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A Bíblia

e seu
contexto

Módulo 03
O AT e sua composição canônica

Texto:
Lília Marianno
Ilustrações Específicas:
Hudson Silva
A Bíblia e seu contexto
MÓDULO INTRODUTÓRIO – ESPECIALIZAÇÃO EM EXEGESE BÍBLICA

MÓDULO 3
O ANTIGO TESTAMENTO
E SUA COMPOSIÇÃO CANÔNICA

Profa. Lília Dias Marianno

Neste módulo, apresentaremos a lógica por


trás dos processos que orientaram a forma-
ção do cânon do Antigo Testamento.

Conheceremos as peculiaridades dos mate-


riais da tradição oral e a forma como foram
transformados em coletâneas de textos, li-
vros e coleções de livros.

Entenderemos como se deu a composição


dos blocos da TANAK, as datações dos li-
vros do AT e quando possível, das diferen-
tes camadas redacionais de cada um.

Veremos uma breve introdução de cada li-


vro do AT estabelecendo suas cronologias
de redação dentro da perspectiva histórico-
social.
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A Bíblia e seu contexto
MÓDULO INTRODUTÓRIO – ESPECIALIZAÇÃO EM EXEGESE BÍBLICA

Sumário do segundo módulo de A Bíblia e seu contexto

UNIDADE 1 - OS MATERIAIS LITERÁRIOS E O CÂNON DO AT


1.1. Conceito e diferenças de “cânon sagrado”
1.2. Os materiais literários do AT
1.2.1. Os relatos históricos
1.2.2. Os relatos míticos e sagas etiológicas
1.2.3. O material jurídico

UNIDADE 2 - OS DIFERENTES CÂNONS DO AT


2.1. Cânon hebraico, protestante e católico do AT
2.2. Apócrifos, Pseudo-epígrafos e Deuterocanônicos
2.3. Manuscritos do AT
2.4. Traduções do AT
2.4.1. A Septuaginta (LXX)
2.4.2. A Vulgata Latina

UNIDADE 3 - OS BLOCOS LITERÁRIOS DO AT


1.1. A Torá
1.2. Os Profetas (Nebiim)
3.2.1. Profetas Anteriores
3.2.2. Os Profetas Posteriores
1.3. Os Escritos (Ketuvim)

UNIDADE 4 - CRONOLOGIAS DA REDAÇÃO DOS LIVROS DO AT


4.1. Torá
4.1.1. Gênesis
4.1.2. Êxodo
4.1.3. Levítico
4.1.4. Números
4.1.5. Deuteronômio
4.2. Nebiim (Profetas)
4.2.1. Josué
4.2.2. Juízes
4.2.3. I e II Samuel
4.2.4. I e II Reis
4.2.5. Primeiro Isaías (Is 1- 39)
4.2.6. Segundo Isaías (Is 40 – 55)
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4.2.7. Terceiro Isaías (Is 56 – 66)

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4.2.8. Jeremias
4.2.9. Ezequiel
4.2.10. Os Doze Profetas
4.2.10.a. Oséias
4.2.10.b. Joel
4.2.10.c. Amós
4.2.10.d. Obadias
4.2.10.e. Jonas
4.2.10.f. Miquéias
4.2.10.g. Naum
4.2.10.h. Habacuque
4.2.10.i. Sofonias
4.2.10.j. Ageu
4.2.10.k. Zacarias
4.2.10.l. Malaquias
4.3. Ketuvim
4.3.1. Salmos
4.3.2. Jó
4.3.3. Provérbios
4.3.4. Rute
4.3.5. Cântico dos Cânticos
4.3.6. Eclesiastes
4.3.7. Lamentações
4.3.8. Ester
4.3.9. Daniel
4.3.10. Esdras e Neemias
4.3.11. I e II Crônicas

4.4. Bibliografia Complementar Deste Módulo


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UNIDADE 1
OS MATERIAIS LITERÁRIOS E O CÂNON DO AT

1.1. Conceito e diferenças de “cânon sagrado”

O conjunto dos livros que constituem a Bíblia e que conferem a ela a designação de Es-
critura Sagrada chama-se cânon. A palavra “cânon” significa literalmente “cana” ou “vara
de medir”. Passou a ser usada para designar a lista dos livros reconhecidos como Escritu-
ras Sagradas (Bíblia) para judeus e cristãos.

Quando falamos em cânon precisamos entender que, aquilo que é canônico para uns não
o é para outros. Isto quer dizer que, durante o longo processo de formação da Bíblia,
houve, em diversas ocasiões, o conflito sobre quais
livros deveriam ou não ser considerados sagrados.

É por isso que até hoje encontramos certa diver-


gência na quantidade de livros que compõem a Bí-
blia Judaica, a Bíblia Católica e a Bíblia Cristã. Este
processo também aconteceu na virada de eras (AEC
– Antes da Era Comum para EC – Era Comum) pois
o cânon do AT dos judeus da Palestina era um e o
cânon dos judeus da diáspora era outro.

Os exegetas de linha fundamentalista, inspirados


em autores como Flávio Josefo (nascido em 37 EC e
contemporâneo do apóstolo Paulo) consideram o
cânon do AT fechado no V século AEC, desde os dias
do rei persa Artaxerxes (período de Esdras), sob o
argumento que ninguém teria se aventurado a
acrescentar, tirar ou alterar uma única sílaba das
“Escrituras” a partir de então. Com a morte de Ma-
laquias, o último profeta do AT, a fala de Deus ao
povo teria cessado.

Esta prerrogativa permaneceu (e ainda permanece em alguns casos) por muito tempo no
ambiente protestante e evangélico brasileiro em função de ser a escola teológica dos nor-
te-americanos que trouxeram o protestantismo para o Brasil. Entretanto o processo de
fechamento do cânon foi bem mais longo e complexo que isto.

Somente por volta de 90 EC, no concílio rabínico de Jâmnia, quando encerraram-se as


discussões sobre a manutenção dos livros de Eclesiastes e Cantares no cânon hebraico, é
que o cânon do AT foi definitivamente fechado. Desde 200 AEC a Septuaginta (LXX ou
cânon grego), traduzida do hebraico e aramaico para o grego, usava um cânon mais am-
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plo, sua redução se deu apenas a partir destas discussões em Jâmnia porque até ali os
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judeus na Palestina e na Diáspora usavam a composição do cânon grego.

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Durante a Reforma Protestante, o trabalho de tradução feito por Lutero revisou o cânon
mais amplo adotado por Jerônimo quando traduziu a LXX para o Latim, seguindo a sele-
ção mais restrita utilizada pelos rabinos de Jamnia. Por isso, o cânon protestante dos
livros do AT segue a seleção mais recente do cânon hebraico e não a mais antiga, do
cânon grego da LXX (Septuaginta).

A canonização (e suas diferenças de seleção) também deu origem a uma estruturação


interna por blocos de livros que recebe diferentes denominações no cânon hebraico ou
cristão. Chamamos a esta estruturação de divisão de blocos do AT. Nos quadros a seguir
veremos a correlação entre um cânon e outro.

LIVROS DIVISÃO NO CÂNON


REFORMADO

Gênesis – Êxodo – Levítico –


Números - Deuteronômio PENTATEUCO
Josué – Juízes – Rute –
I e II Samuel - I e II Reis LIVROS HISTÓRICOS
I e II Crônicas – Esdras - Neemias -
Ester
Jó - Salmos - Provérbios – Eclesias- LIVROS POÉTICOS
tes - Cantares

Isaías – Jeremias – Lamentações -


Ezequiel PROFETAS MAIORES
Daniel
Oséias - Joel - Amós - Obadias -
Jonas - Miquéias - Naum - Haba- PROFETAS MENORES
cuque – Sofonias – Ageu –Zacarias -
Malaquias

LIVROS DIVISÃO NO
CÂNON HEBRAICO
Gênesis - Êxodo - Levítico - Núme- A TORÁ – A LEI
ros - Deuteronômio
Josué - Juízes - I e II Samuel - I e
II Reis - Isaías Jeremias - Ezequiel NEBIIM – OS PROFETAS
- Oséias - Joel - Amós - Obadias -
Jonas - Miquéias - Naum - Haba-
cuque Sofonias - Ageu - Zacarias
- Malaquias

Salmos - Jó - Provérbios - Rute –


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Cântico dos Cânticos - Eclesiastes KETUVIM – OS ESCRITOS


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- Lamentações - Ester - Daniel -


Esdras - Neemias - I e II Crônicas

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1.3. Os materiais literários do AT

O que conhecemos como AT na bíblia cristã é apenas uma parcela do que foi o todo do
AT. A leitura mais aprofundada costuma apresentar algumas dificuldades em relação à
composição do AT, pois algumas diferenças na apresentação externa do cânon são ime-
diatamente percebidas. Acabamos não entendendo muitas coisas, deparamos com con-
tradições que achamos estranhas e parecem colocar o próprio texto bíblico em oposição
a si mesmo.

No processo de composição dos livros bíblicos, foram colocados diferentes relatos do


mesmo episódio lado a lado, é o que acontece, por exemplo, com o relato da criação. Os
dois relatos da criação que constam no livro de Gênesis eram originalmente independen-
tes. Tiveram origem em tradições orais diferentes e foram motivados por diferentes inte-
resses para se escrever sobre as origens.

Os dois relatos não são me-


ramente complemento um
do outro, mas sim, duas ex-
posições distintas de como
os narradores da tradição
oral perpetuaram a narrati-
va. O primeiro relato coloca
a sequência das obras dos
sete dias de forma sistêmica
(Gn 1,1 a Gn 2,4). Neste
relato a origem de todas as
coisas se dá a partir de um
“nada” caótico e a vontade
de Deus. O Criador exerce
papel criativo e ordenador,
começando pelos elementos inanimados, depois pelas vegetações, animais até chegar no
ser humano. Neste relato a criação de tudo se processa apenas por meio da palavra efi-
caz de Deus.

No segundo relato, a narrativa começa falando de terra seca e água (Gn 2,4b). O ser
humano encontra-se no princípio da criação e o reino vegetal e animal é apresentado ao
seu redor. Rolf Rendtorff chama este relato de “mais ingênuo e plástico”, pois o Criador
atua como um oleiro modelando um vaso de barro e o ser humano ocupa espaço vital
imediato (RENDTORFF, 2007, p. 1-12).

Da mesma forma que diferentes tradições, transformadas em textos, ocupam locais dife-
rentes, às vezes muito próximos, às vezes distantes num mesmo livro bíblico, a junção
destes muitos relatos, a ordenação numa sequência lógica e, quando possível, cronológi-
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ca descreve o próprio processo de compilação de um livro bíblico, compilação de um gru-


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po de livros e, por fim, a compilação do cânon dos livros do AT.

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O AT cresceu progressivamente, continuada e sistematicamente, ele é resultado de uma


longa história composicional e já foi chamado de “o livro que cresceu durante mil anos”,
pois ali estão documentados os testemunhos de fé do povo de Israel originados durante
muitos séculos.

De um jeito próprio cada geração levantou e respondeu aos questionamentos sobre a fé


de Israel num único Deus e sobre o agir deste Deus na história de seu povo. Estes ques-
tionamentos forneceram o viés ou o eixo teológico que orienta a composição canônica
dos textos do AT.

No início desse processo de crescimento está na palavra falada e transmitida oral-


mente. As histórias vivas e coloridas sobre os patriarcas, p. ex., foram, com certe-
za, contadas e recontadas através de muitas gerações antes de serem fixadas por
escrito. Neste transcurso, naturalmente, também alteraram, amiúde sua forma as-
sumindo novos traços característicos enquanto que outros perderam sua importân-
cia para uma geração nova. Ou ainda, vejamos as palavras dos profetas: foram
pronunciadas em uma determinada situação histórica e depois transmitidas, tam-
bém oralmente, antes de alcançarem sua forma literária final. Algo semelhante
também sucedeu com os textos restantes do Antigo Testamento. Somente aos pou-
cos formaram-se coleções menores ou maiores de textos congêneres ou da mesma
origem. O resultado final desta história movimentada são os diversos “livros” do
Antigo Testamento, na forma como atualmente os encontramos na Bíblia. (REN-
DTORFF, p.8 )

1.3.1. Os relatos históricos

A história do Antigo Testamento se estende desde a migração dos israelitas na Palestina,


no século XIII AEC até os últimos anos antes da Era Comum. Os textos mais antigos do
cânon bíblico são frequentemente os cânticos ou ditos que ficavam gravados na memória
do povo muito naturalmente e se mantiveram vivos por mais tempo na tradição oral.

O cântico de Miriam, documentado em Ex 15,21, falando


da vitória sobre os egípcios afogados no mar, é um rela-
to que remonta uma tradição oral das mais antigas do
Antigo Israel. Por se tratar de um cântico, sua memória
é preservada literalmente, pois não se muda a letra de
uma canção quando ela é cantada por séculos e séculos
da mesma forma, principalmente quando a canção é
bem curta e se assemelha a um dito.

Outras canções mais extensas se tornaram verdadeiros


relatos de acontecimentos. Relatos bíblicos oriundos
canções, são:
 Canção de Lameque (Gn 4,23-24) – bravata so-
bre vingança de morte;
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 Canção do poceiro (Nm21,17-18) – possivelmen-


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te cantadas durante escavação de poços;


 Cântico de Débora (Jz 5) – vitórias sobre canaanitas.

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Já os provérbios eram cultivados em círculos de


trabalhadores após suas jornadas, junto ao por-
tão da cidade. Na época de Salomão, eles adqui-
riram refinamento artístico, mas as tradições
cultivadas neste formato são muito antigas (1
Sm 24,14; Ez 16,44, cf tb 1 Rs 5,11-12). As co-
leções de provérbios provavelmente estavam
documentadas em outras coleções de livros dos
quais não temos mais registro histórico como “o
livro do valente” (Js 10,13 e 2 Sm 1,18) ou o
“livro das guerras de Yahweh” (Nm 21,14).

