?
— Já teve duas semanas. Na verdade, devia ter pensado
antes do casamento. Caso tenha esquecido, eu lhe dei uma
chance de desistir na noite anterior à cerimônia. Perguntei se
estava arrependida, e você me garantiu que não. Já teve seu
tempo, Samantha. O que vai ser?
Sam virou-se para não permitir que ele visse seu rosto.
Morgan estava falando sério. Pediria mesmo o divórcio, e então
nunca mais o veria. Sem saber o que ela sentia, ele havia dito que
talvez pudesse apaixonar-se. Mas Samantha sabia que nunca mais
haveria outro homem. E se ficasse, seria o mesmo que viver no
inferno. Não poderia revelar seu amor, e ainda teria de submeter-
se a ser usada como alívio para suas necessidades físicas. Pior
seria não estar perto dele, nunca mais vê-lo.
Com um fio de voz, ela respondeu:
— Eu fico.
Sem dizer nada, Morgan segurou-a pelos ombros e abraçou-
a.

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Capítulo V

Febre da primavera, saudade de casa… Sam sofria e se


perguntava o que fizera para merecer Morgan Wade. Por que
pensar nele era suficiente para deixar seu corpo em brasa? Por
que ele, se desde os quatorze anos tivera dezenas de admiradores
e nunca se interessara por nenhum?
Sam cavalgava e se encantava com a beleza da primavera
chegando àquela terra. Como se não bastasse o amor que sentia
pelo caubói, também se apaixonara pelo lugar onde ele vivia.
Desde a primeira cavalgada pela propriedade, no domingo
anterior, sentia-se fascinada pela força com que a natureza se
fazia presente naquela região. Não sabia se havia sido a paisagem
ou a companhia, mas pela primeira vez se sentira realmente em
casa.
A primavera deu lugar ao verão, que também passou
depressa. Morgan trabalhava cada vez mais. Ele parecia cansado e
havia perdido peso, e quando a abraçava à noite, os músculos em
seus braços lembravam cabos de aço. Samantha sabia que ele
estava muito perto do limite de um ser humano, e isso a
assustava.
Numa noite, enquanto tomavam café, ele havia comentado
que planejava comprar um avião, um Lear Jet, e pedira sua opinião
com um tom igualmente casual. Surpresa e agitada, Sam
respondera que ele devia fazer o que julgasse melhor, e depois
vira a luz se apagar nos olhos negros. Morgan saíra da sala depois
de dizer que ele sempre fazia o que julgava melhor.
Ele havia comprado o Lear, e Sam contara com a
possibilidade de Morgan ter mais tempo livre, agora que contava
com um meio de transporte mais rápido. Mas havia acontecido
justamente o contrário. Ele parecia dispor de menos tempo que
antes.
Através de conversas aparentemente desinteressadas com
Sara e Jake e por alguns comentários fortuitos do marido,
Samantha descobrira que os interesses de Morgan não se
restringiam ao rancho, como imaginara. Ele era sócio de outras
propriedades na América do Sul e na Austrália, possuía ações de
minas em Nevada e na África, e estava envolvido em outros
empreendimentos nos Estados Unidos e na Europa. Como nas
primeiras semanas do casamento, Morgan passava quase o tempo
em que estava em casa no escritório, geralmente ao telefone.
Mesmo dispondo do dinheiro que havia recebido pelo casamento,
ele trabalhava muito, e Sam sentia um respeito crescente pelo
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homem com quem estava vivendo. E o amava a ponto de
esquecer o resto do mundo.
Em muitas noites, quando ele estava em casa, dormiam
juntos. Morgan ia procurá-la em seu quarto quando concluía o
trabalho em seu escritório, geralmente tarde da noite. Com
exceção da primeira vez, ela só passara mais uma noite na cama
do marido.
Ainda chorava antes de dormir, quase todas as noites, mas
as lágrimas não eram mais de vergonha. Há algum tempo admitira
que seu desejo era tão intenso quanto o dele. Agora chorava de
frustração e medo. Frustração por ter de usar uma máscara e
esconder seus verdadeiros sentimentos. Medo de um dia Morgan
perder o interesse físico e deixá-la sozinha também à noite.
Passava muito tempo sozinha, e agora, no início de agosto, a
solidão começava a se fazer notar. Estava perdendo peso. Comia
muito pouco quando Morgan estava em casa e quase nada quando
ele não estava. Sara tentava convencê-la a se alimentar melhor,
mas era inútil. Não sentia fome. Não por comida.
O tempo era pesado, os dias eram longos demais. Os
pequenos trabalhos que ela encontrava para fazer, como as
tarefas domésticas e uma ou outra receita na cozinha, não a
ocupavam realmente.
Cavalgar sozinha também havia perdido o encanto. Nadava,
tomava longos banhos de sol e lia. E andava. E queria gritar.
Estava ficando tensa, carrancuda, e aos poucos era
consumida pelo ciúme. Morgan estava sempre fora de casa. Uma
noite antes de partir, ele informava casualmente que passaria
alguns dias longe. Dias que quase sempre se transformavam em
semanas. Havia outra mulher. Samantha estava certa disso.
Talvez mais de uma. Quando não estavam juntos, ela era capaz de
odiá-lo com fervor impressionante.
Sam havia deixado o rancho apenas duas vezes ao longo
dos quatro meses e meio desde que se mudara para lá. E para
uma mulher habituada a percorrer o mundo sempre que a vontade
surgia, o confinamento também não era fácil.
Numa noite de sexta-feira, pouco depois de ter comprado o
avião, Morgan informou que iria a San Francisco na manhã
seguinte e a convidou a acompanhá-lo, sugerindo que fizesse
compras enquanto ele trabalhava. Depois jantariam juntos, iriam
ao teatro, passariam a noite hospedados em um bom hotel, e
voltariam para casa no domingo de manhã. Sam respondeu com
tom calmo, temendo revelar sua euforia, e explicou que aceitaria o
convite por estar realmente precisando comprar algumas coisas.
Ao ver a expressão estranha no rosto de Morgan, ela imaginou se
ele não havia feito o convite impelido pela certeza de que ela o
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recusaria. De qualquer maneira, a viagem foi maravilhosa e cheia
de agradáveis surpresas.
Além do temperamento ameno e relaxado de Morgan, uma
surpresa, depois de todos os dias de tensão e frieza no rancho,
Sam comprou algumas poucas coisas e passou horas vendo
vitrines, um de seus passatempos preferidos. Quando voltou ao
hotel e encontrou Morgan no quarto, ela se surpreendeu.
— Passou tanto tempo fora para comprar só isso? — ele
perguntou com tom calmo.
Samantha havia adquirido um par de luvas para cavalgar,
duas camisas de seda e uma calça jeans branca. Estava satisfeita
com suas aquisições, mas, certa de que Morgan não se
interessaria por elas, nem pensou em mostrá-las. Em vez disso,
ela se jogou na cama e anunciou que descansaria um pouco antes
do jantar. E adormeceu em seguida.
O jantar foi supremo, o show foi inesquecível, e a noite de
amor foi ardente. Sam voltou ao rancho mais do que feliz, uma
felicidade que não durou muito, porque nas semanas seguintes
Morgan parecia estar mais ausente do que nunca.
No início de junho, quando ele viajava mais uma vez, e
Samantha julgava estar no período mais difícil do mês, ela decidiu
que precisava sair um pouco de casa, ou acabaria enlouquecendo.
Numa decisão intempestiva, decidiu ir visitar Babs e passar alguns
dias com a amiga. Conversavam freqüentemente por telefone,
mas não voltara a vê-la desde o dia do casamento. O Jaguar prata
que Morgan havia comprado depois de consultá-la estava na
garagem. Na noite anterior, Jake havia levado o patrão à pequena
pista de pouso construída no limite norte da propriedade e
guardara o carro ao voltar.
Apressada, jogou algumas roupas na mala e partiu antes
que pudesse mudar de idéia. Sara ficara surpresa com a notícia de
seu afastamento por alguns dias, mas não tivera tempo para
interrogá-la. Dirigir o Jaguar não a preocupava. Estava acostumada
a guiar veículos possantes desde que completara a maioridade e
tirara sua licença. O que a inquietava eram as palavras de Morgan
no dia em que a fizera escolher se viveria com ele ou iria embora:
“Se quiser sair, terá de ir comigo.” Censurando-se pela
preocupação sem sentido, disse a si mesma que sairia e se
divertiria. E foram dias de muita diversão, apesar da angústia
causada pela atmosfera amorosa e aconchegante da casa da
amiga.
Morgan voltou para casa um dia depois de Samantha.
Esperando, como uma covarde, pelo melhor momento de contar
que havia estado fora, foi pega de surpresa quando, no meio do
jantar, ele a encarou e disse:
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— Fez uma boa viagem, Samantha?
Incapaz de acreditar que Sara ou Jake poderiam ter revelado
alguma coisa, ela gaguejou:
— Como… como soube…?
— Devia ter completado o tanque. O Jaguar gasta muito
combustível.
— Ah…
— Onde esteve?
A voz dele se tornara mais dura.
— Fui visitar Babs — ela disparou irritada, ressentida por ser
tratada como uma prisioneira. — Todos sentimos sua falta —
acrescentou, lamentando o comentário ao ver os olhos dele
ganharem um novo brilho.
— Na próxima vez em que quiser ver Babs, fale comigo e
iremos juntos, se eu puder me ausentar dos negócios. Se não, nós
os convidaremos para vir aqui. Nunca mais saia sozinha,
Samantha. Estou falando sério.
Por que permitia que ele a intimidasse? Nunca em toda sua
vida recebera ordens de um homem! E não gostava da
experiência.
Dois meses mais tarde, embora Morgan não houvesse se
ausentado tanto nas semanas anteriores, Sam quase não o via.
Jantavam mais tarde, pois ele ficava fora enquanto a luz do dia
perdurasse, e ele ia visitá-la em seu quarto mais cedo do que
antes, às vezes apenas para dormir abraçado a ela.
Sam trabalhava aproveitando o frescor da manhã, cuidando
do canteiro de hortaliças que Jake a ajudara a plantar atrás da
casa, perto da porta da cozinha. Morgan havia viajado dois dias
antes, pela primeira vez em semanas, e ela se sentia deprimida e
carrancuda como o tempo, que desde a tarde anterior estava
fechado e ameaçador. Nuvens baixas e pesadas aumentavam a
sensação de calor, e ela se sentia desconfortável e solitária.
Por isso se levantou de um salto enquanto removia as luvas
ao ouvir o som do motor do Jaguar. Morgan estava entrando na
garagem. Correndo, Sam contornou a casa e alcançou o veículo
antes de o motor ser desligado.
As linhas de tensão já não marcavam o rosto de Morgan, e
ele parecia muito mais relaxado do que nas semanas anteriores.
Samantha teve certeza de que o marido havia estado com outra
mulher.
Ao vê-la, ele sorriu e quase a fez acreditar que estava feliz
por reencontrá-la.
— Que tempo horrível! Que diabos está fazendo aqui fora
com esse calor infernal, sua ruiva maluca? Por que não foi nadar
ou relaxar à beira da piscina?
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Jamais admitiria, mas adorava quando ele a chamava de
ruiva. Para ela, o termo se tornara uma espécie de substituto para
as palavras carinhosas que jamais ouviria de Morgan.
— Olha só quem está falando! — respondeu, adotando um
tom brincalhão para não arruinar o bom humor do marido. — Você
sempre trabalha no calor!
—Por que não tenho como escapar desse suplício—ele
mentiu. E riu.
Quem seria essa mulher que tinha a capacidade de fazer
Morgan rir e se divertir com os fatos corriqueiros do cotidiano?
Ele a abraçou e os dois entraram em casa pela porta da
cozinha.
— Onde está Sara?
— Foi à cidade com Jake para fazer algumas compras.
— Quer dizer… que está sozinha aqui? — De repente a voz
dele soava dura, gelada.
— Sim, estou. E não me incomodo. Gosto de estar sozinha.
— Eu sei. — O comentário possuía um significado oculto que
ela não conseguiu captar. — E o almoço?
— Morgan, sou perfeitamente capaz de preparar meu
próprio almoço! Pelo amor de Deus!
— Eu sei que é. Mas e o meu?
Mais uma vez, ele havia mudado de atitude. Estava
novamente relaxado e risonho, como se tudo fosse motivo para
brincar e fazer piadas.
— Ora… é claro que também posso fazer o seu almoço! Mas
são apenas dez e meia e… Já está com fome?
— Não. Quero dizer, não para almoçar… Tenho uma idéia,
Ruiva. Só preciso de meia hora para examinar os recados que Sara
deixou em minha mesa durante minha ausência, e depois iremos
para a piscina.
Sam não conseguia esconder a surpresa. Ele falava
casualmente, como se nadassem juntos todos os dias, quando
nunca haviam compartilhado a piscina.
— Eu… sim, está bem. Vou tomar um banho enquanto você
vai ao escritório.
Sob o jato de água morna, ela lutava inutilmente contra o
entusiasmo que crescia em seu peito. Sentia-se quase agradecida
pela mulher que mandara Morgan de volta naquele maravilhoso
estado de espírito!
Quando se enxugava, ela concluiu que estava ficando
maluca. A felicidade morreu como uma flor sem água e exposta ao
sol. A idéia de agradecer a amante de Morgan pelas migalhas de
satisfação que ele proporcionava à desolada esposa quando
retornava de suas aventuras era repugnante. E o amor era um
48
sentimento degradante, porque destruía o orgulho, a auto-estima
e o amor próprio do ser humano.
— Estou indo para a piscina, Ruiva!
A voz de Morgan do outro lado da porta interrompeu a
amarga reflexão, e ela foi para o quarto vestir o biquíni. Não havia
dúvida de que emagrecera. Muito. Não gostava do que via no
espelho. Os ossos do quadril e dos ombros pareciam maiores, e
havia sombras escuras sob os olhos sem brilho. Que mulher
lamentável era aquela?
Parada ao lado da piscina, Sam viu os braços de Morgan
executando movimentos vigorosos e precisos. Ao chegar na borda
da piscina e executar a batida para retornar, ele a viu e nadou em
sua direção. Molhado, com as pernas afastadas e os cabelos
brilhando, ele se mantinha em pé diante dela como um deus
grego, poderoso e ameaçador, porém magnífico em sua glória.
— Quantos quilos perdeu desde que nos casamos, Ruiva?
Não tem se sentido bem? Não está grávida, está?
— É claro que não. E tenho me sentido muito bem. Deve ser
o calor, só isso. Nunca chove aqui?
— Raramente. — Ele olhou para cima e examinou as nuvens
negras. — Mas parece que hoje será um desses raros dias em que
teremos chuva. Venha, vamos nadar enquanto podemos. — Com
essas palavras, ele a tomou nos braços e pulou na água,
divertindo-se com o grito chocado de Samantha.
Nadaram juntos por algum tempo, até que, notando que
Sam parava para respirar, ele se aproximou para beijá-la.
— Vamos sair daqui, Ruiva. Estou com fome — murmurou
depois do beijo. — E ainda não é por comida.
Duas horas mais tarde, Sam preparava uma omelete
vestindo apenas o roupão, quando Morgan entrou na cozinha,
também de roupão.
— Um dos recados sobre a minha mesa era do escritório de
Baker.
Sam virou-se assustada.
— Ei, vai queimar o nosso almoço!
— Mas o quê…?
— Vamos comer, está bem? Depois conversaremos com
calma. — Comeram em silêncio a omelete e a salada verde que
ela havia preparado mais cedo, e ainda estavam sentados à mesa
quando Samantha perguntou:
— O que os advogados querem conosco?
— Parece que há alguma pendência com relação às nossas
finanças, e eles querem que eu vá a Nova York resolver o
problema.
— Você vai?
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— Suponho que sim. Não há outra maneira de resolver essa
pendência, concorda?
Sam assentiu lentamente.
— Posso ir com você, Morgan?
— Quer ir comigo a Nova York?
— Seria ótimo.
— Bem, vejamos… Podemos fazer um acordo.
— Que tipo de acordo? — ela perguntou desconfiada.
— Eu a levo para o Leste comigo, e passaremos uma
semana em Long Island para que você possa comemorar seu
aniversário com a família.
— Mas?
— Mas… tenho duas condições.
— Quais?
—A primeira é que se mude para o meu quarto e passe a
dormir na minha cama a partir desta noite. A segunda é que não
vai mais chorar em silêncio toda vez que fazemos amor.
Então ele não estivera dormindo.
Samantha hesitou por alguns instantes, mas acabou
aceitando a proposta com um sussurro resignado.
— Está bem, eu aceito o acordo.
Morgan levantou-se e contornou a mesa para ir abraçá-la.
Depois de colocá-la em pé sem nenhum esforço e beijá-la
demoradamente, ele sorriu.
— Agora nosso acordo está selado. Acha que estará pronta
para partir no final da semana?
— Sim — ela murmurou mais uma vez.
Morgan fez um movimento afirmativo com a cabeça. Depois,
sem dizer nada, saiu da cozinha.

