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700 ANOS DE MESSKIRCH 1

Martin Heidegger Tradução de Gilvan Fogel

Seja do dia, seja da vida, a tarde (―der Abend‖, o fim do dia, o crepúsculo) é tempo e hora da meditação. Meditar quer dizer: inteiriçar-se todo, concentrar-se todo (recolher-se) na reflexão (―sich sammeln ins Nachdenken‖). Para tanto, aqui e agora, nos é concedido tão-só um instante. Mas basta. Mesmo quando ele é depressa atropelado por tudo que a semana de festa oferece. Talvez o instante da meditação, para um ou para outro, aqui e ali, volte de novo mais tarde. No entanto, a propósito de que podemos agora meditar e de modo tal que este instante da reflexão, a seu modo, co-pertença ao crepúsculo, à tarde da terra natal (―mit in den Heimatabend gehört?‖)? Mais próximo e imediatamente impõe-se meditar sobre a terra natal (―Heimat‖). Mas sobre isso, de modo geral, já se falou e já se escreveu demais. Não por acaso, mas por profundas razões, o tema ―pátria‖ (―Heimat‖) entrementes se tornou enfadonho. Refletir sobre este tema, porém, deveria valer a pena. Por ocasião do jubileu de 700 anos da cidade, foi publicado um livro sobre a terra natal (―Heimbuch‖). Ele fala de ―Messkirch ontem‖ e informa sobre ―Messkirch hoje‖. Assim, parece já ter sido dito tudo sobre nossa terra natal. Tudo? Messkirch ontem, Messkirch hoje está bem! Mas e Messkirch amanhã? Se seguirmos esta pergunta, poder-se-ia oferecer um pequeno complemento ao livro da terra natal. Entretanto, alguém logo perguntará: podemos saber algo sobre o amanhã? É possível se configurar algo sobre o futuro? Mesmo o tipo mais sábio não pode predizer

o futuro. Também um de nós, que talvez esteja mais habituado à reflexão, não sabe mais que seus concidadãos. No máximo, sabe ele mais claramente que não podemos saber e porque não podemos saber. No entanto, ousamos insistir na pergunta: Messkirch amanhã? No futuro? Se e em que medida estamos em condições de dar uma resposta confiável à pergunta pela terra natal (―Heimat‖) — isso depende de como entendamos o que quer dizer a palavra ―futuro‖. Se futuro, para nós, significa tanto quanto a seqüência do espaço de tempo dos próximos anos e décadas, então, jamais poderemos dizer como este espaço de tempo será preenchido. Igualmente não, se nós nos dispusermos a calcular (prever) como na seqüência do tempo poderia se mostrar a situação econômica da cidade, como a agricultura e a vida camponesa se mudarão, que caminho propor para a educação e a

cultura, que lugar e que poder de atuação estarão reservados para a fé cr istã e a Igreja. Se quisermos calcular (prever) o amanhã desta maneira, tomamos o futuro tão-só como

o prolongamento do presente, no qual tudo permanece incerto. Como será, porém, se compreendermos o futuro como o que hoje nos advém (―was heute auf uns zukommt‖, o que hoje nos vem ao encontro, nos sobrevém)? Neste caso, o futuro não é nada que se segue ao hoje, mas, sim, aquilo que irrompe

1 Fala de Heidegger, em 22 de julho de 1961, por ocasião das festividades dos 700 anos de Messkirch, que é a cidade natal (um lugarejo, uma roça alemã!) dele. Ele, então, tinha 72 anos.

