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Pintura rupestre no Peruaçu

(MG) subverte conceito de


evolução artística
NOVEMBER 21, 2018

Pinturas rupestres no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu - Sue Ann


Galrão

As pinturas rupestres do Parque Nacional Cavernas de Peruaçu foram


feitas entre 500 e até 9.000 anos atrás. Em intervalo tão largo, é certo
que passaram por lá povos muito diversos, na cultura e no modo de
vida.

A arqueóloga Alenice Baeta participou de escavações na lapa do


Boquete, em que se encontraram instrumentos de pedra com 12 mil
anos de idade. Para ela, a rica sucessão de desenhos nos abrigos do
parque não enche só os olhos, mas é também útil para ensinar aos
estudantes que a história da arte nada tem de linear.

Como há muita superposição de figuras, além de umas poucas datações


indiretas, dá para saber o que foi pintado antes e depois. No abrigo
junto ao Janelão, por exemplo, a arqueóloga aponta figuras amarelas
simples da tradição Nordeste por cima das mais complexas formas
geométricas, com duas e até três cores, da tradição São Francisco.
Ou seja, não se progride sempre e necessariamente do simples para o
complexo. “Dá para ver a cronologia [na pedra]”, diz a arqueóloga. “As
mais recentes são as mais toscas.”

Baeta também ressalta o equívoco de atribuir um propósito utilitário à


arte desses povos desconhecidos.

Pelos vestígios encontrados nos sítios, sabe-se que alguns eram


caçadores-coletores e outros, agricultores.

No entanto, os primeiros ocupantes, que habitaram a área começando


mais de 8.000 anos atrás, não desenhavam muitos animais e cenas de
caça, comuns na arte rupestre das mais antigas cavernas da Europa.
Bichos, como peixes e tartarugas, são mais encontrados, no Peruaçu,
na arte deixada pelos povos agrícolas de 2.500 anos atrás.

“Esse lugar era inspirador para muitos povos”, diz Baeta. Construíam
andaimes e subiam nas estalagmites para alcançar as partes altas.
“Queriam deixar aquilo ali [para ser visto].”

A hipótese é que esses símbolos fizessem parte de algum ritual. Aqueles


homens pintavam uma superfície que sabiam ser propícia para
preservação, livre de chuva e de sol, mas com luz bastante para serem
admiradas por vários outros homens, por muito tempo —ainda hoje,
inclusive.

Espeleotema em formato de cogumelo na gruta do Janelão, no Parque


Nacional Peruaçu, em Minas Gerais - Marcelo Leite/Folhapress
Como chegar

O aeroporto mais próximo do Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu


que recebe voos comerciais é o de Montes Claros (MG). Dali recomenda-
se alugar um carro para chegar a Januária, a 169 km, na beira do rio
São Francisco.

A infraestrutura de hotéis e restaurantes em Januária é melhor do que


em Itacarambi. Mas quem preferir não ter de dirigir todos os dias de
estadia até a entrada do parque pode hospedar-se em pousadas no
povoado de Fabião 2, como a Recanto das Pedras.

A visitação é gratuita, mas precisa ser agendada no ICMBio (Instituto


Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Isso pode ser feito
por correio eletrônico (cavernas.peruacu@icmbio.gov.br).

As estradas de terra do parque são bem conservadas, e chove pouco na


região (1.400 mm/ano). Dificilmente será preciso alugar um veículo
4x4. Veem-se vários carros de passeio circulando entre as vias que vão
de uma porteira a outra para os oito roteiros do Peruaçu.

A infraestrutura das sedes é boa, mas um tanto vazia. Há banheiros,


mas não há locais de alimentação (recomenda-se levar petiscos e
água nas trilhas). Numa lojinha improvisada podem-se adquirir
camisetas, livros e uns poucos suvenires.

A renda reverte para o Fundo Peruaçu, administrado pelo Instituto


Ekos Brasil, que dá consultoria ao ICMBio. A ONG participou da
confecção do plano de manejo do parque e gerenciou a construção das
sedes, a reforma das estradas e a estruturação das trilhas —há escadas
e passarelas de madeira e metal em vários pontos.

Com a ajuda (obrigatória) dos guias, ali chamados de condutores, é


possível cobrir dois roteiros num mesmo dia, com exceção do Arco do
André, caminhada mais puxada que demanda um dia inteiro. Com
alguma negociação pode-se contratar um pacote de sete roteiros com
um guia experiente por menos de R$ 500.