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EIXO TEMÁTICO:
Organização e Representação da Informação e do Conhecimento

A HISTÓRIA ORAL COMO PERSPECTIVA DE AUXÍLIO PARA A ORGANIZAÇÃO


DA INFORMAÇÃO EM ARQUIVOS: O CASO DA CIDADE DE RANCHARIA-SP

THE ORAL HISTORY AS A PERSPECTIVE OF SUPPORT FOR THE


ORGANIZATION OF INFORMATION IN ARCHIVES: THE CASE OF THE CITY OF
RANCHARIA-SP

Roberta Albanielle Garcia (UEL) - roberta.albanielle@hotmail.com


Ana Cristina de Albuquerque (UEL) - albuanati1978@gmail.com

Resumo: A história dita como oficial sobre Rancharia, interior de São Paulo, é de
conhecimento público dos habitantes da cidade. No entanto a história sobre as primeiras
pessoas que viveram ali, não são assuntos abordados na cidade nem em pesquisas
científicas. Esse trabalho se justifica pela necessidade de compreender a fundação da
cidade de Rancharia. Mostrando para a própria população, que a história de cada um com a
cidade forma uma história só, a verdadeira história do povo ranchariense. Para
desenvolvimento dessa pesquisa a história oral, como metodologia, foi de extrema
importância e a memória da população tratada como patrimônio. A partir de entrevistas
feitas com moradores da cidade, indicados pelos próprios habitantes, foi possível entender
questões sociais como a migração nordestina para o interior do estado, a importância da
produção algodoeira para a cidade, a prostituição local, as diferenças econômicas entre os
habitantes e o impacto causado pela quebra do valor do algodão nacional na década de
1950. Conclui que com a melhor compreensão sobre a própria história a cidade tem a
possibilidade de criar projetos culturais ou leis que valorizem o seu passado e garantam o
seu futuro.

Palavras-chave: História e memória, Rancharia, interior paulista, história oral.

Abstract: The history told as official about Rancharia, interior of Sao Paulo, is public
knowledge to its residents. However, the history about the first residents of the town, their
daily routine, the problems and difficulties faced in a developing city are not subjects
addressed in that city nor scientific researches. This paper is to justify the need to rescue the
history of the first years of Rancharia and of its dwellers at that time. Presenting to its own
population that the history of each citizen and the history of the city itself make one, the real
history of the people from Rancharia. To the development of this research the oral history
and the memory of the population, treated as patrimony, was of extreme importance. Starting
by interviewing the inhabitants of the city, who were indicated by each other, it was possible
to understand social matters such as the northeastern migration to the inner regions of the
state, the importance of the cotton production to the city, the local prostitution, the economic
differences among the inhabitants and the impact caused by the crash of the national cotton
price in the decade of1950. With a better comprehension about its own history, the city will
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be able to create future cultural projects and laws to enrich its past and ensure its future.

Keywords: History and memory, Rancharia, interior of Sao Paulo, oral history

1 INTRODUÇÃO

A história dita como oficial sobre a cidade de Rancharia, interior de São


Paulo, já é de conhecimento da população. Contada nas séries iniciais do ensino
básico público e privado e reproduzida em feriados, como aniversário da cidade e
desfiles de Sete de Setembro. No entanto, oficialmente em instituições
informacionais, ela não é evidenciada por conta da não reunião de seus documentos
históricos
Neste sentido, o objetivo deste artigo é identificar os registros da história da
cidade a partir da vivência e memória de moradores que residem na cidade. Dessa
forma é possível tentar entender aspectos importantes para o desenvolvimento da
cidade e da sociedade local, como o motivo pelos quais os primeiros moradores se
mudaram para o povoado em desenvolvimento, quais eram as condições de vida
das pessoas, a relação dos moradores, a acessibilidade das classes sociais aos
direitos básicos, entre tantos outros aspectos que surgiram durante as entrevistas.
Segundo o livro Rancharia: Sua história e sua gente escrito por Oswaldo
Ramos Pardo, sem data de publicação, sem editora e de venda local na cidade
Rancharia é fruto da expansão ferroviária pelo estado de São Paulo. Rancharia hoje
forma uma pequena cidade com quase trinta mil habitantes segundo o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estimativa para o ano de 2015.
Localizada no oeste paulista, a pouco mais de quinhentos quilômetros da capital do
estado. No início do ano de 1916, a Estrada de Ferro Sorocabana, hoje Fepasa,
rumava sentido ao Rio Paraná desbravando o interior paulista. Ao chegar à
localização que hoje está situada a cidade, entre os rios Paranapanema e Peixe, foi
necessário à criação de ranchos para que seus trabalhadores pudessem se instalar
durante a estadia e duração da obra, originou desse aglomerado de ranchos o nome
da cidade.
A produção de algodão ranchariense é vista como motivo de desenvolvimento
da cidade, durante seus anos iniciais essa era a base econômica da cidade. Na
década de 1940 muitas indústrias chegavam em solo ranchariense atraídos pela
produção algodoeira já em evidência. As Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo,
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a SAMBRA (Antiga Algodeeira Paulista), a Anderson Clayton, a MacFadden e a Cia


