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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS


Processo Nº. : 0003415-67.2014.8.05.0201
Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : MARCOS CRUZ DE OLIVEIRA

Recorrido(s) : BANCO BRADESCO FINANCIAMENTOS S A


BANCO BRADESCO S A

Origem : 1ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS - PORTO


SEGURO
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

VOTO- E M E N T A

RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. BAIXA DO GRAVAME. FINANCIAMENTO


DE VEÍCULO. .ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA. RÉU QUE NÃO PROCEDEU À IMEDIATA
BAIXA DO GRAVAME APÓS A REGULAR QUITAÇÃO DO CONTRATO.LAPSO
TEMPORAL EXCESSIVO ENTRE A QUITAÇÃO E A BAIXA. FALHA NA
PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. DANOS MORAIS CONFIGURADOS. QUANTUM A
SER ARBITRADO. SENTNEÇA REFORMADA.

1. Trata-se de recurso inominado interposto contra sentença que julgou


improcedente o pedido, nestes termos: “ Ocorre que, conforme se verifica dos documentos
acostados à defesa apresentada pelas rés, o gravame foi baixado antes mesmo da citação da 2ª ré,
em 11/10/2014 (evento 16). Assim, os pleitos do autor quanto à quitação e a baixa do gravame
foram resolvidos pela 2ª ré.Quanto aos danos morais, entendo que a situação descrita na exordial
configura mero dissabor cotidiano, mormente se considerado que a ré procedeu à solução do
problema, conforme solicitado..”

2. O recorrente busca a reforma da sentença , aduzindo, em síntese, que o


gravame só fora baixado após 121 ( cento e vinte e um) dias, que em virtude de tal
lapso de tempo sofrera prejuízos que ultrapassaram o mero aborrecimento,
constituindo evidente dano moral, requerendo por fim a procedência do pedido
indenizatório.
3. A sentença vergastada não merece reforma. A demonstração do fato básico para
o acolhimento da pretensão é ônus do autor, segundo o entendimento do art. 373,
inciso I, do NCPC, partindo daí a análise dos pressupostos da ocorrência de
indenização por danos morais, recaindo sobre o réu o ônus da prova negativa do
fato, segundo o inciso II do mesmo artigo supracitado.

4. Em que pese o quanto alegado pela demandada, que colaciona aos autos o
comprovante de baixa do gravame datado de 11/10/2014, mister reconhecer que
o lapso de tempo decorrido entre a quitação do contrato de financiamento e a
efetiva baixa comprovada nos autos, que na hipótese foi de 121 ( cento e vinte e
um ) dias, é fator que gera intranqüilidade, insegurança e danos ao consumidor,
máxime em razão da impossibilidade de dispor livremente de seu patrimônio

5. A parte autora comprova nos autos a quitação do contrato ocorrida em


04/06/2014, conforme consta dos documentos juntados aos autos, no evento 01 do
projudi, enquanto o réu comprova a baixa do gravame apenas em 11/10/2014.

6. A jurisprudência é uníssona no concernente à obrigação da instituição


financeira credora de dar baixa no gravame quando da quitação do contrato,
consoante os seguinte julgado:

7. PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. CONTRATO


DE FINANCIAMENTO QUITADO. BAIXA DE GRAVAME DO
VEÍCULO NÃO REALIZADA. OBRIGAÇÃO DA INSTITUIÇÃO
FINANCEIRA. MANUTENÇÃO DO ÔNUS NO SISTEMA DO
DETRAN/DF. PEDIDO LIMINAR DEFERIDO. AGRAVO PROVIDO.
1. Cuida-se de agravo de instrumento interposto contra decisão
que indeferiu pedido de antecipação de tutela para que fosse
determinada ao banco agravado a baixa de gravame de alienação
fiduciária, junto ao DETRAN, de veículo cujo financiamento foi
quitado. 2. Na hipótese, já foi declarada, em outro feito transitado
em julgado, a quitação do contrato de financiamento firmado
pelas partes. 2.1. Apesar disto, o banco não procedeu à baixa do
gravame junto ao DETRAN, o que impede a alienação do veículo a
terceiros. 3. Cumpre à instituição financeira promover a
regularização do gravame, junto ao DETRAN, após a quitação do
contrato de financiamento, nos termos do art. 9º da Resolução
320/2009 do CONTRAN. 4. No caso dos autos, patente a
irregularidade da incidência de gravame sobre o referido veículo,
devendo ser assegurado ao agravante o direito de ver baixada a
restrição de reserva de domínio. 5. Liminar deferida. 5.1. Agravo
provido.

