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A Essência do Neoliberalismo

Pierre Bourdieu, 1998

Como pretende o discurso dominante, o mundo económico é uma ordem pura e perfeita, que
implacavelmente desenvolve a lógica das suas consequências previsíveis e tenta reprimir todas as
violações mediante as sanções que inflige, automaticamente — ou não — através das suas
extensões armadas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico (OCDE) e as políticas que impõem: a redução dos custos laborais,
redução da despesa pública e tornar o trabalho mais flexível. Tem razão o discurso dominante? E o
que aconteceria se na realidade esta ordem económica não fosse mais que a instrumentalização de
uma utopia — a utopia do neoliberalismo — transformada assim num problema político? Um
problema que, com a ajuda da teoria económica que proclama, lograva conceber-se como uma
descrição científica da realidade?
Esta teoria tutelar é pura ficção matemática. Fundou-se desde o começo numa abstracção
formidável. Pois, em nome da concepção estreita e estrita da racionalidade como racionalidade
individual, marca as condições económicas e sociais das orientações racionais e as estruturas
económicas e sociais que condicionam a sua aplicação.
Para dar a medida desta omissão, basta pensar precisamente no sistema educativo. A educação
nunca é tomada em conta como tal numa época em que joga um papel determinante na produção de
bens e serviços assim como na produção dos próprios produtores. Desta espécie de pecado original
inscrito no mito walrasiano ( ) da «teoria pura», advém todas as deficiências e faltas da disciplina
económica e a abstenção fatal com que se junta à oposição arbitrária que induz, mediante a sua
mesma existência, entre uma lógica propriamente económica, baseada na competência e na
eficiência, e a lógica social, que está sujeita ao domínio da justiça.
Dito isto, esta «teoria» des-socializada e des-historizada nas suas raízes tem, hoje mais do que
nunca, os meios de comprovar-se a si mesma e de tornar-se em si própria empiricamente verificável.
Com efeito, o discurso neoliberal não é apenas mais um discurso. É sim um «discurso forte» — tal
como o discurso psiquiátrico o é num manicómio, na análise de Erving Goffman ( ). É tão forte e
difícil de combater só porque tem a seu lado todas as forças das relações de forças, um mundo que
contribui para ser o que é. Isto leva-o muito notavelmente a orientar as decisões económicas dos
que dominam as relações económicas. Assim, acrescenta a sua própria força simbólica a estas
relações de forças. Em nome deste programa científico, transformado num plano de acção política,
está em desenvolvimento um imenso projecto político, embora a sua condição como tal seja negada
porque surge como puramente negativa. Este projecto propõe-se criar as condições sob as quais a
«teoria» pode realizar-se e funcionar: um programa de destruição metódica dos colectivos.
O movimento para a utopia neoliberal de um mercado puro e perfeito é possível mediante a política
de desregulação financeira e consegue-se mediante a acção transformadora e, devemos dizer,
destrutiva de todas as medidas políticas (das quais a mais recente é o Acordo Multilateral de
Investimentos, feito para proteger as corporações estrangeiras e seus investimentos nos estados
nacionais) que levam a questionar toda e qualquer estrutura que possa servir de obstáculo à lógica
do mercado puro: a nação, cujo espaço de manobra decresce continuamente; as associações laborais,
por exemplo através da individualização dos salários e das carreiras como uma função das
competências individuais com a consequente atomização dos trabalhadores, os colectivos para a
defesa dos direitos dos trabalhadores, sindicatos, associações, cooperativas; incluindo a família, que
perde parte do seu controle do consumo através da constituição de mercados por grupos de idade.
