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A mulher que amava o monstro

Por Carlos Araújo


Amália esticou o pescoço e colocou a coroa da cabeça no colchão. Ficou ali na
posição do peixe, como uma yogi, e abriu lentamente os olhos. Assumia com um pouco
de desgosto que mais um dia havia amanhecido.
‘Amália, fia ! Levanta! O sol já tá é alto e vamo chegar atrasada na feira’. Gritou
a mãe, com uma disposição incompreensível para aquela hora da manhã. A moça
morena bolou o corpo para o lado no colchão duro e velho. Encolheu-se como um feto,
negando-se a encarar mais um dia.
‘Amália ! Tô indo. Vê se não demora’, disse a mãe com voz de quem já estava
no portão. Amália bolou novamente o corpo na direção contrária. Jogou as pernas para
fora da cama. O peso a ajudou a levantar. Foi se arrastando em direção da torneira no
quintal.
Em dez minutos já estava descendo a rua, desviando de gente, gaiolas de
passarinhos, bancas de roupa nas calçadas e meninos que corriam nas ruas estreitas e
apinhadas próximas ao Mercado Central.
De longe a mãe a gritou. “Até que enfim, fia!”. A moça caminhou em sua
direção como se fosse um zumbi. Mais um dia naquela barraca de artesanato: sem
muitos clientes, as horas se arrastando e nada para acontecer.
Fora um ou outro velho mais afoito que comentava com mãe “como a Amália
havia crescido”, nada mudava naquele cenário modorrento. Aos 15 anos, a morena só
conhecia o trabalho na feira ao lado da mãe.
A moça amuou-se numa cadeira, por trás da barraca. Entrou no transe
costumeiro de esperar alguém querendo levar alguma coisa. Se soubessem o trabalho
que dava fazer aqueles objetos de barro comprariam tudo e lhes dariam o direito de
comprar um vestido de festa, de passear nos bairros mais distantes de Teresina, de viver
seu desabrocho. Amália só conhecia o centro de Teresina e mal. Nunca havia ido muito
longe. A vida era acordar-feira-casa-dormir e repetir tudo de novo e de novo. Estava
farta daquilo, mas, que jeito?! Era se conformar.
Apesar de desgostosa e apática, a morena no fundo no fundo se matinha alerta
para as mínimas possibilidades de mudança. Lá no seu coraçãozinho sabia que algo ia
acontecer; algo que iria mudar sua vida e sua alma para sempre! Não sabia o que era,
mas que ia acontecer, ah isso ia...
Amália voltou à realidade com um cutucão no braço. “Que foi, fia?! Tá
sonhando acordada de novo, né?!”, inquiriu a mãe, acostumada com o jeito da morena.
“Faz isso, fia. Faz isso que bom. Mantém a gente viva pra encarar a vida de verdade. Só
trabaia também. Não fica só de sonhar, não, que isso num enche barriga. E você sabe
disso”.
E mãe passou alguns minutos falando e falando sobre como a vida é dura e como
a fantasia só existia nas revistas das clientes ricas que vem por outra deixavam sobre a
banda enquanto olhavam as peças de barro e não levavam nenhuma. ‘Faz o seguinte’,
continuou mãe, ‘enquanto sonha, vai na João Luís Ferreira atrás de uns bolo frito pra
mim. Tô morrendo de fome e por aqui à essa hora já não tem mais nada.
A morena respirou fundo como se se preparasse para uma sentença de morte e
seguiu zumbizando em direção à outra praça que ficava um pouco mais acima. A
preguiça a fez calcular que seriam pelo menos uns vinte minutos de caminhada ida e
volta, mais uns cinco procurando a mulher do bolo frito. Fora mais uns dez para olhar as
gentes. Dentro de uma hora estaria de volta. Nada ia mudar mesmo naquele mercado.
Subiu a Areolino de Abreu até a David Caldas e desceu até à praça. Estava cheia
como sempre. Pessoas passando apressadas para o trabalho, estudantes matando aula e
muitas barracas.
Amália ficou envolta naquele burburinho. Tinha tanto o que ver e tão pouco
tempo. Deu uma longa volta, como se comece o local pelas beiradas e se deliciando
com tudo. Quando estava completando o círculo percebeu algo de muito diferente. Uma
figura alta e esguia, vestido de branco, cabelos negros, tão negros que brilhavam vinha
em sua direção. O tom de sua pele que lembrava os dos índios. O homem alto subia
devagar vindo pela Eliseu Martins.