Semelhante aos cânticos e provérbios também


circulavam os contos. Consistiam também de
lendas/sagas sobre os “heróis” da história do
povo e sobre as origens de determinados locais
que receberam nomes de acordo com os eventos
ocorridos ali.

Uma saga conta com o colorido típico da época


dos personagens e eventos nela registrados, e
com a forma que ficou na memória do povo. As
sagas são mais que meros contos, pois contam o passado como memória integrante do
presente. Nas sagas ficam registradas as experiências dos personagens bíblicos que se
reproduzem como representação das próprias experiências do povo com Deus. Israel
entende sua história como “história com Deus”. A forma como Deus agiu com Abraão,
Isaque, Jacó e Moisés se reproduz na vida do próprio povo. As sagas representam, com
toda sua vivacidade narrativa, uma profissão de fé.

A partir do momento que diferentes tradições orais dão origem a textos narrativos que
são ordenados numa sequência cronológica, necessitando de alguns volumes para com-
portar todos os eventos narrados, temos a tentativa de composição de uma historiografia
do Antigo Israel. É o caso do 1 Samuel, registrando principalmente os acontecimentos
políticos. Documenta, em sequência cronológica, a origem do reinado e a ascensão de
Davi; no 2 Samuel ficou registrada a consolidação e expansão do reino de Davi e das
tramas pela sucessão de seu trono. Os livros dos Reis apresentam, a seguir, o governo
de Salomão como o último período glorioso do Reino Unido, a divisão em um Reino do
Norte (Efraim) um Reino do Sul (Israel) e a queda paulatina até o fim total da existência
política do povo de Israel.

1.3.2. Os relatos míticos e sagas etiológicas

Uma saga etiológica (do grego aitia, causa) é uma narrativa que tem intenção explicativa
específica. O relato sobre a “queda da humanidade” tem intenção de explicar porque a
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vida do ser humano é cheia de distúrbios e males. A “inimizade entre Eva e a serpente”,
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explica o doloroso processo de trazer um filho à luz. O “suor do teu rosto” explica que a

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fadiga do homem sobre o seu trabalho é consequência da primeira desobediência (Gn


3,14-19).

A divisão da humanidade numa pluralidade de grupos étnicos fica explicada numa narra-
tiva como a da “torre de Babel”. A natureza selvagem e agressiva dos beduínos ismaeli-
tas é atribuída ao comportamento rebelde de sua mãe, Hagar (Gn 16.12). Os aborígenes
canaanitas que não foram expulsos pelos ismaelitas explicam-se pelo pecado e maldição
sobre Canaã (Gn 9,25). Outras sagas etiológicas explicam a peculiaridade de tribos e
povos conhecidos de Israel que viviam em suas vizinhanças.

Quando as sagas explicam origem dos eventos em atos de intervenção divina direta,
chamamos de narrativa mítica. O relato da ação de Deus criação do mundo, da manipu-
lação divina na “fabricação” do homem, da origem dos gigantes como fruto da reprodu-
ção de humanos com seres angélicos (Gn6), a grande inundação como ato de Deus para
reconstrução da raça humana, todos estes fazem parte de um conjunto de narrativas ou
relatos míticos, porque atribuem a Deus a iniciativa do evento.

Algumas vezes as sagas etiológicas explicam origem de certos nomes, fazendo uso de
trocadilhos de palavras hebraicas cuja intenção de uso na língua original dificilmente con-
segue ser traduzida na simples tradução literal de um termo hebraico.

Por exemplo. O nome Isaque, em hebraico, soa como a palavra “rir”; o nome de Jacó soa
igual à palavra “calcanhar” (Gn 25.26) e “enganar” (Gn 27.36) o nome Israel é interpre-
tado como “o que luta com Deus” (Gn 32.29). O nome Caim é o grito de uma ave (ara-
ponga) e representa o “clamor do sangue do irmão”, etc. Para além de traduzir etimolo-
gias, estas sagas também estabelecem a
semiótica sobre a fonética dos nomes
(SOUZA, 1990, p.1-3).

Outras sagas etiológicas justificam por-


que determinados espaços geográficos se
tornaram sagrados e por isso foram cons-
truídos templos naqueles lugares. É o
caso da saga do santuário de Betel:
“Quão temível é este lugar! Aqui é a casa
de Deus (Bet-El)!”(Gn 28.17ss). Por cau-
sa desta aparição da divindade em so-
nho, quando Jacó passou por aquele es-
paço, o lugar tornou-se sagrado. Algo
semelhante ocorreu nos santuários de
Manre, onde três homens apareceram a
Abraão (Gn 18), e de Peniel, onde Jacó
travou uma luta com o anjo.
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Quando temos um conjunto de relatos


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sobre um mesmo personagem e estes

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relatos são ordenados cronologicamente num roteiro de eventos sobre a vida daquele
personagem temos os chamados “ciclos de sagas”. É o que acontece com as narrativas
sobre Abraão e Ló (Gn 12 -19), Jacó e Esaú (Gn 25, 27 e 33), Jacó e Labão (Gn 21-29).

Percebemos aqui dois ciclos diferentes contando episódios da vida de Jacó. Eles tem ori-
gem em materiais heterogêneos, mas foram, desde o princípio, estreitamente ligados.
Compondo a narrativa bíblica os escritores plasmaram no livro de Gênesis um perfil, com
atos e fatos de Jacó.

Quando se compilam diferentes ciclos de sagas sobre um mesmo personagem e este ro-
teiro descritivo se estabelece como eixo literário, chamamos a este conjunto de “novela
bíblica”.

A história de José, também no livro de Gênesis, é um exemplo deste gênero literário ele-
vado a um formato mais evoluído. Gn 27-37 não fala exclusivamente de José, mas fala
de muitos personagens coadjuvantes, todavia, o traço definitivo que está sendo reconsti-
tuído é o de José, com uso de um “tecido literário” magistralmente bordado pelo narra-
dor, dando refinamento artístico à narrativa.

1.3.3. O material jurídico

Além dos exemplos já mencionados, as leis mais diversas com conteúdos mais restritos
ou mais abrangentes, também foram transmitidas pela tradição oral. Seu conteúdo per-
passa a adoração exclusiva a um único Deus chegando até a previsão de penas para
quem causou danos ao bem e à propriedade de ou-
tro. Desde a lei da solidariedade, que promove o
amor ao próximo, até as regras sobre vestimentas
cúlticas dos levitas e sacerdotes.

Existem naturezas diferentes de leis. Há leis que


começam com “se” e expõem um “caso” com preci-
são (Ex 21,18ss). Essas leis são de natureza “casu-
ísticas” e tratam os litígios do cotidiano, servindo de
orientação para a comunidade judicial.

Os círculos legislativos, para julgamento dos pro-


cessos, se reuniam nas praças, junto aos portões
das cidades. A função era exercida pela totalidade
de cidadãos plenos, considerados ativos na socieda-
de, que tinham direito a voz e voto, em geral os
chefes de família e de clãs. O caso de Rt 4, retrata
muito bem o funcionamento destes tipos de tribu-
nais populares ou comunidades judiciais.
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As leis proibitivas são diferentes, estabelecem restrições sem pré-requisitos, simples-


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mente interditam e proíbem certos tipos de comportamentos no meio do povo de Israel.


Sua nomenclatura, em geral é especificada por “tu farás” ou “não farás” (Êx 20,2ss.).
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Estas leis proibitivas constituem os códigos de direito “apodítico” e tem grande vínculo
com a esfera do culto, sendo recitado nas solenidades religiosas e festas que lembravam
a renovação da Aliança com Yahweh, a cada sete anos no contexto da festa dos Taberná-
culos (Dt 31.10ss.). De acordo com a tradição do Sinai, estas leis apodíticas (em especial
o decálogo – Os dez mandamentos) – eram recitadas nestas ocasiões festivas.

O “direito casuístico” de Israel possui forma e conteúdo muito semelhante a outros códi-
gos legislativos do Antigo Oriente, com correspondências até mesmo literais, como a do
Código de Hamurabi (1700 AEC), que tem datação superior a 500 anos antes da ocupa-
ção de Israel, então, é bem anterior aos eventos do êxodo do Egito.

Do conjunto legislativo também fazem parte as leis sacerdotais e cúlticas. Os rituais dos
sacrifícios, quanto aos elementos e seus propósitos, formato da cerimônia e tudo isto
vem descrito nas leis levíticas. Lv 1-5 é a base que orienta os leigos sobre os procedi-
mentos dos sacerdotes.

Estas leis foram formatadas quando a religião monoteísta de Israel estava num processo
mais amadurecido, sendo senso comum na
pesquisa histórico-social que as leis sacerdo-
tais são as últimas a entrarem no conjunto da
Torá. As leis apodíticas e casuísticas seriam
muito anteriores às leis sacerdotais.

Todas estas leis, antes de integrarem, os


grandes livros, integraram conjuntos de pre-
ceitos jurídicos menores, coleções denomina-
das como Códigos. O Código da Aliança, por
exemplo, é considerado a primeira “Constitui-
ção” do Antigo Israel e abrange Êxodo 20,22 –
23,31.

O Código Deuteronômico é considerado por


alguns autores como a segunda “Constituição”
do Antigo Israel e abrange os capítulos Dt 12-
26. Neste código há repetição de vários dos
preceitos do Código da Aliança, porém em
versão revista e ampliada por meio de frases
explicativas e exortativas, com sendo uma
“pregação” da lei.

A Lei da Santidade também é uma espécie de pregação sobre leis mais antigas baseada
no princípio: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. Os caps. 1-16
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de Levítico reúnem diversas coleções menores com disposições rituais.


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UNIDADE 2
OS DIFERENTES CÂNONS DO AT

2.1. Cânon hebraico, protestante e católico do AT

Os estudos introdutórios sobre o AT dificilmente fazem uma análise comparativa mos-


trando a diferença entre os cânons do AT. No gráfico abaixo se tem uma distribuição dos
livros em cada cânon segundo a ordem de disposição em cada bíblia.

HEBRAICO PROTESTANTE CATÓLICO


1. Gênesis 1. Gênesis 1. Gênesis
2.Êxodo 2.Êxodo 2.Êxodo
3.Levítico 3.Levítico 3.Levítico
4.Números 4.Números 4.Números
5.Deuteronômio 5.Deuteronômio 5.Deuteronômio
6. Josué 6. Josué 6. Josué
7. Juízes 7. Juízes 7. Juízes
8. Samuel 8. Rute 8. Rute
9. Reis 9. I Samuel 9. I Samuel
10. Isaías 10. II Samuel 10. II Samuel
11. Jeremias 11. I Reis 11. I Reis
12. Ezequiel 12. II Reis 12. II Reis
13. Os doze: 13. I Crônicas 13. I Crônicas
a) Oséias
b) Joel 14. II Crônicas 14. II Crônicas
c) Amós 15. Esdras 15. Esdras
d) Obadias 16. Neemias 16. Neemias
e) Jonas 17. Ester 17. Tobias
f) Miquéias 18. Jó 18. Judite
g) Naum 19. Salmos 19. Éster (+)
h) Habacuque 20. Provérbios 20. I Macabeus
i) Sofonias 21. Eclesiastes 21. II Macabeus
j) Ageu 22. Cantares 22. Jó
k) Zacarias 23. Isaías 23. Salmos
l) Malaquias 24. Jeremias 24. Provérbios
14. Salmos 25. Lamentações 25. Eclesiastes
15. Jó 26. Ezequiel 26. Cantares
16. Provérbios 27. Daniel 27. Sabedoria
17. Rute 28. Oséias 28. Eclesiástico
18. Cantares 29. Joel 29. Isaías
12

19. Eclesiastes 30. Amós 30. Jeremias


20. Lamentações 31. Obadias 31. Lamentações
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21. Ester 32. Jonas 32. Baruque

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22. Daniel 33. Miquéias 33. Ezequiel


23. Esdras 34. Naum 34. Daniel
24. Neemias 35. Habacuque 35. Oséias
25. Crônicas 36. Sofonias 36. Joel
37. Ageu 37. Amós
38. Zacarias 38. Obadias
39. Malaquias 39. Jonas
40. Miquéias
41. Naum
42. Habacuque
43. Sofonias
44. Ageu
45. Zacarias
46. Malaquias

2.2. Apócrifos, Pseudo-epígrafos e Deuterocanônicos

Os livros deuterocanônicos (considerados pelos reformados como apócrifos mas pelos


católicos como dêuterocanônicos) originaram-se entre o III e I séc. AEC, seus autores
são incertos, mas foram adiciona-
dos à Septuaginta.

