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CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

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O que você faria se estivesse apaixonado por duas pessoas? Daniel é de família humilde e tem o
sonho de passar no vestibular para Medicina. Rebeca nutre uma paixão por Daniel e Lúcia
completa o triângulo amoroso. Cheio de dúvidas e inseguranças, Daniel faz escolhas que vão
cobrar-lhe um preço muito alto. Recortes de uma paixão é uma história de amor, de família e
de decisões e suas consequências. É uma história sobre a alegria do primeiro amor, de
redenção, esperança e confiança em seu poder. Uma história que nos transporta para uma
época gostosa, a adolescência, aquele período de descobertas e incertezas que podem mudar
para sempre o rumo de uma vida.
Resenha Literária

Recortes de Uma Paixão, novo romance do autor Beca (para os mais


Wallery Giscar (Ajuste de Contas), em seu novo livro, um íntimos), nutre uma
triângulo amoroso prenderá o leitor logo nas primeiras paixão verdadeira por
páginas. Daniel, nem tudo são
Daniel é o personagem principal, um jovem sonhador flores!
que tem como objetivo principal passar no vestibular de
medicina. Porém, todo jovem se apaixona, eis que surge Lucia, uma jovem da alta
Rebeca. sociedade, aparece na

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para melhorar suas notas


no colégio, afinal, o seu
objetivo é tornar-se
médico.

A obra possui inúmeras


reviravoltas, não é apenas
um simples livro
recheado de amor,
partindo do drama até
chegar em aventuras do
qual o leitor sentirá na
pele.
vida de Daniel, deixando-o completamente louco de Se vale a pena? Sim! Uma
amores por ela. Sem pensar duas vezes engata um obra indicada para ser
relacionamento com Lucia, sendo assim, traindo Beca e apreciada em um final de
formando um triângulo amoroso. semana tranquilo.
Wallery Giscar possui uma escrita impecável, fluída e
sem amarras, outro destaque positivo é na construção
dos personagens, deixando uma leitura dinâmica, levando
o leitor para dentro da história.
Daniel passa por diversas provações, tendo questões
amorosas para serem resolvidas, além da pressão dos pais

Título: Recortes de Uma Paixão


Autor: Wallery Giscar
Editora: Independente
Páginas: 153
Ano Lançamento: 2018

Rafael Botter vive em Ibitinga (São Paulo). Escreve para o blog Livreando:
http://www.livreando.com.br e Traveling Between Pages:
http://travelingbetweenpages.blogspot.com.br. E-mail: botter.rafael@gmail.com.

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Artigo Científico

E ste artigo acadêmico-científico objetiva trazer a lume algumas análises crítico-


reflexivas concernentes à Literatura Brasileira no contexto dos concursos
vestibulares promovidos pelas universidades públicas e por instituições
particulares de Educação Superior no Brasil contemporâneo, tomando-se como eixo
basilar de discussão alguns indicativos para o desenvolvimento de uma leitura eficaz das
obras literárias recomendadas e a utilização de métodos avaliativos de sucesso que podem
e devem ser propostos por faculdades e universidades para a realização de concursos
públicos e exames vestibulares no que tange à disciplina curricular de Literatura Brasileira,
em específico.

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Leitura, Literatura e vestibular: eis uma trilogia “fantasmagórica” que assola a vida escolar de
muitos estudantes do Ensino Médio que estão em fase preparatória almejando a
conquista de uma vaga na universidade!
É tautológico afirmar que os concursos vestibulares, no Brasil, ainda
continuam sendo um “bicho-papão” para alguns educandos do ensino secundário
(WHITAKER, 1985), dado o fato de que em torno de tal processo seletivo, classificatório
e excludente gravitam concepções, mitos, tabus, estereótipos, imaginários e
representações sociais de toda ordem, englobando diferentes situações e circunstâncias;
tais como, por exemplo: medos, receios, disputas, classe social, concorrência candidato-
vaga, modo de preparação escolar, campo de trabalho, remuneração financeira, status
social, sistema de cotas para ingresso em universidades públicas, nota de Redação,
políticas educacionais, ideologias, potencialidades, limitações, desafios, perspectivas,
dentre outras.
Além dos exames vestibulares, outro ponto nevrálgico que merece ser
destacado diz respeito à leitura na escola brasileira de Educação Básica, haja vista que
significativa parcela da população e dos estudantes em idade escolar não são muito
adeptos do hábito de leitura, conforme revelam alguns dados estatísticos coletados, em
2018, pelo Ministério da Educação (MEC) e já identificados por Saveli (2003); deixando,
portanto, o Brasil em um péssimo ranking em termos de desenvolvimento nacional e
desempenho dos educandos, prioritariamente nas disciplinas curriculares de Língua
Portuguesa e Matemática.
Ler e escrever são, grosso modo, dois verbos que se ‘conjugam juntos’, pois
quem não faz da leitura um hábito cotidiano, tem grande dificuldade para se expressar, se
comunicar e redigir textos escolares e acadêmicos em diferentes estilos ou gêneros
textuais e literários (narração, descrição, dissertação, ensaio científico, artigo científico,
resenha, resumo, paper, conto, crônica, poema/poesia, epopeia, romance, texto teatral,
aforismo, ficção, drama, novela, autos, comédia, tragédia, tragicomédia, dueto, soneto,
terceto, haicai, aldravia, poemeto, trova/quadrinha, glosa, elegia, texto de cordel, charges,
tirinhas, etc.).
A leitura amplia os horizontes do(a) leitor(a), emancipando-o(a). Para tanto,
deve-se efetuar uma leitura atenta, minuciosa, criteriosa, analítica, crítica e reflexiva, de
modo que o(a) leitor(a) possa interagir dialeticamente com o texto escrito, opinando,
comentando, discutindo, concordando ou discordando do(a) autor(a) do mesmo.
Sobre a prática de leitura de textos dentro e fora do âmbito escolar podemos
dizer, em suma, que a mesma se configura como importante veículo de informação e
comunicação para:

[...] vivenciar experiências com textos produzidos em diferentes práticas


sociais: crônicas, piadas, poemas, causos populares, textos de opinião,
reportagens, charges, histórias em quadrinhos, teatro, cordel,
romances, contos, textos instrucionais, etc.; percebendo, em cada um
deles, a presença de um sujeito histórico e de uma intenção. A leitura desses
textos irá ajudá-lo, gradativamente, a ampliar seus horizontes,
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fazendo-o identificar as várias nuances no trato com as palavras,


sempre envolto em intenções. É importante acrescentar, ainda, que as
práticas de leitura devem lhe proporcionar tanto a construção do sentido
do texto quanto a percepção das relações de poder inerentes a ele. A leitura,
nessa perspectiva, não pode estar dissociada da vida. Nesse sentido,
não é possível restringir a leitura ao que o(a) autor(a) quis dizer, mas aprimorar
a reflexão: o fundamental é o que o texto diz a você, leitor(a), pois é a
sua interação com o texto que vai atribuir sentido(s) à leitura. Um(a) aluno(a),
bom/boa leitor(a), não se contenta com a seleção de textos ou obras
literárias feita pelo(a) professor(a) na escola, mas mistura as suas
leituras com aquelas que o(a) professor(a) solicitou. Dessa
combinação é que advém, portanto, os sentidos e significados daquilo que se
lê. (LINS et al, 2006, p.13; grifos nossos)

Trata-se, pois, de o(a) leitor(a) adotar distintas estratégias técnico-


metodológicas para ler e reler (se necessário e quantas vezes lhe aprouver) um texto com
fluidez e de forma eficaz e eficiente, a fim de alcançar assim um aprendizado realmente
consistente e deveras significativo acerca das informações nele contidas.
Na escola regular de Ensino Médio, no Brasil, várias obras literárias têm sido
trabalhadas em sala de aula pelos professores de Língua Portuguesa e recomendadas aos
alunos para leitura, tendo como foco principal os exames vestibulares e, por
consequência, os concursos públicos em geral. Todavia, torna-se imprescindível que tais
livros de Literatura Brasileira sejam explorados ao máximo e a contento pelos docentes,
cuja função didático-pedagógica também é a de bem ensinar os educandos a ler
corretamente, num viés analítico, comparativo e crítico-reflexivo, as obras literárias
propostas.
Dizemos isso, porque faz-se profícuo que as obras literárias indicadas para
leitura sejam, num primeiro momento, lidas de modo individual e criterioso pelos
estudantes, no intuito de que os mesmos possam contextualizar os acontecimentos
descritos, elencar aspectos de cunho sócio-histórico, apontar características e estilos de
época, identificar pontos relevantes e nevrálgicos, efetuar analogias, compreender, analisar
e interpretar a obra literária como um todo, situando-a no âmbito de alguma das escolas
literárias brasileiras existentes (Quinhentismo, Barroco, Arcadismo, Romantismo,
Realismo-Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo, Pré-Modernismo ou Modernismo);
em conformidade com o que asseveram Faraco e Moura (1993), Martins e Ledo (2004) e
Martins (2006).
A posteriori a estas ações desenvolvidas pelos educandos, pode e deve o docente
da disciplina curricular de Língua Portuguesa e Literatura, na escola, tecer comentários
relevantes e significativos acerca da obra literária proposta para leitura, situando-a no
tempo e no espaço (histórico, geográfico, social, cultural, político, econômico, ético,
moral, religioso, etc.), bem como no contexto da escola literária a que pertence.
Afora isso, é interessante também pontuar alguns aspectos referentes à
biografia do(a) autor(a) da obra literária em questão – origem social, estilo de vida, traços
de personalidade, concepções, qualidades, frustrações, formação escolar e acadêmica,

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situação econômica e de vida social, dentre outros fatores (OGLEARI; BETTES, 2016),
uma vez que tais informações permitem ao leitor e à leitora melhor compreender a visão
do(a) autor(a) da obra literária acerca do tema ou assunto abordado em todas as suas
facetas, matizes e nuances.
No que tange à leitura de obras literárias, em específico, seja para a realização
de exames vestibulares ou demais concursos públicos, torna-se fundamental que o
estudante: 1) tenha organização; 2) seja disciplinado quanto ao ato de estudar
(cronograma de horários); 3) estude em seu ritmo próprio de aprendizagem; 4) leia
atentamente a obra literária buscando identificar o enredo da obra, o estilo de época, a
escola literária, o gênero textual predominante, o contexto social e histórico da época, os
personagens principais e secundários, os fatos decorridos e a intencionalidade do(a)
autor(a) da obra; 5) grife destacando as palavras-chave e ideias centrais contidas na obra
literária; 6) elabore resumos/sinopses, esquemas, roteiros e/ou resenhas acerca da obra
literária que fora lida; 7) assista a filmes alusivos à obra literária em questão (se houver
acervo disponibilizado); 8) crie grupos de estudo com colegas (de forma presencial, em
whatsapp, nas redes sociais – facebook, instagram, twitter, orkut, etc.) para discutir, analisar e
refletir criticamente sobre a obra literária; 9) releia a obra literária quantas vezes julgar
necessário; e 10) recapitule a matéria ou o conteúdo de estudo ao menos uma semana
antes da realização do concurso público ou exame vestibular (feedback geral).
Nesse contexto, entendemos ser prudente, didático e pedagogicamente correto
que as instituições públicas e privadas de Ensino Superior, no Brasil, elaborem as provas
da área de Literatura Brasileira destinadas à realização de concursos públicos e exames
vestibulares não no âmbito de uma pedagogia de educação tradicional/conservadora e
arcaica, onde a memorização de datas históricas e de nomes de célebres literatos seja o
fator preponderante, mas na perspectiva de uma pedagogia educacional histórico-crítica
(progressista ou crítico-social dos conteúdos), com questões avaliativas contextualizadas e num
viés inter, pluri e transdisciplinar, de modo que o mais importante seja realmente levar os
estudantes a uma reflexão crítica acerca da obra literária, verificando assim,
qualitativamente, a sua capacidade de síntese, de estabelecer analogias e conjecturas, de
análise do discurso, de análise de conteúdo e de análise de conjuntura; segundo o que
apregoam as orientações didático-pedagógicas e metodológicas do Exame Nacional do
Ensino Médio (ENEM) e as novas diretrizes educacionais propostas pela Base Nacional
Comum Curricular (BNCC).
Face ao exposto, almejamos sinceramente que cada leitor(a) deste breve artigo
acadêmico-científico possa, de fato, perceber e compreender a conexão umbilical, a
relação dialética e o entrecruzamento existente entre leitura e Literatura, uma vez que
ambas são, de acordo com Silva (2003, p.125), “[...] como uma bola de neve, que vai
rolando no tempo e juntando mais elementos através de movimentos de interação. A
partir de um texto-gerador, cada autor(a) e leitor(a) lê e reage, lê e questiona, lê e propõe,
lê e se transforma continuamente no processo”.
Quiçá que seja possível também melhor entender a indissociabilidade dos
binômios língua-linguagem, leitura-escrita, ensino-aprendizagem e educador-educando, a
fim de que a escola brasileira do século XXI possa conquistar a qualidade tão almejada
para a Educação e, em especial, para a área de Língua Portuguesa e Literatura.

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É o que realmente desejamos, sem jamais perder a fé e a esperança (virtudes


teológicas!), tendo em vista a construção de um mundo e de uma sociedade mais justa,
ética, fraterna, equânime e democrática para todas as pessoas.

Referências

FARACO, C. E.; MOURA, F. M. Língua e literatura. 2º grau. v.1; 2 e 3. 13.ed. São


Paulo: Ática, 1993.
LINS, A. E. L. N. et al. Língua portuguesa e literatura: ensino médio. Curitiba:
SEED-PR, 2006. (Coleção Livro Didático Público – Projeto Folhas).
MARTINS, P.; LEDO, T. O. Manual de literatura: literatura portuguesa e literatura
brasileira. São Paulo: Editora DCL, 2004. (Coleção Guia Prático da Língua
Portuguesa).
MARTINS, R. Literatura. São Paulo: Editora Didática Paulista, 2006. (Coleção Atlas
do Estudante).
OGLEARI, B.; BETTES, F. Resumos de literatura. Curitiba: Editora da UFPR,
2016.
SAVELI, E. L. Leitura na escola: as representações e práticas de professores.
Curitiba: Fortun & Granchelli, 2003.
SILVA, E. T. Formação do leitor virtual pela escola brasileira: uma navegação por
mares bravios. In: ______. (Coord.). A leitura nos oceanos da internet. São Paulo:
Cortez, p.115-126, 2003.
WHITAKER, D. A escolha da carreira. São Paulo: Moderna, 1985. (Coleção
Profissões – Projeto Passo à Frente).

Marcos Pereira dos Santos – Brasileiro. Natural do município de Ponta Grossa/PR,


onde reside atualmente. Pós-Doutor (PhD) em Ensino Religioso pelo Seminário
Internacional de Teologia Gospel (SITG) – Ituiutaba/MG. Pesquisador das áreas de
Ciências da Religião e Ciências da Educação. Escritor, trovador, poeta, cronista,
ensaísta, articulista, antologista, aldravista e haicaísta ao estilo oriental. Professor
universitário em Ponta Grossa/PR. E-mail: mestrepedagogo@yahoo.com.br
Willian Wolmar Ferreira – Brasileiro. Natural da cidade de Ponta Grossa/PR, onde
reside atualmente. Literato amador. Defensor militante pela causa dos direitos
humanos e pela educação escolar de qualidade para todos. Exímio profissional das
áreas de segurança e construção civil em Ponta Grossa/PR. E-mail:
willianwferreira@gmail.com

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Entrevista com escritores

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos Solange Pansieri:


leitores como foi o seu início no meio literário? Embora seja um
romance espírita,
Solange Pansieri: Desde criança gostava de escrever acredito que seu
como forma de desabafo. Era como se eu tivesse um conteúdo possa ser de
amigo invisível que lia tudo aquilo e me ajudava sem que grande valia para todas as
ninguém ficasse sabendo. Eu escrevia coisas bonitas, mas pessoas, independente da
também, tristes. Depois descartava tudo e me sentia leve. religião. Pois contém
Assim foi durante toda a minha vida. ensinamentos básicos e
Minha primeira obra foi um livro de poesias, lançado em úteis para entendermos
uma editora de Lisboa Portugal. No qual dediquei ao que, para tudo há uma
meu filho falecido em 28 de setembro de 2014 de uma resposta e nada é por a
forma trágica. caso. Nada está errado,
E depois disso, em todos os meses, no dia 28, ao invés de nem adiantado e nem
chorar a sua ausência, escrevo uma poesia e ofereço a ele, atrasado. Por tanto, cabe
para que assim eu sinta, de alguma forma, a sua presença. a nós aceitar os
Também faço poesias para outras mães enlutadas que me acontecimentos com
pedem. resignação, sem
Faço com prazer sem esperar nada em troca. murmúrios e vitimismo.

Conexão Literatura: Você é autora do livro “Os Segredos Conexão Literatura:


de Antonia” (Editora Viseu). Poderia comentar? Como foram as suas

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pesquisas e quanto tempo levou para concluir seu livro? Conexão Literatura:
Como o leitor
Solange Pansieri: Esse meu terceiro livro demorou quase interessado deverá
um ano para ser finalizado. proceder para adquirir
Foi necessário muita pesquisa a cerca dos conteúdos um exemplar do seu livro
culminados com as minhas intenções na publicação. e saber um pouco mais
Queria publicar algo que pudesse ajudar as pessoas a sobre você e o seu
repensar certas atitudes e facilitar as fases difíceis da vida. trabalho literário?
Eu deixava próximo a mim um caderno e uma caneta. E
quando vinham me as ideias eu as registravam. Solange Pansieri: Através
Confesso que as vezes, nem eu mesma sei como consegui do site da editora Viseu,
escrever esse romance. Principalmente a primeira parte e em breve em várias
dele. lojas virtuais.
Ou direto comigo nas
Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho do qual minhas redes sociais,
você acha especial em seu livro? facebook ou pelo meu
email.solangechaaban@h
Solange Pansieri: Não há uma parte específica. Mas esta otmail.com
minha poesia que considero especial, resume o livro
todo. Conexão Literatura:
Pedras no caminho Existem novos projetos
em pauta?
Entre vitórias e feridas,
No caminho pela vida, Solange Pansieri: Sim,
A esperança é bem vinda, recentemente fui
Nas mazelas ocorridas, convidada a escrever um
Em palavras não ouvidas, livro junto com uma
E ordens não obedecidas, outra pessoa, serei uma
Nas desculpas oferecidas, espécie de Coaching,
Até nas que não foram pedidas, porém o livro terá dois
Por coisas não resolvidas, autores.
Palavras mal entendidas, Me sinto lisonjeada por
Pelas estradas percorridas, este convite e já ansiosa
Nos tropeços sem saídas, pelo produto final.
Pelas escolhas indevidas,
Bênçãos não merecidas, Perguntas rápidas:
Mas mesmo assim, concedidas. Um livro: Amor além da
vida
Solange Pansieri

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Um (a) autor (a): Zíbia Gasparetto Solange Pansieri: Quero


Um ator ou atriz: Fernanda Montenegro agradecer a participação
Um filme: Como eu era antes de você. nesta entrevista.
Um dia especial: Há vários, mas nenhum específico. Muito obrigado.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum


comentário?

Título: Os Segredos de Antônia


Autora: Solange Pansieri
Editora Viseu
Páginas: 220
1ª Edição
Ano: 2018

*Ademir Pascale é Editor da Revista Conexão Literatura. Membro Efetivo da Academia de


Letras José de Alencar. Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Já publicou
contos no Brasil, França, Portugal e México. Organizador e criador da obra “Possessão
Alienígena” (Editora Devir), autor do romance “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”,
lançado pela editora Selo Jovem. Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas,
heróis da Marvel, DC e HQs. E-mail: ademirpascale@gmail.com

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Entrevista com escritores

Fale-nos sobre seu livro. Como analisa a


questão da leitura no
"Entre Barbantes" é uma obra intensa, reflexiva e país?
misteriosa, pelo menos é o que pretendo transmitir.
Uma ficção entremeada de poemas, mistura clichê e É uma questão muito
original. O maior mistério é quem narra o enredo, tal ampla. A principal é a
mistério jamais será revelado e a interpretação é ampla. educação e não precisa
Vitória, personagem principal, existe. Mas qual seria sua ter doutorado para
missão? Qual é a mensagem que Vitória, menina-mulher, afirmar. Creio que alguns
quis passar? Depende muito. docentes não são
suficientemente
O que a motivou a escrevê-lo? capacitados para
incentivar a leitura,
A sede que carrego desde que nasci. Sede de deixar meu mostrar que ler não é
recado ao mundo e viver pela literatura. Eu respiro a obrigação e sim diversão.
escrita, engulo alfabetos e renasço. Sempre quis escrever O preconceito literário é
um livro, mas precisava de tempo para tudo sair como um assunto a ser
planejado. debatido. Qual é a
Os rascunhos que fiz em 2014 foram essenciais, muitos diferença entre ler
deles escrevi em restaurantes e até livrarias. A minha autoajuda e clássicos?
livraria favorita é a Travessa e mentalizava, todos os dias, Mistério ou romance?
meus exemplares lá. Poesias ou biografias?

