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TRABALHO DECENTE

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Trabalho decente / COLEPRECOR ; Organizador James Magno


Araujo Farias. – São Paulo : LTr, 2017.

Vários autores.
Bibliografia.

1. Direito do trabalho – Brasil 2. Direitos fundamentais


3. Direitos humanos 4. Processo do trabalho 5. Relações de trabalho
I. COLEPRECOR – Colégio de Presidentes e Corregedores dos
Tribunais Regionais do Trabalho. II. FARIAS, James Magno Araujo.

17-08446 CDU-34:331(81)

Índice para catálogo sistemático:


1. Brasil : Direito do trabalho 34:331(81)
SUMÁRIO

PREFÁCIO ............................................................................................................................................ 7

1. PROCESSO TRABALHISTA ENVOLVENDO DOENÇAS OCUPACIONAIS. PRESENTE, PASSADO E


FUTURO .............................................................................................................................................. 9
Aloysio Corrêa da Veiga

2. A IMPORTÂNCIA DO DIREITO DO TRABALHO NA PROMOÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS .... 17


Lelio Bentes Corrêa

3. A PERSISTÊNCIA DA CULTURA ESCRAVOCRATA NAS RELAÇÕES DE TRABALHO NO BRASIL ..... 23


Kátia Magalhães Arruda

4. DIREITO FUNDAMENTAL AO AMBIENTE DE TRABALHO ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO..... 33


Augusto César Leite de Carvalho

5. A REFORMA TRABALHISTA E SEUS IMPACTOS NAS CONDIÇÕES DE TRABALHO DECENTE ........ 43


Delaíde Alves Miranda Arantes

6. O TRABALHO INFANTIL NA COLHEITA DO AÇAÍ NA ILHA DO MARAJÓ – PA ........................ 49


Suzy Elizabeth Cavalcante Koury

7. TRABALHO INFANTIL – TRABALHO QUE CEIFA A INFÂNCIA, OPORTUNIDADES E VIDAS .......... 57


Maria de Lourdes Leiria

8. A JURISDIÇÃO COMO MEIO DE TUTELA AO TRABALHO DECENTE ............................................. 69


Humberto Theodoro Júnior e Maria Beatriz Theodoro Gomes

9. TRABALHO DECENTE: O SISTEMA GERENCIALISTA DE PRODUÇÃO COMO ÓBICE? .................. 73


Ubirajara Carlos Mendes

10. A REPRESENTAÇÃO DE TRABALHADORES NA EMPRESA A PARTIR DA LEI N. 13.467/2017. PRI-


MEIRAS REFLEXÕES ............................................................................................................................. 89
Alexandre Teixeira de Freitas Bastos Cunha

11. SOFT LAW, HARD LAW E OS MECANISMOS DE COMBATE AO TRABALHO INFANTIL E ESCRAVO
NO BRASIL .......................................................................................................................................... 97
Denise de Fátima G. F. Soares Farias e James Magno Araujo Farias

—5—
12. ASSÉDIO MORAL E SEXUAL: TRATAMENTO PROSPECTIVO DOS CONFLITOS NO JUDICIÁRIO
TRABALHISTA ...................................................................................................................................... 115
Amanda Barbosa

13. A AUTORIZAÇÃO DE TRABALHO ARTÍSTICO INFANTIL: LIMITES E COMPETÊNCIA PARA


AUTORIZAÇÃO ................................................................................................................................... 127
Fausto Siqueira Gaia

14. EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS DO TRABALHADOR NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO ...... 135
Océlio de Jesús Carneiro de Morais

15. O TRABALHO NO CALL CENTER: UM OLHAR ATRAVÉS DO TRABALHO DECENTE ................... 143
Flávia Moreira Guimarães Pessoa e Mariana Farias Santos

16. TRABALHO INFANTIL, CULTURA E SOCIEDADE: DESAFIOS E O PREÇO DO FUTURO .............. 155
Bruno de Carvalho Motejunas

17. COMO SE FOSSE DA FAMÍLIA: INTERCONEXÃO ENTRE TRABALHO INFANTIL DOMÉSTICO,


RACISMO E GÊNERO .......................................................................................................................... 159
Rosaly Stange Azevedo e Cristina Grobério Pazó

—6—
PREFÁCIO

Trabalho decente, expressão que dá título, corpo e alma a este livro, deveria ser um pleonasmo vicioso, afinal,
todo trabalho deveria ser decente, principalmente em pleno século XXI, o século das tecnologias mais desenvolvi-
das, dos satélites, drones e da internet. Infelizmente, a Humanidade está longe do patamar de dignidade no trabalho
para todos. Prova disso é a quantidade de trabalhadores explorados, vilipendiados em seus direitos mais básicos,
crianças precocemente jogadas nos mercados informais, ou, segundo a organização Walk Free Foundation, os qua-
se quarenta milhões de trabalhadores escravizados no mundo. Para todos eles o trabalho decente é um conceito
vago e distante de sua pobre realidade.
A Conferência da Organização das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Social, ocorrida em 2005, na
Dinamarca, adotou o conceito de trabalho decente. No ano seguinte, a mesma diretiva foi tomada pelo Conselho
Econômico e Social das Nações Unidas, responsável pela aplicação do Pacto Internacional dos Direitos Econômi-
cos, Sociais e Culturais (PIDESC).
Em 2006, a Comissão Européia declarou que iria “Promover um trabalho decente para todos” (Promoting decent
work of all – The UE contribution to the implementation of the decent work agenda in the world), na qual foi reite-
rado o compromisso político de inserir o trabalho decente nos acordos comerciais da União Europeia.
A Organização Internacional do Trabalho declarou em 2008 que deveria existir Justiça social para haver uma
globalização justa. E, em 2010, a campanha mundial da OIT teve como tema o “Trabalho decente para todos (de-
cent work for all)”.
Verifica-se, desde logo, a importância e atualidade do tema deste livro, a segunda obra coletiva do COLEPRE-
COR, que tem a árdua missão de suceder o exitoso pioneiro “O Judiciário Trabalhista na atualidade”, publicado
também pela LTr Editora, na gestão coordenada pelos desembargadores Valtércio Ronaldo de Oliveira e Denise
Alves Horta, em 2015.
A sugestão deste tema veio de um diálogo com a Ministra Kátia Magalhães Arruda, que, sempre lúcida e muito
sensível aos tempos sociais confusos que vivemos, sugeriu a idéia, acolhida imediatamente pela diretoria atual do
Colégio de Presidentes e Corregedores, composta por mim e pelas queridas e atuantes desembargadoras Maria de
Lourdes Leiria e Maria Beatriz Theodoro Gomes, que me socorreram na difícil tarefa de organizar este livro.
Fomos brindados com textos de enorme profundidade jurídica e muita sensibilidade social. O resultado foi
excelente!
O Ministro Aloysio Corrêa da Veiga escreveu sobre o “PROCESSO TRABALHISTA ENVOLVENDO DOENÇAS
OCUPACIONAIS. PRESENTE, PASSADO E FUTURO”.
O Ministro Lélio Bentes Corrêa discorreu sobre “A IMPORTÂNCIA DO DIREITO DO TRABALHO NA PROMO-
ÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS”.
A Ministra Kátia Magalhães Arruda analisou “A PERSISTÊNCIA DA CULTURA ESCRAVOCRATA NAS RELA-
ÇÕES DE TRABALHO NO BRASIL”.
O Ministro Augusto César Leite de Carvalho discorreu sobre o “DIREITO FUNDAMENTAL AO AMBIENTE DE
TRABALHO ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO”.
A Ministra Delaíde Alves Miranda Arantes escreveu sobre “A REFORMA TRABALHISTA E SEUS IMPACTOS NAS
CONDIÇÕES DE TRABALHO DECENTE”.
A presidente do TRT da 8ª Região (PA/AP), a desembargadora Suzy Elizabeth Cavalcante Koury escreveu sobre
“O TRABALHO INFANTIL NA COLHEITA DO AÇAÍ NA ILHA DO MARAJÓ: RIO CANATICU, MUNICÍPIO DE
CURRALINHO (ILHA DO MARAJÓ, ESTADO DO PARÁ)”.

—7—
A desembargadora e corregedora do TRT da 12ª Região (SC) Maria de Lourdes Leiria discorreu sobre “TRABALHO
INFANTIL – TRABALHO QUE CEIFA A INFÂNCIA, OPORTUNIDADES E VIDAS”.
O brilhante professor e desembargador Humberto Theodoro Junior e a presidente do TRT da 23ª Região (MT),
a desembargadora Maria Beatriz Theodoro Gomes, nos brindaram com o ensaio conjunto “A JURISDIÇÃO COMO
MEIO DE TUTELA AO TRABALHO DECENTE”.
O desembargador corregedor do TRT da 9ª Região Ubirajara Carlos Mendes discorreu sobre “TRABALHO DE-
CENTE: O SISTEMA GERENCIALISTA DE PRODUÇÃO COMO ÓBICE?
O desembargador do TRT da 1ª Região Alexandre Teixeira de Freitas Bastos Cunha escreveu sobre “A REPRE-
SENTAÇÃO DE TRABALHADORES NA EMPRESA A PARTIR DA LEI N. 13.467/2017”.
O artigo “SOFT LAW, HARD LAW E OS MECANISMOS DE COMBATE AO TRABALHO INFANTIL E ESCRAVO
NO BRASIL” foi escrito em co-autoria por mim e pela professora Denise de Fátima Gomes de Figueiredo Soares
Farias.
A juíza Amanda Barbosa do TRT da 15ª Região escreveu o artigo “ASSÉDIO MORAL E SEXUAL: TRATAMENTO
PROSPECTIVO DOS CONFLITOS NO JUDICIÁRIO TRABALHISTA”.
O juiz do TRT da 17ª Região Fausto Siqueira Gaia escreveu sobre “A AUTORIZAÇÃO DE TRABALHO ARTÍS-
TICO INFANTIL: LIMITES E COMPETÊNCIA PARA AUTORIZAÇÃO”.
O juiz do TRT da 8ª Região(PA/AP) Océlio de Jesús Carneiro de Morais “EM DEFESA DOS DIREITOS HUMA-
NOS DO TRABALHADOR NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO”.
A juíza do TRT da 20a Região (SE) Flávia Moreira Guimarães Pessoa e a professora Mariana Farias Santos escre-
veram o artigo conjunto “O TRABALHO NO CALL CENTER: UM OLHAR ATRAVÉS DO TRABALHO DECENTE”.
O juiz do TRT da 16ª Região(MA) Bruno de Carvalho Motejunas discorreu sobre “TRABALHO INFANTIL,
CULTURA E SOCIEDADE: DESAFIOS E O PREÇO DO FUTURO”.
A juíza do TRT da 17ª Região Rosaly Stange Azevedo e a professora Cristina Grobério Pazó escreveram o
tocante artigo “COMO SE FOSSE DA FAMÍLIA: INTERCONEXÃO ENTRE TRABALHO INFANTIL DOMÉSTICO,
RACISMO E GÊNERO”.
Os articulistas focaram seus estudos na análise dos complexos elementos laborativos, emitindo preciosas opi-
niões sobre as possibilidades de desenvolvimento de alternativas jurídicas, legais e sociais sobre o tema, sempre
em busca de seu aperfeiçoamento e evolução.
O resultado, longe de ser um diagnóstico melancólico, é um retrato sensível e lúcido do trabalho em sua per-
cepção de dignidade, decência e valor.
Eu desejo uma ótima e profícua leitura a todos!

Des. JAMES MAGNO ARAUJO FARIAS


Presidente do TRT da 16ª Região e do COLEPRECOR

—8—
1

PROCESSO TRABALHISTA ENVOLVENDO DOENÇAS


OCUPACIONAIS. PRESENTE, PASSADO E FUTURO
ALOYSIO CORRÊA DA VEIGA(*)

“Um operário de uma linha de montagem, em plena revolução industrial, na passagem da produção artesanal para a
produção em série, se submetia a uma forma de trabalho não mais de acordo com suas condições físicas e psicológicas,
mas para produzir para o patrão com o fim de visar sempre um maior lucro, sem que este se importasse com as condições
de seus trabalhadores. O trabalho, cada vez mais rápido, num ritmo frenético e monótono, por sempre fazer a mesma
coisa, leva o operário a um colapso nervoso. Após um longo período em um sanatório ele fica curado de sua crise nervosa,
mas desempregado”(1).

1. INTRODUÇÃO pelos trabalhadores, em geral camponeses, artesãos,


agricultores, pedreiros.
Para tratar sobre Doença Ocupacional, o que ela O francês arcaico recebeu o termo Trabalho, do
representa nas estatísticas da Justiça do Trabalho, o en-
latim, como Travailler, no sentido de “sentir dor” e,
frentamento dessas questões pelo judiciário trabalhista
com o tempo, passou a designar uma atividade exaus-
e o método ideal para solução dos conflitos de inte-
tiva. Somente no Século XIV é que se começa atribuir
resse, precisamos ter presente que o Trabalho sempre
à palavra trabalho o sentido de aplicação das forças
representou, para nós, uma relação de penosidade.
e faculdades intelectuais para alcançar determinado
Desde o antigo testamento, no gênesis, o Trabalho fim.
tem o seu significado vinculado a um sofrimento, não
distante da noção de pena, castigo, na medida em que Com a revolução industrial o termo trabalho se tor-
a condenação do homem foi a de que “ganharás o pão na gênero para designar a atividade produtiva.
com o suor do teu rosto”. É na revolução industrial que surge, como conse-
Basta relembrar que a origem da palavra Traba- quência, o processo tecnológico que transformou os
lho, do latim tripalium, termo formado pela junção meios produtivos que, cada vez mais se sofisticaram,
do numeral três e de palium, que quer dizer madeira. trazendo novas formas de trabalho.
Tripalium, então, é o nome de um instrumento cons- Se, na antiguidade e na idade média, o trabalho era
tituído de três estacas de madeira, bastante afiadas, realizado pelos pobres e pelos escravos, o que perdurou
utilizado para tortura e bastante comum na Europa até a revolução francesa, o descaso com a saúde do
em tempos remotos. Trabalhar, por isso, significava ser trabalhador era absoluta.
torturado. As doenças ocupacionais (profissionais e do traba-
Os escravos e os pobres, porque não podiam pagar lho) ganham relevo, sem que haja qualquer preocupa-
impostos, eram os que sofriam as torturas do tripalium. ção da sociedade com os transtornos decorrentes das
Por isso que a ideia de trabalhar tinha estreita re- doenças a que eram vitimados os trabalhadores no exer-
lação com as atividades físicas produtivas realizadas cício da atividade profissional.

(*) Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Membro da Academia Brasileira de Direito do Trabalho e da Academia Brasiliense,
Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros e Professor Honoris Causa da Universidade Católica de Petrópolis.
(1) Charlie Chaplin – Tempos Modernos – fevereiro de 1936.

—9—
É clássica a inspiração de Charlie Chaplin ao lizar os sindicatos. Esta forma de contratação tem reve-
transmitir a saga do trabalhador, submetido ao traba- lado um aumento significativo de acidentes de trabalho
lho exaustivo, igual, em modo contínuo, com rapidez, e de doenças ocupacionais.
até levá-lo a loucura, a internação por longo tempo em O abandono do trabalhador, vítima de doença
sanatório, a cura e o desemprego, como visto acima na ocupacional ou de acidente no trabalho, demonstra, no
menção ao filme de 1936, na obra imortal de “Tempos decorrer da história, a desconsideração e o desprezo da
Modernos”. sociedade com o homem, que seria, ao fim, o destina-
É nesse cenário que se desenvolve a atividade eco- tário do bem estar social.
nômica, empresarial e a atividade profissional, num
ambiente em que o trabalhador era relegado à própria 2. SAÚDE DO TRABALHADOR
sorte, sem que houvesse o compromisso social de se
proporcionar um ambiente de trabalho seguro e sau- Na atualidade, o aumento da incidência de doen-
dável, de modo a possibilitar o exercício da atividade ças ocupacionais e de acidentes de trabalho decorre do
profissional sem os transtornos das doenças decorrentes fenômeno econômico da globalização que transformou
do trabalho e, sem os riscos da ocorrência de acidentes de o conceito de mercado. Há uma busca desenfreada
trabalho. por maior competitividade, com rapidez na produção
Pode-se então sintetizar a evolução do trabalho na e, com custo baixo, para chegar ao resultado do con-
história em seis fases distintas: sumo imediato e lucrativo. Tal mudança terminou por
A primeira fase é a da produção pela subsistência, afetar a forma de trabalhar, exigindo qualificação e pre-
limitando-se à caça e à pesca, como realizada pelos paro, com o fim de atingir a qualidade indispensável
homens primitivos. para competir no mercado. Para tanto, os empregados
são submetidos à cobrança de metas exaustivas e ina-
A segunda fase é a da produção artesanal (agrícola
tingíveis, num ritmo alucinante, com intensa pressão
e pastoreio), na qual o homem arava a terra, plantava,
psicológica, a resultar, consequentemente, no aumento
cultivava, colhia e armazenava, e o excesso era meio de assustador das doenças ocupacionais.
troca ou de venda.
A partir de 14 de novembro de 2017 entrará em
A terceira fase, a da Produção Industrial, quando se vigor a Lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017 (DOU 14
deu a descoberta da energia hidráulica, com a máquina de julho de 2017), que traz fortes alterações aos direi-
a vapor e a eletricidade. É de 1738 a invenção da má- tos relacionados com a saúde, higiene e segurança do
quina de fiar. A revolução industrial se deu na Inglaterra trabalho. A referida lei resulta do projeto de Reforma
no período de 1760 a 1830, quando houve concentra- Trabalhista (Projeto de Lei n. 6.787, de 2016), enca-
ção de grande quantidade de trabalhadores na empresa, minhado pelo Poder Executivo, e “altera o Decreto-Lei
e também número enorme de acidentes de trabalho. n. 5.452, de 1º de maio de 1943 – Consolidação das
A quarta fase ficou conhecida na história como a Leis do Trabalho, e a Lei n. 6.019, de 3 de janeiro de
da “produção em série”, na qual o trabalhador deveria 1974, para dispor sobre eleições de representantes dos
fazer sempre o mesmo tipo de trabalho, com o fim de trabalhadores no local de trabalho e sobre trabalho tem-
acelerar a produção (Henri Ford -1905). porário, e dá outras providências”.
A quinta fase é a da automação tecnológica – Reen- Com efeito, os dispositivos que irão refletir na
genharia/Robótica, na qual a produção automatizada higidez física e mental do trabalhador são aqueles do
termina por reduzir a força de trabalho na empresa, art. 4º, no tocante à supressão do tempo à disposição
com o consequente fechamento de postos de trabalho, do empregador; do art. 58 § 2º, em relação à supressão
decorrentes da globalização que está a exigir, cada vez das horas in itinere ; dos arts. 58-A, § 6º, 7º, 134 relati-
mais, novas regras, entre elas qualidade, competitivida- vamente às férias e ao seu fracionamento; dos arts. 75-A
de e baixo custo da produção para uma maior inserção a 75-E sobre o teletrabalho; do art. 394-A referente ao
no mercado. adicional de insalubridade e proteção à maternidade;
A sexta fase, e última, é a dos serviços terceiriza- do art. 452 no tocante ao trabalho intermitente e sua
dos. A terceirização da mão de obra, com o fim de bai- natureza precária e temporária, e enfim, e não menos
xar o custo da produção, tem demonstrado a opção pela importante, do art. 611-A versando sobre a prevalência
prestação de serviços com a contratação do trabalhador da negociação coletiva sobre a legislação no que diz
diretamente pelo tomador dos serviços. Não se contra- respeito à duração do tempo de trabalho (e.g. incisos I,
ta mais empregado, o que termina na precarização da II, III, VIII, XI, XII, XIII).
mão de obra, com a perda de direitos já consagrados e Apenas e quando da aplicação da norma legal
conquistados pela categoria profissional, além de fragi- aos contratos de trabalho, será possível compreender

— 10 —
o alcance das normas à realidade das novas relações Hoje, no Brasil, a Lei n. 8.213, de 24 de julho de
de trabalho, inclusive em relação ao aparente conflito 1991, define as doenças ocupacionais e o acidente de
entre o art. 611-A e art. 611-B relativamente à licitude trabalho.
da derrogação de dispositivos de ordem pública, nota- Dentre as doenças ocupacionais temos as doen-
damente, os que dispõem sobre a duração do trabalho ças profissionais e as doenças do trabalho. Não são
e os intervalos para repouso e alimentação. elas expressões sinônimas. São doenças distintas que
se desenvolvem no curso da vida profissional, diante do
3. DOENÇA OCUPACIONAL E ACIDENTE DE contato com agentes nocivos e agressivos, presentes no
TRABALHO ambiente do trabalho ou decorrentes do exercício das
funções desempenhadas na empresa.
A segurança e a higiene no ambiente do trabalho
nem sempre foi objeto de cuidado especial nos meios 4. DOENÇA PROFISSIONAL
de produção.
Na revolução industrial mais se acentua a exis- A doença profissional “é decorrente da função que
tência de locais impróprios para o trabalho, onde os o trabalhador exerce ou da ocupação profissional”(4). A
operários permaneciam por toda a jornada, a traba- doença profissional, portanto, é aquela provocada pe-
lhar, descansar e se alimentar, como no caso das si- lo trabalho, como define o inciso I do art. 20, da Lei
derúrgicas, num ambiente cuja temperatura chegava n. 8.213/91, ao estabelecer:
a 500 graus centígrados, convivendo com materiais
altamente inflamáveis. Isso na Inglaterra no final do I – doença profissional, assim entendida a produzida ou
século XIX. desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a de-
terminada atividade e constante da respectiva relação
O primeiro marco regulatório de que se tem notí-
elaborada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência
cia, de proteção ao trabalhador, é a Lei aprovada pelo Social;
Parlamento Inglês, em 1802 – Lei da Saúde Moral dos
Aprendizes, que estabelecia o limite de 12 horas de tra- A exposição cotidiana do trabalhador ao meio am-
balho por dia e proibia o trabalho noturno. biente do trabalho, cuja agressividade pode resultar em
Na Alemanha, a primeira legislação a tratar, espe- enfermidades graves, como doenças respiratórias, cân-
cificamente, de acidente do trabalho, instituída por Otto ceres e outras lesões, necessitam de uma proteção espe-
Von Bismark, na década de 1880, além de instituir o cífica. A saúde é um direito fundamental, como previsto
seguro de acidente, doença e invalidez, entre outras, no art. 6º da Constituição Federal, daí que não pode a
inspirou, sem dúvida, diversos países da Europa. atividade empresarial se omitir na adoção de um meio
Na França, nos conta A. Colin e Henri Capitant, a ambiente de trabalho em que haja uma preocupação
Lei de 9 de abril de 1898, em matéria de acidente de tra- com a segurança e a saúde do trabalhador.
balho, veio a regular a responsabilidade da empresa nos Todos sabem das consequências nefastas do traba-
acidentes em que os obreiros são vítimas, afastando-se, lho com amianto, por exemplo. A exposição ao asbesto
já naquela época, do conceito de culpa, para substituir provocou, e ainda tem provocado, doenças profissionais
por outro conceito, o da responsabilidade objetiva, a do que chegam a morte. A exposição ao agente agressivo é
risco profissional(2). conhecida como a morte lenta. Existe um movimento,
No Brasil, apenas nas primeiras décadas do Sécu- cada vez mais crescente no sentido de abolir o uso do
lo XX, norma legal de proteção do trabalhador, sobre amianto no Brasil. Sabidamente o trabalhador exposto
acidente de trabalho, foi aprovada pelo Decreto Le- ao asbesto poderá desenvolver vários tipos de cânceres
gislativo n. 3.724, de 15 de janeiro de 1919, sendo, e só irá tomar conhecimento da doença muitos anos
por isso, a nossa primeira Lei de Acidentes de Trabalho após, o que impõe a adoção de medidas eficazes de
e nela estabelecia que o trabalhador acidentado não proteção ao trabalhador.
precisa obter qualquer prova da culpa do patrão para Como a exposição ao amianto, que caracteriza
ter direito a indenização, como se extraia do art. 2º da doença profissional, cita-se como exemplo outras como
citada Lei(3). o saturnismo, provocado pela exposição ao chumbo, a

(2) COLIN, Ambrosio; CAPITANT, H. Curso Elemental de Derecho Civil. Tomo III, Teoria General de Las Obligaciones. Madrid: Reus,
1960. p. 837-838.
(3) Disponível em: <https://www.camara.leg.br>. Publicado no Diário Oficial da União de 18.01.1919 – Seção 1, p. 1.013.
(4) MARTINEZ, Wladimir Novaes. Comentários à Lei Básica da Previdência Social. São Paulo: LTr, p. 111.

— 11 —
bissinose, causada pela fibra do algodão, que necessi- ria, da capacidade para o trabalho. (Redação dada pela
tam uma atenção especial, no sentido de desenvolver Lei Complementar n. 150, de 2015)
meios eficazes para proteção do ambiente de trabalho.
São igualmente considerados acidentes de trabalho
as entidades mórbidas previstas no art. 20 da citada Lei,
5. DOENÇA DO TRABALHO denominados de acidentes de trabalho atípicos, verbis:
Doença do trabalho, afirma o Professor Wladimir Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos
Novaes Martinez, é aquela que resulta das condições do artigo anterior, as seguintes entidades mórbidas:
do exercício das funções, do ambiente do trabalho ou I – doença profissional, assim entendida a produzida ou
dos instrumentos utilizados na atividade laboral(5). A Lei desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a deter-
n. 8.213, também define a doença do trabalho no inciso minada atividade e constante da respectiva relação elabo-
II do art. 20, verbis: rada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social;
II – doença do trabalho, assim entendida a adquirida
II – doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em
ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione dire-
que o trabalho é realizado e com ele se relacione dire- tamente, constante da relação mencionada no inciso I.
tamente, constante da relação mencionada no inciso I. § 1º Não são consideradas como doença do trabalho:
a) a doença degenerativa;
As doenças do trabalho mais comuns, na atualida-
de, são: Ler, Dort, hipertensão, ansiedade, depressão; es- b) a inerente a grupo etário;
sas últimas provocadas pelas pressões sofridas no curso c) a que não produza incapacidade laborativa;
da relação de emprego, com a cobrança exagerada de d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante
metas associada ao temor da perda de emprego, entre de região em que ela se desenvolva, salvo comprovação
elas a depressão, a síndrome de burnout, entre outras. de que é resultante de exposição ou contato direto de-
terminado pela natureza do trabalho.
O afastamento do empregado do trabalho, em au-
§ 2º Em caso excepcional, constatando-se que a doença
xílio doença, diante do aumento expressivo de casos de não incluída na relação prevista nos incisos I e II deste
doenças do trabalho e diante das variadas espécies de artigo resultou das condições especiais em que o trabalho
doenças é necessário ressaltar a importância da ergono- é executado e com ele se relaciona diretamente, a Pre-
mia no sistema de gestão das empresas modernas, no sen- vidência Social deve considerá-la acidente do trabalho.
tido de prevenir acidentes e doenças ocupacionais. Cada
vez mais, investe a atividade empresarial na ergonomia, A preocupação com a incidência de Acidentes de
no sentido de proporcionar um ajuste produtivo, confor- Trabalho e a quantidade de pessoas acidentadas no Brasil,
tável e seguro, no sentido de adaptar o trabalho à pessoa. tem provocado debates nos mais diversos segmentos da
sociedade no sentido de identificar e adotar meios efica-
6. ACIDENTE DE TRABALHO zes de prevenção de acidente, com a utilização de equi-
pamentos de proteção individuais e coletivos eficazes,
Considera-se acidente do trabalho aquele que de- que possam, efetivamente, impedir os efeitos dos aciden-
corre do exercício da atividade laborativa a serviço da tes que decorrem do exercício da atividade profissional.
empresa, ou ainda pelo exercício do trabalho dos segu- Pesquisas do fórum sindical dos trabalhadores, em
rados especiais, provocando lesão corporal ou perturba- audiência pública na Comissão de Direitos Humanos
ção funcional que cause morte, a perda ou redução da do Senado Federal (CDH), demonstrou que mais de
capacidade para o trabalho permanente ou temporário. 4.000 pessoas morrem no Brasil em decorrência de aci-
O conceito de acidente de trabalho vem consagra- dentes de trabalho. No ano de 2010 aconteceram, em
do no art. 19 da Lei n. 8.213/91, verbis: média, 2.000 acidentes de trabalho, por dia.

Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercí- 7. EFEITOS DA PROTEÇÃO
cio do trabalho a serviço de empresa ou de empregador
doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados As doenças ocupacionais e os acidentes de traba-
referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lho apresentam consequências importantes na relação
lesão corporal ou perturbação funcional que cause a de emprego, na normalidade da empresa, e na vida do
morte ou a perda ou redução, permanente ou temporá- empregado.

(5) Op. e p. cit.

— 12 —
O empregado porque sofre as consequências A responsabilidade civil, para ficar comprovada,
das lesões causadas pela doença ocupacional ou pelo dependeria do preenchimento de pressupostos como o
acidente de trabalho; o empregador porque necessita dano, o nexo causal e a culpa, porque decorria da ação
envidar esforços de manter um ambiente de trabalho ou omissão voluntária, por negligência ou imprudência
equilibrado, saudável e proporcionar condições de se- do causador, com o dano demonstrado e, só assim, sur-
gurança indispensáveis ao funcionamento de sua ativi- gia o dever de indenizar.
dade, com o fim de se eximir da responsabilidade. O Código Civil de 2002 repete, no art. 186, o prin-
A consequência imediata decorrente do acidente cípio consagrado no Código de 1916, com pequena al-
do trabalho ou da existência da doença ocupacional é a teração, verbis:
suspensão do contrato de trabalho e o reconhecimento
Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária,
da garantia provisória do emprego, como se depreende do
negligência ou imprudência, violar direito e causar
art. 118 da Lei n. 8.213/1991:
dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, co-
Art. 118. O segurado que sofreu acidente do trabalho mete ato ilícito.
tem garantida, pelo prazo mínimo de doze meses, a ma-
A responsabilidade subjetiva, no entanto, não foi
nutenção do seu contrato de trabalho na empresa, após
suficiente para definir com exaurimento todas as situa-
a cessação do auxílio-doença acidentário, independen-
ções que pudessem importar em responsabilidade de
temente de percepção de auxílio-acidente.
alguém, ainda que não houvesse culpa, apenas e tão
Além da questão previdenciária, haverá a respon- somente porque o dano sofrido decorre do exercício
sabilidade civil do empregador, podendo os efeitos ser de uma atividade que, por sua natureza, é capaz de
de ordem material e de ordem moral, já que o dano so- implicar riscos para a segurança e para a saúde do tra-
frido, na maioria das vezes, é irreversível, o que resulta balhador, acima da média do que é da ação comum
na responsabilidade do empregador de ressarcir o em- de toda a coletividade. Quando isso ocorre, não irá se
pregado, ou seus sucessores, pelos danos sofridos e que perquirir a culpa do agente, bastando para configurar a
decorrem da doença ocupacional ou do acidente de tra- responsabilidade, demonstrar, como pressupostos o da-
balho, como previsto no art. 121 da Lei Previdenciária: no e sua relação com o trabalho desenvolvido. É a teoria
da responsabilidade objetiva, como retrata o parágrafo
Art. 121. O pagamento, pela Previdência Social, das único do art. 927 do Código Civil:
prestações por acidente do trabalho não exclui a res-
ponsabilidade civil da empresa ou de outrem. Art. 927. Aquele que por ato ilícito (arts. 186 e 187),
causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.
É por isso que, na atualidade, não se pode mais Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano,
conceber a atividade empresarial sem qualidade de ges- independentemente de culpa, nos casos especificados
tão, onde se tenha a verdadeira noção do risco desta em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvi-
atividade, com consequências econômicas violentas, da pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco
diante das indenizações que se somam aos afastamentos para os direitos de outrem.
intermináveis de empregados no emprego, o que resulta
em prejuízos inestimáveis de modo a não restar opção Na teoria subjetiva, a culpa é pressuposto da res-
senão a de investir nas ações preventivas, com medidas ponsabilidade, de modo que o agente causador do dano
só responderá se tiver agido com dolo ou culpa, isto é,
profissionais capazes de viabilizar ações saneadoras da
por ação ou omissão voluntária, com negligência ou
doença ocupacional e do acidente do trabalho.
imprudência, causando dano a outrem.
Na teoria objetiva, a responsabilidade se dará se
8. RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR
caracterizado o dano e a relação dele com a atividade
desenvolvida, o que torna incabível indagar-se sobre a
Todo aquele que causa um dano a outrem fica
existência ou não de culpa do agente causador do dano.
obrigado, integralmente, a repará-lo, respondendo pela
indenização correspondente ao dano causado. Como visto, para que haja a responsabilidade sub-
jetiva é necessária a demonstração, ou seja, a prova da
Para tanto, o Código Civil de 1916, consagrava no
culpa do agente. Para que haja, por outro lado, a res-
art. 159 a teoria da responsabilidade subjetiva, ao estatuir:
ponsabilidade objetiva, basta apenas o dano ocorrido
Art. 159. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, pelo risco da atividade.
negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar As indenizações por acidente do trabalho e pelas
prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano. doenças ocupacionais têm fundamento, em princípio,

— 13 —
na responsabilidade subjetiva, estando a exigir a com- justiça do trabalho, por força da alteração consagrada
provação da culpa para dar fundamento ao direito de a no atual art. 114, inciso VI, da Constituição Federal(6).
vítima obter a reparação do dano. De lá para cá, as causas em que se discute o acidente do
A responsabilidade subjetiva, no entanto, diante trabalho e as doenças a ele equiparadas, bem assim to-
da realidade moderna, não foi suficiente para responder da e qualquer doença ocupacional vieram para a justiça
ao conflito de interesses decorrente das transformações do trabalho, que passou a conhecer desses conflitos.
dos meios de produção, a revolução tecnológica com O número de ações trabalhistas em que se preten-
os perigos decorrentes do risco da atividade, termina- de a reparação civil, decorrente de a vítima ter adqui-
ram por deixar ao desamparo diversos acidentados e rido doença ocupacional e por ter sofrido acidente de
com doenças adquiridas no trabalho sem qualquer re- trabalho é cada vez maior, justificando-se, na maioria
paração da lesão sofrida, por falta absoluta de possibili- dos casos, pela precarização das relações de trabalho.
dade de comprovar a culpa do agente causador. A pretensão é de reparação do dano material e do
A doutrina e a jurisprudência, diante da nova rea- dano moral, causados pelas lesões de que são porta-
lidade, diante dos riscos acentuados da vida moderna, dores. No que toca ao dano material que, na realida-
cria alternativa para abranger a responsabilidade nes- de, são os danos patrimoniais, subdividem-se em: dano
sas atividades em que o dano tem previsão no risco da emergente, que se traduz naquilo que, efetivamente, a
atividade econômica. A doutrina da responsabilidade vítima perdeu; lucro cessante, aquele valor patrimonial
objetiva surge na França, em 1897, quando Raymond que a vítima deixou de ganhar, e indenização pela per-
Salleilles publica um ensaio sobre a teoria objetiva da da de uma chance, que são os prejuízos decorrentes da
responsabilidade pelo ato delituoso, e a Lei de Aciden- impossibilidade do progresso profissional.
te do Trabalho de 1898, que afastou a culpa no acidente O dano material, a princípio, depende de prova
do trabalho para consagrar a obrigação de o empregador do prejuízo sofrido. Já o dano moral é o que decor-
indenizar a vítima do acidente, independentemente da re do agravo sofrido pela vítima, em razão do acidente
culpa, no que foi acompanhado posteriormente por e da lesão da qual foi vítima e da ofensa a sua honra
Josserrand. subjetiva.
Na responsabilidade objetiva basta a vítima de- Nesse sentido, precedentes do c. Tribunal Superior
monstrar o dano e a relação com a atividade desenvol- do Trabalho, de minha lavra:
vida, para que subsista o dever de indenizar. Os riscos
da atividade devem ser suportados por aquele que dela RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO NA VIGÊNCIA
se beneficia. DA LEI N. 13.015/2014. (...) DANOS MATERIAIS EMER-
Em síntese, a responsabilidade civil, na justiça do GENTES. DOENÇA OCUPACIONAL. NECESSIDADE
trabalho, pode ser subjetiva ou objetiva. Na subjetiva, DE EFETIVA COMPROVAÇÃO. Caracterizam os danos
que depende da prova da culpa do agente, o nexo de materiais emergentes como o efetivo prejuízo sofrido
pela vítima em face de ato ilícito praticado por outrem,
causalidade é o elemento de conexão entre a condu-
consoante se depreende do art. 402 do CC. Mostra-se
ta culposa do agente e o dano sofrido pela vítima, en-
imprescindível, assim, a comprovação do prejuízo pa-
quanto que, na responsabilidade objetiva, o nexo de
trimonial alegado, não se admitindo seja arbitrado valor
causalidade é o elemento de conexão entre o dano e a
em dissonância com as provas. Registrado pelo eg. Tri-
atividade desenvolvida.
bunal Regional que o reclamante comprovou a existên-
cia de gastos decorrentes da doença ocupacional que o
9. PROCESSO TRABALHISTA acomete, devido o ressarcimento dos valores gastos no
limite do que efetivamente comprovado. Precedentes.
As reclamações trabalhistas sobre o tema das doen- Recurso de revista conhecido e provido. (...) (RR – 630-
ças ocupacionais e do acidente do trabalho, no que diz 61.2013.5.04.0811, Relator Ministro: Aloysio Corrêa da
respeito à solução dos conflitos de interesse, entre tra- Veiga, Data de Julgamento: 31.08.2016, 6ª Turma, Data
balhador e empresa, nem sempre foram julgadas pela de Publicação: DEJT 02.09.2016)
justiça do trabalho. A competência para conhecer des- RECURSO DE REVISTA. INDENIZAÇÃO POR DANO
ses conflitos era da justiça comum. Com a promulgação MORAL. DOENÇA PROFISSIONAL. HÉRNIA DE DIS-
da Emenda Constitucional 45, de dezembro de 2004, CO NA COLUNA LOMBAR. DANO IN RE IPSA. DES-
houve uma ampliação significativa da competência da NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO DANO PELA

(6) Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho julgar:


(...) VI – as ações de indenização por dano moral ou patrimonial, decorrentes da relação de trabalho;

— 14 —
VÍTIMA. A delimitação regional é de que o reclamante, desconhecimento do direito do trabalho e das condi-
é portador de doença profissional, qual seja hérnia de ções de trabalho para que possa avaliar de forma pro-
disco na coluna lombar, tendo sido constatada, ainda, funda a saúde, as condições do reclamante, a existência
a incapacidade parcial e temporária para o trabalho. A da doença, se há história de que a doença seja prece-
constatação do dano de natureza moral prescinde da
dente ao emprego; se há concausa, isto é, a manifesta-
comprovação, in concreto, da ocorrência do agravo,
ção do agravamento da doença preexistente, em face do
pois, para tal modalidade de dano, a responsabilidade
surge tão logo se verifica o fato da violação (damnun in trabalho prestado.
re ipsa), não havendo que se cogitar de prova do sofri- Antes do advento do Código de Processo Civil de
mento ou de prova do dano moral. Recurso de revista 2015, na vigência do Código de 1973, o perito era da
conhecido e provido para condenar a reclamada ao pa- confiança do Juiz que o nomeava, determinando às par-
gamento de indenização por dano moral decorrente de tes que apresentassem quesitos e indicassem assisten-
doença profissional no importe de R$ 5.000,00. (...) (RR tes técnicos. No prazo determinado, o perito do Juiz
– 208400-03.2009.5.02.0461, Relator Ministro: Aloysio
apresentava o seu laudo e os assistentes técnicos, ha-
Corrêa da Veiga, Data de Julgamento: 21.05.2014, 6ª
vendo divergência, apresentava o seu laudo em sepa-
Turma, Data de Publicação: DEJT 01.07.2014)
rado. As partes se manifestavam, com possibilidade de
Há, também, a indenização por dano estético, impugnação do laudo pericial, podendo o perito, por
quando a lesão sofrida no acidente de trabalho deixa determinação do juiz, ser ouvido em audiência ou se
sequelas físicas com deformidade. manifestar por escrito. Exigia-se do perito a formação
A formação do processo exige a observância de de nível universitário.
atos processuais, que devem ser praticados, com ob- O novo código de processo civil trouxe grande e
servância ao devido processo legal, para se chegar à sensível modificação na realização da prova pericial. A
sentença justa. grande mudança começa com a determinação legal de
A atuação do poder judiciário se dá pela provoca- que o juiz será assistido por perito quando a prova do
ção da parte com a petição inicial. Citado o emprega- fato depender de conhecimento técnico ou científico.
dor, ele apresentará sua defesa em audiência, na qual se Regra contida no art. 156 do atual código de processo
inicia a fase conciliatória e, frustrada, dá ensejo à fase civil. Não mais se trata de uma faculdade do Juiz, mas
probatória e esta, no caso das doenças ocupacionais e uma imposição legal de que ele será assistido por perito
do acidente do trabalho, são de extrema importância, naqueles casos.
diante do conteúdo técnico que se reveste o diagnós-
Outra inovação foi a de que os peritos serão no-
tico, sobretudo da doença profissional e da doença do
trabalho. Todos os meios, desde que moralmente legí- meados entre os profissionais legalmente habilitados e
timos, são válidos para se demonstrar a verdade de um os órgãos técnicos e científicos devidamente inscritos
fato em juízo. em cadastro mantido pelo tribunal. O que outrora era o
perito nomeado segundo critério subjetivo do juiz, hoje
Para apuração da verdade sobre os fatos alegados
o critério de nomeação se vincula aos profissionais legal-
pela vítima da doença profissional de doença do tra-
balho, o Juiz, normalmente, dependerá de uma prova mente habilitados e que constam do cadastro mantido
pericial, na qual se auxilia de peritos, para supri-lo das pelo tribunal. O cadastro será formado pelos tribunais,
condições indispensáveis para que possa aplicar a lei mediante consulta pública, por meio de divulgação da
no caso concreto. rede mundial de computadores ou em jornais de grande
A perícia há que ser realizada, sempre, por profis- circulação, além da possibilidade de consultar universi-
sional portador de conhecimentos técnicos científicos dades, conselhos de classes, Ministério Público, Defen-
de que trata o objeto da perícia, com especialização do soria Pública e Ordem dos Advogados do Brasil, para
perito para este fim. indicação de profissionais ou de órgãos interessados.
A escolha do perito deverá recair sobre profissional Nomeado o perito, e estando ele ciente da nomea-
especializado, para o caso dos acidentes do trabalho, ção, apresentará, em 5 (cinco) dias, a proposta de seus
típicos ou atípicos, com reconhecida especialidade da honorários, o curriculum com comprovação da especia-
matéria a ser tratada. Não é raro, contudo, nas perícias lização, contatos profissionais com endereço eletrôni-
médicas, a escolha do perito recair sobre profissional co, para onde serão dirigidas suas intimações pessoais.
especializado em cardiologia, para realizar perícias co- Outra inovação, na atualidade, é a de que o perito pode
mo em Ler/Dort ou de depressão. ser escolhido, por mútuo consentimento, pelas partes
É necessário que o perito tenha familiaridade com desde que sejam elas capazes e a causa possa ser resol-
o mundo do trabalho. Muitas vezes o perito demonstra vida por autocomposição.

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Outra inovação da maior importância é o con- cia do infortúnio causado no exercício da atividade
teúdo do laudo técnico como previsto no art. 473 do laborativa.
CPC/2015, ao exigir, verbis:
10. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Art. 473. O laudo pericial deverá conter:
I – a exposição do objeto da perícia; No futuro, esperamos que haja um controle mais
II – a análise técnica ou científica realizada pelo perito; efetivo dos acidentes do trabalho, e das doenças ocu-
III – a indicação do método utilizado, esclarecendo-o pacionais, se conscientizando a empresa de que neces-
e demonstrando ser predominantemente aceito pelos sário se torna investir no sentido de dotar o ambiente
especialistas da área do conhecimento da qual se ori- de trabalho de meios saudáveis de desenvolvimento do
ginou; trabalho, investindo na ergonomia e na segurança do tra-
IV – resposta conclusiva a todos os quesitos apresenta- balhador na empresa. Com isso, teremos uma sociedade
dos pelo juiz, pelas partes e pelo órgão do Ministério mais justa, mais equilibrada e, sem dúvida, mais feliz.
Público.
11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A prova pericial hoje se tornou mais simples e
transparente com a finalidade de auxiliar, de fato, o COLIN, Ambrosio; CAPITANT, H. Curso Elemental de Dere-
juiz na busca da verdade real e, com isso, compor cho Civil. Tomo III, Teoria General de Las Obligaciones. Ma-
com segurança o litígio que lhe é submetido, sobre- drid: Reus, 1960.
tudo em face da natureza das ações em que se discute MARTINEZ, Wladimir Novaes. Comentários à Lei Básica da
a responsabilidade civil do empregador em decorrên- Previdência Social. São Paulo: LTr, p. 111.

— 16 —
2

A IMPORTÂNCIA DO DIREITO DO TRABALHO


NA PROMOÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS
LELIO BENTES CORRÊA(*)

NEHRU foi o primeiro chefe de governo da Índia industrializados). Outras sessenta milhões estão deslo-
independente, entre os anos 1947 e 1964. Discípulo de cadas em razão de guerras e conflitos armados.
Mahatma Gandhi, visitou seu mentor em busca de con- Mais de oitocentas mil crianças com menos de 5
selhos para que pudesse tornar-se um governante justo. anos de idade morrem de diarreia todos os anos, devido
Recebeu a seguinte resposta: a falta de acesso a água potável e saneamento. Em mé-
dia, são 2.200 mortes por dia.
“Vou lhe dar um talismã. Toda vez que você es-
A desigualdade na distribuição de riquezas, acen-
tiver em dúvida, ou com o ego inchado, aplique o tuada por um processo cada vez mais acelerado de
seguinte teste: lembre-se do rosto do homem mais concentração de recursos, no contexto da globalização
pobre e mais fraco que você possa ter visto, e per- econômica, não deixa margem a dúvidas sobre quem
gunte a si mesmo se o passo que você está pensan- são os “frágeis” a que se refere Gandhi. A denegação
do em dar vai ter alguma utilidade para ele. Ele vai dos direitos econômicos, sociais e culturais tem a cara
ganhar alguma coisa com isso? Isso vai devolver- dos excluídos, especialmente os que vivem em países
-lhe algum controle sobre sua própria vida e des- em desenvolvimento.
tino? Em outras palavras, isso vai contribuir para a Em segundo lugar, há que se por no lugar do outro,
emancipação dos milhões de famintos e espiritual- fazer uso da empatia. Há que compreender seu sofri-
mente carentes? Então você verá suas dúvidas e mento e aceitar que a riqueza de um não pode ser con-
seu ego desaparecerem.” quistada ao custo da miséria de tantos outros.
O exercício do talismã segue válido nos dias atuais, A Declaração de Filadélfia da Organização Inter-
nacional do Trabalho, de 1944, afirma que “a penúria,
especialmente quando se tomam em conta os milhões
seja onde for, constitui um perigo para a prosperidade
de crianças, mulheres e homens famintos de alimentos,
geral”.
mas igualmente famintos de liberdade, de respeito, de
igualdade, de justiça. Com efeito, há que reconhecer no outro um seme-
lhante. Alguém com o mesmo valor intrínseco a todos
Mas, como dar resposta a esses reclamos? os seres humanos. Alguém igual (em valor) a nós, ainda
Em primeiro lugar, há que dar a essas pessoas um que diferente único. Há que valorizar a alteridade, reco-
rosto. nhecer que a definição do “eu individual” se dá a partir
Vinte e dois milhões de pessoas são vítimas de da interação com o outro.
deslocamento forçado em consequência de desastres Em terceiro lugar, há que perguntar de que manei-
ambientais (18,7 milhões delas vivem em países não ra se pode servir a essas pessoas na sua luta por direitos,

(*) Ministro do Tribunal Superior do Trabalho. Mestre em Direito Internacional dos Direitos Humanos pela Universidade de Essex,
Inglaterra, em 2000. Foi Procurador do Trabalho e Subprocurador-Geral do Ministério Público do Trabalho. Foi Conselheiro do
CNJ – Conselho Nacional de Justiça (2015/2017). É membro da Comissão de Peritos em Aplicação de Normas Internacionais da
Organização Internacional do Trabalho (OIT) desde 2006 e membro da Comissão Julgadora do Prêmio Innovare, de 2013 até a
presente data. É membro da Academia Brasiliense de Direito do Trabalho desde 2016.

— 17 —
por liberdade. Direitos que não estão isolados, distan- E concluiu:
tes, mas que se complementam e fortalecem reciproca-
mente. Que realizam seu propósito em uma dimensão “Esta não é a visão de um milênio longínquo.
holística, único caminho para a realização do pleno po- E uma base concreta para uma classe de mundo
tencial do ser humano. alcançável em nosso próprio tempo e em nossa
geração. Essa classe de mundo é justamente a antí-
Nesse contexto, não faz qualquer sentido a teo-
tese da chamada “ Nova Ordem” de tirania que os
ria da prevalência dos direitos civis e políticos sobre os
ditadores procuram criar com o estrépito de uma
demais tipos de direitos humanos (entre eles os econô-
bomba (...) A ordem mundial que buscamos é a
micos, sociais e culturais). Esta herança incômoda da
cooperação entre países livres, trabalhando juntos
Guerra Fria, de que resultou a artificial fragmentação
em uma sociedade civilizada e amistosa.”
dos direitos humanos em dois Pactos Internacionais nos
anos sessenta do século passado, já não merece maior A visão de Roosevelt, que inspirou a adoção da
atenção dos estudiosos, especialmente após o advento Declaração de Filadélfia da OIT, em 1944, e a Declara-
da Declaração de Viena, de 1993, que proclamou, em ção Universal dos Direitos Humanos, em 1948, ressalta
seu art. 5º, a “unidade, indivisibilidade e interdependên- a necessidade de se assegurar condições econômicas
cia” de todos os direitos humanos. justas para todas as Nações e seus habitantes, como
Com efeito, se o direito à liberdade é central para a condição para alcançar uma paz duradoura.
existência digna do ser humano, não menos importante Em 1944, Roosevelt sentenciou, de forma defini-
é que a mesma dignidade se faça presente em outras tiva, referindo-se ao caos econômico que precedeu o
dimensões de sua existência: saúde, educação, moradia mais sangrento combate da história da humanidade:
e, por óbvio, trabalho.
“Chegamos à conclusão clara de que a verda-
Uma existência digna pressupõe respeito aos direi-
deira liberdade individual não pode existir sem
tos intrínsecos ao ser humano em todos os quadrantes
segurança econômica e independência. Homens
de sua vida.
que passam necessidade não são homens livres.
Tal noção era já muito clara para Franklin Delano Pessoas famintas e sem emprego são o material de
Roosevelt desde 1941, quando pronunciou, no Con- que se forjam as ditaduras.”
gresso Americano, o célebre discurso que se tornou co-
nhecido como “Discurso das Quatro Liberdades”. Para Essas lições continuam atuais. Centenas de mi-
ele, para se alcançar a paz duradoura, as pessoas, em lhões de pessoas têm seus direitos econômicos, sociais
qualquer lugar do mundo, deveriam desfrutar de quatro e culturais denegados todos os dias. Não têm acesso
liberdades fundamentais: liberdade de expressão, liber- a serviços mínimos de saúde e saneamento. Têm ne-
dade de culto, liberdade de viver sem miséria e liberda- gado o direito à educação e ao trabalho decente. Não
de de viver sem medo. são, portanto, pessoas livres na verdadeira acepção da
Na ocasião, ressaltou Roosevelt sobre as quatro palavra.
liberdades: Muitas vezes, a violação desses direitos conduz a
situações de grave violação da dignidade do ser humano
“A primeira é a liberdade de palavra e de ex- – como no caso dos 21 milhões de homens, mulheres e
pressão, em qualquer lugar do mundo. crianças submetidos ao trabalho forçado no mundo, ou
A segunda é a liberdade de cada pessoa para os 168 milhões de crianças e adolescentes submetidos
adorar a Deus a seu próprio modo, em qualquer ao trabalho infantil.
lugar do mundo. O Direito do Trabalho procura oferecer resposta
A terceira é a liberdade frente a miséria, que, a esses desafios. Se é verdade que o trabalho consti-
traduzida em temos mundiais, significa acordos tui ferramenta hábil a resgatar o ser humano da miséria
econômicos que assegurem a cada nação uma econômica que o escraviza, não menos verdade é que
vida saudável e em paz para todos os seus habi- esse mesmo trabalho deve se dar em condições que as-
tantes, em qualquer lugar do mundo. segurem a dignidade de quem trabalha; do contrário,
A quarta é a liberdade frente ao medo, que, tra- converter-se-á em instrumento de aviltamento e escravi-
duzida em termos mundiais, significa uma redução zação. O trabalho deve ser, portanto, protegido, digno,
na escala mundial de armamento até tal ponto e decente.
de maneira tão profunda que nenhuma nação es- Ao adotar a Declaração dos Princípios Fundamen-
teja em situação de cometer um ato de agressão tais e Direitos no Trabalho de 1998, a Organização Inter-
física contra nenhum vizinho, em qualquer lugar nacional do Trabalho lançou as bases para a construção
do mundo.” de um patamar mínimo de dignidade a ser observado

— 18 —
universalmente. Explicitou o compromisso de todos os de a uma opção por um novo modelo jurídico, com
Países integrantes da OIT, decorrente da mera condição uma nova correlação de forças.
de membros daquela Organização, com: a) a liberdade Sem a atuação estatal para frear o “pêndulo da de-
sindical e o reconhecimento efetivo do direito à nego- sigualdade” a que se referiu, na mesma ocasião, o Pro-
ciação coletiva; b) a eliminação de todas as formas de fessor Pasquale Sandulli, a opressão do mais forte se faz
trabalho forçado ou obrigatório; c) a abolição efetiva do sentir com maior intensidade, liberada das regras prote-
trabalho infantil; e d) a eliminação da discriminação em tivas, consagradas como meio de mitigar a desigualdade
matéria de emprego e ocupação. entre capital e trabalho. O pêndulo oscila mais forte e,
Obviamente, a proteção ao trabalho não se exau- ao fazê-lo, agrava a situação de quem não consegue se
re na afirmação desses quatro princípios, espraiando-se opor a seu movimento.
por um arcabouço de 189 Convenções, 6 Protocolos A opção pela liberalização, pela flexibilização,
e 204 Recomendações da OIT, necessariamente com- corresponde, portanto, à opção política por um modelo
plementadas pelas legislações nacionais. Todavia, vis- que amplia a liberdade econômica em detrimento dos
lumbra-se na universalização daqueles princípios (e das direitos sociais. Um modelo que fragiliza a parte mais
oito Convenções a que correspondem), o passo inicial vulnerável da relação produtiva, transferindo para ela
e necessário para a construção de uma base comum os ônus e riscos da atividade empresarial. Um mode-
sobre a qual poderão ser erigidos sistemas laborais efe- lo que preserva o lucro em detrimento das garantias e
tivamente justos e democráticos. direitos dos trabalhadores. Um modelo, afinal, que, ao
invés de conduzir ao resgate da dignidade e à libertação
O efetivo respeito aos princípios fundamentais,
da penúria, produz o efeito inverso: aprisiona, degrada,
aliado à promoção do emprego produtivo e de quali- escraviza.
dade, a extensão da proteção social e o fortalecimento
Em discurso dirigido aos participantes do Encontro
do diálogo social constitui a viga mestra sobre a qual se
Mundial de Movimentos Populares, em 2014, o Papa
erige a agenda do trabalho decente da OIT, cuja imple-
Francisco afirmou:
mentação deve ser perseguida com denodo ainda maior
em tempos de crise econômica. Nos momentos de cri- “Não existe pior pobreza material do que a que
se, a fragilidade dos mais vulneráveis torna-os presa fá- não permite ganhar o pão e priva da dignidade do
cil de exploração desmedida, muitas vezes favorecida trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e
por um discurso determinista e segregador, que parece a falta de direitos trabalhistas não são inevitáveis,
querer atribuir ao pobre, ao faminto, ao miserável a res- são o resultado de uma prévia opção social, de um
ponsabilidade por sua condição de penúria. sistema econômico que coloca os lucros acima do
Esse, porém, é um objetivo que não se alcançará homem. Se o lucro é econômico, sobre a humani-
sem esforço, sem a intervenção proativa do Estado na dade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultu-
promoção e proteção dos direitos dos mais vulneráveis. ra do descarte que considera o ser humano em si
Convém lembrar que a primeira lei trabalhista de que se mesmo como um bem de consumo, que pode ser
tem notícia, a Factories Act, de 1802, sofreu forte oposi- usado e depois jogado fora”.
ção. Diante da tentativa de estabelecer regras mínimas No Brasil, o Grupo Móvel especializado em opera-
de higiene, além de limitar a oito horas a jornada de ções contra o trabalho análogo à escravidão já realizou,
trabalho de crianças na faixa etária dos 09 aos 13 anos desde 1995, mais de 1.600 operações, resgatando mais
de idade, e a doze horas diárias a jornada de adoles- de 50.000 trabalhadores e trabalhadoras. Quarenta e
centes entre 14 e 18 anos de idade, insurgiu-se o então cinco mil autos de infração foram lavrados, tanto em
emergente patronato industrial inglês – para quem tal áreas rurais quanto urbanas.
iniciativa legislativa constituiria uma inaceitável intro- Segundo a Organização Internacional do Trabalho,
missão do Estado na iniciativa privada, pondo em risco os lucros gerados pela exploração do trabalho forçado
a própria sobrevivência da atividade econômica. no mundo são estimados em 150 bilhões de dólares ao
O Professor italiano Rafaelle de Giorgi, ao dirigir- ano. Lucros ilícitos, extraídos do aviltamento da digni-
-se a Magistrados e Magistradas do Trabalho no último dade de cerca de 21 milhões de pessoas. Cerca de 20
CONAMAT, realizado em Salvador – BA, entre 27 e 30 bilhões de dólares deixam de ser pagos, corresponden-
de abril de 2016, lembrou que o Direito não é neutro no tes a salários e direitos trabalhistas subtraídos – a que se
contexto social. A opção por menos regulamentação, pode agregar os impostos e contribuições sociais sone-
pela limitação da intervenção estatal, não correspon- gados, em prejuízo de toda a sociedade.
de a uma mera contenção com o objetivo de assegurar O próprio setor empresarial sofre com a situação,
maior liberdade aos atores sociais. Ao revés, correspon- que favorece a competição desleal. Estudo conduzido

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pelos Procuradores do Trabalho Rafael Araújo Gomes e noites, ao deitar-se, o que deve incomodar o magistra-
Luiz Carlos Fabre sugere que, no setor têxtil paulista, a do, o membro do Ministério Público, o advogado ver-
vantagem competitiva ilícita auferida pelos explorado- dadeiramente fiel ao compromisso solene assumido no
res de trabalho em condições análogas à de escravo é da dia da sua investidura não é o que fez, mas o que deixou
ordem de R$ 2.300,00 ao mês, por trabalhador. de fazer para proteger os direitos humanos dos milhões
Some-se a isso o prejuízo para setores produtivos de vulneráveis desse país. Quem abraça esse desafio o
inteiros, que passam a sofrer com a perda de confiança faz por acreditar no valor social do trabalho e da livre
dos consumidores (no mercado interno e internacional) iniciativa; por acreditar na dignidade do ser humano co-
e, muitas vezes, com estigmatizações indevidamente mo princípio fundante da República do Brasil, tal como
generalizadas, que alcançam indistintamente infratores consagrado na Constituição que juraram todos defender.
e não infratores. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, o
No Brasil, cerca de três milhões e trezentas mil tema mais recorrente entre as novas ações ajuizadas na
crianças e adolescentes se veem forçadas a trocar a es- Justiça brasileira em 2015, correspondendo a 11,75%
cola pelo trabalho, muitas vezes em condições de risco do total (ou 4.980.359 ações), dizia respeito a “rescisão
para sua saúde e integridade física. A despeito do êxito do contrato de trabalho e verbas rescisórias”. Segundo
na universalização da matrícula de crianças no ensino dados do Conselho Superior da Justiça do Trabalho, o
fundamental, a taxa de evasão no ensino médio segue assunto corresponde a 49,47% dos quase três milhões
altíssima. Sem acesso a uma formação educacional ade- de ações trabalhistas ajuizadas no período. Ou seja, na
quada, um largo contingente de crianças e adolescentes quase metade dos casos em que chamada a intervir, a
veem ceifadas as possibilidades de acesso a melhores Justiça do Trabalho se depara com o descumprimento
empregos e uma vida produtiva na idade adulta. Ade- das obrigações mais elementares da relação de trabalho:
mais, um número considerável delas torna-se incapaci- o pagamento de verbas rescisórias (inclusive os salários
tada para o trabalho em razão de acidentes de trabalho retidos, correspondentes ao último período trabalhado),
antes de chegar à fase adulta. de caráter alimentar, necessárias ao sustento do traba-
lhador e de sua família no período mais crítico de sua
Mais de 700 mil acidentes do trabalho são regis-
existência, quando deixa de contar com a regular fonte
trados por ano, no Brasil. Entre 2007 e 2015, 20.770
de renda para fazer frente a suas obrigações. Nesse con-
crianças e adolescentes foram vítimas de acidentes de
texto, não há falar em protecionismo, mas na necessária
trabalho, dos quais 187 resultaram em mortes.
ação para fazer valer a autoridade da lei, coibir a super
A situação de trabalhadores e trabalhadoras indo- exploração econômica e restituir o patamar civilizatório
cumentados, cuja vulnerabilidade se acentua em razão mínimo estabelecido no texto constitucional.
do temor da ação policial e de enfrentar um processo Desempenhar tal tarefa, especialmente num con-
de extradição, tem agravado os desafios na manutenção texto de crise econômica, é desafiador – mas absolu-
de condições dignas de trabalho para os trabalhadores tamente urgente e necessário. Não serão poucas as
migrantes, cujo número tem crescido de forma expo- adversidades, mas superá-las faz parte do cotidiano do
nencial nos últimos anos. Inúmeros são os relatos de tra- ator do Sistema de Justiça verdadeiramente comprome-
balho em condições análogas a escravidão em grandes tido com a sua missão.
centros urbanos (inclusive nas duas maiores capitais do
país: São Paulo e Rio de Janeiro), nos setores têxtil, de Nesse passo, vale invocar o exemplo de Luiz Gama.
serviços e na exploração sexual. Nascido em Salvador, em 1830, filho de pai branco
Num tal contexto, avulta a necessidade de normas com mãe negra livre, Luiz Gama nasceu livre. Separado da
eficazes e de mecanismos concretos e eficientes para mãe – expulsa do país devido a seu envolvimento na Sabi-
sua aplicação. O Direito do Trabalho, com sua função nada – foi vendido pelo pai, como escravo, aos dez anos
redentora, dá norte à atuação do Sistema de Justiça, vo- de idade. Foi levado para São Paulo. No cativeiro, apren-
cacionado constitucionalmente à promoção dos direi- deu a ler e a escrever com um pensionista de seu senhor.
tos humanos – notadamente à liberdade, à igualdade e Aos dezoito anos, conseguiu comprovar a sua con-
à dignidade do ser humano. Nessa atuação, mais que dição de homem livre e alistou-se na Guarda Munici-
indignação, reclama-se ação concreta e proativa. Não pal, onde permaneceu até 1854.
basta a aplicação burocrática da lei. Não serve a des- Em 1858, aproximou-se de um Professor de Direito
culpa do excesso de trabalho, da falta de meios, ou da e frequentou as aulas na Faculdade de Direito do Largo
escassez de tempo para justificar a inação ante o desafio de São Francisco. O diploma, no entanto, lhe foi negado,
que se apresenta. por ser negro e escravo liberto.
Não serve o argumento hoje fácil – e equivocado Passou a exercer a profissão como “provisionado”.
– do “protecionismo” da Justiça do Trabalho. Todas as Um rábula.

— 20 —
Assim o descreveu Raul Pompeia, autor de “O outro a liberdade, alguns um conselho fortifican-
Ateneu”: te. E Luiz Gama fazia tudo: libertava, consolava,
dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava,
“(...) não sei que grandeza admirava naquele exauria-se no próprio ardor, como uma candeia ilu-
advogado, a receber constantemente em casa um minando à custa da própria vida as trevas do de-
mundo de gente faminta de liberdade, uns escravos sespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma
humildes, esfarrapados, implorando libertação, sobra de lucro... E, por essa filosofia, empenhava-se
como quem pede esmola; outros mostrando as de corpo e alma, fazia-se matar pelo bom...”
mãos inflamadas e sangrentas das pancadas que
lhes dera um bárbaro senhor; outros... inúmeros. E Luiz Gama libertou, em juízo, mais de 500 escravos
Luiz Gama os recebia a todos com a sua aspereza no Brasil do Século XIX.
afável e atraente; e a todos satisfazia, praticando as Que a lição de Gandhi e o exemplo de Luiz Gama
mais angélicas ações, por entre uma saraivada de inspirem e renovem a motivação dos milhares de juí-
grossas pilhérias de velho sargento. zes, membros do Ministério Público e advogados que
Toda essa clientela miserável saía satisfeita, le- dedicam suas vidas à afirmação dos direitos humanos
vando este uma consolação, aquele uma promessa, no Século XXI.

— 21 —
3

A PERSISTÊNCIA DA CULTURA ESCRAVOCRATA NAS


RELAÇÕES DE TRABALHO NO BRASIL
KÁTIA MAGALHÃES ARRUDA(*)

1. INTRODUÇÃO revolução industrial, calcado no que hoje seria conside-


rado como tema intrinsecamente vinculado aos direitos
Após extensos debates na década de 1990, ressur- humanos, ou seja, a exploração e morte de crianças nas
ge no Brasil, mais forte do que antes, a velha discussão fábricas da Inglaterra. As Factory Acts foram constituí-
sobre o que deve prevalecer nas relações entre empre- das por cinco leis aprovadas pelo parlamento inglês, de
gados e empregadores: o negociado ou o legislado, ou 1802 a 1833(1), com o objetivo de regular as condições
seja, em que medida a liberdade de contratar preva- dos empregados nas fábricas, principalmente relacio-
lece sobre a lei? Em que hipótese seria possível essa nadas às extensas horas de trabalho de crianças na in-
prevalência se na base de tais negociações não houver dústria têxtil.
igualdade? A natureza jurídica do direito do trabalho, exaus-
Esse tema, é de profunda complexidade doutriná- tivamente analisada pelos doutrinadores, foi duran-
ria e que envolve não apenas a concepção sobre o que te muito tempo polarizada entre os defensores de sua
é justiça como também o alcance dos direitos funda- natureza pública e, em oposição, os defensores de sua
mentais, e o papel da legislação e do Estado tem sido natureza privada. Hoje, admite-se com mais tranquili-
apresentado de forma superficial e maniqueísta, movido dade a existência de uma terceira natureza, ou tertium
muito mais por interesses econômicos do que por inte- genus, inaugurando o direito do trabalho, uma cons-
resses de renovação ou modernização do direito do tra- trução jurídica que foge ao dualismo ou bipolarização,
balho, e, muitas vezes, sem amparo na realidade social introduzindo, desde o debate sobre sua natureza, essa
em que estão inseridos os milhares de trabalhadores, característica que lhe é tão peculiar: a de apresentar
motivo pelo qual este texto procura contribuir com uma posições mais plurais ao conciliar aspectos antagônicos
análise sobre quem é o trabalhador brasileiro e qual a na busca de soluções mais efetivas.
ética do trabalho existente no país. A temática da natureza do direito do trabalho sem-
Sabe-se que o tema da proteção ao trabalho huma- pre merece destaque nas discussões acadêmicas, prin-
no é antiga, encontrada inclusive em relatos bíblicos, cipalmente devido à coexistência de normas cogentes
portanto, está presente historicamente há pelo menos (de ordem pública), e normas dispositivas. A própria CLT
sete mil anos, mas o direito do trabalho, enquanto con- expressa essa concepção quando subordina o contrato
junto de normas e regulações teve sua origem a partir da de trabalho individual às disposições de proteção ao tra-

(*) A autora é doutora em Políticas Públicas, professora da Escola Nacional da Magistratura do Trabalho e ministra do Tribunal Superior
do Trabalho.
(1) A primeira lei, de 1802, previa a figura do inspetor do trabalho, a Factory Act de 1819, proibia o trabalho infantil abaixo de nove
anos, mas somente com a Factory Act de 1833, considerada a mais importante e eficiente, delimitou-se uma jornada de trabalho
com horário máximo (das 5:30 às 20:30) e uma idade mínima evolutiva, que chegou a 13 anos em 1836 e jornada máxima de 12
horas para os adolescentes, além da proibição do trabalho noturno e a criação de escolas para trabalhadores abaixo de 13 anos.
Outras leis importantes surgiram na Suíça (1877) e na Alemanha (1898), relacionadas à proteção contra acidentes e mortes no
trabalho.

— 23 —
balho (art. 444), de maneira que nenhum interesse priva- do capitalismo, sendo um dever para todos e um man-
do prevaleça sobre o interesse público (art. 8º), sendo o damento de Deus a ser obedecido. (WEBER, 2004, p.
direito do trabalho precursor ao admitir o tratamento de- 133).
sigual das partes envolvidas em decorrência da desigual- Como afirma Jesse Souza, a escravidão brasileira
dade econômica real –, perspectiva também existente no foi determinante no modo de vida desenvolvido pelo
direito dos consumidores. (ARAÚJO; COIMBRA, 2014) homem livre, em especial, para a naturalização da desi-
Entre os vários recortes possíveis à análise do tema, gualdade, estendendo suas raízes em diversos aspectos
o enfoque ora utilizado terá duas abordagens centrais: da sociedade, principalmente na relação entre patrão e
a primeira, referente à concepção da ética do trabalho trabalhador ou, para bem usar a linguagem do direito do
prevalecente no Brasil e à persistência de uma cultura trabalho: empregado – empregador.
de exploração do trabalho humano, advinda do período
escravocrata; e a segunda (a partir de dados oficiais), É apenas a partir da percepção da existência
analisar quem é o trabalhador brasileiro e em que con- dessa dominação simbólica subpolítica, que traz
dições ele é chamado, individual ou coletivamente, a de forma articulada uma concepção acerca do
entabular negociações de direitos que, ao final, serão valor diferencial dos seres humanos e cujo an-
definidores da sua sobrevivência. coramento institucional, no cerne de instituições
fundamentais como mercado e Estado, permite por
meio dos prêmios e castigos empíricos associados
2. AS MARCAS DA ESCRAVIDÃO NA
ao funcionamento destas instituições – sob a forma
CONSTRUÇÃO DA ÉTICA DO TRABALHO
de salários, lucro, emprego, repressão policial, im-
posto – a imposição objetiva, independentemente
São muitos os historiadores que tratam do lastro
negativo que a escravidão deixou na construção da de qualquer intencionalidade individual, toda uma
sociedade brasileira, mas poucos têm analisado em concepção de mundo e de vida contingente e his-
profundidade sua repercussão sobre a construção (ou toricamente produzida sob a máscara da neutrali-
desconstrução) da ética do trabalho no país. dade e da objetividade inexorável. Essa hierarquia
valorativa implícita e ancorada institucionalmente
Os primeiros trabalhadores brasileiros foram os es- de forma invisível enquanto tal é que define quem
cravos. Essa realidade durou da “descoberta” do Brasil
é ou não é “gente”, sempre segundo seus critérios
pelos portugueses, em 1500, até 1888, época oficial da
contingentes e culturalmente determinados e, por
abolição da escravidão, ou seja, 388 anos de trabalho es-
consequência, quem é ou não é cidadão. (SOUZA,
cravo legalizado. Dos 516 anos de história oficial, apenas
2012, p. 181).
118 registram trabalho livre em sua concepção formal.
Os dados fáticos registram, ainda, que após a aboli- Poder-se-ia afirmar que a ideia da valorização do
ção, os ex-escravos não foram inseridos na sociedade(2)·. trabalho está bem distante da realidade e corresponde
Também não tiveram voz ou voto, assim como não se muito mais à desvalorização do trabalho – “coisa de
adotou no país uma política de valorização do traba- negro e pobre”(4). Séculos de escravidão, de domínio
lho, que continuou a ser visto como “coisa de escravo, absoluto do proprietário sobre a vida de seus escravos,
negro e pobre”(3). A concepção de trabalho no Brasil é, com “direito” a cegar seus olhos, estuprar mulheres na
portanto, bem diferente da examinada no consagrado mais tenra idade, mutilar os membros dos trabalhadores
estudo de Max Weber, intitulado “A Ética Protestante e o ou chicoteá-los até à morte, como provam inúmeros re-
Espírito do Capitalismo”, em que o trabalho é apresen- latos históricos(5), construiu uma ideia de trabalho servil,
tado como ”vocação”, “meio de obter graça”, “virtude subjugado, maltratado e, por fim, bem apartado de uma
a ser seguida por todos”, pois “mesmo o rico não deve relação de igualdade. A lenta transição para o trabalho
comer sem trabalhar, mesmo que não precise disso para livre entrou em descompasso com a construção do ca-
sustentar suas próprias necessidades”. Para Weber, além pitalismo e a passagem do Brasil velho para o “novo
de ser um valor intrínseco, o trabalho estaria no espírito Brasil, aquele em que as leis de mercado regeriam livre-

(2) Como esclarece Laurentino Gomes, não houve no Brasil nenhuma preocupação com os escravos libertos, como ocorreu no
Freedmen’s Bureau, instituição criada pelo governo americano para dar assistência aos escravos libertos após a Guerra da Secessão.
(GOMES, 2013).
(3) Citação tão comum que não se consegue delimitar a autoria.
(4) Nessa expressão, percebemos todo o conteúdo discriminatório envolvendo, ao mesmo tempo, o negro, o pobre e o trabalhador.
(5) Apenas para registro, no Brasil, era comum a pena de 200 chibatadas, enquanto nos EUA, o número usual era de 25 chibatadas.

