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FUNDAMENTOS DE ELETROQUÍMICA

A eletroquímica é o ramo da química que trabalha com o uso de reações químicas


espontâneas para produzir eletricidade e com o uso da eletricidade para forçar as
reações químicas não espontâneas a acontecerem. Em resumo, é a parte da química
que estuda a relação entre a corrente elétrica e o fluxo de cargas que ocorre nas
reações de óxido redução.

1. CARACTERIZANDO AS REAÇÕES DE ÓXIDO REDUÇÃO

Em uma reação de óxido redução, também conhecidas como reações de REDOX, os


elétrons são transferidos de um reagente para outro. Um exemplo é a oxidação de
íons ferro (II) por íons cério (IV), mostrada a seguir:

Ce4+ + Fe2+ Ce3+ + Fe3+

Nesta reação podemos observar dois tipos importantes de compostos. Os chamados


agentes oxidantes, que possuem grande afinidade pelos elétrons e irão recebê-los.
Nesta reação, o agente oxidante é o Ce4+. O outro tipo são os chamados agentes
redutores, pois são eles que reduzem o outro reagente. Neste caso, o agente redutor é
o Fe2+, que doa facilmente seus elétrons. Sendo assim, dizemos que o Ce 4+ foi
reduzido pelo Fe2+ ou que o Fe2+ foi oxidado pelo Ce4+.

Lembre-se: o agente oxidante sofre redução e o agente redutor sofre oxidação.

Para observar o comportamento de cada um dos íons presentes, podemos escrever a


reação anterior em duas semireações, onde os elétrons também estão presentes.

Ce4+ + e- Ce3+ (redução do Ce4+)

Fe2+ Fe3+ + e- (oxidação do Fe2+)

Lembre-se: uma semi reação só existe se outra semi reação, complementar também
existir, ou seja, um composto só doará elétrons se existir outro para recebê-los.

O balanceamento de reações de oxirredução é feito de forma que, além de todos os


elementos estarem em quantidades iguais de ambos os lados, a somatória de cargas
é, também, igual para ambos os lados.

Todo composto tem um nox ou estado de oxidação. Este é fixo para alguns e variável
para outros, mas em geral pode-se dizer que:

 Íons de metais alcalinos (Li, Na, K, Rb, Cs e Fr), íon hidrogênio e íon prata
possuem nox +1;
 Íons de metais alcalino terrosos (Be, Mg, Ca, Sr, Ba e Ra) e íon zinco possuem
nox +2;
 Íons de halogênios (F, Cl, Br, I e At) possuem nox -1;
 O íon oxigênio possui, geralmente, nox -2;
 Moléculas possuem nox igual a zero, ou seja, a soma das cargas (ou nox) dos
compostos que a formam deve ser igual a zero (como no KMnO4 onde a soma
dos nox é +1+7+(4x(-2)) = 0);
 Íons formados por mais de um elemento devem ter a soma dos nox de seus
constituintes igual a sua carga (como no íon sulfato SO42- onde a soma dos nox
é +6+(4x(-2)) = -2).

Uma forma de representar o estado de oxidação de um elemento é escrever o símbolo


do elemento seguindo, entre parênteses, do número de oxidação em algarismos
romanos, como para o íon Ce+4 → Ce (IV).

2. BALANCEAMENTO DE REAÇÕES REDOX

Para balancear uma reação a quantidade de matéria que reage deve ser a quantidade
final de matéria formada, ou seja, a mesma quantidade de um elemento que reage
deve aparecer no produto sob forma de algum composto. No caso de reações redox
essa mesma regra ainda é válida, mas como se tratam de reações de transferência de
cargas é preciso balancear as cargas também. Assim, a mesma quantidade de carga
dos reagentes deve aparecer nos produtos. Isso quer dizer que a mesma quantidade
de elétrons recebidos por um composto (composto que reduz) deve ser doada por
outro (composto que oxida).

As regras para balancear uma reação redox são estabelecidas de acordo com o pH do
meio onde ocorre a reação.

Vamos usar como exemplo de reação em meio aquoso ácido a oxidação do ácido
oxálico (H2C2O4) a dióxido de carbono (CO2) pelo íon permanganato (MnO4-),
produzindo íons Mn(II).

 Etapa 1. Encontrar o nox dos agentes oxidante e agentes redutores

Agente oxidante → MnO4- Mn(VII) irá reduzir a Mn(II)

Agente redutor → H2C2O4 C(III) irá oxidar a C(IV)

 Etapa 2. Escrever as semi reações de oxidação e redução balanceando os


componentes que sofrem oxidação e redução (neste caso o carbono e o
manganês, respectivamente), sem balancear os oxigênios e hidrogênios (se
eles estiverem presentes)

Oxidação: H2C2O4(aq) → 2CO2(g) + 2e-

Redução: MnO4-(aq) + 5e- → Mn2+(aq)

 Etapa 3. Balancear os elétrons de ambas as semi reações para que eles


possam ser cancelados e somá-las para obter uma reação global não
balanceada

Oxidação: H2C2O4(aq) → 2CO2(g) + 2e- (x5)

Redução: MnO4-(aq) + 5e- → Mn2+(aq) (x2)


Global não balanceada: 2 MnO4-(aq) + 5 H2C2O4(aq) → 10 CO2(g) + 2 Mn2+(aq)

 Etapa 4. Balancear os átomos de oxigênio com moléculas de água

2 MnO4-(aq) + 5 H2C2O4(aq) → 10 CO2(g) + 2 Mn2+(aq) + 8H2O(l)

 Etapa 5. Balancear os átomos de hidrogênio com íons H+

2 MnO4-(aq) + 5 H2C2O4(aq) + 6H+(aq) → 10 CO2(g) + 2 Mn2+(aq) + 8H2O(l)

Em meio básico as etapas de 1 a 4 são iguais, porém a etapa 5 sofre alterações.


Vamos usar como exemplo em meio aquoso básico a reação dos íons brometo (Br -) e
permanganato (MnO4-) formando óxido de manganês (IV) sólido (MnO2) e íons
bromato (BrO3-).

 Etapa 1.

Agente oxidante → MnO4- Mn(VII) irá reduzir a Mn(IV)

Agente redutor → Br - Br(-I) irá oxidar a Br(V)

 Etapa 2.

Oxidação: Br -(aq) → BrO3-(aq) + 6e-

Redução: MnO4-(aq) + 3e- → MnO2 (s)

 Etapa 3.

