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Ciências Humanas / História / História do Brasil (Ensino de História e Cultura Afro-brasileira)

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1. Ensino de história e debates historiográficos


2. A história do ensino de história no Brasil e seus impactos contemporâneos.
3. A interdisciplinaridade e a Interculturalidade no ensino de história.
4. Produção, leitura e usos de materiais didáticos no ensino de história.
5. A diversidade do ensino de história em novas tecnologias e linguagens do saber docente.
6. O impacto das leis 10.639/03 e 11.645/08 no ensino de história.
7. História e cultura afro-brasileira no ensino de história.
8. Correntes historiográficas sobre a escravidão brasileira.

“Entretanto, as pesquisas mais recentes, publicadas nos anos 1980 e 1990, não somente iluminam áreas
previamente desconhecidas do passado da América Afro-Latina, mas também sugerem novas abordagens
para a história dos afro-descendentes da região e novas possibilidades para a síntese. Ainda que
reconheçam a importância das condições estruturais - a economia, o sistema politico, a desigualdade
social profundamente arraigada -, as investigações dos últimos 20 anos geralmente focalizam muito mais a
"agêncià' dos escravos e dos negros livres e sua capaci- dade de agir contra as forças estruturais e
humanas que os oprimiam.'' No caso da escravidão, essas ações variaram desde as formas de rcação mais
óbvias, violentas e agre::;sivas- fugas, rebeliões, roubos, agressões- até as mais sutis e "cotidianas":
negociações com os senhores, a aceleração ou diminuição do ritmo de trabalho, o recurso a tribunais ou
autoridades do Estado, a formação de unidades familiares c a adaptação e reinvenção de prá- ticas
culturais africanas. “ (América Afro-Latina)*** Andrews, 2007, pg. 30

“Para as classes dominantes de todo o hemisfério, as lições a serem extraí- das do Haiti eram óbvias: em
qualquer lugar onde grandes populações de não- brancos viviam sob condições de trabalho forçado, a
revolução política podia se transformar muito facilmente em revolução social. As elites das mais ricas
economias mineiras e de plantation foram correspondentemente cautelosas ao cortar seus laços com a
Europa. As elites mexicanas e peruanas, que domi- navam milhões de indígenas trabalhando em
condições de semi-escravidão nas minas, oficinas e haciendas, permaneceram leais à Espanha durante
toda a década de 1810. Os senhores de engenho de Cuba e Porto Rico enxergaram

cm suas sociedades paralelos ainda mais claros com o Haiti. Os dois grupos estavam importando milhares
de escravos africanos, pretendendo substituir Saint Domingue como o maior produtor mundial de açúcar.
Nenhum deles optou por arriscar seus investimentos por uma proposta imprudente de in- dependência;
ambos permaneceram leais à Espanha até a segunda metade do século XIX.

Os movimentos de independência hispano-americana não se originaram nos principais centros de trabalho


forçado africanos e indígenas, mas nas peri- ferias, onde ha':'ia mais mestizos que indígenas ou brancos,
além de mais negros e mulatos livres que escravos. “ Andrews, 2007, pg. pg. 85

“A guerra fortaleceu de três maneiras a posição de barganha dos escravos diante de seus senhores e do
Estado. Primeiro, como no Haiti, o tumulto provo- cado pela guerra reduziu bastante o controle dos
senhores sobre seus escravos, ao mesmo tempo em que aumentou as oportunidades de fuga destes.
Segundo, a guerra proporcionou a milhares de escravos do sexo masculino a oportuni- dade de obter a
liberdade por meio do serviço militar. Finalmente, o preço da participação dos escravos nos exércitos da
independência foi a aprovação, em toda a América espanhola, de programas de emancipação gradual. “ pg
88

9. Fontes e pesquisa: a imprensa negra brasileira do Século XIX.

Em relação aos afro-cubanos

Os afro-brasileiros em processo de ascensão econômica também tinham suas queixas e reclamações durante
esse período, que encontraram expres- são nos levantes republicanos das décadas de 1 8 2 0 e 1830 e nas demandas da
"imprensa mulata" do Rio de Janeiro para aumentar a representação negra nos níveis mais elevados do governo."9 O
governo podia ter reagido facilmente a esses ataques com renovados controles e restrições à população negra livre,
como em Cuba. Em vez disso, após derrotar as rebeliões provinciais e restabe- lecer a autoridade central, a monarquia
tornou a confirmar seu compromisso com a igualdade racial e, em 1850, deu o primeiro passo rumo à abolição da
escravidão, finalmente declarando ilegal o tráfico de escravos africanos. Pg. 143

