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COLEÇÃO
11111 11111 1111111111 111111111
1010568062 AC
e;;. IG
301 R189r

Abrangendo sete disciplinas


fundamentais das ciências sociais
- Sociologia, História,
Economia, Psicologia, Política,
Antropologia e Geografia -
a coleção apresenta os autores
modernos e contemporâneos
de maior destaque mundial,
focalizados através de
introdução critica e
biobibliográfica, assinada
por especialistas
da universidade brasileira.
A essa introdução crítica
segue-se uma coletânea dos
textos mais representativos Organizador: Antonio Carlos Robert Moraes
iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiill de cada autor. Coordenador: Florestan Fernandes
"iedrich Ratzel (1844-1904) representou papel fund~­
ental no processo de sist~matização ~a ge.ografta
oderna. Foi de sua autona uma das ptonenas for-
ulações de um estudo geográfico especiticamen-
·GEOGRAFIA
~ dedicado à discussão dos problemas humanos.
eu projeto teórico, basicamente interdis~ipli~ar, te-
~ a preocupação central de entender~ ~ l fusao dos
Jvos na superfície terrestre, problemattca que, se-
undo seu próprio juízo, articularia história, etnolo-
ia e geografia numa mesma discussão.
esta coletânea são apresentados textos funda-
lentais de Ratz~l onde são dis.cutidas suas princi-
ais propostas, e~tre elas a da cor)stit~'ção C!_a an-
·opogeografia, ciência voltada P.ar<3; <3: ar.tculaçao en-
·e as condições naturais e a htstona dos povos.

301
J.H 8 91

I•NSTITUfO OE ~NCv.l
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N.° CHAMADA

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C.oorden~çào Pd rturial
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SUMARIO
PROC. o1 óJ •....,J:tro--:0:-::~:-:-/:0:-:
-: -?'-;- Traduçjo
Fà11ma \ lurad e D~ni>e BoumMI
Cra:J o C] Prrp•r J~~u do• orrgmai, ~
PREÇO·~~~~~-­ lndicc Analíuco e Onom:islrw
Car men Zilda Riberro
OATAO if-/06/0 0
N.°CPD ·\ RTF
Çoord~naçiio grúfica
Rene E Ardanu' INTRODUÇÃO 5
Coordcnaçjo de composrçao
i'oerde H Toyora A ant ropogeografia de Ratzel · rnd icações 7
Os textos selecionados 28
La• ou! da capa
Ehfa1 ".ndreaw
ArH'·final ICUllU)
I. GEOGRAFIA DO HOMEM
Amo ur o U . Domiendo (ANTROPOG EOG RAFIA) 32
1. Evo lu ção dos conce itos relativos à mfluência
que as condições naturais exercem sobre a
humanidade 32
2. O homem e o ambiente 54
---
3. O povo e o seu territór io 73
4. O elemento huma no na geografi a
A história e a geograf ia do homem 83
5. Tarefas e métodos da geografia do homem 94

• 11. AS RAÇAS HUMANAS 108


------ -------------- 108
- - -7.6.-OPosição,
objeto da etnologia
conf iguração e grandeza da
humanidade 112
8. A posição dos povos naturais na humanidade 122
9. Essênc1a . origem e difusão da civilização 129
•• 10. O Estado 141

ISBN 85 08 035 71 3 III. A CÓRSEGA: ESTUDO


ANTROPOGEOGRÁFICO 151

1990 IV. AS LEIS DO CRESCIMENTO ESPACIAL


Todos os o, e tos reservados DOS ESTADOS 175
Edrtora Atica S A - Rua Barão de lguape 110
Tel.: (PABXJ 278·9322 - Caixa Postal 8656
End Tel egráfrco Bom li vro·· - São Pau lo ÍNDICE ANAlÍTICO E ONOMÁSTICO 193
r

llftltl

INTRODUÇAO

Textos para esta l'llição (''traído~ de:

RATZEL, F. Geografw clell'uomo (Antropogeographie] Turim, Fratclli 13occa, 1914.


- - . Le ra::::::e umane Turim Unione Ttpografico-Editrice Torinc~e. 1909.
Antonio Carlos Robert Moraes
__ . Annales de Geograph1e. Pans, s. e., 1899. Professor do Departament'o de Geografia
_ _ . The law~ of thc ~paual grouth of States . ln: KASPERSO~. R. E. et Mtr-GHI, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciênc1as
J. \. The wucture o/ politica/ geography. Chicago, Aldmc. 1969. p. 17-28 Humanas da Universidade de São Paulo
..

A ANTROPOGEOGRAFIA
DE RATZEL: iNDICAÇÕES

A obra de Friedrich Ratzel representou um papel fundamental no pro-


cesso de sistematização da geografia moderna. Ela contém a primeira pro-
posta explícita de um estudo geográfico especificamente dedicado à discus-
são dos problemas humanos. Foi, assim, de sua autoria uma das pioneiras
formulações - sem dúvida a mais trabalhada - de uma geografia do ho-
mem. A importância de sua obra também emerge por ela ter sido uma das
originárias manifestações do positivisn1o nesse campo do conhecimento cien-
tífico. Ratzel foi um dos introdutores desse método - que posteriormente
se assentou como o dominante- no âmbito do pensamento geográfico. O
significado da sua produção para o desenvolvimento da geografia pode ain-
da ser apontado no fato de ele ter aclarado aquela que viria a ser a principal
via de indagação dos geógrafos, ou seja, a questão da relação entre a socie-
dade e as condições ambientais.
A incidência das colocações ratzeiJanas, entretanto, não diz respeito
apenas ao universo de preocupação da geografia. Pelo menos mais dois cam-
pos de pesquisa das ciências humanas - a antro pologia e a política- de-
monstraram interesse por suas idéias. Sua teorização passa por problemas
bastante relevantes para a investigação antropológica. Um de seus pnnci-
pais trabalhos, intitulado As raças humanas, foi assumidameme red1gido co-
mo um estudo de etnografia. Não são estranhas às suas páginas alusões a
teses de Fraser, Tylor, Morgan ou Blumenbach . Malinowski colocou-oco-
mo um dos pioneiros formuladore~ da teoria difusionista, alertando para
sua mfluência sobre a obra de Boas 1• Também Durkheim e Mauss manifcs-