— 24 —
mente e em igualdade de condições (jurídicas), as re- principalmente, seus sindicatos, no processo de cons-
lações entre patrões e empregados” (AZEVEDO, 1987, trução e manutenção do Estado Novo.
p. 60), com graves consequências para o desenvolvi- O direito do trabalho foi apresentado como um
mento do país. instrumento de promoção da cidadania e um modo de,
Para amparar a escravidão foi construído um apa- nas palavras de Oliveira Viana, “libertar o povo do jugo
rato repressivo do Estado e toda uma representação dos poderosos locais”, embora de modo claro houvesse
legislativa feita por senhores de engenho, com caracte- o desprezo à ideia do confronto ou da luta de classes.
rísticas muito expressivas, tais como, patrimonialismo, Como ocorreu com a lei que aboliu o tráfico ne-
coronelismo e clientelismo, fortíssimos até o final do greiro, em 1831(6), considerada “lei para inglês ver” –
século XIX e que estenderam sua influência para os dias pela falta de efetividade, a Consolidação das Leis do
atuais. Trabalho (CLT), apesar de não aplicada em sua inteire-
O fim da escravidão não rendeu ao Brasil homens za, logo foi tida como um instrumento de luta dos traba-
livres! O melhor conceito é de homens e mulheres que lhadores, que acreditaram no direito do trabalho como
antes eram escravizados e que, unindo-se aos demais a melhor forma de inserção na sociedade, por meio de
agregados, e, posteriormente, aos imigrantes, passaram uma profissão regulamentada. A expressão formal da
a ter em comum a pobreza extrema e o estado de ne- “cidadania regulada”(7) era a carteira de trabalho, que,
cessidade contínuo. Ressalte-se que os imigrantes que para a esmagadora maioria, era um documento mais
chegaram ao país, principalmente em São Paulo (aqui é importante que o registro de nascimento.
bom destacar que os trabalhadores estrangeiros tinham
A busca da “cidadania regulada” provocou ondas
preferência sobre os nacionais), foram vítimas de uma
migratórias do campo para a cidade. De lá para cá, o
visão semifeudal, bem diferente da visão liberal defen-
dida em outros países do mundo; por esse motivo, pre- Brasil se tornou um país urbano e industrializado, sem
valeceu a ótica da degradação do trabalho manual e do romper com suas grandes dicotomias de exclusão so-
não reconhecimento dos trabalhadores como cidadãos. cial, pauperismo e desigualdade. Tal situação é percep-
A cidadania em “negativo”, como descreve Carvalho tível em função dos baixos salários e frágeis políticas
(2013), já que o povo não tinha lugar no sistema políti- públicas, adotadas por diversos governos no decorrer
co, seja no Império, seja na República, o que perdurou da história.
imutável até 1930. Ao analisar o Censo de 1970, percebe-se que a
Mesmo no Brasil republicano, os ideais liberais só população que ganhava até dois salários mínimos (ren-
sopraram para um lado: a elite agrária. O liberalismo da bem restritiva) era mais do que 70% dos brasileiros.
econômico era compreendido como “total liberdade Esse quadro melhorou um pouco da década de 1980,
para gerir os negócios”, inclusive na relação com seus retrocedeu nos anos 90 (chamada “década perdida”),
trabalhadores, daí porque foram mantidas por muitas apresentou certa melhora entre 2000 e 2010 e retornou
décadas as relações coronelistas e autoritárias, isentan- ao mesmo índice, ou seja, a maioria esmagadora dos
do o mundo agrário de qualquer intervenção do Estado, trabalhadores brasileiros recebe salários muito baixos.
a despeito de abrigar, à época da primeira República, Tal situação, vinculada à deficiência de escolaridade,
cerca de 70% dos brasileiros. reflete na baixa qualidade de mão de obra, impossibi-
A partir de 1930, na Era Vargas, foi acentuada a litando grandes alterações na questão central da desi-
preocupação com a questão social, particularmente gualdade e da distribuição de renda.
voltada para o trabalho urbano. Construiu-se o que É importante lembrar que a igualdade de direitos
Cardoso (2010) denominou de “utopia da proteção es- para trabalhadores rurais e urbanos só veio a ser resolvi-
tatal representada pela legislação social e trabalhista”, da com a Constituição de 1988. Mesmo as Convenções
plantada no fértil ambiente de vulnerabilidade social, Internacionais que estenderam direitos aos trabalhado-
mas que ajudou a mudar a relação do Estado brasileiro res do campo não foram logo assinadas, a exemplo da
com sua população, ao incorporar os trabalhadores e, Convenção n. 12 da OIT(8), que data de 1921 e só foi

(6) A abolição da escravidão foi precedida de várias leis no Século XIX, com destaque para quatro especificamente: a de 1831, que
proibiu o tráfico de escravos (exigência da Inglaterra); a de 1850, também chamada de “Euzébio de Queiroz” e que tratava do
mesmo tema; a de 1871, chamada de ”lei do ventre livre”; a de 1888, para os escravos sexagenários. Todas essas leis foram siste-
maticamente descumpridas e burladas. (COSTA, 2010).
(7) Termo utilizado tanto no sentido de cidadania vigiada pelo Estado quanto no sentido que enquadra o cidadão ao exercício de uma
profissão ou ofício, na qual a CLT era o documento hábil.
(8) A Convenção n. 12 da OIT estende as indenizações por acidentes de trabalho aos assalariados agrícolas.

— 25 —
ratificada pelo Brasil em 1956, e a exigência de lei es- dormiam ao relento ou em alojamento onde
pecial para a sindicalização do trabalhador rural, que eram criados os porcos. A fiscalização diz ter en-
só foi promulgada em 1963, com o Estatuto do Traba- contrado ainda recipientes de agrotóxicos sendo
lhador Rural. reutilizados para armazenamento de água para
A conclusão inexorável é que tão longa escravi- os trabalhadores beberem. Em alguns casos, as
dão, bem como o extenso período que se seguiu em refeições eram servidas em latas e os trabalhado-
direção ao trabalho livre, com a manutenção de políti- res comiam sentados no chão, próximos a fezes
cas salariais restritivas e da superexploração, deixaram de animais, relata a fiscalização(9).
marcas profundas em diversos aspectos da sociedade
E o que dizer do trabalho infantil, que alcança mais
brasileira: raciais, sociais, culturais e políticas, de difícil
de três milhões de crianças e jovens e que, após nove
superação, sem o enfretamento das desigualdades e da
anos em queda, teve uma alta em 2014? O Brasil pos-
mudança de ótica quanto ao tema da valorização do
sui, segundo fontes oficiais de pesquisa (IBGE), 554 mil
trabalho humano.
crianças na faixa etária entre cinco e treze anos traba-
lhando, em sua maioria (62%) na área rural, quando
3. RELAÇÕES DE TRABALHO NO BRASIL a Constituição Federal proíbe qualquer trabalho aos
MODERNO: QUEM É O TRABALHADOR menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a
BRASILEIRO? partir dos 14 anos.
Além de conviver com essas chagas, bem típicas
Em 2008, cento e vinte anos após a assinatura da
do período escravocrata, somos o segundo país do mun-
lei Áurea, o Brasil lançou o 2º Plano nacional para a
do em número de acidentes de trabalho. De 2007 a
erradicação do trabalho escravo. Esse fato é revelador: o
2013, registraram-se cinco milhões de acidentes de tra-
plano tem por objetivo o estabelecimento de estratégias
balho e, pelo menos, metade disso, com consequências
conjuntas entre Poder Executivo, Ministério Público,
graves, como afastamento do emprego, invalidez e mor-
Legislativo, Judiciário e sociedade civil para erradicar
te(10). Pelos dados relatados, a cada três horas, morre um
o trabalho escravo e implementar uma política de rein-
trabalhador em acidente laboral.
serção social, de forma a assegurar que os “trabalhado-
res libertados não voltem a ser escravizados”, e garantir, Apesar de todos esses fatores, diretamente ligados
entre outros direitos “a emissão de documentação civil a precarização do trabalho, poder-se-ia argumentar que
básica”, como carteira de identidade e carteira de tra- nosso país possui quase 100 milhões de trabalhadores
balho, direitos trabalhistas, “sensibilização do Supremo e que a maioria esmagadora desenvolve trabalho livre,
Tribunal Federal para a relevância dos critérios traba- com autonomia, qualificação técnica, não sendo certo
lhista e ambiental, além da produtividade, na aprecia- analisar as relações de trabalho a partir das situações
ção do cumprimento da função social da propriedade, degradantes e absolutamente contrárias ao estado de di-
como medida para contribuir com a erradicação do tra- reito em vigor no Brasil, e por isso é necessário expan-
balho escravo”. dir a pesquisa e analisar, afinal, quem é o trabalhador
brasileiro. Tal análise será feita a partir de três aspectos:
Somente entre 1995 e 2015, foram resgatados mais
1. Nível de escolaridade; 2. Jornada média dos traba-
de 50 mil pessoas do trabalho forçado. Sem grilhões nos
lhadores; 3. Rendimento médio. Com esses dados, será
pés, mas amarrados aos grilhões da miséria, a perpetua-
possível uma avaliação real sobre as relações fáticas e
ção da desigualdade continua em todos os Estados do
circunstanciais que envolvem o mundo do trabalho e sua
país. A reportagem publicada em 28.7.2015 e sub inti-
repercussão nas negociações coletivas celebradas pelos
tulada “Dormindo com porcos”, retrata a situação em
sindicatos que representam as categorias econômicas e
que foram encontrados trabalhadores sem alojamento
profissionais.
adequado, carteira assinada, e sem condições mínimas
de higiene, saúde e segurança.
3.1. Nível de escolaridade do trabalhador
Segundo os fiscais, nesta fazenda que não
teve o nome revelado, os trabalhadores não ti- Analisando os dados oficiais da PNAD (Pesqui-
nham equipamentos de proteção individual, não sa Nacional de Domicílios), publicados pelo IBGE e
havia banheiros disponíveis e os trabalhadores referentes aos três últimos meses do ano de 2014, só

(9) Matéria da UOL. Economia, intitulada “Vítimas de trabalho escravo no Piauí dormiam com porcos”, publicada em 28.7.2015.
(10) Entre os setores mais letais, como transporte e construção civil, o risco do trabalhador sofrer acidente é o dobro da média e a pro-
babilidade de incapacitação permanente é seis vezes maior que nas demais atividades.

— 26 —
16% dos trabalhadores brasileiros têm ensino supe- Segundo o Censo de 2010, o analfabetismo foi
rior completo. O dado, em si, não seria assustador reduzido em comparação com o Censo de 2000, mas
se o índice de trabalhadores que sequer possuem o ainda é quase três vezes maior entre negros e pardos do
ensino fundamental não fosse tão alto: se somarmos que a média encontrada entre os trabalhadores brancos,
o número de trabalhadores sem nenhum nível de ins- o que demonstra a segregação em relação a toda uma
trução (5%) aos que não concluíram o ensino funda- população de descendentes de escravos.
mental (25,6%), e aos que somente tem o fundamental A pesquisa mostra que a situação educacional é
completo (10,8%), teremos mais de 40% da força to- pior no Norte e Nordeste do país, em que o percentual
tal de trabalhadores com baixíssima escolaridade, ou de trabalhadores com baixa escolaridade chega a 50%,
seja, algo em torno de 40 milhões de trabalhadores e somente 11% possui nível superior completo, como
brasileiros. mostra a tabela anexa.

INSTRUÇÃO BRASIL NORTE NORDESTE SUDESTE SUL CENTRO-OESTE

Nenhum nível de instrução 4,8% 7,5% 9,9% 2,4% 2,7% 4,4%

Ensino Fundamental completo 10,8% 10,0% 9,5% 10,7% 13,2% 11,2%

Ensino Fundamental incompleto 25,6% 30,3% 30,8% 21,9% 25,6% 25,5%

Ensino Médio completo 31,1% 29,6% 28,3% 34,0% 29,5% 28,4%

Ensino Médio incompleto 6,3% 7,7% 6,2% 5,9% 6,6% 7,3%

Ensino Superior completo 16,0% 10,5% 11,0% 19,5% 16,1% 17,2%

Ensino superior incompleto 5,3% 4,4% 4,3% 5,7% 6,2% 5,9%

Por óbvio, a escolaridade do trabalhador tem re- pesquisa citada situa-se entre 35 e 45 horas, embora
percussão na compreensão de tarefas mais complexas existam jornadas mais longas, não raro acima de 48
e pode intervir na produtividade, que anda tão em voga horas (Costa Rica, Filipinas, Peru, Turquia, Cingapura e
quando se avalia o perfil do trabalhador brasileiro. República da Coréia).
É interessante observar que nos outros países (dife-
3.2. Jornada média dos trabalhadores rente do Brasil) os acordos e convenções coletivas são
longamente utilizados para a diminuição da jornada
Em estudos realizados sobre duração do trabalho de trabalho e aumento do tempo de férias, cabendo à
em todo o mundo, pesquisadores vinculados à OIT – jornada estatutária ou legal atuar como limite para os
Organização Internacional do Trabalho – chamam a trabalhadores não sindicalizados.
atenção para as diferenças de jornadas entre os grupos
de vários países industrializados e em desenvolvimento, Primeiro, conseguiu-se uma enorme redução
concluindo que cerca de 22% dos trabalhadores ainda das jornadas semanais de trabalhadores na Finlân-
cumpre jornada superior a 48 horas por semana, en- dia (de 44,8 para 37,1 horas), na França (de 43
quanto outra proporção significativa está subempregada para 35 horas), na Alemanha (de 48,6 para 38,3
em jornadas mais curtas só que em desvantagem de di- horas) e na Holanda (de 45,2 para 38,4 horas).
reitos. De qualquer modo, há uma tendência à jornada Foram também esses países que presenciaram au-
de até 40 horas, principalmente nos países industriali- mentos consideráveis nas férias anuais remunera-
zados, a exemplo da Áustria, Canadá, Estados Unidos, das. Ademais, deve-se notar que a extensão das
Itália, Japão, Espanha e Suécia, assim como nos países férias anuais (...) corresponde ao mínimo legal e
da Europa Central e Oriental. Quase a metade dos paí- que os acordos coletivos tendem a conceder mais
ses africanos adotou a jornada de 40 horas semanais, a dias de férias anuais do que o estabelecido em lei.
exemplo da Argélia, Congo, Camarões, Costa do Mar- (LEE; MCCANN; MESSENGER, 2009).
fim, Nigéria, Madagascar e Senegal. Mesmo os países
da Ásia, como China, Indonésia, Mongólia e República da É notória a relação entre longas jornadas e baixos
Coréia adotaram o limite de 40 horas (LEE, 2009). salários. O trabalhador tem necessidade de trabalhar
Por outro lado, o abismo entre jornada prevista na mais horas para conseguir uma remuneração melhor,
lei e jornada efetivamente trabalhada persiste. A jorna- ou seja, os limites mais elevados de jornadas estão rela-
da semanal média e efetiva nos países selecionados na cionados com menor renda nacional per capita.

— 27 —
Os dados sobre jornada de trabalho são varia- de aos dados pesquisados. Segundo a tabela a seguir,
dos e de difícil análise. Várias pesquisas são restritas que registra o tempo de trabalho em treze países,
a certas categorias, como, por exemplo, jornada no no período de 2000 a 2003, o trabalhador brasileiro
comércio, nos bancos, nas indústrias, além do que, teve jornada real mais extensa que todos os países
quase sempre há diferença entre a jornada legalmen- europeus. Considerando a jornada média apurada
te prevista e a jornada realmente praticada pelos tra- pelo IBGE no mesmo período, de 44,4 horas, só a
balhadores. De qualquer forma, a pecha de que o Coreia teve o número de horas trabalhadas maior que
trabalhador brasileiro trabalha pouco não correspon- o Brasil.

JORNADA DE TRABALHO SEMANAL EM PAÍSES SELECIONADOS

Países 2000 2001 2002 2003


Austrália ¹ 35,6 35,2 34,9 34,8
Alemanha¹ 39,8 40,8 41,5 40,8
Canadá¹ 31,6 31,6 31,9 -
Coréia² 47,5 47,0 46,2 -
Espanha² 35,9 35,9 35,7 35,4
EUA² 41,0 40,6 40,5 42,6
França² 39,0 38,4 38,3 38,6
Israel² 37,8 36,9 37,3 37,0
Japão² 42,7 42,2 42,2 42,0
Noruega² 35,1 34,9 34,8 34,6
R. Unido²³ 39,8 39,8 39,6 39,6
Suíça² 36,4 36,2 35,6 35,6
Itália² 39,3 39,3 38,2 38,3

No Brasil, segundo dados do IBGE, também há di- região geopolítica. A remuneração média dos homens
minuição no número de horas trabalhadas, comparadas brancos é quase o dobro do valor relativo aos negros,
com dados de dez anos atrás. Ocorre que as pesquisas pardos ou indígenas. A cidade de São Paulo é a que
revelam aumento no tempo gasto de percurso para o apresenta maior diferença, seguida de Salvador e Rio de
trabalho. Embora 65,8% da população ocupada leve Janeiro, onde brancos têm rendimento 2,3 vezes maior
até 30 minutos para chegar ao trabalho, houve um au- que negros e pardos.(12)
mento no percentual de pessoas que enfrentam um des- Durante esse mesmo período, houve redução do
locamento superior a 30 minutos, passando de 32,7%, desemprego e do trabalho informal, aliado ao aumento
em 2001, para 35,2%, em 2011, entre os homens, e do rendimento dos trabalhadores em virtude, principal-
de 27,9% para 32,6% entre as mulheres. Além disso, mente, da política de valorização do salário mínimo,
homens pretos e pardos demoram mais no trajeto entre reduzindo o grau de desigualdade no mercado de tra-
a residência e o local de trabalho: 36,6% levavam mais balho, cujos efeitos podem ser observados na melho-
de 30 minutos nesse trajeto, versus 31,8% dos brancos, ra dos indicadores que medem as condições de vida
por residirem em locais mais distantes do trabalho.(11) da população, como, por exemplo, o índice de Gini da
população ocupada, que sofreu redução progressiva,
3.3. Rendimento médio dos trabalhadores passando de 0,543, em 2005, para 0,498 em 2012 (SÍN-
TESE, 2013).
Segundo o Censo de 2010, a desigualdade de No entanto, o ano de 2016 apresentou outra rea-
rendimentos se manifesta por raça, sexo e também por lidade, com o crescimento da crise econômica e do

(11) Dados extraídos da Síntese de Indicadores sociais do IBGE 2012.


(12) Matéria disponível em: <ultimosegundo.ig.com.br>. Acesso em: 16 nov. 2011.

— 28 —
desemprego, que chegou a cerca de 10% dos trabalha- (qualificação), ambiente macroeconômico, investimen-
dores. Ao aumentar a procura por emprego, há estag- to de capital e tributos.(13)
nação de salários ou, o que é pior, diminuição de seus
valores, fenômeno comum na economia de mercado. RANKING DOS SALÁRIOS
O fato é que, analisando o gráfico abaixo, vê-se que já China 767,68
em 2010, os trabalhadores que recebiam até dois salá-
rios mínimos constituíam percentual superior a 70%; Brasil 788,00
trabalhadores sem rendimento: 6,6%; até meio salário Chile 938,92
mínimo: 8,1%; entre meio e um salário mínimo: 24,4%
e entre um e dois salários mínimos: 32,7%, ou seja, exa- Hungria 968,211
tos 71,9%. Se for considerado o rendimento até cinco Letônia 975,58
salários mínimos, o percentual sobe para 90,8%. Nessa
República Tcheca 1.004,64
perspectiva, menos de 10% dos trabalhadores brasilei-
ros ganham acima de R$ 4.400,00, considerando o va- Eslováquia 1.073,14
lor do salário mínimo de 2016. Estônia 1.082,29
RENDIMENTO POPULAÇÃO Polônia 1.184,40

Sem rendimento** 6,6% Croácia 1.195,58

Até meio salário mínimo 8,1% Turquia 1.350,01


Argentina 1.438,85
Entre meio e 1 salário mínimo 24,5%
Portugal 1.539,59
De 1 a 2 salários mínimos 32,7%
Taiwan 1.605,25
De 2 a 3 salários mínimos 10,6% Grécia 1.785,87

De 3 a 5 salários mínimos 8,3% Espanha 1.977,39


Venezuela 2.036,27
De 5 a 10 salários mínimos 6,1%
Malta 2.141,16
De 10 a 20 salários mínimos 2,2%
Eslovênia 2.389,14
Mais de 20 salários mínimos 0,9%
Chipre 2.817,00

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010, com valor do Andorra 2.932,85


salário mínimo em R$ 510,00. Áustria 3.048,70
Quando comparado o valor do salário mínimo no EUA 3.297,10
Brasil (dados de 2015) com outros países do mundo, ve-
mos que a remuneração brasileira está bem abaixo dos Islândia 4.063,68
países desenvolvidos e é quase igual à remuneração da Reino Unido 4.350,31
China, país considerado como de baixíssima proteção
França 4.406,53
social. A questão referente ao custo da mão de obra no
Brasil merece uma rápida reflexão: se os salários são Germany 4.491,74
baixos, significa que sobre essa base incidirão todos os Irlanda 4.571,01
demais direitos, o que transforma em falácia a afirma-
ção de que os direitos trabalhistas são impactantes para Holanda 4.578,54
o chamado “custo Brasil”, aliás, pesquisa sobre a com- Bélgica 4.754,08
petitividade do mercado brasileiro, divulgada pela CNI
em 2015, mostra que o fator “disponibilidade e custo Nova Zelândia 5.044,48
de mão de obra” é a maior vantagem que o Brasil pos- Luxemburgo 5.856,64
sui (do ponto de vista dos investidores), já que perde
Austrália 5.991,87
nos demais fatores, tais como, infraestrutura, educação

(13) Disponível em: <http://www.portaldaindustria.com.br/estatisticas/competitividade-brasil-comparacao-com-paises-selecionados>.

— 29 —
É interessante observar que, em 1996/1997, em pes- trabalho forçado, de 1930 e 1957, Convenções n. 29 e
quisa realizada nas regiões Nordeste e Sudeste, os bra- 105), as de idade mínima, de 1973 (Convenção n. 138)
sileiros definiram o valor de R$ 1.000,00 (mil reais) e piores formas de trabalho infantil, de 1999 (n.182), a
como a fronteira para uma “vida boa” e abaixo de de negociação coletiva, de 1949 (n. 98), a de igualdade de
R$ 200,00 (duzentos reais) como uma “vida má”. Em- remuneração, de 1951(n. 100) e a Convenção n. 111,
bora a diferença entre os valores não seja tão grande sobre a discriminação no emprego, de 1958. A única
(cerca de cinco vezes), a pesquisa expressa a diferença Convenção não ratificada pelo Brasil entre as essenciais
entre miséria e dignidade (R$ 200,00 para R$ 1.000,00). ao trabalho decente é a de n. 87, relativa à liberdade sin-
Dez anos após a pesquisa, o valor do salário mínimo dical e direito a livre sindicalização, em decorrência da
ainda é inferior ao valor considerado como elementar controvérsia referente a pluralidade e unicidade sindical.
para a dignidade do trabalhador(14), o que comprova o Logo, no aspecto normativo, não há lacuna subs-
quanto o rendimento do brasileiro é menor do que o es- tancial que impeça a aplicação do direito do trabalho.
perado como “mínimo de cidadania”. (SANTOS, 2006). Entretanto, os direitos trabalhistas continuam a ser vistos
como “menores e negociáveis”, expressão de recusa à
4. UMA QUESTÃO FINAL: HÁ IGUALDADE NAS sua essencialidade, direitos que sempre podem ser flexi-
NEGOCIAÇÕES COLETIVAS E NAS RELAÇÕES bilizados, ou melhor, quebrados, combatidos, como se
DE TRABALHO NO BRASIL? não estivessem positivados: constantemente sob amea-
ça, nunca efetivados e sempre descontruídos.
Os dados demonstram que a relação de trabalho no Da mesma forma que é inquestionável a importân-
Brasil é marcada por extrema desigualdade, facilmente cia da negociação entre empregados e empregadores
comprovada pelos baixos salários e escolaridade, pela para firmar novas condições de trabalho, também é im-
assimetria de direitos negociados em diferentes catego- prescindível o respeito à lei como padrão civilizatório
rias, pela grande diferenciação de renda e, sobretudo, mínimo. Logo, o equilíbrio deve ser buscado como a
pela continuada cultura de exploração herdada do pe- melhor alternativa e solução dos conflitos inerentes ao
ríodo escravocrata, que se reflete na desvalorização do mundo do trabalho. A questão é: diante de tamanha
trabalho, especialmente o manual, causando a prática desigualdade, como aquilatar a solução mais justa e
reiterada de descumprimento da legislação trabalhista. equilibrada? Como reconhecer as negociações coletivas
A informalidade ainda é um problema grave no previstas no inciso XXVI do art. 7º da Constituição Fede-
Brasil, abrangendo 43,1% dos trabalhadores. Conforme ral, sem compreender que o texto presente no caput do
os relatórios do IBGE (ano de 2012), os percentuais são mesmo artigo preceitua direitos aos trabalhadores sob a
ainda mais elevados nas Regiões Norte e Nordeste, on- perspectiva de “melhoria de sua condição social”?
de Pará e Maranhão possuem, respectivamente, 67,5% Michael Sandel, professor da Universidade de Har-
e 74,5% de seus trabalhadores inseridos na informalida- vard, demonstra que a visão liberal costuma ser mais
de. O quadro é diferente em alguns Estados, a exemplo de exigente para as relações de trabalho do que para as
Santa Catarina e do Distrito Federal, que possuem ape- demais relações sociais em que há escolhas e consen-
nas 26,9% de seus trabalhadores nestas condições. Os timento. Ao analisar o trabalho em situação de alta pe-
jovens de 16 a 24 anos e os idosos de 60 anos ou mais riculosidade, lembra que para a concepção liberal de
de idade apresentam os maiores percentuais de trabalha- justiça, não haveria problema o trabalho com risco à vi-
dores na informalidade, cujas taxas foram de 46,9% e da desde que tenha sido contratado mediante livre esco-
70,8%, respectivamente. lha do trabalhador em troca do salário, ou seja, havendo
livre escolha, o trabalho seria justo. Sandel esclarece,
O descumprimento do direito do trabalho não ocor-
no entanto, que o conceito de justiça vai muito além:
re por conter normas muito avançadas ou fora da rea-
lidade. Nosso conjunto normativo, em especial, a CLT, Para Aristóteles, nem mesmo o consentimen-
possui mais de 70 anos. A Constituição da República, to sob condições justas é suficiente. Para que o
que elevou grande parte dos direitos trabalhistas ao pa- trabalho seja justo, deve estar em conformidade
tamar de direitos fundamentais é de 1988, portanto, per- com a natureza dos trabalhadores que o desem-
to de completar 30 anos. O Brasil é signatário das mais penhem. Alguns trabalhos não passam nesse tes-
importantes Convenções da Organização Internacional te. São perigosos, repetitivos e arriscados demais
do Trabalho, em especial, sete das oito Convenções fun- para se adequar à natureza dos trabalhadores que
damentais referentes ao trabalho decente: as duas sobre os executam. Em casos assim, a justiça requer que

(14) O valor de R$ 1.000,00, atualizado para os dias de hoje estaria próximo de R$ 4.000,00, dependendo do índice escolhido.

— 30 —
o trabalho seja reorganizado para adequar-se à o poder da organização nem superestimar uma repre-
nossa natureza. Caso contrário, será um trabalho sentação que muitas vezes é fragilizada.
tão injusto quanto a escravidão. (SANDEL, 2012, Outro dado muito importante para avaliar a ne-
p. 251) cessidade da lei na garantia de direitos essenciais como
contraponto a tese que defende o predomínio do ne-
Nunca é demais lembrar que os direitos funda- gociado sobre o legislado é o baixo índice de sindica-
mentais devem prevalecer até mesmo quando a pessoa lização. Lembre-se que o Brasil possui mais de 43% de
ou coletividade não conhece ou discorda de sua dimen- trabalhadores na informalidade e sem organização sin-
são, como no famoso caso “de arremesso do anão”(15), dical que os represente. Mesmo entre os trabalhadores
conhecido por todos os estudantes de direito. Por que formais, menos de 1/3 é sindicalizada, segundo dados
seria diferente para os direitos trabalhistas? do Ministério do Trabalho. Aliás, a taxa de sindicaliza-
Frequentemente, a Seção de Dissídios Coletivos ção é oscilante, por exemplo, em 2009, era de 17,8%,
do Tribunal Superior do Trabalho julga processos em enquanto em 2013 era de 16%, ou seja, considerando o
que a saúde e a segurança do trabalhador são amea- número total de pessoas ocupadas (formais e informais),
çadas por condições estabelecidas em convenções e em torno de 100 milhões, apenas 16 milhões delas se-
acordos coletivos, a exemplo de cláusulas que pror- riam sindicalizadas. Calcula-se que somente a metade
rogam a jornada de trabalho em atividades insalubres dos sindicatos existentes celebraram alguma vez em sua
ou perigosas além de dez horas, sem autorização do história um acordo ou convenção coletiva, no universo
Órgão competente(16) e que restringem a estabilidade de mais de 15 mil sindicatos existentes no Brasil, alguns
da gestante, que extrapolam a jornada diária e semanal criados apenas para receber o imposto sindical. .
até 72 horas para os trabalhadores em turno ininter- Será que por trás de todo o preconceito e a discrimi-
rupto de revezamento (cuja jornada é de seis horas nação que circunda o tema do trabalho no Brasil, ainda
diárias e, no máximo, 36 semanais)(17); cláusulas que persiste a visão de que os trabalhadores são “subalter-
alteram a Constituição Federal e permitem trabalho de nos”, “inferiores”? A historiadora Emília Viotti da Costa
adolescentes abaixo de 16 anos(18) ou que impedem di- narra o triste relato de escravos que foram abandonados,
sem que a sociedade lhes assegurasse condições míni-
reitos fundamentais, como o direito de greve, de livre
mas de sobrevivência e para os quais a abolição repre-
reunião ou de acesso à Justiça(19).
sentara apenas o “direito de ser livre para escolher entre
Sem dúvida há diferença na análise de acordos in- a miséria e a opressão em que viveu (e ainda vive) grande
dividuais (realizados diretamente pelos trabalhadores) número de trabalhadores brasileiros” (COSTA, 2010).
e coletivos (realizados pelos sindicatos), uma vez que Nessa sociedade tão desigual, com trabalhadores
nestes últimos os entes sindicais assumem a direção das que recebem remuneração abaixo dos mínimos essen-
negociações, mas salvo exceções ocorridas nos grandes ciais, que trabalham em sobrejornada e que são ex-
centros urbanos, que possuem alguns sindicatos fortes postos a acordos e convenções coletivas em situação
e atuantes, parece um contrassenso acreditar que “sin- tão adversa, é possível falar em “igualdade de negocia-
dicatos são fortes por si mesmos”, a despeito de repre- ção” ou “plena liberdade de contratar”, na perspectiva
sentarem um conjunto de trabalhadores vulneráveis às conceitual de justiça e de direito do trabalho? Não há
ameaças constantes de redução de salários e desempre- liberdade onde reina a necessidade(20), por isso é tão de-
go? Uma solução mais próxima do conceito de justiça licado atribuir ao trabalhador, principalmente o hipos-
exige uma análise mais realista, considerando a equida- suficiente, um status de igualdade de condições com o
de e a proporcionalidade de cada caso, sem subestimar seu empregador e o reconhecimento amplo do negocia-

(15) Prática (para alguns, esporte ou brincadeira) em que anões são arremessados como se fossem dardos, levando à vitória a quem
lançar o anão mais longe. Em uma cidade francesa, a Prefeitura entendeu que a prática era ofensiva aos direitos humanos e inter-
ditou o estabelecimento. Para surpresa de todos, o próprio anão contestou a interdição, alegando que precisava daquele emprego
para sua sobrevivência. A discussão chegou ao Comitê de Direitos Humanos da ONU, que confirmou a decisão do Estado francês
em interditar o estabelecimento. O caso é emblemático ao difundir a tese que a dignidade humana é princípio universal, acima da
livre iniciativa e dos interesses individuais, até mesmo contra a vontade daquele que se quer proteger.
(16) Processos TST-RO 262800-35.2009.5.04.0000 /RO 2804-85.2012.5.04.0000/ RO 2961-92.2011.5.04.0000
(17) Processo TST-RO 573-74.2012.5.08.0000
(18) Processo TST RO 386700-55.2009.5.04.0000
(19) Processo TST E-RR 205900-57.2007.5.09.0325
(20) A frase original, atribuída à Franklin Delano Rossevelt, é “Homens necessitados não são homens livres”.

— 31 —
do sobre o legislado, na dúvida se as escolhas foram fei- GAMA, Aliny. Vítimas de trabalho escravo no Piauí dormiam
tas livremente ou sob pressão (financeira, por exemplo), com porcos. Disponível em: <http://economia.uol.com.br/
o que retiraria o consentimento ou a opção voluntária empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2015/07/28/vitimas-
das matérias supostamente acordadas (SANDEL, 2012). -de-trabalho-escravo-no-piaui-dormiam-com-porcos-diz-
-mpt.htm>. Acesso em: 28 jul. 2015.
Muitas perguntas foram feitas nesse trabalho, com
GOMES, Laurentino. 1889. 1. ed. São Paulo: Globo, 2013.
a perspectiva de que as respostas sejam encontradas por
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.
cada um dos leitores, sempre com o objetivo de inves-
Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições
tigar o real valor dado ao trabalho, em contraposição a de vida da população brasileira: 2012. Rio de Janeiro: IBGE,
sua importância no alcance de um país desenvolvido e 2012.
justo.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.
Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS de vida da população brasileira: 2013. Rio de Janeiro: IBGE,
2013. (Estudos & Pesquisas: informação demográfica e socioe-
ARAÚJO, Francisco Rossal; COIMBRA, Rodrigo. Direito do conômica n. 32). Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.
trabalho I. São Paulo: LTr, 2014. br/visualizacao/livros/liv66777.pdf>. Acesso em: 9 fev. 2017.
AZEVEDO, Célia. Onda negra, medo branco. O negro no LEE, Sangheon; McCANN, Deirdre; MESSENGER, Ion. Dura-
imaginário das elites no Século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Ter- ção do trabalho em todo o mundo. Brasília: OIT, 2009.
ra, 1987. SANDEL Michael. Justiça. O que é fazer a coisa certa. São
BRASIL. Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direi- Paulo: Civilização Brasileira, 2012.
tos da Pessoa. Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho SANTOS, Wanderley Guilherme. Horizonte do desejo: ins-
Escravo. Brasília: OIT, 2003. tabilidade, fracasso coletivo e inércia social. Rio de Janeiro:
CARDOSO, Adalberto. A construção da sociedade do traba- FGV, 2006.
lho no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2010. SEM, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo:
CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil. 16. ed. Rio de Companhia das Letras, 2010.
Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. SOUZA, Jessé. A construção social da subcidadania. 2. ed.
COSTA, Emília Viotti. Abolição. 9. ed. São Paulo: Unesp, Belo Horizonte: UFMG, 2012.
2010. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo.
São Paulo: Martin Claret, 2004.

— 32 —
4

DIREITO FUNDAMENTAL AO AMBIENTE DE TRABALHO


ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO
AUGUSTO CÉSAR LEITE DE CARVALHO(*)

1. O DIREITO AMBIENTAL COMO DIREITO dos no princípio de igualdade; surge um conjunto


FUNDAMENTAL de direitos, criados para garantir uma convivência
pacífica em um mundo sustentável, entre os quais
O direito fundamental a um meio ambiente eco- se destaca a proteção ao meio ambiente.(2)
logicamente equilibrado remete à Declaração de Es-
tocolmo, de 1972, pois nela se estabeleceu, como As constituições seguintes incorporaram a ideia e o
princípio primeiro, que “o homem tem o direito fun- preceito da Declaração de Estocolmo, seja no que toca
damental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de à titularidade ampla do direito ambiental, seja quanto à
condições de vida adequadas em um meio ambiente responsabilidade de toda a sociedade, não apenas dos
de qualidade tal que lhe permita levar uma vida dig- poderes públicos, pela defesa do meio ambiente atual e
na e gozar de bem-estar, tendo a solene obrigação de das futuras gerações.
proteger e melhorar o meio ambiente para as gerações Por exemplo, o art. 45 da Constituição espanhola
presentes e futuras”. de 1978 estabelece que “todos têm direito a desfrutar de
Os direitos de liberdade e os direitos sociais se um meio ambiente adequado ao desenvolvimento da
combinam, assim, com aqueles direitos, novos ou pessoa, bem assim o dever de conservá-lo”, e que “os
emergentes, que “apresentam uma funcionalidade dis- poderes públicos velarão pela utilização de todos os re-
tinta, consistente na garantia de seguridade e saúde de cursos naturais, com o fim de proteger e melhorar a qua-
pessoas indiferenciadas [...] e da própria subsistência lidade de vida e defender e restaurar o meio ambiente,
ou conservação dos demais seres vivos do planeta”(1). apoiando-se na indispensável solidariedade coletiva”.
Sinala Villagrasa Alcaide: O art. 225 da Constituição brasileira de 1988 dis-
[...] o meio ambiente se há erigido como um bem põe, por sua vez, que “todos têm direito ao meio ambien-
juridicamente protegido desde os direitos humanos te ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do
denominados de terceira geração. Após um primei- povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se
ro conjunto de direitos reconhecidos, os direitos ci- ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo
vis e políticos das pessoas, baseados no princípio e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
fundamental de liberdade; e uma segunda série de Em rigor, tem-se verificado a ampliação do ângulo
direitos, os direitos econômicos e sociais, assenta- de incidência dos direitos humanos, que se abre desde a

(*) O autor é ministro do Tribunal Superior do Trabalho. Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Ceará e Dou-
tor em Direitos das Relações Sociais pela Universidad de Castilla la Mancha. Pós-doutorando pela Universidade de Salamanca.
Professor do Instituto de Educação Superior de Brasília – IESB. Endereço eletrônico: <augustocesar@tst.jus.br>.
(1) MONEREO PÉREZ, J. L.; RIVAS VALLEJO, P. Prevención de Riesgos Laborales y Medio Ambiente. Granada: Editorial Comares, 2010.
p. 17.
(2) VILLAGRASA ALCAIDE, C.; MONEREO PÉREZ, José Luiz; RIVAS VALLEJO, Pilar (coords.). Responsabilidad General. La Prevención
de riesgos medioambientales en el ámbito de las relaciones de trabajo. Madri: Editorial Comares, 2011. p. 601.

— 33 —
dimensão individual até atender à tutela coletiva, ou des- do homem em qualquer ambiente de trabalho. Direitos
de o interesse coletivo até evoluir na direção de contem- tais que abarcam as condições de tempo e de modo do
plar, em perspectiva ecológica, a causa humanitária. Vale trabalho, bem assim a imunidade contra agentes insalu-
dizer: à afirmação dos direitos subjetivos de liberdade se bres ou qualquer outro risco do lugar de onde provêm
seguiram os direitos sociais(3), e em seguida as garantias tanto a produção econômica quanto os meios de subsis-
institucionais, que fundiram as ideias de interesse coleti- tência do trabalhador, promovendo assim o necessário
vo e de pertencimento à coletividade, seguindo-se enfim equilíbrio entre o ecossistema laboral e a biosfera(5).
a percepção de que os direitos do homem somente se
realizam em plenitude quando alcançam igualmente a 2.1. Princípio do desenvolvimento sustentável
todos e se preserva, ademais, a possibilidade de subsisti-
rem esses direitos a favor das futuras gerações. O postulado do desenvolvimento sustentável con-
Em suma, o direito ambiental impregna os direitos sagra uma expressão usada por grupo de pesquisado-
humanos dos postulados da harmonia e da solidarieda- res do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT)
de. Trata da relação recíproca entre o homem e o meio em documento enviado ao Clube de Roma nos idos
ambiente, tratando, assim e simultaneamente, de eco- de 1974, embora seu significado já estivesse revela-
logia e de equilíbrio, em um projeto ambicioso de um do, por exemplo, no princípio 13 da Declaração de
direito para toda a humanidade. Estocolmo: “Com o fim de se conseguir um ordena-
mento mais racional dos recursos e melhorar assim as
condições ambientais, os Estados deveriam adotar um
2. PRINCÍPIOS DE DIREITO AMBIENTAL E SUA
enfoque integrado e coordenado de planejamento de
PROJEÇÃO NA RELAÇÃO LABORAL
seu desenvolvimento, de modo que fique assegurada a
Os teóricos do direito ambiental extraem dos pre- compatibilidade entre o desenvolvimento e a necessi-
ceitos da Constituição que cuidam do meio ambiente dade de proteger e melhorar o meio ambiente humano
alguns princípios com claro conteúdo jurídico, a saber: em benefício de sua população”(6). Segundo Monereo
princípio do desenvolvimento sustentável, da participa- e Rivas:
ção, da prevenção e da precaução. Predizem igualmen- [...] o Direito Ambiental expressa esse giro na
te que o direito ambiental possui o traço da ubiquidade, política do Direito do Estado Social, obedecendo a
dado que a tutela da vida e da qualidade de vida é seu um desígnio intervencionista, de regulação e con-
ponto cardeal, o suficiente para que tudo que se plane- trole, para a tutela do meio ambiente. A intervenção
je fazer, criar ou desenvolver deva antes submeter-se a se dirige às organizações econômicas – privadas e
uma consulta ambiental(4). públicas – que possam atuar como agentes conco-
A Constituição brasileira, quando assegura o di- mitantes. O Direito Ambiental trata de proteger a
reito fundamental à saúde, inclui a proteção do meio qualidade de vida, entendida em sentido amplo,
ambiente do trabalho (art. 200, VIII), o que significa a de tal maneira que possa compreender a conser-
tutela, no âmbito ubíquo do direito ambiental, de to- vação da Natureza e a defesa do bem-estar físico,
dos os direitos que concorrem para preservar a saúde psíquico e material de toda a sociedade humana(7).

(3) Anota Mauricio Godinho Delgado (2012, p. 47) que “os direitos sociais têm uma dimensão dupla e combinada, uma vez que
ostentam o caráter de direitos e garantias individuais dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que integram, em seu conjunto, o
largo espectro dos direitos sociais que caracterizam a ordem jurídica”. Na mesma obra (p. 24), Gabriela Neves Delgado observa
com acuidade: “A instauração de um Estado forte e intervencionista, capaz de garantir direitos e restabelecer a economia, foi a
alternativa encontrada pelos países do capitalismo central para sobreviverem à devassa da sangrenta Segunda Guerra Mundial e
resgatarem, sob nova ótica, a dinâmica capitalista”.
(4) FIORILLO, C. A. P. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2010.
(5) BARROS, C. M. Saúde e Segurança do Trabalhador – Meio Ambiente de Trabalho. Disponível em: <http://www.mesquitabarros.
com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=31%3Asaude-e-seguranca-do-trabalhador-meio-ambiente-de-trabalho
&catid=7%3Aartigos&Itemid=3&lang=pt>. Acesso em: 30 set. 2011.
(6) GRANZIERA, M. L. M. Direito Ambiental. São Paulo: Atlas, 2009. p. 53.
(7) Op. cit., p. 21. Os autores acrescem (op. cit., p. 79): “La idea de desarrollo sostenible comporta en sí la exigencia de redefinir el
concepto de progreso. Existe una ruptura radical con la ideología del progreso lineal y con el paradigma tecnológico y económico
de la civilización industrial moderna tal como ha venido formulándose. Se apunta la necesidad de evitar el que se ha dado en llamar
‘progreso destructivo’. El peligro procede de las desmesuradas proporciones de la civilización científico-técnica industrial. De lo
que se trata es de conciliar la racionalidad científica con la democracia y la conservación de las personas y del medio ambiente”.

— 34 —
No que concerne às relações laborais, o desen- art. 2º da Lei n. 10.650/2003 impõe aos órgãos e entida-
volvimento sustentável é, em rigor, uma ideia elemen- des da administração pública a obrigação de permitir o
tar que se associa sobretudo à convicção, sob as luzes acesso de todos a documentos, expedientes e processos
vetoriais da dignidade da pessoa humana, de que não administrativos que tratem de matéria ambiental e igual-
interessa ao atual padrão civilizatório o fomento incon- mente de prover todas as informações ambientais que
dicionado do emprego, senão que se devem proibir as tenham sob a sua guarda.
condições de trabalho degradantes, aquelas que não O princípio da participação se encontra ainda mais
considerem a preeminência do homem em qualquer
alvissareiro na realidade laboral, dado que atrai a respon-
processo produtivo. Como há dito Villagrasa:
sabilidade dos titulares da empresa e dos entes coletivos,
O denominado desenvolvimento sustentável inclusive de sindicatos e associações profissionais, quan-
pretende compaginar e racionalizar o equilíbrio en- to à defesa da saúde e segurança do trabalhador. Aponta
tre os objetivos econômicos da produção industrial Amparo Garrigues Giménez que “os sistemas mais avan-
e a manutenção dos recursos naturais do planeta, çados de gestão de organizações (e, por conseguinte, de
em perspectiva de presente e de futuro, paliando as gestão empresarial) operam sob a premissa da qualidade
consequências negativas que os danos ambientais total de produtos e processos, através de sistemas de ges-
provocam sobre a biodiversidade ecológica(8). tão integral e integrada dos distintos vetores estratégicos:
qualidade, meio ambiente, saúde laboral, responsabili-
O desenvolvimento comporta, em verdade, graus dade social corporativa [...], segurança da informação,
de sustentabilidade: quando a atividade econômica é gestão da inovação ou gestão do conhecimento”(11).
imprescindível e o risco à saúde ou integridade física
do trabalhador é tolerável, o sistema jurídico promove Após citar alguns sistemas de normatização e certi-
a mera monetização do dano potencial à condição hu- ficação(12), a professora Amparo Garrigues observa:
mana e assegura, assim, o pagamento de adicionais de E eis que a atuação política e normativa, tanto
insalubridade ou periculosidade que servem de estímulo europeia como interna, vêm configurando a pre-
à adoção de meios que neutralizem ou eliminem a ad- venção de riscos laborais, enquanto dever empre-
versidade; quando o risco à higidez física do trabalhador
sarial, como atividade (sucessão e conjunção de
sobeja níveis razoáveis de tolerância, inibe-se a atividade
obrigações tendentes à realização dessa ‘proteção
econômica(9), ou se interdita(10), pois mais forte que o va-
eficaz’ devida ao trabalhador) e sobretudo, e cada
lor do trabalho humano é o valor humano no trabalho.
vez com maior intensidade, como atitude empre-
Não em vão, o art. 170 da Constituição brasileira sarial. Com efeito, a prevenção de riscos laborais,
preceitua que a ordem econômica, fundada na valori- em sua dimensão atitudinal, supõe a interiorização
zação do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por por parte da empresa da necessidade de conceber,
fim assegurar a todos existência digna, em conformi- traçar, implantar e implementar um processo pro-
dade com os ditames da justiça social. Não consente, dutivo seguro, o que não é possível senão desde a
como se nota, que se cogite de liberdade de empresa
integração a esse processo das exigências de segu-
sem responsabilidade social.
rança e saúde [...](13).

2.2. Princípio da participação Por outro lado, o Livro Verde da Comissão Euro-
peia inclui, no tópico relativo ao fomento de um marco
O princípio da participação corresponde ao de- europeu para a responsabilidade social das empresas
ver de que todos, não somente o Estado, colaborem na em sua dimensão interna, a saúde e segurança do local
defesa e preservação do meio ambiente. No Brasil, o de trabalho. Conforme Monereo e Rivas, “trata-se de

(8) Op. cit., p. 601.


(9) Art. 160 da CLT.
(10) Art. 161 da CLT.
(11) GARRIGUES GIMÉNEZ, A.; MONEREO PÉREZ, José Luiz; RIVAS VALLEJO, Pilar (coords.). La gestión de la prevención de riesgos
laborales: organización de la prevención. La Prevención de riesgos medioambientales en el ámbito de las relaciones de trabajo.
Madri: Editorial Comares, 2011. p. 381.
(12) ISO 9001:2008, ISO 14001:2004, ISO 27001 e outros.
(13) Idem, ibidem.

— 35 —
incentivar ações voluntárias com caráter complementar ção contida no capítulo VIII (‘Responsabilidade So-
da normativa legal, e não com caráter substitutivo”(14). cial das Empresas’) do Acordo Interconfederal para
Quanto à participação dos sindicatos na regula- a negociação coletiva 2007. Em termos de decla-
mentação de medidas que protejam a incolumidade e a ração de objetivos a perseguir se indica o seguin-
saúde do trabalhador, parece interessante observar co- te: a introdução de práticas de responsabilidade
mo as duas entidades mais representativas dos trabalha- social nas empresas constitui para as organizações
dores espanhóis (UGT e CCOO – Comissões Obreiras) empresariais e sindicais um sério compromisso e
convergem acerca da própria inapetência. Luis Ezquera esforço complexo que há de contar com o maior
Escudero, coordenador técnico do Gabinete Jurídico da grau de implicação e de consenso. Os compro-
UGT Cataluña e doutor em Direito, anota que tanto a missos e as práticas que aconteçam sob a rubrica
normativa comunitária(15) quanto a nacional(16) preveem da responsabilidade social devem contribuir para
o direito à informação, participação e acesso à justiça modernizar, favorecer e melhorar a eficiência e a
como direitos ambientais de todos os cidadãos e orga- competitividade de nosso tecido produtivo sem
nizações que os representam, mas, na sequência, afirma questionar a função da empresa de criar riqueza
Escudero que não há a devida participação no processo e emprego.(19)
produtivo das empresas porque “o Direito Laboral não
contempla de forma expressa, quer seja o direito a al- Caso se considerem apenas as cláusulas concer-
guma informação específica sobre meio ambiente na nentes à saúde e à segurança do trabalhador (não obs-
relação com a empresa, quer sejam alguns conteúdos tante o ambiente de trabalho abarque outros direitos,
mínimos na negociação coletiva sobre essa matéria”(17). inclusive de conteúdo pecuniário, que concorrem para
Também, Manuel Garí Ramos, diretor da Área de a harmonia do habitat laboral), no Brasil, o problema da
Meio Ambiente do Instituto Sindical de Trabalho, Am- omissão sindical se repete, pois as convenções e acor-
biente e Saúde (ISTAS) das Comissões Obreiras, lamenta dos coletivos referem-se, não raro, apenas a vantagens
o fato de que “o movimento obreiro e os sindicatos não puramente econômicas.
foram conscientes até tempos muito recentes do pro-
Sem embargo, a Norma Regulamentadora n. 7 do
blema ambiental [...]. Hoje estamos ante um problema
Ministério do Trabalho e Emprego, quando impõe o
ecológico muito maior, mas ainda é possível inverter a
Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional,
direção dos ventos. Para isso é necessário reconstruir e
permite que os parâmetros e diretrizes que visam à pro-
enriquecer o discurso sindical”(18).
moção e à preservação da saúde do conjunto dos traba-
Em sentido diverso, mas parecendo situar-se no
lhadores sejam ampliados por negociação coletiva(20). A
plano estritamente programático, Monereo e Rivas si-
Norma Regulamentadora n. 9 do MTE fixa, a seu turno,
nalam a propósito da mesma experiência espanhola:
a obrigação de a empresa instituir o Programa de Pre-
[...] a mesma ideia de autorregulação social vo- venção de Riscos Ambientais e, além de também abrir
luntária através da responsabilidade social da em- a ampliação do PPRA por meio de normas coletivas(21),
presa tem penetrado na negociação coletiva em regula a participação dos trabalhadores na elaboração,
todos os níveis. Assim, é disso expoente a regula- implantação e execução do mencionado programa(22).

(14) Op. cit., p. 30.


(15) O articulista se refere ao Sexto Programa de Acción Comunitario en Materia de Medio Ambiente. Decisão 1600/2002/CEE, de 16
de julho.
(16) Refere-se o autor à Estrategia Española de Desarrollo Sostenible, ano 2007, que em seu capítulo de Actuaciones contempla, entre
outros, o fomento do diálogo social, apoiando expressamente o associacionismo empresarial e sindical.
(17) ESQUERRA ESCUDERO, L.; MONEREO PÉREZ, José Luiz; RIVAS VALLEJO, Pilar (coords.). La importancia de los riesgos ambien-
tales y la salud laboral en las empresas. Visión sindical. La Prevención de riesgos medioambientales en el ámbito de las relaciones
de trabajo. Tradução livre. Madri: Editorial Comares, 2011. p. 142.
(18) GARÍ RAMOS, M.; MONEREO PÉREZ, José Luiz; RIVAS VALLEJO, Pilar (coords.). Acción sindical en materia de medio ambiente:
CCOO. La Prevención de riesgos medioambientales en el ámbito de las relaciones de trabajo. Tradução livre. Madri: Editorial Co-
mares, 2011. p. 151.
(19) Op. cit., p. 30.
(20) Item 7.1.2 da NR-7.
(21) Item 9.1.4 da NR-9.
(22) Itens 9.1.2 e 9.4.2 da NR-9.

— 36 —
2.3. Princípio da prevenção tabeleceu prontamente garantias para o seguro contra a
enfermidade na indústria, comércio e serviço doméstico
Como se reiterará adiante, a prevenção atua quan- (Convenção 24 de 1927), na agricultura (Convenção n.
do os riscos são conhecidos e, pelo fato de serem previ- 25 de 1927), além de outras(25) que se destinam à prote-
síveis, devem ser evitados. Distingue-se da precaução, ção dos acidentes de trabalho e doenças ocupacionais(26).
que incide nas hipóteses de ignorância ou incerteza No Brasil, o Capítulo V da CLT estabelece regras de
acerca dos riscos ambientais. proteção e prevenção de riscos laborais e o Ministério
E deve ser assim, sobretudo porque os danos am- do Trabalho e Emprego tem a atribuição suplementar
bientais são comumente irreversíveis e irreparáveis, ou de regulamentar as normas de saúde e segurança(27). A
não inteiramente reparáveis. Celso Fiorillo propõe que Portaria 3214, de 1978(28), especifica as medidas de pro-
nos perguntemos: Como recuperar uma espécie extinta? teção individuais e coletivas que devem ser adotadas
Como erradicar os efeitos de Chernobyl? De que forma pelos empresários com vistas a prevenir os acidentes e
se restitui uma floresta milenar que se tenha devastado e enfermidades laborais, além de detalhar os limites de
abrigava milhares de ecossistemas diferentes, cada qual tolerância que podem ser suportados pelos trabalhado-
com um papel essencial na biosfera?(23) No ambiente de res e os adicionais de remuneração devidos sempre a
trabalho, à semelhança do que há sucedido na Espa- que esses limites são excedidos.
nha(24), a prevenção dos riscos laborais se acha tradicio- O Superintendente Regional, que é a autoridade
nalmente regulada por normas distintas daquelas que com delegação do Ministério do Trabalho e Emprego
mais recentemente inauguraram o direito ambiental co- em cada unidade da Federação, tem o poder de inter-
mo uma disciplina autônoma e quiçá ubíqua, por com- romper o manejo de máquinas ou interditar atividades
preender todas as disciplinas jurídicas preexistentes. em estabelecimentos empresariais nos quais encontre
As normas de prevenção de riscos laborais remon- riscos graves e iminentes ao trabalhador. A interdição
tam quase a era em que desvelado o direito social, pois pode ser inclusive promovida por auditores fiscais, se-
não por acaso as primeiras convenções da Organização gundo a jurisprudência que se formou no âmbito do
Internacional do Trabalho se dedicaram à questão sem- Superior Tribunal de Justiça(29).
pre candente dos acidentes de trabalho. Luis Enrique Por sua vez, o Ministério Público do Trabalho tem
de la Villa Gil ressalta que, criada em 1919, a OIT es- promovido ações coletivas com o objetivo de obrigar as

(23) Op.cit., p. 111.


(24) Op. cit., p. 22. Os autores observam: “[…] el derecho medioambiental se ha limitado a regular el medioambiente ‘externo’, exclu-
yendo todo el campo de la prevención de riesgos laborales en el interior de la empresa. Pero no sólo estamos ante dos disciplinas
diferenciadas – lo cual tiene comprensible y atendible lógica histórica y funcional, dado el carácter diferenciado de su objeto y de
los bienes jurídicos objeto de tutela o tutelados –, sino ante dos ramificaciones del ordenamiento jurídico que en gran medida han
tendido a ignorarse mutuamente, rehusando un necesaria coordinación en el marco de una serie de principios y reglas mínimas
compartidas. Ello ha supuesto el efecto, no poco paradójico, de que el Derecho medioambiental no incida – al menos directamen-
te – en el campo de las relaciones de producción, y, por consiguiente, de las relaciones laborales. […] Cuestión distinta es que la
regulación medioambiental general incida, como lo hace efectivamente, en el campo de la producción misma, toda vez que la
mayor parte de los factores de riesgo contaminantes del medio ambiente ‘externo’ a la propia empresa se localizan precisamente
dentro de la organización productiva. La protección medioambiental en la dimensión interna acabará, significativamente, incidiendo
también en una mejora de las condiciones de seguridad y salud del ambiente de trabajo, y […] la mejora del ambiente de trabajo
redundará en una mejora del ambiente externo a la empresa”. […] Se ha de imponer una coordinación internormativa dentro de un
ordenamiento jurídico que debe basarse en la unidad, coherencia y eficiencia de las políticas de Derecho encaminadas a proteger
el medio ambiente general y el ambiente de trabajo en particular.”
(25) Convenção n. 17 de 1925, Convenção n. 42 de 1934, Convenção n. 56 de 1936, Convenção n. 70 de 1946, Convenção n. 115
de 1960, Convenção n. 148 de 1977 etc. Sebastião Geraldo de Olveira enumera, como convenções da OIT que tratam direta ou
indiretamente da saúde do trabalhador, as seguintes: a) ratificadas pelo Brasil: as Convenções ns. 103, 115, 127, 134, 136, 139,
148, 152, 155, 159, 161, 162, 163, 167, 170, 171, 174, 176 e 182; b) não ratificadas pelo Brasil: as Convenções ns. 121, 184 e
187 (OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Proteção Jurídica à Saúde do Trabalhador. São Paulo: LTr, 2011. p. 87).
(26) DE LA VILLA GIL, L. E.; CASAS BAAMONDE, M.E.; DURÁN LÓPEZ, F.; CRUZ VILLALÓN, J. (Coords.). El Derecho a la Salud,
Universal e Inaprensible. Las Transformaciones del Derecho del Trabajo en el Marco de la Constitución Española. Tradução livre.
Madri: La Ley, 2006. p. 971.
(27) Art. 200 da CLT.
(28) Disponível em: <http://www3.dataprev.gov.br/sislex/paginas/63/mte/1978/3214.htm>.
(29) STJ, 2ª Turma, REsp 916334/RS, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe 31.08.2009.

— 37 —
empresas à implantação de medidas de prevenção não A relação entre as medidas preventivas e aquelas
previstas em normas estatais. Por exemplo, a Terceira mais propriamente de precaução, longe de ser excluden-
Turma do Tribunal Superior do Trabalho decidiu que era te, mostra-se integrativa ou complementar. No ambiente
válida lei estadual que impunha às instituições bancá- laboral, as medidas de prevenção se manifestam sempre
rias um sistema de segurança que compreendia a insta- que a ciência evidencia a causalidade entre determina-
lação de portas giratórias eletrônicas, vidros laminados das condições de trabalho e certas enfermidades – em
e circuitos internos de televisão nas suas agências(30). lugar de prevalecer a lógica econômica, convertendo-
Noutra decisão emblemática, a Segunda Turma do TST se a expectativa de morbidez em um custo monetário,
ordenou que se assegurasse a carvoeiros equipamen- prefere-se prevenir o dano mediante a implementação
tos de proteção individual e também equipamentos que de medidas que, se encarecem a produção, têm o
proporcionem dignidade às condições laborais (cama, ingente desiderato de preservar a saúde ou, por fortuna,
colchões, água potável e instalações sanitárias)(31). a vida do trabalhador.
Aspecto relevante da prevenção é o que se extrai Um debate que ilustra o avanço desde a prevenção
da Súmula n. 289 do TST, segundo o qual “o simples até a precaução, a propósito de matéria que envolve
fornecimento do aparelho de proteção pelo emprega- também interesse laboral, se encontra nos processos ju-
dor não o exime do pagamento do adicional de insa- diciais acerca do uso do amianto ou asbesto no Brasil.
lubridade. Cabe-lhe tomar as medidas que conduzam A saber, asbesto é o nome adotado para seis materiais fi-
à diminuição ou eliminação da nocividade, entre as brosos (grunerita, crisotila, riebeckita, tremolita, bisolita
quais as relativas ao uso efetivo do equipamento pelo e antofilita) que se acham na natureza e apresentam in-
empregado”. Sem a real utilização dos equipamentos o teressantes propriedades com baixo custo de extração.
empregador não se desonera da obrigação de pagar o
Tem-se utilizado o amianto para incontáveis
adicional de insalubridade.
aplicações industriais ou na composição de inúme-
ros produtos manufaturados, inclusive como material de
2.4. Princípio da precaução construção (telhas, azulejos, cimento), em insumos da
indústria automobilística (embreagem, freio, compo-
A melhor expressão do princípio da precaução tal- nentes de transmissão) e da indústria têxtil (seu efeito
vez seja o art. 15 da Declaração das Nações Unidas isolante e sua resistência ao calor e a chamas o fazem
sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio de útil na indumentária dos bombeiros e em equipamentos
Janeiro, 7 de maio de 1992): “Com o fim de proteger de proteção individual), em embalagens e revestimen-
o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser tos, tintas, talco etc. À exceção da crisotila, todas as
amplamente observado pelos Estados, de acordo com formas de amianto são muito resistentes aos ácidos e
suas capacidades. Quando houver ameaça de danos aos álcalis e todas se decompõem a altas temperaturas
graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica (800/1000 °C), daí porque usadas para a proteção igní-
absoluta não será utilizada como razão para o adiamen- fuga de estruturas metálicas, trajes de bombeiros etc(33).
to de medidas economicamente viáveis para prevenir
Na Europa, a Directiva 1999/77 da União Euro-
a degradação ambiental”. Observam Monereo e Rivas:
peia, “considerando que ainda não foi identificado o
O princípio da precaução em matéria ambiental nível mínimo de exposição abaixo do qual o crisótilo
e preventiva se diferencia do princípio da preven- de amianto não produz riscos cancerígenos”(34), proi-
ção porque o primeiro exige adotar medidas que biu todas as formas de amianto, inclusive a crisotila, a
reduzam a possibilidade de sofrer um dano ambien- partir de 2005. Mesmo antes de essa proibição vigorar,
tal grave apesar de que se ignore a probabilidade a Espanha proscreveu a comercialização e utilização
precisa de que ele ocorra, enquanto o princípio da de todas as variedades do amianto desde dezembro de
prevenção obriga a tomar medidas dado que se co- 2001(35). Também se anteciparam à citada directiva, ba-
nhece o dano ambiental que se pode produzir.(32) nindo logo todas as formas de amianto, a Alemanha, a

(30) TST, 3ª Turma, RR 186700-23.2001.5.03.0008, Rel. Min. Carlos Alberto Reis de Paula, DJ 21.10.2005.
(31) TST, 2ª Turma, RR 148840-63.2005.5.03.0067, Rel. Min. Renato de Lacerda Paiva, DJ 16.06.2010.
(32) Op. cit., p. 23.
(33) Informações disponíveis em: <http://es.wikipedia.org/wiki/Asbesto>. Acesso em: 30 out. 2011.
(34) Disponíveis em: <http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=CELEX:31999L0077:PT:HTML>.
(35) A proibição se deu mediante Ordem de 7 de dezembro de 2001, a qual modificou o anexo I do Real Decreto n. 1.406/1989, de
10 de novembro, conforme publicação no BOE número 299 de 14 de dezembro.

— 38 —
Áustria, a Bélgica, a Dinamarca, a Finlândia, a França, nambuco), as quais proscreveram igualmente o amianto
a Grã Bretanha, a Itália, a Noruega, a Polônia, os Paí- crisotila no âmbito de seus territórios, por meio de leis
ses Baixos, a República Tcheca, a Suécia e a Suíça. Tal estaduais cuja validade foi impugnada no âmbito do Su-
banimento igualmente se deu na Arábia Saudita, na Ar- premo Tribunal Federal.
gentina, no Chile, nos Emirados Árabes, na Eslovênia e A reação dos atores sociais e da comunidade ju-
na Nova Zelândia. Estados Unidos enceta gradualmente rídica bem diz sobre o desassossego que a matéria em
a proibição do amianto, desde 1989, e o Canadá foi todos provoca: por um lado, a Associação Nacional do
um dos primeiros países a proibir o amianto branco, Transporte de Cargas e Logística intentou arguição de
apesar de ser um dos seus principais exportadores (junto descumprimento de preceito fundamental (ADPF 234)
com Zimbábue, China, Rússia e Brasil) para países em contra o Governador do Estado de São Paulo, porque
desenvolvimento(36). foi obstaculizado o transporte dos produtos do amianto
A questão é mais candente no que toca ao criso- na região geográfica correspondente ao estado paulista;
tila, ou amianto branco, que é a fibra de amianto de também a Confederação Nacional dos Trabalhadores na
maior utilização e representa 94% da produção mun- Indústria propôs ação direta de inconstitucionalidade
dial. A indústria do fibrocimento é a principal usuária da (ADI n. 3.937) visando impugnar a eficácia da lei paulista
crisotila, o que equivale a 85% do uso total(37). vedadora do comércio do amianto, e o Governador do
O Brasil ratificou em 1991 a Convenção n. 162 da Estado de Goiás ajuizou ações diretas de inconstitucio-
OIT(38), que impõe a obrigação de incluir na legislação nalidade contra a mesma lei paulista (ADI n. 2.656/SP)
nacional medidas de prevenção e controle dos riscos e contra a lei sul-mato-grossense (ADI n. 2.396/MS), lo-
à saúde devido à exposição profissional ao asbesto, e grando êxito em sua tentativa de obter a ineficácia de
logo se editou entre nós a Lei n. 9.055, de 1955, que leis que, embora emanadas em outros estados, repercu-
proibiu a utilização industrial e a comercialização de tiam na economia de Goiás. A ementa que corresponde
algumas variedades do amianto pertencentes ao grupo à primeira dessas ações é elucidativa:
das anfibólicas(39), mas autorizou a extração e utilização AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONA-
do tipo crisotila, ou amianto branco. A transigência do LIDADE. LEI PAULISTA. PROIBIÇÃO DE IM-
Brasil em relação a essa espécie certamente resultou de PORTAÇÃO, EXTRAÇÃO, BENEFICIAMENTO,
estudos desenvolvidos ao início da década de 1990 por COMERCIALIZAÇÃO, FABRICAÇÃO E INSTALA-
pesquisadores canadenses que concluíram ser menos ÇÃO DE PRODUTOS CONTENDO QUALQUER
nocivo o amianto branco, dado que as investigações in- TIPO DE AMIANTO. GOVERNADOR DO ESTA-
formavam os tipos anfibólicos – entre os quais não se DO DE GOIÁS. LEGITIMIDADE ATIVA. INVASÃO
inclui o crisotila – como os mais presentes em cânceres DE COMPETÊNCIA DA UNIÃO. 1. Lei editada
de pulmão. pelo Governo do Estado de São Paulo. Ação di-
Todavia, antigas e novas pesquisas comprova- reta de inconstitucionalidade proposta pelo Go-
riam a presença exclusiva ou predominante da fibra do vernador do Estado de Goiás. Amianto crisotila.
amianto branco, o crisotila, em pessoas que adoeceram Restrições à sua comercialização imposta pela
com placa pleural ou mesotelioma(40). A autorização pa- legislação paulista, com evidentes reflexos na eco-
ra que se produza e comercialize o amianto branco no nomia de Goiás, Estado onde está localizada a
Brasil causou a imediata reação de algumas entidades maior reserva natural do minério. Legitimidade ati-
da Federação (Mato Grosso do Sul, São Paulo e Per- va do Governador de Goiás para iniciar o processo

(36) MENDES, René. Disponível em: <http://es.wikipedia.org/wiki/Asbesto>. Acesso em: 25 set. 2012.
(37) MENDES, R. Efeitos da Inalação de Fibras de Asbesto (Amianto) Sobre a Saúde Humana: estado atual do conhecimento e funda-
mentação científica para uma política de priorização da defesa da vida, da saúde e do meio-ambiente. Disponível em: <http://
pt.scribd.com/doc/59314623/efeitos-saude-amianto-1>. Acesso em: 25 set. 2012.
(38) Ratificação da Convenção n. 162 da OIT pelo Decreto Executivo 126, publicado no DOU de 23 maio 1991.
(39) Art. 1º da Lei n. 9.055, de 1 de junho de 1995: É vedada em todo o território nacional: I – a extração, produção, industrialização,
utilização e comercialização da actinolita, amosita (asbesto marrom), antofilita, crocidolita (amianto azul) e da tremolita, varie-
dades minerais pertencentes ao grupo dos anfibólios, bem como dos produtos que contenham estas substâncias minerais; II – a
pulverização (spray) de todos os tipos de fibras, tanto de asbesto/amianto da variedade crisotila como daquelas naturais e artificiais
referidas no art. 2º desta Lei; III – a venda a granel de fibras em pó, tanto de asbesto/amianto da variedade crisotila como daquelas
naturais e artificiais referidas no art. 2º desta Lei.
(40) MENDES, R. Asbesto (amianto) e doença: revisão do conhecimento científico e fundamentação para uma urgente mudança da
atual política brasileira sobre a questão. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/v17n1/4057.pdf>. Acesso em: 25 set. 2012.

— 39 —
de controle concentrado de constitucionalidade e teza de que as fibras microscópicas do amianto bran-
pertinência temática. 2. Comercialização e extra- co não se desprendam e, sem dissolver-se ou evaporar
ção de amianto. Vedação prevista na legislação do porque a sua natureza o impede, ingressem no pul-
Estado de São Paulo. Comércio exterior, minas e mão por meio de uma simples aspiração em ambiente
recursos minerais. Legislação. Matéria de compe- contaminado.
tência da União (CF, art. 22, VIII e XIII). Invasão A incidência do princípio da precaução – haja vista
de competência legislativa pelo Estado-membro. a ignorância ou incerteza acerca da causalidade – desa-
Inconstitucionalidade. 3. Produção e consumo de fia os postulados ascéticos da economia e contempla a
produtos que utilizam amianto crisotila. Compe- prevalência dos valores humanitários. A produção e a cir-
tência concorrente dos entes federados. Existência culação de riqueza não devem ser obscurecidas na pon-
de norma federal em vigor a regulamentar o tema deração de valores que caberá à corte constitucional,
(Lei n. 9055/95). Conseqüência. Vício formal da lei parecendo truísmo dizer sobre os reflexos normalmente
paulista, por ser apenas de natureza supletiva (CF, positivos que a atividade produtiva gera no bem-estar
art. 24, §§ 1º e 4º) a competência estadual para dos grupos humanos que nela se envolvem, ou dela se
editar normas gerais sobre a matéria. 4. Proteção e beneficiam materialmente.
defesa da saúde pública e meio ambiente. Questão Contudo, e noutra perspectiva, a preeminência de
de interesse nacional. Legitimidade da regulamen- mencionado princípio do direito ambiental, o princípio
tação geral fixada no âmbito federal. Ausência de da precaução, conspira irresistivelmente para o alinha-
justificativa para tratamento particular e diferencia- mento da ordem jurídica nacional com as referências
do pelo Estado de São Paulo. 5. Rotulagem com in- empíricas, axiológicas e dogmáticas do direito compa-
formações preventivas a respeito dos produtos que rado, além de promover a concretização do princípio
contenham amianto. Competência da União para constitucional da dignidade humana, segundo a digres-
legislar sobre comércio interestadual (CF, art. 22, são conceitual de Kant: as coisas têm preço e por isso
VIII). Extrapolação da competência concorrente são meio; os homens têm dignidade e são o fim de todas
prevista no inciso V do art. 24 da Carta da Repúbli- as medidas, de todas as coisas. O Supremo Tribunal Fe-
ca, por haver norma federal regulando a questão.(41) deral terá, no Brasil, a última palavra.
Por lado outro, a Associação Nacional dos Magis-
trados da Justiça do Trabalho e a Associação Nacional 3. CONCLUSÕES
dos Procuradores do Trabalho propuseram ação direita
de inconstitucionalidade (ADI n.4.066) em que pedem Pode-se afirmar que a progressiva ampliação de
a revogação do art. 2º da Lei n. 9.055/1995, que per- conteúdo dos direitos fundamentais – desde sua acepção
mite a exploração comercial e industrial do amianto inicial, relacionada com o bloco de direitos de liberdade,
branco (crisotila)(42). As entidades associativas sustentam até a incorporação dos direitos sociais e mais recente-
que a lesividade da crisotila à saúde humana, mesmo mente da proteção ao meio ambiente como direito de to-
em parâmetros controlados, é notoriamente constatada dos, e a todos oponível – remete à necessidade de incluir
por estudos científicos. Ao fim de agosto de 2012, por a titularidade dos bens da vida, integrantes do ambiente
designação do Ministro Marco Aurélio, o Supremo de trabalho, no rol de interesses afetos aos princípios do
Tribunal Federal designou audiência pública para ouvir desenvolvimento sustentável, da participação, da preven-
depoimentos contrários ou favoráveis à produção e ção e da precaução, que informam o direito ambiental.
comercialização do amianto branco. A sustentabilidade do desenvolvimento econô-
Hoje em dia, não se reconhece uma quantidade mico faz a conservação da natureza e o bem-estar do
mínima de asbesto abaixo da qual a exposição possa trabalhador ingressarem no leque de pressupostos e de-
considerar-se segura, como observou o Comitê Científi- sideratos da atividade produtiva.
co de Toxicidade, Ecotoxicidade e Ambiente(43), em pa- A participação das entidades sindicais na defini-
recer decisivo para a edição da Directiva 1999/77/CE, ção de medidas de proteção ao trabalho humano é uma
no âmbito da União Europeia. Vale dizer, inexiste cer- recomendação que os ordenamentos jurídicos normal-

(41) STF, ADI n. 2.656, Relator Min. Maurício Corrêa, Tribunal Pleno, julgado em 08.05.2003, DJ 01.08.2003.
(42) Petição inicial e movimento processual. Disponíveis em: <http://www.stf.jus.br/portal/peticaoInicial/verPeticaoInicial.asp?base=
ADIN&s1=4066&processo=406>. Acesso em: 25 set. 2012.
(43) Informações constantes dos considerandos da Directiva 1999/77 e disponíveis em: <http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.
do?uri=CELEX:31999L0077:PT:HTML>. Acesso em: 23 set. 2012.