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Capítulo VI

Sam encostou a cabeça no couro macio do banco do carro


alugado e suspirou aliviada. Havia esquecido como era Nova York
em agosto.
— Cansada?
— Não muito. — Ela mudou de posição no banco. — O ar-
condicionado é um alívio depois do calor no aeroporto.
— Humm… — Morgan prestava atenção ao trânsito. A
estrada era um pesadelo para os motoristas que se dirigiam ao
centro da metrópole naquela manhã de segunda-feira.
— Parece preocupado.
— Não realmente. Eu estava pensando… Quando chegarmos
em Long Island, teremos de agir como recém-casados.
— Eu sei. — Também havia pensado nisso, e o assunto a
inquietara ao longo dos últimos seis dias. Morgan não pudera
ausentar-se do rancho no final da semana, conforme planejava, e
a viagem tivera de ser adiada, o que a deixara com mais tempo
para preocupar-se.
Nesse período, cumprira sua parte no acordo e se mudara
para o quarto de Morgan. Telefonara para Mary informando que
iriam visitá-la, só para, alguns dias depois, dar outro telefonema
avisando sobre o adiamento da viagem. A tensão e a ansiedade a
consumiram, até que, naquela manhã, Morgan a acordara e
dissera que partiriam em uma hora. A viagem aérea havia sido
tranqüila, porque ele pilotava o avião com a mesma habilidade
com que dirigia um carro.
Estavam chegando ao centro da cidade. Morgan iria para o
escritório do advogado, e ela aproveitaria para comprar algumas
roupas, já que perdera tanto peso que poucas peças ainda caíam
como deviam. Compraria também um vestido, pois sabia que Mary
planejava uma festa para a noite de sexta-feira, uma celebração
atrasada do casamento e uma comemoração de seu aniversário.
Pensar nisso a deprimiu. Estava completando vinte e cinco anos. E
Morgan havia esquecido. E por que ele lembraria?
No hotel, Morgan dispensou o carro alugado, perguntou se
ela precisava de dinheiro e, ao ouvir a resposta negativa,
despediu-se atrasado para ir à reunião com o sr. Baker, o
advogado.
Sozinha na suíte, Sam foi ao banheiro para refrescar-se e
examinou o rosto refletido pelo espelho. Não gostava do que via.
Estava magra e pálida, e os cabelos presos não colaboravam para
amenizar o ar abatido. Precisava fazer alguma coisa.
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Decidida, ela voltou ao quarto e telefonou para o
cabeleireiro que costumava freqüentar.
— Charles? Samantha Wa… Denning.
— Samantha! Onde tem estado, querida? Não há vejo há
muito tempo!
— Eu viajei… e me casei.
— Céus! Por que alguém pensa em cometer essa loucura? —
ele riu. — O que posso fazer por você, querida?
Sam sorriu ao ouvir o tom afetado da voz de Charles. Sabia
que muitas pessoas duvidavam de sua masculinidade, mas não
ela. Depois de várias tentativas mal-sucedidas para seduzi-la, ele
aceitara a derrota graciosamente e agora eram bons amigos.
— Meu cabelo está horrível, e vai haver uma grande
comemoração no final da semana. Você precisa me ajudar!
— Bem, você sabe que não costumo abrir o salão às
segundas, mas estou aqui cuidando da papelada e
supervisionando a limpeza e… Ah, venha até aqui e veremos o que
posso fazer.
— Obrigada, Charles. Você é um amor!
Seis horas mais tarde, Sam entrou no elevador do hotel e
pressionou o botão do andar onde estava hospedada. Sentia-se
exausta, mas estava satisfeita. Carregava apenas um pacote,
porque enviara todas as compras, menos aquela roupa em
especial, para o endereço em Long Island. Sorrindo, levou a mão
aos cabelos e tocou os caracóis soltos. Adorava o novo corte
repicado e rebelde. Era como se houvesse reconquistado sua
liberdade.
Rebelde… Liberdade…
Não havia cometido nenhum ato de rebeldia nos últimos
tempos, e nunca mais seria livre.
Quando entrou no quarto, ela viu Morgan sentado em uma
poltrona próxima da janela. Relaxado, ele lia o Times e parecia
distraído. Ao ouvir seus passos, ele ergueu a cabeça e parou como
se algo o imobilizasse.
— Gostou? — Samantha perguntou nervosa.
Ele dobrou o jornal e deixou-o no chão sem desviar os olhos
dos dela. Depois respondeu:
— Você parece uma feiticeira ruiva. E deve ser, porque me
encantou com seus poderes. Já posso sentir os efeitos desse
encantamento. Venha, Samantha…
— Morgan, estou suada, cansada e…
— Venha…
— E faminta. Quero comer…
— Samantha.
Sam aproximou-se dele lentamente, jogando o pacote e a
52
bolsa sobre a cama ao passar por ela. Morgan a enlaçou pela
cintura e beijou-a. Depois recuou um passo e tirou um pequeno
objeto do bolso da calça. Atônita, Samantha o viu colocar em seu
dedo o mais lindo anel de esmeralda, diamantes e platina que
uma mulher podia sonhar ter.
— Morgan! É lindo, mas…
— Feliz aniversário, minha feiticeira ruiva.
— Oh, eu… não sei o que dizer.
Ele a abraçou novamente e, com os lábios roçando nos dela,
murmurou:
—Não precisa dizer nada. Existem outras formas de
demonstrar gratidão.
— Está com fome?
A voz rouca de Morgan a despertou. Samantha abriu os
olhos, virou a cabeça e o viu totalmente vestido e sentado na
poltrona ao lado da janela.
— Faminta — ela respondeu sonolenta. E fechou os olhos
mais uma vez.
Voltara ao hotel no final da tarde anterior sonhando com um
jantar maravilhoso, e acabara indo para a cama sem comer nada.
Depois dos momentos de paixão ardente nos braços do marido,
acabara adormecendo sem se alimentar.
— Que horas são?
— Nove e meia.
Ela abriu os olhos assustada.
— Nove e meia? Por que não me acordou? Dave estará aqui
com o carro às onze. — Ela sentou-se e segurou o lençol contra o
corpo nu.
Morgan parecia perfeitamente confortável onde estava, e
sabia que ele não teria a delicadeza de sair para dar a ela alguma
privacidade. Sendo assim, Sam embrulhou-se no lençol e foi para o
banheiro quase correndo, fingindo não ouvir as gargalhadas que
ecoavam do outro lado da porta.
Deixaram o hotel às onze em ponto, exatamente quando o
Cadillac escuro parava junto ao meio-fio. O motorista correu a
abrir a porta traseira, incapaz de esconder o choque diante da
intensa transformação ocorrida com sua patroa.
Elegante no vestido clássico que comprara no dia anterior,
Samantha aproximou-se com a mão estendida.
— Como vai, Dave?
— Muito bem, obrigado. Seja bem-vinda, senhorita…
senhora.
— Este é meu marido, Morgan Wade. — Virando-se para o
lado, ela sorriu com frieza e acrescentou: — Querido, este é nosso
motorista e amigo, Dave Zimmer.
53
Os dois homens trocaram um olhar sério e silencioso. Depois
Dave estendeu a mão, e Morgan aceitou o cumprimento.
— Garanto que estou cuidando muito bem dela, Dave.
— Sim, senhor. É um prazer conhecê-lo, sr. Wade. —
Acomodados no confortável banco traseiro do Cadillac, eles se
prepararam para enfrentar o horrível trânsito de Nova York.
Samantha ia pensando em como seria o encontro entre Mary e
Deb e seu marido. Morgan estava encantador na calça esporte de
cor caramelo que ele combinava com uma camisa branca. Seus
olhos brilhavam, a pele era viçosa, e o homem não tinha nem a
gentileza de parecer cansado.
Finalmente, Dave parou o carro na frente da casa de sua
família e desligou o motor.
— É um lugar muito elegante — Morgan elogiou ao descer
do veículo.
Sam ainda estava saindo do automóvel quando a porta da
casa se abriu e uma mulher morena e pequenina apareceu na
varanda. Emocionada, ela desceu a escada correndo para ir
abraçar a recém-chegada.
— Sam!
Samantha abraçou a meia-irmã e depois a segurou pelos
ombros, sorrindo ao encará-la.
— Meu Deus, você está radiante!
— Oh, Sam, senti tanta saudade! Parece que não a vejo há
anos! — Com lágrimas nos olhos, Deb virou-se para Morgan e
estendeu a mão. — Como vai?
Morgan segurou a mão dela entre as dele e assumiu um tom
de ternura ao dizer:
— Nunca tive uma irmã, mas, se tivesse, gostaria que ela
fosse como você, morena, delicada e cativante. Quer ser minha
irmãzinha, Deb?
— Será uma honra e uma grande alegria para mim, Morgan
— a jovem respondeu com um sorriso cintilante.
Morgan abraçou-a.
— Ei, não se entusiasme muito com isso, Deb.
A voz de Bryan atraiu a atenção de todos para a escada da
varanda.
Rindo, Deb estendeu a mão para o noivo, que se aproximou.
— Querido, este é Morgan, e ele é meu novo irmão. Trate-o
muito bem, está ouvindo?
— Desde que ele não transforme em hábito o abraço que
acabei de testemunhar…
Os dois homens riram e trocaram um forte aperto de mão.
— É um prazer, Bryan.
— O prazer é todo meu, Morgan. — O rapaz olhou para
54
Samantha e sorriu com imenso carinho. — Seja bem-vinda, Sam.
— Obrigada, querido. — Ela o abraçou.
— Ei, prefiro que as demonstrações de afeto sejam menos…
explícitas — Morgan informou com tom debochado.
Rindo, os quatro entraram e foram para a sala de estar,
onde Mary os esperava. Ao ver o quarteto entrando, ela se
levantou e estendeu as mãos com a elegância habitual.
— Samantha, querida. Não imagina como é bom vê-la e tê-la
conosco em casa mais uma vez.
Sam correu para a madrasta e beijou-a no rosto.
— É maravilhoso estar aqui, mãe. — Ela se virou para a
porta. — Quero que conheça Morgan.
Ele se aproximou e segurou a mão de Mary com um misto
de delicadeza e confiança.
— É uma alegria poder finalmente conhecê-la, sra. Denning.
Posso chamá-la de Mary?
— Sim, certamente.
— Vejo que é tão adorável quanto Sam disse que era.
— E você é um sedutor — Mary respondeu rindo.
— Por favor, não conte a ninguém!
— Será nosso segredo. Bem, imagino que queiram se
refrescar. Samantha, vocês vão ficar em seu quarto, é claro. Leve
Morgan até lá e voltem para almoçar assim que estiverem prontos.
Assim que fechou a porta do quarto, Sam encarou o marido
e sussurrou:
— Obrigada.
— Por quê?
— Por ter sido tão gentil com eles. Essas pessoas são muito
importantes para mim.
— Eu sei. E foi fácil tratá-los com gentileza. Todos são muito
agradáveis. Afinal, o que esperava que eu fizesse?
— Não sei, mas confesso que tive um certo receio.
— Posso imaginar — ele riu. — Vivemos juntos há cinco
meses, e você ainda não me conhece.
Samantha tomou uma decisão. Estava em sua casa, em seu