A palavra “apócrifo” significa


“oculto”, “escondido”, relacionado
às coisas secretas, ocultas e mis-
teriosas da época. No sentido reli-
gioso, a palavra significa “não genuíno”, “espúrio”. Por isto, apócrifos verdadeiros são os
livros que foram rejeitados por todos os cânons (hebraico, grego, católico e reformado).
Afinados com os apócrifos estão os livros pseudepígrafos ou psdeudo-epígrafos. Estes
são livros que recebem nomes de determinados personagens como sugestão que fossem
estes seus autores, mas na realidade estes autores não são os mesmos do nome do li-
vro, por isso são classificados como pseudo-epígrafos.
Uma relação dos livros apócrifos e pseudo-epígrafos do Antigo Testamento é a seguinte:
1) 1 Livro de Adão e Eva; 2) 2 Livro de Adão e Eva; 3) Livro dos Segredos de Enoque; 4)
livro da Ascenção de Isaías; 5) Conto dos Patriarcas; 6) O martírio de Isaías; 7) Melchi-
zedek; 8) Narração do Dilúvio da Epopeia de Gilgamesh (relato babilônico); 9) O Testa-
mento de Abraão; 10) A Assunção de Moisés; 11) A caverna dos Tesouros; 12) O livro de
Enoque (1 Enoque) – [dividido em: Primeira Parte: o livro dos Anjos; As viagens de Eno-
que; Segunda Parte: as alegorias; Terceira Parte; Quarta Parte; Quinta Parte; Final do
livro]; 13) Testamento dos Doze Patriarcas [dividido em: Testamento de Rúbem: da In-
tenção; Testamento de Simeão: da Inveja; Testamento de Levi: do Sacerdócio e da Pre-
13

sunção;; Testamento mais antigo de Levi (fragmento aramaico); Testamento de Judá: da


valentia, da cobiça material e da luxúria; Testamento de Issacar: da Simplicidade; tes-
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tamento de Zebulon: da Compaixão e Misericórdia; Testamento de Dan: da Raiva e da

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Mentira; Testamento de Naftali – da Bondade; Testamento de Neftali: segundo a crônica


hebraica de Jerchmeel); Testamento de Gad – do Ódio; Testamento de Aser: do duplo
aspecto da maldade e da virtude; Testamento de José: da castidade; testamento de Ben-
jamin: da Reta Intenção]; 14) O hino da pérola; 15) Sobre a Origem do Mundo; 16) O
livro dos Jubileus.
Qual seria a importância dos apócrifos e pseudo-epígrafos para a exegese bíblica? Bem
grande, por incrível que pareça. Isto porque eles são coleções de livros estreitamente
vinculadas com a tradição oral. Nunca foram canonizados porque os grupos encarregados
de fechamentos de cânon entenderam que estes textos não eram autoritativos para a
vida teológica da nação, mas as comunidades populares em suas épocas sempre os tra-
tou com a mesma importância ou grau de grandeza, em alguns casos, preferiu estes li-
vros aos livros oficiais.

Estes livros funcionam para a exegese como fontes paralelas ou fontes secundárias, re-
flexo da mentalidade dos narra-
dores da tradição oral. É sempre
um exercício interessante consul-
tar os apócrifos e pseudo-
epígrafos sobre um assunto re-
gistrado num livro canônico. O
livro canônico é a “versão oficial”
da história e os outros livros são
“literatura do povo”, a literatura
oficiosa e possuem forte vínculo
com a história da recepção do texto. Além disso é uma literatura muito interessante para
conhecer como se perpetuavam as tradições orais nos tempos bíblicos sem a interferên-
cia do processo canônico.
Os deuterocanônicos originais na Septuaginta são em número de quatorze escritos, dez
livros completos e quatro acréscimos a livros já canônicos. Após o concílio de Trento a
Igreja Romana legitimou apenas onze escritos, a saber: sete livros completos e quatro
acréscimos.

Os livros preservados

1) Tobias (depois do livro canônico de Esdras);


2) Judite (depois de Tobias);

3) Sabedoria de Salomão (depois do livro canônico de Cantares);


4) Eclesiástico (depois do livro de sabedoria);

5) Baruque (depois do livro canônico de Jeremias);


6) 1 Macabeus
14

7) 2 Macabeus
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Os acréscimos preservados

1) Ester (em Ester 10.4-16.24);

2) Cântico dos 3 Santos Filhos (em Daniel 3.24-90)


3) História de Suzana (em Daniel cap. 13);

4) Bel e o Dragão (em Daniel cap. 14).

2.3. Manuscritos do AT

As cópias dos manuscritos originais do Antigo Testamento foram escritas em pergaminho


ou papiro. Até a descoberta dos Rolos do Mar Morto, em 1947, não possuíamos cópias do
Antigo Testamento anteriores a 895 EC, ou seja, o manuscrito mais antigo do AT era da-
tado 9 séculos depois do advento de Cristo.

Por que isto aconteceu? Os judeus escribas e copistas, encarregados da preservação do


texto sagrado, fazem seu trabalho com enorme reverência e temor. Quando uma cópia
do texto sagrado sofria danos, ficava ilegível, rasgava ou manchava, eles providenciavam
outra cópia perfeita, consagrada, escrita com tinta e pena novas e destruíam a cópia an-
tiga, enterrando a versão anterior. O trabalho dos escribas e copistas eram submetidos a
uma bateria de exames extremamente rigorosos que não toleravam mudanças, acrésci-
mos ou exclusões de palavras. Todavia, o hebraico bíblico foi deixando de ser usado no
uso rotineiro, sendo uma língua litúrgica que por pouco não desapareceu completamente.

Um texto consonatal sem sinais vocálicos ganhou o nome de texto proto-massorético


e passou a ocupar papel central no judaísmo a partir do século II EC. Os massoretas
acrescentaram os acentos vocálicos ao texto consonatal, entre 600 e 950 EC, padroni-
zando a pronúncia do texto do Antigo Testamento e preservando-a naquilo que conhe-
cemos hoje como texto massorético. O texto massorético (TM) é o texto hebraico ori-
ginal que usamos para a realização da exegese.

Este texto consonatal com sinais vocálicos recebe este nome por causa das massoras,
anotações estatísticas e compa-
rativas feitas pelos escribas (ao
lado do texto original) como sín-
teses e comentários aos textos
principais. Estes escribas conta-
vam a quantidade de palavras e
letras por linhas, capítulos, livros
e divisão de blocos para manter a
precisão e garantir a preservação
de cada letra escrita do texto
sagrado.
15

Por estes motivos de substituição de originais e alterações da grafia com o uso dos sinais
vocálicos e com as notas das massoras, sendo estes processos bem posteriores aos tex-
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tos originais, os pesquisadores histórico-críticos lançaram inúmeros questionamentos


científicos sobre a confiabilidade de um texto “original” do AT cuja datação era de pelo

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menos 1000 anos depois de sua história. Perceber este momento das ciências bíblicas
(influenciado pelo positivismo do século XVIII e XIX) é importante para reconhecermos
que nível de transformação na crítica bíblica ocorreu com a descoberta dos documentos
de Qumram conhecido como os Rolos do Mar Morto.

Os três primeiros rolos de couro encontrados em cavernas de Qumram foram descober-


tos entre 1946-1947 (TRAVER, 1966, p.9) por jovens pastores beduínos e trouxe à luz
uma descoberta que desestruturaria grande parte do ceticismo promovido pela alta críti-
ca bíblica sobre a legitimidade dos manuscritos-cópia datados do século IX EC.

Os manuscritos de Qumram são provas de um texto hebraico original tão antigo quanto a
tradução grega do AT, a LXX, de 200 AEC. E mais: apresentava fragmentos de todos os
livros do AT, exceto o livro de Ester e era plenamente consonante com a cópia do texto
bíblico de 1000 anos depois. Ou seja, foram descobertos fragmentos de manuscritos tão
antigos que não possuíam sinais massoréticos, que comprovavam que os manuscritos-
cópias mais antigos do século IX e já com sinais massoréticos, não tinham sido adultera-
dos e eram confiáveis.

Outros instrumentos antigos de verificação do texto hebraico incluem a Septuaginta, os


Targumins Aramaicos (paráfrases e citações do Antigo Testamento), citações em autores
cristãos da antiguidade, a tradução latina de Jerônimo (a Vulgata, 400 EC), feita direta-
mente do texto hebraico corrente em sua época.

A proporção de material original disponível do AT comparado com o NT é bem discrepan-


te. No AT são poucos os manuscritos originais. Contamos com o Texto Massorético, O
Pentateuco Samaritano, Os manuscritos de Qumram, O Papiro de Nash, a Gueniza do
Cairo. Os demais textos do AT são traduções feitas para o grego (Septuaginta, Teodo-
cião, Áquila, Símaco e a Héxapla de Orígenes), aramaico (Targumins), siríaco (Peshita),
latim (Vetus Latina, Vulgata Latina) e outras traduções menores (Cóptica, Gótica, Armê-
nica, Etiópica). (MAINVILLE, 1999, p.22-29)

Mais de 5.000 manuscritos do NT existem ainda hoje (e isto torna sua crítica textual mais
complexa), o que o torna, também, o mais bem documentado dos escritos antigos. Além
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de existirem muitas cópias do Novo Testamento, muitas delas pertencem a uma data
bem próxima à dos originais. Há aproximadamente 75 fragmentos de papiro datados
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desde 135 EC, até o oitavo século, possuindo partes de 25 dos 27 livros do Novo Testa-
mento, num total de 40% do texto total.

2.4. Traduções do AT

Como visto acima, existem diversas traduções do AT que são relevantes para a pesquisa
exegética, principalmente para o capítulo sobre crítica textual que será estudado na dis-
ciplina: Métodos Exegéticos. Cabe, todavia, um destaque para duas versões traduzidas
que, sempre que possível, devem ser consultadas pelo exegeta, a Septuaginta e a Vulga-
ta Latina.

2.4.1. A Septuaginta (LXX)

Primeira tradução dos escritos do Antigo Testamento hebraico para o grego, produzida
em Alexandria, no século III-II AEC, a pedido de um dos reis macedônicos do Antigo Egi-
to, Ptolomeu II Filadelfo.

Durante o seu reinado, os judeus receberam privilégios políticos e religiosos totais. Tam-
bém foi durante esse tempo que o Egito passou por um grande programa cultural e edu-
cacional, sob o patrocínio de Arsínoe, esposa e irmã de Ptolomeu II. Nesse programa
inclui-se a fundação do museu de Alexandria e a tradução das grandes obras para o gre-
go.

A Septuaginta (versão dos 70) tomou esse nome pelo fato de ter sido realizada por 70
anciãos, trazidos de Jerusalém para Alexandria exclusivamente para a tarefa. Segundo a
lenda, estes 70 anciãos teriam trabalhado separadamente e o produto de seu trabalho
teria sido 70 versões exatamente iguais do AT.

A LXX Foi rechaçada pelos segmentos conservadores, que


viram a iniciativa como uma profanação ao texto hebraico.
A Septuaginta incluía não apenas o cânon hebraico, mas
também outras obras judaicas, em sua maior parte escri-
tas nos séculos II e I AEC, em hebraico, aramaico e gre-
go.

A Septuaginta serviu de fundo para as traduções latinas a


para as outras línguas porque durante muito tempo ela foi
o principal original do AT. Tornou-se também uma espécie
de ponte religiosa colocada sobre o abismo existente entre
os judeus (de língua hebraica) e os demais povos (de lín-
gua grega). O Antigo Testamento da LXX foi o texto usado
pelos cristãos dos primeiros séculos por ser a versão gre-
ga, língua falada em todo o mundo, acessível a judeus e
17

gentios, diferente do antigo hebraico que já vinha sendo


substituído no cotidiano pelo aramaico.
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2.4.2. A Vulgata Latina

Foi a tradução dos escritos do Antigo e do Novo Testamento para ao latim, realizada por
Sofrônio Eusébio Jerônimo (São Jerônimo), no século IV EC, a pedido de Dâmaso, bispo
de Roma. Contém toda a Bíblia Cristã, incluindo os
livros do NT.
Para o NT a Vulgata Latina, foi uma revisão de vá-
rios textosada Antiga versão latina (Vetus Latina),
que surgiu na segunda metade do século IV causan-
do confusões interpretativas e conflitos doutrinários,
o que levou o bispo de Roma a pedir uma revisão da
tradução (366-384 EC). O resultado desse grande
esforço foi a Vulgata Latina, que recebeu muitas
críticas e ataques dos ortodoxos, principalmente de
Santo Agostinho, que só mais tarde reconheceu o
valor do documento.

São Jerônimo passou trinta e oito anos de sua vida


dedicados ao exame e tradução das Escrituras Sa-
gradas. Nos séculos seguintes a Vulgata passou a
ser a edição predominante da Bíblia para os cristãos
e assim permaneceu por toda a Idade Média. Tam-
bém serviu de base para a maioria dos tradutores da Bíblia, anteriores ao século XIX.
Jerônimo é considerado pela Igreja Católica como o padroeiro dos biblistas e exegetas.

Lutero suprimiu os deuterocanônicos do cânon protestante. A Igreja Romana (em 1546


no Concílio de Trento) após a Reforma, reprimindo o questionamento da supressão des-
tes livros feita por Lutero, reforçou a legitimação dos deuterocanônicos em sua Bíblia.
Após o ano 1629 os protestantes passaram a adotar a supressão dos deuterocanônicos
de maneira uniforme.
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UNIDADE 3
OS BLOCOS LITERÁRIOS DO AT

Para entendermos o processo de canonização dos escritos do AT, precisamos nos desco-
lar da estrutura e ordem dos livros das bíblias católicas e protestantes. As bíblias católi-
cas tem a mesma ordem de livros no AT que as bíblias protestantes, a diferença está na
inclusão de livros deuterocanônicos que as bíblias protestantes não possuem. Mas ambas
tem uma disposição de livros diferentes da que consta na Bíblia Hebraica.

Nas bíblias cristãs, os livros estão divididos em Pentateuco, Históricos, Poéticos, Profetas
Maiores e Profetas Menores, ao todo cinco divisões. Na Bíblia Hebraica a divisão é de
apenas três blocos: Lei (Torá), Profetas (Nebiim) e Escritos (Ketuvim). Esta é a divisão
que será seguida na exegese de qualquer livro do AT, por uma questão de fidelidade ao
texto original.