— 40 —
mente contemplam, mas sem reflexo significativo na ambientales y la salud laboral en las empresas. Visión sindi-
experiência dessas associações. cal. La Prevención de riesgos medioambientales en el ámbito
de las relaciones de trabajo. Tradução livre. Madri: Editorial
A prevenção contra o dano ambiental é um prin-
Comares, 2011.
cípio jurídico que pressupõe o conhecimento científico
sobre o mal que um determinado fator ou substância FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambien-
tal Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2010.
promove contra a biosfera, inclusive contra o equilíbrio
ecológico no habitat laboral, exigindo a implementação GARÍ RAMOS, Manuel; MONEREO PÉREZ, José Luiz; RIVAS
VALLEJO, Pilar (coords.). Acción sindical en materia de medio
de medidas que neutralizem ou eliminem a nocividade.
ambiente: CCOO. La Prevención de riesgos medioambienta-
A precaução é princípio correlato, que também les en el ámbito de las relaciones de trabajo. Tradução livre.
reclama a adoção de medidas regulatórias ou inibitó- Madri: Editorial Comares, 2011.
rias da atividade produtiva, mas prescinde da certeza GARRIGUES GIMÉNEZ, Amparo; MONEREO PÉREZ, José
científica acerca da relação causal entre o agente su- Luiz; RIVAS VALLEJO, Pilar (coords.). La gestión de la preven-
postamente ruinoso e o dano ambiental que dele pre- ción de riesgos laborales: organización de la prevención. La
sumivelmente deriva. Promove-se à categoria de valor Prevención de riesgos medioambientales en el ámbito de las
jurídico a fundada suspeita de nocividade, devolvendo- relaciones de trabajo. Madri: Editorial Comares, 2011.
-se ao homem e à natureza o protagonismo condizente GRANZIERA, M. L. M. Direito Ambiental. São Paulo: Atlas,
com a dignidade humana. 2009.
MENDES, R. Asbesto (amianto) e doença: revisão do conhe-
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS cimento científico e fundamentação para uma urgente mu-
dança da atual política brasileira sobre a questão. Disponível
BARROS, Cássio Mesquita. M. Saúde e Segurança do Traba- em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/v17n1/4057.pdf>. Acesso
lhador – Meio Ambiente de Trabalho. Disponível em: <http:// em: 25 set. 2012.
www.mesquitabarros.com.br/index.php?option=com_conte ______. Efeitos da Inalação de Fibras de Asbesto (Amianto)
nt&view=article&id=31%3Asaude-e-seguranca-do-trabalha- Sobre a Saúde Humana: estado atual do conhecimento e fun-
dor-meio-ambiente-de-trabalho&catid=7%3Aartigos&Itemid damentação científica para uma política de priorização da
=3&lang=pt>. Acesso em: 30 out. 2011. defesa da vida, da saúde e do meio-ambiente. Disponível em:
DE LA VILLA GIL, Luis Enrique; CASAS BAAMONDE, M. E.; <http://pt.scribd.com/doc/59314623/efeitos-saude-amian-
DURÁN LÓPEZ, F.; CRUZ VILLALÓN, J. (coords.). El Derecho to-1>. Acesso em: 25 set. 2012.
a la Salud, Universal e Inaprensible. Las Transformaciones del MONEREO PÉREZ, José Luis; RIVAS VALLEJO, Pilar. Preven-
Derecho del Trabajo en el Marco de la Constitución Española. ción de Riesgos Laborales y Medio Ambiente. Granada: Edito-
Tradução livre. Madri: La Ley, 2006. rial Comares, 2010.
DELGADO, Mauricio Godinho; DELGADO, Gabriela Neves. OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Proteção Jurídica à Saúde do
Constituição da República e direitos fundamentais: dignidade Trabalhador. São Paulo: LTr, 2011.
da pessoa humana, justiça social e direito do trabalho. São VILLAGRASA ALCAIDE, Carlos; MONEREO PÉREZ, José Luiz;
Paulo: LTr, 2012. RIVAS VALLEJO, Pilar (coords.). Responsabilidad General. La
ESQUERRA ESCUDERO, Luis; MONEREO PÉREZ, José Luiz; Prevención de riesgos medioambientales en el ámbito de las
RIVAS VALLEJO, Pilar (coords.). La importancia de los riesgos relaciones de trabajo. Madri: Editorial Comares, 2011.

— 41 —
5

A REFORMA TRABALHISTA E SEUS IMPACTOS NAS


CONDIÇÕES DE TRABALHO DECENTE
DELAÍDE ALVES MIRANDA ARANTES(*)

“A fonte legítima secundária das leis é o próprio legislador, ou o conjunto de legisladores de que se compõem os órgãos
legislativos do Estado. Mas o legislador e os órgãos legislativos somente são fontes legítimas das leis enquanto forem
representantes autorizados da comunidade, vozes oficiais do Povo, que é a fonte primária das leis...
Consideramos ilegítimas as leis não nascidas do seio da coletividade, não confeccionadas em conformidade com os
processos prefixados pelos representantes do Povo, mas baixadas de cima, como carga descida na ponta de um cabo.
Afirmamos, portanto, que há uma ordem jurídica legítima e uma ordem jurídica ilegítima. A ordem imposta, vinda de
cima para baixo é ordem ilegítima. Ela é ilegítima porque, antes de mais nada, ilegítima é a sua origem. Somente é
legítima a ordem que nasce, que tem raízes, que brota da própria vida, no seio do Povo”(1).

1. O CONTEXTO DA APROVAÇÃO DA LEI advogados e os juízes do trabalho, os desembargadores


N. 13.467/2017 dos Tribunais Regionais do Trabalho e os Ministros do
Tribunal Superior do Trabalho, hoje atacados duramen-
O dia 11 de julho desse histórico ano de 2017, foi te, também eram os mesmos.
marcado pela aprovação às pressas da chamada refor-
O que é preciso frisar quando o tema é o trabalho
ma trabalhista no Senado Federal, seguindo-se à ime-
decente ante os efeitos nocivos da reforma trabalhista
diata sanção pelo Governo Federal, da Lei Ordinária
para o mundo do trabalho, para o emprego e o trabalha-
n. 13.467 em 13 de julho, a qual altera a CLT, a Con-
dor, é que as modificações implementadas precarizam
solidação das Leis do Trabalho, promulgada em 1º de
maio de 1943. direitos trabalhistas estabelecidos há mais de 75 anos
pela Consolidação das Leis do Trabalho, conjunto de
A legislação trabalhista acompanhou as mudanças
normas que asseguram direitos e garantias mínimas nas
da sociedade e teve, desde a sua promulgação, mais de
relações de trabalho no Brasil. Os direitos fundamentais
quinhentas alterações, desfazendo o mito de que é ve-
dos trabalhadores foram constitucionalizados há quase
lha e ultrapassada. Com a mesma legislação tida pelos
trinta anos, na Constituição Federal de 1988, conquista-
defensores da reforma trabalhista como imprestável ao
da após o fim da ditadura militar que consagrou a digni-
sistema das relações capital-trabalho, o país perpassou
a última década por um período de crescimento eco- dade da pessoa humana, o valor social do trabalho e a
nômico, experimentando uma situação equivalente ao livre iniciativa como fundamentos da República.
pleno emprego. Com a mesma Justiça do Trabalho, tão O Brasil é um grande país, com mais de duzentos
dura e injustamente atacada por setores da elite empre- milhões de habitantes, dos quais cem milhões são tra-
sarial, o país atravessou uma fase de desenvolvimento balhadores no setor privado. Destes, setenta por cento
econômico, com geração e distribuição de renda. Os percebem remuneração no valor de até dois salários

(*) Ministra do Tribunal Superior do Trabalho; especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Federal de Goiás; es-
pecialista em Docência Universitária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás; pesquisadora do Grupo de Pesquisa Trabalho,
Constituição e Cidadania da Universidade de Brasília (UnB).
(1) TELLES, Goffedo Junior. Carta aos brasileiros. Pátio das Arcadas, 8 de agosto de 1977. Disponível em: <http://www.goffredotellesjr.
adv.br/site/pagina.php?id_pg=30>. Acesso em: 23 ago. 2017.

— 43 —
mínimos mensais e ativam-se nas micro e pequenas de discussão ampla com a sociedade, com as entida-
empresas. Cheia de contradições, a sociedade brasi- des representativas dos trabalhadores, com o segmen-
leira ainda convive com trabalho análogo ao de escra- to das micro e pequenas empresas, que oferecem no
vos, com índices alarmantes de exploração de trabalho Brasil mais de setenta por cento dos empregos no setor
infantil, tráfico de pessoas e uma série de males que privado, com o judiciário e as camadas sociais direta-
atentam contra os direitos humanos e as garantias fun- mente atingidas pelas reformas, violam os princípios
damentais da pessoa humana. fundamentais da democracia, instituídos nos arts. 1º, 2º
As profundas alterações precarizantes introduzidas e 3º, da Constituição Federal e na Convenção n. 144 da
pela Lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017, foram im- Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo
plementadas sem o aprofundamento da discussão com Brasil em 1994 e que determina que as normas regula-
o mundo do trabalho, contrariando a tradição brasileira doras do mercado de trabalho devem ser construídas a
de discussão exaustiva, a exemplo do que aconteceu partir de um amplo diálogo social.
quando da alteração do Código Civil de 2002 e do Có-
digo de Processo Civil de 2015, este último discutido no 2. A LEI N. 13.467/2017 E A PRECARIZAÇÃO
meio jurídico e com a sociedade durante cinco anos até DAS RELAÇÕES DE TRABALHO: AFRONTA
a sua aprovação. À CONSTITUIÇÃO, À CLT E ÀS NORMAS
No que se refere à forma, a tramitação apressa- INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO SOCIAL
da da reforma trabalhista contraria a tradição brasileira
para alteração normativa, viola as normas da Consti- No que tange ao seu conteúdo, o certo é que a
tuição vigente e normas internacionais da Organização referida Lei n. 13.467/2017 representa a precarização
Internacional do Trabalho – a OIT –, principalmente a das relações de trabalho e o retrocesso social profundo,
Convenção n. 144 ratificada pelo Brasil, que estabelece com a legitimação de condutas incompatíveis com o
a obrigatoriedade de ampla discussão com o mundo do conceito de trabalho digno consagrado na Constituição
trabalho para alterações de normas da ordem social e e, bem longe de constituir a modernização das relações
trabalhista. de trabalho, as mudanças implementadas remetem ao
Um grande número de trabalhadores busca na liberalismo do século XIX.
Consolidação das Leis do Trabalho e na Constituição Pode-se afirmar que a reforma trabalhista não é
Federal a garantia de um patamar mínimo de direitos compatível com a agenda de trabalho decente de que
para o exercício de um trabalho digno, e encontram na trata o protocolo assinado pelo Brasil com a Organi-
Justiça do Trabalho a possibilidade de reconhecimento zação Internacional do Trabalho, no ano de 2006. A
dos direitos violados. A legislação protetiva conquistada reforma trabalhista, assim como concebida e aprova-
pelos trabalhadores ao longo de um século foi, sem dú- da por influência do setor econômico e das forças do
vida, golpeada pela lei da reforma trabalhista. grande capital nacional, virá provocar a precarização
A clara intenção de desconstruir o Direito do Tra- dos contratos e das condições de trabalho, aumentando
balho, levada a efeito pela aprovação da reforma tra- descontroladamente a jornada de trabalho, reduzindo
balhista, não representa um consenso resultante do intervalo intrajornada, fracionando as férias e desres-
diálogo social no mundo do trabalho e na sociedade, o peitando inclusive os patamares mínimos de proteção
que distancia ainda a proposta da possibilidade de con- à saúde e segurança do trabalhador.
cretização das garantias constitucionais de igualdade e A reforma em comento traz alterações prejudi-
justiça e da construção de um projeto de desenvolvi- ciais ao sistema jurídico nacional no âmbito do direito
mento e de mudanças que resulte na superação dos pro- processual e material, individual e coletivo, atingindo,
blemas de distribuição de renda e desigualdade social. inclusive, a autonomia da Justiça do Trabalho, em vio-
A reforma trabalhista impôs ao mundo do trabalho, lação ao princípio da garantia de acesso à Justiça e à
à sociedade e aos trabalhadores mudanças profundas e independência dos Poderes, além de deslocar o eixo de
danos irreparáveis, sem assegurar o debate democrático proteção legal do trabalhador para o setor econômico,
no âmbito da representação sindical, da comunidade senão vejamos.
jurídica e acadêmica e dos movimentos sociais, e num A respeito da terceirização ampla, a reforma busca
momento de grande vulnerabilidade, de grave crise e legitimar a intermediação de mão de obra, o que con-
ausência de legitimidade e de credibilidade, principal- substancia a coisificação do ser humano e a transforma-
mente na seara política que envolve os poderes Execu- ção do trabalho em mercadoria, ação condenada desde
tivo e Legislativo brasileiros. a Declaração de Filadélfia elaborada em 1944 pela OIT,
A desinformação sobre o verdadeiro caráter da documento que serviu de modelo para a Carta das Na-
nova legislação trabalhista, a dificuldade e ausência ções Unidas e para a Declaração Universal dos Direitos

— 44 —
do Homem. A quebra da relação bilateral de contrato Promove, ainda, uma série de mudanças que ge-
historicamente estabelecida entre empregado e empre- ram o enfraquecimento da representação sindical, ao
gador, com a interposição de um terceiro entre os sujei- mesmo tempo em que não se preocupa com a institui-
tos da relação de trabalho, afronta o Direito do Trabalho, ção de medidas de combate aos atos antissindicais, nem
atenta contra a dignidade humana e o valor social do tra- com a garantia contra a dispensa arbitrária estabelecida
balho e contra as garantias da Constituição da República. pela Convenção n. 158 da OIT (denunciada pelo Brasil
Com a instituição do chamado contrato intermi- pelo Decreto n. 2.100/1996) ou a regulamentação da
tente, previsto no art. 443, caput e § 3º, a reforma cria a garantia de emprego do art. 7º, inciso I, da Constituição
figura do trabalhador “ultra flexível”, modalidade con- Federal.
tratual conhecida na Inglaterra como “contrato de zero Nesse sentido, muito conveniente e apropriado ao
horas”, em que o trabalhador é remunerado por hora capital e ao mercado enfraquecer a negociação coletiva
de efetiva prestação de serviços, sem ter assegurado um ao mesmo tempo em que propõe a prevalência do “ne-
número mínimo de horas trabalhadas ao mês, contraria- gociado sobre o legislado”. A possibilidade, instituída
mente à previsão constitucional de um patamar mínimo pela Constituição de 1988, no art. XXVI, de reconhe-
necessário a uma vida digna, nos termos do art. 7º, IV, cimento das Convenções e Acordos Coletivos e preva-
da Constituição. lência da negociação coletiva naquilo em que for mais
benéfica ao trabalhador, não deixa dúvida de que a re-
No Brasil, já houve tentativa de implantação dessa
forma visa exclusivamente a redução de direitos, com o
modalidade de contratação, mesmo antes da autoriza-
rebaixamento da proteção social a patamares inferiores
ção legal expressa, o que motivou ação eficiente do Mi-
aos estabelecidos em lei.
nistério Público do Trabalho, em Pernambuco, mediante
a interposição de Ação Civil Pública n. 140-2012, da 11ª Não sendo suficiente reduzir direitos trabalhistas,
Vara do Trabalho do Recife, o conhecido Caso Macdon- a Lei n. 13.467/2017 inclui uma série de restrições à
ald, resultando em Termo de Ajuste de Conduta, assunto garantia constitucional de acesso à justiça para os tra-
que é tratado na Nota Técnica de n. 01, da Procuradoria balhadores que se sentirem desrespeitados, violando o
Geral do Trabalho, Secretaria de Relações Institucionais art. 5º, XXXV, da Constituição Federal, dificulta a exe-
cução processual e reduz a responsabilidade civil das
do Ministério Público do Trabalho.(2)
empresas contratantes. Amplia de várias maneiras as
Em sentido contrário às estipulações legais sobre facilidades de defesa para o empregador e dificulta a
o vínculo empregatício, o art. 442-B institui a figura do produção de provas para o trabalhador, demonstrando
trabalhador autônomo exclusivo, o que incentiva a frau- visível desequilíbrio em prol do capital e materializan-
de à relação de emprego e desvirtua o real significado do o deslocamento da proteção legal para a empresa.
do trabalho autônomo, servindo tão somente para a ex-
Em flagrante inconstitucionalidade, na medida em
clusão do trabalhador do sistema de proteção legal da
que a Constituição estabelece em seu art. 5º, V e X o
Consolidação das Leis do Trabalho.
direito à reparação integral do dano moral proporcional
Além de desafiar a Constituição, que no caput do ao agravo, a nova lei institui uma tabela para cálculo da
art. 7º proíbe o retrocesso social em matéria de diretos indenização por dano moral, restringindo os poderes do
trabalhistas, a nova lei contraria as Convenções n. 98, juiz para o estabelecimento de indenização aos valores
151 e 154, da OIT, que estabelecem como objetivo da previamente estabelecidos.
negociação coletiva promover tratativas de condições As alterações aprovadas promovem uma flexibi-
de trabalho mais favoráveis do que as fixadas em lei. lização de direitos já experimentada por países como
Ainda, ao estabelecer que as normas instituídas Inglaterra, Portugal, Espanha, Itália e México. O prin-
por Acordos Coletivos se sobreponham às Convenções cipal argumento dos defensores da reforma trabalhista
Coletivas, a reforma possibilita o verdadeiro dumping é que a redução de direitos irá gerar mais empregos,
social entre empresas que atuam na mesma atividade pois o empresário será estimulado a contratar mais
econômica, sobretudo pela possibilidade de terceiri- trabalhadores, no entanto, a experiência internacional
zação de serviços e da precarização das condições de em países que implementaram reformas semelhantes,
trabalho em busca do aumento dos lucros e da concor- a exemplo da Espanha, do México, Inglaterra e Estados
rência desleal. Unidos, dão conta de que reformas trabalhistas e sociais

(2) Disponível em: <http://portal.mpt.mp.br/wps/portal/portal_mpt/mpt/sala-imprensa/mpt-noticias/8733bb44-d4db-460c-bc85-


bb97380d1b6d/!ut/p/z0/jYzLDoIwFAV_BRcsm3uBCrhEYggSou6wG9MHYhUKSOPj78UfMC7nZM4AgwqY4Q_dcKt7w9uZjy-
w8eRnSfL3DIiv2ESYHr9zkmeenGMEW2G9hLujrOLIEmOyNrV8Wqm6wLk685Y6qHd0N99pM3MV5dkxvtdR8cjGOgkAISomi-
ShAaoiRCxksixCoKYlSeCNW37t_LtGyADdxeiDbnHqq_rsONifczWXwA5Gm-cA!!/>. Acesso em: 23 ago. 2017.

— 45 —
de redução e corte de direitos não geram emprego, não Pode-se afirmar que a reforma trabalhista em comen-
resolvem os problemas da sociedade, nem resultam em to desnatura os princípios basilares constitucionalizados
crescimento econômico. em 1988, de proteção aos menos favorecidos da relação
Conforme reportagem veiculada no jornal Valor capital-trabalho, de garantias de um patamar mínimo de
Econômico, na Espanha, por exemplo, depois da refor- direitos aos trabalhadores, de valorização da dignidade
ma de 2012, o desemprego recuou, mas o trabalho tem- da pessoa humana, nos quais se assenta o Direito do
porário – considerado mais precário que o contrato por Trabalho. As medidas trazidas com a reforma trabalhista
tempo indeterminado – cresceu, enquanto a massa sala- trarão ainda mais insegurança nas relações de trabalho,
rial caiu. O quadro em Portugal é semelhante, a não ser ampliando a possibilidade real de conflitos trabalhistas.
pela dinâmica dos salários, que cresceram em termos Por fim, a aprovação da reforma trabalhista e a
reais no ano passado, pela primeira vez, desde 2013. ameaça da reforma previdenciária afastam o Brasil da
No México, as mudanças, que também completam cin- construção de uma Agenda de Trabalho Decente.
co anos, não geraram os 400 mil empregos anuais espe-
rados pelo governo, mas o trabalho independente, sem 3. A REFORMA TRABALHISTA E A AGENDA DE
contrato direto com a empresa, também não aumentou. IMPLEMENTAÇÃO DO TRABALHO DECENTE:
Com grande oposição dos sindicatos, a Itália apro- COMPROMISSO ASSUMIDO PELO BRASIL
vou uma versão diluída de sua reforma em 2015. A COM A ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO
França passou por um processo parecido no ano pas- TRABALHO
sado, quando a proposta sofreu oposição violenta nas
ruas. No Chile, entrou em vigor no início de abril a lei O equilíbrio da relação capital-trabalho, buscando
que modifica as relações entre empresas, funcionários sempre a proteção do trabalhador contra a opressão do
e sindicatos.(3) No entanto, a crise econômica mundial poder econômico, por meio de convenções, recomen-
passeia pela mídia sem sofrer qualquer recuo. dações e tratados internacionais contra as condições de
trabalho degradante, sempre foi a preocupação central
A substituição dos empregos formais e juridicamen-
e o objetivo primordial da Organização Internacional
te protegidos por contratos precários é uma tendência
do Trabalho, a OIT, desde que foi constituída em 1919.
constatada em países que implementaram modelos de
flexibilização trabalhista a pretexto de superação da crise Diversos e importantes Tratados e Normas Interna-
econômica e que, ao final, a experiência demonstrou que cionais que trazem dispositivos de proteção à dignidade
da pessoa humana, ao trabalho e à pessoa do trabalha-
não serviram aos propósitos anunciados, ao contrário, o
dor: a Declaração de Filadélfia de 1944, anexa à Cons-
resultado foi empobrecimento da população economica-
tituição da OIT de 1946, que substitui a Constituição
mente ativa, o aumento da criminalidade, da miséria e a
de 1919; o Pacto Internacional de Direitos Econômicos,
redução dos índices de desenvolvimento humano.
Sociais e Culturais, adotado pela Assembleia-Geral da
A desigualdade e o descaso com o trabalho e o Organização das Nações Unidas (ONU) de 1966; O
trabalhador no Brasil provocou reação até mesmo do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, tam-
núcleo central do sistema financeiro mundial. Em decla- bém de 1966.
ração à imprensa, referindo-se às reformas propostas pelo
Nesse mesmo sentido, o Pacto Internacional de
Governo Federal, a diretora-geral do FMI, o Fundo Mone-
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, adotado em
tário Internacional, Christine Lagarde, durante a partici-
Assembleia-Geral pela Organização das Nações Uni-
pação em um painel do Fórum Econômico Mundial, que
das, a ONU no ano de 1966, trouxe a noção de trabalho
ocorre em Davos, na Suíça, em 2017, dirigiu-se ao atual
decente, o que se vê no art. 7º:
Ministro da Fazenda Henrique Meirelles, e, surpreenden-
temente, afirmou que, em contraposição às políticas de Os Estados Membros no presente Pacto reco-
austeridade propagadas, o combate às desigualdades so- nhecem o direito de toda pessoa de gozar de condi-
ciais precisa estar no centro das atenções dos economis- ções de trabalho justas e favoráveis, que asseguram
tas se eles quiserem um crescimento sustentável e, como especialmente: (...) 3. Uma existência decente para
consequência, uma classe média forte(4). eles e suas famílias (sem grifos no original).(5)

(3) Disponível em: <http://www.valor.com.br/brasil/4958276/apos-2008-flexibilizacao-do-trabalho-vira-regra-em-varios-paises>.


Acesso em: 04 ago. 2017.
(4) Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-38670576>. Acesso em: 04 ago. 2017.
(5) MAEDA, Patrícia. A era dos zero direitos. Trabalho decente, terceirização e contrato zero hora. São Paulo: LTr, 2017. p. 57.

— 46 —
Em 1998, a Organização Internacional do Traba- as suas vidas; e igualdade de oportunidades e de
lho, a OIT, publicou a Declaração sobre os Princípios tratamento para todas as mulheres e homens.(7)
e Direitos Fundamentais no Trabalho relacionando al-
guns pontos como essenciais para atingir os objetivos da Embora a Organização Internacional do Trabalho,
agenda do trabalho decente, destacando: 1) eliminação a OIT, tenha lançado desde o ano de 1998 a Agenda do
do trabalho forçado em todas as suas formas; 2) a erradi- Trabalho Decente, com a adesão do Brasil para a sua
cação do trabalho infantil; 3) a eliminação de qualquer implementação, o certo é que no campo do trabalho, a
forma de discriminação em matéria de emprego e ocu- sociedade brasileira é marcada por profunda desigual-
pação; e 4) liberdade de associação e o reconhecimento dade social e econômica, traço histórico oriundo de
do direito à negociação coletiva. 388 anos de escravidão e apenas 130 anos de trabalho
livre. Essa condição coloca o país diante de um grande
A Declaração sobre Princípios e Direitos Funda-
desafio, que é romper com a tolerância às condições
mentais no Trabalho da OIT é um importante instrumen-
indignas de trabalho e a super exploração.
to para a implementação do trabalho decente no mundo.
Cabe a cada Estado proteger os direitos humanos, sendo O governo brasileiro, no primeiro mandato do
um dever oferecer as condições para o trabalho decente então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assinou em
e sujeitar-se às sanções se comprovadamente omitir-se 2 de junho de 2003, com a Organização Internacio-
na prática dos atos necessários à sua implementação. nal do Trabalho, Memorando de Entendimento para o
estabelecimento de Programa de Cooperação Técnica
O conceito de trabalho decente deve considerar a para a Promoção de uma Agenda de Trabalho Decente
dignidade da pessoa humana assegurada na Constitui- – ANDT, ocasião em que foram assinados ainda outros
ção Federal de 1988, assim, pode-se dizer: documentos relativos à ANDT.
(...) que o trabalho decente corresponde à soma ne- A referida Agenda foi elaborada e lançada em
cessária da dignidade e liberdade (que abrange o maio do ano de 2006, no curso da XVI Reunião Regio-
pressuposto da erradicação do trabalho forçado), à nal Americana, da OIT, evento realizado na Capital Fe-
igualdade (que abarca o pressuposto do fim da dis- deral, em Brasília. Com isso, foram editadas as Portarias
criminação), à segurança e à saúde à atividade lícita n. 540, de 07.11.2007 e a de n. 114, de 27.02.2008, do
e à remuneração justa, bem como a liberdade sin- Ministério do Trabalho e Emprego, com vistas a estabe-
dical, desde que não haja trabalho infantil. Assim, lecer as formalidades necessárias à implementação da
todos os pressupostos negativos e requisitos positivos Agenda Nacional do Trabalho Decente no país.
estão contemplados. (...) Considerando que somente Em complementação, em 15.06.2009 foi assinada
podemos conceber dignidade no trabalho se houver a Declaração Conjunta do Presidente da República do
a somatória dos elementos liberdade, igualdade, saú- Brasil e do então Diretor-Geral da OIT, em Genebra, na
de e segurança, remuneração justa, atividade lícita, Suíça, estabelecendo-se o marco para a instituição do
equidade, lazer e aposentadoria digna, propomos Plano Nacional do Trabalho Decente, PNTD, com as
fórmula simplificada: Trabalho decente = dignidade seguintes prioridades: a) a geração de mais empregos e
no trabalho + liberdade sindical – trabalho infantil.(6) de melhor padrão e qualidade, com igualdade de opor-
tunidades e de tratamento; b) a erradicação do trabalho
Para a OIT, o trabalho decente pode assim ser
escravo e infantil; c) o fortalecimento do diálogo social.
definido:
A precarização das condições de trabalho pro-
O conceito de trabalho digno resume as aspi- duzida pela reforma em análise contrasta com o com-
rações do ser humano no domínio profissional e promisso brasileiro assumido pelo Governo Federal em
abrange vários elementos: oportunidades para rea- 2003 perante a Organização Internacional do Trabalho
lizar um trabalho produtivo com uma remuneração (OIT) para consolidar as diretrizes e desenvolver ações
equitativa; segurança no local de trabalho e prote- para implementação de uma Agenda Nacional de Tra-
ção social para as famílias; melhores perspectivas balho Decente, cuja definição consiste num “trabalho
de desenvolvimento pessoal e integração social; adequadamente remunerado, exercido em condições
liberdade para expressar as suas preocupações; or- de liberdade, equidade e segurança, capaz de garantir
ganização e participação nas decisões que afetam uma vida digna”.(8)

(6) AZEVEDO NETO, Platon Teixeira de. O trabalho decente como direito humano. São Paulo: LTr, 2015. p. 119.
(7) Disponível em: <http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/html/portugal_visita_guiada_02_pt.htm>. Acesso em:
23 ago. 2017.
(8) Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/content/governo-do-brasil-avan%C3%A7a-na-implementa%C3%A7%C3%A3o-
-da-agenda-do-trabalho-decente>. Acesso em: 23 ago. 2017.

— 47 —
As medidas aprovadas gerarão uma ausência de A dignidade humana é a razão de ser de toda a
freios ao sistema de exploração do trabalho, condição legislação protetiva, é fundamento da Constituição Bra-
inadmissível numa perspectiva civilizatória que tenha o sileira e alcançá-la é o anseio de toda a sociedade. Este
ser humano como protagonista. valor fundante da república não foi revogado por ne-
O que se pode observar é que as formas de contra- nhuma lei ordinária.
tação precárias previstas na reforma trabalhista, a fragili- Somente o trabalho decente traz dignidade. Para
zação do movimento sindical e a exclusão e redução de assegurá-lo, a Lei n. 13.467, de 13.07.2017 deve ser
direitos contrariam o sistema de proteção social da legisla- interpretada de forma sistemática e à luz da legislação
ção trabalhista nacional constitucionalizada, provocando trabalhista e social constitucionalizada na Carta Magna
a precarização do trabalho e atentando contra o trabalho de 1988, das garantias fundamentais que são pilares da
decente preconizado pela Constituição Federal, pela CLT Constituição Federal Cidadã e das Normas Internacio-
e pelas Normas Internacionais de Direitos Humanos e Di- nais de proteção da pessoa humana e do trabalhador.
reitos Trabalhistas das quais o Brasil é signatário. Esse é o nosso desafio!
O compromisso brasileiro firmado com a Organi-
zação Internacional do Trabalho para a promoção do
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
trabalho decente no país deve ser observado em todas
as decisões judiciais, a partir da análise do ordenamen- AZEVEDO NETO, Platon Teixeira de. O trabalho decente co-
to jurídico como um todo, num exercício hermenêutico mo direito humano. São Paulo: LTr, 2015.
que atraia as normas internacionais de proteção à segu-
Disponível em: <http://www.valor.com.br/brasil/4958276/
rança e à saúde do trabalhador, de garantias de remune-
apos-2008-flexibilizacao-do-trabalho-vira-regra-em-varios-
ração justa e proteção social. Somente a afirmação de
-paises>. Acesso em: 04 ago. 2017.
direitos e a vedação do retrocesso social construirão o
Disponível em: <http://www.goffredotellesjr.adv.br/site/pagi-
caminho para a implementação do trabalho decente no
na.php?id_pg=30>. Acesso em: 23 ago. 217.
Brasil. Em busca da concretização desse compromisso,
a Justiça do Trabalho não se curvará. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-3867
0576>. Acesso em: 04 ago. 2017.
Disponível em: <http://www.ilo.org/public/portugue/region/
4. CONCLUSÃO
eurpro/lisbon/html/portugal_visita_guiada_02_pt.htm>. Aces-
so em: 23 ago. 2017.
Numa sociedade marcada pelas desigualdades so-
ciais como o Brasil, não é possível conceber ou ima- Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/content/governo-
ginar uma reforma trabalhista que venha precarizar as do-brasil-avan%C3%A7a-na-implementa%C3%A7%C3%
A3o-da-agenda-do-trabalho-decente>. Acesso em: 23 ago.
condições de trabalho, retirar direitos, implementar
2017.
condições degradantes de trabalho e provocar o em-
pobrecimento da maioria dos trabalhadores brasileiros. Disponível em: <http://portal.mpt.mp.br/wps/portal/portal_
mpt/mpt/sala-imprensa/mpt-noticias/8733bb44-d4db-460c-
Não se pode admitir o agravamento das condições bc85-bb97380d1b6d/!ut/p/z0/jYzLDoIwFAV_BRcsm3uB-
de trabalho e a concretização dos efeitos nocivos das CrhEYggSou6wG9MHYhUKSOPj78UfMC7nZM4AgwqY4Q_
disposições da reforma trabalhista, sob pena de retro- dcKt7w9uZjyw8eRnSfL3DIiv2ESYHr9zkmeenGMEW2G9h-
cesso social e do agravamento da situação do trabalha- LujrOLIEmOyNrV8Wqm6wLk685Y6qHd0N99pM3MV5dkx-
dor e da maioria do povo brasileiro, o que atenta contra vtdR8cjGOgkAISomiShAaoiRCxksixCoKYlSeCNW37t_LtG-
as normas Internacionais da ONU, da OIT e os Tratados yADdxeiDbnHqq_rsONifczWXwA5Gm-cA!!/>. Acesso em:
Internacionais dos quais o Brasil é signatário. 23 ago. 2017.
Os protocolos firmados pelo Brasil e toda a pro- MAEDA, Patrícia. A era dos zero direitos. Trabalho decente,
teção preconizada pela Organização Internacional do terceirização e contrato zero hora. São Paulo: LTr, 2017.
Trabalho para assegurar a dignidade do cidadão traba- TELLES, Goffedo Junior. Carta aos brasileiros. Pátio das Arca-
lhador e implementar o trabalho decente precisam ser das, 8 de agosto de 1977. Disponível em: <http://www.goffre-
considerados, num contexto em que não se admite o dotellesjr.adv.br/site/pagina.php?id_pg=30>. Acesso em: 23
trabalho como mercadoria. ago. 2017.

— 48 —
6

O TRABALHO INFANTIL NA COLHEITA DO AÇAÍ


NA ILHA DO MARAJÓ – PA

SUZY ELIZABETH CAVALCANTE KOURY(*)

1. INTRODUÇÃO mente, no de crianças e adolescentes, o que é justificado


pelo fato de serem pequenos e leves, condições físicas
O presente artigo busca analisar os resultados de ideais para subir nos finos e frágeis açaizeiros.
pesquisa patrocinada pelo Programa Trabalho Seguro
Isso se deve à descoberta de que, além de car-
do TRT da 8ª Região, entre março de 2015 e maio de
boidratos, o açaí tem fibras, proteínas, lipídios e boas
2016, com o objetivo de investigar a ocorrência de tra-
quantidades das vitaminas C, E, B1 e B2, reduzindo o
balho infantil na atividade de extração do açaí de vár-
colesterol e ajudando o sistema imunológico, entre ou-
zea na Ilha do Marajó, ao longo do Rio Canaticu, no
Município de Curralinho, no Estado do Pará. tros benefícios(2).
O açaí é uma palmeira típica da floresta amazôni- A pesquisa realizada pela FUNDACENTRO e pelo
ca que sempre fez parte da cultura alimentar do Estado Instituto PEABIRU (2016), apesar de não ter tido como
do Pará, mas, atualmente, tornou-se um produto muito foco o trabalho infantil, detectou-o e ressaltou a neces-
valorizado e utilizado por pessoas de todo o Brasil e de sidade de seu estudo, esclarecendo que:
outros países do mundo.
A questão do trabalho infantil não foi objeto do
O trabalho restringe-se à análise da colheita do trabalho, mas mostrou-se presente no ambiente, ne-
açaí de várzea, manejado pelas populações tradicio- cessitando ser estudada na cadeia de valor do açaí,
nais, que difere do açaí plantado em terras firmes, mui- pois numa atividade tradicional. O mais ágil, leve
tas vezes desmatadas, em que os açaizeiros têm uma e ousado, sobe rapidamente e colhe o necessário
altura bem menor, o que permite que a colheita seja para o consumo diário da família. E, diante de um
feita com o uso de escadas ou de um gancho artesanal,
mercado crescente, quem antes subia diariamente
colocado em uma vara, que possibilita prender e coletar
uma ou duas vezes no açaizeiro, agora sobe dez ou
os frutos, sem que seja necessário subir no açaizeiro
mais vezes e, ainda, pula, de uma árvore a outra.
(CANTO, 2001).
A intensificação do cultivo, especialmente no Esta- A fim de buscar responder à questão norteadora
do do Pará(1), refletiu no mundo do trabalho, especifica- acima exposta, partir-se-á de uma breve análise acerca

(*) Desembargadora Presidente do TRT da 8ª Região. Conselheira do CSJT. Doutora em Direito pela UFMG. Professora do Curso de
Direito e do Programa de Pós-Graduação stricto sensu Mestrado em Direito, Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional do
Centro Universitário do Pará – CESUPA.
(1) Dados estatísticos revelam que o Brasil em 2013 produziu 202.216 toneladas de açaí. A região Norte contribuiu com 186.379
toneladas dessa produção, respondendo por 94% do que é extraído no país. O Pará é o estado que mais contribuiu para a região
Norte, sendo responsável por 59% do que é nela produzido. (BRANDÃO, 2015)
(2) Para maiores esclarecimentos, cf. <https://www.saudemedicina.com/beneficios-do-acai-para-saude/> e <http://www.ecologiame-
dica.net/2011/09/beneficios-do-acai.html>. Acesso em: 26 set. 2017.

— 49 —
da proteção existente em nosso ordenamento jurídico porto pertencente às associações para o escoamento
contra o trabalho de crianças e de adolescentes. do açaí, funcionando como uma espécie de poupança,
Após, analisar-se-á a colheita do açaí no Municí- que normalmente é resgatada em dezembro, mês que
pio de Curralinho, ao longo do Rio Canaticu, na Ilha do antecede o início da entressafra (FUNDACENTRO; PEA-
Marajó, local onde foi realizada a pesquisa (FUNDA- BIRU 2016).
CENTRO; PEABIRU 2016) que subsidia este estudo, que O que se espera com o presente estudo é lançar luz
revela que, no universo pesquisado, composto por 72 sobre o trabalho de crianças e adolescentes na colheita
pessoas, sendo 92% delas homens e 8% mulheres, com do açaí, a fim de que seja efetivamente combatido por
idade média de 40 anos, dependem do açaí na percen- meio da adoção de políticas públicas das quais partici-
tagem de 50% a 75% de sua renda mensal, comercia- pem todos os atores envolvidos, não se restringindo ao
lizando-o, principalmente, por meio de atravessadores, poder público.
que fixam o preço.
Quanto à mão de obra, 93% dos entrevistados re- 2. O TRABALHO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES
lataram que é apenas familiar e que, no período de ja- E A SUA PROTEÇÃO JURÍDICA
neiro a junho, que corresponde à entressafra, as famílias
fazem a limpeza dos açaizais em regime de mutirão. A Constituição de 1988 trouxe um claro avanço
Embora a pesquisa tenha sido mais ampla, pois vi- no que diz respeito à proteção jurídica da infância e da
sava a analisar a questão da segurança do trabalho na adolescência(4) ao aderir à doutrina da proteção integral,
colheita do açaí e não se tenha detido ao trabalho infan- consagrada pela Declaração Universal dos Direitos da
til, detectou-o e deu ensejo a esse estudo, que buscará Criança (1959), aprovada em 1959 pela Assembleia Ge-
tecer considerações específicas a seu respeito. ral das Nações Unidas. Os trechos abaixo transcritos são
A escolha da área foi justificada pelos seus realiza- relativos à proteção contra a exploração no trabalho:
dores (2016) pelo fato de a Mesorregião do Marajó ser o Princípio VIII – A criança deve – em todas as cir-
maior arquipélago fluviomarinho do planeta e uma das cunstâncias – figurar entre os primeiros a receber
regiões mais pobres do país. proteção e auxílio. Direito a ser protegida contra o
O acesso ao Município de Curralinho, que integra abandono e a exploração no trabalho.
a mesorregião e dista da capital Belém 149,79 km em
Princípio IX – A criança deve ser protegida con-
linha reta, ocorre apenas por meio de embarcações ou
tra toda forma de abandono, crueldade e explora-
aeronaves, sendo a sua maior fonte de renda a extração
ção. Não será objeto de nenhum tipo de tráfico.
do açaí.
O Rio Canaticu é um dos grandes rios do Município Não se deverá permitir que a criança trabalhe an-
de Curralinho, contando com cerca de 6.000 habitan- tes de uma idade mínima adequada; em caso algum
tes, que coletavam o açaí e o entregavam a atravessado- será permitido que a criança dedique-se, ou a ela se
res, situação alterada com a organização das lideranças imponha, qualquer ocupação ou emprego que possa
locais, que criaram uma Central de Associações do Rio prejudicar sua saúde ou sua educação, ou impedir seu
Canaticu. Essa Central passou a concorrer com os atra- desenvolvimento físico, mental ou moral.
vessadores com portos próprios e conseguiu elevar o Contudo, a efetiva implementação da Declaração
preço da rasa(3) do açaí em um ano de R$ 1,00 para só ocorreu 20 (vinte) anos depois, a partir da instituição
R$ 15,00 (FUNDACENTRO; PEABIRU 2016). de um grupo de trabalho na Comissão de Direitos Hu-
As famílias também vêm se organizando por meio manos da Organização das Nações Unidas (ONU), o
da Cooperativa Sementes do Marajó a fim de criar que, conforme destaca Rodrigues (2015), refletiu-se no
uma reserva de dinheiro para o período da entressafra Brasil e deu ensejo a uma Emenda Popular, em 1987,
em nome de cada uma delas, por meio da coleta de denominada de “Criança Prioridade Absoluta”, que foi
R$ 1,00, que fica sob a guarda do responsável pelo incorporada à Constituição de 1988, em seu art. 227(5).

(3) A rasa é um cesto tecido com fibras locais que pesa, em média, 14 kg e é utilizado como unidade de medida para a comercialização
do açaí (FUNDACENTRO; PEABIRU, 2016).
(4) O ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069/1990), considera criança a pessoa até doze anos de idade incompletos,
e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade (art. 2º).
(5) Art. 227 – É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade,
o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade

— 50 —
A proteção integral, consoante a qual os interes- as condições de trabalho que, mesmo com os grandes
ses das crianças e dos adolescentes subordinam os avanços tecnológicos contemporâneos, ainda depende
interesses da família, da sociedade e do Estado, é ins- da força manual para a sua retirada, que é feita sem a
trumentalizada pelos princípios da prioridade absolu- utilização de qualquer equipamento de proteção indi-
ta e do respeito à condição de pessoa em processo de vidual (EPI).
desenvolvimento. Cabe referir à contribuição de Canto (2001), na sua
O art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescen- dissertação de mestrado, intitulada “Processo Extrativis-
te (Lei n. 8.069/1990) deixa claro que a prioridade ab- ta do Açaí: Contribuição da Ergonomia com base na
soluta compreende: a) primazia de receber proteção e Análise Postural durante a Coleta dos Frutos”, realizada
socorro em quaisquer circunstâncias; b) precedência de na Ilha do Combú, a quarta maior ilha do Município
atendimento nos serviços públicos ou de relevância pú- de Belém (PA), elevada à categoria de APA – Área de
blica; c) preferência na formulação e na execução das Proteção Ambiental, pela Lei Estadual n. 6.083/1997(7)
políticas sociais públicas nas áreas relacionadas com a que, segundo ele, reproduz o típico ambiente de várzea
proteção da infância e da juventude. amazônico que reúne as seguintes características:
A Constituição de 1988 proíbe o trabalho de me-
nores de 16 (dezesseis) anos, de modo que Dutra (2007) 1. Possui características típicas da Amazônia;
afirma que se define como infanto-juvenil o trabalho 2. A economia é basicamente calcada no extra-
executado por pessoas que se encontrem abaixo dessa tivismo do açaí; 3. As técnicas utilizadas no pro-
idade mínima básica, exceto na condição de aprendizes. cesso extrativistas do açaí são semelhantes às de
Caber referir, ainda, à Convenção n. 182 da outras microrregiões; 4. Não há energia elétrica
Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre disponível; 5. O acesso é fácil. A ilha faz parte da
a proibição das piores formas de trabalho infantil e região metropolitana de Belém. Está localizada
ação imediata para a sua eliminação, ratificada pelo na margem esquerda do Rio Guamá. Aproxima-
Brasil em 2 de fevereiro de 2000 e promulgada pelo damente 1,5 km de Belém (figura 1.3); 6. Várias
Decreto n. 3.597/2000. Em 2008, o Executivo editou instituições como a UFPA (Universidade Federal
o Decreto n. 6.481(6), que regulamenta os arts. 3º e do Pará), o MPEG (Museu Paraense Emílio Goeldi),
4º da Convenção, que tratam da proibição das piores UNAMA (Universidade da Amazônia), EMBRAPA
formas de trabalho infantil TIP – Trabalhos Infantis Pe- – CPATU, PMB (Prefeitura Municipal de Belém),
rigosos, e determinam que haja ação imediata para a dentre outras, desenvolvem pesquisas na ilha, dis-
sua eliminação. ponibilizando dados com abordagem sociológica,
Da lista, constam, atualmente, 89 Trabalhos In- econômica, energética e tecnológica sobre o local;
fantis Perigosos, os prováveis riscos ocupacionais e as 7. A ilha reproduz as condições ambientais típicas
prováveis repercussões à saúde, dentre os quais não se da Amazônia semelhantes às de outras microrre-
encontra a atividade extrativista de colheita do açaí, o giões. (CANTO, 2001, p. 25-26)
que precisa ser revisto, atualizando-se o Decreto, con-
soante previsto em seu art. 5º, para o que se espera con- No estudo, Canto (2001), que realizou pesquisa de
tribuir com a descrição da atividade extrativista e das campo, esclarece que a colheita tradicional do açaí de
condições de trabalho dos chamados “peconheiros”, várzea é feita, usualmente, por uma pessoa que escala
como são conhecidos os catadores de açaí, em virtude o seu caule ou estipe, utilizando um anel de fibra que
de utilizarem um anel de fibras conhecido como peco- envolve os pés e removendo os cachos com as mãos.
nha para ajudar a subir na árvore. Cavalcante e Rogez (apud CANTO, 2001) afirmam que
se trata de uma tarefa árdua e arriscada, que demanda
extremo vigor físico e que é, geralmente, reservada aos
3. AS CONDIÇÕES DE TRABALHO NA COLHEITA
homens de faixa etária entre 12 e 25 anos e peso inferior
DO AÇAÍ DE VÁRZEA
a 60 kg.
É oportuno, em se tratando de extrativismo vege- O anel de fibra, conhecido como peconha, é feito,
tal, como é o da colheita do açaí de várzea, descrever dentre outras, de fibra do próprio açaizeiro, em que os

e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão.
(6) Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6481.htm>. Acesso em: 27 set. 2017.
(7) Disponível em: <https://www.semas.pa.gov.br/1997/11/13/9776/>. Acesso em: 02 ago. 2017.

— 51 —
trepadores de árvore apoiam os pés ao encontro do cau- 4º) o desgaste físico com a subida no açaizeiro e os
le, para subirem com a força de suas pernas e braços, o riscos de cortes, quedas e de empalamento nos antigos
que, como já mencionado, explica serem chamados de troncos de açaizeiros quando da descida; e,
“peconheiros”. A peconha é frágil, tendo que ser refeita 5º) a troca de árvores sem descer, pulando de uma
a cada duas ou três escaladas. a outra, com imensos riscos de queda e de ferimento
O caule ou estipe é composto de material plástico, com o próprio facão desembainhado que levam nas
como fibras, proteínas e polissacarídeos e a madeira é mãos ou na bermuda.
pesada, mole e racha com facilidade (CANTO, 2001), O estudo de Canto (2001) trouxe uma análise epi-
características que “oferecem condições para que o demiológica que contribui sobremaneira para que se
trabalhador escale a palmeira para apanhar os frutos, atinja o objetivo desse artigo. Ele destaca que não há da-
entretanto, restringe o seu peso para evitar que o estipe dos estatísticos sobre o número de acidentes, nem sobre
quebre” (CANTO, 2001). A sua flexibilidade é grande, as doenças mais comuns que acometem os que laboram
o que permite que o trabalhador a utilize para atingir na cadeia produtiva do açaí, dada a informalidade do
outros estipes, aumentando a produtividade. seu trabalho, mas lista as ocorrências e as queixas que
registrou quando da pesquisa de campo, a saber: picada
A coleta dos frutos é descrita por Canto:
de cobras ou escorpiões, esfolamento nos pés, nas mãos
(...) inicia com a identificação do cacho com e nas pernas, empalação, ferimentos e fraturas de ossos,
açaí maduro (tuíra) (figura-3.6) então o apanhador ferimentos de faca, dores no peito, nas costas e nos pés,
escolhe o estipe mais resistente da touceira, co- perda no tato e artroses.
loca a faca no cós da bermuda, com o cabo para Deteve-se na análise ergonômica, objeto específi-
baixo, envolve os dois pés na peconha, abraça a co da sua dissertação, concluindo que, pelo conjunto
palmeira com as mãos e trança os dedos e executa de posturas assumidas, que descreve e analisa porme-
a escalada com movimentos repetidos de flexão e norizadamente, há fortes exigências de esforços físicos
extensão das pernas. Os pés, unidos pela peconha, envolvendo os membros superiores e inferiores, o tron-
servem de apoio, enquanto as mãos equilibram e co, a coluna, as mãos, os pés e as articulações (CANTO,
auxiliam a puxar o corpo. A escalada é realizada 2001).
rapidamente. O cacho é então cortado em um dos Nas entrevistas realizadas pela FUNDACENTRO e
lados da junção com o estipe (figura-3.6, boneca) e pelo Instituto PEABIRU (2016) também foram relatados
arrancado. Se existirem outros cachos maduros na inúmeros acidentes de trabalho e lesões em todas as
mesma touceira, o apanhador os alcança e os retira partes do corpo. Na cabeça, foram referidas picadas de
também. Se necessário, passa para outros estipes abelhas e espetadas nos olhos, por galhos e folhas de árvo-
sem precisar descer, o que garante maior produti- res próximas. Os braços sofrem fraturas e escoriações,
vidade. O apanhador desce do estipe trazendo na além de cortes com o facão. Nos ombros e nas costas,
relataram distensões musculares causadas pelo esforço
mão os cachos e os deposita no chão, evitando que
excessivo, além de furos de ponta de faca e empala-
os frutos se percam, ou sejam danificados, caso se-
mentos. Nas pernas e nos pés, cortes, calos, ferradas de
jam arremessados. Para reduzir a contaminação, os
animais e contusões por pisadas em tocos.
frutos podem ser colocados sobre sacos plásticos.
(CANTO, 2001, p. 58). O trabalho na extração do açaí não está relacio-
nado na lista dos Trabalhos Infantis Perigosos (Lista TIP)
A pesquisa realizada pela FUNDACENTRO e acima mencionada, mas muito se assemelha ao trabalho
pelo Instituto PEABIRU (2016) também detectou al- na colheita de cítricos, pimenta malagueta e semelhan-
guns riscos a que os coletores de açaí estão expostos, tes (item 3 da Lista TIP), cujos prováveis riscos ocupa-
destacando-se: cionais são esforço físico e posturas viciosas; exposição
a poeiras orgânicas e seus contaminantes, como fungos
1º) a caminhada na várzea, o que os sujeita a pica-
e agrotóxicos; contato com substâncias tóxicas da pró-
das de animais como cobras, escorpiões e poraquês, e
pria planta; acidentes com animais peçonhentos; expo-
a acidentes envolvendo os pés em virtude de os terrenos
sição, sem proteção adequada, à radiação solar, calor,
serem alagadiços;
umidade, chuva e frio; e acidentes com instrumentos
2º) a passagem por estivas (pinguelas) e outras pon- pérfuro-cortantes.
tes improvisadas, que são escorregadias, trazendo risco Consoante o Decreto, as prováveis repercussões
de tombos e baques, dentre outros; à saúde em razão do trabalho na colheita de cítricos
3º) a exposição ao sol durante o deslocamento em são afecções músculo-esqueléticas (bursites, tendinites,
barcos e a pé; dorsalgias, sinovites, tenossinovites); pneumoconioses;

— 52 —
intoxicações exógenas; cânceres; bissinoses; hantaviro- vegetais) em palmeiras altas, cuja espessura não suporta
ses; urticárias; envenenamentos; internações; queima- muito peso. Disse ela:
duras na pele; envelhecimento precoce; câncer de pele;
desidratação; doenças respiratórias; ceratoses actínicas; Denúncias recebidas pela SRTE/PA dão con-
ferimentos e mutilações e apagamento de digitais. ta de que trabalhadores da extração do açaí, em
geral, começam a exercer essa atividade ainda na
Além de se assemelhar à colheita de cítricos, o tra-
idade jovem. Embora esse tipo de trabalho con-
balho no açaí ocorre a 20 a 25 metros, altura média do
tribua para a geração de renda para as famílias,
açaizeiro, o que o enquadra no item 82 da Lista TIP,
infelizmente sacrifica a adequada formação e o en-
com prováveis riscos ocupacionais de queda de nível e
sino dos filhos que se constituem força de trabalho,
prováveis repercussões à saúde representadas por fratu-
inclusive o trabalho infantil. Ademais, tem-se co-
ras, contusões, traumatismos, tonturas e fobias.
nhecimento de que, quando começa o ciclo pro-
Enquadra-se, ainda, no item 81 da Lista TIP, pois dutivo do açaí, há certa diminuição da frequência
é realizado com prováveis riscos ocupacionais: expo- dos alunos nas salas de aula. Ressalta-se que a ati-
sição, sem proteção adequada, à radiação solar, chu- vidade extrativista do açaí enquadra-se nas piores
va e frio, tendo como prováveis repercussões à saúde: formas de trabalho infantil, devido ao esforço físi-
inflamações, queimaduras na pele, envelhecimento co intenso, posturas viciosas, exposição à radiação
precoce, câncer de pele, desidratação, doenças respi- solar, dentre outros riscos ocupacionais”.(8) (grifo
ratórias, ceratoses actínicas, hipertermia, dermatoses, nosso)
dermatites, conjuntivite, queratite, pneumonia, fadiga e
internação. A evasão escolar também foi relatada pela FUN-
Essas são, em síntese, as condições de trabalho na DACENTRO e pelo Instituto PEABIRU (2016) no Rio
coleta do açaí, passando-se, então, à análise específica Canaticu (Curralinho – PA), durante a realização de
do trabalho de crianças e de adolescentes. oficinas participativas com lideranças locais, em 28 de
outubro de 2015, quando se comentou que, na safra, os
jovens faltam às aulas e o seu rendimento escolar cai,
4. O TRABALHO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES porque “estão na peconha”. Justificaram as faltas pela
NA COLHEITA DO AÇAÍ necessidade de subsistência e também pelo acesso rápi-
do ao que, para eles, é um grande volume de dinheiro,
No Pará, a floração do açaí concentra-se na época que entregam às suas famílias e utilizam para comprar
mais chuvosa (janeiro a maio – período de entressafra) álcool e drogas, muitas vezes para aguentar a dureza
e a frutificação, nos períodos mais secos (setembro a do trabalho no açaí, impedindo-os de perceber que a
dezembro – período de safra). educação faria maior diferença para o seu futuro.
Isso reflete diretamente no comparecimento às Gomes e Carvalho (2012) afirmaram que, mesmo
aulas e no desempenho escolar das crianças e adoles- no período da entressafra, na Ilha do Combú, foi-lhes
centes que trabalham na colheita. Gomes e Carvalho relatado que pelo fato de a renda com o açaí ser sazo-
(2012) relatam que, dados fornecidos pela Secretaria nal e insuficiente, na entressafra, os adolescentes e as
Municipal de Educação de Belém, no polo de extensão crianças trabalham em Belém, vendendo bombons em
que funciona na Ilha do Combú, com alunos de educa- semáforos, guardando carros e em serviços domésticos.
ção básica de 6 a 10 anos e de 10 a 12 anos do Ensino
A PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Do-
Fundamental, apontam que todos os anos, quando co-
micílios de 2015 constatou que, naquele ano, havia 2,7
meça o ciclo produtivo do açaí, há certa diminuição do
milhões de pessoas de 5 a 17 anos de idade trabalhando
número de frequência dos alunos nas salas de aula.
no Brasil, dados que, comparados com os de 2014, re-
Em campanha realizada para o combate na cadeia velam uma redução de 19,8% nesse número, com 659
produtiva do açaí pela Associação dos Municípios do mil crianças e adolescentes a menos nesta condição.
Arquipélago do Marajó, a fiscal da Secretaria Regional
do Trabalho e Emprego (SRTE), Aline Calandrini, afir- Encontravam-se na situação de trabalho infantil
mou que o trabalho infantil na cadeia produtiva do açaí – grupo de 5 a 13 anos de idade – 412 mil pessoas.
é uma realidade no período da safra, quando as famílias Destas, 79 mil estavam no grupo de 5 a 9 anos de
envolvidas na atividade mobilizam crianças para apa- idade; 333 mil, no grupo de 10 a 13 anos de idade;
nhar o fruto, devido à destreza para subirem com o au- e 2,3 milhões, no grupo de 14 a 17 anos de ida-
xílio da peconha (cinta rústica confeccionada com fibras de. Assim, dos 2,7 milhões de pessoas ocupadas

(8) Disponível em: <http://www.amam-marajo.org/noticia_detalhes.asp?codigo=2242>. Acesso em: 28 jul. 2017.

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no grupo de 5 a 17 anos de idade, 15,4% corres- sustentáveis, o que gera oportunidades para inovação e
pondiam a pessoas na situação de trabalho infantil criação de novos produtos e serviços.
(Gráfico 33). Nas Regiões Norte e Nordeste, essa Melo Neto e Fróes (apud GUEDES, 2000, p. 11)
proporção subiu para 21,6% e 21,2%, respectiva- esclarecem os ganhos que as empresas podem obter:
mente. (IBGE, 2015, p. 62)
O retorno social institucional acontece no mo-
Conforme o Procurador do Ministério Público do mento em que os consumidores privilegiam a ati-
Trabalho, Tiago Ranieri (2017), a PNAD mostrou que, a tude da empresa de investir em ações sociais, e o
despeito da queda geral no número de crianças e ado- desempenho da empresa obtém o reconhecimento
lescentes, entre 5 e 17 anos, que trabalham, o trabalho público. Como consequência, a empresa recebe
precoce de 5 a 9 anos cresceu, mormente no seio de retorno com mídia espontânea potencializando
unidades familiares que atuam na extração da castanha, sua marca, reforçando sua imagem, assegurando
do cacau e do açaí. a lealdade de seus empregados, além de fidelizar
Na pesquisa de campo já referida (2012), Gomes clientes, aumentar sua participação no mercado e
e Carvalho detectaram que há certa preocupação de al- conquistar novos mercados (MELO NETO; FRÓES
gumas famílias usuárias do Bolsa Família que possuem apud GUEDES, 2000).
filhos no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil
– PETI, o que também foi constatado na pesquisa da É preciso que, tal como tem sido feito com a indús-
FUNDACENTRO e do PEABIRU: tria de moda, denuncie-se a existência de trabalho in-
fantil na cadeia do açaí e que sejam boicotados aqueles
Devido às políticas de benefícios sociais como o
vendedores que não se preocuparem com as condições
bolsa família e outros, hoje já há uma consciência maior
de trabalho de sua produção.
das famílias em manter seus filhos na escola. Porém é
comum que na época da safra do açaí, em função de Ademais, há que se estimular o reforço da fiscali-
sua importância na composição da renda familiar, haja zação pelos Conselhos Tutelares, pelo Ministério Públi-
um aumento significativo da evasão escolar. É preciso co e pela SRTE para intensificar o combate ao trabalho
verificar como o sistema de ensino trata esses alunos e infantil na coleta do açaí.
sua relação com os benefícios sociais. Há relatos, o que
é preciso investigar, que os alunos não teriam faltas no 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
diário escolar, mesmo ausentes, para que suas famílias
não perdessem os benefícios sociais (2016, p. 71). Após a análise da pesquisa que subsidia este traba-
A exposição de crianças e adolescentes à atividade lho e da bibliografia coletada, constatou-se que:
extrativista de coleta do açaí, que, como se verificou ao 1º) a atividade de extrativismo do açaí de várzea é
longo desse trabalho, exige grande esforço e os submete tradicional nas ilhas do Estado do Pará, principalmente
a altos riscos, é cada vez mais frequente, dada a valori- para consumo próprio e venda do excedente por meio
zação do fruto nos mercados nacional e internacional. de atravessadores, que sempre fixaram os preços de
Contudo, a cadeia de valor do açaí não é impacta- compra;
da pela externalidade negativa representada pelo traba- 2º) a maior demanda pelo mercado impôs o au-
lho infantil e precário, vez que esse fato é desconhecido mento da frequência de subidas nos açaizeiros e no rit-
pela maioria das pessoas que consideram que, ao con- mo da exploração, resultando em uma maior exposição
sumirem o fruto, estão ajudando a manter a floresta e a do “peconheiro” aos riscos envolvidos na atividade, de-
atividade extrativista regional típica. correntes do trabalho em altura, com exposição ao sol,
Fedato (2015) explica que a gestão de responsa- ao calor e a chuvas, que causam acidentes e doenças;
bilidade na cadeia de valor ocorre “quando a empresa 3º) o trabalho infantil na extração do açaí também
passa a fazer a gestão estratégica dos impactos sociais e se intensificou, em que pese as políticas públicas de
ambientais de matérias-primas e serviços”, englobando concessão de benefícios sociais, como o Bolsa Família e
“desde os fornecedores, subfornecedores e prestadores o PETI, que trouxeram uma maior preocupação dos pais
de serviços até o cliente final e etapas de consumo”. em manter seus filhos na escola, o que foi constatado
Além de ser uma forma de gestão de risco e de pela PNAD 2015, apesar de haver rumores de que não
atender a demandas de autorregulação, as empresas há o correto cômputo das faltas escolares na Região;
podem tirar proveito dessa opção pela sustentabilidade 4º) há o trabalho de um grande número de crianças
na cadeia de valor, pois há um nicho cada vez maior e de adolescentes na extração do açaí, que exige grande
do mercado preocupado com a aquisição de produtos esforço e é de alto risco;

— 54 —
5º) a existência de trabalho infantil, precário e su- FEDATO, Cristina. Sustentabilidade na cadeia de valor.
jeito a riscos à saúde não se reflete na cadeia de valor 21/05/2015. Disponível em: <http://www3.ethos.org.br/ce-
do açaí, nem é denunciada aos consumidores, inexis- doc/sustentabilidade-na-cadeia-de-valor/#.WYI8FoTyuUk>.
Acesso em: 02 ago. 2017.
tindo qualquer preocupação dos processadores do açaí,
quer industriais, quer pequenos empresários, acerca das FUNDACENTRO; INSTITUTO PEABIRU. Relatório final para o
condições de produção do que estão adquirindo, o que Programa Trabalho Seguro. Belém (PA), 2016. Disponível em:
<file:///I:/o-peconheiro-diagnostico-acai-peabiru-fundacen-
precisa ser alterado, tornando-se visível a existência de
tro_20170222110513%20(1).pdf>. Acesso em: 26 jul. 2017.
trabalho infantil na cadeia de valor do açaí, de modo
GOMES, Vera Lúcia Batista; CARVALHO, Raimundo Sócra-
que aqueles que dele não se utilizarem possam obter
tes de Castro. Trabalho extrativista e condições de vida de
certificação e incorporarem os custos aos produtos trabalhadores: Famílias da Ilha do Combú (Pará). Disponí-
“limpos”, “sem trabalho infantil”, por eles comerciali- vel em: <http://www.periodicos.ufes.br/argumentum/article/
zados; e, view/3051>. Acesso em: 30 jul. 2017.
6º) faz-se necessário incluir a coleta do açaí por GUEDES, Rita de Cássia. Responsabilidade social e cidada-
crianças e adolescentes na Lista TIP – Trabalhos Infantis nias empresariais: conceitos estratégicos para as empresas fa-
Perigosos, cuja criação decorre da Convenção n. 182 ce à globalização. Dissertação (Mestrado em Administração
da OIT, na qual consta a proibição das piores formas de Empresas) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
de trabalho infantil, ratificada pelo Brasil, o que impõe São Paulo, 2000.
ao país a adoção de medidas imediatas e eficazes que INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.
garantam a proibição e a eliminação das piores formas Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2015. Dispo-
de trabalho infantil em caráter de urgência. nível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/
liv98887.pdf>. Acesso em: 30 set. 2017.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Uni-
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS versal dos Direitos da Criança. Disponível em: <http://www.
dhnet.org.br/direitos/sip/onu/c_a/lex41.htm>. Acesso em: 27
BRANDÃO, Cláudia Rafaela Farias et al. O açaí no Estado do set. 2017.
Pará e seu potencial para o desenvolvimento sustentável da re-
RODRIGUES, Marcella Regina Gruppi. O combate ao tra-
gião. Setembro de 2015. Disponível em: <http://www.confea.
balho infantil no Estado do Pará: o redesenho do Programa
org.br/media/Agronomia_o_acai_no_estado_do_para_e_seu_
de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) e a sua efetividade.
potencial_para_o_desenvolvimento_sustentavel_da_regiao.
2015. Dissertação (Mestrado em Direitos Humanos e Políti-
pdf>. Acesso em: 30 set. 2017. cas Públicas) – Centro Universitário do Pará – CESUPA, Pará.
CANTO, Sérgio Aruana Elarrat. Processo Extrativista do açaí: 2015. Disponível em: <http://www.cesupa.br/MestradoDi-
Contribuição da Ergonomia com base na Análise Postural du- reito/dissertacoes/DISSERTACAO%20MARCELLA_RODRI-
rante a Coleta dos Frutos. 2001. Dissertação (Mestrado em GUES.pdf>. Acesso em: 24 set. 2017.
Engenharia de Produção) – Universidade Federal de Santa Ca- VIEIRA, Ana Luísa. Entrevista concedida ao site Chega de Tra-
tarina, Florianópolis, dez. 2001. Disponível em: <https://repo- balho Infantil por Tiago Ranieri, publicada em 18.02.2017.
sitorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/81677/185527. Disponível em: <http://www.chegadetrabalhoinfantil.org.br/
pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 27 set. 2017. noticias/materias/e-preciso-proteger-as-familias-para-que-se-
DUTRA, Maria Zuíla Lima. Meninas Domésticas, infâncias -possa-avancar-no-combate-ao-trabalho-infantil-diz-procura-
destruídas: legislação e realidade social. São Paulo: LTr, 2007. dor/>. Acesso em: 30 set. 2017.

— 55 —
7

TRABALHO INFANTIL – TRABALHO QUE CEIFA A


INFÂNCIA, OPORTUNIDADES E VIDAS
MARIA DE LOURDES LEIRIA(*)

“A infância é medida pelos sons, aromas e cenas antes de surgir a hora sombria da razão”.
John Betjeman

1. CONTEXTUALIZAÇÃO saúde e integridade. O trabalho é proibido antes dos


16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14
Quando falamos em trabalho decente nos referi- anos(1).
mos a trabalho como forma de crescimento, trabalho Até completar 18 anos o adolescente tem trata-
executado de forma livre e com observância dos di- mento especial pela legislação em função de seu de-
reitos fundamentais do cidadão. Neste diapasão, estão senvolvimento incompleto, não lhe sendo permitido
excluídas quaisquer formas de trabalho que violem a desenvolver atividades que coloquem em risco sua saú-
dignidade da pessoa, tais como o trabalho escravo, o de física, mental ou que lhe sejam prejudiciais a moral.
trabalho degradante e o trabalho infantil. Nesse viés, é proibido o trabalho noturno, insalubre,
perigoso e penoso(2), assim como em todas as atividades
Esta reflexão é sobre o trabalho infantil, responsá-
classificadas como piores formas(3) de trabalho infantil(4)
vel por ceifar a infância e a oportunidade de crescimen-
normatizadas pela Convenção n. 182(5) da Organização
to de milhares de crianças e adolescentes.
Internacional do Trabalho, OIT, antes de o trabalhador
Trabalho infantil é todo aquele prestado por crian- completar 18 anos, visto que a Convenção normatiza
ças e adolescentes, em desrespeito ao limite legal mí- no art. 2º que “o termo criança designa toda pessoa
nimo para o trabalho ou suscetível de pôr em risco sua menor de 18 anos”.

(*) Desembargadora do TRT da 12ª Região. Gestora Regional do Programa Nacional de Combate ao Trabalho Infantil e de Estímulo a
Aprendizagem.
(1) Constituição Federal, art. 7º, inciso XXXIII. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>
Acesso em: 30 jul. 2017.
(2) Art. 67, inciso II da Lei n. 8.069/90 (ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: 30 jul. 2017.
(3) A expressão as piores formas de trabalho infantil compreende: trabalhos que, por sua natureza ou pelas circunstâncias em que são
executados, são suscetíveis de prejudicar a saúde, a segurança e a moral da criança, art. 3º, letra d, da Convenção n. 182 da OIT.
Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/node/518>. Acesso em: 30 jul. 2017.
(4) Decreto n. 6.481 de 2008 traz em anexo a lista das atividades consideradas piores formas de trabalho infantil – lista TIP, que
enumera 93 atividades nas quais o trabalho é vedado antes dos 18 anos completos. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6481.htm>. Acesso em: 30 jul. 2017.
(5) Convenção ratificada pelo Brasil em 02.2.2000, com vigência um ano após. Considera-se trabalho infantil o prestado antes dos 18
anos nas piores formas de trabalho infantil.

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A criança(6), o adolescente e o jovem(7) têm o di- no art. 5º da Lei n. 8.069/90, Estatuto da Criança e do
reito fundamental de não trabalhar e de ter respeitado Adolescente, que prescreve a punição daqueles que vio-
o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao larem direitos fundamentais de crianças e adolescentes:
lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao res-
peito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária Nenhuma criança ou adolescente será objeto
e de ser mantidos a salvo de toda forma de negligência, de qualquer forma de negligência, discriminação,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opres- exploração, violência, crueldade e opressão, puni-
são, direitos garantidos no art. 227 da Constituição Fe- do na forma da lei qualquer atentado, por ação ou
deral e violados com o trabalho infantil. omissão, aos seus direitos fundamentais.
O trabalho infantil decorre de questão cultural, não Expor criança e adolescente ao trabalho infantil
apenas por parte das famílias com baixo poder aquisi- pode configurar o crime tipificado no art. 132 do Códi-
tivo, que entendem que os filhos devem trabalhar para go Penal(9) – “expor a vida ou a saúde de outrem a perigo
contribuir com o sustento, mas também da sociedade direto e iminente”, especialmente quando o trabalho for
em geral, que aceita e defende que o trabalho é a alter- considerado pior forma de trabalho infantil, de que trata
nativa para as crianças carentes, para que não fiquem a Convenção n. 182 da Organização Internacional do
desocupadas. Tal entendimento decorre de herança Trabalho, e todas as atividades relacionadas na lista TIP,
cultural da década de 80, quando vigia o Código de anexa ao Decreto n. 6.481/08, a exemplo do trabalho
Menores, cujo foco era a situação irregular das pessoas na agricultura, trabalho infantil doméstico e trabalho nas
menores de 18 anos. Trata-se de discriminação odiosa ruas.
em relação às crianças e aos adolescent:es carentes, co- Embora não seja tipificado como crime a explora-
mo se existisse duas categorias de crianças e apenas as ção de trabalho infantil, o parágrafo único do artigo 132
integrantes da classe econômica alta tivessem direitos do Código Penal é específico em relação ao transporte
humanos a serem preservados. de trabalhadores em desrespeito a legislação, fato muito
O trabalho precoce é ainda aceito e incentivado comum na área rural, onde crianças e adolescentes são
por aqueles que trabalharam quando criança, muitos transportados em carrocerias de veículos.
ao abrigo da legislação, que permitia o trabalho a partir O trabalho infantil visível, aquele realizado em
dos 12 anos, resultado de retrocesso contemplado na carvoarias, pedreiras, olarias e lixões é mais fácil de ser
Constituição Federal de 1967(8). Sustentam que o traba- identificado e eliminado. A atuação de várias institui-
lho enobrece e forma o caráter, trata-se de um mito en- ções nestas frentes resultou na retirada de milhares de
tre tantos outros: “melhor trabalhar do que ficar na rua”; crianças e adolescentes do trabalho.
“criança que trabalha fica esperta”; “criança que tra- Diversos organismos internacionais e nacionais
balha com os pais aprende um ofício”. Esses mitos, no atuam em prol da erradicação do trabalho precoce, com
entanto, apenas são defendidos em desfavor de crianças destaque para a Organização Internacional do Trabalho
carentes. Crianças oriundas das classes econômicas al- (OIT), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNI-
tas, normalmente estudam até concluírem mestrado ou CEF) e o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação
doutorado, qualificando-se para ingressar no mercado do Trabalho Infantil (FNPETI), assim como várias insti-
de trabalho. tuições integrantes do Estado e não governamentais, o
A utilização de trabalho infantil não é tipificada que culminou em significativa redução do número de
como crime, fazendo letra morta a disposição contida trabalhadores infantis nas últimas décadas.

(6) Criança é a pessoa com até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade, art. 2º da
Lei n. 8.069/90 (ECA).
(7) Consideram-se jovens as pessoas com idade entre 15 e 29 anos, art. 1º, § 1º da Lei n. 12.852/13 – Estatuto da Juventude. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12852.htm> Acesso em: 30 jul. 17.
(8) A Constituição Federal de 1967 retrocedeu 76 anos ao reduzir a idade mínima para o trabalho, de 14 para 12 anos. Passou a vigorar
a idade prevista no Decreto n. 1.313, de 17.1.1891, que disciplinava o trabalho nas fábricas do Distrito Federal, proibia o trabalho
de crianças menores de 12 anos, autorizando a aprendizagem a partir dos 8 anos; primeira legislação brasileira a limitar a idade
para o trabalho.
(9) Código Penal – Decreto-lei n. 2.848 de 1940 – Perigo para a vida ou saúde de outrem – Art. 132 – Expor a vida ou a saúde de outrem
a perigo direto e iminente: Pena – detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave. Parágrafo único. A
pena é aumentada de um sexto a um terço se a exposição da vida ou da saúde de outrem a perigo decorre do transporte de pessoas
para a prestação de serviços em estabelecimentos de qualquer natureza, em desacordo com as normas legais. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>. Acesso em: 30 jul. 17.

— 58 —
Em 2006, o Brasil contava com mais de 5 milhões mão de obra(14) da própria família nas atividades econô-
de crianças e adolescentes com idade entre 5 e 17 anos micas do seu estabelecimento ou empreendimento(15).
trabalhando. A despeito dos esforços realizados na úl- Estão igualmente enquadrados como empreende-
tima década para erradicar o trabalho infantil, o Bra- dores familiares rurais:
sil conta ainda com mais de 2,6 milhões de crianças e
adolescentes de 5 a 17 anos trabalhando, dos quais 79 I – silvicultores que atendam simultaneamente
mil tem entre 5 e 9 anos(10), idade em que é proibido a todos os requisitos de que trata o caput deste arti-
qualquer trabalho. Justo nesta faixa etária as estatísticas go, cultivem florestas nativas ou exóticas e que pro-
demonstram um preocupante aumento de crianças tra- movam o manejo sustentável daqueles ambientes;
balhando na ordem de 12% em relação ao ano anterior. II – aquicultores que atendam simultaneamente
A maioria, 85%, das crianças e adolescentes que traba- a todos os requisitos de que trata o caput deste
lham têm mais de 14 anos, 32% se ocupam em ativida- artigo e explorem reservatórios hídricos com su-
des agrícolas, 79% estudam e recebem remuneração, perfície total de até 2ha (dois hectares) ou ocupem
66% são meninos, à exceção do trabalho infantil do- até 500m³ (quinhentos metros cúbicos) de água,
méstico que é praticado principalmente por meninas(11). quando a exploração se efetivar em tanques-rede;
A dificuldade em encontrar estas crianças e ado- III – extrativistas que atendam simultaneamente
aos requisitos previstos nos incisos II, III e IV do
lescentes reside no fato de que a maioria delas trabalha
caput deste artigo e exerçam essa atividade artesa-
em núcleos de difícil acesso às instituições que atuam
nalmente no meio rural, excluídos os garimpeiros
em prol da erradicação do trabalho precoce. Trabalham
e faiscadores;
na agricultura familiar, em serviços domésticos e estão
inseridas na cadeia produtiva, de forma que não são IV – pescadores que atendam simultaneamente
identificáveis sem um exame apurado na origem da pro- aos requisitos previstos nos incisos I, II, III e IV do
dução. Este fato deve servir para reforçar a atuação das caput deste artigo e exerçam a atividade pesqueira
artesanalmente.
instituições que combatem esta chaga.
V – povos indígenas que atendam simultanea-
mente aos requisitos previstos nos incisos II, III e IV
2. TRABALHO INFANTIL NA AGRICULTURA do caput do art. 3º.
FAMILIAR
VI – integrantes de comunidades remanescen-
A OIT estima que 70% das crianças que trabalham tes de quilombos rurais e demais povos e comuni-
no mundo o fazem na agricultura, trabalho executado dades tradicionais que atendam simultaneamente
sem proteção, em longas jornadas, expostos às intem- aos incisos II, III e IV do caput do art. 3º(16).
péries da natureza(12). No Brasil 856 mil(13) crianças e O agricultor familiar equivocadamente sentiu-se
adolescentes se ocupam em atividades agrícolas, sendo estimulado a colocar os filhos para trabalhar na agricul-
a maioria do sexo masculino. tura ao passo que o legislador estipulou como requisito
A maior parte das crianças e adolescentes que tra- para que possa usufruir dos benefícios previstos na lei,
balham na área rural, o fazem acompanhando os pais na que a atividade seja desenvolvida predominantemente
agricultura familiar. À luz da legislação, agricultor fami- com trabalhadores integrantes da família.
liar ou empreendedor familiar rural é aquele que pratica Neste contexto, o trabalho da criança é computa-
atividades no meio rural utilizando predominantemente do na produção, contribuindo para a redução de custos

(10) De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD de 2015 há 2,672 milhões de crianças e adolescentes de
5 a 17 anos trabalhando no Brasil, destas 79 mil tem menos de 10 anos. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/
livros/liv98887.pdf> Acesso em: 30 jul. 17.
(11) PNAD de 2015.
(12) IPEC – Programa Internacional para la Erradicación del Trabajo Infantil – Trabajo infantil en la agricultura – Ilo, disponível em:
<http://white.lim.ilo.org/ipec/pagina.php?seccion=6&pagina=123>. Acesso em: 20 jul. 17.
(13) PNAD 2015.
(14) Expressão utilizada pela lei, a qual entendo inapropriada por coisificar o trabalhador.
(15) Lei n. 11.326, de 24 de julho de 2006, art. 3º, inciso II. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/
lei/l11326.htm>. Acesso em: 30 jul. 17.
(16) Artigo 3º, § 2º da Lei n. 11.326/2006.