O programa neoliberal deriva o seu poder social do poder político e económico daqueles cujos
interesses expressa: accionistas, operadores financeiros, industriais, políticos conservadores e
sociais-democratas que foram transformados nos subprodutores tranquilizantes do laissez faire,
altos funcionários financeiros decididos a impor políticas que procuram a sua própria extinção pois,
ao contrário dos gerentes de empresas, não correm nenhum perigo de ter que eventualmente pagar
as consequências. O neoliberalismo tende a favorecer como um todo a separação da economia das
realidades sociais e portanto a construção, na realidade, de um sistema económico que se conforma
na sua descrição em teoria pura, que é uma espécie de máquina lógica que se apresenta como uma
cadeia de restrições que regulam os agentes económicos.
A globalização dos mercados financeiros, quando se unem com o progresso da tecnologia da
informação, assegura uma mobilidade sem precedentes do capital. Dá aos investidores preocupados
com a rentabilidade a curto prazo dos seus investimentos, a possibilidade de comparar
permanentemente a rentabilidade das maiores corporações e consequentemente penalizar as derrotas
relativas dessas firmas. Sujeitas a este desafio permanente, as corporações têm que ajustar-se cada
vez mais depressa às exigências dos mercados, sob pena de perder a confiança nos mercados, como
dizem para apoiar os seus accionistas. Estes últimos ansiosos por obter lucros a curto prazo, são
cada vez mais capazes de impor a sua vontade aos gerentes, usando comités financeiros para
estabelecer as regras sob as quais os gerentes operam e para formatar as suas políticas de
recrutamento, emprego e salários.
Assim se estabelece o reino absoluto da flexibilidade, com empregados com contratos a prazo fixo
ou temporário e repetidas reestruturações corporativas e estabelecendo, dentro da mesma firma, a
concorrência entre divisões autónomas assim como entre equipas forçadas a executar múltiplas
funções. Finalmente, esta concorrência estende-se aos próprios indivíduos, através da
individualização da relação de salário; estabelecimento de objectivos, de rendimento individual,
avaliação do rendimento individual, avaliação permanente, aumentos salariais individuais, ou a
concessão de bónus em função da competência e do mérito individual, carreiras individualizadas,
estratégias de «delegação de responsabilidade» tendentes a assegurar a auto-exploração do pessoal,
como assalariados, em relações de forte dependência hierárquica, que são ao mesmo tempo
responsabilizados pelas suas vendas, os seus produtos, a sua sucursal, a sua loja, etc., como se
fossem contratados independentes. Esta pressão para o autocontrole aumenta o «compromisso» dos
trabalhadores de acordo com técnicas de «gerência participativa» consideravelmente mais além do
nível de gerência. Todas elas são técnicas de domínio racional que impõem o sobre-compromisso
no trabalho (e não só entre gerentes) e no trabalho em emergência e sob condições de alto stress. E
convergem para o enfraquecimento ou abolição dos níveis e solidariedade colectiva ( )
Deste modo surge um mundo darwiniano — é a luta de todos contra todos, a todos os níveis da
hierarquia, que encontra apoio através de todos os que se aferram ao seu posto e organização sob
condições de insegurança, sofrimento e stress. Sem dúvida, o estabelecimento prático deste mundo
de luta não triunfaria totalmente sem a cumplicidade de acordos precários, que produzem
insegurança e da existência de um exército de reserva de empregados domesticados por estes
processos sociais que tornam precária a sua situação, assim como pela ameaça permanente de
desemprego. Este exército de reserva existe em todos os níveis da hierarquia, incluindo nos níveis
mais altos, especialmente entre os gerentes. A fundação definitiva de toda esta ordem económica
colocada sob o signo da liberdade é com efeito a violência estrutural do desemprego, da insegurança
da estabilidade laboral e a ameaça de despedimento que esta implica. A condição de funcionamento
«harmónico» do modelo microeconómico individualista é um fenómeno maciço, a existência de um
exército de reserva de desempregados.
A violência estrutural pesa também no que se chama o contrato laboral (sabiamente racionalizado e
transformado em irreal pela «teoria dos contratos»). O discurso organizacional nunca teve tanta
confiança, cooperação, lealdade e cultura organizacional numa era em que a adesão à organização
se obtém a cada momento pela eliminação de todas as garantias temporais (três quartas partes dos
empregos têm duração fixa, a proporção dos empregados temporais continua a aumentar, o emprego
à vontade» e o direito de despedir um individuo tendem a libertar-se de qualquer restrição).
