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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
PROJETO DE QUALIFICAÇÃO DE DOUTORAMENTO

JUVENTUDE, VIDA COTIDIANA E FOTOGRAFIA: UMA ANÁLISE DAS


DESIGUALDADES SOCIAIS NO ESPAÇO ESCOLAR

DOUTORANDO: PAULO CESAR DE CARVALHO LIMA

ORIENTADOR: CÉSAR LEIRO

AVALIADOR: MAURÍCIO ROBERTO DA SILVA

O fotógrafo Paulo Lima sai todos os dias, apressado e lento, pisando como menino, pelas ruas da cidade
deo Salvador e pelo recôncavo baiano. Sua principal meta é a viagem aos territoriosterritórios
imagéticos da in-fans, visando aà captura dos devaneios do tenro ser. In-fans quer dizer aquele que não Formatted: Font: Not Italic
fala, mas as crianças aqui retratadas, falam com seus olhos, em sintonia com os olhos de Paulo. Por
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entre carros, defumadores, banhos de pipoca para Omolú, todos os orixás e erês; atravessa ruas,
ladeiras, becos e palafitas. Vai, desta maneira, empinando pipas, aguçando as lentes do seu olhar de
fotóografo-pesquisador-poeta, dilatando retinas, aprimorando o foco do seu brincante olhar social,
crítico e subjetivo para o outro, para o ser criança. Ele fotografa as crianças, unindo técnica, olho,
víscera e coração e, assim, vai seguindo seu curso pelo leito dos rios, por vielas estreitas nos meandros
urbano-rurais. As fotos que faz, traduzem metáforas eivadas de um olhar marejado de realidade e focos
de luz da condição infantil. Neste sentido, ele faz o que certa vez disse o mímico Marcel Marceau: todo
artista deve revelar em si a condição humana.
Paulo Lima, por fim, derrama, neste espaço de cultura, arte e sentimento, o seu olhar afoito, rebelde e
delicado sobre os pelourinhos da cidade, provavelmente, para capturar as representações dos erês no
horizonte rubro de sangue e o céu azul em preto e branco, as mensagens dos olhares infantis com suas
cenas de doçura, dores e prazeres em meio a coqueiros, frutas da infância, desejos e afetos regados a
comidas de santo, doces, jogos, afagos e guloseimas de Cosme e Damião. Reconheço que a retina de
sua câmera-olho entende como ninguém de criança, pois, para entender o Erê, tem que estar moleque
e ter a consciência leve.
(“Fotografia e infância: metáforas de um olhar-ver – ” Maurício Roberto da Silva) Formatted: Font: Italic
1. Agradecimentos e parabéns ao doutorando e ao orientador pela construção do
objeto de estudo e por suas possíveis contribuições para as pesquisas sobre
educação e fotografia na UFBA e em outras universidades.

2. Primeiras palavras: conheci Paulo Lima ainda na graduação. Era um iniciante na


fotografia e, desde o seu TCC, quando fotografou a realidade da escola pública e, ao
mesmo tempo, fotografava, diletantemente, crianças e jovens da periferia. Nesse limiar,
parecia querer esboçar aalgum trabalho que articulasser pesquisa e fotografia. Nestse
projeto, conseguiu fazer essa articulação, ao enveredar pela questão das desigualdades
sociais no espaço escolar, que as quais já havia visto no TCC. Com estse projeto, ele dá
um salto de qualidade, ao tratar a fotografia no mesmo pé de igualdade da escrita (anáise
e interpretação dos signos sociais presentes na fotografia de natureza sensível e
crítica)so itantotanto na pesquisa quanto na fotografia, ao tratar a fotografia no mesmo
pé de igualdade da escrita (análise e interpretação dos signos sociais de natureza sensível
e crítica presentes na fotografia) – dando mais sentido a sua produção escrita e
imagética! Nessa trajetória, tive a oportunidade de ser curador das suas primeiras
exposições (ver emCf. Aanexo).