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(―hereinragt‖, ragen, erguer-se) no hoje. Assim, o hoje não é nenhum espaço de tempo existente em si, que, de modo geral, estaria bloqueado (trancado, aferrolhado, ―abgeriegelt‖). O hoje tem sua proveniência no sido e, ao mesmo tempo, é exposto ao que advém (―was auf es zukommt‖, o que vem ao encontro). Isso, que nos sobrevém (advém), insistentemente nos diz respeito e nos determina, sem que nós propriamente nos demos conta, sem que se possa claramente dizer o que seja isso que assim vem ao nosso encontro (que nos sobrevém!). Mas, para tanto, há inumeráveis sinais. Alguns destes sinais são, p. ex., as antenas receptoras de rádio e de televisão, que nós já podemos constatar enfileiradas sobre os telhados das cidades e das aldeias. Para onde sinalizam estes sinais? Indicam que os homens que, vistos de fora, lá moramprecisamente não estão mais em casa. Antes, os homens, dia a dia e a toda hora, são puxados e empurrados para o estranho, para o que atrai e seduz, para o que estimula e incita, de vez em quando também para um âmbito de diversão, de distração ou de informação, de instrução. Estes âmbitos, seguramente, não oferecem nenhuma estadia (―Aufenthalt‖, estância, assentamento) permanente, segura ou confiável. Constantemente eles, de novo, mudam para o mais novo. Envolvido e impulsionado por tudo isso, o homem, ao mesmo tempo, também muda, também sai de casa. Ele muda do em casa para o fora de casa (―Er zieht um aus dem Heimischen ins Unheimische‖). Ameaça o perigo o que era casa (pátria, lar), dissolve-se, desmorona, decai. O poder do fora de casa (―des Unheimischen‖) parece apoderar-se do homem de tal modo, que ele não mais se restabelece. Como podemos nos defender frente à avalanche do fora de casa? Somente à medida que, continuamente, despertemos as forças doadoras, revitalizantes e resguardadoras do lar (da casa, da pátria, ―des Heimischen‖), de modo que tragam sempre e de novo as forças fontais do pátrio (―des Heimischen‖) para a fluência e, assim, seu fluxo e influxo (influência) proporcionem o bom caminho, a boa rota. Tal permanece o mais proximamente possível e o mais duradouramente eficaz lá onde as forças abarcantes da natureza, onde os ecos da tradição de envio histórico permanecem reunidos e integrados, lá onde são determinantes da existência humana (―des menschlichen Daseins‖) a proveniência e os costumes desde há muito cuidados e resguardados. Hoje, só localidades rurais e lugarejos conseguem satisfazer esta tarefa decisiva suposto, evidentemente, que sempre e de novo reconheçam a inabitualidade (exepcionalidade), o fora do comum de sua determinação; suposto que saibam estabelecer os limites frente à vida das grandes cidades e aos gigantescos bairros dos modernos complexos industriais; suposto que não proponham para si estes modelos e programas de vida, mas que mantenham firme o próprio e resguardem o em casa, o caseiro. Para tanto, faz-se necessária uma dupla tarefa. Por um lado, que reconheçamos o fora de casa (―das Unheimische‖) como tal, isto é, nisso em que ele atua e determina. Por outro lado, que jamais façamos com que as forças do lar (da casa, da pátria, ―des Heimischen‖), sempre recônditas, se atrofiem e se tornem improdutivas. Que esta festa de centenário possa ser uma boa ocasião, isto é, a festa oportuna, para que se preencham estas duas exigências. Primeiro, trata-se de ver o fora do lar (―das Unheimische‖) com toda clareza em toda sua constringente (coercitiva) ameaça e em todo seu poder de atuação. Há a possibilidade, e ela se confirma mais e mais a cada dia, que logo introduzir- se-á uma instância, na qual o homem não mais há de conhecer o que é pátria (―was Heimat ist‖), pois não mais há de precisar, não mais terá falta. O que seria, então, se o pátrio (―das Heimische‖) necessariamente desaparecesse? Então, também não mais haveria o não pátrio, o não mais em casa (―das Unheimische‖) para o homem. E então?