Assim, vemos como a utopia neoliberal tende a transformar-se na realidade numa espécie de
máquina infernal, cuja necessidade se impõe até sobre os governantes. Como o marxismo numa
época anterior, com o que este aspecto tem muito em comum, esta utopia evoca a crença poderosa
— a fé do livre comercio — não só entre os que vivem dela, como dos financistas, dos donos e
gerentes de grandes corporações, etc., mas também entre aqueles que como altos funcionários
governamentais e políticos, aceitam a sua justificação vivendo dela. Eles santificam o poder dos
mercados em nome da eficiência económica, que requer a eliminação de barreiras administrativas e
políticas capazes de obstruir os donos do capital na sua busca da maximização do lucro individual,
que se transformou num modelo de racionalidade. Querem bancos centrais independentes. E
pregam a subordinação dos estados nacionais aos requisitos da liberdade económica para os
mercados, a proibição dos défices e a inflação, a privatização geral dos serviços públicos e a
redução das despesas públicas e sociais.
Os economistas podem não compartilhar necessariamente os interesses económicos e sociais dos
devotos verdadeiros e podem ter diversos estados psíquicos individuais em relação aos efeitos
económicos e sociais da utopia, que dissimulam a sua capa de razão matemática. Mas têm interesses
específicos suficientes no campo da ciência económica para contribuir decisivamente para a
produção e reprodução da devoção pela utopia neoliberal. Separados das realidades do mundo
económico e social pela sua existência e sobretudo pela sua formação intelectual, na maior parte das
vezes abstracta, livresca e teórica, estão particularmente inclinados a confundir as casas da lógica
com a lógica das casas.
Estes economistas confiam em modelos que quase nunca têm oportunidades de submeter à
verificação experimental e são levados a desprezar os resultados de outras ciências históricas, em
que não reconhecem a pureza e transparência cristalina dos seus jogos matemáticos e cuja
necessidade real e profunda complexidade com frequência são incapazes de compreender. Ainda
assim algumas das suas consequências horrorizam-nos (podem ligar-se a um partido socialista e dar
conselhos instruídos aos seus representantes na estrutura do poder), esta utopia não pode molestá-
los porque, com o risco de poucas falhas, imputadas ao que às vezes se chama «bolhas
especulativas», tendem a dar realidade à utopia ultralógica (ultralógica como certas formas de
loucura) a que consagram as suas vidas.
E no entanto o mundo está aí, com os efeitos imediatos visíveis da implementação da grande utopia
neoliberal: não só a pobreza de um segmento cada vez maior das sociedades economicamente mais
avançadas, o crescimento extraordinário das diferenças de ingressos, o desaparecimento progressivo
de universos autónomos de produção cultural, tais como o cinema, a produção editorial, etc. através
da intrusão de valores comerciais, mas também e sobretudo através de duas grandes tendências.
Primeiro, a destruição de todas as instituições colectivas capazes de contrariar os efeitos da máquina
infernal, primariamente as do Estado, repositório de todos os valores universais associados à ideia
do reino do público. Segundo a imposição em todas as partes, nas altas esferas da economia e do
Estado tanto como no coração das corporações, desta espécie de darwinismo moral que, com o culto
do vencedor, educado nas altas matemáticas e em salto de grande altura (bungee jumping) institui a
luta de todos contra todos e o cinismo como a norma de todas as acções e condutas.