Oxidação: Br -(aq) → BrO3-(aq) + 6e- (x1)

Redução: MnO4-(aq) + 3e- → MnO2 (s) (x2)

Global não balanceada: 2 MnO4-(aq) + Br -(aq) → BrO3-(aq) + 2 MnO2 (s)

 Etapa 4.

2 MnO4-(aq) + Br -(aq) → BrO3-(aq) + 2 MnO2 (s) + H2O(l)

 Etapa 5. Esta etapa se difere da reação em meio ácido por não usar íons H+
para balancear os hidrogênios. Como a reação é em meio ácido utiliza-se H2O
e íons OH- para balancear os hidrogênios. Cada hidrogênio a ser balanceado
vai ter uma molécula de água adicionada no outro lado da reação e um íons
OH- adicionado do seu lado da reação. Na reação acima temos que balancear
2 hidrogênios que estão no produto. De acordo com a regra descrita nesta
etapa vamos adicionar 2 moléculas de água nos reagentes e 2 íons OH- no
produto, assim balanceamos os hidrogênios e deixamos o meio básico.

2 MnO4-(aq) + Br -(aq) + 2 H2O(l) → BrO3-(aq) + 2 MnO2 (s) + H2O(l) + 2 OH-(aq)

2 MnO4-(aq) + Br -(aq) + H2O(l) → BrO3-(aq) + 2 MnO2 (s) + 2 OH-(aq)


3. DIFERENÇA DE POTENCIAL E CORRENTE ELÉTRICA

Se medirmos a diferença de potencial entre dois polos de uma pilha ou bateria


podemos perceber que o polo positivo apresenta um potencial elétrico maior que o
polo negativo.

Para uma corrente elétrica percorrer um circuito, ele deve estar fechado. A corrente
elétrica é definida como o fluxo ordenado de cargas elétricas.

Quando um condutor elétrico é usado para conectar dois pontos entre os quais há
uma diferença de potencial, ocorre a geração de um fluxo de elétrons pelo condutor,
ou seja, há geração de corrente elétrica. Caso não haja diferença de potencial entre
dois pontos ou o circuito esteja aberto, não há geração de corrente elétrica.

Foi descoberto que o fluxo de elétrons ocorre do polo de menor potencial para o de
maior potencial, ou seja, há um fluxo ordenado de elétrons do polo negativo para o
positivo. Porém, o que provoca esse fluxo de elétrons? Por que, em uma pilha ou
bateria, após certo tempo cessa-se este fluxo de elétrons?

4. CÉLULAS ELETROQUÍMICAS

A eletroquímica é a parte da química que estuda a relação entre a corrente elétrica e o


fluxo de cargas que ocorre nas reações de óxido redução.

Há dois casos de interesse na eletroquímica: o emprego controlado de reações


espontâneas de óxido redução na geração de corrente elétrica (células galvânicas) e o
emprego de corrente elétrica gerada por uma fonte externa para forçar a ocorrência de
uma reação não espontânea de óxido redução, que é de interesse prático (células
eletrolíticas). Uma reação não espontânea de óxido redução que ocorre de modo
forçado recebe o nome de eletrólise. As pilhas e baterias são exemplos de células
galvânicas.

4.1. Células Galvânicas

Resultados experimentais mostram que entre placas de diferentes metais que se


encontram em um meio aquoso onde existem íons dissolvidos, se estabelece uma
diferença de potencial.

Um modo simples de explicar as células galvânicas é através da pilha de Daniell.


Sabe-se que a reação de óxido redução entre o zinco metálico e o íon Cu2+ é
espontânea, sendo o zinco o agente redutor (oxida) e o cobre o agente oxidante
(reduz).

Zn(s) + Cu2+(aq) → Cu(s) + Zn2+(aq)


NOX 0 +2 0 +2

O zinco transfere elétrons para o cobre. Se essa transferência de elétrons puder ser
feita a partir de um fio condutor, em um circuito fechado, pode-se gerar corrente
elétrica (fluxo ordenado de cargas). Se o zinco transfere elétrons para o cobre, o zinco
é o polo negativo e o cobre é o polo positivo, ou seja, onde o agente redutor está é o
polo negativo e onde o agente oxidante está é o polo positivo.

Assim, com o passar do tempo percebe-se que a quantidade de íons zinco em solução
aumenta; a quantidade de íons cobre em solução diminui; há deposição de cobre na
placa metálica e há corrosão da placa de zinco metálico.
A ponte salina é responsável por provocar o fluxo de íons entre as soluções e, assim,
fechar o circuito, provocando a passagem da corrente elétrica. Dentro da ponte há
uma solução concentrada de um sal que não interfira no processo eletroquímico (como
KCl, por exemplo). Esta solução juntamente com as soluções salinas de ambos os
frascos formam outro condutor, que desta vez conduz íons e não elétrons. Como a
corrente elétrica é formada por um fluxo ordenado de cargas, tanto o fluxo de elétrons,
quanto o fluxo de íons contribuem para a sua geração.

O fluxo de íons é necessário para que o fluxo de elétrons continue a existir, uma vez
que o acúmulo de cargas positivas na solução de zinco poderia impedir que os
elétrons deixassem a placa de zinco metálico devido à atração entre as cargas
opostas, o que cessaria o fluxo de elétrons. Porém, com a presença da ponte salina,
os cátions presentes em seu interior migram para a solução com excesso de ânions
(cátodo) e uma pequena quantidade de cátions do cátodo migra para dentro da ponte,
balanceando as cargas. De maneira análoga, no ânodo, os ânions da ponte salina
migram para a solução com excesso de cátions e os alguns ânions migram para
dentro da ponte, balanceando as cargas.

Caso os eletrodos estivessem ambos imersos na mesma solução contendo íons Cu2+
e Zn2+, não haveria corrente elétrica apreciável, pois o íon Cu(II) poderia entrar em
contado com a placa de Zn e se depositar nela após a transferência de elétrons, não
permitindo que os elétrons se deslocassem até a placa de Cu, acabando com o fluxo
de cargas.

4.2. Nomenclatura dos eletrodos e representação esquemática para uma


célula galvânica

O eletrodo de uma célula galvânica é a barra metálica imersa nas soluções de


eletrólitos, mas pode ser considerado como a semicélula de reação. O eletrodo onde
ocorre oxidação é denominada ânodo e onde ocorre redução, cátodo.

A representação esquemática de uma célula galvânica é feita através de uma


proposição da IUPAC, que é a notação de barras.

| fronteira entre fases diferentes || ponte salina

Os eletrodos são escritos na extrema direita e extrema esquerda, conforme mostrado


a seguir. Do lado esquerdo é representada a semicélula onde ocorre oxidação (ânodo)
e do lado direito a semicélula onde ocorre redução (cátodo).