Há também uma diferente concepção de livros proféticos no AT entre as bíblias protes-


tantes e a Bíblia Hebraica, pois para os judeus os livros proféticos são os que registram
ações e ditos dos profetas, e não apenas os ditos, nisto incluem-se também os livros de
Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis. Exis-
te na estrutura literária hebraica uma constru-
ção tripartida, muitos pensamentos, frases,
estruturas e blocos de livros são agrupados em
três. Num compêndio como o AT, o bloco cen-
tral é sempre o mais importante, isto é, os
profetas e sua pregação constituem o pilar
central da teologia do Antigo Israel. A Torá é
colocada à frente, como moldura, fazendo par
com o bloco dos Escritos, como forma de ensi-
nar o povo a cumprir o que foi ensinado e admoestado pelos profetas.

A distribuição interna dos livros no AT dentro dos blocos literários da Bíblia Hebraica, co-
mo já visto na primeira unidade, fica da seguinte forma (incluindo seus sub-blocos):

2. Lei (Torah):
 Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio
3. Profetas (Nebiim)
 Profetas Anteriores: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Samuel
 Profetas Posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze Profetas (Oseias,
Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Za-
carias, Malaquias).
4. Escritos (Ketuvim)
 Poéticos: Salmos, Jó, Provérbios.
 5 Rolos (Meguilot, os livros que são lidos nas festas): Rute, Cântico dos Cânti-
cos, Eclesiastes, Lamentações, Ester.
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 Apocalíptico: Daniel
 Históricos: Esdras, Neemias, 1 e 2 Crônicas
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4.1. A Torá

A primeira divisão no cânon reformado (Lei ou Torah) também coincide com a primeira
divisão do cânon hebraico e abrange os primeiros cinco livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo,
Levítico, Números e Deuteronômio. Também é conhecida como Pentateuco, uma ex-
pressão derivada do grego pentateuchos que significa livro de cinco volumes. Torá (ou
Torah, na transliteração mais fiel ao hebraico) significa Lei.

Os nomes dos livros do Pentateuco em português são derivados dos títulos gregos de
cada livro constantes na Septuaginta, pois em hebraico o nome de cada livro é exata-
mente a primeira palavra encontrada naquele livro.

Os exegetas de linha histórico-social situam a redação da Torá no período exílico ou ime-


diatamente posterior ao exílio, pois quando Esdras trouxe a lei de Deus e a leu diante do
povo pressupõe-se que seja a Torá completa ou quase completa (KONINGS, 1997, p.
70).

O Pentateuco completo, não apenas a Lei, mas incluindo as partes narrativas, só pode
ser comprovado a partir do séc. II AEC Isto significa que, a referência à Lei de Esdras
(mencionada em Ne 8-9) dificilmente seria todo o conjunto da Torá mas sim, uma pri-
meira compilação de alguns segmentos de leis específicos dentro do compêndio final da
Torá, que só ficaria pronta alguns séculos depois. (CRUSEMANN, 2002, p. 452).

O conteúdo literário, como visto anteriormente, compreende narrativas históricas (Ex.


17,8-13), códigos de leis (Ex. 20,1-10; Ex. 20,22- 23,33) e poesias (Ex. 15,2; Nm 10,35
e 36).

Sincronicamente, estes livros tratam das origens de


tudo que será narrado no restante da Bíblia Hebraica. A
origem do planeta, da humanidade (Gn 1-11), do peca-
do (Gn 3) do povo de Israel por meio do chamado dos
patriarcas (Gn 12-50), das leis de Israel (Ex, Lv, Nm),
da teologia de Israel (Dt) e enfim, da terra de Israel
(Josué), ou seja, os fundamentos da história de Israel
com seu Deus.

A Teologia da Torá sintetiza a seguinte relação de Israel


com seu Deus: Yahweh é um Deus libertador. Este
Yahweh é o mesmo Deus dos pais: Abraão, Isaque e
Jacó. Este é o Deus que ouviu o clamor do seu povo
Israel no Egito e com ele fez uma aliança de livrá-lo da
servidão e conceder-lhe uma terra onde pudesse se
20

estabelecer como nação.


Página

Yahweh é Deus único (Dt 6,4) e este Deus possui também as seguintes características: É
um Deus que age (Ex. 3,8 e Dt 7,8), é um Deus vivo (Dt 5,26), é o Deus que cria tudo e
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a todos (Gn. 1,1ss), é um Deus ético (Gn. 15;18; 17,7-10; 18,25) e é um Deus que rei-
na (Ex. 24,9-13).

Na próxima unidade veremos uma síntese de cada um dos livros. É importante notar a
maturidade teológica do Deus Yahweh apresentado na Torá, O Yahweh apresentado pela
Torá é a “versão finalizada” do Deus dos Pais que foi recebendo valores agregados de
acordo com o grupo humano que o adotava como Deus.

A teologia da Torá é uma teologia sofisticada, baseada numa maturidade relacional de


Israel com Deus, desenvolvida a partir de sua história entre o Egito e o pós-exílio babilô-
nico.

4.2. Os Profetas (Nebiim)

Os livros proféticos na Bíblia Hebraica estão divididos em dois blocos: Profetas Anteriores
e Profetas Posteriores. Vejamos a diferença conceitual entre um e outro bloco.

3.2.1. Profetas Anteriores

Também conhecido como Obra Historiográfica Deuteronomista (OHD) surge como litera-
tura produzida pelo remanescente do povo de Israel que ficou residindo no território de
Judá durante o período do Exílio (597-538 AEC), quando grande parte do povo fora de-
portada. O complexo historiográfico teve seu acabamento final no pós-exílio

Dezenas de autores fizeram parte deste complexo, pois ele reúne os escritos sobre os
primeiros profetas que atuaram durante a monarquia ou ainda no período dos juízes.

Estas narrativas só puderam estar presentes neste


compêndio devido à fiel tradição das escolas de
profetas (presente no Reino do Norte) de manterem
coletadas as crônicas de seus mestres (I Sm 10,5-
13 e 19,18-24). Muitos dos livros que serviram de
fonte para a OHD perderam-se no tempo e deixa-
ram de existir muito antes da canonização destes
escritos: (Livro dos Justos, citado em Js 10,13 e II
Sm 1,18)

A OHD segue a cronologia dos acontecimentos his-


tóricos de Israel desde o período da ocupação de
Canaã, passando pela liderança dos juízes, monar-
quia do reino unido e dividido até chegar ao mo-
mento da deportação para Babilônia e destruição de
21

Jerusalém. Isto abrange um período superior à


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meio milênio (1200 à 587 AEC).

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O complexo literário surge com uma intencionalidade teológica irrefutável. Israel precisa-
va entender que a deportação da terra da promissão, da herança de Yahweh era resulta-
do da deslealdade do povo com a Aliança de Yahweh.

Os profetas durante toda sua existência atuaram convocando o povo ao arrependimento


e à lealdade com a Aliança feita com Deus. Sob a luz do Deuteronômio (daí o título da
obra) Israel faz releitura de sua história desde o momento da conquista da terra até o
momento da destruição de Jerusalém e do Templo. O reforço sobre o “ciclo de infidelida-
des” de Israel com Yahweh é sempre muito bem documentado na OHD.

3.2.2. Os Profetas Posteriores

Antes de apresentar cada livro, é necessário especificar a diferença de concepção de li-


vros proféticos entre a Bíblia Hebraica
e a Bíblia Cristã. Há livros que os pro-
testantes consideram proféticos (como
Lamentações e Daniel), mas que não
são considerados como proféticos na
Bíblia Hebraica. A exposição que fa-
remos aqui parte do paradigma literá-
rio da Bíblia Hebraica.

Biblistas conservadores costumam


apresentar a diferença entre os cha-
mados Profetas Maiores e Menores
(distinção que só existe na concepção
cristã de cânon) com a importância da
profecia ou o tamanho do relato profé-
tico.

Por exemplo: Isaías, Jeremias e Eze-


quiel seriam Profetas Maiores porque
suas profecias tiveram abrangência
ampla para vários períodos da historia de Israel e os menores para pequenos períodos.

Apesar de este argumento ser lógico, não existem profetas “menores” para a Bíblia He-
braica, pois a profecia é o eixo central da Bíblia Hebraica e toda ela é importante. Os Pro-
fetas Anteriores contam a história ocorrida durante a atuação dos profetas e os Profetas
Posteriores documentam aquilo que os profetas falaram, esta é a diferença na concepção
hebraica.

Os Profetas Posteriores pregam sobre o presente e sobre o futuro. Seus oráculos, ações
simbólicas e visões ocorrem em grande quantidade. Eles surgem na história israelita num
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momento em que a credibilidade das palavras proféticas estava muito afetada pelo gran-
de número de falsos profetas (bastante mencionados principalmente em Jeremias e Eze-
Página

quiel).

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Era necessário um registro criterioso dos oráculos e visões para que se pudesse compro-
var no futuro se aquele profeta tinha, de fato, falado da parte de Deus ou era um falso
profeta e para isto elas precisavam estar anotadas (Dt 18,19-22).

Também é preciso entender, ainda que panoramicamente, como aconteceu o fenômeno


profético dentro de Israel pois a profecia era um fenômeno presente também nos povos
vizinhos que não temiam a Yahweh (SICRE, 1992, p.230).

Muito possivelmente existiram outros “homens de Deus” em períodos pré-mosaicos e


em Israel que podem ser chamados de profetas, mas deles não temos registros senão
pequenas menções aos patriarcas.

No período dos Juízes destacam-se Débora e Samuel. O profetismo desta época encon-
tra-se total e diretamente relacionado com a polí-
tica libertadora de possessão sobre Canaã. Tam-
bém se verificam neste período grupos de profetas
que viviam em comunidades, transitavam ao som
de músicas, frequentavam os locais de culto e
muito provavelmente estavam presentes em locais
de batalha. Eles provinham da escola de profetas
de Samuel.

No período seguinte, que vai dos inícios da monar-


quia até o séc. VIII AEC, o profetismo foi passando
por uma mudança de perfil. Inicialmente os profe-
tas passaram a ser mais próximos fisicamente dos
reis, mas em compensação possuíam um distanci-
amento crítico dos mesmos, com pouco poder de
interferência nas atitudes erradas dos reis de Isra-
el e Judá. Eles eram comprometidos, acima de
tudo, com a Palavra de Deus e tinham que proferi-
la ao governante, sendo ela de aprovação ou re-
provação, é o que percebemos em Natã e Gad no período de Davi.

Depois os profetas começam a se distanciar do monarca, ficando cada vez mais ausentes
da corte, embora eles ainda realizassem marcantes intervenções junto aos governantes
(é o caso de Aías de Silo e Miquéias ben Jemla).

Com o aumento da corrupção dos governantes os profetas aproximaram-se cada vez


mais do povo oprimido e colocaram-se em oposição aos governantes corruptos. Vemos
estes exemplos nas pessoas de Elias e Eliseu e os profetas que se seguem como Amós e
Oséias nos séculos VIII e VII AEC.
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As escolas de profetas que já existiam desde a época de Samuel tornaram-se cinturões


de resistência diante da corrupção espiritual, econômica e política, impostas pela dinastia
de Amri no Reino do Norte e também pela linhagem de Davi no Sul.

O século áureo da atuação profética é o VIII AEC, pois a partir deste período o profetis-
mo sofreu uma guinada radical. É neste período que a profecia em si (e não apenas os
atos dos profetas) passaram a ser escritas, para serem confirmadas depois de cumpri-
das.

Amós foi o primeiro a denunciar que o “sistema está todo podre” e o juízo de Deus co-
meça pela sua casa. Deste período são também Isaías (histórico), Miquéias e Oséias. Isto
prevalece até Jeremias e Ezequiel (séc VI AEC).

A partir do exílio a profecia começa a ter uma conotação maior de consolo e restauração
da nação israelita. Os profetas do pós-exílio como Ageu, Malaquias e Zacarias trabalham
em função da centralização do culto no
templo e da restauração da nação.

Estudos histórico-sociais tem sinalizado


uma divisão redacional interna nos livros
proféticos, divisão por camadas literárias
feitas em processos de releitura que
seguiram a redação da primeira camada.

Por exemplo, o livro do Profeta Isaías


possui três blocos literários que foram
escritos em épocas bem diferentes e
foram classificados pela exegese social
como três livros diferentes, mas que
posteriormente foram todos agrupados
sob o nome do Isaías histórico que viveu
no séc. VIII AEC.

Ao todo, foram necessários praticamente 300 anos para que todo o complexo literário
chamado Isaías fosse terminado. Outros livros como Jeremias, Zacarias e Ezequiel tam-
bém possuem camadas redacionais de datações diferentes que serão aprofundadas em
outra disciplina. Seguiremos esta lógica ao introduzir cada livro dos Profetas Posteriores.

4.3. Os Escritos (Ketuvim)

Os escritos são todos os demais livros do AT e entre eles há uma divisão bem diferente
dos livros daquela adotada pelas bíblias protestantes.
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Os Ketuvim contem livros poéticos que encontram-se agrupados no conjunto da literatu-


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ra sapiencial, a saber: Jó, Salmos, Cântico dos Cânticos e Lamentações.

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Os demais livros da divisão poética das bíblias protestantes são, de fato, os escritos sapi-
enciais, escritos em formato de preceitos (Provérbios e Eclesiastes) ou em formato de
novelas (Rute, Ester). A literatura sapiencial é fruto da existência de uma doutrina sapi-
encial em Israel e consequentemente de uma escola sapiencial.

A doutrina sapiencial propriamente dita nasceu durante o reinado de Salomão, con-


temporaneamente à fase de aperfeiçoamento do Estado, na corte real e nos círcu-
los dos funcionários que se tornavam numerosos, e foi cultivada na escola sapienci-
al, cuja existência se deve presumir, pelo menos em Jerusalém (SELLIN E FOHRER,
1977, p. 456).

