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Fármacos que alteram a motilidade

do trato gastrointestinal
Profa. Dra. Iziara Ferreira Florentino
Diarreia
Dia, do grego = sem parar
rhein, do latim = fluir ou escorrer

“Evacuação muito rápida de fezes muito líquidas”

➢ 200 g/dia de fezes

➢ Distúrbios do transporte intestinal de água e eletrólitos


Diarreia
➢Etiologia
o Sobrecarga osmótica presente no intestino;
o Secreção excessiva de eletrólitos e água no lúmen intestinal
o Exsudação de proteínas e líquidos presentes na mucosa
o Alteração na motilidade intestinal -> aceleração do trânsito (redução da absorção de líquidos)

Vários simultaneamente -> aumento global de peso e volume das fezes

Manifestações clínicas:
Aumento de evacuações em 24 hrs
Fezes aquosas (pouca consistência)
Alguns casos: muco e sangue
Febre
Dor abdominal
Vômitos?
Diarreia de início súbito
• Doenças benignas/autolimitadas
• Riscos (lactentes, crianças, idosos debilitados): desidratação e distúrbios
eletrolíticos

TERAPIA DE REIDRATAÇÃO ORAL

Mecanismo de cotransporte água/eletrólitos -> H2O


intacto
Abs NA+/Cl- + glicose + água
TERAPIA DE REIDRATAÇÃO ORAL

• Utilização independente do diagnóstico clínico


• Diminuição da mortalidade por diarreia
• Correção da desidratação e do desequilíbrio
eletrolítico
• A via de adm depende do grau de desidratação
Fármacos que alteram a motilidade do trato gastrointestinal

Purgativos, que aceleram a passagem de alimentos


através do intestino

Agentes que aumentam a motilidade da musculatura lisa


gastrointestinal sem causar purgação

Antidiarreicos, que diminuem a motilidade

Antiespasmódicos, que diminuem o tônus da


musculatura lisa
Antidiarreicos
• A utilização de fármacos na diarreia aguda não é recomendada
rotineiramente Causadas por microrganismos patogênicos

• Reservado para os pacientes com sintomas persistentes ou significativos

• Fármacos não atuam no mecanismos fisiopatológico subjacente


responsável pela diarreia

• Alívio sintomático
Não devem ser administrados a pacientes com diarreia
sanguinolenta, febre alta ou toxicidade sistêmica, devido
ao risco de agravamento do processo subjacente
Antidiarreicos
PRINCIPAIS MECANISMOS:
Redução de motilidade Fármacos antissecretores Fármacos higroscópicos
intestinal • Ocreotida • Carboximetilcelulose
• Opioides • Somatostatina • Policarbofila cálcica
• (contra-indicados em diarreia
causada por microorganismos)

Sequestradores de ácidos
biliares
• Colestiramina
• Colesevelam Bismuto Probióticos
• Colestipol
Fármacos higroscópicos e formadores de bolo fecal
Carboximetilcelulose; Policarbofila cálcica

Mecanismos de ação:

✓ Fármacos adsorventes

✓ Géis que modificam a consistência e viscosidade das fezes

✓ Ligação a toxinas bacterianas e sais biliares


Sequestradores de ácidos biliares (resinas)

Colesevelam:

➢ Mais recente;
➢ Comprimidos ou pó para misturar na água e ser tomados
como suspensão oral
➢ Não recomendado para crianças e gestantes.
São pós, administrados como sais de cloreto
Sequestradores de ácidos biliares

➢MECANISMO DE AÇÃO:
▪ São resinas que não são absorvidas e que se ligam aos ácidos biliares no
intestino
▪ inativando-os, e a algumas toxinas bacterianas, favorecendo sua
eliminação

➢INDICAÇÕES:
▪ Diarreia provocada pelos sais biliares

➢CONTRA-INDICAÇÕES:
▪ Diarreias infecciosas
Sequestradores de ácidos biliares

• USOS TERAPÊUTICOS:

• Paciente com suspeita de diarreia causada por sais biliares:


✓ nos pacientes que fizeram ressecção do íleo distal

- Colestiramina: 4 g da resina desidratada (até 4x/dia)


- Eficaz: reduzir dose

- A colestiramina e o colestipol ligam-se a diversos fármacos e reduzem a sua


absorção – adm. em tempos diferentes
Bismuto
➢ Salicilatos: Abs no estômago e intestino delgado Subsalicilato de bismuto + HCl

➢ Mecanismo de ação: (?)