Zn(s) | ZnSO4(aq) || CuSO4(aq) | Cu(s)

Zn(s) | Zn2+ (aq) || Cu2+(aq) | Cu(s)

4.3. Potencial padrão de uma semicélula

A diferença de potencial medida entre duas semicélulas indica quanto trabalho os


elétrons podem realizar ao se deslocarem de um lado para o outro. Essa diferença de
potencial quando medida em condições onde não haja geração de corrente é
chamada de ΔE.
Essa diferença de potencial medida nas condições padrão (25ºC, 100kPa e [íon] =
1mol/L) é chamada de diferença de potencial padrão (ΔEº). Como o fluxo de elétrons
ocorre do polo de menor potencial para o de maior potencial, sabemos que o potencial
do cátodo é maior que o do ânodo, assim:

ΔEº = Eºcátodo – Eºânodo

Como não é possível quantificar o valor dos potenciais separados, escolheu-se, em


eletroquímica, um eletrodo padrão, cujo potencia padrão é 0 V, quer ele esteja no
cátodo, quer ele esteja no ânodo. Este eletrodo é o eletrodo de hidrogênio.

O eletrodo padrão de hidrogênio é constituído de uma barra de platina, que serve


como condutor de elétrons e como recipiente do gás H2 adsorvido em sua superfície, e
uma solução ácida contendo íons H+. Caso o eletrodo funcione como cátodo, a reação
é de redução do H+ a H2, caso ele funcione como ânodo, oxidação o H2 a H+.

Por convenção, os valores tabelados de potencial padrão são expressos em termos de


potencial padrão de redução, ou seja, usando o EPH como ânodo e o eletrodo de
interesse como cátodo. Assim, ele expressa a tendência do eletrodo a receber
elétrons, ou seja, a ser reduzido.

Assim, quando o valor medido para Eºred for positivo, o eletrodo tem tendência a ser
reduzido.

Exemplos

Pt(s) | H2(g) | H+(aq) || Ag+(aq) | Ag(s) Eº Ag+ / Ag0 = +0,80V

Pt(s) | H2(g) | H+(aq) || Cu2+(aq) | Cu(s) Eº Cu2+ / Cu0 = +0,34V

Quando o valor medido para Eºred for negativo, o eletrodo tem tendência a ser oxidado.

Exemplo

Pt(s) | H2(g) | H+(aq) || Zn2+(aq) | Zn(s) Eº Zn2+ / Zn0 = -0,76V

Quanto maior o potencial padrão de redução, maior a tendência do eletrodo a ser


reduzido. Mesmo eletrodos com potencial padrão de redução negativos podem ser
reduzidos dependendo do outro eletrodo a que estará associado.

Com os potenciais padrão de redução, é possível prever a diferença de potencial de


uma célula galvânica.

4.4. Espontaneidade de uma reação de óxido redução

A espontaneidade de uma reação de óxido redução vai depender do valor da diferença


de potencial entre os eletrodos. Caso esse valor seja positivo a reação é espontânea,
caso seja negativo a reação é não espontânea. Isso porque os elétrons devem ser
transferidos da espécie de menor potencial para a de maior potencial.

Caso um eletrodo com um potencial de redução alto seja colocado no ânodo, sua
tendência é não liberar elétrons ao outro eletrodo de menor potencial de redução no
cátodo, pois a ele é favorável a redução e não a oxidação. Assim, a reação não ocorre
espontaneamente.

Prever se uma reação de óxido redução é espontânea permite que seja possível
prever algumas reações indesejáveis, como a corrosão de metais, e tomar
providências para evita-las.

Exemplo

Por meio dos potenciais padrão de redução das semicélulas de Cu2+ / Cu0 que é
+0,34V e de Fe2+ / Fe0 que é -0,44V podemos prever que o ferro tem tendência a
sofrer corrosão pelo cobre, mas não o contrário.

4.5. Células eletrolíticas

Nestas células ocorre uma reação de óxido redução graças a passagem de corrente
elétrica. Esse fenômeno é denominado eletrólise. A passagem de corrente pode ser
feita através de um composto iônico fundido – eletrólise ígnea – ou através de uma
solução aquosa – eletrólise aquosa. O arranjo destas células é diferente do arranjo
das células galvânicas. Nessas os dois eletrodos estão no mesmo compartimento, só
existe um tipo de eletrólito e as concentrações e pressões estão longe das condições
padrão. A corrente é estabelecida pelo fluxo de íons que ocorre na solução eletrólita.

Assim como nas células galvânicas, no ânodo ocorre oxidação e no cátodo ocorre
redução. O eletrodo positivo recebe os elétrons e o eletrodo negativo doa os elétrons.
A diferença é que os ânions presente em solução vão doar os elétrons e os cátions em
solução vão recebê-los. Esses elétrons vão ser transmitidos a partir de dois eletrodos
de um metal inerte, como a platina.

Os elétrons dos ânions passam para o eletrodo do ânodo, que, por receber elétrons,
passa a ser o polo positivo. Os elétrons que chegam ao eletrodo do cátodo saem dele
e passam aos cátions em solução, por isso ele é o polo negativo. Assim:

Célula eletrolítica Célula galvânica


Doa elétrons Recebe elétrons
Cátodo Polo - Polo +
Redução Redução
Ganha elétrons Doa elétrons
Ânodo Polo + Polo -
Oxidação Oxidação

Para forçar a reação não espontânea a acontecer, a fonte externa deve gerar uma
diferença de potencial maior que a diferença de potencial que seria produzida pela
reação espontânea. Assim, para forçar a decomposição da água em gás oxigênio e
gás hidrogênio deve-se fornecer um potencial, pelo menos, maior que 1,23V. Na
prática, a diferença de potencial aplicada tem que ser significantemente maior que a
do potencial da célula. Essa diferença de potencial adicional é chamada de
sobrepotencial e este depende do eletrodo utilizado e dos compostos envolvidos nas
reações. No caso do eletrodo de platina, o sobrepotencial aplicado para decompor a
água é de 0,6V.
4.5.1. Eletrólise ígnea

Um par de eletrodos inertes (platina, por exemplo) é mergulhado em NaCl fundido. O


NaCl se liquefaz (funde) em 800ºC, sendo assim, a célula opera acima desta
temperatura. Nos eletrodos está ligada uma bateria que tem a finalidade de bombear
elétrons para fora do ânodo e para dentro do cátodo. Os íons cloreto com sua carga
negativa são atraídos pelo ânodo, onde perdem um elétron e se juntam dois a dois
para formar o gás cloro:

2 Cl-(fund) → Cl2(g) + 2e-

Esta é a semi reação que ocorre no ânodo.

