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História da Arte: uma introdução

historiográfica
24 de julho de 2017 Bibliografia Comentada 6

Uma bibliografia no campo da arte comentada pelo historiador Carlos


Vinícius da Silva Taveira.

Por Carlos Vinícius da Silva Taveira

A História da Arte é um campo de trabalho e pesquisa complexo, com delimitações


porosas nas suas fronteiras e no seu conteúdo. Seus autores não são somente
historiadores, em seu sentido acadêmico, mas também pensadores provenientes de
diversas áreas, como críticos, filósofos e os próprios artistas. Recentemente, inúmeras
universidades pelo mundo têm criado cursos de graduação e pós-graduação que se
enquadram em uma temática chamada “Estudos Visuais”, ainda sem uma delimitação
clara.


A aula de dança (1870)”. Pintura na madeira de Edgar Degas. Fonte: The MET.

Dito isto, ao historiador da arte, além dos debates disciplinares teóricos e metodológicos
referentes ao seu espaço disciplinar de pesquisa, cabe-lhe sempre a perseguidora
pergunta de caráter filosófico: que objeto é esse que pode ser nominado de arte? A
junção das problemáticas entre “o que é história” e “o que é arte” é o principal norteador na
formulação da Bibliografia Comentada que você vai ler a seguir. O recorte temporal é
amplo, indo do século XVI até as décadas mais recentes. Ela tem como cerne obras que
discutiram de forma direta ou indireta os desafios de uma escrita historiográfica da arte,
incluindo intelectuais com formações diversas, mas que escreveram textos centrais para a
discussão da História da Arte no Ocidente.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: História da arte e


anacronismo do tempo. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2015.

Georges Didi-Huberman é um intelectual francês contemporâneo ligado ao contexto


acadêmico e de difícil enquadramento em um campo específico das humanidades. Sua
extensa obra, publicada desde os anos 1980, versa sobre diversos aspectos, tendo a arte
como seu objeto de estudo central em diversas perspectivas. O livro selecionado, apesar
de publicado há anos no exterior, obteve a primeira tradução para o português somente
em 2015. Seu conteúdo aborda um debate epistemológico importante para o campo da
História da Arte e que serve também para toda a escrita da História em geral, pois, o
anacronismo não seria mesmo um erro do historiador? Didi-Huberman diz que não. O
autor argumenta de forma original como essa problemática referente às formas de uso do
tempo afeta boa parte da produção historiográfica da arte atual criando limitações em
diversas análises.

VASARI, Giorgio. Vidas dos artistas. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2010.

Giorgio Vasari é umas das principais referências para compreendermos a produção


artística e sociocultural do período do Renascimento. Contemporâneo a grandes artistas,
seu livro é uma coletânea de biografias de artistas do período inicial da Era Moderna. Além
disso, em seus primeiros capítulos, o autor apresenta uma concepção do que é arte em
seu modo de produção (tanto material, quanto teórico), de forma a definir o que deveria ser
digno de conteúdo da narrativa da História da Arte e de sua respectiva forma de escrita.
Somente com os escritos produzidos no século XIX, em sua maioria influenciados pelo
romantismo alemão, vamos encontrar narrativas capazes de formular outros modelos de
escrita de História da Arte. Cabe mencionar o quanto essa obra influenciou gerações. Até
os dias atuais ainda é comum encontrarmos algumas de suas proposições no que deveria
ser o campo da História da Arte. É uma obra essencial e clássica para o debate dos
impasses e desafios da disciplina.

WAZBORT, Leopold (org). Aby Warburg: História de Fantasmas para gente


grande. São Paulo: Cia das Letras, 2015.

Aby Warburg foi um autor da virada do século XIX para o XX que deixou praticamente
todos seus escritos em artigos, discursos ou mesmo esboços, postumamente publicados.
O livro aqui escolhido foi organizado pelo professor da USP, Leopold Wazbort, que buscou
publicar pela primeira vez em português textos essenciais do pensamento Warburguiano.
Talvez bastasse dizer que Warburg realizou estudos sobre arte que influenciaram
historiadores como Erwin Panofsky, E.H. Gombrich ou mesmo Didi-Hurberman, todos
presentes nessa Bibliografia Comentada. A maior contribuição de Warburg nesta obra é a
construção de um método original de pensar a arte tendo como princípio a aplicação de
conceitos – o que deslocou a forma de escrita e reflexão da História da Arte.