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Não há. O que diferencia as obras é a qualidade do sobre meu objetivo,


conteúdo, escrita e talento do autor. Leitores são iguais e transtornos mentais e
compartilham a mesma paixão, mas enquanto tratamento, ansiedade,
pseudointelectuais menosprezam, humilham e separam, processos de escrita e
novos leitores se afastam e desistem do objetivo. Outro autoestima.em colégios,
quesito é o empreendedorismo. Não necessariamente faculdades e eventos.
precisamos contar somente com o governo na luta de Minha principal palestra
expandir cultura. Empreendedores bem-intencionados é motivacional. Conto
devem investir nisso sem medo e de forma democrática. sobre minha infância e
Não em formas de editoras e livrarias, mas algo que a sonhos, bullying na pré-
sociedade possa aproveitar de fato, fugir da mesmice e adolescência, críticas
fazer o dinheiro circular sem separar cidadãos por cor, destrutivas sobre meu
gênero ou classe social. objetivo, transtornos
mentais e tratamento,
Quais os seus próximos projetos? ansiedade, processos de
escrita e autoestima.
Meu segundo livro está quase finalizado, mas prefiro não
estragar surpresas e preservar o título. Pretendo palestrar
em colégios, faculdades e eventos. Minha principal
palestra é motivacional. Conto sobre minha infância e
sonhos, bullying na pré-adolescência, críticas destrutivas

Autora: Leticia Mariana


Ano: 2018
Páginas: 300
Gênero: Romance
Selo Birrumba

*Sérgio Simka é professor universitário desde 1999. Autor de cinco dezenas de livros
publicados nas áreas de gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e
infantojuvenil. Idealizou, com Cida Simka, a Série Mistério, publicada pela Editora Uirapuru.
Organizador dos livros Uma noite no castelo (Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo
melhor (Xeque-Matte, 2019). Membro do Conselho Editorial da Editora Pumpkin e integrante
do Núcleo de Escritores do Grande ABC.

Cida Simka é licenciada em Letras pelas Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP).
Coautora do livro Ética como substantivo concreto (Wak, 2014) e autora dos livros O acordo
Para adquirir o e-book: clique aqui.
ortográfico da língua portuguesa na prática (Wak, 2016), O enigma da velha casa (Uirapuru,
2016) e “Nóis sabe português” (Wak, 2017). Organizadora dos livros Uma noite no castelo
(Selo Jovem, 2019) e Contos para um mundo melhor
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(Xeque-Matte, 2019). Integrante do
Núcleo de Escritores do Grande ABC.
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Nathalia Paiva: Escritora e Professora de História e Filosofia


De Volta Redonda/RJ observa o mundo e escreve crônicas. Instagram: www.instagram.com/mais.umtexto.
E-mail: nathapaiva@gmail.com.

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Conto

P assava férias com minha mãe em


São José do Egito. Você conhece
esse lugar querido leitor? Pois
bem, nem eu sabia de sua existência até o
obter uma premiação de melhor conto na
escola escrevendo sobre ele.
E lembro-me como se fosse hoje quando
andávamos pelo centro da cidade, nos
verão de 1978, quando meus pais deparamos com João Estranho,
separados, a mãe resolveu me levar para apelidado pelos colegas repentistas por
lá com ela. O município está situado no conta de seus versos estranhos e melodia
Sertão Pernambucano, pelos povoados prá lá de exótica!
de Batatas, Curralinho e Mundo Novo, Ao caminharmos pela praça principal,
entre outros. Digo a vocês que de início encontramos várias duplas de repentistas
não gostei da proposta dela, mas depois que cantavam e alegravam turistas com
achei o passeio interessante, e uma suas violas foi quando o avistei isolado
pessoa que conheci por lá, um repentista dos demais encostado no muro da igreja.
chamado João Estranho, me “ajudou” a Puxei minha mãe pelo braço e a conduzi

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para o outro lado da praça, onde estava já que a família era grande
sozinho o tão homem. Ele era alto, com muitas bocas a alimentar,
encorpado, cabelos curtos, vestido com mas é somente de uma que ouso
camisa estampada e calça de tergal azul, expressar!
mas o que me chamou atenção foi o
tapa-olho. Logo que o conheci ele começou a
Ao passarmos perto dele, o homem foi conversar
logo nos chamando: Mostrou sua vida, a mulher e as filhas
— Seu menino, dona moça, um minuto estavam vestidas com muita renda e
de atenção, não demoro a cantar a minha fitilhas,
sofridão! tão arrumadas que mal conseguiam
— Mãe, vamos ouvir a música, que tal? andar!
— Ele me pareceu interessante e minha Achei aquilo engraçado,
mãe, que não tinha nada a fazer naquele mal sabia eu que estava enrascado.
pequeno pedaço do mundo nordestino, E que uma paixão vinha a todo vapor.
parou e ficamos aguardando o homem Meu coração livre de sentimento
compor e tocar sua viola. A música era começou a bater forte por um momento
mais ou menos assim: logo que vi a Leonor.

Olhem só, escutem com atenção o que A mais bela das irmãs,
tenho a contar fina flor, sedutora e formosa
é uma história de amor quando sorria ficava ainda mais
amor verdadeiro, mas com dor charmosa,
eu já contei várias vezes, e torno a cantar mas escondia um mistério,
falo sozinho, com letras ao ar. era guardada com muito critério,
E pra buscar inspiração, e aquilo me deixou louco de paixão,
busco na minha respiração. sem raciocínio, sem razão.
Na mais profunda tradição Eu insisti no namoro, e o pai disse não.
Já que nada mudei Mas eu a queria a qualquer preço,
E nunca pequei. bolei um plano, seria ladrão!

A história começa assim E foi numa noite clara como esta,


caminhava eu por este sertão sem fim quando a família saiu para uma seresta,
quando um dia me deparei foram todos menos Leonor,
com o senhor Serafim! que não reclamou, não guardava rancor.
Ele era pedreiro, marceneiro e pintor Era o momento tão esperado, eu de
fazia tudo com muito amor. tocaia.
E não era pra menos, Bati à porta e fui entrando

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chamei Leonor, e nem sinal do meu Leonor então fugiu pela mata a correr!
amor! ...
Foi quando achei um alçapão
que me levou até o porão, — O senhor não vai terminar a melodia?
e lá estava ela, amarrada naquele calor! — perguntamos a João Estranho, que
estava nervoso e foi guardando em sua
Logo que a vi fui até ela correndo bolsa de couro a tiracolo a viola.
e ela gritou, que eu não sabia o que — Não — disse ele. — Está ficando
estava fazendo! tarde, está escurecendo e é muito
Fiquei indignado com a cena perigoso, é melhor vocês voltarem ao
ela disse vai embora dessa novena, hotel, adeus!
falei que não podia, que sem ela morreria. — Mas como termina a história? —
Ela disse não fique, vais se arrepender perguntei-lhe louco de raiva.
Tenho uma doença, logo tu vais saber! — Fui salvo, não está vendo? — disse
E gritei vamos embora, vim te buscar, João Estranho que além de não ter uma
É melhor você ir, pois posso até te vista ainda mancava da perna esquerda.
matar! Eu e mamãe ficamos avaliando a história
Ela insistiu para não me prejudicar. enquanto o homem, mesmo com
dificuldade, andava depressa, até
Foi tudo tão rápido desaparecer por completo na escuridão.
ela começou a se contorcer Mesmo sem entender a atitude do
gritava, parecia que ia morrer! homem seguimos seu conselho e
E suas roupas começaram a rasgar retornamos ao hotel.
fiquei branco a desmaiar!
Com visão turva vi Leonor se erguer Não era tarde quando olhei da sacada do
Dentes grandes pela boca a me morder. quarto o satélite da Terra no céu. Era
Foi quando escutei um barulho noite de lua cheia e ela reinava soberana
era o pai que vinha a me socorrer no mais profundo mistério do cosmos!

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Cantoria popular

O conto deste mês mescla literatura fantástica com a cantoria ou poesia popular
(repentista), que tem suas raízes na França. Segundo pesquisas, a poesia popular
começou a florescer no Brasil no do século XVII, através da fusão da poesia local
portuguesa com a trova dos poetas franceses, alojando-se de forma mais acentuada no
Nordeste, principalmente nos estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Foi aí que
coube ao Brasil o privilégio do aparecimento do legítimo cantador de viola.
Já no sul do País, nos anos 1960 - 1980, essa variação folclórica foi muito popular na
região, onde era chamada de Trova.
Ao graduar-me em Letras, me apaixonei por todas as formas de Literatura e procuro
mesclar os tipos para diversificar histórias, ressaltando a beleza das letras.

Míriam Santiago: jornalista e atua em assessoria de Comunicação. Desde que se


formou também em Letras, publica livros de gêneros diversificados. Escreve contos,
crônicas, minicontos e nanocontos. Possui blog cultural sobre literatura, cinema,
fotografia, cursos, antologias, livros e eventos, entre outros.
Blog: http://miriammorganuns.blogspot.com/ Contato: miriansssantos@gmail.com.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Conto

(Cronomancer – 2017)

"O misticismo surge da intolerável dispariedade entre imensidão de seus desejos e a estreteza de sua
realidade."
Miguel de Unamuno

J oão Silveria fintava o céu estrelado,


cujo fulgor do luar cortava brilhando
em seus olhos num descontento final.
naquele poço, ao ser traído e atraído por
seus próprios desejos.
Sua vida e a história ligava-se
Fintava o vazio de seu derradeiro destino àquele lugar; estavam entrelaçadas com a
compelido por um desejo banal. João incógnita história daquele poço, erguido
então, relembrou toda sua história até ali, em imemoráveis tempos.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Para alguns, obra do demônio, a qual visando tirar do papel um projeto de


remetia a tempos antecedentes a de moinho e fábrica de farinha, clamou ao
Portugal. Assim rezava a lenda. poço dando-lhe oferendas de dobrões
Poderia ser como uma lenda por escravos que o executassem. Assim
qualquer de poço dos desejos, mas aquele veio a ele dado por um amigo, escravos
era de testemunho combalido, não como Zulu Silveira (pai de João),
somente por sua origem jamais escravos que compelidos ao trabalho,
descortinada, mas por realizar todos os edificaram o projeto de seu senhor,
desejos de seus pedintes. Emmanuel Nogueira.
Quando soube do posso, João Porém, extenuado das longas
abraçou o mesmo e por meses jornadas de servidão, Zulu Silveira
depositava-lhe os poucos réis que lhe clamava em seu âmago íntimo pelo
sobravam. descanso da liberdade e em segredo
Aqui está sua história... pediu ao poço, com poucos dobrões
João era um negro alto e de físico custosos, por uma família livre.
vigoroso, pelo trabalho duro como
ajudante de ferreiro, pertencente a uma Assim fora que engravidou sua mulher
geração de negros livres, pois antes fora de João Silveria quando ainda no
agraciado pela lei do ventre livre. percurso da gravidez se anunciou a lei do
Tinha olhos negros e profundos, ventre livre e com notável esperança,
mas um sorriso luminoso, principalmente Zulu viu se formar no ventre da jovem
ante seu alvo de afeto, Justine, uma negra, o futuro de uma família livre
jovem e formosa moça filha de Joaquim, através de João Silveira.
o ferreiro dono do lugar. João cresceu ouvindo as histórias
O fato é que João, perdido em seu do famigerado poço que estava em meio
platonismo pela jovem, temia nunca a uma densa floresta no meio do nada, e
poder conquistar seu afeto e amor, sem quando cresceu, seu pai pediu para que
as virtudes financeiras dos abastados ele vivesse o que ele nunca viveu. Fosse
brancos e por isso apelou ao poço por ao sabor do vento que lhe desvelaria os
meses a fio. Poço, pai indireto de muitos caminhos da liberdade e lhe dissesse
segundo seu pai, que lhe contava as aonde eles deram, pois João teria como
histórias desde a tenra idade. senhor apenas Deus.
De certo, muitos testemunhavam a Porém, com temor, João viu sua
favor de um misticismo envolvendo o liberdade cerceada pelas limitações
poço de maneira que o senhor de seu pai financeiras impostas pela sociedade,
apenas logrou sucesso com o mesmo. assim fugiu ao amor por Justine a quem
Vindo pra terras de Pindorama, falido e fintava seus cachos dourados em
condenado pela coroa, pagou por seus segredo. Amar era o significado mais
pecados em terras tupiniquins até que cheio de ternura de sua liberdade, ainda

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

que um amor platônico em meio a sua a última o fundo tocar, e murmurou,


malfadada desventura financeira. depois praguejou contra o infortúnio do
A jovem e bela Justine também poço que tragou por gerações adentro as
teria sido fruto do ocaso do poço ao luar. fortunas.
Seu patrão, o ferreiro Joaquim, contava- Tomado então por uma
lhe que ao deflorar sua amada mulher perplexidade mesclada à fúria, inclinou-se
descobriu que ela era estéril. Assim sob a abertura, na esperança de que o
Joaquim clamou ao Deus do alto e o fulgor do luar lhe descortinasse algo.
poço do baixo, o qual a fundura não se Ouviu água, mas apenas de forma
podia desvelar, depositou toda semana pardacenta consegui contemplar até que
um dobrão naquele poço, até que com os o muro que lhe escorava cedeu até o
meses, a resposta lhe sobreveio pela fundo a seu derradeiro fim.
esperada gravidez de sua mulher. Seu corpo estava estropiado e
Joaquim que conhecia terras contorcido por fissuras e fraturas
inglesas, assim batizou Justine por expostas, quando despertou ao fintar o
considerar justiça e gracejo do insondável céu estrelado e o luar, pela abertura do
poço, o qual somente se poderia poço de onde caiu.
vislumbrar pelo ribombar dos sons dos Sentiu então desvanecer-se suas
dobrões caindo em seu fundo. forças, junto ao sangue que escorria de
Muitas eram as histórias de desejos seu corpo, junto às fontes cristalinas.
atendidos pelo poço, por coincidência e João estava em seu fundo e como
sorte ou destino dos deuses e orixás. Mas último esforço, virou-se para o lado e
João ainda que um crente no Deus dos contemplou infindáveis dobrões, moedas
cristãos passou lá depositar moedas junto de todas gerações acumuladas como num
com sua fé, na esperança de que seu grande cofre natural. Seu sangue que
desejo se concretizasse. manchava as imaculadas águas escorria
Durante o primeiro mês João entre as peças de ouro e prata.
passou a depositar todos os sábados, suas
finanças e esperanças, mas como num Naquele momento, ele finalmente
infortúnio não teve respostas a não ser compreendeu, que o poço que lhe atraiu,
um agourento silêncio do poço. não lhe traiu, mas apenas cumpriu o que
Assim passou-se dois meses e ele sempre clamou em sigilo insondável,
mesmo quando as trevas da noite se morrer rico.
adensavam, João passou a depositar e Lá estava ele agora, cercado de
depositar... toda riqueza que sonhou e clamou, o
Passou-se então quatro meses, depósito de inúmeros pedidos e desejos
cinco e seis, até que numa noite sob a lua cujas histórias nunca conheceu, mas que
cheia, João parecia exasperado com de um modo a outro o levou
aquele lugar. Depositou suas moedas até inexoravelmente até aquele momento.

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CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Gerson Avillez é Teólogo e pedagogo por formação, portador da Síndrome de


Aspeger, escreveu artigos para a Revista Somnium, teve contos selecionados e
publicados na Revista Litera, site Maldohorror, Arte do Terror, Mirage, Primeiro
Capítulo, Creepypasta Brasil e autor da semana com artigos de destaque na Obvious
Mag. Finalista de diversos concursos literários, teve os contos 'O Poço' (2017) e
‘Inominável do Além’ (2018) selecionado como um dos melhores em seus respectivos
anos pela revista Litera Livre, tem 23 livros escritos e dois publicados. Visite:
www.gersonavillez.jimdo.com.
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Conto
PRÓLOGO

A GRANDE TRAVESSIA

Fazer a grande travessia,


cruzar o rio ou a ponte
sem olhar para trás.
Tagarelando ou calado,
sereno ou chocado.
Seguir, seguir em frente...
... sem olhar para trás.
Porque nada deixaremos
para relembrar.
Tudo o que merecerá
ser recordado,
dentro de nós iremos carregar...
... Assim espero!
Se uma força maior

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

assim o permitir,
e saberemos então,
mistério entre os mistérios,
o que haverá além
da margem do Existir.

("Tio Vampiro")

—" A Grande Travessia"...


Dobrei a carta
contendo o poema e
segurei-a firmemente entre os dedos,
tomado por sentimentos antagônicos.
garotinho assustado, subitamente preso
no interior de uma concha escura,
cheirando a mofo e papel velho. E fazer
retornar o vulto alto e magro, consumido
pelas sombras.
Talvez, no inconsciente, eu desejasse — Ele morreu! — disseram.
reter aquela mão enorme entre as — Morreu de verdade? —
minhas, como se, de alguma maneira, perguntaram outros num meio sorriso.
pudesse trazê-lo de volta do poço da — Sim, morreu.
memória. Inútil, eu bem sabia. E infantil — Perfuraram seu coração com
também, claro. Tão infantil quanto a uma estaca?
criança que eu fora e tremera dos pés a — Enfiaram alho em sua boca?
cabeça naquele sobrado, diante de sua — Cortaram-lhe a cabeça?
imponente figura. — Guardaram as presas de
Excetuando-se situações extremas lembrança?
— uma calamidade ou uma paixão A frieza das pessoas, a falta de
ardente —, qual o significado de sete dias sensibilidade, o riso fútil e fácil não me
para uma pessoa mais ou menos comum, surpreendiam mais.
cuja vida compunha-se de milhares de E isso era o mais sinistro: suas
dias e ainda contando outros muito atitudes e a minha indiferença.
milhares pela frente? A maioria poderia Os pequenos monstros interiores,
dizer: nenhum. Algo a ser esquecido diria ele.
gradualmente pelas vertentes da Os verdadeiros.
memória. Eu poderia falar que foi um
Porém, não para mim, para a velório como qualquer outro, todavia,
criança que eu fui e que ainda existia em além de banal, soaria injusto. E injusto é
algum cantinho obscuro, a observar um o que eu menos gostaria de ser nesse
mundo repleto de detalhes e de histórias momento.
ocultas. Ele não era alguém comum. Podia
Confesso, fazia algum tempo que ser qualquer coisa: chato, egoísta, bizarro,
eu não divagava a respeito — muito cruel, psicopata, maluco. Mas, comum,
tempo na verdade —, tomado pelas isso ele não era.
atribulações cotidianas e uma rotina de Minha primeira impressão fora a
emoções fabricadas. Algo precisava de que ele encolhera. A recordação que
acontecer para trazer de volta aquele eu guardava era a de uma figura

