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Modas de Viola Classe A - Vol.

4
Letras Por: Alexandre Fais, alehpaes@yahoo.com.br
1984
Álbum de Carreira
Tião Carreiro & Pardinho

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Pousada de Boiadeiro
Moda de Viola - (Tião Carreiro e Dino Franco)

Eu recordo com muita saudade a fazenda onde me criei


A escola coberta de tábua e a professorinha com quem estudei
Meu cavalo ligeiro de cela, as estradas que nele passei
Tudo isso me vem na lembrança, o tempo da infância que longe eu deixei, ai

Eu dançava nos fins de semana os bailinhos do velho Matão


O matungo pousava no toco seguro nas rédeas ‘manoteando’ o chão
A sanfona gemia no canto com viola pandeiro e violão
Minha dama encurtava o passo sentindo o compasso do meu coração, ai

Esse tempo já vai bem distante, tudo, tudo na vida mudou


O piquete das vacas leiteiras cobriu-se de mato e enfim se acabou
Os parentes mudaram de rumo, ninguém sabe também onde estou
Despedi-me numa madrugada seguindo a estrada que Deus me traçou, ai

Adeus Conceição do Monte Alegre, adeus povo do bairro Cancã


Adeus pousada de boiadeiros abrigo dos peões de Echaporã
Lá reside o César Botelho que demonstra ser meu grande fã
Com saudade de todos vocês eu volto talvez num outro amanhã, ai

Desculpe se eu não falei de outras terras que andei


Lá pras bandas de Agissei, São Mateus, também Santa Ida
Daquela gente querida eu nunca vou me esquecer
Viola Vermelha
Moda de Viola - (Tião Carreiro e Jesus Belmiro)

Esta viola vermelha cor de bandeira de guerra


Cor de sangue de caboclo, cor de poeira de terra
Foi a fiel companheira numa longa trajetória
De um artista tão querido que deixou o nome na história
Um canhoteiro de fibra, um exemplo de violeiro

Com talento e traquejo do progresso sertanejo ele foi o pioneiro


Esta viola vermelha já fez tristeza acabar
Fez muitos lábios sorrir, fez platéias delirar
Mas um dia entristeceu no silêncio da saudade
Quando pra sempre seu dono partiu para eternidade
Ela chora apaixonada, que até meu corpo arrepia
Dá um gemido em cada corda quando comigo recorda esta imortal melodia

Esta viola vermelha que tanto alegrou o povo


Defendendo o que é nosso está na luta de novo
Voltou a ser aplaudida como foi antigamente
O seu passado de glória revivendo no presente
Florêncio descanse em paz, porque esta viola sua
Voltou para o pé do eito encostada no meu peito, sua luta continua

Esta viola vermelha que está chorando comigo


Ela perdeu o seu dono, eu perdi um grande amigo
Herói Sem Medalha
Moda de Viola - (Sulino)

Sou filho do interior do grande estado mineiro


Fui um herói sem medalha na profissão de carreiro
Puxando tora do mato com doze boi pantaneiro
Eu ajudei desbravar nosso sertão brasileiro

Sem vaidade eu confesso, do nosso imenso progresso, eu fui um dos pioneiros

Veja como o destino muda a vida de um homem


Uma doença malvada minha boiada consome
Só ficou um boi mestiço que chamava lobisomem
Por ser preto igual carvão foi que eu pus esse nome

Em pouco tempo depois eu vendi aquele boi pros filhos não passar fome

Aborrecido com a sorte dali resolvi mudar


E numa cidade grande com a família fui morar
Por eu ser analfabeto tive que me sujeitar
Trabalhar num matadouro para o pão poder ganhar

Como eu era um homem forte ‘nuqueava’ gado de corte pros companheiros sangrar

Veja bem a nossa vida como muda de repente


Eu que às vezes chorava quando um boi ficava doente
Ali eu era obrigado matar a rês inocente
Mas certo dia o destino me transformou novamente

O boi da cor de carvão, pra morrer na minhas mãos, estava na minha frente
Quando eu vi meu boi carreiro não contive a emoção
Meus olhos encheram d’água e o pranto caiu no chão
O boi me reconheceu e lambeu a minha mão
Sem poder salvar a vida do boi de estimação