1
Ver M<\ll'iOW~I..t, Bromsla" Uma teono Ctetl/tftco do culwro. Rio de Janeiro, Zahar, 1962.
p. 206
8 9

taram vivo interesse pelas idéias de Ratzel, o que pode ser atestado nas va- De acordo com Ratzel, a perspectiva telúrica diferenciaria a ótica do estudo
rias resenhas de seus trabalhos publicadas no Année Sodologique2 . Essa re- geográfico. Essa disciplina teria por campo matenal a Terra, abarcando, po-
vista chega a editar a tradução de um artigo de sua autoria: "O solo, aso- rém, a análise do homem, posto como um "ser terrestre" . Na medida em
ciedade e o Estado" 3 . que a história humana, segundo ele, integra-se plenamente com a história
O outro campo de discussão ao qual a obra de Ratlel interessa direta- do planeta, a geografia poderia ser, a um só tempo, uma ciência humana
mente é o da ciência política. Temas como o do Estado, das relações inter- e da Terra- um domínio de contato entre fenômenos naturais e social<;.
nacionais, das fronteiras, ou da guerra, entre outros, estão no centro de ~uas Esse enunciado aparecerá como um dos mais recorrentes nas posteriores pro-
considerações. Ratzel escreve inclush·e um trabalho com o título, até então postas de tal disciplina.
inédito, de Geografia políttca. Foi fundamentalmente a partir de suas colo- Internamente, Ratzel dividiu a geografia em três grandes campos de
cações que se desenvolveram as doutrinas geopolíticas de Mackinder, Kjel- pesquisa: a geografia física. a biogeografia e a antropogeografia. Estas três
len e Haushofer 4 • A influência ratzeliana nesse campo extrapola a geopolíti- vertentes da ciência geográfica foram concebidas como estudos sintéticos (que
ca aflorando cm autores tão diferentes como Toynbee ou Plekhanov. No buscam relações entre fenômenos diversificados) e explicativos (capazes de
essencial, suas teses estarão na base de algumas argumentações do pensa- gerar leis), que, por sua vez, subdividir-se-iam em variadas geografias espe-
mento político conservador vigentes até hoje. ciais- tópicas e descritivas. A unidade do conhecimento geográfico estaria
Observa-se, dessa maneira, que, apesar de estar centrado na geogra- assegurada na perspectiva telúrica, a Terra associando os fenômenos dos três
fia, o projeto teórico ratzeliano era basicamente interdisc1phnar. Ele visava reinos da realidade. Essa proposta apareceu como bastante polêmica num
explicar questões essenciais para o conjunto das ciências humanas. Isto po- momento em que pontificavam, no ambiente acadêmico alemão, concepções,
deria ser ilustrado com sua preocupação central em entender a difusão dos como a de Gerland, que limitavam o universo de preocupações geográficas
povos na superfície terrestre, problemática que, segundo seu próprio juízo, ao domínio dos fenômenos naturais (num retorno à visão kantiana) 5 . Foi
articularia história, etnologia e geografia numa mesma discussão. A etno- exatamente à geografia do homem que Ratzel dedicou a maior parcela de
grafia fornecena um quadro da humanidade em todas as suas porções; a seu trabalho.
etnologia explicitaria as formas de coesão interna de cada grupo, tentando O objeto da antropogeografia, na definição de Ratzel, também apre
apreender as transformações vivenciadas por cada povo; à antropologia ca- sentaria uma tríplice repartição. O tema mais fundamental de indagação dos
beria apontar o equipamento biológico, os traços somáticos de cada raça geógrafos seria o da questão da influência que as condições Jlaturais exer-
e etnia. A história buscaria recompor o movimento dos povos no planeta, cem sobre a humanidade, ou, em outras palavras, das condições que a natu-
dos múltiplos centros originais de Irradiação da civilização humana para as reza impõe à história. De acordo com Ratzel, a diversidade das condições
sedes atuais. Finalmente, para a geografia "restaria" tematizar as relações ambientais explicariam, em grande parte, a diversidade dos povos, po1s o
que impulsionaram ou frearam este mo\imento, as trocas que se estabelece- substrato da humanidade seria a Terra, onde as sociedades se desenvolve-
ram entre os homens e os meios naturais de suas sedes originárias e dos es- riam em íntimo relacionamento com os elementos naturais. O estudo da ação
paços pelos quais trafegaram. de tais elementos sobre a evolução das sociedades seria o objeto primordial
Vê-se que a própria existência do estudo geográfico é justificada, na da pesquisa antropogeográfica. O estudo da distribuição das sociedades hu-
argumentação ratzeliana, em nome de uma meta teórica ambiciosa que al- manas sobre o globo constituiria o segundo campo de interesse dessa pes-
mejaria uma explicação global da humanidade; poder-se-ia dizer que a geo- quisa. À localização atual dos grupos dever-se-ia adicionar a investigação
grafia interessa enquanto elemento para a formulação de uma teoria da his- de sua mobilidade passada, buscando levantar suas áreas originárias e seus
tória. Essa disciplina debruçar-se-Ja sobre O'> diferentes quadros ambientes itinerários. Tal análise forneceria a chave de condicionamentos pretéritos,
que compõem a Terra, pesquisando suas influências na evolução dos povos. os quais migram com os povos. Esse segundo campo de invesugação
completar-se-ia, dessa maneira, com o estudo da difusão dos povos sobre
2
A saber: DuR"Hr t\1, Énule Ratzel (Friedrich)- Der Staat und ~cin Boden geographisch bco- o espaço. O terceiro tema de Interesse da antropogeografia seria o estudo
bachtel. Année Sociolog1que, t. I, 189617, Idem. Ratzel (Friedrich)- Politische Geograph1e da formação dos territórios . O conceito de território é capital na concepção
Année Socw/ogique, t. li, 1897/8: Idem. Rattel (Fnedrich)- Anthropogeographie. Année So· ratzeliana e será tratado adiante.
e~ofogique. t III , 1898/ 9, Idem Ratzeltrriedrich)- Das Mecr ai~ QueiJe der Voelf..ergroe~~e
Année Soctofogique. t. IV, I899t I900, H \1.8\\ ~eH~. \laurice. Ratzel (Friednch)- Ra um und
Zeit in Geographie und Geoiogie. Année Soc10/og1que, 1 XI, I906/ 9. ' ''A tarefa do geógrafo e pcsqUJ~ar a mOuência das forças que operam no matenal da Terra
3
R.n7EL, 1-riedrich te sol, la soc1ete et I'État. Annee Socwfog1que, t. Ili, I89819. e os resultados da operação de ta1s forcas no formato e modJIJcaçõcs dest,e material" (GlR
• \'er SODRE., Nehon \\ crned Imroduçtio a geografia; geograf1a e rdeologia Petrópoli\, Vo- L-\.t-.0 apud T"THA\1, George. A geografia do século XIX. Bofe11111 Geográfico, n. 17, 1959.
zes, 1977 Cap. 3. p. 222).
10 11