BURCKHARDT, Jacob. A cultura do renascimento na Itália: um ensaio. São


Paulo: Companhia das Letras, 2009.

O século XIX forneceu diversas problematizações sobre o campo da Teoria da História. De


forma superficial, podemos dizer que foi neste campo que surgiu o conceito moderno de
crítica historiográfica baseada na formulação hipotética e na análise de documentos. No
campo da arte, algumas das principais contribuições foram dadas por Jacob Burckhardt,
que imbuído da influência do romantismo alemão e da importância atribuída à ideia de
“kultor”, produziu um estudo sobre o renascimento que abordou aspectos até então pouco
explorados pela historiografia da arte. A obra possui capítulos que abordam diversos
tópicos do Renascimento, como a política e a formação do indivíduo, mas o eixo central na
sua análise é a arte, evidenciado em dois capítulos dedicados exclusivamente ao tema
que são o centro da construção argumentativa do historiador. A História da Arte ganha,
com esse livro, um novo ângulo renascentista – a arte como produto de seu tempo e fruto
direto da sua cultura.

MICHEL, W. J. T. What do Pictures Want? The Lives and Loves of


Images. Chicago, IL: University of Chicago Press, 2005.

O livro What do Pictures Want? The Lives and Loves of Images, do historiador W.J.T.
Mitchel, é uma importante contribuição para o debate que ficou marcado no movimento
conhecido como “Virada Imagética”. Ao lado do que se convencionou chamar desde anos
1980 de “Virada Linguística”, a “Virada Imagética” questionou a capacidade de
representação em um mundo contemporâneo cercado por imagens em variados suportes,
amplificada pelos usos de novas tecnologias. Contudo, questionamentos sobre o papel
das imagens na atualidade levaram o autor a pensar em seus usos em outras
temporalidades, o que resultou na criação de um método para pensar a sua aplicação a
outros momentos históricos. O livro é uma boa introdução aos debates da “Virada
Imagética”, cujos textos ainda são raros em português.

BERGER, John. Modos de ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

O papel da percepção sensorial e intelectual do sujeito frente ao objeto artístico


representou um dos grandes debates da arte e da filosofia da arte no século XX. Em
outras palavras, o problema seria estabelecer como se delimitam as experiências que
surgem a partir da relação entre sujeito e objeto na arte. Imbuído dessa premissa e
procurando desenvolvê-la nas chamadas artes visuais, John Berger, historiador da arte e
crítico, propõe uma análise do objeto da arte incluindo um vasto debate sobre os modos
de ver do sujeito/espectador. De acordo com o autor, há formas distintas de entrar em
contato com uma obra artística. Para isto, Berger aborda como o enfoque no sentido da
visão e a construção social do “ver” ocupam, na sociedade ocidental, um papel central no
trabalho de artistas que buscam criar obras que dialogam com a percepção do espectador.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e persuasão: ensaio sobre o barroco. São Paulo:
Companhia das Letras, 2004.

O historiador da arte Giulio Carlo Argan possui uma vasta obra sobre arte moderna. São
livros que vão desde estudos sobre artistas ou temas específicos até grandes obras de
referências que englobam longos períodos no campo das artes. O livro Imagem e
persuasão: Ensaio sobre o barroco é uma coletânea de diversos artigos publicada
somente em alguns países. Na tradição de grandes estudos sobre um período especifico,
ou mesmo sobre a cultura que denominamos de barroca, o historiador analisa diversos
aspectos: indo de grandes artistas aos mais variados suportes artísticos e suas
peculiaridades dentro do barroco típico de algumas cidades italianas. Embora o livro
contenha textos escritos sem a pretensão de se tornarem um livro, é possível observar que
se trata de uma obra articulada, movida por uma ideia de cultura. Argan discute como
foram criadas estratégias e técnicas específicas por parte daqueles artistas que se
distanciavam da produção renascentista. A obra é essencial para a compreensão do
barroco como um movimento artístico e histórico, podendo contribuir para um debate sobre
o chamado neobarroco, que permeou o fim do século XX e início do XXI, além de servir
para se pensar a cultura brasileira, que foi influenciada largamente pelo barroco europeu,
mas que tingiu esse movimento com cores próprias.