Os íons sódio, carregados positivamente, são atraídos pelo cátodo, onde cada um
recebe um elétron:

Na+(fund) + e- → Na(l)

Como o ponto de fusão do sódio é 98ºC ele permanece liquido. Além disso, por ser
menos denso, ele se concentra na superfície. A figura a seguir ilustra este processo de
eletrólise.

À medida que os íons Cl- são removidos na forma de cloro gasoso, outros íons Cl- se
movem em direção a este eletrodo e tomam o lugar dos primeiros. Semelhantemente,
a remoção dos íons Na+ no cátodo acarreta a movimentação de outros íons Na+ para
este eletrodo. A migração contínua de íons para os eletrodos é denominada corrente
iônica e deve ser distinguida da corrente eletrônica, que se da nos condutores
metálicos. Nesta todas as partículas em movimento (elétrons) transportam uma carga
negativa e se movimentam no mesmo sentido. O movimento dos íons ocorre de tal
maneira que não se acumulam cargas positivas ou negativas em nenhuma região da
fase liquida. Diz-se então que a eletroneutralidade é sempre mantida.

Ela recebe o nome de eletrólise ígnea pelo fato de que o material está fundido, não há
presença de água e sua temperatura de operação é muito elevada.

4.5.2. Eletrólise aquosa

Neste caso, a solução presente possui NaCl dissolvido (1 molar), ao invés de NaCl
puro fundido. Como existem muitas espécies presentes, as reações que podem
ocorrer no ânodo e cátodo são diversas. No ânodo pode ocorrer:

2 Cl-(aq) → Cl2(g) + 2e-


2 H2O(l) → O2(g) + 4 H+(aq) + 4e-
4 OH-(aq) → O2(g) + 2 H2O(l) + 4e-

No cátodo:
Na+(aq) + e- → Na(s)
2 H2O(l) + 2e- → H2(g) + 2 OH-(aq)
2 H+(aq) + 2e- → H2(g)

No caso de eletrólise aquosa é necessário saber qual a espécie será oxidada /


reduzida. Isso é feito analisando os potenciais de redução / oxidação dos compostos e
o sobrepotencial.

Exemplo

No ânodo: O2(g) + 4 H+(aq) + 4e- → 2 H2O(l) E0 = +1,23V


Cl2(g) + 2e- → 2 Cl-(aq) E0 = +1,36V

No cátodo: Na+(aq) + e- → Na(s) E0 = - 2,71V


2 H2O(l) + 2e- → H2(g) + 2 OH-(aq) E0 = - 0,83V

Para que a reação no ânodo seja de oxidação, o potencial total requerido para oxidar o
oxigênio é menor que o requerido para oxidar o cloro. Na prática, há liberação de gás
cloro porque o sobrepotencial para oxidar o oxigênio é muito mais alto que o
sobrepotencial para oxidar o cloro. Como a diferença de potencial entre as duas
reduções é baixa, a diferença de potencial gerada na célula é o suficiente apenas para
oxidar o cloro. A reação que ocorre é a liberação de cloro. Já no cátodo, o potencial
para reduzir o sódio é muito maior que para reduzir o hidrogênio. O resultado é a
redução do hidrogênio.

No ânodo há liberação de gás cloro, por isso a reação que ocorre é:

2 Cl-(aq)  Cl2(g) + 2e-

No cátodo, há liberação de gás hidrogênio, o que nos leva a duas equações: H2O ou
H+ é reduzido. Entretanto, a concentração de H2O é muito maior do que a de H+ (cerca
de 560 milhões de vezes maior), portanto a reação catódica é:
2 H2O(l) + 2e- → H2(g) + 2 OH-(aq)

Sendo assim, a reação global é:

Ânodo: 2 Cl-(aq) → Cl2(g) + 2e-


Cátodo: 2 H2O(l) + 2e- → H2(g) + 2 OH-(aq)____________________
Total: 2 H2O(l) + 2 Cl-(aq) → H2(g) + Cl2(g) + 2 OH-(aq)

O esquema desta eletrolise é mostrado na figura a seguir.

No cátodo, o hidrogênio tende a ser reduzido mais facilmente que os cátions de metais
alcalinos, alcalino terrosos e o alumínio. Os demais cátions tem maior tendência a
serem reduzidos que o hidrogênio. No ânodo, o oxigênio tem maior tendência a ser
oxidado que ânions oxigenados (exceto o HSO4-) e o fluoreto. Os demais ânions tem
maior tendência à oxidação que o oxigênio. Os íons OH- e H+ têm prioridade de
oxidação e redução, respectivamente, sobre a água. Porém, quando o pH é 7, a
concentração de água é muito maior que a destes íons e a água se torna prioridade.
EXERCÍCIOS DE ELETROQUÍMICA

Equações Redox

1. A seguinte reação redox é usada, em meio ácido, no “bafômetro” para determinar o


nível do álcool no sangue:

H+(aq) + Cr2O72-(aq) + C2H5OH(aq) → Cr3+(aq) + C2H4O(aq) + H2O(l)

(a) Identifique os elementos que mudam de estado de oxidação e indique os números


de oxidação inicial e final desses elementos.
(b) Escreva e balanceie a semi reação de oxidação.
(c) Escreva e balanceie a semi reação de redução.
(d) Combine as semi reações para obter a equação redox balanceada.

2. Balanceie as seguintes equações esquemáticas, usando as semi reações de


oxidação e redução. Todas as reações ocorrem em solução ácida. Identifique o agente
oxidante e o agente redutor de cada reação.

(a) Cl2(g) + S2O32-(aq) → Cl-(aq) + SO42-(aq)


(b) MnO4-(aq) + H2SO3(aq) → Mn2+(aq) + HSO4-(aq)
(c) H2S(aq) + Cl2(g) → S(s) + Cl-(aq)
(d) Cl2(aq)  HClO(aq) + Cl-(aq)

3. Balanceie as seguintes equações esquemáticas, usando as semi reações de


oxidação e redução. Todas as reações ocorrem em solução básica. Identifique o
agente oxidante e o agente redutor de cada reação.