— 59 —
com contratação de trabalhadores e na manutenção do Há no trabalho infantil na agricultura familiar além
requisito da prevalência de trabalhadores integrantes da da questão cultural, embasada na falsa percepção de
família. que a criança está aprendendo um ofício e de que es-
Por certo que o legislador, ao exigir a predominân- tando matriculada na escola o trabalho não a prejudi-
cia de trabalhadores da célula familiar para que se ca- cará, a questão econômica e a exigência legal de que
racterize agricultura familiar ou empreendimento rural a atividade seja explorada pela maioria de membros da
familiar, não pretendeu contemplar o trabalho infantil família.
rural, mas tão somente conceder benefício ao pequeno O trabalho na agricultura pode ser considerado ati-
agricultor. vidade penosa, visto que o trabalhador pode permane-
A proibição de trabalho na agricultura antes dos 18 cer por várias horas em postura inadequada e exposto às
anos completos decorre de mandamento constitucio- intempéries da natureza. As crianças e os adolescentes
nal, de norma internacional ratificada pelo Brasil e do que trabalham na agricultura estão expostas aos efeitos
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que é ex- nocivos dos agrotóxicos, à queimadura solar, à desidra-
presso quanto a proibição ao adolescente trabalhar em tação, aos riscos de acidentes com animais peçonhen-
atividades que possam expor sua saúde e integridade tos, acidentes com máquinas agrícolas etc. A atividade
física a riscos, inclusive em regime familiar de trabalho. rural está entre as piores formas de trabalho infantil, sen-
do proibido o trabalho antes dos 18 anos completos,
Neste sentido é a regulamentação contida na Lei n.
com amparo na Convenção n. 182 da OIT e Decreto n.
8.069, de 13 de julho de 1990, ECA:
6.481/2008.
Art. 67. Ao adolescente empregado, aprendiz, em regi- O trabalho infantil na agricultura viola os direitos
me familiar de trabalho, aluno de escola técnica, assisti- humanos de crianças e adolescentes à vida, à saúde, à
do em entidade governamental ou não-governamental, educação, ao lazer, e ainda acarreta prejuízos que com-
é vedado trabalho: prometem o seu pleno desenvolvimento físico, psicoló-
I – noturno, realizado entre as vinte e duas horas de um gico, cognitivo e moral, restringindo-lhes a liberdade e
dia e as cinco horas do dia seguinte; expondo a riscos sua integridade.
II – perigoso, insalubre ou penoso;
III – realizado em locais prejudiciais à sua formação e 2.1. Agricultura familiar e o uso de agrotóxicos
ao seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social;
IV – realizado em horários e locais que não permitam a
O Brasil destaca-se entre os maiores consumido-
frequência à escola. res de agrotóxicos do mundo(18). Em decorrência disso,
contamina o meio ambiente, expõe a risco a saúde dos
A agricultura familiar e empreendimento familiar trabalhadores na agricultura e dos consumidores dos
rural compõem 4,4 milhões de famílias agricultoras, produtos agrícolas, pelo uso desenfreado de agrotóxi-
que representam 84%(17) dos estabelecimentos rurais cos. Neste cenário estão inseridas milhares de crianças
brasileiros, responsáveis por 70% da produção alimen- e adolescentes trabalhando no meio rural.
tícia do país. Neste viés, analisando-se o requisito legal A criança é um ser em desenvolvimento, estando
da predominância de trabalhadores do núcleo familiar ainda em formação o fígado, o baço, os rins e o sis-
e a magnitude da economia familiar rural, constata-se tema respiratório, o que as tornam mais vulneráveis à
a importância da conscientização do agricultor e em- intoxicação com agrotóxicos. Basta olhar uma criança
preendedor rural familiar sobre a nocividade do traba- com a atenção que ela merece para constatar que sua
lho precoce. pequena estatura a expõe com maior intensidade aos
Diante da diversidade de atividades que caracteri- efeitos nefastos dos produtos químicos que compõem
zam empreendimento rural familiar, pode-se encontrar o agrotóxico.
crianças e adolescentes com idade inferior a 18 anos, A exposição a agrotóxicos e fertilizantes químicos
em total descumprimento da legislação, nas mais diver- pode causar intoxicação aguda ou crônica. Intoxicação
sas atividades rurais, acompanhados de seus familiares. aguda pode causar cólicas abdominais, enjoos, vômi-

(17) Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário. Disponível em: <http://www.mda.gov.br/sitemda/
plano-safra-da-agricultura-familiar-20172020>. Acesso em: 30 jul. 17.
(18) Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Dossiê ABRASCO – Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Disponível
em: <http://www.abrasco.org.br/dossieagrotoxicos/wp-content/uploads/2013/10/DossieAbrasco_2015_web.pdf>. Acesso em: 30
jul. 17.

— 60 —
tos, dor de cabeça, sangramento nasal, convulsões, representar, o agricultor normalmente compra e aplica
perda de apetite, conjuntivite, dificuldade respiratória com a orientação do comerciante.
etc. Intoxicações crônicas ocasionam doenças de pele, O armazenamento do agrotóxico deve ser feito
doenças respiratórias, neoplasias, más-formações con- em local apropriado, acomodado sobre estrados para
gênitas, infertilidade, problemas neurológicos, lesões não ter contato com o solo. As embalagens devem ser
hepáticas, neurológicas e renais, fibrose pulmonar, pa- resistentes, rotuladas e hermeticamente fechadas, não
ralisia e depressão(19). Muitas destas doenças poderão podem ser reaproveitadas e devem ser descartadas de
levar a óbito e sequer serão relacionadas à exposição acordo com a legislação e orientações do fabricante.
ao agrotóxico. A manifestação pode ocorrer apenas na
O agrotóxico não pode ser transportado no mesmo
fase adulta ou décadas após a exposição, dificultando o
nexo causal com o trabalho prestado na infância. compartimento que alimentos, rações, forragens, utensí-
lios de uso pessoal e domésticos. É vedado o transporte
O agrotóxico torna-se mais nocivo dependendo da
simultâneo de trabalhadores e agrotóxicos em veículos
forma como é utilizado. A Norma Regulamentar (NR)
que não tenham compartimentos fechados, de forma a
n. 31, que trata de segurança e saúde no trabalho na
isolar o produto.
agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal
e aquicultura, disciplina o uso de agrotóxicos no item A aplicação deve ser feita com equipamento de
31.8. segurança inspecionado antes de cada utilização e
descontaminado ao final da jornada por pessoa previa-
A NR n. 31 enumera os trabalhadores que estão
mente treinada. É vedado o uso de roupas pessoais. Os
direta e indiretamente expostos ao agrotóxico:
trabalhadores em exposição direta ao agrotóxico de-
31.8.1 Para fins desta norma são considerados: vem ter capacitação mínima de 20 horas, distribuídas
a) trabalhadores em exposição direta, os que manipu- no máximo em 8 horas, durante o expediente normal
lam os agrotóxicos e produtos afins, em qualquer uma de trabalho. As áreas tratadas devem ser sinalizadas,
das etapas de armazenamento, transporte, preparo, apli- informando o período de reentrada. É vedada a mani-
cação, descarte, e descontaminação de equipamentos e pulação por menores de 18 anos, maiores de 60 anos
vestimentas; e gestantes.
b) trabalhadores em exposição indireta, os que não As roupas devem ser lavadas separadamente e em
manipulam diretamente os agrotóxicos, adjuvantes e local exclusivo, diverso do utilizado na casa. A água da
produtos afins, mas circulam e desempenham suas ati- limpeza não pode ser escoada no solo, deve ser enca-
vidades de trabalho em áreas vizinhas aos locais onde nada para uma fossa. Todas estas normas de segurança
se faz a manipulação dos agrotóxicos em qualquer uma constam no item 31.8 da NR-31(21) .
das etapas de armazenamento, transporte, preparo, apli-
Ainda que fossem tomados todos os cuidados re-
cação e descarte, e descontaminação de equipamentos
comendados na legislação e pelo fabricante, o trabalho
e vestimentas, e ou ainda os que desempenham ativida-
des de trabalho em áreas recém-tratadas.
na agricultura continuaria sendo nocivo e proibido para
menores de 18 anos, e os riscos de intoxicação previstos
Estudos indicam que não há uso seguro de agrotó- na legislação permaneceriam.
xicos(20). Entretanto, por falta de informações ou de con- Contudo, o risco de intoxicação é potencializa-
dições econômicas do agricultor familiar, o agrotóxico do quando o agricultor familiar transporta o agrotóxi-
é utilizado da forma mais insegura e nociva, expondo co dentro do único veículo da família, utilizado como
a maior risco de contaminação aqueles que estiverem automóvel de passeio. Quando aplica o produto sem
expostos. proteção e na presença de crianças, as quais inclusive
O agrotóxico é adquirido livremente, porém, deve- ajudam na aplicação, para aprender o ofício dos pais.
ria ser consultado engenheiro agrônomo, que analisaria Quando reutilizam embalagem e lavam as roupas usa-
o solo, a cultura e então prescreveria o tipo de defensivo das na aplicação com as demais roupas da casa, es-
e as proporções adequadas. Diante do custo que pode coando a água na terra.

(19) Dossiê ABRASCO.


(20) ABREU, Pedro Henrique Barbosa. O agricultor familiar e o uso (in)seguro de agrotóxicos no Município de Lavras (MG). Disponível em:
<https://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Dissertao%20Final%20Pedro%20Henrique%20Barbosa%20de%20
Abreu%20-%20Sa%C3%Bade%20Coletiva.pdf>. Acesso em: 22 jul. 2017. Dissertação de mestrado cuja leitura recomenda-se.
(21) NR n. 31, item 31.8. Disponível em: <http://www.guiatrabalhista.com.br/legislacao/nr/nr31.htm#31.8_Agrot%C3%B3xicos,_Ad-
juvantes_e_Produtos_Afins__,>. Acesso em: 23 jul. 17.

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Analisados todos estes riscos que o trabalho infan- Os trabalhadores infantis domésticos fazem limpe-
til rural expõe milhares de crianças e adolescentes, deve zas, utilizam produtos tóxicos, cozinham, expondo-se a
ser intensificada a atuação das instituições integrantes líquidos quentes, a utensílios e instrumentos perigosos,
do Estado e não governamentais para que os agricul- cuidam de crianças e de idosos e ainda podem ser sub-
tores familiares sejam orientados sobre os danos que o metidos a castigos físicos.
trabalho rural pode causar a saúde e integridade de seus O trabalho é executado em sua maioria por me-
filhos. Deve ser esclarecido, ainda, que a lei da agricul- ninas, as ditas “filhas de criação” que são buscadas em
tura familiar não os autorizou a colocarem seus filhos famílias carentes, muitas vezes na área rural e explora-
menores de 18 anos a trabalhar. A exigência de explo- das pela classe econômica mais favorecida nas grandes
ração com predominância de trabalhadores da família, cidades. São retiradas de suas famílias e isoladas em
pressupõe trabalhadores que já tenham completado 18 casas de terceiros, o que as tornam totalmente depen-
anos. dentes de seus empregadores e vulneráveis a violências
físicas, assédio moral e sexual.
3. TRABALHO INFANTIL DOMÉSTICO Realizam o trabalho de babá e demais serviços
domésticos, são submetidas a jornadas excessivas, exe-
A nível mundial, cerca de 10 milhões(22) de crian- cutando as infindáveis tarefas domésticas. O trabalho
ças e adolescentes trabalham de forma invisível em re- infantil doméstico rouba não apenas a infância de mi-
sidências, a maioria com 10 anos de idade, às vezes lhares de meninas e meninos, mas também a oportuni-
dade de estudar e sair da pobreza.
menos. As estatísticas sobre o trabalho infantil domés-
tico não são precisas, face a peculiaridade do trabalho, Os trabalhadores infantis domésticos são afastados
realizado no interior de residências, que dificulta a co- de suas famílias, as quais normalmente são de condição
leta de dados. social e econômica muito inferior à do empregador, o
que contribui para que meninas e meninos sofram dis-
Estudo elaborado pelo FNPETI(23) informa que ha- criminação, falta de respeito e toda forma de assédio.
via quase 180 mil trabalhadores infantis domésticos no Recebem uma remuneração reduzida e muitas vezes
Brasil no ano de 2014. A maioria trabalhava nas Regiões trabalham apenas em troca de comida, roupas usadas
Nordeste e Sudeste. Trabalhadores com idade entre 10 e habitação. São explorados por pessoas que se julgam
e 13 anos (16%), 14 e 15 anos (32%) e entre 16 e 17 caridosas. Não têm contrato, não recebem salário, não
anos (52%). O trabalho infantil doméstico é exercido têm limite de jornada, não têm férias e não têm tempo
principalmente por meninas (94%) e em sua maioria para ir à escola, têm que cuidar das crianças da casa
executado por trabalhadores negros (73%). quando estas não estão na escola e fazer os trabalhos
O trabalho doméstico só é permitido ao trabalhador domésticos enquanto aquelas estudam. Tudo em nome
com 18 anos completos, visto que está classificado como da solidariedade do empregador.
pior forma de trabalho infantil(24). A atividade doméstica Os possíveis riscos ocupacionais e repercussões na
é perigosa, além de segregar a criança e o adolescente, saúde das crianças que executam trabalho domésticos
afastando-o do convívio familiar e social, submete-o a estão regulamentados na legislação(25) aos quais devem
longas jornadas, expõe o trabalhador infantil ao risco ser somados os danos irreparáveis que o trabalho preco-
de sofrer abuso físico, psicológico e sexual, impede o ce produzirá na vida destas meninas e meninos.
acesso à escola e viola os direitos fundamentais à saúde, A erradicação do trabalho infantil doméstico é
à educação, ao lazer e à segurança. questão afeta a igualdade de gênero. São milhares de

(22) IPEC – Ilo – Trabajo infantil domestico. Disponível em: <http://white.lim.ilo.org/ipec/pagina.php?seccion=6&pagina=169>. Acesso
em: 20 jul. 17.
(23) FNPETI – O Trabalho Infantil nos Principais Grupamentos de Atividades Econômicas do Brasil. Disponível em: <http://www.fnpeti.
org.br/arquivos//biblioteca/e4bab99e667bb7f2f593147906840bdb.pdf>. Acesso em: 29 jul. 17.
(24) Convenção n. 182 da OIT, artigo 3º e Lista TIP – piores formas de trabalho infantil, anexa ao Decreto n. 6.481/2008.
(25) Decreto n. 6.481/08 – Lista TIP, item n. 76 – Trabalhos domésticos – Prováveis riscos ocupacionais: Esforços físicos intensos;
isolamento; abuso físico, psicológico e sexual; longas jornadas de trabalho; trabalho noturno; calor; exposição ao fogo, posições
antiergonômicas e movimentos repetitivos; tracionamento da coluna vertebral; sobrecarga muscular e queda de nível. Prováveis
repercussões à saúde: Afecções músculos esqueléticos (bursites, tendinites, dorsalgias, sinovites, tenossinovites); contusões; fratu-
ras; ferimentos; queimaduras; ansiedade; alterações na vida familiar; transtornos do ciclo vigília-sono; DORT/LER; deformidades
da coluna vertebral (lombalgias, lombociatalgias, escolioses, cifoses, lordoses); síndrome do esgotamento profissional e neurose
profissional; traumatismos; tonturas e fobias.

— 62 —
meninas que não têm acesso à escola e quando atingi- culação da empresa à exploração do trabalho infantil
rem a idade adulta não terão qualificação e estarão em pode gerar prejuízos incalculáveis e comprometer con-
desvantagem para ingressar no mercado de trabalho, tratos e investimentos internacionais.
restabelecendo-se o círculo vicioso da pobreza. Varejistas europeus costumam exigir que sejam
observados padrões éticos na produção de mercadorias
4. TRABALHO INFANTIL NA CADEIA PRODUTIVA que importam. Em 1998, a Euro Comércio adotou reco-
mendação sobre as condições sociais de compra, abran-
As grandes empresas não utilizam trabalho infantil gendo trabalho infantil, trabalho escravo e prisional(26).
diretamente, o que necessariamente não significa, que As repercussões da atividade da empresa sobre os
a matéria-prima utilizada ou que os produtos que co- direitos humanos ultrapassam as fronteiras da comunida-
mercializam não foram produzidos com utilização de de local e o âmbito dos direitos trabalhistas. A responsa-
trabalho infantil. O trabalho infantil na cadeia produ- bilidade das empresas em observar os direitos humanos
tiva, requer atenção e preocupação com a origem do em suas relações comerciais decorre do princípio consti-
tucional que atribui responsabilidade social à empresa(27).
produto comercializado.
Embora a lei(28) vede a concessão ou renovação de
Qual a origem do frango, da cebola, da erva mate
empréstimos ou financiamentos a dirigentes de empre-
e do tomate comercializados no supermercado e que sas privadas condenados por utilizar trabalho infantil, a
chegam a mesa do consumidor diariamente? lei penal não tipifica como crime a exploração do traba-
Cadeia produtiva compreende o fornecimento de lho infantil. Como já explanado na introdução, entendo
serviços, insumos, máquinas, equipamentos, produção, que as atividades que põem em risco a vida das crian-
processamento, armazenamento, distribuição, comer- ças, as piores formas de trabalho infantil, podem ser en-
cialização, serviços de apoio etc. quadrados no artigo 132 do Código Penal, que tipifica o
Empresas que comercializam, por exemplo, itens crime “perigo para a vida ou a saúde de outrem”, assim
do vestuário, produtos agrícolas, carnes e derivados, como no parágrafo único do mesmo artigo, quando as
crianças são transportadas para o trabalho em veículos
eletrônicos, acessórios, joias e pedras preciosas, ope-
inadequados, com risco de vida.
ram com serviços e turismo ou atuam em países com
ampla economia informal podem estar envolvidos com O trabalho infantil dificulta o desenvolvimento
trabalho infantil. econômico do país. Mostra-se nocivo para o sucesso
comercial do empreendimento a longo prazo e para o
Para não ter envolvimento com trabalho infantil trabalhador, que não terá rendimento adequado quan-
não basta que a organização se abstenha de contratar do adulto. A perpetuação da pobreza perpassa a pessoa
crianças para trabalhar. É necessário que tenha conhe- explorada, alcançando também a sociedade e prejudi-
cimento da origem e produção dos insumos e matéria- cando o desenvolvimento em geral.
-prima que utiliza e dos produtos que comercializa. A identificação do trabalho infantil na cadeia pro-
Quem produziu as roupas, os sapatos, os aparelhos dutiva requer um olhar atento não apenas das entidades
eletrônicos ou os produtos alimentícios que a empresa que atuam em prol da erradicação do trabalho infantil,
está comercializando ou utilizando na indústria? Qual mas também de toda a sociedade, produtores, empre-
a origem dos insumos que a indústria utiliza? Se a em- sários, consumidores e educadores. O trabalho infantil
presa contrata a produção agrícola de uma família não obsta o desenvolvimento, de forma que criança e ado-
pode fechar os olhos para as crianças e adolescentes lescente que trabalham serão adultos sem qualificação.
que compõem esta família.
As empresas precisam ter conhecimento dos im- 5. TRABALHO INFANTIL E ACIDENTES
pactos negativos do envolvimento com o trabalho in- DE TRABALHO
fantil, das repercussões negativas deste envolvimento,
capaz de gerar danos à reputação e vincular o nome da O trabalho infantil mutila milhares de crianças e
empresa com a violação aos direitos humanos. A vin- adolescentes a cada ano.

(26) Libro Verde – Fomentar un marco europeo para la responsabilidad social de las empresas. Disponível em: <http://www.europarl.
europa.eu/meetdocs/committees/deve/20020122/com(2001)366_es.pdf> Acesso em: 21 jul. 17.
(27) Constituição Federal, art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: inciso III – função
social da propriedade.
(28) Lei n. 11.948, de 16 de junho de 2009, art. 4º. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/
l11948.htm>. Acesso em: 30 jul. 17.

— 63 —
É direito de todo o trabalhador desenvolver sua ati- seus sonhos, esperanças e oportunidades serem destruí-
vidade em ambiente seguro, sem exposição de sua vida. dos em poucos minutos.
A criança justamente por ter seu desenvolvimento
físico, biológico, emocional e intelectual incompleto 6. TRABALHO INFANTIL VERSUS EDUCAÇÃO DE
tende a ter maior déficit de atenção e tem maior pro- QUALIDADE
pensão a sofrer acidente de trabalho. Por estes funda-
mentos não é permitido o trabalho antes dos 18 anos A agenda de desenvolvimento sustentável propos-
completos em atividades insalubres, perigosas, penosas, ta pela Organização das Nações Unidas (ONU) traz 17
em horário noturno e nas atividades que integram a lista Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que
das piores formas de trabalho infantil. deverão ser cumpridos até 2030. A educação inclusiva,
A criança e o adolescente, em virtude de sua ima- equitativa e de qualidade assim como a aprendizagem
turidade, têm dificuldade de avaliar os riscos a que es- constitui o ODS número 4(31).
tão submetidos no trabalho e de observar as normas de A criança que trabalha não tem aproveitamento es-
segurança. Ademais, não há equipamentos de proteção colar adequado. O trabalho infantil tanto contribui para
individual apropriado para crianças, justamente porque a evasão escolar quanto impede o ingresso da criança
a legislação não permite que trabalhem. na escola.
No Brasil, nos últimos dez anos, ocorreram mais Para que seja atingido o ODS n. 4, é imprescindí-
de 23 mil acidentes de trabalho com crianças e adoles- vel que o trabalho infantil seja erradicado.
centes com idade entre 5 e 17 anos, dentre os quais 218
A eliminação do trabalho infantil está inserida na
foram fatais(29).
agenda da ONU e deverá ser alcançada até 2025. Faz
Embora as estatísticas sejam alarmantes, não ex- parte do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável n.
pressam o número real de acidentes com crianças e 8(32), que propõe seja alcançado o emprego pleno e pro-
adolescentes trabalhando. Muitos acidentes não são dutivo e trabalho decente para todos. A eliminação de
notificados e outros tantos podem estar camuflados de todas as formas de trabalho infantil faz parte do item 8.7
acidentes domésticos. deste ODS.
No ano de 2010, foram registrados 11,6 mil inter- Não basta matricular a criança na escola. Colocá-
nações de crianças por acidentes domésticos, os quais
-la a trabalhar no contra turno, tempo no qual a criança
representam a principal causa de morte de crianças de
deveria brincar, descansar e aprimorar sua educação,
até 9 anos de idade(30). Os acidentes domésticos podem
constitui trabalho infantil ainda que esteja matriculada
decorrer de quedas, queimaduras, intoxicações, objetos
na escola. Na área rural é comum as crianças faltarem na
cortantes e choque elétrico, entre outros.
escola durante a época de plantio e colheita. Na agri-
Milhares de crianças e adolescentes executam tra- cultura familiar as crianças integram a força de trabalho
balho infantil doméstico e estão diariamente expostos a e comprometem o aprendizado.
acidentes suscetíveis de serem camuflados de acidentes
A educação é direito garantido na Constituição Fe-
domésticos.
deral e dever de todos contribuir para sua efetivação:
Imprescindível que a sociedade tome consciên-
cia do custo quantificado, assim como do inumerável Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Es-
e intangível custo humano representado pelos aciden- tado e da família, será promovida e incentivada com
tes ocorridos com crianças e adolescentes trabalhando. a colaboração da sociedade, visando ao pleno desen-
Estes custos são suportados pela sociedade, pelos fami- volvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da
liares e amigos, mas especialmente pela vítima que vê cidadania e sua qualificação para o trabalho.

(29) Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinam.


(30) Portal Brasil. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/saude/2013/09/acidentes-domesticos-ainda-sao-principal-causa-de-
-morte-de-criancas-ate-9-anos>. Acesso em: 29 jul. 2017.
(31) ONU – ODS n. 4 – Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportuninadas de aprendizagem ao
longo da vida para todos. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/pos2015/ods4/,>. Acesso em: 22 jul. 2017.
(32) ODS n. 8 Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente
para todas e todos. Item 8.7 – Tomar medidas imediatas e eficazes para erradicar o trabalho forçado, acabar com a escravidão
moderna e o tráfico de pessoas, e assegurar a proibição e eliminação das piores formas de trabalho infantil, incluindo recrutamen-
to e utilização de crianças-soldado, e até 2025 acabar com o trabalho infantil em todas as suas formas. Disponível em: <https://
nacoesunidas.org/pos2015/ods8/>. Acesso em: 22 jul. 2017.

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A Emenda Constitucional n. 59, de 2009, atribuiu haverá limite de idade. O aprendiz deverá estar inscrito
ao Estado o dever de garantir que a criança e o adoles- em programa de aprendizagem formação técnico-pro-
cente estudem dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos: fissional metódica, compatível com o seu desenvolvi-
mento físico, moral e psicológico. Antes de completar
Art. 208. O dever do Estado com a educação será efeti- 18 anos o adolescente aprendiz não pode trabalhar em
vado mediante a garantia de: atividade noturna, insalubre, periculosa ou que seja
I – educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) prejudicial à moral e à saúde e à sua integridade física.
aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive O contrato de aprendizagem é ajustado por escri-
sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram to, anotado na Carteira de Trabalho e Previdência So-
acesso na idade própria;
cial (CTPS), com duração de 2 (dois) anos, exceto se o
O Estatuto da Criança e do Adolescente atribui aprendiz for deficiente, hipótese que não há limitação.
à família, à sociedade e ao Estado o dever de assegu- A validade do contrato de aprendizagem está con-
rar com absoluta prioridade a efetivação dos direitos à dicionada a inscrição em programa de aprendizagem
educação, ao esporte, à cultura e à profissionalização, desenvolvido sob orientação de entidade qualificada
visando ao pleno desenvolvimento da criança e do ado- em formação técnico-profissional metódica e a matrí-
lescente, de forma a prepará-los para o exercício da ci- cula e frequência a escola, se não houver concluído o
dadania e qualificação para o trabalho(33). ensino médio, exceto se não houver oferta na localida-
O trabalho infantil obsta a efetivação do direito à de, caso em que poderá ser contratado sem frequentar a
educação de qualidade e viola mandamento constitucio- escola, se concluído o ensino fundamental. A ausência
nal assim como o Estatuto da Criança e do Adolescente. injustificada à escola que possa comprometer o ano le-
tivo é causa de extinção do contrato.
A educação é a única alternativa para a qualifica-
ção e ascensão social. Quanto mais cedo o indivíduo A aprendizagem é uma alternativa para introdu-
começa a trabalhar, maior será a chance de evasão es- zir os adolescentes com idade a partir dos 14 anos,
colar e menor será o rendimento na fase adulta. em situação irregular de trabalho infantil, no mercado
formal de trabalho, ao tempo que oportuniza a qualifi-
cação profissional, mantendo o adolescente na escola
7. APRENDIZAGEM
ou promovendo o retorno daqueles que abandonaram
A aprendizagem é direito do adolescente. O ado- o estudo.
lescente tem direito à profissionalização e à proteção ao O trabalho infantil conduz à evasão escolar, que
trabalho, observado a condição peculiar de pessoa em se torna mais acentuada nos primeiros anos do ensino
desenvolvimento e a capacitação profissional adequada médio. Na faixa de 15 a 17 anos quase 20% dos ado-
ao mercado de trabalho(34). lescentes estão fora da escola.
A aprendizagem foi regulamentada pela Lei n. O contrato de aprendizagem, espécie de contrato
10.097, de 2000, e institui a aprendizagem obrigatória protegido pela legislação, promove a inclusão escolar
para as empresas de médio e grande porte, que deverão e social do adolescente, garante limite de jornada de 6
empregar e matricular nos cursos dos Serviços Nacio- horas, veda a prorrogação e compensação de jornada.
nais de Aprendizagem o mínimo de 5% e o máximo de Concluído o ensino fundamental a jornada poderá ser
15% de aprendizes(35). de 8 horas. O aprendiz tem direito ao salário-mínimo
No Brasil, conforme o Ministério do Trabalho(36), hora, vale-transporte, para todos os trajetos (casa, tra-
de janeiro a junho de 2017, o potencial de contratação balho, curso e casa), direito de usufruir as férias no pe-
considerando a cota mínima de 5% representava cerca ríodo de férias escolares, benefícios previdenciários,
de 940 mil aprendizes, entretanto, nesse período foram depósitos do FGTS de 2% e certificado de qualificação
contratados apenas 21,65%, evidenciando a carência profissional ao concluir o curso de aprendizagem com
de oferta de oportunidades para os jovens. aproveitamento.
A aprendizagem pode ser exercida dos 14 aos 24 A promoção do trabalho decente para os jovens
anos, exceto se o aprendiz for deficiente, quando não integra a Agenda de Desenvolvimento Sustentável das

(33) Arts. 4º e 53 da Lei n. 8.069/90 (ECA).


(34) Art. 69 da Lei n. 8.069/90 (ECA).
(35) Decreto-Lei n. 5.452/43 -CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas – art. 429, com redação da Lei n. 10.097/2000. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm>. Acesso em: 30 jul. 2017.
(36) Ministério do Trabalho, dados CAGED – jan. a jun. 2017 com ajustes.

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Nações Unidas, a ser implementada até 2030, na forma sua educação. O trabalho precoce ora é causa da baixa
do ODS n. 8 que busca promover trabalho decente para escolarização, ora é consequência. O trabalho infantil
todos e crescimento econômico: tanto impede o ingresso da criança na escola, quanto
reflete negativamente no aproveitamento escolar, con-
– Promover o crescimento econômico sustentado, inclu- duzindo à evasão escolar.
sivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho
Há vários mitos(39) referentes ao trabalho infantil
decente para todos.
que devem ser desconstituídos, por exemplo: “o tra-
8.5 Até 2030, alcançar o emprego pleno e produtivo balho infantil afasta da criminalidade” – isso é falso.
e trabalho decente para todas as mulheres e homens, Estudo realizado na Casa de Detenção de São Paulo,
inclusive para os jovens e as pessoas com deficiência, e
conhecida como Carandiru, revelou que 80% dos de-
remuneração igual para trabalho de igual valor
tentos foram trabalhadores infantis, comprovando que
8.6 Até 2020, reduzir substancialmente a proporção de o trabalho precoce não afasta da criminalidade. Pelo
jovens sem emprego, educação ou formação contrário, deixa a criança vulnerável e exposta à ação
8.7 Tomar medidas imediatas e eficazes para erradicar o dos criminosos.
trabalho forçado, acabar com a escravidão moderna e o Outro mito: “o trabalho forma o caráter, enobre-
tráfico de pessoas, e assegurar a proibição e eliminação
ce”; trabalho que dignifica é o trabalho decente, o tra-
das piores formas de trabalho infantil, incluindo recruta-
balho infantil escraviza. A maioria dos trabalhadores
mento e utilização de crianças-soldado, e até 2025 aca-
libertos pela fiscalização e Ministério Público do Tra-
bar com o trabalho infantil em todas as suas formas(37).
balho da condição análoga a de escravo começaram a
Não há desenvolvimento sustentável com trabalho trabalhar na infância. Trabalho infantil humilha, con-
infantil e desemprego dos jovens. No Brasil, há 2,2 mi- dena à exclusão social e à pobreza eterna por falta de
lhões de adolescentes com idade entre 14 a 17 anos qualificação.
trabalhando, destes cerca de 81%(38) o fazem de forma Quanto mais cedo a pessoa ingressa no mercado
ilegal, expondo a vida a riscos de acidentes, cumprindo de trabalho, menor será sua remuneração na fase adul-
longas jornadas e em situação de vulnerabilidade. ta; será explorado enquanto criança, gerando riqueza
A aprendizagem consiste em investimento na se- ao explorador e quando adulto estará condenado a exe-
gunda década de vida dos jovens e será vital tanto para cutar trabalho que não requeira qualificação.
o desenvolvimento dos jovens quanto do País e para O que forma o caráter e enobrece é a educação,
romper o círculo vicioso da pobreza. A oportunidade o convívio social e familiar e o trabalho decente. O tra-
de crescimento que a aprendizagem representa para o balho precoce rouba a infância, perpetua a pobreza,
aprendiz reverterá em benefício para as empresas que adoece e mutila milhares de crianças.
poderão contar no futuro com trabalhadores capacita- Além de todas as repercussões negativas do traba-
dos em seus quadros, retornando assim o investimento lho infantil para a criança, para o adolescente, para suas
aplicado. famílias, para a sociedade e para o desenvolvimento do
País, o trabalho infantil é o responsável pelo círculo vi-
8. CONCLUSÃO cioso (pobreza, trabalho infantil, pobreza), chaga que
passa de uma geração a outra.
A erradicação do trabalho infantil somente será al- O trabalho infantil fere o fundamento constitucio-
cançada quando o Estado, a família e a sociedade atua- nal da dignidade da pessoa humana insculpido no art.
rem em conjunto na defesa dos direitos da criança e do 1º, inciso III, assim como viola os direitos e garantias
adolescente, priorizando a educação. fundamentais garantidos no art. 5º da Carta Magna.
É imprescindível que seja intensificada a conscien- Combater o trabalho infantil é dever de todos os
tização dos pais e da sociedade em geral quanto à noci- cidadãos: a omissão nos torna responsáveis pela explo-
vidade do trabalho infantil, que, além de causar danos à ração de milhares de crianças. Criança tem direito à
saúde e à integridade da criança e do adolescente, afeta educação de qualidade. Ferramenta de criança é lápis!

(37) ONUBR. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/pos2015/ods8/>. Acesso em: 30 jul. 17.


(38) Cenário do Trabalho Infantil. Disponível em: <https://www.sigas.pe.gov.br/files/07102017110136-cenario.do.trabalho.infantil.oit.
pdf>. Acesso em: 08 ago. 17.
(39) Os mitos e verdades sobre o trabalho infantil foram abordados de forma minuciosa no artigo A questão do trabalho infantil: Mitos
e Verdades da Procuradora do Trabalho, Jane Araújo dos Santos Vilani. Disponível em: <http://revista.ibict.br/inclusao/article/
view/1593>. Acesso em: 21 jul. 17.

— 66 —
9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Principais Grupamentos de Atividades Econômicas do Brasil.
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— 67 —
8

A JURISDIÇÃO COMO MEIO DE TUTELA


AO TRABALHO DECENTE
HUMBERTO THEODORO JÚNIOR(*)
MARIA BEATRIZ THEODORO GOMES(**)

1. NOÇÃO DE JURISDIÇÃO mentação da norma jurídica, na qual se traduz o direito


do caso concreto, cuja formulação pelo julgador haverá
É fora de dúvida que a atividade de dirimir confli- de levar sempre em conta a superioridade hierárquica
tos e decidir controvérsias é um dos fins primários do Es- das garantias constitucionais bem como a visão sistemá-
tado. Mas, desde que privou os cidadãos de fazer atuar tica do ordenamento jurídico, os seus princípios, os seus
seus direitos subjetivos pelas próprias mãos, a ordem princípios gerais e os valores políticos e sociais que lhe
jurídica teve que criar para os particulares um direito são caros. Portanto, revelar e concretizar a “vontade da
à tutela jurídica do Estado. E este, em consequência, lei” é expressão que modernamente equivale a definir e
passou a deter não apenas o poder jurisdicional, mas realizar “o direito”, em sua inteireza.(4)
também assumiu o dever de jurisdição(1).
Assim, em vez de conceituar a jurisdição como 2. TUTELA JURISDICIONAL
poder, é preferível considerá-la como função estatal(2),
e sua definição poderia ser dada nos seguintes termos: Em vez de se ocupar da teorização estática da juris-
jurisdição é a função do Estado de declarar e realizar, de dição, o direito processual contemporâneo se concen-
forma prática, a vontade da lei diante de uma situação tra, com predominância, na investigação da dinâmica
jurídica controvertida(3). Esclareça-se que, na concep- da tutela que incumbe ao Poder Judiciário prestar ao
ção atual de jurisdição, quando se cogita da realização direito material. Nessa ótica, conforme já observado, a
da “vontade da lei” não se refere à simples reprodução jurisdição deixa de ser vista como simples pode e assu-
da literalidade de algum enunciado legal, mas à imple- me a categoria de função (poder-dever); e como tal, o

(*) Desembargador aposentado do TJMG e Professor titular aposentado da Faculdade de Direito da UFMG.
(**) Desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região/MT.
(1) COUTURE, Eduardo J. Fundamentos del Derecho Processual Civil. Buenos Aires: Depalma, 1974, n. 24, p. 39. “A administração
cumpre uma função na medida em que vincula pelo dever de realizar determinados fins em benefícios do interesse público. Daí
por que se há de entender função como um dever-poder, e não mero poder-dever” (STF, Pleno, RE 581.947/RO, voto do Rel. Min.
Eros Grau, ac. 27.10.2010. Rev. Magister de Direito Ambiental e Urbanístico, v. 31, p. 102, ago.-set.2010).
(2) COUTURE, Eduardo J. Op. cit., n. 25, p. 40.
(3) “Onde há função, pelo contrário, não há autonomia da vontade, nem a liberdade em que se expressa, nem a autodeterminação da
finalidade a ser buscada, nem a procura de interesses próprios, pessoais. Há adstrição a uma finalidade previamente estabelecida
e, no caso de função pública, há submissão da vontade ao escopo pré-traçado na Constituição ou na lei e há o dever de bem curar
em interesse alheio (...)” (BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. Curso de Direito Administrativo. 19. ed. São Paulo: Malheiros,
1998, p. 57). “Aquele que desempenha função tem, na realidade, deveres-poderes. Não poderes, simplesmente (...). Fácil é ver-se
que a tônica reside na ideia de dever, não na de poder” (idem, p. 56).
(4) THEODORO JR., Humberto. Curso de direito processual civil. 58. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017, v. I. n. 64, p. 106.

— 69 —
que caracteriza a função jurisdicional é o papel da Jus- tado em tudo igual ou equivalente àquele decorrente
tiça de prestadora da tutela (defesa) ao direito material, da situação de vantagem que a ordem jurídica material
que hoje não pode ser senão efetiva e justa. lhe assegura.
Ao contrário do que se imaginou nos primórdios A jurisdição, no desempenho de sua função ins-
do direito processual científico, não é na sua autonomia titucional, portanto, cumpre tutelas definitivas ou pro-
diante do direito material que se descobre a finalida- visórias; exaurientes ou sumárias; sancionatórias ou
de do processo como veículo de atuação da jurisdição. inibitórias; de acertamento ou de execução; suficientes
Sendo inconteste a função instrumental por ele realiza- ou não suficientes; totais ou parciais. Mas, qualquer que
da em defesa do direito material, quando envolvido em seja a tutela, sua função operará no plano do direito
conflito, o importante em seu estudo, é a pesquisa e a material, e, nesse plano, produzirá o efeito que o di-
determinação dos tipos de tutela que a jurisdição pode reito material assegura a quem se acha na situação de
desempenhar. Assim, o fim do processo, visto segundo vantagem garantida pela ordem jurídica, seja na forma
a perspectiva das tutelas que lhe compete prestar, será originária, seja no seu equivalente econômico, seja para
detectado nos resultados substanciais que ele pode e impedir o dano, seja para saná-lo. Na observância dessa
deve gerar para atender às “necessidades do direito ma- técnica multifária é que se realizará a efetividade da
terial”. Em resumo – conclui Marinoni – “não há como
tutela jurisdicional dos direitos.(8)
deixar de pensar nas tutelas quando se deseja analisar
se o processo, como técnica, está respondendo à sua
missão constitucional de dar ‘tutela aos direitos’. E nada 3. A JURISDIÇÃO TRABALHISTA E A PROTEÇÃO
pode ser mais importante ao doutrinador do processo DO TRABALHO
nos dias de hoje”(5). É que, o procedimento observado
pela jurisdição, “além de conferir oportunidade à ade- A Justiça do Trabalho se apresenta, na ordem cons-
quada participação das partes e possibilidade de con- titucional, como órgão especial do Poder Judiciário,
trole da atuação do juiz, deve [acima de tudo] viabilizar estruturado com caráter federal (CF, art. 92, IV) e com
a proteção do direito material. Em outros termos, deve competência específica para processar e julgar as ações
abrir ensejo a efetiva tutela dos direitos”(6). decorrentes da relação de trabalho (art. 114, da CF).
Se, portanto, as necessidades de proteção no plano No desempenho da função jurisdicional, a atua-
do direito material são várias, as técnicas processuais ção da Justiça do Trabalho sujeita-se aos ditames cons-
também devem ser múltiplas para a elas se adaptar e titucionais reguladores da prestação jurisdicional, da
para não deixar desamparada nenhuma das referidas mesma maneira que os demais órgãos do Poder Judi-
necessidades. ciário. Cabe-lhe, portanto, desempenhar-se da função
É por isso que, para bem estudar o processo à luz que lhe toca, segundo as garantias fundamentais do
das “novas necessidades do direito substancial”, urge fi- acesso pleno à Justiça (CF, art. 5º, XXXV), do tratamento
car atento à tendência inegável de repensar a função ju- igualitário de todos no processo (CF, art. 5º, caput), da
risdicional em termos de tutela dos direitos, “deixando intangibilidade da coisa julgada (CF, art. 5º, XXXVI), do
de lado a sua análise em uma moldura exclusivamente juiz natural (CF, art. 5º, XXXVII) e do juízo competente
procedimental”, com o que muito se poderá contribuir (CF, art. 5º, LIII), do devido processo legal (CF, art. 5º,
– segundo Vittorio Denti – para “a compreensão das LIV), do contraditório e ampla defesa (CF, art. 5º, LV),
novas tutelas que emergem com o desenvolvimento da da inadmissibilidade das provas obtidas por meios ilí-
sociedade(7)”. citos (CF, art. 5º, LVI), da vedação da prisão civil por
Não se indagará, em tal análise, apenas de ritos e dívida (CF, art. 5º, LXVII), da assistência judiciária aos
procedimentos, mas o estudo do processo recairá so- hipossuficientes econômicos (CF, art. 5º, LXXIV), da du-
bremaneira em torno das técnicas de que se deve valer ração razoável do processo e do emprego dos meios
a jurisdição para bem realizar a tutela dos direitos ma- que garantam a celeridade de sua tramitação (CF, art. 5º,
teriais, sempre no sentido de proporcionar, para quem LXXVIII), e da publicidade e fundamentação de todas as
sofre lesão ou ameaça em sua esfera jurídica, um resul- decisões judiciais (CF, art. 93, IX).

(5) MARINONI, Luiz Guilherme. Técnica processual e tutela dos direitos. 2. ed. São Paulo: RT, 2008. p. 116.
(6) MARINONI, Luiz Guilherme. Op. cit., p. 113.
(7) DENTI, Vittorio. Intervento. La tutela d´urgenza – Atti del XV Convegno Nazionali. Rimini: Maggiole, 1985, apud MARINONI,
op. cit., p. 116.
(8) THEODORO JR., Humberto, op. cit., n. 65, p. 107-108.

— 70 —
O que, de alguma forma difere a prestação jurisdi- do em conta que esse desenvolvimento não será viável
cional trabalhista é o caráter protetivo do direito mate- senão com o concurso da atividade empresarial –, os
rial aplicado na composição das relações de trabalho, princípios da ordem econômica constitucional instituí-
caráter esse que se justifica pela fragilidade e hipossu- dos pelo art. 170 da Carta Magna incluem, além da livre
ficiência do empregado em face da evidente superiori- iniciativa” e a “livre concorrência”, a “busca do pleno
dade técnica e econômica do empregador. Com essa emprego”.
feição a Constituição inclui na garantia fundamental
dos direitos sociais o relacionado com o trabalho, enu- 4. A JURISDIÇÃO COMO GARANTIDORA DO
merando em seu art. 7º, os que são protegidos na cate- TRABALHO DECENTE
goria de direitos constitucionais.
Essa proteção que a Justiça do Trabalho tem de Dado, pois, que a jurisdição possui como função a
prestar à parte débil da relação laboral, não pode ser efetivação dos direitos materiais, na seara trabalhista o
vista como um paternalismo absoluto capaz de atingir Estado-Juiz exerce tal mister de modo a garantir a imple-
um nível que anule, para o empregador, as garantias mentação do arcabouço normativo tuitivo que estrutura
comuns de tratamento igualitário de todos perante a lei. o denominado trabalho decente.
A tutela ao empregado haverá de ser proporcionada por Na lição de BRITO FILHO(9), trabalho decente “é
meio da promoção que assegure efetividade e eficiência um conjunto mínimo de direitos do trabalhador que
aos direitos do trabalhador, principalmente aqueles ele- corresponde: ao direito ao trabalho; à liberdade de tra-
vados à categoria de direitos constitucionais. Tudo isto balho; à igualdade no trabalho; ao trabalho com condi-
dentro dos limites reclamados pelo reequilíbrio entre ções justas, incluindo a remuneração, e que preservem
os sujeitos da relação de trabalho envolvida no conflito sua saúde e segurança; à proibição do trabalho infan-
deduzido em juízo. til; à liberdade sindical; e à proteção contra os riscos
O Estado Democrático de Direito sobre cujas es- sociais.”
truturas se acha organizado a República brasileira, não Sem olvidar que o aprofundamento de cada uma
pode conviver com ideias apropriadas à ditadura do das facetas acima elencadas refoge ao propósito do pre-
proletariado, situação em que só se reconhecem direi- sente texto, impende sintetizar que essas consubstan-
tos aos trabalhadores. ciam-se na manifestação, no contexto das relações de
Nossa República protege não só direitos dos tra- trabalho, da própria dignidade humana, cujo teor com-
balhadores, mas também o próprio trabalho que a em- preende-se, na lição de SARLET(10) como a “vedação da
presa patronal deve proporcionar a toda comunidade instrumentalização humana” e proíbe, em princípio, “a
obreira. É que sem empregador ao alcance de todos não completa e egoística disponibilização do outro, no sen-
há emprego à disposição dos que têm necessidade dele tido de que se está a utilizar outra pessoa apenas como
para sobreviver condignamente. meio para alcançar determinada finalidade”.
A Constituição democrática, ciente da relevância Com efeito, como preconizado pela OIT(11), “en to-
do papel da atividade econômica, ao lado da ordem das partes, y para todos, el trabajo decente es un medio
social implanta também a ordem econômica, a qual, ao para garantizar la dignidad humana”, sendo, pois, em
mesmo tempo, se funda na “valorização do trabalho e última razão, a autodeterminação decorrente do labor
na livre iniciativa”, tendo por fim explicitamente decla- protegido pelo Estado um dos pilares do nosso Estado
rado, “assegurar a todos existência digna, conforme os Democrático de Direito (art. 1º, III e IV da CF/88).
ditames da justiça social” (CF, art. 170, caput). Não por outra razão o Constituinte Originário de
Uma vez que “constituem objetivos fundamentais 1988 tratou de inserir os direitos sociais no capítulo II
da República Federativa do Brasil”, entre outros, “cons- do título II (Dos Direitos e Garantias Fundamentais) da
truir uma sociedade livre, justa e solidária” e “garantir o Lei Maior, opção topológica que escancara o inexorá-
desenvolvimento nacional” (CFR, art. 3º, I e II) – e ten- vel reconhecimento de sua fundamentalidade e vai ao

(9) BRITO FILHO, José Claudio Monteiro de. Trabalho decente: análise jurídica da exploração do trabalho: trabalho escravo e outras
formas de trabalho indigno. 4. ed. São Paulo: LTr, 2016, fls. 56.
(10) SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988 . 9 ed. rev. atual.
Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2011, fls. 63.
(11) Reducir el deficit de trabajo decente: un desafío global. Primera edición, Ginebra – Suiza: Oficina Internacional del Trabajo, 2001.
p. 9. Disponível em: <http://www.ilo.org/public/spanish/standards/relm/ilc/ilc89/rep-i-a.htm>. Acesso em: 09 set. 2017.

— 71 —
encontro dos ensinamentos de PIOVESAN(12) para quem gislação social que cumpre à Justiça do Trabalho aplicar
‘os direitos sociais econômicos e culturais são autênti- e preservar, repugna toda exploração do homem que, a
cos e verdadeiros direitos fundamentais”. pretexto de fornecer-lhe trabalho, o degrade reduzindo-o
A bem da verdade, como ensina OLIVEIRA o direito a uma coisificação incompatível com a dignidade hu-
do trabalho antes da Constituição de 1988 fundava-se, mana, a ponto de submetê-lo a condições análogas à
basicamente, em normas de natureza infraconstitucio- escravatura.
nal, autônomas e heterônomas, inclusive em relação O que o Estado Democrático garante não é qual-
àquelas originárias do poder normativo da Justiça do quer emprego, é o que sustente e promova o trabalha-
Trabalho, enquanto a nível constitucional contava com dor no campo da dignidade e da melhoria de vida tanto
exígua proteção normativa. Estava-se sob o império da no plano econômico, como social e moral.
lei. Foi a partir da Constituição Federal de 1988 que se Na tutela do trabalho decente e na repulsa à ex-
verificou no campo trabalhista o fenômeno neoconsti- ploração indigna do trabalhador, a jurisdição traba-
tucional. A normatização trabalhista assumiu posição lhista desempenha notável papel nas políticas públicas
constitucional, de caráter aberto, pulverizada nos valo- institucionalizadas na seara constitucional. Mas é cla-
res fundamentalizados em toda a Constituição brasilei- ro que, – como se passa com todo mundo principio-
ra. O direito do trabalho foi diretamente influenciado lógico formado pela Constituição – nenhum princípio
por essa guinada normativa, o que reforçou a jurisdição é absoluto e, pela abstração e generalidade presentes
constitucional do TST”.(13) em todos eles, sua observância há de ser feita não de
E não poderia ser diferente, pois conforme a lúcida molde que um anule os outros, mas sempre de maneira
fala de CANOTILHO(14), citado por PIOVESAN, “a ideia harmônica, segundo os padrões da razoabilidade e da
de procedimento/processo continua a ser valorada co- proporcionalidade. Somente assim é possível, à juris-
mo dimensão indissociável dos direitos fundamentais”, dição trabalhista tutelar a dignidade do trabalho, sem
razão pela qual a eficácia do axioma maior de nosso ignorar ou anular garantias como a da livre iniciativa e a
ordenamento jurídico (dignidade da pessoa humana) do desenvolvimento econômico, sem as quais se frusta
pressupõe a prestação da tutela jurisdicional trabalhis- inevitavelmente a busca do pleno emprego e, mais do
ta, ampla e irrestrita, a efetivação dos direitos sociais e que isto, se terá de conviver com a grande indignidade
o trabalho decente. das massas sem trabalho e sem esperança de obtê-lo.

5. POLÍTICA ECONÔMICA E TRABALHO DECENTE, 6. CONCLUSÕES


UMA VISÃO GLOBAL E SISTEMÁTICA
Esse quadro institucional permite as seguintes
Entre os fundamentos do Estado Democrático de conclusões.
Direito, figura, ao lado da Justiça, da segurança jurídica, A prestação jurisdicional a cargo da Justiça do Tra-
da liberdade e da igualdade, aquele que talvez seja o balho ocupa lugar de relevo: a) não apenas na tutela
mais significativo de todos, o da dignidade da pessoa dos direitos do trabalhador, a quem assegura sempre
humana. O homem nunca poderá, no relacionamen- condições para o exercício de trabalho justo e decente;
to jurídico público e privado, ser tratado como coisa b) mas também na obra de proteger o próprio trabalho,
ou objeto. Sempre haverá de figurar como sujeito de promovendo a harmonia entre os obreiros e aqueles
direitos. E como tal, o trabalho indispensável à sua so- que, na meta do desenvolvimento econômico da Na-
brevivência e que a Constituição garante por meio das ção, proporcionam meios de implementação segura,
metas do desenvolvimento econômico, da livre inicia- previsível e confiável da busca do pleno emprego pro-
tiva e da busca do pleno emprego, somente haverá de gramada pela organização social e econômica dentro
ser aquele compatível com a dignidade humana. A le- do Estado Democrático de Direito.

(12) PIOVESAN. Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 13. ed. rev. e atual. São Paulo. Saraiva. 2012, fls. 248.
(13) OLIVEIRA, Herminia Pfeilsticker Gonçalves de. Recurso de Revista por Violação Constitucional. In: Direito Constitucional do
Trabalho: princípios e jurisdição constitucional do TST. Coordenação de Gabriela Neves Delgado et alii. São Paulo: LTr, 2013.
p. 317.
(14) CANOTILHO. José Joaquim Gomes . Estudos sobre direitos fundamentais. Portugal: Coimbra, 2008.

— 72 —
9

TRABALHO DECENTE: O SISTEMA GERENCIALISTA DE


PRODUÇÃO COMO ÓBICE?
UBIRAJARA CARLOS MENDES(*)

1. INTRODUÇÃO recursos humanos de grandes empresas, com o objetivo


de orientar condutas e estabelecer uma cultura corpo-
O trabalho, elemento ínsito à condição humana rativa que mobilize as subjetividades para a realização
e categoria fundante do ser social(1), sofre deturpações de um perfil adequado às exigências da norma ordem
que lhe sobrelevam aspectos e consequências negativas econômica, ou seja, um indivíduo autônomo, poliva-
e comprometem seu caráter emancipador, como a ex- lente, responsável, criativo e flexível o suficiente para
ploração da mão de obra infantil, a escravização do tra- contornar a instabilidade atual do sistema econômico e
balhador e as diferentes formas de descumprimento de superar-se em frequentes situações de adversidade.
normas de segurança e medicina do trabalho, entre ou-
Para tanto, como antecedente necessário, algumas
tros exemplos. Mas, a par dessas manifestações objetivas,
linhas serão tecidas sobre o caráter edificante do traba-
palpáveis e, por isso, claramente identificáveis, merece
reflexão uma relativamente nova forma de gestão produ- lho, qualidade cuja busca incessante deve estar presen-
tiva, identificada por muitos estudiosos como subversiva te em qualquer conjuntura. Segundo Lukács, o trabalho
do papel dignificante do trabalho e corrosiva da persona- é a protoforma (a forma originária, primária) da ativi-
lidade humana, que, por carregar um elemento negativo dade humana. Não, porém, que o ser humano seja a
que só se aperfeiçoaria em seu efeito (não em sua inten- ele redutível, mas no sentido de que a omnilatelaridade
ção isoladamente considerada), é de difícil visibilidade. humana, expressa nas artes, na ética, na filosofia etc.,
nele encontra sua base de sustentação. É a partir dele,
Nesta perspectiva e diante das atuais conjunturas
pois, que as demais expressões da atividade humana
econômicas, legitimadoras, para muitos, de sacrifícios
podem se desenvolver.
antes imponderáveis, o presente artigo propõe uma re-
flexão sobre o sistema gerencialista de produção, na A partir de uma breve recapitulação das várias
acepção cunhada por Vincent de Gaulejac(2), cujas prin- doutrinas legitimadoras dos modos de produção, ex-
cipais características são o primado dos objetivos finan- por-se-á como se passou da demanda por uma atitude
ceiros, a produção da adesão e a mobilização psíquica estritamente mecânica de produção para a sofisticada
do trabalhador. O sistema, tal como concebido, supõe introjeção, na esfera inconsciente do trabalhador, de
que a experiência humana possa equivaler a resultados mecanismos e objetivos altamente comprometidos com
numéricos. Para tanto, congrega um conjunto de téc- a corporação, a demandar frequente exposição consen-
nicas e experiências práticas utilizadas nos setores de tida de esferas de sua intimidade e personalidade.

(*) Desembargador do Trabalho do TRT 9ª Região. Corregedor Regional na gestão 2016/2017. Mestre em Direitos Fundamentais e
Democracia pela UNIBRASIL. Especialista em Direitos Humanos pela Universidad Pablo de Olavide, Sevilha – ES. Professor na
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
(1) Na acepção de MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Libro I. 24. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
p. 211-212.
(2) GAULEJAC, Vincent de. Gestão como doença social. Ideologia, poder gerencialista e fragmentação social. Tradução de Ivo Storniolo.
São Paulo: Ideias & Letras, 2014.

— 73 —
Por fim, sem embargo de reconhecer a complexi- É a função social do trabalho que o distingue de todas
dade do tema, seja pela dificuldade comumente insu- as demais atividades humanas, e é por meio dela que o
perável de estabelecer esta relação, seja mesmo pela trabalho realiza o intercâmbio orgânico com a nature-
frequente inocorrência dela, serão expostas algumas co- za, sem o que não haveria qualquer reprodução social
nexões que por vezes são feitas entre gestão produtiva e possível. Afirma que:
patologias atribuídas ao trabalho.
Por um lado, o próprio homem que trabalha é
transformado pelo seu trabalho; ele atua sobre a
2. TRABALHO EMANCIPADOR
natureza exterior e modifica, ao mesmo tempo, a
sua própria natureza; ‘desenvolve as potências nela
Ao analisar o modo de produção de vida, a for-
ocultas’ e subordina as forças da natureza ‘ao seu
ma e o conteúdo do capital, Karl Marx(3) ponderou que
próprio poder’. Por outro lado, os objetos e as forças
os homens, para existirem, precisam ser capazes de se
da natureza são transformados em meios, em obje-
reproduzir enquanto seres humanos, e a forma especí-
fica desta reprodução opera-se por uma especial rela- tos de trabalho, em matérias-primas, etc. o homem
ção do homem com a natureza por meio do trabalho. que trabalha ‘utiliza as propriedades mecânicas, fí-
O conceito de trabalho, assim, em Marx, não se limita sicas e químicas das coisas, a fim de fazê-las atuar
ao aspecto econômico de mera ocupação, mas é com- como meios para poder exercer seu poder sobre ou-
preendido como atividade vital e prioritária nas rela- tras coisas, de acordo com sua finalidade’.(7)
ções sociais, nas relações dos homens com a natureza O pressuposto da ontologia de Lukács é, assim, re-
e nas relações com outros homens. A possibilidade de tirado de Marx: os homens apenas podem viver se efeti-
idealização do objeto que impende, com sua força de varem uma contínua transformação da natureza, e isso
trabalho, produzir, peculiariza o ser humano e ressalta se dá pelo trabalho.(8) Acentua Marx que: “Como criador
a capacidade teleológica do ser social: ele tem ideado, de valores de uso, como trabalho útil, é o trabalho, por
em sua consciência, a configuração que quer imprimir isso, uma condição de existência do homem, indepen-
ao objeto do trabalho antes mesmo de sua realização.(4) dente de todas as formas de sociedade, eterna necessida-
O elemento presente neste processo de objetivação e
de natural de mediação do metabolismo entre homem e
exteriorização imprime utilidade aos produtos dele re-
natureza e, portanto, vida humana.”(9) Pondera, todavia,
sultantes, ao mesmo tempo em que estimula uma trans-
que o modo de produção capitalista transforma o traba-
formação potencializadora das capacidades humanas,
lho concreto “social” em trabalho abstrato “assalariado”,
reduzindo o aspecto meramente instintivo e espontâneo
deixando de lado o caráter útil, necessário e razão da
dos outros seres vivos, pois o homem, “atuando assim
relação de intercâmbio entre os homens. Como afirma:
sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo
tempo modifica sua própria natureza.”(5) Todo trabalho é, de um lado, dispêndio de for-
Para Georg Lukács(6), o trabalho constitui catego- ça humana de trabalho, no sentido fisiológico, e,
ria intermediária que possibilita o salto ontológico das nessa qualidade de trabalho humano igual ou abs-
formas pré-humanas para o ser social, situando-se, as- trato, cria o valor das mercadorias. Todo trabalho,
sim, no centro do processo de humanização do homem. por outro lado, é dispêndio de força humana de

(3) MARX, 2006, p. 211-212.


(4) O papel da consciência humana no processo produtivo imprime ao trabalho do ser humano uma dimensão teleológica que o dis-
tingue dos outros seres vivos. A sutil diferenciação operada por Marx entre a melhor abelha na construção de sua colmeia do pior
arquiteto na construção de uma morada reside no papel desempenhado pela consciência do ser humano neste processo. Segundo
Marx, no ser humano, o ato e o processo da produção, mediante a efetivação de seu trabalho, “... figura na mente sua construção
antes de transformá-la em realidade. No fim do processo de trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na
imaginação do trabalhador...”. Ibidem.
(5) Ibidem.
(6) LUKÁCS, Georg. Ontologia do ser social: os princípios fundamentais em Marx. São Paulo: Ciências Humanas, 1979. p. 15-16.
(7) Ibidem, p. 16.
(8) Ao conceber a essência humana como histórica, determinada pela produção social, Lukács resgata a tese marxista de que os homens
fazem a sua própria história, ainda que em circunstâncias que não escolheram. Esse resgate é a recusa a toda teorização que negue a
possibilidade de emancipação humana ao julgo do capital e que limite o desenvolvimento da sociabilidade aos padrões individualistas
e mesquinhos, tipicamente burguês. A ontologia de Lukács é uma defesa histórica dos ideais emancipatórios de Marx.
(9) MARX, Karl. Trabalho assalariado e capital & salário, preço e lucro. São Paulo: Expressão popular, 2008. p. 218.

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trabalho, sob forma especial, para um determinado é realizado, como destacam Antônia Aranha e Deise
fim, e, nessa qualidade de trabalho útil e concre- Soares Dias:
to, produz valores de uso (...). De um lado, tem-se
o caráter útil do trabalho, relação de intercâmbio O trabalho pode conter duas dimensões, de-
entre os homens e a natureza, condição para a pro- pendendo das condições de sua realização. Uma
dução de coisas socialmente úteis e necessárias. É primeira dimensão construtora, emancipadora. É
o momento em que se efetiva o trabalho concreto, o trabalho concreto de Marx, voltado para a sa-
o trabalho em sua dimensão qualitativa. Deixando tisfação das necessidades humanas, contribuindo
de lado o caráter útil do trabalho, sua dimensão para a realização do indivíduo enquanto criador
concreta, resta-lhe apenas ser dispêndio de força e transformador do seu meio. (...) outra dimensão
humana produtiva, física ou intelectual, social- alienante, opressora. Nas condições de existência
mente determinada. Aqui aflora sua dimensão abs- da propriedade privada, o trabalhador não tem
trata, onde desvanecem-se as diferentes formas de condições de interferir sobre os objetivos e pro-
trabalho concreto e onde elas não distinguem uma dutos do seu trabalho, e até mesmo de dominar o
das outras, mas reduzem-se, todas, a uma única es- próprio processo de produção.(12)
pécie de trabalho, o trabalho humano abstrato.(10)
O sentido do trabalho não pode ficar reduzido,
Em estudo sobre a obra de Benjamin Franklin, Ana portanto, à sua dimensão abstrata, sob o risco de ser
Maria Brito Sanches(11) identifica que para o estadista, o visto apenas como atividade produtora de mercadorias,
trabalho era identificado com a própria vida, era visto invisibilizando os sujeitos que participam, com suas
como energia vital do homem, expressão de sua própria vidas, deste processo. De outro lado, vislumbrar o tra-
humanidade, e, como tal, a exortação do trabalho era balho apenas em seu sentido concreto induz à idea-
uma exortação à emancipação do homem. Advertiu o lização, impedindo que se vejam as possibilidades de
escritor, já naquela época, que a sociedade capitalis- superação de sua forma alienada.
ta de consumo, ao criar necessidades superficiais, em- O processo de alienação do trabalho(13), de expro-
prega o homem na produção destas superficialidades e priação da atividade essencial em sua plenitude, é pró-
transforma sua força de trabalho, sua energia vital, em prio da sociedade capitalista, embora tenha suas outras
mercadoria, alienando-o. E tal importaria, de fato, em vantagens, bom que se pontue. Se o trabalho, como ati-
última análise, considerado o tempo e a energia dispen- vidade essencial e vital do homem possibilita sua plena
sados ao trabalho, alienar a própria vida para, parado- realização, sua humanização, a exploração da atividade
xalmente, fazê-la subsistente. humana como expressão de uma relação social fundada
Tais reflexões revelam que ao lado da dimensão na propriedade privada, na produção de mercadorias
construtora, emancipadora, o trabalho também tem um para o mercado, na distinção entre proprietários e não
aspecto alienante, opressor, ligado às condições em que proprietários, determina o processo inverso, induzindo

(10) MARX, 2006, p. 45-54.


(11) SANCHES, Ana Maria Brito. Virtude, trabalho e riqueza. A concepção de sociedade civil em Benjamin Franklin. 2006. Dissertação
(Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. Dis-
ponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8133/tde-27022007-110740/pt-br.php>. Acesso em: 22 maio 2017. A
autora lembra que Benjamin Franklin acreditava que o caminho para a emancipação econômica, social e política dos indivíduos
seguia a via da educação e do trabalho, e que “a condição básica para isso era a firmação da igualdade e liberdade de todos. Para
escolher seu próprio destino e sua posição no mundo os homens precisam ser realmente livres. Contudo, esta liberdade em Franklin
encerra uma noção de responsabilidade e de ajuda mútua entre os homens, cuja finalidade última é o bem comum e a preservação
da própria sociedade humana.”
(12) ARANHA, Antônia Vitória; DIAS, Deise Soares. Trabalho como princípio educativo na sociabilidade do capital. In: MENEZES
NETO, Antônio Júlio; CUNHA, Daisy Moreira (Org.). Trabalho, política e formação humana: interlocuções com Marx e Gramsci.
São Paulo: Xamã, 2009. p. 116.
(13) “O crescimento de um país, baseado exclusivamente no critério econômico, leva, por óbvio, ao surgimento de conflitos humanos
e sociais, de caráter alimentar e existencial (é a sujeição às regras do capital produtivo, especulativo e, quiçá, ilícito – é a depres-
são, decorrente da insatisfação e do estado de angústia que se abate sobre aqueles que se veem ameaçados na sua sobrevivência).
(...) As relações humanas e as estruturas sociais, com a ideologia econômica e tecnológica, veem-se ameaçadas, em virtude do
impiedoso processo de alienação ditado pelas classes dominantes.” SILVA, Benedito Xavier da. Tensão entre capital e trabalho: a
disputa entre empresa e catadores pelo lixo reciclável. In: GUNTHER, Luiz Eduardo; SANTOS, Willians F. Lira (Coord.). Tutela dos
direitos da personalidade na atividade empresarial. Curitiba: Juruá, 2009. v. II, p. 294.

— 75 —
um processo de estranhamento, como refere Ricardo particular se converte em escravo desse conjunto res-
Antunes, com apoio em Marx: trito de necessidades.”(16) A luta contra esse reducio-
nismo não pode ficar limitada, todavia, ao melhor uso
O que deveria se constituir na finalidade básica do tempo livre ou liberado(17), mas compreender que
do ser social – a sua realização no e pelo traba- a emancipação do trabalho reside em uma “nova for-
lho – é pervertido e depauperado. O processo de ma de trabalho”, que “realize, em sua integralidade, a
trabalho se converte em meio de subsistência. A omnilateralidade humana, o livre desenvolvimento das
força de trabalho torna-se, como tudo, uma mer- individualidades, a plena realização e emancipação do
cadoria, cuja finalidade vem a ser a produção de ser social.”(18)
mercadorias. O que deveria ser a forma humana
Hannah Arendt, em obra de 1958, já falava da pos-
de realização do indivíduo reduz-se à única pos-
sibilidade de um futuro em que os avanços tecnológicos
sibilidade de subsistência do despossuído. Esta é
possibilitariam ao homem libertar-se da carga negativa
a radical constatação de Marx: a precariedade e
representada pelo trabalho. Afirmou que “o advento da
perversidade do trabalho na sociedade capitalis-
automação provavelmente esvaziará as fábricas e liberta-
ta. Desfigurado, o trabalho torna-se meio e não
rá a humanidade do seu fardo mais antigo e mais natural,
“primeira necessidade” de realização humana. Na
o fardo do trabalho e da sujeição à necessidade.”(19) Tal
formulação contida nos Manuscritos, “... o traba-
perspectiva não se realizou, todavia, ao menos a este tem-
lhador decai a uma mercadoria e à mais miserável
po. Vislumbra-se, pelo contrário, como fruto das trans-
mercadoria’, torna-se ‘um ser estranho a ele, um
formações operadas no mundo do trabalho, deflagradas
meio da sua existência individual”.(14)
pela reestruturação produtiva na era da acumulação fle-
Para o autor, a forma do trabalho na sociedade ca- xível como respostas à crise experimentada pelo capital,
pitalista implica a desrealização do ser social: o produto uma “degradação que se amplia, na relação metabólica
e o ato de produção são alheios ao trabalhador, que entre homem e natureza, conduzida pela lógica societal
passa a repudiar e a negar o trabalho que lhe degrada, voltada prioritariamente para a produção de mercadorias
a trabalhar involuntariamente. Como afirma Marx: “Daí e para a valorização do capital.”(20)
que o trabalhador só se sinta junto a si fora do trabalho As demissões em massa, as reduções salariais e,
e fora de si no trabalho. Sente-se em casa, quando não notadamente, a degradação das condições de trabalho
trabalha, e quando trabalha, não se sente em casa. O que marcam as estratégicas de gestão nas últimas dé-
seu trabalho não é, portanto, voluntário, mas compul- cadas, dimensionam uma forma progressiva de preca-
sório, trabalho forçado. Por conseguinte, não é a satis- rização do trabalho, impondo-lhe uma modulação aos
fação de uma necessidade, mas somente um meio para propósitos do mercado de capital, que se enfeixa em
satisfazer necessidades fora dele.”(15) uma liberdade bem conveniente.
No universo das manipulações das necessidades, A lógica do sistema produtivo, na expressão de
a liberdade individual é só aparente: “o particular ele- Ricardo Antunes, “vem convertendo a concorrência e
ge os objetos de suas necessidades e plasma essas ne- a busca de produtividade num processo destrutivo que
cessidades individuais não em conformidade com sua tem gerado uma imensa precarização do trabalho e o
personalidade, mas sobretudo em conformidade com aumento monumental do exército industrial de reser-
o lugar que ocupa na divisão do trabalho (...) dado que va, do número de desempregados.”(21), moduladores de
o fim não é o desenvolvimento múltiplo do indivíduo, o uma transformação que se irradia freneticamente com

(14) ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho. Ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 9. ed. São Paulo:
Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2003. p. 12.
(15) MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. In: FLORESTAN, Fernandes (Org.). MARX/ENGELS: História. São Paulo: Ática,
1983. p. 153.
(16) Op. cit., p. 132.
(17) Em oposição à ideia de A. Gorz, para quem a libertação do ser social passa pela abolição do trabalho, pelo reino do não-trabalho,
pela “sociedade do tempo liberado”.
(18) Op. cit., p. 132.
(19) ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. 11. ed. 2. tiragem. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011. p. 12.
(20) ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2009.
p. 17.
(21) Idem, Ibidem, p. 18.

