Você está na página 1de 5

A ÁRVORE COMO SÍMBOLO E A DIMENSÃO VERTICAL DA EXISTÊNCIA

Por Angelita Corrêa Scardua*

O exercício humano de apreensão e compreensão da própria existência, e


do universo, sempre dispôs de inúmeras formas de interpretação
da realidade. Na maioria das vezes essas diferentes formas de
representação utilizam-se de imagens que visam representar as
experiências vividas pelos indivíduos e pelos grupos. No passado, assim
como hoje, esse exercício constitui a origem do conhecimento abstrato
humano, ou seja a idéia de que a experiência vivida pode ser de alguma
forma perenizada por meio de um símbolo que expresse o seu valor. Os
ritos e rituais que caracterizam o caminho iniciático é em grande parte
resultado dessa tentativa humana de transmitir a experiência vivida aos
seus descendentes, utilizando-se para isso de símbolos capazes de
expressar os ciclos da vida e a conexão com a o processo de criação
através de sua representação.

A vida, a morte, a matéria, o espírito/alma, o começo, o fim, e todas as


faces da criação são percebidas pela humanidade no ciclo ininterrupto da
vida natural. A tentativa de compreender esse ciclo pode ser feita de
muitas formas, através da Religião, da Ciência, da Arte, da filosofia…
enfim, toda a criação humana pode ser vista como uma tentativa de
compreender a própria existência.

O caminho iniciático não é uma particularidade do universo


místico/religioso, mas é uma configuração presente em todo processo
humano de desenvolvimento pessoal. É por essa razão que o uso de
determinadas imagens simbólicas será recorrente nas mais diversas
culturas. Essa “coincidência” nos fala de que o recurso simbólico
exemplifica a busca de satisfação de necessidades humanas essenciais,
inerentes a todos de nossa espécie, necessidades estas que expressam a
busca pela (re)ligação do sujeito com sua origem e sua essência
primordial, ou seja, é como se de alguma forma, todos nós
inconscientemente buscássemos o vínculo de nossa existência com algo
que transcenda nossa vida ordinária e do dia-a-dia, algo que nos conecte
para sempre com a dinâmica do universo e nos aproxime da imortalidade,
que é representada pelas figuras divinas.

Tanto as experiências de nossa vida cotidiana quanto as figuras que


transcendem essas experiências são representadas em linguagem
simbólica, seja por meio de parábolas e/ou metáforas. Existem símbolos
que são universalmente aceitos e podem ser encontrados nas mais
diversas culturas, alguns associam-se ao nosso desejo de transcender,
como as Montanhas; outros expressam nossa luta cotidiana no plano da
existência material, como a Espada; outros traduzem a nossa
interdependência do mundo físico, como a caverna; e há aqueles que
visam simbolizar a interação dinâmica entre esses vários níveis da
experiência, a Árvore é o principal deles.

A Árvore como um símbolo sagrado é encontrada em várias culturas


humanas e nas mais diversas épocas de nossa história. A Árvore
representa a estrutura do universo, sendo que seus galhos simbolizam a
conexão com as dimensões superiores da existência, ao passo que a raiz
evoca a nossa vinculação com os aspectos mais primitivos e funcionais de
nossas vidas. Da mesma forma, as múltiplas dimensões da Árvore e seus
frutos representam os atributos positivos do eterno. A Árvore Sagrada faz
parte da tradição de povos tão distintos quanto Maias, Escandinavos,
Chineses, Maoris, Africanos e Hebreus.

Em nossa maneira de tentar explicar a nossa própria existência em suas


diferentes dimensões, conferimos às experiências vividas valores
distintos, em função basicamente das sensações e sentimentos
desencadeados por cada um dos eventos que experienciamos. Um dos
recursos simbólicos que utilizamos para eternizar uma experiência e dar-
lhe significado é a metáfora espacial. A metáfora espacial implica na
distribuição dos eventos no espaço geográfico de forma que sua função
esteja associada a um determinado local/região do nosso campo de
percepção/ação. Por exemplo, a Mandala, sua forma circular confere uma
ênfase especial ao centro que representa o ponto de origem, e que por
conseguinte encerra a idéia de união, assim como de equilíbrio, já que
todo o movimento circular gira em torno desse ponto, que se torna tanto
o distribuidor quanto o catalisador do movimento. Encontraremos essa
metáfora espacial da Mandala/Círculo em lugares tão diversos quanto “O
Esquema Cabalístico da Criação”(Herne, 10/02/02) quanto nas Danças
Circulares Sagradas.