Pode esperar-se que a extraordinária massa de sofrimento produzida por este género de regime
político-económico possa servir algum dia como ponto de partida de um movimento capaz de parar
a corrida para o abismo? Estamos certamente perante um paradoxo extraordinário. Os obstáculos
encontrados no caminho para a realização da nova ordem do indivíduo solitário mas livre podem
imputar-se hoje a rigidez e a vestígios. Toda a intervenção directa e consciente de qualquer espécie,
pelo menos no que diz respeito ao Estado, é desacreditada antecipadamente e assim condenada a
desaparecer em benefício de um mecanismo puro e anónimo: o mercado, cuja natureza como local
onde se exercem os interesses é esquecido. Mas na realidade o que evita que a ordem social se
dissolva no caos, apesar do crescente volume de populações em perigo, é a continuidade ou
sobrevivência das próprias instituições e representantes da velha ordem que está em processo de
desmantelamento e o trabalho de todas as categorias de trabalhadores sociais, assim como todas as
formas de solidariedade social e familiar. Ou se não…
A transição para o «liberalismo» tem lugar de um modo imperceptível, como a deriva continental,
escondendo da vista os seus efeitos. As suas consequências mais terríveis dão-se a longo prazo.
Estes efeitos escondem-se, paradoxalmente, pela resistência a que esta transição opõem actualmente
os que defendem a velha ordem, alimentando-se dos recursos que continham, nas velhas
solidariedades, nas reservas do capital social que protegem uma porção inteira da actual ordem
social de cair no absurdo. Este capital social está condenado a fenecer — embora não a curto prazo
— se não for renovado e reproduzido.
Mas estas forças de «conservação», que é demasiado fácil tratar como conservadoras, são também,
de outro ponto de vista, forças da resistência ao estabelecimento da nova ordem e podem
transformar-se em forças subversivas. Mas se há motivo para abrigar alguma esperança, é que todas
as forças que actualmente existem, tanto nas instituições do Estado como nas orientações dos
actores sociais (principalmente os indivíduos e grupos mais ligados a essas instituições, os que
possuem uma tradição de serviço publico e civil), que, sob a aparência de defender simplesmente
uma ordem que desaparece com os seus «privilégios» correspondentes (acusação imediata) serão
capazes de resistir ao desafio só trabalhando para inventar e construir uma nova ordem social. Uma
que não tenha como única lei a busca de interesses egoístas e a paixão individual pelo lucro e que
crie espaços para os colectivos orientados para a procura racional de fins colectivamente
conseguidos e colectivamente rectificados.
Como poderíamos não reservar um espaço especial nesses colectivos, associações, uniões e partidos
ao Estado: o Estado nação, ou, ainda melhor, o Estado supranacional — um Estado europeu, a
caminho de um Estado mundial — capaz de controlar efectivamente e sobrecarregar com impostos
os lucros obtidos nos mercados financeiros e, sobretudo, conter o impacto destrutivo que estes têm
sobre o mercado laboral. Isso pode conseguir-se com o auxílio das confederações sindicais,
organizando a elaboração e defesa do interesse público. Queiramos ou não o interesse público
nunca emergirá, embora à custa de uns quantos erros matemáticos, da visão dos contabilistas (num
período anterior poderíamos ter dito, dos «comerciantes») que o novo sistema de crenças apresenta
como a suprema forma de realização humana.
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Auguste Wairas (1800-1866), economista francês, autor De la nature
de la richesse et de l’origine de la valeur [da Natureza da Riqueza e da Origem do valor (1848) Foi
uma dos primeiros que tentaram aplicar as matemáticas à investigação económica.
Erving Goffman, 1961, Asylums: Essays on the social situation of
mental patients and Other inmates (Manicómios: ensaios sobre a situação dos pacientes e outros
reclusos) Nova Iorque, Aldine de Gruyter.
Ver os dois números dedicados a «Nouvelles formes de domination dans le travail» [Novas formas
de dominação no trabalho»] Actas da pesquisa em ciências sociais n.o 114, Setembro de 1996, e
115, Dezembro de 1996, principalmente a introdução por Gabrielle Balazs e Michel Pialoux. «Crise
du travail e crise du politique (crise do trabalho e crise da politica n.o 114, p. 3, 4
Originalmente publicado em “Le Monde”, Dezembro 1998
Tradução: Manuela Antunes