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uma comunicação de ansiedade, transferindo a uns a das atividades humanas de auto-estima e das referên-
valorização do abençoado emprego manutenido. cias sociais assim como orientações morais.”(26)
Nestes novos tempos, o trabalhador lança-se à sor- Segundo tais teorias, as alterações introduzidas no
te dos ofícios temporários que, de um lado, impedem processo produtivo e, por decorrência, nas relações de
a plena capacitação, e, de outro, inviabilizam a pro- produção, induzem ao fim da centralidade do trabalho
gressão remuneratória.(22) Tornam-se nômades em uma como atividade ordenadora e fundadora de identidade
“realidade cambiante”, como afirma Márcio Tulio Via- coletiva, como atividade informadora de modos de agir,
na: “hoje pode ser servente, amanhã pedreiro, depois sentir, pensar e organizar. Deduz-se destas teorias que
camelô, de novo servente, em seguida aprendiz, no ou- o surgimento de novas tecnologias induz a uma des-
tro mês motoboy e mais tarde, talvez, um alcoólatra ou valorização do trabalho e à perda de sua importância
um malabarista de rua.”(23) como elemento organizador das relações sociais, o que
Há, pois, uma deformação do modelo de traba- elevaria o conhecimento e a informação ao centro da
lho dignificante(24) outrora concebido, mas o mercado sociedade. Para Gorz(27) e Offe(28), a utopia da sociedade
globalizado não pode dele prescindir. O capitalismo, do trabalho teria chegado ao fim: o aumento do desem-
no período da pós-modernidade, continua fundamen- prego inviabilizaria sua qualificação como categoria
talmente centrado na dominação do trabalho e na apro- capaz de sustentar a estabilidade e a segurança, assim
priação das riquezas que ele produz. como de se manter como fiel da balança da cidadania
Atualmente, algumas teses sustentam que o traba- e de balizador de identidades coletivas.
lho perdeu sua característica de estruturação das rela- A perspectiva é da vulnerabilidade do presente
ções sociais, centrando-se, conforme André Gorz(25), na sem nenhuma concepção da sociedade futura; essa no-
substituição da sociedade do trabalho pela sociedade va classe não pode ser definida a partir de sua inser-
do conhecimento, pela ciência como principal força ção no processo social de produção, como concebeu
produtiva e pelo aumento do tempo livre. Na mesma Marx(29), porque o trabalho não é mais sua atividade
linha, Clauss Offe afirma que “o trabalho remunerado principal. Para Gorz(30), há uma crescente substituição
perdeu sua qualidade subjetiva de centro organizador da classe operária por uma nova classe que ele nomina

(22) Um depoimento trazido por Manuel Castells ilustra esta faceta da realidade: “Comecei a pensar que quando envelhecer, se alguém
perguntar o que fiz da minha vida, só poderei lhes falar de trabalho. Acabo de decidir que isso seria um grande desperdício, então
me libertei (Yoshiko Kitani, trinta anos de idade, bacharel em administração de empresas, depois de demitir-se de um emprego
seguro numa editora japonesa em Yokohama em 1998 e passar a trabalhar em empregos temporários). “Num emprego como este
[temporário], aprender os programas e pegar o jeito do que se faz leva algum tempo. Porém, quando você acha que sabe o que está
fazendo, porque são as regras que o determinam, seu tempo já se esgotou.” (Yoshiko Kitani, 10 meses depois). CASTELLS, Manuel.
A sociedade em rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 2011. p. 329.
(23) VIANA, Márcio Tulio. As relações de trabalho sem vínculo de emprego e as novas regras de competência. In: COUTINHO, Grijalbo
Fernandes; FAVA, Marcos Neves. Nova competência da Justiça do Trabalho. São Paulo: LTr, 2005. p. 263. A propósito da efemeridade
dos empregos, o jornal Gazeta do Povo publicou notícia, com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados
(CAGED) do Ministério do Emprego e Trabalho (TEM), mostrando que nos anos de 2010 a 2012 aumentou em 72% o número de
pedidos de demissão, sendo que atualmente 30% dos desligamentos ocorrem por iniciativa do empregado, praticamente o dobro
do número registrado em 2003. Os dados revelam duas facetas do fenômeno: a um, a sustentação da taxa de desemprego em um
nível historicamente baixo faz muitas pessoas mudarem de emprego, voluntariamente, e, a dois, mostra que as empresas, de uma
maneira geral e de uma forma inédita, têm que aperfeiçoar suas políticas de retenção. A pesquisa mostra que o movimento é maior
nos setores com mais escassez de mão de obra, como construção civil, comércio e serviços, e em cargos de menor qualificação,
mas mesmo em cargos executivos a rotatividade está maior. (Brasileiro nunca trocou tanto de emprego. Gazeta do povo, Curitiba,
26 ago. 2012. Caderno Economia, p. 01-02).
(24) “Criticamos também a ideologia capitalista no que se refere à produção e ao consumo desenfreado e irracional. A “necessidade”
do lucro desmedido a qualquer custo merece rigorosa censura social. Enfatizamos ser preciso assegurar ao homem vida plena,
com respeito a si próprio e à Casa na qual habita.” SILVA, Benedito Xavier da. 2009, p. 278.
(25) GORZ, André. Adeus ao proletariado e a utopia de uma sociedade do tempo livre. Rio de Janeiro: Forense, 1980.
(26) OFFE, Clauss. Trabalho e sociedade: problemas estruturais e perspectivas para o futuro da sociedade do trabalho. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, 1989. p. 7.
(27) Op. cit., p. 89.
(28) Op. cit., p. 7.
(29) Cf. MARX, Manuscritos Econômicos Filosóficos, passim.
(30) Op. cit., p. 89.

— 77 —
de uma “não classe de trabalhadores”, constituída pelas centralidade, a sociedade do conhecimento e da tecno-
pessoas que foram expulsas do mercado formal assala- logia que o sustenta.
riado pelo incremento do processo de automação e in- Em oposição a esta tese, Ricardo Antunes(34) ob-
formatização, desempregados, trabalhadores em tempo serva que as tendências em curso, seja em direção da
parcial e temporários. Ao contrário do proletariado tra- maior intelectualização do trabalho fabril ou ao incre-
dicional, sustenta Gorz(31), a não classe de trabalhadores mento do trabalho qualificado, seja em direção à des-
tem no emprego uma atividade provisória, acidental e qualificação ou à sua subproletarização, não autorizam
contingente. concluir pela perda desta centralidade no universo de
A crescente racionalidade, os avanços técnicos e a uma sociedade produtora de mercadorias. Para ele,
divisão do trabalho, afirma Gorz, impede os trabalhado-
res de encontrar no trabalho uma atividade cheia de sig- (...) ainda que presenciando uma redução quan-
nificado. Suas habilidades culturais e cognitivas devem titativa (com repercussões qualitativas) no mundo
ser desenvolvidas, necessariamente, assim, no tempo produtivo, o trabalho abstrato cumpre papel deci-
livre, não mais no mundo do trabalho. A sociedade do sivo na criação de valores de troca. A redução do
tempo livre colocaria o trabalho no rol das atividades do tempo físico de trabalho no processo produtivo, e
homem, não mais a principal, a fundante de todo seu tampouco a redução do trabalho manual direta e
desenvolvimento, e a redução do tempo de trabalho se- a ampliação do trabalho mais intelectualizado não
ria instrumento de redução das desigualdades sociais. O negam a lei do valor, quando se considera a totali-
objetivo é que a redistribuição do trabalho socialmente dade do trabalho, a capacidade de trabalho social-
necessário seja benéfica para todos. mente combinada, o trabalhador coletivo, como
expressão de múltiplas atividades combinadas.(35)
Para Clauss Offe(32), o crescimento do setor de ser-
viço, o declínio da participação dos trabalhadores no
A partir da distinção entre trabalho concreto e
setor industrial, o desemprego, a expansão do empre-
abstrato o autor afirma que:
go parcial, a crise do Estado de bem-estar social e a
fragmentação da sociedade salarial, sugerem o declínio
da ética do trabalho, pois ele ocupa um espaço cada Como criador de valores de uso, coisas úteis,
forma de intercâmbio entre o ser social e a nature-
vez menor como continuidade biográfica, a ponto de
za, não me parece plausível conceber, no universo
tornar-se, na maioria dos casos, uma excepcionalidade.
da sociabilidade humana, a extinção do trabalho
A seu ver, a produção de bens e serviços ocorre fora da
social. Se é possível visualizar, para além do capi-
estrutura institucional do trabalho assalariado formal e
tal, a eliminação da sociedade do trabalho abstra-
contratual. Afirma que “a diferenciação interna e contí-
to – ação esta naturalmente articulada com o fim
nua da coletividade dos trabalhadores assalariados, as-
da sociedade produtora de mercadorias –, é algo
sim como a erosão dos alicerces culturais e políticos de
ontologicamente distinto supor ou conceber o fim
uma identidade coletiva centrada no trabalho, amplia-
do trabalho como atividade útil, como atividade
ram esses dilemas das formas de trabalho assalariado
vital, como elemento fundante, protoforma da ati-
ou da dependência com relação ao salário não serem
vidade humana.(36)
mais o foco de intenção coletiva e de divisão social e
política.”(33) Uma coisa é conceber, com a derrocada do capi-
Esta construção teórica está centrada, portanto, na talismo, a eliminação do trabalho abstrato, do trabalho
existência de um processo de divisão social do trabalho, “estranhado”; outra, sumamente diversa, é conceber a
inflexionado por duas grandes motivações: a de que o eliminação, no universo da sociabilidade humana, do
trabalho não está mais no centro da organização social, trabalho concreto, “que cria coisas socialmente úteis e
e a de sua substituição pela compreensão de uma nova ao fazê-lo (auto)transforma o seu próprio criador.”(37)

(31) Ibidem, p. 89.


(32) OFFE, 1989, p. 177.
(33) Idem, ibidem.
(34) ANTUNES, 2003, p. 210.
(35) Idem, ibidem.
(36) Idem, ibidem, p. 211.
(37) Idem, Ibidem.

— 78 —
O equívoco estaria, portanto, em reduzir o tra- comunicacional e o aumento da produtividade baseia-
balho ao emprego. A compreensão desta diferença, e -se “nas capacidades de modulação linguístico-comu-
daquela existente entre trabalho concreto e trabalho nicativa da cooperação dentro e fora da fábrica.”(39)
abstrato, permite apreender que apesar do desemprego, As reestruturações econômicas e sociais vivenciadas
o trabalho ainda ocupa uma posição central na vida nas últimas décadas intensificaram ou motivaram profun-
das pessoas, seja pelo seu sentido moral, seja como ins- das alterações na sociedade e nos diversos elementos de
trumento para atender necessidades físicas e psíquicas sua constituição, como a elevação do consumo, a exacer-
essenciais. Apenas o trabalho em seu sentido abstrato bação das características individualistas e a fragilização
pode ser eliminado com o fim dos modos de produção dos vínculos pessoais, experimentando-se com profundi-
capitalista, mas o trabalho concreto persiste como ação dade, neste contexto de incertezas e constantes mudan-
histórica produtora de coisas socialmente úteis. Como ças, as ideias de liquidez proposta por Bauman(40) e de
assinala Ricardo Antunes: hipersolicitação desenvolvida por Lipoversky(41).
A revolução de nossos dias é, desse modo, uma Este cenário de hipersolicitação propiciou à gestão
revolução no e do trabalho. É uma revolução no desenvolver de modo muito acentuado sua perspectiva
trabalho na medida em que deve necessariamente gerencialista, como cunhada por Gaulejac(42) e sob o
abolir o trabalho abstrato, o trabalho assalariado, protagonismo de uma ideologia que mobiliza o “gos-
a condição de sujeito-mercadoria, e instaurar uma to humano por empreender, o desejo de progredir, a
sociedade fundada na auto-atividade humana, celebração do mérito ou o culto da qualidade”, e cujo
no trabalho concreto que gera coisas socialmen- sucesso, então, deve-se à confusão entre o desejo de re-
te úteis, no trabalho emancipado. Mas é também conhecimento e uma fantasia narcísica de onipotência
uma revolução do trabalho, uma vez que encontra que é projetada nas empresas e reiterada pelo discurso
no amplo leque de indivíduos (homens e mulhe- de que o crescimento pessoal do indivíduo correspon-
res) que compreendem a classe trabalhadora, o su- de, em equivalência, ao crescimento da corporação.
jeito coletivo capaz de impulsionar ações dotadas Para Gaulejac, precisamente:
de um sentido emancipador.(38)
Sob uma aparência objetiva, operatória e prag-
A conformação do trabalho não é única, como visto, mática, a gestão gerencialista é uma ideologia que
nem é estável. Também não se pode afirmar a preponde- traduz as atividades humanas em indicadores de
rância de um de seus aspectos no plano particularizado desempenhos, e esses desempenhos em custos ou
de cada indivíduo, embora a ótica da generalidade per- em benefícios. Indo buscar do lado das ciências
mita vislumbrar a tendência prevalente em determinada exatas uma cientificidade que elas não puderam
época e, mesmo na era da globalização, sob as nuances conquistar por si mesmas, as ciências da gestão
econômicas e sociais de cada localidade. servem, definitivamente, de suporte para o poder
gerencialista. Elas legitimam um pensamento obje-
tivista, utilitarista, funcionalista e positivista. Cons-
3. INFLUÊNCIA DA GESTÃO GERENCIALISTA NA
troem uma representação do humano como um
MUDANÇA DO PARADIGMA TRABALHO
recurso a serviço da empresa, contribuindo, assim,
para sua instrumentalização.
As várias doutrinas legitimadoras do modo de pro-
dução capitalista, nominadas taylorismo, fordismo e to- (...)
yotismo, operaram profundas mudanças no paradigma Se o poder disciplinar, analisado por Michel
trabalho. Considerando as perspectivas de cada uma, Focault (1975), tinha por função tornar os corpos
Giuseppe Cocco assinala a passagem de um trabalhador ‘úteis, dóceis e produtivos’, o poder gerencialista
silencioso para um trabalhador polivalente, essencial- mobiliza a psique sobre objetivos de produção. Ele
mente comunicativo, em uma fábrica organizada como põe em ação um conjunto de técnicas que captam
elo integrado e estruturado por uma cadeia produtiva os desejos e as angústias para pô-los a serviço da
social, na qual a produtividade depende da interação empresa. Ele transforma a energia libidinal em força

(38) ANTUNES, 2003, p. 96.


(39) COCCO, Giuseppe. Trabalho e cidadania: produção e direitos na era da globalização. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001. p. 91.
(40) BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
(41) LIPOVETSKY, G. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.
(42) GAULEJAC, 2014, p. 40-118.

— 79 —
de trabalho. Ele encerra os indivíduos em um siste- empresa gerencial, o desejo é exaltado por um Ideal
ma paradoxal que os leva a uma submissão livre- de Ego, exigente e gratificante. Ela se torna o lugar da
mente consentida. realização de si mesmo.”(43)
(...) Este novo modelo produtivo está centrado na fle-
O poder gerencialista não funciona como uma xibilidade, tanto das empresas quanto dos trabalhado-
‘maquinaria’ que submete indivíduos a uma vigi- res. Destes se exige, especialmente, neste novo cenário,
lância constante, mas como um sistema de soli- não apenas mais determinados níveis de produtividade,
citação que suscita um comportamento reativo, mas, na aspiração de um controle total, além de uma
flexível, adaptável, capaz de pôr em prática o propensão acentuada à aceitação de regras – sejam elas
projeto da empresa. Projeto que pode evoluir no quais forem -, um envolvimento participativo, uma forte
tempo, em função do contexto, das flutuações do mobilização psíquica: suas aspirações e opiniões de-
mercado, das descobertas tecnológicas, das estra- vem não apenas igualar-se, mas confundir-se com aque-
tégias de concorrência, mas cuja finalidade núme- las expressas pela corporação.
ro um permanece a rentabilidade. Estas exigências tendentes a pautar o compor-
tamento do empregado às diretrizes corporativas da
Na perspectiva do sistema gerencialista de produ-
empresa, muitas delas infensas à própria dignidade do
ção, os índices e os indicadores meritocráticos conver-
trabalhador e ao caráter vital e emancipador do traba-
teram o ser humano em fator econômico equivalente
lho, estão na contramão de todas as conquistas históri-
à matéria-prima e às ferramentas de produção. A obje-
cas do indivíduo como centro da ordem jurídica, do que
tividade numérica travestida de neutralidade transpas-
a constitucionalização do Código Civil é um expressivo
sa uma circunstância igualitária de avaliação, na qual
exemplo, consagradas em abono ao imperativo de tute-
todos possuem as mesmas chances e são tratados da
lar sua vulnerabilidade onde quer que essa necessidade
mesma maneira. Porém, a finalidade máxima de lucro
se faça presente.(44)
prepondera sobre o valor imaterial intrínseco à vida
humana, dado que à liberalização total do capital cor- Christophe Dejours(45), na mesma linha, chama a
responde uma desregulamentação do trabalho. Os in- atenção para três fatores que mudaram, fundamental-
dicadores são instrumentos objetivos que escondem a mente, a organização do trabalho: a introdução de no-
irracionalidade das metas irrealistas e a arbitrariedade vos métodos de avaliação do trabalho, em particular a
das regras empresariais. “avaliação individual de desempenho”; a introdução de
O sistema gerencialista apresenta-se como um técnicas ligadas à chamada “qualidade total”; e o out-
processo de superação do poder disciplinar em favor sourcing , que tornou, a seu ver, o trabalho mais precário.
de um novo modelo, aparentemente menos repressi- A avaliação individual, segundo ele, é uma técni-
vo, “que submete os indivíduos por injunções parado- ca extremamente poderosa que modificou totalmente o
xais”. Centrado no primado dos objetivos econômicos mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os ser-
e na mobilização psíquica, o modelo opera uma clara viços, as empresas, as sucursais e, primordialmente, os
mudança de perfil das competências exigidas do tra- indivíduos. Neste ambiente de concorrência incessante,
balhador, a começar por substituir o medo da punição associada a prêmios, promoções e mesmo a ameaças de
pela dinâmica dos ideais, pela exigência de novas ha- preservação do emprego, o êxito dos colegas constitui
bilidades e conhecimentos. Espera-se do trabalhador uma ameaça e isso altera profundamente as relações
uma implicação subjetiva, uma incessante mobilização trabalhistas, a ponto de aflorar o desejo de que os ou-
pessoal, o sentimento de sentir-se responsável pelos re- tros não consigam o mesmo desempenho. As pessoas
sultados. Nesse modelo, em suma, “o desejo é solici- rapidamente aprendem a sonegar informações, a fazer
tado permanentemente: desejo de sucesso, gosto pelo circular boatos, e em pouco tempo destroem-se os elos
desafio, necessidade de reconhecimento, recompensa de colaboração, consideração, confiança e ajuda mú-
pelo mérito pessoal. Na empresa hierárquica, o desejo tua. A solidariedade desaparece e, assim, o assédio no
era reprimido por um Superego severo e vigilante. Na trabalho, que não é novo, para ter uma consequência

(43) Idem, ibidem, p. 109.


(44) LEWICKI, A privacidade da pessoa humana no ambiente de trabalho. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. p. 22. Com apoio em Maria
Celina Bodin de Morais (In: Danos à pessoa humana: uma leitura civil-constitucional dos danos morais. Rio de Janeiro: Renovar,
2003, p. 117).
(45) DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. Tradução de Luiz Alberto Mongardim. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV,
2007. p. 138/139.

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nova, que é o adoecimento das pessoas, pois elas, quan- rizada. Está fortemente ligada à ideia de subcontratação
do se tornam vítimas de algum assédio, estão sozinhas, de serviços. A diferença entre outsourcing e terceiri-
não podem mais contar com a ajuda de seus colegas. zação é que, inicialmente, outsourcing está ligado à
E isso é especialmente difícil justamente para aquelas procura de “fontes” fora da organização ou país e tercei-
que gostam de seu trabalho, para os mais envolvidos rização correlaciona dentro do país, embora os termos
profissionalmente, que dispensaram sacrifícios impor- sejam frequentemente utilizados indistintamente. De
tantes em termos de sobrecarga de trabalho, de ritmo modo geral, em Portugal, o termo outsourcing está mais
de trabalho, de objetivos a atingir, e que, por isso, são relacionada à gestão estratégica, seja de tecnologia ou
mais vulneráveis. Há atualmente, inclusive, técnicas qualquer outro serviço. A mão de obra também faz par-
que fazem parte de formação em matéria de assédio, te do outsourcing, mas não da mesma forma como na
especialmente para despertar a impiedade no gestor. (46) até então já bem conhecida terceirização de pessoal,
Na sequência da avaliação individual foi introdu- onde o trabalho sempre fora puramente “braçal” com
zido o fator de “qualidade total”. Há diferença entre o pouco uso de tecnologia. (47)
trabalho e o resultado do trabalho: quando se faz a ava- Nesse processo e tomadas essas premissas, a figura
liação individual de desempenho não se está a medir o do gestor (ou superior hierárquico) assume especial rele-
trabalho, o dispêndio, mas o resultado dele, e isso muitas vo, dado ter ele papel determinante em notável número
vezes não reflete a real produtividade do indivíduo, que de casos concretos de opressão moral do trabalhador em
muitas vezes dedica-se a um trabalho difícil que apenas prol de um sistema produtivo informado por resultados.
a longo prazo dará maiores frutos, e outros, por outro Sob a ótica da gestão dos métodos produtivos, De-
lado, expõem maiores resultados, e esse número passa jours adverte que para fazer o mal não é indispensável
a ser resultado de nova avaliação. Então, para além das querê-lo ou desejá-lo deliberadamente:
avaliações, os gestores começam a controlar a qualidade
e declaram como objetivo a “qualidade total”, pontos de O mal aparece às vezes não como resultado
controle da qualidade. Mas a qualidade total é um ideal, de uma estratégia complexa ou diabólica, nem de
que tem sua importância como objetivo a ser conquista- uma maquinação que implique a mobilização de
do, mas este processo não pode desprezar o meio-termo, uma inteligência fora do comum, como o sugerem
a tentativa razoável, que também merece ser valorizado. todavia os complôs, as conjurações, as embosca-
Na visão de Dejours, a qualidade total é um contrassen- das, os estratagemas civis e militares, as vinganças
so porque a realidade se encarrega de fazer com que as longamente planejadas, os planos de ação malé-
coisas não funcionem de forma ideal. Mas o gestor não ficos urdidos por muito tempo em segredo etc. É
quer ouvir falar disso. Quando o ideal se transforma na que, nesses casos, pensamos nos organizadores,
condição para obter uma certificação, obrigam-se todos nos idealizadores, nos chefes, nos líderes das
a dissimular o que realmente se passa no trabalho. Fa- ações maléficas. Não! O mal, a barbárie podem
lar das adversidades do processo para a ser um atentado ser produzidos sem o concurso da inteligência e da
contra a qualidade total. deliberação, simplesmente, sem esforço, quase pa-
Outsourcing (em inglês “out” significa “fora” e cificamente: banalidade do mal tão encontradiça
“source” ou “sourcing” significa fonte) designa a ação entre os ‘figurantes’. Os agentes que colaboram na
que existe por parte de uma organização em obter mão execução zelosa do mal, da violência ou da injus-
de obra de fora da empresa, ou seja, mão de obra tercei- tiça, sem serem seus idealizadores, são por vezes

(46) O exemplo é do próprio Dejours, cujo conhecimento foi-lhe trazido por um dos participantes de um curso de formação de ges-
tores, na França, a que chamou de “formação para o assédio”: “Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em
França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma
semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao
seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de…
matar o seu gato. (...) ninguém estava a apontar uma espingarda à cabeça de ninguém para o obrigar a matar o gato. Seja como for,
um dos participantes, uma mulher, adoeceu. Teve uma descompensação aguda e eu tive de tratá-la – foi assim que soube do caso.
Mas os outros 14 mataram os seus gatos. O estágio era para aprender a ser impiedoso, uma aprendizagem do assédio. Penso que
há bastantes empresas que recorrem a este tipo de formação – muitas empresas cujos quadros, responsáveis de recursos humanos,
etc., são ensinados a comportar-se dessa maneira.” Idem, ibidem.
(47) Exemplos de outsourcing: gerenciamento de redes de computadores, gerenciamento de equipamentos de impressão de documen-
tos, gestão de segurança corporativa e outros serviços que necessitem de equipamentos, know-how e mão-de-obra especializada.
Exemplos de tercerização: trabalhos como faxina, portaria e segurança que quase sempre não requerem conhecimentos técnicos
específicos e são comumente conhecidos como serviços tercerizados. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Outsourcing>.
Acesso: 22 maio 2017.

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acometidos da mesma banalidade que o mal de rismo, nem no nazismo(51), mas no neoliberalismo: “Este
que participam. Eles são apenas as engrenagens de último também gera injustiça e sofrimento, e devemos
um sistema, mas ficam satisfeitos quando conse- nos preocupar em estabelecer claramente as diferenças
guem ser boas engrenagens: a banalidade de sua entre o exercício do mal como sistema totalitário e co-
personalidade é pois da réplica psicológica da ba- mo sistema neoliberal, considerando que este último
nalidade do mal.(48) reina em todo o planeta.”(52) Traz, como também suas, as
preocupações de Primo Levi(53): “Muitos sinais tornam
Assim, por “banalização do mal” entende “não so- claro que é chegada a hora de explorar o espaço que
mente a atenuação da indignação contra a injustiça e separa (não somente nos Lager nazistas!) as vítimas dos
o mal, mas, além disso, o processo que, por um lado, perseguidores (...) Só uma retórica esquemática pode
desdramatiza o mal (quando este jamais deveria ser des- sustentar que este espaço está vazio: não está jamais,
dramatizado) e, por outro, mobiliza progressivamente está constelado de figuras abjetas e patéticas (elas pos-
um número crescente de pessoas a serviço da execução suem às vezes as duas qualidades ao mesmo tempo), as
do mal, fazendo delas ‘colaboradores’.”(49) E considera- quais é indispensável conhecer se quisermos conhecer
-se um processo por compreender etapas de uma dinâ- a espécie humana, se quisermos saber defender nos-
mica “capaz de atenuar a consciência moral em face do sas almas no caso de uma provação semelhante vir a
sofrimento infligido a outrem e de criar um estado de se apresentar outra vez, ou se quisermos simplesmente
tolerância ao mal”(50). descobrir o que se passa num grande estabelecimento
O mal, no âmbito de seu estudo, é a tolerância à industrial.”(54)
mentira, a não denúncia e a cooperação em sua produ- Dejours identifica e paraleliza, nas relações de tra-
ção e difusão, inclusive em se tratando da injustiça e do balho, três características da normopatia(55) que Hannah
sofrimento infligidos a outrem. É, ainda, a deliberada Arendt, sob a expressão “banalidade do mal”, identi-
manipulação da ameaça, da chantagem, de insinuações ficou em Eichmann: “indiferença para com o mundo
praticadas com o objetivo de desestabilizar psicologica- distal e colaboração no ‘mal tanto por omissão quanto
mente o trabalhador, induzindo-o a cometer erros que por ação’; suspensão da faculdade de pensar e substitui-
depois serão usados como pretexto para dispensas por ção pelo recurso aos estereótipos economicistas domi-
incompetência profissional, a exemplo do que comu- nantes propostos externamente; abolição da faculdade
mente acontece com os gerentes. de julgar e da vontade de agir coletivamente contra a
O problema que se levanta, nesta problemática, é injustiça.”(56) Afirma que a perspectiva aberta por Han-
a participação de pessoas de bem no mal como siste- nah Arendt “encontra a posteriori um eco possante” na
ma de gestão, como princípio organizacional. Dejours questão tratada em sua obra sobre o mundo do traba-
indaga como é possível que pessoas de bem, em sua lho, ou seja, “de um lado, a indiferença e a tolerân-
maioria, e com adequado senso moral, oscilem entre cia de uma parcela de nossa população, de outro, a
a colaboração e a resistência ao mal. A resposta a esta retomada, pela grande maioria de nossos concidadãos,
questão, continua, não se apoia na análise do totalita- dos estereótipos sobre a guerra econômica e a guerra

(48) DEJOURS, 2007. p. 137.


(49) Idem, Ibidem, p. 138.
(50) Idem, ibidem, p. 139.
(51) Na acepção originária do conceito trazida por Hannah Arendt.
(52) DEJOURS, 2007, p. 138.
(53) Escritor italiano e sobrevivente do nazismo, autor dos clássicos “É isso um homem?” (Se questo è un uomo) e “A trégua” (La tregua).
(54) Idem, ibidem, p. 138.
(55) Normopatia, segundo Dejours, “é um termo usado por certos psicopatologistas (Chotte, 1966; Mac Dougall, 1982) para designar
certas personalidades que se caracterizam por sua ‘extrema normalidade’, no sentido de conformismo com as normas do compor-
tamento social e profissional. Pouco fantasistas, pouco imaginativos, pouco criativos, eles costumam ser notavelmente integrados
e adaptados a uma sociedade na qual se movimentam com desembaraço e serenidade, sem serem perturbados pela culpa, a que
são imunes, nem pela compaixão, que não lhes concerne; como se não vissem que os outros não reagem como eles; como se não
percebessem mesmo que os outros sofrem; como se não compreendessem por que os outros não conseguem adaptar-se a uma
sociedade cujas regras, no entanto, lhes parecem derivar do bom senso, da evidência, da lógica natural. Sendo bem-sucedidos na
sociedade e no trabalho, os normopatas se ajustam bem ao conformismo, como num uniforme, e portanto carecem de originali-
dade, de ‘personalidade’.” (Idem, ibidem, p. 115).
(56) Idem, Ibidem, p. 117.

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das empresas, induzindo a atribuir o mal à ‘causalidade meses consecutivos ou mais nos seis meses anteriores.
do destino’; enfim, a falta de indignação e de reação Quando a lei foi implantada, as autoridades notavam
coletiva em face da injustiça de uma sociedade cuja cerca de 200 casos por ano, mas em 2015, os pedi-
riqueza não para de aumentar, enquanto a pauperiza- dos de indenização chegaram ao número recorde de
ção atinge simultaneamente uma parcela crescente da 2.310, segundo relatório do Ministério do Trabalho do
população.”(57) Japão.(59)
Sob tais premissas, a ideologia gerencialista con- Para Dejours(60) a intensificação da competivida-
trapõe-se, violentamente, à concepção de trabalho co- de tem sido usada como arma para justificar, em uma
mo atividade vital e determinante no desenvolvimento “guerra econômica”, a utilização de métodos cruéis
do ser humano, tal como concebida por Marx e, poste- contra os cidadãos. Considera o equívoco da perspec-
riormente, por Luckás. tiva individualista imposta ao trabalhador, segundo a
qual os indivíduos somente sobreviverão no mercado
4. POSSÍVEIS DERIVAÇÕES DO GERENCIALISMO de trabalho quanto mais competitivos e eficientes se
PRODUTIVO tornarem em comparação a seus colegas, e que a ne-
cessidade de manter os empregos e, por corolário, a
Neste novo ambiente produtivo e sob a influência sobrevivência, justificaria transpor na ordem de prio-
de variações próprias do sistema gerencialista, ganham ridades princípios e valores fundamentais ao ser hu-
relevância os recentes estudos sobre as consequências mano.(61) Possíveis ameaças à estabilidade econômica
patológicas de práticas de gestão consideradas agressi- da nação, ou seja, a difundida ideia de que paira uma
vas e ofensivas à dignidade humana sobre a integridade ameaça de derrocada econômica, gerando um verda-
psíquica do trabalhador. deiro estado de guerra não armada, têm servido de
sustentação para excluir do mercado os que não se
De acordo com dados divulgados pela OMS (Or-
ganização Mundial de Saúde), e publicados no BMC mostrarem aptos a este combate (velhos, jovens mal
Medicine, até 2020 a depressão será a doença mais in- preparados, vacilantes), impondo aos que permanece-
capacitante em todo o mundo.(58) Por outro lado, nunca rem, desempenhos sempre superiores em termos de
se foi tão longe ao reconhecer a vinculação de certas produtividade, de disponibilidade, de disciplina e de
patologias a agressões morais praticadas no trabalho. abnegação.
Por meio da psicologia do trabalho, busca-se a com- Em entrevista ao periódico Público de Portugal(62),
preensão dos fenômenos que massificaram, nos últimos Dejours falou do sofrimento no trabalho, não apenas
tempos, as ofensas à integridade física e psíquica dos como gerador de patologias mentais, mas também en-
trabalhadores. quanto base para a realização pessoal, pois ele é fator
Há um fenômeno no Japão conhecido como “ka- que mobiliza a inteligência e guia a intuição no traba-
roshi” (literalmente “morrer de tanto trabalhar”), ini- lho, permitindo, muitas vezes, alcançar a solução que
cialmente identificado em 1987, quando o Ministério se procura para problemas cotidianos. Parte do pressu-
da Saúde japonês passou a registrar os dados depois da posto de que não há “trabalho vivo” sem sofrimento,
morte repentina de uma série de executivos em altos sem comprometimento pessoal, sem afeto, mas há o
cargos. Há, inclusive, a previsão de que se uma morte espaço condenável do sofrimento degradante que con-
for considerada “karoshi”, a família da vítima recebe duz ao isolamento, ao desespero, à depressão e, em seu
uma compensação do governo da ordem de US$ 20 extremo, até ao suicídio.
mil por ano, além de uma indenização da empresa, É impossível haver inteligência no trabalho sem
que pode chegar a US$ 1,6 milhões. Para isso, a víti- envolvimento pessoal, mas, nesta ordem, torna-se peri-
ma precisa ter trabalhado mais de 100 horas extras no goso envolver-se demasiadamente. Há uma mensagem
mês anterior à sua morte – ou 80 horas extras por dois totalmente contraditória nisso: antigamente os pais di-

(57) Ibidem, p. 117.


(58) Disponível em: <http://www.biomedcentral.com/content/pdf/1741-7015-9-90.pdf>. Acesso em: 23 maio 2017.
(59) Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-37463801>. Acesso em: 06 jun. 2017.
(60) DEJOURS, 2007, p. 138/139.
(61) Idem, ibidem.
(62) Entrevista de Christophe Dejours a Ana Gerschenfeld, veiculada em 01.02.10: “Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal.”
Disponível em: <http://www.publico.pt/Sociedade/um-suicidio-no-trabalho-e-uma-mensagem-brutal_1420732?all=1>. Acesso
em: 23 maio 2017.

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ziam claramente aos filhos que o trabalho era fonte de As consequências advindas do sofrimento pato-
toda emancipação e realização pessoal; hoje, os filhos gênico desencadeado pelo trabalho, sustenta Dejours,
são obrigados a dizer que é preciso trabalhar, mas não repercutem tanto na saúde física quanto na saúde psí-
muito. quica do trabalhador. Entretanto, o que ocorre é a busca
Com base nos conceitos de banalidade do mal e de de estratégias de defesa para suportar o sofrimento e não
distorção comunicacional, tal como propostos respec- se deixar abater. Há um destaque do autor enfatizando
tivamente por Hannah Arendt(63) e Jürgen Habermas(64), como o indivíduo se protege, para poder “aguentar” o
Dejours descreve um processo que funciona, a seu ver, sofrimento sem perder a razão. As estratégias utilizadas
como uma armadilha: a aceitação do sofrimento e das podem ser coletivas e individuais, e contribuem para
pressões no trabalho mediante a adoção de estratégias tornar aceitável o que muitas vezes não deveria sê-lo.
coletivas de defesa. A adoção dessas estratégias permite Porém, chama atenção para o processo de cristalização
a manutenção no sistema, mas, paradoxalmente, pre- que se transforma em uma cilada, insensibilizando para
cariza não apenas o emprego, mas toda a condição so- a percepção daquilo que faz sofrer.
cial e existencial, desdramatizando o mal, atenuando as Trabalhar, segue Dejous, não é apenas ter uma ta-
reações de indignação e a mobilização coletiva para a refa para cumprir, significa também viver a experiência,
ação em prol da solidariedade e da justiça. enfrentar a resistência do real, construir sentido do tra-
Embora reconheça que a crise apresentada aos balho, para a situação e para o próprio sentimento de
trabalhadores tenha sua origem na natureza do sistema prazer ou sofrimento. Mas há, na realidade, uma condu-
econômico, no mercado ou na globalização, Dejours ta de abnegação, na qual os trabalhadores, os gerentes
entende que a conduta humana diante dela em muito e até a alta cúpula das empresas, ou seja, todos tendem
contribui para o agravamento dos problemas laborais, a se defender da mesma maneira, negando o sofrimento
principalmente no que se refere ao sofrimento no co- alheio e calando o seu.(65)
tidiano do trabalho. Para ele, os trabalhadores, com o Imperam, neste contexto, as motivações subjetivas
passar do tempo, vão perdendo a esperança, chegan- da dominação, na expressão de Alain Morice. Uns ca-
do à conclusão de que os esforços, a dedicação, a boa lam diante do sofrimento, enquanto outros consentem
vontade, o bom relacionamento com os colegas e o má- em infligi-lo porque é por intermédio dele que se forma
ximo de empenho na produção para as empresas não o consentimento para participar do sistema, e, quando
têm contribuído para que se obtenha um equilíbrio na funciona, o sistema gera um sofrimento crescente entre
relação de prazer/sofrimento. Neste contexto, adota-se, os que trabalham. Explica que o sofrimento aumenta
com maior frequência, o distanciamento das questões
relacionadas à gênese dos conflitos do dia a dia do tra- (...) porque os que trabalham vão perdendo gra-
balho. Essa perspectiva refletirá diretamente não só no dualmente a esperança de que a condição que hoje
desempenho das tarefas no trabalho, mas, também, nos lhes é dada possa amanhã melhorar. Os que traba-
relacionamentos interpessoais que tendem à deteriori- lham vão cada vez mais se convencendo de que
zação no âmbito do trabalho, da família e em outras seus esforços, sua dedicação, sua boa vontade, seus
instâncias do convívio de cada um. “sacrifícios” pela empresa só acabam por agravar a

(63) A propósito do julgamento de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS nazista responsável pela logística de extermínio de milhões
de pessoas durante o Holocausto (chamada de “solução final” – Endlösung), Hannah Arendt escreveu o livro “Eichmann em Jeru-
salém”, inicialmente escrito como um contributo para a revista “The New Yorker”, e onde cunhou o termo “banalidade do mal”
que, para ela, significa a supensão ou a supressão da faculdade de pensar que podem acompanhar os atos de barbárie ou, mais
geralmente, o exercício do mal. Fala de sua surpresa, e de outras pessoas que assistiram ao julgamento do carrasco nazista, em
relação à sua personalidade, pois, ao contrário do que imaginava e do que sugeria a gravidade da acusação de extermínio de cerca
de 6 milhões de judeus, não era um mostro sádico, mas um homem, como descreve, “terrivelmente normal”. Relatou: “O que me
impressionava no réu era uma falta de profundidade evidente, tanto que não se podia fazer remontar ao nível mais profundo das
origens ou dos motivos o mal incontestável que organizava seus atos. Os atos eram monstruosos, mas o responsável – pelo menos
o responsável extremamente eficaz que estava sendo julgado – era absolutamente comum, como todo mundo, nem demoníaco
nem monstruoso.” (apud DEJOURS, Christophe, 2007, p. 116 e 137).
(64) Em um sistema em que a “racionalidade instrumental” se sobrepõe à “racionalidade comunicativa”, na expressão de Habermas, o
que gera uma distorção comunicacional, a violência passa a ser uma resposta às exigências do sistema, uma alternativa perversa
de responder às imposições da organização produtiva. (HABERMAS, Jürgen. Teoría de la acción comunicativa: crítica de la razón
funcionalista. Madrid: Taurus, 1988).
(65) Célebre a frase de Martin Luther King: “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos,
nem dos sem-caráter, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.”

— 84 —
situação. Quanto mais dão de si, mais são “produ- 5. CONCLUSÃO
tivos”, e quanto mais procedem mal para com seus
companheiros de trabalho, mais eles os ameaçam, O que dizer dessa nova ordem de ideias? O tema é
em razão mesmo de seus esforços e de seu suces- complexo e nenhuma resposta é definitiva.
so. Assim, entre as pessoas comuns, a relação para Embora novos métodos de “gestão de pessoas”
com o trabalho vai se dissociando paulatinamente se justifiquem adequados ao enfrentamento de atuais
da promessa de felicidade e segurança compartilha- exigências impostas pelo contexto socioeconômico,
das; para si mesmo, primeiramente, mas também notadamente marcado pela competitividade extrema
para os colegas, os amigos e os próprios filhos.(66) em escala global, pelo dinamismo dos mercados e pe-
la busca de resultados quantitativos, deve-se, sempre,
Assinala que esse sofrimento aumenta com a cons- privilegiar o potencial emancipador do trabalho, recu-
tatação de que o esforço não permitirá satisfazer as ex- sando aquele que aliena e infelicita o ser social. Isso
pectativas criadas no plano material, afetivo, social e porque o trabalho como definido pelo capital desserve
político, e que ele, ao invés de “desativar a maquinaria aos propósitos do homem como centralidade, torna tá-
de guerra econômica”, alimenta-a. bua rasa os direitos fundamentais quando concebidos
Esse sistema não é novo, nem extraordinário. A como bens da sociedade, admitindo disfarçadamente
novidade não estaria na iniquidade, na injustiça ou no direitos fundamentais quando individualizados e na ad-
sofrimento imposto por força das relações de domina- missão do politicamente correto, pois dele se apresenta
ção que lhes são coextensivas, mas no fato de tal siste- como antítese, como menciona Antunes:
ma poder passar por razoável e justificado, aceito pela
maioria das pessoas, tomado como realista e racional. O sentido do trabalho que estrutura o capital
Enfim, conclui Dejours, que seja “preconizado aberta- acaba sendo desestruturante para a humanidade;
mente, hoje em dia, como um modelo a ser seguido, no na contrapartida, o trabalho que tem sentido es-
qual toda empresa deve inspirar-se, em nome do bem, truturante para a humanidade é potencialmente
da justiça e da verdade. A novidade, portanto, é que um desestruturante para o capital. E essa contraditória
processualidade do trabalho, que emancipa e alie-
sistema que produz e agrava constantemente adversida-
na, humaniza e sujeita, libera e escraviza, converte
des, injustiças e desigualdades possa fazer com que tu-
o estudo do trabalho humano numa questão crucial
do isso pareça bom e justo. A novidade é a banalização
de nosso mundo e de nossas vidas nesse conturba-
das condutas injustas que lhe constituem a trama.”(67)
do século XXI, cujo desafio maior é dar sentido au-
Hannah Arendt diz que sem a colação dos pró- toconstituinte ao trabalho humano e tornar nossa
prios judeus, teria sido impossível que o regime nazista vida fora do trabalho dotada de sentido.(69)
tivesse conseguido implementar com tanto sucesso o
holocausto ali perpetrado. Do mesmo modo, paraleliza A despeito de tais expressões, o capital não é, es-
Ranúlio Mendes Moreira, “sem a ajuda dos trabalhado- sencialmente, um instrumento para produzir o mal e a
res não se pode implementar a política do desempre- injustiça, como adverte Christophe Dejours ao sintetizar
go. Quando os empregados admitem passivamente o que o trabalho pode ser também “o mediador insubsti-
incentivo à inimizade, a concorrência e a chantagem tuível da reapropriação e da realização do ego. O fato
patronal de uma gratificação por superação de metas, é que o trabalho é uma fonte inesgotável de paradoxos.
agem tal como os judeus alemães, que, inicialmente, Incontestavelmente, ele dá origem a terríveis proces-
colaboraram com o regime nazista pensando que a per- sos de alienação, mas pode ser também um possante
seguição não os atingiria, mas apenas os judeus estran- instrumento a serviço da emancipação, bem como do
geiros. Quando estes foram eliminados, já não havia aprendizado e da experimentação da solidariedade e da
mais ninguém para ajudar os judeus alemães a resistir democracia.”(70)
e, fragilizados, também sucumbiram diante do regime A Constituição da República Federativa do Brasil
de Hitler.”(68) de 1988 representa a consolidação do Estado Consti-

(66) DEJOURS, 2007, p. 17.


(67) Idem, ibidem, p. 139.
(68) MOREIRA, Ranúlio Mendes. O neoliberalismo e a banalização da injustiça social. Revista TRT da 3ª Região, Belo Horizonte, v. 45,
n. 75, jan./jun. p. 177. 2007.
(69) ANTUNES, 2003, p. 12.
(70) DEJOURS, 2007, p. 141.

— 85 —
tucional Democrático brasileiro, consignando em seu Os princípios ganham especial relevância neste
preâmbulo, como objetivo, assegurar o exercício dos viés, porque norteiam o ordenamento jurídico, político
direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, e estatal, como propulsores da necessidade de se atribuir
o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça, maior efetividade aos direitos fundamentais do homem e
como valores supremos de uma sociedade fraterna, plu- como meio de realização do bem comum, importando
ralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social, compreender os contornos das distinções entre as espé-
comprometida na ordem interna e internacional, com a cies normativas e seus respectivos critérios como con-
solução pacífica das controvérsias. dição indispensável para a unidade no sistema jurídico.
A atual Carta Constitucional brasileira elenca den-
tre seus princípios fundamentais, dispostos no Título I, 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
o princípio da dignidade da pessoa humana como fon-
te geradora dos demais direitos fundamentais e como ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho. Ensaios sobre as me-
princípio irradiador a todo o ordenamento jurídico e à tamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 9. ed. São
Paulo: Cortez; Campinas, SP: Editora da Universidade Esta-
organização estrutural Estatal, neste sentido Arion Sayão
dual de Campinas, 2003.
Romita(71) assevera que,
________. Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação
A dignidade da pessoa humana atua como e a negação do trabalho. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2009.
fundamento do princípio estruturante do Estado ARANHA, Antônia Vitória; DIAS, Deise Soares. Trabalho co-
democrático de direito e, em consequência, im- mo princípio educativo na sociabilidade do capital. In: ME-
pregna a totalidade da ordem jurídica, espraia-se NEZES NETO, Antônio Júlio; CUNHA, Daisy Moreira (Org.).
por todos os ramos do direito positivo e inspira não Trabalho, política e formação humana: interlocuções com
só a atividade legislativa como também a atuação Marx e Gramsci. São Paulo: Xamã, 2009.
do Poder Judiciário. [...] A dignidade d pessoa hu- ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo.
mana é fundamento do Estado de direito e, tam- 11. ed. 2. tiragem. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.
bém, ‘valor supremo da democracia’. [...] Uma vez BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro:
que a Constituição engloba os conceitos (estado de Jorge Zahar, 2007.
direito e Estado democrático) numa só frase (Esta- CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. A era da informa-
do democrático de direito), a dignidade da pessoa ção: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra,
humana fundamenta dois dos princípios estrutu- 2011.
rantes do Estado brasileiro: o Estado de direito e COCCO, Giuseppe. Trabalho e cidadania: produção e direitos
a democracia. Qualquer que seja o aspecto pelo na era da globalização. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.
qual o tema seja enfocado, sobressai a dignidade DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. Tra-
da pessoa humana como valor supremo que fun- dução de Luiz Alberto Mongardim. 7. ed. Rio de Janeiro: FGV,
damenta todo o ordenamento jurídico brasileiro. 2007.
GAULEJAC, Vincent de. Gestão como doença social. Ideolo-
Além do princípio da dignidade da pessoa huma- gia, poder gerencialista e fragmentação social. Tradução de
na, a Constituição Federal de 1988 traz como princípios Ivo Storniolo. São Paulo: Ideias & Letras, 2014.
fundamentais da República a soberania, a cidadania, os GORZ, André. Adeus ao proletariado e a utopia de uma socie-
valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o plura- dade do tempo livre. Rio de Janeiro: Forense, 1980.
lismo político, salientando como princípio democrático HABERMAS, Jürgen. Teoría de la acción comunicativa: crítica
que todo poder emana do povo que o exerce por meio de la razón funcionalista. Madrid: Taurus, 1988.
de seus representantes eleitos ou diretamente. LEWICKI, Bruno. A privacidade da pessoa humana no am-
A Constituição de 1988, entendida como porta- biente de trabalho. Rio de Janeiro: Renovar, 2003.
dora dos princípios fundamentais que caracterizam o LIPOVETSKY, G. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Bar-
regime político do Estado Constitucional, se entendidos carolla, 2004.
pela visão mais ampla, consignam que os princípios LUKÁCS, Georg. Ontologia do ser social: os princípios funda-
nela estabelecidos devem ser respeitados por todos, in- mentais em Marx. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.
clusive pelo legislador infraconstitucional, neste sentido ________. O capital: crítica da economia política. Libro I. 24.
eventual violação a tais preceitos corresponde a um ata- ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
que direto à própria identidade política da comunidade MARX, Karl. Trabalho assalariado e capital & salário, preço e
que a instituiu. lucro. São Paulo: Expressão popular, 2008.

(71) ROMITA, Arion Sayão. Direitos fundamentais nas relações de trabalho. São Paulo: LTr, 2005. p. 251.

— 86 —
MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. In: FLO- SILVA, Benedito Xavier da. Tensão entre capital e trabalho:
RESTAN, Fernandes (Org). MARX/ENGELS: História. São Pau- a disputa entre empresa e catadores pelo lixo reciclável. In:
lo: Ática, 1983. GUNTHER, Luiz Eduardo; SANTOS, Willians F. Lira (Coord.).
MOREIRA, Ranúlio Mendes. O neoliberalismo e a banaliza- Tutela dos direitos da personalidade na atividade empresarial.
ção da injustiça social. Revista TRT da 3ª Região, Belo Hori- Curitiba: Juruá, 2009. v. II.
zonte, v. 45, n. 75, jan./jun. 2007. VIANA, Márcio Tulio. As relações de trabalho sem vínculo de
OFFE, Clauss. Trabalho e sociedade: problemas estruturais e emprego e as novas regras de competência. In: COUTINHO,
perspectivas para o futuro da sociedade do trabalho. Rio de Grijalbo Fernandes; FAVA, Marcos Neves. Nova competência
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. da Justiça do Trabalho. São Paulo: LTr, 2005.
ROMITA, Arion Sayão. Direitos fundamentais nas relações de Sites consultados
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Disponível em: <http://www.biomedcentral.com/content/pdf/
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Dissertação (Mestrado e Filosofia) – Faculdade de Filosofia, Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-
Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São 37463801>.
Paulo, 2006. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/te- Disponível em: <http://www.publico.pt/Sociedade/um-suici-
ses/disponiveis/8/8133/tde-27022007-110740/pt-br.php>. dio-no-trabalho-e-uma-mensagem-brutal_1420732?all=1>.

— 87 —
10

A REPRESENTAÇÃO DE TRABALHADORES NA EMPRESA


A PARTIR DA LEI N. 13.467/2017. PRIMEIRAS REFLEXÕES
ALEXANDRE TEIXEIRA DE FREITAS BASTOS CUNHA(*)

1. INTRODUÇÃO negociações coletivas e assegura ao ente de classe a


defesa dos direitos coletivos ou individuais da categoria.
Dentre as alterações introduzidas na ordem tra- Esse delineamento prima facie – diga-se, uma vez
balhista por meio da Lei n. 13.467/2017, indubitavel-
mais, próprio dos textos constitucionais em geral – deu
mente, a que cria o Título IV-A, denominado como
ensejo a uma série de indagações acerca da representa-
“Da Representação dos Empregados”, é uma das que
ção de trabalhadores na empresa, cujas respostas eram
podem vir agregar à ordem jurídica impactos até então
esperadas da regulamentação infraconstitucional cor-
inimaginados e, por curioso que possa parecer, pouco
mencionada nas primeiras análises e críticas efetuadas respondente, mas, pelo que parece, continuarão sem
pela doutrina nos estudos sobre o projeto de reforma ser dadas. Ao contrário, a microrreforma introduzida
convertido em lei. pela Lei n. 13.467/2017, trouxe mais perplexidades à
cena jurídica e trasladou ao Poder Judiciário o papel
Não há dúvidas de que o conjunto de normas en-
relevante – do qual eximiu-se o legislador – de definir os
cartadas nos artigos 510-A ao 510-D, da CLT, consubs-
tancia a regulamentação, com atraso de trinta anos, da contornos e a própria finalidade desse instituto.
representação dos trabalhadores assegurada pelo artigo
11, da CRFB, ou seja, do mandamento constitucional 2. FUNÇÃO DA REPRESENTAÇÃO DE
de instituição de eleições, no âmbito das empresas com TRABALHADORES
mais de duzentos empregados, para determinação do
representante do coletivo profissional, com a finalida- A representação de trabalhadores na empresa, num
de de proporcionar aos eleitores o entendimento direto sentido mais amplo, deve ser compreendida a partir do
com os empresários. delineamento dado pelo Direito Internacional, funda-
Obviamente, a norma constitucional é bastante mentalmente pela Convenção n. 135, da OIT,(2) com os
genérica e ambígua,(1) pois cria a instância de represen- detalhamentos dados pela Recomendação n. 143, do
tação de trabalhadores, com o escopo de promoção de mesmo órgão internacional. Embora tal norma aborde
“entendimento direto” com os empregadores, ao mes- a proteção dos representantes dos trabalhadores em
mo tempo em que impõe a presença dos sindicatos nas sentido amplo, é certa sua abrangência tanto dos repre-

(*) Desembargador Federal do Trabalho, do TRT da 1ª Região. Doutor em Direito do Trabalho.


(1) Como, aliás, é próprio das constituições, devido ao sentido de permanência que ostentam, qual seja, o de obtenção de um nível
considerável de estabilidade, para além dos câmbios sócio-políticos, de modo a serem consideradas como normas de paz, ao
contrário das leis, verdadeiras expressões de poder. Acerca dessas e de outras diferenças entre as normas constitucionais e legais,
veja-se ZAGREBELSKY, Gustavo, El derecho dúctil. Ley, derechos y justicia, Madri, ed. Trotta, 2009.
(2) Ratificada pelo Brasil por meio do Decreto n. 131, de 22 de maio de 1991.

— 89 —
sentantes sindicais,(3) quanto dos que exercem a repre- do Homem de 1948”.(5) Com efeito, se, por um lado,
sentação no âmbito da empresa.(4) a contratualidade, por permitir a expressão comum de
Qualquer análise de uma instância de representa- vontades, nas relações jurídicas de emprego, consubs-
ção profissional deve buscar a finalidade dessa repre- tancia importante sentido de dignificação da pessoa hu-
sentação. Logicamente, o ponto de partida do intérprete mana do trabalhador, lado outro, a representação dos
dará a tônica de todo o processo hermenêutico. Porém, trabalhadores no âmbito da empresa aprofunda ainda
não se deve olvidar que o ponto de partida e também mais esse senso valorativo.
de chegada desse microssistema representativo não po- Em suma, a representação profissional no âmbito
de ser outro que não a Constituição. Isso significa dizer da empresa passa a constituir um avanço no patamar
– embora possa parecer uma obviedade – que o legis- civilizatório, ante a inequívoca centralidade que o tra-
lador ordinário não pode desvirtuar o escopo do valor balho humano ainda desempenha no modelo democrá-
ou bem jurídico constitucionalmente previsto, de modo tico de sociedade de capitalista.
que há de ser buscada a finalidade da representação em b) Sentido político-social da representação de
exame na vontade constitucional. empregados.
Com efeito, há de se perquirir acerca de qual será A representação de trabalhadores na empresa
a importância da representação de trabalhadores loca- possui também um nítido caráter político. Conforme
lizada na empresa. essa perspectiva, há uma integração dos direitos de ci-
As formas de representação variam segundo as dis- dadania geral a um outro tipo, mais específico, a que
tintas ordens legais ou mesmo realidades sociojurídicas poderíamos denominar como cidadania do trabalho.
locais, mas seus objetivos podem ser divididos em três Dessa relação emerge um sentido simbiótico, de retroa-
sentidos distintos, a saber a) ético, b) político-social e limentação, potencializando um incremento do índice
c) econômico. de cidadania na empresa, que acaba por se plasmar no
âmbito de toda a sociedade.
a) Sentido ético da Representação de trabalhado-
Muito tem se afirmado no sentido de que há re-
res na empresa.
lação direta entre os níveis de democracia de uma da-
Segundo a perspectiva em análise, a representação da sociedade, segundo a maior ou menor participação
no espaço empresarial se fundamenta na relação de vi- dos trabalhadores na vida da empresa. Esse fenômeno,
da que se estabelece entre o trabalhador e a empresa, no Brasil, com sucessivos regimes autoritários, em que
como corolário do liame de emprego. O caráter vital o lapso de democracia então experimentado constitui
básico do salário – compreendido na clássica visão de uma evidente exceção na história nacional, transcende
fonte única de manutenção não apenas daquele que o mundo do trabalho, mas é revelador da interrelação
despende sua força de trabalho, mas também de sua anteriormente referida.
família – assume proporção ainda maior no interesse Vivemos uma sociedade pouco afeita ao diálogo,
que emerge, em prol da parte economicamente mais base da democracia. Nossas instituições são verticais,
frágil, de poder influir, de modo ativo, nessa fonte de fruto do patriarcalismo, tal como demonstra MARILENA
mantença decorrente da relação jurídica de emprego, CHAUÍ, quando afirma que, “ao dizer que a sociedade
particularmente quando se tem em conta que parte con- brasileira é autoritária, estou pensando em certos traços
siderável da existência do trabalhador será vivenciada gerais das relações sociais que se repetem em todas as
no âmbito do trabalho. esferas da vida social (da família ao Estado, passando
Por essa razão, SIQUEIRA NETO afirma que, sob pelas relações de trabalho, pela escola, pela cultura).
o prisma ético, a participação de trabalhadores nas em- Vivemos numa sociedade verticalizada e hierarquiza-
presas “tende a favorecer o desenvolvimento da per- da (ainda que disto não tenhamos percepção) (...) Não
sonalidade humana ou a realização do indivíduo, no existe no Brasil a ideia vinda da Revolução Francesa de
diapasão do conceito do homem e da dignidade hu- igualdade de direitos e de igualdade jurídica dos cida-
mana, plasmado na Declaração Universal dos Direitos dãos. A forma autoritária da relação é mascarada por

(3) Nos termos da alínea a, do artigo terceiro, consideram-se representantes sindicais aqueles “nomeados ou eleitos por sindicatos”.
(4) Conforme o disposto na alínea b, o precitado artigo terceiro, consideram-se representantes de empresa aqueles “livremente eleitos
pelos trabalhadores da empresa, conforme as disposições da legislação nacional ou de convenções coletivas, e cujas funções não
se estendam a atividades que sejam reconhecidas, nos países interessados, como dependendo das prerrogativas exclusivas dos
sindicatos”.
(5) SIQUEIRA NETO, José Francisco. Liberdade sindical e representação do trabalhadores nos locais de trabalho. São Paulo: LTr, 1999.
p. 150.

— 90 —
aquilo mesmo que a realiza e a conserva: as relações de viés, é da melhoria do desempenho das empresas, num
favor, tutela e clientela”.(6) mercado de alta competitividade, com elevação de sua
Portanto, sob o aspecto político-social, ainda que eficiência.(9)
se tenha avançado nos últimos tempos, notadamente A ideia, aqui, é a de que existe uma melhora quan-
em razão das garantias e valores emanados da Consti- titativa e qualitativa na produção, quando os trabalha-
tuição de 1988, o fato é que ainda há muito por percor- dores participam em algum nível das decisões tomadas
rer. Nesse sentido, um processo de horizontalização na no âmbito da empresa. Normalmente, entende-se que o
estrutura de poder na empresa, ampliado pela pressão resultado dessa participação é o uso mais racional dos
constante do canal do diálogo, impõe responsabilida- meios de produção, dentre os quais a própria força de
des maiores para os entes representativos que, neces- trabalho.
sariamente, tendem a se tornar sujeitos cada vez mais Nesse sentido, Siqueira Neto destaca estudo de
atuantes no jogo que define os rumos assumidos na re- WALKER, K.F., onde se destacam as seguintes razões
lação capital-trabalho. A assunção desse encargo maior para a participação laboral na empresa: “a) os traba-
constitui verdadeiro requisito para a representação de lhadores possuem ideias que podem ser úteis; b) as
trabalhadores, haja vista que a estrutura verticalizada da comunicações eficazes em sentido ascendente são fun-
empresa, além de manter concentrado o poder diretivo damentais para a tomada de decisões racionais por parte
nas mãos do empresário, na prática, não tem propiciado da alta direção da empresa; c) os trabalhadores aceitam
o avanço das relações entre os atores sociais do merca- de bom grado as decisões das quais tenham participa-
do de trabalho. do; d) os trabalhadores somente têm maior interesse em
Porém, há um outro senso que se insere na pers- seu trabalho se participam da tomada de decisões que
pectiva política, que, apesar de interessar a uma maior os afetam; e) os trabalhadores podem trabalhar de for-
democratização das relações de trabalho, deve ser con- ma mais inteligente se, por meio da sua participação
siderada de modo particular. É o sentido espaço-físico, na adoção de decisões, estiverem mais bem-informados
segundo o qual Baylos Grau situa “a empresa como ele- das razões e do objeto de tais decisões; f) a participação
mento vertebrador da ação de tutela dos direitos dos dos trabalhadores pode fomentar atitudes mais coope-
trabalhadores”,(7) onde se desenvolve a atuação orga- rativas entre os trabalhadores e os empregadores; g) a
nizada mais direta por parte dos trabalhadores. Nesse participação dos trabalhadores pode atuar como um in-
sentido, a ação reivindicatória do coletivo profissional centivo à eficácia da direção da empresa”.(10)
pressupõe a existência de uma esfera espaço-física mais Como se vê, a perspectiva administrativa/econômi-
ampliada. ca acaba por requerer uma coparticipação dos trabalha-
A ruptura com o modelo vertical, a fim de permitir dores na administração da crise empresarial, na medida
uma maior democratização dos meios produtivos, con- em que não considera, como elemento essencial a seu
tém, em sua essência, um potencial democrático muito êxito, o incremento dos salários. Antes, como aponta
mais amplo e significativo, que supera os limites da re- Rodrigues, “para os empregadores, no entanto, as co-
lação de trabalho em que está inserido.(8) missões de fábrica significam, principalmente, a tentati-
c) Sentido econômico da representação profissional. va de antecipação e controle dos conflitos no cotidiano
A alteração de normas jurídicas não prescinde da da produção”.(11)
consideração do significado da representação inter- Sem embargo, ainda que por razões que partem do
na de trabalhadores à luz das ciências administrativas interesse estrito da empresa, a representação de traba-
e econômicas. A perspectiva que se tem, segundo tal lhadores com o intuito mais gestor pode oportunizar o

(6) Apud LOGUERCIO, José Eymard. Pluralidade sindical: da legalidade à legitimidade no sistema sindical brasileiro. São Paulo: LTr,
2000. p. 24.
(7) GRAU, Antonio Baylos. La acción colectiva de los trabajadores en la empresa: reflexiones sobre algunos problemas derivados de
la institucionalización sindical en ese espacio. Revista de Derecho Social, n. 27, Albacete, 2004. p. 11.
(8) CHAUÍ, M.S., Prefácio in SADER, Emir. Quando novos personagens entraram em cena: experiências e lutas dos trabalhadores da
Grande São Paulo (1970-1980). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 133.
(9) Esse é o sentido dado à participação pela visão das ciências administrativas, como revela SÁNCHEZ, Antonio Aragón. La
participación de los empleados en la empresa. Factores condicionantes para la gestión y resultados, Madri, CES, 1998.
p. 35-42.
(10) Liberdade..., cit., p. 52.
(11) RODRIGUES, Iram Jácome apud LOGUERCIO, J.E., Pluralidade..., cit., p. 70.

— 91 —
alcance de objetivos similares àqueles propiciados pe- elementar, a vontade do legislador deve ser considerada
los vértices anteriormente mencionados, particularmen- segundo a mens legis, cujo norte, repita-se, será sempre
te de doses progressivas de horizontalização no seio da determinado pela Constituição.
organização da empresa. Nesse sentido, não pode ser desconsiderado que o
Porém, não é possível ser ingênuo a ponto de igno- precitado art. 11, da CRFB, se insere dentre os direitos
rar que, em algum momento, os pontos de confluência sociais, em cuja base está a dignidade da pessoa huma-
entre as esferas de interesses empresariais e dos traba- na, configuração com a qual não se concilia nenhuma
lhadores esbarrará sua função genética, consistente, hipótese redutora da representação. De tal forma, não é
quanto aos últimos retromencionados, na redução das dado à representação na empresa desmerecer a digni-
doses de configuração do poder diretivo, de modo que dade do trabalhador enquanto pessoa humana, princí-
os autênticos proprietários da força de trabalho possam pio que, indubitavelmente, define o núcleo irredutível
estipular as condições de venda dessa mesma força ao dos direitos fundamentais constitucionalmente assegu-
empresário, que, por seu lado, dela quererá se apropriar rados à classe obreira.
pelo menor custo e pelo maior espaço temporal possí-
vel – como, aliás, se vê em outros aspectos da reforma
trazida pela Lei n. 13.467/2017. 3. REPRESENTAÇÃO E CORPORATIVISMO
De todo modo, por intermédio da gênese contida Pode-se dizer que o traço comum às três pers-
na norma constitucional, abre-se espaço a um sentido pectivas abertas para a participação de trabalhadores
inédito de internalização das instâncias dialógicas dos na empresa, nos termos suscintamente enunciados an-
trabalhadores frente ao empresariado, caminho, senão teriormente, é o potencial sentido de horizontalidade
impossível, ao menos de difícil acesso ao sindicato de-
das relações entre empresa e seus empregados. Esse
finido pelo modelo da unicidade sindical corporativa de
parece ser o sentido inequívoco do art. 11, da CRFB,
representação dos trabalhadores.
ao inscrever, como direito fundamental, essa garantia
Portanto, existe uma função eminentemente polí- aos trabalhadores das empresas com mais de duzentos
tica da representação profissional, voltada a legitimar o empregados, ao lado de outros direitos que visem à me-
sistema, de modo a propiciar um aumento de estruturas lhoria de sua condição social.
capazes de darem voz às demandas dos empregados
Porém, a Constituição, como já assinalado supra,
frente ao patronato. Quanto a essa realidade, LOGUER-
CIO relata a experiência do que denomina como “’no- manteve o protagonismo do sindicato em relação à de-
vidade’ surgida nos anos 80, no Brasil”,(12) cuja base de fesa do interesse coletivo, no art. 8º, incisos III e VI, ra-
reconhecimento jurídico se deu por meio da negocia- zão pela qual a ação dos órgãos de representação na
ção coletiva, o que, a seu ver, demonstrou que a expe- empresa deve ser limitada pelo espaço destinado aos
riência das comissões de fábrica revelou “a desconexão entes de classe, de modo que as atribuições do repre-
entre a legislação sindical da época e as aspirações dos sentante do pessoal são exercidas com respeito à área
trabalhadores em se organizarem de forma a atender às de reserva sindical.(14)
suas reivindicações e necessidades”.(13) A coexistência de representantes de entes sindicais
O quadro posto revela a possibilidade que se abre e de órgãos de representação interna não constitui ne-
a uma participação que transcenda a perspectiva estrita- nhuma excentricidade, pois, como já assinalado alhu-
mente administrativa, voltada quase que exclusivamen- res, tal previsão se extrai da Convenção n. 135, da OIT.
te à melhoria da eficiência empresarial, com enfoque O resultado natural, portanto, seria uma mútua depen-
numa teoria de recursos e capacidades, que acaba por dência entre os representantes internos dos trabalhado-
se revelar limitadora da participação dos trabalhadores res e dos sindicatos. Se assim fosse, a relação entre esses
como mera variável na gestão do que se denomina co- atores propiciaria uma possibilidade significativa para a
mo “recursos humanos”. ampliação da base de representatividade dos entes sindi-
Salta aos olhos que a reforma promovida é pro em- cais, num movimento em direção ao centro de trabalho.
presario e a vontade do legislador, muito provavelmen- Porém, o modelo corporativo, se não impede, ao
te, coaduna-se, se não exclusivamente, ao menos em menos dificulta muito esse fluxo, porquanto tal estrutura,
grande parte com a perspectiva econômica da partici- ao negar o conflito nas relações laborais, subtrai da ação
pação dos empregados. Mas, em hermenêutica, como é sindical seu caráter político, reservando para aquela uma

(12) Pluralidade..., cit., p. 69.


(13) Pluralidade..., cit., p. 72.
(14) ROMITA, Arion Sayão. Direito do trabalho: temas em aberto. São Paulo: LTr, 1998. p. 562.

— 92 —
dimensão quase estritamente mercadológica. Num pe- anteriormente, mantém as dúvidas já ocasionadas pe-
ríodo de crise prolongada do capitalismo e de retração la norma constitucional, nos termos referidos alhures,
de emprego em sua forma tradicional, é evidente que o que, em se tratando de norma regulamentar, con-
o espaço para um sindicalismo de mercado é cada vez substancia um desapreço pela melhor técnica jurídica,
mais ampliado, o que repercute em todas as esferas de deixando para a jurisprudência, quando não o fizer a
representação profissional. Por outro lado, a manuten- negociação coletiva, o papel de artífice verdadeiro da
ção do unitarismo da representação de trabalhadores, regulamentação dessa representação.
por meio do critério de categorias, inibe o fortalecimento
dos sindicatos, pela livre expressão da vontade coletiva. Nesse sentido, todas as tarefas encomendadas nos
Assim, o resgate do sentido político da atividade sindical incisos I a VII, do precitado dispositivo legal, senão ar-
no Brasil é dificultado pela arquitetura da estrutura do sis- ticuladas com os sindicatos profissionais, revelam-se
tema confederativo, o que compromete essa relação com inúteis. Como representar os empregados nas relações
as instâncias de representação profissional na empresa. com a empresa, sejam individuais ou coletivas, de for-
Ademais, para que o sindicato, e também os órgãos ma autônoma frente ao ente sindical, sem esbarrar no
de representação na empresa, exerçam devidamente to- inciso III, do art. 8º, da CRFB?
das as funções que deles são esperadas, dentre as quais Nesse sentido, parece que o projeto convertido
a política, é necessário que a ordem jurídica permita em lei confunde negociação coletiva com convenção
o funcionamento do sistema num regime de plena e ou acordo coletivo. Isso porque comete à comissão de
autêntica liberdade, impossível de ser alcançado num representantes funções próprias ao processo negocial,
modelo que impõe, qual o brasileiro, autoritariamente,
cujo pressuposto é o diálogo permanente, que pode fru-
uma falsa unidade ou coalizão. O sistema de represen-
tificar, ou não, num acordo ou convenção coletiva, de
tação sindical corporativo conduz ao problema da falta
de legitimidade do sindicato como autêntico represen- forma que o processo negocial é dinâmico e, em certa
tante e interlocutor dos trabalhadores. medida, sempre inacabado. Ora, sendo obrigatória a
participação dos sindicatos nas negociações coletivas,
Obviamente que esse déficit de legitimidade do
por expressa determinação do inciso VI, do art. 8º, da
modelo unitário acaba por contaminar todo o sistema
de representação dos trabalhadores e, como consequên- Carta Magna, as atribuições de “promover o diálogo e
cia, constitui-se em relevante obstáculo contraposto ao o entendimento no ambiente de trabalho com o fim de
diálogo social, por meio do qual se estabelecem, de prevenir conflitos”, de “buscar soluções para os confli-
forma compartida entre empregados e empregadores, tos decorrentes da relação de trabalho” e “encaminhar
condições de trabalho. reivindicações específicas dos empregados”, porquanto
A reforma passa ao largo desse problema, mas inseridas no âmbito negocial coletivo, somente são pos-
impõe que seja considerado que as instâncias de re- síveis com a participação do ente sindical.
presentação dos trabalhadores na empresa não podem Mais uma vez, a norma em estudo não indica o
ser utilizadas “para o enfraquecimento da situação dos meio posto à disposição do órgão de representação in-
sindicatos interessados ou de seus representantes”, nos terna para “assegurar tratamento justo e imparcial aos
termos do art. 5º da Convenção n. 135, da OIT, que empregados, impedindo qualquer forma de discrimina-
pressupõe o estímulo pela legislação local à “coope- ção por motivo de sexo, idade, religião, opinião política
ração relativa a todas as questões pertinentes, entre os ou atuação sindical”, remanescendo a dúvida quanto
representantes eleitos, por uma Parte, e os sindicatos in-
ao que estaria ao alcance dessa importante instância,
teressados e seus representantes, por outra Parte”.
na hipótese de tratamento injusto, parcial, ou discrimi-
Logo, como os arts. 510-A usque 510-D, da CLT, natório adotado pelo empregador em relação aos seus
não resolvem a articulação entre os espaços de atuação
empregados. Imagina-se que tal ente poderia tomar,
dos sindicatos e da instância interna de representação dos
sozinho, alguma medida judicial ou perante autorida-
empregados, tampouco abordam as garantias da ação
dos entes sindicais, caberá à jurisprudência proceder des administrativas? Seria difícil, ante a expressa reserva
a essa delimitação. Um bom ponto de partida parece contida no inciso III, do art. 8º, da CRFB, ao sindicato.
ser o rol de atribuições encomendadas, por lei, a essa Por fim, a possibilidade de acompanhamento do
instância de representação interna. “cumprimento das leis trabalhistas, previdenciárias e
das convenções coletivas e acordos coletivos de tra-
4. ATRIBUIÇÕES LEGAIS DOS REPRESENTANTES balho”, sem nenhuma medida apta a reparar a inob-
NA EMPRESA servância dessas normas conduz ao nihil, o que não
se coaduna com o espírito da Lei Maior, no sentido da
O art. 510-B, da CLT, enumera as atribuições da concreção dos direitos fundamentais nela assegurados,
comissão de representantes, mas, como já assinalado dentre os quais aqueles definidos aos trabalhadores.

— 93 —
Portanto, esse órgão de representação interna aca- tal determinação. Ademais, o § 2º, do art. 510-D, CLT,
bará, como dito anteriormente, tendo sua ação melhor ao vedar a suspensão contratual do representante inibe
definida pela jurisprudência, ou pelos sindicatos, em a representação durante o expediente sem a perda da
acordo, ou convenção coletiva, por meio da faculdade remuneração. A melhor exegese da norma em apreço,
contida no inciso VII, do art. 611-A, da CLT, o que abre para harmonizar-se aos ditames da norma supranacio-
a porta para a indagação acerca da possibilidade de o nal, parece ser que o empregado poderá atuar na repre-
sindicato delegar à comissão interna, por meio da au- sentação interna, durante o expediente, sem prejuízo
tonomia coletiva, o poder de negociar coletivamente. dos salários. Poderá ser exigida permissão do superior
A meu juízo, também a constitucionalidade de uma tal hierárquico. Porém, a solicitação do representante ja-
disposição é por demais questionável. mais poderá ser denegada “irrazoavelmente”, nos ter-
mos do item 10.2. da Recomendação n. 143.
5. GARANTIAS DOS REPRESENTANTES INTERNOS A três, é vedada a candidatura do representante
dos empregados nos dois períodos subsequentes (§ 1º,
Como se sabe, a multicitada Convenção n. 135, art. 510-D), o que fragiliza a ação verdadeiramente
da OIT, dispõe sobre a proteção dos representantes dos reivindicativa por parte do mandatário, pois, como é
trabalhadores, gênero que, como visto, compreende os evidente, o prazo de um ano de garantia de emprego
sindicais e os integrantes dos órgãos de representação após o mandato, nos termos previstos no § 3º, do art.
interna. 510-D, da Consolidação, não é capaz de dissipar o in-
cômodo que pode ser provocado a uma classe empresa-
O art. 510-D, da CLT, trata especificamente do
rial pouco dada ao diálogo, como a que, grosso modo,
mandato e das garantias dos membros dessas instân-
se delineou na realidade brasileira. Mormente quando
cias de representação interna. Ao fazê-lo, parece es-
considerada frente à garantia do dirigente sindical, a
tar em dissintonia frente à norma internacional que, do representante interno soa como medida mais formal
segundo sua natureza, contém o conhecido status de que substancial, dissentindo, de tal modo, das medidas
supralegalidade. de “efetiva proteção contra qualquer ato que os [aos tra-
A começar pelo mandato bem mais restritivo do balhadores] prejudique, inclusive demissão em virtude
que o do dirigente sindical, o que se verifica, a uma, de suas funções ou atividades como representantes de
pelo prazo de um ano, o que se configura em lapso trabalhadores ou de sua filiação sindical ou participa-
temporal extremamente curto, para que o representan- ção em atividades sindicais” (item 5, da Recomendação
te possa, de fato, inteirar-se da realidade empresarial. n. 143, da OIT). A desproteção do representante, por
Nesse aspecto, deve ser observada a inexistência de me- óbvio, redunda na da própria representação.
canismos que propiciem a exigência, frente ao empre- Enfim, no pequeno espaço de reflexão a que se
gador, das informações relativas aos dados de interesse propõe este breve ensaio, deve ficar clara a ausência
coletivo, mantidos pela lei como monopólio empresa- de pretensão exauriente das incongruências entre a
rial. Disso resulta um caráter de certa forma investiga- representação de trabalhadores na empresa, tal como
tivo da representação autêntica. Contudo, o intérprete apressadamente delineada pela reforma, e as matrizes
deve considerar que o empregador deve franquear, aos constitucionais e oriundas de normas internacionais
representantes dos trabalhadores, o “acesso a todos os especificamente aplicáveis. Contudo, deve ser deixado
locais de trabalho na empresa, quando esse acesso for inequivocamente manifesto, que, na insuficiência dos
necessário para o desempenho de suas funções repre- arts. 510-A a 510-D, da CLT, ou na sua desconformidade
sentativa”, segundo impõe o item 12 da Recomendação com a regulamentação levada a efeito pela Convenção
n. 143, da OIT, estando aí incluído o acesso a informa- n. 135 e pela Recomendação n. 143, ambas da OIT,
ções da empresa. as normas internacionais deverão consistir na bússola
A duas, decorrência da anterior, é a total ausência hermenêutica, na medida em que consentâneas com a
de previsão das “facilidades” que, nos termos do aparta- Constituição da República.
do 1, do artigo 2º, da norma interacional em apreço, de-
vem ser concedidas aos mandatários dos trabalhadores, 6. CONCLUSÃO
“de modo a possibilitar-se o cumprimento rápido e efi-
ciente de suas funções”. Essas “facilidades” são melhor A modificação da lei, no sentido de torná-la mais
detalhadas pela Recomendação n. 143, da OIT, con- favorável à representação de trabalhadores na empre-
sistindo, fundamentalmente, na concessão do “tempo sa, fundamenta-se numa racionalidade orientada pela
necessário durante o expediente de trabalho, sem perda visão mercadológica do interesse coletivo, o que fica
de salário ou de benefícios sociais e adicionais”. Isso claro quando mantém a estrutura sindical corporativa.
implica em que a curta duração do mandato colida com Pretende, assim, uma mudança nas técnicas de diálogo

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social, sem, contudo, conferir, ainda que minimamente, produzir algum efeito, haja vista que o contrário imporia
os instrumentos necessários à produção dessa concer- ao intérprete constatar que a figura do representante de
tação. Aliás, em sua gênese, a reforma se ressente do trabalhadores é vazia, inócua, o que, consequentemen-
debate que lhe conferiria a necessária legitimidade, ao te, induziria à absurda conclusão da existência de iguais
pretender operar mudanças tão profundas no norte jus- vazios ou inócuos na própria Carta Constitucional.
laboral formado pela cultura jurídica pátria. Com a palavra, os tribunais.
Desse modo, gera uma fundada desconfiança acer-
ca dos objetivos que efetivamente perseguem, quando 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
não propiciam uma certeza no sentido de que tais obje-
tivos ou interesses não são os mesmos perseguidos pelos CHAUÍ, Marilena de Souza, Prefácio in SADER, Emir. Quando
trabalhadores, tampouco aqueles que possibilitam uma novos personagens entraram em cena: experiências e lutas
maior democratização das relações laborais. A desi- dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-1980), Rio de
gualdade de forças mantida, devido a uma ausência de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
legitimidade do sindicato corporativo, ao não aparelha- GRAU, Antonio Baylos. La acción colectiva de los trabajado-
mento de uma legislação de suporte e promoção efetiva res en la empresa: reflexiones sobre algunos problemas deriva-
da negociação e representação coletivas, que somente dos de la institucionalización sindical en ese espacio. Revista
de Derecho Social, n. 27, Albacete, 2004.
poderiam desenvolver-se num inexistente quadro de
autêntica liberdade sindical, é prova de que os inte- LOGUERCIO, José Eymard. Pluralidade sindical: da legalida-
de à legitimidade no sistema sindical brasileiro. São Paulo:
resses buscados com essas mudanças são unilaterais,
LTr, 2000.
atendendo, uma vez mais, unicamente ao interesse do
ROMITA, Arion Sayão. Direito do trabalho: temas em aberto.
empresariado.
São Paulo: LTr, 1998.
Porém, o giro Copérnico pretendido encontra limi-
SÁNCHEZ, Antonio Aragón. La participación de los emplea-
tes no direito, algo muito maior que a letra fria da lei. dos en la empresa. Factores condicionantes para la gestión y
De modo que, ao considerar a finalidade dessa re- resultados, Madri, CES, 1998.
presentação, tem-se que seu substrato deve ser buscado SIQUEIRA NETO, José Francisco. Liberdade sindical e repre-
e encontrado na Lei Maior, quando destina à represen- sentação do trabalhadores nos locais de trabalho. São Paulo:
tação de trabalhadores o encargo de promover o diá- LTr, 1999.
logo diretamente com o empresário. É evidente que tal ZAGREBELSKY, Gustavo. El derecho dúctil. Ley, derechos y
entendimento, quando alcançado, deve ser chamado a justicia. Madri: Trotta, 2009.

