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Como Posso Desenvolver uma Consciência Cristã?

T raduzido do original em inglês


How can I develop a christian mind?, por R. C. Sproul
Copyright © 2013 by R. C. Sproul


Publicado por Reformation T rust Publishing a division of Ligonier Ministries
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1 a Edição em Português 2014


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Diretor: James Richard Denham III.
Editor: T iago J. Santos Filho
T radução: Mauricio Fonseca dos Santos JR.
Revisão: Ingrid Rosane de Andrade Fonseca
Diagramação: Rubner Durais
Capa: Gearbox Studios
Ebook: Yuri Freire

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Sumário
Um – A questão da consciência

Dois – As ordenanças da criação

Três – A situação crítica

Quatro – A distorção legalista

Cinco – A distorção do antinomianismo

Seis – Os graus de pecado


Capítulo Um

A Questão da Consciência

É
vitalmente importante que os cristãos considerem a questão da
consciência. Na visão clássica, a consciência foi considerada algo que
Deus implantou dentro de nossa mente. Algumas pessoas chegaram a
descrever a consciência como a voz de Deus dentro de nós. A ideia era
que Deus nos criou de tal maneira, que havia um elo entre as
sensibilidades da mente e a consciência, com sua responsabilidade
intrínseca para com as leis eternas de Deus. Por exemplo, considere a lei
da natureza que o apóstolo Paulo afirma estar escrita em nosso coração.
Havia uma sensibilidade de consciência, muito antes de Moisés descer do
monte Sinai com as tábuas de pedra.
O famoso filósofo Immanuel Kant era cético, no que diz respeito à
capacidade humana de racionar, a partir deste mundo, sobre o mundo
transcendente de Deus. Apesar disso, ele ofereceu o que chamou de
argumento moral para a existência de Deus, um argumento que se baseou
no que ele chamou de senso universal de dever implantado no coração de
todo ser humano. Kant acreditava que toda pessoa carregava em si um
senso genuíno do que deveria fazer em determinada situação. Ele chamou
isso de imperativo categórico. Kant acreditava que há duas coisas que enchem
a alma com admiração e reverência sempre novas e crescentes: os céus
fascinantes, no espaço, e a lei moral, no íntimo do ser humano. É
importante notar isto, porque até no âmbito da filosofia secular tem
havido, historicamente, um reconhecimento da consciência.
Histórica e classicamente, a consciência foi vista como nossa ligação
com a ética transcendente que reside em Deus. Todavia, com a revolução
moral de nossa cultura, surgiu uma abordagem diferente da consciência, e
esta abordagem se chama visão relativista. Estamos realmente na era do
relativismo, na qual valores e princípios são considerados meras expressões
de desejos e interesses de um grupo específico de pessoas, em
determinado momento da história. Ouvimos, repetidas vezes, que não há
absolutos no mundo de hoje.
No entanto, se não há nenhum absoluto, princípios transcendentes,
como explicamos este mecanismo que chamamos de consciência? Dentro
de uma estrutura relativista, vemos a consciência ser definida em termos
evolucionários: as personalidades interiores subjetivas das pessoas estão
reagindo a tabus evolucionários vantajosos, que lhes foram impostos por
sua sociedade ou por seu ambiente. Havendo chegado a um tempo, em
nosso desenvolvimento, em que esses tabus não servem mais para
promover nossa evolução, podem ser descartados sem qualquer
consideração às consequências.
Anos atrás, quando eu trabalhava como professor, aconselhei uma
universitária que fora tomada por um profundo senso de culpa, porque se
entregara a atividades sexuais com seu noivo. Eu lhe disse que o meio de
vencer sua culpa era reconhecer a fonte da culpa. Ela argumentou que
não fizera nada de errado; seus sentimentos de culpa foram resultado de
haver sido vítima de viver numa sociedade regida por uma ética puritana.
Explicou que fora condicionada por certos tabus sexuais que a fizerem
sentir-se culpada, quando não devia, e que seu envolvimento sexual fora
uma expressão madura e responsável de sua própria chegada à
maioridade.
Apesar disso, ela me procurou chorando e exclamando que ainda se
sentia culpada. Disse-lhe que é possível uma pessoa sentir-se culpada,
porque tem uma consciência intranquila e perturbada quanto a algo que
não é realmente uma transgressão da lei de Deus; mas que, naquele caso,
ela quebrara a lei de Deus e devia se alegrar por se sentir culpada, visto
que a dor, embora nos seja desagradável, é importante para a nossa saúde.
No âmbito físico, o sentimento de dor indica que há algo errado no corpo.
No aspecto espiritual, a dor de culpa pode indicar-nos que algo está errado
em nossa alma. Há um remédio para isso, aquele que a igreja tem
oferecido sempre, ou seja, o perdão. Culpa real exige perdão real.
O problema desta mulher ilustra o conflito entre o entendimento
tradicional de pecado e consciência e o novo conceito de consciência. Este
novo conceito vê a consciência meramente como um processo
evolucionário condicionador da sociedade, que é um resultado de tabus
impostos. Como o cristão lida com tudo isto? Há uma visão bíblica quanto
à consciência?
O termo hebraico traduzido por “consciência” ocorre no Antigo
Testamento, mas esparsamente. Entretanto, no Novo Testamento, parece
haver um reconhecimento mais pleno da importância da função da
consciência na vida cristã. A palavra grega que expressa consciência aparece
31 vezes, e parece ter uma dimensão dupla, como argumentavam os
eruditos medievais. Envolvia a ideia de acusar e a ideia de justificar.
Quando pecamos, a consciência fica perturbada. Ela nos acusa. A
consciência é o instrumento que o Espírito Santo usa para nos convencer,
trazer-nos ao arrependimento e recebermos a cura do perdão que flui do
evangelho.
No entanto, há também um sentido em que esta voz moral, em nossa
mente e coração, igualmente nos diz o que é certo. Lembre-se de que o
cristão é sempre um alvo de críticas que podem ou não ser válidas. Até
dentro da comunidade cristã, há grandes diferenças de opinião a respeito
de comportamentos que são agradáveis a Deus, e que não o são. Um
homem aprova dançar; outro o desaprova. Como sabemos quem está
certo?
Vemos, no Novo Testamento, que a consciência não é a autoridade
ética final para a conduta humana, porque a consciência é capaz de
mudar. Enquanto os princípios de Deus não mudam, nossa consciência
hesita e se transforma. Estas mudanças podem ser positivas ou negativas.
Por exemplo, os profetas do Antigo Testamento anunciaram o juízo de
Deus sobre o povo de Israel, que se acostumara com o pecado. Uma das
grandes acusações que veio sobre Israel, nos dias do rei Acabe, foi que
haviam se tornado tão insensíveis e acostumados com o mal, que o povo
tolerava a impiedade do rei Acabe. A consciência dos israelitas estava
calejada e cauterizada. Pense sobre esta realidade em sua vida, sobre as
ideias que você tinha quando criança. Considere as pontadas de
consciência que devem ter penetrado em sua vida, quando você
experimentou, pela primeira vez, certas coisas que sabia serem erradas.
Você ficou perturbado e abalado. Talvez, até ficou doente. Mas, o poder
do pecado pode corroer a consciência até ao ponto de ela se tornar uma
voz débil nos profundos recessos de sua alma. Por meio disto, nossa
consciência se torna endurecida e cauterizada, condenando o que é certo e
justificando o que é errado.
É interessante que podemos sempre achar alguém que oferecerá uma
defesa convincente e bem formulada da legitimidade ética de algumas das
atividades que Deus julga ofensivas a ele. Como humanos, nossa
capacidade de defender a nós mesmos de culpabilidade moral é bem
desenvolvida e acentuada. Somos uma cultura em problemas, quando
começamos a chamar o mal de bem, e o bem de mal. Para fazer isso,
temos de distorcer a consciência e, em essência, tornar o homem a
autoridade final da vida. Tudo que alguém precisa fazer é ajustar sua
consciência para se encaixar na ética do homem. Assim, podemos viver
com paz na mente, pensando que estamos vivendo num estado de retidão.
A consciência pode ser sensibilizada de maneira distorcida. Lembre-se:
a visão evolucionária e relativista, quanto à consciência, está fundamentada
sobre o princípio de que ela é uma reação subjetiva a tabus impostos pela
sociedade. Embora eu não creia que essa opinião seja convincente, tenho
de reconhecer que há um elemento de verdade nessa opinião.
Reconhecemos que pessoas podem ter consciência altamente sensibilizada,
não porque estão sendo instruídas pela Palavra de Deus, mas porque têm
sido informadas por regras e normas feitas por homens. Em algumas
comunidades cristãs, o teste da fé de alguém é se ele dança ou não dança.
Se uma pessoa cresce neste ambiente e decide dançar, o que acontece?
Geralmente, a pessoa é dominada por culpa, por haver dançado. Como
você responderia a isso? Diria à pessoa que dançar não é pecado, que sua
consciência foi mal instruída? Essa pode ser uma abordagem normal, mas
tal resposta pode ser problemática por esta razão: a consciência pode
justificar, quando deveria estar acusando, e pode acusar, quando deveria
estar justificando.
Devemos lembrar que agir contra a consciência é pecado. Martinho
Lutero, na Dieta de Worms, esteve em agonia moral, porque se levantou
sozinho contra os líderes da igreja e de estados, os quais exigiam que ele se
retratasse de seus escritos. Mas Lutero estava convicto de que seus
escritos se conformavam à Palavra de Deus; por isso, naquele momento
de crise, ele disse: “Não posso retratar-me. Minha consciência está cativa à
Palavra de Deus, e agir contra a consciência não é correto, nem seguro”.
Esse não foi um princípio que Lutero inventou para a ocasião na Dieta de
Worms. É um princípio do Novo Testamento: “Tudo o que não provém
de fé é pecado” (Rm 14.23).
Se alguém é criado em um ambiente que o persuadiu de que ler
filosofia é pecado, mas, apesar disso, lê filosofia, ele está pecando. Por
quê? É porque ler filosofia é pecado? Não, é porque ele está fazendo algo
que acredita ser pecado. Se fazemos algo que pensamos ser pecado, ainda
que sejamos mal instruídos, somos culpados de pecado. Agimos contra a
nossa consciência. Esse é um princípio muito importante. Lutero estava
certo em dizer: “Agir contra a consciência não é correto, nem seguro”.
Por outro lado, temos de lembrar que agir de acordo com a
consciência pode, às vezes, ser pecado. Se a consciência é mal instruída,
procuramos razões para esta má instrução. É mal instruída, porque a
pessoa tem sido negligente em estudar a Escritura? Deus se agradou em
nos revelar seus princípios, para que a consciência seja bem instruída.
Posso achar que não há problema algum em realizar uma atividade
específica que Deus proíbe totalmente, e não poderei dizer-lhe no último
dia: “Eu não sabia que lhe desagradaria com esta forma de
comportamento. Minha consciência não me acusava, e agi de acordo com
minha consciência”. Nesse caso, você agiu de acordo com uma
consciência que ignorava a Palavra de Deus que lhe estava disponível, a
qual você foi chamado a estudar e a ser diligente em entender.
Devemos retornar ao primeiro princípio. Para o cristão, a consciência
não é a autoridade final em sua vida. Somos chamados a ter a mente de
Cristo, conhecer o bem e possuir mente e coração treinados na verdade de
Deus, para que, nos momentos de pressão, sejamos capazes de
permanecer firmes com integridade.
Capítulo Dois