Como que hiptonizada, Amália caminhou lentamente em sua direção. Uma força
sobrenatural a atraia para aquele homem lindo e elegante, magro, mas com músculos
talhados a cinzel que sobressaiam na camisa de tecido fino.
O tempo parecia haver parado. O vento soprava as árvores da praça e um
redemoinho de folhas subiu. Estava acontecendo algo de outro mundo naquele
momento. O homem subiu a calçada da praça e cumprimentava a todos. Mocinhas
cochichavam à sua passagem. E Amália o seguia como se atada por uma corda cuja
outra extremidade estaria em suas mãos.
O homem parou no meio da praça para comprar não sei o que. De tão encantada,
a morena nem percebeu que havia estancado exatamente às suas costas. Ele pressentiu e
virou-se para ela. Ofereceu-lhe o sorriso mais branco e bonito que ela já havia visto.
Quando riu, seus olhos se fecharam como se fosse um oriental. Aquela imagem nunca
mais sairia da cabeça de Amália.
O transe se aprofundou. Ela não conseguia se mover. O sorriso branco e oriental
daquele homem enigmático a havia enfeitiçado. O torpor só foi quebrado por um cheiro
conhecido. ‘Meu Deus ! Os bolos fritos da mamãe”. Amália acorreu por toda a João
Luís Ferreira mas só encontrou a dona da banquinha despejando o óleo escuro no meio-
fio.
A morena apressou-se e desceu correndo a mesma rua por onde o homem de
branco tinha aparecido. Atravessou a Praça da Bandeira feito uma bala e chegou à
barraca da mãe colocando os bofes para fora.
‘Que foi, fia? Ladrão ou assombração?’.
‘Mãe, não encontrei nada. A mulher do bolo frito já tinha vendido tudo. A
senhora vai ficar com fome...’, disse Amália, ainda se recuperando da carreira. A mãe
fez que não se importou e a morena sentou-se na cadeira, respirando com mais calma
mas ainda perturbada por aquele sorriso.
O dia correu lento. Mãe e filha voltaram para casa. Amália sonharia a noite toda
com aquele homem. Acordou suada na manhã seguinte. O chambre de algodão
molhado. Naquele dia chamou a mãe e foram as duas para o Mercado Central de novo.
Havia algo diferente na vida de Amália. A tão sonhada mudança havia acontecido. O
que era? A morena não sabia.
Saiu feito um foguete em direção ao Mercado Central e a mãe atrás gritando
pedindo que a esperasse. Tinha pressa: não podia esperar mais nem um segundo para
descobrir quem era o homem misterioso.
Montou a barraca num piscar de olhos. Quando a mãe chegou já estava com tudo
pronto. “Me dê logo o dinheiro dos bolos fritos. Vou comprar cedo porque ontem a
senhora viu o que aconteceu”.
Nem ouviu a velha dizer quantos eram. Saiu em disparada em direção a João
Luis Ferreira. Chegou farejando tudo que nem cão de caça, mas nada. Nem sinal do
homem. Amália entristeceu. Sentou-se em um banco, murcha como ramo de mato
arrancado para benzimento.
“A menina procura aquele moço bonito de branco, né?”, perguntou uma voz. A
moça virou-se na sua direção. Era a senhora do bolo frito. “Ele vem aqui todo dia
comprar na minha mão. Já passou cedo hoje. Vem comprar pra tomar café com a mãe.
Ele mora perto. Ali na Benjamin Constant, a rua do lado do Lojão. Sabe onde é?”
Que nem um raio Amália disparou naquela direção. Corria tanto que parecia
querer escapar de um bicho que a perseguisse. Em minutos estava na ponta da tal rua.
Foi aí que parou, encostou na sombra de uma casa e se recompôs. Foi descendo
devagar, receosa, o coração a mil, meio com medo de encontrá-lo mas, ao mesmo
tempo, desejando muitíssimo revelo.