“Outras instituições e práticas construídas por africanos e seus descendentes correspondem mais de perto à definição
racialmente exclusiva e diaspórica de América Afro-Latina. Estas incluem, no final do século XVIII e início do sécu-
lo XIX, as comunidades de escravos fugitivos, as milícias negras e as sociedades de ajuda mútua e congregações
religiosas com raízes africanas. No final do sé- culo XIX e início do século XX, os afro-descendentes de classe média
criaram uma rica variedade de associações e instituições racialmente definidas, incluin- do clubes sociais e atléticos,
organizações culturais e cívicas, jornais e partidos políticos. E no fmal do século XX, a organização de base racíal
assumiu a forma de movimentos ressurgentes para os direitos civis dos negros, lembrando os clubes e as organizações
de um século atrás.” Andrews, 2007, pg. 32

“Es- sas guerras, tratadas nos Capítulos 2 e 3, e as lutas políticas entre liberais e con- servadores que se seguiram
produziram uma onda maciça de reforma social e política na região, quando americanos afro-latinos derrubaram
primeiramente a escravidão e as leis raciais coloniais, passando posteriormente a exigir bene- fícios plenos da
cidadania e da igualdade legal.

As condições eram diferentes no Brasil e em Porto Rico, que não experi- mentaram guerras de independência, e em
Cuba, onde os ilhéus só vieram a lutar pela independência na segunda metade do século XIX. Assim, enquanto a
escravidão era eliminada da América espanhola continental, expandia-se e atingia seu apogeu no Brasil e no Caribe
espanhoL Importações continuadas de escravos africanos reforçavam a presença de instituições culturais deriva- das
de tradições africanas nesses países, incluindo associações "nacionais" africanas, congregações religiosas, bandos de
capoeiristas e, especialmente, comunidades de escravos fugitivos. “ Andrews, 2007, pg. 35

“ninguém com bom senso pode duvidar de que o destino desta capitania será o mesmo que aquele da ilha
de Saint Domingue... [Os escravos] têm conhecimento e discutem as desastrosas ocorrências que tiveram
lugar na ilha de Saint Domingue, e ouve-se declarações rebeldes de que no dia de São João não haverá
um branco ou mulato vivo”. (1814 grupo de fazendeiros da bahia escrevem ao rei sobre as possíveis
rebeliões)

“O espírito da insurreição é visto entre todos os tipos de escravos, e é fo- mentado principalmente pelos
escravos da cidade [de Salvador], onde as idéias de liberdade têm sido comunicadas pelos marinheiros
negros que vêm de Saint Domingue.” (1815 outro grupo de fazendeiros e comerciantes de Salvador
reclamam mais uma x ao governo central apud pg. 99

O exemplo do Haiti atingiu proporções ainda maiores em Cuba e em Porto Rico, que haviam abrigado
muitos refugiados da revolução: brancos, negros e mulatos livres e escravos. O Consulado Real de
Havana, uma instituição oficial que representava os fazendeiros e comerciantes locais, enviou ao
capitão·geral um conjunto de propostas para manter ~a tranqüilidade e a obediência dos servos desla
colónia":

A independência dos escravos em Saint Domingue em si só justifica em grande medida nosso atual susto
e cuidado [...]. Nada será mais fácil do que ver em nosso país uma irrupção daqueles bárbaros, e por isso é
urgente que se tomem providências que evitem uma catástrofe. Pg 99

Dez anos depois, o prefeito de San Juan expressou temores similares. Os franceses haviam usado
escravos africanos para transformar Saint Domingue na colónia mais rica do mundo, observou ele, e
depois ela foi destruída por esses próprios escravos.