Nacional de Estamparia agiram como combustível para o início da cidade, atraindo
pessoas de diversas cidades da região e do Brasil para novas oportunidades de
emprego.
Segundo Correa (2007), em 1953, quando a produção algodeeira estava no
auge, a Guerra da Coréia acabou, a produção americana de algodão então se
normalizou e a demanda pelo algodão brasileiro diminuiu. Com os preços
despencando as lavouras foram gradativamente perdendo seu interesse na
produção e muitas indústrias fechando suas portas ou se mudando de Rancharia. A
oferta de emprego caiu drasticamente, assim como a migração de novos moradores
para a cidade. O rápido desenvolvimento da cidade então se desacelerou, e a
cidade que tinha potencial para se tornar uma metrópole do interior continua sendo
apenas uma pequena cidade do oeste paulista.
Em 2016 a Estação Ferroviária Ranchariense completou cem anos de sua
inauguração. Apesar de não ser o ano oficial de aniversário da cidade o povoamento
das terras já tinha se iniciado no ano de 1916, com os operários que se instalaram
ali, com os comerciantes que se aproximaram para manter a população e os
migrantes que chegavam em busca de novas oportunidades de emprego.
Nesses cem anos a história da cidade foi sendo criada, a partir de fatos
documentos em jornais locais como: o ‘A Tribuna’ e ‘O Fato’, já fora de circulação,
revista local como a ‘Rancharia em Revista’, também fora de circulação e
documentos oficiais que não são de domínio e acesso público. Alguns livros
autobiográficos que contam parte da história da cidade a partir de memórias
individuais já foram escritos por moradores e antigos moradores, como: ‘Onésio
Flávio, um sonhador’, escrito por Onésio Flávio antigo morador ranchariense que
faleceu durante essa pesquisa; ‘A música não pode parar’ de Prauxedes Ramos e
‘Baixada Amarela’ de Vanderlei Pires Correa. No entanto, a memória coletiva dos
habitantes, daqueles que viram Rancharia nascer e crescer, ainda não havia sido
objeto de estudo em pesquisas científicas.
Com uma história tão pouco explorada sobre a cidade, sua criação, seu
desenvolvimento, suas diferenças culturais e sociais, esse trabalho se justifica na
necessidade de entender mais, e melhor, os primeiros anos da cidade de Rancharia.
Identificar, talvez, assuntos pouco, ou ainda não, abordados e registrados que
fizeram (e fazem) parte da história da cidade. Mostrar ainda, para a própria
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população, que a história de cada um com a cidade forma uma história só, a
verdadeira história do povo ranchariense.
Essa pesquisa se caracteriza como bibliográfica e exploratória, método
documental e utilizou em seu desenvolvimento metodológico entrevistas gravadas
em áudio no ano de 2016 com sete moradores da cidade de Rancharia.
É esperado, com essa pesquisa, abrir novas possibilidades de estudos sobre
a cidade e a região, confirmando com os depoimentos fatos sobre o passado da
cidade que não possuíam fonte de criação.
A pesquisa também pretende abrir uma discussão acerca da importância da
história oral para a organização da informação, especialmente em documentos
históricos e de arquivo. No caso, a cidade de Rancharia, é o exemplo claro de que
entrevistas e pesquisas relativas ao desenvolvimento da cidade e seus moradores,
via os próprios moradores, é um caminho que pode auxiliar em muito posteriormente
em questões de avaliação dos documentos, gênese documental, classificação e
descrição destes documentos quando institucionalizados. Desta forma, pretende-se
também contribuir com estudos acerca do tema na área de Organização da
informação em arquivos.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