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

intimidadora, enorme, apesar da magreza. Museu Madame Tussauds... do setor


Logicamente, eu era criança na época e, mais sinistro, bem entendido.
para qualquer fedelho, tudo sempre era Fiquei intrigado.
imenso, desconhecido e amedrontador, Senti faltar algo.
as pessoas inclusive. Ah, sim, os óculos de fundo-de-
Havia tão pouca gente por lá! garrafa! Onde estaria?
Nossa família era numerosa, porém, além Não me pareceu correto ele ser
de mim, minha máe, minha esposa e meu enterrado desse jeito, incompleto.
filho, mal pude contar uma quinzena... Bobagem, claro. Mas foi o sentimento
Quinze! E a maior parte era feita de que eu tive — que o garotinho dentro de
estranhos. Pessoas mais próximas do mim teve. Por outro lado, alguém
velho, decerto, em seus últimos anos. espalhara vários objetos ao redor do
Fiquei até surpreso ao saber disso, que corpo. Eles eram motivo de cochichos,
ele tivesse algum amigo, alguém que se piadinhas até: conchas marinhas,
importasse de verdade; surpreso e, de um soldadinhos de plástico, calendários de
modo estranho, aliviado e feliz. bolso, um pequeno crânio de resina,
A mágoa era coisa do passado e, chaveiros, uma pena, folhas secas, olhos-
em seu crivo, soubera peneirar os de-boi.
eventos. Vi minha mãe apontar para um
Primo Jonas estava lá — e isso sim caranguejo incrustrado numa esfera de
foi espantoso —, ainda corpulento, cheio acrílico.
de sardas e postura atrevida; mostrou-me — Eu me lembro disso! —
o dedo médio assim que me viu. Ah, sussurrou, admirada.
sempre um gentleman! Também vi tia Sorri melancolicamente diante dos
Zuleika e suas inseparáveis agulhas de olhos-de-boi. Levei minha mão ao bolso.
tricô. As mãos trabalhavam febris, mais Sim, estava lá.
atentas em concluir um cachecol do que Também cuidaram de colocar um
em secar lágrimas inexistentes. A livro nas mãos do morto. Era pequeno,
presença desta e de minha mãe era de se uma edição de bolso, quase oculto entre
esperar. Afinal, eram sobrinhas do os dedos compridos.
falecido, e, após a morte de tia Nice, mãe Aproximei-me.
de Jonas, as parentes mais próximas Poderia ser uma brincadeira de
ainda vivas. mal gosto, todavia, quem o fizera tivera o
Ao observá-lo em seu caixão, veio- cuidado de colocar cuidadosamente,
me o pensamento de que o seu apelido milimetricamente centralizado.
nunca me pareceu tão apropriado. Se, de Mexi nele para vê-lo melhor e
súbito, tio Chico se erguesse, eu não reparei em uma mulher bastante idosa,
ficaria surpreso. Lá, deitado, trajando seu tez parda e uma rede cobrindo os cabelos
terno marrom, pálido feito um cadáver grisalhos. Movimentou-se em meio à
que era, a pele manchada não mais pequena multidão. Ficou rígida,
entremeada de veias azuis, a boca murcha fuzilando-me com o olhar. Fiz de conta
e quase sem lábios a mostra, a testa alta e que não percebi. A capa era preta, o
enrugada, os ralos cabelos brancos. Sim, rosto diabólico e fantasmagórico
assemelhava-se a um boneco de cera do destacava-se em seu centro — reconheci-

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

o imediatamente — e, mais abaixo, em Rostos desconhecidos.


grandes letras vermelhas, o título: Rostos conhecidos.
Drácula. Alguém riu timidamente. Tio Chico não era muito popular.
Devolvi o olhar àquela senhora e movi a Corrigindo: ele não era nada popular.
cabeça em aprovação. Era apropriado. A maioria estava lá cumprindo
Recoloquei o pequeno volume no lugar uma mera obrigação social.
e, só, então, a mulher sossegou. Outros, encontravam uma
— Está na hora — falou o oportunidade para rever os parentes, pôr
coveiro, apressando-se em fechar o as conversas em dia, fofocar e comparar
caixão. a própria situação a do próximo. E até —
Ninguém protestou. fiquei pasmo ao perceber — flertar.
Era um homem atarracado, Agora, porém, todos se calaram.
amorenado de sol, rosto largo e braços Cabisbaixos, lamento fingido.
taurinos, mas dotado um semblante O som que se ouvia era o do
apiedado. Para mim, veio dele e da vento nas copas das árvores, dos pneus
mulher idosa os maiores sinais de do veículo transportando o esquife até o
humanidade. seu destino final e dos passos das pessoas
Estava um entardecer sombrio. sobre as pedras britadas.
O céu, antes azulado, cedera lugar Ah, enquanto eu caminhava
às nuvens e estas avolumaram-se devagar, relembrei os anos da meninice
formando um cobertor cada vez mais quando, então, tinha mais ou menos o
espesso e escuro. dobro da idade de meu filho. Este,
Começou a garoar. mudo, olhar arregalado, segurava forte
Vozes reclamaram. sua mãozinha contra a minha. Não
Devolvi a carta para dentro do bastasse a ocasião, certamente, alguém
envelope. Letras hesitantes haviam lhe contara algo sobre o morto, assim
escrito meu nome e endereço. Uma como meus primos fizeram comigo,
caligrafia melhor do que a minha, Jonas principalmente. A imaginação — e
confesso. Guardei-a bolso das calças para crueldade — das crianças não conhecia
não molhar. limite. Dizia-se que elas eram inocentes,
O vento frio de princípio de anjinhos, contudo, esqueciam-se de que o
Outono batia contra o meu rosto. Logo, diabo também era um anjo. E,
a chuva fina empapava-me os cabelos e a ultrapassada a fase inicial da verdadeira
água escorria através de minhas faces. De inocência, havia algo de capetinha no
algum modo, foi um alívio. A friagem âmago de cada moleque.
amainou o calor que eu sentia por
dentro. Olhei ao redor, acima das cabeças
Sete dias. e dos guarda-chuvas, para o céu de
Guarda-chuvas foram abertos num chumbo. Senti o ar frio invadir-me as
ramalhete negro. entranhas. Observei o clima sinistro
Acompanhei o cortejo até a delineado entre as lápides, retratos e
sepultura. cruzes. Rostos desbotados no tempo
Não havia muitas pessoas. miravam-nos através de um olhar preto e
Rostos bem familiares. branco.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Milhares de fantasmas e Insistiu:


assombrações nos observavam. — O que foi que eu fiz?
Aguardavam-no de braços abertos. — Não fez nada.
"A Grande Travessia." — Então, por que eu tenho que ir?
Ele. Diante do guarda-roupa, a mãe
Então, repeti comigo: sim, era ficou em dúvida: vestido branco ou
apropriado. vermelho?
Esse céu tristonho. — Por que tenho que ir? —
Essa chuva fina e fria. repetiu o garoto.
O som seco do cascalho. Decidiu-se:
Faltaram os relâmpágos e trovões. — Sim, vermelho... Hein? Ora,
A ventania. Morcegos esvoaçando pelo Christopher! Porque sim e pronto!
céu. O uivar de lobos E gritos "Porque sim e pronto!" nunca fora
aterrorizados de donzelas. satisfatório. Principalmente agora.
Afinal, era ele... Ele! No andar de baixo, o pai gritou:
Aquele que todos evitavam, mas — Já terminaram? Estamos em
cochichavam pelos cantos. Aquele que cima da hora!
não fazia questão de socializar-se, — Mais um minuto! — disse a
encapsulado em seus segredos. mãe. E voltando-se para o filho: — Olha,
Aquele que, em criança, fazia-me eu e papai não estivemos bem nos
tremer dos pés a cabeça. últimos meses, você sabe.
Sim, era ele. Sim, o menino sabia. Não havia
O Tio Vampiro. como deixar de ouvir as discussões, as
portas batendo e pratos quebrados. A
mãe dormia no quarto; o pai, na sala —
1 - PREPARATIVOS das vezes que dormia em casa. E
Christopher observava as fisionomias
Era uma manhã cinzenta, dessas emburradas, as lágrimas disfarçadas, a
que o pintor parecia ter se esquecido das cadeira vazia na cozinha. Ele sabia: o seu
cores. mundo, aparentemente seguro e firme,
O garoto não fazia questão alguma tornara-se pantanoso, um alicerce de
em disfarçar o seu temor e contrariedade. mentiras.
— Preciso ir? E agora, para completar, isso.
A mãe, na relutante fronteira da — Mas...
meia-idade, terminava de fazer as malas e — Escute! Eu e o papai faremos
andava feito barata tonta. nossa segunda lua-de-mel para recolocar
— Será só uma semana — repetiu as coisas nos eixos. Será bom para todos
pela milionésima vez. Soava menos nós. Só uma semana! Zuleika trabalha.
dramático dizer "uma semana" em vez de Os outros tios estão longe. A vovó está
"sete dias". — Uma só. doente...
— Uma semana... — repetiu o Em desespero de causa:
menino num eco inconformado. — Não posso ficar com o Jonas?
Uma semana ou uma eternidade, — Já falei: sua tia Nice também
qual a diferença? trabalha fora.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

— Mas o Jonas fica em casa. Velha e assobradada no alto do


— Não, de jeito nenhum! Ele é morro.
mais velho do que você e vive Trepadeiras subiam pelas paredes.
aprontando. Não se lembra? Algumas árvores ao redor
Como esquecer? Trancá-lo no careciam de poda e seus galhos
banheiro por meia hora. Desafiá-lo a retorcidos esparramavam-se
fumar o toco de um charuto fedorento. descuidadamente em todas as direções.
Pôr minhocas dentro de sua camisa. Folhas mortas espalhavam-se pelo chão.
Amarrá-lo no pára-choque do carro. A maior parte das janelas estava
Porém, até isso seria melhor do que ir fechada por venezianas, e, para aquelas
para a casa do... abertas, o interior era obstruído por
— ... o tio Chico concordou em pesadas cortinas.
ficar com você por uma semana. Só Fazia pensar num local mal-
Deus sabe o quão difícil foi para mim assombrado.
telefonar a ele, pedir, implorar até. E, Carecia de reforma havia inúmeras
mais ainda, convencê-lo. décadas. A pintura desbotada dizia ter
— Jonas falou que ele... sido ela, um dia, amarela e branca,
— Sei bem o que Jonas falou — contudo, fora tomada pela intempérie e
retrucou, embaraçada. diferentes matizes de encardido. O
— Ele é o Tio Vampiro! reboco desprendera-se aqui e ali,
A mulher continuava a caminhar revelando tijolos grandes e maciços de
pelo quarto, esbaforida. Terminou de barro cozido. Samambaias cresciam nas
ajeitar tudo nas malas, ajeitou o penteado fissuras do telhado e, embaixo de calhas
e, enquanto descia a escada, explicou: entupidas, aranhas e pássaros fizeram
— Sim, meu tio Chico é morada. No pavimento superior, diante
excêntrico, mora sozinho numa casa de uma porta-balcão, uma sacada de
isolada e tem suas manias. Mas não é um grade em arabescos ainda refletia um
vampiro! charme antigo e decadente. Havia uma
— Tem certeza? varanda na entrada da casa e, ao lado,
A mãe não respondeu. uma estrutura em forma de cilintro,
O pai ajudou a acomodar a encimada por uma torre de telhado
bagagem no carro, trancou a casa e pontudo. Isso evocou na mente de
posicionou-se atrás do volante. Christopher um castelo.
— Mãe... — O castelo do Drácula! — gritou
— Deixe sua mãe em paz. na calçada, relembrando um filme
E Christopher observou sua casa assistido por entre os vãos dos dedo na
ficar pequena, pequenina, até casa de Jonas. "Veja... Que peitos!",
desaparecer. dissera o primo. Todavia, Christopher
impressionara-se mais com o velho de
unhas longas, fala esquisita e cabelos
brancos penteados feito duas bolas sobre
2 - O SOBRADO a cabeça.
— Ele não é vampiro — insistiu a
Era uma casa velha. mãe, embora a maneira dela apertar a

[ 42 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

mão do menino desmentisse tal Para Christopher, o Tio Vampiro


convicção. — Não é! sempre fora um homem velho, já nascera
Numa época mais generosa, assim, vivera assim e morreria assim.
deveria ter sido uma construção bonita,
uma remanescente pobre do tempo dos
barões do café. Mas, agora, era pouco
mais que uma ruína. 3 - TIO VAMPIRO
Todo bairro afastando tinha uma
casa assim, cuja fama era das piores A aparência do Tio Vampiro
possíveis e mexia com a imaginação da continuava tão impressionante quanto
pivetada, não tinha? Era objeto de Christopher se lembrava.
especulações desenfreadas, de histórias Era alto, muito comprido e magro
escabrosas, de desafios infantis de feito um graveto extraído de uma árvore
coragem. morta. A tez pálida só servia para
O velho sobrado não fugia à regra. reforçar tal impressão. Sob a testa
Sua sorte era situar-se na periferia, enrugada e por trás dos óculos
próxima à divisa de municípios, ficando, antiquados, um par de olhos escuros
assim, menos sujeita a visitas indesejáveis fitava o sobrinho-neto num desagrado
e pedradas nas janelas. Não existiam contido. Mas não possuía orelhas
muitas residências nos arredores e a casa pontudas.
do tio-avô de Christopher destacava-se A mãe do garoto desembrulhou-se
solitária lá no alto de onde, pelo menos, a em desculpas e agradecimentos.
vista de um lago no vale deveria ser — Pe-perdoe o incômodo, tio
bonita. Francisco. Muito obrigada. Volto em
Era a primeira vez que o menino uma semana.
ia até lá. Já ouvira suas histórias, todas O velho limitou-se a acenar a
temperadas com um final assustador. cabeça quase imperceptivelmente, sob a
Não se lembrava de quando vira o Tio penumbra da varanda.
Vampiro pela última vez. Tinha uma Christopher — o "incômodo" —
vaga recordação do velho ter olhou-a, inquieto. Nunca vira a mãe
comparecido a uma festa de aniversário. gaguejar, nem quando tivera a discussão
De quem? Não se recordava. O tio-avô mais acalorada com o pai na semana
ficara o tempo todo num canto entre as anterior. Gritara, esperneara e atirara
paredes feito uma sombra, fundindo-se a coisas, porém, não gaguejara. Sentiu um
elas, alheio as conversas e risadas, presságio pouco animador formigando
observando a tudo e a todos por trás de abaixo da nuca. Tampouco ela se referira
seus óculos de aros pretos. em casa ao Tio Vampiro como "tio
Alto. Francisco", era sempre "tio Chico". Por
Magro. falar no pai, este aguardara no carro;
Taciturno. sequer ajudara a levar as coisas do filho.
E vampiro! Tampouco pareceu um bom sinal. Só
Era essa a imagem gravada na desejou que, após toda essa interminável
memória embaciada do menino. provação, não só sobrevivesse a ela, mas
Ah, sim, e velho. que seus pais voltassem a se entender e a

[ 43 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

sorrir um para o outro, conforme vira em Seus olhos miúdos levaram algum
fotos. tempo até habituar-se a pouca luz do
— Vamos entrando — disse o interior da casa.
velho, e sua voz era tão sinistra quanto
sua aparência. — Logo irá chover. O silêncio era a sua argamassa.
Seus dentes aparentavam ser Uma outra atmosfera.
normais, apesar de que, ao falar, abrisse Uma outra época.
pouco os lábios, mera fenda no rosto Um outro lugar.
descarnado. E era grande.
Grossas cortinas pendiam das
Ele pareceu evitar sair da proteção janelas altas e, através de suas frestas, a
da sombra e o garoto não pôde deixar de luminosidade lutava uma batalha perdida
pensar: "Tem medo do Sol!", embora contra a penumbra.
estivesse nublado. Engoliu em seco. O piso de tacos de madeira
A mãe deu dois beijos nas possuía uma tonalidade escura. Parte dele
bochechas do filho, agradeceu o tio uma era coberto por um tapete grande e
última vez e desceu o curto caminho de espesso, bastante usado. Nas estantes,
pedras em direção ao portão. Olhou para livros e mais livros, centenas, milhares
trás uma única vez. Incerteza e deles, a maior parte numa encadernação
resignação estampavam-se em seu rosto. antiga, da qual não se fazia mais. Outras
No meio do caminho, sua atenção foi estantes acomodavam uma variada
atraida para um montículo do lado coleção de objetos: fitas de vídeo,
esquerdo. Os pés falharam e ela quase estatuetas, miniaturas de animais, seixos,
caiu. conchas marinhas, uma enorme
O olhar comprido de Christopher ampulheta, lupas, pedaços de galho seco,
acompanhou o rastro de poeira até o penas de pavão e até uns brinquedos
veículo desaparecer do outro lado da antigos feitos de lata. Potes de vidro
colina em um túnel de árvores. guardavam folhas secas, sementes ou
— Vamos — insistiu o tio-avô, amostras de terra; outros, de plástico,
apanhando as malas. — Está frio. tinham retalhos de barbante, arames para
"Bem-vindo a minha casa", não fechar sacos plásticos e tampas de
fora isso o que dissera a aranha para a garrafas descartáveis.
mosca? Qual tinha sido a palavra utilizada
E a porta grande de madeira por sua mãe? "Excêntrico"?
fechou-se às gostas do garoto num No meio da sala, sob um lustre
rangido demorado. ordinário e sobre o tapete, destacavam-se
Todo o universo até então a mesinha de centro e um jogo de sofá
conhecido por Christopher foi separado encardido. O estofado de pano nos
dele no lado de fora. braços de uma poltrona rasgara-se de tão
gasto. Devia ter, no mínimo, o triplo da
idade do menino.
Não havia televisão... Então, por
4 - A GOELA DO MONSTRO que as fitas?

[ 44 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Deu de ombros. Inspirou fundo e, Existiu? Isso era novidade.


imediatamente, torceu o nariz, E o velho anuiu.
arrependido. — Chamava-se Vlad Tepes.
Se o tempo tivesse um odor, seria Adorava enfiar seus inimigos no espeto.
aquele: acre, denso, antigo. Não parecia possível os olhos
— Não mexa em nada — advertiu miúdos arregalarem-se mais, mas
o velho. fizeram-no.
Ah, disso ele podia ter certeza. O Pondo-se a observar os modos
menino não só não desejava mexer em retraídos da criança. Intimamente, o
coisa alguma como mal conseguia idoso imaginou que, se desse um grito, o
mover-se. De repente, sua atenção foi garoto desabaria ali, naquele exato
atraída para um espaço entre duas das momento, tal qual fizera o outro...
estantes. Melhor não fazê-lo, ainda não, ou teria
Lá, havia um relógio cuco. Seu de limpar a sujeira. Retornou sua atenção
formato era o de um castelo medieval ao antigo relógio:
todo pintado de cinza e preto. Os pesos — Quando dava as horas, uma
— Christopher arregalou os olhos ao cabeça de corvo surgia e os foles
perceber — em vez do formato imitavam o grasnar da ave. Era divertido.
tradicional de pinhas, eram um par de "Divertido? Drácula existiu?
esqueletos de bronze, as correntes Espeto?"
fazendo-se passar por cordas de uma As conversas assustadoras de
forca. Jonas e outros primos e primas
Tornou a engolir em seco. adquiriam cada vez mais contornos de
Tio Vampiro percebeu. realidade. E todas aquelas sombras e
— Não funciona mais — escuridão...
explicou. — Cansei de lubrificar suas Christopher desejou correr dali em
engrenagens. direção à porta. Mas, para aonde iria?
— Ca-castelo do Drácula... — Tio Vampiro tornou a falar:
sussurrou a criança para si, gaguejando — Seu quarto fica lá em cima —
feito a mãe. disse a voz cavernosa. — Vou mostrar.
Pensara em voz alta, todavia, o Dirigiu-se até a estrutura em forma
velho, apesar da idade, possuía bons de cilindro que o garoto vira do lado de
ouvidos. E, não obstante ser do tipo fora. Servia para acomodar uma escada
calado, respondeu: em caracol de ferro fundido.
— Sim, veio da Romênia, mas o Esforçou-se para readquirir os
artesão pretendeu homenagear a Edgar movimentos e acompanhou o tio-avô.
Allan Poe e não ao seu herói histórico. "Ao menos esse é obediente",
Foi um verdadeiro discurso. pensou o idoso. "E quieto."
O menino franziu a testa. Tio Vampiro detestava pessoas
O homem idoso, percebendo, que falavam demais.
explicou: Breve, iria engoliar seus
— Sim, herói. Drácula existiu, mas pensamentos.
não do jeito que imagina. Ao olhar de baixo para cima, para
Christopher arregalou os olhos. o topo da escada, Christopher sentiu

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

como se estivesse sendo engolido pela — Quem?


goela de um monstro. O mais Finalmente, Christopher ergueu os
perturbador era que fazia-o por conta olhos da comida.
própria, apesar da vontade não ser tão O idoso fitava-o, inquisitivo.
própria assim... Como alguém no mundo inteiro
poderia não saber de Saruman?
— Saruman, o Mago! O Senhor dos
1
5 - SARUMAN Anéis . Não conhece?
Tio Vampiro refletiu. Retirou os
Mesmo para aqueles habituados à óculos para limpá-los num pedaço de
solidâo e a quietude de seu refúgio, ao feltro que apanhara um segundo antes
ver-se em uma situação diversa, a dois, a num dos bolsos do paletó. Os olhos
mortalha do silêncio poderia perturbar. afundavam-se nas órbitas, dois poços de
Seria como estar diante de um incômodo brilho opaco. De súbito, o semblante
reflexo. Um reflexo tímido, fraco e iluminou-se sob o candeeiro da memória.
assustado. Não raro, isso poderia ser uma — Ah, os livros de Tolkien! Li faz
surpresa ao próprio anfitrião e abrir muitos anos. Eu era um garoto.
portas havia tempo trancafiadas durante "Livros?"
o tortuoso trajeto nos caminhos da vida. — Os filmes2... — corrigiu o
Dessa maneira, durante o jantar, o menino, hesitante.
velho — do lado oposto à mesa — — Filmes? Fizeram filmes da
quebrou o prolongado silêncio: história?
— Então, seu nome é Se dissessem a Christopher que
Christopher... acreditavam ser a Terra plana, o seu
Relutante, o garoto fez que sim espanto não teria sido maior. Não saber
com a cabeça. Evitou intencionalmente dos filmes da trilogia era tão espantoso
encará-lo, fingindo concentrar toda a sua quanto o fato do Tio Vampiro ter sido
atenção ao macarrão no prato. Ainda se garoto um dia. Como era possível? Como
sentia nauseado pela lembrança do cheiro ambas as coisas eram possíveis?
de mofo e naftalina do quarto que fora- O velho recolocou os óculos no
lhe reservado. lugar, alheio a ligeira turbulência que
O idoso não deu importância. provocara, mais concentrado nas
Sorveu um gole de vinho tinto e recordações evocadas pelo nome do
continuou para si próprio: menino.
— Como Christopher Lee. Já — Christopher Lee, ao lado de
ouviu falar nele? Bela Lugosi, foi o Drácula mais
Ora, quem não o conhecia? memóravel que já existiu. — Ergueu a
Fez novamente um sinal de "sim", taça, num brinde ao invisível. — Perdoe-
ainda atento ao prato. O miolo de pão me, Max Schreck!
deslizava sobre ele feito uma patinadora 1
numa pista de gelo — uma pista coberta 2
The Lord of the Rings, John Ronald Reuel Tolkien.
The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (2001); The Lord of the
de sangue, pensou, atento ao molho de Rings: The Two Towers (2002); The Lord of the Rings: The Return of the King
tomate —, e falou baixinho: (2003). Direção: Peter Jackson.