(a) O3(aq) + Br-(aq) → O2(g) + BrO3-(aq)


(b) Br2(l) → BrO3- (aq) + Br-(aq)
(c) Cr3+(aq) + MnO2(s) → Mn2+(aq) + CrO42-(aq)
(d) P4(s) → H2PO2-(aq) + PH3(g)

4. O composto P4S3 é oxidado por íons nitrato (NO3-) em solução acida para dar ácido
fosfórico (H3PO4), íons sulfato (SO42-) e óxido nítrico (NO). Escreva a equação
balanceada de cada semi reação e a equação global.
Células Galvânicas

5. Escreva as semi reações e a equação balanceada das reações de célula de cada


uma das seguintes células galvânicas:

(a) Ni(s) | Ni2+(aq) || Ag+ (aq) | Ag(s)


(b) C(graf) | H2 (g) | H+ (aq) || Cl- (aq) | Cl2 (g) | Pt (s)
(c) Cu (s) | Cu2+ (aq) || Ce4+ (aq), Ce3+ (aq) | Pt(s)
(d) Pt (s) | O2 (g) | H+ (aq) || OH- (aq) | O2 (g) | Pt (s)
(e) Pt (s) | Sn4+ (aq), Sn2+ (aq) || Cl- (aq) | Hg2Cl2 (s) | Hg (l)

6. (a) Escreva as semi reações balanceadas da reação redox entre uma solução
acidificada de permanganato de potássio (KMnO4) e cloreto de ferro(II) (FeCl2). (b)
Escreva a equação balanceada da reação da célula e projete uma célula galvânica
para estudar a reação (escreva o diagrama da célula).

7. Prediga o potencial padrão de cada uma das seguintes células:

(a) Pt(s) | Cr3+(aq), Cr2+(aq) || Cu2+(aq) | Cu(s)


(b) Ag(s) | AgI(s) | I-(aq) || Cl- (aq) | AgCl(s) | Ag(s)
(c) Hg(l) | Hg2Cl2(s) | Cl-(aq) || Hg22+(aq) | Hg(l)
(d) C(graf) | Sn4+(aq), Sn2+(aq) || Pb4+(aq), Pb2+(aq) | Pt(s)

8. Um estudante recebeu uma semicélula padrão, Cu2+(aq) | Cu(s), e outra semicélula


contendo um metal M, desconhecido, imerso em 1,00 M de M(NO3)2(aq). Quando o
cobre foi ligado como ânodo, a 25ºC, o potencial padrão medido da célula foi de -
0,689 V. Qual é o potencial de redução do par desconhecido M2+(aq) | M(s) ?

9. Suponha que os seguintes pares redox são unidos para formar um célula galvânica
que gere corrente elétrica em condições padrão. Identifique o agente oxidante e o
agente redutor, escreva o diagrama da célula e calcule o potencial padrão da célula.

(a) Co2+/Co e Ti3+/Ti2+


(b) La3+/La e U3+/U
(c) H+/H2 e Fe3+/Fe2+
(d) O3/O2,OH- e Ag+/Ag
Células Eletrolíticas

10. Soluções de (a) Mn2+; (b) Al3+; (c) Ni2+; (d) Au3+, 1,0 mol.L-1 em água, são
eletrolisadas. Qual é a espécie reduzida no cátodo, o íon do metal ou a água?

11. Uma solução 1 M NiSO4 (aq) sofreu eletrolise com eletrodos inertes. Escreva (a) a
reação do cátodo; (b) a reação do ânodo; (c) Imaginando nenhum sobrepotencial nos
eletrodos, qual é o potencial mínimo que deve ser fornecido à célula para que se inicie
a eletrólise?

12. Dada a eletrólise aquosa de uma solução de NiCl2, escreva as semi reações nos
eletrodos e a reação global.

13. Dada a eletrolise aquosa de uma solução de AgNO3, escreva as semi reações nos
eletrodos e a reação global.
Referências Bibliográficas

Atkins, P.; Jones, L. Princípios de Química – Questionando a Vida Moderna e o Meio


Ambiente. Bookman. 3ª edição. Porto Alegre. 2006. 965p.

Do Canto, E. L.; Peruzzo, F. M. Química na Abordagem do Cotidiano. Ed. Moderna. 2ª


edição. Volume Único. São Paulo. 2002. 584p.

Russel, J. B. Química Geral. Pearson Makron Books. 2ª Edição. Volume 2. São Paulo.
1994. 820p.

Sienko, M. J.; Plane, R. A. Química: Principios y Aplicaciones. McGraw-Hill. México.


1990.
ANEXOS
Anexo 1. Dados de potencial padrão de redução para algumas semi reações.

2 H+(aq) + 2e- → H2 (g) E0 = + 0,00 V


Ag+(aq) + e- → Ag(s) E0 = + 0,80 V
AgCl(s) + e- → Ag(s) + Cl-(aq) E0 = + 0,22 V
AgI(s) + e- → Ag(s) + I-(aq) E0 = - 0,15 V
Al3+ + 3e- → Al(s) E0 = - 1,66 V
Au3+(aq) + 3e- → Au(s) E0 = + 1,40 V
Co2+(aq) + 2e- → Co(aq) E0 = - 0,28 V
Cr3+(aq) + e- → Cr2+(aq) E0 = - 0,41 V
Cu2+(aq) + 2e- → Cu(s) E0 = + 0,34 V
Fe3+(aq) + e- → Fe2+(aq) E0 = + 0,77 V
2 H2O(l) + 2e- → H2(g) + 2 OH- E0 = - 0,83 V
Hg22+(aq) + 2e- → Hg(s) E0 = + 0,79 V
Hg2Cl2(s) + 2e- → 2 Hg(s) + 2 Cl-(aq) E0 = + 0,27 V
La3+ (aq) + 3e- → La(s) E0 = - 2,52 V
Mn2+(aq) + 2e- → Mn(s) E0 = - 1,18 V
O2(g) + 4H+(aq) + 4e- → 2 H2O(l) E0 = + 1,23 V
Ni2+(aq) + 2e- → Ni(s) E0 = - 0,23 V
O3(g) + H2O(l) + 2e- → O2(g) + OH-(aq) E0 = + 1,24 V
Pb4+(aq) + 2e- → Pb2+(aq) E0 = + 1,67 V
Sn4+(aq) + 2e- → Sn2+(aq) E0 = + 0,15 V
SO42-(aq) + 4 H+(aq) + 2e- → H2SO3(aq) + H2O(l) E0 = + 0,17 V
Ti3+ (aq) + e- → Ti2+(aq) E0 = - 0,37 V
U3+ (aq) + 3e- → U(s) E0 = - 1,79 V
Anexo 2. Exemplos de células eletroquímicas comerciais.