A história das pessoas, e suas memórias, contribuem para uma compreensão


e conscientização da sociedade para a situação atual do meio em que vivem, e
poder assim, quem sabe, transformar sua realidade. “Uma história de vida não é
feita para ser arquivada ou guardada numa gaveta como coisa, mas existe para
transformar a cidade onde ela floresceu”. (BOSI, 2003, p.199)
Segundo Pollak (1992) a memória é formada a partir de pessoas, que
participam direta ou indiretamente de um fato, um acontecimento ou uma ação. A
criação e desenvolvimento de uma cidade contam com a participação de pessoas de
diferentes culturas, regiões e objetivos. Apesar de viverem no mesmo ambiente
possuem maneiras próprias, e únicas, de vivenciar cada experiência e criam
memórias distintas sobre um mesmo fato.
Quando Pollak (1992) menciona que a memória pode ser criada da
participação indireta de um indivíduo em um fato ou acontecimento é possível
entender a memória criada a partir de relatos de outras pessoas. Como por exemplo
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um entrevistado que tem memórias do que os pais contavam sobre os primeiros


momentos na cidade de Rancharia. O fato não ocorreu diretamente com o depoente,
mas a memória de outra pessoa, ao ser compartilhada, criou as suas próprias sobre
o mesmo acontecimento.
Jardim (1995, p. 2) afirma que a memória, diferente da história escrita, não é
um processo intencionalmente produzido “A memória é, portanto, processo, projeto
de futuro e leitura do passado no presente”, mostrando assim que a forma como a
memória se desenvolve depende do exercício de manutenção daquele que a detém.
Patrimônio e memória estão intimamente ligados, segundo Funari e Pelegrini
(2009, p. 9) “o patrimônio individual depende de nós, que decidimos o que nos
interessa”, a memória voluntária acontece de forma semelhante, das lembranças
criadas e mantidas pelas pessoas individualmente.
Gonçalves (2005, p. 19) apresenta de forma clara a ligação entre patrimônio
cultural e memória quando afirma:
Nas análises dos modernos discursos do patrimônio cultural, a
ênfase tem sido posta no seu caráter “construído” ou “inventado”.
Cada nação, grupo, família, enfim cada instituição construiria no
presente o seu patrimônio, com o propósito de articular e expressar
sua identidade e sua memória.
A história de uma cidade pode ser considerada um patrimônio cultural da
mesma, uma vez que foi construída por seus habitantes com o propósito de
expressar sua identidade.
Paoli (1992, p. 25) critica a falta de a postura de considerar patrimônio
histórico apenas monumentos, que contam apenas uma versão sobre o passado:
Parece claro que uma sociedade onde se pensa que tudo pode ser
destruído ou conservado, tem uma noção história – passado e
presente – completamente abstrata. Nestas condições, ela não é
uma forma de conhecimento, não é um chão de enraizamento, não
se produz como referência com a qual se possa refletir sobre a
experiência social.
Ainda para Paoli (1992) é necessário o reconhecimento do direito ao passado,
do cidadão se reconhecer no passado que constrói o presente e afirma que “uma
memória social que venha baseada em seu valor simbólico, mesmo que sejam
locais, pequenas, quase familiares” (PAOLI, 1992, p. 26).
Dessa forma, é necessário unir o que é chamado de memória social e história
oral para assim construir o patrimônio histórico ranchariense. Mostrando a sua
população o passado da cidade e da comunidade local e abrir possibilidades para
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desconstrução de lacunas deixadas na história da cidade.