GOMBRICH, Ernst Hans. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação


pictórica. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
O livro Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica foi
escrito originalmente em 1956 e foi constantemente atualizado e revisado a cada nova
edição. A obra buscou pensar questões metodológicas e epistemológicas sobre a arte e a
escrita de sua história, tendo como ponto de análise a questão da representação e do
sujeito. Examinando diversos componentes que envolvem a representação, algumas
categorias que eram negligenciadas na História da Arte ganham novas dimensões e
interpretações nos textos de Gombrich. Um exemplo é a investigação minuciosa das
noções de estilo e de percepção do material simbólico, para a qual o autor utiliza
elementos da psicologia e da filosofia estética. Gombrich propõe um arsenal teórico a
quem deseja estudar a arte como um objeto na História.

MAMMI, Lorenzo (Org.). Mario Pedrosa, Arte, Ensaios. Volume I. Rio de Janeiro:
Cosac Naify, 2015.

Organizado pelo professor Lorenzo Mammi e publicado no ano de 2015, não se trata de
um livro de História de Arte strictu sensu, mas uma coletânea que reúne textos
ensaísticos de Mario Pedrosa, que foi um dos maiores críticos de arte do Brasil. A obra
pode ser utilizada como um importante instrumento de investigação e conhecimento da
história da arte brasileira no século XX. Percorrendo um longo período que vai de 1933 a
1978 e tendo como enfoque as artes visuais, Mammi transita pelas nuances dos mais
diversos movimentos artísticos da história brasileira. A estruturação diacrônica da obra
permite a observação de como determinados pontos de vista do crítico foram se
transformando com o passar dos anos. Um exemplo é como Pedrosa passou de um
defensor de uma arte engajada ao realismo soviético para uma visão calcada em uma arte
plural, múltipla e libertária. Por fim, o livro faz um debate fundamental para pensar como
arte e realidade, dois conceitos de complexa definição, se cruzam em determinados
momentos no Brasil do século XX.

PANOFSKY, Erwin. Estudos de iconologia: temas humanísticos na arte do


renascimento. Lisboa: Editorial Estampa, 1995.

O livro é um excelente estudo de História da Arte sobre o Renascimento e, sobretudo,


revela de forma analítica o que vem a ser a metodologia de investigação a partir da
iconologia. A proposta de Panofsky é pensar o conteúdo temático das obras de arte como
eixo central de análise em contraposição às características formais. Para isto, ele cria uma
sofisticada rede de critérios que devem ser levados em consideração pelo historiador da
arte no momento de criticar e avaliar o seu objeto. Atualmente, seu trabalho tem sido
criticado por uma historiografia que vê problemas em possíveis usos de seu método para
alguns objetos, ou pela pouca atenção que ele dá à materialidade da obra. A despeito de
tais críticas, o texto de Panofsky oferece uma reflexão ainda muito importante no campo
da História da Arte.

Carlos Vinícius da Silva Taveira – é doutor em Literatura, Cultura e


Contemporaneidade, possui mestrado m história com ênfase em Teoria da História e
graduação em História pela Pontifícia Universidade católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Como citar essa bibliografia comentada

TAVEIRA, Carlos Vinícius da Silva. História da Arte: uma introdução historiográfica.


(Bibliografia Comentada). In: Café História – história feita com cliques. Disponível
em: https://www.cafehistoria.com.br/historia-da-arte-introducao.
Publicado em: 24 Jul. 2017. Acesso: [informar data].