Pilhas e baterias utilizadas atualmente

As pilhas utilizadas atualmente são conhecidas como “Pilhas Secas de Leclanché”.


Essas pilhas são formadas basicamente por um envoltório de zinco, separado por um
papel poroso e por uma barra central de grafite envolvida por dióxido de manganês
(MnO2), carvão em pó (C) e por uma pasta úmida contendo cloreto de amônio (NH4Cl),
cloreto de zinco (ZnCl2) e água (H2O).

O zinco funciona como o ânodo, perdendo elétrons e o grafite funciona como o


eletrodo do cátodo, conduzindo os elétrons para o dióxido de manganês:

Semi reação do Ânodo:

Zn (s) → Zn2+(aq) + 2 e-

Semi reação do Cátodo:

2 MnO2 (aq) + 2 NH4+(aq) + 2e- → Mn2O3 (s) + 2NH3 (g) + H2O(l)

Reação Global:

Zn (s) + 2 MnO2 (aq) + 2 NH4+(aq) → Zn2+(aq) + Mn2O3 (s) + 2NH3 (g)

Esse tipo de pilha é indicado para equipamentos que requerem descargas leves e
contínuas, como controle remoto, relógio de parede, rádio portátil e brinquedos.

Outro tipo comum de pilha são as pilhas alcalinas. Seu funcionamento se assemelha
muito com o das pilhas secas de Leclanché, porém, a única diferença está que no
lugar do cloreto de amônio (que é um sal ácido), coloca-se uma base forte,
principalmente o hidróxido de sódio (NaOH) ou o hidróxido de potássio (KOH).
Semirreação do Ânodo:

Zn + 2 OH- → ZnO + H2O + 2e-

Semirreação do Cátodo:

2 MnO2 + H2O + 2e- → Mn2O3 + 2 OH-

Reação global:

Zn +2 MnO2 → ZnO + Mn2O3

As pilhas alcalinas são mais vantajosas que as ácidas no sentido de que elas têm uma
maior durabilidade e, em geral, oferecem de 50 a 100% mais energia que uma pilha
comum do mesmo tamanho, além de haver menos perigo de vazamentos.

São indicadas principalmente para aparelhos que exigem descargas rápidas e mais
intensas, como rádios, tocadores de CD/DVD e MP3 portáteis, lanternas, câmeras
fotográficas digitais etc.

Além destas pilhas, temos mais um tipo de pilha, conhecido popularmente por bateria,
por possuir um formato diferenciado das pilhas comuns. Essas pilhas são leves e
originam uma grande voltagem (cerca de 3,4 V), devido a isso, elas são muito
utilizadas em equipamentos pequenos como relógios e calculadoras. As mais
utilizadas atualmente são as baterias de lítio.

O ânodo é o lítio, o cátodo é o dióxido de manganês e o eletrólito é uma solução


salina:

Semirreação do Ânodo:

Li → Li+ + e−

Semirreação do Cátodo:

MnO2 + Li+ + e− → MnO2(Li)

Reação global:

Li + MnO2 → MnO2(Li)
As pilhas acabam porque os reagentes presentes nela se esgotam, como é o caso dos
íons presentes em solução e até mesmo do eletrodo no ânodo.

Pilha recarregável

Existem basicamente dois tipos de pilhas recarregáveis: NiCd e NiMH.

As pilhas de níquel-cádmio (NiCd) foram as primeiras à surgir e são mais baratas,


porém possuem menor tempo de vida útil e menor capacidade de carga. Além disso,
pode ocorrer o chamado “efeito memoria”.

Outro tipo de pilha é a chamada níquel-metal-hidreto (NiMH). São as pilhas


recarregáveis mais utilizadas atualmente, já que apresentam maior capacidade de
carga, maior tempo de vida e suportam mais recargas do que as de NiCd.

Para que elas sejam recarregáveis, as semi reações que ocorrem no interior destas
pilhas devem ser todas reversíveis. A recarga é feita pelo uso da energia elétrica, que
força as semi reações no sentido não espontâneo.
Anexo 3. Aplicações da eletrólise.

Galvanoplastia

Consiste em revestir a superfície de uma peça metálica com uma fina camada de
outro metal, por meio da eletrólise aquosa de seu sal. A peça deve ser colocada no
cátodo, e o sal deve conter o íon do metal que se deseja depositar. Os exemplos mais
conhecidos são o revestimento por crômio, a cromação, e por níquel, a niquelação.

Semi reação do cátodo (cromação): Cr3+(aq) + 3e- → Cr0(s)

Semi reação do cátodo (niquelação): Ni2+(aq) + 2e- → Ni0(s)

O nome galvanoplastia é uma homenagem ao cientista italiano Luigi Galvani (1737-


1798). Esse processo é muito utilizado para revestir anéis, brincos, pulseiras,
correntes, relógios, faqueiros etc com uma fina camada (que tem espessura da ordem
de 2,0.10-3 cm) de prata ou ouro. A produção de ferro galvanizado, que consiste no
ferro que recebeu uma camada superficial de zinco, também pode ser feita por
eletrólise e é muito utilizada para evitar a oxidação do ferro pelo oxigênio do ar.

Os metais que são usados na deposição são, ou quimicamente mais inertes que os
metais em que houve a deposição, tendo maior resistência à oxidação pelo ar, por
exemplo, ou são mais oxidáveis, sendo usados como metal de sacrifício (como é o
caso da galvanização).

Anodização

Uma forma de resguardar certos metais contra a corrosão é a formação de uma


camada protetora superficial de um óxido do próprio metal. Tal proteção pode ser feita
por meio de um processo eletrolítico, que é denominado anodização. Um exemplo de
anodização bastante conhecido envolve o alumínio. A peça de alumínio a ser
protegida é usada como anodo (polo positivo) durante uma eletrólise de uma solução
aquosa de H2SO4. Nesse eletrodo ocorre a liberação de oxigênio gasoso (graças à
descarga do OH- proveniente da água) o gás oxigênio ataca o metal do anodo (a peça
de alumínio), formando óxido de alumínio, que servirá como camada protetora sobre a
peça de alumínio.

3 O2(g) + 4 Al(s) → 2 Al2O3(s)

A camada protetora de Al2O3 que se forma é bastante porosa, o que permite a


retenção de corantes nos seus poros. Em seguida, os poros são selados
mergulhando-se a peça em água quente. Uma peça metálica submetida a esse
processo estará protegida contra a corrosão e vistosa para ser comercializada. São
exemplos dessas peças anodizadas as grades, janelas, portões e tampas de panela
de alumínio em cores.