Oxicloreto de bismuto + ácido salicílico


➢ Efeitos:
- Antissecretórios
- Anti-inflamatórios
- Antimicrobianos (H. pylori)
- Alívio de náuseas e cólicas abdominais Sulfeto de bismuto:
• Fezes escuras
• Coloração negra da língua
Probióticos
➢ Diarreia por alterações na flora intestinal -> Antibióticos e algumas doenças

➢ Administração de bactérias não patogênicas para recolonizar o intestino

➢ Indicações:
- Diarreias agudas
- Diarreias associadas a antibióticos
- Diarreias infecciosas
Fármacos antissecretores e supressores de motilidade
➢ Opioides
• Receptores opioides µ ou δ (nervos entéricos, células epiteliais ou músculos)

µ δ
Inibição da motilidade +++ -
intestinal
Inibição da secreção - +++
intestinal
Inibição da absorção +++ +++
intestinal

• Difenoxilato, difenoxina e loperamida -> receptores µ periféricos


Opioides: Loperamida
• Farmacodinâmica:
Agonista de receptores µ opioides

• Farmacocinética:
• Ativo por via oral
• Pico plasmático: 3 a 5h
• Tempo de meia-vida: 11h
• Metabolismo hepático

• 40-50x mais potente que a morfina como agente antidiarreico

• Alcança baixas concentrações no SNC


“Eficaz na diarreia dos viajantes”
• Antissecretor de toxinas (E. coli)
Opioides: Loperamida
➢ Doses:
▪ Inicial = 4 mg
▪ Manutenção = 2 mg a cada evacuação diarreica subsequente
▪ Dose diária total = 16 mg

➢ 48 h -> uso suspenso

Idade Dose diária máxima recomendada


para crianças

2 – 5 anos 3 mg
Melhora clínica em 48 h, o uso
6 – 8 anos 4 mg deve ser suspenso

8 – 12 anos 6 mg

Obs.: Não recomenda-se para crianças menores de 2 anos.


Difenoxilato e Difenoxina
➢ Mecanismo de ação:
▪ Abs VO, pico plasmático após 1-2 h
▪ Difenoxilato metabolizado em difenoxina (meia-vida = 12h)
▪ Altas doses (40-60 mg): Efeitos no SNC

Usos:
• 25µg de sulfato de atropina + 2,5 mg de cloridrato de difenoxilato
ou 1 mg de cloridrato de difenoxina
Difenoxilato + Atropina
Posologia:
2 cps iniciais + 1 cp a cada 3-4 hrs (não exceder 8 cps/dia)
Outros opioides
• Codeína (30 mg; 3-4x/dia)

• Elixir paregórico:
Tintura canforada de ópio: Morfina (0,4 mg/mL)
Tintura desodorizada de ópio (25x mais potente): Morfina (10mg/mL )
Antissecretores
➢ Ocreotida
• Análogo à somatostatina
➢Indicação:
- Diarreia secretora grave desencadeada pelos tumores secretores de hormônios
localizados no pâncreas e no TGI
➢Mecanismo de ação:
• Inibição da secreção hormonal (5-HT, gastrina, VIP, insulina, secretina)
➢Farmacocinética:
• Adm: s.c. ou i.v. (meia vida = 1-2 h)
• Dose inicial: 50-100 µg, 1-3vezes/dia (s.c.)
• Dose máxima: 500 µg 3 vezes/dia
➢Efeitos indesejáveis: náuseas, dor no local das injeções
➢Longo prazo: cálculos biliares, hipo ou hiperglicemia
Outros fármacos
➢Bloqueadores dos canais de cálcio: Constipação é um efeito adverso
• Verapamil e nifedipino significativo desses fármacos

➢Berberina:
• Efeitos antimicrobianos, inibição da contração de mm. Lisos, ef.
Anticolinérgico, bloqueio da entrada de cálcio

• Indicação: diarreia bacteriana e na cólera; parasitoses intestinais


Laxantes, catárticos e tratamento contra constipação
Laxantes, catárticos e tratamento contra constipação

➢Frequência normal de evacuações é de pelo menos 3 vezes/semana

▪ Laxação: evacuação do material fecal formado no reto


▪ Catarse: evacuação do material fecal não formado, geralmente na
forma líquida, de todo o intestino grosso