Vê-se nessa definição do objeto que, apesar da "tríplice repartição", uma liberdade única no reino animal. É um ser terrestre, que tem a Terra
a questão das influências se sobrepõe, aruculando as outras duas. Tanto a como "mãe provedora", "sua morada", enfim, como suporte de sua vida.
problemática da difusão-distribuição quanto a da formação dos atuais terri- É na relação com os quadros naturais locais onde se encontra inserido que
tórios lhe são tributárias, pois é no jogo da relação homem-natureza que o homem deve "conquistar" sua liberdade. A aceitação da existência de in-
se alocam, segundo Ratzel, os fatores explicativos de tais processos. Foi fun- fluências das condições naturais não implica, na argumentação de Ratzel,
damentalmente em função desse equacionamento do objeto antropogeográ- uma passividade total do elemento humano; pelo menos não nesse plano de
fico que seu nome ficou identificado com o determinismo geográfico, definição do objeto antropogeográfico. As influências se põem de forma me-
utilizando-se a expressão consagrada por Lucien Febvre6 . Tal interpretação, diatizada: no indivíduo, como condicionamentos somático-anatômicos eco-
dominante nos manuais, é em parte equivocada, não resistindo a uma análi- mo estímulos psicológicos (cujo estudo estaria fora do âmbito da geogra-
fia); na constituição social, pelos recursos e riquezas disponíveis; na consti-
se mais profunda da obra ratzeliana. Vários autores já apontaram esses equí-
tuição étnica de um povo, pelas condições de difusão propiciadas pelo meio
vocos que, entretanto, persistem nas obras de vulgarização-.
(gerando o isolamento e a mestiçagem como casos-limite); na organização
Ratzel foi um crítico do determinismo simplista, o qual em sua opi- do trabalho, pelos estímulos ou barreiras existentes; na formação dos Esta-
nião prestou um desserviço à geografia ao tentar explicar de imediato - e dos, pela posição geográfica desfrutada etc. Os condicionamentos da natu-
por uma via especulativa, sem base empírica- a complexa questão das in- reza são, portamo, atuantes na vida material dos homens através de suas
fluências das condições naturais sobre a humanidade. Ele chegou a tecer crí- necessidade!>, como recursos. Ratzel antevê uma malha de influências que
ticas contundentes à idéia "obscura" de ser o homem "um produto do mamfestar-se-iam através de causas econômicas e sociais.
meio" 8 . Também a idéia de predestinação dos lugares, elaborada por Rit- Pode-se avaliar que tal concepção não se identifica com as formula-
ter, foi alvo de seu ataque, ao qual não escaparam as colocações determinis- ções de um determinismo estreito. A influência das condições naturais não
tas de Montesquieu. Desse modo, não há como colocar Ratzel no mesmo seria o motor da história, sua única causa. Rarzel acata explicitamente a idéia
rol desses autores e mesmo de alguns de seus discípulos, como, por exem- da ''força da densidade'', formulada por Comte e trabalhada por Durkheim.
plo, Ellen Semplc, efetivamcnte uma autora determimsta. A sua visão do A ação das condições ambientes - a "força do meio" - seria, isto sim,
condicionamento dos elementos ambientais sobre o homem e a sociedade a temática própria, diferenciadora, da análise amropogeográfica. É aqui que
é bem mais rica e mediatizada. vai se armar uma situação de contraditoriedade da proposta ratzeliana, a
O homem, na concepção de Ratzel, é um ser da natureza que possUI qual só pode ser desvendada com o recurso a suas concepções metodológi-
instintos, necessidades e aptidões. É um "animal favorecido", possuidor de cas. Essas concepções quanto a problemas de método vão obscurecer a posi-
tividade de sua postura no tocante à definição do objeto antropogeográfico
6
Ver F~B\ RE, Lucien. La Tierra y la evoluc1ón humana Darcclona, Cervantes, 1925. - sem dúvida, sua contribuição maior à geografia posterior.
7
Entre outros pode-se citar Hartshorne, que afirma: "Nem Ratzel nem Sempk ~upu~eram que Antes de penetrar na exposição da postura metodológica de Ratzel, cabe
o meto natural fosse determinante de maneira absoluta'' (H "-RT ~HORNE, Richard. Propósitos mencionar que essas colocações referentes à definição de objeto propicia-
e natureza da geograj10 São Paulo. Hucitec. 1978. p. 61). Clava], diferenciando Semple de ram a alguns autores tecer interpretações que visavam aproximá-lo do mate-
seu mestre, vaa 'mculá-lo à gênese do "ambientalismo". em suas palavras; "Assim, não se en- rialismo histórico e dialético. Foram os pensadores da Segunda Internacio-
contra em ~ua Antropogeograjía nenhuma expressão abusavamente brutal das dout11nas am·
baentali~tas <1 que seu nome acabou -.inculado" (Ct A\ AL, Paul. Evolución de la geografia hu-
nal, notadamente Plekhanov, que tentaram empreender tal aproximação. São
mana. Barcelona, Oikos-tau, 1974 p 53) Tal localização num ambientalismo moderado tam· numerosas, nas páginas desse autor, as alusôes afirmativas às teorias de Rat-
bém é compartilhada por Broek. ' ' Entre os geógrafos foa, acama de tudo, Ratzcl quem ellplo- zel, postas como complementares e não conflitantes com as de Marx e En-
rou as influêncta~ do ambtente físico sobre a humarudade l .. ] Embora o autOr admttisse que gels. A busca dessa proximidade escoimou-se, sem dúvida, nas influências
outro~ fatores além da natureza modelam o dc~úno de um povo, a essência de sua argumenta-
positivistas e evolucionistas presentes nos autores do chamado "marxismo
ção era que o homem é uma cnatura de seu ambaente (... ) Ratzel não recorreu apenas às ín·
fluências ambientais, mas agualmentc, ou maas ainda, aos fatore~ histórico-culturaas" (BROEK, institucional". A existência de tais influências é um assunto incontroverso
Jan O :VI. IniCiação ao eswdo da geografia. Rio de Janeiro, Zahar, 1979 p. 30). Finalmente. entre os historiadores contemporâneos do pensamento marxista 9 •
Schaefcr coloca: "Nada há de errado em inve~tigar a tnfluência que exerce o ambaente fí~aco,
positivamente 011 como condaçào limitadora, sobre o proces>o ~ociall .1 Ratz.el fot o pnmeiro
Q Ver PLEKHA'0", G Os princípiOs fundamentais do marx/SinO São Paulo, Hucitec, 1978. p.
a pensar onganária e rmagtnativamente neste sctor'' (SCHAHER. Fred O excepcionahsmo na 32 a 40, c The development of the monisr view oj h1.st0r_v. ;\.1oscou, Progrcss, 1974 p 128.
geografaa: um estudo metodologíco. Bolenm Carioca de Geografia, 1976. p. 44 Número espectai). A re~peito da tnfluência do positi1.ismo sobre a Segunda Internacional, ver ANDERSON, Perry.
8 Na verdade Ratzel c um crítico exphctto do determinismo simplasra: "Uma fórmula de con-
Cons1deroções ~obre o marx1smo oc1demal. Porto, Afrontamento, 1976. p. 14-5; NEITO, José
teúdo tiio genérico não coloca cm evidêncaa a mfluência de que trata" Também é categórica Paulo Capitali~mo e reificaçào. São Paulo, Ciências Humana\, 1981 . p 19, além dos estudos
sua recusa à ' 'obscura e e~agerada afirmação de que o homem é um produto do meto'' (RAT de Stcdman-Jones, Haupt e Andreucci pubhcados cm HOBSII\\1 \1, Eric H1stofla do marus-
zn , Friednch Geografia úe/1'1101110. Tunm, Fratelh Bocca. 1914. p. 37 e 39). mo Rio de Janetro, Paz. e Terra 1982. 2 v.
12 13