Chegou de mansinho na casa indicada pela vendedora de bolo frito. Parou no
portão de grades de ferro com arabescos. A casa tinha uma varanda de lado. Havia um
pequeno jardim, onde as roseiras eram maioria. Um janelão também com grades dava
conta do mundo aqui fora. Amália se sentiu miúda, como se aquela casa fosse uma
mansão interminável. O silêncio denotava que ali morava pouca gente.
“Não queremos nada, não”, gritou alguém lá de dentro. Apontou na porta da
varanda uma senhora já de idade, morena e de rosto sofrido. “Diga?”, completou ela,
com aquele tom de querer se livrar de alguém inoportuno.
“Não tô vendendo nada não, senhora. É que...É que...”, Amália tentava mas não
encontrava uma desculpa para explicar porque estava ali. “Ia passando e olhei suas
roseiras... tão bonitas... e...e...não resisti. Por isso parei”, disse, rindo ao final.
“Sei”, desconfiou a velha. “Pois vamos entrar. Melhor é ver de perto. São uma
riqueza mesmo”. Amália não esperou que o pedido se repetisse e emburacou porta a
dentro. A cabeça feito um radar procurando o rapaz na casa.
“Você num vai encontrar ele aqui, não, moça”. Amália assustou-se com a frase
da velha, como se levasse um cutucão . “Meu filho saiu. Ta lá no cais do Troca-Troca,
se é que lhe interessa. E vai demorar muito voltar.”
“Desculpe, senhora. É que o vi ontem na praça e...”, Amália procurou a melhor
maneira de explicar. “Ficou encantada. É. Eu sei. A moça não é a primeira. Teve
outras”.
“Outras? Como assim?”, espantou-se de novo.
“Isso sempre acontece: é só olhar pra ele que se encantam. Vêm atrás. Se
apaixonam e aí não agüentam o depois”, revelou a velha. “Tô lhe falando isso moça que
é pra ficar sabendo. Iguais a você já vieram muitas outras ver minhas rosas. E acabaram
se espetando”.
“Dona, não pense que eu vim aqui...”, tentou contrapor Amália.
“Sente, filha. Deixe de besteira. Você não é a primeira que se apaixona pelo meu
filho à primeira vista. Já vi muita moça descer ou subir essa rua chorando por causa
dele. Mas nenhuma nunca teve a paciência de me ouvir”.
A velha ofereceu uma cadeira. Amália sentou-se conformada. Olhou a mulher
como se estivesse dopada. “Escute”, começou a velha, “a gente morava no interior. Eu e
meu marido. Era um sítio pequeno, mas tinha tudo. Eu tava grávida. Acho que de três
meses. Era nosso primeiro filho. Foi quando meu marido brigou com um macumbeiro
na porta de casa por causa de uma esmola. João perguntou por que se ele sabia de tanta
ciência não fazia um feitiço para ficar rico. Foi quando o homem se passou pra meu
marido e disse que não sabia ficar rico mas sabia fazer ficar pobre. A partir daquele dia,
fia, tudo o que nós possuía começou a desaparecer. Tive uma gravidez ruim, perdi
muito sangue durante os nove mês. Quase toda noite tinha pesadelo com um bicho que
saia do rio e corria atrás de mim. João começou a beber. Deu pra ter rapariga. Foi
vendendo tudo. Tudo. Quando meu filho nasceu nem um nome tinha pra dar pra ele.
Pouco tempo depois, João morreu não sei do que. Me vi obrigada a vender tudo e vir
embora para a capital. Foi aqui que batizei meu filho: coloquei o nome de Daniel, para
que ele pudesse andar no meio do mal sem ser tocado. Igual aquele santo da Bíblia que
ficou na cova dos leões. Mas nem isso deu jeito...”, a velha parou e olhou distante como
se visualizasse tudo o que havia passado. E esperasse alguém chegar no portão.
“Jeito no que?”, insistiu Amália para que continuasse.
“Faz o seguinte, fia. Vai no cais. O meu fio ta lá. Num é isso que você veio
atrás? É seu destino”. E entrou batendo a porta. Amália ficou parada, com a história da
velha repassando em sua cabeça.
Quando chegou no portão, sentiu uma mão a lhe puxar para o roseiral. Seu
coração foi a mil quando percebeu que era Daniel. “Era de mim que vocês falavam? É
falta de educação falar dos outros sem que estejam presentes”, disse o rapaz dando
aquele sorriso que hipnotizou Amália. “E você, quem é?”
