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O que pode a Psicanálise na era dos laços precários?

Cristina Felippe (Membro FCL Niterói)

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá
viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro”. Mia
Couto

Freud, no texto “O Mal Estar na Civilização” nos mostra que o sofrimento humano
está ligado a três grandes fontes: o corpo, fadado ao fracasso por sua fragilidade e finitude,
a impotência diante da força da natureza e, o mal estar relativo às relações humanas.
Mesmo entendendo que não tem domínio sobre a natureza e sobre o próprio organismo,
o ser humano adquiriu conhecimento e capacidade de controlar parte das forças da
natureza, fez grandes progressos científicos e técnicos, como a descoberta da cura para
várias doenças.

Mas, no tocante às relações, foi mal sucedido na prevenção do sofrimento. O


antagonismo entre as exigências da pulsão e a civilização torna a vida em sociedade
penosa, as regras de convivência causam mal estar na interação com o semelhante, que
não é apenas um colega de trabalho ou um parceiro amoroso, mas também um rival. Para
Freud, o saber, o fazer e as regras estabelecidas pelos homens regulam os laços sociais.
Lacan, no Seminário 17, afirma que é o discurso que faz laço. Os laços sociais são tecidos
costurados pela linguagem e foram por ele denominados discursos.

A escrita lacaniana dos discursos foi dividida em quatro partes: o discurso do


mestre, o discurso universitário, o discurso da histérica e o discurso do analista. Ele se
referiu ao discurso do mestre como aquele que ordenou historicamente o mundo. Aquele
que regula a vida sócio-político-econômica. O discurso que assujeita o outro. O discurso
capitalista seria então uma variante do discurso do mestre, que faz com que o sujeito
substitua o desejo pela necessidade.
O mundo capitalista vigente teve início na Revolução Industrial, século XVIII,
com a mecanização da produção, ou seja, a substituição das pessoas pela máquina nos
processos de produção em massa que deu origem à sociedade de consumo, onde somos
impelidos a consumir, para dar sentido à produção.
A Modernidade, processo histórico, constituiu-se na crença da transformação do mundo
através da ciência e da racionalidade.
A Revolução Industrial trouxe mudanças significativas para o mundo, mas nada
comparado à passagem da modernidade para a pós-modernidade.
O conceito de pós-modernidade, surge no século XX, mais precisamente na década de
80, com a compreensão do fracasso das utopias que a modernidade prometeu, e a recusa
de narrativa e teorias longas e complexas sobre as coisas.

O sociólogo polonês, Zygmunt Bauman substitui o termo pós-modernidade por


modernidade líquida. Na modernidade as categorias eram duráveis, firmes, portanto
sólidas. A partir do final do século XX e início do século XXI, inaugura-se a modernidade
líquida, ou seja, o derretimento da solidez. A globalização e o desenvolvimento de
tecnologias eletrônicas e de comunicação diminuíram as distâncias no mundo. Esses são
alguns dos fatores que transformaram a modernidade sólida em líquida.
Na modernidade sólida também tínhamos momentos de dúvidas e incertezas. Porém, na
modernidade líquida temos que lidar com o individualismo, o enfraquecimento dos
vínculos sociais, a decadência da solidariedade, além das dúvidas e incertezas.

O que nos afeta enquanto humanos e, assim, somos conduzidos a nos apoiar no
consumo. O mercado produz mercadorias e tem a intenção de produzir cada vez mais,
nunca parar. A produção frenética nos leva a uma busca também frenética por consumo.
Se o sujeito ameniza seu sofrimento no consumo, essa será a meta de sua vida. Uma busca
incansável pela felicidade através do consumo de mercadorias. Sua identidade agora está
no que consome, logo, a identidade também se torna líquida, ele passa a ser o que pode
consumir. A tecnologia produziu mudanças na forma como as pessoas se relacionam.
Hoje é fácil se conectar, e mais fácil ainda se desconectar.

O conceito de laços humanos está sendo substituído pelo conceito de redes sociais.
Possuir dois mil amigos virtuais, receber muitos “likes” por uma postagem, fazem parte
da vida na modernidade líquida. Mas será possível contar com um ou dois desses amigos
nos momentos de angústia e dor? Romper uma amizade era difícil, a pessoa tinha que
conversar, dava trabalho. Mas na internet é simples, basta clicar no delete e pronto. Os
relacionamentos amorosos também se tornaram líquidos, descartáveis, como um objeto
que não usamos mais. Tudo é muito rápido, não podemos gastar tempo consertando.

A busca pela felicidade, e a ilusão de completude criada pelo capitalismo, de que


é possível ser feliz o tempo todo, faz com que tudo seja efêmero nesses tempos líquidos.
Aprendemos com a psicanálise que não há satisfação plena, não há gozo pleno. O discurso
capitalista rechaça a castração fazendo com que o sujeito creia que pode conseguir o que
lhe falta. Não há sociedade piedosa e justa, logo, o ser humano terá que lidar com
ambivalências e conflitos.

Concluo com a pergunta de Maria Letícia Reis e Daniela Sanches no livro A


construção de casos clínicos em psicanálise: “E então, o que a psicanálise nos oferece?
Honestidade de propósito, desalienação, responsabilização e uma nova narrativa”.
Abandonar o atalho e seguir em direção à estrada principal, a via desejante.