— 95 —
11

SOFT LAW, HARD LAW E


OS MECANISMOS DE COMBATE
AO TRABALHO INFANTIL E ESCRAVO NO BRASIL
DENISE DE FÁTIMA G. F. SOARES FARIAS(*)
JAMES MAGNO ARAUJO FARIAS(**)

1. INTRODUÇÃO Por fim, abordaremos os instrumentos que o Brasil


vem adotando com o intuito de combater e erradicar o
O trabalho infantil e o trabalho análogo ao de escra-
trabalho infantil e escravo, sinalizando a importância
vo são questões de profundo interesse social e jurídico,
dos órgãos cooperados, que juntos buscam atingir as
estando há tempos enraizados em diversas sociedades
pelo mundo, muitas vezes já incorporados com lamen- metas propostas, para que ao final do estudo possamos
tável naturalidade ao culturalismo daquela sociedade, o avaliar a eficácia dos instrumentos existentes assim co-
que dificulta muito a sua erradicação. mo para analisarmos os dados oficiais e percebermos
O presente estudo abordará a questão do trabalho se houve avanço na diminuição do trabalho infantil e
infantil e escravo, fazendo uma análise acerca de suas escravo no Brasil.
origens e das perspectivas para sua eliminação; sob esse
aspecto, enfatizaremos a forma como o Brasil tem tra- 2. O TRÁFICO DE PESSOAS
tado do tema.
Inicialmente, abordaremos o tráfico de pessoas e a A Organização das Nações Unidas, diante do Pro-
sua utilização para atividades laborais, identificando os tocolo de Palermo, define como tráfico de pessoas as
elementos caracterizadores do mesmo. seguintes condutas:
Será apresentado um breve apanhado histórico do
trabalho infantil e escravo no Brasil e no mundo; em O recrutamento, o transporte, a transferência,
seguida faremos um apanhado das Convenções e Reco- o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recor-
mendações internacionais e outras normas garantidoras rendo à ameaça ou uso da força ou a outras for-
da tutela de uma vida digna. mas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao
A partir dos preceitos da soft Law e da normatização abuso de autoridade ou à situação de vulnerabi-
mais rígida da hard Law abordaremos a ocorrência do lidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos
trabalho infantil e escravo para tratarmos depois dos pro- ou benefícios para obter o consentimento de uma
gramas e órgãos envolvidos no combate e fiscalização e pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins
erradicação do trabalho infantil e escravo no Brasil. de exploração.(1)

(*) Professora de Direito do Trabalho e Processo do Trabalho da Faculdade CEST. Advogada. Especialista em Direito do Trabalho pelo
UNICEUMA. Mestranda em Ciências Jurídicas pela Universidade Autónoma de Lisboa.
(**) Desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 16ª Região – Maranhão. Professor de Direito do Trabalho e Processo do Tra-
balho da Faculdade de Direito da UFMA. Especialista em Economia do Trabalho pela UFMA. Mestre em Direito Público pela UFPE.
Presidente do Coleprecor – Colégio de Presidentes e Corregedores de Tribunais Regionais do Trabalho do Brasil (2016/2017).

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A prática do tráfico de pessoas está diretamente tendo “extremamente elevados os números de vítimas
relacionada com o trabalho infantil e com outras formas de tráfico para trabalho escravo e forçado”, pois essa
laborativas degradantes, como o trabalho escravo e o realidade vem sendo apresentada em grande número
trabalho clandestino. contra bolivianos, peruanos, paraguaios e equatorianos,
O tráfico de pessoas contempla ainda várias face- principalmente, em oficinas de costura e confecção lo-
tas, tais como a exploração sexual, tráfico para a remo- calizadas no Estado de São Paulo.(5)
ção de órgãos ou para o trabalho escravo ou infantil, Juntamente com as demais normas protetivas e
sendo esta última o objeto do presente estudo. Esta preventivas, o Protocolo de Palermo se apresenta como
modalidade de tráfico tem como mira pessoas de baixa um instrumento essencial para a imposição de deveres
renda, com pouca escolaridade, submissos a uma eco- aos Estados, para a edição de leis, assim como para tra-
nomia de consumo e que se veem sem muitas chances balharem com a prevenção, repressão e atendimento
diante de uma sociedade capitalista cega. às vítimas. No seu art. 9º, estão previstas as obrigações
para atingir esses objetivos, prevendo pesquisas, cam-
Os traficados para o trabalho são submetidos
panhas de informação e de difusão através de órgãos de
ao sistema de escravidão que consiste no “estado ou
comunicação, bem como iniciativas sociais e econômi-
a condição de um indivíduo sobre o qual se exercem
cas, incluindo planos e programas com colaboração de
todos ou parte dos poderes atribuídos ao direito de
organizações não governamentais e com a sociedade
propriedade”.(2) Esses sujeitos são forçados a trabalhar civil. E com relação à prevenção do tráfico de pessoas,
sob a ameaça de sanção, que normalmente consiste o Protocolo de Palermo prevê ainda medidas visando à
em violência física, confinamento, ameaça de morte ao redução dos fatores de vulnerabilidade das pessoas ao
trabalhador e a seus familiares, confisco dos documen- tráfico, especialmente mulheres e crianças, através do
tos pessoais, podendo assumir natureza psicológica ou combate à pobreza, ao subdesenvolvimento e à desi-
financeira.(3) gualdade de oportunidades, incentivando a cooperação
Neste contexto podemos observar que o a explora- entre os Estados.
ção do trabalho, em especial o trabalho infantil, é uma A Legislação Brasileira possui normas penais que
realidade mundial. Nos quatro cantos do planeta são contemplam os tipos penais de exploração do tráfico de
encontrados menores trabalhando de maneira irregular. pessoas de forma direta, tais como o art. 231 do Código
A OIT divulgou o Relatório Mundial sobre o Trabalho Penal(6), e o art. 239 do Estatuto da Criança e do Adoles-
Infantil 2015, no qual estima que dos 250 milhões de cente (ECA) e na Lei n. 9.434/97(7).
crianças trabalhadoras em todo o mundo, pelo menos Portanto, o tráfico de pessoas é crime responsável
120 milhões de crianças entre 5 e 14 anos de idade pelo desaparecimento de milhares de crianças; mas,
trabalham em tempo integral, e as demais trabalham e além do problema com o tráfico, no Brasil, milhões
estudam, além de cumular com outras atividades não de crianças e adolescentes ainda trabalham induzidas
econômicas.(4) pelos próprios pais e são privados de direitos básicos
Segundo estudos da OIT, calcula-se que há mais de como educação, saúde, lazer e liberdades individuais,
5,7 milhões de crianças vítimas de exploração do traba- dificultando assim seu pleno desenvolvimento físico,
lho no Brasil. O Brasil foi classificado pela ONU como psicológico e emocional.

(1) Protocolo Complementar à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e
Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, promulgado pelo Decreto n. 5.017, de 12 de março de 2004.
(2) Convenção sobre a Escravatura, de 25.09.1926, emendada pelo Protocolo aberto à assinatura na sede das Nações Unidas em Nova
York, em 07.12.1953, e promulgada pelo Decreto n. 58.563, de 1º.06.1966. Convenção sobre a Escravatura, de 25.09.1926, emendada
pelo Protocolo aberto à assinatura na sede das Nações Unidas em Nova York, em 07.12.1953, e promulgada pelo Decreto n. 58.563, de
1º.06.1966.
(3) SALES, Lília Maia de Morais; ALENCAR, Emanuela Cardoso Onofre de. Tráfico de seres humanos, migração, contrabando de migran-
tes, turismo sexual e prostituição – algumas diferenciações. Itajaí: Novos Estudos Jurídicos, 2008. [Em linha] [Consult. 30 out.2015].
Disponível em: <http://www6.univali.br/seer/index.php/nej/article/view/1225>.
(4) OIT – Organização Internacional do Trabalho. Uma aliança global contra o trabalho forçado. Relatório Global do Seguimento da De-
claração da OIT sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho. Brasília: OIT, 2005.
(5) Idem. ibid., p.157.
(6) DECRETO LEI n. 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal. Consult. 18 out. 2015. Disponível em: <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>.
(7) LEI n. 8.691, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente. Consult. 24 out. 2015. Disponível em: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>.

— 98 —
3. SOFT LAW, HARD LAW E A REGULAÇÃO DO O trabalho infantil pode ser definido como sen-
TRABALHO do toda atividade econômica realizada por crianças e
adolescentes que se encontram abaixo da idade mínima
Soft Law designa no Direito Internacional Público permitida para o trabalho pela legislação brasileira, ou
as normas que são desprovidas de caráter coercitivo. por adolescentes acima da idade mínima, mas com me-
São normas que se aproximam de um cunho de obser- nos de 18 anos, que realizem essa atividade em condi-
vância facultativa, ao contrário do que ocorre com as ções perigosas, que interfiram em sua educação ou que
normas jurídicas tradicionalmente mais rígidas, enqua- sejam prejudiciais ao seu desenvolvimento psicológico,
dradas no conceito de hard Law. físico, moral e social.
Valério de Oliveira Mazzuoli diz: A relevância sobre o estudo das causas e conse-
quências, visando um combate mais efetivo, decorreu
Pode-se afirmar que na sua moderna acepção
do crescente número de trabalhadores menores em
ela compreende todas as regras cujo valor norma-
atividades laborais, especialmente nos países subde-
tivo é menos constringente que o das normas jurí-
senvolvidos, nos quais essas crianças são obrigadas a
dicas tradicionais, seja porque os instrumentos que
trabalhar desde cedo para contribuírem com o susten-
as abrigam não detêm o status de ‘norma jurídica’,
to de suas famílias. No final do século passado, a OIT
seja porque os seus dispositivos, ainda que insertos
constatou que o Brasil estava em terceiro lugar no ran-
no quadro dos instrumentos vinculantes, não criam
king dos países da América Latina em trabalho infantil,
obrigações de direito positivo aos Estados, ou não
perdendo somente par o Haiti e Guatemala.(13)
criam senão obrigações pouco constringentes.(8)
Em 2010, na “Global Child Labour Conference”,
Há necessidade de certa contextualização jurídica foi produzido um mapa para alcançar a erradicação
nesse conceito. A Constituição Federal do Brasil, repro- das piores formas de trabalho infantil, em conformida-
duzindo os termos da Convenção n. 138 da OIT, per- de com o Plano de Ação Global. No mundo, em 2010,
mite o ingresso no mercado de trabalho aos 16 anos, 115 milhões de trabalhadores estavam insertos nas pio-
conforme norma da CLT, excetuando o aprendizado ini- res formas de trabalho.
ciado aos 14 anos, e proibindo o trabalho noturno, peri- No Brasil, a PNAD – Pesquisa Nacional de Amos-
goso e insalubre para menores de 18 anos (o que atende tra em Domicílio (do IBGE), em 1995, apontou que
a Convenção n. 182 e Recomendação n. 190 da OIT)(9). 41,95% da população infantil trabalhava. A PNAD de
Coadunando com os ideais protetivos do trabalho 2002 apontou brusca redução, ao expor que 8,22% da
do menor, em 13 de julho de 1990, foi instituído pela população infantil era a que trabalhava (entre 5 a 15
Lei n. 8.069, o Estatuto da Criança e do Adolescente anos – 2.988.294 crianças. Ainda que se possa contes-
(ECA), que busca tutelar as garantias desses menores. tar a disparidade dos números da PNAD de 1995, al-
Neste sentido, Josiane Rose Petry Veronese e André Via- guns fatores contribuíram para a alteração dos números,
na Custódio aduzem que: “As expressões ‘infância’ e quais sejam: a adoção no Brasil do IPEC (Programa In-
‘infantil’ serão utilizadas para representar pessoas com ternacional para Eliminação do trabalho infantil, que se
idades até 18 anos” (10), ou seja, tais expressões abarcam compromete a erradicá-lo entre 2016-2020. Da mesma
tanto crianças quanto adolescentes. forma o êxito do PETI – Programa de Erradicação ao Tra-
Para efeito de configuração do trabalho infantil, o balho Infantil – que tem previsão de atender 1 milhão de
art. 2º do Decreto n. 6.481/2008(11) prevê que o termo adolescentes em idade escolar até 2016, segundo dados
“criança” inclui o menor 18 anos, ao passo que a Lei do INESC – Instituto de Estudos Socioeconômicos.
n. 8.069/90 diz que criança vai até 12 anos, enquanto Apesar de o Brasil possuir um invejável arcabou-
adolescente vai de 12 até 18 anos.(12) ço legislativo de proteção ao trabalho da criança e

(8) MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Curso de direito internacional público. 4. ed. São Paulo: RT, 2010. p. 54.
(9) DECRETO n. 3.597, de 12 de setembro de 2000 – Promulga Convenção 182 e a Recomendação 190 da OIT. Consult. 18 out. 2015.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3597.htm>.
(10) VERONESE, Josiane Rose Petry; CUSTÓDIO, André Viana – Trabalho Infantil Doméstico no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 141.
(11) DECRETO n. 6.481, de 12 de junho de 2008 – Regulamenta as piores formas de trabalho infantil. [Em linha] [Consult. 18 out. 2015].
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6481.htm>.
(12) LEI n. 8.691, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente. [Em linha] [Consult. 24 out. 2015]. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>.
(13) PEREIRA SOBRINHO, Zéu – Op. cit., p. 22.

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do adolescente, faz-se necessária, porém, uma inten- Nesse sentido, Marco Antônio Lopes Campos afir-
sa fiscalização das atividades laborais pelos órgãos e ma o que segue:
autoridades do trabalho, para que os direitos tutelados
possam ser instrumentos eficazes de erradicação do tra- [...] ocorreu um longo período de exploração de
balho infantil. crianças e adolescentes, que se perpetuou durante
toda a Revolução Industrial, desde os seus primór-
Ademais, deve haver a participação conjunta do
dios até o período de maior crescimento, conheci-
Estado, da sociedade civil, dos agentes fiscalizadores e,
do por “industrialização madura”. Assim, essa “era
especialmente, da família, para termos um sistema de
das máquinas” contribuiu para a substituição da
educação que seja uma ferramenta eficiente de trans-
mão de obra pesada, que só podia ser realizada
formação pelo conhecimento e que, por consequência,
por homens, pela fragilidade de mulheres e crian-
leve à abolição do trabalho infanto-juvenil.
ças no mercado de trabalho, e representava, para
os produtores, devido ao abuso da atividade dessa
4. HISTÓRICO SOBRE O TRABALHO DE CRIANÇAS mão de obra, um lucro muito maior.(16)
E ADOLESCENTES
Tendo em vista que, durante a Antiguidade e a Ida-
A presença de crianças no mercado de trabalho de Média não existiu proteção estatal aos trabalhadores,
remonta a relatos desde a Antiguidade. No Egito, em independentemente de serem adultos ou crianças, a In-
Roma e na Grécia Antiga, a escravatura era comum e glaterra, como berço da industrialização, foi a responsá-
plenamente possível, nas palavras de Marco Antônio vel pela edição da primeira lei protetiva ao trabalhador
Lopes Campos: com a edição do Moral and Health Act (Ato da Moral e
da Saúde), em 1802, ato também conhecido como Lei
Nota-se, portanto, que não havia qualquer de Peel, partindo do lema “Salvemos os menores”.(17)
proteção contra o trabalho infantil, ainda mais se
Em 1819, a Inglaterra aprovou a lei “Cotton Mills
levando em conta o silogismo simples de que sen-
Act”, que tornou ilegal o trabalho de crianças menores
do a escrava uma propriedade dos seus senhores,
de 9 anos e restringiu o horário de trabalho dos adoles-
do mesmo modo seriam os seus filhos, para que
centes menores de 16 anos para 12 horas diárias, nas
tão logo atingissem a força e a idade necessárias,
atividades algodoeiras. E, em 1833, uma lei reduziu a
fossem incluídos no mesmo direito de utilizar sua
jornada que antes era de 12 horas para 8 horas diárias
mão de obra (infantil) escrava.(14)
para os menores com idade entre 9 e 13 anos, e a 10
Com a evolução das sociedades, já na Idade Mé- horas diárias para aqueles que estivessem na faixa etária
dia, surgiu a figura do menor aprendiz, que trabalhava entre 13 e 18 anos.(18)
nas corporações de ofício em troca do aprendizado de No final da I Guerra Mundial, durante a Conferên-
uma profissão, sem qualquer remuneração. cia de Paz, foi aprovado o Tratado de Versalhes, crian-
O grande marco do Direito do Trabalho no Mundo do-se a Organização Internacional do Trabalho – OIT
surge, sem dúvida, com a Revolução Industrial ocorrida (1919), com o intuito de promover a paz universal atra-
no final do século XVIII. As crianças e as mulheres eram vés da implementação de justiça social.(19) A OIT ficou
bastantes presentes nas fábricas, esses empregados cus- responsável pela proposição e elaboração de normas
tavam muito menos aos empregadores, seus salários internacionais de proteção uniforme ao trabalho, como
eram irrisórios, pois a sua mão de obra era “dócil”, que as convenções, que uma vez ratificadas constituem fon-
nada reivindicava. Segundo Alice Monteiro de Barros, te formal de direito.
na Inglaterra e em outros países, era possível encontrar Através das normas internacionais expedidas pela
criança com 5 anos de idade trabalhando nas indústrias OIT iniciou-se efetivamente a proteção internacional
de algodão, principalmente nas atividades de vigilância dos trabalhadores menores. Posteriormente, diversos
e de manejo das máquinas, por cerca de 14 a 16 horas instrumentos surgiram como forma de proteger os traba-
diárias de trabalho árduo.(15) lhadores menores. Em 1948, foi publicada a Declaração

(14) CAMPOS, Marco Antônio Lopes. Proposições jurídicas: fonte de proteção social do trabalho infantil. São Paulo: LTr, 2012. p. 25.
(15) BARROS, Alice Monteiro de Barros. Curso de Direito do Trabalho. 9. ed. São Paulo: LTr, 2013. p. 433.
(16) Op. cit., p. 28.
(17) Op. cit,. p. 434.
(18) Idem.
(19) SÜSSEKIND, Arnaldo. Convenções da OIT. 2. ed. São Paulo: LTr, 1998. p. 27/26.

— 100 —
Universal dos Direitos do Homem. Em 1959, foi editada ravelas portuguesas e eram submetidas ao trabalho
pela Organização das Nações Unidas (ONU) a Declara- nessas embarcações. Neste sentido, sobre o trabalho
ção Universal dos Direitos da Criança; posteriormente, infanto-juvenil no Brasil, Viviane Matos González Pe-
em 1989, foi editada a Convenção sobre Direitos da rez, ressalta:
Criança; em 1997, foi realizada a Conferência sobre
Trabalho Infantil; e, em 2000, a OIT editou a Conven- Registra-se que, já a bordo das caravelas por-
ção n. 182 sobre a Proibição das Piores Formas de Tra- tuguesas da época do descobrimento, crianças e
balho Infantil e a Ação imediata para sua Eliminação, adolescentes entre nove e dezesseis anos eram
complementada pela Recomendação n. 190, sendo o submetidos ao trabalho e eram conhecidos como
Brasil signatário desta.(20) pequenos grumetes, crianças marinheiras que ini-
ciavam a carreira na Armada.(24)
As convenções internacionais ratificadas pelo Bra-
sil sustentam, em sua estrutura hard Law, a construção No período colonial o trabalho de crianças e ado-
infra legal brasileira. Por outro lado, as recomendações lescentes foi instituído pelas missões jesuíticas, que se
da OIT e as convenções não ratificadas são fontes de preocupavam com o ensino de um ofício para estes,
material de direito, inserindo-se perfeitamente no es- pois acreditavam que só assim teriam dignidade e al-
pectro de soft Law. cançariam o caminho da salvação.(25)
Extraímos dos objetivos da criação da OIT seus Com a abolição da escravatura, em 13 de maio de
quatro pilares principais: o humanitário que visa prote- 1888, e com a Proclamação da República, ocorrida em
ger os seres humanos de trabalho degradante, o pilar da 15 de novembro de 1889, iniciou-se, sem sucesso, uma
igualdade que visa a promoção da igualdade de condi- tentativa de regular a proteção do trabalho infantil, visto
ções de trabalho, o pilar político que visa a harmonia que havia parte da população brasileira de confissão
social e a promoção da paz, e o viés econômico das religiosa definida, que aceitava a escravidão e se ser-
relações laborais(21). Na visão da OIT, o trabalho infantil, via dela sem qualquer escrúpulo. Em 1891 foi editada
além de não constituir trabalho digno e ser contrário a primeira norma de proteção do trabalho infantil no
à luta pela redução da pobreza, sobretudo, rouba das Brasil, pioneira na América Latina, que foi o Decreto
crianças sua saúde, seu direito à educação, ou seja, sua n. 1.313, publicado no governo do Marechal Deodoro
própria vida enquanto crianças – para a OIT, o termo da Fonseca, e que foi sucedido por inúmeros decretos
“criança” refere-se a pessoas com idade inferior a 18 garantidores de direito dos menores trabalhadores.
anos(22). Em 12 de outubro de 1927, foi aprovado pelo De-
Em 1992, a OIT iniciou o Programa Internacional creto n. 17.943, o “Código de Menores”, conhecido
para Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC). Trata-se de como “Código Mello Mattos”, que proibiu o trabalho
um programa mundial de cooperação técnica contra o noturno aos menores de dezoito anos, além do exer-
trabalho infantil, contando com o apoio financeiro de cício de emprego em praças públicas aos menores de
22 países doadores, cujo objetivo é estimular, orientar e quatorze anos. Em 1932, foi expedido o Decreto n.
apoiar iniciativas nacionais na formulação(23) 22.042, primeira medida protecionista após a Revolu-
ção de 1930, o qual fixava a idade mínima de quatorze
5. TRABALHO INFANTIL NO BRASIL E A anos para o trabalho na indústria.(26)
LEGISLAÇÃO VIGENTE A Constituição Federal brasileira de 1934 foi a pri-
meira a tratar sobre a temática do trabalho do menor;
O trabalho infantil no Brasil teve como origem as vedava a diferença de salário para um mesmo trabalho
crianças e adolescentes que vinham a bordo das ca- por motivo de idade, proibia trabalho aos menores de

(20) Idem, ibidem.


(21) Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária/CENPEC – Combatendo o trabalho infantil: Guia para
educadores/IPEC. – Brasília: OIT, 2001. p. 26. ISBN 2-2-811040-6
(22) DECRETO n. 3.597, de 12 de setembro de 2000 – Promulga Convenção 182 e a Recomendação 190 da OIT. [Em linha] [Consult.
18 out. 2015]. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3597.htm>.
(23) Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária/CENPEC – Op. cit., p. 8.
(24) PEREZ, Viviane Matos González. Regulação do Trabalho do Adolescente: uma abordagem a partir dos direitos fundamentais.
Curitiba: Juruá, 2008. p. 37.
(25) VERONESE, Josiane Rose Petry; CUSTÓDIO, André Viana. Trabalho Infantil Doméstico no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 20.
(26) CAMPOS, Marco Antônio Lopes. Proposições jurídicas: fonte de proteção social do trabalho infantil. São Paulo: LTr, 2012. p. 30.

— 101 —
14 anos, o trabalho noturno aos menores de 16 anos, e ram tutelados. De acordo com Marco Antônio Lopes
o trabalho em indústrias insalubres aos menores de 18 Campos:
anos, e previa, ainda, serviços de amparo à infância,
porém de forma genérica, e que foi mantido pelas Cons- Movida pelo vetor da dignidade humana, a Car-
tituições de 1937 e de 1934.(27) ta especifica o valor social do trabalho como um
dos princípios constitucionais que fundamentam
Em 1943, foi aprovada a Consolidação das Leis do a República. Dessa forma, infere-se que a vitória
Trabalho (CLT), que representou a união em um único do movimento de defesa dos direitos da criança e
instrumento da extensa legislação trabalhista produzida do adolescente, no que se refere à proteção contra
no Brasil. Destaca Haim Grunspun que: abusos que possam infringir o valor acima, foi uma
Com a publicação da CLT, além da condição consequência dos novos conceitos introduzidos
de aprendiz, a criança de 14 a 18 anos, que podia sob a ótica da já mencionada dignidade da pessoa
trabalhar, ganhava um “salário menor”, a metade humana.(30)
do salário mínimo do trabalhador, vilipendiando Em 13 de julho de 1990, foi instituído pela Lei n.
o trabalho dos menores. Na indústria da constru- 8.069, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
ção civil, que se difundia pelo Sul do país, muitos que busca tutelar as garantias desses menores.
dos serviços mais perigosos eram realizados pelas
Em 2000, o Brasil ratificou a Convenção n. 182 e a
crianças com o salário mínimo especial.(28)
Recomendação n. 190 da OIT que trata sobre a Proibi-
A Constituição de 1946 ampliou o rol de direitos ção das Piores Formas de Trabalho Infantil e a Ação Ime-
sociais e no que se refere ao trabalho infantil, vedava a diata para sua Eliminação, através do Decreto n. 3.597,
diferença de salário para um mesmo trabalho por moti- de 12 de setembro de 2000.
vo de idade, além de proibir o trabalho aos menores de Posteriormente, através do Decreto Legislativo n.
14 anos e o trabalho noturno e em indústrias insalubres 4.134, de 15 de fevereiro de 2002, o Brasil ratificou
aos menores de 18 anos.(29) a Convenção n. 138 da Organização Internacional do
A Constituição de 1967, outorgada pelo regime Trabalho que trata sobre “a idade mínima de admissão
militar, proibia o trabalho aos menores de 12 anos, bem ao emprego”.(31)
como o trabalho noturno e em indústrias insalubres aos No ano de 2008, o Brasil regulamentou os arts.
menores de 18 anos, seguindo a Emenda Constitucional 3º, alínea d, e 4º da Convenção 182 da OIT, através do
n. 1 de 1969 as mesmas diretrizes. Decreto n. 6.481(32), na qual dispões sobre conceitos e
Com a promulgação da Constituição Federal em identificação das Piores Formas de Trabalho Infantil.(33)
1988 os direitos sociais foram consideravelmente am- No Brasil, as normas de proteção à criança e ao
pliados e os direitos das crianças e adolescentes fo- adolescente foram sendo ampliadas ao longo de sua

(27) CAVALCANTE, Jouberto de Quadros Pessoa; JORGE NETO, Francisco Ferreira. Direito do Trabalho. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2015.
p. 33.
(28) GRUNSPUN, Haim. O trabalho das crianças e dos adolescentes. São Paulo: LTr, 2000. p. 53.
(29) DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de direito do trabalho. 12. ed. São Paulo: LTr, 2013. p. 71-72.
(30) CAMPOS, Marco Antônio Lopes. Proposições jurídicas: fonte de proteção social do trabalho infantil. São Paulo: LTr, 2012. p. 49.
(31) DECRETO n. 4.134, de 15 de fevereiro de 2002 – Promulga Convenção 138 e a Recomendação 146 da OIT sobre idade mínima de
admissão no emprego. [Em linha] [Consult. 28 out. 2015]. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2002/
d4134.htm>.
(32) DECRETO n. 6.481, de 12 de junho de 2008 – Regulamenta o artigo 3º e 4º da Convenção 182 da OIT. [Em linha] [Consult. 28
out. 2015]. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6481.htm>.
(33) Convenção n. 182, art. 3º:
“Para efeitos da presente Convenção, a expressão “as piores formas de trabalho infantil” abrange:
a) todas as formas de escravidão ou práticas análogas à escravidão, tais como a venda e tráfico de crianças, a servidão por dívidas
e a condição de servo, e o trabalho forçado ou obrigatório, inclusive o recrutamento forçado ou obrigatório de crianças para serem
utilizadas em conflitos armados;
b) a utilização, o recrutamento ou a oferta de crianças para a prostituição, a produção de pornografia ou atuações pornográficas;
c) a utilização, recrutamento ou a oferta de crianças para a realização para a realização de atividades ilícitas, em particular a
produção e o tráfico de entorpencentes, tais com definidos nos tratados internacionais pertinentes; e,d) o trabalho que, por sua
natureza ou pelas condições em que é realizado, é suscetível de prejudicar a saúde, a segurança ou a moral das crianças.”

— 102 —
história. Contudo, ainda hoje, é possível encontrar, e falhas e a necessidade de complementações, a fim de
com grande frequência, a exploração da mão de obra garantir a efetivação de todo o conjunto.
infantil, tanto no âmbito domiciliar como também em
outras atividades precárias. Atualmente, os principais 6. CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DO TRABALHO
diplomas nacionais respeitantes são a Constituição Fe- INFANTIL
deral de 1988 e Estatuto da Criança e do Adolescente.
A CF 1988, além de estabelecer idade mínima e condi- A exploração da mão de obra infantil é um proble-
ções de trabalho do menor, traz em seu art. 227 o princí- ma mundial. No Brasil, o serviço doméstico é um dos
pio da proteção integral da criança e do adolescente(34). que mais empregam menores, principalmente pela fal-
O Estatuto da Criança e do Adolescente estabeleceu o ta, e impossibilidade de fiscalização em cada unidade
limite básico de idade em seu art. 60, que, atualizado residencial.
pela Emenda Constitucional n. 20/98, determina a ve-
As causas econômicas são as principais deter-
dação de qualquer trabalho aos menores de 16 anos de
minantes desse tipo de trabalho, sendo a condição
idade, exceto na condição de aprendiz. de pobreza e a baixa renda familiar uns dos maiores
Nesse sentido, Marco Antônio Lopes Campos aduz estímulos, mas estes não são os únicos fatores, pode-
que: mos citar também: a desigualdade social, o que expli-
ca, inclusive, porque no Brasil encontra-se com mais
[...] admite o ECA o trabalho do adolescente
frequência o trabalho de crianças e adolescentes, em
maior de dezesseis anos, condicionando a certos
relação à maior parte dos países da América Latina; as
requisitos, quais sejam:
condições de emprego e desemprego dos pais; a oferta
a) respeito à condição peculiar de pessoa em e a demanda, sendo a oferta influenciada por caracte-
desenvolvimento; rísticas individuais e do ambiente familiar e a demanda
b) capacitação profissional adequada ao mer- influenciada pela atratividade do mercado de trabalho,
cado de trabalho.(35) que inclui a remuneração e a dispensa de qualificação
específica.(38)
Da mesma forma que a Constituição Federal e o
Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu art. 61(36), Como causa de crescimento dessa forma de traba-
a Consolidação das Leis do Trabalho, em seus arts. lho, Veet Vivarta destaca a ineficiência do sistema edu-
cacional brasileiro, o desejo de crianças de trabalhar
402 ao art. 439, com nova redação dada pela Lei n.
desde cedo para ganhar o próprio dinheiro e o sistema
10.097/2000 estabelece o limite básico para o trabalho
de valores e tradições da nossa sociedade, aduzindo
em 16 anos de idade, e o limite de 14 anos de idade
que:
para o trabalho na condição de aprendiz; e em seu art.
404, estabelece o limite superior de 18 anos para a rea- Os padrões culturais e comportamentais esta-
lização de trabalhos noturnos, perigosos e insalubres e belecidos nas classes populares levam à constru-
que seja prejudicial ao seu desenvolvimento físico, psí- ção de uma visão positiva em relação ao trabalho
quico, moral e social.(37) de crianças e adolescentes. O trabalho precoce é
A legislação brasileira acerca do trabalho de crian- valorizado como um espaço de socialização, onde
ças e adolescentes pode ser considerada uma das me- as crianças estariam protegidas do ócio, da perma-
lhores do mundo, embora se reconheça a existência de nência nas ruas e da marginalidade.(39)

(34) BRASIL – Constituição Federal, 1988. Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e
ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
(35) CAMPOS, Marco Antônio Lopes. Proposições jurídicas: fonte de proteção social do trabalho infantil. São Paulo: LTr, 2012. p. 99.
(36) BRASIL – Consolidação das leis do Trabalho, 1943. Art. 61. A proteção ao trabalho dos adolescentes é regulada por legislação
especial, sem prejuízo do disposto nesta Lei.
(37) BRASIL – Estatuto da Criança e do Adolescente. Art. 67. Ao adolescente empregado, aprendiz, em regime familiar de trabalho,
aluno de escola técnica, assistido em entidade governamental ou não governamental, é vedado trabalho: noturno, realizado entre
as vinte e duas horas de um dia e as cinco horas do dia seguinte.
(38) VERONESE, Josiane Rose Petry; CUSTÓDIO, André Viana. Trabalho Infantil Doméstico no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 91.
(39) VIVARTA, Veet (coord.). Crianças Invisíveis: o enfoque da imprensa sobre o trabalho infantil doméstico e outras formas de explo-
ração. São Paulo: Cortez, 2003. p. 40.

— 103 —
De fato, o que podemos concluir é que, socialmen- outros, e são piores nas crianças e adolescente devido à
te, o “trabalho”, para as crianças que se situam na linha sua condição de pessoa em desenvolvimento, sendo ne-
da pobreza, deixa de ser um problema e se transforma cessária a tomada de medidas emergenciais efetivas, no
em solução, sendo culturalmente aceito sem maiores intuito de minimizar os prejuízos das futuras gerações.
resistências tanto pela população de baixa renda quanto
pelas elites econômicas. 7. COMBATE E FISCALIZAÇÃO DO TRABALHO
O que se observa muitas vezes é um ciclo, no qual INFANTIL E OS MEIOS PARA SUA
os pais não tiveram escolaridade por necessitarem tra- ERRADICAÇÃO
balhar para ajudar as suas famílias, portanto o mercado
de trabalho não o absorve pela falta de conhecimento. Mesmo diante de tantas legislações nacionais e in-
Os filhos desses pais acabam por abandonar a escola, ternacionais protetivas dos menores e combatentes do
pois precisam trabalhar para ajudá-los, e, consequente- trabalho infantil, os resultados estão aquém do esperado
mente, ficam desqualificados para o mercado de traba- pelos órgãos internacionais.
lho, e assim o ciclo se mantém. Pensando nisso, em 10 de junho de 2014, o Fundo
A Convenção n. 182 da Organização Internacio- das Nações Unidas para a Infância – UNICEF, junta-
nal do Trabalho considerou o trabalho infantil domés- mente com o Fórum Nacional de Prevenção e Erradi-
tico como uma das piores formas de trabalho infantil, cação do Trabalho Infantil (FNPETI), e a Organização
ratificada pelo Brasil através do Decreto n. 6.481/2008, Internacional do Trabalho (OIT) lançaram o “Dia Mun-
o referido Decreto prevê como riscos ocupacionais: dial contra o Trabalho Infantil”, devendo este ser cele-
brado no 12 de junho.(42)
Esforços físicos intensos; isolamento; abuso fí-
No Brasil, entre os mais de 3,4 milhões de crian-
sico, psicológico e sexual; longas jornadas de tra-
ças e adolescentes que trabalham, a maior parte deles
balho; trabalho noturno; calor; exposição ao fogo,
encontra-se no trabalho informal, na agricultura familiar
posições antiergonômicas e movimentos repetiti-
e no trabalho doméstico, certamente são as áreas com
vos; tracionamento da coluna vertebral; sobrecar-
maior resistência ao combate dessa modalidade de tra-
ga muscular e queda de nível.(40) (BRASIL, 2008).
balho, principalmente em razão de suas causas estarem
Segundo Josiane Rose Petry Veronese e André Via- diretamente relacionadas às desigualdades regionais e
na Custódio: socioeconômicas do Brasil.(43)
De nada adianta existirem legislações protetivas se
Embora, na década de 1990, o Brasil tenha ele-
não houver iniciativa para o cumprimento das mesmas,
vado significativamente o número de crianças e
pois o Estado precisa implementar ações que visem ga-
adolescentes matriculados no ensino fundamental,
rantir eficácia às normas.
em relação às meninas trabalhadoras domésticas,
essas condições pouco mudaram. As meninas tra- Diante da ineficiência ou mesmo inexistência de
balhadoras domésticas sempre abandonam a es- políticas públicas direcionadas à proteção da criança e
cola mais cedo e alcançam os menores índices de do adolescente, o Ministério Público e a Justiça se tor-
escolarização, proporcionando a reprodução da naram meios importantes para a concretização dessas
força de trabalho com baixa qualificação e impe- políticas. Tanto a ineficiência quanto a inexistência de
dindo o acesso a outras oportunidades positivas ao políticas públicas de combate ao trabalho infantil, violam
seu desenvolvimento.(41) direitos fundamentais, constituindo-se em grave ilicitude,
já que a implementação de políticas públicas não é po-
Como pudemos observar, são inúmeras as conse- der discricionário do Estado, mas uma verdadeira obriga-
quências trazidas pelo trabalho infantil, que podem ter ção constitucional, cujo provimento deve ser realizado
cunho físico, psicológico, educacional, social, dentre com prioridade absoluta, frente o princípio da proteção

(40) DECRETO n. 6.481, de 12 de junho de 2008 – Regulamenta o artigo 3º e 4º da Convenção 182 da OIT. [Em linha] [Consult. 28
out. 2015]. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6481.htm>.
(41) Op. cit., p. 109.
(42) UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância. [Em linha] [Consult. 30 out. 2015]. Disponível em: <http://www.unicef.org/
brazil/pt/media_18094.htm>.
(43) MEDEIROS NETO, Xisto Tiago; MARQUES, Rafael Dias – Manual de Atuação do Ministério Público na Prevenção e Erradicação do
Trabalho Infantil/Conselho Nacional do Ministério Público. Brasília: CNMP, 2013. p. 9 Em linha] [Consult. 30 out. 2015]. Disponível
em: <https://www.mprs.mp.br/areas/infancia/arquivos/manual_erradicacao_trab_infantil.pdf>.

— 104 —
integral previsto no art. 227 da Constituição Federal e no a elaboração do Plano de Ação, no qual estarão
art. 4º do Estatuto da Criança e Adolescente. contidas todas as informações sobre o convênio:
O Brasil adotou o Programa de Erradicação do Tra- meta, valores dos repasses e da contrapartida do
balho Infantil (PETI), criado pelo Ministério do Desen- município, período de vigência.(48)
volvimento Social e Combate à Fome, em 1996, com o
ideal de erradicar o trabalho infantil (crianças e adoles- Diante de toda a legislação existente e dos progra-
centes menores de dezesseis anos). Atualmente o PETI mas de apoio, é necessário que sejam implementadas
integra o Programa Bolsa-Família e compõe o Sistema outras políticas públicas e ações positivas por parte de
Único de Assistência Social (SUAS)(44), possuindo duas todo o Poder Público, pois, apesar da redução do nú-
ações específicas, quais sejam: mero de trabalhadores infantis no Brasil, essa ainda não
foi suficiente para reparar a histórica situação de abusos
[...] (I) concessão da bolsa Criança Cidadã às contra as crianças e adolescentes.
famílias, paga mensalmente, como forma de com-
plementação da renda familiar para retirada das Os Conselhos de Direitos são um importante ins-
crianças e adolescentes do trabalho; (II) a execução trumento dentro das políticas de atendimento, pois por
da jornada ampliada, em horário extraescolar, que meio deles podem ser criadas políticas sociais de rea-
objetiva realizar ações socioeducativas, por meio lização de direitos com a finalidade de erradicação do
de atividades esportivas, culturais, lúdicas, de con- trabalho infantil e trabalho infantil doméstico.
vivência e de reforço escolar.(45) As políticas de promoção dos direitos são formas
O PETI, de nítida concepção soft Law, é voltado de divulgação dos direitos das crianças e adolescen-
principalmente para as famílias com renda per capita de tes. Assim, uma política de promoção dos direitos das
até ½ salário mínimo, que tenham filhos na faixa etária crianças e dos adolescentes, que tenha por escopo a
entre 7 e 15 anos, e que estejam trabalhando em ativi- erradicação do trabalho infantil, deve tornar pública a
dade caracterizada como perigosas, penosas, insalubre, dimensão do trabalho infantil doméstico no Brasil.
degradantes ou de risco.(46) A motivação para a promoção dos direitos da
O tempo de permanência no programa é definido criança e do adolescente deve ser planejada como uma
pela idade da criança e do adolescente e também pela estratégia de sensibilização pelos mais diversos meios
conquista da emancipação financeira da família, que de comunicação de massa. A Rede de Agências de No-
enseja o desligamento. Já os critérios para permanência tícias pelos Direitos da Infância (Rede Andi), no Brasil,
da família no programa são os seguintes: tem proporcionado uma significante contribuição na
[...] todos os filhos com menos de 16 anos de- sensibilização dos profissionais da comunicação para
vem estar preservados de qualquer forma de traba- proteção da criança e do adolescente contra a explora-
lho infantil; a criança e/ou adolescente participante ção do trabalho infantil doméstico.(49)
do Peti deverá ter frequência escolar mínima de Vejamos o que informa Josiane Rose Petry Veronese
75% e o mesmo percentual de frequência nas ativi- e André Viana Custódio:
dades propostas pela jornada ampliada (atividades
no período extraescolar); e as famílias beneficiadas Atualmente, a Rede Andi é a principal agên-
deverão participar das atividades socioeducativas cia de comunicação na promoção dos direitos da
e dos programas e projetos de geração de emprego criança e do adolescente. Nos últimos anos, em
e renda ofertados.(47) parceria com a OIT, a Fundação Abrinq e com o
apoio do UNICEF e da Save the Children UK tem
De acordo com Xisto Tiago Medeiros Neto e Rafael
trabalhado diretamente com a mídia numa campa-
Dias Marques:
nha nacional para a erradicação do trabalho infan-
Após aprovação, será firmado o convênio en- til doméstico, pois é inaceitável que alguns setores
tre os governos federal, estadual e municipal com da mídia ainda reproduzam a exploração do tra-

(44) Idem, ibdem, p. 77.


(45) Idem, ibdem.
(46) Idem, Ibidem, p. 78.
(47) Idem, ibdem.
(48) Idem, ibdem, p. 79.
(49) Op. cit., p. 236.

— 105 —
balho infantil como algo positivo ou como uma cional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil,
decorrência inevitável das condições de vida.(50) criado especialmente para este fim.
De acordo com Xisto Tiago Medeiros Neto e Rafael
O final almejado por este programa, depois de
Dias Marques:
cumpridas as atividades previstas, inclui:
Os Procuradores que integram a Coordenadoria
[...] ONGs e instituições públicas sensibilizadas atuarão em seus Estados de forma articulada com o
e mobilizadas na utilização da comunicação como Procurador-Chefe e demais membros da Regional,
estratégia de prevenção e erradicação do trabalho para que sejam direcionados todos os esforços, lo-
infantil doméstico bem como na Integração de cais e nacional, no combate à exploração da crian-
ações que potencializem a eficácia de programas ça e do adolescente [...].(52)
na área; b) meios de comunicação com cobertu-
ra ampliada e qualificada sobre o trabalho infan- A primeira estratégia é a ação em parceria com o
til doméstico, informando sobre a necessidade de Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério do De-
eliminá-lo e de modificar práticas que o legitimam; senvolvimento Social e de Combate à Fome, Ministério
e c) população em geral, especialmente as famílias da Educação, Ministério da Justiça, Secretaria Especial
de origem e as empregadoras das trabalhadoras in- de Direitos Humano, além de outros órgãos do governo
fantis domésticas, com conhecimento incrementa- federal, bem como os Ministérios Públicos Estaduais,
do sobre o tema e suas consequências.(51) entidades sindicais, autoridades estaduais e municipais,
Organização Internacional do Trabalho, Fundo das Na-
Os meios de comunicação de massa atuam como ções Unidas para a Infância – UNICEF, e organizações
agentes de denúncia de exploração do trabalho infantil, não governamentais.
em especial o doméstico, bem como de disseminação Portanto, observa-se que o Ministério Público, seja
dos direitos das crianças e adolescentes, uma vez que a Estadual, seja do Trabalho, têm um papel primordial na
fiscalização desse tipo de exploração depende muitas ve- erradicação do trabalho infantil, sendo um dos princi-
zes de uma política de promoção, especialmente porque pais instrumentos de combate, visto que pode atuar de
a exploração do trabalho infantil doméstico que ocorre diversas formas para fazer cessar e para retirar crianças
na invisibilidade do espaço privado dos domicílios. e adolescentes da exploração do trabalho.
A política de promoção dos direitos das crianças Observamos, ainda, a existência do Fórum Nacio-
e adolescentes não pode ser vista isoladamente; para nal de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil –
que sejamos capazes de erradicar o trabalho infantil de- FNPETI – criado em novembro de 1994, em meio ao
ve ser realizado um trabalho social de conscientização grande interesse de diferentes setores da sociedade, tais
para possibilitar a efetivação das políticas públicas de como organizações governamentais, não governamen-
proteção às crianças e adolescentes brasileiros. tais, organizações internacionais, Conselhos Tutelares,
Ministério Público do Trabalho, entre outras, como um
mecanismo de instrumentação para a implementação
8. INSTRUMENTOS DE PROTEÇÃO E COMBATE AO de políticas de erradicação do trabalho infantil, em to-
TRABALHO INFANTIL NO BRASIL das as unidades federadas.
De acordo com Neide Castanha:
O Brasil possui uma rede composta por órgãos aos
quais se atribui a competência para fiscalizar e comba- O Fórum de Erradicação do Trabalho Infantil é
ter o trabalho infantil e dentre eles o trabalho infantil um espaço quadripartite com o objetivo principal,
doméstico. São eles: os Conselhos Tutelares (arts. 101, na sua criação, de atuar como instância aglutina-
129 e 131 do ECA); a Superintendência Regional do Traba- dora e articuladora de todos os agentes nacionais,
lho e Emprego – SRTE/MPE (Instrução Normativa n. 77 de para contribuir na identificação dos problemas e
03.06.2009); o Ministério Público Estadual e o Ministério elaborar estratégias de superação em direção a er-
Público do Trabalho; o Poder Judiciário; e o Fórum Na- radicação do trabalho infantil.(53)

(50) Idem, ibidem, p. 238.


(51) OIT, 2003a, p. 231.
(52) MEDEIROS NETO, Xisto Tiago; MARQUES, Rafael Dias. Manual de Atuação do Ministério Público na Prevenção e Erradicação
do Trabalho Infantil/Conselho Nacional do Ministério Público. Brasília: CNMP, 2013. p. 83 Em linha] [Consult. 30 out. 2015].
Disponível em: <https://www.mprs.mp.br/areas/infancia/arquivos/manual_erradicacao_trab_infantil.pdf>.
(53) CASTANHA, Neide. Políticas sociais e oferta institucional frente o trabalho infantil doméstico. Brasília: OIT, 2002. p. 21.

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O FNPETI contribuiu, como uma de suas funções perniciosa que resiste neste milênio. Segundo a orga-
principais, para a criação dos Fóruns Estaduais de Erra- nização Walk Free Foundation, são quase 30 milhões
dicação do Trabalho Infantil, como instâncias descen- de trabalhadores escravizados no mundo, sendo, por
tralizadas de acompanhamento e controle das ações exemplo, 14 milhões de escravizados na Índia, 3 mi-
de erradicação do trabalho infantil em suas áreas de lhões na China, 2 milhões no Paquistão, 173 mil em
alcance.(54) Moçambique, quase 50 mil escravizados no Brasil e,
Em um estudo feito pelo FNPETI, entre os anos de surpreendentemente, até em Portugal detectou-se a pre-
1992 a 2013, foi constatada redução do trabalho in- sença de 1.368 escravizados, principalmente nas áreas
fantil no país em 59%, ou seja, houve a diminuição de agrícolas alentejanas, segundo a Autoridade para as
7,8 milhões de trabalhadores menores, em 1992, para Condições de Trabalho – ACT.(57)
3,2 milhões, em 2013. Importante ressaltar que nos úl- Há de fato uma ameaça real à liberdade de ir e
timos anos a diminuição foi proporcionalmente ainda vir de trabalhadores em várias partes do mundo, apesar
maior, pois apenas entre 2012 e 2013 a diminuição foi de ter tantos direitos previstos na legislação. A preca-
de 10,6%.(55) rização do trabalho é uma infeliz realidade crescente;
Após a análise dos números, podemos concluir a submissão do trabalhador a quaisquer condições la-
que houve avanço no combate ao trabalho infantil, mas borais decorre da necessidade da percepção do salário
ainda precisa ser maior. Josiane Rose Petry Veronese e para sua sobrevivência. Ademais, a quantidade de um
André Viana Custódio, afirmam que: exército industrial de reserva ainda gera extrema rotati-
vidade de mão de obra.
O Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação
do Trabalho Infantil tem oferecido uma contribuição Verifica-se que o tráfico de trabalhadores e sua ex-
integrada para ações nesse campo, promovendo a ploração em condições degradantes e escravagistas viola
mobilização interinstitucional para a erradicação diretamente três convenções da OIT. Inicialmente, as Con-
do trabalho infantil doméstico, sensibilizando a venções n. 29 e 105, que tratam da abolição do trabalho
comunidade, valorizando as oportunidades de forçado, convenções firmadas em 1930 e 1957, respecti-
desenvolvimento da criança e do adolescente e vamente. Fere, também, a Convenção n. 87, que trata da
exigindo políticas efetivas para a erradicação do liberdade do trabalhador dentro do prisma sindical.
trabalho infantil, consubstanciando-se na maior A Constituição da República Portuguesa, no art. 1º,
conquista de articulação interinstitucional dos garante a dignidade de pessoa humana e traz no art. 9º,
anos 1990, que foi enraizada nos Estados e muni- b, dentre as tarefas fundamentais do estado, a regra de
cípios brasileiros, vindo a alterar, definitivamente, garantir os direitos e liberdades fundamentais.
todo o panorama das possibilidades de desenvol- O art. 1º da Constituição da República brasileira
vimento infanto juvenil no Brasil.(56) traz norma semelhante quando diz que “a República Fe-
Percebe-se, enfim, que o FNPETI foi criado com o derativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos
intuito de reunir todos os órgãos e setores da sociedade Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se
preocupados com a questão da exploração do trabalho em Estado Democrático de Direito e tem como funda-
infantil e com a proteção dos direitos da criança e do mentos a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa
adolescente, de modo que possam em conjunto, encon- humana; os valores sociais do trabalho e da livre inicia-
trar soluções efetivas, erradicando definitivamente o tra- tiva; o pluralismo político”.
balho infantil no país. O art. 5º da CF diz que “todos são iguais perante
a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
9. TRABALHO ANÁLOGO AO DE ESCRAVO: UMA -se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
FERIDA RESISTENTE País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos da
Nesses tempos iluminados da pós-modernidade, Constituição”.
milhões de pessoas ainda são impiedosamente explora- O art. 159 do Código Penal português define es-
das em vários países. O trabalho escravo é uma nódoa cravidão como crime punido com pena de prisão de 5

(54) Idem.
(55) FNPETI – Fórum Nacional de Prevenção d Erradicação do Trabalho Infantil. [Em linha] [Consult. 20 out. 2015]. Disponível em:
<http://www.fnpeti.org.br/arquivos//biblioteca/6e6bf236785a60269ee1ff78339c9fc9.pdf>.
(56) VERONESE, Josiane Rose Petry; CUSTÓDIO, André Viana. Trabalho Infantil Doméstico no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 232.
(57) Disponível em: <http://expresso.sapo.pt/portugal-tem-cerca-de-1400-escravos=f836289>.

— 107 —
a 15 anos nas hipóteses de (a) reduzir outra pessoa ao de 1 mês a 1 ano, e multa, além da pena corresponden-
estado ou à condição de escravo ou (b) alienar, ceder ou te à violência.
adquirir pessoa ou dela se apossar com a intenção de O crime de Atentado contra a liberdade de con-
manter na situação. trato de trabalho e boicotagem violenta está previsto no
Em consonância com as convenções internacio- art. 198 do Código Penal, como “constranger alguém,
nais mencionadas o Código Penal brasileiro, também mediante violência ou grave ameaça, a celebrar con-
tipifica os “crimes contra a organização do trabalho” a trato de trabalho, ou a não fornecer a outrem ou não
partir do art. 197. O Código Penal trata ainda de outras adquirir de outrem matéria-prima ou produto industrial
formas atentatórias ao trabalho que não estão incluídas ou agrícola”. A pena é de detenção, de 1 mês a 1 ano, e
no capítulo contra a organização do trabalho, mas em multa, além da pena correspondente à violência. O ter-
outras passagens legais. mo boicote deriva do nome do capitão inglês Charles
No Brasil, o crime de “Redução a condição aná- C. Boycott, que era gerente de propriedades na Irlanda
loga à de escravo” está incluído entre os crimes contra e que, em 1880, causou revolta geral em seus trabalha-
a liberdade individual, previsto no art. 149 do Código dores por causa do rigor excessivo que dispensava aos
Penal; e que lá está tipificado como “reduzir alguém a empregados. Depois disso ninguém aceitou mais traba-
condição análoga à de escravo”, sendo crime contra a lhar para ele, vender ou comprar os seus produtos. O
liberdade pessoal. capitão foi obrigado a transferir-se para outra cidade(58).
A assinatura falsa de CTPS tipifica o crime de falsi- Cabem a transação e suspensão condicional do proces-
ficação de documento público, previsto no art. 297 do so. O objeto jurídico é a liberdade do trabalho tanto
Código Penal, quando diz: “Falsificar, no todo ou em do empregado como do empregador. Duas condutas
parte, documento público, ou alterar documento públi- são criminalizadas: a) obrigar o empregado a trabalhar
co verdadeiro” e estipula pena de reclusão, de 2 (dois) a para alguém; b) boicotar a atividade econômica do em-
6 (seis) anos e multa. O § 1º menciona que se o agente é pregador. Boicotar com o sentido de isolar ou arruinar
funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se uma atividade, fazendo com que lhe sejam cortados
do cargo, aumenta-se a pena de sexta parte. O § 2º diz os meios, suprimentos, créditos, clientes ou relações.
que para os efeitos penais, equiparam-se a documento O crime consuma-se com a celebração do contrato de
público o emanado de entidade paraestatal, o título ao trabalho forçado na primeira figura ou com o não forne-
portador ou transmissível por endosso, as ações de so- cimento ou não aquisição de matéria prima na segunda
ciedade comercial, os livros mercantis e o testamento figura.
particular. O § 3º coloca que nas mesmas penas incorre A frustração de direito assegurado por lei trabalhis-
quem insere ou faz inserir “na folha de pagamento ou ta também é tipificada como crime no Brasil, no art. 203
em documento de informações que seja destinado a fa- do CP, por frustrar, mediante fraude ou violência, direito
zer prova perante a previdência social, pessoa que não assegurado pela legislação do trabalho, obriga ou coage
possua a qualidade de segurado obrigatório; ou (II) na alguém a usar mercadorias de determinado estabeleci-
Carteira de Trabalho e Previdência Social do empregado mento, para impossibilitar o desligamento do serviço
ou em documento que deva produzir efeito perante a em virtude de dívida; impede de se desligar de serviços
previdência social, declaração falsa ou diversa da que de qualquer natureza, mediante coação ou por meio da
deveria ter sido escrita; e no inciso III, em documento retenção de seus documentos pessoais ou contratuais. A
contábil ou em qualquer outro documento relacionado pena de detenção varia de 1 ano a 2 anos, e multa, além
com as obrigações da empresa perante a previdência da pena correspondente à violência.
social, declaração falsa ou diversa da que deveria ter A Lei n. 9.777, de 29 de dezembro de 1998, au-
constado”. mentou a pena do caput do art. 203 e acrescentou os
O crime de Atentado contra a liberdade de traba- §§ 1º e 2º. É norma penal em branco, que encontra
lho está previsto no art. 197 como “constranger alguém, complementação na Legislação Trabalhista. Sujeito ati-
mediante violência ou grave ameaça a exercer ou não vo pode ser qualquer pessoa, mesmo que não seja em-
exercer arte, ofício, profissão ou indústria, ou a traba- pregado ou empregador. Sujeito passivo é o trabalhador,
lhar ou não trabalhar durante certo período ou em de- até mesmo sem o vínculo formal de emprego. Pune-se
terminados dias, a abrir ou fechar o seu estabelecimento a conduta de frustrar; frustrar pode ser enganar, adiar,
de trabalho, ou a participar de parede ou paralisação de iludir, ludibriar, privar e negar outras ações similares
atividade econômica”. A pena é de detenção, variando através de fraude; a fraude pode ser executada median-

(58) AMÉRICO FÜHRER, Maximillianus Cláudio et al. Direito Penal. São Paulo: Malheiros, 2004. p. 55.

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te simulação, ardil ou engodo, que leva o enganado a quer quantia daqueles; b) não assegura o seu retorno ao
achar que aparentemente a situação está regular. local de origem. O § 2º do art. 207 traz causa especial
O aliciamento para o fim de emigração é punível de aumento da pena: a) sendo a vítima menor de 18
no Brasil segundo o art. 206 do CP por recrutar traba- anos; b) idosa; c) gestante; d) indígena; ou, e) portadora
lhadores, mediante fraude, com o fim de levá-los para de deficiência física ou mental, aumenta-se a pena de
território estrangeiro. A pena é de detenção, de 1 a 3 um sexto a um terço.
anos e multa. Sujeito ativo é qualquer pessoa. O objeto Verifica-se, portanto, que existe um vasto arcabou-
jurídico é o interesse na permanência dos trabalhadores ço legislativo acerca do tema no país.
no país. Cabe suspensão condicional do processo, con-
forme art. 89, da Lei n. 9.099/1995. 10. A ARTICULAÇÃO INTERINSTITUCIONAL
Da mesma forma, é tipificado como crime o ali- CONTRA O TRÁFICO DE TRABALHADORES NO
ciamento de trabalhadores de um local para outro do BRASIL
território nacional. Diz o art. 207 do Código Penal:
O filósofo Tzvetan Todorov aposta que sempre
Art. 207 – Aliciar trabalhadores, com o fim de levá-los acreditou que a liberdade era um dos valores funda-
de uma para outra localidade do território nacional: mentais da democracia, mas fica perplexo quando vê o
Pena – detenção de 1 a 3 anos, e multa. mau uso da palavra liberdade por grupos autoritários e
§ 1º Incorre na mesma pena quem recrutar trabalhado- reacionários, o que desvirtua por completo seu sentido,
res fora da localidade de execução do trabalho, dentro como fazem vários partidos xenófobos na Europa(59).
do território nacional, mediante fraude ou cobrança de Liberdade é algo inato ao ser humano. O “Atlas
qualquer quantia do trabalhador, ou, ainda, não assegu- do Trabalho Escravo no Brasil” é um projeto da organi-
rar condições do seu retorno ao local de origem.
zação civil “Amigos da Terra – Amazônia Brasileira”(60),
§ 2º A pena é aumentada de 1/6 a 1/3 se a vítima é me- com apoio da Organização Internacional do Trabalho –
nor de 18 anos, idosa, gestante, indígena ou portadora OIT, e realizado por pesquisadores da Universidade de
de deficiência física ou mental. São Paulo – USP(61). Trata-se de um abrangente estudo
publicado em 2013, que cruza diversos indicadores so-
O objeto jurídico é o interesse na proteção ao êxo-
ciais, como atividade econômica, renda per capita, taxa
do de trabalhadores. A Lei n. 9.777, de 29 de dezembro
de pobreza, índice de desenvolvimento humano (IDH),
de 1998, aumentou a pena do caput e acrescentou os
local de nascimento etc., para elaborar os chamados
§§ 1º e 2º. Cabe suspensão condicional do processo. O
“Índice de Probabilidade de Trabalho Escravo” e o “Ín-
art. 206 trata de reunir trabalhadores, mediante fraude,
dice de Vulnerabilidade ao Aliciamento”(62). A análise
para levá-los para o exterior. Já o art. 207 a ação é se-
dos dados comprovam que 80% dos trabalhadores que
melhante (aliciar, angariar, atrair), mas, independe de
foram escravizados antes foram trabalhadores infantis,
fraude, e tem o fim de levá-los a outro ponto do pró-
que ingressaram precocemente no mundo do trabalho,
prio país, desde que distante da moradia dos mesmos.
sem formação educacional ou profissional adequada.
Pune-se também o recrutamento mediante cobrança de
qualquer quantia pecuniária do trabalhador, ou, sem a A articulação interinstitucional entre autoridades
segurança do retorno dos aliciados ao respectivo local trabalhistas no Brasil é exemplar para tentar romper o
de origem. (art. 207, § 1º). Se há promoção ou facilita- abismo entre o garantismo legal e a realidade brutal da
ção de saída de mulher que vá exercer a prostituição no exploração do trabalho humano.
estrangeiro incorre o autor no tipo do art. 231-CP, agra- Em 2009, no Brasil, foi criado o GAETE – Grupo
vado pela violência, grave ameaça ou fraude (§ 2º). Se Interinstitucional de enfrentamento ao trabalho escravo,
o fim é outro, pode restar tipificado o art. 171 do nosso composto por representantes da Justiça do Trabalho, Mi-
Diploma Penal. O § 1º do art. 207 equipara à conduta nistério Público do Trabalho e Ministério do Trabalho e
do caput a do agente que: a) recruta trabalhadores fora Emprego dos Estados do Maranhão, Pará, Piauí e Mato
da localidade de execução do trabalho, dentro do ter- Grosso. A ideia era planejar e articular ações integra-
ritório nacional, mediante fraude ou cobrança de qual- das entre as instituições que estão na linha de frente na

(59) TODOROV, Tzvetan. Os inimigos íntimos da democracia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 12.
(60) Disponível em: <http://www.amazonia.org.br>.
(61) Disponível em: <http://www.amazonia.org.br/2012/04/primeiro-atlas-do-trabalho-escravo-traz-ferramenta-de-prevenção-para-
-as-empresas/>.
(62) Disponível em: <http://www.amazonia.org.br/wp-content/uploads/2012/05/Atlas-do-Trabalho-Escravo.pdf>.

— 109 —
prevenção e repressão ao trabalho escravo contemporâ- larga população que serve de reserva industrial, ficam
neo. Foram realizadas reuniões presenciais em cidades vulneráveis à ação dos aliciadores de mão de obra, co-
com grande incidência de exploração escravagista, co- nhecidos pejorativamente como ‘gatos’, que vão desde
mo e Açailândia (MA) e Marabá (PA), onde o mentor do longe recrutá-los. Não à toa sempre há a possibilidade
projeto era o juiz Jônatas Andrade. de encontrar codoenses entre os resgatados do trabalho
O surgimento do GAETE decorre de fatos históri- degradante na lavoura de Mato Grosso, Goiás, Minas
cos, como o ocorrido em março de 2002, quando o ou nas obras de construções em São Paulo, como os
Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho vitimados no desmoronamento de um galpão na zona
e Emprego localizou e libertou cinquenta e três pessoas leste da capital paulista em 2013.(64)
que eram mantidas como escravos na fazenda Caraíbas, Em Codó, em novembro de 2012, representantes
de propriedade do deputado federal Inocêncio de Oli- da Justiça do Trabalho, Ministério Público do Trabalho
veira (PL-PE), no município de Gonçalves Dias, no Es- e Ministério do Trabalho e Emprego, com a presença
tado do Maranhão. Os trabalhadores eram, em maioria, inclusive do Procurador Geral da Justiça do Trabalho,
provenientes do Piauí, Estado com alto índice de expor- desenvolveram uma frente ampla contra o trabalho es-
tação de mão de obra “escrava”, a exemplo do Mara- cravo, na chamada “Caravana da Liberdade”. Foi uma
nhão. Mesmo tendo o deputado vendido a propriedade iniciativa do Tribunal Regional do Trabalho da 16ª Re-
alguns meses depois, ele foi incluído na chamada “lista gião (MA), Ministério Público do Trabalho do Maranhão
suja”, que reúne empregadores condenados por uso de e SRTE, para verificar in loco as condições de trabalho
mão de obra escrava. Por esse motivo, entre novembro e oferecer perspectivas para a população local sobre o
de 2003 e novembro de 2005, ele não pôde receber cré- trabalho escravo e degradante. Foi estabelecida uma
dito de bancos e agências públicas de financiamento. parceria com as secretarias estaduais de Direitos Hu-
manos e Cidadania, do Trabalho e Economia Solidária
Uma ampla discussão judicial foi iniciada pelo Mi-
e da Igualdade Racial, INCRA, PROCON, Defensoria
nistério Público do Trabalho a partir daqueles fatos. Em
Pública, SINE, SENAC, SENAI, Banco do Brasil, Polícia
07 de fevereiro de 2006, o Tribunal Regional do Traba-
Rodoviária Federal, Centro de Referência em Saúde do
lho da 16ª Região (MA) confirmou a condenação im-
Trabalhador (CEREST) e as organizações não governa-
posta ao deputado no processo n. 611/2002, conforme mentais ONG PLAN e Repórter Brasil. A ativa partici-
dito na sentença do Juiz Manoel Lopes Veloso Sobri- pação de ONGs como o CDVDV-DH (Centro de defesa
nho, da Vara do Trabalho de Presidente Dutra (MA). O da vida e dos direitos humanos Carmen Bascaran), de
TRT 16 tornou-se então o primeiro tribunal brasileiro a Açailândia – MA, reforçaram o conceito multicultural
condenar um parlamentar em danos morais e materiais da iniciativa.
pela prática de exploração de trabalho escravo contra
Durante a “Caravana da liberdade” foram realiza-
seus trabalhadores, com valores em torno de R$ 300
das palestras, mesas redondas sobre trabalho escravo
mil. O simbolismo dessa decisão da Justiça do Trabalho
e trabalho infantil, além de oficinas, cursos de capa-
impressiona, principalmente, por romper o chavão de
citação, emissão de Carteira de Trabalho e Previdência
que o Judiciário brasileiro é tolerante com atos assim,
Social (CTPS), emissão de CPF, emissão de carteira de
notadamente quando praticados por poderosos(63).
identidade, registro de nascimento gratuito, recebimen-
Codó é uma cidade do Maranhão com cerca de to de reclamações trabalhistas, orientação jurídica,
100 mil habitantes, com pequena atividade industrial filmes e vídeos, e distribuição de material educativo.
representada por uma fábrica de cimento e outra de A ideia básica da caravana era promover a cidadania
produtos químicos para limpeza, mas insuficientes para e consolidar ações de combate ao trabalho escravo e
permitir emprego a todos os que estão em idade labo- infantil.
rativa. O largo entorno rural adquire assim papel rele- A então presidente do TRT-MA, desembargadora
vante, mas os latifúndios improdutivos impedem que a Ilka Esdra Silva Araújo, resumiu bem o sentimento dos
pequena produção rural familiar seja meio suficiente integrantes da caravana:
para gerar renda na região. Resta a alternância entre o
emprego público, o desemprego e a migração para as Não basta, tão somente, as instituições aplica-
capitais do Maranhão, Piauí ou as de outros estados. rem medidas punitivas e coercitivas aos explora-
Codó e seu município vizinho de Timbiras, ambos com dores da mão de obra humana, mas, sobretudo,

(63) Por sua vez, o Supremo Tribunal Federal arquivou em março do mesmo ano de 2006 a denúncia penal contra o parlamentar,
acusado agora pelo crime de reduzir trabalhador a condições análogas à de escravo em sua fazenda.
(64) FARIAS, James Magno Araujo. De Caraíbas a Codó. Revista do TST, Brasília, ago. 2014.

— 110 —
manter um programa de cooperação eficaz e uni- Outra informação importante é que segundo a pes-
ficado, para fomentar o desenvolvimento socioe- quisa “as ocorrências de libertação de trabalhadores lo-
conômico dos grupos sociais mais suscetíveis ao calizadas no Estado do Pará, oeste da Bahia, Tocantins e
aliciamento e à escravização moderna. Maranhão incidem principalmente em regiões onde há
predominância de atividade agropecuária.”(68)
Para a desembargadora Ilka Esdra, o restabeleci-
Frise-se que expressiva população maranhense
mento de um sistema de trabalho digno e o cumprimen- ainda reside na zona rural, muitas vezes tendo como
to da legislação trabalhista importa, necessariamente, única opção de trabalho o setor agropecuário. De igual
em educação e resgate da cidadania. Quando os órgãos modo, também se constatou que o interior do Estado é
públicos unem-se e passam a trabalhar sincronizados, uma área em que a presença da Justiça do Trabalho, em
harmonicamente, as chances de efetividade das políti- termos absolutos e proporcionais, ainda é muito redu-
cas públicas aumentam consideravelmente. O projeto zida, com apenas 16 varas. E é notório que a presença
Caravana da Liberdade é um exemplo da união de todas da Justiça do Trabalho diminui o descumprimento de
as esferas do poder público e de representantes de orga- normas básicas na região onde está sediada.
nizações não governamentais, trabalhando em prol de Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o
um objetivo comum. A presidente explicou que a pro- Brasil teve 46.478 trabalhadores libertados em condi-
posta inicial da sua gestão no TRT era pela implantação ções análogas à de escravos desde o ano de 1995, quan-
do projeto “Educar para a Liberdade”.(65) do os grupos móveis de fiscalização passaram a atuar no
A realização da caravana revela a importância da país. Em 2013, foram resgatadas 2.063 pessoas. Dados
presença do Estado na região para mostrar que existe a do MTE mostram que nos últimos cinco anos é o estado
preocupação com a situação socioeconômica do mu- de Minas Gerais, surpreendentemente, que lidera o ran-
nicípio, desvelada por uma pobreza endêmica, que, king de trabalhadores libertados e de trabalhadores ali-
por sua vez, leva a uma grande oferta de mão de obra ciados. Minas Gerais teve 2 mil pessoas resgatadas entre
precarizada. O SENAC ofereceu cursos de formação 2009/2013. Em segundo está o Pará, com 1.808 traba-
profissional que devem gerar ocupações para pessoas lhadores libertados, sucedido por Goiás (com 1.315),
da comunidade, criando uma política positiva no mu- São Paulo (com 916) e Tocantins (com 913).
nicípio ao realizar ações que modifiquem a realidade Quanto à origem dos trabalhadores libertados, Mi-
sócio-trabalhista da comunidade local. nas também é o principal estado de origem. De acordo
A boa articulação interinstitucional gerou bons com o MTE, 1.643 trabalhadores foram aliciados pe-
desdobramentos. los terríveis “gatos” no Estado do Sudeste. O Maranhão
aparece logo atrás, como origem de 1.641 pessoas res-
Infelizmente, o Estado do Maranhão é um dos
gatadas. Depois vem o Pará (com 1.395), Bahia (com
“campeões” dessa vergonha social, tanto como ex- 1.325) e Goiás (com 775).
plorador de mão de obra escrava e degradante em seu
território, mas, principalmente, como “exportador” de Flávia Gotelip, coordenadora do Programa de En-
frentamento ao Tráfico de Pessoas da Secretaria de De-
trabalhadores para outras partes do país. O estudo em
fesa Social de MG, diz que ‘o alto número de resgates
análise também faz menção expressa à relação entre
no estado é decorrente do empenho em acabar com a
baixos indicadores sociais e vulnerabilidade à escra-
prática. Há uma força-tarefa, envolvendo a sociedade
vidão, destacando a situação do Maranhão, com seu
civil organizada, com forte atuação dos sindicatos, e ór-
baixo IDH.(66)
gãos públicos como o Ministério do Trabalho, o Minis-
Não por acaso, entre os 20 municípios do país tério Público do Trabalho e o Ministério Público Federal,
apontados com o maior “Índice de Vulnerabilidade ao com o apoio das polícias, que faz com que o número de
Aliciamento” pelo Atlas, 11 (onze) são maranhenses denúncias seja grande e o de operações também. Flá-
(Centro do Guilherme, Belágua, Santo Amaro do Ma- via Gotelip diz que há um trabalho conjunto de várias
ranhão, Paulino Neves, Lagoa Grande do Maranhão, secretarias para tentar evitar que essas pessoas sejam
Araioses, Cantanhede, Presidente Juscelino, Matões do submetidas a condições degradantes de trabalho, espe-
Norte, Brejo de Areia e Governador Newton Bello.(67) cialmente nas regiões de grande vulnerabilidade, como

(65) Disponível em: <http://www.trt16.jus.br/site/index.php?noticia=28804>.