— É o Saruman.

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O menino fitou-o sem — Como conheceu Christopher


compreender. Reeve? Os filmes dele não são de seu
Aquela taça e o líquido escuro tempo...
dentro dela... Seria vinho de fato? — Mamãe é fâ. Tem todos os
O velho prosseguiu: filmes do Super-Homem.
— Você sabe que Christopher Lee — Ah, então, certamente ela tem
é ator, não sabe? Um homem que finge Em Algum Lugar do Passado. Assista
ser uma personagem... Como os atores quando tiver mais idade.
de teatro ou de novela. O menino permaneceu indiferente.
O quê poderia responder? E o velho indagou:
Para Christopher, não havia essa — Gosta do Super-Homem?
distinção clara entre ator e personagem. Christopher fez que sim.
Quando assistia a um filme do qual Tio Vampiro anuiu.
realmente gostava, tudo aquilo que via na — Interessante saber... Eu
televisão estava acontecendo de verdade, também.
em algum lugar, tanto na tela quanto em O silêncio tornou a cair, enquanto
sua imaginação. Saruman existia. Os elfos o velho recolhia a louça e os talheres.
eram reais. Gollum aprontava das suas. E De certa maneira, Christopher
os anéis possuíam poder e maldição. E ficara surpreso. E não era sobre o
esse Bela... Isso não era nome de mulher? Christopher Reeve. Ah, sim, ainda estava
Reparou, então, no tio-avô a amedrontado, um misto de medo,
encará-lo e tornou a voltar sua atenção vergonha e solidão. Todavia, seu Tio
para o prato; agora, praticamente vazio. Vampiro não era tão tenebroso quanto
Tio Vampiro murmurou: Jonas pintara, ou os adultos, incluindo
— Percebo... Esqueça o que eu sua própria mãe. Nunca imaginara que o
disse. Só queria mencionar que o seu tio-avô ou os vampiros de um modo
nome fez-me pensar em Drácula. geral pudessem se tornar tão falantes...
— Meu nome é por causa do ou que gostassem de macarrão.
Christopher Reeve. Ele aparentava ser inofensivo.
— Ah, o Super-Homem! Talvez pudesse aguentar os sete
Feito um boneco, o menino voltou dias, afinal.
a olhar o parente, surpreso. E seria a vez dele contar as
— Sim, disso eu me recordo — histórias de terror para Jonas.
respondeu Tio Vampiro à pergunta Mal percebeu o retorno do velho.
muda. — Ademais, todos estão Somente quando este, por trás, depositou
comentando. Pobre ator. Um bom o par de mãos magras e dedos muito
homem e muito bem apessoado, mas longos em seus ombros, perto do
preso à teia do destino por uma pescoço, deu-se conta. Sobressaltou-se.
fatalidade. Você assistiu Em Algum Lugar Um arrepio gelado percorreu seu
do Passado3? corpo de criança.
Christopher fez que não. Ficou claro ao menino:
Tio Vampiro indagou: precipitara-se.
3
Não pôde olhar para o rosto
Somewhere in Time, Direção: Jeannot Szwarc, 1980. descarnado a fim de adivinhar-lhe os

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pensamentos. Tampouco teve certeza se de ébrio, remexeu-se feito pernas de rã


gostaria de fazê-lo. no sal. Pesadelos infiltraram-se na
— Voltemos para a sala — disse a fechadura de seu sono e, logo,
voz cavernosa e impassível. — Fale-me escancaram a porta.
mais sobre você e sua família. Despertou ao som de seu próprio
E ele obedeceu. No caminho, grito.
imaginou como seria Saruman se Ofegava.
possuísse dentes longos e vestisse uma Sentiu-se perdido em meio à
esvoaçante capa preta. pesada escuridão, pairando em um nada
Foi quando o primeiro trovão fez- infinitamente maior do que o vazio em
se ouvir. seu estômago.
Apesar da chuva a tamborilar na
vidraça, um feixe de luar fatiava as trevas,
6 - NOSSOS PRÓPRIOS permitindo distinguir os contornos de
FANTASMAS uma mesinha, da cadeira, dos pés da
cama.
Tudo o que era primeiro na vida A angústia opressiva daquele
trazia dentro de si um amálgama de quarto, o mobiliário pesado, as
sentimentos. emanações de naftalina, o ruído do
O temor do que era estranho. vento, da chuva, o barulho...
A expectativa da novidade. ... Barulho?!
O receio da incerteza. Sobressaltou-se ao perceber o
Decepção? vulto enorme destacar-se da moldura da
Tristeza? porta.
Alegria? E a sombra cresceu.
Pavor? Então, um relâmpago inundou o
A balança tendia tanto de um lado quarto.
quanto do outro até que a verdade se E ele viu.
revelasse tal qual um velho baú a exibir — Tio Vampiro! — gritou a
seus segredos. plenos pulmões.
Entretanto, para Christopher, as O trovão fez estremecer a vidraça
dúvidas dessa primeira noite no antigo e as paredes do sobrado.
sobrado não existiam. A certeza era uma A criatura aproximou-se.
só: medo. Apesar da macarronada, sentia Christopher teve certeza de que o luar
um vazio no estômago. Não saberia iria iluminar a pele de pergaminho, os
colocar em palavras. Era um vazio lábios de um vermelho vivo e os caninos
estranho, grande e pesado. Alguém já proeminentes, prontos a ceifá-lo de todo
ouvira falar de um vazio pesado? Como o fluido da vida. Então, miraria aqueles
poderia ser explicado? olhos perdidos no abismo das órbitas,
Foi uma primeira noite agitada. sem uma única porção de branco, mas
A chuva torrencial tampouco brilhantes, muito brilhantes, convidando-
ajudou. o a fazer parte da eterna escuridão.
O menino demorou a adormecer Em vez disso, o tio-avô, carregou-
e, quando o fez, balbuciou em caricaturas o gentilmente para baixo, para a sala.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Embora idoso, havia vigor em seu corpo só, quieta demais, escura demais. Toda
magro. impregnada de sentimentos, anseios e
O garoto sentiu-se confuso, emoções. Não é a casa que assusta você,
perdido entre a imaginação e a realidade, Christopher. Ela é apenas tijolos, madeira
o sono e o despertar. e argamassa. — Fez um gesto amplo pela
Tão próximo assim do velho, sala. — Talvez, haja algum camundongo
notou que, a exemplo da casa, ele faminto fazendo sua ronda a fim de
cheirava a tempo, contudo — ao saciar a fome e a de seus filhotes; por não
contrário das histórias de Jonas —, o sabermos do que se trata, supomos as
corpo do Tio Vampiro não era gelado: coisas mais arrepiantes. Não. O que o
era morno, aconchegante até. Apesar da apavora é a casa assombrada dentro de
pouca claridade, pôde distinguir no rosto você.
magro, além das rugas e manchas, uma Christopher olhou-o,
série de veias azuis delineadas em suas interrogativo.
têmporas. Lembrou-lhe um mapa. E O velho assentiu.
havia uma preocupação genuína em sua — Sim, eu percebo, menino. Vejo
fisionomia. que, apesar de tão jovem, carrega seus
Enquando descia cuidadosamente fantasmas interiores. Você é o seu
a escada em caracol, o velho perguntou: próprio castelo.
— Pesadelos? E colocou-o deitado no sofá. Em
O menino fez que sim, sem seguida, trouxe-lhe o cobertor e o
confiar na própria voz. travesseiro.
— Medo de assombração? — Tente dormir aqui. Eu
O garoto tornou a mover a cabeça. continuarei na poltrona, onde costumo
— De... vampiros? ler até tarde. A luz do abajur não está
E novamente. muito forte para você, está?
O Tio Vampiro suspirou, já no O garoto fez que não com a
final da escada em caracol. cabeça. Mas, tomado por um receio
A sala era tomada pela fraca súbito, atreveu-se a falar:
luminosidade de um abajur próximo à — E depois?
poltrona. Em um de seus braços, havia — Ah, não se preocupe,
um livro grosso e aberto, página marcada continuarei aqui. Não é raro eu dormir
por uma folha comprida e seca. enquanto leio. — E, olhando
E o homem de uma outra época atentamente para o sobrinho-neto: — Eu
disse baixinho: sei como é trazer carragar próprios
— Uma casa antiga como esta fantasmas.
causa arrepios a primeira vista. Passar a
noite, então, nem se fale... Mas se eu
posso ousar dizer, não são as sombras, o 7 - ÁGUAS ESCURAS
silêncio ou os ruídos estranhos que
apavoram. Havia um cheiro gostoso de
O menino limitou-se a encará-lo. torradas na manteiga quando ele abriu os
— Todos nós podemos ser como olhos.
esta casa: grande demais para uma pessoa Tio Vampiro surgiu da cozinha.

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— Ah, acordou. Terminei de fazer animado. Era um inseto a ser pisoteado.


o chá. Ou prefere café com leite? Talvez não fosse tão ruim assim àquela
— Chá está bom — respondeu altura.
envergonhado.
— Eu também prefiro. Vá lavar o O velho acrescentou, retomando o
rosto enquanto eu preparo tudo na fio da meada:
varanda. A vista dali é bonita.
De fato, Christopher teve que — Não importa. Vampiro, Chico
concordar: era uma bela visão. Embora a ou Francisco, tanto faz. São somente
colina à direita e seu túnel de árvores rótulos. Aposto que disseram a você que
trouxesse uma certa melancolia à há monstros habitando o porão desta
lembrança dos pais, do outro lado, mais casa: vampiros, lobisomens, feiticeiras,
abaixo, havia o lago. Era rodeado por múmias...
diversas árvores e, naquele momento, um — E mortos-vivos — acrescentou
bando de pássaros sobrevoava-o. o menino, recordando-se de uma prima.
Estava uma manhã fria e nublada. — Ah, sim, sim... Claro, não
A chuvarada havia passado e, no ar, poderiam faltar: os mortos-vivos!
restara aquele aroma de terra molhada o Enterrados no chão barrento, cavando e
qual, desde sempre, fizera-o sentir-se cavando até suas mãos esqueléticas
bem. Era trazida pelo vento e, enquanto emergirem. Depois, dançariam ao redor
mordiscava sua primeira torrada — a da casa ao som de Thriller4... E quanto
manteiga derretida esparramou-se toda aos fantasmas? Arrastando correntes
pela boca —, pensou no quanto seria enferrujadas pelos corredores,
bom se um momento como aquele resmungando da vida e da morte, feito o
pudesse durar para sempre. seu nobre e infeliz colega de Canterville5.
— Então, eu sou o "Tio — Meu colega?
Vampiro"... — Não, o colega dele, do
O menino engasgou. Tossiu, fantasma. Depois explico, e sobre Thriller
esparramando farelos. também. Aposto que não sabe quem foi
O "para sempre", às vezes, podia Vincent Price, não é?
durar tão pouco... A criança deu de ombros.
— Desculpa, tio Chi... tio Tio Vampiro suspirou.
Francisco. O abismo de tempo entre as
— Tome o seu chá. Vai ajudar a gerações era bastante largo e profundo.
descer. — E quem te contou as histórias
Assim ele o fez. do porão?
O tio-avô, impassível, perscrutou Christopher ficou mudo.
o garoto, aumentando o embaraço deste. — Não me diga — continuou Tio
Passava o indicador logo acima dos Vampiro. — Aposto minha coleção de
lábios, alisando um bigode que, havia fósseis que foi aquele pestinha
décadas, não existia. insuportável.
Christopher sentira-se encolher na 4
cadeira, ficar mais franzino do que já era, 5
Thriller, Michael Jackson, 1982.
O Fantasma de Canterville (The Canterville Ghost), Oscar Wilde, 1887.
feito uma personagem de desenho

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O garoto arregalou os olhos. semblante e a voz arrastou-se, mais para


Imaginou se o nome do primo estaria si próprio do que para o menino:
estampado em sua testa. — Curioso. Não costumo falar
O idoso pestanejou. tanto assim. Muito pouco a bem da
— Sim, já sabia... Jonas! Aquele verdade. Desde que...
que a baleia não engoliu, temendo Não concluiu, as recordações
engasgar. Ele já passou um fim de deixando-se perder. Espaventou
semana aqui. Fez parecer um século! casualmente os farelos de bolo de seu
— Já? — Dessa história, casaco. Havia o céu cinzento, o vento
Christopher não sabia. frio, a superfície serena das águas.
— Sim, ficou chorando feito um Repentinamente, deu-se conta da
bezerro desmamado. Antes, durante e varanda, do chá e do sobrinho-neto.
depois.. como se eu fosse a criatura de — Sabe, observando-o aqui nesta
Frankenstein6! Até urinou na bermuda, manhã, noto detalhes que não havia
bem no meio da sala. percebido muito bem. Você tem os
Estava explicado o porquê. traços de sua mãe. Os olhos
— E quanto a você, não está principalmente. Você sabia que foi ela
surpreso? quem me apelidou de Tio Vampiro?
Sobre quais das surpresas passadas Sim, isso foi uma surpresa.
ou por vir o tio-avô estaria se referindo? — Foi?
Após um tempo longo demais, o Ela nunca dissera uma palavra a
velho suspirou novamente e, antes de respeito. Aliás, nunca falara muito sobre
sorver outro gole de chá, falou num tom o tio e, quando o fazia, evitava olhar
calmo, baixo, olhar perdido no horizonte direto nos olhos, geralmente aos
além do lago: sussurros, como se tivesse medo das
— Para um vampiro, o que eu paredes ouvirem.
estou fazendo aqui à luz da manhã? Sempre acreditara que fora o
Houve uma ligeira confusão no primo sardento.
semblante de Christopher. Olhou o céu O tio-avô apontou um dedo longo
encoberto. e magricela a meio caminho entre o
— Não tem sol... — disse sobrado e o lago, um pouco à esquerda.
baixinho. Era um declive tomado pelo mato e
Foi a vez do Tio Vampiro alguns arbustos e, no meio.
arregalar os olhos, realçando as rugas em Um montículo.
sua testa. Aquilo chamara a atenção da mãe
— Muito perspicaz. Não me dei de Christopher e ela quase tropeçara.
conta disso... — Existia um poço ali. Água
Mordiscou um pedaço de bolo de fresca em abundância. Era cercado por
milho e, por um momento, seus olhos um muro baixo de granito e um telhado
fundos perderam-se nas águas escuras do por cima. Eu instalara roldana, corda e
lago lá adiante. Uma sombra cobriu seu balde. Quando a sua avó — minha irmã
6
— enviuvou, precisou trabalhar de
Frankenstein, Mary Shelley, 1818. governanta, às vezes até nos fins de

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

semana. Soube que ela está enferma. É — Rita?


verdade? — Uma cantora italiana, pequena
O meninou confirmou. e espevitada — explicou. — Não me
Tio Vampiro pestanejou. interrompa. Onde eu estava? Ah, sim, a
— Sofrimento é nossa herança... sua mãe. E ela corria e corria naquela
Bem, sua mãe, a Zuleika e a Nice eram direção com a corda toda. — Apontou.
pequenas. Passaram um tempo jogadas — Elétrica. Inquieta. Então, tropicou. E,
de parente em parente. Ora juntas, ora apesar da mureta, caiu direto no poço.
separadas. Sua mãe achou que isso Christopher ficou boquiaberto.
acontecia porque minha irmã não a — Sim, menino, lá se foi ela. Foi
queria mais. Chorava ao lembrar do pai. um sufoco arrancá-la dali. Sorte eu estar
Ficou uns fins de semana comigo e exatamente aqui, senão, não quero nem
Simone... imaginar... Ainda trago em torno do
— Simone? peito a marca da corta usada para descer
O velho ignorou, apesar dos dedos até ela, naquela garganta escura e
tremerem ligeiramente. Continuou: molhada. — Comprimiu os lábios, já
— Hã... Eu mencionei ontem o finos, um contra o outro. — Não sei
Christopher Lee, não foi? Eu era fã dos quanto tempo levou, mas, para a
filmes de terror dele e de Peter Cushing. pobrezinha, certamente foi tempo
Ainda sou. Sua mãe, nem tanto — nem demais. Gritou até ficar rouca. Só Deus
tanto e nem nada —, porém, à noite, pode dizer o que passara por aquela
acabava vendo televisão também. cabecinha naqueles momentos.
— Televisão? O garoto olhou para baixo, no
— Por que o espanto? Já tive declive, por longo tempo. Também foi
televisão, aliás, ainda tenho. Ora, não sou difícil imaginar sua mãe como uma
tão arcaico assim! Possuo até um criança. Adultos sempre foram e seriam
computador. — Falou em um tom adultos, não era assim que o mundo
falsamente indignado. — Deixei de funcionava? Tio Vampiro a salvou?
assistir no momento em que a Então, não fosse por ele, o menino nem
programação virou essa porcaria que é. teria nascido... Um vampiro faria isso? E
Priorizei os livros e coloquei a TV no o temor dela, agora, podia explicar
porão. Como falei, a noite sua mãe não algumas coisas: seu nervosismo, os
tinha outra opção. E esbugalhava os gritos, o medo do escuro...
olhos, assistindo filmes de lobisomens, E o idoso prosseguiu naquela voz
vampiros e espíritos. Mas, de dia, quem oriunda de uma caverna:
podia segurá-la? Num domingo, ela — Foi nessa época que, para ela,
brincava aqui nos arredores. Ao contrário eu virei o Tio Vampiro. Sua mãe deve ter
de você, sua mãe não tinha freios, contado para a tagarela da Zuleika. O
sempre agitada, pulando, correndo, resto, conforme dizem por aí, virou
bisbilhotando, subindo em árvores feito história. Curioso... Muitos anos depois,
um macaquinho de vestido rendado e ela deixa o próprio filho aos meus
joelhos esfolados. Fazia-me pensar numa cuidados.
versão em miniatura da Rita Pavone. Examinou a sua xícara de chá e
O garoto franziu a testa. balançou o resto do líquido em seu