3. Sobre a totalidade do trabalho: aspectos gerais em termos teórico-metodológicos e


de forma e conteúdo:

 Trata-se de um trabalho original e de referência para os estudos sobre educação,


juventude, fotografia social e desigualdades sociais no espaço escolaRescolar;
 Um projeto que que tem em seu bojo ousadia, criatividade e imaginação sociológica;
 Trabalho bem escrito e “fotografado”, que revela uma busca do doutorando por pela
verdadeira práxis. Isso está evidenciado na sua imersão apaixonada, sensível e com
compromisso político-social e sensível, no âmbito das práticas e estudos da “fotografia
social”. Paulinho, já na graduação, era um “jovem que fotografava crianças e jovens da
periferia”;
 Trabalho, denso, com compromisso político-pedagógico de classe, quee, no ponto de
vista epistemológico e ideológico, demonstrando muita coragem na no tocante à escolha
pelo materialismo histórico-dialético como suas categorias e leis de análise. Eessa não
é tarefa fácil, pois o pesquisador precisa estar atento durante todo o tempo para com as
palavras, teorias e conceitos, no sentido de emprestar ao trabalho uma coerência interna
exigida a da pelo método,. “num constante exercício de vigilância epistemológica” –
como diz Bachelard;
 Nesse sentido, o projeto de qualificação é de suma relevância para se pensar o objeto de
estudo dno ponto de vista ontológico, epistemológico e político, no que tange à
problemática da educação dos jovens da classe trabalhadora das periferias empobrecidas
da cidade do de Salvador;
 O projeto em apreço, contém em suas páginas a tentativa de compreender e colocar em
prática a ideia de que: “o método é apenas uma orientação teórica, mas o pesquisador
joga nele a sua própria vida”, nas palavras de (Éclea Bosi);
 Paulo Lima é um pesquisador de olhar inquieto e em construção, que se impõetenta, á
na medida do possível, buscar o desafio de ‘fotografar áa realidade’” em busca do
‘“direito àá cidade’” para dos jovens escolares, em situação de
vulnerbilidadevulnerabilidade e contra as desigualdades sociais no espaço escolar das
periferias de Salvador;
 O projeto traz em Em suas entrelinhas, o projeto traz a necessidade de pensar as
possíveis relações entre educação, ciência, arte e política, enquanto dimensões
inseparáveis da construção da vida e da produção do conhecimento. Aliás, faço a
sugestão de trazer essas reflexões para a tese definitiva.

4. Sobre a introdução: o coração pulsante do projeto

Destaques:

 A introdução é está muito bem escrita. Nela se observamnela contém os fundamentos


da imaginação sociológica deo Mills, quando o autor faz uma exposição sobre a
jsutificativajustificativa do problema, destacando, fundamentalmente, a relação
dialética dos dfiversosdiversos níveis de relevância:; pessoal, acadêmico, social e
políticao. Nessa justificativa, o autor consegue demosntrardemostrar a pertinência do
estudo, de maneira clara e detalhada;
 Também é digno de destaque, o fato de que o autor, não ter se preocupou preocupado
apenas em descrever o problema de pesquisa,, mas sobretudo em demonstrá-lo sim
sobre o problema teoricamente como concreto pensado, à luz da dialética havida entre
perguntas e respostas, e evitando a construção de um problema abstrato de pesquisa.
Assim, oO problema dxe pesquisa é apresentado sob a forma de ‘“pergunta-problema’”
ou ‘“pergunta-síntese’”, que se origina do real-social e do mundo das necessidades
humanas, e de de uma ‘“situação de impasse’”.

Sugestões:

 Rever a delimitação da pergunta-problema, principalmente com a mudança da


empiria da Prakatum para outra ONG;
 Pergunta-problema: “como os jovens percebem as desigualdades sociais no espaço
escolar através das fotografias produzida por eles e por outros fotógrafos?”;
 O objetivo principal: analisar no espaço escolar as desigualdades sociais no espaço
escolar que subjazam às fontes e signos imagéticos das fotografias produzidas pelos
jovens participantes do projeto [...] ........e por outros fotógrafos;
 Os objetivos específicos:

• Debater sobre a ‘“questão social’” e suas relações com a fotografia, compreendida


como possiblidade de leitura crítica da realidade;
• Problematizar, através dos debates e das fotografias construídas pelos jovens, a
categoria ‘desigualdades sociais’ como pano de fundo para entender as desigualdades
que se travamobservadas no espaço escolar;
• Refletir sobre as relações entre desigualdades sociais e desigualdades educacionais e
identificar esses signos nas fotografias produzidas por fotógrafos consagrados e pelos
próprios jovens;
• Promover, através das oficinas de fotografia pedagógico-investigativas, a oportunidade
para a formação estética, científica, crítica e política dos jovens, no que diz respeito às
desigualdades de classe social e, consequentemente, sobre asàs desigualdades que se
materializam no ‘“chão da escola”’;
• Refletir sobre e o papel das da ações ação das ONGs e o significado dos ‘“projetos
sociais’” (p. ex.e: oficinas) oferecidos aos jovens das periferias empobrecidas da cidade
de Salvador;