Esta doutrina e escola visavam formar o homem tanto culturalmente quanto moralmen-
te. Sob tal doutrina deve-se governar e viver. Esta é uma polêmica encontrada em Isaías
quando denuncia os sábios que vivem diferentemente de sua doutrina (Is. 5:20s;
29:14; 31:1-3). A literatura sapiencial será o fruto destes ensinamentos.

Salomão é considerado o pai da escola sapiencial (I Rs 5:12-13), daí a tradição atribuir a


Salomão os livros de Cantares, Provérbios e Eclesiastes mas não podemos atribuir a au-
toria de todos estes livros sapienciais à ele pois os escritos são de épocas diferentes e
muito posteriores.

Seguindo o complexo de livros sapienciais (poéticos, preceitos e novelas), encontramos o


único livro apocalíptico do AT, o livro de Daniel, escrito com um propósito muito específi-
co de injetar a fidelidade no povo em tempos de
tribulação e perseguição dos gregos.

Depois do apocalíptico encontramos os chamados


livros históricos da BH ou, a historiografia cronista.
Esta historiografia não é composta apenas pelos
livros de Crônicas, mas também por Esdras e Nee-
mias.

Os livros de Esdras, Neemias, I e II Crônicas, com-


preendem um segundo complexo histórico denomi-
nado Historiografia Cronista (HC). Estes complexo
histórico possui características literárias diferentes e
teologias igualmente diferenciada da OHD.

O conteúdo teológico destes livros é uniforme dentro


do contexto e do corpo historiográfico que ele faz
parte pois é fruto de uma outra época na história de
Israel. Surge quando os deportados já estavam de
volta à Palestina e num período conturbado, no qual
era necessária uma reconstrução da identidade nacional daí a grande ênfase nestes livros
25

em aspectos que visem a preservação étnica/ racial em Israel e as extensas genealogias


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presentes, que servem para mostrar a continuidade do Israel anterior ao exílio e posteri-
or a este (KONINGS, 1997, p. 99)

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Muitos autores também fizeram parte deste complexo. Logicamente Esdras e Neemias
participaram do processo de redação, pois há trechos narrados na primeira pessoa nos
livros que recebem seus nomes, mas eles não podem ser apontados como únicos redato-
res, pois há muitos trechos nos quais os episódios encontram-se narrados na terceira
pessoa, sugerindo que outros narradores tivessem testemunhado os fatos. Acredita-se
que seus autores não eram historiadores, mas sim pessoas fervorosas dos círculos judai-
zantes, com uma interpretação teológica da história de Israel muito própria.

A HC não pretende ser uma reconstrução da história de Israel, já feita pela OHD alguns
séculos antes. Ela quer colecionar alguns testemunhos que endossem toda a atenção na
centralização no segundo templo e na expectativa de ver a dinastia davídica ocupando
novamente o trono em Israel. Esta expectativa messiânica é o foco da teologia da HC. A
conclusão da HC se dá por volta de 300 AEC, tornando-se os últimos livros a integrarem
o AT.

26
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UNIDADE 4
CRONOLOGIAS DA REDAÇÃO DOS LIVROS DO AT

Ao apresentarmos uma introdução panorâmica dos livros do AT, seguiremos a divisão de


blocos da Bíblia Hebraica, incluindo seus sub-blocos e o índice de livros que se encontra
ali.
4.1. Torá

Vejamos uma breve introdução aos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deute-
ronômio.
4.1.1. Gênesis

Título: derivado do grego e significa “princípio”.

Período de formação do livro: foi formado ao


longo de muitos anos, recolhendo as histórias
das origens do mundo e dos patriarcas que
eram perpetuadas através de gerações pela
tradição oral. Os eventos narrados remontam o
período de 2000 – 1500 AEC, mas a coletânea
de narrativas do Gênesis pode ter ganhado este
formato final durante o exílio na Babilônia, entre
587 e 538 e pós exílio.

Autoria do livro: Atribuída a Moisés pela exe-


gese fundamentalista, mas há materiais muito
diversificados e de datações muito diferentes
em todo o livro.

Acontecimentos narrados: Gênesis traz a


narrativa da criação do mundo e a origem da
história da humanidade, a história do pecado e
a promessa de redenção, o dilúvio e a restaura-
ção da Terra (1 – 26). Conta também a origem dos patriarcas de Israel e suas respecti-
vas sagas históricas: Abraão (11,27 – 25,18), Isaque , Jacó (25,19 – 36,43) e José (37 –
50) . É em Gênesis que encontramos a promessa de resgate da humanidade quando
Deus diz que do descendente da mulher seria levantado um que feriria a cabeça da ser-
pente (Gn. 3,15). A partir daí, toda a história dos patriarcas visa explicar a existência do
povo eleito de Deus e de seu propósito para o restante do mundo: “... farei de ti uma
grande nação e te abençoarei, engrandecendo teu nome, de modo que, se torne uma
bênção ... Com teu nome serão abençoadas todas as famílias da terra.” (Gn. 12,1-3).
27

Teologia do livro: Yahweh é o criador de todas as coisas. É ele quem redime o ser hu-
mano do pecado. Ele se revela ao ser humano e escolheu um povo do qual descenderá a
Página

redenção para a humanidade. Ele é o Deus que protege e conduz a existência deste po-
vo.
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4.1.2. Êxodo

Título: também oriundo do grego, significa “ saída”.

Data de formação do livro: exílio na Babilônia, mas os fatos narrados são projetados
para o séc. XIII AEC.

Autoria do livro: atribuída a Moisés, mas há material literário oriundo das tradições:
Javista - J, Eloísta - E, Deuteronomista - D e sacerdotal – P.

Acontecimentos narrados: Compreende o período que vai desde a morte de José até o
primeiro dia do segundo ano após a saída do Egito. Êxodo traz a história do nascimento e
vocação de Moisés, o personagem histórico mais importante para Israel (1-3), a luta de
Moisés e Arão para retirar o povo do Egito (4-11), a celebração da primeira Páscoa (12-
13), a travessia pelo Mar Vermelho (14-15), a construção do Tabernáculo e a celebração
da aliança de Yahweh com seu povo no deserto do Sinai (19-40).

Teologia do livro: Yahweh é o Deus que liberta seu povo da escravidão e lhe dá uma
terra prometida onde Israel será estabelecido como um reino de sacerdotes. A mensa-
gem do Êxodo dá sentido ao restante de toda a Bíblia e é o eixo temático de toda a her-
menêutica bíblica com influência da Teologia da Libertação.

4.1.3. Levítico

Título: também vem do grego: levitikou e significa “acerca de Levi”; título conferido
devido às regras contidas no livro que dizem respeito principalmente à classe de ofician-
tes das liturgias, os filhos de Levi, tribo escolhida por Yahweh para os ofícios cultuais.
28

Data de formação do livro: Como os demais livros do Pentateuco, sua formação pro-
vavelmente acontece no final do exílio. Alguns autores chegam a situar a origem do livro
Página

após o exílio, pois ainda há leis contidas no Levítico de datação mais recente em Israel.

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Autoria do livro: Atribuída a Moisés mas o livro é


composto por escritos dos sacerdotes que foram cole-
tados através dos tempos e que estão alocados no
pós-exílio.

Acontecimentos narrados: O material básico encon-


trado em Levítico são as regras das liturgias. É mar-
cante o caráter de purificação requisitado em qualquer
ato diante de Yahweh. Esta pureza, ou santificação se
faz notar principalmente no Código da Santidade que
se encontra nos cap. 17-26 e é parte central do livro.
Levítico não é uma narrativa histórica mas sim um
manual de procedimentos litúrgicos. Ali encontram-se
as leis sobre os rituais dos sacrifícios (1-7), os rituais
de ordenação de sacerdotes e normas para evitar pro-
fanação (8-10), os critérios de classificação de pureza
e impureza do adorador (11-16) e por fim a Lei da
Santidade (17-26).

Teologia do livro: Yahweh é um Deus santo e requer


a santidade também de seu povo escolhido para com
ele ter comunhão.

4.1.4. Números

Título: o título também advém do grego: arithrnói, que significa números. Ganhou este
título na LXX devido a afinidade que tem com os dados mais estatísticos da caminhada
no deserto.

Data de formação do livro: Como os demais livros do Pentateuco, sua formação acon-
tece no final do exílio ou início do pós-exílio.

Autoria do livro: Atribuída a Moisés, mas seu conteúdo é de cunho predominantemente


sacerdotal, também há material das demais fontes em Números.

Acontecimentos narrados: Possui várias repetições de leis já contidas em Ex e Lv e


relata também as contagens do povo ocorridas durante a peregrinação. Números destaca
o caráter organizacional do povo, a divisão em tribos, as ordens na caminhada, etc. O
livro pode ser separado em três grande blocos, completando as descrições das institui-
ções descritas em Êxodo, narrando o primeiro recenseamento (1-8), a trajetória do povo
partindo do Sinai (9-25), o novo recenseamento, a divisão da terra prometida e resumo
das etapas das caminhadas até a margem do Jordão (26-36).
29
Página

Teologia do livro: Yahweh é o Deus que conduz o seu povo na caminhada, povo por
Ele próprio eleito e separado. Yahweh é o Deus que ensina o povo a andar em liberdade.

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4.1.5. Deuteronômio

Título: derivado do grego, significa segunda lei.

Data de formação do livro: é provavelmente o livro mais antigo da Torah. A pesquisa


histórico-social tem demonstrado que o Deuteronômio inteiro ou pelo menos o Código
Deuteronômio (12 – 26) foi o livro encontrado pelos servos do rei Josias (II Rs 10-20),
ou seja, pelo menos seu núcleo central tem surgimento conhecido uns 200 anos antes da
composição do compêndio no pós-exílio. Ele é a base de toda a reforma religiosa que
aconteceu a seguir (625 AEC). Como o Deuteronômio é uma segunda lei, deduz-se que a
primeira lei tenha sido o código mais antigo de Israel (Código da Aliança – Ex. 20,22 –
23,19) e que o Código Deuteronômio constitui-se numa versão ampliada do mesmo.

Autoria do livro: o livro também é atribuí-


do a Moisés, mas existem trechos literários
de diversas épocas diferentes, ficando difícil
especificar Moisés como seu único autor. A
tradição oral perpetuou os discursos de
Moisés em forma de cântico, o que garante
a antiguidade “mosaica” desta parte pelo
menos, mas muitas mãos participaram da
autoria do Deuteronômio.

Acontecimentos narrados: o Deutero-


nômio é, sobretudo, uma repetição da Lei
do Sinai entremeada por partes narrativas
e alguns discursos de Moisés no final de sua
jornada. É o livro doutrinário de Israel. Seu
principal conteúdo é o Código Deuteronômi-
co, o complexo de leis encontrado nos ca-
pítulos 12 – 26.

Teologia do livro: Yahweh é um Deus ali-


ançado com seu povo. Para que Israel seja
feliz e mantenha sua posse na terra prometida, deve manter-se fiel à aliança.

4.2. Nebiim (Profetas)

Divididos em Profetas Anteriores e Posteriores, seguindo as sugestões de camadas reda-


cionais de alguns dos livros proféticos, seguem os panoramas dos livros que integram o
bloco profético e central na Bíblia Hebraica, lembrando que, os Profetas Anteriores pos-
suem teor teológico conforme descrito anteriormente sobre a Obra Historiográfica Deute-
30

ronomista.
Página

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4.2.1. Josué

Título: recebe este nome devi-


do à centralidade do persona-
gem Josué, sucessor de Moisés
e líder de várias batalhas de
conquista da terra prometida.

Acontecimentos narrados: A
conquista da terra e a história
de suas batalhas (1-12) e a
partilha da terra (13-21), o re-
torno das tribos transjordânicas
para seus territórios, o último
discurso de Josué, a aliança de
Siquém e a morte de Josué (22-24).

Data dos eventos narrados: Entre 1250 – 1200 AEC.

4.2.2. Juízes

Título: recebe este título devido aos fatos narrados compreenderem eventos ocorridos
durante sob lideranças regionais dos juízes no Israel pré-monárquico

Acontecimentos narrados: resumo dos acontecimentos sob o regime dos juízes que
atuaram em diferentes épocas e regiões na terra de Canaã, durante o processo de se-
dentarização de Israel em sua terra prometida. Conta a história de juízes que lideraram
sobre territórios menores ou como governadores como: Samgar, Tola, Jair, Ibsã, Elon,
Abdon e também dos juízes que atuaram como líderes carismáticos para libertações de
uma região mais ampla de territórios como: Otoniel, Aod, Débora, Barac, Gideão, Jefté e
Sansão. Dois pontos ficam bem claros em Juízes. Um é o quanto da terra prometida nun-
ca foi de fato ocupada por Israel até o momento em que a obra foi escrita (Jz 1,1-2,5 e
2,6-3,6). Um segundo ponto é que há uma descrição clássica do que se chama “ciclo do
pecado”: o povo peca (abandona Yahweh para servir a ídolos), recebe por consequência
o castigo (perde a liberdade e passa a viver sob jugos de outros povos), no limite do so-
frimento o povo se arrepende e clama pela misericórdia de Yahweh, que derrama sua
graça enviando um libertador que restaura a condição liberta de seu povo.

Data dos eventos narrados: 1200 à 1020 AEC

4.2.3. I e II Samuel
31

Título: na LXX estes livros recebem o nome de I e II livros dos reinados mas compreen-
Página

dem um só livro no cânon hebraico.

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Acontecimentos narrados: a pré-história da realeza na época de Samuel (I Sm. 1-


15), os reinados de Saul (15-31), de Davi e sua sucessão (II Sm 1-24). Há um notável
destaque para a atuação das mulheres nas narrativas de Samuel: Ana, Mical, Abigail,
Tamar, etc.

Data dos eventos narrados: período de 100 anos entre 1040 e 971 AEC.