[ 52 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

interior. Tornou a falar, mais para seus Em parte foi inquietante.


próprios ouvidos: Em parte, um alívio.
— Dependemos da água para A tensão diminuiu.
viver, porém, também pode nos matar... O lugar não lhe pareceu mais tão
Estranho: vida e morte equilibradas feito estranho e assustador. Até sorriu para os
os pratos de uma balança. Opostas, mas esqueletos de bronze no relógio cuco.
sempre juntas. Girou o corpinho mirrado, mãos
E o olhar do velho tornou-se para trás. Observou as fileiras sem fim de
longínquo, perdido em algum ponto nas livros, a maior parte deles tão ou mais
águas escuras do lago. velha que o tio-avô. As encadernações
Sorveu o restante do chá, agora eram bastante sóbrias, tons escuros,
frio. preto ou marrom predominavam;
ocasionalmente, avermelhado. As letras
eram douradas sobre couro ou
8 - LIVROS E CACARECOS estampadas sobre pano. Muito diferente
das capas frágeis e excessivamente
Tio Vampiro não podia dar chamativas das publicações atuais. E
atenção ao sobrinho-neto a todo instante. menores também. Tão sisudas e puídas
A bem da verdade, nem queria. quanto o próprio idoso. Um odor
Era de natureza introspectiva — não análogo, penetrante. Um conteúdo
obstante os verdadeiros discursos que igualmente enigmático.
fizera nas últimas horas — e ficar Caminhou devagar.
grudado a alguém ou, pior, sentir alguém Como alguém poderia gostar tanto
em si, era um fardo ao qual não estava de ler? Christopher achava isso uma
habituado e, nessa altura da vida, jamais chatice, um tormento forçado pela
estaria. professora a fim de ganhar nota. Torceu
A solidão era o seu alimento, sua o nariz ao cheiro. Achou que iria espirrar,
liberdade e, paradoxalmente, sua prisão mas não chegou a tanto. Fedia a mofo ou
— por mais que viesse a negá-lo —, e a dinheiro muito manuseado.
continuava a necessitar dela tanto quanto Aproximou-se.
as mariposas corriam para a luz. Pôs-se a ler as lombadas. Era
Em dado momento, largou o difícil, pois, ora as letras eram miúdas
garoto a pretexto de ir cuidar do jardim. demais, ora encontravam-se desgastadas
Apanhou uma tesoura enorme de pelo tempo e, num caso ou noutro,
aspecto ameaçador, um alicate, uma pá segundo ele, a grafia estava errada:
pequena, um rastelo de mão e um vidro — Cidade Eterna7, H. Caine; O
de sementes. Enfiou tudo em um balde e Primo Bazilio8, Eça de Queiroz; Momentos
saiu. Na soleira, lançou um olhar Decisivos da Humanidade9, Stefan Zweig;
comprido para o garoto, depois, para o Martinho Luthero10; A Louca de Orleans11, B.
interor da sala e retornou ao menino. 7
Não viu necessidade de repetir a Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira & C.ª (Filhos), Lisboa,
1926.
advertência. 8
Livraria Chardron, de Lello & Irmão, Porto, 1908.
Christopher encontrou-se 9
Editora Guanabara, 1936.
10
subitamente só. Autor: A. de Saussure, Livraria Evangelica, Lisboa, 1912.

[ 53 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Jacob — este chamou a atenção por ser — Histórias de Fantasmas21...


de pano azul, uma exceção, e ser bem Não havia o nome do autor.
pequeno —; Os Homens de Sangue12, V. F. Era velho. O florão quase
de Castro; Harmonias Fantasticas13, S. desaparecera. As nervuras evocavam um
Viterbo; A Idéa de Deus14, Bruno; Os encanto que o menino não soube definir.
Incas15, Marmontel; A História da Raça E havia o mistério, especialmente o
Humana16, Henry Thomas; As Grandes mistério.
Expedições Scientificas no Seculo XX17, "Histórias de Fantasmas"!
Charles E. Key; O Homem e as Estrêlas18, Dissera o título baixinho, receando
H. True Stetson ... despertar algo. Sentiu uma pontada de
Meio que adivinhou o conteúdo calafrio. Os sentidos aguçaram-se. Que
desses livros, variavam bastante entre si. segredos nefandos suas páginas
Isso podia dar uma pista do homem que conteriam? Quais histórias seriam? Que
os conservava. Havia enciclopédias, horrores profundos despertariam? Poder
coleções diversas, livros mais recentes, abri-lo seria como mover a tampa de
livros de bolso — incluindo alguns de R. uma tumba: algo sairia.
F. Lucchetti19 com títulos Seus dedos miúdos quase tocaram
impressionantes como Sete Ventres para o a lombada, porém, recordou-se do olhar
Demônio ou A Maldição do Sangue de Lobo do tio-avô e sua advertência muda: "Não
—, centenas de exempares de Seleções do mexa em nada". Fosse como fosse, para
Reader's Digest20. Um exame mais quê acordar algo que estava quieto?
meticuloso revelou que até revistas em De repente, a sala deu a impressão
quadrinhos o velho guardava: O Pato de haver se tornado maior e mais escura.
Donald, Mônica, Classics Illustrated, O Olhou para o alto.
Homem-Aranha e... Super-Homem, todos O lustre movia-se devagar.
encadernados em tempos mais recentes, O pequeno coração congelou por
sem o primor antigo, mas a cumprir sua um segundo.
finalidade de proteger o conteúdo. Aliviado, percebeu que fora
Podia passar horas ou dias somente um fiapo de vento vindo do
recitando cada título sem conseguir corredor que fizera a porta da entrada
terminar. Por fim, seus olhos pousaram fechar. Correu para abrir-la novamente,
sobre um volume em particular e ele sentindo o macio do tapete aos seus pés.
parou. Através de uma janela lateral,
11
avistou o Tio Vampiro, e, por entre as
No Escriptorio de Francisco Arthur da Silva Editor-Proprietario,
Lisboa, 1860.
cortinas de veludo, pôs-se a observá-lo.
12
Typographia Cinco de Março, Rio de Janeiro, 1873. Cuidar do jardim, dissera ele, todavia,
13
Livraria Ferreira, Lisboa & C.ª, Lisboa, 1875. tudo o que Christopher via era o velho
14
15
Livraria Chardron, Porto, 1902. agachado, fuçando através da folhagem,
Os Incas ou a Destruição do Império do Perú, Editora Anchieta Limitada,
1943.
xeretando aqui e ali de lupa na mão,
16
Editora Globo, 6ª edição, 1952. adicionando alguns seixos, retirando
17
Companhia Editora Nacional, 1940. outros, fazendo uma podagem relutante,
18
19
Livraria Martins Editôra S.A., São Paulo. cavoucando nos espaços abertos e
Rubens Francisco Lucchetti, Coleção Trevo Negro, Cedibra, 1974.
20 21
Editôra Ypiranga S.A. Emprêsa Gráfica "O Cruzeiro" S.A., 1944.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

enterrando sementes, admirando uma pilha. Uma luneta. Selos. Bonequinhos de


flor silvestre, conferindo os bebedouros bolinhas de gude. Um globo. Relógios de
para colibris. A exceção de um punhado pulso sem as pulseiras... Era um tipo de
de mato, ele não arrancava as ervas museu pelo visto.
daninhas, pelo contrário, punha-se a O garoto não teve a menor dúvida
admirá-las e observar seus detalhes. De de que, das diversas coisas que viu, boa
um modo geral, o jardim aparentava parte sua mãe classificaria como lixo. E
tudo, menos ser bem tratado. daria o fim adequado ao seu ponto de
"Maluco." vista. Mas ele achou tudo
Deu de ombros e retornou ao interessantíssimo — excetuando-se os
meio da sala. tais olhos-de-boi. Um adulto, um idoso
Começou a examinar algumas juntando tais coisas? Ora, Christopher
estantes na altura de seus olhos, que não também fizera suas coleções: palitos de
continham livros. Eram objetos tão ou fósforo, figurinhas, papéis de bala,
mais variados do que os assuntos brinquedinhos de doce, insetos. Isso ele
abordados pelas publicações. Alguns ele podia compreender. Como alguém tido
já reparara: os carrinhos em miniatura; as por sinistro, um vampiro, cultivaria um
rochas de diversos tamanhos, formatos e passatempo legal assim?
tonalidades; conchas marinhas enormes e Por outro lado, não viu quadros
outras pequenas, porém de configuração ou retratos, entretanto, mais adiante,
intrincada — uma delas possuía uma próximo ao corredor que dava para a
porção de espinhos —; frascos com cozinha, encontrou a imagem de uma
folhas, sementes ou punhados de terra. caveira.
Outras coisas eram novidade. Havia um Pesos de esqueleto.
pote grande cheio de parafusos, porcas, Demônio.
arruelas, bolinhas de ferro, chaves Histórias de Fantasmas.
enferrujadas, clipes, moedas. Uma Olhos-de-boi.
coleção de garrafinhas de vidro contendo E, agora, uma caveira.
bebida de verdade. Um vidro grande Era amarela e de ossos cruzados,
cheio de umas coisas redondas, marrons, sobre um fundo preto, cercado por
achatadas, do diâmetro de uma moeda de estrelas. Feita de feltro recortado e
um real, quase totalmente rodeadas por pendurada à parede por um cordão
uma faixa preta; uma etiqueta manuscrita encardido. Havia uma data escrita a mão
dizia: "Olho-de-boi"22. Olhos-de-boi? na parte inferior: "23-8-1974". Muuuiiito
Ficou enojado. Em uma caixinha de tempo. O quê significaria? Lembrava
papelão, uma porção de calendários de uma bandeira de pirata, porém, mais
bolso e cartões postais. Ao lado, maços e incrementada. Decerto, a caveira
maços de cartas atados a barbante. Um combinava com aquele lugar, mas...
pequeno microscópio. Christopher nunca Uma sombra tomou conta da sala.
mexera em um, mas vira na escola. Um A voz cavernosa interrompeu seus
carrinho de lata vermelho, bem devaneios.
enferrulado, que algum dia funcionara a — Está gostando?
22
O garoto, absorto, assustou-se.
Mucuna pruriens.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

O vulto alto e magro realçava-se — Quanto aos monstros... Ah,


na moldura da entrada, tendo o vale mais esses eram meus amigos.
ao fundo. — "Amigos"?
Christopher limitou-se a ficar de O velho anuiu.
boca aberta, tomado por um finzinho de — Meus amigos na infância e na
calafrio. adolescência. Eu gostava deles, fosse
Tio Vampiro limpou os sapatos no através dos filmes, dos desenhos, da TV,
capacho, colocou o balde e seus das histórias em quadrinhos. Em
instrumentos de jardinagem atrás da qualquer lugar. E eu adorava desenhá-los.
porta e aproximou-se do menino. — Mas... São monstros!
Cheirava a mato, poeira e vento. A fisionomia do tio-avô tornou-se
— Eu fiz quando era criança. rígida por trás dos óculos.
Tinha uns cinco anos a mais do que — São somente representações,
você. Foi um trabalho de escola. símbolos. A natureza humana é capaz de
— Caveira? monstruosidades infinitamente maiores.
— A caveira foi por minha conta. Em qualquer jornal temos exemplos
Podia ser qualquer coisa, eu acho. Eu era disso, inclusive o jornal em si. As guerras
um garoto, digamos, incomum. são monstruosas. A maldade contra os
Apreciava caveiras, lobisomens, múmias, animais é monstruosa. A indiferença. O
gárgulas e, sim, vampiros. Nisso os seus sentimento irremediável de perda. A
primos têm razão: sou estranho. Não me cobiça. A prepotência. O deboche. —
recordo da reação da professora à Fez uma pausa, deixando de olhar o
caveira. Faz muito tempo. Não deve ter sobrinho-neto e voltando-se para a
sido melhor do que a de certos parentes caveira. — E, em certa medida, o que
na época. Diziam para me levar a um ocorre em sua casa também o é.
psicólogo. Sabe o que é um psicólogo? O menino fitou-o surpreso.
O menino fez que sim. O velho balançou a cabeça.
— Mamãe vai toda semana — — Não é preciso ser mágico para
explicou. adivinhar.
— Entendo. Eu nunca fui. Acho A tristeza tomou conta do
que as caveiras tinham menos a ver com semblante da criança.
o terror e a morte. Simbolizavam o Um aperto no peito.
ponto final, o término, a quietude, o nada Um nó na garganta.
da escuridão. "O sentimento irremediável de
Hesitante, voltando os olhos à perda."
caveira amarela, Christopher repetiu "Irremediável" era uma palavra
baixinho: difícil, contudo, não a compreensão geral
— "Término"... da frase.
Disse-o para si, contudo, os O tio-avô pôs a mão no ombro do
ouvidos apurados do velho captaram a menino, em comunhão às próprias
interrogação da criança. sensações enterradas no fundo da alma.
— O fim da dor, Christopher. — O maior monstro não está nas
— Fim da dor... — repetiu revistas, nas telas de cinema ou num jogo
novamente num eco distante. de computador: encontra-se dentro de

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cada um de nós, do somos capazes de O garoto abriu a mão direita em


fazer a outro e àquilo que nos rodeia. A concha.
fronteira entre civilidade e bestialidade é Era leve, todavia, dura feito uma
uma membrana tênue. É a esse precipício pedra.
gelado que devemos temer. Tio Vampiro perguntou:
— Ouviu falar de Itanhaém?
Pôde sentir através dos seus dedos Christopher fez que sim,
o súbito tremor no corpo do menino. relembrando um final de ano no litoral.
A fim de dissipar o véu de O velho continuou:
melancolia, Tio Vampiro completou em — Em Itanhaém há um rio. Após
seguida: uma chuva pesada, ele costuma trazer
— Atualmente, essa caveira é para bastante entulho: mato emaranhado,
mim um pedacinho do passado. Olhar troncos, folhagens... São levados até o
para ela é ver a criança que eu fui um dia. mar numa área chamada Boca da Barra e
E tocá-la — retirou a mão do ombro as ondas devolvem tudo para a praia. No
miúdo e passou as pontas dos dedos meio da sujeira, às vezes encontramos
sobre o feltro — é quase como apalpar a esses olhos-de-boi. Da primeira vez, eu
essência do tempo. fiquei admirado como você. Um olho
Sentindo a garganta um pouco podia ficar rígido assim? O que
dolorida, Christopher falou: aconteceu ao boi? Só mais tarde eu soube
— O senhor queria ser criança e a verdade.
novo? — "Verdade"?
— Isso nunca! Se há algo de bom — Sim. É um tipo de semente.
nesta vida é o fato dela ser uma estrada O rosto de Christopher mudou da
de mão única. A passagem do tempo é o careta para a surpresa.
que faz a saudade ter sentido; a velhice, o — "Semente"?
que nos deixa conformados. — Isso. Ela cai na água e o rio
O tio-avô possuía um modo leva para o mar. Tem gente que usa
diferente de expressar-se. como um amuleto ou simpatia, eu prefiro
Então, Christopher lembrou-se. E o contato dela na mão. É lisa, brilhante e
apontou para o vidro grande. bastante dura. Também me faz lembrar
— Sim? — disse o homem idoso. do mar, das caminhadas que eu fiz pela
— São olhos-de-boi. praia. Leve essa para você... para se
As feições do menino se lembrar dessa visita.
contorceram. Christopher tratou de enfiar no
O rosto do velho iluminou-se. bolso de sua bermuda.
— Ah, entendi! Ora, que "Caminhadas na praia?", pensou.
coincidência. Quando pequeno, eu Isso não combinava. Em sua cabeça, o
também achei que fossem olhos de tio-avô sempre fora um velho taciturno,
verdade. — Abriu o pote e apanhou um jamais saíra desse covil. O mundo era
deles. — Tome, pegue. mais complexo do que ele podia
Christopher relutou. assimilar.
— Vamos — insistiu. — Não Tio Vampiro abriu os braços,
morde. tentando abarcar tudo ao redor: seus

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

livros, os potes, os velhos brinquedos, a irmão. Este punhado de terra eu apanhei


coleção de minerais, as miniaturas de em uma cidade chamada Salto, onde
automóveis, tudo. morei e costumava passear com a Loba.
— Cada objeto aqui vai além do — Loba? — O menino girou a
que se vê. Possui uma história não cabeça, inquieto.
escrita. Às vezes, basta um olhar; outras, — Ah, ela se foi muito antes de
um toque. Sabe, Christopher, a visão e o você nascer. Era a personificação da
tato são sentidos poderosos... Mas claro, meiguice. Guardo um tufo de pêlo dela
só a mim eles dizem respeito. Para você em algum envelope por aí. Esses
ou qualquer outro, essas coisas nada bonequinhos eu fiz quando era moço.
significam. Esta pedra apanhei no quintal da Simo...
O garoto não discordou, todavia, de uma pessoa, muito tempo atrás.
achou polido não expressar isso em voz "Essa mulher outra vez", pensou
alta. Christopher.
Tio Vampiro prosseguiu. Era — Mas chega de toda essa
como se tivesse tanta coisa presa dentro conversa — disse o Tio Vampiro. —
dele que, a partir do momento em que o Deve ser tão emocionante para você
ouvinte certo cruzara o seu caminho, o quanto folhear o álbum de fotografias de
dilúvio principiara. um estranho.
— Estão mudas e mortas feito as Sim e não.
folhas de um outono que nunca partiu. Os olhos do menino passaram dos
— Seus dedos tocaram delicadamente as livros para as rochas, o microscópio, o
lombadas dos livros mais próximos. — globo e a luneta. Tentou imaginar o que
Este livro eu ganhei de um médico de eles poderiam contar, de quais
Porto Alegre com quem me lembranças estariam impregnados. Era a
correspondia; um homem muito culto, primeira vez que lhe era dado a perceber
cuja biblioteca era muito maior do que a a tênue ponte entre o concreto e o
minha. Este outro foi-me dado por uma abstrato; e tudo aquilo que um dia foi, é e
colega de trabalho que, infelizmente, será. Era um mundo em mutação
suicidou-se, incapaz de perdoar-se por permanente e não fixo. Uma corrente de
algo ruim feito na juventude. Este livro elos que se partiam para que outros
de mitologia foi presente de um irmão, pudessem ser formados.
quando ainda mantínhamos contato. E Isso causou um misto de
este daqui — Ah, há quanto tempo! — admiração e de temor.
eu adquiri num "sebo" que frequentava A incerteza da inconstância.
perto da Praça da Sé. Dentro deles há as A novidade do porvir.
histórias de seus autores, porém, mais Graças a ele.
além existem outras não contadas, das — O senhor é professor, tio?
diversas mãos pelas quais passou até O velho ficou espantado.
chegar as minhas. Este cadeado de ferro — Eu? Oh, não! — respondeu.
enferrujado era de meu avô... Ainda Sou aposentado. Fiz várias coisas, nada
funciona! Esses calendários de bolso que gostasse de fato. Somente fiz o que
foram-me dados por um tio, homem precisava para viver, mas não era a minha
muito bom, porém traído pelo próprio vida. Quanto a lecionar, não tenho a