Pedi a conta e fui embora desisti na mesma hora desta ingrata profissão
Milagre da Vela
Moda de Viola - (Carreirinho e Zé Carreiro)

Lá no bairro aonde eu moro um dia desses passados


Se deu um causo impressionante que ficamo admirado
Uma vizinha de casa que há tempo tinha ‘viuvado’
Ficou ela e três filhinhos residiam num sobrado
O velho quando morreu, ai, deixou alguns cobres guardados

Era meia noite e meia, o relógio tinha marcado


E a viúva não dormia virando por todo lado
Quando quis pegar no sono escutou um forte chamado
Ela então reconheceu ai, que era a voz do seu finado
Vai acudir nossos filhos para não morrer queimado

A velha virou pro canto, pensou que tinha sonhado


Quando a voz se repetia: “Vai fazer o meu mandado”
Ela levantou depressa e o quarto estava trancado
Arrombou a porta, entrou, ai, num gesto desesperado
Uma vela sobre a mesa já com fogo no ‘toalhado’

Com o barulho da porta os menino acordaram assustados


E a mesinha em ‘lavareda’ na cama estava encostado
Meus filhos pra esta vela se a força não tem faltado?
Minha mãe, quinze de agosto, nós estamos bem lembrados
Que hoje completa um ano que papai foi sepultado
Boi Cigano*
Moda de Viola - (Geraldino e Fauzi Kanso)

Entre tantas companhias de grande circo rodeio


O capitão Asa Branca se destaca nesse meio
Exibindo o boi Cigano nos seus pesados torneios
Muitos peões de nome e glória
Foi em busca de vitória e acabou fazendo feio

A atração da companhia permanece a muitos anos


A platéia se arrepia quando entra o boi Cigano
Pra montar e não cair, ai, não conheço um ser humano
Derrotou em Andradina
A grande fera assassina o leão sul africano

Um peão compareceu por anuncio dos jornais


Por sinal tinha seu nome entre os bons profissionais
O Fumaça em montaria já ganhou prêmio demais
Mas no lombo do Cigano
Conheceu o desengano e acabou o seu cartaz, ai

Zé Corisco peão mineiro veio com toda a certeza


Por ter ele derrotado a tal mula Fortaleza
A platéia lhe aplaudia, o tombo foi de surpresa
Por Cigano derrotado, acabou sendo vaiado
Não valeu sua destreza

O capitão Asa Branca percorre o Brasil inteiro


Desafiando a peonada pagando prêmio em dinheiro
A derrota do Cigano eu tenho que ver primeiro
Se um dia acontecer e o peão aparecer
Será o campeão brasileiro

*
Existe uma outra Moda de Viola com o mesmo nome no Álbum “Meu Carro é Minha Viola” - 1962 - composta por Tião
Carreiro e Peão Carreiro. É a primeira Moda da saga do Boi Cigano que derrota um leão no Circo Sul Africano
Violeiro do Passado
Moda de Viola - (Dino Franco e Zico Dias)

Pra passar trabalho neste mundo eu vim


Não tenho ninguém que chore por mim
Sofrendo desgosto e saudade sem fim
Está minha vida sempre foi assim
Eu sou como as flores que não tem jardim

Quando eu me mudei da onde nasci


Um amor que eu tinha não me viu sair
Fiz coração duro, mas não resisti
Só eu é que sei o quanto sofri
Varei quatro noites sem poder dormir

No tempo de moço eu me diverti


Meus amores tinham certeza de eu ir
Chegava nas festa vinham me pedir
Pra que eu cantasse pra elas ouvir
Modinhas chorosas, versos de ferir

O vosso convite quando eu recebi


Com muito prazer eu me preveni
Afinei a viola que até eu senti
Fui na sua festa e melhor não vi
Eu gozei carinhos que não mereci

Eu vivo correndo terras, ai, jogado daqui pra ali


Vou deixar de querer bem, ai, chega o tempo que eu perdi

Pra ser violeiro foi que eu nasci


Em muitos catiras eu amanheci
Fiz moça orgulhosa chorar e sorrir
Suspirei saudade e me despedi
Mas a rosa branca nunca esqueci
Arreio de Prata
Moda de Viola - (Teddy Vieira, Roque José de Almeida e Mário Bernardino)

