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O conceito de Cultura segundo

Félix Guattari

Por: Taiguara Moura

O autodidata, filósofo, psicanalista e militante francês Felix Guattari em meados


de 1982, fora convidado pela Professora e psicanalista brasileira Suely Rolnik
para um passeio pelas terras tupiniquins a fim de vivenciar a efervescência da
realidade social brasileira, que naquela ocasião passava por um período de
abertura em relação ao governo militar que se regulava no poder desde 1964,
Guattari concedeu e participou de diversas entrevistas, seminários, rodas de
conversas e afins. Essa visita mais tarde tornou-se um material ao qual Rolnik
passou em torno de três anos editando e que mais tarde, em 1986 se tornaria
um livro, batizado por: “Micropolítica, cartografias do desejo”. Na contracapa da
primeira tiragem, lançada pela editora vozes, temos uma espécie de resumo
filosófico sobre do que se trata o conteúdo desse livro, tão desconhecido por
intelectuais brasileiros, mas tão importante para se pensar em uma outra
perspectiva de pensamento, principalmente em relação ao modo como estamos
acostumados a tratar dicotomicamente as expressões direita e esquerda, cultura
e contracultura dentro de nosso país, segue-se um fragmento do trecho
referenciado:

Antes de ser uma obra de filosofia, de psicanalise e de política, este


livro é uma espécie de diário de bordo. Suely o escreveu depois de um
vigem que el e eu fizemos pelo Brasil, ao encontro dos indivíduos,
grupos e também das intensidades e dos desejos que vinham a nós
[...] (Guattari e Rolnik, 1996).

Me proponho portanto, a analisar alguns trechos do primeiro capítulo dessa obra,


intitulado “Cultura: um conceito reacionário?”, onde vemos Guattari dissecar o
conceito contemporâneo de cultura e a pensar em processos de singularização,
ou seja, propõe-se um novo pensamento sobre subjetividade, produção
cultural/intelectual e como o Capitalismo Mundial Integrado (CMI)1 age a fim de

1"Capitalismo mundial integrado" (CMI) é o nome que, já no final dos anos 1970, Félix Guattari propôs
para designar o capitalismo contemporâneo como alternativa à "globalização", termo por demais
genérico e que vela o sentido fundamentalmente econômico, e mais precisamente capitalista e
controlar os modos de subjetivação, ou seja, uma “cultura de equivalência”, que
explicada pelo autor seria como:

[...] Enquanto conceito de equivalência: o capital ocupa-se da sujeição


econômica, e a cultura, da sujeição subjetiva [...] a própria essência do
lucro capitalista que não se reduz ao campo da mais-valia econômica:
ela está também na tomada de poder da subjetividade (Guattari e
Rolnik, 1996, pg. 16).

Logo, na primeira frase do capitulo, Guattari expressa enfaticamente que o


conceito de cultura é reacionário pois é “uma maneira de separar atividades
semióticas (atividades de orientação no mundo social e cósmico) em esferas, às
quais os homens são remetidos” (Guattari e Rolnik, 1996, pg. 15), ou seja, as
atividades humanas segundo o autor estão sendo isoladas, padronizadas e
capitalizadas para servirem ao modo de semiotização dominante, cortando-as
de suas realidades políticas, inserindo portanto o conceito de cultura dentro do
modo de produção capitalístico2, que basicamente seria como o CMI opera no
âmbito do controle da subjetivação.
Em seguida o autor designa uma explicação mais detalhada acerca de sua
hipótese, através de um trecho do capítulo do livro que seria parte de uma
transcrição de uma mesa-redonda promovida pelo jornal Folha de São Paulo ao
qual Guattari participou em 3 de setembro de 1982 junto de outros pensadores
como Laymert G. dos Santos, José Miguel Wisnik, Modesto Carone e Arlindo
Machado. O tema abordado foi justamente o da “produção de subjetividade
capitalística”, tema esse que Guattari sugere como elemento chave para
entendermos o que conhecemos atualmente como cultura de massa.
Por produção de subjetividade entende-se que seria um sistema de valores,
sistemas de submissão, sistemas hierárquicos articulados uns aos outros
dissimuladamente aos quais os indivíduos que são produzidos pela cultura de
massa estão inseridos. Não somente dentro de uma produção de subjetividade
individuada (subjetividade dos indivíduos), mas em um processo de produção de
subjetividade social, a níveis de produção e consumo. Essa grande maquina
capitalística seria responsável por produzir aquilo que os indivíduos sonham,