As Ordenanças da Criação

N
este capítulo, consideraremos um elemento importante da ética cristã
que é frequentemente ignorado. Precisamos considerar o que os
teólogos têm chamado de ordenanças da criação. Permita-me
começar com uma afirmação que pode surpreendê-lo: cristãos em todas as
sociedades, em todas as épocas e de todas as idades sempre viveram sob
lei. Sua surpresa com essa afirmação pode ser o fato de que, no Novo
Testamento, somos constantemente informados de que não estamos mais
sob lei, mas sob graça. E, certamente, eu dou muita ênfase à importância
central da graça, para entendermos a ética cristã. No entanto, toda a graça
que nos advém no Novo Testamento não anula totalmente o fato de que
vivemos sob lei.
Somos cristãos do Novo Testamento, e, se examinarmos as coisas em
categorias bíblicas, veremos que a Bíblia é dividida em testamentos
diferentes. Um testamento é uma aliança. Falamos da antiga aliança e da
nova aliança, o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Mas precisamos
ampliar isso. Qual é a essência de uma aliança? Em seus termos mais
simples, uma aliança é um acordo ou contrato entre duas ou mais pessoas.
Toda aliança contém, em si mesma, certos benefícios e promessas, e toda
aliança inclui leis ou exigências legais. Até a nova aliança, o Novo
Testamento, é uma aliança com leis. Jesus disse: “Se me amais, guardareis
os meus mandamentos” (Jo 14.15). Sim, a maldição da lei foi satisfeita em
Cristo. Fomos redimidos da maldição da lei, mas isso não significa que
agora, como cristãos, estamos livres de todas as obrigações para com
nosso Deus. Há leis no Novo Testamento, como também há leis no
Antigo Testamento.
Todo cristão é membro de uma comunidade de aliança, que
chamamos igreja. Todo membro da igreja cristã participa da nova aliança,
assim como todo membro da casa de Israel, no Antigo Testamento,
participava da velha aliança. Judeus e cristãos são, igualmente, povos de
aliança. E o resto do mundo? E o que se pode dizer sobre os milhões de
pessoas neste planeta, que não são membros da igreja cristã ou membros
de uma comunidade judaica? Elas estão em um relacionamento de aliança
com Deus? A resposta é sim.
Todos os homens, em todos os lugares, são participantes de um
relacionamento de aliança com Deus, embora nunca tenham se unido à
igreja cristã ou à comunidade judaica. A primeira aliança que Deus fez
com a humanidade, foi estabelecida com Adão, que representava toda a
raça humana. Nessa aliança, a aliança da criação, Deus entrou em um
relacionamento contratual com todos os seres humanos. Por natureza,
todo descendente de Adão faz parte da aliança da criação. Este pode não
ser um relacionamento de graça, mas, apesar disso, é um relacionamento.
A lei que Deus outorgou na criação permanece obrigatória sobre todos os
homens. Não importa se eles são religiosos, membros da nação de Israel
ou membros de uma igreja local.
Há um certo corpo de legislação moral que Deus dá a todos os
homens, e é esse corpo de leis que nos interessa, sob o título de aliança da
criação. Que tipos de ordenanças estão incluídos na aliança da criação?
Veremos alguns dos preceitos e princípios que Deus inseriu nos
relacionamentos humanos, bem no princípio. No jardim do Éden, Deus
estabeleceu a santidade da vida. Antes de Moisés receber os Dez
Mandamentos, no monte Sinai, a raça humana sabia que matar é errado.
É uma ordenança da criação. Outro princípio é a santidade do casamento.
O casamento não é algo que se desenvolveu arbitrariamente, ao longo do
tempo. Não é verdade que os seres humanos eram, por natureza, não
inclinados a relacionamentos monogâmicos e, depois, por meio de tabus
sociais, foram manipulados a formar a unidade da família, que funciona
como o ponto central e estável de qualquer sociedade. A santidade do
casamento foi estabelecida por Deus, na criação. Esta é uma das razões
por que a igreja reconhece a validade de cerimônias civis de casamento.
Não reservamos somente à igreja o direito de realizar casamentos.
Reconhecemos o estado justo do casamento que é estabelecido pelos
oficiais e magistrados do estado civil, porque o casamento não é uma
ordenança puramente eclesiástica. É uma ordenança da criação. O Estado
não somente tem o direito, mas também a responsabilidade, de regular
estas questões.
De que modo isto se aplica à nossa vida diária como cristãos? Sendo o
povo cristão, vivemos sob mais de uma aliança. Como membros do corpo
de Cristo, somos também membros do corpo da criação; ainda estamos
sob as leis e as ordenanças que Deus impôs ao homem, como ser criado.
Precisamos entender que as ordenanças da criação transcendem os
limites das leis específicas que achamos na igreja do Novo Testamento.
Isso significa que as leis da criação vão além das fronteiras da igreja cristã.
Um das questões mais debatidas em nossa sociedade é a relação entre a
igreja e a legislação civil. A aliança da criação estabelece a base pela qual a
igreja pode lidar com questões morais na cultura secular.
Cremos na separação entre igreja e estado. Por isso, algumas pessoas
dizem que não compete à igreja lidar com questões morais fora da igreja.
Todavia, não estamos falando sobre impor ordenanças eclesiásticas à
cultura secular. Certamente, haveria uma violação da separação entre
igreja e estado, se nos tornássemos um grupo de lobistas e tentássemos
impor a celebração da Ceia do Senhor a todos os residentes em nosso país.
Não podemos impor uma exigência legal a pessoas que vivem fora da
estrutura de aliança de onde veio esse mandamento específico, ou seja, a
nova aliança em Cristo. E se o estado não está cumprindo as suas
obrigações para com Deus, de realizar as ordenanças da criação? A igreja é
chamada a ser uma voz profética de Deus, em determinada sociedade, e
chamar atenção ao fato de que todos os homens estão sob a autoridade
dos mandatos da criação.
E se as pessoas são ateístas e não reconhecem as leis da criação?
Lembre-se: o ateísmo não anula as leis que Deus outorgou ao homem. A
aliança da criação é inescapável. Uma pessoa não pode repudiá-la e sair
dela. Podemos quebrar a aliança, mas não podemos anular a aliança da
criação. Portanto, os cristãos são chamados a serem vozes, em defesa da
manutenção e preservação da santidade da vida, a santidade do
casamento, a santidade do trabalho e, sim, até a santidade do dia de
descanso. Estas são leis que se aplicam a todos os homens, em todas as
épocas, lugares e culturas.
Quantas vezes já ouvimos alguém dizer que “não podemos legislar