Ao narrar suas experiências cada depoente mostra um pouco mais sobre a
cidade a partir de seu ponto de vista, ponto de vista esse que poderia ser
desconhecido de quem documentou a história dita como oficial da cidade até o
momento.
Delgado (2003, p.23) afirma que “As narrativas são traduções dos registros
das experiências retidas, contêm a força da tradição e muitas vezes relatam o poder
das transformações. História e narrativa, tal qual História e memória, se alimentam”,
mostrando exatamente a necessidade das narrativas para a História.
Sabendo que a história de um grupo social é importante para que o próprio
grupo se conheça melhor e crie suas identidades, as narrativas locais contribuem
para o desenvolvimento do saber local, para o apoderamento cultural e orgulho de
seu passado e antepassados.
O desenvolvimento habitacional da cidade não foi uniforme, por isso o
cuidado de entrevistar moradores das três áreas (bairros) que surgiram primeiro:
• Região Central, onde desde o início da cidade já abrigava os primeiros
comércios e a igreja;
• Região intermediária, onde as famílias mais simples residiam;
• Bairro da Estação, que cresceu nas proximidades da estação ferroviária e
abrigava as indústrias;
Apenas uma entrevista fugiu dos padrões das demais. Um senhor também
residente da cidade de Rancharia que faz um trabalho de resgate da memória local
digno de atenção. Criador de uma página no Facebook ele posta fotos e pequenas
histórias sobre a cidade, com o caráter educativo de forma simples e objetiva.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Essa pesquisa se caracteriza como abordagem qualitativa, uma vez que


segundo Creswell (2007, p. 186) “[...] é fundamentalmente interpretativa. Isso
significa que o pesquisador faz interpretação dos dados”. Os depoimentos gravados
foram tratados como dados para desenvolvimento da pesquisa. O método foi o da
pesquisa documental.
Segundo Delgado “A história oral é uma metodologia primorosa voltada à
produção de narrativas como fontes do conhecimento, mas principalmente do
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saber.” (2003, p. 23), por isso para o desenvolvimento dessa pesquisa a história oral
foi necessária não apenas para constatar os fatos e a história registrada sobre a
cidade, mas também trazer a tona assuntos ainda não explorados.
Para a coleta de dados a técnica utilizada foi de entrevistas
semiestruturadas, a entrevistadora deixou os entrevistados a vontades para contar
suas histórias e usou as perguntas prévias apenas para orientar a conversa:
aponta como vantagens da utilização da técnica da entrevista, a
flexibilidade na aplicação, a facilidade de adaptação de protocolo,
viabilizar a comprovação e esclarecimento de respostas, a taxa de
resposta elevada e o fato de poder ser aplicada a pessoas não aptas
à leitura. RIBEIRO (2008) apud JÚNIOR e JÚNIOR (2011, p. 242)
As entrevistas foram gravadas em áudio e os depoentes assinaram um Termo
de Consentimento Livre Esclarecido autorizando o uso de seus depoimentos para
essa pesquisa.
Para que fosse possível conhecer diferentes realidades e pontos de vista
durante a coleta de informações as entrevistas foram realizadas com pessoas de
diferentes sexos, diferentes classes sociais e de pontos distintos da cidade.
A escolha dos entrevistados foi feita a partir de indicação popular priorizando
as pessoas que residam no município há mais tempo, essa técnica metodológica é
conhecida como Snowball
Essa técnica é uma forma de amostra não probabilística utilizada em
pesquisas sociais onde os participantes iniciais de um estudo
indicam novos participantes que por sua vez indicam novos
participantes e assim sucessivamente, até que seja alcançado o
objetivo proposto ( o “ponto de saturação”). (BALDIN e MUNHOZ,
2011, p. 332)

4 DEPOIMENTOS

Seu Baiano
Francisco Jessier Albuquerque, de 77 anos, aposentado e pai de 4 filhos não
é conhecido por ninguém na cidade com seu nome de batismo. Já seu apelido de
‘Seu Baiano’ é conhecido em toda a cidade, vendedor ambulante carregava seus
doces e bolachas em um carrinho pelas ruas de Rancharia.
Ao contrário do que o apelido sugere, Seu Baiano é nascido no Ceará,
mudou-se para Rancharia com apenas três anos de idade, com seu pai e mais dois
irmãos em um caminhão pau de arara. Em 1942 os boatos que o estado de São
Paulo era “bom para ganhar dinheiro” já existiam, por isso com dificuldades
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financeiras a solução de muitos nordestinos era migrar para o estado