quarto, e por maior que fosse seu amor por esse homem, não
permitiria que ele a intimidasse.
— Eu o conheço tanto quanto considero necessário. — A
gargalhada de Morgan a surpreendeu.
— Não vai funcionar, Ruiva.
— Do que está falando?
— Você sabe. Pretende aproveitar que estamos aqui para
colocar-me em meu lugar. Não é isso? Não vai conseguir, mas
divirta-se tentando. Pode ter certeza de que vou me divertir
observando seus esforços.
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— Sabe de uma coisa, Morgan? Você é um bastardo
arrogante. — Ele atravessou o quarto com passos largos e
segurou-a pelos ombros, os olhos iluminados por um brilho
ressentido.
— É isso que pensa de mim?
— Desculpe…
— Nunca peça desculpas por dizer o que pensa de mim. Sou
seu marido e, seja qual for sua opinião, temos um acordo, e
cumprirei minha parte nele. — A raiva desapareceu
repentinamente, e em seu lugar surgiu uma expressão de
cansaço. Ele a soltou e deixou os braços caírem ao longo do corpo.
— Sua família está nos esperando para o almoço. Não devemos
demorar… querida.
Sam tremia enquanto lavava o rosto e retocava a
maquiagem. Tinha mais medo de Morgan quando ele estava calmo
e controlado do que quando ele ficava zangado.
O nervosismo cresceu nos dias seguintes. Tinha a sensação
de estar vivendo com duas pessoas diferentes. Quando estavam
sozinhos no quarto, Morgan era reservado e distante. Mal falava
com ela e, pela primeira vez desde aquela primeira vez em que a
levara para a cama e a fizera sua mulher, não a tocava à noite.
Quando estavam com outras pessoas, ele era atencioso e gentil, e
o tratamento carinhoso parecia tão natural quanto respirar ou
caminhar.
Mary e Deb não haviam falado com ninguém sobre a visita
de Sam, pretendendo garantir a privacidade da família nesses
primeiros dias do reencontro, antes da festa. Sam e Morgan
passavam o tempo cavalgando com Deb e Bryan, ou relaxando à
beira da piscina, compondo a perfeita imagem de um feliz grupo
familiar.
Na sexta de manhã, Samantha se sentia inquieta e
apreensiva. Morgan conheceria seus amigos na festa e, nervosa,
ela tentava antecipar o que todos pensariam dele e, mais
importante, o que ele pensaria de todos.
Pouco depois do café, ela ficou sozinha enquanto Mary e
Deb iam comprar alguns itens de última hora para a
comemoração. Morgan já havia saído quando ela acordara, e ainda
não voltara para o café. Inquieta, ela pegou a bolsa e saiu. Iria dar
um passeio de carro. Dirigir sempre a acalmara. Além do mais,
não via seu carro há meses, desde que viajara. Sabia que o
encontraria em perfeito estado de conservação na garagem, mas
seria bom colocar o motor para funcionar.
— Vai a algum lugar, Ruiva?
A voz de Morgan interrompeu seus pensamentos, e ela
parou assustada e levantou a cabeça. Ele estava apoiado no
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Cadillac parado na porta da garagem.
— Não ouvi o carro — ela respondeu confusa.
Morgan estivera cavalgando, a julgar pelas roupas que
usava. Sempre que o via experimentava aquela intensa dor, como
uma dilaceração emocional. Tudo que queria era abraçá-lo, beijá-
lo e confessar seu amor, mas sabia que isso era impossível, e a
frustração trazia em sua esteira o ressentimento. Por que fora se
apaixonar justamente por um caubói arrogante que a desprezava?
— Estou aqui há algum tempo — ele explicou. — E fiz uma
pergunta.
Quem ele pensava que era para tratá-la daquela maneira?
Samantha adotou um tom frio.
— Vou sair de carro.
— Dave vai dirigir?
— É claro que não! Vou sair no meu carro.
— Eu vou com você.
— Não vai.
— Eu disse que vou com você.
Sam encarou-o furiosa por um instante. Depois entrou na
garagem, sentou-se ao volante do pequeno Miata azul e saiu do
edifício com uma manobra precisa.
Morgan acomodou-se com alguma dificuldade no banco do
passageiro.
— Você tem um belo brinquedinho aqui. — Ela sorriu com
falsa doçura.
— Espero que esteja confortável… querido.
Morgan retribuiu o sorriso e, num acesso de fúria, ela pisou
fundo no acelerador. Durante os trinta minutos seguintes,
Samantha percorreu a estrada como se mil demônios a
perseguissem. Ele se manteve em silêncio até voltarem ao ponto
de partida, e então a encarou com um ar que sugeria tédio.
— Sente-se melhor agora, Ruiva?
A aparente indiferença fez explodir a raiva que fervia dentro
dela. Sam reagiu sem pensar. A mão o atingiu no rosto com
violência espantosa, e depois cobriu seus lábios numa resposta
horrorizada e arrependida. Podia ver as marcas de seus dedos
compondo um desenho vermelho sobre a pele morena.
— Está se comportando como uma menina muito mimada,
Samantha, e estou cansado disso. É melhor tomar cuidado, ou vai
acabar descobrindo que começou algo que não pode terminar.
Rígida, Sam o viu descer do carro sem olhar em sua direção.
Apesar da tensão, Samantha conseguiu comer um pouco de
salada no almoço, mas não jantou, prometendo a Mary que iria
dormir um pouco antes da festa. E ela realmente dormiu, mas só
depois de engolir dois comprimidos de analgésico e passar meia
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hora deitada e imóvel. Quando acordou, ela descobriu que Morgan
já havia tomado banho e terminava de vestir-se. Sem dizer nada,
foi para o banheiro e tomou um banho demorado, deixando a água
quente lavar a tensão de seu corpo. Quando voltou ao quarto, já
maquiada, Morgan havia saído.
Sozinha, vestiu a calcinha de renda branca e calçou as
sandálias douradas de saltos altos e finos. Depois aplicou algumas
gotas de um perfume suave e cítrico, escovou os cabelos de forma
a implementar o ar rebelde conferido pelo novo corte e,
apreensiva, foi até o armário e pegou o vestido que comprara para
a ocasião, vestindo-o antes que perdesse a coragem. Por que o
escolhera? Não era seu estilo, ela decidiu diante do espelho.
Confeccionado em seda branca, ele contrastava com a pele
ainda mais dourada depois do sol do Oeste. As alças finas
deixavam à mostra mais do que ela gostaria de revelar, e o corte
do vestido parecia tornar sua cintura ainda mais fina. O tecido
envolvia o quadril com uma suavidade insinuante e descia até o
chão, alongando a silhueta.
Morgan não aprovaria sua escolha. Olhando para o relógio,
ela se deu conta de que já estava atrasada e, erguendo o queixo,
saiu do quarto.
Morgan foi a primeira pessoa que ela viu ao descer a escada.
Ele conversava com Mary e alguns de seus amigos e, como se
sentisse sua presença, virou-se devagar para olhar em sua
direção, depois ficou completamente imóvel. A reação durou
apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para que ela
soubesse que o marido estava zangado. Muito zangado. Samantha
continuou descendo a escada, tentando controlar a respiração
ofegante, e foi com apreensão ainda maior que ela viu Morgan se
desculpar e afastar-se do grupo para caminhar em sua direção.
Parado ao pé da escada, o rosto rígido como se fosse entalhado
em pedra. Uma voz se ergueu entre os convidados.
— Sam, querida, se queria fazer uma entrada triunfal, saiba
que atingiu seu propósito. Você está deslumbrante.
Morgan afastou-se antes que ela, agora ao pé da escada,
sorrisse e colocasse a mão naquela estendida em sua direção.
Jeffrey Hampton continuava tão atraente quanto antes. Alto
e louro, ele sorria com os olhos iluminados pela admiração.
— É bom vê-la novamente, anjo — ele murmurou depois de
beijá-la no rosto. — O verão foi longo e tedioso sem sua presença
por aqui.
Sam riu.
— Jeffrey, não devia estar dizendo isso. Soube que ficou
noivo no verão!
— E daí? Isso não me impede de amá-la loucamente e sentir
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sua falta.
— Jeff, comporte-se! — Rindo, Samantha lembrou os bons
momentos que passara com aquele amigo tão querido. Recusara
dois pedidos de casamento de Jeffrey, mas continuara saindo com
ele e desfrutando de sua agradável companhia. Eram bons amigos
e sempre se divertiram muito quando estavam juntos.
Agora era impossível deixar de compará-lo ao homem com
quem se casara. Como sempre, Jeffrey estava muito elegante num
Armani azul-escuro que contrastava com seus cabelos claros.
Enquanto ele a conduzia ao salão, um espaço amplo que havia
sido liberado de todos os móveis e preenchido por risadas e vozes
animadas, Samantha se deu conta de que nem havia notado o que
Morgan vestia.
Olhando em volta, encontrou-o do outro lado da sala, parado
perto da lareira, completamente relaxado, saboreando um drinque
e sorrindo para a jovem que falava com ele. Vê-lo foi o suficiente
para renovar os tremores que a importunavam antes de sair do
quarto. O terno preto tinha um caimento perfeito e realçava os
músculos de seu corpo esguio, e o tom moreno da pele, com
conjunto com os cabelos negros, davam a ele um ar másculo e
imponente. Morgan sorria para Carolyn Henkes… a noiva de
Jeffrey.
Sam nunca simpatizara muito com Carolyn, e agora, quando
a via bater as longas pestanas maquiadas para seu marido, ela
decidiu que gostava ainda menos da jovem. Não havia como negar
sua beleza. Com cabelos louros emoldurando um rosto delicado e
pálido iluminado por grandes olhos azuis, ela lembrava uma frágil
boneca de porcelana. Podia ser doce e graciosa, mas igualmente
amarga e maldosa, se sentisse que seus interesses eram
ameaçados. E Morgan parecia cativado por ela.
Jeffrey riu, uma indicação de que acompanhara seu olhar.
— Parece que minha noiva está muito impressionada com
seu marido.
Alguns minutos mais tarde, quando a música começou, Sam
sentiu o braço de Morgan em sua cintura e ouviu sua voz rouca.
— Acho que devemos dançar a primeira música… querida. —
ele a levou para a área vazia em um extremo da sala. Quando a
tomou nos braços e fitou-a sorrindo, Morgan era a imagem do
marido feliz e dedicado. Mas Sam sentia a apreensão crescendo
dentro dela, porque todos os músculos do corpo do marido
estavam tensos e a voz soava gelada em seu ouvido quando ele
sussurrou:
— Que diabo está tentando provar com esse vestido?