moralidade”? Isso tem sido afirmado tão frequentemente, que se tornou
um clichê em nossa cultura. É interessante notar que a própria afirmação
tem passado por uma estranha metamorfose. O sentido original era que
não podemos acabar com o pecado, apenas por aprovarmos leis que o
proíbem. Se pudéssemos, tudo que precisaríamos fazer era legislar contra
todo pecado imaginável, e a própria legislação removeria o mal. Mas,
sabemos melhor do que isso. Sabemos que pessoas pecam, apesar do fato
de que as leis lhes dizem que não o façam. Na verdade, o próprio Paulo
expõe esta ideia, em sua Epístola aos Romanos, na qual diz que há certo
sentido em que a presença da lei faz pessoas caídas pecarem, com grande
desamparo.
No entanto, a afirmação de que não podemos legislar moralidade
significa, agora, que é errado o governo sancionar leis de natureza moral.
Infelizmente, tenho ouvido poucas pessoas avaliarem as implicações desta
ideia. O que aconteceria com uma sociedade, se não fosse permitido
aprovar nenhuma lei moral? Não restaria muito para os legisladores
fazerem. Sobre o que poderiam legislar? A bandeira do estado? O pássaro
do estado? O limite de velocidade? Entretanto, a maneira como uma
pessoa dirige numa rodovia é uma questão moral. Se eu coloco
negligentemente em risco a vida de outra pessoa, por causa de meus
interesses egoístas, isso tem implicações morais. Roubar a propriedade de
outra pessoa tem implicações morais. Se não podemos legislar moralidade,
não podemos ter leis contra assassinato, contra roubo, contra pesos e
medidas falsos, ou contra comportamento imprudente em lugares
públicos, porque estas coisas são questões morais. É claro que, se você
pensar bem nisso, reconhecerá que as questões morais estão no âmago de
toda a legislação. A questão não é se o estado deve legislar moralidade. A
questão é que tipo de moralidade o estado deve legislar. Se há algum
ponto, em nossa cultura, no qual temos experimentado uma crise
profunda, é precisamente este. Qual é a diretriz para as leis do país?
Temos visto uma mudança significativa, não somente na história da
América, mas na história da civilização ocidental. Essa mudança é para
longe do conceito de lei judaico-cristão.
Historicamente, mesmo em nossa própria história, vemos três níveis
de leis. Há o que chamamos de lei eterna; há a lei natural; e, por fim, há o
que chamamos de lei positiva. Precisamos entender esses termos. Uma lei
positiva é uma lei específica que aparece nos livros. “Você não pode
vender cereal com peso falso no mercado”. Isso é uma lei positiva.
Alguém pode questionar imediatamente: “Por que não devemos vender
cereal com peso falso no mercado? Por que não podemos mentir sobre o
conteúdo dos cereais que vendemos?”. Historicamente, vemos que isso
envolve a violação de certos princípios. O princípio, aqui, é a integridade
no trabalho, bem como o princípio da santidade da verdade.
A lei natural afirma que há certos princípios que jamais devemos
transgredir. Por quê? Apenas por que a natureza diz que é errado? Não.
Clássica e historicamente, o cristianismo tem dito que essas leis que
achamos na natureza são manifestações externas da lei de Deus. Lembre-
se que toda lei justa e verdadeira está baseada no caráter de Deus e no seu
ser eterno. A partir destes princípios eternos, obtemos um reflexo de Deus
na lei natural.
Por fim, há leis específicas e positivas sancionadas neste mundo, que
devem expressar a lei natural. Isto, por sua vez, reflete a lei eterna de
Deus, de modo que uma lei é considerada boa ou justa se, em última
análise, corresponde aos padrões de justiça de Deus.
Temos uma crise de proporções profundas na civilização ocidental. É
uma crise de princípios éticos. No século XVII, e até no século XVIII,
durante o Iluminismo, uma reação tremenda contra a revelação bíblica foi
pronunciada na Europa. A confiança numa fonte revelada de
conhecimento da lei eterna foi rejeitada. A sociedade tentou estabelecer a
si mesma de maneira revolucionária, baseando sua estrutura legal na lei
natural, sem consideração à lei revelada de Deus. De fato, uma das nações
que surgiram naquele ponto da história foi a república dos Estados Unidos
da América. Há uma frase-chave, em nossos documentos de fundação:
somos dotados por nosso Criador de certos direitos inalienáveis, entre os
quais estão a vida e a liberdade de buscar a felicidade. A ideia de santidade
da vida que está arraigada e fundamentada na criação é uma parte do
alicerce do etos filosófico dos Estados Unidos.
No entanto, no século XIX, a confiança na lei natural começou a
desintegrar-se com o surgimento do positivismo. Oliver Wendell Holmes,
quando era um juiz associado da Suprema Corte, disse que não se poderia
mais aprovar uma lei, apelando a princípios transcendentes de verdade
suprema. Ele disse que a lei meramente reflete os gostos e as preferências
da sociedade, em determinado momento. Essa ideia cria a balbúrdia legal
em que agora vivemos, na qual se aprovam leis que estão desconectadas
de seu fundamento clássico. Agora, o padrão para uma lei não é a verdade
eterna, nem princípios eternos, nem o caráter de Deus, mas os anseios e
desejos da maioria mais poderosa e mais faladora. Aquilo que um grupo
de interesse especial é capaz de legislar se torna a lei do país, e, quando
isso acontece, começamos a viver baseados na conveniência e não em
princípios. Este é o tempo de os cristãos chamarem a atenção para a lex
aeternita, a lei eterna. E essa lei eterna de Deus é manifestada na lex
naturalis, a lei natural, que está incluída na criação. Isto protege a sociedade
da tirania da maioria humana e nos coloca em segurança sob a lei de
Deus.
Há uma diferença entre governar por homens e governar por leis. Os
homens fazem leis, mas as leis que eles fazem devem ser subordinadas à
lei de Deus. Esta é a norma suprema para uma sociedade. Como cristãos,
precisamos estar sensivelmente alertas a esta mudança radical na textura
de nossa própria sociedade e sistema judiciário. Precisamos abrir a boca e
dizer “não”, quando vemos nossos legisladores aprovarem leis com base
na conveniência e não com base em princípios. É claro que, se há de
acontecer uma reforma, ela tem de começar conosco. Tem de começar
em nossa própria vida. Em última análise, a minha responsabilidade para
com Deus não deve ser afetada pelo que a cultura faz ou não faz. Somos
chamados a ser um povo de princípios. A reforma se inicia quando
começamos a viver por princípios e não por conveniência.
Capítulo Três