8. A ausência da regularização da transmissão da propriedade causa


intranquilidade e insegurança ao adquirente, que fica impossibilitado de retirar
documentos essenciais ao livre trânsito e usufruto do bem, podendo inclusive ter o
veículo retirado de circulação pelos órgãos de polícia de trânsito, que
rotineiramente realizam procedimentos fiscalizatórios visando apurar justamente a
regularidade da documentação do veículo, sendo o CRLV documento de porte
obrigatório em todo o território nacional, nos termos do CTB brasileiro.

9. O art. 14 do CDC, dispondo sobre a responsabilização do fornecedor pelo fato


do produto ou serviço, preleciona que:
10. “Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente
da existência de culpa pela reparação dos danos causados aos
consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços,
bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre
sua fruição e riscos.”
11. Discutindo-se a prestação defeituosa de serviço, incide a responsabilidade
civil objetiva inerente ao próprio risco da atividade econômica, consagrada no art.
14, caput, do CDC, que impõe ao fornecedor o ônus de provar causa legal
excludente (§ 3º do art. 14), algo que o recorrente não se desincumbiu.

12. De igual sorte, o conjunto probatório demonstrou cabalmente a ocorrência do


dano moral que muito mais que aborrecimento e contratempo, resultou em situação
que por certo lhe trouxe intranqüilidade e sofrimento, configurando o dano moral,
em razão exclusivamente da conduta do recorrente.
13. O dano simplesmente moral, sem repercussão patrimonial, não há como ser
provado, nem se exige perquirir a respeito do animus do ofensor. Consistindo em
lesão de bem personalíssimo, de caráter eminentemente subjetivo, satisfaz-se a
ordem jurídica com a demonstração do fato que o ensejou. Ele existe tão-somente
pela ofensa, e dela é presumido, sendo o suficiente para autorizar a reparação.
14. Com isso, uma vez constatada a conduta lesiva e definida objetivamente pelo
julgador, pela experiência comum, a repercussão negativa na esfera do lesado,
surge à obrigação de reparar o dano moral, sendo prescindível a demonstração do
prejuízo concreto.
15. Na situação em análise, o Recorrido não precisava fazer prova da ocorrência
efetiva dos danos morais informados. Os danos dessa natureza presumem-se
pelos próprios fatos apurados, os quais, inegavelmente, vulneram sua
intangibilidade pessoal, sujeitando-o ao constrangimento, aborrecimento, dissabor
e incômodo.
16. Reiteradamente manifestei posição de que o arbitramento do dano deve
obedecer aos critérios da prudência, da moderação, das condições da ré em
suportar o encargo e não aceitação do dano como fonte de riqueza.

17. Da mesma forma, a fixação do montante indenizatório deve guardar uma


equivalência entre as situações que tragam semelhante colorido fático. As
variações nos valores das indenizações existem conforme as circunstâncias fáticas
que envolvam o evento.

18. ISTO POSTO, voto no sentido de CONHECER DO RECURSO


INTERPOSTO E DAR-LHE PROVIMENTO, para condenar o réu em R$ 2.000,00 (
dois mil reais) a título de danos morais, corrigidos desde a data do arbitramento,
nos termos da súmula 362 do STJ e juros de mora desde o evento danoso, nos
termos da súmula 54 do STJ. Sem custas processuais e honorários
advocatícios, pelo êxito da parte no recurso.

Salvador, Sala das Sessões, 17 de Novembro de 2016.

BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


Juíza Presidente e Relatora
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo Nº. : 0003415-67.2014.8.05.0201


Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : MARCOS CRUZ DE OLIVEIRA

Recorrido(s) : BANCO BRADESCO FINANCIAMENTOS S A


BANCO BRADESCO S A

Origem : 1ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS - PORTO


SEGURO
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

ACÓRDÃO
Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados
Especiais Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, MARIA
AUXILIADORA SOBRAL LEITE –Presidente e Relatora , CÉLIA MARIA CARDOZO
DOS REIS QUEIROZ E ANTÔNIO MARCELO OLIVEIRA LIBONATI, em proferir a
seguinte decisão: RECURSO CONHECIDO E PROVIDO . UNÂNIME, de acordo com a
ata do julgamento. Sem custas processuais e honorários advocatícios pelo êxito da parte
no recurso.
Salvador, Sala das Sessões, 17 de Novembro de 2016.
BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Presidente e Relatora