✓ Os fármacos usados comumente produzem laxação


✓ Alguns catárticos funcionam como laxantes em doses
baixas.
Laxantes
➢Os laxativos podem ser classificados com base no seu principal
mecanismo de ação
✓Laxativos formadores de massa
✓Fármacos surfactantes fecais (Amolecedores)
✓Laxativos osmóticos
✓Laxativos estimulantes
✓Ativador dos canais de cloreto
✓Antagonistas dos receptores opioides
✓Agonistas dos receptores de 5-HT4 de serotonina
Laxativos formadores de massa
➢Os laxativos formadores de massa são coloides hidrofílicos não
digeríveis que absorvem água, formando um gel emoliente e
volumoso
▪ Provoca distensão do cólon e promove peristalse
▪ Produtos vegetais naturais (psílio, metilcelulose) e fibras sintéticas
(policarbofila)
Fármacos surfactantes fecais
➢Esses fármacos amolecem o material fecal, permitindo a penetração
de água e lipídeos
▪ Administração por via oral ou retal
▪ Fármacos: docusato (oral ou enema) e os supositórios de glicerina
✓ O óleo mineral é um óleo viscoso claro que lubrifica o material fecal

▪ O uso em longo prazo pode comprometer a absorção das vitaminas


lipossolúveis (A, D, E, K)
Laxativos osmóticos
• O cólon é incapaz de concentrar ou de diluir o líquido fecal: a água
fecal é isotônica em toda a extensão do cólon
▪ Os laxativos osmóticos são compostos solúveis, porém não absorvíveis

Açúcares ou sais não absorvíveis: Polietilenoglicol balanceado


• Hidróxido de magnésio (leite de magnésia) • Soluções de lavagem: polietilenoglicol (PEG) - antes
• O sorbitol e a lactulose são açúcares não absorvíveis de procedimentos endoscópicos gastrintestinais
(prevenção ou no tratamento da constipação • Essas soluções isotônicas balanceadas:
intestinal crônica) • Açúcar inerte, não absorvível e osmoticamente
• Citrato de magnésio, uma solução de sulfato e uma ativo (PEG) com sulfato de sódio, cloreto de
associação de óxido de magnésio, picossulfato de sódio, bicarbonato de sódio e cloreto de
sódio e citrato - Colonoscopia potássio
• PEG não provoca cólicas ou flatulência
❖ As preparações de fosfato de sódio não devem ser significativas
prescritas a pacientes debilitados ou idosos
Doses menores - prevenção da constipação intestinal crônica
Laxativos estimulantes
➢Os laxativos estimulantes (catárticos) induzem evacuação intestinal por
meio de vários mecanismos pouco elucidados
▪ Obs: uso prolongado de catárticos resultar em dependência e destruição do plexo
mioentérico, com consequente atonia e dilatação do cólon
❖Derivados da antraquinona
• Aloe, o sene e a cáscara sagrada (plantas)
• Evacuação em 6 a 12 horas – Adm. via oral

❖Derivados do difenilmetano
• Bisacodil - comprimidos e supositórios para o tratamento da constipação intestinal
aguda e crônica
• Evacuação em 6 a 10 horas - adm. via oral
• 30 a 60 minutos por via retal
Ativador dos canais de cloreto
➢Lubiprostona
• Derivado do ácido prostanoico
• Indicado para uso na constipação intestinal crônica e na síndrome do
intestino irritável (SII) com constipação predominante
• Estimular o canal de cloreto tipo 2 (ClC-2) no intestino delgado
• Aumenta a secreção de líquido rico em cloreto no intestino
➢Linaclotida
• peptídeo de 14 aminoácidos que sofre absorção mínima
• Estimula a secreção intestinal de cloreto
• 145 mcg v.o./dia aumento médio de 1 a 2 evacuações/semana
Categoria C para gravidez
Antagonistas dos receptores opioides
• Terapia aguda e crônica com opioides pode causar constipação
intestinal
O uso de opioides após cirurgia para tratamento da dor e os opioides
endógenos também podem prolongar a duração do íleo pós-operatório

• Receptores de opioides µ intestinais


• Antagonistas: Brometo de metilnaltrexona e o Alvimopan
• Inibem os receptores opioides periféricos, não tem ação central

Obs: Alvimopan - toxicidade cardiovascular, está restrito para


uso em curto prazo apenas em pacientes hospitalizados
Agonistas dos receptores de 5-HT4 de serotonina
➢Tegaserode
• É um agonista parcial 5-HT4 da serotonina
• foi aprovado para o tratamento de pacientes com constipação crônica e SII com
constipação predominante, mas foi retirado do mercado

➢Prucaloprida
• É um agonista 5-HT4 de alta afinidade
• Disponível na Europa para o tratamento da constipação intestinal crônica em
mulheres.
• Não tem afinidade significativa pelos canais de K+ hERG ou por 5-HT1B
• A sua eficácia e segurança em longo prazo exigem estudos adicionais