A~ colocações ratzelianas, tal como postas no nível de sua definição os procedimentos das ciências naturais (a fisica fornecia o modelo, por ex-
do objeto antropogeográfico, são, sem dú\ida, materialistas. Não transita celência, do metodo científico). Dessa maneira, a geografia dedicada ao es-
em sua argumentação nenhum elemento de metafísica ou de subjetivismo. tudo dos fenômenos humanos foi por ele equacionada dentro dos cânones
A questão das influências das condições naturats sobre a história da huma- metodológicos oriundos da análise da natureza. Tal reducionismo naturali-
nidade é apreendida no quadro da produção e reprodução da vida material zante - comum a todo o positivismo - acentuou-se pelas características
dos homens. Entretanto isso não basta para aproximá-lo do materialismo próprias da ciência geográfica, que por si mesma já alimentava esta visão
histórico e dialético. Como afirmou Lenin: "A única qualidade da matéria associativa entre fenômenos naturais e sociais.
sobre a qual repousa o materialismo é a sua realidade objetiva, que existe A adesão ratzeliana ao positivismo, bem como a concepção naturalis-
fora de nossa consciência" 10 . Se a visão ratzehana do objeto geográfico po- ta daí decorrente, manifestou-se plenamente nos procedimentos analíticos
de ser considerada materialista, não há maneira de avaliá-la como histórica por ele preconizados. A antropogeografia foi posta como uma "ciência em-
ou dialética. As suas postções metodológicas se encarregam de não deixar pírica", pautada na observação e na indução. Ratzcl se posicionou radical-
nenhuma dúvida quanto a esse respeito, além de, como foi mencionado, em- mente contrário ao uso de procedimentos dedutivos, ao levantamento de hi-
pobrecer a própria visão do objeto desenvolvida. póteses lógicas e à especulação em geral. O trabalho deveria partir da descri-
O positivismo domma completamente a concepção ratzeliana do mé- ção minuciosa de quadros espaciais circunscritos, vistos como conjuntos de
todo a ser assumido pela antropogeografia. A adesão de Ratzel a esse méto- elementos diferenciados entre os quais os fenômenos humanos. À descrição
do é explícita e ele afirma textualmente que nos autores positivistas, pela seguiria a comparação tendo por meta a classificação. Nesse percurso a in-
primeira vez no panorama do conhecimento humano, a questão das influên- dução comandaria a pesquisa, que poderia desenvolver-se no nível das geo-
cias vai aparecer de uma forma "científica" 11 • São inúmeras as passagens grafias especiais que trabalhariam com conjuntos mais restritos de fenôme-
em que Ratzel elogia Comte, de quem vai tomar a \iSào orgânica de socie- nos; a classificação seria o limite desses estudos tópicos. De posse desses re-
dade, a concepção de método científico, além de vários conceitos como, por sultados, o pesquisador deveria retornar à escala local e à consideração de
exemplo, "força da densidade" e "meio intelectual". Outros autores posi- um povo específico, tentando identificar aí os nexos causais existentes.
tivistas, especialmente historiadores como Tainc e Spencer, são bastante ci- É, sem dúvida, na visão de causalidade que se encontra o nó górdio
tados em seus trabalhos. Enfim, pode-se tranqúilameme identificar Ratzel da proposta de Ratzel. É nesse ponto, fundamentalmente, que se vai dilutr
como um seguidor da "filosofia positiva", sendo um de seus introdutores a positividade alcançada por suas formulações no nível da definição do ob-
no seio do debate geográfico. jeto antropogeográfico. Observou-se, aí, que ele concebia mais um condi-
A evidência mais fundamental dessa filiação ao positivismo está no fa- cionamento do que uma determinação rígida dos elementos ambientais so-
to de Ratzel professar o princípio da unidade do método científico, isto é, bre a evolução das sociedades. Ao acatar, entretanto, o afã positivista de
a idéia da existência de um único método comum a todas as ciências - as chegar, no trato de fenômenos humanos, a uma causalidade análoga à das
quais seriam, conseqüentemente, definidas por objetos próprios. Esta pos- ciências naturais, Ratzel acabou por subverter s.ua própria concepção de ob-
tura positivista introduz um acentuado ranço naturalista na proposta de an- jeto. A idéia - correta - de ver a natureza como estímulo ou limite para
tropogeografia de Ratzel, à medida que descaracteriLa as qualidades pró- a ação humana passa a ser acoplada, pela opção metodológica, a um racio-
prias dos fenômenos humanos e impele sua análise para a analogia com cínio de movimento reativo, isto é, passa a ser equacionada numa visão de
causa e efeito, à qual o autor tece críticas explícitas no plano objetual.
10 L E);JI\, \V I U. Motertaltsmo e emptriocriticismo. L1sboa. Estampa, 1971. Sobre o mate- A visão positivista de causalidade introduz um empobrecimento na for-
rialismo naturalista do final do )éculo XIX, diz h.ofler· "Sem dúv1da, este materialismo res· mulação ratzeliana que anula sua rica e complexa proposta de objeto. No
pondia cabalmente aos progresso) da~ ciências naturais e da mecânica, como também a mate- equacionamento da problemática das influências, frente à normattzação me-
nah?açào da vida burguesa. con~equência do inaudível cre;cimemo da riqueza Esta fii050fia canicista, as condições naturais passam a ser vistas como o locus da deter-
rrnueraahsta não cumpnu, porém, a me5rna função que antes. na época antenor a Revolução
r:ranccsa, pois a burgues1a, que ~c cnco111ra~a sob a proteção do Estado pnrssiano, apesar das minação, como o elemento de causação a partir do qual a história humana
pequenas d1~putas com ele, mlo pcn~ava cm raLe r dessa filosofia uma arma, e muito menos se movimenta. A sociedade passa a ser vista como elemento passivo, que
uma arma de subversão" (KOFLER, Lco Contribuicwn a la hworw de la wciedad burguesa apenas reage a uma causalidade que lhe é exterior. O homem torna-se, as-
Buenos Aires, Amorronu, 1974 p 427) sim, efeito do ambiente. Dissociam-se - hierarquizando - natureza e so-
11 "0 e~tudo do qual n05 ocupamos aqu1 encontra 5ua particular e ampla aplicação por obra
ciedade, e se perde a possibilidade de apreender a dinâmica e as qualidades
dos f1losofos pOSJII\iStas francc:sc\" (R'\TZH., Fnedrich Geografia dell'uomo, cit , p 24). Sobre
o metodo proposto por Com te. pode-se con5ullar: NtSDET, Robert HiJtoria de lo tdeo de pro-
próprias dos fenômenos sociais. Como é através do método que se substan-
greso Barcelona, Ged1~a , 1981 p. 350-5, ou Bl'RY John. Lo tdea dei prof!.reso. Madri, Alian- tivam as intenções propostas no plano da definição do objeto, a antropo-
za, 1971 p 261·72. geografia de Ratzel acaba por veicular uma perspectiva naturalista.