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Então haveria só a compulsiva, a assanhada (―rasende‖) troca do mais novo para o absolutamente novo, para o qual o homem, sofregamente, se põe à busca com sua insistente e exacerbada operatividade (―Machenschaft‖, maquinaria?,fazer compulsivo, sôfrego). Precisamente diante desta possibilidade não devemos fechar os olhos, justo se estamos dispostos a cuidar e a salvar o pátrio, a casa, o lar (―das Heimische‖). Insistentemente e por toda parte vemos, nas mais diferentes configurações (formas, ―Gestalten‖), o que hoje determina a realidade do mundo. É a técnica moderna, que, agora, já domina toda a Terra e até mesmo o âmbito extraterrestre do espaço. Hoje, quando os chamados povos subdesenvolvidos são agraciados com as performances, os resultados e as utilidades da moderna técnica, levanta-se a pergunta se, com isso, não se lhes está sendo tomado e destruído o que têm de mais próprio e de mais originário (―Angestammtes‖, mais ancestral, mais de cepa e de linhagem); pergunta-se se, por este caminho, não estão sendo arrancados (expulsos) do pátrio para o in-pátrio (―aus ihrem Heimischen ins Unheimischen vertreiben werden‖). Talvez a ―ajuda para o progresso‖ (para o desenvolvimento), no fundo, não seja outra coisa que a competição dos chamados (e tidos por) povos e países altamente desenvolvidos com o único propósito e impulso de, o mais rápida e decididamente possível, entrar para o comércio mundial e assim ganhar um instrumento de poder na luta das grandes potências pela dominação da Terra. A forma desta dominação será cunhada e imposta através do Estado técnico absoluto. Não é por acaso que se fala da era técnica. Esta mesma, em sua história, está submetida à enigmática fúria (ao enigmático furor, ―Raserei‖), que constantemente projeta toda a técnica moderna para além de si própria. Há pouco chamava-se a moderna era técnica ―a era atômica‖. O nome tornou-se caduco e substituído por ―era dos foguetes‖. Da noite para o dia aparecerá uma nova designação. Todos conhecem os feitos da produção técnica. Admiramo-nos e os admiramos. E, no entanto, ninguém sabe o que isso na verdade é. Ninguém sabe através de que o homem atual, de maneira crescente, é provocado e impulsionado para o trabalho e a produção (―Betriebsamkeit‖, a aplicação e a faina, a sanha do/pelo trabalho, o ativismo, a operatividade) sem eira nem beira (―grenzenloser‖). O que impulsiona o homem de um modo tão poderoso não pode ser um mero feito (produto, ―Gemächte‖) do homem (mera coisa do homem). Por isso, permanece enigmático e medonho, terrível (―unheimlich‖). Precisamente este medonho (―dieses Unheimliche‖) é o que impera no fora de casa (―im Unheimischen‖) e assim vem ao encontro do homem e determina seu futuro. O amanhã não é tão-só o amanhã que sucede ao hoje, mas ele já vige (impera, domina, manda, ―herrscht‖) no interior do hodierno. Messkirch amanhã? Ela estará enredada na teia dos aparatos da era técnica. Não só para esta cidade, não só para nosso torrão natal, não só para a Europa, mas para todos os homens da Terra se erguerá a pergunta se, sob a dominação da técnica moderna e junto às transformações do mundo por ela provocadas, ainda haverá pátria (―Heimat‖) em algum sentido. Talvez que o homem venha a fazer sua casa (domiciliar-se) na apatridade (―in der Heimatlosigkeit‖). Talvez desapareça a relação com pátria. Talvez desapareça da vida (―Dasein‖) do homem moderno a atração pelo pátrio (―den Zug zur Heimat‖). Talvez, em meio ao impulso do in-pátrio (―Unheimischen‖), prepare-se um novo relacionamento para com o pátrio. É possível que uma festa como esta nossa possa interferir nesta preparação e assim ganhar sua significação (atuar no) para o amanhã. Alguém poderá duvidar disso e justamente porque a hegemonia do in-pátrio (―Unheimischen‖) e do inóspito (―Unheimlich‖, medonho, terrível, inospitaleiro) parece acabar com toda atração para o pátrio. Mas, na verdade, dá-se algo completamente diverso.

