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Sociolinguística AULA 7

Barbara Cabral Ferreira

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

Por uma gramática


democrática

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Compreender a relação entre a Sociolinguística e o ensino da Língua


Portuguesa;
„„ Entender o conceito de “gramática”;
„„ Identificar os diversos tipos de gramática: normativa, descritiva e
internalizada;
„„ Refletir sobre o ensino da Língua Portuguesa.
Por uma gramática democrática

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Caro aluno,

Nas unidades anteriores, discutimos sobre variação e mudança linguística,


preconceito linguístico, concepção de erro, desvios, transgressões, gramática e,
por fim, na aula anterior, sobre a relação entre Sociolinguística, escola e ensino. A
essa altura, como estudante de Letras (e futuro professor de Língua Portuguesa!),
você deve estar se perguntando: como se dá o ensino de Língua Portuguesa na
escola? Que gramática deve ser ensinada? Deve-se priorizar a norma culta ou a
coloquial? Como tratar a variação linguística em sala de aula?

Essas e outras perguntas também têm inquietado professores e pesquisadores/


linguistas e têm sido discutidas em vários livros, como, por exemplo, Por que (não)
ensinar gramática na escola, de Sírio Possenti; Gramática: nunca mais, do professor
Luiz Carlos de Assis Rocha; Ensino de Português e Sociolinguística, organizado por
Marco Antonio Martins, Silvia Vieira e Maria Alice Tavares; e, ainda, Sete erros aos
quatro ventos, de Marcos Bagno, dentre outros.

Por ser um tema bastante relevante e interessante, nesta aula, você será convidado
a refletir sobre o que estudamos até o momento e a relacionar, esse conhecimento
adquirido com o ensino de gramática. Sugerimos que você faça uma breve
revisão do que foi estudado nas aulas anteriores, em especial nas aulas 3 e 6,
para relembrar algumas questões já colocadas sobre o tema. Vamos começar?

3 TECENDO CONHECIMENTO

“Difícil não é arranjar ideias novas, mas fugir das antigas.”


John Maynard Keynes

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o ensino de Língua Portuguesa


já propõem o reconhecimento e o respeito às variedades linguísticas, assim
como salientam o problema do preconceito linguístico e a tarefa que a escola
tem de combatê-lo.

Nessa orientação oficial, a área de Língua Portuguesa objetiva “conhecer e


respeitar as diferentes variedades linguísticas do português falado” e “utilizar
diferentes registros, inclusive os mais formais da variedade linguística valorizada
socialmente, sabendo adequá-los às circunstâncias da situação comunicativa
de que participam”. Também afirmam que os rótulos “certo” e “errado” devem
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ser questionados e que a norma culta, embora deva ter seu lugar garantido na
escola, não deve ser a única variedade privilegiada no processo de conhecimento
linguístico disponível ao aluno (Cf. BRASIL, 1997).

Como se pode verificar, os PCN estão atravessados por pressupostos da


Sociolinguística, porém, como vimos na aula anterior, ainda permanece uma visão
tradicional e conservadora de que os brasileiros não sabem falar português, que
falam mal, que não conhecem sua língua... Essa visão é fruto de uma concepção
de gramática como sendo o padrão a ser seguido, o “correto”, o “bom português”.
Desse modo, como consequência, o Português é limitado ao ensino da gramática
(e, como veremos mais adiante, da gramática normativa), que faz o aluno falar e
escrever “bem”, de acordo com as normas gramaticais. Mas, enfim, existe apenas
um tipo de gramática? Que gramática deve ser ensinada na escola?

3.1 Eu ensino, tu ensinas, ele ensina gramática

De acordo com Possenti (1996), a noção de gramática é controvertida. O autor


afirma que a ideia mais utilizada e conhecida é a gramática como um “conjunto
de regras”. Porém, esse conceito de gramática, que pode parecer tão claro e
objetivo, não é entendido de maneira homogênea. Existem, no mínimo, três
maneiras diferentes de entender a concepção de “conjunto de regras”, que se
relacionam com o que se conhece por regra, língua e erro:

a) Conjunto de regras que devem ser seguidas;


b) Conjunto de regras que são seguidas;
c) Conjunto de regras que o falante da língua domina.

A primeira alternativa diz respeito à gramática normativa (ou prescritiva); a


segunda, à gramática descritiva; e a terceira, à gramática internalizada.