E seguindo nós as máximas pelas quais nossos vizinhos os franceses se fizeram poderosos, não seremos
também ao .fim pobres miseráveis como eles, c vítimas do furor insaciável dos bárbaros negros? [. ]. Não
virá [sic] formar uma multidão que, se não for em nossos dias, será um raio exterminador nos das nossas
gerações futuras?” pg. 100'

“Essas rebeliões provinciais proporcionaram aos brasileiros uma amostra das guerras civis que
convulsionaram a América espanhola na mesma época e criaram os mesmos tipos de oportunidades para
os escravos escaparem dos engenhos e lutarem por sua liberdade. Entretanto, no Brasil, esta violência
civil não conduziu à emancipação por duas razões. Primeiro, no Brasil um governo central mais forte e
mais consolidado foi consistentemente capaz de derrotar as forças rebeldes e manter em vigor a
escravidão. Segundo, os próprios rebeldes mostraram ter pouco interesse em libertar os escravos; a
maioria, até mêsmo os líderes afro-brasileiros livres, era bastante contrária à idéia. Os rebeldes do
Maranhão especificamente isentaram os escravos de suas convocações para uma insurreição de massa. Os
rebeldes baianos, temendo uma repetição do levante de 1835, foram similarmente relutantes em admitir
escravos em suas fileiras. E os insurgentes do Pará reprimiram intensamente uma insurreição de escravos
no território sob seu controle." Quando a pressão das forças gover- nistas se abateu sobre os rebeldes,
alguns aceitaram escravos em seus exércitos a contragosto, mas somente os rebeldes baianos
reivindicavam a abolição geral e só o fizeram durante os últimos dias desesperados da rebelião.” Pg. 109

10. Os movimentos de resistência afro-brasileiros no Século XX e XXI.

Cotas raciais – Audiências – Demostenes cita Freyre****Alencastro

https://www.youtube.com/watch?v=lBfsV3tH0T0&fbclid=IwAR0h-
AuV19qV3At_luQM-3gM1kWfTU8wcxmHWd1ob7dqeRVAx-oZo2oBeb0
Cotas serviço publico
https://www.youtube.com/watch?v=JCTxR4jDoxQ

Cotas
https://www.youtube.com/watch?v=Ry4c3vctipk&t=2s

https://www.youtube.com/watch?v=s-50Kak5zhY&t=473s

https://www.youtube.com/watch?v=D_6JXx1_Coc

Nas zonas de plantation da América espanhola continental, libertos E' cam- poneses negros estavam
transformando as estruturas de suas vidas diárias: tor- nando pelo menos parcialmente real a ameaça da
destruição da econmma de plantation. Embora não tenham constituído uma revolução completa, a combi-
nação da abolição, das rupturas econômicas e políticas provocadas pelas guerras civis e do conteúdo
antioligárquico do liberalismo radical, todos se uniram para produzir um realinhamento dramático do
equilíbrio de poder entre ~s proprie- tários de terra, os escravos, os libertos e os camponeses. Esse
realmhamento possibilitou aos afro-descendentes hispano-americanos negociar com esses se nhores, os
atuais empregadores e as autoridades do Estado de uma pos1çao mais forte do que jamais ocorreu antes ou
depois. Como resultado, entre 1820 e 1870 eles conseguiram redefinir as condições de vida e de trabalho
nas zonas de plcm- tation c construir as vidas que lhes haviam sido negadas durante a escravidão. Pg. 139

Por isso, as autoridades espanholas aumentaram a pressão,

pnmeiro proibindo as sociedades de dançar, tocar seus tambores ou desfilar publicamente nas festividades religiosas
(1884), e depois tentando romper os vínculos antigos entre os cabildos e as religiões de raízes africanas Abakuá,
Santería e Palo Monte. Durante a guerra de independência de 1895-1898, mais de soo membros das lojas de Abakuá
foram presos e deportados para as prisões nas co!ônias africanas da Espanha, onde muitos morreram pg 156
''A igualdade legal não basta pelo espírito que tem o povo", declarou Simón Bolívar em 1825. Ele "quer que haja
igualdade absoluta, tanto no público quanto no doméstico": a igualdade em princípio e também na prática. Bolívar
2

prosseguiu expressando o temor de que, como parte daquelas aspi- rações à igualdade, o povo "quererá a pardocracia
[... ] para extermínio depois da classe privilegiada". Pg 124