A Situação Crítica

E
stamos numa revolução. Não é uma revolução sangrenta, nem uma
revolução armada; mas, apesar disso, é uma revolução. É uma
revolução profundamente real, que toca a vida de todo cristão. Os
meios de comunicação a chamam de revolução moral.
Como cristãos, nos preocupamos com questões morais e vemos que a
ética, enquanto ciência, não é algo que surge apenas por processos
evolutivos na natureza. É um subtema da disciplina de teologia. Nossa
cultura é confusa, em referência a ética e moralidade. Em nosso
vocabulário, vemos que a maioria das pessoas usa as palavras ética e
moralidade de modo intercambiável, como se fossem sinônimos. Mas,
historicamente, não foi assim.
A palavra “ético” ou “ética” vem da palavra grega ethos. A palavra
“moral” ou “moralidade” vem da palavra mores. A diferença é que o ethos
de uma sociedade ou cultura tem a ver com sua filosofia fundacional, seu
conceito de valores e seu sistema de entender como o mundo se
harmoniza. Há um sistema de valor filosófico, que é o ethos de toda
cultura no mundo. Por outro lado, mores tem a ver com os costumes,
hábitos e formas de comportamentos normais que se acham em
determinada cultura.
Em primeira instância, ética é chamada de ciência normativa; é o estudo
de normas ou padrões pelos quais as coisas são medidas ou avaliadas. Por
outro lado, moralidade é o que chamaríamos de ciência descritiva. Uma
ciência descritiva é um método para descrever a maneira como as coisas
operam ou se comportam. A ética se preocupa com o imperativo, e a
moralidade se preocupa com o indicativo. O que isso significa? Significa
que a ética se preocupa com “o dever”, e a moralidade se preocupa com
“o fazer”.
A ética, ou ethos, é normativa e imperativa. Lida com o que alguém
deve fazer. A moralidade descreve o que alguém está fazendo. Essa é uma
diferença significativa, em especial quando a entendemos à luz de nossa fé
cristã e também à luz do fato de que, no entendimento contemporâneo, os
dois conceitos são confundidos, mesclados, fundidos.
O que resultou da confusão de ética e moralidade foi o surgimento do
que chamo de “moralidade estatística”. É neste ponto que o normal ou
regular se torna normativo. Eis como opera: para descobrir o que é
normal, fazemos uma pesquisa estatística, uma pesquisa de opinião, ou
descobrimos o que as pessoas estão realmente fazendo. Por exemplo,
suponha que descobrimos que a maioria dos adolescentes está usando
maconha. Então, chegamos à conclusão de que, neste ponto da história, é
normal um adolescente da cultura americana dar-se ao uso de maconha.
Se é normal, julgamos que isso é bom e certo.
Em última análise, a ciência da ética se preocupa com o que é certo, e
a moralidade, com o que é aceito. Na maioria das sociedades, quando algo
é aceito, é julgado como correto. Entretanto, isso provoca frequentemente
uma crise para o cristão. Quando o normal se torna o normativo, quando
o que é determina o que deve ser, podemos, como cristãos, nos ver
nadando fortemente contra a correnteza cultural.
O conceito cristão de ética está em curso de colisão com muito do
que está sendo expresso como moralidade. Isto acontece porque não
determinamos o certo e o errado, baseados no que todas as pessoas estão
fazendo. Por exemplo, se estudamos as estatísticas, vemos que todos os
homens mentem em uma ocasião ou outra. Isso não significa que todos os
homens mentem em todo o tempo, mas que todos os homens cedem à
mentira, num momento ou noutro. Se examinarmos isso estatisticamente,
diremos que 100% das pessoas se rendem à desonestidade, e, visto que é
100% universal, poderíamos concluir que é perfeitamente normal os seres
humanos contarem mentiras. Não apenas normal, mas também
perfeitamente humano. Se queremos ser totalmente humanos, devemos
nos encorajar em direção à mentira. Evidentemente, isso é o que
chamamos de argumento reductio ad absurdum, segundo o qual levamos algo
à sua conclusão lógica e mostramos a sua tolice. Mas isso não é o que
acontece costumeiramente, em nossa cultura. Esses problemas óbvios no
desenvolvimento de uma moralidade estatística são frequentemente
ignorados. A Bíblia diz que nos inclinamos para a mentira, mas, apesar
disso, somos chamados a um padrão mais elevado. Como cristãos, o
caráter de Deus provê a nossa ética suprema, o padrão supremo pelo qual
discernimos o que é certo, bom e agradável a ele.
No que diz respeito ao dever cristão de seguirmos a retidão –
seguirmos a ética correta – há dois fatos importantes. O primeiro é
sabermos o que é bom, entendermos com a mente o que Deus exige e o
que lhe agrada. Mas, suponhamos que temos um entendimento claro da lei
de Deus e saibamos, com certeza, o que ele requer de nós. Infelizmente,
isso é só metade da questão.
O segundo fato que encaramos, como cristãos, é que devemos ter
coragem ética para fazer o que sabemos ser certo. Deixe-me levantar uma
questão prática: sempre fazemos aquilo que sabemos ser a coisa certa a
fazer? Nenhum de nós faz, consistentemente, o que sabemos que
deveríamos fazer. Não basta conhecermos o bem, se nos falta a coragem
moral para fazer o que é certo.
Quando examinamos a questão de saber que princípios Deus aprova
para seu povo, encontramos, frequentemente, pessoas que veem as
questões éticas de maneira muito simplista. Às vezes, nos referimos a uma
pessoa dizendo que ela quer as “coisas estritamente definidas”,
significando que não tem tempo para considerar nuanças intelectuais ou
assuntos incertos. Em geral, esse tipo de pessoa é considerado
intelectualmente infantil, o que, às vezes, é verdadeiro. Infelizmente,
podemos ir ao extremo oposto e celebrar a existência e a confusão de
assuntos incertos como um fim em si mesmo.
Há maneiras diferentes de pensarmos sobre tais assuntos na ética. Por
um lado, a incerteza pode representar o que a Bíblia chama de questões de
comportamento que são adiaphora. Esta palavra se refere ao
comportamento que tem a ver com coisas externas, que não carregam
nenhum peso ético em e de si mesmas. Poderíamos dizer que estas são as
questões moralmente neutras. Há sempre debate sobre isto, nos círculos
cristãos. Uma escola de pensamento diz que há muitas coisas sobre as
quais a Bíblia não diz nada. Eles argumentam que, nestas questões, deve
reinar a liberdade de consciência. Por outro lado, há aqueles que
argumentam vigorosamente que não há nada neutro debaixo do sol. Deus
chama seu povo a viver toda a vida para a sua glória; portanto, não há
situação alguma que seja livre de reflexo ético.
Ambas as posições não podem ser totalmente verdadeiras, mas cada
uma pode ter algum grau de mérito. Simpatizo com aqueles que insistem
em que temos de fazer tudo para a glória de Deus. A Bíblia é clara sobre
isso. Por outro lado, a Bíblia também nos diz que certas coisas são
adiaphora em e de si mesmas, como o alimento oferecido a ídolos. Esta
questão não tem nenhuma relevância ética, quando considerada à parte de
qualquer outra coisa. O que interessa a Deus é o que fazemos com o
alimento oferecido a ídolos.
Consideremos outro exemplo. Jogar pingue-pongue não é proibido,
nem ordenado, nas Escrituras Sagradas; e praticar este jogo é moralmente
neutro em e de si mesmo. Mas, uma pessoa pode ficar tão viciada em
pingue-pongue, que negligencia suas responsabilidades diárias, porque está
sempre jogando. Neste caso, o jogo se moveu de um ato que é adiaphora,
para um ato que é pecado.
Os assuntos incertos representam o que chamamos de “área de
ignorância”. Esta é uma área de confusão que existe em nossa mente,
sobre princípios éticos. Reconheço que pessoas que veem tudo em
categorias bem distintas podem ser importunas, às vezes; mas, quando
falamos em julgamentos éticos, estou convencido de que não há assuntos
indefinidos na mente de Deus. Tudo que faço de caráter ético, ou agrada
a Deus, ou não. Mas, ele não especificou sua vontade nitidamente para
cada circunstância que possamos conceber. Há muitos problemas éticos
com os quais nos deparamos a cada dia, que não são fáceis de categorizar.
Por exemplo, roubar é claramente errado, de acordo com a Bíblia.
Também sabemos que dar aos pobres é bom, aos olhos do Senhor. Se
perguntássemos a dez cristãos se roubar é uma coisa boa, todos eles
concordariam em que roubar é pecado. Se lhes perguntássemos se dar aos
pobres é bom, eles achariam que isso é caridade e algo formidável. Mas,
você já pensou nos impostos? É deles que o governo tira dinheiro de um
grupo de pessoas e o distribui a outro grupo de pessoas. Aqui temos uma
transferência forçosa de riqueza de um grupo para outro. Isso é bom ou
mau? É roubo ou caridade? Talvez não seja tão fácil discernir se essa
prática é certa ou errada.
Friedrich Nietzsche, o famoso filósofo niilista, disse que o aspecto
mais fundamental da natureza humana é o que ele descreveu como a
“vontade de poder” intrínseca e inerente do homem. Nietzsche disse que
os humanos têm uma paixão por conquista, e, se devemos entender a
humanidade, temos de medir as ações do homem, em termos deste seu
ímpeto primordial, fundamental, ardente e dominante de conquistar outras
pessoas. Esta vontade de poder explica a violência, o derramamento de
sangue e as guerras que têm arruinado a história da civilização.
Evidentemente, sabemos que uma paixão por domínio é pecado. No
entanto, se examinamos o conceito bíblico a respeito do homem, vemos
que Deus colocou no homem uma aspiração por significado. Temos um
ímpeto e desejo interior por existência significativa; e isso é uma coisa boa.
Mas, se tomamos o que é bom e deixamos que seja distorcido, de modo
que nosso desejo por significado se torne dominante, ao ponto de
prejudicar os outros, ele passa dos limites. E, quando essa coisa boa passa
dos limites, é vista claramente como errada. Mas, antes de ela passar dos
limites – quando ainda está no âmbito das coisas neutras – ficamos
confusos.
A menos que estejamos bem equipados com as ferramentas da
revelação divina, como seremos capazes de discernir a fronteira tênue
entre a retidão e a impiedade? Sem sabermos o que a Palavra de Deus
afirma, haverá muitas questões incertas diante de nós. Entretanto, a Bíblia
não nos dá apenas um ou dois princípios, e sim muitos princípios. Por isso,
precisamos trabalhar para entender e aplicar o que a Bíblia diz sobre
questões éticas. Quanto mais princípios aprendermos, tanto melhor se
tornará nosso entendimento de ética.
Capítulo Quatro