..
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14 15

Tal avaliação, contudo, não deve ser confundida com uma identifica- os fenõmenos humanos con~lituiriarn o campo da antropologia . Pe-,chel en-
ção da produção ratzeliana com o determinismo estreito. Mesmo se propon- tendia a geografia como um estudo das formas existentes na superfície ter-
do chegar ao estabelecimento de leis antropogeográficas, análogas às leis das restre, estando o homem englobado apenas enquanto c!Íador e transforma-
ciências naturais, Ratzel não concebeu essa empresa de maneira Simplista. dor de tais formas. Os exemplo~ podenam se multiplicar, todos apontando
Ele é explícito quanto as metas a serem atingidas - traduzir em leis as in- para uma otica naturalista.
fluências das condições naturais sobre a evolução dos povos - , porém não No âmbito explícito da geografia foi na obra de Rnter, sem dúvida,
elimina as dificuldades existentes na realização de tal propósito. Ele alertou que Ratzel buscou sua inspiração A poqura de centrar a análise geográfica
com clareza que a explicação generalizadora na antropogeografia não pode- na problemática da influência das condições naturais sobre a história da hu-
ria se valer do recurso à matemática e à experimentação como outras ciên- ? manidade já se encontrava desenvolvida nas páginas desse autor. Apenas
Cias. Por isso, asseverou que as le1s dessa disciplina seriam leis "advindas ele não separou esta temática numa subdl\ 1sào da geografia; ao contrário,
da paciência". Em várias passagens de suas obras são encontráveis críticas colocou-a como seu corolário un1ficador. A nov1dade Introduzida por Rat-
à generalização precoce destituída de uma sólida fundamentação empírica. zel residiu em colocar a questão das mfluências como objeto primeiro de
Novamente emerge a argumentação de que a geografia é uma ciênc1a igual uma geografia do homem. A f!liaçào ratzeliana a Ritter não foi, contudo,
as outras, porém ainda em formação. uma adesão destituída de críticas. A maior parte de tais criticas incidiram
A tensão entre a perspectiva relativista (mediatizada) da relação homem- sobre o simpltsmo e as generalizações premawras cont1dos na obra ritteria-
natureza, defendida por Ratzel no nível da definição do objeto antropogeo- na. A "lei da articulação litorânea" 1, , por exemplo, foi um dos alvos ataca-
gráfico, e a hierarquização introduzida pela visão de causalidade, assumida dos por Ratzel. De todo modo, há uma continuidade temática nítida entre
no plano do método, pode ser bem ilustrada pela interpretação ratzeliana os dois autores .
da obra de Comte. Apesar da sua já mencionada concordância, em termos A perspectiva de Ratzel não encontrou apenas apoio na tradição do
genéricos, com as formulações do filósofo de Montpelier, Ratzel vai dizer pensamento geográfico, e dentro deste na filiação às colocações de Ritter,
que ele acaba por ser parcial em sua teoria sobre a evolução da humanidade. como também a própria formação do autor a reforçava . Seu aprend1zado
Após haver apontado a "força da densidade" (o crescimento populacional) universitário havia '<ersado, basicamente, nos campos da geologia e da zoo-
e a "força do meio" (o condicionamento ambiente) como os elementos im- logia . Nesta última disciplina, ele ha' ia sido aluno de Haeckel na Umversi-
pulsionadores desse processo, Comte, segundo Ratzel, constrói sua teoriza- dade de Berlim. Este pensador, um dos introdutores do e~.-olucwmsmo na
ção levando em conta apenas o primeiro fato r. Dessa maneira, ele detecta Alemanha, exerceu viva influência sobre as 1déias de Ratzel. A concepção
e critica no autor do Curso de filosofia posittva uma incoerência na qual ecológ1ca, da qual Haeckel foi um dos p1oneiros formuladores (sendo inclu-
sua teorização também vai incorrer. Se Comte, mesmo aceitando a existên- sive o propositor original do rótulo ecologia para o estudo da associação
cia, acaba por desprezar a influência das condições naturais na evolução das dos orgamsmos num dado meio), constituiu-se num dos principais funda-
sociedades, Ratzel vai superdimensioná-la, desprezando outros elementos de mentos da proposta antropogeográfica. Também essa filiação não foi des-
causação que ele próprio havia acatado. Observa-se, assim, uma inversão provida de críticas, podendo tomar-se ~or exemplo a tese haeckeliana do "ser
de perspectivas: Comte, preocupado com a formulação de uma sociologia, mudo" bastante atacada pot Ratzel 1 . .
desprezou a ação dos fenômenos naturais; Ratzel, às voltas com a elabora- O contato e os laços de amizade com Xtoritz Wagner também incidi-
ção de uma geografia do homem, minimizou os fenômenos especificamente ram sobre o pensamento ratzehano. Sua relação epistolar com este Cientista
sociais. Nos d01s casos, o método impele a análise para uma concepção uni- natural foi bastante intema. A análise das obras de Ratzel mostra ainda que
causal. seu conhecimento da produção dos naturalistas do século XVIII e da pri-
A perspectiva naturalizante de Ratzel encontrou elementos de susten- meira metade do século XIX era considerável. Notadamente Buffon , Pal-
tação nos postulados positivistas, entretanto também se alimentou de ou- Ias. Zimmermann e J. R. Forster são bastante citados em seus trabalhos.
tras fontes. A própria tradição do pensamento geográfico forneceu-lhe em- Um destaque deve ser dado à figura de Forster, o qual foi enfaticamente
basamento. Os autores pioneiros do processo de sistematização da geogra-
fia moderna haviam equacionado a problemática dessa ciência em moldes 2
' Sobre as formulações ele Riltel podc·sc con<>ullar MEHEDIHI, S La géographir cornparée
naturalistas. Para Humboldt, o homem era um elemento a mais da paisa- d aprés Riuer et Pese hei. Annoles de Geogropl11e, n 49, 1901; ou o 'olume preparado por NJcola~­
gem, sendo esta o objeto de interesse do geógrafo. Na proposta de RitLer Obadia: RITTER , Karl. lmrvduct1on o lo géowophll.' gclnérole comporée Paris, Lcs Belles Let-
a tese da "predestinação dos lugares" ocupava·um lugar essencial, eviden- ... tre>. 1974. Sobre a "lei da articulação litorânea•·. ver as cmica~ de fEBVRE , Gp cit , p. 279,
ciando o determinismo natural ali defendido. Na concepção kantiana, o es- • e de R ATZEL. F La Corsr etudc anthropogeographiqu(' Anna/es de Geograph1e, v. 8. 1899
tudo geográfico e!ttava limitado à análise da natureza, na medida em que "Ver R -\TZEL, 1'. Los razas humc11w1 Barcelona, 1\lontancr y S1mon. 1888 ' I. p 16
16 17

elogiado por Ratzel. Este autor desenvolveu, ao participar das expedições Na interpretação que desenvolveu, no primeiro capítulo da Antropo-
de Cook, toda uma metodologia de observação e levantamento de campo, geografia, a respeitO da evolução dos conceitos relativos à problemática da
que foi igualmente elogiada e assumida por Humboldt e Ritter 14 • influência que as condições naturais exercem sobre a humanidade, presentes
Caberia, encerrando este tópico, mencionar a relação de Ratzel com no pensamento filosófico desde a Antiguidade, Ratzel vai dizer que Herder
o pensamento evolucionista, posta por muitos comentaristas como uma das foi o primeiro autor moderno a equacionar corretamente a questão. Mesmo
mfluências mais marcantes em sua obra. Seria interessante assinalar que os assumindo uma posição romântica que obscureceu suas formulações, uma pos-
geógrafos, de modo quase unânime {o que varia é a ênfase), consideram-no tura " mais de artista que de cientista" segundo Ratzel, Herder teria colocado
um adepto do evolucionismo, enquanto os antropólogos vão creditar a ele o problema das influências de uma forma positiva, qual seja: a de discutir
um papel significativo na formulação da teoria "difusiomsta", que, no de- o homem em unidade com a Terra. Para ele, a história deveria ser v1sta como
senvolvimento da antropologia, colocar-se-ia como uma atenuante da visão "uma geografia em movimento". A Terra, em seus variados quadros locais
evolucionista. Na verdade, Ratzel elogia bastante Lamarck, de cuja obra vai de condições naturais diversificadas, deveria ser estudada enquanto "teatro
tomar a teoria da adaptação e muitos elementos do conceito de meio {ao da humanidade". Essa visão herderiana foi também explicitamente assumida
qual adiciona contribuições de Comte e de Haeckel). Já as colocações de por Ritter, fato que reforça os laços existentes entre os dois geógrafos. A acei-
Darwin receberam uma interpretação variável no decorrer da sua trajetória tação de Ratzel foi, contudo, ainda mais enfática. Ele endossou plenamente
intelectual. Na Antropogeografia o autor da Origem das espécies é bastante a concepção de progresso de Herder, que se constituiu num dos fundamento~
citado numa avaliação afirmativa de suas teorias; em As raças humanas, es- centrais de sua teorização. De\e-se assinalar que tal filiação aos postulados
crito alguns anos depois, Ratzel faz críticas refmativas a Darwin, chegando herderianos limitou-se, de forma absolut.a, ao plano da definição antropo-
a falar da "pretensiosa e atrevida teoria da evolução" 15 . De todo modo. não geográfica do o bjeto. No que tange à discussão de método, Ratzel foi bastan-
há como negar uma cena ótica evolucionista que permeia o raciocínio ratze- te crítico com relação ao filósofo, cujal! considerações nesse particular ele ava-
liano. Tal ótica seria em pane subjacente a todo o positivismo clássico, es- liou como "não-ctentíficas", num juízo distinto do de Ritter.
tando incrustada, por exemplo, na concepção orgânica da sociedade. Eis as principais fontes teóricas do pensamento ratzeliano. No nível
Para dar conta das intluências presentes no pensamento ratzeliano res- do objeto, a filosofia da história de Herder e a geografia comparada de Rit-
taria falar do filósofo Herde r, que aí ocupa um lugar de destaque 16 • Esse ter. No nível do método, a filosofia positiva de Comte e a ecologia de Haec-
autor, um dos participantes do movimento Sturm und Drang, foi um dos kel principalmente. Observa-se que a inspiração de Ratzel no tocante ao ob-
principais expoente~ do romantismo alemão da segunda metade do século jeto advém de autores marcados por uma ótica metafísic~ (para se. usar a
XVfll e um crítico do pensamento ilustrado. Se a postura romântica traba- expressão cara ao positivismo), possuidores de uma perspectiva teológtca que
lhava no sentido de afastá-lo do cientificismo positivista assumido por Rat- domina suas formulações. Já no plano metodológico emergem inspirações
zel, o anttiluminismo aproximava-os. No cerne da critica à Ilustração, um que professam culto a uma rígida objetividade, propondo uma postura "ab-
ideal nacionalista- contrário portanto ao cosmopolitismo e ao universalis- solutamente científica" . Dessa maneira, na proposta de Ratzel relacionam-se
mo subjacentes àquele pensamento - alimentava as formulações dos dois orientações filosóficas díspares: a temática vem do idealismo transcenden-
autores. Ratzel posicionou-se explicitamente quanto a esse ponto, aparecen- tal e seu tratamento é proposto em moldes posttivistas, tendo por modelo
do em suas páginas avaliações refutativas das colocações de Rousseau e de os ~studos das ciências da natureza. A antropogeografia visava realizar um
Montesquieu. projeto teórico romântico com um instrumental positivista.
Pelas razões apontadas, Ratzel inaugurou alguns problemas que acom-
14 Sobre a obra de For!> ter e sua mOuência no pensamento geogràf1co pode-se consultar o arti- panharão todo o desenvolvimento posterior da geografia de inspiração po-
go citado de Tatham. sitivista. Vários d ua lismos irresolvíveis do pensamento geográfico tradicio-
15 R-ATZEL. Las razas humanas, cit., p , 4 . Sobu: a relação de Ratzel com o evoluciOnismo. ver: nal têm origem em sua proposta. O positivismo demandava leis, que o equa-
CLAVAL, P. Evoluctón de la geografia humana, cu., p 36-7 e 52; e CLAVAL, P e NARD\'·, Jean ciOnamento do objeto geográfico se recusava a fornecer, a não ser à custa
P1erre. Pour /e cinquantenaire de la mort de Paul Vida/ de la 8/ache. Pans, Les Belles Lemes, de simplificações grosseiras. O posittvismo demandava um objeto singular,
1968. p. 27 Sobre a relação da geografia com o evoluciomsmo, ver: MENDOZA, J . eL alu . El para uma ciência que era pensada enquanto um estudo de relações entre fe-
pensamiento geográfico. ~1adri, Alianza, 1982. Cap I
10 Sobre o pen~amento de Herder pode-se consultar, além dds obras Citadas de 1sbet e Bury, nômenos variados. Enfim, nas antinomias da proposta ratzeliana foram ge-
a Introdução de M. Rouche em HERDER. J G. Une outre phtlosophte de l'hiStoire pour con- radas algumas das principais contradições que acompanham a evolução da
mbuer à l'éduca"on dl' l'humanitl'. Paris, Aubier, s d.; ou o ensa1o de Puccíarelh - Herder geografia moderna. . , ,
y el nadmiento de la conscienc1a histórica- publicado na tradução espanhola dessa obra (Buenos Vistos os propósitos de Ratzel, sua concepção do obJeto e do m~todo
Aires. Editonal Nova, 1960). da antropogeografia e as "influências" mais significati\aS observáveis em
18 19