(66) Atlas do Trabalho Escravo no Brasil, 2013. p. 34/35.
(67) Atlas do Trabalho Escravo no Brasil, 2013. p. 69.
(68) Atlas do Trabalho Escravo no Brasil, 2013. p. 37.

— 111 —
no norte do estado. Ela afirma: “se não houver uma ação Ironicamente, Caraíbas (o mencionado caso judi-
articulada para somar esforços públicos e reinserir esses cial que entrou para os anais da Justiça do Trabalho) era
trabalhadores, o risco de reincidência é muito grande. o nome dado aos povos indígenas das Pequenas Anti-
Por isso, é preciso um trabalho que rompa barreiras de lhas, que depois deram seu nome ao mar do Caribe. Es-
territórios, para acabar com o ciclo de violações reite- tavam entre os habitantes pré-colombianos que tiveram
radas de direitos humanos.”(69) violadas suas vidas pelos conquistadores europeus, a
Uma reivindicação para combater a prática é a exemplo do que ocorre com os escravos contemporâ-
aprovação do projeto de emenda constitucional do Tra- neos no Brasil.
balho Escravo, que prevê que as propriedades rurais e Conclui-se, portanto, que além de uma tutela ju-
urbanas, nas quais haja exploração de trabalho escravo, dicial rigorosa, independente e rápida como a que vem
sejam expropriadas e destinadas à reforma agrária e a sendo prestada pela Justiça do Trabalho, deve continuar
programas de habitação popular. a existir também uma atuação preventiva conjunta do
De fato, a aprovação da PEC do trabalho escravo Ministério do Trabalho com o Ministério Público, a fim
pode ter efeito pedagógico importante para reduzir a de evitar e reparar uma mazela social tão daninha quan-
exploração do trabalho humano. E, acima de tudo, será to os crimes mencionados alhures contra a liberdade do
uma educação básica forte que impedirá que as som- trabalhador.
bras da ignorância continuem mantendo na pobreza
tantos seres humanos. 11. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Elizabete Flores, da Comissão Pastoral da Terra, diz
A exploração do trabalho humano no Brasil está
não acreditar, entretanto, que a proposta passe ainda
enraizada em razão de fatores históricos apoiados por
em 2014. “É ano eleitoral. E como os ruralistas querem
práticas jurídicas, sociais e culturais que de maneira
mudar o conceito de trabalho escravo, tirando a ques-
conjunta contribuem para a manutenção dessa condi-
tão das condições degradantes, não vão querer ir pro
ção de exploração.
embate. No ano passado houve várias mobilizações,
entidades foram para o Congresso”(70) Há muitas dificuldades em combater e erradicar o
trabalho infantil, pois o combatente se depara com va-
Nota-se que inicialmente o trabalho escravo esteve
lores culturais rígidos, nos quais a sociedade trata esse
associado ao trabalho no campo, mas essa realidade es-
tipo de trabalho como algo natural, e por outro lado a
tá mudando. Dados da CPT mostram que, em 2013, pe-
necessidade de sobrevivência não permite outra possi-
la primeira vez o número de libertações na área urbana
bilidade para aquela criança.
foi maior que o da área rural. Aponta-se como um dos
motivos o volume de grandes obras no Brasil, que tem A cultura da valorização do homem pelo trabalho
atraído trabalhadores de outros países, principalmente foi constituída a partir de práticas políticas e jurídicas
do Haiti, China, Coréia do Norte, Peru e Bolívia. mediante formas peculiares como a repressão à vadia-
gem e a imposição do trabalho moralizador. Essa tradi-
A tragédia do trabalho precarizado e escravo ur- ção é outro fator que dificulta na repressão desse tipo
bano assombra agora não apenas os trabalhadores bra- de mão de obra, sendo necessária a desmistificação de
sileiros, mas também os estrangeiros, por exemplo. O que o trabalho quando iniciado mais cedo é melhor, o que
homicídio covarde em São Paulo do pequeno Brayan pode ser feito por meio de campanhas, e de uma ampla
Capcha, de 5 anos, filho de imigrantes bolivianos, por divulgação pelos meios de comunicação, para que a
bandidos alucinados, em junho de 2013, não nos dei- sociedade possa mudar seu pensamento e perceber que
xam esquecer o lado brutal do Brasil. o trabalho, quando precoce, só traz malefícios à criança
Passados mais de uma centena de anos desde a e ao adolescente.
abolição da escravatura, alguns fantasmas ainda se re- Verifica-se, portanto, que o trabalho infantil não
cusam a sumir do Brasil. A servidão por dívida e a es- é um problema localizado, pois possui raízes culturais
cravidão de trabalhadores, por exemplo. profundas que vêm desde a antiguidade, o que torna
A liberdade deve ser um primado universal, em ainda mais difícil o seu combate. As leis iniciais de pro-
todo o esplendor do significado ético deixado como le- teção a este tipo de trabalho, apesar de estabelecerem
gado pelos que derrubaram o Ancien régime. várias garantias aos trabalhadores menores, não eram

(69) Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/05/brasil-registra-46-mil-trabalhadores-libertados-em-condicao-de-


-escravos.html>.
(70) Idem, ibidem.

— 112 —
respeitadas, e só passaram a ter algum tipo de proteção precocemente jogada ao trabalho torne-se um escravo,
efetiva com a edição de Convenções e Recomendações é uma missão fundamental destas instituições.
da Organização Internacional do Trabalho, quando o Ao tratar do tema de trabalho infantil e escravo
tema ganhou importância mundial. no Brasil o que importa, antes de tudo, é exatamen-
Com a edição dessa norma, o Direito da Criança e te o combate à negação da liberdade, surrupiada por
do Adolescente ultrapassou os modelos anteriormente interesses mesquinhos e econômicos, que vilipendiam
instituídos, fundamentando-se nas críticas em relação almas e corpos sem qualquer limite. Inaceitável é ver
ao modelo institucional fechado de atendimento, à cen- alguém diminuído, ameaçado, molestado ou ter sua
tralização autoritária do controle das políticas públicas, condição humana negada; isso parece fruto do desape-
à judicialização das práticas administrativas, à crise da go secular ao estado jurídico kantiano e próprio do des-
reprodução da desigualdade causada pela dicotomia cumprimento das leis mais básicas de nossa sociedade.
menor x criança, e à maior visibilidade das condições
de pobreza e desigualdade da população. 12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
As causas do trabalho infantil, quais sejam: as eco-
nômicas, as educacionais, as políticas e aquelas que AMÉRICO FÜHRER, Maximillianus Cláudio et al. Direito Penal.
afetam diretamente o desenvolvimento da criança e do São Paulo: Malheiros, 2004. p. 55.
adolescente, ainda são pouco conhecidas pela socie- BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho.
dade, o que proporciona o fortalecimento dos mitos do 9. ed. São Paulo: LTr, 2013.
trabalho infantil. CAMPOS, Marco Antônio Lopes. Proposições jurídicas: fonte
O Direito da Criança e do Adolescente pressupõe de proteção social do trabalho infantil. São Paulo: LTr, 2012.
uma garantia de proteção à criança e ao adolescente CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do Trabalho. 6. ed. Rio de
contra a violação e ameaça aos direitos fundamentais e Janeiro: Impetus, 2012.
contra a exploração do trabalho infantil. CASTANHA, Neide. Políticas sociais e oferta institucional fren-
te o trabalho infantil doméstico. Brasília: OIT, 2002.
A erradicação do trabalho infantil é um processo
lento, pois como foi dito esbarra principalmente nas rea- CAVALCANTE, Jouberto de Quadros Pessoa; JORGE NETO,
Francisco Ferreira. Direito do Trabalho. 8. ed. São Paulo: Atlas,
lidades sociais e culturais de cada comunidade, mas o
2015.
Programa Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil
já demonstra alguns resultados quanto à possibilidade CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultu-
ra e Ação Comunitária. Combatendo o trabalho infantil: Guia
efetiva de afastamento das crianças e adolescentes do
para educadores/IPEC. Brasília: OIT, 2001. ISBN 2-2-811040-6.
trabalho, apesar de ainda está distante da efetiva erradi-
DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de Direito do Trabalho.
cação do trabalho infantil.
12. ed. São Paulo: LTr, 2013.
Sem dúvida, com a instituição de um sistema de
FARIAS, James Magno Araujo. De Caraíbas a Codó. Revista do
garantias de políticas de atendimento, proteção, justiça Tribunal Superior do Trabalho, Brasília, ago. 2014.
e promoção de direitos, em lento processo de imple-
GRUNSPUN, Haim. O trabalho das crianças e dos adolescentes.
mentação no Brasil, será esta o alicerce para a erra-
São Paulo: LTr, 2000.
dicação do trabalho infantil. Levando-se também em
MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 25. ed. São Pau-
consideração a necessidade de adoção de medidas de
lo: Atlas, 2009.
desenvolvimento econômico e social, para melhora-
MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Curso de direito internacio-
mento na distribuição de recursos, garantindo ao cida-
nal público. 4. ed. São Paulo: RT, 2010. p. 54.
dão oportunidades no mercado de trabalho, impedindo
assim que as famílias busquem o trabalho da criança e NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Traba-
lho: história e teoria geral do direito do trabalho: relações
do adolescente como complemento da renda familiar.
individuais e coletivas do trabalho. 27. ed. São Paulo: Saraiva,
Conclui-se que, para que todas essas medidas se- 2012.
jam realizadas com sucesso, é necessária a conjugação OIT – Organização Internacional do Trabalho. Combatendo
de ações entre as organizações governamentais e não o trabalho infantil: Guia para educadores/IPEC. Brasília: OIT,
governamentais, organizações internacionais, sindica- 2001.
tos das empregadas e dos empregadores domésticos, do ________. Uma aliança global contra o trabalho forçado. Re-
Ministério do Trabalho e Emprego, do Poder Judiciário, latório Global do Seguimento da Declaração da OIT sobre
do Ministério Público Estadual, do Ministério Público do os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho. Brasília:
Trabalho, dos Conselhos Tutelares, e da sociedade, para OIT, 2005.
que juntos possam fazer campanhas para o combate, PEREIRA SOBRINHO, Zéu. O Trabalho Infantil: um balanço
identificação e erradicação desse tipo de exploração em transição. Criança Adolescente e trabalho. São Paulo: LTr,
que ainda insiste em existir. Impedir que uma criança 2010. p. 21-44. ISSN 978-85-361-1638-9.

— 113 —
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13. REFERÊNCIAS EM MEIO ELETRÔNICO OIT – Organização Internacional do Trabalho. Boas práticas
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Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ <http://www.amazonia.org.br/wp-content/uploads/2012/05/
L8069.htm>. Atlas-do-Trabalho-Escravo.pdf>.

— 114 —
12

ASSÉDIO MORAL E SEXUAL:


TRATAMENTO PROSPECTIVO DOS CONFLITOS
NO JUDICIÁRIO TRABALHISTA
AMANDA BARBOSA(*)

1. INTRODUÇÃO labor permanece sendo palco de experiências de des-


respeito e lesão da dignidade humana, ainda que por
O sistema de produção econômica e a divisão so- intermédio de diferentes e mais “refinadas” práticas.
cial do trabalho atuais determinam uma relação dire- É que a essência das organizações produtivas não
ta entre a estima social dos indivíduos e sua condição se modificou. Elas seguem reproduzindo as formas
produtiva, sua “parcela de contribuição” para o mode- de desigualdade gerais da sociedade e continuam es-
lo. Os valores meritocráticos do capitalismo e todas as truturadas em relações assimétricas de poder que po-
mazelas que os acompanham são cada vez mais de- tencializam práticas de não reconhecimento alheio.
terminantes na esfera da reputação social, e o trabalho Nesse contexto, se intensificam os riscos de experiên-
não é tomado apenas como meio de sobrevivência, mas cias de desrespeito e sentimento de injustiça que moti-
elemento nuclear da autoestima e autorrealização dos vam lutas que vão muito além da luta econômica por
indivíduos. sobrevivência.
Não é incomum que, desatentamente, identifi- Ações trabalhistas envolvendo malferimento aos
quemos as pessoas, primeiramente, por sua atividade direitos da personalidade, incapacitações de ordem fí-
econômica, antes mesmo do próprio nome. Uma ob- sica e mental motivadas nas condições de trabalho, dis-
servação da experiência cotidiana que muito diz sobre criminação ou simples rescisão inesperada do contrato
como o trabalho transcende o fator econômico ou ju- sem motivação informada, são algumas dessas espécies
rídico. O trabalho é meio de identidade pessoal e se de luta. Conflitos dessa ordem não se resumem à uma
desenvolve permeado por sentimentos, expectativas e pretensão pecuniária, são lutas por reconhecimento.
frustrações. E nesse imbricamento, próprio dos conflitos traba-
Não à toa, ele é objeto de estudo de uma gama lhistas de múltiplas causas e dimensões, que se situa a
extensa de ramos da ciência, como a Sociologia, a Filo- problemática do assédio moral e do assédio sexual no
sofia, a Antropologia, a Psicologia e, também, o Direito. ambiente de trabalho, para os quais a lente restrita do
Aos dois últimos, em particular, vem interessando, de Direito não é suficiente à compreensão. É necessário
modo intenso, a pesquisa e reflexão sobre o impacto investigá-las por caminhos interdisciplinares, visões que
do ambiente de trabalho degradante, sob a perspectiva integrem os elementos culturais, sociais e psíquicos in-
psicossocial, na saúde mental e física dos trabalhadores. cidentes, e que propiciem a mínima noção da comple-
A questão parte de uma realidade triste, a consta- xidade da matéria e suas repercussões.
tação de que em pleno século XXI, e não obstante todos Neste tema, não estamos diante de um simples ina-
os avanços legislativos experimentados, o ambiente de dimplemento de crédito trabalhista, o qual, ainda que

(*) Juíza do Trabalho da 15ª Região. Mestranda em Direito pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto – USP. Professora da Pós-
-graduação em Direito e Processo do Trabalho da Fundação Armando Álvares Penteado e da Escola Superior de Direito.

— 115 —
reprovável, restringe-se (em regra) a um prejuízo patri- Consoante a redação adotada, e tendo-se em vista
monial e reparável. Os danos advindos das práticas ora o princípio da reserva legal, apenas o assédio sexual
destacadas podem ser definitivos, e as compensações a ocorrido no bojo de uma relação de emprego caracteri-
eles direcionadas são quase sempre imperfeitas. Aliás, za o crime do art. 216-A, razão pela qual se diz que, no
poderão ser tão mais imperfeitas quanto mais ortodoxas Brasil, existe apenas assédio sexual laboral. Ademais,
as respostas do Judiciário trabalhista. outras espécies de trabalhador (autônomo, por exem-
É um pouco sobre isso que se destina o presente plo), não estão abrangidos pela norma.
ensaio. De fato, com o veto presidencial ao parágrafo único
do art. 216-A do Código Penal, a viabilidade de punição
2. ASSÉDIO SEXUAL LABORAL criminal do assédio sexual em várias outras situações
concretas foi afastada, o que não significa impossibili-
O assédio sexual pode ser definido como a abor- dade de responsabilização civil com espeque no direito
dagem reiterada a uma pessoa com vistas a obter favores à liberdade sexual e no princípio da dignidade huma-
sexuais para si ou para terceiro, mediante a imposição na. Além disso, defende-se que a prática, no contexto
de vontade por chantagem ou intimidação, configuran- de outras relações, possibilite apenas a configuração de
do lesão ao direito de liberdade sexual do ofendido. outros tipos penais (crime de constrangimento ilegal e
A questão é antiga, mas a seriedade em seu trata- contravenção penal de perturbação da tranquilidade).
mento é relativamente recente. Superando tabus e re- Seguindo a sistematização de Rodolfo Pamplona
sistências culturais, sobretudo a “naturalização” do fato Filho(1), que conceitua o assédio sexual como “toda
quando a prática é dirigida ao gênero feminino (larga conduta de natureza sexual não desejada que, embora
prevalência), a discussão vem tomando corpo na socie- repelida pelo destinatário, é continuadamente reitera-
dade e no Direito hodierno. da, cerceando-lhe a liberdade sexual”, destacamos os
O progresso no tratamento da questão está inti- seguintes elementos característicos do assédio sexual: a)
mamente relacionado à afirmação cada vez maior das Sujeitos: agente (assediador) e destinatário (assediado);
mulheres no mercado de trabalho, às lutas por direito b) Conduta de natureza sexual; c) Rejeição à conduta
de igualdade entre os gêneros e ao reconhecimento do do agente; d) Reiteração da conduta.
direito à liberdade sexual, entendido como o direito à
Quanto aos sujeitos (sendo possível que o assé-
disposição do próprio corpo, e de não ser intimidado ou
dio envolva mais de um agente), dividi-se a figura em:
forçado à prática ou abstenção de ato sexual.
assédio sexual horizontal (trabalhadores de um mesmo
A baixa incidência do assédio sexual de iniciativa grau hierárquico); vertical ascendente (do grupo ou su-
feminina em comparação à masculina, reflete a cultura bordinado para o chefe, situação de identificação mais
discriminatória, patriarcal e machista ainda imperante. rara); vertical descendente (do superior hierárquico para
Não obstante os avanços (em boa parte apenas formais), o subordinado).
já obtidos. Conforme pondera Rodolfo Pamplona Filho,
“desde a antiguidade prevalecia a ideia preconcebida Vale registrar que o assédio sexual horizontal é
de superioridade masculina, em que a mulher era redu- também conhecido como “ambiental”, e o assediador
zida à condição muito próxima de objeto, não somente tanto pode ser um elemento da mesma hierarquia da
sexual, mas também de Direito”, o que apesar de “su- vítima como alguém que não integre a estrutura. O
perado” no mundo do “dever ser” ainda se reproduz no exemplo mais típico desta última modalidade é o assé-
mundo do ser, cotidianamente. dio perpetrado por clientes, e grande discussão há sobre
a possibilidade de responsabilização civil do emprega-
De qualquer sorte, as alterações formais são passos
dor nesta hipótese.
imprescindíveis, e a tipificação criminal da conduta, em
maio de 2001, foi mais um deles. Eis o teor do art. 216-A A nosso sentir, tal responsabilização apenas se reve-
acrescentado ao Código penal pela Lei n. 10.224/2001: la viável quando verificadas condições maximizadoras
do risco direta ou indiretamente pelo próprio empre-
Art. 216-A – Constranger alguém com o intuito de obter gador, circunstâncias que contribuam para a exposição
vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o do trabalhador ao assédio. É o caso, por exemplo, de
agente da sua condição de superior hierárquico ou as- empresas que adotam uniformes insinuantes para suas
cendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou empregadas, agregando a “ideia de sensualidade” (e su-
função. (AC) posta disponibilidade sexual da trabalhadora) aos seus
Pena – detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos produtos e serviços.

(1) PAMPLONA, Rodolfo Filho. O assédio sexual na relação de emprego. 2. ed. São Paulo: LTr, 2011. p. 31.

— 116 —
Apesar de a legislação não ser expressa, é possível de emprego que se tornou global, atravessou fron-
o assédio com vistas à satisfação sexual de outrem. É a teiras, locais de trabalho e grupos ocupacionais
hipótese do assédio do superior hierárquico sobre o (a) porque as novas formas de trabalho, formadas por
empregado (a) visando o benefício de terceira pessoa estruturas de poder desiguais, com objetivos de au-
(cliente ou proprietário da empresa etc.). mento de produtividade, sem que se leve em conta
No que diz respeito à conduta de natureza sexual, os elementos humanos e a pessoa humana como
necessário frisar que se cuida de um conceito aberto e centro e medida de valores, geram estresse e favo-
variável no espaço, demandando apreciação casuística recem a expressão da perversidade.
e valorativa da realidade na qual os fatos ocorreram. A
É neste pano de fundo que observamos o cresci-
pertinência dessa consideração se revela quando reco-
mento da violência moral ou psicológica no ambiente
nhecemos a maior liberdade relacional típica do com-
de trabalho, um verdadeiro instrumento de tortura mo-
portamento brasileiro, cujo modo mais afetivo de agir,
ral que esvazia o trabalho do seu sentido humanístico
em geral, não se confunde com o ilícito em comento.
e engrandecedor, e afeta não só a vítima, mas a sua
Exemplificativamente, tem-se que o assédio sexual po-
família e a sociedade como um todo.
de se caracterizar em comentários sexuais (insinuações,
gracejos), aproximações indevidas, atos de exibicionis- O assédio moral foi adotado como objeto de pes-
mo e de ameaça direta, física ou verbal, com intuito de quisa em 1996, pelo psicólogo do trabalho Heyns Ley-
favores sexuais. mann, o qual, por meio de acompanhamento e estudo
Quanto à rejeição da conduta pelo assediado, essa de vários grupos de profissionais, identificou um proce-
constatação, certas vezes, demanda a manifesta oposi- dimento que denominou psicoterror, cunhando para ele
ção do assediado. Consoante observa Rodolfo Pamplo- o termo mobbing, um derivado de mob (horda, bando
na, o ambiente de trabalho facilita a aproximação dos ou plebe), em razão de refletir condutas similares a um
indivíduos, o que possibilita que desse convívio diu- “ataque grosseiro.”
turno surjam relacionamentos amorosos, frutos “de pai- Mais à frente, a psicanalista Marie-France Hiri-
xões espontâneas”. Assim sendo, o autor pondera que, goyen popularizou a temática e difundiu o termo por
embora não seja essencial para sua caracterização, é meio de seu best-seller: Lê harcèlement moral: la vio-
importante que as pessoas que acreditam estar sendo lence perverse au quotidien (Assédio moral: a violência
objeto de assédio sexual cientifiquem ao presumido as- perversa no quotidiano), sendo um diferencial de sua
sediador de que seu comportamento não é desejado. obra, a discordância das perspectivas de estudo que im-
A despeito do conceito recorrente de assédio se- putavam à vítima parte da culpa pelo assédio, por um
xual invocar, assim como ocorre com o assédio moral, suposto “desejo inconsciente da agressão”.
a reiteração da conduta, entendimentos há, no sentido Ratificando o caráter transdisciplinar do tema, ob-
de um único ato, desde que bastante grave e que denote servamos que as primeiras sistematizações são atribuí-
incisivamente o assédio, também enseja a configuração das à literatura da Psicologia. Atualmente, a questão é
do delito. A redação do tipo corrobora essa conclusão. abundantemente tratada nas obras de Direito e discuti-
da nos espaços de formação jurídica, em razão de sua
3. O ASSÉDIO MORAL repercussão neste campo, sobretudo na esfera do Direi-
to do Trabalho.
Os novos modelos de produção e suas tecnolo- Margarida Barreto(3) em sua dissertação de mestra-
gias, a globalização, a acirrada disputa empresarial e do em Psicologia Social, propõe o seguinte conceito:
as reincidentes crises de desemprego, têm concorrido
para a “renúncia” velada do trabalhador ao ideal de A exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a si-
sadias condições de trabalho, prevalecendo a tentativa tuações humilhantes e constrangedoras, repetitivas
de mera preservação dele. Como registra Marie-France e prolongadas durante a jornada de trabalho e no
Hirigoyen:(2) exercício de suas funções, sendo mais comuns em
relações hierárquicas autoritárias e assimétricas,
Tais mudanças, associadas às várias políticas pú- em que predominam condutas negativas, relações
blicas tendentes a precarizar a relações de traba- desumanas e aéticas de longa duração, de um ou
lho, acabam por aumentar a violência nas relações mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s),

(2) Apud Candy Florêncio Thome em O assédio moral nas relações de emprego. 2. ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 25.
(3) BARRETO, Margarida. Uma jornada de humilhações. São Paulo: FAPESP, PUC, 2000. Disponível em: <http://www.assediomoral.
org>. Acesso em: 04 fev. 2010.

— 117 —
desestabilizando a relação da vítima com o am- que essa forma de assédio se consubstancia “quando há
biente de trabalho e a organização, forçando-o a uma intenção perversa”, sendo essa intenção, de pre-
desistir do emprego. judicar e atingir moralmente uma pessoa, o elemento
que diferenciaria o assédio moral das más condições
Adotamos a identificação do assédio moral pelos de trabalho.(5)
seguintes elementos:
Não obstante ser a tendência da doutrina majoritá-
a) ato agressor que degrade as condições de traba- ria consoante análise de Candy Florêncio Thome, con-
lho: preferimos falar em ato e não em dano. O
cluímos com a referida autora no sentido de se afigurar
ato agressor e o eventual dano (dele resultante)
uma solução mais equânime a de considerar a existên-
não se confundem. Aquele é a própria conduta
cia da intencionalidade implícita quando da ocorrência
(instrumentos de assédio); esse (dano moral, psi-
do assédio moral no trabalho, pois entendimento con-
cológico e até mesmo físico), a consequência.
trário poderia deixar sem proteção situações fronteiriças
Cabe pontuar, desde já, o entendimento pacífico de intencionalidade,(6) além de criar dificuldades para
de que o dano moral não demanda prova, é dano in a prova.(7)
re ipsa, ou seja, decorre e se presume automaticamen-
d) repercussão da conduta abusiva na saúde psico-
te do ato ilícito. Porém, ele se distingue dos possíveis
danos psíquicos advindos dos mesmos atos agressores, lógica e física da vítima: parte da literatura especializa-
os quais, lado outro, demandam prova técnica. Neste da defende que somente se configura o assédio moral
particular, destaca-se a colaboração da Psicologia Clí- quando a vítima desenvolve algum sintoma de estresse,
nica e Psiquiatria, cujos profissionais funcionam como ou outra doença de natureza psicossomática ou mental,
auxiliares da justiça na produção de laudos técnicos. como reação à situação hostil enfrentada.
b) periodicidade e durabilidade: alguns estudiosos Entendemos que esse critério, assim como o da
do tema, entre eles Heinz Leymann, anteriormente cita- intencionalidade, é bastante questionável, pois condi-
do, somente reconhecem o assédio moral se a conduta ciona o reconhecimento do assédio à subjetividade da
abusiva se repetir semanalmente pelo prazo mínimo de vítima. A nosso sentir, a premissa é equivocada, pois tra-
6 (seis) meses. Outros, como Marie-France Hirigoyen, ta uma consequência como critério de reconhecimento
são menos rigorosos, mas, ainda assim, exigem a repe- da causa. As pessoas sentem os fatos de modo diferente,
tição e sistematização dos atos. Considerando a preca- podendo, inclusive, ocorrer a manifestação das conse-
riedade das relações de trabalho no Brasil, não tem sido quências psicológicas quando já findada a violência.
acolhida a ideia de fixação temporal mínima, em que Ademais, a proteção constitucional abrange a in-
pese a exigência de reiteração dos atos para o reconhe- tegridade física, psíquica e moral, sendo absolutamente
cimento do assédio moral.(4) possível, e relativamente comum, que a esfera moral
Portanto, necessária a repetição e uma certa dura- seja atingida pelos atos de assédio, independentemente
ção no tempo. Todavia, para fins jurídicos, a jurispru- do abalo das demais.
dência pátria não tem submetido o reconhecimento Por fim, anote-se que também há entendimento
do assédio a qualquer critério fixo dessa periodicidade no sentido de a intensidade da violência psicológica ser
e projeção temporal, os quais são verificados no caso um requisito de configuração do assédio moral. Mais
concreto e considerados para fins de fixação de indeni- uma vez, ousamos discordar para situar a relevância da
zações (relação com a extensão do dano). “dose” de violência psicológica não entre os requisitos
c) intencionalidade: citada por alguns autores co- de configuração do assédio, mas sim como critério para
mo elemento intrínseco do assédio moral, argumenta-se fixação da indenização.(8)

(4) Registre-se que um único ato em um momento singular é passível de ofender os direitos da personalidade do trabalhador e, por
consequência, ensejar uma reparação por danos morais (independentemente de reiteração da conduta, portanto). Contudo, não
se confundem dano moral e assédio moral. Aquele é a ofensa (que pode ter causas distintas), enquanto esse é uma prática que gera
a ofensa, como já mencionado.
(5) Neste sentido, Marie France Hirigoyen, citada por THOME, Candy Florêncio. O assédio moral nas relações de emprego. 2. ed. São
Paulo: LTr, 2009. p. 42.
(6) Idem, Ibidem, p. 43.
(7) Sem dúvidas, se além dos fatos objetivamente considerados, cuja prova já se revela delicada, for exigido da vítima a prova da
intencionalidade do agente, remota a possibilidade de efetiva reprimenda da prática.
(8) Conforme art. 944, parágrafo único, do Código Civil, “Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá
o juiz reduzir, equitativamente, a indenização” , norma que expressa a relação entre gravidade da conduta (culpa) e indenização,
a ser estabelecida por ocasião do arbitramento indenizatório.

— 118 —
Quanto à finalidade do ilícito, verifica-se que, em Apesar de parcela da doutrina se inclinar a favor da res-
regra, a postura assediadora tem por objetivo o afas- ponsabilidade objetiva em qualquer hipótese, com es-
tamento da vítima do local de trabalho ou a eleição peque nos arts. 2º da CLT(11) e 225, § 3º da CF/88,(12) não
de um “culpado” (o bode expiratório) daquela unidade é esse, porém, nosso entendimento.
laboral, sendo comum, ainda, o seu fundo meramente De fato, relativamente aos assédios verticais des-
discriminatório.
cendentes, comungamos do entendimento pelo qual
A depender de sua origem, o assédio moral é a responsabilidade do empregador é do tipo objetiva,
classificado em vertical descendente (advindo de su- conclusão que decorre do disposto no art. 932, inc. III
perior hierárquico), horizontal (colegas em um mes- c/c 933, ambos do Código Civil, pelos quais:
mo grau hierárquico), vertical ascendente (do grupo
ou subordinado para o chefe, situação de identifica- Art. 932: São também responsáveis pela reparação civil:
ção mais rara), ou misto (assédio horizontal e vertical
(...)
concomitantemente).
Inc. III – o empregador ou comitente, por seus emprega-
A hostilização de um integrante com dificuldades
pessoais que comprometam a produção, situação rela- dos, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que
tivamente comum nos atuais modelos de concorrência lhes competir, ou em razão deles.
(não só entre empresas, mas entre unidades destas e Art. 933: As pessoas indicadas nos incisos I a V do arti-
seus setores), é um exemplo característico de mobbing go antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte,
da espécie horizontal.(9) responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali re-
Essa classificação é relevante no contexto da res- feridos.
ponsabilidade civil, vez que a aplicação do modelo
subjetivo ou objetivo de responsabilidade, a nosso pen- Ocorre que, em se tratando de assédio horizontal,
sar, depende da espécie de mobbing verificado. Cuida- inexistindo a superioridade hierárquica do assediador,
remos da questão no tópico seguinte. entendemos que não há subsunção da circunstância à
norma. Nessas hipóteses, portanto, necessária a per-
3. REPERCUSSÕES JURÍDICAS E PSICOSSOCIAIS quirição de culpa do empregador, seja por omissão
na vigilância, seja pela inércia no restabelecimento da
O assédio moral e o assédio sexual, práticas de- condição sadia de trabalho quando da cientificação so-
gradantes do ambiente de trabalho, geram repercussões bre os fatos.
de ordens diversas à vítima, mas invariavelmente graves Sob a ótica do agente, também são significativas
como depressão, alcoolismo e até mesmo o suicídio(10).
as consequências, tanto na esfera trabalhista como ad-
Ainda que por vezes não observado adequada- ministrativa e cível. Administrativamente, cabe ao em-
mente pelo empregador, a empresa também sente suas pregador, no uso do poder diretivo, valer-se tanto de
consequências. Cite-se, ilustrativamente, as perdas pe-
medidas educativas como treinamentos, campanhas,
cuniárias diretas (como custo do absenteísmo, queda
estabelecimento de canais de comunicação dos fatos,
da produtividade, rotatividade da mão de obra e impu-
tação de responsabilidade civil) e as perdas indiretas, quanto penalizadoras (advertência, suspensão ou de-
dentre as quais o prejuízo para sua imagem social. missão por justa causa por mau procedimento).
No que diz respeito à responsabilização civil, re- Com relação à vítima, destacam-se as consequên-
levante a diferenciação entre assédio moral (e sexual) cias de ordem jurídica(13) (tutelas inibitórias da prática,
vertical descendente, vertical ascendente e horizontal. rescisão indireta, indenização por danos morais, mate-

(9) Sistema de pagamento variável condicionado à produtividade coletiva, disputas pessoais por promoções, bem como a mera in-
tolerância em relação às diferenças (preconceitos, de raça, cor, idade, sexo etc.), são outros exemplos de germe do assédio entre
colegas do mesmo nível hierárquico.
(10) O caso mais emblemático, já divulgado, foi o da empresa de telefonia France Télécom, na qual sessenta empregados se suicidaram
entre 2006 e 2009, depois do anúncio de um plano para reestruturação de seus quadros. Após sete anos de investigação sobre a
onda de suicídios foi aberto processo por assédio moral na Justiça francesa, ainda em curso.
(11) Art. 2º: Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite,
assalaria e dirige a prestação pessoal do serviço. (Grifo nosso)
(12) Pelo qual se impõe (aos infratores) o dever de reparar os danos ao meio ambiente (incluindo o do trabalho), independentemente
de dolo ou culpa.
(13) Considerando que as ações que versam sobre o assédio moral e sexual demandam investigação sobre aspectos relacionados à
integridade psicológica do demandante e sua intimidade, adequado seu processamento sob a proteção do segredo de justiça.

— 119 —
riais e lucros cessantes, obrigações de fazer e não fazer) comuns disfunções fisiológicas originadas da violência,
e também relacionadas à saúde física e psicológica. como insônia, úlceras, cefaleias etc.
Sobre a pretensão de continuidade do vínculo, Apesar da maior dificuldade no estabelecimento
perfilhamo-nos à parcela da doutrina que defende a li- de nexo causal entre danos psíquicos e as condições
beralidade do empregado em decidir pela continuida- de trabalho, essa constatação é possível, sendo o laudo
de ou não do contrato. Decidindo-se pela manutenção médico um dos elementos contributivos, sem prejuízo
do contrato, fazendo uso do seu ius resistentiae, de se de outros elementos de prova. Em relação à perícia, a
entender essa postura como mera decorrência de sua Resolução n. 1488/98 do Conselho Federal de Medici-
necessidade de subsistência, jamais como perdão tácito na, em seu art. 2º, dispõe que:
da falta grave do empregador.
Art. 2º – Para o estabelecimento do nexo causal entre
Neste particular, cumpre indagar, ainda, sobre a os transtornos de saúde e as atividades do trabalhador,
viabilidade de pedidos de suspensão do trabalho, sem além do exame clínico (físico e mental) e os exames
prejuízo do salário, em razão dos riscos advindos do complementares, quando necessários, deve o médico
assédio moral para a saúde do trabalhador. Essa possibi- considerar:
lidade, consta expressamente da Constituição Estadual I – a história clínica e ocupacional, decisiva em qual-
de São Paulo. Seu art. 229 dispõe: quer diagnóstico e/ou investigação de nexo causal;
II – o estudo do local de trabalho;
Art. 229: Compete à autoridade estadual, de ofício ou
mediante denúncia de risco à saúde, proceder à ava- III – o estudo da organização do trabalho;
liação das fontes de risco no ambiente de trabalho, e IV – os dados epidemiológicos;
determinar a adoção das devidas providências para que V – a literatura atualizada;
cessem os motivos que lhe deram causa. VI – a ocorrência de quadro clínico ou subclínico em
§ 2º Em condições de risco grave ou iminente no local trabalhador exposto a condições agressivas;
de trabalho, será lícito ao empregado interromper suas VII – a identificação de riscos físicos, químicos, biológi-
atividades, sem prejuízo de quaisquer direitos, até a eli- cos, mecânicos, estressantes e outros;
minação do risco.
VIII – o depoimento e a experiência dos trabalhadores;
A nosso sentir, há total viabilidade da pretensão IX – os conhecimentos e as práticas de outras disciplinas
em comento, devendo ser despendido o mesmo trata- e de seus profissionais, sejam ou não da área da saúde.
mento diante da configuração de grave risco para a saú-
Ana Parreira, em sua interessante obra Assédio mo-
de, tanto sob o aspecto físico como mental. Ademais,
ral – um manual de sobrevivência, identifica a vítima do
é largamente demonstrado por pesquisas médicas que
assédio moral acometido por patologias (o que também
transtornos psicológicos desencadeiam processos físi-
vale para o assediado sexualmente) como uma vítima
cos de degradação da saúde, cuidando-se, geralmente,
de acidente do trabalho. Defende a autora:(14)
de dois lados de uma mesma moeda. Há interferência
recíproca entre a “saúde da alma” e a “saúde do corpo”. Um diagnóstico de um sofrimento mental, deriva-
Assim, quanto às repercussões psicossociais, tem- do de um acidente de trabalho, deve passar por
-se que os assédios podem desencadear (atuar como revisões periódicas de reavaliação e não deve pe-
causa direta) ou agravar (atuar como concausa) de sar como uma sentença. Sem prejuízo dos seus di-
diversas patologias, as quais, uma vez advindas das reitos quanto à saúde, um funcionário desta forma
condições de trabalho, devem ser enfrentadas como acidentado não possui transtorno, distúrbio, desor-
doenças laborais, surtindo todas as consequências des- dem ou doença. Deve ser visto como um acidenta-
sa configuração. do, uma pessoa normal.
Uma característica particular do assédio moral é Com efeito, se estabelecido o nexo causal entre a
fazer com que o assediado acredite ser aquilo que os patologia de ordem psíquica e as condições de labor, o
agressores propagam: desatento, inseguro, frágil, in- fato deverá ser tratado como acidente do trabalho por
competente etc. Cuida-se de um processo mimético equiparação, gerando, inclusive, o direito à estabilidade
no qual a vítima acaba por reproduzir aquilo que lhe preconizado pelo art. 118 da Lei n. 8.213/1991. Cabe
é atribuído, tanto pela influência psicológica que sofre registrar que o Decreto n. 3048/99, em seu anexo II,
quanto pelo desgaste físico consequente, resultado das que trata dos agentes patogênicos causadores de doen-

(14) PARREIRA, Ana. Assédio moral – um manual de sobrevivência. 1. ed. Campinas: Russel, 2007. p. 138.

— 120 —
ças profissionais ou do trabalho (conforme previsto no efeito anular ou reduzir a igualdade de oportunidade
art. 20 da Lei n. 8.213/91), enumera transtornos mentais ou de tratamento no emprego ou profissão, bem como
e comportamentais relacionados ao trabalho (Grupo qualquer outra distinção, exclusão ou preferência, con-
V-CID-10). forme determinado pelo país-membro que gere o mes-
Anote-se que é comum certa incompreensão quan- mo efeito.
do se pondera a necessidade de prova técnica do dano Portanto, resumidamente, entende-se por discrimi-
nas demandas que envolvam as práticas ora abordadas. nação todo tratamento diferenciado, pelo qual o dis-
Reitere-se que o dano, in casu, não é o dano moral, pois criminado é desvalorizado, inferiorizado, em relação
este se presume dos fatos, é o chamado dano in re ipsa a outras pessoas, tendo atingida sua dignidade. Vale
(pela força dos próprios fatos)(15). O tipo de dano que lembrar, ainda, que são infinitos os motivos ensejadores
necessita de prova técnica é o psíquico-emocional, pois da discriminação. Qualquer motivo tem o potencial de
não raro as circunstâncias adversas de trabalho deixa- ser discriminatório, e não só os relacionados ao gênero,
rem marcas na saúde psíquica das vítimas. raça, origem, idade, necessidades especiais, doenças
ou orientação sexual, comumente citados nas variadas
4. O ASSÉDIO MORAL DE FUNDO legislações (sem embargo da maior presença deles tam-
DISCRIMINATÓRIO. ÔNUS DA PROVA bém no plano fático).
Na legislação brasileira o princípio da não dis-
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, criminação se encontra insculpido na Carta Magna e
datada de 1948, se inicia pelas seguintes disposições: ganha detalhamento em diversas leis, ilustrativamente:
Lei n. 7.853, de 1989 (proibição da discriminação con-
Artigo I: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dig- tra pessoa portadora de deficiência); Lei n. 8.842, de
nidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e 1994 (vedação da discriminação contra o idoso) e Lei
devem agir em relação umas às outras com espírito de n. 9.029, de 1995, a qual proíbe a adoção de “prática
fraternidade. discriminatória, no que concerne ao acesso ou à manu-
Artigo II: Toda pessoa tem capacidade para gozar os di- tenção do emprego, em virtude de sexo, origem, raça,
reitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, cor, estado civil, situação familiar ou idade, com exce-
sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, ção das normas protetivas da criança e do adolescente”.
sexo, língua, religião, opinião política ou de outra na-
Esse último diploma tem especial valor para o Di-
tureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento,
reito e Processo do Trabalho, inclusive na temática ora
ou qualquer outra condição.
discutida. Afinal, o assédio moral no trabalho, não ra-
Todavia, esse ideal permanece um desafio vivo e a ramente, guarda relação com esta cultura discrimina-
cada dia renovado, seja no cotidiano social ou mesmo tória, tendo por motivação a intolerância à diferença,
familiar, seja no mundo do trabalho. A formulação e limitações de produtividade,(16) condições consideradas
adoção de políticas de promoção da igualdade de opor- defeitos, ou mesmo uma qualidade invejada.
tunidades e de tratamento em matéria de emprego e O art. 4º da Lei n. 9.029/1995 prevê que, em caso
profissão, com vistas ao fim das práticas discriminató- de despedida fundada por discriminação, o empregado
rias, também é objeto de preocupação da Organização tem direito a pleitear sua readmissão/reintegração, com
Internacional do Trabalho. Nesse sentido, destaca-se a pagamento integral de todo o período de afastamento,
Convenção n. 111 (ratificada pelo Brasil) que impõe aos acrescido de juros e correção monetária, ou o paga-
signatários a aplicação de políticas neutralizantes dessa mento em dobro referente ao período em que permane-
chaga. ceu afastado, com juros e correção monetária.
Consoante o art. 1º da referida convenção, a discri- Essa possibilidade tem espaço em qualquer cir-
minação compreende toda distinção, exclusão ou pre- cunstância de dispensa discriminatória, e não apenas
ferência, com base em raça, cor, sexo, religião, opinião nas relacionadas no art. 1º, cujo rol é meramente exem-
política, nacionalidade ou origem social, que tenha por plificativo. Ademais, o caput do art. 4º dispõe sobre

(15) Neste particular, cabe mencionar a dificuldade de comprovação dos atos de assédio, sobretudo sexual, geralmente praticados
em âmbito reservado. Assim é que a jurisprudência se tem manifestado no sentido de não ser exigível prova cabal e ocular. São
exemplos de prova colhidos na jurisprudência: bilhetes, mensagens eletrônicas, presentes, relatos de testemunhas e a gravação de
conversas (pelo próprio interlocutor, em que pese a divergência sobre sua licitude).
(16) Ilustrativamente, cite-se a circunstância comum do assédio moral aos empregados que retornam de licenças médicas, perpetrado
tanto por superiores quanto pelos outros empregados, sobretudo nas hipóteses de remunerações pagas com base na produtividade

— 121 —
rompimento da relação de trabalho “por ato discrimi- Contudo, o atual diploma cível inovou introduzin-
natório, nos moldes desta lei”, sem qualquer restrição. do a regra de alternância do ônus de prova em circuns-
Apesar do valor desse diploma, de alto caráter tâncias peculiares. É o que consta dos parágrafos do art.
tutelar do emprego e da igualdade, permanece bas- 373, in verbis:
tante tímido o seu manejo, havendo ampla prevalên- Art. 373, § 1º: Nos casos previstos em lei ou diante de
cia do ajuizamento de ações com fins exclusivamente peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade
indenizatórios. ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos
Ainda que isso possa ser atribuído, em parte, à termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da
fragilidade maximizada do trabalhador atingido pela prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da
dispensa com esta agravante, e seu possível receio de prova de modo diverso, desde que o faça por decisão
“reviver” as agressões no retorno, pensamos que, em fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportu-
parte, pode ser atribuído também à pouca afinidade nidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.
da comunidade jurídica brasileira com o manejo de § 2º A decisão prevista no § 1º deste artigo não pode ge-
ações voltadas às tutelas inibitórias e determinações de rar situação em que a desincumbência do encargo pela
obrigação de fazer e não fazer, por vezes muito mais parte seja impossível ou excessivamente difícil.
eficazes para a transformação de costumes e práticas
Portanto, o CPC de 2015 acolheu a possibilidade
indesejadas.
de flexibilização da regra sobre o ônus da prova, permi-
Outra questão relevante, relacionada à atitude tindo o “remanejamento” do encargo, por decisão fun-
discriminatória no ambiente de labor (assim como aos damentada, de acordo com condições concretamente
assédios sexual e moral que não tenha esse conteúdo), aferidas, a exemplo do que já ocorria no âmbito das
é a do ônus da prova e da não rara dificuldade do tra- relações consumeristas.
balhador para a demonstração judicial das agressões. De se notar, no entanto, que a norma se limitou aos
A instrumentalidade do processo impõe que sejam requisitos da previsão legal e da hipossuficiência técni-
seus institutos concebidos em conformidade com as ca, descrita in casu como dificuldade para a produção
necessidades do direito substancial, e que suas normas da prova, ou, ainda, maior aptidão da outra parte para a
sejam interpretadas visando a efetivação dos direitos produção da prova contrária.
fundamentais discutidos. Sua eficácia mede-se por sua A nosso sentir, no campo da relação processual
utilidade para o ordenamento jurídico material e para a civil, não se encontra autorizada a fixação alternativa
pacificação social. Nesse contexto, a leitura tradicional do ônus probatório em razão da verossimilhança da ale-
e inflexível, tanto do art. 818 da CLT quanto do art. 373 gação, como expressamente consignado no art. 6º, inc.
do CPC, se revela incompatível com o caráter tuitivo e VII, do Código de Defesa do Consumidor (CDC), haven-
garantista do processo do trabalho. do espaço, no entanto, para a aplicação subsidiária de
O art. 373 do atual diploma processual civil man- ambos os diplomas ao processo laboral.
teve o arquétipo tradicional da distribuição do ônus da Assim, observadas as características da lide, a ve-
prova, vinculando-o à espécie de fato. Reproduziu a rossimilhança das alegações e os indícios apresentados,
norma do art. 330 da lei processual de 1973 que fixava, o standard fixado no art. 818 da CLT poderá ser flexibi-
como norma geral, incumbir ao autor o ônus da prova lizado por decisão fundamentada. Em sentido idêntico,
quanto ao fato constitutivo de seu direito, e ao réu o suscitando, porém, a doutrina estrangeira, Guilherme
ônus relativo “à existência de fato impeditivo, modifica- Guimarães Feliciano(17)já se pronunciou:
tivo ou extintivo do direito do autor”. Ambas são inaptas a regular, de modo absoluto, a
Cuida-se da tipologia clássica, fundada na posi- dinâmica de um processo tão veloz, garantista e
ção das partes e na natureza do suporte fático suscitado tuitivo como é o processo do trabalho, que envol-
por cada uma delas, cujo domínio é fundamental como ve, em via de regra, pretensões vinculadas à viola-
norte da atuação instrutória das partes e do juiz, assim ção de direitos fundamentais. Não por outra razão,
como diretriz para o julgamento. a própria jurisprudência do C.TST encaminha-se

coletiva. A reprimenda ao gozo de auxílio-doença nestes casos se perfaz de modos vários, ora rebaixamento, ora determinação de
comparecimento sem delegação de qualquer tarefa por toda a jornada, e não é instrumentalizada apenas como uma “punição” ao
empregado que se afastou para tratamento, mas também como um alerta aos demais para que “não adoeçam”.
(17) FELICIANO, Guilherme Guimarães. Distribuição Dinâmica do Ônus da Prova no Processo do Trabalho – Critérios e Casuística.
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 32, jan./jun. 2008.

— 122 —
no sentido de relativizar o standard do art. 333/ para o exercício da actividade profissional, devendo o
CPC (Súmulas ns. 212, 338, OJ SDI-1 n. 233 etc.), objectivo ser legítimo e o requisito proporcional.
em conformidade com a característica da lide e o 3. Cabe a quem alegar a discriminação fundamentá-la,
objeto do processo. Daí por que, no processo do indicando o trabalhador ou trabalhadores em relação
trabalho, deve prevalecer a teoria da distribuição aos quais se considera discriminado, incumbindo ao
dinâmica do ônus da prova, a ser sempre racio- empregador provar que as diferenças de condições de
nalmente demonstrada em decisão fundamentada, trabalho não assentam em nenhum dos factores indica-
mas sem as peias dos arts. 818/CLT e 333/CPC (que dos no n. 1. (grifo nosso)
servem, apenas, como modelos residuais).
Vale reiterar que são vastas as hipóteses de pre-
Para tanto, pode-se recorrer a modelos alternati-
sunções favoráveis ao trabalhador no campo proces-
vos já consagrados pela doutrina alienígena, como
sual trabalhista, o que, aliás, demonstra a influência do
as constelações de indícios, a “Anscheinsbeweis”
Princípio Protetivo nesta seara, em que pese a comum
(verossimilhança), as funções mesmas do processo
negativa dessa possibilidade. Neste sentido, citamos as
(princípio da instrumentalidade) e, notadamente,
Súmulas ns. 212 e 338 do TST, bem como a Súmula
a questão dos direitos fundamentais que estão em
n. 443 da mesma Corte, recém-editada, e que cuida da
jogo no processo (ponderação harmônica HESSE).
presunção de discriminação na dispensa do trabalhador
Tal análise é de todo apropriada às demandas que portador do vírus HIV ou de outra doença grave que
denunciam assédio moral no ambiente de trabalho. suscite estigma ou preconceito.
Afinal, como prática que viola o direito fundamental à É o seguinte o teor do verbete:
saúde e não raro fere princípios basilares do Direito (co-
mo a não discriminação), tais demandas requerem uma SÚM-443. DISPENSA DISCRIMINATÓRIA. PRESUN-
condução diferenciada, particularizada, e mais sensí- ÇÃO. EMPREGADO PORTADOR DE DOENÇA GRAVE.
vel, às possíveis dificuldades de prova concreta. ESTIGMA OU PRECONCEITO. DIREITO À REINTE-
GRAÇÃO
Essa deliberação, contudo, será casuística, à luz
dos indícios eventualmente trazidos aos autos, sobre- Presume-se discriminatória a despedida de empregado
tudo quando detectada a ocorrência de uma das “cate- portador do vírus HIV ou de outra doença grave que
gorias suspeitas”, ou seja, trabalhadores correntemente suscite estigma ou preconceito. Inválido o ato, o empre-
gado tem direito à reintegração no emprego.
vitimados. Dentre eles, cite-se não só os integrantes de
minorias, mas também os trabalhadores em relação aos Não ignoramos que por uma grave deficiência do
quais as máximas de experiência informam ser mais Direito pátrio prevalece a interpretação (da qual discor-
comum o tratamento diferenciado (tendente à desesta- damos) de que o empregador tenha o direito potestativo
bilização emocional), como gestantes, beneficiários de de rescisão contratual. Todavia, incontroverso que esse
garantias no emprego, ou afastamentos previdenciários direito encontra limites na dignidade do trabalhador e
etc. não autoriza que a dispensa ocorra por motivo vil e antiju-
Inclusive, essa é a construção que já se encontra rídico, muito menos discriminatório. Neste sentido, a Lei
expressamente prevista em alguns ordenamentos aliení- n. 9029/1995, já citada, expressamente proíbe a dispensa
genas. Ilustrativamente (e em específico quanto às ações em razão do sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação
que discutem discriminação), cite-se o art. 23 do Códi- familiar ou idade, rol exemplificativo das variadas posturas
go do Trabalho Português, pelo qual: discriminatórias possíveis no contexto laboral.
Art. 23º Portanto, considerado o antigo adágio romano pe-
lo qual onde se verificar a mesma razão, deve haver o
1. O empregador não pode praticar qualquer discrimi-
mesmo direito (ubi eadem ratio, ibi idem jus), de se con-
nação, directa ou indirecta, baseada, nomeadamente,
na ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado
cluir pela aplicação do mesmo entendimento estampa-
civil, situação familiar, património genético, capacida- do no verbete sumular em hipóteses outras de dispensa
de de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, por cunho discriminatório.
nacionalidade, origem étnica, religião, convicções polí-
ticas ou ideológicas e filiação sindical. 5. ATUAÇÃO EX OFFICIO DO MAGISTRADO
2. Não constitui discriminação o comportamento basea- TRABALHISTA COMO MEDIDA PEDAGÓGICA E
do num dos factores indicados no n. anterior, sempre DE TRANSFORMAÇÃO CULTURAL
que, em virtude da natureza das actividades profissio-
nais em causa ou do contexto da sua execução, esse Questão delicada e de discussão ainda restrita na
factor constitua um requisito justificável e determinante doutrina e jurisprudência pátria, diz respeito à possibi-

— 123 —
lidade de atuação ex officio do magistrado, sobretudo Para esse desiderato, de grande relevo, o princípio
nas determinações de obrigações de fazer e não fazer da finalidade social, estampado no art. 5º da LICC (Lei
tendentes à modificação da organização empresarial de Introdução ao Código Civil), segundo o qual: “ Na
quando constatada a prática de assédio. aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que
Argumenta-se que a constatação de ambientes de ela se dirige, e às exigências do bem comum”.
trabalho perniciosos, sobre o aspecto tanto da integrida- Da mesma forma, o parágrafo primeiro do art. 852-
de física quanto da segurança emocional e psíquica dos I, celetista, pelo qual “ o Juízo adotará em cada caso a
trabalhadores, requer a adoção de medidas que extra- decisão que reputar mais justa e equânime, atendendo
polem os limites da reparação individualizada. aos fins sociais da lei e as exigências do bem comum”.
Sustenta-se a necessidade de uma atuação jurisdi- Portanto, se de fato constatado o potencial dano-
cional com efetiva aptidão de intervir na organização, so da estrutura organizacional, ainda que em ação de
não só reparando, como prevenindo a reprodução de índole individual, o rigor do princípio dispositivo deve
lesões. Nesse contexto, propícia a conduta proativa do ceder espaço ao princípio da finalidade social. Aliás, a
magistrado, representada na determinação de obriga- legitimidade dessa forma de atuação jurisdicional já se
ções de fazer e não fazer. São exemplos: publicação da encontra positivada em diversas legislações estrangei-
decisão condenatória com reconhecimento da prática ras, valendo lembrar que o Direito comparado também
de assédio (preservado o nome do demandante) em lo- é fonte do Direito do Trabalho pátrio, a teor do art. 8º
cal visível na empresa (em regra, quadro previsto no art. da CLT.
74 da CLT); realização de cursos de capacitação dos Como exemplo, cite-se o direito espanhol, preci-
empregados, sobretudo ocupantes de cargo de confian- samente o art. 50 do Código de Processo do Trabalho e
ça; elaboração e distribuição de informativos sobre a da Seguridade Social, pelo qual:
ilicitude das práticas e suas consequências; estabeleci-
mento de canais de comunicação para denúncias etc. ARTICULO 50 – El juez podrá ordenar el pago de sa-
larios, prestaciones o indemnizaciones distintos de los
Reitere-se que não se está a considerar a prévia for-
pedidos, cuando los hechos que los originen hayan sido
mulação de pedido neste particular, o que, ademais, de- discutidos en el juicio y estén debidamente probados, o
safiaria uma outra análise, a da legitimidade ativa para condenar al pago de sumas mayores que las demanda-
essas formulações em sede de ação individual, sobretu- das por el mismo concepto, cuando aparezca que éstas
do nas causas em que o contrato do vitimado já estivesse son inferiores a las que corresponden al trabajador, de
extinto. O que defendemos é a legitimidade da atuação conformidad con la ley, y siempre que no hayan sido
ex officio, não obstante o rigor do princípio dispositivo pagadas. (grifado)
na tradição do ordenamento brasileiro, alicerçado sobre
as bases do individualismo e das microlesões. No mesmo sentido, albergando o princípio da ul-
Em específico para a Justiça Trabalhista, consi- trapetição para a maior utilidade do provimento juris-
derando que administra uma parcela eminentemente dicional, o art. 74 do Código de Processo do Trabalho
social da jurisdição estatal, de se entender não só per- Português assinala:
mitido, como exigido dos seus magistrados, o abandono Art. 74º
da posição clássica de expectador, para atuar como pro-
Condenação extra vel ultra petitum
tagonista do processo. Tal protagonismo inclui a aná-
lise ativa da demanda, das possibilidades decisórias e O juiz deve condenar em quantidade superior ao pedi-
suas consequentes repercussões e utilidade no contexto do ou em objecto diverso dele quando isso resulte da
social. aplicação à matéria provada, ou aos factos de que possa
servir-se, nos termos do art. 514º do Código de Processo
Assim, além das medidas comuns de reparação, Civil, de preceitos inderrogáveis de leis ou instrumentos
em regra relacionadas ao dano individual já ocorrido, de regulamentação colectiva de trabalho.
como a reparação de danos (gastos com medicamentos
e tratamentos médicos); apoio psicoterápico enquanto a
vítima o pretender; reparação de lucros cessantes (even- 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
tual diferença entre o valor do benefício previdenciário
e a remuneração da ativa, no caso de afastamento); re- Reconhecidos os direitos fundamentais na larga
tratação, reparação por danos psíquicos e condenação maioria dos ordenamentos modernos, o desafio, hoje,
compensatória por danos morais; de se cogitar, igual- é a transposição deles do plano teórico para o plano
mente, sobre a adoção de medidas voltadas para o fu- prático. No campo trabalhista, esse desafio perpassa a
turo e para o total dos trabalhadores da organização efetivação de direitos comezinhos que vão do salário
ofensora. digno ao respeito de direitos personalíssimos do obreiro,

— 124 —
como a intimidade, a honra e a imagem, sua integridade da vontade concreta do direito”, ou seja, a aplicação do
física e mental. direito material, a sua efetivação.
A temática explorada diz respeito a ambos, pois à Já o escopo político está relacionado à realização
medida que o trabalhador tem minado o seu ambiente das garantias de justiça, participação democrática da
de labor, tem sua dignidade atingida e limitada a pos- sociedade nos rumos da coletividade, estabilidade das
sibilidade de manutenção de seu meio econômico de instituições estatais, e realização das liberdades deriva-
sobrevivência. Traumatiza-se econômica, social, psico- das das estruturas institucionais.
logicamente e, não raro, também fisicamente. Por fim, o escopo social é o objetivo de pacifica-
Ocorre que os conflitos não devem ser vistos ape- ção com justiça e de educação da sociedade quanto
nas sob uma ótica negativa, como algo indesejável e aos seus direitos e obrigações, “educar para a defesa de
destrutivo. As teorias da Psicologia social, ao contrário, direitos próprios e respeito aos alheios”.
são habilidosas em identificar no conflito um propulsor Já é tempo do Judiciário assumir esse triplo desafio,
de mudanças, ainda que não em um progresso linear. de atuar pragmaticamente, com olhos voltados à pre-
O conflito, nessa perspectiva, contém um gene trans- venção e redução das lesões e não à mera reparação
formador e se situa na dinâmica normal e contínua dos imperfeita delas.
relacionamentos humanos. O aprimoramento dessas re-
lações, no entanto, depende em boa parte da forma de
gestão dos seus conflitos. 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
É neste particular que destacamos as possibilida- BARRETO, Margarida. Uma jornada de humilhações. São Pau-
des de intervenção positiva do Judiciário, não apenas lo: FAPESP, PUC, 2000. Disponível em: <http://www.assedio-
para o passado de desrespeito de cada trabalhador indi- moral.org>. Acesso em: 04 fev. 2010.
vidualmente considerado, mas para o futuro, pedagogi- DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Pro-
camente e prospectivamente. cessual Civil. 7. ed. rev. São Paulo: Malheiros, 2013. v. I.
O juiz moderno compreende (ou deve compreen- FELICIANO, Guilherme Guimarães. Distribuição Dinâmica
der) que a imparcialidade que lhe é exigida “diz respei- do Ônus da Prova no Processo do Trabalho – Critérios e Ca-
to à oferta de iguais oportunidades às partes e recusa a suística. Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Re-
estabelecer distinções em razão das próprias pessoas ou gião, n. 32, jan./jun. 2008.
reveladoras de preferências personalíssimas. Não se lhe FERRAJOLI, Luigi. Por uma teoria dos Direitos e dos Bens Fun-
tolera, porém, a indiferença.(18)” damentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2011.
É neste sentido que invocamos a reflexão sobre o NUNES, Luiz Antônio Rizzato. Curso de Direito do Consumi-
poder-dever do magistrado trabalhista de se valer da dis- dor – com exercícios. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
tribuição flexível do ônus da prova e de atuar ex officio PAMPLONA, Rodolfo Filho. O assédio sexual na relação de
pró instituição de medidas voltadas para o futuro para a emprego. 2. ed. São Paulo: LTr, 2011.
efetiva mudança cultural organizacional e, consequen- PARREIRA, Ana. Assédio moral – um manual de sobrevivên-
temente, da sociedade em geral. cia. 1. ed. Campinas: Russel, 2007.
Conforme ensina Dinamarco(19), necessário supe- THOME, Candy Florêncio Thome. O assédio moral nas rela-
rar a visão puramente jurídica da instrumentalidade do ções de emprego. 2. ed. São Paulo: LTr, 2009.
processo, sendo três os escopos da jurisdição moderna: ZANETI, Paulo Rogério. Flexibilização das regras sobre o ônus
o jurídico, o político e o social. O escopo jurídico (se- da prova. São Paulo: Malheiros, 2011.
guindo a teoria dualista do ordenamento jurídico), não ZOLANDECK, João Carlos Adalberto. Ônus da Prova no Di-
seria a composição da lide, ou seja, a criação ou com- reito processual Constitucional e no Direito do Consumidor.
plementação da regra do caso concreto, mas a “atuação 2. ed. Curitiba: Juruá, 2009.

(18) DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. 7. ed. rev. São Paulo: Malheiros, 2013. v. I., p. 231.
(19) Op. cit., p. 133-139.

— 125 —
13

A AUTORIZAÇÃO DE TRABALHO ARTÍSTICO INFANTIL:


LIMITES E COMPETÊNCIA PARA AUTORIZAÇÃO
FAUSTO SIQUEIRA GAIA(*)

1. INTRODUÇÃO não apenas ao desenvolvimento da criança ainda em


formação, mas sobretudo com reflexos em todo o tecido
O desenvolvimento da economia global, ao mes- social.
mo tempo em que promove o incremento dos meios O trabalho infantil deve ser duramente combatido
de produção e a evolução da economia capitalista, e tido, nas hipóteses autorizadas por lei, como excep-
amplia, especialmente nos países periféricos, o índi- cional. Não raramente, essas crianças trabalhadoras são
ce de desigualdades sociais, oriundo da concentra- vítimas do próprio trabalho, diretamente sendo lesadas
ção de renda. em acidentes, violações de direitos, e, indiretamente,
Esses desequilíbrios sociais são decorrentes de um sendo afastadas das oportunidades de desenvolvimento
sistema de produção que objetiva maximizar os lucros e crescimento como pessoa humana sujeita de direitos
em detrimento das condições em que as riquezas são e com proteção constitucional.
produzidas. Não obstante a presença de um sentimento geral
A precarização do trabalho, como é exemplo a ex- na sociedade de não se tolerar o trabalho infantil, ob-
ploração do trabalho infantil, em muito contribui para o servam-se, em determinadas atividades, como aquelas
desenvolvimento dessas desigualdades, já que permite de cunho artístico e de entretenimento, que o mesmo
a exploração de uma mão de obra abundante, de baixa é estimulado, inclusive pelos pais e guardiões desses
qualificação, barata e muitas vezes submetidas a riscos menores trabalhadores.
sociais, reduzindo, dessa forma, os custos envolvidos na O trabalho infantil, mesmo em atividades de
produção de bens e serviços. cunho artístico ou lúdico, deve ser limitado, já que não
Pode parecer paradoxal, mas o aumento da pro- se pode olvidar que esse trabalhador ainda está em fase
dução de riquezas de uma nação não necessariamente de formação física, moral e psicológica, o que poderá
tem o condão de gerar o incremento do desenvolvimen- ocasionar danos irreversíveis ao seu desenvolvimento.
to da sociedade. Em países periféricos como o Brasil(1), Nesse cenário, onde cada membro da sociedade
o trabalho infantil ainda é visto em diversos setores pro- não deve ser tratado como um ser isolado (KROHLING,
dutivos, como, por exemplo, a agricultura, pecuária e o 2011, p. 86), nasce o presente trabalho que tem por
comércio familiar. objetivo analisar os limites e as possibilidades para a
Essa chaga social, que alija o trabalhador infan- autorização do trabalho infantil artístico, bem como in-
til da escola e das oportunidades de crescimento e de vestigar a definição da competência para a expedição
desenvolvimento pessoal e profissional, provoca danos de alvará que autorize a realização desses trabalhos.

(*) Doutorando em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Mestre em Direitos e Garantias Fun-
damentais. Especialista em Direito do Trabalho. Professor do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Direito Individual e Processual
do Trabalho da Faculdade de Direito de Vitória. Juiz do Trabalho Substituto do Tribunal Regional do Trabalho da 17ª Região (ES).
(1) Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE, em 2013, existiam 3.1 milhões de trabalhadores entre 5 e 17
anos de idade, sendo que 24,9% na região Norte e 21,4% destes na região Nordeste.

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Serão investigados, no presente artigo científico, de, incompatível com a prioridade que deve ser dada
quais são os limites e possibilidades para a autorização à erradicação das piores formas de trabalho infantil. A
do trabalho artístico infantil, a partir da Convenção n. 138 criação de limites a trabalhos socialmente tolerados, co-
da Organização Internacional do Trabalho, e que entrou mo são aqueles empreendidos em atividades artísticas
em vigor no Brasil em 28 de junho 2002 por meio do De- e de entretenimento, deve ser analisada dentro de uma
creto n. 4.134/2002, e qual a competência para a autori- política pública de controle e de inclusão social.
zação desse tipo de trabalho por crianças e adolescentes. A preocupação com o trabalho infantil revela a
A partir de pesquisa exploratória e qualitativa, será necessidade da sociedade em compreender o outro em
investigado, em um primeiro momento, o sistema de suas necessidades e desejos, isto é, em âmbito relacio-
proteção contra o trabalho infantil na legislação nacio- nal ou em alteridade.
nal e internacional, especialmente nas convenções da Descreve Aloísio Krohling (2011, p. 86), ao anali-
Organização Internacional do Trabalho. sar o fenômeno da ética e da alteridade, que: “nenhum
Ainda, nesse momento do estudo, far-se-á, a partir homem é uma ilha isolada. O solipsismo do homem
do método fenomenológico, a investigação da essência solitário abafa a existência que deseja se levantar, sair
do trabalho infantil e a necessidade do olhar o outro no para fora, ser-para-o-outro. Não existe emancipação ou
seu rosto, colocando-se em seu lugar, como descreve libertação na solidão do eu mesmo”.
Emmanuel Levinas (1980, p. 37). A alteridade, portanto, representa o encontro das
Em um segundo estágio do trabalho, serão analisa- subjetividades, do “eu” com o “outro”, já que ninguém
dos os limites etários e circunstâncias para a autoriza- vive de forma isolada, mesmo em uma sociedade indivi-
ção do trabalho infantil, bem como as consequências dualista da pós-modernidade, onde a rede de proteção
jurídicas pela sua inobservância. aos interesses individuais muitas vezes é mais desenvol-
vido que o próprio sistema de proteção coletiva.
O estudo, por fim, investigará a competência ma-
terial para processar e julgar os pedidos formulados em O combate ao trabalho infantil transcende, dessa
atividade de jurisdição voluntária, com objetivo de au- forma, a individualidade do trabalhador, mesmo consi-
torizar o trabalho artístico infantil, e natureza jurídica derado como membro integrante de uma família, para
desse tipo de autorização judicial. ser tratado como uma questão social, afeta inclusive
ao Poder Judiciário, capaz de pautar políticas públi-
cas multidisciplinares para a sua erradicação de forma
2. O TRABALHO INFANTIL NA ÉTICA DA definitiva.
ALTERIDADE
Inclusive, esse dever fundamental de toda socieda-
A preocupação de combater as piores formas de de em tutelar a criança e o adolescente é positivado no
trabalho infantil é matéria recorrente nas discussões tra- art. 227 da Constituição, com redação dada pela emen-
vadas nas sedes de organismos internacionais de prote- da constitucional n. 65 de 2010, verbis:
ção ao trabalho, como a Organização Internacional do Art. 227 É dever da família, da sociedade e do Estado as-
Trabalho. segurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com abso-
Desde o início do século XX, com a promulgação luta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação,
da Convenção n. 5 da OIT, que estabeleceu a idade à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
mínima para o trabalho nas atividades industriais, a fixa- à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência
ção de limites etários para a realização de determinadas familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de
atividades vem sofrendo alterações ao longo do tempo, toda forma de negligência, discriminação, exploração,
sempre no sentido de ampliar esses limites. violência, crueldade e opressão.
Associados à idade mínima para o trabalho, foram O olhar do outro também passa na percepção do
ao longo do tempo estabelecidas nas convenções inter- locus onde esse menor trabalhador está inserido, in-
nacionais as condições para que o trabalho do menor clusive dentro da estrutura familiar. A partir da análise
de 18 anos fosse realizado validamente. da seara intrafamiliar é possível também estabelecer e
A questão do trabalho infantil envolve debates compreender as potencialidades contributivas que esse
multidisciplinares, transcendendo a análise da estrutura trabalho pode gerar para o desenvolvimento humano
familiar e chegando até mesmo a compreensão e ao desse trabalhador, como é a situação envolvendo, de
desenvolvimento de políticas públicas para a garantia e modo geral, o trabalho artístico.
a promoção da saúde e da educação. O trabalho artístico infantil, embora encontre no
O individualismo da pós-modernidade cria o vazio senso comum a tolerância social, deve ser visto não
ou a própria negação (FREUD, 2005, p. 72) da realida- apenas como fonte de rendimento para o trabalhador

— 128 —
infantil ou mesmo como mecanismo para o afastamen- A falta de maturidade de crianças e adolescentes os
to do trabalhador das ruas e da prática de delitos, mas induz a manter atenção naturalmente menos firme
sobretudo como instrumento que não prejudique o seu a algumas atividades, fomentando a ocorrência de
desenvolvimento físico e psíquico como ser humano acidentes de trabalho. É certo, também, que há am-
portador de dignidade ainda em formação. bientes de trabalho prejudiciais à saúde do obreiro,
A preocupação com trabalho artístico infantil deve o que é tanto mais invasivo quanto menores forem
ser empreendida por meio de políticas públicas, pas- as resistências do indivíduo, como é o caso de crian-
sando desde aquelas desenvolvidas para área de saúde ças e adolescentes. Quanto aos aspectos morais, há
pública como a de educação. atividades que, sem embargo da inexistência de
objeções legais, expõem o obreiro em contato com
Quando se pensa em alteridade, necessariamente
materiais e situações que podem interferir na sua for-
exsurge as noções da ética e da responsabilidade social,
mação moral (de que se pode citar como exemplo
onde cada membro da sociedade tem papel contribu-
tivo para a erradicação do trabalho infantil, realizan- a elaboração e a distribuição e determinados tipos
do denúncias das formas de exploração, boicotando a de literatura). A prestação de serviços também finda
compra de produtos e de serviços realizados a custas por atrapalhar, se não inviabilizar, a formação edu-
desse trabalho, entre outras medidas. cacional e profissional do menor trabalhador, o que,
ao fim e ao cabo, avilta os níveis de preparação pro-
O Poder Judiciário, como poder da República res- fissional do adulto em que o mesmo se transformará.
ponsável pela aplicação da lei ao caso concreto, detém Do ponto de vista psicológico se tem que a infância
grande responsabilidade social nesse processo, seja no e a adolescência se devem prestar à plena formação
contencioso judicial punindo aqueles que exploram a da pessoa, assegurando-se condições para fixação
mão-de-obra infantil, seja na própria via administrativa, satisfatória dos pilares de sua personalidade, pelo
avaliando com a devida cautela e impondo limites às que o labor nesta fase traz para o trabalhador confli-
situações autorizativas de trabalho. tos de diversas ordens, em nível familiar, no trabalho
O cerne do nosso trabalho é a investigação do tra- e na comunidade.
balho artístico infantil, seus limites e condicionantes.
Dessa forma, a partir dos capítulos subsequentes, os Nesse caminhar, estabelece a Convenção n. 138
mesmos serão analisados, tendo como pano de fundo a da OIT que a idade mínima para o trabalho não poderá
preocupação com a ética da alteridade. ser inferior àquela estabelecida em cada Estado signatá-
rio para a educação compulsória e, ainda assim, nunca
inferior a 15 anos de idade, ressalvados os casos em que
3. O TRABALHO INFANTIL NO ORDENAMENTO
o trabalho, por sua própria natureza ou condições em
JURÍDICO
que se realize, possa prejudicar a saúde, a moralidade
3.1. Os limites de idade para a realização do ou a segurança dos menores, quando então a idade mí-
trabalho nima passa a ser de 18 anos.
Embora a Convenção n. 138 da OIT tenha sido ra-
A fixação da idade mínima para a realização do tificada pelo Brasil e internalizada por meio do Decreto
trabalho é relacionada, em geral, a fatores ligados ao n. 4.134/2002, a Constituição da República estabeleceu,
desenvolvimento da formação física quanto psíquica da a partir da redação dada pela Emenda Constitucional
pessoa humana. n. 20 de 1998, no art. 7º, XXXIII, o limite etário mínimo
Os organismos internacionais, como a Organi- de 16 anos para o desenvolvimento válido do trabalho,
zação Internacional do Trabalho, estabelecem expres- ressalvada a possibilidade de trabalho do menor na con-
samente em suas convenções, como a número 138, dição de aprendiz entre 14 e 16 anos de idade.
ratificada pelo Brasil, que a idade mínima para o tra- Essa alteração constitucional do limite etário pa-
balho deve ser fixada conforme pleno desenvolvimento ra o trabalho do menor de 18 anos foi reproduzida na
físico e mental do jovem trabalhador. legislação consolidada, a partir da Lei n. 10.097/2000,
Mas não apenas tais fatores são considerados para que conferiu nova redação ao art. 403 da CLT, de modo
a fixação da idade mínima para o trabalho. Apresenta a compatibilizar a lei ordinária à norma constitucional.
Maria do Socorro Almeida de Sousa (2010, p. 96) que, Embora os limites constitucionais estabeleçam o
além de fatores ligados ao desenvolvimento físico e limite etário mínimo de 16 anos para o exercício do
psíquico do trabalhador, outros elementos devem ser trabalho subordinado, a Convenção n. 138 da OIT esta-
considerados para fins da fixação da idade mínima do belece no seu art. 8º uma norma de exceção quando o
trabalho, como os aspectos salubridade, morais, cultu- trabalho a ser desenvolvido envolver a participação do
rais e psicológicos: menor em representações artísticas.