“Ninguém, não senhor”, respondeu a morena.
“A moça da praça. Nunca ia esquecer...”, afirmou o rapaz.
“O senhor, digo, você lembra de mim?”.
“Claro. Passei a noite lembrando do seu rosto. Quando me olhou ontem parecia
que havia visto um fantasma”, riu novamente. Amália ruborizou. “Mas vamos, lhe
acompanho. Assim nos conhecemos melhor. Está indo para casa?”.
Amália tremia. Achava que ia desmaiar ali mesmo na calçada. Ele lhe deu o
braço. Ela aceitou. Foram conversando até o Mercado Central. Aos poucos a voz de
Daniel a acalmara. Amália tinha certeza: havia encontrado o amor de sua vida.
Dali para o namoro foi um passo curto. Mesmo desconfiada com o moço, a mãe
de Amália aceitou, já que a filha estava mortalmente apaixonada. “Tem alguma coisa
estranha nele... Não sei o que é, fia. Mas que tem, tem”, dizia.
Amália dormia, comia e bebia Daniel. Ele tornou-se um vício para ela. Aos
poucos foi deixando a mãe de lado, a barraca no Mercado Central, tudo de sua vida
modorrenta. Dedicava-se a ele como se casados fossem. Não havia um só dia em que
não passassem boa parte das horas juntos, passeando, sentados nas sombras a conversar
nada...
Não adiantava a mãe de Amália prevenir para que a filha fosse devagar. Que
paixão como aquela costumava machucar. Que ela era muito menina para estar daquele
jeito. “Eu amo ele como nunca amei ninguém na vida”, justificava a morena. “Mas você
nunca teve um namorado antes dele, fia. Deve ser por isso...”, contra-argumentava a
mãe. Em vão. Não tinha mais jeito. Era caso perdido. Amália havia perdido sua alma
dentro de Daniel. E ele a havia devorado sem piedade. Fazia parte dele agora.
Os meses se passaram como um vento rápido. A mãe praticamente não via mais
a filha, nem em casa nem no mercado. Amália até já dormia na casa de Daniel sem
nenhuma cerimônia. Nem ouvia mais a mãe reclamar que ela ia ficar falada. “Quem se
importa, mãe. Vou casar com ele. É o homem da minha vida”.
Mas foi num desses dias que tudo virou: Amália entrou em casa chorando,
desesperada como se alguém muito querido tivesse morrido. Ela soluçava e as lágrimas
afogavam suas palavras.
“O que foi, fia?”
“É o Daniel, mãe. Ele tá louco. Me mandou embora da casa dele. Disse que não
me conhecia... Me olhava com a cara de um bicho. Os olhos de gente doente, com se
ódio de mim. Depois saiu porta afora na direção do Parnaíba. Tentei alcançá-lo, mas ele
sumiu, mãe. Sumiu...”, explicou e desabou a chorar de novo.
A mãe ficou ensimesmada. Ali estava a prova de que o rapaz não era normal
mesmo. A velha era a dada a mezinhas e rezas. Sabia que algo ruim acompanhava
aquele moço. Ou ele era algo ruim.
Era impossível uma menina tão criança se apaixonar com coração de mulher-
dama por um homem daquele jeito sem nunca ter experimentado o amor antes na vida.
Amália se tornou cativa daquele sentimento. E Daniel a consumia sem pena nem
piedade. Era como se a morena tivesse assinado um contrato para vender a alma a ele.
Daniel ou o “bicho” que o acompanhava não eram desse mundo, a velha tinha certeza.
Esperou Amália se acalmar. Fez um chá de cidreira bem forte e colocou uma de
suas semberebas dentro. A moça capotou. Caiu num sono profundo, recuperando as
noites mal-dormidas que tivera pensando naquele homem estranho.
A velha botou um vestido e rumou para a casa de Daniel. Deu com a mãe do
moço no portão. Os olhos inchados de chorar. Um terço entre as mãos. Observava o
naco de rio que dava para ver de sua casa. Esperava que algo saísse dele.
As duas velhas se olharam como se já se conhecessem desde sempre.