sua obra, cabe passar à expo~ição dos principais contornos da teoria da his- humanas. Pode-se dize• que após a redação desse trabalho as concepçõc<.
tória por ele desenvolvida. Antes, contudo, é mister fornecer algumas no- fundamentais de Rarzel já estão formulada~. Sua produção posterior seria,
ções biográficas a seu respeito, pois as concepções políticas e sociais de Rat- asstm, mais de explicitação de pontos específicos ja apontados.
zel foram, com uma nitidez meridiana, um produto bem demarcado de sua A afirmação antenor não quer d11er que a produção ratzeliana apos esta
época e de sua sociedade. data não seja importante e numero~a. Em 1889 ele publica um estudo de geo-
Qrafia física temauzando as montanhas da Europa. Em 1891 'êm a público
Friedrich Rattel nasceu a 30 de agosto de 1844 em Karlsruhe, antiga ~ seoundo
o
volume do Antropogeografla e rambém um estudo.
sobre os tiordes.

capital do ducado de Baden, no seio de uma família da pequena burguesia produto de uma viagem pela Noruega Em 1896 Ratzel edna um trabalho mu-
local. Começa a trabalhar como ajudante de farmácia ainda jovem e faz seus tulado O Estado e seu solo estudados geograflcameme. No ano seguinte é edi-
c~tudos iniciais na e5cola técnica de sua cidade natal. Aos vime e um anos tada sua ma1s polêmica obra, a Geografia polt't1ca. Em 1898 edita um estudo
ingressa no ensino superior freqüentando as universidades de Heidelberg, reg1onal da Alemanha, que permanecera muitos anos em uso no ensino básico.
Jena e Berlim. Em Jena estuda geologia com Haeckel, autor que, como vi- :--Jesse mesmo ano, o Année Soclolog1que pubhca a tradução de um artigo c;eu
mos, exerce grande influência em sua formação. Um ano após seu ingresso intitulado "O solo a sociedade e o Estado", o Annales de Géographie traduz
na Universidade, ele é convocado pelo exército alemão, participando da guer- um trabalho mon~gráfico denominado "A Corsega: estudo antropogeográfi-
ra franco-prussiana como oficial. De volta do front transfere-se para a Uni- co". Vê-se que nessa época o nome de Ratzel já havia extravasado os limites
versidade de Munique, onde estuda geologia com Zittel. Nessa época come- da Alemanha c da própria geografia: As raça!. humanas já havia sido, nesse
ça a militar no jornalismo geográfico, escrevendo artigos de viagens no pe- momento, traduzida para o inglês e o espanhol, e quase todas as suas obras
19
riódico Kolnisch Zeitung. Viaja pelo sul da Itália, pelos Alpes e pela Tran- haviam sido resenhadas pelas duas revistas francesas acima mencionadas .
silvânia, publicando estudos que, em 1874, são reunidos num Jivrol7. Em 1900, Ratzel publica um ensaiO- O mar como fonte de grandeza
Em 1873 embarca para a América como correspondente desse jornal, dos povos - já com um tom fortemente panfletáno de defesa do proJeto
18
viajando pelos Estados Unidos e México durante quase dois anos . As ob- imperial bismarckiano. No~ anos seguintcc; ele edita os dois volumes de A
servações efetuadas nesse périplo são fundamentais na formação de Ratzel, Terra e a vida, obra na qual discute a b1ogeografia ã. luz de sua concepção
que desenvolverá suas pnmeiras teorizações ao ordenar o material levanta- oenérica de geografia. Em 9 de agosto de 1904, Ratzel falece aos sessenta
do. Nesse período começa a lecionar na Politécnica de Munique, onde apre- l ;nos de idade em Ammerlander. Nos anos seguintes ainda são editadas \á-
senta uma tese de ingresso sobre a migração chinesa. Além disso continua rias obras inéditas por ele produzidas.
seu trabalho jornahstico, chegando a editor do Ausland. A idéia de que a
elaboração do material recolhido na viagem à América serviu de substrato Observa-se que o Autor vivenciou o processo de formação do Estado mo-
para o desenvolvimento da proposta teórica de Ratzel encontra apoio no fa- derno alemão, tendo escrito a maior parte de seus trabalhos no período bi!.-
to de, logo após a edição de tais resultados, ele publicar a primeira versão marckiano de consolidação de~se E~tado. Sem querer entrar numa discussão
10
de sua obra capttal, a Antropogeografia. sobre as panicularidades do desenvoh·imento do capitalismo na Alernanha ,
A publicação desse livro em 1882 consagra seu autor no ambiente aca- cabe, contudo, assinalar alguns elementos importantes para a compreensão do
dêmico alemão. Tanto que no ano seguinte Ratzel transfere-se para a Uni- pensamento de Ratzel. Em raLão do caráter tardio da consolidação da sua uni-
versidade de Leipzig, onde passa a ocupar a cátedra de geografia, substi- dade nacional, a Alemanha não partiCipou da partilha do mundo. Emerge co-
tuindo Richthofen na cadeira que antes havia sido de Peschel. Ali ele vai mo potência capitali ~ta, apresentando uma industrialização superior à da In-
desenvolver uma imensa atividade. Dirige a Sociedade de Geografia de Leip- glaterra no último lustro do ~éculo XIX, de~tituída de colônias. Um expansio-
zig, onde orienta numerosos trabalhos. Edita a "Biblioteca de Manuais Geo- nismo latente será a marca da política nacional alemã no período. A própria
gráficos", que publica, entre outras obras famosas, a C/imatologta de Hann constituição do Estado alemão 5e fez sob a égide do projeto imperial prussta-
e a Morjologta de Penck. É coordenador do Comitê Central para o Estudo
da Geografia da Alemanha, organismo estatal interuniversitário dedicado 1q Alem das resenhas J3 ciLada~ do A nnée :;;vcioloJ?IlJlle podern-;e lembrar as publicadas no
a levantamentos regionais monográficos. Entre 1885 e 1888 publica os três Annales de Géograpflie, a saber: R \\' ~1\~.\l , Lo ui; L'elémcm humain dan~ la géographic. A.
volumes daquela que será sua segunda mais importante obra: As raças G. v. I, 1891 / 2; VJDAL O[ LA Br \Uil, Paul. La geograph1e politique. A propos de~ écrits de
:>.1 F. Ratzel A. G. v 7, 1898: Hu< r-..1 1, G A. La g~ograph 1e de la circulauon sclon F Rat -
zel. A. G. v 15 e 16, 1906/7; Sro,, Julc~ La scconde ed1t1on dr la Poltllsche Geog1aph1e de
F RATZ[I, F Wandertoge emes f\Joturforschers. Leipt1g, 1874. M. F. Ratzel. A. G.' 13, 1904. '
lb Sobre a eMada de Ratzel nos Estados Unidos, ver· SAUER. Carl. The rormative years of Ratzcl 10 Uma discussão profunda a esse rc~pcito pode ,e r .:n~ontrada cm: LL" \( ~ . Georg E/ awlro
m the Unued State!t. Annols of Associotwn of Americans Geographers, v. 61, 1959. a la ra~ón Barcelona GTijalbo 1976
20 21