A gramática normativa entende “regra” como sendo uma obrigação, que deve
ser obedecida, uma lei. Sendo assim, suas regras devem ser seguidas sob
pena de se falar ou escrever “errado”. A língua, nesse sentido, é uma forma de
expressão observada e produzida por pessoas cultas, de prestígio, e tudo que
foge à variedade culta da língua representa um erro. Quem nunca ouviu alguém
ou algum professor dizer que um aluno fala errado? Ou que não sabe falar ou
escrever? Ou que escreve mal? Essas afirmações estão apoiadas numa visão
prescritiva de gramática.

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A gramática descritiva, por outro lado, não tem como objetivo prescrever, mas
sim descrever como a língua é usada pelos falantes. Ela entende que a língua
é variável e não uniforme. Desse modo, regra diz respeito àquilo que tem
regularidade e constância. Para a gramática descritiva, existem as variantes
linguísticas e, portanto, não existe uma língua “correta”. Os erros seriam formas
ou construções que não fazem parte, de maneira sistemática, de nenhuma das
variantes da língua.

A gramática descritiva considera as diversas variantes da língua e verifica que


existem regras gramaticais não apenas na norma1 padrão, mas também na não
padrão. Por exemplo, normalmente você pode ouvir alguém falar “As menina
saíram” e “Os bicho tão solto”, mas não “A meninas saíram” e “O bichos tão
soltos”, ou seja, até numa variante não padrão existem regras que são seguidas
pelos seus usuários.

Por fim, para a gramática internalizada, a língua é um conhecimento internalizado


e não uniforme. As regras, por sua vez, são aspectos do conhecimento linguístico
dos falantes e têm propriedades sistemáticas. Não existem erros, mas “desvios”
e “transgressões”, como estudamos em aulas anteriores.

O grande problema do ensino de Português, para Possenti (1996), é que, nas


escolas, prioriza-se a gramática normativa, em detrimento das demais, e os
alunos são vistos como não conhecedores da língua. Desconhecedores da
língua?! Aos três anos as crianças já falam tudo (e como falam!), já constroem
frases, períodos complexos, usam singular, plural, concordância verbal, nominal
e assim por diante! Então, como podemos dizer que vamos ensinar português
a essas crianças?

Quando as crianças chegam à escola, já chegam sabendo a língua (ou pelo


menos uma de suas variantes). Elas podem não usar a norma padrão, elas podem
não ter conhecimento metalinguístico, mas elas conhecem e usam a língua de
maneira eficiente e plena.

Possenti (1996) afirma que o objetivo da escola é, realmente, ensinar o português


padrão. Porém deve-se entender que conhecer uma língua é uma coisa e analisá-la
é outra. Saber usar a língua é diferente de saber as regras dessa língua. Para ele,
“os dicionários e as gramáticas são bons lugares para conhecer aspectos da língua,
mas não são os únicos e podem até não ser os melhores” (POSSENTI, 1996, p. 23).

1 “[...] norma designa o conjunto de fatos linguísticos que caracterizam o modo como normalmente
falam as pessoas de uma certa comunidade, incluindo os fenômenos em variação”. (FARACO,
2009, p. 42).
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Não se aprende a língua por exercícios de gramática, mas por práticas significativas,
efetivas e contextualizadas, ou seja, a melhor maneira de a escola conseguir a
eficácia obtida no aprendizado da língua portuguesa, utilizada nas casas e nas
ruas, é imitando, da melhor forma possível, as atividades linguísticas da vida:
Na vida, na rua, nas casas o que se faz é falar e ouvir. Na
escola, as práticas mais relevantes serão, portanto, escrever
e ler. [...] Como aprendemos a falar? Falando e ouvindo.
Como aprendemos a escrever? Escrevendo e lendo, e sendo
corrigidos, e reescrevendo, e tendo nossos textos lidos e
comentados muitas vezes, com uma frequência semelhante
à frequência da fala e das correções da fala. (POSSENTI,
1996, p. 48).

Na visão de Possenti (1996), não se trata de excluir da escola as reflexões sobre


a língua (o estudo da gramática normativa ou descritiva), mas de estabelecer
prioridades.

O ensino deve partir de um princípio elementar – “o que já é sabido não precisa


ser ensinado” – e deve priorizar, então, a gramática internalizada, pois não faz
sentido descrever ou tentar descrever algo de que não se tenha domínio: “Ensinar
gramática é ensinar a língua em toda sua variedade de usos, e ensinar regras é
ensinar o domínio do uso” (POSSENTI, 1996, p. 86).