neoliberal do fenômeno da mundialização em sua atualidade. Nas palavras de Guattari: "O capitalismo
é mundial e integrado porque potencialmente colonizou o conjunto do planeta, porque atualmente vive
em simbiose com países que historicamente pareciam ter escapado dele (os países do bloco
soviético, a China) e porque tende a fazer com que nenhuma atividade humana, nenhum setor de
produção fique de fora de seu controle". GUATTARI, Félix. "O Capitalismo Mundial Integrado e a
Revolução Molecular". In ROLNIK, Suely (org.). Revolução Molecular. Pulsações políticas do desejo.
Brasiliense, São Paulo, 1981.
2
Guattari acrescenta o sufixo "ístico" a "capitalista" por lhe parecer necessário criar um termo
que possa designar não apenas as sociedades qualificadas como capitalistas, mas também
setores do "Terceiro Mundo" ou do capitalismo "periférico", assim como as economias ditas
socialistas dos países do leste, que vivem numa espécie de dependência e contra dependência
do capitalismo. Tais sociedades, segundo Guattari, em nada se diferenciariam do ponto de vista
do modo de produção da subjetividade. Elas funcionariam segundo uma mesma cartografia do
desejo no campo social, uma mesma economia libidinal-política.
devaneiam, fantasiam, se apaixonam e etc. garantindo pretensiosamente uma
função hegemônica em todos esses campos do pensamento subjetivo (Guattari
e Rolnik, 1996).
Como uma forma de se opor a essa máquina capitalística de produção de
subjetividade os autores propõem um outro conceito, chamado de “processos de
singularização”, uma espécie de recusa a esses modos de encodificação
preestabelecidos, recusa aos modos de manipulação e de telecomando, para
então construir novos modos de sensibilidade, modos de se relacionar com o
outro, novos modos de produção de desejo, de criatividade que produzam uma
subjetividade singular (Guattari e Rolnik, 1996).

Uma singularização existencial que coincida com um desejo, com um


gosto de viver; com uma vontade de construir o mundo no qual nos
encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar as tipos
de sociedade, os tipos de valores que não são os nossos (Guattari e
Rolnik, 1996, pg. 17).

Pra então se pensar a realidade dos processos que foram colocados em questão
se faz necessário o entendimento do sentido da palavra cultura ao decorrer da
História, (Guattari e Rolnik, 1996) então dividem a cultura em três sentidos,
sendo o “sentido A” denominado “cultura-valor”, que corresponde a um
julgamento de valor que determina quem tem cultura, e quem não tem cultura,
ou ao pertencimento a meios cultos ou se pertence a meios incultos. O segundo
sentido designado como “sentido B” é o do sentido da “cultura-alma coletiva”,
como um sinônimo de civilização, desta vez não há mais a questão do ter ou não
ter, todos tem cultura, uma noção democrática, ligada então a questão da
identidade cultural, como os autores salientam seria uma espécie de cultura “a
priori”, fala-se portanto de cultura negra, cultura underground, cultura técnica e
etc. Essa noção de “alma” traz consigo diversas ambiguidades os longo da
História, pois o seu conteúdo semântico foi usado desde a noção de volk (povo)
dentro do partido hitleriano, quanto em movimentos de emancipação que querem
se reapropriar de sua cultura e de seu fundo cultural. O terceiro sentido ou
“sentido C” já é correspondente a cultura de massas, e os autores denominaram
“cultura-mercadoria”, nesse âmbito não há o julgamento de valores, nem
territórios coletivos da cultura como nos sentidos A e B. Nesse aspecto de
cultura-mercadoria a cultura então seria todos os bens:

Todos as equipamentos (casas de cultura, etc.), todas as pessoas


(especialistas que trabalham nesse tipo de equipamento), todas as
referências teóricas e ideológicas relativas a esse funcionamento,
enfim, tudo que contribui para a produção de objetos semióticos (livros,
filmes, etc.) difundidos num mercado determinado de circulação
monetária ou estatal. Difunde-se cultura exatamente como Coca-Cola,
cigarros "de quem sabe o que quer", carros ou qualquer coisa. (Guattari
e Rolnik, 1996, pg. 17).
Para Guattari e Rolnik (1996), com a ascensão da burguesia o que passa a
prevalecer na noção de cultura é uma qualidade determinada pelo trabalho, as
elites burguesas passam a legitimar seu poder baseado em um certo tipo de
trabalho no campo do saber, no campo das artes e ciência. Essa noção de
cultura-valor pode ter diversas acepções, pode-se entende-la como uma
“categoria geral de valor cultural [...] mas também se pode usá-la para designar
diferentes níveis culturais em sistemas vetoriais de valor” (Guattari e Rolnik,
1996, pg. 16), como por exemplo o que se entende por cultura clássica, cultura
cientifica, cultura artística.

A definição B de cultura, a da cultura-alma, foi elaborada no século XIX, com o


desenvolvimento da antropologia, em especial da antropologia cultural. Essa
noção em seu primórdio tem características de uma noção segregativa e racista,
porém, com a evolução das ciências antropológicas e com o desenvolvimento
do estruturalismo e o culturalismo há uma tentativa por parte de alguns teóricos
de se livrar desse etnocentrismo sistemático. Contudo, segundo Guattari e
Rolnik (1996), essa noção em suma se tornou uma espécie de policentrismo
cultural, uma espécie de multiplicação do etnocentrismo pois evocam uma
“personalidade cultural de base”, um “pattern cultural”3. No sentido B, em cada
alma coletiva (os povos, as etnias, os grupos sociais) será então atribuída uma
cultura. Isso se faz necessário pois ao separar a cultura em esferas em diferentes
dimensões como a música, a dança, o rito, a mitologia e etc., essas produções
poderão então serem expostas em museus, vendidas no mercado da arte e ou
para inseri-las dentro de teorias antropológicas cientificas em circulação. Porém,
para Guattari e Rolnik (1996), os seres humanos não fazem música, dança,
mitos, o que se entende então por cultura nesse aspecto na realidade se trata
de processos de expressão, que estão inteiramente articulados uns aos outros,
e também articulados com sua maneira de produzir bens, como sua maneira de
produzir relações sociais. Os autores citam ainda como exemplo o caso das
crianças antes de sua fase de integração ao sistema escolar.

Elas brincam, articulam relações sociais, sonham, produzem e, mais


cedo
ou mais tarde, vão ter que aprender a categorizar essas dimensões de
semiotização no campo social normalizado. Agora é hora de brincar,
agora
é hora de produzir para a escola, agora é hora de sonhar, e assim por
diante (Guattari e Rolnik, 1996, pg. 19).

3
Aqui os autores referenciam-se às noções de relativismo cultural, altamente abstratas e
generalistas, também não negando a noção de indivíduo e de etnia, propondo uma suposta
natureza humana, adotadas por autores como Ruth Benedict, Kardiner e Margareth Mead que
ao tentarem sair do etnocentrismo renunciando a uma referência geral em relação à cultura
branca, ocidental, masculina, etc. estabelece na realidade novos paradigmas etnocêntricos.
A categoria cultura-mercadoria não se trata de uma cultura a priori, mas de uma
categoria de cultura que se produz, reproduz e se modifica de forma constante,
objetivamente o intuito é produzir e difundir mercadorias culturais, isso sem levar
em consideração os valores de julgamento como no sentido A. estabelece-se
uma nomenclatura cientifica pra que se possa apreciar e encontrar essa
produção de cultura a fim de consumi-la do ponto de vista mercadológico do CMI,
nesse sentido pode-se classificar segundo os autores os níveis culturais das
cidades, das categorias sociais presentes nesses centros e fora deles, e assim
por diante, isso em função do índice, do número de livros produzidos, do número
de filmes, do número de salas de uso cultural, número de espetáculos e etc.
Para Guattari e Rolnik (1996) os três sentidos de cultura que apareceram
sucessivamente ao decorrer da História continuam a funcionar, e ao mesmo
tempo, pois há entre esses três núcleos semânticos uma complementaridade,
pois os meios de comunicação de massa, a produção subjetiva capitalística
provoca uma cultura de vocação universal. O duplo modo de produção de
subjetividade, essa industrialização da produção de cultura segundo os sentidos
B e C não renunciaram absolutamente ao sistema de valorização do sentido A.