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

formação necessária ou a vocação, Apesar de ser uma criança,


tampouco o mundo precisa de mais um Christopher percebeu de imediato haver
professor despreparado. Sou tímido tocado em um ponto nevrálgico. Ponto,
demais. Eu não me vejo dando aula para aliás, com o qual identificou-se. Tratou
um bando de garotos. de apontar para outro objeto.
— Nem eu — disse o sobrinho- — E esse relógio velho?
neto sem pensar. Caiu em si, corando. — — Ah, foi o meu primeiro relógio
Digo... e pulso. Anterior até à caveira e...
Inesperadamente, Tio Vampiro, — E essa pedra?
pela primeira vez, sorriu. Era achatada, escura, ovalada, de
E Chistopher pegou-se sorrindo diferentes matizes de cinza.
também. O velho virou-a, revelando uma
De repente, a sala não era mais tão figura mais ou menos semelhante a uma
sombria; tampouco o tio-avô, tão samambaia que a mãe de Christopher
sobrenatural. tinha pendurada no quintal.
Aos olhos do menino, o velho — É um fóssil de trilobita.
tornara-se humano. — "Tribita"?
— Trilobita. Uma criaturinha dos
mares. Viveu há centenas de milhões de
9 - FILMES E GIBIS anos no fundo lamacento.
— Lama? Mas é pedra!
Um furo aberto em uma barragem — Por isso foram necessários
podia gerar uma torrente. milhões de anos. A lama cobriu pouco a
Uma gota caída podia ser o pouco. Veja aqui, as camadas. Já pegou
prelúdio de um aguaceiro. um pedaço de telha na mão?
As comportas foram abertas em — Já.
ambos os sentidos. — Percebeu como é duro feito
— E de onde vem isso? — pedra? E, no entanto, foi feito de argila...
indagou o menino. — "Fossa"?
— Ganhei de meu pai. É um — Fóssil — e explicou em poucas
canivete de cabo de osso. palavra o que significava e sua formação
— A ponta está quebrada... através do cadinho do tempo.
— Eu tinha mais ou menos a — E isso aqui?
idade de quando fiz a caveira amarela. — É um imã. Não me recordo de
Brincava de fincar o canivete no chão ou quem ganhei. Era criança feito você.
num pedaço de madeira. Acho que foi Veio do dínamo de uma bicicleta.
assim que quebrou. Christopher conhecia imãs, mas
— Se está quebrado, por que nunca um vira naquele formato. Eram
guarda? objetos misteriosos. Podiam atrair coisas
— Como quase tudo aqui, traz a distância, ou repelir outro imã. Isso era
alguma recordação. Este canivete me faz mágico, não era? Não sabia o que era um
pensar numa época em que meu pai era dínamo e a pergunta chegou a ficar na
diferente e eu queria acreditar que ponta da língua, contudo, foi
éramos uma família... rapidamente ultrapassada por outra:

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

— E aquilo ali? ferimento. — Fez uma pausa. — Isso


— É um lagarto ápode — não muda o fato: eu o matei. Crianças
respondeu, constrangido. fazem coisas assim: caçam insetos, atiram
E, antes que o sobrinho-neto pedras em passarinhos, judiam de outras
indagasse sobre o significado de "ápode", crianças.
explicou: — Eu sei — murmurou
— Um tipo de lagarto que perdeu Christopher, relembrando a contragosto
as patas. Também chamam de cobra-de- as brincadeiras das quais fora vítima na
vidro. Mas não é cobra e, claro, nem é de escola. Sempre o último a ser escolhido
vidro. nos jogos, a ingenuidade humilhada por
Estava mergulhado em álcool. Era garotos de malícia. E quanto a si? Ele
muito bonito. Possuía várias listas próprio colecionara borboletas. E já
longitudinais ao longo do dorso e o "caçara" moscas usando um elástico.
ventre amarelo. Embora se assemelhasse Sofreram as moscas menos do que ele
a uma serpente, a cabeça era mais nas mãos dos moleques? — Eu sei.
parecida a de um lagarto, principalmente — Mas a vida é um milagre e,
pelos olhos, fechados. Cobras não como todo milagre, é sagrada, preciosa,
possuíam pálpebras. Havia um ferimento merece ser preservada. Hoje, penso, eu
nela, quase próximo ao final do corpo. jamais faria isso, compreende? Se eu não
O velho percebeu o olhar pudesse tratar o ferimento, tampouco
minucioso do menino. mataria. — Interrompeu-se outra vez. —
— Devia ter sido atropelado. Mas Ou o faria por misericórdia? Ah, não sei!
ainda vivia e contorcia-se no meio da rua, Não se deve matar insensatamente
por isso reparei nele. Eu tinha quatorze nenhuma criatura, é isso o que eu quero
anos — vacilou. — Então, apanhei-o e dizer. Mas a verdade é que sempre
coloquei no álcool. matamos direta ou indiretamente,
Christopher não percebeu a conscientemente ou não.
hesitação do tio-avô, admirado que — Nem pernilongos ou baratas?
estava com a criatura. Um lagarto sem O velho pestanejou.
pernas! Nunca vira nada assim. Todos os — Bem, às vezes, não é possível
lagartos tinham pernas, inclusive as ser completamente fiel aos nossos
lagartixas que surgiam na entrada de sua princípios — admitiu. — Não se esqueça
casa à noite, próximo à lâmpada, para das traças, brocas e cupins... Enfim, hoje,
apanhar insetos. arrependo-me da morte dessa linda
Mas o Tio Vampiro não iria deixar criatura. Ela dá pistas de como as cobras
passar a oportunidade diante dessa e as serpentes podem ter se originado. Se
criança mais jovem do ele fora na época você olhar detidamente, verá vestígios
do infeliz animal. Seria menos uma lição das patas traseiras. Só uns toquinhos.
e mais um desabafo. Se o menino queria Experimente com esta lupa.
falar, também aprenderia a ouvir. Era verdade.
— Quando se é moleque, Duas pequeninas protuberâncias,
podemos ser terríveis. Eu não era quase imperceptíveis.
exceção. Embora este lagarto, Christopher ficou boquiaberto.
provavelmente, fosse morrer devido ao Lagartos sem patas.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Se existiam, por que não os Terra24, Jasão e o Velo de Ouro25, Fúria de


vampiros? Titãs26.
Christopher ficou empolgado.
Os dragões? Apesar de serem velharias, os
Os fantasmas? filmes eram intrigantes. E os monstros,
E os lobisomens! apesar de monstros, não despertavam
— Mas se o senhor se arrepende, tanto medo assim, mas fascinação. Tio
tio, por que guarda? Por que não enterra? Vampiro falou sobre o processo da
— Já pensei em fazer isso. animação stop motion, acreditando que,
— Por que não fez? assim, tornar-se-iam mais emocionantes e
— Ei, dê-me um tempo para menos aterradores. A bem da verdade,
pensar, certo? E outro para falar. Christopher fez ouvidos de surdo à
Quando ficamos velhos, a cabeça fica explicação. Na cabeça do sobrinho-neto,
mais lerda. Está bem? aqueles seres incríveis eram reais,
O garoto fez que sim. existiam em algum lugar, nem que fosse
— Ótimo. Eu digo para mim somente dentro dele. O polvo gigante, o
mesmo que não fiz porque, senão, ela lagarto lutando contra um elefante, o
teria morrido à toa. Outras vezes, falo duelo entre homens e esqueletos. Em vez
que é por ela fazer parte de minhas de sustos, admiração.
recordações. Ou, apenas, por eu achá-la Foi bom para o próprio Tio
bela e querer conservar. É tudo Vampiro. Fazia anos que não revia
hipocrisia. Nem sempre ser o nosso aquelas imagens. Despertavam boas
próprio psicólogo funciona, sabe? Aliás, sensações. Amava aqueles monstros.
eu diria quase sempre não funciona: Contribuíram para despertarar em si a
nunca deixamos de ser parciais. curiosidade pelos mistérios do espaço
— E o que é aquela outra coisa ali profundo e as vidas que por lá poderiam
do lado? existir, e, também, pela mitologia grega,
— Refere-se a minha coleção de onde havia seres estranhos em profusão,
marcas de cigarro? cujo coração, a bem da verdade, era por
— E aquilo lá? demais humano.
— Ah, os meus desenhos? — Não somente esses filmes
E as perguntas sucederam-se uma fizeram isso — completou o velho,
após a outra, a ponto de Tio Vampiro ajeitando os óculos sobre o nariz. — Mas
desejar que o menino tivesse controle os gibis também. Você lê gibis?
remoto a fim de desligá-lo. Não tendo, Christopher franziu a testa.
resolveu trazer a sua televisão do porão e — Minha nossa! As crianças de
o videocassete. Então, fez o sobrinho- hoje sequer sabem o que são gibis... O
neto assistir a antigos filmes onde as termo é arcaico, como tudo o mais por
estrelas eram os monstros criados por aqui, afinal, era uma marca como gilete
Ray Harryhausen: O Monstro do Mar 24
Revolto23, A Vinte Milhões de Milhas da 25
20 Million Miles To Earth, Nathan Juran, 1957.
Jason and The Argonauts, Don Chaffey, 1963.
26
23 Clash of the Titans, Desmond Davis, 1981.
It Came from Beneath the Sea, Robert Gordon, 1955.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

ou bombril. Refiro-me a revistas em na Matemagicalândia29. O desenho animado


quadrinhos. é ótimo! Infelizmente, não o tenho. Bem
Isso o menino sabia o que era, poderia ser o primeiro passo para você
porém, confessou ter lido muito pouco, gostar de uma matéria que a maioria dos
preferindo jogar no computador. alunos detesta: a Matemática. E este:
O tio-avô levantou-se de sua Donald e a Roda30. Mas precisamos de uma
poltrona surrada e caminhou em direção grande aventura também. Onde está...
a uma das estantes, na seção onde Ah, eis aqui: Perdidos nos Andes31. Donald
Christopher lera nas lombadas os nomes e seus sobrinhos descobrem uma cidade
de algumas revistas. e, nela, há galinhas que botam ovos
— Esses gibis, como tudo o mais, quadrados.
são recordações do tempo de garoto. — "Ovos quadrados"?
Muita coisa, infelizmente, o tempo — Sim, sim... Estranho, não?
cuidou de levar. Mas, quero acreditar, Devo ter aqui uma leitura mais séria. Os
preservei os melhores. Era um costume gibis podem ser sérios, sabia? Onde está,
das crianças de minha época, além de vejamos... — Virava as páginas
brincar na rua: ler gibis. Hoje em dia, delicadamente. — Aqui está! Os Segredos
vivem presas à televisão ou, como você, da Vida32. É uma história e tanto. Fala da
ao computador. É pena. Se os adultos de evolução da vida, a maior de todas as
meu tempo criticavam os gibis em vez aventuras.
das crianças ocuparem-se com livros, ao Tão ou mais interessante que as
menos as revistas em quadrinhos serviam palavras, Christopher percebeu, era
para cultivar o gosto pela leitura, observar o semblante do idoso a medida
conforme ocorreu comigo. Ademais, era em que divagava e, de alguma maneira,
precipitado da parte daqueles. Havia voltava a ser a criança que, um dia, lera
histórias excelentes. Hum, esta aqui, por pela primeira vez tais histórias. Aquele
exemplo. era o vampiro, o parente sinistro que
todos temiam? O menino quase —
Era um volume contendo somente quase — conseguiu acreditar na
exemplares das revistas de Walt Disney. hipótese do tio-avô ter sido tão jovem
— Deixa eu marcar para você. — quanto ele era.
Apanhou umas tiras de papel em uma O velho, absorto, concluiu:
escrivaninha próxima. — A História do — Bom. Experimente ler algum
Dinheiro27. Sim, muito boa! Imagino que desses que eu selecionei, depois, diga-me
você não conheça o Manual do Tio o que achou.
Patinhas28? Tio Vampiro estendeu o braço,
O menino fez que não. oferecendo o volume encadernado.
— Foi o que pensei. Ele deve estar Notava-se a relutância, um esforço
aqui em algum lugar. Ah, isso! Aqui está. tremendo de sua parte.
Mas fica para depois. Primeiro, os gibis. 29
Aqui, outra história maravilhosa: Donald 30
Almanaque Tio Patinhas, nº 19, Editora Abril, Fevereiro 1967.
Almanaque Tio Patinhas, nº 24, Editora Abril, Julho 1967.
31
27 Mickey, nº 60, Editora Abril, Setembro 1957.
Almanaque Tio Patinhas, nº 30, Editora Abril, Janeiro 1968. 32
28 Almanaque Disney, nº 6, Editora Abril, Setembro 1971.
Editora Abril, 1972.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Christopher apanhou-o com inclinava-se em sombras pelo assoalho


ambas as mãos, sentindo não somente o até derreter-se no canto escuro onde se
peso em si, mas o peso imaterial, da encontrava a escada em caracol.
responsabilidade. "Não mexa em nada", — Tio?
tinham sido as palavras daquele homem. Onde estava o Tio Vampiro?
E, agora, isso. Um passo e tanto. Não fazia idéia de quanto tempo
Retornou para o sofá, apertando o se passara desde que ele deixara-o a sós.
volume no peito, rezando para não o O relógio cuco não funcionava, embora
derrubar. isso não fizesse muita diferença,
O idoso anuiu. habituado que estava em ver as horas
— Depois, se quiser, poderemos através de um relógio digital. O estômago
passar para os gibis do Maurício de dizia-lhe que um lanche cairia bem, uma
Souza. Conhece a Mônica, o Cebolinha, bolacha recheada ou apenas uma água-e-
o Horácio? sal. Depositou cuidadosamente o livro
O garoto fez que sim. feito de gibis sobre a mesinha de centro e
— Benzadeus! Ou algum super- foi até uma das janelas, a que dava para
herói. O Super-Homem seria adequado. aquilo que o velho chamava de jardim.
Minha história predileta é O Super-Homem Não, Tio Vampiro não estava lá.
Imortal!33 Ele viaja no tempo até um "Tio Vampiro."
futuro tão distante que a humanidade Ele possuía um nome completo?
deixou de existir. Sim, há muita coisa boa Algo mais além de Francisco? Claro que
que os adultos naquela época ignoravam. sim, todo mundo tinha um nome e
Vamos, leia. sobrenome, não tinha? Alguns até mais.
O menino obedeceu. Todavia, o que importava? Como o tio-
Sim, o garoto poderia ficar avô dissera, nomes eram apenas rótulos.
entretido — e calado — por mais E, fosse Francisco ou Chico, para
algumas horas. Christopher — ainda que não voltasse a
pronunciá-lo na frente do velho —, ele
sempre seria o Tio Vampiro.
10 - O QUARTO PROIBIDO Apurou os ouvidos.
Alguns pardais faziam as últimas
Christopher iniciou sua leitura algazarras. Mais além, um cachorro
meio de má vontade. Aos poucos, pegou- solitário latiu.
se gostando daquilo que lia a ponto de Então, Christopher escutou algo
devorar histórias que o tio-avô sequer semelhante a um suspiro no andar de
mencionara. Quando deu por si, quase cima, um rumor abafado.
todo o volume fora lido. Somente ergueu Seria o vento?
a cabeça ao dar-se conta da fraca Embora estivesse mais
luminosidade. acostumado, o interior da casa ainda era
Era um final de tarde pachorrento. grande e enigmático.
A noite tempestuosa tornara-se Hesitante, andou em direção à
uma vaga lembrança e um sol cinzento escada em caracol. Colocou o pé direito
33
no primeiro degrau de ferro fundido e
Superman Bi, nº 39, EBAL, Julho 1971. pôs-se a subir. Foi devagar, pé ante pé.

[ 63 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

O burburinho ainda era Tio Vampiro estava possesso. Sua


incompreensível, porém, soava cada vez fisionomia era um misto de fúria e dor
mais alto aos seus ouvidos. profunda.

Finalmente, atingiu o topo. Christopher sentiu o coração


A voz era abafada. palpitar. Não compreendeu o porquê da
O tio-avô? zanga do velho. O que teria ocorrido
Sim. dentro do aposento? O que seriam os
Conversava?... Aparentemente, sussurros por trás daquela porta? Teria
sim. Mas, com quem? alguém lá? Quem? E as lágrimas? Na sua
Escutou a voz cavernosa um tanto cabeça, as histórias dos primos,
encoberta: principalmente de Jonas, retornaram
— Por quê? nítidas, assombrosas e malévolas.
A seguir, o idoso caiu em prantos. Ganharam contornos físicos sob as mãos
O que estaria acontecendo? enormes e longas, transformadas em
Tomado pela incerteza, os pés do garras, rudemente postas nos ombros do
menino avançaram vagarosamente. menino.
Os sons vinham detrás de uma À frente de Christopher, ereto em
porta pesada, detalhes florais esculpidos toda a sua magreza, palidez e altura, o
na madeira escura, cujo interior era-lhe rosto meio oculto pelas sombras, o tio-
desconhecido. Ficava do extremo oposto avô ergueu a criança sem demonstrar
do corredor onde se situava o seu quarto. esforço e bradou em tom ameaçador:
A luz acesa vinha de dentro numa tira — Você nunca — Eu disse:
horizontal sob a porta. Aproximou-se NUNCA! — entre neste quarto. Está
dela, hipnotizado, e, quando estava entendido?
prestes a tocar na maçaneta, vacilou. O tom imperativo daquela voz
Achou melhor observar através do gutural não admitia ser contrariado.
buraco da fechadura. Foi nesse instante Insistiu:
que, de repente, a tira de luz apagou-se. — ENTENDEU?
A porta se abriu de supetão e o velho As pernas curtas balançaram no ar.
emergiu numa silueta enorme e escura. Christopher pensou que seria
Suas feições na penumbra estavam jogado de lá do alto. Sentiu o odor
completamente alteradas. Por trás dos enjoativo daquele hálito misturado ao
óculos de armação pesada, um feixe de xampu barato nos cabelos ralos. Um
luz arrancou chispas daquele olhar. A bolo formou-se em sua garganta. Fechou
respiração era rápida, densa, audível. as pálpebras, apagando de sua visão o par
Trovejou: de olhos terríveis, afundados nas órbitas.
— O que está fazendo? Sentiu as lágrimas brotarem. Moveu a
— E-eu nã-não vi o senhor, tio. cabeça num "sim" amedrontado
Eu pensei... repetidas vezes, mais do que o
A voz do velho estalou feito uma necessário.
chibatada: O corpo do velho, ainda rígido
— Pensou o quê? Pensou que por mais uns segundos, relaxou e soltou
pensa? o garoto.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