Conversavam com os olhos. Uma longa conversa em silêncio, na qual passavam em
suas retinas tudo o que acontecera e ainda estava por vir. A troca de olhares era tão
profunda que dava medo. Não diziam nada, mas diziam tudo.
“Eu sei. Seu fio é um enfeitiçado. É um doente da alma e agora adoeceu minha
fia”, disse a mãe de Amália. “Por que não contou tudo pra ela o que ia acontecer? Agora
ela tá sofrendo”, advertiu.
“Mais dia menos dia ia acabar acontecendo. Antes dela foram várias. Não podia
fazer nada. Ela foi enfeitiçada no dia em que se viram pela primeira vez. Já chegou no
meu portão assim. Nada do que dissesse podia mudar o seu destino. É sempre assim e
vai ser sempre assim”, respondeu a outra velha.
Nesse ínterim, nenhuma das duas percebeu que Amália havia se acercado e
ouviu o que era mais importante. “Sempre assim o que? Pode me contar”, ordenou a
morena. A mãe de Daniel baixou a cabeça. Pediu à velha e sua filha que entrassem.
Amália sentou-se no mesmo tamborete e lugar da primeira vez em que esteve
naquela casa cheia de rosas que escondiam espinhos. A mãe de seu amado lhes contou
tudo. A morena ouvia e a cada seqüência levava a mão ao ventre e o apertava, chocada
com o que ouvia. Não acreditava, no entanto.
Boa parte da história Amália já conhecia. A briga do pai de Daniel com o
macumbeiro. Sua morte súbita. As desventuras porque passaram. O sofrimento da velha
para criar só um menino doentio, com uma enfermidade que os médicos da capital
diziam incurável porque não sabiam do que se tratava.
De tempos em tempos Daniel tinha acessos de fúria. Quebrava tudo dentro de
casa e chegava até a bater na velha. Os olhos ficavam iguais aos de um cachorro doido.
Desconhecia todo mundo e se abalava no ermo só com a roupa do corpo. Voltava
depois de dias, mulambento e faminto. Cheio de lodo e lama do rio, como se tivesse se
lambuzado na areia e nas pedras do fundo. Não conseguia nem entrar em casa e
desabava na varanda, dormia um dia inteiro. Quando acordava, era o Daniel de sempre,
ou quase: doce, gentil e de um sorriso cativante que apaixonava as garotas. À mãe só
restava esperar que o ataque começasse mais uma vez.
Para piorar a situação, era só dela que ele lembrava. As moças que namorava
parecia que nunca as havia visto na vida. A mãe pensava que o esquecimento duraria
pouco, que logo logo ele correria para os braços de alguma delas, mas todas haviam
sido apagadas caprichosamente de sua memória.
“Quer dizer que ele não vai se lembrar de mim? Nunca mais?”.
“É sempre assim, Amália. Antes de você houve outras seis. E agora não há mais
ninguém. Nem você...”
“E cadê ele? Quando ele volta? Sei que ele me ama e vai lembrar de mim.
Doença nenhuma no mundo vai acabar com o que eu sinto por ele. Vou ficar aqui sem
arredar o pé até que ele volte”, garantiu Amália, decidida a salvar seu amor e a si
própria.
“Ele num volta tão cedo, Amália. A coisa tem ficado pior a cada ano. Antes ele
sumia alguns dias. Depois semanas. Já chegou a ficar um mês fora de casa. E agora num
sei quando ele vai aparecer”.
“Tem problema não. Eu espero”, fincou pé. Dias se passaram e Amália virou
hóspede da casa de Daniel. Uma companhia na vigília da velha mãe. As duas ficavam
praticamente o dia todo no portão, se revezando numa espera angustiante e sem fim.
Cansada de não ter mais notícias de Daniel, Amália descia ao cais do Troca
Troca. Nada. Haviam visto o moço no mesmo tempo em que elas. A morena definhava
a olhos vistos. A angústia e a saudade a consumiam mais do que o amor febril que
sentia. Esqueceu da mãe. Se alimentava de lembranças. Chorava noite e dia. Suas
lágrimas escorriam nas margens do Parnaíba.
Num fim de tarde, foi mais uma vez em busca de notícias. Depois de muitos
nãos parou debaixo de uma carnaúba para iniciar outra seqüência de espera. Olhou o
Velho Monge descendo. As sombras das árvores sobre as águas do lado de Timon. Era
tudo calmo e modorrento, como sua antiga vida.