 Desenvolver processos formativos de uma metodologia da fotografia, a partir do uso de


pequenas câmeras e celulares, visando a um redimensionamento do uso crítico e
propositivo dessa tecnologia;
 Incentivar a criação de grupos de jovens na perspectiva da fotografia crítica, ou
seja, como estratégia político-pedagógica, com vistas àa continuidade da
aprendizagem da fotografia como enquanto estratégia de emancipação na escola e
para além dela.

5. Elementos teórico-metodológicos e teórico-conceituais:.

Destaques:

 Há uma coerência interna no projeto, no que tange às relações entre teoria e empiria,
teoria e prática, teoria e método e outros pares dialéticos tão caros para aà metodologia
da pesquisa centrada na dialética materialista da história;
 Sobre o uso dos conceitos ou elementos teórico-conceituais: os diversos elementos
teórico-conceituais ainda precisam ainda serem mais melhor problematizados.
Ppor enquanto, são apenas categorias operacionais a priori que precisam de um
trato mais profundo.; Hhá passagens muito boas sobre a fotografia e as desigualdades
sociais e educacionais, que podem servir de esteio para o devir da pesquisa,. N no
entanto, alguns conceitos e categorias operacionais (a priori), precisam de
aprofundamento;
 O O segundo e o terceiro capítulos 2. e 3 estão bem escritoescritos, embora carecendo
careçam de revisões e de uma uma sequência lógica mais convincente na exposição dos
conteúdos. Mas isso, poderá ser superado após as novas leituras e a realização do
trabalho de campo;
 O projeto escapa dos trabalhos científicos, cuja metodologia é forjada em
‘“enquadramentos metodológicos’”, ou mesmo na ‘“metodologia’”, que, normalmente,
é baseada nos em manuais e técnicas de pesquisa, que contêém referencialreferenciais
teóricos que não dialogam com a empiria (as narrativas dos sujeitos);
 Pelo contrário, o autor, ao invés dae ‘“metodologia”’, que privilegia, apenas, o uso das
técnicas e procedimentos metodológicos, o autor tenta privilegiar favorecer as diversas
dimensões teórico-metodológicas do trabalho científico, centrado na dialética, tais
como: a epistemológica, a ontotológicaontológica e a, gnoseológicagnosiológica.
Técnica e metodológica; Commented [JPM1]: Aqui parece que está este par de
palavras está sobrando.
 Muito boas referências, mas que precisam ser aprofundadas, além dacom a inserção de
Talvez técnica merecesse ser incluída no rol, mas
autores dos de estudos mais críticos sobre as problemáticas da juventude; metodológica incorreria em redundância.

 Uma coisa superpositiva no projeto é o rompimento com os esquema positivistaos Formatted: Highlight

esquemas positivistas de projetos de pesquisa, os quais trabalham com o formato de


‘r“Revisão da Lliteratura’” ou ‘“referencial teórico’”, cujas categorias e conceitos,
permanecem permanecem na tese definitiva, são engessada insulados em num único
capítulo, – sem dialogar com as categorias empíricas que emergem do campo. Nesse
projeto, a abordagem teórico-conceitual, tem caráter provisório, considerando que essas
categorias teóricas vão aumentando e/ ou refinando-se até o processo de análise dos
dados. O objetivo disso é não dicotomizar pares dialéticos tão e inseparáveis, como
método e teoria, teoria e empiria e outros;
 Outro ponto positivo reside no fato de poderna possibilidade de mesclar abordagens
metodológicas aparentementemetodológicas aparentemente difusas, mas que, àá luz de
argumentos e justificativas poderiam se unir e dar outra uma cara menos conservadora
não apenas à ‘a “ forma’” do trabalho, mas também em termos deao seu
conteúdo. Digo isso, porque, tentei ouvir a voz de Wright Mills sobre a imaginação
sociológica trazida (no apêndice desse do livro “Do artesanato intelectual”, ao dizer
queno qual o autor afirma que “O pesquisador (sociólogo) tem que aprender a ser seu
próprio metodólogo e seu próprio teórico”;
 Também oOutro ponto positivo, está na possibilidade de trabalhar com oficinas técnicas
e pedagógicas, transformando-as em oficinas pedagógico-investigativaso.