O ensino de Língua Portuguesa, dessa maneira, deixaria de ser visto como


transmissão de conteúdos prontos e passaria a ser uma construção de
conhecimentos por parte dos alunos; o professor (ou o livro didático) deixaria
de ser a única fonte autorizada de informações; o ensino seria subordinado à
aprendizagem.

O texto Papos, de Luiz Fernando Veríssimo (2001, p. 65-66), nos mostra como a
falta de domínio de certas variantes pode gerar dificuldades de compreensão
e pode, segundo Vieira (2009), ser uma ótima oportunidade para se trabalhar o
uso das formas pronominais de 2ª pessoa do plural, registrando o vasto emprego
desses pronomes em textos dos domínios religioso e literário:

— Me disseram...
— Disseram-me.
— Hein?
— O correto é “disseram-me”. Não “me disseram”.
— Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é “digo-te”?

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— O quê?
— Digo-te que você...
— O “te” e o “você” não combinam.
— Lhe digo?
— Também não. O que você ia me dizer?
— Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te
partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?
— Partir-te a cara.
— Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-
me.
— É para o seu bem.
— Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem en-
tender. Mais uma correção e eu...
— O quê?
— O mato.
— Que mato?
— Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?
— Eu só estava querendo...
— Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo é elitismo!
— Se você prefere falar errado...
— Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou
entenderem-me?
— No caso... não sei.
— Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?
— Esquece.
— Não. Como “esquece”? Você prefere falar errado? E o certo é “esquece”
ou “esqueça”? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.
— Depende.
— Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses,
mas não sabes-o.
— Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.
—Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas não
posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.
— Por quê?
— Porque, com todo este papo, esqueci-lo.

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Exercitando I
Ao final dessa primeira parte, desafiamos você, caro aluno, a responder às
perguntas abaixo sem voltar ao texto. Vamos lá!
1) O que é gramática?
2) Qual a diferença entre gramática normativa, descritiva e internalizada?
3) Você provavelmente tem contato com alguma criança, seja filho, sobrinho
ou vizinho, então, você poderia identificar:
a) práticas significativas, efetivas e contextualizadas por meio das
quais ela aprende a língua?
b) exemplos de fala que mostram que as crianças dominam a língua (ou
uma de suas variedades) mesmo sem saber as regras da gramática
normativa?
4) Após a leitura do texto de Veríssimo, você consegue identificar sobre o quê
ele chama a nossa atenção? Como e com que objetivo esse texto poderia
ser trabalhado em sala de aula?

3.2 Eu não ensino, tu não ensinas, ele não ensina gramática


Assim como Possenti (1996), Rocha (2007) também defende que a norma padrão
deve ser ensinada na escola. Porém, segundo o autor, cabe à escola
desenvolver as diversas competências linguísticas e
comunicativas do aluno, nos mais variados registros, níveis,
circunstâncias e aplicações, para que o indivíduo se torne,
na expressão de Evanildo Bechara, ‘um poliglota dentro de
sua própria língua’. (ROCHA, 2007, p. 15).

Isso significa que o ensino de Português deve se preocupar não apenas com a
língua padrão, mas também com a não padrão, com o dialeto não padrão do aluno.
No entanto, Rocha (2007), diferentemente de Possenti (1996), defende o não
ensino de gramática nas escolas. Para o autor, saber usar a língua não significa
conhecer sua estrutura, seu funcionamento, sua gramática, do mesmo modo
que saber usar (ou dirigir) um carro não é conhecer a estrutura, o funcionamento,
enfim, a “gramática” do carro.

Rocha (2007) propõe um novo modelo de ensino de Língua Portuguesa, sem


qualquer alusão à teoria gramatical, que ele chama de Prática da Língua Padrão
(PLP). A PLP inclui três módulos: Prática de Leitura (PL), Exercícios em Língua
Padrão (ELP) e Prática de Escrita (PE). Em seu livro, o autor fornece alguns exemplos
de lições completas (que incluem PL, ELP e PE) e outros exemplos de ELP, para
mostrar como funciona a PLP.

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A seguir, apresentamos um recorte de um exemplo de ELP retirado de Rocha


(2007). Nesse exercício, é ensinado o uso do acento indicador da crase por meio
da substituição de um substantivo feminino por um masculino, ou seja, será
mostrado ao aluno que a recebe o acento da crase quando ocorre ao diante da
palavra masculina.

II – Observe:

Iremos a praia. Iremos à praia.


Iremos ao museu.

Apresentei-me a diretora. Apresentei-me à diretora.


Apresentei-me ao diretor.