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Capítulo VII

Seis horas mais tarde, Sam entrou no quarto pronta para


enfrentar uma violenta discussão. Comera pouco, bebera
champanhe demais, e mal podia esperar por uma conveniente
válvula de escape para a tensão que a dilacerava.
A festa fora um tormento. Depois daquela primeira dança,
Morgan não voltara a falar com ela, mas seus olhos haviam
transmitido uma mensagem silenciosa e ressentida. Ele dançara
com todas as mulheres, conversara com todos os homens e fora
apresentado a todos os convidados não por ela, mas por Carolyn
que, pendurada em seu braço como uma samambaia, lançava
olhares maldosos em sua direção.
Jeff havia sido sua sombra durante toda noite. Com o passar
do tempo ele fora se tomando mais íntimo, passando um braço em
tomo de sua cintura ou sobre seus ombros enquanto conversavam
com amigos comuns. Quando dançavam, a mão dele se tomava
mais ousada e acariciava suas costas nuas. Sam o censurara e
exigira que parasse. Jeff rira e, segurando a mão dela, a levara ao
jardim iluminado. Em um canto mais escuro e afastado, ele a
tomara nos braços e beijara.
Sam o empurrara imediatamente, indignada e ofendida, e
ameaçara afastar-se sozinha, mas voltara e se dirigira ao salão
sem dizer nada.
Trêmula, ela bebera uma taça de champanhe pensando no
que acabara de ver. Sob uma árvore frondosa, Carolyn e Morgan
pareciam íntimos enquanto sorriam e conversavam, ele com as
mãos sobre os ombros dela, ela tocando seu braço num gesto
insinuante. Fora preciso um grande controle emocional para
afastar-se sem reagir, pois o primeiro impulso havia sido de atirar-
se contra Carolyn e desfigurar aquele rosto perfeito com suas
unhas.
Ela ainda respirava fundo, tentando sufocar o ódio
provocado pela lembrança, quando Morgan entrou no quarto e
fechou a porta.
— Tire essa droga de vestido, antes que eu o arranque de
seu corpo!
Furiosa, ela se virou para encará-lo. A voz soou fria, até
controlada, quando ela respondeu:
— Não tem o direito de falar assim comigo.
— Tem trinta segundos…
Isso não fazia sentido. Tanta fúria por causa de um vestido?
Ela o encarou com a cabeça erguida e os olhos brilhantes.
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— Morgan, não entendo o que está…
— Ah, não entende? — Ele se aproximou com passos lentos,
mas era evidente que a fúria aumentava a cada instante. —
Vejamos se consigo ser mais claro. Esse seu vestido é um convite
aberto a investidas e abordagens de todos os tipos. Você é minha
esposa, Samantha, minha mulher! Usa o meu nome! E o que tem
minha marca me pertence. Não divido meus bens e minhas
posses.
— Sua marca? — Ela explodiu. — Sou uma pessoa, Morgan,
não um animal que faz parte do seu rebanho!
— Não foi isso que eu quis dizer. Mas essa aliança em seu
dedo é como minha marca, e enquanto a estiver usando, você me
pertence. E se aquele seu amiguinho ousar tocá-la novamente,
certamente vai acabar no chão. E tire esse vestido de uma vez.
Tremendo como se houvesse sido atingida fisicamente, ela
se virou de costas, abriu o zíper do vestido e tirou-o, deixando-o
cair no chão a seus pés. Numa atitude de desafio, chutou-o para
longe e permaneceu onde estava, coberta apenas pela calcinha
branca.
Rindo, Morgan tirou o paletó, a camisa e a gravata, atirando-
as ao chão ao lado do vestido.
— Não… — Sam correu até a cama para pegar a camisola.
Morgan a segurou pelo braço antes que ela pudesse vestir-se.
— Gostou de sentir as mãos e os lábios do seu amiguinho,
Sam? — As palavras a feriam. Ainda podia ver nitidamente a
imagem de Carolyn sorrindo para ele na escuridão do jardim.
Furiosa, ela se soltou com um movimento violento e
encarou-o.
— Sua besta! Jeff é um velho amigo que me ama! Ele é
gentil, atencioso, e eu devia ter me casado com ele quando recebi
a proposta. Vou vê-lo sempre que quiser, e se quiser ir para a
cama com ele, ninguém poderá me impedir! Ele, pelo menos, não
quer meu dinheiro! —; Tirando o anel do dedo, ela o atirou em seu
rosto. — E você pode pegar sua marca e…
— Chega!
A palavra contida e firme a silenciou.
Samantha encarou-o e sentiu um medo profundo como
jamais havia sentido antes.
— Tente me trair com Hampton, e ele sofrerá as
conseqüências. Entendeu?
Sam assentiu lentamente, os olhos fixos em seu rosto
contorcido, o pânico ameaçando dominá-la.
— Agora, pegue o anel e coloque-o no dedo.
Era uma ordem e, sem questioná-la, ela obedeceu. Mas a
rebeldia ainda existia dentro dela, e Sam usou a ironia como uma
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arma para feri-lo.
— Será que agora posso ir para a cama, por favor? — Ele
sorriu.
— Pensei que nunca pediria.
Morgan aproximou-se para beijá-la, mas ela virou o rosto.
— Não. É tarde, estou cansada e…
— Que pena. — A voz fria a interrompeu, e então ele a
apertou entre os braços e beijou-a novamente.
Samantha lutou com a força conferida pelo desespero.
Esperneou, chutou, deu socos e puxou cabelos, até que, Morgan a
suspendeu do chão e a jogou sobre a cama. Ela ficou ali chocada,
trêmula, vendo-o despir o restante das roupas. Rolando para o
lado, tentou levantar-se e fugir, mas Morgan colocou-se em seu
caminho, empurrando-a de volta para a cama. A luta prosseguiu
violenta, e ele ria enquanto se esquivava de seus golpes. Por duas
vezes, Samantha teve a recompensa de seus esforços. A primeira,
quando as unhas atingiram seu rosto e ele gemeu. A segunda,
quando os dentes arrancaram sangue de um de seus ombros, e
ele sufocou um grito de dor. Sabia que a vitória era impossível,
mas lutaria até esgotar suas forças.
E foi o que aconteceu. Momentos depois, suada e ofegante,
Samantha encarou-o com os olhos cheios de ódio.
— Você é linda, Ruiva — ele sussurrou antes de beijá-la nos
lábios. — E também é uma adversária magnífica, mas perdeu a
batalha. — O beijo roubou-lhe o fôlego e a razão. O dia já brilhava
além da janela quando, exausto, Morgan adormeceu.
Sam ficou deitada e quieta, com um das mãos sobre a boca,
lutando em vão contra as lágrimas que lavavam seu rosto. Estava
tomada pelo desgosto e pela vergonha de si mesma. Jamais havia
imaginado que poderia amar um homem a ponto de perder a
razão e o respeito por si mesma.
No dia seguinte, Sam acordou tarde e estava terminando de
escovar os cabelos quando Morgan entrou no quarto com uma
bandeja de comida.
— Beth me pediu para dizer que deve comer tudo.
— Não estou com fome — ela respondeu ao vê-lo sentar
numa cadeira.
— Samantha, são duas da tarde e você não comeu nada nas
últimas vinte e quatro horas.
Ela o encarou. Morgan estava abatido e cansado, e seu rosto
exibia as marcas deixadas por suas unhas na noite anterior.
O que estavam fazendo um com o outro?
Exausta, ela foi se sentar à mesa diante dele. Na bandeja
havia um bule de café, duas xícaras e um prato coberto. Nele
havia ovos, bacon, duas torradas e muffins com manteiga.
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Sam serviu o café nas duas xícaras e olhou para o marido.
— Eu… sinto muito. Espero que me desculpe pelo que fiz…
com seu rosto.
O riso soou amargo, desprovido de humor.
— Você é uma tigresa, Ruiva. Agora coma. Depois
conversaremos.
Samantha fez um enorme esforço para engolir um pouco dos
ovos com bacon, e depois se reclinou na cadeira com a xícara de
café entre as mãos.
— Agora já podemos conversar — disse.
— Eu disse a Mary que me distraí cavalgando e feri o rosto
em um galho mais baixo. Se alguém fizer perguntas, já sabe o que
dizer. A menos, é claro, que queira revelar a verdade a alguém em
especial.
— Morgan, por favor.
—Mary me contou que fomos convidados para várias
ocasiões, incluindo um jantar dançante no clube hoje à noite e
algumas outras reuniões ao longo do final de semana. Eu disse a
ela que conversaríamos, e depois você daria nossa resposta.
— Certo.
— Agora o mais importante. Gosto muito de sua família,
Samantha, e não vejo motivo para preocupá-los com nossas
dificuldades conjugais. Portanto, sugiro uma trégua. Pelo menos
pelo restante de nossa visita.
— Então… ainda pretende me levar com você quando voltar
para casa?
— Por quê? Por acaso não pretende voltar comigo? Está
pensando em encerrar nosso casamento?
A última coisa que quero é acabar com nosso casamento,
ela pensou. Em voz alta, respondeu cautelosa:
— Imaginei que essa fosse sua intenção.
—Nas atuais circunstâncias, essa seria uma decisão
impossível.
— Sim, eu sei.
Morgan levantou-se, beijou-a nos lábios e começou a
desabotoar a camisa com ar despreocupado.
— Tem planos para o resto da tarde?
— Sim. Tenho uma amiga que possui uma butique não muito
longe daqui, e pensei em ir até lá fazer algumas compras. Por
quê? Queria fazer alguma coisa?
Ele sorriu insinuante.
— Vou tomar um banho e dormir um pouco até a hora do
jantar. É uma pena que não queira me fazer companhia.
— Em qual das atividades?
— Nas duas. Vai comprar alguma coisa para usar esta noite?
63
— Sim. Por quê? — Se Morgan tentasse determinar que tipo
de roupa ela deveria usar, a trégua seria muito breve.
— Compre algo branco — ele removia a camisa de dentro da
calça. — Não aprovei o vestido que usou ontem à noite, mas devo
admitir que branco é perfeito para alguém com o seu bronzeado.
Sem esperar por uma resposta, Morgan virou-se e foi para o
banheiro.
Ao vê-lo remover a camisa enquanto caminhava, Sam viu as
marcas deixadas por suas unhas nas costas do marido e ficou
chocada. Como ousara ir tão longe?
Um gemido abafado deteve os passos de Morgan, que se
virou a tempo de vê-la com uma das mãos sobre a boca.
— O que foi, Sam?
Sua aflição cresceu diante da marca deixada por seus
dentes no ombro musculoso.
— Meu Deus… Não acha que devia tomar algum
medicamento? E se ocorrer alguma infecção?
Ele riu.
— Não se preocupe, minha tigresa ruiva. Tomo vacinas
contra tétano regularmente por causa do meu trabalho no rancho,
e hoje cedo lavei os ferimentos com um poderoso anti-séptico, o
que pretendo fazer novamente depois do banho. Pode ir
sossegada e divirta-se nas compras. — ainda rindo, ele entrou no
banheiro e fechou a porta.
Depois de conversar com Mary e concordar com todos os
planos para o final de semana, Samantha e Deb saíram para a
breve viagem até o centro comercial onde Jean, a amiga de Sam,
possuía uma butique elegante e exclusiva. Magra demais para
ousar no estilo, Samantha escolheu calças e camisas, alguns tops
mais informais e três conjuntos para noite, um deles branco.
Quando chegaram em casa, já era hora de se vestirem para jantar.
Morgan ainda dormia quando Sam entrou no quarto, e ela foi
tomar banho sem fazer barulho, tomando cuidado para não
acordá-lo. Estava parada diante do espelho, vestindo apenas
calcinha e sutiã enquanto aplicava a maquiagem, quando a porta
se abriu e ele entrou.
Só então Morgan viu os hematomas que havia deixado em
seu corpo.
— Meu Deus… E você estava preocupada comigo! — Ele a
abraçou. — Desculpe, Sam. Não tinha o direito… Prometo que isso
não vai se repetir. Nunca mais.
Surpresa com a gentileza que ele nunca havia demonstrado
antes, Samantha respondeu com tom frio:
— Tudo bem, Morgan. Agora é melhor nos arrumarmos. Está
ficando tarde.
64
— É claro. — Ele a soltou e recuou.
Sam notou que ele já estava parcialmente vestido. Faltavam
apenas a camisa, a gravata e o paletó. Levando a bolsa de
maquiagem, ela se retirou do banheiro.
— Imagino que queira se barbear — disse.
Havia terminado a maquiagem e tentava fechar o longo
zíper nas costas do vestido, quando ele voltou ao quarto. Morgan
parou como se estivesse hipnotizado, os olhos fixos nela.
Agitada, Samantha reagiu:
— Não fique aí parado, pelo amor de Deus! Ajude-me com
esta coisa!
Ele sorriu. Depois se aproximou e terminou de fechar o
vestido.
— Vire-se — pediu.
O traje branco era simples e elegante, com mangas longas e
um decote quadrado que, apesar de amplo, não era ousado
demais. A saia justa tinha uma modesta fenda na parte de trás.
— Excelente. Agora fique quieta. — Morgan foi até a cômoda
e abriu uma gaveta, de onde retirou uma caixa de veludo. Sem
dizer nada, ele abriu o estojo, retirou dele um colar e colocou-o no
pescoço de Samantha, A corrente de platina sustentava um
pingente de esmeralda e diamantes.
— Mas… porquê?
— Digamos que é um presente de casamento atrasado. —
Ele se virou para ir buscar uma camisa branca no armário. —
Agora agradeça e saia daqui. Também preciso me vestir.
Hesitante, Sam aproximou-se para beijá-lo rapidamente nos
lábios.
— Obrigada — murmurou.
Depois saiu apressada sem entender nada do que acabara
de acontecer.
A noite foi agradável. A única nota dissonante para
Samantha foi o evidente interesse de Carolyn em Morgan, e o fato
de seu marido parecer retribuir esse interesse. Até Deb, que já
havia decidido que o cunhado era perfeito, olhava de um para o
outro com espanto e curiosidade.
Durante os dias seguintes, a admiração e o respeito que
Samantha já sentia por Morgan cresceram muito. Apesar de
trabalhar duro e quase nunca ter tempo para o lazer, ele sabia se
comportar com perfeição na companhia de homens ricos que
faziam da diversão seu meio de vida. Morgan jogava tênis e golfe,
discutia todos os assuntos e abrilhantava todas as festas com sua
simpatia elegante. Além de nadar com um campeão, também
sabia surfar e velejar, mas era quando montava que ele realmente
brilhava.
65
Com o passar dos dias, Samantha ia se tornando mais e
mais rígida e retraída, porque, cada vez que olhava para Morgan,
ela via Carolyn pendurada em seu braço. O olhar preocupado de
Deb era uma constante.
Estavam à mesa do café da manhã na quinta-feira seguinte
à festa de aniversário de Sam, quando Morgan foi chamado ao
telefone. Ele atendeu a ligação no estúdio que pertencera ao pai
de Samantha, um espaço que ele havia reclamado como seu e de
onde fazia longas ligações telefônicas. Ali ele também cuidava de
documentos e papéis sempre que dispunha de alguns minutos
livres e tarde da noite. Como antes, Morgan continuava atuando
dezesseis horas por dia.
Ele estava no estúdio há cerca de dez minutos, quando saiu
e gritou:
— Sam!
Morgan subia a escada pulando os degraus.
Ela terminou de beber o café antes de segui-lo e, quando
entrou no quarto, parou assustada. Seu marido tinha as malas
abertas sobre a cama e já começava a arrumar suas roupas dentro
de uma delas.
— Mas o quê…?
—Aconteceu um imprevisto que exige minha atenção
imediata, Sam. Temos de ir embora. Já telefonei pedindo para
prepararem o avião. Vou deixá-la em casa, pegar algumas coisas e
decolar novamente.
Sam não se moveu.
Morgan corria pelo quarto como um alucinado e, ao vê-la
parada perto da porta, ele parou com as mãos cheias de roupas.
Uma sobrancelha erguida indicava sua confusão diante da
estranha reação da esposa.
— Quanto tempo vai ficar fora, Morgan?
— Não sei. Uma semana… Dez dias, talvez. — Subitamente
decidida, ela arriscou:
— Não posso ficar aqui? O casamento de Deb está próximo,
e temos compras a fazer e vestidos para experimentar. Ainda nem
compramos um presente para eles, Morgan! Não pode ir resolver
esse assunto e voltar para cá?
Ele refletiu por alguns minutos. Depois respirou fundo.
— Tudo bem — concordou. — Mas não compre o presente de
casamento enquanto eu não voltar; cuidaremos disso juntos. E
comporte-se enquanto eu estiver fora, Ruiva.— Ele riu diante de
sua expressão chocada. — Agora venha me ajudar com as malas.
Preciso partir o mais depressa possível.
Pouco tempo depois Morgan já havia ido embora, e Sam
ficou com um estranho sentimento de vazio.
66
No dia seguinte, Sam e Deb almoçavam no clube, quando
Jeff sentou-se na cadeira ao lado de Samantha e disse com tom
debochado:
— Será que um homem abandonado pode almoçar com duas
damas tão encantadoras?
— É claro que sim — Sam sorriu. — Mas por que
abandonado? — Os olhos dele brilharam maliciosos.
— Minha adorada noiva partiu ontem à tarde para ir visitar
uma tia em Maine, e estarei sozinho por uma semana ou mais.
Como soube que também está sozinha, pensei que poderíamos
unir nossa solidão.
Sam notou o olhar que Deb lançou em sua direção depois do
comentário de Jeff, mas conseguiu manter a voz calma.
— Desculpe, Jeff, mas Deb e eu temos planos. Vamos fazer
compras e provar os vestidos para o casamento, e quero terminar
tudo antes de Morgan voltar.
— Ah… Bem, nem sempre se pode vencer.
De alguma forma, Sam conseguiu suportar o almoço até o
final, rindo de algumas piadas de Jeff e acompanhando a conversa
com interesse moderado. Mas ela dirigiu de volta para casa em
silêncio, recusando-se a reconhecer os olhares apreensivos de
Deb. Sozinha no quarto, um único pensamento dominava sua
mente enquanto ela andava de um lado para o outro pelo quarto.
Morgan havia viajado com Carolyn? O fato de terem deixado a
cidade com poucas horas de intervalo era uma coincidência
grande demais.
Deb entrou hesitante depois de bater na porta.
— Sam, querida…
— Não me pergunte nada, Deb. Por favor.
Samantha estava miserável. Embora fosse às compras e
experimentasse muitos vestidos, embora acompanhasse a irmã e
opinasse sobre cada peça de roupa escolhida por ela, um
pensamento a atormentava. Ele estava com ela? Os sentimentos
iam da raiva ao amor em poucos segundos, e na maior parte do
tempo sentia vergonha de si mesma por ser tão fraca. Comia
ainda menos que antes e emagrecia dia a dia.
Estava entorpecida por dentro, apesar da aparência
equilibrada e composta. E não tinha notícias do marido.
Duas semanas depois da partida de Morgan, Deb a informou
sobre o retorno de Carolyn. Mais dois dias, e Morgan voltou para a
casa dos Denning.
Na sala de estar, diante de Mary e Deb, ele a tomou nos
braços e beijou. Mas, assim que ficaram sozinhos no quarto, ele
perguntou:
— Que tipo de vida tem levado aqui, Ruiva? Sua aparência é
67
assustadora!
— Muito obrigada. — Furiosa por ele parecer tão bem, Sam
saiu do quarto batendo a porta.
Passaram quase três semanas de muita tensão antes de
Morgan viajar novamente. Ele só retornou uma semana antes do
casamento de Deb.
Sam não se sentia bem desde o meio de setembro, e
quando começou a experimentar os primeiros enjôos matinais
depois de um atraso de quase um mês na menstruação, ela
encarou o fato de que estava grávida. Seus sentimentos eram
confusos. Queria muito ter um filho de Morgan, mas estava quase
certa de que ele desejava o fim do casamento. No dia do
casamento de Deb, eles já quase nem se falavam, embora
mantivessem uma aparência de harmonia sempre que estavam
em público.
No dia seguinte ao casamento, Morgan anunciou que era
hora de fazerem as malas.
— Vamos voltar para casa. Amanhã mesmo partirei para a
Espanha.
— Não vou com você. — Diante do olhar irritado do marido,
ela acrescentou apressada: — Vou para casa, Morgan, mas prefiro
ir dirigindo.
— Ficou maluca? Já vi você dirigindo, lembra? Você vem
comigo.
— Normalmente não dirijo daquela maneira, e você deve
saber disso. Quero levar meu carro.
— Para quê? Já temos o Jaguar e a Blazer no rancho.
— Morgan, eu quero o meu carro. E vou voltar para Nevada
dirigindo.
Ele a encarou por um instante. Depois se virou de repente.
— Faça como quiser. Não me importo.
Sem dizer mais nada, ele terminou de arrumar as malas e
partiu, dessa vez sem a encenação de uma despedida carinhosa.
Sam teve a sensação de que toda sua esperança ia com ele. Com
uma certeza horrível e dolorosa, ela soube que o estranho
relacionamento entre eles havia chegado ao fim.