O refino eletrolítico do cobre

Uma das importantes aplicações do cobre metálico é como condutor de eletricidade


em fios elétricos e em circuitos eletrônicos. Isso exige alta pureza, pois o cobre impuro
não é um condutor tão bom quanto o cobre puro. Isso torna necessário purificar o
cobre obtido na metalurgia, pois sua pureza geralmente não é suficiente para usá-lo
como condutor elétrico.

Para obtenção de cobre com pureza superior a 99,5% é empregado o refino


eletrolítico. O procedimento envolve a eletrólise de uma solução aquosa de CuSO4,
utilizando como ânodo (polo positivo) o cobre metalúrgico, que contem impurezas
como ferro, zinco, ouro, prata e platina.

Nesse processo, cobre de alta pureza se deposita no cátodo, que também é de cobre.
No ânodo, ocorre a oxidação das impurezas que se oxidam mais facilmente que ele
(ferro, zinco). As impurezas mais difíceis de oxidar (ouro, prata, platina) desprendem-
se do eletrodo ao longo do processo e formam um depósito no fundo do recipiente, a
lama anódica. O custo do refino eletrolítico é atenuado pela venda dos materiais
presentes na lama anódica.

No cátodo, ocorre a redução dos íons Cu2+ a cobre metálico, mas não de íons como
Fe2+ e Zn+, que são mais difíceis de reduzir que o Cu2+ e permanecem em solução,
garantindo alta pureza do cobre depositado.

Obtenção de substâncias de interesse

Por meio da eletrólise são obtidas industrialmente várias substâncias de interesse.


Entre elas há substâncias simples, como hidrogênio (H2), flúor (F2), cloro (Cl2), metais
alcalinos, metais alcalino terrosos e alumínio, e substâncias compostas, como
hidróxido de sódio (NaOH), hipoclorito de sódio (NaClO) e ácido clorídrico (HCI).

A produção do flúor envolve a eletrólise ígnea do fluoreto de potássio (KF). Flúor


gasoso se forma no ânodo: 2 F-(fund)→ F2(g) + 2 e-.

A produção industrial de soda cáustica, cloro, hidrogênio, ácido clorídrico e hipoclorito


de sódio envolve a eletrólise aquosa de uma solução de cloreto de sódio. Dos cátions
presentes (H+ e Na), é o H+ que tem a maior facilidade de descarga no cátodo. E dos
ânions presentes (OH- e Cl-) é o Cl- que tem a maior facilidade de descarga no ânodo.
O equacionamento do processo é:

Dissociação do eletrólito: 2NaCl(s) → 2 Na+(aq) + 2 Cl-(aq)

Auto ionização da água: 2 H2O(l) → 2 H+(aq) + 2 OH-(aq)

Semi reação no cátodo: 2 H2O(l) + 2e- → H2(g) + 2 OH-(aq)

Semi reação no anodo: 2 Cl-(aq) → Cl2(g)+ 2e-________________________

Reação global: 2 NaCl(s) + 2 H2O(l) → 2 Na+(aq) + 2 OH-(aq) + H2(g) + Cl2(g)

O hidróxido de sódio (soda cáustica) é usado, por exemplo, para fabricar sabões,
papel e produtos para desentupir ralos e pias. O cloro é usado para fabricação, entre
outros produtos, do plástico conhecidos como PVC, do ácido clorídrico e do
hipoclorito de sódio. Para fabricação do ácido clorídrico, reage-se o cloro (obtido no
anodo) com hidrogênio (obtido no cátodo) formando-se HCl gasoso (gás clorídrico)
que, em seguida, é borbulhado em água originando o ácido clorídrico, HCI aquoso.

Para a fabricação de hipoclorito de sódio (NaClO), borbulha-se gás cloro em solução


de hidróxido de sódio:

Cl2(g) + NaOH(aq) → NaCl(aq) + NaClO(aq) + H2O(l)

O hipoclorito de sódio é usado como desinfetante e alvejante, sendo o componente


ativo da água sanitária.
Anexo 4. Eletroquímica e aplicações na metalurgia.

Na superfície da Terra há uma imensa variedade de substancias formadas ao longo de


milhares de anos. Essas substâncias são chamadas de minerais. Grande parte dos
minerais contém metais em sua composição química. Às vezes, dependendo da
composição química e da abundância do mineral, é possível a extração desses
metais. O termo minério designa um mineral a partir do qual é economicamente viável
a extração de um elemento químico de interesse, como, por exemplo, um metal.

Metalurgia é a sequência de processos que visa obter um metal a partir do minério


correspondente.

Como já sabemos, os metais possuem, de modo geral, alta tendência a doar elétrons.
Assim, eles são frequentemente encontrados em seus minérios com número de
oxidação positivo e, para que se possa obter o metal (isto é, a substância simples
formada por esse metal) a partir do minério, é necessário que ele sofra uma redução.
Perceba que se trata exatamente do contrário da corrosão, um processo natural que
tende a oxidar os metais.

Cátion do metal Redução (Metalurgia)  Átomo do metal em


em substância substancia
composta  Oxidação (Corrosão) simples

Consultando uma tabela de potenciais de redução é possível entender por que alguns
metais como ouro, prata, mercúrio e cobre são encontrados como substâncias simples
na natureza (no chamado estado nativo), enquanto outros são encontrados apenas na
forma de substâncias compostas (combinados com outros elementos).

Ouro, platina, prata, mercúrio e cobre

Esses são metais nobres, isto é, têm baixa tendência a sofrer oxidação. Daí o fato de
serem encontrados na natureza na forma de substâncias simples. Nesse caso, a
redução é desnecessária, executando-se apenas para remover as impurezas que
porventura acompanhem o metal.

Prata, cobre e mercúrio, além de serem encontrados no estado nativo, existem


também na forma de minérios, os sulfetos Ag2S (argentita), Cu2S (calcosita) e HgS
(cinábrio). Nesse caso os metais podem ser facilmente obtidos a partir da ustulação
dos minérios. Ustulação é o nome dado ao aquecimento de um sulfeto na presença de
O2, também conhecido como "queima do sulfeto".