Obedeço as leis de trânsito. Obedeço às leis de trânsito.


Obedeço aos meus pais.

Dedico-me as artes. Dedico-me às artes.


Dedico-me aos estudos.

„„ Siga os modelos apresentados:


1) Ontem fui a praia. ____________________________________
Ontem fui ao cinema.

2) O diretor referiu-se a aluna. _____________________________


O diretor referiu-se ao aluno.

3) Recorreram a justiça. __________________________________


Recorreram ao juiz.

4) Cedi o livro a professora. ________________________________


Cedi o livro _____ professor.

5) Ele compareceu as reuniões. _______________________________


Ele compareceu ______ ensaios.

6) Permanecemos junto a porta. _______________________________


Permanecemos junto _____ portão.

7) Ninguém é insensível a dor. _______________________________


Ninguém é insensível ________________.

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Exercitando II

Agora, a palavra é sua.

1) O que você pensa sobre a ideia de não ensinar gramática na escola?


2) Sobre o exercício acima, responda:
a) Você utilizaria uma atividade desse tipo em sala de aula?
b) Que outros pontos ou aspectos da língua poderiam ser trabalhados
dessa maneira? Vamos elaborar um exercício?

Assim como Rocha (2007), Bagno (2013) defende que não se deve ensinar gramática
na escola. Para ele, a gramática deve ser estudada apenas nas universidades, nos
cursos de Letras, Ciências da Linguagem e Linguística. Os professores necessitam
ter o domínio metalinguístico, mas os alunos do ensino fundamental e médio não.

Em Os sete erros aos quatro ventos (BAGNO, 2013), por meio da análise de livros
didáticos aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), em 2008,
o autor indica que existem sete erros teóricos sobre o ensino de português nas
escolas brasileiras:

„„ Erro 1: A falsa sinonímia culto = padrão

Os livros confundem o que é norma culta e norma padrão, tratando-as como


sinônimos. No livro Norma culta brasileira (2009), Faraco faz a distinção entre o
que é uma e outra norma:
Se a norma culta/comum/standard é a variedade que
os letrados usam correntemente em suas práticas mais
monitoradas de fala e escrita, a norma-padrão não é
propriamente uma variedade da língua, mas – como bem
destaca Bagno (2007a) – um construto socio-histórico
que serve de referência para estimular um processo de
uniformização. (FARACO, 2009, p. 75).

De forma breve, podemos dizer que a norma culta é uma das variedades da língua,
a variedade urbana, de maior prestígio, usada pelas pessoas consideradas cultas,
mais letradas, e está mais relacionadas com a cultura escrita. Já a norma padrão
é aquela que foi eleita pelos gramáticos como objeto de estudo das gramáticas
normativas, com o intuito de uniformizar o português brasileiro.

„„ Erro 2: Desconsideração da variação estilística

Nos livros didáticos, existe uma associação forçada entre a norma culta (ou
padrão) e a formalidade. No entanto, quando se fala em norma culta, o que
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está em jogo é a variação social (sexo, idade, profissão, renda etc.). Já quando se
fala em escala de formalidade, o que está em jogo é a variação estilística, que é
individual. Mesmo um falante de uma variedade sem prestígio social dispõe de
recursos linguísticos e de competência comunicativa para monitorar sua fala de
acordo com o grau de formalidade. Porém os livros ignoram esse fato.

„„ Erro 3: O padrão como uma “variedade”

A norma padrão, segundo Bagno (2013, p. 65), é o “modelo ideal de língua ‘correta’,
inspirado no falar da aristocracia e assumido (mais ou menos explicitamente)
como objeto de estudo de trabalho pelos autores das gramáticas normativas”
e não uma variedade, pois não corresponde a nenhum uso real da língua. No
entanto, os livros tratam a norma padrão como uma variedade2.

„„ Erro 4: Variação é coisa de caipira

Nos livros, existe a tendência a se considerar variação linguística como sinônimo


de diversidades regionais, rurais ou de pessoas não escolarizadas. Supõe-se que
os falantes urbanos usam a língua de maneira mais “correta” ou mais uniforme
e, com isso, pode-se levar os alunos a entenderem que variação linguística é o
mesmo que “falar errado” (o velho preconceito linguístico entra em cena!).

„„ Erro 5: A escrita como ideal

Nos livros didáticos, a escrita é relacionada com formalidade e a fala com


informalidade, herança dos gramáticos da Antiguidade. A escrita é considerada
a linguagem ideal, a “mais correta”, e a fala, caótica e sem regra. No entanto, da
mesma maneira que existe escrita formal, existe fala formal e, assim como existe
fala espontânea, existe escrita espontânea.