Ao chegar ao município a família foi morar no campo para trabalhar nas
lavouras de algodão. Seu Baiano conta que na fazenda ainda não havia luz elétrica,
o acesso à água era apenas por poço e as casas eram feitas de tábua de cedro.
Quando precisavam fazer compras os moradores iam de jardineiras que faziam
viagens pelos sítios e levavam os moradores até a cidade mais próxima, no caso
Rancharia.
Nessas ocasiões, ao chegar à cidade, era possível ver ainda poucas casas de
alvenaria, segundo ele. Não haviam quarteirões completos de casas, ficavam
afastadas uma das outras e esses espaços eram tomados por vegetação. Apenas a
avenida principal era calçada por paralelepípedos.
Durante a infância na área rural a única forma de ter acesso a educação, era
por meio de jardineiras que levavam os alunos até as escolas e os pais precisavam
pagar pelo transporte.
Um assunto muito presente no depoimento foi a produção algodeeira da
cidade. Seu Baiano conta que os caminhões carregados de algodão formavam
grandes filas em frente as industrias enquanto esperavam para descarregar, essa
espera chegava até a dez dias.
Maria Mamede da Silva
Maria Mamede da Silva é natural de Iguatu no Ceará, tem 88 anos e vem de
uma família de 25 filhos. Trabalhou a maior parte da vida em lavouras de algodão e
café. Mudou-se do nordeste para o interior de São Paulo em busca de novas
oportunidade e condições de vida melhores, como muitos nordestinos faziam há 65
anos.
Maria Mamede conta que ao chegar na cidade poucas eram as casas em
alvenaria, a maior parte eram ranchos de madeira.
A rua de sua casa não tinha nenhum tipo de calçamento, havia energia
elétrica, mas o fornecimento de água era por poço. O bairro onde residia era já
bastante habitado por famílias de baixa renda, como a dela.
Nas proximidades de sua casa haviam apenas pequenas mercearias, as
compras para casa eram feitas em um comércio chamado Casa Ferrerinha,
localizada ao lado da igreja matriz católica, bem no centro da cidade.
Ao se mudarem para Rancharia, apesar do crescimento econômico da
cidade, o senhor Elizeu, seu segundo marido, ficou desempregado por oito meses
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até conseguir emprego nas indústrias Matarazzo. A renda da casa provinha apenas
do trabalho da esposa, que trabalhava em colheitas de algodão e lavava e passava
roupas de outras pessoas, “eu trabalhei em casa, na roça. Na colheita de algodão,
de café, de toda coisa”. Maria conta que lavava as roupas das “mulheres da zona”
(mulheres que trabalhavam nos prostíbulos da cidade) para complementar a renda e
que nunca teve nenhum problema com isso, era uma relação tranquila entre elas.
A pensão do Nato – Entrevista com Matilde Tomael da Rocha
A pensão do Nato é uma velha conhecida da população ranchariense.
Localizada na região do Bairro da Estação era local de destino para grande parte
dos operários vindos do norte e nordeste brasileiro que chegavam à cidade para
trabalhar nas lavouras e indústrias locais.
Matilde Tomael da Rocha, filha do dono da pensão, conta que no ano de
1949, um ano antes do falecimento da esposa, Nato resolve abrir uma pensão na
própria casa, no início com apenas dois quartos, para se restabelecer
financeiramente.
Ao perceber que os fazendeiros empregavam famílias inteiras de migrantes
Fortunato Tomael, nome de batismo do já falecido Nato, viajou para São Paulo e em
visita ao setor de imigração fez um acordo: que parte dos nortistas e nordestinos em
busca de empregos nas lavouras fossem encaminhados para a próspera Rancharia.
Em seu quintal construiu minúsculos quartinhos, desprovidos de mobília, os
hóspedes dormiam em redes esticadas nas paredes e todos seus pertences cabiam
nas malas que traziam de viagem. Dessa forma abrigava os migrantes em sua curta
estadia na cidade, até que fossem empregados pelas grandes fazendas de algodão.
Nato participava também desse processo de contratação, servindo como
agenciador, intermediando a negociação entre grandes fazendeiros e futuros
empregados. Ali na pensão, de banheiro e cozinha compartilhados entre sua família,
seus funcionários e seus inquilinos Nato servia ainda refeições, que
complementavam nas despesas.
Vilma Silva dos Santos
Em depoimento a essa pesquisa Vilma relata os anos iniciais na pequena
Rancharia, há 67 anos.
Com apenas dois anos de idade Vilma chegou com a família na cidade, antes
de se mudarem para um bairro familiar ela e seus irmãos moraram com os pais no
Bairro da Estação. A residência ficava próxima a Estação Ferroviária, onde o pai
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exercia a função de controlar o tráfego para passagem do trem, porém nem tudo