Ag2S(s) + O2(g) → 2Ag(s) + SO2(g)

HgS(s) + O2(g) → Hg(s) + SO2(g)

O mercúrio é utilizado para fabricar termômetros e amálgama para obturações


dentárias (mistura de Ag e outros metais com Hg). Ouro, prata e cobre são usados
para confecção de joias, pois apresentam baixa tendência a se oxidar (sobretudo o
ouro). Fios elétricos são fabricados com cobre, já que ele é um bom condutor de
corrente elétrica.

Ferro, estanho, zinco e chumbo

Esses metais não são nobres como os anteriores e, por essa razão, não se encontram
livres na natureza. Assim, é necessário utilizar um agente redutor para obtê-los a partir
de seus minérios. O monóxido de carbono (CO) é o agente redutor geralmente
empregado. Carvão (C) também é utilizado. No caso da obtenção do ferro a partir da
hematita (Fe2O3), a reação pode ser equacionada do seguinte modo, com o CO
atuando como redutor:

Fe2O3(s) + 3 CO(g) → 2 Fe(s) + 3 CO2(g)

A siderurgia é o ramo da indústria metalúrgica que visa obter ferro metálico a partir de
seus minérios. A reação é executada nos altos fornos siderúrgicos (o nome se deve à
altura do forno). Neles é despejada uma mistura de coque (carvão com alto teor de
carbono), minério de ferro e calcário (CaCO3). A combustão do coque produz CO, que
reduz o minério de ferro. O calcário sofre decomposição, produzindo CaO, que reage
com as impurezas do minério, fazendo-as flutuar no ferro fundido.

O ferro que sai do forno chama-se ferro-gusa ou ferro fundido (mesmo depois de
solidificado mantém esse nome). Contém cerca de 5% de carbono, sendo, por esse
motivo, muito quebradiço. Após sofrer um processo de purificação, pode chegar até
cerca de 0,2% de carbono, e recebe o nome de ferro doce. O ferro com até cerca de
1,5% de carbono é chamado de aço. Trata-se da liga metálica mais usada pela nossa
civilização.

A obtenção do estanho é feita a partir da cassiterita (SnO2) e segue o mesmo caminho


da obtenção do ferro: redução do SnO2 com CO. Já no caso do zinco, extraído da
blenda (ZnS), antes de executar a redução com CO é necessário executar a
ustulação, que transforma o sulfeto em óxido:

ZnS(s) + 3/2 O2(g) → ZnO(s) + SO2(g)

ZnO(s) + CO(g) → Zn(s) + CO2(g)

O chumbo é obtido a partir da galena (PbS) da mesma maneira: ustulação seguida de


redução com monóxido de carbono.

O ferro é o metal mais importante para a nossa civilização, possuindo inúmeras


utilizações, principalmente na forma de aço, em ferramentas, utensílios, motores,
chapas, construção civil etc.

O estanho é utilizado sob a forma de lata (chapa de ferro revestida de estanho), e


bronze (liga de estanho e cobre).

O zinco forma uma liga com cobre chamada de latão. É também empregado no
revestimento do ferro (galvanização), protegendo-o da corrosão. Tubos de ferro
galvanizado eram muito usados em encanamentos domésticos antes dos tubos
plásticos de PVC.
Baterias de automóvel são fabricadas com chumbo. A solda usada em eletrônica é
uma liga de chumbo e estanho.

Crômio e manganês

Esse dois metais se assemelham muito aos quatro anteriores no que diz respeito ao
fato de não serem nobres e de necessitarem de agente redutor para sua obtenção.

No entanto, de modo indesejável, eles ficam contaminados com altos teores do carvão
utilizado para a redução. A operação de purificação para eliminar o carvão torna o
processo de obtenção desses metais muito caro.

Uma maneira mais econômica de obtê-los é por meio da aluminotermia ou reação


aluminotérmica. Aluminotermia consiste na redução do metal (na forma de óxido)
utilizando alumínio metálico como redutor. A reação libera muita energia, nas formas
de luz e calor.

O crômio é obtido por aluminotermia usando o óxido de cromo (III), proveniente do


minério cromita (FeO.Cr2O3):

Cr2O3(s) + 2 Al(s) → 2 Cr(s) + Al2O3(s)

O manganês é obtido a partir da pirolusita (MnO2) pelo mesmo processo: o alumínio se


oxida a Al2O3 e o MnO2 se reduz a manganês metálico.

Muitos aços especiais contêm crômio. Dentre eles o mais conhecido é o aço inox (aço
inoxidável). O manganês, em mistura com o aço, toma-o duro e resistente ao
desgaste, sendo apropriado à fabricação de certas ferramentas, trituradoras,
colheitadeiras, trilhos etc.

Alcalinos, alcalino terrosos e alumínio

Metais como sódio (alcalino), magnésio (alcalino terroso) e alumínio possuem baixos
potenciais de redução, ou seja, não são facilmente reduzidos. Não se conhece um
agente redutor barato que provoque sua redução. O meio mais econômico de obtê-los
é forçar a redução utilizando uma corrente elétrica, ou seja, executando uma eletrólise.

Na+(fund) + e- → Na(s)
Mg2+(fund) + 2e- → Mg(s)
Al3+(fund) + 3e- → AI(s)

No entanto é necessário que essas eletrólises sejam ígneas, pois em meio aquoso os
íons H+ têm maior facilidade de descarga que os íons Na+, Mg2+ e Al3+.

Assim, sódio e magnésio são obtidos por eletrólise ígnea de NaCl e MgCl2,
provenientes da água do mar. O alumínio é obtido por eletrólise ígnea da alumina
(Al2O3), que, por sua vez, é obtida a partir do minério bauxita (Al2O3.nH2O +
impurezas). Ela possui ponto de fusão de 2050ºC, por isso adiciona-se criolita
(Na3AlF6) como fundente (retira impurezas do minério), baixando a temperatura para
1000ºC. As reações que ocorrem são:
Dissociação: Al2O3(s) → 2 Al3+(fund) + 3 O2-(fund)

Cátodo (eletrodo negativo): 4 Al3+(fund) + 12e- → 4 Al(s)

Ânodo (eletrodo positivo): 6 O2-(fund) → 3 O2(g) + 12e-_____

Global: 2 Al2O3(fund) → 4 Al(s) + 3 O2(g)

O oxigênio gasoso formado reage com o carbono do eletrodo de grafite e produz CO2.

Ligas de magnésio e alumínio são leves e resistentes, sendo usadas na fabricação de


rodas e na carcaça de aeronaves. O alumínio vem ganhando cada vez mais destaque
em nossa civilização, sendo usado para a fabricação de panelas, portões, janelas,
boxes para banheiro, antenas de televisão etc.