4.2.4. I e II Reis

Título: também compreendem um só livro no cânon hebraico. Recebe este nome devido
porque contem as narrativas dos eventos ocorridos durante a monarquia, com ênfase
sobre o Reino do Norte e tardiamente sobre o Sul.

Acontecimentos narrados: Abarcam os eventos


acontecidos nos dois reinos desde a morte de Da-
vi até a ruína de Samaria em 722 AEC, seguindo
até a destruição de Jerusalém por Nabucodonozor
(586 AEC). Compreende o reinado de dezenove
reis em Israel e um mesmo tanto em Judá ocu-
pando boa parte da narrativa com período de Sa-
lomão (I Rs 1-11), Acab (I Rs 17-22) Ezequias (II
Rs 18-20) e Josias (II Rs 22-23). As sagas dos
profetas também encontram-se narradas com
detalhes nos livros dos Reis: Elias e Eliseu (I Rs
17 – II Rs 13) e Aías (I Rs 14,1-18). Os livros dos
reis enfatizam a bênção de Yahweh sobre os reis
que se mantiveram fiéis à aliança e não adoraram
aos ídolos e a reprovação divina sobre aqueles
que foram infiéis.

Data dos eventos narrados: 971 à 586 AEC

Os Profetas Posteriores são divididos entre os Grandes Profetas e os Doze Profetas, como
será explicado a seguir.

4.2.5. Primeiro Isaías (Is 1- 39)

Título: Isaías – recebe o nome do profeta Isaías. É também chamado de O Livro do Jul-
gamento. Compreende os capítulos 1 – 39 do livro de Isaías.

Atuação do Profeta: Atuou em Judá, no reino do Sul, durante 40 anos nos reinados de
Acaz, Ezequias e Manassés, no período da ascensão do poder da Assíria no contexto
32

mundial e principalmente da destruição do Reino do Norte e unificação de todo o rema-


nescente de Israel em território judaíta.
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Data de formação do livro: entre 740 e 700 AEC


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A Teologia do livro: A santidade de Deus. É dirigida ao rei e ao povo de Judá. Apresen-


ta um Deus totalmente santo, único, transcendente e rei majestoso. Ele executa seu pla-
no no universo, e não está restrito a Israel. As nações são seus instrumentos. Sua san-
tidade se opõe às injustiças sociais praticadas pelos seres humanos e à religiosidade de
aparências.

4.2.6. Segundo Isaías (Is 40 – 55)

Título: também chamado de Dêutero-Isaías ou O Livro da Consolação.

Atuação do Profeta: O Dêutero Isaías foi um profeta anônimo que atuou durante o exí-
lio na Babilônia, dois séculos depois do Isaías histórico. Nunca é mencionado neste livro o
nome de Isaías, não sabemos o nome deste profeta, se foi um discípulo de terceira ou
quarta geração do Isaías histórico ou se foi um outro Isaías, mas o fato é que não sem
trata do mesmo Isaías do primeiro bloco embora sua teologia tenha consonância com a
do Primeiro Isaías. As profecias do Dêutero-Isaías foram inseridas no corpo das profecias
do Isaías histórico, daí serem um só livro em nossas Bíblias.

Data de formação do livro: entre 550 – 539 AEC.

A teologia do livro: O novo êxodo. É dirigida aos exilados na Babilônia. O livro anima o
povo a voltar à Palestina depois do edito de Ciro que liberou o regresso dos exilados por-
que mesmo depois de autorizados, os deportados não se apressaram para voltar e mui-
tos nunca voltaram. Ele enfatiza que Yahweh é o único Deus e Israel é seu povo eleito
33

com o objetivo de ser luz às nações. É ele quem está pondo fim ao jugo do povo sob o
poder da Babilônia. O povo deve regressar da Babilônia para Judá para ali ser luz para
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todas as nações. Outra teologia importante no 2 Is é a teologia do servo sofredor, um


instrumento de Yahweh para a restauração do povo e das nações.
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4.2.7. Terceiro Isaías (Is 56 – 66)

Título: também conhecido como Trito-Isaías ou “O Retorno dos Exilados”.

Atuação do Profeta: Este profeta também anônimo atuou no período entre a reconstru-
ção do altar e a reconstrução do templo, ou seja entre a atuação de Zorobabel e Neemi-
as. É um teólogo, mais do que um pregador e convida o povo a interpretar com ele os
fatos já profetizados.

Data de formação do livro: 537 – 515 AEC em Jerusalém. O livro é uma reação con-
trária às promessas salvíficas do Dêutero-Isaías. É escrito num contexto social do pós-
exílio muito deprimente e difícil, no qual as promessas anteriores não haviam sido cum-
pridas como se esperava.

A Teologia do livro: É dirigida à comunidade judaica pós-exílica. A restauração da na-


ção, em andamento, não se constituiu num período de justiça e do exercício do direito.
O Trito Isaías traz para o povo a esperança de que num futuro que ele vislumbra este
quadro vai ser invertido e os beneficiários serão exatamente os justos. Ele convoca os
judeus dispersos em todas as nações para a construção de uma sociedade ideal e prega
contra toda espécie de exclusão dentro da comunidade judaica.

4.2.8. Jeremias

Título: recebe o nome do profeta Jeremias que atuou durante os últimos dias de mo-
narquia em Judá.

Atuação do Profeta: atuou entre 627 – 586, no período da queda do domínio da Assíria
e da ascensão da Babilônia no cenário mundial

Data de formação do livro: a compilação do livro deve ter sido imediatamente posteri-
or à atuação do profeta. O livro contém
textos de autoria de Jeremias, de Baruc e
de autores da escola deuteronomista.
Apresenta trechos de difícil compreensão
literária demonstrando uma redação de
primeira camada, sem grandes retoques
redacionais dos processos de releitura,
pois o texto hebraico original é bastante
rudimentar.

Teologia do livro: Uma nova aliança. O


juízo de Deus certamente está vindo so-
bre o povo pecador. Não há saída, a única
34

solução é render-se à disciplina de


Página

Yahweh exercida através do jugo opres-


sor da Babilônia. Não se deve fazer qual-

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quer espécie de aliança com povos estrangeiros supostamente mais poderosos para re-
sistir ao jugo inevitável que vem sobre a nação com permissão de Deus.
4.2.9. Ezequiel

Título: recebe o nome do profeta que atuou entre os deportados na Babilônia

Atuação do Profeta: atuou entre 593 e 571 AEC. Ezequiel foi um sacerdote exilado na
Babilônia, levado junto com a primeira leva de deportados (597) e teve uma atuação
profética junto aos exilados.

Data de formação do livro: anos após o término de sua atuação.

Teologia do livro: um coração novo. A comunidade deportada tinha esperanças de que


em breve voltariam à Jerusalém e tudo voltaria ao normal. Tal qual Jeremias, Ezequiel
mostra ao povo que os pecados cometidos são sérios demais para o castigo ser algo
momentâneo. Entretanto, o profeta vê esperança, de uma verdadeira ressurreição do
povo que reconstruirá um mundo novo (Ez. 36-37). Os passos para a construção deste
mundo novo são: a) Assumir a responsabilidade pelo fracasso da nação, b) Compreender
que a reforma do sistema não soluciona o problema; c) Converter-se a Yahweh e assumir
seu plano para a vida da nação

4.2.10. Os Doze Profetas

Tanto no cânon hebraico como no cânon da LXX o conjunto dos livros que conhecemos
como Profetas Menores recebe a designação de “O Livro dos Doze” ou o Dodekaprophe-
ton. Durante muito tempo o sentido da unidade dos doze profetas ficou sendo tratado em
segundo plano no estudo do profetismo. Apenas mais recentemente, na última década, é
que os pesquisadores voltaram a dar
atenção à esta estrutura e ao propósito
de sua unidade.

Os “Profetas Menores” atuaram por perí-


odos mais curtos de tempo e normal-
mente suas profecias denunciavam con-
textos específicos. Amós por exemplo
denunciou a corrupção das lideranças do
Reino do Norte e a injustiça social.
Ageu, por sua vez, denunciou a letargia
dos judeus na reconstrução do templo e
animou o povo a concluir a obra. Desta
forma, a atuação dos Profetas Menores
35

tornou-se mais específica e a dos Profe-


tas Maiores mais genérica.
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Os livros que compõem os Profetas Menores são: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas,
Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Uma pregação comum é observada direta ou indiretamente no Livro dos Doze: O povo de
Israel é exposto por Yahweh a perigos e sofrimentos por causa da perversidade das clas-
ses dirigentes e dos pecados do próprio povo. Aqueles que se abstiverem dos pecados
do culto idolátrico e da corrupção moral no meio do povo de Deus participarão da mu-
dança que Yahweh trará para seu povo. Os rebeldes dentre o povo serão destruídos no
juízo final por ocasião da vinda de Yahweh e uma outra parte dos povos poderá participar
da salvação.

O Livro dos Doze teve o cânon fechado no terceiro século (240 – 220 AEC), quando a
Palestina experimentava uma relativa calmaria, após a terceira guerra síria e antes das
guerras entre Ptolomeus e Selêucidas, que vieram cooperar para a revolta dos Macabeus.
Neste contexto, o Livro dos Doze quer dar ao judeu do séc. III AEC um

direcionamento para o presente e uma previsão, na perspectiva profética, dos


acontecimentos que virão sobre o povo de Deus e sobre os povos em geral. A in-
tervenção definitiva de Yahweh na história, que provocará uma transformação defi-
nitiva no universo já está em ação [...] diante desta mudança universal provocada
pela intervenção de Yahweh está descartado todo e qualquer pactuar com as po-
tências da época, quer por razões de política real ou até mesmo por razões teoló-
gicas. O próprio Yahweh destronará o poder e as potências políticas e militares da
época não subsistirão. [O Livro dos Doze] visa, nesta época, tirar dos habitantes de
Jerusalém e de Judá o medo diante do poder político atual e levá-los a temer o jul-
gamento pelas obras [...] e a esperar a salvação futura para Sião. (BOUZON, s.d.,
p.6).

4.2.10.a. Oséias

Título: nome do profeta que atuou no Reino do Norte do final do reinado de Jeroboão
II até a queda de Samaria

Atuação do Profeta: 750 – 722 AEC

Teologia do livro: Apresenta a relação entre Deus (sempre fiel) (1-3) e seu povo que
o abandonou, preferindo adorar aos ídolos e aliançar-se com as potências estrangeiras
(4,1-3 e 4-19; 5,15 – 6,6; 8,4-7), o que Oséias chama de prostituição espiritual. Se o
povo se converter, o amor leal de Deus o aceitará de volta (11,1-4; 5,15-6,6).

4.2.10.b. Joel

Título: nome do profeta Joel, filho de Fatuel (1,1).

Atuação do Profeta: não há pistas no livro sobre em qual época este profeta teria
atuado. Uma teoria é a de que ele atuou provavelmente em Jerusalém por volta do ano
36

445 EC.
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Data de formação do livro: por volta de 400 AEC.

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Teologia do livro: Uma praga de gafanhotos invade o país. O profeta conclama o povo
ao arrependimento e jejum para que a misericórdia de Deus seja alcançada. Uma segun-
da parte do livro anuncia o dia do julgamento de Deus sobre as nações. Seu horizonte é
escatológico. Parte de uma calamidade concreta para anunciar a transformação escatoló-
gica de Judá e Jerusalém

4.2.10.c. Amós

Título: recebe o nome do profeta Amós, boiadeiro, possivelmente proveniente do Rei-


no do Sul (Técua – Belém).

Atuação do Profeta: contemporâneo de Oséias, atuou entre 760 – 750 AEC no Reino do
Norte.

Data de formação do livro: Há acréscimos redacionais em Amós que não pertencem à


profecia original de Amós, possivelmente o fechamento do livro ocorreu após a destrui-
ção de Samaria (722 AEC).

Teologia do livro: Há oráculos


contra as nações vizinhas e um
principal contra o próprio Isra-
el, com uma dura e irônica re-
primenda contra os abusos so-
ciais realizados pelos podero-
sos e pelos sacerdotes (1-6).
Em seguida há o relato de cinco
visões isoladas do profeta (7-
9:4). O peso profético da pala-
vra de Amós está no ataque
que faz contra as injustiças
sociais (2:6; 3;15; 5:7 e 11-
13; 6:12; 8:5-6, etc.), contra uma religiosidade de aparências e não do coração (4:5;
5:21-23) e a violação do direito dos socialmente mais fracos provocarão o castigo divino
(5:2 e ss., 5:16-17; 6:9-10; 4:1-3; 6:7 e 7:16)

4.2.10.d. Obadias

Título: recebe o nome de um profeta que atuava nas liturgias em Jerusalém, no Reino
do Sul.

Atuação do Profeta: seus oráculos datam do período exílico (séc. VI AEC)


37

Data de formação do livro: é posterior a Jeremias pois os vv. 2-9 fazem parte do
texto de Jeremias (Jr. 49, 7-22).
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Teologia do livro: O dia do Senhor virá sobre os povos que zombaram da derrota de
Jerusalém diante de Nabucodonozor, especialmente sobre os Edomitas.

4.2.10.e. Jonas

Título: recebe o nome de um profeta, filho de Amitai (II Rs 14,25).

Atuação do Profeta: Não se tem registro bíblico dos oráculos proféticos proferidos por
Jonas. Ele é apenas mencionado como alguém que atuou na época de Jeroboão II (783-
743 AEC), possivelmente no Reino do Norte.

Data de formação do livro: O livro não é realmente um livro de ditos proféticos, antes
é uma história pedagógica, contada no estilo sapiencial novelístico de Rute e Ester e
data do séc. IV AEC.