foram flores durante a estadia da família.
Durante muitos anos o Bairro da Estação foi conhecido como a “zona da
cidade”, lugar onde domiciliava e trabalhavam as prostitutas de Rancharia.
Ao se mudar para esse bairro, a mãe de Vilma, que era uma mulher
extremamente conservadora, ficou amedrontada com as situações que os filhos
poderiam presenciar. Vilma conta então que sua mãe mantinha ela, ainda criança, e
a seus irmãos dentro do único quarto da casa para que eles não vissem o que
acontecia nas ruas ao redor. Dentro desse quarto as crianças se alimentavam com a
comida e água trazidos pela mãe e faziam suas necessidades em um urinol.
De dentro do quarto Vilma ouvia as conversas altas das mulheres, as músicas
vindas dos bares, além de brigas constantes. Durante a noite, quando o movimento
nas casas vizinhas se intensificava e a família não tinha tranquilidade, “tinha noite
que ficava a noite inteira batendo na nossa porta, meu pai falava ‘aqui é casa de
família’ acho que era os homens querendo saber que mulher que morava naquela
casa”.
Preocupada com as condições em que as crianças estavam crescendo os
pais se mudaram para um bairro familiar, entre o bairro da Estação e o Centro da
cidade. Nas ruas de terra as casas, em sua maioria, tinham energia elétrica e o
abastecimento de água de poço. Naquela região nunca houve paralelepípedo, da
terra clara e arenosa evoluiu direto para asfalto.
Vilma se casou com um jovem que conheceu durante as séries iniciais da
vida escolar e permanece em Rancharia até hoje, onde criou seus filhos e viu nascer
seus netos e sua primeira bisneta, também ranchariense.
Walkyria Maria Dorini Correia
Walkyria mudou-se para Rancharia há 70 anos com 12 anos de idade, com os
pais e mais três irmãos vindos do estado do Paraná.
Em 1946, com as plantações de café retornando poucos lucros o senhor Luiz
Dorini, pai de Walkyria, aceitou o convite de um primo para mudar-se para Rancharia
e ser seu sócio na exploração de madeiras da cidade. Com o crescimento da cidade
o desmatamento, hoje condenado do ponto de vista ambiental, era necessário. Com
a exploração eram abertos novos campos para plantação de algodão que já
movimentava a economia local, para a criação de gado e a madeira era usada para
a construção de novas casas.
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Quando a exploração madeeira já não era mais viável o senhor Luiz Dorini
vendeu a serraria e investiu uma granja e em suas fazendas aos arredores da
cidade. Dessa forma, mesmo com a queda do algodão, foi responsável ainda por
parte do movimento da economia local. Após sua morte foi homenageado tendo seu
nome colocado em uma escola de ensino básico municipal.
Fernão Salles de Araújo
Patriarca de uma das famílias mais influentes de Rancharia na atualidade
Fernão Salles de Araújo nasceu em Rancharia há 81 anos.
Dona Ida, mãe de Fernão, era dona também de uma pensão. Diferente da
Pensão do Nato essa pensão abrigava bancários e professoras que chegavam na
cidade para fazer carreiras e exercerem suas profissões na cidade em
desenvolvimento.
Fernão cursou todo o ensino básico em Rancharia, as únicas opções que a
cidade oferecia era para ser professor, mas ele diz que nunca teve muito jeito para
lecionar. Então, a convite de um pensionista da mãe, foi trabalhar no Cartório da
cidade, ainda com quinze anos.
Já casado e com os filhos mais velhos pequenos Fernão entrou na faculdade
de Direito. Para frequentar as aulas Fernão precisava viajar todas as noites para a
cidade de Presidente Prudente. Ele lembra que trabalhava durante o dia todo e a
noite viajava com outros dois amigos para as aulas com seu próprio carro pelas
estradas de terra.
Fernão nasceu e cresceu em Rancharia, casou-se e teve seus cinco filhos na
cidade, de onde nenhum deles saiu, e seus netos. Ainda hoje se interessa pelas
questões políticas e sociais que envolvem a cidade.
Arquivo Rancharia - Valdemar Vieira dos Santos
Divulgando o que encontra do passado e registrando o presente para o futuro
Valdemar Vieira dos Santos, mecânico de manutenção aposentado, criou um centro
de pesquisa e recuperação de memória de fácil acesso, gratuito, interativo e
podendo ser consultado 24horas por dia por qualquer pessoa no mundo, bastando
apenas ter acesso à Internet e uma conta no Facebook.
Com um formato de perfil pessoal Valdemar possui, até no momento de
fechamento dessa pesquisa, 2531 moradores e antigos moradores de Rancharia
adicionados como amigos na mídia social.
Valdemar reconhece o caráter educacional que a página tem, afirma que não
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gosta de comentários políticos em suas publicações e completa “a minha página é