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Capítulo VIII

Samantha passou a noite toda acordada, pensando. Morgan


havia dito que passaria duas semanas fora. Se esperasse para
partir na semana seguinte, teria de enfrentar as perguntas de Deb.
Se viajasse antes do retorno da irmã, seu suplício seria responder
as perguntas de Sara.
O que poderia fazer?
Tia Rachel!
Recebera várias cartas de sua tia preferida cobrando uma
visita. O momento era perfeito, e ela decidiu ir a Inglaterra para
passar uma semana com a irmã de sua mãe. E Morgan Wade que
fosse para o inferno.
Dois dias mais tarde, para surpresa de todos, Samantha
estava a caminho da Inglaterra. No avião ela lembrou, talvez tarde
demais, que Morgan jamais a informara sobre sua reunião com o
sr. Baker, da firma de advocacia. Temendo enjoar no vôo, ela
decidiu não pensar nesse assunto.
Rachel Crinshaw a esperava no aeroporto, e depois da
habitual confusão na alfândega e na esteira de bagagem,
Samantha finalmente acomodou-se no interior do Mercedes azul
dirigido por um motorista.
— Você está bem, Sam? Não quero ser indelicada, mas está
parecendo um espeto vestido!
— O verão foi tão quente e úmido, que perdi o apetite — ela
explicou. — Agora que as temperaturas estão mais baixas, acho
que vou recuperar o peso. — Na verdade, tinha certeza disso.
— Bem, assim que chegarmos em casa, você irá para o seu
quarto para descansar até a hora do jantar. Faço questão de
acompanhar de perto sua alimentação enquanto estiver por aqui.
Samantha riu, mas estava tão cansada que, de fato, dormiu
durante todo o restante da tarde.
A primeira noite na casa de tia Rachel foi calma, mas na
segunda ela organizou um jantar para os amigos da sobrinha,
pessoas que a adoravam e queriam revê-la depois de um longo
período de afastamento. Samantha não gostava da idéia de
receber um grupo numeroso e ter de encenar novamente o papel
da esposa feliz, mas ao acordar na manhã seguinte e não sentir
nenhum sinal de enjôo matinal, ela se convenceu de que o
sacrifício não seria tão grande, afinal.
A noite começou com uma grande alegria. A presença
inesperada de alguém muito especial chamou a atenção de
Samantha antes mesmo que ela terminasse de descer a escada
69
para o salão.
— Duds!
Seu grito de espanto atraiu vários olhares.
— Sam!
— Duds, o que faz aqui? Pensei que estivesse na Austrália —
ela comentou ao abraçá-lo.
— Ei, devagar, docinho. Uma pergunta de cada vez.
Duds era o único homem com quem Samantha realmente
conseguira relaxar. Desde os cinco anos de idade, quando sua
mãe se casara com o pai dele, Duds havia sido seu irmão mais
velho, seu protetor e um constante provocador.
— Você está ótimo, Duds!
— Você também, Sam. Por que tinha de se casar com
Morgan?
— Você o conhece? — ela reagiu surpresa.
— Quem não conhece Morgan?
— Mas como…
— Não vamos falar sobre o caubói. Quero saber sobre você.
— Segurando seu braço, ele a levou para o fundo do salão. — Será
que pode nos desculpar, tia Rachel? Sam e eu voltaremos em
alguns minutos.
Rachel os dispensou com um sorriso indulgente e foi dar
atenção aos convidados.
— Senti sua falta, Sam — Duds começou com sinceridade.
Estavam sentados lado a lado, de mãos dadas, e a voz dele soava
séria e preocupada. — Por que está tão magra, irmãzinha? Ele a
está fazendo sofrer? Ou são os rumores…?
— Rumores? Do que está falando?
— Bobagem. São só rumores, afinal. Eu não devia…
— Duds, por favor, seja honesto comigo. Preciso saber. E
prefiro que seja através de você. Sabe muito bem que a casa
estará cheia esta noite, e não serão poucos os interessados em me
manter informada.
— Tem razão — ele suspirou. — Bem, na última semana seu
marido foi visto várias vezes com a mesma mulher. Algumas
noites na Itália, e há duas noites… aqui.
— Aqui? Morgan está em Londres?
— Não sabia? Não veio para encontrá-lo?
— Não… Pensei que ele estivesse na Espanha.
— Espanha? Então, o que ele fazia na Itália?
— Não sei. — Ela riu com evidente nervosismo. — Sei muito
pouco sobre os negócios de Morgan, Duds. Você… sabe quem é
essa mulher?
— Não, docinho.
Nesse momento, uma comoção perto da entrada do salão
70
atraiu a atenção de Samantha. Como se houvesse sido conjurado
por seus pensamentos, Morgan entrava na sala com um sorriso
calmo e satisfeito, lindo em um terno cinza perolado que realçava
seus cabelos negros.
Como que atraídos por um ímã, os olhos dele encontraram
os de Sam, notaram as mãos dela entrelaçadas às de Duds e,
depois de um momento, foram iluminados por uma fúria
assustadora.
— Morgan, querido, está atrasado.
A voz melodiosa da tia invadiu seus ouvidos incrédulos e,
atônita, Sam viu Rachel abraçar e beijar seu marido. Então, ela
também o conhecia? Morgan murmurou alguma coisa que a fez rir.
De alguma forma, Sam conseguiu controlar a ânsia de correr
ao vê-lo caminhando em sua direção.
Duds levantou-se para cumprimentá-lo.
— Há quanto tempo, Morgan! — A voz dele, embora
amistosa, continha uma nota de prevenção. — Soube que estava
na cidade.
— Dudley — Morgan apertou a mão dele. — Quando desistiu
dos cangurus?
— Há uma semana, mas só cheguei em Londres há dois
dias.
— Entendo. Um dia antes da chegada de Samantha. — Ele
se virou para a esposa e tocou seu queixo com dois dedos. —
Como vai, querida? Fez uma boa viagem? Parece pálida. Ainda
sonolenta? — Ele a beijou rapidamente nos lábios e encarou
Dudley. — Voar sempre deixa Samantha com muito sono, sabe? —
Era como se ele o desafiasse a admitir que sabia.
— O jantar está servido — anunciou o mordomo.
Duds suspirou aliviado. Samantha levantou-se e aceitou o
braço do marido.
— Pensei que tivesse negócios a resolver na Espanha — ela
sussurrou a caminho da sala de jantar.
— Houve uma mudança nos planos. A reunião foi transferida
para Londres.
Reunião com quem? E o que esteve fazendo na Itália? As
perguntas eram como chamas que iam lambendo o medo e o
choque e transformando-os em fúria.
— Não disse que queria voltar dirigindo para o rancho? — A
questão foi formulada bem perto do ouvido de Samantha
enquanto, como um perfeito cavalheiro, ele puxava a cadeira para
que a esposa se sentasse.
— Houve uma mudança nos planos. — O sorriso de Sam era
melado.
— Morgan, você vai ficar na cabeceira da mesa—Rachel
71
anunciou. — Dudley, quero que fique aqui, ao lado de Samantha.
Sam suspirou aliviada.
Para sua surpresa, boa parte de seus amigos conhecia
Morgan. Como ele os conhecera? Quando?
—Por que não está comendo?—Duds perguntou em voz
baixa. — Ele a aborreceu? Quero dizer, sua chegada inesperada…?
— Sim. — A resposta era honesta. — Não entendo o que
estou vendo. Todos parecem conhecê-lo. Você o conhece. Como?
— Quanto aos outros, não sei o que dizer. Eu o conheci na
Austrália há alguns anos, pouco depois de ter ido para lá. Não
sabia que ele mantém negócios naquele país?
— Sim, sabia, mas… Por que ele não me contou que
conhecia você?
— Provavelmente por não saber do nosso relacionamento,
amor. Não voltei a vê-lo depois que se casaram, e nunca houve
uma boa razão para falarmos sobre você antes disso. — Ele riu. —
Como nunca fomos exemplos de bons correspondentes, nós
poderíamos nos casar e divorciar pelo menos três vezes, antes que
o outro soubesse.
Era verdade. Odiava escrever, e sabia que Duds também
não era grande amigo das cartas. Rindo, ela levantou a cabeça e
se deparou com dois pequenos blocos de gelo. Morgan ergueu a
taça de vinho num brinde silencioso e sarcástico, e Sam sentiu um
arrepio percorrer sua espinha.
— Como ele conheceu tia Rachel? Sabe me dizer, Duds?
— Sim, eu sei. Ele mesmo se apresentou há alguns meses,
quando estava em Londres há negócios. E isso pode responder a
sua primeira questão. Talvez tia Rachel o tenha apresentado aos
seus amigos quando o conheceu.
Sim, só podia ser isso. Mas por que ela não dissera que
Morgan estava em Londres?
Porque tia Rachel adorava surpresas.
O jantar finalmente chegou ao fim, e todos seguiram para a
sala de estar. Ainda abalada pelo encontro inesperado com o
marido e o irmão de criação, Sam sentia o início de uma
enxaqueca importuná-la na forma de persistentes pontadas nas
têmporas. A maneira como todas as mulheres na sala pareciam
sorrir para Morgan a aborrecia.ainda mais. E ele adora cada
minuto de toda essa atenção, Sam pensou furiosa.
Ele não tinha o direito de divertir-se com outras mulheres
enquanto ela, sua esposa, gerava um filho dele! O fato de Morgan
nem ter consciência dessa gravidez não penetrava em sua mente
perturbada.
Ninguém na sala percebia a fúria que a consumia. Com uma
frieza aparente que era quase tangível, ela mascarava a dor e o
72
ressentimento que borbulhavam sob a superfície.
Sonhando com duas aspirinas e uma cama, Sam quase
suspirou aliviada quando a porta se fechou depois da saída do
último convidado. Morgan parecia ter desaparecido no ar, e Duds
havia sido convidado por Rachel para um último drinque.
— Por que não vem conosco, Sam?—sugeriu sua tia.—Parece
estar precisando de uma bebida.
Sam os seguiu de volta à sala e aceitou o drinque não queria
beber.
— Estou indo para casa no final de semana — Duds anunciou
depois do primeiro gole de conhaque. — Por que vocês não vêm
comigo? Alguns dias de ar puro do campo devolveriam um pouco
de cor ao seu rosto, Sam.
— Não sei, Duds. Acho que não…
— Samantha, venha até aqui, por favor.
A voz de Morgan, baixa e autoritária, a impediu de concluir a
frase. Sua primeira reação foi de medo, mas logo a ira superou
todas as outras emoções. Ao menos sabia que o marido não havia
evaporado.
— Podem me dar licença, por favor?
Sem esperar por uma resposta, ela saiu da sala e subiu a
escada. A dor na cabeça havia piorado muito nos últimos minutos,
e era como se uma marreta trabalhasse incansável para destruir
seu crânio. Quando entrou no quarto, Samantha encontrou Morgan
vestindo apenas um short muito pequeno. Suas roupas haviam
sido deixadas sobre uma cadeira.
Parada na porta, ela o viu vestir uma calça jeans como se
estivesse em sua própria casa.
— Estou indo para a Espanha — ele anunciou com tom frio.
— Esta noite. Quando pretende ir para casa?
— Minha passagem já está marcada para segunda-feira à
noite.
— Cancele-a. Estarei de volta no sábado, e então poderemos
voltar juntos.
Uma onda de rebeldia a invadiu. Demônio arrogante! Com
quem ele pensava estar falando? Com a namorada?
— Não posso fazer o que está dizendo — ela respondeu com
tom frio. — Acabei de aceitar um convite de Duds para ir passar o
final de semana em casa. — E nada do que Morgan dissesse
poderia convencê-la a mudar de idéia.
— Em casa? — ele repetiu com tom ameno. Ameno demais.
— Na casa de Duds, em Kent. A casa onde cresci. Duds é
meu irmão de criação, Morgan.
Por alguma razão que Samantha não conseguia sequer
imaginar, a descoberta o enfureceu ainda mais. Sua voz assumiu
73
um tom quase selvagem.
— Por isso ele mantém uma atitude tão protetora… e
possessiva com relação a você?
O tom e as palavras a surpreenderam. Ele falava com um
homem enciumado.
Morgan? Com ciúme?
Não. Mas ele tinha orgulho, e por isso não admitia que
ninguém se aproximasse do que julgava ser seu. Seus bens. Suas
posses.
E o seu orgulho? O que havia sido feito da Samantha
Denning altiva e confiante que sempre evitara sem nenhum
esforço todo e qualquer envolvimento com o sexo oposto? E agora
esse… esse caubói que havia vendido o próprio nome ousava
questioná-la? A dor misturou-se à raiva.
— Duds é como um irmão de verdade para mim. E ele
sempre me protegeu de tudo.
— Que bom para você. Mas agora ele pode relaxar, ou ir
procurar outra mulher para proteger, porque você já tem um
protetor.
— Não acha que isso vai mantê-lo ocupado demais? Talvez
não tenha mais tempo para dedicar-se as suas… amizades.
— Sim, tenho muitas amizades.
— Nesse caso, refiro-me a uma amiga em particular. Uma
mulher.
— Samantha, se quer saber se tenho uma amante, por que
não pergunta, em vez de ficar fazendo rodeios?
Temendo ouvi-lo admitir que sim, que havia outra mulher
em sua vida, ela se virou para sair como se o assunto não fosse de
seu interesse. Fechando os olhos, mentiu:
— Francamente, Morgan, esse assunto não me interessa.
Vou passar o fim-de-semana no campo, e espero sinceramente
que se divirta… onde que esteja.
— Samantha, se eu descobrir que ele encostou um dedo em
você, juro que será o fim para Dudley, irmão ou não.
Samantha quase perdeu o fôlego. Morgan estava
ameaçando matar Duds? Um tremor violento a sacudiu e, como se
pudesse ler seus pensamentos, ele acrescentou:
— Estou falando sério, Samantha. Portanto, comporte-se
enquanto estiver desfrutando do ar do campo, e esteja em casa
daqui a duas semanas. Agora saia. Quero terminar de me vestir.
Sam saiu apressada, primeiro do quarto e, dois dias mais
tarde, da cidade. E o final de semana no campo não foi
exatamente um sucesso. Duds passava quase todo o tempo
tentando entender seu estado de humor retraído, quase
depressivo, e as perguntas insistentes a estavam enfraquecendo
74
ainda mais, um ataque constante às defesas que construíra
apressadamente nas poucas horas de que dispusera desde a
partida de Morgan. Tia Rachel também estava preocupada e
insistia em ajudá-la, mas ninguém poderia fazer nada por ela, e
por isso Samantha se fechava cada vez mais.
Em pouco tempo ela se deu conta de que a casa em Kent
não era mais seu lar. Até as lembranças da infância pareciam
distantes e irreais. Queria a cama de Morgan, os braços dele em
torno de seu corpo e sua presença imponente. Não havia como
negar. O único lugar que poderia chamar de lar era o rancho… ou
qualquer outro local onde estivesse com ele. E Morgan não queria
estar com ela.
Samantha cavalgou muito, com cuidado e devagar, por
causa de sua condição, seguindo as mesmas rotas que havia
percorrido centenas de vezes desde a infância. Mas até a
paisagem que amava passava despercebida. A mente invocava
apenas uma imagem, a de um corpo forte e esguio e de olhos
negros que podiam abrir caminho a fogo até sua alma.
No domingo à noite, depois do jantar, Duds as entreteve na
sala de estar contando histórias sobre seu período na Austrália,
para onde, ele revelou, voltaria em um mês.
— Quero passar o resto de minha vida lá. Vou vender esta
casa. Aliás, esse é um dos motivos de minha presença na Europa.
Ainda não eram onze horas quando Rachel se levantou e
anunciou que ia dormir. Sam estava aninhada na poltrona que
havia sido a preferida do padrasto, e também se levantou como se
pretendesse acompanhar a tia. Duds a deteve pousando a mão em
seu braço.
— Samantha, você está grávida? — ele disparou sem
rodeios.
— De onde tirou essa idéia?
— Tia Rachel tem observado seu comportamento, como
deve ter percebido, e hoje à tarde ela comentou que está
absolutamente certa de que você espera um filho.
Sam pensou em mentir, mas decidiu que seria inútil. O
tempo acabaria revelando a verdade.
— Sim — ela sussurrou cansada.
— Aquele bastardo!
— Duds, por favor…
— Como ele se atreve a tratá-la dessa maneira? E por que
não está ao seu lado agora? Então não percebe como está frágil?
— Ele não se importa.
— Como assim? O que quer dizer com isso? Ele não se
importa com você? Com o filho? Com o quê?
— Comigo. Morgan nem sabe sobre a gravidez.
75
— Não sabe? — Duds refletiu por uma fração de segundo. —
Então não conte nada — disse.
— O quê? Mas eu tenho que contar…
— Não. Não tem nenhuma obrigação. Divorcie-se dele. Case
comigo.
— Duds! O que está dizendo? Você não me ama… não dessa
maneira!
— Não, tem razão, mas a amo como se fosse mesmo minha
irmã, e não posso voltar para a Austrália deixando você nesse
estado. Seus olhos me seguiriam. Venha comigo, amor. Deixe-me
cuidar de você e do filho que está esperando.
— Não, Duds. Morgan reagiria e…
— Morgan que vá para o inferno! Ele merece perder o filho
que nem sabe que vai ter! As atitudes que Wade teve há alguns
dias me fizeram mudar de opinião sobre seu marido. Cheguei a
gostar dele, sabe? De verdade. E o respeitava também. E é
estranho, porque minha primeira impressão sobre as pessoas
raramente é errada. Mas não interessa. Esqueça Morgan e venha
comigo para a Austrália. Prometo cuidar muito bem do bebê e de
você.
— Eu sei que seria muito bom conosco, mas não posso
aceitar sua proposta. — Samantha se levantou demonstrando
firmeza e segurança. — Meu doce Duds, em algum lugar do
mundo há alguém esperando por você. Jamais encontrará essa
pessoa se tiver de cuidar de mim e do filho de Morgan. Além do
mais, ele tem o direito de saber sobre a criança. E pretendo
revelar a gravidez assim que voltar para casa.
— E se ele não se importar? Se ele não quiser esse filho? O
que vai fazer?
— Não sei. Mas posso ir morar com Mary. Ela é uma pessoa
amorosa e encantadora.
Jamais contaria a Duds ou a tia Rachel por qual razão
Morgan se casara com ela. Sendo assim, também não podia falar
sobre o apoio de Mary e sua oferta para sustentá-la, caso ela
decidisse desafiar as condições do testamento deixado pelo pai.
— Sam, por favor — Duds persistiu. — Reconsidere. Já disse
que não posso ir embora enquanto estiver nesse estado.
— Ah, mas você pode ir. E deve ir. Eu vou ficar bem. Com ou
sem Morgan, sei que ficarei bem.
Só gostaria de sentir a mesma convicção que transmitia
através do tom de voz. Mais tarde, ao se despir para ir dormir, ela
olhou para as mãos trêmulas. Quando isso acabaria? Ou a dor de
amá-lo seguiria crescendo até dominar todos os outros
sentimentos e pensamentos, até ser maior que a própria vida?
O retorno a Londres na segunda-feira de manhã foi feito em
76
silêncio. Rachel e Duds insistiram em levá-la ao aeroporto, e
quando Sam finalmente embarcou no grande jato, ela o fez
dominada por um sentimento de anticlímax. O que a esperava ao
final do vôo? Tinha medo até de pensar na pergunta. Tentar
respondê-la estava além de suas possibilidades. Além de suas
forças.