Teologia do livro: O profeta do povo de Deus é escolhido para pregar arrependimento


e o juízo de Deus sobre Nínive, capital da Assíria. Este profeta recusa-se a ir e por isso
uma catástrofe acontece com ele: é engolido por um grande peixe. Arrependido, resolve
obedecer a Deus e, ao pregar o arrependimento, todos na cidade, a começar pelo rei, se
arrependem. Mas o coração de Jonas é impiedoso e se revolta contra Deus porque deseja
ver a destruição de Nínive. O livro termina com uma pergunta de Deus que deve ser res-
pondida dentro do coração de cada um: se somos capazes de ter compaixão de nossas
aboboreiras, será que Deus não pode ter compaixão de um povo que não discerne peca-
do de justiça?

4.2.10.f. Miquéias

Título: recebe o nome do profeta, natural de Morasti, a sudoeste de Jerusalém.

Atuação do Profeta: Atuou entre 750 e 711 AEC.


em Jerusalém, no Reino do Sul. Miquéias estava atuan-
te e testemunhou indiretamente a queda de Samaria
(722).

Data de formação do livro: Miquéias também rece-


beu acréscimos no pós-exílio. O fechamento do livro
pode ter-se dado por volta do séc. V AEC.

Teologia do livro: Ataca violentamente a idolatria e a


injustiça social (1:2-7 e 2:2-11). Acusa os dirigentes
de Judá de desprezarem o direito divino e oprimir o
povo (3:10), denuncia os juízes, sacerdotes e profetas
corruptos (3:10-11) .
38
Página

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4.2.10.g. Naum

Título: recebe o nome do profeta que possivelmente


atuou na profecia cúltica do Templo em Jerusalém.

Atuação do Profeta: atuou posteriormente à queda


de Tebas pela Assíria (663) e anterior à queda de Ní-
nive (612 AEC)

Data de formação do livro: provavelmente o


mesmo período de atuação do profeta.

Teologia do livro: É uma mensagem em forma de


poesia contra Nínive. Yahweh é o Senhor de tudo:
oprimidos e opressores. Dos oprimidos para fazer jus-
tiça, dos opressores para exercer juízo. A destruição
de Nínive é certa.

4.2.10.h. Habacuque

Título: recebe o nome do profeta que atuou nas liturgias do Templo.

Atuação do Profeta: Entre 610 – 600 AEC

Data de formação do livro: por volta de 600 AEC

Teologia do livro: O profeta lamenta a opressão sobre o justo e questiona a justiça di-
vina. Há uma esperança em sua mensagem: a justiça se tornará realidade um dia porque
o Deus que age na história é o Deus dos justos (3:1-19).

4.2.10.i. Sofonias

Título: recebe o nome do profeta que atuou durante os dias de Josias e provavelmente
presenciou os cercos e destruição de Jerusalém em 597-587 AEC.

Atuação do Profeta: 640-630 AEC. no reino do Sul. Há uma divergência em algumas


bíblias sobre a atuação de Sofonias. A TEB situa entre 630 e 587. A Edição pastoral colo-
ca entre 640 e 630. A Bíblia de Jerusalém situa entre 640 e 609. A Bíblia Vozes concorda
ao mesmo tempo com a atuação do profeta entre 640 e 609 e seus oráculos entre 640 e
630.

Data de formação do livro: pode-se prever em algum momento desde sua atuação
até o cerco de Jerusalém, realizado por Nabucodonozor (597-587 AEC)
39

Teologia do livro: Sofonias tem sua mensagem influenciada pelas mensagens de Isaías,
Amós e Miquéias. O Dia do Senhor atingirá principalmente as camadas dirigentes da so-
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ciedade judaica, os verdadeiros culpados da idolatria existente e da injustiça social rei-

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nante. A esperança está na conversão mas apenas o povo pobre e humilde compreende-
rá e procurará refúgio em Deus (3:12-13)

4.2.10.j. Ageu

Título: recebe o nome do profeta que pertencia ao grupo daqueles que regressaram do
exílio babilônico após o edito de Ciro.

Atuação do Profeta: seu período é bem delimitado pelo próprio livro – primeiro dia do
sexto mês até o vigésimo quarto dia do nono mês de 520 AEC.

Data de formação do livro: seguindo seu período de atuação, possivelmente.

Teologia do livro: Ageu tenta interpretar os sinais do tempo em favor da nova comuni-
dade judaica. O Senhor está prestes a salvar seu povo, mas este povo precisa estar en-
gajado na reconstrução do Templo. A fome, a falta de boas colheitas são atribuídas como
conseqüência da falta de interesse do povo pela casa do Senhor.

4.2.10.k. Zacarias

Título: recebe o nome do profeta de linhagem sacerdotal que atuou nos tempos de Es-
dras e Neemias.

Atuação do Profeta: entre o oitavo mês do segundo ano de Dario (520) até o nono mês
do quarto ano do mesmo rei (518), mas provavelmente atuou também até 515 AEC

Data de formação do livro: o livro de Zacarias também é uma coletânea de ditos pro-
féticos que tem datações e autorias diferentes assim como o livro de Isaías. O livro di-
vide-se em Proto-Zacarias (1-8), Dêutero-Zacarias (9-11) e Trito-Zacarias (12-14). O
Proto-Zacarias foi escrito pelo profeta Zacarias , o mesmo de Ed. 5:1 e 6:14. O Proto-
Zacarias teve origem nos anos de sua atuação
(520-525), o Dêutero Zacarias por volta de 300
AEC e o Trito-Zacarias entre 300 e 250 AEC.

Teologia do livro: A salvação escatológica está


próxima. O povo precisa de renovação interior e
viva de acordo com as exigências de Deus.

4.2.10.l. Malaquias

Título: recebe o nome do profeta que atuou no


pós-exílio em Jerusalém.
40

Atuação do Profeta: talvez anterior à reforma


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de Neemias em 445 AEC

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Data de formação do livro: aproximadamente 465 AEC

Teologia do livro: Zacarias quer animar o povo que está desanimado e indiferente reli-
giosamente porque não vira cumpridas as profecias de Ageu e Zacarias. O julgamento
divino é inevitável e pode acontecer a qualquer momento. A comunidade deve estar pre-
parada para este dia e a melhor forma de fazer isto é andar diligentemente nos padrões
morais, éticos e religiosos da lei de Deus.

4.3. Ketuvim

Os Escritos possuem algumas divisões internas que já foram explicadas anteriormente,


todavia é importante relembrar que, entre os escritos sapienciais, encontram-se os livros
poéticos e os livros de preceitos, contendo conselhos e provérbios. Além destes encon-
tram-se as novelas.

Há também o bloco dos Megilot. Os Megilot ou 5 rolos, como são chamados (Rute, Cânti-
co dos Cânticos, Eclesiastes e Lamentações) são os livros lidos nas festas principais do
povo judeu: Tabernáculos (Rute), Purim (Ester), Yom Kippur (Lamentações), Páscoa
(Cântico dos Cânticos), Ano novo judaico (Eclesiastes).

4.3.1. Salmos

Título: significa louvores.

Data de formação do livro: Os Salmos foram sendo concebidos durante um período


superior a 600 anos. A origem de muitos
destes cânticos é antiga, mas a composi-
ção do livro é relativamente recente, por
volta de 300 AEC. O livro de Salmos na
verdade é um conjunto de outros cinco
livros que estão divididos da seguinte
forma:
 1º livro: 1 – 41;
 2º livro: 42 – 72;
 3º livro: 73 – 89;
 4º livro: 90 – 106;
 5º livro 107 – 150.

Autoria do livro: Os Salmos possuem diversas autorias. 73 deles são atribuídos a Davi,
11 aos filhos de Coré, 12 aos filhos de Asafe e os demais a diversos autores, entre eles
Salomão, Etã e Jedutum. Entretanto a preposição le antes do nome do autor dos salmos
atribuídos a Davi em hebraico é bem mais usada como “para” e não como “de”. Isto
significa que, provavelmente, diversos salmos cuja autoria é atribuída a Davi podem ter
41

sido, de fato, dedicados a Davi.


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Teologia do livro: A finalidade do livro de Salmos é a de ser uma coletânea de cânticos


e preces para serem cantados ou orados durante as liturgias O tema central que alinha
toda a mensagem do livro é o conceito da Aliança de Yahweh com seu povo. A Aliança é
um pressuposto para todos os cânticos dos Salmos, pois sem ela não haveria esperança
do fiel no favor de Yahweh, já que não haveria compromisso de Deus com seu povo.
Deus é aquele que está ao lado dos que lutam pela justiça

4.3.2. Jó

Título: recebe o nome do personagem central do livro: Jó, e não de seu autor.

Data de formação do livro: o hebraico de Jó é muito recente e carregado de expres-


sões em aramaico (idioma que os judeus passaram a falar durante o exílio). Isto indica
que o livro provavelmente foi escrito durante o exílio ou no espaço de um século aproxi-
madamente após o primeiro retorno de exilados à Palestina (período que vai de 587 –
438 ou até 300 AEC).

Autoria do livro: Jó é um per-


sonagem muito antigo e tão fa-
moso que assumiu aspectos mi-
tológicos no Oriente Antigo. Jó
não é um judeu e sua saga é
conhecida desde tempos remo-
tos, tanto que em Ez. 14,14 e 20
ele é colocado ao lado de Noé.
Daí alguns autores da escola
tradicional imaginarem que o
livro de Jó é o livro mais antigo
da Bíblia e talvez tivesse sido
escrito por Moisés. Pelo estilo da
escrita, o autor de Jó demonstra
ser um mestre da palavra, pos-
suidor de uma elevada cultura e
um discurso erudito e de época
bem recente, então a tradição
oral sobre Jó pode não ser ori-
unda da Palestina ou de Canaã,
mas da própria Mesopotâmia,
onde estavam os exilados.

A história de Jó: Conta-nos a


história de um homem justo e
muito rico, que adorava a Deus. Basicamente de um dia para outro tem sua sorte muda-
42

da e passa a viver numa miséria só. Tudo isto acontece com a permissão de Deus para
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que, segundo os narradores, Satanás tocasse nos bens de Jó (1-2), Jó é visitado por
seus amigos que argumentam que todo o sofrimento que ele vem passando é fruto de

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seu pecado, o que Jó refuta veementemente enquanto seus amigos se revezam na ar-
gumentação em três diferentes ciclos de discursos (3-27), Deus confronta Jó num discur-
so cosmogônico-ecológico que faz Jó perceber que de fato ele não conhecia a Deus (29-
42,6). O livro encerra com o arrependimento de Jó e sua sorte restaurada (42,7-17).

Teologia do livro: A retribuição é uma teologia presente no discurso dos amigos de Jó,
o que nos leva a delinear uma teologia muito semelhante a dos exilados e do período
pós-exílico quando regressaram para Judá, esta é uma pista para a época em que o livro
foi escrito. O teor do livro quer mostrar que nem todo sofrimento é castigo para alguma
culpa. O livro tem a intenção de contradizer a dogmática sapiencial de que para todo cas-
tigo há uma culpa.

4.3.3. Provérbios

Título: a expressão em hebraico que dá origem ao nome deste livro (Mashal) designa
uma sentença que tem o poder de produzir uma realidade nova ou de fazer reconhecer
uma experiência vital do povo, ou dos sábios e de impô-la como realidade válida. Tal é o
poder do provérbio, daí o nome do livro.

Data de formação do livro: a redação final do livro deu-se por volta do século IV AEC.

Autoria do livro: Muitos provérbios contidos no livro são atribuídos ao próprio Salomão
todavia o livro também contém um apanhado de toda a doutrina sapiencial do Antigo
Israel durante vários séculos, contendo inclusive provérbios de países vizinhos.

Teologia do livro: diversos temas são tratados em Provérbios, mas de modo mais uni-
forme o livro de Provérbios é um convite para se valorizar e adquirir a sabedoria que vem
de Deus.

4.3.4. Rute

Título: recebe o nome da estrangeira moabita que acom-


panha sua sogra na viagem de retorno à Belém depois de
muitos anos habitando em Moab. Rute significa “amiga”,
mas o livro conta a história de Noemi, começa e termina
falando de Noemi. Exegetas de escola histórico social acre-
ditam que o título do livro é uma provocação social.

Autoria: Autores da escola tradicional presumem que Sa-


muel possa ter escrito o livro de, mais recentemente (nos
últimos dois séculos) o estudo das formas e principalmente
do gênero literário tem apontado que é muito provável de
Rute seja um livro de autoria feminina, assim como os
43

demais livros do compêndio dos Megilot, integrando um compêndio intitulado “Pentateu-


Página

co das Mulheres”.

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Acontecimentos narrados: Rute conta a história de uma mulher judia chamada Noe-
mi. Com seu marido e filhos ela migrou para Moab quando havia fome em Belém. Lá
seus filhos se casaram com mulheres moabitas. Faleceram depois o marido de Noemi, e
seus dois filhos deixando três viúvas. A mais velha decide retornar à Belém para recome-
çar a vida e é acompanhada por sua nora Rute (1). A partir daí a narrativa conta deta-
lhes de como foram os primeiros meses de ambas de volta à terra (2), como Noemi tra-
ma um plano para Rute Ter um futuro seguro (3) e como ela mesma, Noemi, acaba sen-
do agraciada tendo um neto chamado Obed, que passa a ser considerado seu filho e que
virá a ser o avô do rei Davi (4). Rute é um livro para ser lido na perspectiva da justiça de
Deus em favor dos pobres.

Data dos eventos narrados e data do livro:. Como se trata de uma ancestral do rei
Davi, talvez possamos situar os acontecimentos em algum lugar do séc. XII ou XI AEC
Mas o livro foi escrito somente no pós-exílio (entre 450-400 AEC).