Os Ministros da Cultura e os especialistas dos equipamentos culturais,


nessa perspectiva modernista, declaram não pretender qualificar
socialmente os consumidores dos objetos culturais, mas apenas
difundir cultura num determinado campo social, que funcionaria
segundo uma lei de liberdade de trocas. No entanto, o que se admite
aqui é que o campo social que recebe a cultura não é homogêneo. A
difusão do livro, do disco, etc., não tem absolutamente a mesma
significação quando veiculada nos meios de elites sociais ou nos meios
de comunicação de massa, a título de formação ou de animação
cultural (Guattari e Rolnik, 1996, pg. 20).

Nessa leitura realizada pelos autores, a noção de igualdade fica apenas no


âmbito idealista, ou melhor dizendo, apenas nas aparências, diante dos
processos de produção cultural, a sociedade ainda conserva o sentido de
cultura-valor “que se inscreve nas tradições aristocráticas de almas bem
nascidas, de gente que sabe lidar com as palavras, as atitudes e as etiquetas”
(Guattari e Rolnik, 1996, pg.20). Então para os autores, a cultura torna-se assim
um mercado geral de poder para as elites capitalísticas se exporem e difundir
seus preceitos, um poder não apenas sobre os objetos culturais, ou sobre a
possibilidade de manipula-los e assim criar algo novo, mas também o poder de
atribuir a si os objetos culturais como signo distintivo na relação social com os
outros.
Para finalizar, os autores colocam em questão alguns aspectos importantes
acerca da produção cultural, levantando perguntas a serem eventualmente
respondidas dentro do debate entre a relação da produção de subjetividade4 e

4
Os autores ao invés do termo ideologia, preferem falar sempre em subjetivação, em produção
de subjetividade (Guattari e Rolnik, 1996, pg. 25).
os processos de singularidade, deixando a questão em aberto para que novos
agenciamentos possam se organizar, dispor e financiar processos de
singularização cultural que desmontem os particularismos atuais no campo da
cultura.

Então, a questão que se coloca agora não é mais "quem produz


cultura", "quais vão ser as recipientes dessas produções culturais",
mas como agenciar outros modos de produção semiótica, de maneira
a possibilitar a construção de uma sociedade que simplesmente
consiga manter-se de pé. Modos de produção semiótica que permitam
assegurar uma divisão social da produção, sem por isso fechar os
indivíduos em sistemas de segregação opressora ou categorizar suas
produções semióticas em esferas distintas da cultura (Guattari e
Rolnik, 1996, pg. 22).

Portanto, para Guattari e Rolnik (1996), a noção de cultura que tomamos


consciência hoje, é uma noção constituída por três conceitos chave que foram
se alternando ao decorrer da História da humanidade, ao ponto que, com o
advento do CMI ouve uma fusão dessas três constituições semânticas ao passo
que agora, todas atuam em simultaneidade para que de fato reste apenas uma
noção de cultura, que é a cultura capitalística. Uma cultura etnocêntrica e
intelectocêntrica que separa os universos semióticos das produções subjetivas,
através da mais valia-econômica (sustentada pela noção abstrata do dinheiro e
o tempo-abstrato) e da mais-valia do poder (sustentada através da cultura-valor).
O conceito que os autores utilizam para se opor a essa lógica dominante é o
conceito de processos de singularização, uma recusa aos modos já
preestabelecidos que busca na criatividade e criação de novos conceitos a chave
para a mudança social ao qual o ser humano possa construir de fato uma
semiotização emancipadora, fora de conceitos exploradores.

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