A Metáfora Espacial revela a força que as dimensões espaciais possuem


em nossa interpretação do mundo, assim como pode nos ajudar a
entender suas conotações arquetípicas. Os conceitos de “acima” e
“abaixo”, por exemplo, possuem numerosas associações conotativas que
tem um caráter universal. Em culturas de línguas diferentes, a idéia de
sentir-se bem é associada a dimensão espacial do alto, do movimento
crescente: “pra cima”, “10/1000”, “no topo”. Por outro lado, quando nos
sentimos tristes, derrotados, apáticos usamos expressões que remetem a
dimensão espacial do baixo, do movimento decrescente: “no fundo do
poço”, “no limbo”, “na sarjeta”, etc. Da mesma forma, acreditamos que
podemos “superar dificuldades”, que nosso padrão de vida está “caindo”
ou “subindo”, que nossas chances “foram pelo ralo” ou que atingimos “o
topo”.

Na Mitologia, nos Contos de fadas, nas Religiões, assim como nas


expressões do dia-a-dia, encontraremos imagens que reportam ao espaço
geográfico do alto como sendo símbolo de ascensão física e/u espiritual,
em paralelo, os lugares subterrâneos como cavernas, poços e minas
estarão associados a idéias tristes como morte, queda e todo tipo de
perda. Os Deuses que habitam os lugares altos costumam apresentar
características menos humanas como inveja, luxúria, cobiça, etc., que os
Deuses que habitam as profundezas da terra. Mesmo quando
características muito humanas são encontradas em Deuses do alto, isso é
colocado de forma lúdica, jocosa, ao passo que nos Deuses dos
subterrâneos essas características são mostradas de forma destrutiva e
agressiva. Também é nos subterrâneos que habitam criaturas
monstruosas e primitivas como ogros e dragões, e todo a sorte de seres
rastejantes,venenosos e mortais, ao passo que grande parte dos seres
míticos/mitológicos tidos como superiores apresentam alguma
habilidade de vôo, que muitas vezes pode ou não ser representada por
asas, ou qualquer outro tipo de deslocamento que independa do contato
com o solo.

Dessa forma, objetos e estruturas verticais geralmente simbolizam níveis


superiores e/ou inferiores da experiência, a existência e do ser, e a Árvore
Sagrada é um dos símbolos humanos que apresenta essa estrutura. A
imagem do Buda Sakiamuni recebendo sua iluminação, após 49 dias de
meditação profunda, sentado sob a árvore Bodhi, normalmente
representada como uma figueira da índia (na verdade, um trabalho
profundo de iluminação dos 49 níveis de sua mente pela energia sagrada
da kundalini, simbolizada pela Árvore do Bem e do Mal), é um forte
exemplo do caráter simbólico da Árvore como expressão dos mundos
superiores e inferiores. Um outro bom exemplo disso é Yggdrasil, a
árvore mítica escandinava representada por um gigantesco Freixo
situado no cimo de uma montanha, cujos galhos mais altos atingem o
Valhalla, a morada dos deuses, e suas raízes (as forças primárias)
estendem-se até duas fontes: a da primavera e a da sabedoria, guardadas
pelo lobo Fenris (a Lei) e pelo gigante de gelo Mimir (as forças instintivas
da natureza).