77
Capítulo IX

A viagem de Sam através do país demorou mais do que


deveria. Ela parava sempre que encontrava uma cidade ou um
vilarejo que a encantava, apesar de estarem chegando ao fim do
outono e da temporada das cores. Visitando lojas diferentes, ela
comprou roupas mais pesadas, sentindo a temperatura cair dia a
dia, e desfrutou do passeio pelo campo, convencendo-se de que
seria tolice perder essa oportunidade.
Mas, com toda a beleza da paisagem, Samantha sabia que
estava mentindo para si mesma. Queria apenas adiar ao máximo
seu encontro com Morgan. Queria vê-lo, sim, mas estava com
medo.
Sentia um temor tão intenso, que quase desistiu de tudo.
Não sabia se suportaria ouvi-lo pedir o divórcio.
A decisão fora difícil. Depois de voltar a Long Island, passara
dois dias pensando até chegar a uma conclusão. Pediria o divórcio,
ficaria onde era amada, e teria e criaria seu filho sozinha. Mary a
ajudaria. Trinta minutos mais tarde, ela se encontrara fazendo as
malas, pedindo à madrasta para enviar ao rancho tudo que era
dela, despedindo-se de todos e correndo para o Miata. Iria para a
casa, e Morgan que se acostumasse com a idéia.
Durante todo o trajeto, ela se questionara. Tinha o direito de
usar o bebê e seu dinheiro para manter a seu lado um homem que
não a amava? Por outro lado, Morgan tinha o direito de saber que
seria pai, e ela enfaticamente ordenara seu retorno ao rancho.
Sam chegou ao rancho no meio de uma manhã mais de uma
semana depois de ter deixado Long Island. Estava cansada,
dolorida e mentalmente esgotada, mas a acolhida afetuosa de
Sara serviu para amenizar alguns temores. Não havia nenhum
sinal de Morgan. Talvez ele houvesse voltado da Espanha e viajado
novamente para outro lugar.
Depois de ligar para Mary e informar que havia chegado
bem, Sam decidiu telefonar para Babs. Ao ouvir sua voz, a amiga
gritou:
— Sam, querida, quando voltou?
— Há pouco mais de uma hora. Como vai Benjie?
Babs e Ben não haviam comparecido ao casamento de Deb,
porque Benjie adoecera.
— Ah, ele está ótimo! Foi apenas uma infecção de garganta,
mas não podia deixá-lo.
— É claro que não. E os outros? Todos bem?
— Perfeitamente bem. É bom saber que chegou a tempo
78
para a festa, Sam.
— Que festa?
—Como assim? Morgan não deixou nenhum recado para
você?
— Bem, acho que ele não sabia quando eu chegaria. Nem eu
mesma sabia. Falou com Morgan?
— Se falei? Ele está aqui! Ou melhor, esteve, mas vai voltar.
Ele foi a Vegas buscar um amigo nosso, mas estará de volta ainda
hoje.
— Ah… sei.
— Quando você vem?
— Acho que não…
— Esqueça — Babs interrompeu. — Sam, trate de pegar
algumas roupas, uma camisola e um vestido de noite, ponha tudo
na mala, entre no carro e venha para cá.
— Mas…
— Estou falando sério. Você tem apenas algumas horas. Até
mais tarde. — Babs desligou sem esperar por uma resposta.
E agora? E quando Morgan havia retornado da Espanha?
Disposta a encontrar respostas, ela foi até a cozinha e
perguntou sem rodeios:
— Sara, quando o sr. Morgan chegou?
— Há uma semana, sra. Sam. E partiu novamente ontem de
manhã. Ele não disse para onde ia. Nunca diz. Mas disse que
telefonaria para avisar quando voltaria para casa.
— Ele está na casa dos Carter. E eu estou de saída para ir
encontrá-lo. Não se preocupe com o almoço. Avisaremos a data
exata do nosso retorno. — Sem esperar por uma resposta de Sara,
Samantha saiu da cozinha e, pouco mais tarde, da casa.
Era meio da tarde quando ela parou na entrada da garagem
dos Carter. Estava retirando a mala do carro, quando Babs correu
ao seu encontro.
— Estou feliz por ter vindo. Vou levá-la diretamente para o
seu quarto, onde poderemos conversar.
— Ei, qual é o mistério? — Sam perguntou ofegante e
preocupada ao ver a amiga fechar a porta do quarto de hóspedes
onde ela dormira há oito meses.
— Eu… Sam, está doente? Você emagreceu muito…
— É claro que não estou doente!
— Qual é o problema, então? É Morgan? Apaixonou-se por
ele, não é?
— Desesperadamente — Sam confessou num sussurro antes
de sentar-se na cama.
— Não entendo. Qual é o problema?
— É muito simples, Babs. Ele não me ama. Na verdade, mal
79
consegue olhar para mim.
— Não acredito nessa bobagem. E quanto a amá-la, não
acha que deveriam ter um relacionamento mais… normal?
— Quer dizer que eu devia dormir com ele?
— Bem… sim.
— Passamos a dormir juntos duas semanas depois do nosso
casamento. Você o conhece. Acha que Morgan aceitaria outro tipo
de vida entre nós, sendo marido e mulher como somos?
— Não, ele não aceitaria de outro jeito — ela riu. — Morgan é
um homem muito… vigoroso. E mesmo assim…?
— Não, Babs. Mesmo assim, não nos tornamos mais
próximos.
— Não entendo. Sempre pensei que fossem perfeitos um
para o outro. Confesso que tenho tentado aproximá-los há anos.
Não imagina como fiquei desapontada quando Morgan não veio ao
meu casamento. Tinha tudo planejado! Então, quando me falou
sobre o testamento de seu pai… Ah, nunca pensei que fosse sofrer
tanto, Sam.
— Bem, é inútil lamentar o passado. Ninguém pode mudá-lo.
E você ainda não sabe do pior. Estou grávida, Babs.
— O quê? Está esperando um filho, e nem assim ele se
aproximou de você? Morgan adora crianças!
— Ele não sabe.
— Bem, nesse caso deve contar a ele imediatamente. Isso
vai dar um jeito na arrogância de sua alteza real.
— Sua alteza…?
— Stacy Kemper. É assim que sempre penso nela. Bruxa
mercenária! Foi por causa dela que insisti tanto para que viesse. E
também foi por causa dela que Morgan viajou para Las Vegas.
— Não entendi.
— Como sabe, todos somos velhos conhecidos. Bem, Stacy
também fazia parte do grupo, e por algum tempo ela parecia ter
fisgado Morgan. Até ficar claro que Morgan pretendia investir tudo
que tinha no rancho, não na conta dela. Então, ela partiu e se
casou com o primeiro homem rico que a pediu em casamento, e
nem se deu ao trabalho de falar com Morgan ou dar uma
explicação. De repente ela sumiu. Soubemos sobre o casamento
pouco tempo depois através dos pais dela, e os dois estavam
muito constrangidos. Não sei como isso afetou Morgan, porque,
como já deve ter percebido, ele não demonstra o que sente.
Sam assentiu e continuou quieta, esperando. Babs
continuou:
— Alguns anos mais tarde, ouvimos dizer que ela se havia
divorciado do marido e partido com um italiano, um industrial do
ramo de calçados, parece, e não soubemos mais nada dela, até
80
que ontem à noite, do nada, ela me telefonou anunciando que
pretendia vir me visitar. Disse que sabia que ofereceríamos uma
festa amanhã à noite, e que seria uma grande alegria poder
participar. Por um instante fiquei sem fala. E o que poderia dizer?
Respondi que seria um prazer recebê-la, e foi quando Stacy
informou que estava sem transporte. Será que alguém poderia ir
buscá-la em Las Vegas? Como Ben tinha negócios importantes
para tratar durante todo o dia de hoje, Morgan se ofereceu para ir.
E eu não gosto disso, Sam. Não gosto nada disso.
Sam também não gostava, mas permaneceu em silêncio.
Um industrial italiano do ramo dos calçados… e Morgan fora visto
com uma mulher na Itália. Coincidência? Era pouco provável. Ele
havia trazido essa tal mulher com ele para a América? Era muito
mais provável. No entanto, Morgan praticamente exigira sua volta
ao rancho. Que tipo de jogo era esse? Primeiro Carolyn, agora
Stacy. Devia ir embora? Talvez fosse melhor escapar da
humilhação de ser apresentada à amante do marido.
— Venha comigo — Babs disse de repente. Ela se levantou,
pegou as coisas de Sam e saiu do quarto.
Do outro lado do corredor, ela deixou os pertences da amiga
sobre a cama de outra suíte.
Sam olhou em volta e reconheceu a mala de Morgan e
alguns objetos pessoais sobre a cômoda.
— Mas eu…
— Escute, não sei o que Morgan sente por você, meu bem, e
também não sei se ele sente algo por ela. Na verdade, não sei
nada sobre os sentimentos de Morgan. Mas. em minha casa,
maridos e mulheres dormem juntos. Amantes não são aceitas em
meus aposentos. — A expressão de dor no rosto de Sam a fez
concluir: — Vamos lutar juntas, minha amiga. Estou com você
nessa. Não fuja!
Sam ficou.
Ben chegou em casa para o jantar. Morgan, não. Algumas
horas mais tarde, quando todos conversavam na sala de estar e
ela falava sobre o casamento da irmã, Sam quase perdeu os
sentidos com o impacto de um violento choque.
O Jaguar acabara de entrar na propriedade.
Babs devia ter informado o marido sobre a situação do casal
de amigos, e essa certeza a encheu de pânico. Não devia estar ali!
Todos eram amigos de alguma forma, e a última coisa que queria
era levar a discórdia a um lar repleto de alegria e amor. Antes que
ela pudesse se mover, Morgan entrou na sala seguido por uma
mulher alguns anos mais jovem que ele.
Sam mal olhou para a mulher, porque só tinha olhos para
Morgan. A noite era fria, e uma jaqueta de couro forrada por pele
81
de carneiro compunha um conjunto perfeito com as botas pretas,
a calça jeans e um chapéu escuro. Ali estava um exemplo de
virilidade. Ao vê-la, Morgan parou e hesitou, mas foi só por uma
fração de segundo, porque em seguida ele removeu o chapéu e
aproximou-se dela. Não havia como deixar de notar o brilho
contrariado em seus olhos negros.
— Samantha, que surpresa! Quando voltou para casa? E
como chegou aqui?
Odiava quando ele usava aquele tom gelado. Indignada, ela
ergueu o queixo e encarou-o.
— Cheguei em casa hoje cedo e vim para cá dirigindo meu
carro. Como deve ter notado, ele está estacionado lá fora. E estou
muito bem, obrigada — ela disparou com sarcasmo.
Devagar, Samantha virou a cabeça para encarar a mulher
que se colocara ao lado dele. Ela sorria. Por quê? Estaria se
divertindo? Ou seria um sorriso de satisfação? Ela era uma linda
mulher, sem dúvida. Cabelos negros emolduravam um rosto de
rara palidez e lábios muito vermelhos, e seus olhos eram de um
azul tão claro que lembravam um lago sereno. Mas ela tinha o ar
de um… A palavra predador invadiu a mente de Sam.
— Samantha, esta é Stacy Kemper, uma velha amiga—
Morgan apresentou. — Stacy, minha esposa, Samantha.
— Olá, Samantha. — Um sorriso de dentes muito brancos
acompanhou o cumprimento.
Sam não se levantou nem estendeu a mão. Com um esboço
de sorriso, limitou-se a mover a cabeça com elegância e empregou
um tom muito frio ao responder:
— Srta. Kemper.
Ben estava surpreso. Babs fazia um enorme esforço para
não rir. Stacy recolheu a mão que havia estendido em sua direção.
E Morgan? A reação de Morgan era surpreendente. Embora
houvesse ficado tenso ao ouvir seu tom arrogante e frio, havia em
seus olhos uma emoção que ela não conseguia definir. Ou ele
estava se divertindo muito… ou estava furioso.
Morgan virou-se, encerrando o momento de tensão.
— Stacy estava dizendo no caminho que seria capaz de
matar por um drinque.
— É claro — Babs respondeu enquanto se levantava. — Ben,
pode providenciar as bebidas, enquanto eu penduro os casacos?
Ben se levantou devagar, ainda dominado pelo choque. Seus
olhos estavam fixos em Stacy.
— Há quanto tempo. Como vai?
Estudando a rival com uma compostura que exigia toda sua
capacidade de controle, Sam nem ouviu a resposta da visitante.
Ficou ali parada, quieta, até que um comentário mais
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entusiasmado de Stacy a arrancou do estado de transe.
— De repente era simplesmente impossível vencer! Os
dados se negavam a colaborar. Se Morgan não estivesse ali para
cobrir o prejuízo… Bem, não sei o que teria feito.
Uma fúria cega transformou os olhos de Samantha em
pequenas lascas de gelo. Que dinheiro ele havia utilizado para
cobrir os prejuízos de Stacy? E como ela o recompensara?
Morgan sustentava seu olhar com um misto de deboche e
curiosidade.
Farta de tudo aquilo, Sam pediu licença e deixou a sala.
Morgan não foi atrás dela.
Sozinha no quarto, ela tentou decidir o que fazer. E decidiu.
Se Morgan havia pensado em divertir a amiguinha sob o teto de
sua melhor amiga, certamente teria uma surpresa quando, ao se
recolher, encontrasse a esposa em sua cama. Como ele reagiria?
Sam jamais soube, porque adormeceu antes de ele entrar no
quarto. No meio da noite acordou sentindo frio e, sem pensar,
encolheu-se sob as cobertas e buscou o calor do corpo a seu lado.
Um braço forte e protetor a envolveu, e ela voltou a dormir. Na
manhã seguinte ela nem se lembrou disso, mas sabia que ele
dormira a seu lado, porque o travesseiro ainda guardava a
impressão da cabeça de Morgan
Stacy ainda não havia levantado, Ben terminara de comer e
deixara a mesa, e Babs e Sam discutiam as tendências da moda
para o inverno, quando Morgan apareceu. Preguiçoso, ele se
serviu de uma xícara de café, pegou um pedaço de bacon que
Sam deixara no prato e, enquanto o mastigava, encarou-a.
— Como deixou seus… amigos, Samantha?
— Com imensa dificuldade, pode ter certeza. — Altiva, ela se
levantou e saiu da sala sem esperar por uma resposta, certa de
que a batalha recomeçara.
O dia passou sem incidentes, porque ela não teve de ver
Morgan ou Stacy, e à noite, quando se vestia para jantar,
percebeu que Morgan já havia terminado de se arrumar e descera
enquanto ela estava no banho. Melhor assim. Poderia surpreendê-
lo. Depois de se maquiar e colocar o vestido de veludo verde, ela
abriu o estojo que levara na valise e pôs no pescoço o colar de
esmeralda e diamantes. Babs a interceptou no corredor entre as
salas de estar e jantar.
— Sam! Nunca vi jóia mais linda! Assaltou a loja da Cartier?
—Não, meu bem. E você ainda nem viu nada! — Sam
estendeu a mão para mostrar o anel com as mesmas pedras.
— Céus! De onde vieram esses tesouros?
— O anel foi presente de aniversário. O colar foi presente de
casamento.
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— Ganhou essas jóias de Morgan?
— É claro que sim! De quem mais poderia ser?
— E ainda acha que ele não gosta de você? Francamente,
Sam! Só um homem apaixonado compra jóias como essas para a
esposa.
Durante o resto da noite, Sam recordou as palavras de Babs,
tentando não lembrar que as jóias haviam sido compradas com
seu próprio dinheiro. Cerca de uma dúzia de pessoas estavam
reunidas na sala de estar. Stacy se mantinha vigilante ao lado do
bar, mas não havia nem sinal de Morgan. Ben propôs um brinde de
casamento, ainda que tardio, e foi então que os outros
perceberam sua ausência.
— Não podemos brindar sem o noivo — disse uma morena
delicada cujo nome Sam não conseguia lembrar. — Onde está
Morgan, afinal?
— Bem aqui, Karen.
A voz rouca atrás dela causou um arrepio gelado que fez
Sam estremecer. A mão possessiva em sua cintura transformou o
gelo em fogo.
O brinde foi feito, e Karen lembrou que o noivo devia beijar a
noiva.
E ele a beijou. Foi um beijo rápido, suave, mas, mesmo
assim, nesse beijo ele reafirmou sua propriedade.
E então, como se nada houvesse acontecido, ele se voltou
sorrindo para o grupo de convidados. Levando-a com ele,
atravessou a sala respondendo com simpatia aos votos de
felicidades.
Quando o momento de celebração terminou, Morgan
removeu a mão que até então mantivera em sua cintura e se
afastou. Movendo-se sem nenhuma pressa, como se seu único
interesse fosse servir mais uma dose em seu copo, ele se reuniu a
uma contrariada Stacy que ainda se mantinha em pé ao lado do
bar.
Em outras circunstâncias, Sam teria aproveitado a festa. Os
amigos de Babs, Ben e Morgan a aceitavam sem reservas. Sabiam
da amizade entre ela e Babs, e o fato de ter se tornado esposa de
Morgan parecia encantá-los. A conversa era relaxada, em alguns
momentos cheia de humor, e a comida era deliciosa. Mas Sam
estava miserável. Apesar de ter a cautela de não se mostrar
excessivamente atencioso com Stacy, a expressão satisfeita e
confiante no rosto da jovem matavam todas as esperanças que
Sam alimentara em segredo durante sua viagem para o Oeste.
Samantha participou da reunião até pouco depois das três,
quando, incapaz de suportar sequer mais um minuto, pediu
licença para recolher-se.
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Minutos depois estava na cama, atormentando-se com uma
dúvida cruel: Morgan passaria o que restava da noite em seu
quarto, ou no de Stacy?
O tormento foi breve, porque, como na noite anterior, ela
adormeceu pouco depois de encostar a cabeça no travesseiro.