sociedades. Dai também sua crítica às histórias universais que não abarcam to-
no. Na verdade, a unificação se estabelece sob a hegemonia da Prússia, com
dos os povos conhecidos.
a total capitulação dos setores progressistas e liberais 21 . O militarismo e o
Posta a unidade da espécie humana, a civilização apareceria, segundo Rat-
belicismo característicos da organização social prussiana se tornam a arga-
zel, como o único critério absoluto diferenciador das várias sociedades. Des-
massa da unidade nacional.
tarte, a divisão existente na humanidade sena aquela entre os "povos naturais"
As formulações de Ratzel se mscrevem na retaguarda ideológica de tal
22 e os "povos civilizados". Cabe, então, apresentar a concepção de civilização
processo • Sua teorização atua no sentido de legitimar o projeto expansio- em Ratzel. Esta em sua definição elementar é vista como "a soma das conquis-
nista, seja através de uma naturalização da guerra e da competitividade en- tas cultas", como um produto histórico cuja base repousa num progressivo in-
tre as nações, seja pela apologia do Estado existente em suas obras. Isto não tercâmbio entre os homens e a natureza. A civilização implicaria uma "utiliza-
quer dizer que Ratzel tenha sido um ideólogo direto das teses de Bismarck. ção consciente da natureza", na ultrapassagem da "produção espontânea". Os
Ao contrário, o vigor de seus argumentos demandava uma aura de cientifi- povos naturais seriam aqueles que vivem sob o domínio da natureza, depen-
cidade, logo um distanciamento em frente das questões práticas imediatas. dentes dos recursos ambientais imediatos. Os civilizados ampliariam o leque
A eficácia ideológica de seus escritos residia, exatamente, na aparente neu- dos recursos utilizáveis, efetivando uma relação mais intensa entre a sociedade
tralidade de seu discurso. A aproximação com os problemas postos para a e seu espaço. O progresso é, dessa forma, apresentado como uma união mais
classe dominante alemã se dava por uma via meramente temática. Vale dei- íntima dos povos com as condições naturats por eles vivenciadas, na tradição
xar que as argumentações e juízos ratzelianos falem por si mesmos. dos juízos de Herder e Ritter.
Nas páginas de Ratzel se encontra uma visão coerente e Integrada da Ratzel diz que a civilização assegura para as sociedades "o firme apoio
sociedade. Na verdade ele chegou a elaborar, se bem que de forma assiste- da natureza", pelo uso consciente de seus recursos, libertando-as (se bem que
mática, uma teoria da história, em que o Estado vai aparecer como o agente de modo relativo) das imposições da produção natural espontânea. Os dons
privilegiado de impulsionamento do progresso. Ele produziu, assim, a par- da natureza passam, com a civilização, a ser resultantes do trabalho humano.
tir de uma ótica geográfica, uma explicação que pretendia veicular uma vi- Este, em sua essência, é definido por Ratzel como uma "imitação da nature-
são global do desenvolvimento da humanidade. za", um fator de domínio de seus recursos e de suas condições. Ele é explícito
Ratzel pane da afirmação da "unidade da espécie humana", contrapondo- ao colocar que a força do homem é inesgotável e que a "energia do povo"
se às teorias racistas que definem diferenciações de base no interior da humani- é o motor fundamental do progresso. Seria a associação de tal energia com
dade. Para ele, as diferenças encontráveis entre os pO\OS não adviriam de uma a fertilidade do meio o elemento explicativo central do variado desenvolvimen-
determinação genética do equipamento biopsíquico, sendo, ao contrário, fru- to da humanidade. Dessa forma, o valor dos diferentes quadros terrestres é
tos de uma história que se desenrola sobre a Terra. A aceitação do racismo, visto como relativo. As condições naturais do meio aparecem como um dos
de certa forma, fecharia a possibilidade de uma explicação geográfica da histó- fatores do progresso. Ratzel só é rígido na avaliação das condições de penúria
ria ao colocar a chave de sua interpretação num patamar da biologia. Tal cha- absoluta dos recursos ambientais - segundo ele, sem alguma riqueza não há
ve, na teorização ratzelíana, Iocalizar-se-ia na relação entre as sociedades e as momentos de descanso e sem esses não existe possibilidade de progresso inte-
distintas condições ambientais dos variados quadros terrestres. A humanidade lectual. As condições naturais são entendidas como estímulos ou freios ao de-
é, dessa maneira, posta como unitária em sua origem, diferenciando-se num senvol\imento dos povos.
processo histórico. Daí Ratzel insurgir-se contra a idéia da existência de "po- A configuração do meio e a qualidade dos recursos ali disponíveis atua-
vos sem cultura" e também contra a tese da "regressão cultural" de certas riam de forma mediatizada sob tal processo. Na concepção ratzeliana, como
já foi mencionado, o condicionamento natural é concebido através de causas
econômicas e sociais. Assim, a posição geográfica ou a configuração do relevo
Sobre o período bismarckiano, ~er · Mo\RX, K Cntrca de/ Programa de Gotha. Moscou, Pro-
21