. Durante os mesmos 50 anos em que a guerra e a violência civil haviam desgas- tado as sociedades c as
-'

economias da América espanhola continental, a paz e a estabiliJade criaram condições para a expansão
continuada das economias de planlation no Brasil, em Cuba e em Porto Rico. Fundamentadas na opres-
são de 2-3 milhões de escravos,'4 essas economias paradoxalmente geraram importantes oportunidades
para a mobilidade ascendente dos afro-descenden- tes livres c para o crescimento das classes médias
negras. Estimulada pelas exportações sempre crescentes do açúcar, Cuba pode ter sido a economia de
crescimento mais rápido na América Latina durante este período. Pg 139

Embora não houvesse desaparecido de todo a péssima exibição dos ba- tuques africanizados, em todo o caso
disminuiram muito[ ... ]. A desis~ tência do aparecimento de muitos desses grupos constituiu um grande serviço a
civilização. Ninguém tem o direito de descreditar o meio em que vive, revivendo costumes africanos pg 158 alivio da
elite baiana em 1904 com a proibição dos batques

'
Todo ano, durante o Carnaval, testemunhamos cenas que desonram a nossa cultura e que fazem-nos supor que uma
parte da nossa popula- ção ainda seja influenciada por atavismos que entram em conflito com a civilização. O
espetáculo é[...] repugnante: homens e mulheres, sem o menor senso de vergonha, desfilando tumultuosamente pelas
ruas ao som de música africana, cantando coros monótonos e reproduzindo em seus movimentos gestos que podem
ser apropriados na África selvagem, mas que não têm sentido na Cuba civilizada pg 158

Em 1913, o prefeito de Havana declarou que os comparsas afro-cubanos só teriam permissão de desfilar pelas ruas
se deixassem seus instrumentos "africa- nos" em casa e concordassem em não apresentar danças africanas. Os
comparsas procuraram escapar da lei usando tambores de corda e outros instrumentos de percussão das bandas
militares, mas em 1916 o governo municipal aumen- tou as restrições, quase impossibilitando os grupos negros de se
apresentarem. Em 1925, o presidente Machado estendeu a todo o país a proibição de Havana aos ~tambores ou
instrumentos análogos de natureza africana" e "contorções corporais que ofendem a moralidade." Pg 158

Com apenas algumas exceções, a imprensa afro-brasileira foi unânime em sua rejeição da África e das
práticas culturais de origem africana, indepen- dentemente de escritores ou artigos individuais defenderem ou
atacarem o objetivo mais controvertido do branqueamento nacional. Os negros e mulatos que defendiam
o branqueamento podiam lógica e consistentemente rejeitar qualquer conexão possível entre os
americanos afro-latinos e a África. "Não pretendemos perpetuar a nossa raça'; declarou em 1918 o jornal
afro-brasilei- ro O Bandeirante, "mas, sim, infiltrarmo-nos em o seio da raça privilegiada- a branca, pois,
repetimos, não somos africanos, mas puramente brasileiros." Mas falando de uma posição oposta, de
orgulho e autodeterminação negros, O Getulino (1924) foi igualmente enfático em sua rejeição a qualquer
vínculo entre os afro-brasileiros e a África: "A África é para os africanos, meu nego. Foi para o teu bisavô,
cujos ossos, a esta hora à terra reverteram e em pó so tornaram... A África é para quem quiser menos para
nós, isto é, para os ne- gros do Brasil, que no Brasil nasceram, crearam e multiplicaram."29

No entanto, embora os afro-descendentes prósperos tenham virado suas cos- tas para a África e abraçado
suas sociedades de origem, estas nem sempre re- tribuíram o abraço. O crescimento econômico liderado
pelas exportações e as ideologias (e o comportamento) raciais com base no racismo científico e no con-
ceito de branqueamento associaram-se para produzir uma situação angustiante e contraditória para negros
e mulatos instruídos e ambiciosos. Uma economia em expansão oferecia importantes oportunidades para
o avanço social e econômico. Mas, quando procuravam aproveitar essas oportunidades, os afro-
descendentes enfrentavam barreiras sociais que assumiam muitas formas: recusa à admissão em
restaurantes, teatros, barbearias, hotéis e outros estabelecimentos públicos; recusa das escolas particulares
(e às vezes de prestigiadas escolas públicas) em matricular seus filhos; recusa dos clubes sociais em
admiti-los; e, mais prejudicial que tudo, a discriminação aberta ou velada no emprego pg. 160.·
“Outros movimentos foram inicialmente diaspóricos em seu caráter, mas no decorrer do tempo foram se desenvolvendo
até se tornarem atraentes a todas as raças. As formas de música, dança c movimento corporal com raízes africa- nas- o
samba e a capoeira no Brasil; a rumba e o son em Cuba; o candombe, a milonga e o tango na Argentina e no Uruguai;
o merengue na República Do- minicana- foram rejeitados pelas elites e pela classe média brancas no século XIX como
sendo primitivas, bárbaras e nos limites do crime; no século XX, essas mesmas danças foram abraçadas como símbolos
essenciais de identida- de cultura] nacional. O mesmo aconteceu com as religiões derivadas de práti- cas religiosas
africanas- Santería, Candomblé, Umbanda -,que no século XX conquistaram milhões de novos adeptos, muitos deles
brancos. “Andrews, 2007, pg. 36