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Capítulo X

O som da voz de Morgan a despertou. Sonolenta, ela se


sentou na cama e registrou dois fatos: o primeiro, seu marido
estava completamente vestido; o segundo, ele segurava uma
xícara de café.
— Estou indo para casa esta manhã. Você vem comigo? —
Samantha bebeu um gole de café antes de responder:
— Sim.
— Ótimo. Precisamos conversar, e prefiro que seja em
particular.
Disfarçando a tensão causada pelo anúncio, Sam bebeu
mais um gole do líquido fumegante.
— Não posso ir exatamente com você. Vim dirigindo meu
carro.
— Eu sei. Pretendo segui-la no Jaguar.
— Ah… à que horas quer sair?
— São oito e meia. Gostaria de estar pronto em uma hora.
Marie já vai servir o café.
— Mas… não podemos ir embora sem dizer adeus a Babs e
Ben!
— Eles estarão acordados até lá. Agora se apresse. Quer
mais café?
— Sim, por favor. E… Morgan, eu prometi a Sara que
telefonaríamos.
— Liguei para ela ontem à noite. Disse que poderia tirar o
dia de folga, porque voltaríamos para casa hoje e queremos ficar
sozinhos. Vou buscar seu café.
Samanha o viu sair e fechar a porta. Dez minutos mais
tarde, quando voltou ao quarto depois do banho, ela o encontrou
sentado na cadeira perto da janela, bebendo café. Apressada,
vestiu o jeans e um suéter largo sobre as peças íntimas que levara
para o banheiro, e quando o encarou ele já segurava outra xícara
fumegante.
— É melhor fazer sua mala. O café está sendo servido. —
Mais alguns minutos, e a pequena mala estava pronta e fechada.
Sam calçou as botas e saiu do quarto em seguida, guiada
pelas vozes no quarto das crianças. Lá ela se despediu de Mark e
Benjie, e depois desceu para ir fazer a refeição matinal. Sua mala
estava ao lado da de Morgan no hall de entrada da casa.
Os dois estavam terminando de comer, quando Ben e Babs
sentaram-se à mesa.
— Vejo que estão prontos para partir — disse a anfitriã. —
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Não estavam pensando em sair sem dizer adeus, estavam?
— É claro que não — respondeu Sam.
— Se não descessem a tempo, eu iria arrancá-los da cama —
Morgan brincou.
— Espero não ter de ficar oito meses sem ver minha amiga
novamente. Na verdade, gostaríamos de tê-los conosco no Natal.
— Vamos ver — Sam respondeu com tom evasivo.
Babs chutou sua canela por baixo da mesa, mas continuou
sorrindo quando indagou:
— Acha que poderão vir?
— Não sei por que não—Morgan interferiu.—Combinaremos
tudo mais perto das comemorações, Babs.
— É claro.
Depois do café, enquanto Morgan punha as malas no Jaguar
e Ben ia buscar o carro de Sam na garagem, Babs murmurou:
— Já contou a ele?
— Não.
— Então, trate de contar assim que chegar em casa.
— É o que vou fazer. Obrigada por tudo, Babs.
— Bobagem! Para que servem os amigos?
Sam dirigia com cautela, mas a proximidade do carro de
Morgan a estava irritando, e aos poucos ela foi ganhando
velocidade. Era inútil. Por que ele a seguia tão de perto? Por acaso
a considerava incapaz de dirigir numa estrada?
Ainda estava ocupada com o próprio ressentimento, pisando
fundo no acelerador, quando passou por cima de uma poça de
óleo e perdeu o controle do Miata. O automóvel rodou várias vezes
na pista, mas, por sorte, não capotou nem se chocou contra outro
veículo. O carro finalmente parou voltado para a mesma direção
em que seguia, e ela ainda agarrava o volante e tremia, tentando
recuperar a calma, quando a porta do motorista foi aberta
violentamente.
— Que brincadeira idiota foi essa? Você ficou maluca? Está
tentando se matar?
Foi nesse momento que Samantha constatou que havia
chegado ao limite. Nunca mais se submeteria a esse tipo de
tratamento. Aquele caubói arrogante não voltaria a falar com ela
nesse tom.
O motor ainda estava funcionando e, auxiliada pelo fator
surpresa, ela conseguiu fechar a porta e pisar no acelerador. E
continuou pisando fundo até alcançar a estrada que levava ao
portão do rancho, aliviada por não ter encontrado tráfego pesado.
Atordoada, parou o carro diante da garagem, desceu e correu para
a porta dos fundos, tentando encontrar a chave dentro da bolsa.
Na cozinha, ela parou e respirou fundo várias vezes,
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tremendo de nervoso. Ao ouvir o Jaguar se aproximando da
garagem, ela correu para o quarto, jogou a bolsa e a jaqueta em
uma cadeira, e sentou-se na cama tentando recuperar o controle.
Preciso deixá-lo. Tenho de sair daqui. Era nisso que ela
pensava quando, com o rosto lívido de fúria, Morgan entrou na
suíte.
— Vou embora daqui, Morgan. Vamos nos divorciar — ela
anunciou sem rodeios.
— Que tipo de brincadeira é essa? Por que voltou? Não veio
até aqui só para ver o divórcio ou para comunicar pessoalmente
sua decisão de pôr fim ao nosso casamento. O que quer de mim,
afinal?
— Não importa.
— O que não importa? O que tem para me dizer, Samantha?
Por que veio até aqui?
— Eu… estou grávida. — Silêncio.
Olhos negros como uma noite sem lua a estudavam atentos.
— É meu?
— Oh… meu Deus!
Dominada por uma súbita náusea, Samantha cobriu a boca
com uma das mãos e tentou correr para o banheiro, mas a mão de
Morgan sobre seu ombro a deteve, e ela foi obrigada a respirar
fundo para não se entregar ao mal-estar.
— Desculpe — ele pediu com rispidez. — Eu devia saber.
Para quando é o bebê?
— Para o final de maio.
— Entendo. E veio dirigindo até aqui só para ver minha cara
quando eu soubesse?
Não era possível! Morgan acreditava que fizera a longa
viagem só para atormentá-lo, para fazê-lo se sentir culpado por
como a tratara na noite em que conceberam o bebê. Saber que ele
a considerava capaz de um comportamento tão baixo e egoísta só
aumentava a dor que a dilacerava.
Sam olhou para o rosto que tantas vezes acariciara.
— Você me odeia, não é? — perguntou.
— Não.
— Não minta para mim. Eu sei que me odeia.
— Como poderia odiá-la, feiticeira ruiva, se a amo tanto?
Um beijo sufocou o gemido incrédulo. Ele havia mesmo
acabado de dizer que a amava? Esperança e desejo se
misturavam em suas veias. O gemido finalmente se fez ouvir
quando ele levantou a cabeça.
— Morgan…
— Não. Por favor, não fale. Pode acrescentar meu nome aos
outros em sua lista, mas, por favor, não diga nada. Agora não,
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Sam. Faz tanto tempo…
Entre beijos ardentes, eles se despiram e se entregaram à
paixão. O êxtase foi rápido e explosivo.
— Não vá, Sam — ele pediu mais tarde, ainda com o rosto
enterrado em seus cabelos. — Essas últimas semanas foram um
inferno. A idéia de passar o resto da vida sem você é insuportável.
Fique comigo. Negocie mais uma vez.
— Negociar?
— Eu quero o meu bebê. O nosso bebê. E quero você.
Prometo devolver cada centavo do seu dinheiro, Sam, mas fique
comigo.
— Do que está falando, Morgan?
—Não posso devolver todo o valor de uma só vez, mas
prometo depositar um milhão por ano, durante os próximos cinco
anos, em uma conta só sua.
— Mas… como?
— Não preciso do seu dinheiro, Samantha. Nunca precisei. E
não toquei naquela quantia.
— Mas Babs disse…
— Sei o que meus amigos pensam, e nunca me dei ao
trabalho de corrigi-los. Assim me mantive livre de certas mulheres.
Mas nunca estive falido como todos imaginaram, e fiz muito
dinheiro nesses últimos dez anos. Sou um homem rico, e trabalhei
como um louco por cada centavo dessa fortuna.
— Então…? Minhas jóias, o avião, o Jaguar…
— Paguei por cada um deles. E também paguei suas contas.
Por isso os advogados telefonaram pedindo minha presença no
escritório. Eles não entendiam como o dinheiro permanecia
intacto.
— Mas… você me consultou antes de comprar o avião e o
carro!
— É claro que sim! Somos casados, não?
— Não entendo, Morgan. Se não precisava do dinheiro, por
que…?
— Por que me casei com você? Porque a queria.
— Está falando de atração física?
— Exatamente. Eu a desejei desde que a vi entrando na sala
da casa de Ben e Babs. Já quis muitas mulheres, Samantha, e tive
quase todas que desejei, mas nunca senti uma atração tão forte
quanto a que experimentei por você.
— Tive a impressão de que não gostava de mim.
— O que não me agradava era a intensidade de meus
sentimentos. Mas, acredite, naquele momento decidi que a teria. E
quando Ben conversou comigo sobre sua proposta, concordei de
imediato. Se já não estivesse apaixonado por você quando nos
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casamos, eu a teria possuído muito antes. E quando a possuí, foi
porque não podia mais me conter. Por favor, Samantha. Vamos
fazer um último acordo.
— Está querendo me comprar? — ela perguntou com um fio
de voz, temendo alimentar a esperança que desabrochava em seu
peito.
— Se for preciso, sim. Você e nosso bebê.
— Um bebê que foi concebido num momento de violência.
— Tem razão, ele foi concebido com violência, mas será
recebido com muito, muito amor. Escute, sei que a magoei muito,
Sam. Queria magoá-la.
— Por quê?
— Porque me sentia comprado, e isso me ofendia e causava
um ressentimento maior do que eu podia suportar.
— Mas se acabou de dizer que não precisava…
— Você não sabia disso, sabia? Usava minha aliança, dormia
em minha cama, e mesmo assim ousou dizer que se deitaria com
quem bem entendesse.
— Morgan, pelo amor de Deus! Eu não estava falando sério.
Foi uma reação idiota provocada por ciúme.
— Ciúme? De quem?
— Carolyn. Eu a vi com ela no jardim na noite da festa. Vi
quando a tomou nos braços. Ela viajou com você naquela primeira
vez em que deixou a casa em Long Island?
— É claro que não! E também não a tomei nos braços no
jardim. Reconheço que Carolyn fez algumas insinuações nesse
sentido, mas todas foram recusadas. Para que iria querer uma
loura sem graça e inexpressiva, se havia em minha cama uma
ruiva quente e explosiva?
— E o que me diz de uma morena de lábios vermelhos e
pele pálida, ex-amante de um industrial italiano do ramo dos
calçados?
— O que tem ela?
— Vai negar que esteve com ela na Itália e em Londres? Ou
que quase foi devorado por ela na noite passada?
Morgan se jogou de costas na cama e riu. Diante de uma
reação tão inesperada, Sam o encarava sem saber se o agredia ou
se o beijava.
— Não seja idiota, Morgan! Eu fiz uma pergunta! — ela
explodiu.
Ainda rindo, ele a segurou pelos ombros e puxou-a sobre seu
corpo.
— Não, Ruiva. É você quem vai me dar uma resposta, e
agora. Você me ama?
— Sim.
90
— Sim?
— Já disse para deixar de ser idiota, Morgan Wade! É claro
que sim! Sim, sim, sim!
A conversa foi encerrada por um beijo que teve um sabor
diferente de todos os anteriores.
Sam acordou ao amanhecer, estendeu o braço e só
encontrou o vazio.
— Morgan?
— Aqui — ele respondeu. Segundos depois entrou no quarto
com uma xícara de café em cada mão.
— Bom dia.
Sam sentou-se na cama segurando o lençol contra o peito.
Vestido com uma calça jeans e um suéter confortável, recém-
barbeado e com os cabelos úmidos do banho, ele exalava uma
aura de masculinidade que a atingia como uma corrente elétrica.
Morgan deixou as xícaras sobre o criado-mudo e foi buscar
um roupão no armário. Segurando-o, ele sorriu esperando que
Samantha se levantasse para ajudá-la a vestir-se.
— Beba seu café antes que esfrie — disse em seguida.
Ela ajeitou-se na cama com a xícara entre as mãos, os olhos
fixos nas costas de Morgan. Sério, ele caminhou até a janela e
ficou olhando para um ponto qualquer no horizonte.
A atitude fria e distante tão próxima das horas de paixão
que haviam vivido plantou a semente do medo no coração de
Samantha. Bebendo o café, ela tentou se preparar para o que o
marido tinha a dizer.
— Ainda quer me deixar, Samantha? — Ele se mantinha de
costas. — Vai insistir na idéia do divórcio?
Era o momento decisivo. Morgan estava tentando dizer que
queria o fim do casamento? Depois da noite que tiveram juntos?
Podia tentar ganhar tempo e descobrir sua intenção. Sabia que
queria viver ao lado do marido para sempre, mas, se ele preferia a
liberdade, o orgulho a impediria de tentar convencê-lo a ficar com
ela. Enfrentaria o fracasso pessoal com a cabeça erguida.
— Não — respondeu com sinceridade, abandonando a idéia
de usar táticas ou esconder-se atrás do orgulho. — Não quero ir
embora. Não quero o divórcio. Eu amo você, Morgan. Quero ficar
aqui, ao seu lado.
Não podia ver o rosto dele, mas ouviu com nitidez quando
ele soltou o ar que havia mantido retido nos pulmões. Morgan se
virou devagar para encará-la.
— Sobre Stacy — disse. — Eu estive com ela na Itália e em
Londres.
O pânico a tomou de assalto. Morgan havia esperado que se
comprometesse para falar sobre Stacy? — Não queria ouvir mais
91
nada. Não queria saber, mas era tarde demais para tentar fugir.
— Quem lhe contou? Dudley?
— Sim.
— Entendo.
— Não, Morgan, você não entende. O que eu disse em