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A língua alemã chama nostalgia (―Heimweh‖) o impulso, a atração para a pátria (―den Zug zur Heimat‖). Na nostalgia, a pátria como pátria (―die Heimat‖, a casa, o lar), agora, no presente, é tão coercitiva como jamais em lugar algum. Parece que, precisamente para o homem hodierno, que, por toda parte em lugar algum está em casa, a nostalgia morreu, desapareceu. Apesar de, sob muitos aspectos, assim parecer, precisamos nos abster (reservar) da afirmação, segundo a qual o homem moderno não mais conhece seja pátria (―Heimat‖), seja nostalgia (―Heimweh‖). Pois o apelo, a atração para a pátria é ainda viva e precisamente da forma mais viva lá onde nós menos supomos ou desconfiamos. Na verdade, viva de um modo tão estranho, que mal nos damos conta. Considerem isso bem e detidamente: a nostalgia está presente e viva onde o homem, insistente e intermitentemente, está em fuga no fora de casa (“ins Unheimische”), o qual o distrai na conversação qualquer, o obnubila (enfeitiça, ―behexen‖), preenche seu tempo, o encurta, porque para ele freqüentemente o tempo se torna demasiado longo. Só e a partir de si mesmo, o homem não consegue (não pode, ―vermag‖) começar mais nada com seu tempo livre. O que diz isso? Algo importante, a saber, que o homem de hoje, que não tem mais tempo, quando, no entanto, o tem livre, o tempo se torna longo demais. Ele precisa passar, gastar o tempo, à medida que ele o encurta no passatempo (na diversão, na distração, ―durch Kurzweil‖). O passatempo deve afastar ou distrair o tédio (―die Langeweile‖) ou, pelo menos, encobri-lo e esquece-lo. Que tédio? Não aquele que aparece episodicamente e logo passa, se vai, e que nos acomete (pega, agarra), quando nos entediamos com um algo determinado, p. ex., um livro, um filme, uma palestra, que nos deixa um vazio, que se suporta desnecessariamente. De algo assim tedioso (entediante) e de seu tédio nós logo nos afastamos (safamos). Outra coisa inteiramente diferente é com aquele tédio que temos em mente quando dizemos: ―está-se entediado‖ (―es ist einem langweilig‖, está um tédio, um saco!). Aqui não encontramos nada determinado não é esta ou aquela coisa, não é este ou aquele homem, não é esta ou aquela situação que nos entedia, mas neste ―está-se entediado‖ (―está um tédio‖) nada mais nos diz respeito (solicita, ―ansprechen‖), tudo se torna tedioso, tudo vale tanto ou tão pouco quanto, porque um profundo tédio atravessa e pontua (―durchstimmt‖, perpassa, afina) toda nossa vida (―unser Dasein‖). Afinal, estará acontecendo isso conosco, a saber, que nos abismos de nossa existência (―in den Abgründen unseres Daseins‖), um tédio profundo, tal como uma névoa que tudo vai envolvendo, nos puxa e nos empurra para cá e para lá? Questionamos estas questões. E por que isso justamente agora, na tarde da pátria, da terra natal (no ocaso da pátria, no crepúsculo da terra natal, ―beim Heimatabend‖)? Porque nós, por um instante, refletimos se e como no in-pátrio (no não-em-casa, no sem pátria, ―im Unheimischen‖) do mundo da técnica moderna ainda há, ainda se dá pátria (―noch Heimat ist‖). Ela ainda há e nos fala, nos diz respeito (nos toca), mas ―como a buscada‖ (―als die gesuchte, como o que se busca, como a querida, quaerere). Pois presumivelmente, sem sequer ser percebido, este é ainda o sentimento de fundo (―Grundstimmung‖, tonalidade afetiva fundamental apud. Ortega!!) do profundo tédio, que nos empurra em todo passatempo, em toda distração; é o estranho (insólito), o excitante, o obnubilante (enfeitiçante) que diariamente nos é oferecido no in-pátrio (no fora-de-casa, ―im Unheimischen‖). Mais: presumivelmente, é este tédio profundo sob a forma do anseio e da fissura pelo passatempo (―der Sucht zum Zeitvertreib‖, a diversão, distração) a velada, a inconfessada, a protelada (afastada, adiada) e, no entanto, a inevitável atração pelo pátrio (―Zug zur Heimat‖), qual seja, a velada nostalgia. Nossa língua alemã fala de modo mais pensado e sopesado do que

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imaginamos. Nossa língua, o alemão, diz, quando alguém tem nostalgia (―Heimweh‖):

ele tem tempo longo‖ (talvez: ―ele padece de tempo longo, espichado, alongado, ―Er hat lange Zeit‖). O longo tempo (para passar) que então temos não é outra coisa senão o longo átimo (―die lange Weile‖), no qual nada mais nos toca, nos diz respeito (―anspricht‖), no qual, no entanto, ao mesmo tempo, é buscado aquilo (―Jenes‖) que, de algum modo, nos anima (nos consola, nos conforta, nos diz respeito, ―zuspricht‖), que nos solicita inteiramente, de modo tal que o tempo não permanece vazio jamais e não precisa de nenhuma diversão (distração), passatempo (―Zeitvertreibens‖). ―Um instantinho‖ (―Über eine kleine Weile‖) — isso quer dizer: num curto tempo. Longo tempo significa tédio (―Lange Zeit heisst Langeweile‖, isto é, um

instante, um átimo que se alonga, que se espicha, que se arrasta

).