para preservação da memória”. A página, segundo ele, foi criada para ser
informativa, mas hoje já serve de ponto de encontro para as pessoas que moram
longe da cidade, é comum acontecer de pessoas que não tinham contatos há muitos
anos se reencontrarem nos comentários nostálgicos sobre seus passados nas
publicações de Valdemar.
Apaixonado por fotografia o idealizador da página organiza seus álbuns por
temas, muitas fotos são de sua autoria, as mais antigas são cedidas pela
comunidade, que acompanha e reconhece seu trabalho.
Durante a entrevista Valdemar foi questionado sobre a importância dos fatos
atuais que ele documenta na página e deu a seguinte resposta “As coisas são atuais
hoje, todo mundo vê, todo mundo lembra, mas daqui uns 20, 30 anos talvez
ninguém mais tenha acesso a isso, por isso o arquivo”.
Valdemar, um homem simples e sem conteúdo teórico sobre História faz um
trabalho educacional sobre a cidade digno de reconhecimento e apoio. Sem apoio
dos historiadores da cidade faz o que pode para de alguma forma passar seu
conhecimento para os demais moradores e tornar a história da cidade de
conhecimento público e popular.
Apesar disso ainda não tem nenhuma ideia de como preservará todo o
conteúdo reunido e gerado até agora, ficando dependente da mídia virtual e da rede
social. Não possui incentivo para organizar um livro ou uma pequena publicação, por
isso acredita que não será capaz de fazê-lo. Mas isso não o desanima de continuar
com seu trabalho.