O menino apoiou-se na parede dias naquele buraco esquisito e retornar


para não cair. para casa.
A mão direita do velho Sentou no canto do sofá escolhido
desapareceu um momento no interior do como favorito, abraçado aos joelhos.
quarto misterioso e a luz foi apagada. Mais tarde, mordeu dois pedaços
Mais senhor de si, falou: do sanduiche de presunto e queijo. Só
— Agora desça! Ainda é cedo para dois pedaços. Ignorou o chá, preferindo
recolher-se. Vou fazer um sanduiche para deixar a garganta seca, áspera e dolorida.
você ir comendo enquanto eu preparo a À noite, após o pesado silêncio do
janta. jantar, Tio Vampiro, a fim de assegurar-
Trêmulo, foi a vez do menino se de pôr um freio à curiosidade do
sentir raiva, mais raiva do que medo, uma menino, reservou-lhe um castigo especial:
indignação profunda, uma vontade de colocou no videocassete o filme A Casa
berrar. Sem responder, girou nos pés e da Noite Eterna34. Havia anos não o
desceu rapidamente os degraus. assistia, e sentiu-se gratificado ao revê-lo
Comprimiu os lábios e engoliu o choro, e às emoções perturbadoras que
apesar dos olhos marejados. Enxugou as despertava. Sentia-se malévolo. O filme
lágrimas. Mãos crispadas de ódio. Não fazia jus ao gênero e, não por acaso, era
iria fazê-lo na frente do velho. O filho uma película inglesa. Os ingleses eram
da... Vampiro ou não, não fora justo. O mestres. A Casa da Noite Eterna não
menino não fizera nada de errado para apavorava pela gritaria — embora
tomar aquela bronca, nem ser alvo de houvesse alguma —, mas por seu
tamanha ira. silêncio, por sua trilha sonora arrepiante,
O que fizera o tio-avô chorar? pelo suspense de fazer as mãos
O que teria lá dentro? cravarem-se na poltrona como alguém a
Poções mágicas e feitiços? mercê de um dentista insano. Sim, tão
Um monstro pior do que ele? diferente das frivolidades dos filmes
Um caldeirão para cozinhar americanos, seus estardalhaços, molhos
crianças? de tomate e um bando de adolescentes
Um caixão de defunto onde ele estúpidos, pedindo para serem
dormia? apanhados.
Que enfiasse tudo aquilo goela Não era um filme apropriado à
adentro! idade do menino, em absoluto.
Estava farto de repreensões. "Mas", pensou o idoso ressentido,
Motivadas ou não, havia inúmeras delas "quem irá me impedir?"
em sua própria casa. A expressão do garoto era de puro
A princípio, desejara contar o horror.
quanto gostara das histórias do Pato A mansão.
Donald: as aventuras em lugares O nevoeiro.
exóticos, as encrencas, as situações As manifestações.
engraçadas. Agora, que o pato e seus O pavor sem forma.
sobrinhos fossem para o inferno! Eles e Fora perverso.
o tio-avô. Retardado! Desgraçado! 34
Maldito! Queria somente terminar seus The Legend of Hell House, John Hough, 1973.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Fora sádico.
Fora cruel. 11 - ALGO RASPANDO
Provavelmente desnecessário, não O velho lançou um derradeiro
fosse o fato de haver perdido a chave olhar de advertência ao menino.
daquele quarto muitos anos atrás. Mas Christopher não prestou
Precisou fazê-lo. Quis fazê-lo. Sentira-se atenção, embora tremesse por dentro.
invadido, ultrajado, despido de tudo o A sonolência dominava-o após
que lhe era mais íntimo e sagrado. uma noite mal dormida. Nunca se sentira
Percebera a tempo o sobrinho-neto do tão infeliz, solitário ou aterrorizado. Na
lado de fora e o que, certamente, estaria última noite, chorara, enfim, sob o
prestes de fazer. Sabia do poder da refúgio das cobertas, entretanto, dessa
curiosidade infantil. Tivera exemplos de vez, ninguém aparecera a fim de
sobra daquele outro sobrinho-neto, o confortá-lo. E, apesar de tudo, em plena
pirralho inquieto que a baleia deixara de madrugada, quase desejara que algum
devorar. Tinha de inibir os fantasma surgisse e o levasse para bem
deslocamentos de Christopher pela casa, longe dali. Pela primeira vez na vida, vira
especialmente no pavimento superior, o Sol despertar no horizonte, afugentar o
pois não conseguiria ficar vinte e quatro medo, a solidão e a tristeza, deixando
horas por dia de olho no garoto. somente a mágoa e a raiva. Sobrevivera à
Principalmente amanhã, quando iria ao escuridão no "Castelo do Drácula" e,
banco e providenciaria as compras do através dos meandros de seus
mês. Não daria para levá-lo na garupa de pensamentos, isso representara uma
sua bicicleta, pois nem garupa ela tinha vitória, não obstante o sabor amargo.
mais. Amarrá-lo à escada estava fora de Por ele, teria continuado o dia
cogitação — não que não tivesse todo na cama a fitar o teto, não fosse a
considerado essa hipótese. Apesar de insistência do tio-avô para que descesse e
tudo, uma parte de si admirara-se: ao ficasse na sala até seu retorno.
contrário de Jonas, Christopher não — Não demoro — falara o Tio
desabara. Vampiro após o café da manhã, sem
maiores explicações. Fora tão lacônico
Vira o temor inicial tão logo o quando no início da visita.
menino chegara. "Vá pro diabo!"
Testemunhara o despertar da luz Passou a chave na fechadura pelo
em seu semblante. lado de fora. Logo, saía em sua bicicleta
Agora, atirara um balde de água em direção ao pequeno centro comercial
gelada em sua chama. do outro lado do lago, cerca de vinte
Das profundezas gélidas da alma, minutos dali, por ruas esburacadas e sem
os monstros retornaram. asfalto.
Os monstros... Não tardou para o silêncio cair
Pelo menos, Tio Vampiro fora pesado e cheio de sombras no interior da
sincero: havia um monstro dentro de casa.
cada um. Christopher permaneceu na
Ele revelara o seu. mesma posição por vários minutos.

[ 66 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Em outra circunstância, ficar direita. Gostaria de levar pimenta na


aprisionado ali teria sido pior do que a boca? Oras, onde estava ela agora?
morte. Contudo, a cabeça doía, estava Divertindo-se em algum canto, toda
tonto de sono e tomado pela indignação. maquiada, de vestido bonito,
Talvez tivesse adormecido por um refestelando-se ao passo que ele...
momento, mas não teve certeza. — Mijar! Mijar!... Jonas mijão!...
Perambulou pela sala a esmo, sem os MIJÃO!
chinelos, sentindo a maciez do tapete Sua voz reverberou pela casa,
antigo ou o frio do assoalho. trazendo-lhe um calafrio na espinha. Foi
Tinha gana de arrancar as como se a construção fizesse coro ao
tranqueiras das estantes, trocar as fitas de xingamento.
videocassete de suas caixas, mudar os Ah, o conhecimento era precioso.
livros de posição ou espalhá-los pelo Saber e poder. Nunca mais o fanfarrão
chão, pisoteá-los, arrancar suas páginas. sardento iria judiar dele, não com esse
Que tal seria dar um monte de nós nas trunfo em mãos. Certamente, algum
correntes dos pesos do relógio cuco? colega da escola de Jonas adoraria saber.
Faria aqueles esqueletos ficarem tão Melhor ainda: a classe toda! Sim, no
juntos quanto os adolescentes devido tempo. A vingança não era uma
namorando na escola. E pendurar-se nas virtude, todavia, não deixava de ser uma
cortinas a fim de arrancá-las dos trilhos? delícia.
As possibilidades eram inúmeras. Por um E continuou a gritar isso e outros
segundo, ficou maravilhado. Derramar o palavrões, alguns dos quais sequer sabia o
álcool daquela cobra-de-vidro nas significado. E a casa tornou a repetir e
estantes e atear fogo! repetir. Não se portava feito um bicho-
"Uau!" papão, mas, um aliado. Era liberador.
O pequeno Nero não fez nada Não havia ninguém a repreendê-lo. No
disso. paradoxo de seu confinamento,
"Não mexa em nada." encontrava-se livre. Seguido aos ecos, o
— Mexo se eu quiser! — desafiou. silêncio inquietante retornava. E o
As primeiras palavras ditas pelo sentimento de liberdade esvaia-se
velho ao encontrarem-se sozinhos ainda rapidamente, substituído pela consciência
reverberavam em sua cabeça. As batidas de onde se encontrava.
de um sino no campanário E se o tio-avô não retornasse?
incomodariam menos. E se fosse atropelado por um
— Mexo se eu quiser — carro?
resmungou sem ênfase. E se caísse da bicleta e quebrasse a
Por quem o Sr. Debilóide o perna?
tomava? Outro Jonas? E se decidisse cair no mundo para
Sorriu consigo ante a lembrança. não mais voltar?
O primo mijara-se de medo ali, — CAGÃÃÃOOO! — gritou o
exatamente naquele lugar em que mais alto que pôde a fim de expulsar seus
Christopher estava. Sua mãe tê-lo-ia temores. Não lhe agradou nenhum
repreendido. "Urinar... É urinar!" Esse pouco essa linha de pensamento e tratou
era o termo correto, sério, de gente

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

de enterrá-la no fundo de alguma gaveta seguida, apesar de haver algo familiar no


do cérebro. nome. Seria um presidente americano?
A casa repetiu o palavrão e, dessa Como escrevera um livro da história da
vez, a ofensa estava direcionada a si e própria vida? Um livro! A professora
não a Jonas. Cristina mandara fazer uma redação
"Cagãããooo... gãããooo... ãããooo... desse tipo na escola. Christopher lutara
ooo" para usar todas as linhas do papel
Isso serviu para tirá-lo um pouco almaço, fazendo uma letra maior e
do torpor. esticando as palavras. Inchara-se de
O Tio Vampiro voltaria. orgulho do "Muito bem!" que ela
Ele precisava retornar aos seus escrevera no canto superior direito com
preciosos livros e cacarecos cheios de sua caneta esferográfica vermelha de
histórias. tampa mordida. Entretanto, um livro
Foi quando deu-se conta da inteiro? Para ter tanto assunto assim,
grande verdade: estava fazendo sol deveria ser alguém muito, mas muuuiiito
quando o velho saiu. Vampiro algum velho... Como o Tio Vampiro. Ficou
jamais suportaria isso. Nem se usasse tentado a folhear o livro, mas não o
protetor solar ou óculos escuros. tocou.
"Pode ser um tipo diferente de Foi quando sua atenção foi atraída
vampiro", falou uma vozinha no canto para uma escrivaninha ao lado da escada
de sua cabeça. "Um mutante!" — palavra em caracol, atrás dos primeiros degraus.
complicada, aprendida havia pouco Ficava um tanto oculta por trás do
tempo e que soava bem aos ouvidos: espaldar alto da poltrona e, por isso, não
"Mutante!" chamara a sua atenção anteriormente.
"Ele não é vampiro", repetiu a voz Agora, fosse pela mágoa, pelo calafrio ou
de sua mãe do outro lado. por estar sozinho — livre —, apercebeu-
Em quem confiar? se dela. Devia ter se destacado mais cedo,
Achegou-se perto da poltrona de pois era onde se encontrava o
estimação do idoso. O livro grosso computador do velho e, ao lado dele,
continuava num dos braços, agora uma impressora matricial. Eram dois
fechado. O marcador de folha seca objetos que poderiam fazer o papel de
estava lá — uma folha lanceolada de um luminoso: não combinavam
abacateiro, porém, não havia como o sobremaneira com o lugar. Intrusos da
menino saber disso —, pouco depois da era moderna em uma cápsula
segunda metade do volume. fragmentária de tempo.
A criança entortou a cabeça e leu a Christopher não se perdeu em
lombada um tanto vacilante: divagações tão transcedentais assim. Seu
— História da Minha Vida... pensamento mais imediato ao ver o
Era a autobiografia de Charles monitor foi: videogame! Se estivesse em sua
Chaplin35. casa, ligaria o aparelho e brincaria com
"Quem é esse?", perguntou-se alguns de seus jogos favoritos. Era o que
vagamente, dando de ombros em havia de melhor para fazer o tempo
35
andar depressa e onde podia bater ou
My Autobiography Charles Chaplin, Livraria José Olympio, 1965. machucar sem causar ou sofrer dor.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Quase... Ufa! Esteve por um triz consequências de maior amplitude lá adiante, em


de pressionar o botão para ligar o outro lugar, quiçá muito além, como peças de
computador do tio-avô. A tentação foi dominó tombadas pelo destino.
muito forte. E por que não o fazia? O
velho saíra. Ninguém notaria. Poderia contar num sussurro que a
"Não! Eu não sou Jonas", pensou, sementinha da vida já nascia com o fardo da
embora um resquício de medo dissesse morte, mas, filosoficamente cogitando, a morte
não estar sendo completamente sincero. não traria o fim em si mesma, porém o início de
O velho se fora, mas sua sombra uma outra jornada.
permanecia.
"Não mexa em nada." Então, pediria um copo de água ou uma
— Eu sei! xícara de chá para umedecer a garganta e colocar
Havia um texto sobre a as idéias em ordem. Quem sabe, não haveria um
escrivaninha, em uma folha de biscoito ou bolinhos de chuva para acompanhar?
formulário contínuo. Era assinado por Sentir-se-ia cansado, muito cansado de
"Francisco" e, apesar de ser um nome tudo o que vira, de tudo o que presenciara, as
comum, o garoto concluiu lições aprendidas e prontamente esquecidas.
imediatamente ser de autoria do tio-avô. Sonhos desfeitos. Realidades mal feitas. A gota
Era comprido, bastante comprido. de tinta era a mácula do oceano.
Christopher leu em voz alta para se Ah, sim, eventos grandiosos aconteceram,
distrair e, também, espantar o palpável edificantes e memoráveis. Mas ele era o Tempo
silêncio do sobrado: sem tempo, um tanto casmurro, um tanto senil,
impaciente. Cantarolaria:
O TEMPO QUE O TEMPO TEM
Fadado a permanência,
Se o Tempo pudesse sentar-se ao nosso a eterna existência.
lado num alpendre, quantas histórias não teria Oh, cuja essência
para contar? é somente existir,
Grandes tragédias, pequenas alegrias, mas foi penitenciado,
muitas aventuras, iguais doses de desventuras. grilhões algemado,
Talvez deixasse a humanidade de lado pelo poder de refletir.
por julgá-la por demais mesquinha e presunçosa,
além de insignificante diante do desenrolar maior E, então, levantar-se-ia para ir embora,
das coisas. espreguiçaria, endireitaria a coluna, por mais
Talvez se concentrasse no lampejo da que desejássemos saber mais, ouvir tantas e
primeira luz a afugentar as trevas, pincelando o tantas histórias, compartilhar sua infinita
Universo com a alegria das cores. experiência, sua enorme sabedoria.
Ou, então, falasse sobre quando a vida Num meio sorriso, ele responderia, quem
surgiu — não necessariamente na Terra — e sabe, que de uma vida tão longa que, como
balbuciou a primeira de todas as palavras e Tempo, possuía, o que mais gostaria, além de
sentimentos, provavelmente a mais melancólica: poder esquecer, seria o privilégio que todos nós
solidão. temos de se deitar em um amplo gramado,
Poderia também refletir sobre como um deixar-se ficar e, apenas, perecer.
evento aparentemente insignificante aqui iria ter (Francisco)

[ 69 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

olhos cerrados, aquela trilha sonora


Demorou para concluir a leitura. apavorante fincara-se em seu cérebro: o
Havia palavras difíceis para ele: alpendre, tamborilar insistente, o barulho súbito, os
mesquinha, quiçá, mácula, casmurro, murmúrios, o arfar fantasmagórico, o
grilhões... Não imaginava que pudessem vento que não era vento.
existir tantas assim. E o sentido geral do
texto perdeu-se nos meandros da — Não!
gramática. Todavia, havia uma Receou que, de um momento para
grandiloquência que não lhe passou o outro, a escrivaninha passasse a
despercebida, tampouco uma palavra, a sacolejar e o monitor fosse atirado por
palavra-chave talvez: solidão. E disso ele mãos invisíveis até a parede do lado
entendia. Concluiu ser algo de alguma oposto da sala, espatifando-se em um
importância, apesar de não saber milhão de pedaços. Fizera o possível para
exatamente o porquê. A contragosto, apagar o filme de sua mente, ignorá-lo,
pegou-se admirado pelo homem idoso de desde que fora trancafiado a sós no
testa alta. Além de ávido leitor, o velho antigo sobrado.
era também escritor. Oh, sim, o menino Mas o ruído persistiu.
continuava muito magoado, mas soube E vinha lá de cima.
ser honesto o suficiente para admitir seu Christopher gelou.
espanto diante daquela personalidade Aquilo não devia — não podia —
multifacetada. Doida e sinistra, porém, acontecer.
multifacetada. A inquietação do desespero fez
Foi quando escutou um ruído, leve menção de alojar-se em seu espírito.
a princípio e, em seguida, mais — Não! — repetiu.
perceptível. O interior da casa deserta Por fim, malgrado a vontade,
funcionava como um amplificador. recordou-se das palavras de seu tio-avô:
Provavelmente, até a queda de uma "... O maior monstro (...) encontra-se
agulha produziria eco. E o som ora dentro de cada um de nós..."
ouvido assemelhava-se ao de algo Tinha de haver alguma explicação.
raspando ou roendo como unhas em um Novamente, o som de algo
tampo de madeira. raspando.
— Que porcaria é essa? Não é Sua origem parecia ser o quarto
nada... nem é tudo. proibido.
E o ruído ora vinha, ora evanescia. Caiu em si.
Mas a imaginação era uma chuva "O quarto!"
fina sobre o solo ressequido: por mais Os olhos arregalaram-se.
que empoçasse e o o sol fizesse evaporar, Estivera tão absorto na bronca do
uma porção sempre se infiltrava, velho, em sua própria raiva e no medo
umedecia, acumulava. deixado pelo filme que pusera de lado o
"Que diacho..." motivo fundamental de tudo aquilo que
A apreensão tomou conta. ocorrera nas últimas horas: a pessoa
Sob a terra ressequida, objetos misteriosa.
moveram-se sem razão, a semelhança de Engoliu em seco.
A Casa da Noite Eterna, e, mesmo de "Quem é?"

[ 70 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

E, sem pedir, um nome aflorou na Tudo o que viu foi parte de uma
ponta de seus lábios, revoluteou. penteadeira e de uma cortina cor-de-rosa
Contudo, foi o pensamento — mais que ia do alto a baixo da parede oposta.
apressado e menos prudente — quem Ficou intrigado. Sua atenção foi chamada
deu-lhe forma e consistência: Simone. menos pelo aspecto acentuadamente
Quem seria essa mulher? feminino do aposento do que a
Por que não aparecera durante as imaculada limpeza que a luminosidade
refeições? dava a entrever. Nenhum outro canto da
Seria uma prisioneira naquela casa, casa era tão limpo, iluminado e
naquele quarto? predominado por cores alegres.
Os sussurros atemorizados sobre o Pôs-se a ouvir, porém, o som
Tio Vampiro teriam fundamento? havia silenciado quando atingira o último
Pensamentos sobre caldeirões e degrau.
crianças em banho-maria retornaram. Reuniu toda a sua coragem e bateu
Agora, plenamente desperto, a porta.
embora a dor de cabeça persistisse, subiu Nada.
os degraus da velha escada em caracol. Bateu outra vez, e, timidamente,
Não que assim o desejasse. Longe disso! chamou:
Preferiria correr para o seu quarto, — Dona Simone?
enfiar-se sob o cobertor e tapar os Nada ainda, exceto pelo ruído que
ouvidos. Todavia, uma força maior retornara.
controlava suas pernas. E ele foi. Roendo.
Milhares de imagens vinham e iam Raspando.
a medida em que avançava. Para Arranhando.
desconcentrar-se delas — e também para Dava nos nervos.
abafar o ruído —, foi enumerando os Então, numa ousadia impensável,
degraus em voz alta: Christopher levou sua mão à maçaneta.
— ... Três, quatro, cinco, seis... Era dourada e redonda feito um ovo de
Parou no vigésimo degrau. ouro achatado. E estava gelada. A
Foi à direita, em direção à porta do carranca de seu tio-avô surgiu furiosa na
quarto misterioso. Dessa vez, contou tela da mente. Apesar do medo, houve
seus passos no corredor. uma certa satisfação em estar
— Um, dois, três... transgredindo à regra. Girou-a devagar.
Parou exatamente no décimo A porta abriu sem ranger,
passo, um número redondo. E torceu revelando maiores detalhes.
para que essa coincidência de ser um Era tudo muito bonito e,
número redondo fosse um sinal de boa conforme ele percebera pelo buraco da
sorte. fechadura, extremamente limpo. Tal qual
"Nunca entre nesse quarto!", veio- o computador e a impressora sob a
lhe a voz trovejante do Tio Vampiro. escada, o aposento destoava da casa, cada
Não, não iria entrar. qual a sua maneira. A luz do sol entrava
Olhar pela buraco da fechadura pela janela — fora da vista do menino —
não era entrar. e iluminava tudo como em nenhuma
E foi o que fez. outra dependência do velho casarão. Era

[ 71 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

quase perceptível o aroma de um finalmente, conseguiu. Puxou-a de volta


perfume, perfume de mulher. e fechou a porta. Rapidamente, mas sem
— Dona Simone? — repetiu, fazer barulho, desceu os degraus, os
pensando consigo nos palavrões que quais davam a impressão de haver
pronunciara. — Oi? dobrado de número.
Nenhuma resposta. Trêmulo e ofegante, cruzou a sala
Nenhum som de respiração ou e praticamente jogou-se sobre o sofá.
passos. Houve o som de uma chave
Nada. girando e a silhueta do velho destacou-se
Não se atreveu a cruzar a soleira, na entrada.
isso não. Farejou o ar feito um cão de caça.
"Nunca entre nesse quarto!" — Ajude-me com as compras —
Tecnicamente falando, o garoto mandou.
permanecia do lado de fora, pés fincados
no corredor.
Esticou o pescoço, mas não 12 - UM BRINDE
conseguiu avistar nada mais significativo,
exceto a ponta de um pé da cama. Um O grosso das mercadorias foi
armário largo ao lado do batente não lhe entregue por um pequeno, caminhão-baú
permitia ver o interior na íntegra. Diante cerca de três horas depois. O entregador,
dele, sobre a penteadeira, havia diversos rapaz dentuço de cabelos espetados, não
frascos coloridos, uma escova percorreu o trecho do portão da entrada
ornamentada e alguns potes fechados. até a varanda, cerca de vinte metros. Em
Pelo reflexo do espelho não conseguiu vez disso, descarregou o engradado na
ver nada além da cortina. calçada, fez o sinal da cruz e foi embora.
— Dona Simone... — insistiu. A fama de casa mal assombrada
Subitamente, o ruído deslocou-se não se limitava aos parentes.
daquele quarto, passou sobre a cabeça de O velho já sabia que ele faria isso,
Christopher e foi para o outro lado. assim, deixara um carrinho de mão nas
Ficou todo arrepiado e, por pouco, proximidades. Christopher ajudou-o a
não perdeu o equilíbrio, caindo para a colocar as coisas no carrinho. Tio
frente, dentro do quarto. Recordou-se da Vampiro achou graça do garoto fazer
conversa do seu tio sobre ratos na menção em levar tudo sozinho,
parede. Devia ter sido isso. Devia ser um limitando-se a declinar o favor. Fez
rato grande e gordo no forro da casa. algumas pausas pelo caminho e, a contar
Nesse instante, escutou um o número delas no decorrer dos anos,
barulho próximo à entrada da casa. tentou mais ou menos avaliar a sua taxa
— Tio Vampiro! — meio que de envelhecimento e quanto anos mais
gritou, apavorado. levaria até não conseguir cumprir o
Esticou-se todo para alcançar a trajeto. Suspirou, conformado.
maçaneta dourada sem colocar um pé Tudo o que podia ser entregue a
além da soleira. Com a outra mão, sua porta era a maneira favorita de Tio
segurou no batente e inclinou-se ao Vampiro fazer as compras, de
máximo. Os dedos roçaram o metal e, preferência ao telefone. Somente se não