A Distorção Legalista

O
s cristãos são tentados a serem vítimas de uma ou duas distorções
comuns, no que diz respeito à lei de Deus e à ética. Estes desastres,
que podem enredar o cristão que busca viver de maneira piedosa,
são legalismo e antinomianismo. Exploraremos o antinomianismo no capítulo
seguinte. Neste capítulo, consideraremos o legalismo.
Você já foi acusado de legalismo? Com frequência, essa palavra é
utilizada incorretamente na subcultura cristã. Por exemplo, alguém pode
chamar João de legalista, porque o vê como uma pessoa intolerante. Mas
o termo legalismo não se refere à intolerância. Na realidade, o legalismo se
manifesta de maneiras sutis.
Basicamente, legalismo envolve separar a lei de Deus de seu contexto
original. Algumas pessoas parecem estar preocupadas, na vida cristã, com
obedecer a regras e preceitos, imaginando o cristianismo como uma série
“faça e não faça” de princípios morais, insensíveis e perniciosos. Esta é
uma forma de legalismo – uma pessoa se preocupa apenas com guardar a
lei de Deus como um fim em si mesmo.
Ora, Deus realmente se interessa em que obedeçamos aos seus
mandamentos. No entanto, neste assunto, há outros fatos que não
ousamos esquecer. Deus outorgou leis, como os Dez Mandamentos, no
contexto da aliança. Primeiramente, ele foi gracioso. Redimiu seu povo da
escravidão no Egito e entrou num relacionamento amoroso e filial com
Israel. Somente depois de estabelecido o relacionamento baseado na graça,
Deus começou a definir as leis específicas que lhe são agradáveis. Tive um
professor na faculdade que disse: “A essência da teologia cristã é graça, e a
essência da ética cristã é gratidão”. O legalista isola a lei do Deus que deu
a lei. Não procura tanto obedecer a Deus e honrar a Cristo, quanto
procura obedecer a regras destituídas de qualquer relacionamento pessoal.
Não há amor, alegria, vida ou paixão. É uma forma mecânica e
automática de guardar a lei, que chamamos de externalismo. O legalismo
se focaliza apenas em obedecer a normas, destruindo o contexto mais
amplo de amor e redenção de Deus, no qual ele deu a sua lei.
Para entendermos o segundo tipo de legalismo, devemos lembrar que
o Novo Testamento faz distinção entre a letra da lei (sua forma exterior) e
o espírito da lei. A segunda forma de legalismo faz separação entre a letra
da lei e o espírito da lei. Obedece a letra, mas viola o espírito. Há apenas
uma distinção sutil entre esta forma de legalismo e a anterior.
Como alguém guarda a letra da lei, mas viola o seu espírito? Suponha
que um homem gosta de dirigir seu carro à velocidade mínima permitida,
apesar das condições sob as quais está dirigindo. Se ele está numa rodovia
federal, e a velocidade mínima exigida é 65 km/h, ele dirige a 65 km/h e
não menos. Ele faz isso, mesmo quando está chovendo torrencialmente,
quando dirigir na velocidade mínima exigida é perigoso e coloca outras
pessoas em risco, porque tiveram bom senso e diminuíram a velocidade
para 30 km/h, para não derraparem ou terem aquaplanagem na pista. O
homem que insiste numa velocidade de 65 km/h, mesmo sob estas
condições, está dirigindo seu carro para agradar apenas a si mesmo.
Embora ele pareça, aos olhos de observadores, alguém que é escrupuloso
em sua obediência civil, a sua obediência é apenas externa, pois ele não se
preocupa, de modo algum, com o que a lei realmente significa. Este
segundo tipo de legalismo obedece no exterior, enquanto o coração está
bem distante de qualquer desejo de honrar a Deus, do propósito de sua lei
ou de Cristo.
Este segundo tipo de legalismo pode ser ilustrado pelos fariseus, que
confrontaram Jesus, quanto a curar no dia de sábado (Mt 12.9-14).
Estavam preocupados apenas com a letra de lei e evitavam qualquer coisa
que parecesse trabalho para eles. Esses mestres ignoravam o espírito da lei,
que era dirigido contra o trabalho comum, que não é exigido para a
manutenção da vida, e não contra os esforços para curar os enfermos.
O terceiro tipo de legalismo acrescenta nossas próprias regras à lei de
Deus e as trata como divinas. É a forma de legalismo mais comum e mais
prejudicial. Jesus repreendeu os fariseus neste ponto, dizendo: “Vocês
ensinam tradições humanas como se fossem a Palavra de Deus”. Não
temos nenhum direito de amontoar restrições sobre as pessoas, em
questões nas quais o Senhor não faz qualquer restrição.
Toda igreja tem o direito de estabelecer suas próprias normas quanto
a certas áreas. Por exemplo, a Bíblia não diz nada sobre refrigerantes nas
festas de comunhão da igreja, mas a igreja tem o direito de regular este
assunto. Mas, quando usamos estas normas humanas para obrigar a
consciência de maneira absoluta, e as tornamos determinadoras da
salvação de alguém, nos aventuramos perigosamente em um território que
pertence apenas a Deus.
Muitas pessoas pensam que a essência do cristianismo é seguir as
regras corretas, até regras que não são bíblicas. Por exemplo, a Bíblia não
diz que não podemos jogar baralho ou tomar um copo de vinho no jantar.
Não podemos tornar estas questões o teste externo do cristianismo
autêntico. Isso seria uma violação letal do evangelho, porque substituiria o
fruto do Espírito pela tradição humana. Chegamos perigosamente próximo
de blasfêmia, quando apresentamos Cristo desta maneira tão errada. Onde
Deus dá liberdade, nunca devemos escravizar pessoas com regras criadas
por homens. Devemos ser cuidadosos para combater esta forma de
legalismo.
O evangelho chama os homens ao arrependimento, à santidade e à
piedade. Por causa disto, o mundo acha o evangelho ofensivo. Mas, ai de
nós, se fizermos acréscimos a essa ofensa, por distorcermos a natureza do
cristianismo ao combiná-lo com legalismo! Visto que o cristianismo se
preocupa com moralidade, retidão e ética, podemos nos mover facilmente
de um interesse fervoroso por moralidade piedosa para o legalismo, se não
formos cuidadosos. Isto é uma distorção tremenda. É uma distorção para
a direita e não para a esquerda, mas distorção existe em ambas as direções.
Muito próximo disto está a forma de legalismo que “valoriza as coisas
menores”, das quais os fariseus eram mestres. Jesus disse: “Ai de vós,
escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e
do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a
justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir
aquelas!” (Mt 23.23). Observe como Jesus os elogiou por obedecerem a
alguns aspectos da lei. Eles pagavam o dízimo. O último dado que vi,
relativo a este assunto, indicava que somente 4% dos membros de igreja
americanos dão o dízimo de sua renda. Nem mesmo obedecemos a Deus
nas coisas menores, mas pelo menos os fariseus davam seus dízimos. Não
roubavam a Deus. Contudo, obedecer a Deus apenas nas coisas menores
não é suficiente. Obediência nas coisas menores é o ponto de partida.
Por que tornamos simplista o teste de cristianismo autêntico, servindo-
nos de coisas externas como dançar e jogar baralho? Considere esta
pergunta: é mais fácil ser conhecido por honra, confiança, justiça e
misericórdia ou conformar-se a práticas exteriores? É mais fácil amar seus
inimigos ou não fumar, beber ou dançar? Em um sentido, estas últimas
são coisas menores. A Bíblia diz que o reino de Deus não é comida nem
bebida. Sim, é um pecado ser glutão ou ser bêbado, mas as questões com
as quais Deus nos chama a preocupar-nos zelosamente são muito mais
importantes. Devemos nos preocupar com justiça, integridade,
misericórdia e em ajudar um mundo que está em sofrimento. É muito
simples distorcer a ética bíblica pelo tipo de legalismo que valoriza as
coisas menores.
Um tipo final de legalismo é o que chamamos de “escapismo”. Os
fariseus eram mestres em interpretar a lei e criar escapes para a evitarem.
Por exemplo, a lei dizia que no sábado uma pessoa não podia andar mais
do que uma jornada de um sábado – uma distância de aproximadamente
1.000 metros. Legalmente, a residência de uma pessoa era o lugar onde
algumas de suas posses particulares estavam guardadas. Por isso, se os
fariseus quisessem fazer uma viagem mais longa num dia de sábado,
durante a semana eles utilizariam um mercador de caravanas para levar
algumas de suas escovas de dente e colocar debaixo de uma rocha a cada
mil metros, ao longo do caminho. Por colocarem uma de suas escovas de
dente debaixo da rocha, o fariseu estabelecia, tecnicamente, uma residência
legal ali. Dessa maneira, ele nunca andaria mais do que uma jornada de
um sábado a partir de sua residência. Essa viagem violava o preceito da
jornada do dia de sábado, porque contornava a lei com uma tecnicalidade.
Capítulo Cinco