Presumivelmente se

co-pertencem o fora de casa (o in-pátrio, ―das Unheimische‖) do mundo técnico e, como o velado impulso (―Zug‖) para uma buscada e querida pátria, o tédio profundo. Nenhum equipamento técnico, nenhuma de suas realizações e fomentos, nenhuma imaginação super-desenvolvida, também nenhuma louca (tresloucada) e ilimitada atividade (―grenzenlose Betriebsamkeit‖) — enfim, nada disso pode nos dar pátria (―Heimat‖), ou seja, aquilo que, no próprio miolo (―Kern‖, tutano) de nossa vida (existência, ―unseres Daseins‖), nos carrega (suporta), nos determina e nos faz gerar e crescer. Calados e insistentemente, o tédio profundo, isto é, o longo, espichado tempo (―die lange Zeit‖), e a nostalgia mostram o impulso (a atração pela) para a pátria (―den Zug zur Heimat‖), o indestrutível co-pertencimento a ela. Assim, então, em todo ―fora de casa‖ (―Unheimischen‖), ainda que veladamente, a pátria, o lar buscado e querido, nos advém e sobrevém. Porque a pátria assim sempre de novo nos toca, precisamos vir ao seu encontro. Mas como? À medida que estamos dispostos a guardar isso a partir do qual se provém. Também para esta proveniência há sinais.

Quando nós, velhos e mais velhos cidadãos de Messkirch, queremos reencontrar nossos amigos, nossos familiares, nossos conhecidos, então, precisamos buscar alguns dentre eles já no cemitério (―Friedhof‖ ― ao pé da letra, talvez, signifique: ―lugar de paz‖, ―halo, auréola de paz‖). Esta palavra nos fala, nos toca. Mas, mais eloqüente ainda é ―campo santo‖ (―Gottesacker‖), nome aos poucos fora de uso. Esta palavra, muitas vezes, admite interpretações, como esta, por exemplo: neste campo, sempre e de novo, é semeada a lembrança (a recordação, ―Erinnerung‖) do [ter] sido. Assim, neste campo, cresce a recordação (―Andenken‖, lembrança, memória) da casa dos pais e do tempo da juventude e, com este tempo, a recordação de todas as forças e poderes que doam (―spenden‖, concedem, presenteiam, regalam) tudo que é salutar, fecundo e permanente e, de vez em quando também, o que aponta e acena (―das Beteutende‖). É a partir desta proveniência (―Herkunft‖) que precisamos ir ao encontro do fora de casa (―Unheimischen‖), que vem para junto de nós (nos advém, vem ao nosso encontro, ―das auf uns zukommt‖). Assim trazemos o silêncio e o contido (―das Stille und Verhaltene‖) para junto da barulhada e do enfurecido (da gritaria e do furor, ―dem Lärmenden und Rasenden‖). Por isso, a exposição das obras do mestre de Messkirch 2 constitui o centro desta festa, do jubileu da cidade. Ela é uma autêntica ―oportunidade‖ (―Anlass‖, ―ocasião‖), isto é, a festa no sentido autêntico. Pois esta obra nos dá oportunidade não só de nos alegrar (satisfazer) com a beleza dos quadros, não só de nos admirar com a maestria (―Leistung‖, desempenho, performance) do mestre. A exposição é a ocasião para, frente a esta obra, de novo reencontrar o silêncio e o recolhimento (―die Ruhe und