„„ Erro 6: Só o padrão tem regras

Como vimos anteriormente, não só a norma padrão possui regras, mas também
as variedades linguísticas seguem regras que não estão normatizadas nas
gramáticas prescritivas. Nos livros didáticos, o que não é padrão é considerado
como fuga à regra, como “erro”.

2 Enquanto a norma culta/comum/standard é a expressão viva de certos segmentos sociais em


determinadas situações, a norma-padrão é uma codificação relativamente abstrata, uma baliza
extraída do uso real para servir de referência, em sociedades marcadas por acentuada dialetação,
a projetos políticos de uniformização linguística. (FARACO, 2009, p. 75).

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„„ Erro 7: Passar para a “norma culta”

Em vários livros analisados por Bagno (2013), existem exercícios que solicitam
que o aluno passe para a norma culta enunciados produzidos na norma não
padrão ou em “linguagem coloquial”. Tal fato demonstra um preconceito e o
desejo de impor aos alunos um modelo irreal de língua culta ou padrão, que os
livros elegem como objeto de ensino.

Após discutir sobre os sete erros acima, Bagno (2013) propõe uma “reeducação
sociolinguística”, ou seja, “formar cidadãos conscientes da complexidade da
dinâmica social, consciente das múltiplas escalas de valores que empregamos a
todo momento em nossas relações com as outras pessoas por meio da linguagem”
(BAGNO, 2013, p. 175).

Para o autor, a reeducação sociolinguística deverá proporcionar ao aluno:

a) O reconhecimento de que possui plena capacidade de comunicação;


que é possuidor de uma língua plena e funcional; e que a língua é
um instrumento eficaz de interação social e de autoconhecimento
individual. Ou seja, mostrar que o aluno sabe português e que a
escola irá lhe ajudar a desenvolver mais ainda esse saber;
b) A consciência da escala de valores que existe na sociedade com
relação aos usos da língua, por exemplo, algumas variantes são
consideradas mais “bonitas” ou “certas” que outras, assim como
alguns sotaques são valorizados, enquanto outros ridicularizados;
c) O acesso a outras formas de falar e de escrever, ou seja, ampliar
o repertório comunicativo do aluno e mostrar que as variantes
linguísticas poderão ser empregadas de acordo com as necessidades
de interação;
d) A consciência de que a língua é um elemento de promoção social,
de repressão e de discriminação;
e) A inserção na cultura letrada, por meio de práticas de letramento; e
f) O reconhecimento da diversidade linguística como uma riqueza da
nossa cultura, da nossa sociedade.

Bagno finaliza afirmando que


a tarefa de reconhecer a competência linguística e
comunicativa dos alunos e das alunas e, ao mesmo tempo, de
ampliar e expandir essa competência é uma tarefa muito mais
delicada e sofisticada, muito mais exigente do que a prática
tradicional de reprimir os “erros”, de zombar dos sotaques
“engraçados” e de impor a ferro e fogo uma norma-padrão
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fossilizada através da decoreba infrutífera e maçante da


gramática normativa e da prática da análise sintática como
fim em si mesma. (BAGNO, 2013, p. 179).

Ou seja, pensar e colocar em prática essa reeducação sociolinguística não é tarefa


fácil, mas deve ser uma busca constante dos professores de Língua Portuguesa.

Exercitando III

Vamos pensar mais um pouquinho?

1) Escolha um livro didático de Língua Portuguesa de sua preferência e


verifique:
a) Qual o tratamento dado às variedades linguísticas?
b) O livro se propõe a ensinar gramática? Que gramática? E como é
esse ensino?
2) Você pode se imaginar ensinando português sem ensinar gramática como
propõem os autores? Tente elaborar uma atividade.
3) Como você, enquanto futuro professor de Língua Portuguesa, pode
promover a reeducação sociolinguística proposta por Bagno? Faça uma
lista de atitudes, comportamentos e ações que você poderia utilizar
para esse fim.