Sugestões:

 DNo ponto de vista do conceito de desigualdade social e suas relações com as


desigualdades educaciobnaiseducacionais, – penso que o doutorando pode recuperar a
problematização de Pablo Gentili sobre ‘“desigualdades sociais e escolares’. e, além
disso, problematizar com mais profundidade a problemática das ‘“desigualdades sociais
no espaço escolar’”, ou seja, como elas se reverberam no cotidiano da escola;
 Incluir uma reflexão, ainda que breve, sobre o papel da fotografia nas pesquisas sem
ciências humanas e sociais;
 DNo ponto de vista das reflexões sobre o método do materialismo histórico-dialético,
penso que é importante enxugar maisá-las. A meu ver há algumas repetições excessivas;
 Faltam ainda dados estatísticos sobre a situação dos jovens no Brasil e em Salvador
(IBGE, PNAD, PNUD);
 Falta ainda forjar uma concepção de juventude articulada com a perspectiva da divisão
de classes sociais (desigualdades sociais), nomeadamente, de ”‘juventude
empobrecida’” (oObs.: a Algumas referências);
 Falta ainda aprofundar a literatura que trata de juventude, e pobreza e políticas públicas
para a juventude empobrecida;
 Além disso, é imprescindível problematizar sobre os chamados ‘“projetos sociais para
os jovens’” oferecidos pelas instâncias, sobretudo as ‘“não formais’” (ONG´s). O Commented [JPM2]: Instâncias...?

objetivo é tentar desvendar quais são os interesses que subjazemsubjacentes aos projetos Parece que falta alguma palavra.

dessas ONG´s que se destinam às problemáticas dos jovens empobrecidos; Formatted: Highlight

 É preciso apropriar-se das leituras que foram indicadas no item “Bibliografia a ser
consultada”. Nelas Nele há indicações de leitura de livros que podem auxiliar o
doutorando a superar os limites anteriormente apontados;
 DNo ponto de vista das abordagens metodológicas, é preciso ainda ver averiguar se a
combinação entre dos diversos tipos de pesquisa darão dará certo;
 Nessa mesma direção, também falta ainda deixar mais claro os roteiros das entrevistas,
a observação, a e análise e a interpretação icononográficaiconográfica, principalmente,
na perspectiva de apropriação da semiótica de Peirce; Commented [JPM3]: A grafia é esta mesma ou seria
Pierce?
 Sobre a análise dos dados, também é preciso checar se é possível a mescla de análise de
Formatted: Highlight
conteúdo temática ao lado da análise e interpretação iconográfica.

6. Parecer final:

Considerando a consistência teórico-metodológica e teórico-conceitual, principalmente,


no que diz respeito ao método e à epistemologia, além do esforço para construir uma tese de
doutorado com diversos níveis de relevância (pessoal, acadêmica, social e política), sou dedou
parecer favorável à aprovação do projeto de qualificação de doutoramento em apreço.

Florianópolis, 22 de março de 2019.