Foi ficando sonolenta, mas algo lhe chamou a atenção: o torço de um homem
que emergiu na margem de lá, encoberto pelas sombras da árvore frondosa. Os cabelos
muito pretos, o peito magro mas definido, os músculos rígidos e o sorriso... aquele
sorriso. Era Daniel. Tinha certeza. O reconheceria mesmo no escuro.
Levantou-se como um raio e desceu a margem, entrou na água até à cintura. Foi
aí que a visão de Daniel ficou mais nítida. Ele passou a acenar para ela, chamando-a
para o outro lado. Ela sorriu de volta e foi entrando no rio, água no pescoço. Viu, entre
lances de água no rosto, a imagem cada vez mais forte de Daniel, sorrindo lindamente
para ela, a convidando para estar junto dele. Mergulhou.
A água turva, cheia de areia lhe entrou nos olhos. Sentia que não ia para frente,
mas para o lado, arrastada pela correnteza. Pôs a cabeça fora d’água e não viu mais o
homem que amava. Entrou em desespero. Onde ele estava? E o rio ficava cada vez
mais fundo, mais fundo. Ela brigava para não ser levada. Descia. Descia o rio, naquele
mundaréu de água, areia e galhos. Começou a sufocar. Olhava para cima e via a luz do
dia mais distante. Ia morrer, pensou. O instinto ainda a impulsionou uma vez mais para
cima. Nada. Cansou de lutar e entregou-se.
Começou a afundar quando sentiu uma mão a lhe puxar. Abriu devagar os olhos
dentro d’água e viu Daniel, que nadava e sorria para ela. Ela deixou-se levar como das
outras vezes em que se encontravam.
O homem a arrastou para margem escura onde estava, deitou-a na areia. Amália
respirava com dificuldade. Daniel passou a mão em seu rosto, tirando a água e
chamando-a gentilmente. Amália respondeu com um sorriso fraco. O homem sorriu de
volta.
“Meu amor, você voltou...”, disse a morena.
“Não. Você veio até mim. Eu estava lhe esperando. Sabia que vinha...”,
respondeu Daniel, dando novamente um sorriso, mas dessa vez havia um tom ruim
naquilo. Ele apertou Amália com força, como um predador que não quer deixar sua
presa escapar.
Pôs a mão em sua boca para que não gritasse. Amália arregalou os olhos
deixando claro o seu desconforto. Daniel retirou a mão e a trocou por seus lábios.
Começou a beijar Amália loucamente, mordendo seus lábios, sua língua e seu pescoço.
Amália gemia, mas de dor. Eram mordidas violentas. Cada vez mais doloridas. No que
a morena gritou, ele deu-lhe um grande tapa no rosto. Amália virou a cara para a areia
com a violência do bofetão. Ao olhar de volta para Daniel ele havia mudado de feições:
sua face estava retorcida, os olhos dilatados, a pele escamava como a de uma cobra
trocando de couro, os dentes estavam malignamente pontiagudos. Amália gritou. Ele
agigantou-se em seu rumo abrindo uma bocarra e gritou: “Sete”.
Amália deu um sopapo no colchão da cama. Estava encharcada de suor. Teve
medo. Tocou-se para saber se estava ali mesmo ou dentro d’água sendo devorada pelo
monstro.
“Amália, fia. Levanta. O sol já ta é alto e vamo chegá atrasada no Mercado”,
ouviu a mãe gritar com voz de quem já estava no portão.
A morena deitou-se. Respirou profundamente. Havia tido um sonho ruim, que a
consumiu durante toda a noite. Mais um dia começava, mas tudo estava diferente.
Amália não era mais uma menina de quinze anos que nunca havia namorado. Era agora
uma mulher. Em uma noite conheceu o amor. Intenso, febril, doentio. Se entregou de
corpo e alma a ele. A ponto até de se afogar e ser devorada. Sim, amava o monstro.
Amália agora era a mulher que amava o monstro. No seu íntimo havia a cicatriz de uma
grande mordida. Estava preparada para amar e sofrer. O ritual havia acontecido.
E seguiu na sua vidinha modorrenta.

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