4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO

Se você achou o tema da aula interessante, além dos livros mencionados no


texto, você também poderá gostar de ler o artigo “Variação linguística e ensino
de gramática”, de Edair Gorski e Izete Coelho, publicado no periódico Working
Papers em Linguística, no ano de 2009. Nele, as autoras trazem algumas questões
importantes que envolvem variação linguística e ensino de português, além de
fazerem algumas sugestões metodológicas para o ensino de gramática. O artigo
está disponível em:
àà https://periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/viewFile/10749/12022

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Para conhecer um pouco mais sobre as


contribuições da Sociolinguística para o ensino
de Língua Portuguesa no Brasil, leia Ensino de
Português e Sociolinguística, organizado por
Marco Antonio Martins, Silvia Rodrigues Vieira e
Maria Alice Tavares. Nesse livro, você encontrará
textos sobre as variações linguísticas em sala de
aula, os livros didáticos de português, variações
fonético-fonológicas e, ainda, morfossintática
Figura 1
e ensino de português.

Outro livro sugerido é Nós cheguemu na


escola, e agora? Sociolinguística e educação,
de Stella Maris Bortoni-Ricardo. Nele, a
autora nos oferece fundamentação teórica e
exemplificação de entrevistas sociolinguísticas,
eventos de oralidade, análise de erros, episódios
comunicativos reveladores de problemas
sociais e comunitários, levando-nos a refletir
sobre o trato que deve ser dado às diferenças
sociolinguísticas e culturais que ocorrem no
português dos alunos em nosso contexto Figura 2
educacional.
Boa leitura!

5 TROCANDO EM MIÚDOS

Caro aluno, vimos, nesta aula, que a Sociolinguística está presente nos PCN
de Língua Portuguesa e que, como orientação oficial para o ensino dessa
disciplina, temos o reconhecimento, estudo e respeito às diferentes variedades
linguísticas. Verificamos, ainda, que, além da gramática normativa, que é a mais
tradicionalmente utilizada nas escolas brasileiras, existem as gramáticas descritiva
e internalizada. Discutimos sobre o ensino de Português e, mais especificamente,
sobre como a gramática pode ou não ser ensinada na escola. Refletimos sobre
alguns problemas relacionados ao ensino da língua nas escolas brasileiras e, por
fim, sobre como uma reeducação sociolinguística poderia contribuir para uma
melhor formação do aluno enquanto sujeito-cidadão.
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Por uma gramática democrática

6 AUTOAVALIANDO

Ao final desta aula, gostaríamos que você, aluno, refletisse sobre os seguintes
questionamentos:

1) Será que a leitura deste material me proporcionou algum conhecimento


significativo que irá contribuir para minha formação enquanto professor
de Língua Portuguesa?
2) Eu conseguiria resumir o que foi estudado para um amigo que não teve
acesso ao texto?
3) Como eu avalio a maneira como me foi ensinada a disciplina de Língua
Portuguesa na escola?
4) Eu sei o que é gramática normativa, descritiva e internalizada?
5) Consigo refletir e identificar alguns possíveis problemas no ensino de
língua e gramática nas escolas brasileiras?
6) Como posso agir para tornar os alunos cientes e combater o preconceito
linguístico em sala de aula?
7) Da mesma forma, também consigo pensar em possíveis mudanças, soluções
ou propostas para tornar o ensino de português menos “chato”, “difícil” e
desestimulante para os alunos?

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AULA 7

REFERÊNCIAS

BAGNO, M. Sete erros aos quatro ventos: variação linguística no ensino de


português. São Paulo: Parábola, 2013.

BORTONI-RICARDO, S. M. Nós cheguemu na escola, e agora? Sociolinguística


e Educação. São Paulo: Parábola, 2005.

BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: Língua Portuguesa. Brasília, DF:


MEC/SEF, 1997.

BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: Língua Portuguesa. Brasília, DF:


MEC/SEF, 1998.

FARACO, C. A. Norma culta brasileira: desatando alguns nós. São Paulo:


Parábola, 2009.

GORSKI, E.; COELHO, I. L.. Variação linguística e ensino de gramática. In: Working
Papers em Linguística, Florianópolis, UFSC, 2009. Disponível em: <https://
periodicos.ufsc.br/index.php/workingpapers/article/viewFile/10749/12022>.
Acesso em: 20 set. 2015.

MARTINS, M. A.; VIEIRA, S. R.; TAVARES, M. A. Ensino de Português e


Sociolinguística. São Paulo: Contexto, 2014.

POSSENTI, S. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: Mercado
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ROCHA, L. C. A. Gramática: nunca mais: O ensino da língua padrão sem o estudo


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VERÍSSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

VIEIRA, S. R. Variação linguística, texto e ensino. In: CON(TEXTOS) Linguísticos,


n. 3, Vitória – ES: UFES, 2009. p. 53-75.

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