Londres é verdade. Duds é como um irmão para mim, mais nada.
Ele é protetor, como sempre foi, e por isso me contou que você
havia sido visto com outra mulher.
— Já disse que entendo. E acho que devo aos dois um
pedido de desculpas pelas coisas que pensei sobre essa relação.
— Ele terminou de beber o café e deixou a xícara vazia sobre o
parapeito da janela.—Encontrei Stacy na Espanha. Ela me contou
que havia tido uma violenta discussão com o companheiro, o
industrial. Parece que o italiano havia encontrado outra mulher
para ocupar o lugar que Stacy considerava dela.
— E o que ela fazia na Espanha?
— Visitava alguns amigos. Quando mencionei que partiria
para Londres dois dias mais tarde, ela suplicou para ir comigo.
Seguimos para a Itália no dia seguinte. Ela pegou algumas coisas e
tomou providências para que o restante fosse enviado para a casa
da família em Nevada. No outro dia voamos para a Inglaterra.
— Você a trouxe quando voltou para a América?
— Sim. E também dei a ela algum dinheiro. Na Espanha, em
Londres e, novamente, há dois dias, em Vegas.
Sam fechou os olhos contra a enxurrada de lágrimas que
ameaçava transbordar de seus olhos. Era difícil engolir o nó que se
formava em sua garganta.
Segundos depois, o tom de voz seco de Morgan a fez abrir
os olhos.
— Eu não toquei nela. Não de forma pessoal. Não me senti
nem tentado a tocá-la. Afinal, Stacy não é ruiva.
— Ela parecia muito confiante na casa de Babs. Fez alguma
promessa, mesmo que velada?
— Ficou maluca? Acabei de dizer que não tenho olhos para
outra mulher! Confesso que queria criar uma impressão…
— Impressão?
— Queria que você pensasse que havia algo verdadeiro
entre nós. Se não conseguia atingi-la de outra maneira, talvez
pudesse tocá-la pelo orgulho. Mas você se mostrou tão fria, tão
intocável, que concluí que o único prejudicado seria eu mesmo.
Outra vez.
— Outra vez? Mas quando…?
— Na noite da festa. Foi quando fiquei furioso pela primeira
vez. E desde aquela noite tenho estado sempre zangado.
— Mas eu…
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— Não com você. Comigo.
— Por quê?
— E ainda pergunta? Sam, nunca havia agredido uma
mulher em toda minha vida! E eu a feri deliberadamente. Entrei
naquele quarto sabendo que ia machucá-la de alguma maneira.
— Morgan, pare.
— Preciso falar, Ruiva. Você foi… uma experiência nova para
mim. Nunca antes havia sentido ciúme de uma mulher. Nunca
gostei tanto de alguém a ponto de me incomodar. E quer saber
ainda mais algo inusitado? Senti medo. Muito medo.
— É difícil acreditar.
— Mas é verdade. Comecei a sentir medo na primeira noite
em que dormimos juntos, e desde então o sentimento só cresceu.
E piorava cada vez que eu tinha de me afastar. Temia voltar para
casa e descobrir que você havia partido. No último verão, quando
começou a perder peso, agarrei-me à esperança de que você
poderia estar grávida.
— Queria que eu engravidasse? Mas… eu tinha certeza de
que ficaria furioso com isso!
— Rezei muito para que a gravidez acontecesse. Imaginava
que, assim, você ficasse comigo. Sei que é uma idéia idiota, mas,
como disse, estava com medo. E precisava acreditar em alguma
coisa.
Samantha tinha a sensação de estar diante de outra pessoa.
Para onde havia ido o homem arrogante com quem julgava ter se
casado? De repente ela teve uma certeza. Se o homem que via
agora era como um estranho para ela, a culpa era só sua. E havia
chegado o momento de conhecê-lo melhor.
Morgan continuou falando:
— Não imagina como senti medo daquela viagem a Long
Island. Tinha certeza de que, uma vez fora do rancho, você nunca
mais voltaria. Afinal, havia passado boa parte de sua vida voando
pelo mundo, e depois de tantos lugares exóticos e lindos, o que
poderia haver de interessante num local como este?
— Você.
Um sorriso radiante iluminou o rosto de Morgan, e ele se
aproximou com as mãos estendidas.
— Amo você, Sam.
— Ainda me quer como sua mulher?
— E como minha esposa. Diga que me ama, Sam.
— Eu amo você, Morgan.
Os lábios encontraram os dela. Os braços a envolveram. Não
havia mais nada a dizer. Não com palavras. Os corpos falavam
com maior eloqüência.
Sam nadava na piscina do rancho e sentia o sol de julho na
93
pele pálida. Era bom ter energia novamente. Por algumas
semanas depois de ter deixado o hospital, sentira uma fraqueza
quase insuperável.
Morgan aproximou-se da piscina e sorriu para a esposa.
— Já tem permissão para nadar, Ruiva? — Samantha saiu da
piscina e foi abraçá-lo.
— É claro que sim — afirmou sorrindo. — Conversei com o
médico hoje cedo, e ele me liberou para a prática da natação e de
todas as atividades normais.
— Todas mesmo?
— Todas.
Ele a beijou. Depois, sem se importar com a água que
encharcava suas roupas, tomou-a nos braços e levou-a para o
quarto.
Depois de semanas de abstinência, a união foi voraz e, ao
mesmo tempo, doce. Totalmente satisfatória. Só um pequeno
detalhe aborrecia Samantha, e Morgan, como se pudesse ler seus
pensamentos, abordou exatamente esse assunto.
— Não gosta de tomar aquelas pílulas, não é?
— Morgan…
— Eu sei que não gosta.
— Tem razão, não gosto. Mas é necessário.
— Devia ter concordado com a minha va…
— Não!
— Sam…
— Um dia você vai mudar de idéia.
— Acho que não. Preciso de você, Sam. Não só para
momentos como estes, mas sempre. O tempo todo. Preciso saber
que é minha, que está aqui, viva.
— Morgan, por favor! Não vamos falar sobre isso…
— Eu preciso falar. Por Deus, Sam, acho que teria destruído
aquele hospital, se Ben e Babs não estivessem lá para conter-me.
— Morgan, pare!
— Senti tanto medo… Precisava estar perto de você, ajudá-
la, segurá-la bem forte para impedir que escapasse de mim.
— Eu sei, querido. Eu sei.
Agora sei que me casei com um homem especial. A
gentileza com que ele havia cuidado dela durante o longo inverno
e parte da primavera a surpreendera. Se Sara a cobrira de
cuidados e atenção como uma mãe preocupada, Morgan a
protegera como um cão de guarda. Em março, quando se queixara
de estar gorda e feia, ele havia jurado gostar de suas formas
arredondadas. O inverno fora longo e difícil, e ele trabalhara
muito.
E como se não bastasse o trabalho físico no rancho, Morgan
94
tivera de empreender diversas viagens de negócios. Cada vez ele
voltava com aparência mais exausta, e Sam acabara descobrindo
através de Babs e Ben que o marido dirigia horas seguidas,
mesmo estando cansado e sonolento, num esforço para chegar em
casa mais depressa. O conhecimento provocara um sentimento de
culpa que se unira à insatisfação com o corpo avantajado pela
gestação.
Quando entrara em trabalho de parto quatro semanas antes
da data prevista, Sam entrara em pânico. Morgan mantivera a
calma e, conversando com ela, a levara ao hospital no Jaguar. Mais
tarde, quando foram informados sobre sérios problemas
relacionados ao parto, Morgan começara a andar pelos corredores
como um animal enjaulado. Sam só soubera disso através de
Babs. Que também estivera lá.
Estivera muito perto da morte e, embora não tivesse
condições nem mesmo de se importar com isso naqueles difíceis
momentos de dor e medo, Samantha acabara descobrindo
semanas depois que todos haviam sido informados sobre os riscos,
e o efeito da notícia sobre Morgan fora devastador.
Babs relatara que os olhos dele eram espelhos de medo e
revolta, e que em determinados momentos ele chegara a explodir
até mesmo com Ben. O médico que ficara responsável por sua
saúde quase morrera de terror e ansiedade diante daquele marido
desesperado.
Sam só soubera de tudo isso pelos relatos de Babs. Naquele
momento, estivera ocupada demais tentando agarrar-se à vida. No
final, quando tudo acabara e ela fora deixada sozinha em uma
cama com o corpo exausto, mas com a mente alerta, Morgan
aparecera. O mesmo Morgan que podia se entregar a horas
seguidas de trabalho duro. O mesmo Morgan que prometera
derrubar Jeff, e que o teria feito, se julgasse necessário. O mesmo
Morgan que ameaçara matar Duds, e que também teria cumprido
essa ameaça. Esse mesmo Morgan entrara no quarto e a fitara em
silêncio. Depois caíra de joelhos ao lado da cama, apoiara a
cabeça em seu peito e chorara. Chorara para encontrar alívio
depois das horas de pavor; chorara como só um homem pode
chorar.
— Já os viu? — Sam havia perguntado com voz fraca.
— Não.
— Então vá ver os bebês. Prometo que não vai se
arrepender. Ele erguera a cabeça com um brilho feroz nos olhos.
— Nada compensa o que acabamos de passar.
— Eles compensam qualquer sacrifício.
Agora Sam tremia nos braços do marido. A convalescença
havia sido longa, e era bom poder estar com ele novamente
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daquela maneira.
— O que foi? — ele perguntou. — Está com frio?
— Não. — Um rubor tingia seu rosto. — É justamente o
contrário. Oh, Morgan, quero fazer amor com você novamente
antes de Sara voltar com as crianças.
— Nossos filhos — ele sorriu. — Nossos gêmeos ruivos. Eu os
amo muito, Sam. E eles quase tiraram sua vida quando chegaram
ao mundo.
— Mas eu estou aqui. Viva. E sou sua.
As palavras foram recebidas por um beijo apaixonado.
— Oh, Morgan! Por favor, faça de mim sua mulher… mais
uma vez. Sempre.

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Julia
Todas as semanas, um romance inesquecível espera por
você!

Na próxima edição

PAIXÃO HAVAIANA
Jill Mane Landis

— Quase ia me esquecendo da razão para ter vindo até aqui.


— E qual foi?
—Acabou a energia elétrica. —Ela deslizou para frente até
estar sentada na beirada da cadeira, como se estivesse pronta
para correr.
— Isso acontece muito. O grupo da manutenção local está
sempre trabalhando nos cabos. Provavelmente a energia já deve
ter voltado agora. — Ele não conseguia parar de admirar-lhe a
beleza do rosto, de correr seus olhos pelos contornos delicados
daquele pescoço acetinado, descendo até os seios bem-feitos e,
então, tornando a fitá-la nos olhos.
— E há um porco no banheiro. — Kylee cruzou os braços e
aguardou, obviamente esperando vê-lo chocado.
— E como era ele?
— O que quer dizer com “como era ele”? O que posso dizer?
Era imenso. Era um porco. Estava parado debaixo do chuveiro,
cheirando o ralo, apenas isso.
—Nesta região, um porco não é apenas um porco. — Rick
tentou parar de olhar para as coxas dela, tentou parar de imaginar
como seria deslizar suas mãos por aquela pele macia. — Há porcos
selvagens que têm presas e podem ser muito, muito perigosos. Se
algum dia vir um desses, proteja-se atrás de algo o mais rápido
que puder. E há também os porcos domésticos que geralmente
acabam se tornando o centro das atenções num luau. A família
que mora do lado oposto da estrada tem um porco de estimação
chamado Kiko, que é bastante gordo e tem manchas.
— Esse que vi se encaixa na descrição. Tinha manchas, mas
não presas. Na verdade, quase o atropelei na estrada no dia em
que estava tentando encontrar este lugar. — Ela se levantou,
puxou a barra do short para baixo e encarou-o.
— Kiko é de fato inofensivo.
— Seja como for, o fato é que ele está no meu chuveiro.
—É provável que já tenha ido embora a esta altura.
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—Espero que sim. — Ela lançou um olhar à porta e, então,
tornou a fitá-lo. — Bem, tenho de ir.
— Fique para jantar. — O convite foi feito antes que ele
pudesse se conter.
— Não posso. — Ela deu a impressão de que sairia em
disparada pela porta.
— Você tem que comer. — Ele parecia a própria mãe
falando.
— Tenho de voltar para o trabalho. — Kylee estava
decididamente nervosa agora, olhando ao redor como se tivesse
acabado de se dar conta de como estavam sozinhos ali.
— Do que é que tem medo? — Rick soube imediatamente
que dissera a coisa errada.
Ela jogou os cabelos loiros para trás, sua raiva evidenciando-
se.
—Esse é o seu jeito de agir? Você banca o sedutor para
mulheres que estão em busca de uma aventura de verão? Um
rápido e tórrido romance no paraíso que as ajudará a enfrentar
mais um ano, que lhes dará uma fantasia de verão à qual se ater?
Não estou interessada.
— Alto lá! É isso que você acha que eu faço? Que fico
sentado aqui na ilha e seduzo mulheres mal-amadas do continente
em busca de uma aventura? Não foi por isso que convidei você
para jantar. Pensei que talvez você apreciasse ver quatro paredes
diferentes para variar. — A própria raiva dele foi instigada pelo
fato de que estivera fantasiando sobre ela.
— Lamento. — Kylee ainda parecia furiosa demais para
oferecer um pedido de desculpas sincero.
— Deve mesmo lamentar.
Ambos permaneceram se entreolhando longamente em
meio à tensão quase palpável no ar.
Enfim, Rick soltou um profundo suspiro e decidiu fazer nova
tentativa.
— E então, vamos jantar?

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