São José do Rio Preto, muito tempo se passou


O seu Oscar Bernardino com a boiada ele viajou
Num transporte a Mato Grosso na comitiva levou
Um filho de criação que na lida ele ensinou
No seu arreio de prata que no rodeio ganhou
O menino ia garboso no potro que ele amansou

Aquele arreio de prata era o que mais estimava


Somente em dia de gala que em rio preto ele usava
Nesta viagem seu Oscar pros peões recomendava
Pra zelar bem do peãozinho que recente se formava
O menino de ponteiro o berrante repicava
O Itamar e o Tiãozinho de perto lhe vigiava

A mania do menino seu Oscar sempre lembrava


Na hora do reboliço com a vida não contava
E foi lá no pantanal quando ninguém se esperava
Uma onça traiçoeira numa rês ela pulava
A boiada deu um estouro que o sertão se abalava
Parecia que o mundo nessa hora se acabava

Os ares de campo virgem cheirava chifre queimado


O menino dando grito para tentar segurar o gado
A barrigueira partiu, do cavalo foi jogado
Nos cascos dos cuiabanos pelos campos foi pisado
Quando a boiada passou viram o peãozinho estirado
Com seu arreio de prata estava morto abraçado

O seu Oscar Bernardinho sua alegria acabou


Pegou o arreio de prata pro Antônio ele falou:
“Este arreio é do menino, deixe com ele, por favor”
Na sombra de um anjiqueiro uma cruzinha fincou
E na cruz fez um letreiro aqui jaz um domador
Que apesar da pouca idade nem um peão com ele igualou
Fazenda Caioçara
Moda de Viola - (Tião Carreiro e Dino Franco)

Na fazenda Caioçara toda vez que rompe o dia


Canta triste a seriema, a codorninha assobia
Ronca o porco no chiqueiro e a cachorrada vigia
Riscando o chão com o casco
Berra um touro no pasto de alma xucra e bravia

É bonito na fazenda quando é noite de porfia


Todo mundo se diverte com viola e cantoria
O Tupy canta rancheira, o Dino fala poesia
O Nilsão abre cerveja
Uma pinga com carqueja traz um gole de alegria

O Raimundo e o Toninho nunca têm as mãos vazias


Quando chegam na fazenda fazem boa pescaria
O Luizinho despachante come peixe sem quantia
O Décio faz a fritada
É aquela pingaiada, credo em cruz, ave-maria

Quando chega o mês de junho só vendo que maravilha


Tem a festa de São Pedro a promessa da família
A mulherada faz terço a Virginia forma quadrilha
Junto ao fogo da lareira
Tem trucada a noite inteira e ninguém joga sem ‘mania’

Liu e Léu chegou a hora, vem vindo à barra do dia


O Didi levanta cedo e os trabalhos principia
Faz um escaldado forte para aumentar a energia
O Antônio traz o leite, já correu a freguesia
Eu também vou ver meu eito
Pra vocês o meu respeito, temos Deus na companhia
Dever do Policial
Moda de Viola - (Tião Carreiro e Jesus Belmiro)

Ano de sessenta e seis, mês de dezembro surgiu


A noite do dia sete de desespero cobriu
Na cidade de Olímpia grande temporal caiu
A rua nove de julho parecia um grande rio
E um grito de socorro na escuridão se ouviu

Era uma voz de criança com a vida ameaçada


Pela forte correnteza estava sendo arrastada
Um corisco iluminou seu corpo na enxurrada
E um mocinho de fibra, de coragem redobrada
Correu em sua defesa sem ter receio de nada

A menina inconsciente com sacrifício tirou


Um socorro de urgência com perfeição aplicou
O brilho da luz da vida nos olhos dela voltou
Viu que era Marta Neves a menina que salvou
Levando ela nos braços para a família entregou

A família quis pagar, ele não quis receber


E se despediu dizendo: “Não precisa agradecer
Somente estou de folga quando nada acontecer
Na profissão que abraço de tudo aprendi fazer
Sou policial militar e só cumpri meu dever”
Saudosa Vida de Peão
Moda de Viola - (Tião Carreiro e Peão Carreiro)