Em 13 de maio de 1888, quando o Parlamento aprovou e a princesa regente Isabel assinou a Lei Áurea finalmente
extinguindo a escravidão, a instituição já havia entrado em colapso na maior parte do país. ''A escravização acabou-se
por- que o escravo não quis mais ser escravo, porque o escravo rebelou-se contra seu senhor e contra a lei que o
escravizava'; observou o jornal Rebate, de São Paulo, dez anos depois do acontecimento, em 1 898. ''A lei de 13 de
maio não foi mais do que a sanção legal - para que a autoridade pública não fosse desacreditada - de um ato que já
estava consumado pela revolta em massa dos escravos. Pg. 115

Estes [escravos], nascidos e educados entre nós e conseqüentemente com- partilhando da nossa índole, costumes e
dotados de uma esfera intelectual muito mais dilatada que de seus primitivos troncos tendem a ter aspira- ções
compatíveis com o seu desenvolvimento e portanto a libertar-se da- quela subserviência passiva dos [escravos
africanos]. Sua comunhão ínti- ma com a população livre [... ], e sua natureza racial misturada, tornou-os um tipo
intermediário entre as raças africana c latina, e os dotou com uma capacidade de discutir o direito de propriedade que
a lei impõe sobre eles e a questionar a legitimidade e a origem desse direito (Comite de fazendeiro de SP em 1871,
questiona sobre a internalização da ideia de igualitarismo.

"[os escravos] tiraram estas idéias de emancipação e governo? E pode não ser equivocado perguntar até que ponto
estas idéias se estendem entre os escravos” (jornal do Rio de 1882 nota 92 apud 114)

Os escravos só puderam esperar triunfar contra a escravidão quando uma crise política maior rompeu a
unidade das elites governantes e criou abertu- ras por meio das quais os escravos podiam lutar pela
liberdade. Na América espanhola, essa crise foram as guerras de independência, que reduziram a capa-
cidade dos senhores de controlar seus escravos e, ao mesmo tempo, obrigaram a Espanha e os rebeldes a
uma disputa pelo apoio político e militar dos escravos (e dos negros e mulatos livres). As guerras
irromperam por causa de questões de soberania nacional, e conseguir essa soberania certamente foi sua
conseqüência política mais importante. Mas como resultado da iniciativa e negociação doses- cravos, elas
tiveram também conseqüências sociais inesperadas e significativas: o fim do tráfico de escravos africanos
e a emancipação final dos escravos.

No Brasil, a questão da soberania nacional foi negociada com sucesso, de tal maneira que fortaleceu a
escravidão em vez de enfraquecê-la. A crise po- lítica que permitiu aos escravos escapar do cativeiro
nesse país foi, portanto, de caráter completamente diferente e concentrada diretamente na própria es-
cravidão. Durante a primeira metade do século, os brancos e afro-brasileiros livres opuseram-se
ativamente às rebeliões dos escravos africanos e propor- cionaram pouco apoio aos esforços dos escravos
para se libertar. Porém, após .t86o, quando a população escrava tornava-se menos africana e mais
brasileira, os abolicionistas brancos e negros livres mostraram-se cada vez mais dispostos a buscar aliados
escravos em sua luta comum contra a escravidão. Foi a coliga- ção destes dois grupos que possibilitou a
"revolta em massa" de 1887-1888. Pg. 116