2 Procurar saber qual era este mestre - Qual é, Márcia?!

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Sammlung‖), quer dizer, de novo se reencontrar na pátria (―in das Heimische‖). Por isso ainda, é um grande mérito do prefeito de nossa cidade não só ter concebido esta exposição, mas também de a ter realizado. Igualmente, a apresentação (audição) da missa para orquestra de Conradin Kreutzer, recentemente descoberta, é um chamado de volta, um apelo às forças silenciosas e vigentes da terra natal (―ein Zurückrufen zu den stillwaltenden Kräften des Heimischen‖). Por fim, permitam-me acrescentar esta observação: o arcebispo Gröber, então capelão em Konstanz, e eu então um ginasiano de 17 anos, presenteou-me um livro de filosofia 3 , que foi decisivo para toda minha vida de pensador (toda minha trajetória ou caminho no pensamento – ―das für meinen ganzen Denkweg entscheidend wurde‖). Assim entrelaçam-se uma e outra coisa se, com todo cuidado, zelamos pelo que vige no silêncio (―was in der Stille wirkt‖). Em meio ao fora de casa (―ao in-pátrio, ―des Unheimischen‖), empreendemos uma volta à pátria (―in das Heimische‖). Tal volta (à casa, ao lar, ―Heimkehr‖ 4 ) pode

— se nós, com todo cuidado e sem atropelo (pressa, ―Hast‖) permanecemos a seu

caminho tal volta (à casa), pois, pode, sempre e de novo, pôr-se para além de (transcender, ultrapassar) todo arrebatamento em direção ao fora de casa (―allen Fortriss ins Unheimische immer neu zu überholen‖). Através da meditação no amanhã, despertamos a salutar e revitalizadora força do ontem, entendido de maneira correta e genuinamente apropriado. Somente por este caminho chegamos ao hoje, que precisamos agüentar (suportar, carregar, resistir) entre o porvir (―Zukunft‖) e a proveniência (―Herkunft‖). Tal resistência (tal agüentar, suportar, ―solche Ausdauer‖) 5 nos ajuda a permanentemente nos transformar à medida que se permanece (persiste, resiste a) frente a toda mudança. A tarde — tempo da meditação, um instante do recolhimento (―ein Augenblick des Nachdenkens‖, um instante da reflexão). O pensamento é, sim, uma coisa séria. Mas, ao mesmo tempo, algo festivo. Pois no pensamento é libertado (liberado), isto é, é celebrado e festejado, o olhar para isso (para dentro disso) que é (―Denn im Denken wird die Einsicht in das, was ist, freigegeben, d.h., gefeiert‖). Meditação não é nada sombrio, soturno, embaçado (―Trübsinn‖, i.é, de sentido turvo ou embaçado, isto é, sombrio, soturno), mas a alegria (―Heiterkeit‖, júbilo, jovialidade), na qual tudo se abre, se ilumina (tb. se anima!), tudo se faz claro e límpido. Gostaria também que o agora dito não fosse outra coisa que uma pequena luz acesa nesta tarde, em plena cidade natal (―inmitten der Heimatstadt‖), cujos habitantes enfeitaram tão rica e tão cuidadosamente suas casas com flores. Também isso é um sinal de que eles estão dispostos e lembrados de bem cuidar do morar, do habitar. Depende de cada um de nós em particular, por quanto tempo esta pequena luz acesa há de iluminar ou se ela tão logo vai se apagar. Depende de nós, aos quais a tarde, o crepúsculo da terra natal (―der Heimatabend‖), hoje, reuniu para um jubiloso encontro (um encontro festivo, amistoso, ―frohem Spiel‖) e para uma amigável conversa.

3 Deve tratar-se de Vom Sein. Abriss der Ontologie, (Sobre o ser. Compêndio de ontologia), de Carl Breig, então prof. de Teologia Dogmática, em Freiburg, publicado em 1896 cf. Heidegger, M., Zur Sache des Denkens, Max Niemeyer, Tübingen, 1969, pág. 81

4 Lembrar Assim Falava Zaratustra, III, Die Heimkehr, A Volta (ou O Regresso).

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Lembrar Santiago, em O Velho e o Mar, de E. Hemingway, quando, a certa hora de sua titânica luta, diz consigo mesmo: ―Aqui, agora, não cabe pensar, mas agüentar‖. Isto é, aqui, agora, pensar é agüentar,

recordar !!

suportar, atravessar

N i s s o

e s t á ,

i s s o

é

o

m e d i t a r

o entrar no sentido e, assim,

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