Da minha vida de peão só recordação eu tenho guardada


Da peonada gritando, o berrante tocando chamando a boiada
Nas tardes quentes de agosto o suor do meu rosto coberto de pó
De quebrada em quebradas nas longas estradas só Deus tinha dó

No estado de Mato Grosso eu era bem moço, mas tinha coragem


Enfrentei o Pantanal, uma vida infernal laçando selvagem
Junto com meus companheiros cruéis pantaneiros tiramos de lá
No perigoso transporte encontrando com a morte a cada lugar

De passo a passo a boiada uma onça pintada às vezes seguia


Querendo matar sua fome o cheiro do homem a fera temia
O som do berrante manhoso, o andar preguiçoso da tropa cansada
Foi brutalidade, mas tenho saudade da vida passada

Ao deixar o estradão para o meu coração foi um forte veneno


Minha rede macia que nela eu dormia até no sereno
Expressos boiadeiros deixou os pioneiros com a vida arrasada
Acabou-se o berrante, o transporte elegante de uma boiada
Mineiro do Pé Quente
Moda de Viola - (Lourival dos Santos e J. dos Santos)

Mato Grosso é um gigante aonde eu piso devagar


Eu comparo esse estado um grande jequitibá
Que faz uma sombra amiga esperando quem chegar
Este estado hospitaleiro vou falar de um mineiro residente em Cuiabá

No dia seis de janeiro há muitos anos atrás


Nasceu na terra do milho no chão de Minas Gerais
Nasceu no dia de reis assim diziam seus pais
Acredito no destino vai ter sorte esse menino, Deus pra nós é bom demais

O menino foi crescendo com a fibra de mineiro


Ele pensava em silêncio seu talento era ligeiro
Honestidade e trabalho traz vitória e dinheiro
Pra ele não tinha erro, começou com três bezerros, mais tarde foi boiadeiro

Na enxada e na foice e no machado pegou


Foi carreiro, foi tropeiro, com caminhão trabalhou
No grande jogo da vida não perdendo só ganhou
Sua estrela só brilhava, Deus sempre o acompanhava por onde ele passou

Casou com dezoito anos, entregou seu coração


Quem faz um bom casamento tem um tesouro na mão
Com o seu consentimento vou dar minha opinião
Sua esposa companheira no seu lar é a roseira, cada filho é um botão

O mineiro está lá em cima lutando honestamente


Dono de uma grande empresa, dá emprego à muita gente
Sendo ele o grande esteio diretor e presidente
Falo a verdade e não minto, senhor Augusto Alves Pinto é mineiro do pé quente

Sua vida é um livro aberto que nem o tempo consome


Mostrou pra filho e parente que vencer honestamente
Não é impossível pro homem
Boi Veludo
Moda de Viola - (Lourival dos Santos e Jesus Belmiro)

Um jornal que sempre leio procurando distração


Eu encontrei bem no meio uma grande atração
Ia ter um grande torneio lá na minha região
Eu que sempre tive anseio num duelo de ação
Fui assistir um rodeio por nome de Furacão
Eu avistei bem no meio um boi da cor de carvão
O seu nome é Veludo, esse boi está com tudo
Não deixa nada pro peão

Peão que de longe veio com fama e tradição


Foi dizendo sem receio: “Já montei até no cão
Nunca precisei de freio pra montar em bicho pagão
Não vou precisar de reio pra quebrar o boi campeão
Hoje vou dar um passeio no lombo do Veludão”
O brinquedo ficou feio, bateu com a cara no chão
O pobre peão tremendo de medo saiu correndo
E trocou de profissão

Peão que não fizer feio vai ganhar um dinheirão


Está crescendo o rateio, dinheiro tem de montão
O lombo do boi é cheio, mas é liso igual sabão
Pra quebrar o seu galeio duvido que tenha peão
Nesta viola que eu ponteio vai aqui minha opinião
Boi veludo é um esteio, garantia do patrão
O boi veludo é um craque o amigo João Gargalak
Tem um tesouro na mão