5 CONSIDERAÇÕES

Esse estudo permitiu perceber que muito da história da cidade de Rancharia


ainda precisa ser contada e consequente institucionalizada. Ao questionar todos os
entrevistados sobre o que sabiam da história da cidade a resposta era sempre sobre
o nome que a cidade leva e nunca sobre como realmente começou, o que motivou
os primeiros moradores a se mudarem para a pequena cidade em crescimento. Isso
mostra que a história das vidas que construíram a cidade foi ignorada até então. Foi
preciso conversar, saber sobre a particularidade de cada entrevistado para entender
a realidade em que viviam, as condições de seus bairros, as relações entres as
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pessoas e assim entender melhor o passado da cidade.


Durante as entrevistas muitos entrevistados estavam acompanhados de seus
filhos, nessas ocasiões foi possível perceber que muitos relatos nunca haviam sido
ouvidos pelos mais jovens. Muitos adultos que nunca souberam a razão de seus
pais e avós se mudarem para Rancharia, quais profissões exerciam, as condições
sociais das pessoas que conheciam, ou até mesmo a aparência de suas cidades
natais há 50/60 anos atrás.
Isso mostra que as histórias não estão sendo repassadas, além de não serem
registradas, o que pode mostrar que em breve muita história ranchariense cairá no
esquecimento permanente. Ao expressar o objetivo da pesquisa, conhecer a história
da cidade a partir da vivência dos moradores, muitos entrevistados relembravam
conhecidos que já haviam falecido, salientando que teriam muitas histórias para
contar. Infelizmente essa pesquisa perdeu a oportunidade de conhecer melhor essas
histórias que poderiam enriquecer tanto o conhecimento sobre a cidade, mas a
preocupação maior é a possibilidade dessas pessoas terem levado consigo fatos
relevantes da história que nunca foram registrados, nem mesmo na memória de
seus filhos e netos.
Por isso o registro de memórias se justifica tão importante, para que futuras
pesquisas possam ter base a partir de experiências reais e sentimentos gerados nas
mais diversas circunstâncias, algo que as ‘histórias oficiais’ não documentam.
Sobre a história da cidade propriamente dita ficaram algumas questões que
podem ser objetos de pesquisas futuras: a diferença socioeconômica da cidade
desde sua criação ditada pelos bairros; a prostituição presente no inicio da cidade e
o declínio da cidade.
A diferença econômica entre as regiões da cidade ficou evidente nas
entrevistas, apesar dos entrevistados afirmarem que não percebiam grandes
diferenças sociais. A região conhecida hoje como central abrigava já, desde seu
início, as famílias de maior poder aquisitivo, enquanto a região próxima a Estação
Ferroviária abrigava as famílias mais pobres e os operários. A cidade cresceu em
dois polos, o polo central contava com a primeira igreja, a primeira escola e os
primeiros comércios, enquanto o polo operário abrigava as indústrias e os
prostíbulos. A área que pode ser considerada nobre da cidade foi calçada com
paralelepípedo antes de possuir asfalto, já as outras regiões não tiveram essa
benfeitoria realizada pela Prefeitura. É possível notar essas diferenças até hoje,
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apesar do surgimento de novos bairros, o Bairro da Estação e o Bairro Centro


continuam com as mesmas características no que se diz respeito à classe
econômica da população residente.
A expansão da cidade não foi uniforme em todas as direções, o crescimento
foi na direção oposta ao da Estação Ferroviária, em sua maioria. A região central
continua se valorizando economicamente e os bairros ao redor da Estação são
reconhecidos como a periferia da cidade.
As possibilidades de exploração desse conteúdo são inúmeras, como
arrecadação de material histórico pertencente à população, como antigas revistas,
jornais e fotos, que não são disponibilizados para a população em nenhum órgão
público ou de domínio público. Atividades interativas entre a comunidade nas
escolas ou biblioteca, onde seria possível historiadores interessados resgatarem
conteúdo para novas pesquisas e publicações. Ou então um incentivo ao trabalho já
desenvolvido pela página Arquivo Rancharia, que tanto ensina a população sobre
sua própria história.
A partir desse estudo, considerado preliminar, e da interdisciplinaridade da
Arquivologia levantamos uma discussão que possibilita dar novo sentido a
documentação pública da cidade. A história oral pode nortear, de certa forma, o
tratamento arquivístico dos documentos onde o enfoque da organização da
informação e do conhecimento pode ter inúmeras contribuições a partir do que foi
contado e assim permitir um tratamento mais integral.
Mesmo sendo um trabalho preliminar sobre a documentação da cidade de
Rancharia, este trabalho se faz importante pela discussão iniciada. A história oral,
nesse trabalho, agiu como perspectiva de auxílio para a organização informacional
da cidade. Fica agora a sugestão para que os órgãos públicos organizem e
disponibilizem seus documentos de arquivo para a população de forma que as
preciosas histórias sobre a cidade não fique apenas como memórias dos moradores.

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