4.3.5. Cântico dos Cânticos

Título: A designação Cantares de Salomão para este livro não está baseada no original
hebraico, cuja tradução literal é o Cântico dos Cânticos, o mais imponente dos cânticos.

Data de formação do livro: O livro é recheado de linguagem aramaica (a língua falada


pelos judeus durante o tempo na Babilô-
nia e a partir daí) e traz elementos gre-
gos e irânicos, o que coloca a origem do
livro por volta do séc. V ou IV AEC.

Autoria do livro: Devido à época de


surgimento do livro, sua autoria dificil-
mente pode ser de Salomão. A autoria é
atribuída a ele - como grande parte da
literatura sapiencial também o é - porque
o relato de I Rs. 5,12 diz que Salomão
compôs mil e cinco cânticos, há algumas
referências à Salomão e sua corte no
decorrer do livro, mas ele é narrado em
terceira pessoa. Nunca fala de si na pri-
meira pessoa, como sendo o narrador,
nem nas partes diretamente reservadas a
ele. Devido à linguagem erótica e o con-
junto de metáforas utilizadas ao longo do
texto, acredita-se que uma mulher pode
ter sido sua redatora final.
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Conteúdo do livro: é uma coletânea de cinco cânticos exaltando o amor carnal entre
um homem e uma mulher.
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Teologia do livro: Cântico dos Cânticos é um dos livros que fornece talvez a maior vari-
ação de correntes interpretativas de toda a Bíblia. Muitos utilizam a alegoria de que a
teologia presente quer evidenciar a união de Cristo com a Igreja, ou de Yahweh com seu
povo Israel. Entretanto, uma mensagem mais implícita ao livro, que em lugar algum se-
quer faz menção de Deus ou Yahweh, exceto por um único sufixo no capítulo 8, é que o
amor entre dois seres humanos, um homem e uma mulher, é exaltado, mesmo que não
haja qualquer procriação envolvida no processo.

4.3.6. Eclesiastes

Título: Eclesiastes é um termo transliterado do grego: ekklesiastes, que por sua vez
deriva de ekklesia que significa: assembleia. No hebraico o título é Qohelet (derivado de
qahal : assembleia) e significa: aquele que reúne (ou aquela que discursa na assembleia
ou que reúne a assembleia).

Data de formação do livro: O livro possui uma linguagem literária de um hebraico


mais recente do que dos livros de Esdras Neemias e Malaquias. Sua datação está
Sugerida para algum período entre o século IV E III AEC.

Autoria do livro: Embora muitos con-


siderem Salomão como autor, na ver-
dade o título hebraico e o primeiro
versículo dizem apenas o seguinte:
“Palavras de Qohelet, filho(a?) de Da-
vi, rei de Jerusalém”. David teve diver-
sos filhos, inclusive filhas. Isto tem
também sugerido que o livro possa ser
em grande parte de autoria feminina,
embora Salomão também possa ter
contribuído com muitos de seus ensi-
namentos. De fato Salomão não é
mencionado como autor das palavras
no texto original e a partir do capítulo
3 o texto demonstra que o autor de Eclesiastes parece ser um(a) súdito(a). (SELLIN E
FOHRER, 1977, p. 489)

Conteúdo do livro: é uma coletânea de ensinamentos, frutos de reflexões do autor so-


bre a vida e seus mistérios.

Teologia do livro: É bem possível que o objetivo teológico de Eclesiastes tenha sido o
discurso voltado para os descrentes do período helênico. Mostra a “ilusão dos afãs hu-
manos, a fim de levá-los a um encontro com Deus. Então, o trabalho cotidiano, a fruição
da obra das próprias mãos e o empenho pela justiça e a retidão recebem seu sentido,
45

humilde, mas real”. (KONINGS, 1997, p.116).


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4.3.7. Lamentações
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Título: originalmente em hebraico a expressão Quinot (substituída por Ekáh), que dá


título ao livro tem o mesmo significado que a interjeição “Como?” O livro não é conside-
rado profético pelo cânon hebraico, mas encontra-se na divisão dos Escritos.

Atuação do Profeta: Não se sabe quem é o autor de Lamentações. A autoria atribuída a


Jeremias faz parte da tradição que segue cânon grego da LXX. A Septuaginta acrescenta
uma introdução no primeiro versículo nos seguintes termos: “Depois de conquistado Is-
rael e devastada Jerusalém, sentou-se Jeremias a chorar e, entoando esta lamentação
sobre Jerusalém disse:...” Todavia o cânon reformado segue o texto massorético e esta
introdução não se faz presente no texto hebraico.

Data de formação do livro: após 586 AEC, em Jerusalém. O livro é uma coletânea de
quatro cânticos de lamentações pela destruição e devastação de Jerusalém quando to-
mada por Nabucodonozor.

Teologia do livro: Yahweh é o Senhor de tudo e de todos e também sobre o seu povo
ele exerce o juízo, mas ele é rico em misericórdia e é por ela que se aguarda. O livro não
pretende ser uma mensagem de consolo, mas sim uma tentativa de revelar os motivos e
o alcance da desgraça nacional que foi a destruição de Jerusalém em 587/586. O livro
convida à reflexão e ao exame de consciência, à aceitação do julgamento divino, à con-
versão e à reconciliação com o Deus da santidade, que não pode pactuar com o pecado:
a degradação moral do povo, a mentira dos sacerdotes, os embustes dos falsos profetas,
as condenáveis alianças políticas com as nações pagãs.

4.3.8. Ester

Título: recebe o nome devido à sua protagonista Ester, uma judia transformada em
rainha da Pérsia pelo seu casamento com o rei Assuero (nome hebraico de Xerxes o
mesmo de Ed. 4,6, que reinou de 486 – 465 AEC).

Autoria: No mundo patriarcal no


qual se insere o livro de Ester,
um texto no qual a protagonista é
uma personagem feminina, indica
que autoria deste livro também
pode ser feminina. Esta teoria tem
sido defendida por inúmeros auto-
res da crítica histórico-social.

Acontecimentos narrados: O
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livro conta a história do que acon-


teceu com a comunidade judaica
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na cidade de Susã. É o único livro

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da Bíblia que não fala em Deus, isto porque o cânon reformado adotou a versão hebraica
do livro de Ester. A versão grega deste livro é ampliada e torna o caráter do livro bastan-
te religioso, mencionando explicitamente a intervenção de Deus na história de livramento
do povo judeu. A versão que possuímos em nossas Bíblias não possui os acréscimos gre-
gos, mas sim a católica. Trata da história de uma judia que tornou-se rainha no reino
estrangeiro. Num momento em que um dos oficiais do rei trama o massacre do povo ju-
deu a intervenção de Ester dá ao povo, a oportunidade de defender-se, ficando livre da
destruição e em consequência deste evento passa-se a celebrar entre as festividades
judaicas a festa do Purim (a festa das sortes ou dos destinos).

Data dos eventos narrados e data do livro: Não se tem uma noção exata da época
em que isto ocorreu, mas podemos situar os eventos durante a gestão de Xerxes (486-
465 AEC) pois no I séc. AEC a festa do Purim já era celebrada como tradição judaica.

4.3.9. Daniel

Título: o livro recebe o nome de um judeu que vivia na Babilônia, que supõe-se ter sido
deportado por volta de 606 AEC já que houve pelo menos nove diferentes deportações
do povo durante a dominação babilônica.

Atuação do Profeta: De fato a atuação de Daniel na Babilônia é anterior á destruição de


Jerusalém, provavelmente atuou junto ao pai de Nabucodonozor e ao próprio. Ezequiel
(14,14), que é um profeta do exílio, menciona Daniel como um personagem de caráter
heroico, então sua reputação é tão conhecida no tempo de Ezequiel na mesma proporção
que Noé e Jó, que é provável que sua história seja mais antiga.

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Data de formação do livro: o livro não é considerado profético na literatura hebraica.


Está classificado entre os escritos e seu conteúdo é apocalíptico. Como o livro traz várias
Página

imprecisões cronológicas da história. Como a mensagem de Daniel abarca até os dias de


Dario (Dn 9,1) (522 – 486 AEC), o que nos dá uma atuação de pelo menos 84 anos, a

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crítica tem sugerido que o livro tenha sido escrito por um autor que já não conhecia os
fatos com tantos detalhes e em período muito posterior, entre 167 e 163 AEC. no con-
texto da dominação selêucidas sobre a Palestina.
Teologia do livro: Yahweh é o Deus de todas as eras e de todo o poder. O livro deseja
sustentar a esperança do povo fiel e provocar a resistência dos judeus contra a opressão
selêucida (Antioco IV) que pretende trazer o povo de volta à idolatria. É uma mensa-
gem de perseverança, fidelidade e resistência nos momentos destas dificuldades e de
ameaças à identidade teológica do povo de Israel.

4.3.10. Esdras e Neemias

Título: Constam originalmente de uma única obra literária, que na Vulgata Latina rece-
beu o nome de I e II Esdras

Acontecimentos narrados: Estes livros


tratam principalmente da organização da
nova sociedade judaica, que se formou com a
junção dos deportados e do remanescente
que ficara na terra a partir do Decreto de
Ciro (Ed 1 e II Cr. 36). Fala sobre as levas de
deportados que voltaram sob o comando de
Sesbassar, para reconstruir o altar (Ed 2-3),
os preparativos para a construção do segun-
do templo e os diversos obstáculos enfrenta-
dos (Ed 4-6). As intervenções proféticas de
Ageu e Zacarias, a retomada da obra e a de-
dicação do templo (Ed 6), a missão de Nee-
mias na reconstrução e organização da cida-
de e de seus muros (Ne 1-2), o regresso de
Neemias à capital da Pérsia e a atuação do
profeta Malaquias (Ne 13), as reformas de
Neemias, a autorização da promulgação da
lei por Artaxerxes (Ne 8-13 e Ed 7-8) e as
reformas promovidas por Esdras (Ed 9-10).

Data dos eventos narrados: Os eventos vão desde a publicação do Edito de Ciro, auto-
rizando o retorno do povo à Jerusalém (539/538 AEC) até o cisma entre Judeus e Sama-
ritanos (refletida no discurso de Jesus com a Samaritana em João 4), com a construção
do templo em Gerizim (404 AEC).

4.3.11. I e II Crônicas

Título: São os últimos livros do AT hebraico e na LXX receberam o nome de Paralipô-


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menos que significa: as coisas omitidas.


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Acontecimentos narrados: Repete os acontecimentos da monarquia e traz alguns da-


dos complementares, sobretudo no reino do sul, mas omite grande parte dos eventos
dos reinados do Norte, e no Sul, principalmente omite principalmente aqueles detalhes
que comprometiam a reputação de Davi e seus descendentes enquanto o reino estava
unificado. 1 e 2 Crônicas são uma releitura tardia dos eventos narrados em 1 e 2 Reis
que mais diziam respeito ao reino de Judá.

Data dos eventos narrados: Começa com a morte de Saul até o decreto de Ciro auto-
rizando o retorno dos exilados à Jerusalém em 538 AEC.

4.5. Síntese da Unidade

Para síntese desta unidade, acesse o ambiente “on line”.

4.6. Bibliografia Complementar Deste Módulo

CRUSEMANN, Frank. A Torá: Teologia e história social da lei do Antigo Testamento. 2ª


ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
KONINGS, Johan. A Bíblia nas suas origens e hoje. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
MAINVILLE, Odette. A Bíblia à luz da história: guia de exegese histórico-crítica. São Pau-
lo: Paulinas, 1999.
RENDTORFF, Rolf. A formação do Antigo Testamento. 7ª ed. Revista. São Leopoldo: Si-
nodal, 2006.
SELLIN, Ernst; FOHRER, G. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1977.
SICRE, Jose Luis. O profetismo em Israel: o profeta, os profetas, a mensagem. Petrópo-
lis: Vozes, 1996.
SOUZA, Rômulo Cândido. Palavra parábola: uma aventura no mundo da linguagem.
Aparecida: Santuário, 1990.
TRAVER, John C. The Dead Sea Scrolls: a personal account. Grand Rapids: Eerdmans,
1979.
VÁRIOS. Profetas Anteriores (Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis). Em: Revista de
Interpretação Bíblica Latino-Americana – RIBLA. Petrópolis: Vozes, 2008.

Ilustrações deste módulo

Ilustrações bíblicas exclusivas: criação de Hudson Silva


Jó, Ebed-Ebed Melec
https://www.facebook.com/pages/Caf%C3%A9-com-B%C3%ADblia/463547370437974?fref=ts
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Profetas - Capela sistina – Michelangelo. Século XVI. Disponível em:


https://en.wikipedia.org/wiki/Sistine_Chapel_ceiling
Página

Cântico dos Cânticos – pôsters inspirados na Bíblia. Disponível em:


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http://abduzeedo.com.br/designs-de-posters-inspirados-na-b%C3%ADblia-de-jim-lepage

Iconografia russa dos profetas posteriores, século XVIII, monastério Kizhi de Karelia.
Disponível em: http://commons.wikimedia.org/wiki

Ester. Disponível em:


http://imagens.us/santos-igreja/santa-ester/index.php?imagem=santa-ester%20(3).jpg

Moises – Disponível em:


http://www.fotosimagenes.org/moses

Davi e Golias. Disponível em:


http://es.paperblog.com/veremos-en-los-cines-a-david-contra-goliat-en-plan-300-384564/

Daniel na cova dos leões de Briton Riviere. Disponível em:


http://www.art-prints-on-demand.com/a/riviere-briton/daniel-in-the-lions-den-4.html

Neemias – Disponível em:


http://dailybelief.blogspot.com.br/2013_08_01_archive.html

Jacó lutando com o anjo. Disponível em:


http://s428.photobucket.com/user/chicho05_2008/media/Samael-Archangel-and-Jacob.png.html

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