Assim como podemos também ver na Árvore da Vida dos Cabalistas, cujas
raízes estão em Malkut, ou reino e o topo em Kether ou a Coroa, a árvore
como símbolo arquetípico indica uma conexão entre os mundos
superiores e inferiores. Tal conexão se torna possível por meio de uma
terceira estrutura da árvore, o seu tronco. É através do tronco que
podemos ascender da raiz à copa, do mundo material ao mundo
espiritual. No corpo humano, o simbolismo vertical de conexão entre os
mundos aparece na coluna vertebral, que representaria a idéia de
progresso moral e espiritual, servindo de conexão entre as funções
inferiores (sexualidade, atividades de liberação de toxinas) e superiores
(conhecimento, iluminação espiritual). Dessa forma, assim como o tronco,
a coluna vertebral torna-se um símbolo de transcendência ou
transformação.

A necessidade do tronco para se atingir a copa da árvore, fala-nos de algo


muito próprio do caminho iniciático, que é a idéia de que o processo de
iluminação não implica na eliminação de nossa porção animal, física,
material, mas na integração desta ao movimento dinâmico da existência,
de forma que isso nos permita usar essa energia telúrica, terrena, para
nosso próprio crescimento. Em verdade, essa é a proposta de formas de
conhecimento como a Yoga e a Dança do Ventre, por exemplo.

Na Yoga, entende-se ser necessário o despertar da energia Kundalini,


localizada na base da coluna vertebral e representada por uma serpente.
Essa energia associa-se fundamentalmente as forças da terra, as
necessidades básicas de sobrevivência como comer e reproduzir e aos
sentimentos de manutenção das condições necessárias para isso, sua
força de ação fundamenta-se no contato do corpo com o solo através de
pernas e pés. O despertar da Kundalini, tem por finalidade a condução
dessa energia coluna acima, a fim de que ao subir pela coluna ela desperte
vários centros espirituais (Chacras), até atingir o mais alto deles, o “Lótus
de mil pétalas”, localizado no topo da cabeça, e assim, promover a
conexão entre os dois níveis da existência.

Na Dança do Ventre o processo é similar, inicia-se o aprendizado por


meio do trabalho de conscientização corporal através de exercícios de
pés, pernas e quadril que representam a ligação da mulher com a terra,
isso vai promovendo o desbloqueio dos movimentos da região do ventre
e membros inferiores, e favorecendo a circulação da energia corporal. Há
a inclusão progressiva de movimentos dos membros superiores, e por fim
o trabalho de coordenação entre os dois níveis corporais, levando por fim
aos estágios mais avançados da Dança que são caracterizados pela
harmonização entre os membros inferiores e superiores do corpo feitas
sob o pulsar rítmico da musica. Esse envolvimento integral do corpo e
mente da Dançarina com a musica pode ser expresso na dança de transe
ritual conhecida como Zaar, e em outras formas de compreensão do
aspecto iniciático e mítico dos símbolos e movimentos utilizados na
Dança.

Esses breves exemplos servem como ilustração da função simbólica da


Árvore como veículo de conexão do ser humano com os diversos níveis da
existência. De certa forma… “o ser humano é o ponto de encontro entre o
Céu e a Terra, é uma imagem da criação, e por essa razão pode ser
entendido como uma árvore em miniatura completa mas irrealizada, e
situada em um grau inferior ao dos anjos, o homem tem a escolha de
elevar-se galgando os próprios ramos, até atingir o derradeiro fruto”
(Z’ev ben Shimon Halevi, 1991). Nesse sentido a coluna vertebral, como
símbolo correspondente ao tronco da Árvore Sagrada, nos torna um
símbolo vivo da dinâmica universal e nosso próprio veículo de ascensão
aos níveis superiores da existência.

A partir dessa concepção talvez seja mais fácil compreender o fascínio


infantil por “trepar” em árvores, esse exercício único que nos permite
atingir a copa, os galhos mais altos por nossos próprios méritos, e de lá
descortinar o mundo, ou colher o fruto do nosso esforço, compartilhando
o espaço com os passarinhos – os seres de asas, aqueles que atingem as
alturas – conhecer o inacessível e tornar-se uno com ele.

*Angelita Viana Corrêa Scárdua é Psicóloga Clínica; Mestre em


Psicologia Social pela USP (SP); Especialista em Abordagem
Junguiana; em Neurociências e Comportamento e Professora
Universitária.