— 129 —
Preceitua a Convenção n. 138 que essas autoriza- trabalho no Brasil continua sendo de 16 anos de idade,
ções para o trabalho em representações artísticas pos- salvo o trabalho do menor na condição de aprendiz.
suem caráter precário, ou seja, podem ser revogadas A razão desse entendimento reside no fato de que
a qualquer tempo e devem ser precedidas de consulta os direitos fundamentais trabalhistas, positivados no
prévia às organizações interessadas de empregadores art. 7º da Constituição da República, constituem cláu-
ou trabalhadores, caso existentes. sulas pétreas, ou seja, núcleo imodificável da Constitui-
Essas organizações podem ser, no nosso entendi- ção, inclusive servindo como limite material ao poder
mento, constituídas por sindicatos de classe, organiza- constituinte derivado.
ções não governamentais ou outras entidades de caráter Defende Flávia Piovesan (2000, p. 55), nesse sentido,
público, que tenham como objeto social a proteção do que o texto constitucional ampliou a dimensão dos direi-
trabalhador infantil. tos trabalhistas, como espécie do gênero direito social:
Além dessa prévia consulta, estabelece a Convenção
Incluindo no catálogo de direitos fundamentais
n. 138 da OIT que essas autorizações de trabalho deverão
não apenas os direitos civis e políticos, mas tam-
estabelecer o número de horas de trabalho ou o trabalho
bém os direitos sociais (...). Trata-se da primeira
autorizado, e prescreverão as condições em que o mesmo Constituição brasileira a integrar, na declaração
deverá ser exercido pelo trabalhador menor de 18 anos. de direitos, os direitos sociais, tendo em vista que,
A grande controvérsia que se institui diz respeito ao nas Constituições anteriores, as normas relativas a
limite etário mínimo para a autorização do trabalho ar- esses direitos encontravam-se dispersas no âmbito
tístico do menor, se deve ser observada a idade mínima da ordem econômica e social, não constando do
de 16 anos, ou se pode ser inferior a esse limite etário. título dedicado aos direitos e garantias.
A Convenção Internacional n. 138 da OIT expres-
Os direitos fundamentais sociais trabalhistas, posi-
samente excepciona, para o trabalho artístico infantil, o
tivados no art. 7º da Constituição, assumem, portanto, a
limite etário estabelecido no art. 2º, ou seja, a idade míni-
natureza de direitos fundamentais e, como tais, ficam pro-
ma para o trabalho deve ser aquela em que cessa a obri-
tegidos contra o exercício do poder constituinte derivado.
gação de frequentar a escola ou, em todo caso, 15 anos.
Nesse aspecto, de forma a resguardar a constitu-
Como vimos, o legislador pátrio, seguindo recomen-
cionalidade do art. 8º da Convenção n. 138 da OIT,
dações da própria OIT para elevar a idade mínima para o entende-se que, diante da natureza fundamental do dis-
trabalho, estabeleceu um limite etário mais rígido, ou seja, positivo constitucional que estabelece a idade mínima
16 anos e, mesmo assim, desde que o trabalho não seja para o trabalho de 16 anos, deve-se dar interpretação
exercido em condições que possam afetar o desenvolvi- conforme à Constituição de forma a tornar válida ape-
mento físico, psíquico e moral do trabalhador menor. nas a interpretação no sentido de que o trabalho artís-
A questão que se coloca é se o disposto no art. 8º tico somente pode ser exercido por trabalhadores com
da Convenção n. 138 da OIT padece do vício de incons- idade mínima de 16 anos.
titucionalidade, ante o disposto no art. 7º, XXXIII, que E como compatibilizar o art. 149, II, a do Estatuto
preceitua o limite mínimo de 16 anos para o trabalho. da Criança e do Adolescente (ECA) à Constituição em
Sobre a natureza das Convenções e Tratados Inter- seus arts. 7º, XXXIII, que trata da idade mínima para o
nacionais, que versam sobre direitos humanos funda- trabalho, e os arts. 5º, IX e 208, V que tratam da liberda-
mentais, como é exemplo a Convenção n. 138 da OIT, de, incluindo a artística, o dever do Estado em propor-
que estabelece a idade mínima para o trabalho, a própria cionar a educação artística?
Constituição dispõe, no art. 5º, § 3º, que a natureza das Dispõe o art. 149, II, a do ECA que compete à au-
suas normas pode adquirir status de norma constitucional, toridade judiciária disciplinar, mediante alvará, a parti-
caso aprovadas em cada casa do Congresso Nacional, em cipação de criança e adolescente, ou seja, de menores
dois turnos, por três quintos de seus membros, ou seja, de 18 anos, em espetáculos públicos e seus ensaios e
mesmo quórum para a edição de emenda constitucional. em certames de beleza.
No caso específico do art. 8º da Convenção n. 138 A interpretação que deve ser conferida, de forma a
da OIT, particularmente compreendo que, mesmo que a assegurar o exercício da liberdade artística e a proteção
referida norma internacional tivesse sido aprovada, ob- do trabalho do menor, é no sentido de que a participa-
servado o procedimento e quórum para a aprovação das ção da criança e do adolescente(2), para ser válida, deve
emendas constitucionais, o limite etário mínimo para o ter o caráter eventual no evento artístico, ou seja, sem

(2) Considera-se criança, no art. 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente, aquela pessoa de até doze anos incompletos. Já o ado-
lescente é a pessoa que tem entre doze e dezoito anos de idade.

— 130 —
a característica de trabalho com habitualidade, caracte- anos, que ainda está em fase de crescimento, e necessita
rístico da relação de emprego. do sono regular para o seu desenvolvimento corpóreo.
Somente assim é possível conceber a participação A Convenção n. 138 da OIT ainda estabelece que
de crianças e adolescentes nos espetáculos públicos, o trabalho do menor, no caso do Brasil entre 16 e 18
como teatros ou outras formas de manifestação cultu- anos, deve assegurar a frequência escolar, sua participa-
ral, resguardando a proteção integral do seu melhor in- ção em programas de orientação ou formação profissio-
teresse (PEREIRA, 1992, p. 83) e inclusive como forma nais, e o aproveitamento do ensino que recebe.
de permitir o pleno desenvolvimento artístico, cultural A adolescência é período de transformação do jo-
e psíquico desses menores. vem e de preparação para a vida adulta. Interromper
essa fase de desenvolvimento implicará danos irrever-
3.2. Os limites circunstanciais para o trabalho do síveis. Nesse aspecto, a formação escolar deve ser as-
menor de 18 anos segurada ao trabalhador menor de 16 a 18 anos, mas
não apenas o seu oferecimento, mas sobretudo garantir
A Organização Internacional do Trabalho(3), desde a sua efetiva participação na atividade de ensino e de
1919, vem estabelecendo diversas restrições etárias pa- formação profissional, com o devido aproveitamento.
ra o trabalho sob determinadas condições, que expo-
O trabalho não pode prejudicar as atividades es-
nham o trabalhador a riscos para a vida, a saúde e para
colares. Deve ser, portanto, realizado em carga horária
o seu desenvolvimento.
compatível com o horário escolar e não pode ensejar a
A grande preocupação, portanto, com a fixação da redução do aproveitamento escolar.
idade mínima para o exercício do trabalho subordina-
do reside na condição em que esse é desenvolvido, em No caso do trabalho artístico e infantil, como de-
razão dos riscos envolvidos para o trabalhador em sua fendemos anteriormente, esse trabalho para crianças e
integridade física e psíquica. adolescentes de até 16 anos deve ser eventual, diante da
limitação constitucional ao trabalho subordinado para
A CLT estabelece no art. 405, que será considerado
pessoas com idade inferior a 16 anos, salvo na condição
proibido o trabalho do menor nos locais que submetam o
de aprendiz entre 14 e 16 anos.
trabalhador a agentes insalubres e a condições perigosas,
ainda que sejam fornecidos os equipamentos de prote- De toda a sorte, ainda que eventual esse traba-
ção individual para neutralizar os agentes insalubres. lho desenvolvido por menores de 16 anos, os limites
circunstanciais aplicados aos adolescentes de 16 a 18
Além disso, o trabalho do menor também é veda-
do nos locais prejudiciais a sua formação moral, co- anos incompletos devem ser observados.
mo aqueles em que sejam vendidas bebidas alcoólicas, O trabalho infantil artístico eventual deve ser pau-
cigarros, em empresas circenses, nas funções de acro- tado na proteção integral da criança e do adolescente.
batas, saltimbanco, ginasta e assemelhados, ou mesmo Impede-se, assim, que esse trabalho artístico seja desen-
nas atividades de produção, composição, entrega ou volvido em condições que submetam essa criança e ado-
venda de escritos impressos, cartazes, desenhos, gravu- lescente a condições perigosas e insalubres de labor, ou
ras, pinturas, emblemas, imagens que possam prejudi- seja, realizado em ambiente que possa prejudicar a sua
car à formação moral do jovem trabalhador. formação moral e, ainda assim, desde que seja compatí-
A proibição do trabalho do menor de 18 anos em vel com o horário escolar, garantindo a frequência regu-
condições insalubres ou perigosas tem como funda- lar à escola, sem prejuízo ao seu aproveitamento escolar.
mento o risco envolvido nessas atividades tanto à saúde
quanto à própria vida do trabalhador. O trabalho do- 3.3. As consequências civis e trabalhistas do
méstico, como tem relação direta com trabalho de força trabalho do menor de 18 anos
física, deve ser também, sob esse fundamento, proibido
aos trabalhadores entre 16 e 18 anos. O Código Civil estabelece que são relativamente
Além disso, outras condições são estipuladas pela incapazes para a prática de atos na vida civil, entre ou-
CLT como limitadoras do trabalho do menor, como, por tras, as pessoas entre 16 e 18 anos de idade. Entretanto,
exemplo, o trabalho noturno, ou seja, aquele iniciado a própria legislação civil expressamente dispõe que ces-
às 22 horas. O trabalho noturno provoca grandes danos sa a incapacidade relativa com o exercício da relação
ao desenvolvimento físico do trabalhador menor de 18 de emprego que gere ao trabalhador recursos próprios.

(3) Em 1919 e 1929, foram elaboradas as primeiras Convenções sobre a idade mínima na indústria e na área marítima. No ano sub-
sequente, advieram Convenções disciplinando a idade mínima na agricultura e na área de paioleiros e foguistas.

— 131 —
Diante da cessação da incapacidade, tem-se que o ou em se tratando de trabalhadores com idade inferior a
contrato de trabalho firmado entre pessoas de 16 a 18 16 anos, quando esse trabalho tiver a natureza eventual.
anos incompletos com o seu empregador possui valida- Segundo dados contidos na Relação Anual de In-
de no plano jurídico-formal. formações Sociais (RAIS) do ano de 2011(4), o número
Por sua vez, sendo o contrato de trabalho firmado de autorizações judiciais para o trabalho de crianças e
com menores de 16 anos, ou seja, com pessoas consi- adolescentes foi de 3.134, contra 7.421 casos registra-
deradas absolutamente incapazes para praticar sozinhas dos no ano de 2010.
atos na vida civil – ressalvado o contrato de aprendiza- Mesmo diante do decréscimo, na ordem de 58%,
gem – o mesmo é reconhecido como nulo de pleno do número de autorizações judiciais para o trabalho,
direito desde a data da sua celebração. observa-se ainda um número significativo de trabalha-
O contrato de trabalho, por ser integrado por obri- dores menores de 18 anos autorizados judicialmente
gações de trato sucessivo e com natureza de irrepeti- para a realização de trabalho.
bilidade, como é a situação da obrigação de fazer de A questão que se coloca, diante do número de au-
responsabilidade do trabalhador, os efeitos dessa nuli- torizações concedidas para o trabalho, diz respeito a
dade absoluta são mitigados. quem compete expedir o alvará judicial para esse tipo
Os salários e as demais parcelas trabalhistas rece- trabalho: o Juiz da Vara de Infância e da Juventude ou o
bidos pelo trabalhador menor de 16 anos não podem Juiz do Trabalho?
ser, dessa forma, devolvidos, e o beneficiário da força O art. 406 da CLT dispõe que o Juiz de Menores
de trabalho não pode se escusar de efetuar o cumpri- poderá, diante das circunstâncias fáticas do caso con-
mento das obrigações de cunho pecuniário sob o argu- creto, quais sejam que a representação artística tenha
mento de que se trata de relação eivada com o vício de fim educativo e que não haja prejuízo à sua formação
nulidade. Entender diferente implicaria manifesto enri- moral, excepcionalmente autorizar o trabalho em tea-
quecimento ilícito do tomador de serviços. tros, empresas de espetáculos circenses e assemelhados.
Já nas situações envolvendo o trabalho proibido Embora a legislação consolidada disponha no
dos trabalhadores entre 16 e 18 anos de idade, inexiste art. 406 que o Juiz de Menores poderá autorizar o tra-
qualquer nulidade do contrato de trabalho decorrente balho, o art. 114 da Constituição da República, com re-
do elemento “capacidade das partes”. No que tange aos dação dada pela emenda constitucional n. 45 de 2004,
ampliou a competência material da Justiça do Trabalho
efeitos pecuniários, o fato do trabalhador nessa faixa
para trazer para esta Justiça Especializada todas as ações
etária laborar submetido a agentes insalubres ou condi-
decorrentes das relações de trabalho, sejam elas de
ções perigosas, por exemplo, não impede o empregador
cunho contencioso ou mesmo de jurisdição voluntária.
de efetuar o pagamento do correspondente adicional.
A autorização para o trabalho do menor, a partir
Se o contrato de trabalho estiver, entretanto, vigen-
da EC n. 45, é, portanto, da Justiça do Trabalho, já que
te, deve o empregador deixar de exigir que o trabalho houve a ampliação constitucional da competência des-
se execute em condições nocivas ao desenvolvimento sa Especializada para abranger não apenas às relações
físico, psíquico e moral do trabalhador. de emprego, mas também todas as demandas que en-
Em todo o caso, seja ele de contrato de trabalho nu- volvam a relação de trabalho, como é o caso do traba-
lo ou de trabalho proibido, inclusive nos casos de traba- lho eventual artístico infantil do menor de 16 anos ou
lho artístico infantil, não se impede o reconhecimento de do trabalho em geral em eventos de natureza artística
responsabilidade civil do empregador por eventuais da- para trabalhadores entre 16 e 18 anos.
nos sofridos pelo trabalhador, inclusive de ordem moral. A autorização, portanto, para o trabalho eventual
artístico infantil do menor de 16 anos ou do trabalho em
4. A AUTORIZAÇÃO PARA A REALIZAÇÃO DO geral em eventos de natureza artística para trabalhadores
TRABALHO ARTÍSTICO DO MENOR DE 18 ANOS entre 16 e 18 anos é de competência da Justiça do Traba-
lho, inserida nos procedimentos de Jurisdição Voluntária.
A realização do trabalho artístico por menores de Essa autorização tem caráter precário, podendo
18 anos, conforme defendemos anteriormente, somente ser revogada a qualquer tempo caso o órgão judiciário
deve ser reconhecida como válida e, portanto, autoriza- trabalhista observe qualquer prejuízo à formação física,
da, quando envolver trabalhadores entre 16 e 18 anos, moral e psíquica do trabalhador.

(4) Informações obtidas no portal Brasil do governo federal. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2012/10/
autorizacoes-judiciais-para-trabalho-infantil-reduzem-58-em-um-ano>.

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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS anos e, mesmo assim, desde que não haja qualquer tipo
de prejuízo à formação física, moral, intelectual e cul-
A infância e a adolescência são fases da vida hu- tural desses jovens.
mana de descobertas e de amadurecimento, tanto físico Compete à Justiça do Trabalho, desde a emenda
quanto emocional. As atividades lúdicas dessa fase da constitucional n. 45, analisar, em sede de jurisdição vo-
vida, como as brincadeiras, assim como as atividades luntária, os pedidos formulados para a autorização do
escolares devem ser plenamente asseguradas à essa pes- trabalho artístico infantil.
soa em formação.
Essas autorizações, como manifestação da ativida-
O trabalho nessa fase da vida, portanto, deve ser de administrativa, possuem caráter precário, podendo
visto sempre como medida excepcional, já que as crian- inclusive ser revogadas a qualquer tempo se restar de-
ças e os adolescentes não estão física e psiquicamente monstrado qualquer prejuízo à formação em geral desse
aptas à realização da prestação de serviços, tanto de trabalhador.
natureza habitual quanto eventual.
Afinal, trabalho infantil não é brincadeira!
O trabalho artístico infantil é, muitas vezes, esti-
mulado pela própria família e visto, dentro do senso
comum, como atividade inofensiva ao desenvolvimento 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
da criança e do adolescente que, desde a mais tenra
FREUD, Sigmund. Civilization and its discontents. New York:
idade, revela aptidão para esse tipo de trabalho.
WW Norton, 2005.
A necessidade de proteção integral da criança e do
KROHLING, Aloísio. A ética da alteridade e da responsabili-
adolescente, concebido como dever fundamental do Esta- dade. Curitiba: Juruá, 2011.
do democrático de direito e de toda a sociedade, inclusive
LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Lisboa: Edições
do próprio Poder Judiciário, permite a criação legislativa e
70, 1980.
a internalização de diplomas internacionais de proteção
ao trabalho, que criam restrições legítimas a esse tipo de PEREIRA, Tânia da Silva. A convecção e o Estatuto: um ideal
comum de proteção ao ser humano em vias de desenvolvi-
trabalho artístico para os menores de 18 anos.
mento. In: PEREIRA, Tânia da Silva (Coord.). Estatuto da crian-
A Constituição da República estabeleceu o limite ça e do adolescente: Lei 8.069/90 estudos sócio-jurídicos. Rio
mínimo de idade para o trabalho de 16 anos, excepcio- de Janeiro: Renovar, 1992.
nando apenas o trabalho na condição de aprendiz para PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucio-
adolescentes entre 14 e 16 anos de idade. nal internacional. São Paulo: Max Limonad, 2000.
Em se tratando de trabalho artístico infantil, o mes- SOUSA, Maria do Socorro Almeida de. Idade mínima para o
mo somente pode ser considerado como permitido se trabalho na ordem jurídica brasileira. In: NOCCHI, Andrea Saint
de natureza eventual for para o menor de 16 anos, ou Pastous; VELLOSO, Gabriel Napoleão; FAVA, Marcos Neves
habitual para trabalhadores adolescentes entre 16 e 18 (Orgs.). Criança, Adolescente, Trabalho. São Paulo: LTr, 2010.

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14

EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS DO


TRABALHADOR NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO
OCÉLIO DE JESÚS CARNEIRO DE MORAIS(*)

1. INTRODUÇÃO lavoura. Pelas cidades, arguem-se prédios, constroem-


-se vias e sistemas de transportes, e as cidades são fun-
O problema de estudo desse artigo é a defesa dos cionais pelas mãos operárias. Os Estados-nações abrem
direitos humanos do trabalhador na Era da globalização, suas fronteiras e nelas circulam trabalhadores em busca
justificado basicamente por dois fatores: um, a crescente do trabalho.
eliminação dos postos formais de trabalho como efeito
da globalização econômica; outro, a monetização uti- O mundo gira em torno do trabalho humano – do
litarista dos direitos humanos do trabalhador em subs- trabalho rústico ao tecnológico. E assim as sociedades
tituição à ideia gênesis do princípio informador desses humanas se organizam e se desenvolvem, pelas mãos
direitos, a garantira jurídica de sua inviolabilidade. do trabalho humano.
Objetiva-se oferecer elementos técnicos à com- A pessoa humana e o trabalho são indissociáveis.
pressão do problema dos direitos humanos do traba- São unos para o primeiro, último e principal significa-
lhador e apresentar proposições que possam contribuir dos da integração digna do indivíduo na vida social.
ao fortalecimento das garantias jurídicas ao exercício Essa integração é lógica porque, como já afirmou Dur-
desses direitos e de outros direitos humanos sociais do kheim (2010, p. 88), “a sociedade não está ausente des-
trabalhador que venham a ser reconhecidos. sa esfera jurídica [...]”, visto que “o direito é uma coisa
Para cumprir essa tarefas, três temas compõem a es- social por excelência e tem um objeto bem diferente
trutura do artigo: direitos humanos e direitos humanos do dos interesses dos litigantes”.
trabalhador; sistema internacional de proteção aos direitos Assim, o trabalho humano é objeto do direito, por-
humanos do trabalhador e direito brasileiro, e defesa dos que este lhe confere a proteção jurídica como algo ine-
direitos humanos do trabalhador na era da globalização. rente à regulação da própria estrutura social.
O método da pesquisa é teórico, balizado por um De regra geral, então, são os direitos a principal
referencial teórico legislativo, jurisprudencial e dados pa- garantia dessa unicidade pessoa humana e trabalho,
norâmicos da realidade envolvente do problema da pro- pois os direitos ocupam e preenchem os espaços des-
teção dos direitos humanos do trabalhador na atualidade. protegidos, além de cumprirem a tarefa sociojurídica de
ordenar o que deve ser ordenado.
2. DESENVOLVIMENTO E na ambiência restrita do complexo do mundo
2.1. Direitos humanos e direitos humanos do do trabalho, os direitos são categorias jurídicas que
trabalhador assumem o papel emancipatório da condição social
diante das desigualdades geradas pela falta de valori-
Pelos campos e rios amazônicos, lá estão traba- zação plena do trabalho humano, pela má distribuição
lhadores da pesca, da agricultura, da agropecuária e da salarial e pelas consequências do meio ambiente do

(*) Prof. Pós-Doutor pelo Ius Gentium Conimbrigae da Faculdade de Direito de Coimbra (Pt), Doutor pela PUC/SP, Mestre em Direitos
Constitucional pela UFPA, Professor Pesquisador do Curso de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direitos Fundamentais da Univer-
sidade da Amazônia e Juiz Federal do Trabalho (Titular da 11ª Vara) do TRT 8ª região.

— 135 —
trabalho inseguro, que retiram do trabalhador a frui- que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela
ção justa e digna dos frutos do seu trabalho – questão lei” (DUDH, art. 8º).
última que, por certa medida, remete ao princípio do O “remédio efetivo para os atos que violem os di-
proveito do trabalho, que Eclesiastes (Cap. 3, v. 9) já reitos fundamentais” é justificado como princípio ou
questionava diante da exploração do trabalho huma- objetivo de “assegurar o devido reconhecimento e res-
no no regime macedônico dos Ptolomeus do Séc. III peito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer
a.C: “Que proveito tem o trabalhador naquilo em que às justas exigências da moral, da ordem pública e do
trabalha?”.(1) bem-estar de uma sociedade democrática.” (DUDH,
No regime macedônico dos Ptolomeus identifica- § 2º, art. 29). Por isso, o “remédio efetivo” traz como co-
-se a remota raiz do princípio do trabalho humano dig- rolário a imposição sancionatória lícita, legítima e justa.
no e da fruição justa dos frutos do trabalho, princípio Desse modo, a partir da DUDH, a ideia sanciona-
incorporado à estruturação dos direitos humanos do tória tem por princípio a garantia dos direitos humanos
trabalhador na contemporaneidade. fundamentais. Portanto, esse é o princípio protecionista
Mas essa principiologia não é encontrada nos mo- e garantista dos direitos humanos dos trabalhadores na
delos econômicos relevantes que a humanidade cons- era moderna.
truiu na Antiguidade Clássica e na Idade Média. Note-se que dos direitos humanos matrizes (in-
E mesmo na era atual da globalização econômica violabilidade à vida, à liberdade, à igualdade e à segu-
hegemônica – com o seu o fog jurídico e subordinação rança) reconhecidos na DUDH, inspirada no espírito
estrutural do trabalhador(2) – a ideia dos direitos do tra- iluminista da Declaração francesa de Direitos do Ho-
balhador como princípio de dignificação humana sofre mem e do Cidadão (Séc. XVIII), nasce e sedimenta-se a
restrição por força da crescente concepção da mone- ideia do discurso universalizante de que “o reconheci-
tização indenizatória empregada aos fundamentos dos mento da dignidade humana e de seus direitos iguais e
direitos dos trabalhadores em detrimento da ideia dos inalienáveis” constituem “o fundamento da liberdade,
direitos humanos como base dos princípios de uma so- da justiça e da paz no mundo” (DUDH, 1948).
ciedade decente e justa. Inexistirão, portanto, direitos humanos do traba-
A ideia da monetização dos “direitos humanos lhador sem o reconhecimento dos direitos humanos lato
fundamentais”(3) está ligada à necessidade de que “os sensu fundados na dignidade humana e dos direitos da
direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Di- igualdade.
reito” e ainda como freio “para que o homem não seja Assim, o trabalho livre, a saúde, a proteção previ-
compelido, como último recurso, à rebelião contra a ti- denciária, o emprego digno e em condições justas, igual
rania e a opressão”, (DUDH, Preâmbulo, 1948). Isto é, o remuneração por igual trabalho, o repouso, o lazer e
Estado, com o objetivo de proteger os direitos humanos, férias remuneradas são enunciados como direitos hu-
institui leis e tribunais judiciais que assegurem “remédio manos universais do trabalhador, conforme podem ser
efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais constados nos arts. 23, 24 e 25(4) da DUDH.

(1) Essa é uma interpretação da edição Pastoral da Bíblia, que sustenta que o livro de Eclesiastes possui perfil “crítico, lúcido e realista
sobre a condição do povo, por volta do século III AC, época em que a Macedônia colonizava a Palestina. A edição Pastoral da Bíblia
católica é de responsabilidade da Paulus Editora, mantida pela Pia Sociedade de São Paulo, mais conhecida como Irmãos Paulinos.
(2) No Capítulo I (Valor Social do Trabalho e Valor Social da Previdência) no o livro Competência da Justiça Federal do Trabalho e a
Efetividade do Direito Fundamental à Previdência (2014, p. 19-30), faço uma análise da evolução do trabalho humano à luz do
princípio da dignidade humana, na perspectiva da proteção social previdenciária.
(3) Designação usada pela primeira vez no preâmbulo pela DUDH, como designativo dos gêneros humanos, rompendo com a lingua-
gem ideológica hegemônica antes incorporada na Declaração francesa de direitos do homem e do cidadão – 1789, que se referia
aos “direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem”.
(4) Art. 23, § 1º. Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à prote-
ção contra o desemprego. § 2º. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. § 3º. Toda
pessoa que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência
compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social. § 4º.Toda pessoa
tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para a proteção de seus interesses.
Art. 24. Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias periódicas re-
muneradas. Art. 25, § 1º.Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar,
inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso

— 136 —
Por isso mesmo que os direitos humanos do traba- 2.2. Sistema internacional de proteção aos direitos
lhador, reconhecidos pela DUDH, são direitos de ín- humanos do trabalhador e o direito brasileiro
dole social, porque são ferramentas de inclusão social.
Esse princípio relativo ao trabalho livre, que é co- Os direitos humanos do trabalhador no sistema ju-
rolário do trabalho seguro, a Convenção Americana de rídico internacional são colocados, sob o ponto de vista
Direitos Humanos (CADH – Pacto de San José da Cos- jurídico, como garantias individuais, coletivas e difusas
ta Rica – 1969)(5) transforma numa espécie de platafor- inerentes à dignidade humana.
ma humanitária contra o trabalho ou serviço escravo, Assim está assegurado pela DUDH, quando decla-
a servidão e o trabalho forçado de qualquer natureza, ra que, de modo geral, “Toda pessoa tem direito a uma
ao mesmo tempo em que declara que o exercício dos ordem social e internacional em que os direitos e li-
direitos fundamentais da pessoa humana, entre eles, o berdades estabelecidos na presente Declaração possam
direito a saúde, não pode ser restringido pela lei.(6) ser plenamente realizados” (DUDH, art. 28); na CADH,
Por essa conjugação do valor do trabalho humano quando proíbe o trabalho escravo, a servidão, o traba-
com os direitos ao trabalho e aos frutos do trabalho, lho forçado, o tráfico de escravo(7), e pelos tratados e
é seguro sustentar que os direitos humanos do traba- convenções da Organização Internacional do Trabalho
lhador são espécies do gênero direitos humanos, mas, (OIT), com efeitos vinculantes aos países-membros que
estes – para além da ideia utilitarista adotada por alguns os ratificam(8), específicos à garantia e à proteção do tra-
modelos de sociedades não democráticas – são conce- balho humano.
bidos, como já disse Santos (2013, p. 13) “como princí- Trata-se de sistema que não exerce controle pe-
pios reguladores de uma sociedade justa”. cuniário, nem judicial, apenas controle moral em re-
Nessa perspectiva, os direitos humanos do traba- lação aos Estados-membros, até porque a concepção
lhador também são tomados como princípios estruturais e existência desses órgãos vincula-se à necessidade
das relações laborais saudáveis e seguras na contem- cooperação recíproca para integração das normas in-
poraneidade, isto é, se contrapõem ao retoricismo das ternacionais relativas aos direitos humanos em geral
políticas de mercado antissociais da globalização eco- (civis, políticos, religiosos, culturais) e, em específico,
nômica hegemônica, e assumem o papel garantista à aos direitos humanos do trabalhador (os direitos so-
efetividade do princípio da dignidade humana. ciais decorrentes do trabalhado humano, por exemplo,
Mas como se relacionam os direitos humanos do previdência, saúde, assistência à velhice, trabalho se-
trabalhador reconhecidos pela ordem jurídica interna- guro e saudável etc.).
cional com a ordem de direitos do sistema jurídico brasi- Os tratados, convenções, recomendações são os
leiro? E como esses direitos assumem tarefa de garantista principais marcos regulatórios desse sistema. Os trata-
à efetividade do princípio da dignidade humana? dos, convenções, que não são aprovados e ratificados
É o que se verá a seguir. pelo Estado-membro, adquirem a natureza de fonte

de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de
seu controle.
(5) Essa Convenção foi adotada e aberta à assinatura na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos, em San
José de Costa Rica, em 22 de novembro de 1969. Apenas em 25 de setembro de 1992, o Brasil a adotou para “ser cumprida tão
inteiramente como nela se contém”, por meio do Decreto promulgador n. 678, de 8 de Novembro de 1992.
(6) Esse plexo de direitos reconhecidos e protegidos pode ser constatado nos arts. 6º e parágrafos; 12 e parágrafos, 13 e parágrafos, 15
e 22, da Convenção Americana de Direitos Humanos – 1969 (Pacto de San José da Costa Rica).
(7) A CADH define como trabalho escravo e trabalho forçado todo aquele que, de alguma forma, afete a dignidade e a capacidade
física e intelectual do trabalhador, ou que viole o direito à liberdade e à segurança pessoais (CADH, arts., 6º, 7º e 8º).
(8) Citam-se, por exemplo, as denominadas convenções fundamentais da OIT, que visam à garantia dos princípios e direitos humanos
fundamentais dos trabalhadores: A Convenção n. 8 da OIT sobre a plena Liberdade Sindical e a Proteção ao Direito de Sindicaliza-
ção e pluralismo sindical, aprovada em julho de 1948, e que entrou em vigor no plano internacional em 4 de julho de 1950, mas o
Brasil não a ratificou porque o modelo sindical brasileiro é o da unicidade, conforme o art. 9º, da CRFB/1988; a convenção n. 98 da
OIT, aprovada em 18 de julho de 1949, que trata do direito de organização e de negociação coletiva, ratificada pelo Brasil em 18 de
novembro de 1952.; as n. 29 e n. 105, ambas ratificadas pelo Brasil, que versam sobre a liberdade no trabalho; a convenção n. 105
da OIT que versa sobre o trabalho forçado ou obrigatório para certos fins, ratificada pelo Brasil em 18 de junho de 1965; e a Conven-
ção n. 138 da OIT sobre a proibição do trabalho infantil e a convenção fundamental n. 182 da OIT; Igualdade de Tratamento entre
Nacionais e Estrangeiros em Previdência Social n. 118, que entrou em vigor no plano internacional em 25 de abril de 1964, aprovada
no Brasil pelo Decreto Legislativo n. 31, de 20 de agosto de 1968, do Congresso Nacional; sendo ratificada em 24 de março de 1968;
com promulgação pelo Decreto n. 66.497, de 27de abril de 1970; e vigência nacional a partir de 24 de março de 1969.

— 137 —
material ao Direito internacional e ao Direito nacional, Essa tríade de princípios forma o núcleo funda-
assim como ocorre com as recomendações. mental da proteção e garantia dos direitos humanos
A ideia que inspira esse sistema internacional de da Constituição brasileira de 1988. E como meio para
proteção aos direitos humanos do trabalhador é fomentar concretizar essa vontade normativa e como forma de
a criação de um Direito transnacional comum, de índole preservar a autoridade moral da Constituição, ainda sob
humanitária, que seja suficiente para balizar a relações a matriz da ordem jurídica constitucional, todos os tra-
entre os Estados-membros na ordem internacional e sub- tados e convenções internacionais, que versem sobre
sidiar as ações públicas inclusivas na ordem interna. direitos humanos, são integrados à ordem jurídica in-
terna a força das emendas constitucionais, desde que
Esse sistema internacional de controle dos direitos
tenham sido aprovados, em cada Casa do Congresso
humanos do trabalhador dialoga com o sistema cons-
Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos
titucional brasileiro pela janela dos princípios huma-
respectivos membros. (CRFB/1988, art. 5º, § 3º).
nitários que o país adota e pela via das aprovações e
ratificações dos tratados e convenções pelo processo A ordem jurídica interna possui uma porta sempre
legislativo competente. aberta, visando o seu aperfeiçoamento em matéria de
direitos humanos.
Como um dos instituidores da OIT, o Brasil se com-
promete a cumprir e fazer cumprir os princípios adota- O art. 5º, § 4º garante que o regime de direitos e
dos na Constituição da Organização, por exemplo, o garantias da Constituição não excluem outros direitos
princípio da promoção da “paz universal e duradoura”, e garantias fundamentais decorrentes do regime e dos
que inescusavelmente deve “assentar sobre a justiça so- princípios por ela adotados, ou dos tratados internacio-
nais em que a República Federativa do Brasil seja parte
cial”, princípio de equidade que exige, para a concreti-
ou venha tomar parte (CRFB/1988, art. 5º. § 2º), sujei-
zação dos direitos humanos em espécie do trabalhador
tando-se, inclusive, “à jurisdição de Tribunal Penal In-
“a luta contra o desemprego, à garantia de um salário
ternacional a cuja criação tenha manifestado adesão”,
que assegure condições de existência” digna, garantida
(CRFB/1988, art. 5º, § 4º).
de “pensões de velhice e de invalidez, à defesa dos in-
teresses dos trabalhadores empregados no estrangeiro, Há, desse modo, sincronia dialogal adequada en-
dentre outros” (CONSTITUIÇÃO DA OIT, 1946). tre o sistema internacional de proteção aos direitos hu-
manos do trabalhador e o direito brasileiro.
O diálogo desses sistemas também ocorre pelo
princípio máximo de que a proteção internacional dos A questão é saber, a partir da integração desses sis-
direitos humanos do trabalhador é condição básica pa- temas, como ocorre a defesa dos direitos humanos do
ra “cada pessoa gozar dos seus direitos econômicos, trabalhador na era da globalização.
sociais e culturais, bem como dos seus direitos civis e
políticos” (CADH, 1969). 2.3. Defesa dos direitos humanos do trabalhador na
E, ainda, pelo princípio universal ao qual o Bra- era da globalização
sil se comprometeu, como signatário da DUDH, em
“promover, em cooperação com as Nações Unidas, o Em 1946, quando foi aprovada a primeira versão
respeito universal aos direitos humanos e liberdades da Constituição da OIT, mas com vigência a partir de
fundamentais e a observância desses direitos e liberda- 20 de abril de 1948(9), já eram identificadas “condições
des”, (DUDH, 1948). de trabalho que implicam, para grande número de indi-
víduos, miséria e privações” (CONSTITUIÇÃO DA OIT,
Nessa perspectiva sistêmica de proteção aos direi- 1946). Diante daquela realidade social, Estados-mem-
tos humanos em geral, a CRFB de 1988 alinhou a ordem bros fundadores se comprometeram em “melhorar es-
jurídica interna ao sistema internacional, quando adota sas condições”, por meio de políticas que garantissem
como princípios fundamentais da República Federativa a regulação do trabalho humano e com a instituição de
“a dignidade da pessoa humana” (CRFB/1988, art. 1º, direitos mínimos relativos, por exemplo,
III), como princípio às suas relações internacionais a
prevalência dos direitos humanos” (CRFB/1988, art. 4º, à regulamentação das horas de trabalho, à fixação
III) e “a cooperação entre os povos para o progresso da de uma duração máxima do dia e da semana de
humanidade” (art. 4º, IX). trabalho, à luta contra o desemprego, à garantia

(9) Tendo como anexo a Declaração de Filadélfia (aprovada na 26ª reunião da Conferência de 1944), referente aos fins e objetivos
da OIT, o texto em vigor da Constituição da OIT foi aprovado na 29ª reunião da Conferência Internacional do Trabalho (Mon-
treal – 1946). A Constituição passou por várias revisões e a atual substituiu a adotada em 1919 e que fora emendada em 1922,
1934 e 1945.

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de um salário que assegure condições de existên- Quando então as políticas globalizantes da eco-
cia convenientes, à proteção dos trabalhadores nomia hegemônica extinguem os empregos formais, o
contra as moléstias graves ou profissionais e os novo problema dos direitos humanos do trabalhador
acidentes do trabalho, à proteção das crianças, nessa quadra passa a ser desconstrução jurídica do di-
dos adolescentes e das mulheres, às pensões de reito social ao trabalho humano.
velhice e de invalidez, à defesa dos interesses dos Antes, ainda na primeira metade do século XX, a
trabalhadores empregados no estrangeiro, à afir- Convenção Americana sobre Direitos Humanos da Or-
mação do princípio “para igual trabalho, mesmo ganização dos Estados Americanos (OEA)(10) reconhecia
salário”, à afirmação do princípio de liberdade que o problema dos direitos humanos do trabalhador –
sindical, à organização do ensino profissional e numa objetiva reiteração do que a Constituição da OIT
técnico, e outras medidas análogas (PREÂMBU- já identificara – apresentava como raiz sociopolítica “a
LO DA CONSTITUIÇÃO DA OIT, 1948). miséria”, nesse particular, gerada pelos efeitos degra-
dantes do trabalho escravo, forçado e tráfico de escravo
Mais de 70 anos depois da aprovação daquela (CADH, art. 6º).
Constituição, o problema social dos direitos humanos
do trabalhador se agravou, em razão da crescente perda E, por isso, reconheceu que “os direitos essenciais
do emprego formalizado e por causa da inefetividade do homem”, de modo geral, exigem “uma proteção in-
ternacional, de natureza convencional, coadjuvante ou
normativa.
complementar da que oferece o direito interno dos Es-
O desemprego – que multiplica miséria e priva- tados americanos”, porque os direitos essenciais como
ções de toda natureza – pode aumentar o índice de fundamento dos atributos “da pessoa humana” e não
5,7% para 5,8%, e atingirá cerca de 3,4 milhões de tra- derivam simplesmente do fato de ser um nacional de
balhadores até o final do ano de 2017 no mundo, com determinado Estado. (PREÂMBULO DA CADH, 1969).
a previsão de aumentar para de 2,7 milhões em 2018, e
Na contemporaneidade, ainda são encontrados em
podendo totalizar 201 milhões de trabalhadores desem-
condição de trabalho escravo ou em condições análogas
pregados, conforme o “Perspectivas sociais e do empre-
à escravidão centenas de trabalhadores. Por omissão no
go no mundo – Tendências de 2017” da OIT.
combate para eliminação, a Comissão Interamericana
E no Brasil, o número de trabalhadores desempre- de Direitos Humanos da OEA condenou o Brasil em 20
gados que era de 12,7 milhões em 2016, a OIT estima de outubro de 2016, no caso de 85 trabalhadores que
que poderá atingir 13,6 milhões até o final do ano de foram submetidos à condições de escravidão e tráfico
2017, com estimativa de aumentar para 13,8 milhões de seres humanos na Fazenda Brasil Verde, localizada
em 2018, sendo que, entre cada três novos desempre- no município Xinguara, no sudeste do Estado do Pará.
gados no mundo, um deles será brasileiro, conforme o A sentença condenatória afirma que “o Estado bra-
estudo “Perspectivas sociais do emprego no mundo – sileiro não demonstrou ter adotado medidas específicas
tendências de 2017”. nem ter atuado com a devida diligência para prevenir a
A ONU, que adotou Metas de Desenvolvimento forma contemporânea de escravidão a qual essas pes-
do Milênio da ONU com o “Acabar com a pobreza em soas foram submetidas, nem para pôr fim a essa situa-
todas as suas formas, em todos os lugares”, atesta que ção”. A sentença condena o Estado brasileiro a, dentro
cerca de 800 milhões de pessoas no mundo ainda so- de um ano, indenizar cada um dos 128 trabalhadores,
frem com a fome e a miséria absoluta. vítimas resgatadas durante fiscalizações do Ministério
Esses estudos técnicos da OIT identificam que a Público do Trabalho.
raiz do problema – que atinge os direitos humanos des- Esses dados da realidade denuncia, por outro lado,
ses milhões de trabalhadores (notadamente o direito que a “proteção internacional de natureza convencio-
ao trabalho e os frutos jurídicos e sociais desse direito nal” – por ser de caráter moral na relações entre a OIT,
matriz) – está relacionada à falta de emprego, má dis- OEA e seus Estados-membros que violam os direitos hu-
tribuição de rendas (essa população vive com menos manos do trabalhador – não tem sido eficaz, apesar da
de US$ 1,25 por dia, segundo a ONU) e às políticas Constituição da OIT prevê a reclamação e a queixa(11)
econômicas antissociais. como controle de eficácia da aplicação de suas normas.

(10) Foi aprovada e assinada na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos, em San José, Costa Rica, em 22 de
novembro de 1969.
(11) Esse sistema de controle está previsto nos arts. 21 e 25 (queixa) e 26 e 35 (reclamação) da Constituição da OIT.

— 139 —
Atualmente, a desconstrução da proteção jurídi- Dois são os efeitos desconstrutivos dessa decisão
ca dos direitos sociais fundamentais do trabalhador, no aos direitos humanos do trabalhador (aos direitos sociais
caso brasileiro, ocorre pela iniciativa do próprio Esta- ao trabalho e à previdência especificamente): primeiro,
do, aquele que deveria ser o primeiro a protegê-los e a afasta de condenação solidária ou subsidiária do ente
garanti-los por dever constitucional. público nas terceirizações trabalhistas (vulnerabilizando
São os casos, por exemplo, da Lei da n. 13.429, os direitos trabalhistas e previdenciárias do contrato de
de 31 de Março de 2017, que altera dispositivos da Lei trabalho), ao fixar a tese de repercussão geral que
n. 6.019, de 3 de janeiro de 1974, que dispõe sobre o
O inadimplemento dos encargos trabalhistas dos
trabalho temporário nas empresas urbanas; da decisão empregados do contratado não transfere automa-
judicial (RE 760.931/DF)(12) com efeito de repercussão ticamente ao Poder Público contratante a respon-
geral reconhecida, na qual o Supremo Tribunal Federal sabilidade pelo seu pagamento, seja em caráter
decidiu que o ente público não deve ser responsabiliza- solidário ou subsidiário, nos termos do art. 71,
do por dívidas trabalhistas e previdenciárias de empre- § 1º, da Lei n. 8.666/1993. (STF, RE-760931).
sas de terceirizadas e da decisão (ARE 654432), também
com repercussão geral reconhecida, que reafirma a in- A possibilidade remota de condenação do ente pú-
constitucionalidade de greve de policiais civis. blico, no caso da terceirização trabalhista, continua con-
No caso da Lei n. 13.429/2017, ao admitir a ter- dicionada à prova inequívoca de sua conduta omissiva
ceirização da atividade-fim, inclusive a possibilidade da ou comissiva na fiscalização dos contratos, matéria já
subterceirização, como consequência, afastou a aplica- disciplinada nos itens V e VI da Súmula n. 331 do TST.(14)
ção da Súmula n. 331, I e II, do Tribunal Superior do Se então o § 6º, Art. 37 da Constituição da Repúbli-
Trabalho, a qual somente admitia a terceirização da ati- ca Federativa do Brasil (CRFB) de 1988 prevê a respon-
vidade-meio como forma de coibir fraudes contratuais sabilidade objetiva do ente público “pelos danos que
que levassem à violação dos direitos sociais fundamen- seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros (…)
tais dos trabalhadores. nos casos de dolo ou culpa”, a decisão do Supremo res-
Aqui, o problema da desconstrução jurídica dos tringe a responsabilização automática do Poder Público
direitos sociais do trabalhador agrava-se porque iguais contratante, quanto ao pagamento dos direitos sociais
direitos não estão nem serão garantidos (por exemplo, do trabalhador terceirizado.
quanto a salários e quanto benefícios sociais) para os tra- Desse modo, o próprio Estado (pela via judiciária
balhadores terceirizados ou quarteirizados(13) em relação e pela via legislativa), com decisões liberalizantes, pro-
aos empregados da empresa tomadora de serviços. move a desconstrução da proteção jurídica aos direitos
A Lei n. 13.429/2017 veio à reboque da decisão no humanos do trabalhador brasileiro.
Recurso Extraordinário (RE) 760931, proferida em 30 de Esse foi o mesmo sentido ideológico da decisão
março de 2017, excluindo a responsabilidade subsidiá- ARE 654432, que declara inconstitucional greve de po-
ria da administração pública por encargos trabalhistas liciais civis(15), não obstante o disposto no art. 9º da CFB
e previdenciários gerados pelo inadimplemento de em- de 1988, que assegura o direito de greve, sendo também
presa terceirizada. direito inerentes dos trabalhadores decidirem sobre a

(12) Com o voto do ministro Alexandre de Moraes, o Plenário do Supremo Tribunal Federal confirmou o entendimento adotado na
Ação de Declaração de Constitucionalidade (ADC) 16, que veda a responsabilização automática da administração pública. O voto
vencedor foi o do ministro Luiz Fux, acompanhado pelos ministros Marco Aurélio Mello, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Alexandre
de Moraes e Cármen Lúcia, presidente da Corte. Ficaram vencidos, no julgamento, a relatora, ministra Rosa Weber, e os ministros
Edson Fachin, Ricardo Barroso, Ricardo Lewandowski e Celso de Mello.
(13) Franco Filho descreve que, na atualidade, a quarteirização corre em duas modalidades: “1) quando a empresa principal contrata
uma especializada na definição, planejamento e no controle do trabalho desempenhado pelos prestadores de serviços externos; 2)
quando ocorre a transferência da gestão administrativa das relações com os demais prestadores de serviços a empresa especializada
no ramo, a fim de racionalizar os mesmos serviços”. (2015, p. 147).
(14) Súmula 331, do TST: V – Os entes integrantes da Administração Pública direta e indireta respondem subsidiariamente, nas mesmas
condições do item IV, caso evidenciada a sua conduta culposa no cumprimento das obrigações da Lei n. 8.666, de 21.06.1993,
especialmente na fiscalização do cumprimento das obrigações contratuais e legais da prestadora de serviço como empregadora.
A aludida responsabilidade não decorre de mero inadimplemento das obrigações trabalhistas assumidas pela empresa regular-
mente contratada. VI – A responsabilidade subsidiária do tomador de serviços abrange todas as verbas decorrentes da condenação
referentes ao período da prestação laboral.
(15) A decisão foi por maioria de votos. O Plenário do STF declarou a inconstitucional do exercício do direito de greve por parte de
policiais civis e demais servidores públicos que atuem diretamente na área de segurança pública.

— 140 —
oportunidade de exercê-lo, e no art. 37, VII, o qual ga- humanos do trabalhador pode substituir o objetivo maior
rante que “o direito de greve será exercido nos termos de uma ordem jurídica, que é a concretização do Direito.
e nos limites definidos em lei específica”, mas ainda Assim, a monetização indenizatória pode e deve
sem regulamentação específica, apesar do Mandado ser usada como um mecanismo de controle preventivo
de Injunção n. 20-4/DF, que não foi provido pelo STF (contra a não violação), repressor (contra a violação)
sob o fundamento de que “Não é admissível, todavia, e garantista (da reparação), isto é, a monetização deve
o mandado de injunção como sucedâneo do mandado ser medida útil à realização do conteúdo finalístico dos
de segurança...”. direitos humanos do trabalhador.
De outro lado, esses problemas reais exigem
respostas. 3. CONCLUSÕES
Nenhum sistema de proteção internacional de na-
tureza convencional será eficaz sem medidas sancio- A aprovação de tratados, convenções e recomen-
natórias (não apenas de natureza moral como ocorreu dações pela Conferência Internacional do Trabalho, com
no sistema atual), mas também de pecuniária – ques- normas destinadas à proteção dos direitos humanos dos
tões que não afetariam o problema da soberania interna trabalhadores, objetiva proporcionar a “criação de um di-
de cada Estado-nação – sanções que fossem capazes e reito comum da humanidade” (SUSSEKIND, 2010, p. 68).
suficientes de garantir realmente a inviolabilidade dos Adotado esse objetivo universal, é preciso conferir
direitos humanos em geral e, na espécie, a proteção eficácia plena e automática aos tratados e convenções
dos direitos humanos do trabalhador todos os direitos sobre direitos humanos dos trabalhadores para evitar a
sociais decorrente do sagrado e universal direito ao desconstrução da proteção jurídica desses direitos por
trabalho. atos decorrentes do próprio Estado e para obrigar o Es-
Se o modelo sancionatório que o sistema de pro- tado a garantir a inviolabilidade desses direitos.
teção internacional convencional adota atualmente não Como medidas prátias propõe-se:
tem sido plenamente eficaz, os efeitos negativos da glo-
balização econômica hegemônica desafiam o aperfei- Quanto ao Estado-membro, para um sistema
çoamento do modelo de proteção aos direitos humanos mais eficiente, deve-se exigir desse Estado (terri-
do trabalhador. tório do evento), mediante protocolo vinculante,
Isso é importante porque, nessa era da globaliza- o dever de criar novos mecanismos de controle
ção econômica hegemônica, o problema da descons- administrativo e judicial, que assegurem a rápida
trução da proteção jurídica dos direitos humanos do investigação e punição dos casos internos, consis-
trabalhador exige como contraponto reativo, medidas tentes em violação aos direitos humanos do traba-
que instrumentalizem a realização do Direito. lhador. E, se omisso, o Estado-membro deverá ser
submetido ao julgamento pela Corte Interamerica-
Um novo sistema de defesa dos direitos humanos
na de Direitos Humanos em processo sumário com
do trabalhador na era da globalização econômica hege-
prazo máximo de duração 6 meses.
mônica, sem prescindir do existente nos moldes da Cons-
tituição da OIT, deve prever necessariamente sanções As penalidades seriam, sem prejuízo da sanção
econômicas diretas (multas indenizatórias) e obrigação moral, aplicação de multas pecuniárias, cuja obri-
de fazer (quando o caso exigir) em face das empresas que gação de pagar somente ingressariam no regime
violarem os direitos humanos do trabalhador. de precatório requisitório brasileiro (ou similar de
cada Estado-membro) se superiores a R$ 10 mi-
A monetização indenizatória, contudo, não po-
lhões de reais, com os valores inferiores sendo pa-
de representar a ideia utilitarista da sanção – como sói
gos por meio da requisição de pequeno valor no
acontecer nos procedimentos judiciais individuais ou
prazo máximo de 60 dias, sob pena de sequestro
coletivos no âmbito do sistema de Justiça brasileiro que
judicial imediato.
gera “indústria” indenizatória – mas antes deve ser me-
dida prática para garantir: Por se tratar de condenação que visa reparar
lesão aos direitos sociais fundamentais (violação
a) a preservação do conteúdo informador dos prin-
do direito ao trabalho e todos os decorrentes des-
cípios inerentes à proteção real da inviolabilida-
se principal), a Justiça do Trabalho brasileira (ou
de dos direitos humanos do trabalhador;
similares noutros países) seria a competente para
b) o direito à reparação justa pelos danos morais e promover a execução da decisão, a qual teria força
materiais decorrentes daquela violação. de título executivo judicial no âmbito do processo
O perigo do utilitarismo é compreender que a con- judiciário do trabalho brasileiro, com inserção no
sequente monetização em face da violação dos direitos art. 876 da CLT.

— 141 —
Com relação ao agente público que, por ação BRASIL. Jurisprudência. Supremo Tribunal Federal. Disponí-
ou omissão, venha a violar os direitos humanos vel em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verJulgamentoDe-
do trabalhador, além de ressarcir o erário, ficaria talhe.asp?idConteudo=340188>. Acesso em: 21 maio 2017.
impedido de concorrer às promoções por mere- BRASIL. Jurisprudência. STF. Mandado de Injunção n. 20-4/
cimento pelo período de 1 a 5 anos, sem prejuízo DF. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/jurispruden-
da investigação disciplinar por eventual conduta cia/visualizarEmenta.asp?s1=000032813&base=baseMonocr
prevaricante no exercício de suas funções. aticas>. Acesso em: 21 maio 2017.
DECLARAÇÃO de Direitos do Homem e do Cidadão
Por fim, a adoção de um sistema de controle – para (1789) – DDHC. Biblioteca virtual de Direitos Humanos
além do atualmente previsto na Constituição da OIT – da Universidade de São Paulo. Disponível em: <http://
deve prever ação regular e procedimentos contenciosos www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-
provocados, que vinculem os Estados-membros, tanto -anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-So-
de âmbito mundial como regional: ciedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/
declaracao-de-direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.
a) a não editar normas que desconstruam a proteção
html>. Acesso em: 8 maio 2017.
jurídica dos direitos humanos do trabalhador;
DECLARAÇÃO Universal dos Direitos Humanos (1048) –
b) a garantir a inviolabilidade desses direitos por DUDH, Biblioteca virtual de Direitos Humanos da Universida-
meio de proteção legal, judicial e administrati- de de São Paulo. Disponível em: <http://www.direitoshumanos.
va, com aperfeiçoamento de seu sistema de jus- usp.br/index.php/Declara%C3%A7%C3%A3o-Universal-
tiça social que garanta a rápida e efetiva resposta -dos-Direitos-Humanos/declaracao-universal-dos-direitos-
aos casos de violação desses direitos. -humanos.html>. Acesso em: 9 maio 2017.
A defesa dos direitos humanos do trabalhador exige, CONVENÇÃO Americana de Direitos Humanos – 1969
como contrapartida, na era da globalização econômica, (Pacto de San José da Costa Rica). Biblioteca Virtual de Di-
leis mais rígidas quanto à inviolabilidade desses direitos e reitos Humanos da Universidade de São Paulo. Disponível
um sistema de Justiça ágil e eficiente para dar as respostas em: <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/OEA-
adequadas aos casos de violações desses direitos. -Organiza%C3%A7%C3%A3o-dos-Estados-Americanos/
convencao-americana-de-direitos-humanos-1969-pacto-de-
-san-jose-da-costa-rica.html>. Acesso em: 9 maio 2017.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Legislação. Presidência da República. Casa Civil.
Subchefia para assuntos jurídicos. Constituição da República
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Federativa do Brasil, de 5 de setembro de 1988. Diário Oficial
WMF Martins Fontes, 2010. da União (DOU), Brasília, DF, de 05.10.1988, página 1, se-
FILHO, Georgenor de Sousa Franco. Curso de Direito do Tra- ção 1. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
balho. São Paulo: LTr, 2015. constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 5 maio 2016.
MORAIS, Océlio de Jesús C. Competência da Justiça Federal BRASIL. Legislação. Decreto n. 678, de 6 de novembro de
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SANTOS, Boaventura de Sousa. Se Deus fosse um activista dos br/ccivil_03/decreto/d0678.htm>. Acesso em: 8 maio 2017.
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SÜSSEKIND, Arnaldo. Curso de Direito do Trabalho. São Paulo; Diretos Humanos. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/
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DOCUMENTO JURÍDICO EM MEIO ELETRÔNICO ONUBR. Nações Unidas no Brasil. Disponível em: <https://
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Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei n. 13.429, de 31 de OIT – Organização Internacional do Trabalho. Tratados e
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3 de janeiro de 1974. Disponível em: <http://www.planalto. convention>. Acesso em: 20 maio 2017.
gov.br/civil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13429.htm>. Acesso OIT. Organização Internacional do Trabalho Relatório “Pers-
em: 21 maio 2017. pectivas sociais e do emprego no mundo – Tendências de
BRASIL. Legislação. Decreto n. 678, de 6 de novembro de 2017” da OIT. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/
1962. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para oit-estima-que-desemprego-global-tera-aumento-de-34-mi-
assuntos jurídicos. Disponível em: <http://www.planalto.gov. lhoes-em-2017/>. Acesso em: 31 maio 2017.
br/ccivil_03/decreto/d0678.htm>. Acesso em: 8 maio 2017. OIT. Constituição. Disponível em: <http://www.oitbrasil.
BRASIL. Jurisprudência. Supremo Tribunal Federal. Disponí- org.br/content/constitui%C3%A7%C3%A3o-oit-e-
vel em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verJulgamentoDe- -declara%C3%A7%C3%A3o-de-filad%C3%A9lfia>. Acesso
talhe.asp?idConteudo=339642>. Acesso em: 21 maio 2017. em: 21 maio 2017.

— 142 —
15

O TRABALHO NO CALL CENTER:


UM OLHAR ATRAVÉS DO TRABALHO DECENTE
FLÁVIA MOREIRA GUIMARÃES PESSOA(*)
MARIANA FARIAS SANTOS(**)

1. INTRODUÇÃO Muito pelo contrário. O trabalho decente depende de


cada situação fática em particular, mormente quanto aos
O presente estudo tem por objetivo analisar o tra- direitos garantidos (ou não) em cada caso, para, só então,
balho prestado nos call centers, tomando como parâme- ser identificada a melhor forma de promover a dignidade
tro o trabalho decente. Este paradigma foi desenvolvido e demais direitos humanos na situação laboral em foco.
pela Organização Internacional do Trabalho – OIT, par- Em ampla relação com a teoria de Robert Alexy acerca
tindo de objetivos estratégicos para garantir a observân- dos princípios, principalmente quanto à caracterização
cia dos direitos humanos nos mais diversos ambientes destes como um mandamento de otimização.
laborais, tendo por base a dignidade da pessoa humana. Com efeito, trata-se de um meio de garantir que a
A moldura na qual hoje podemos encaixar o trabalho dignidade do cidadão trabalhador, preexistente ao vín-
decente já tinha seus contornos delineados, porém, culo laboral, mantenha-se hígida durante o contrato de
separadamente. Privilegiando uma postura mais pró- trabalho, assim como os direitos daí decorrentes. Nesta
-ativa, a OIT entendeu por bem destacar e consolidar senda, podemos citar, dentre os direitos insertos na mol-
esses contornos, a fim de deixar bem claras as exigên- dura do trabalho decente, o direito a um trabalho livre
cias mínimas e indispensáveis à garantia dos direitos do e em condições justas, o direito à justa remuneração, o
homem-trabalhador nas relações laborais. direito de exercer trabalho em condições que preservem
O trabalho decente se mostra, então, como o ar- a saúde do trabalhador e o direito à liberdade sindical.
cabouço protetivo mínimo dos trabalhadores, em todo Além disso, também se traduz numa forma de evitar a
o mundo. Sendo o parâmetro ideal básico para qual- precarização das relações de trabalho, dada a sua apli-
quer meio ambiente de trabalho. No entanto, a reali- cação aos mais diversos tipos de natureza jurídica, seja
dade nem sempre retrata esse ideal e, por vezes, acaba ela empregatícia, seja ela autônoma, seja ela de traba-
por subvertê-lo, como será analisado adiante. Por esta lho, sempre prezando pela máxima dignidade possível.
razão, e da mesma forma que os direitos humanos, o O trabalho decente garante, ainda, reflexos não
trabalho decente é um conceito em permanente cons- só na relação entre os empregadores e os trabalhado-
trução, cuja aplicabilidade depende, sobremaneira, da res, mas também na sua vida em sociedade, na medida
situação concreta que se apresente, com o primordial em que contribui para a superação da pobreza, para
objetivo de dignificar o ambiente e o trabalho realizado. redução das desigualdades sociais e para promoção do
Desta forma, importa destacar que não há um parâ- desenvolvimento sustentável, consoante se depreende
metro cuja objetividade prescinde maiores elucidações. do Plano Nacional do Trabalho Decente (BRASIL, 2010).

(*) Juiza do trabalho, titular da 4 Vara do Trabalho de Aracaju. Professora do Mestrado em Direito da Universidade Federal de Sergipe
e da Universidade Tiradentes. Doutora em Direito Público.
(**) Mestranda em Direitos Humanos pela Universidade Tiradentes. Professora da Universidade Federal de Sergipe. Advogada.

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Trata-se, na verdade, de um instrumento de identida- em seu art. 1º, III e IV, a “dignidade da pessoa humana”
de social, por meio do qual o indivíduo deve ter reconheci- e “os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa”
do o seu valor enquanto ser humano dotado de dignidade, (BRASIL, 1998). Já em seu art. 170, fixa a ordem eco-
dentro e fora do ambiente de trabalho. O trabalho decente nômica fundada na valorização do trabalho humano e
transcende, então, as condições contratuais trabalhistas. na livre iniciativa, assim como elenca o trabalho como
Os resultados são, por conseguinte, passíveis de repercus- direito social, em seu art. 6º. O trabalho é alçado, então,
são nos mais diversos ramos da vida em sociedade. a posição importante no ordenamento jurídico pátrio,
Estando claro o parâmetro do presente estudo, tere- não só no âmbito econômico, como também para a Re-
mos que cotejá-lo com o ambiente de trabalho em foco, pública como um todo, que o toma como fundamento.
qual seja, o call center. A despeito de se tratar de um dos Por sua vez, no âmbito internacional, a tutela deste
setores que mais emprega no Brasil, também é um dos direito também se verifica. É possível vislumbrar uma
locais em que mais se verificam práticas vilipendiadoras constante aproximação entre os direitos humanos e as
dos direitos humanos, na medida em que os atenden- garantias mínimas de direito do trabalho, de modo a
tes de telemarketing encontram-se sujeitos a pressões resguardar a dignidade do empregado e o valor social
internas pelo cumprimento de metas, pela observância do trabalho. Este fato pode ser confirmado por meio das
das normas de atendimento, pela satisfação do cliente normas internacionais ratificadas pelo Brasil, em algu-
atendido, além de sofrerem um severo controle de suas mas das quais há a tutela dos direitos dos trabalhado-
atividades, inclusive de suas idas ao banheiro. res, numa dimensão social. Também confirma a tutela
Ao mesmo tempo, os teleatendentes são pressio- e proteção deste direito, o lançamento pelo Brasil da
nados pelo cliente que está do outro lado da linha e Agenda Nacional do Trabalho Decente, cujos moldes
deseja ter suas reivindicações atendidas e o seu proble- veremos adiante.
ma resolvido. Ocorre que nem sempre esta relação tem O Direito Internacional dos Direitos Humanos,
uma linha de cordialidade a conectando. A insatisfação cujo objetivo é garantir o exercício dos direitos da pes-
pressiona os dois lados desta tênue conexão, tendo o soa humana (PIOVESAN, 2015, p. 81), também abrange
atendente como o mais atingido. o direito ao trabalho, por conseguinte. Nesta medida,
Outrossim, é possível vislumbrar uma instrumen- é possível afirmar que, numa concepção contemporâ-
talização deste homem trabalhador, que é utilizado nea de direitos humanos, na qual eles “são concebidos
apenas como mais um fator de produção, como me- como unidade indivisível, interdependente e inter-
ra engrenagem do sistema. Sendo encarado como um -relacionada” (PIOVESAN, 2015, p. 79), o direito ao
meio de atingir os objetivos patronais e não como um trabalho encontra-se inserido. Podendo-se falar, então,
fim em si mesmo. Desconsiderando-se, totalmente, a numa proteção internacional aos direitos humanos do
dignidade que lhe é intrínseca. trabalho.
Por esta razão, além de analisar o trabalho decente O direito ao trabalho, embrião do hoje chamado
e os direitos humanos do trabalhador, far-se-á necessá- direito humano ao trabalho decente, insere-se, junta-
rio examinar o meio ambiente laboral a que estão su- mente com os direitos econômicos, sociais e culturais,
jeitos os teleatendentes, caracterizando e descrevendo nos direitos humanos de segunda dimensão(1), que reve-
as suas peculiaridades. Assim como é preciso traçar um lam garantias obrigacionais por parte do Estado (AZE-
perfil deste teleatendente, a fim de individualizá-lo ao VEDO NETO, 2015, p. 52). Esta dimensão inclui, ainda,
máximo, o que auxiliará na análise dos dados referen- outros direitos ligados ao trabalho, mais relacionados às
tes aos call centers, mormente quanto à rotatividade liberdades sociais, tais como o direito à greve, à liberda-
e grande índice de adoecimento dos trabalhadores de de de sindicalização e alguns direitos fundamentais dos
telemarketing. trabalhadores, como o salário mínimo, férias e repouso
semanal remunerado. Abrangendo muito mais do que
2. DIREITOS HUMANOS DO TRABALHADOR: direitos de cunho prestacional e que se reportam, es-
O CAMINHO TRILHADO ATÉ O TRABALHO pecificamente, à pessoa individual. (SARLET, 2015a,
DECENTE p. 48).
É possível dizer, então, que a proteção internacio-
No âmbito nacional, a Constituição Federal estipu- nal aos direitos humanos do trabalho vai muito além da
la como fundamentos da República Federativa do Brasil, mera tutela do direito ao trabalho, estendendo-se aos

(1) Não podemos olvidar das críticas e teorias existentes em torno dos termos “gerações” e “dimensões” de direitos humanos. Optamos
em utilizar o termo “dimensões”, a despeito das críticas acerca do caráter de supervalorização da classificação histórica (SARLET,

— 144 —
direitos e garantias que possibilitam a promoção da dig- so de renovação e modernização que tem empreendido
nidade do trabalhador, dentre elas as liberdades sociais (BRITO FILHO, 2013, p. 47).
citadas e alguns outros direitos que compõem o arca- Nesta medida, já é possível melhor definir o tra-
bouço protetivo mínimo decorrente do trabalho decen- balho decente, como sendo um “trabalho produtivo e
te, que delinearemos adiante. adequadamente remunerado, exercido em condições
de liberdade, equidade e segurança, sem quaisquer for-
3. ORIGEM E CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO mas de discriminação e capaz de garantir uma vida dig-
DECENTE na a todas as pessoas que dele vivem”. (BERG; RIBEIRO,
2010, p. 17).
Em decorrência do franco avanço do capitalismo Trata-se, assim, de um conceito que foi adquirin-
globalizado, surgiu a necessidade de melhor resguar- do corpo conforme as ideias já defendidas pela OIT fo-
dar os interesses e direitos do trabalhador, invocando, ram sendo consolidadas, alcançando um patamar mais
assim, a promoção da dignidade na relação de labor. O objetivo. Ademais, promove-se uma ressignificação do
que se deu, de certa forma, através do trabalho decente. próprio trabalho, privilegiando em sua nomenclatura a
O trabalho decente, enquanto bandeira de ação da OIT, dignidade do trabalhador e, por conseguinte, da essên-
teve seus contornos delineados, inicialmente e de forma cia humana. O elemento nuclear do trabalho passa a
indireta, na Declaração sobre os princípios e direitos ser a dignidade, que estudaremos em detalhes nos pró-
fundamentais do trabalho, de 1998. ximos tópicos.
A OIT publicou a Declaração sobre os princípios e Platon Teixeira de Azevedo Neto (2015, p. 60) tam-
direitos fundamentais do trabalho (OIT, 1998), listando bém sintetiza como pode ser compreendido, de forma
como primordiais à consecução dos seus objetivos os teórica, o trabalho decente, como a manifestação de
seguintes pontos: a) a liberdade sindical e o reconhe- uma prestação de serviços baseada na consecução do
cimento efetivo do direito de negociação coletiva; b) a bem, sem qualquer exploração selvagem, na qual, tanto
eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou o trabalhador quanto o empregador, contribuem, direta
obrigatório; c) a abolição efetiva do trabalho infantil; e ou indiretamente, para o bem-estar recíproco, objeti-
d) a eliminação da discriminação em matéria de empre- vando a plena harmonia.
go e ocupação. Trazendo uma compilação de suas mais Entretanto, há quem acredite que o elenco mínimo
importantes Convenções até aquela data, obrigando to- de direitos básicos apontado pela OIT não é suficiente,
dos os países participantes da Organização a cumpri-las na medida em que “não há trabalho decente sem con-
e a envidar esforços, constitucionais e financeiros, para dições adequadas à preservação da vida e da saúde do
alcançar estes objetivos. trabalhador. Não há trabalho decente sem justas con-
A OIT começa a dar indícios, assim, de que exis- dições para o trabalho, principalmente no que toca às
tem certos direitos básicos e indispensáveis à relação horas de trabalho e aos períodos de repouso” (BRITO
trabalhista, sem os quais não há respeito à dignidade FILHO, 2013, p. 55).
do trabalhador. Ressaltando, ainda, a necessidade de Na verdade, José Cláudio Monteiro de Brito Filho
comprometimento dos países na observância, proteção (2013, p. 55) acredita que o rol mínimo de direitos dos
e promoção desses direitos. O normativo da OIT acaba trabalhadores deve corresponder: ao direito ao traba-
sendo, então, responsável por “solidificar um patamar lho, à liberdade de trabalho; à igualdade no trabalho;
protetivo mínimo de resguarde à dignidade do trabalha- ao trabalho em condições justas, inclusive quanto à re-
dor” (COSTA; DIEHL, 2016, p. 103/104). muneração e à preservação da saúde e segurança do
Em 1999, na 87ª Conferência Internacional do Tra- trabalhador; bem como à proibição do trabalho infantil,
balho, foi adotado, de forma oficial, pelo então Diretor- à liberdade sindical e à proteção dos riscos sociais.
-Geral da OIT, Juan Somavía, o termo Trabalho Decente O trabalho decente apresenta-se, então, como um
(em inglês, Decent Work), a significar o ponto de con- arcabouço de proteção mínima cujos direitos referem-
vergências dos 4 objetivos básicos supracitados. (AZE- -se aos planos individual, coletivo e da seguridade so-
VEDO NETO, 2015, p. 59). Passando, então, a ser o cial. Como se pode perceber das conclusões alcançadas
trabalho decente o principal objetivo da OIT, no proces- por Brito Filho, este rol mínimo de direitos do homem-

2015a, p. 57), porque esta expressão deixa mais clara a existência de sobreposição e coexistência de direitos, em relação ao termo
“gerações”, que acaba por atrair o entendimento de que esses direitos se substituem com o passar do tempo. O que é um equívoco e
retrata um dos motivos da preferência da doutrina moderna pelo termo “dimensões”, o qual não nega o progressivo reconhecimento
de direitos mas, ao mesmo tempo, adiciona o atributo de um processo cumulativo, de complementação. Há, todavia, consenso
quanto ao conteúdo das “dimensões” ou “gerações” de direitos. (SARLET, 2015a, p. 45).

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-trabalhador é muito mais amplo que aquele inicial- combater os problemas da exploração nefasta do tra-
mente elencado pela Declaração Universal e pela OIT, balho, em todas as suas (piores) formas, como também
posto que menos do que isso seria sujeitar o trabalhador compelir os Estados-membros a adotar políticas em sua
a condições que estão abaixo do necessário para preser- defesa, tais como, de promoção de emprego e remu-
var a sua dignidade. neração adequada, de proteção da saúde e integridade
Neste diapasão, é relevante a contribuição de Ro- física dos trabalhadores, de redução das desigualdades
bert Alexy (2015b, p. 582), ao tratar da ordem-moldura, sociais e de promoção do desenvolvimento sustentável,
a qual diz respeito a limitações impostas ao julgador consoante assevera Platon Teixeira (2015, p. 21).
ou aplicador da norma, face à proteção constitucional A amplitude do trabalho decente é tamanha que
deferida. Assim sendo, “o que é obrigatório ou proibido seu manto protetivo abrange não só a relação de em-
é a moldura; o que é facultado – ou seja, nem obrigató- prego – que no Brasil recebe maior proteção da CLT –,
rio, nem proibido – é aquilo que se encontra no interior como também da relação de trabalho, do trabalho in-
da moldura”. O trabalho decente se amolda, sobrema- formal, do trabalho autônomo e de todas as formas de
neira, ao conceito de ordem-moldura, na medida em labor que possam existir. Nenhum trabalhador está des-
que teve seus contornos delineados pela OIT, fixando os protegido em relação ao trabalho decente. Pelo menos,
parâmetros mínimos protetivos, espectro que encontra, os direitos mínimos aqui elencados devem se fazer pre-
inclusive, respaldo na Constituição brasileira, facultan- sentes, mesmo que não encontrem positivação no direi-
do a ampliação desta proteção, mas sempre deixando to de seu país, na medida em que se tratam de direitos
bem claras as exigências mínimas e indispensáveis à ga- humanos.
rantia dos direitos do homem-trabalhador nas relações O trabalho decente se coaduna com as afirmações
laborais. Logo, o trabalho decente é uma moldura com de Flávia Piovesan (2012, p. 189/190), acerca do que
parâmetros mínimos, dentro da qual é possível acrescer ela denomina de “mínimo ético irredutível”, tendo em
garantias ainda mais específicas. vista que o sistema de proteção internacional dos direi-
Outrossim, consoante preleciona Rúbia Zanotel- tos humanos acabou por fomentar e invocar um consen-
li de Alvarenga (2016, p. 13), o trabalho decente deve so internacional sobre alguns temas centrais aos direitos
ser encarado como um direito humano e fundamental humanos, com o objetivo de salvaguardar parâmetros
do trabalhador, haja vista que o labor deve ser fator protetivos mínimos. É, justamente, a finalidade da teoria
de dignidade e de valorização do homem, em todos em volta do trabalho decente: fixar alguns parâmetros,
os aspectos de sua vida, uma vez que lhe assegura o que valham em todo mundo, para um trabalho que ga-
acesso a bens materiais, satisfação pessoal e profissio- ranta condições dignas ao homem trabalhador. Há, em
nal, bem-estar e direito à integração social. Há, então, verdade, um processo de universalização dos direitos
verdadeira indissociabilidade entre o trabalho decente humanos do trabalhador.
e a dignidade. “Sem o exercício pleno dos seus direitos, Transpondo o tema para o âmbito interno, é pos-
o empregado não adquire dignidade e, sem dignidade, o sível dizer, a partir de uma análise sistêmica da Cons-
trabalhador não adquire existência plena” (ALVARENGA, tituição Federal de 1988, mormente do seu Título II, o
2016, p. 13). qual trata dos Direitos e Garantias Fundamentais, con-
Existe uma diferença técnica entre direitos huma- sagrando os Direitos Sociais (Capítulo II), que os direitos
nos e direitos fundamentais. O trabalho decente diz res- trabalhistas são reconhecidos, em nosso ordenamento
peito, antes de tudo, a um di