A Distorção do Antinomianismo

N
o capítulo anterior, examinamos a primeira das duas distorções que
podem nos afastar de uma vida de piedade e retidão. Consideramos
os vários tipos de legalismo que distorcem a retidão autêntica. Neste
capítulo, veremos o erro oposto, ou seja, o problema do antinomianismo.
O que é antinomianismo? Anti é o prefixo grego que significa
“contra”, e nomian vem da palavra grega nomos, que significa “lei”.
Portanto, antinomianismo significa “ideologia contra a lei”. Quando
consideramos o problema do legalismo, você lembra que foi importante
entendermos que há diversas variações de legalismo. Não é bom que
tenhamos apenas um entendimento geral do legalismo. Precisamos ser
precisos em nossa mente e perceber as diferenças. Isso também é verdade
quanto ao antinomianismo. Há diferentes tipos de antinomianismo, e cada
tipo possui suas próprias variações sutis e dimensões atraentes.
O primeiro tipo de antinomianismo é chamado libertinismo. Visto que
nossa justificação é somente pela fé e não por obras da lei, um cristão
libertino pode pensar que está sob a graça e totalmente livre de ter que
obedecer aos mandamentos de Deus. O libertinismo se torna uma licença
para pecar, sendo, realmente, liberdade pervertida. O libertino pode ser
tentado a pensar que seu amor ao pecado e a disposição de Deus para
perdoar é uma grande combinação. Deus tem de fazer o que ama fazer, e
o pecado tem de fazer o que ama fazer. Uma pessoa que tem esta
inclinação deixa de lembrar o que Paulo escreveu, no livro de Romanos:
“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça
mais abundante?” (Rm 6.1). Ele respondeu essa pergunta retórica, dizendo:
“De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para
ele morremos?”. Infelizmente, esta é a filosofia do libertino. Ele vê sua
redenção da maldição como uma licença para pecar.
Considere também o que Pedro disse: “Porque assim é a vontade de
Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos
insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por
pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus” (1 Pe 2.15-16).
Parece quase contraditório que Pedro nos descreva como livres e, ao
mesmo tempo, servos de Deus. Mas é somente quando estamos em
servidão a Cristo que entendemos a verdadeira liberdade. Pedro adverte
contra aqueles que usam sua liberdade como licença para cometerem
pecado.
Um segundo tipo de antinomianismo é o que chamamos espiritualismo
gnóstico. Durante os séculos I e II, um dos mais perigosos rivais da fé cristã
foi o gnosticismo. Os gnósticos tiveram seu nome derivado da palavra
grega que significa conhecimento – gnosis. Eles acreditavam que tinham
acesso especial a formas de conhecimento que outros não tinham.
Pensavam que tinham autoridade para recomendar certas formas de
comportamento não-cristão, pois presumiam que possuíam um
conhecimento superior, que era secreto e esotérico.
No século XXI, não temos gnósticos comprometidos, na mesma
forma em que eram encontrados milênios atrás, mas a heresia gnóstica
ainda está bem viva. De fato, o espírito de ética gnóstica é epidêmico no
cristianismo evangélico. Mas, onde vemos evidência deste espírito
gnóstico?
Considere apenas quão frequentemente ouvimos pessoas dizerem: “O
Espírito me guiou a fazer isto ou aquilo”. Temos de ser muito cuidadosos
aqui. Deus, o Espírito Santo, realmente nos guia, mas o significado
primário do guiar do Espírito não é levar-nos a casar com esta ou aquela
pessoa, ou guiar-nos para chegarmos a esta ou aquela cidade. O lugar
primário ao qual o Espírito nos guia é santidade e obediência.
Infelizmente, muitos cristãos põem um disfarce de espiritual em volta de
suas decisões éticas, para silenciarem com eficácia as vozes de crítica,
antes mesmo que tais vozes sejam ouvidas.
Certamente, o Espírito nos guia a certas escolhas específicas da vida,
como um cônjuge, um novo emprego ou um novo lugar para morarmos.
Todavia, é muito fácil alguém se retirar de uma discussão sobre escolhas
que fazemos, apenas por dizer: “Deus está me chamando a fazer...”.
Quem quer argumentar contra a chamada de Deus? Isto pode se tornar,
facilmente, um pecaminoso escape de responsabilidade, no qual usamos
uma linguagem espiritual para livrar-nos a nós mesmos de prestar contas à
comunidade cristã. Há tempos em que outros devem exigir-nos que
apresentemos razões prudentes, a respeito do motivo por que queremos
fazer o que tencionamos fazer.
Mais importante ainda: o guiar do Espírito Santo não é
antinomianismo em si mesmo. Ser guiado pelo Espírito de Deus não
acontece contra a lei. Devemos seguir a direção do Espírito de Deus. O
que se torna devastador é fazermos coisas que violam claramente os
princípios e preceitos da Palavra de Deus e, depois, termos a audácia de
justificar nossas ações, dizendo que o Espírito Santo nos guiou a elas.
Conheço um homem cristão que se envolveu num problema moral que
foi uma violação direta da lei de Deus. Ele sabia disso, mas se envolveu
tanto no problema que, em sua defesa, disse que havia orado sobre a
questão e que Deus lhe concedera uma exceção. Esse homem estava
seguindo a si mesmo e, ao mesmo tempo, fazendo violência à Escritura
Sagrada.
Deus, o Espírito Santo, não nos guia à quebra de sua lei. Somos
chamados a provar os espíritos. Um espírito que procede de Deus
concorda com o testemunho do Espírito Santo, que nos deu as Escrituras.
Devemos ter cuidado com este tipo de espiritualismo, que confunde
nossos desejos com o guiar do Espírito. É uma forma disfarçada de
antinomianismo.
O terceiro tipo de antinomianismo, eu o chamo de situacionismo. Talvez
você já tenha ouvido a expressão ética situacional. Esta filosofia foi
desenvolvida por Joseph Fletcher. Ele procurou fazer do amor a norma
mais elevada sobre todas as outras. Tentando achar um meio termo entre
os dois perigos de legalismo e antinomianismo, Fletcher declarou que o
único absoluto era a lei absoluta do amor. Todas as outras leis, disse ele,
estão sujeitas à lei do amor e devem ser quebradas, se um curso de ação
melhor e mais amável for encontrado. Ele queria achar o melhor resultado
de determinada situação ao sustentar a lei do amor.
Pode até parecer nobre e bom, mas este ponto de vista tem
problemas. Nunca devemos dizer que as outras leis das Escrituras são
negociáveis e redutíveis a um ponto de vista mal formulado a respeito do
amor. Fletcher disse que devemos fazer o que parece certo em determinada
situação. Devemos fazer o que o amor exige que façamos. Mas a Bíblia
não diz o que o amor parece ser; em vez disso, ela define o que é o amor.
Permita-me ilustrar. Paulo escreveu aos efésios: “Sede, pois,
imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também
Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e
sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.1-2). Agora, considere o
versículo seguinte: “Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça
nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos” (Ef 5.3). O
apóstolo disse que devemos andar em amor, mas o que significa isso?
Significa que você nunca deve se envolver em imoralidade sexual. Ele
acrescentou uma proibição contra a imoralidade sexual como uma
proibição universal. Isso define o que o amor exige, mas, de Fletcher,
obtemos apenas metade disso. Se seguirmos o raciocínio de Fletcher,
seremos levados ao mais antigo argumento que os homens têm usado para
seduzir mulheres: “Se você me ama, se entregará”. Devemos saber que, se
o amor não é instruído e o seu conteúdo é dado apenas pelo que parece
correto para mim, de acordo com minha preferência pessoal e subjetiva, a
situação se torna a norma suprema e não a Palavra de Deus. Entretanto,
Deus nos diz o que o amor exige verdadeiramente.
Ética situacional é claramente antinomiana. Por seu próprio
testemunho, ela reduz a lei de Deus a uma única lei e diz que o amor é a
soma de toda a lei. Até Agostinho fez a afirmação “ame a Deus e faça
como lhe agrada”. Mas, quando Agostinho explicou o que pretendia dizer
nesta afirmação, esclareceu que, se você ama a Deus, se agradará com o
que agrada a ele. Como você sabe o que agrada a Deus, senão pelo estudo
diligente da lei de Deus? Jesus disse: “Se me amais, guardareis os meus
mandamentos” (Jo 14.15). Os mandamentos procedem do amor, e o
cristão que é dominado pela lei do amor é um cristão que reconhece a
autoridade normativa dos mandamentos de Jesus. Essa é a minha questão
com a nova moralidade. Quem é Senhor? Quem tem direito de impor-nos
obrigações? Deus tem esse direito. Deus pode fazer isso. E o tem feito.
Capítulo Seis