[ 72 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

houvesse jeito, como no caso de ir ao fita adesiva que deixara colado no ângulo
banco, ao médico ou comprar inferior da porta tivesse riscado um arco
determinada miudeza que não contasse de circunferência no chão.
com esse serviço, ele apanhava sua
bicicleta e deixava o reduto do sobrado. Desceu.
Todavia, agora tinha de reconhecer: foi Fitou o sobrinho-neto.
ótimo ter saído. Ficar sob o céu azul, Observou-lhe os pés pequenos,
exercitar-se um pouco, contornar o lago agora de chinelo.
por entre as árvores e até manter contato — Eu não entrei no quarto! — foi
com outras pessoas serviram para dizendo o menino na defensiva.
apaziguá-lo. Esbravejara à toa com o Tio Vampiro forçou-se a se
sobrinho-neto, por sentimentos e acalmar.
acontecimentos que só a si diziam Bem, era verdade, não era?
respeito. Todavia, o mal estava feito e, Apesar da contrariedade, a
sobre leite derramado não havia muito fisionomia do idoso atenuou-se.
mais a fazer além de passar um pano — Não, não entrou... Você daria
imundo por cima. um bom advogado, Christopher — falou
Quanto a limpeza da casa, a cada ironicamente.
quinzena aparecia uma senhora para Agora, ao iniciar-se a refeição, Tio
cuidar de tudo, a exceção do quarto Vampiro — não sendo um homem de
misterioso, ao qual o velho lidava pedir desculpas, mais por força do
pessoalmente. Tampouco admitia da isolamento do que por orgulho —
mulher mexer em suas estantes. Isso ergueu seu copo e fez um brinde sem
também ficava a seu critério, embora não mirar o rosto do garoto. Disse-o
fosse tão rigoroso em relação à poeira baixinho, para si ou para alguma
nas prateleiras quanto o era no aposento recordação fugidia:
feminino. — Às profundezas frias de nosso
Felizmente, a diarista só viria após céu íntimo, onde a dor é o carrasco e
a partida do sobrinho-neto. Se uma também o alento.
pessoa estranha na casa o incomodava, O menino não sentia fome,
duas ao mesmo tempo seria uma contudo, fingia prestar atenção a
verdadeira multidão, um suplício. qualquer coisa de interessante entre o
Antes de ir ao centro comercial, o arroz e o feijão. Até um caruncho seria
velho esparramara uma fina camada de bem-vindo. Não entendeu patavina do
pó na entrada do quarto misterioso e um que o velho balbuciara, e nem se
pouco mais para dentro. Não muito, importou. Só ergueu o rosto ante o
apenas o bastante para que ele, deitando pigarro do tio-avô.
sua vista mais rente ao chão, pudesse Então, dispondo da atenção do
perceber as pegadas, caso o garoto viesse jovem, o idoso concluiu:
a desobedecê-lo. Subiu a pretexto de ir — Por mais que o Sol brilhe, em
ao toalete. Sentiu o sangue ferver ao verdade, o céu é frio e escuro.
reparar nas marcas de pés descalços junto E tomou o restante da bebida.
à porta. Não havia rastros do lado de "Céu escuro? O céu é azul!
dentro do aposento, embora o pedaço de Maluco!"

[ 73 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Isso era o mais próximo que o Tio perfeita personificação da criatura,


Vampiro chegaria de um pedido de embora esta pouco tenha a ver com a
perdão, mas de uma frase tão hermética, personagem de Mary Shelley... Ah, mas é
sequer se o sobrinho-neto fosse um igualmente uma obra-prima, um outro
adulto, conseguiria apreender a metáfora olhar.
no seu contexto, tomando-a por uma "Bela", recordou o menino. "De
filosofice barata de quem desejava se novo esse nome de mulher".
fazer passar por intelectual. De repente, o telefone tocou.
Christopher pensou na folha sobre Estridente. Escandaloso. Quem mais no
a escrivaninha, cujas palavras difíceis lera mundo conservaria um antiquado
sem compreendê-las. E a forma curiosa telefone de disco?
de expressar-se. Sim, só podia ser dele. Christopher sobressaltou-se na sua
"Maluco!" cadeira.
O tio-avô prosseguiu: Contrariado, o Tio Vampiro
— Esta noite, vou apresentá-lo a ergueu-se para atender. Logo, voltou-se
dois monstros. para o sobrinho-neto.
Dessa vez, ainda que não quisesse, — É a sua mãe.
o menino escutou. Calafrio. A palavra Foi correndo até o aparelho, perto
"monstro" tinha esse poder. Seu talher da poltrona. Era preto feito um urubu e
caiu sobre o prato num tilintar agudo. pesado como... como qualquer coisa
Involuntariamente, virou a cabeça para pesada.
os lados. — Mãe!
Os olhos fundos fitaram-no — Oi, filhinho, como estão as
divertidos. coisas por aí?
— Dois filmes antigos: Drácula36 e — Bem — mentiu, afinal, o tio-
Frankenstein37. — Viu a inquietação do avô estava próximo e seus ouvidos eram
menino. — Não se preocupe. Não será muito bons. Queria gritar por socorro,
assustador. Pelo menos, eu espero. Nem falar da judiação, rir e chorar. — Está
eu havia nascido quando rodaram os vindo?
filmes. "Rodar o filme", nesta era digital — Não vai demorar. Só queria
será necessário encontrar uma nova saber de você. Se está bem...
expressão... Em sua época, eles fizeram o — Vem logo — implorou. —
público arrepiar-se nos cinemas, Hoje em Estou com saudade.
dia, perto das coisas que se vê, e após — Breve, breve. Seu pai e eu
uma guerra mundial, a Guerra da Coréia, estamos nos entendendo. Vai dar tudo
a Guerra do Vietnã e outras, podem até certo. Tudo será diferente.
provocar um sorriso. Duvida? É verdade! — Vem logo! — repetiu enfático.
Já falei: o maior monstro está dentro de Estrangulava o telefone.
nós. Drácula não será o vampiro de — Paciência! Comprei uma
Saruman, mas o de Bela Lugosi e seu lembrança pra você. Comporte-se. Se
olhar magnético. E Boris Karloff foi a você está bem, então, está tudo bem.
36
Não dê trabalho pro tio Chico. Passe o
37
Tod Browning, 1931. telefone para ele, por favor.
James Whale, 1931.
— Mas, mãe...

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

— Depressa! — E, abafando a voz do teatro e mais próximo deste. Aliás,


do outro lado: — Já estou indo, querido! muitos atores e atrizes migraram dos
Christopher retornou desalentado palcos às telas, inclusive o próprio Bela
para a sua cadeira, enquanto Tio Lugosi. Por sinal, foi no teatro onde ele
Vampiro respondia por monossílabos primeiro encenou o vampiro. Então, os
aos agradecimentos. Pouco depois, sentiu diálogos dos atores eram declamados,
aquela mão comprida pesar em seu exagerados, eloquentes, dramáticos...
ombro. Hoje, pode soar artificial, mas era onde a
— Não se preocupe. Passará alma humana alcançava a sua maior
rápido... para nós dois. Termine de plenitude, e a vida tornava-se mais vívida
comer e venha conhecer meus do que ela própria.
"amigos"... Para alguém tão recluso, o homem
de cabelos ralos dava mostra de haver
represado muito de si. Existia uma ânsia
13 - A ESSÊNCIA DOS MONSTROS por extravasar, libertar-se de masmorras
enferrujadas, num castelo no topo da
Christopher, apesar de alguns montanha do seu ser. E, entre a bruma
sustos, reconheceu que, afinal de contas, de seus monstros particulares, o
o maluco tinha razão. Drácula e prisioneiro no ocaso da vida gritava.
Frankenstein foram bem menos Quanto a Frankenstein, a cena
assustadores do que o filme da noite favorita do velho era aquela em que a
anterior. Certamente porque o terror criatura surgia na íntegra pela primeira
retratado possuía uma forma física, vez. Aparecia de costas e virava-se
palpável, enquanto que, em A Casa da lentamente, dando ao público a primeira
Noite Eterna, era o desconhecido oportunidade de vislumbrar seu
destilado no pavor puro, a espreita na semblante: o rosto cadavérico, a testa
penumbra, de lugar algum e em qualquer alta, o topo plano de sua cabeça e,
parte. principalmente, o olhar: absolutamente
E, ainda, o tio-avô procurou fazer vazio, destituído de vida. Era enorme e
comentários, distraindo e explicando ameaçador, embora letárgico. Sua
certas passagens. primeira mostra de consciência foi
Gradualmente, o temor do garoto, quando, exposto à luz externa, ergueu
bem como sua mágoa, passaram para um ambas as mãos para o alto, desejando
segundo plano. Em dado momento, alcançar aquela metáfora da liberdade e
observando o desenrolar do filme, da vida.
comentou: — Dispa essas personagens de
— Parece um teatro. seus aspectos aterrorizantes: a capa preta,
Tio Vampiro admirou-se. a força descomunal, as feições malévolas,
— Você conhece o teatro? os terminais no pescoço, os grunhidos. O
— Na escola tem... Eu detesto que você encontrará, Christopher?
fazer. O garoto receou responder. De
— Entendo... É exatamente isso, qualquer modo, tinha certeza de que o
Christopher, teatro! Naquele tempo, o tio-avô, em seu monólogo libertador, o
cinema ainda era jovem, o irmão caçula faria. Estava certo.

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

— Solidão, filho. É isso o que 14 - SIMONE


restará: alguém sem ninguém no mundo,
isolado da humanidade e de humanidade, Quantas pessoas no mundo viviam
escondido na escuridão, porém, no a falar e falar tantas coisas para dizer tão
fundo, desejando ver-se compreendido e pouco? Se espremer o sumo das milhares
livre de sua sina. de palavras, seria possível extrair ao
"Filho?" menos algumas gotas? Como poder-se-ia
Essa foi a maior revelação para saciar qualquer sede dessa forma?
Christopher e um sentimento que, Foi na manhã seguinte, outra vez
guardadas as devidas proporções, ele na varanda, entre o sanduiche de
podia se identificar. Nunca pensara nos mortadela e o café com leite, que o Tio
monstros nesses termos. Até então, eram Vampiro, inesperadamente, quebrou o
apenas o estereótipo de criaturas silêncio.
sanguinárias, sem personalidade, meras Menos de dez palavras.
personificações da maldade. Vinham para — Ela se chamava Simone... E eu
assustar as crianças e só serviam para a amava.
serem abatidas no final pelo mocinho E quanto elas revelavam ou
bem apessoado que, de resto, culminaria poderiam revelar nas entrelinhas do
com a mocinha em seus braços. Até o silêncio?
lobisomem e a múmia poderiam ser Sua visão estava perdida em um
vistas sob essa nova óptica revelada pelo ponto distante, em meio às águas
tio-avô, o lado melancólico, trágico e sombrias do lago abaixo.
infeliz de ser um monstro. O vento soprava rasteiro,
Mirou o velho, o qual encontrava- distorcendo o reflexo das nuvens e das
se ainda atento à televisão. árvores; perfeita metáfora às recordações
"Filho." que, dos recantos escuros da alma,
Até o tio-avô podia ser visto emergiam trêmulos e nebulosos. Imagens
assim. Esse "monstro" de sobretudo de um outro tempo e uma outra vida.
puído, isolado em sua pequena fortaleza — Era para ela ser a sua tia-avó.
vitoriana, temido, evitado. Porém, no Christopher enrubesceu. Era algo
fundo, almejando alguém que o ouvisse, tão íntimo e tão adulto. Como reagir
a quem pudesse compartilhar seu mundo, perante uma pessoa velha falando de
suas aspirações, suas rabujices e amor? Velhos amavam? Velhos se abriam
desilusões. para crianças sobre seus sentimentos? E,
Christopher, meio a contragosto, oras, velhos foram jovens um dia? Ainda
viu-se apiedado do parente. E morreu de era um pensamento difícil de assimilar,
dó ao ver a criatura de Frankenstein ser tão incompreensível quanto a noção de
devorada pelas chamas, enquanto, a que ele próprio um dia o seria. Fosse
redor, a turba alucinada brandia suas como fosse, não se encontrava em
armas. absoluto a vontade em ouvir o tio-avô
"... O maior monstro (...) tocar nesse assunto. Ademais, fazia-o
encontra-se dentro de cada um de nós..." lembrar-se da bronca e de sua xeretice no
Era verdade. quarto proibido.

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Todavia, o Tio Vampiro foi em tornou-se mais lívido, fazendo destacar


frente: as veias azuis em suas têmporas. Mas, se
— Lá em cima, eu preparei o ela havia morrido, com quem ele
quarto que seria nosso. Pretendíamo-nos conversara no quarto? Quis tocar no
casar. — Fez uma pausa, desviando seus assunto. Não se atreveu. Já ouvira sua
olhos do lago para o céu azul, manchado mãe falar a um ursinho de pelúcia que ela
de branco e cinza. — Contudo, ela foi ganhara no tempo de namoro. E até
levada embora. Um tipo de monstro respondera por ele. Talvez fosse algo
roubou-a de mim. semelhante. Ele próprio não tinha lá suas
Christopher imaginou alguma discussões com seus robôs de brinquedo?
doença tal qual a afligir a vovó, mas não Ainda assim...
teve coragem de perguntar e, na verdade, Tio Vampiro concluiu seu
sentia-se tão acanhado diante daquela devaneio:
confidência que, francamente, preferiria — Seja qual for o desejo, creio que
que o tio-avô mudasse de assunto. Orou não se concretizou.
até. Limpou a mão das migalhas, sem
A prece não foi atendida. se importar com a sujeira no chão.
— Para mim, ela representava o O silêncio caiu feito uma mortalha
que havia de melhor e mais puro no até o ponto de tornar-se incômodo e o
mundo. Foi a minha primeira paixão, a menor dos ruídos fosse perceptível. No
primeira namorada. É complicado para entanto, tudo o que houve naqueles
você entender isso agora. Chegará o instantes foi o vento a soprar nas orelhas.
tempo e, espero, será feliz. No meu caso, Christopher deu uma mordida
isso nunca mais se repetiu. Os cabelos nervosa em seu sanduiche e, de boca
dela eram pretos, lisos e muito lustrosos. cheia, disse:
Quase alcançavam a cintura. O sorriso — Gostei dos filmes.
era o desabrochar de uma rosa. Ele queria mudar o rumo da prosa
Costumávamos fazer longos passeios ao — ou melhor, do monólogo — a
redor daquele lago. — Fez uma pausa, qualquer custo, mas não foi de todo
engolindo em seco. — Não havia tantas insincero. Sentiu-se surpreso ao admiti-
árvores ao redor na época. Tinha lo. Contudo, agora dotado de um novo
algumas cabanas de madeira e um pier entendimento, concluiu ser verdade.
onde nos sentávamos, roçando os pés na Apreciara Drácula e Frankenstein. Ainda
água para irritação dos pescadores. Às faltava ver Saruman — ou melhor,
vezes, ela atirava uma moeda e fazia um Christopher Lee — no papel do senhor
pedido. Eu sempre perguntava que dos vampiros, mas não teve coragem de
pedido era esse. E ela respondia ser um pedir.
segredo e, se revelasse, ele não se O Tio Vampiro suspirou,
realizaria. emergindo lentamente das águas fundas
O idoso ficou cabisbaixo. de suas memórias.
Christopher observou o velho — Em seu tempo causaram furor.
espremer o resto de pão em sua mão até Até hoje são lembrados. Muita gente
os nós dos dedos ficarem mais brancos sentiu medo, porém, isso foi alguns anos
do que já eram. O rosto comprido antes da Segunda Guerra Mundial.

[ 77 ]
REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Durante a guerra, monstruosidades traindo os meus amigos, depois,


incomparavalmente piores revelaram-se. consolei-me com o fato de que talvez,
A crueldade, a destruição e o horror assim, eles tenham revelado ao mundo
foram de tal magnitude que, perto deles, não serem tão pavorosos em comparação
Drácula e Frankenstein não passavam de àquilo que a humanidade podia fazer.
contos de fada. Conforme falei, o maior Ademais, o próprio Bela Lugosi
monstro... participou do filme. Ele! Mais tarde,
— Está dentro de nós — convenci-me de ter sido uma
completou o garoto. homenagem carinhosa aos velhos
— Isso. Talvez não por acaso, monstros do cinema, meus amigos.
poucos anos depois do fim da guerra, Assim, reencontrei a paz.
uma dupla de comediantes estrelou o Christopher sorriu também. E
filme Abbott e Costello Encontram ficou curioso.
Frankenstein38. Foi o princípio da Tio Vampiro pareceu ter telepatia
desmoralização e banalização dessas e e passou na frente.
outras criaturas. Uma uma série de filmes — Gostaria de assisti-lo?
ingleses procurou levar o horror adiante, O garoto animou-se. Seria ótimo
com o "seu" Saruman principalmente. dar umas risadas.
Mas, nos Estados Unidos o tema virou — Claro!
piada, substituído por foguetes, monstros — Então, termine o seu lanche e
radioativos e invasões alienígenas, as deixemos os assuntos tristes do passado
personificações do horrores onde devem ficar. Vamos trazer um
contemporâneos. pouco de luz às sombras dentro de casa.
O tio-avô fez um momento de Oh, talvez goste de alguns episódios de
silêncio, contudo, logo acrescentou: Os Monstros39, Gasparzinho40 e Monstros
— Você quer saber o mais Camaradas41.
terrível? — Gasparzinho eu conheço!
— O quê, tio? Sim, realmente, parecia que a luz
Pela segunda vez, o velho sorriu, retornara àquela casa.
embora fosse um sorriso triste. .
— Eu gostei desse filme, dos
39
humoristas. A princípio, senti estar 40
The Munsters, CBS, 1964/1966.
Casper the Friendly Ghost.
38 41
Abbott and Costello Meet Frankenstein, Charles Barton, 1948. Groovie Goolies, CBS, 1970/1972.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

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REVISTA CONEXÃO LITERATURA – Nº 46

Roberto Schima:

Eu colecionava os gibis de terror da Ed. Taika. Ganhei "Frankenstein", de Mary


Shelley, aos treze anos. Deliciava-me com o sinistro Drácula de Nico Rosso e o galante
Lobisomem de Sérgio Lima. Assistia aos filmes da Hammer, tendo Christopher Lee e
Peter Cushing por ídolos. E lia pelos cantos as edições de bolso da série Trevo Negro,
escritas pelo legendário R. F. Lucchetti. Desenhei diversos monstros que pintava com
giz de cera. Apavorei-me com o episódio "O Monstro Invisível", de Jonny Quest. Mais
tarde, li os gibis da série "Kripta"... Ah, sim, fui um garoto que amava os monstros.
Apavoravam-me, mas eram meus amigos.
Participo da revista "Conexão Literatura" desde sua edição nº 37.
Maiores informações: Google, Clube de Autores, agBook, Amazon ou nos links
abaixo:
http://www.efuturo.com.br/pagina_textos_autor.php?id=671
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Wey1sltSzIV
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Contato: rschima@bol.com.br.

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