Maurício Roberto da Silva
Avaliador
ANEXOS.
Formatted: Centered
Retratos de solidão Formatted: Space After: 0 pt, Line spacing: single
Formatted: Space After: 0 pt, Line spacing: 1.5 lines
Tomo a câmera na mão, como se toma a mão de alguém para casar por tempo indeterminado, mas
infinitamente - “para sempre”. Sigo com o dedo “em riste” como se quisesse descobrir toda a solidão
que existe no mundo: nos palácios, nos presídios, nos abrigos de “menores”, nos prostíbulos, nos
recreios das escolas caindo aos pedaços, nas casas familiares eivadas de alegrias verdadeiras e efêmeras.
Clico a máquina fotográfica, abro o diafragma dela e meu e respiro fundo e, nesse jogo imagético ainda
não totalmente “revelado” – vejo meu próprio corpo estampado nas lentes e olhares solitários ardendo
no lodo lascivo das noites do bairro: obscuras solidões...
Eu fotografo de ontem hoje e amanhã, sigo minha trajetória com olhar sempre amanhecido em favor
daqueles que gozam e sofre de solidão. Assim, num piscar de olhos, muitas vezes, vejo a solidão escapar
dos meus dedos trêmulos e das minhas lentes turvas em direção aos olhares pedintes e passantes e pelas
ruas do tempo. Vejo fotógrafos a esmo procurando sublimar com suas vidas analógicas e digitais, as
solidões pungentes que habita suas próprias vidas nunca retratadas por outrem, nunca retratadas por
máquinas fotográficas alheias.
Sigo nessa estrada torneada de imagens, cliques e olhares cegos de sentido. Nessa viagem, enxergo por
“terceiro olho” necessário: multidões locupletadas de afetos vãos, multidões em festa – celebrando, na
massa agitada, a alegria de ser abandonado, mendigo, “livre”, vazio e cheio do nada: solidões em transe.
Coma câmera nas mãos sigo por estradas com desvios de rotas que me levam na direção de rostos
quebrados, narcisos humilhados pelo desamparo e abandono de seres que descuidam do outro como se
fossem pasto, como se fossem estrume, como se fossem nada: solidões oprimidas.
Vejo orgias familiares, conduzidas por bêbados notívagos com lábios amanhecidos e umedecidos de
álcool, haxixe, chá de cogumelo e sêmen: solidões libidinosas...
Vejo abrigos de velhos e doidos desamparados pela fumaça do tempo, eivados de loucuras “normais” e
memórias necessárias para conquista da humanidade: solidões emancipatórias.
Vejo quartos que não cabem no olhar de um fotógrafo, quartos assaltados pelo “tsunami” dos sexos
hediondos e doces: solidões de Morfeu...
Vejo guarda-chuvas armados em dias em pleno verão escaldante, como se quisessem chamar o deus da
chuva para molhar com a língua afiada o corpo dos mortos de fome de pão, circo e afeto: solidões secas.
Vejo corações em flor, pingando sangue no “zoom” da teleobjetiva, em direção aos olhos dos fotógrafos,
que buscam manter aceso o rubro horizonte das paixões incendiárias: solidões apaixonadas.

Florianópolis, inverno frio de 2013. Formatted: Right

Maurício Roberto da Silva


Imagens inventadas no “exercício de ser criança”

"Walter Benjamin diz que onde as crianças brincam, existe um segredo enterrado. Do
mesmo modo, concebe imagens fotográficas como uma sucessão de agoras ou do instantâneo
que contrai o passado e o futuro. Neste sentido, Paulo Lima procura dar continuidade ao seu
projeto imagético de vida, cujas fotografias são enquadradas a partir do real-concreto e do real-
inventado pelo seu olhar na direção dos sujeitos infantes-brincantes, na dimensão de rostos,
corpos, bocas e corações pedintes – em suma: solicitantes de afetos. As fotos dizem algo além
das brincadeiras de esconde-esconde: parecem esconder segredos que são desocultados a partir
da contação de história do presente. Trata-se de obras de arte dotadas de belas imagens de
expressão textual, as quais dão aos olhares treinados para o faz-de-conta, a grata ilusão de
pintura em preto, branco e cinza. Deste modo, Walter Benjamin ainda poderia dizer que as
fotografias de Paulo Lima são uma grande e misteriosa experiência de arte e de vida, pois
brindam os olhares com sucessivas possibilidades humanas de contemplar tais constructos
estéticos, onde a técnica mais exata pode imprimir criações o valor mágico que um quadro
nunca mais terá para nós.
Neste ensaio, o fotógrafo peregrina pelas ruas da Bahia e outros Bonfins, buscando
fotografar, através de suas raízes crianceiras, a essência da desimportância, da simplicidade e
da delicadeza escondidas no pisca alerta dos olhares mais cerrados. Assim, na hora do clic mais
implacável, consegue tocar corações desavisados e emocionados pelas memórias e segredos
guardados em baús enterrados no centro da brincadeira de roda!"
Maurício Roberto da Silva

Autor dos livros:

O Sujeito Fingidor. Florianópolis, Editora da: Ed UFSC, 2001.

Trama-Doce amarga: exploração do trabalho infantil e cultura lúdica. São Paulo: Editora Hucitec-
Unijuí, 22003.
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1) A pergunta-problema ainda precisa de alguns ajustes e uma melhor delimitação para


desigualdades sociais educacionais e de trabalho – na linha dos estudos de juventude,
trabalho e educação.

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