Os Graus de Pecado

A
ntes de terminar este livro sobre como desenvolver uma consciência
cristã, precisamos abordar uma questão prática e importante: há
graus de pecado e de retidão? Parece haver um grande mal-entendido
sobre a ética bíblica na cultura secular. Não muito tempo atrás, li um
ensaio interessante escrito por um psiquiatra renomado, que estava
angustiado com o cristianismo. Ele expressou a preocupação de que, no
exercício de sua profissão, lidava todos os dias com pessoas que eram
neuróticas e, às vezes, psicóticas, como resultado de sua incapacidade de
lidar com a culpa. Abrindo um parêntese: você já parou para pensar
quantos problemas na psiquiatria se relacionam com a questão da culpa?
Há um sentido em que um médico tem de se preocupar com a ética, a
relação entre o certo e o errado, e o poderoso impacto da culpa na
personalidade humana.
Este psiquiatra específico escreveu uma crítica sobre a ética dos
ensinos de Jesus. Geralmente, aqueles que são hostis a Jesus, à igreja e ao
cristianismo têm boas palavras a respeito de Jesus, como um mestre da
ética. Eles não creem que Jesus é divino ou que ele seja o Salvador do
mundo, mas admitem que Jesus é o maior mestre de ética que já existiu.
Mas este psiquiatra não. Ele foi ousado e deixou claro que Jesus não era
um grande mestre de ética.
O psiquiatra dirigiu seus leitores ao Sermão do Monte, afirmando que
este era o clímax do ensino ético de Jesus. O médico questionou por que
deveria levar a sério o ensino de Jesus. Por que, ele perguntou, Jesus é um
grande mestre moral, se disse que cobiçar uma mulher é tão mau quanto
cometer adultério, e que odiar alguém é tão mau quanto matá-lo? O
psiquiatra disse que tal ética era tolice. Ele questionou como uma pessoa
verdadeiramente sábia podia classificar como iguais essas diferentes ações.
Cobiçar pode ser algo mau, porém as consequências são realmente
diferentes de cometer adultério. O mesmo é verdadeiro quanto à ira e ao
assassinato. O psiquiatra ficou perplexo quanto à razão por que as pessoas
exaltavam Jesus como um grande mestre de ética.
Em um ponto, compartilho da consternação desse psiquiatra. Se Jesus
de Nazaré ensinou que adultério não é pior do que cobiça, e que
assassinato não é pior do que ódio, eu ficaria tão admirado quanto o
psiquiatra, de que alguém reverenciasse os ensinos éticos de Jesus.
Entretanto, o fato é que Jesus nunca ensinou que cometer adultério é tão
mau quanto cobiçar ou que assassinar é tão mau quanto ficar irado.
Por que alguém chega à conclusão de que não há distinções? Acho
que isso resulta de um simples mal-entendido do Sermão do Monte. Neste
sermão, Jesus estava lidando com os fariseus e seus ensinos. Ele disse:
“Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás; e: quem matar estará
sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem
motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem
proferir um insulto ao seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e
quem lhe chamar: tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.21-23).
Jesus também disse: “ouvistes que foi dito: não adulterarás. Eu, porém,
vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no
coração, já adulterou com ela” (Mt 5.27-28). Jesus nunca disse, realmente,
que odiar é tão mau quanto assassinar. Além disso, não podemos inferir
isso, legitimamente, de seus ensinos. Então, qual foi o ensino de Jesus?
Imagine um continuum. À esquerda, você teria o ato mais detestável,
que seria o ato físico de adultério. À direita, você teria a retidão da
verdadeira castidade. Há muitos comportamentos que se enquadram entre
os polos opostos. Um homem pode beijar uma mulher que não é sua
esposa. Isso não é adultério. Não é relação sexual. O relacionamento pode
progredir em estágios de envolvimento sexual cada vez mais profundo. O
relacionamento pode começar como algo inocente, como uma amizade
saudável, mas a amizade pode progredir em estágios, na direção de um
relacionamento ilícito e ilegítimo que culmina no ato físico de adultério. Há
passos ao longo do caminho entre a retidão e o ato abominável de
intercurso adúltero. A cobiça é geralmente um desses passos. Quando a
cobiça nasce na mente, esse é o primeiro passo em direção a avançar no
sentido de realizar a fantasia que termina em adultério. O ensino de Jesus
é que a lei dada por Deus – não é guardada totalmente, se alguém apenas
se refreia do ato físico de adultério. Quando Deus proíbe o adultério, a
plena medida da proibição incorpora, em si mesma, todos os diversos
elementos desse pecado, não somente o ato real, mas toda as coisas que
fazem parte dele. Se você cobiça, disse Jesus, não cumpre toda a medida
da lei. Este é o ensino vital que devemos entender, porque, do contrário, a
ética bíblica não faria sentido.
Historicamente, tanto o catolicismo romano quanto o protestantismo
têm entendido que há graus de pecado. A Igreja Católica Romana faz uma
distinção entre pecado venial e pecado mortal. O argumento da distinção é
que há alguns pecados tão grosseiros, detestáveis e sérios que a prática
factual desses pecados é mortal, no sentido de que mata a graça da
justificação que reside na alma daquele que crê. Na teologia católica, nem
todo pecado é devastador nesse grau. Há alguns pecados que são veniais.
São menos sérios em termos de suas consequências, mas não têm a
capacidade de matar a justiça que o pecado mortal tem.
Muitos evangélicos protestantes rejeitam a ideia de graus de pecado,
porque sabem que a Reforma Protestante rejeitou a distinção católica
romana entre pecados mortais e veniais. Como resultado, assumiram a
conclusão de que, no protestantismo, não há distinções entre pecados.
Devemos retornar às opiniões dos próprios reformadores. João
Calvino foi um crítico sincero da Igreja Católica Romana e de sua
distinção entre pecado mortal e venial. Ele disse que todo pecado é mortal,
no sentido de que merece a morte. O livro de Tiago nos lembra: “pois
qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna
culpado de todos” (Tg 2.10). Até o menor pecado é um ato de traição
severa. Deixamos de sentir a seriedade do nosso pecado neste grau, mas
ele é verdadeiro.
Quando eu peco, escolho a minha vontade em detrimento da vontade
de Deus, Todo-Poderoso. Por implicação, estou dizendo, essencialmente,
que sou mais inteligente, mais sábio, mais justo e mais poderoso do que
Deus mesmo. Calvino disse que todo pecado é mortal, no sentido de que
Deus poderia destruir, justificavelmente, cada um de nós pelo menor
pecado que cometêssemos. De fato, a penalidade do pecado foi dada no
primeiro dia da criação do homem: “mas da árvore do conhecimento do
bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres,
certamente morrerás” (Gn 2.17). Todavia, Deus não lida conosco sempre
de acordo com sua justiça. Ele lida conosco de acordo com sua graça.
Permite que vivamos e age para realizar a nossa redenção. Calvino disse
que todos os pecados são mortais, porque merecemos a morte por causa
deles, mas que nenhum pecado é mortal, no sentido de que possa destruir
nossa graça salvadora. Temos de nos arrepender, sim, mas a graça
justificadora, que o Espírito Santo nos outorga, não é morta por nosso
pecado. Calvino e todos os reformadores sustentaram vigorosamente que
há uma diferença entre pecados menores e o que chamavam de pecados
grosseiros ou detestáveis.
É importante que os cristãos entendam esta distinção, para que
aprendam a viver em amor uns com os outros. O pecado de intolerância
para com as faltas pequenas, pelo qual pessoas começam a se fixar
demoradamente em transgressões menores na comunidade, pode dividir o
corpo de Cristo. Grande dano surge, quando esse pecado é alimentado
pelo fogo de calúnias e fofocas. Todos somos chamados à paciência e à
tolerância para com as falhas de outros cristãos. Isso não quer dizer que
somos chamados a ser levianos com o pecado, pois há certos pecados
mencionados no Novo Testamento que são sérios, e não devem ser
permitidos na igreja. Adultério é um pecado sério. Incesto exige a disciplina
da igreja. Bebedice, assassinato e fornicação são mencionados repetidas
vezes. Esses pecados são tão destrutivos que exigem a disciplina da igreja
quando são manifestos.
É claro que temos diferentes graus de pecado, quando consideramos
as advertências das Escrituras. No Novo Testamento há pelo menos 22
referências a graus de recompensas que são dadas aos santos no céu. Há
níveis diferentes, recompensas diferentes e papeis diferentes no céu. A
Bíblia nos adverte contra acrescentarmos severidade ao nosso julgamento.
Jesus disse a Pôncio Pilatos: “quem me entregou a ti maior pecado tem”
(Jo 19.11). Jesus mede e avalia a culpa, e, com maior culpa e maior
responsabilidade, vem maior julgamento. Esse é um tema que permeia o
Novo Testamento.
A ideia de gradação de pecado e recompensa está baseada na justiça
de Deus. Se eu cometo duas vezes mais pecados que outra pessoa, a
justiça exige que a punição seja adequada ao crime. Se tenho sido duas
vezes mais virtuoso do que outra pessoa, a justiça exige que eu receba
mais recompensa. Deus nos diz que a entrada no céu acontecerá somente
com base nos méritos de Cristo, mas, quando chegarmos ao céu, as
recompensas serão dadas de acordo com as obras. Aqueles que tiverem
sido abundantes em boas obras receberão uma recompensa abundante.
Aqueles que tiverem sido remissos e negligentes em boas obras terão uma
recompensa menor no céu. Pela mesma indicação, aqueles que tiverem
sido inimigos ultrajantes de Deus sofrerão tormentos severos no inferno.
Aqueles que tiverem sido menos hostis, terão menor punição das mãos de
Deus. Ele é perfeitamente justo e, quando julgar, levará em conta todas as
circunstâncias atenuantes. Jesus disse: “digo-vos que de toda palavra
frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt
12.36).
Por que é importante enfatizarmos este ponto? Tenho falado muitas
vezes para homens que lutam com cobiça, e dizem para si mesmos ou
para mim: “Posso muito bem seguir em frente e cometer adultério, porque
já sou culpado de cobiça. Não posso estar numa situação pior aos olhos de
Deus. Por isso, é melhor terminar a obra”. Eu respondo: “Oh! Sim, você
poderá ficar em situação muito pior”. O julgamento do adultério factual
será muito mais severo do que o julgamento da cobiça. Deus lidará
conosco neste nível. É tolice uma pessoa que cometeu um erro menor
dizer, por essa razão: “Já sou culpado; posso muito bem fazer o pior”.
Deus não permita que pensemos assim. Se pensarmos, enfrentaremos o
justo juízo de Deus. Devemos guardar isso em mente, quando procuramos
desenvolver uma consciência e um caráter cristãos.
Sobre o Autor

O Dr. R. C. Sproul é o fundador e presidente do Ligonier Ministries,


um ministério multimídia internacional, sediado em Sanford (Flórida). Ele
também serve como pastor principal de pregação e ensino na igreja Saint
Andrew, uma igreja reformada em Sanford, e como presidente do
Reformation Bible College. Seus ensinos podem ser ouvidos diariamente,
no programa de rádio Renewing Your Mind.
Durante a sua distinta carreira acadêmica, o Dr. Sproul tem ajudado a
treinar homens para o ministério como professor em vários seminários
teológicos.
Ele é o autor de mais de 80 livros, incluindo The Holiness of God, Chosen
by God, The Invisible Hand, Faith Alone, A Taste of Heaven, Truths We Confess,
A Verdade da Cruz (Fiel, 2011) e The Prayer of the Lord. Também serviu
como editor geral da The Reformation Study Bible e já escreveu vários livros
para crianças, incluindo The Prince’s Poison Cup.
O Dr. Sproul e sua esposa, Vesta, residem em Longwood (Flórida).
A Editora Fiel tem como propósito servir a Deus através do serviço ao povo de
Deus, a Igreja.
Em nosso site, na internet, disponibilizamos centenas de recursos gratuitos, como
vídeos de pregações e conferências, artigos, e-books, livros em áudio, blog e muito
mais.
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