g;-ess. 1977; e TRAGTE.\ffiERG, Mauncio Burocracta e ideologia. São Paulo, Ática, 1974. Cap III;
atuam sobre a história dos povos, por exemplo, através das condições de segu-
( ainda ~ trabalhos citado~ de Kofler e Lukacs. rança que propiciam, a qual seria fundamental em certos estágios de civiliza-
22
Gonmann está entre os comentaristas que enfatizam "a necessidade de aval1ar Rat7el em função ção para sedimentar o patrimônio cultural adquirido. Segundo Ratzel, numa
de sua época e &eu meio nac1onal [.. ) Nos úlumo~ anos do século XIX, a Alemanha conheceu uma aparente ambigüidade com outros juízos de sua teorização, num determinado
das grandes épocas dt> sua hístóna com B1smaJck. Este 1mpério fe1t0 pela recente união dos paíse> momento de sua formação, urna dada sociedade necessitaria de um período
alemães sob o cetro do re1 da Prússia :.e encontra em plena ascen>ào na luerarquia das grandes
potência~. mas um pouco estreito em suas fronteiras. As adições reccmes de territóno~ . adquiridos
de paz para impulsionar o seu progresso, sendo ponanto a segurança posta
às e.xpensas da Dmamarca e França, não sausliuram seu apetite [... )o~ alemães sentem profunda- como uma condição para a civilização. Ratzel aponta a conservação do patri-
mente a maleabilidade políuca do espaço, as vantagens de sua posição no coração da Europa. e mônio cultural como uma medida da civilização dos povos (à qual vai somar
estavam um pouco agnados por seus su~sos recentes, pela consc1ênc1a [ .) de sua capac1dade polí- a necessidade da invenção - na sua concepção a falta de curiosidade é defmi-
tica [... J Ratzel dá [...) um traço c•entífico a esta consc1ência" (GorrvtANN, Jean. La {IOirttque des da como uma "atrofia intelectual").
Érars er leur Réographie. Paris, A. Colín. 1952.
22 23

O condicionamento natural também manifestar-se-ia, tomando-se um ou- demográfica. A este processo de difusão dos povos civilizados Ratzel denomi-
tro exemplo, através de estímulos como aqueles que demandam o trabalho co- na ''incremento das áreas étnicas". Tal processo é capital para o progresso de
letivo e a divisão do trabalho que, para Ratzel, constituem necessidades benéfi- um povo, pois, além de colocá-lo em contato com realidades ambientais dife-
cas à civilização. As condições que levam ao agrupamento da população e à rentes (alargando o seu "horizonte geográfico"), propicia? contato com ou-
cooperação produtiva aparecem como favoráveis (em termos sempre relativos), tros povos portadores de um equipamento cultural distinto. A expansão da área
pois induziriam a uma maior "coesão social". A complexizaçâo das formas de uma cultura acompanharia um incremento étnico propriamente dito, por
de cooperação social é, desse modo, entendida como outro elemento primor- causa da inevitável assimilação de novos elementos culturais oriundos do con-
dial do processo civilizatório - Ratzel é enfático ao definir a diferenciação so- tato. A mesclagem e as condições que favorecem a difusão seriam, assim, alta-
cial como um elemento de progresso. Este raciocínio ratzeliano possui grande mente positivas no sentido do progresso (para o povo em expansão). O isola-
concordância com o esquema interpretativo desenvolvido por Érnile Durkheim2·1. mento, ao contrário, estaria, na visão ratzeliana, ligado à barbárie e à estagnação.
A partir da visão da sociabilidade como um atributo natural dos homens, con- Os diferentes fatores que impulsionam o progresso de um povo, colocando-
cebe um movimento evolutivo marcado por formas cada vez mais complexas o na senda da civilização, possuem um pano de fundo comum: o "teatro" on-
de associação, num trânsito que vai da família ao Estado. A cada uma das de se desenrola tal processo - a superfície da Terra. A relação com o meio
etapas associativas corresponderiam determinados tipos de atividade económi- seria uma constante nos acontecimentos que interessam à história do homem,
ca, numa escala que vai da coleta itinerante à agricultura sedentária. Ainda nu- esse "ser terrestre". Dai a visão de Ratzel da "unidade telúrica" entre a histó-
ma grande identidade com a concepção durkheimiana da evolução histórica, ria da humanidade e a do planeta. A Terra é posta como substrato indispensá-
Ratzel vai localizar na "força da densidade" um dos principais motores de tal vel da vida humana, sua condição universal de existência. O espaço, segundo
processo, ao qual vai somar a "favorabilidade do meio" - campo próprio ele, encerra as condições de trabalho da sociedade, que aumentam progressiva-
da investigação antropogeográfica. mente com o seu desenvolvimento. De tal modo que a civilização, ao libertar
O processo civilizatório, todavia, é apresentado na formulação ratzeliana os povos do domínio do meio, os torna mais dependentes dele. Logo, a ques-
comq desenvolvendo-se por múltiplos caminhos e em velocidades distintas, donde tão do domínio do espaço ocupa um lugar central na história. .
se abtneitta sua inclusão entre os pioneiros da teoria difusionista. A mobilidade É em direção a essa questão que Ratzel vai dirigir sua argumentação. E
na superfície terrestre, passando por variados quadros ambientais, representa- em referência a ela que constrói seus dois conceitos fundamentais: o de territó-
ria, para ele, elemento essencial para a evolução dos povos. Segundo sua ava- rio e o de espaço vit~ território seria, em sua definição, uma determinada
liação, a origem do excedente económico residiria na passagem, de uma socie- porção da superfície terrestre apropriada por um grupo humano. Obse.rva-s.e
dade já com um instrumental tecnológico sedimentado, de um meio mais po- que a propriedade qualifica o território, numa concepção que remonta as on-
bre para outro mais fértil. A difusão espacial aparece, então, como vital ao gens do termo na zoologia e na botânica (onde ele é concebido como área de
progresso, notadamente aquelas formas de difusão que ele qualifica de "coe- dominância de uma espécie animal ou vegetal). Dessa forma, o território é posto
rentes", isto é, os movimentos como os de colonização ou de expansão conti- como um espaço que alguém possui, é a posse que lhe atribui identidade. O
gua que mantém laços com um centro irradiador (as formas de difusão "in- conceito de espaço vital Ratzel toma de Fichte, e lhe dá maior substantivação.
coerentes" seriam, exatamente, aquelas que levam à "desagregação" do grupo ~ O espaço vital ~anifestaria a ne_ce.ssidade ter~torial de ui?~ sociedade tendo
social). Todas as condições, portanto, que facilitam a mobilidade dos povos em vista seu eqmpamento tecnolog1co, seu efet1vo demograf1co e seus recursos
acek:am o curso da história. naturais disponíveis. Seria assim uma relação de equilíbrio entre a população
A expansividade, na concepção ratzeliana, seria natural dos povos e pro- e os recursos, mediada pela capacidade técnica. Seria a porção do planeta ne-
duziria diferentes efeitos conforme o estágio de desenvolvimento por eles vi- ce.ssária para a reprodução de uma dada comunidade.
vendado no momento da difusão. Nos povos naturais ela impediria a solidifi- A construção desses dois «9nceitos centrais já indica, claramente, o ca-
cação de um significativo patrimônio cultural, pois este decorre de uma acu- minho da formulação ratzeliamt."'·A defesa do território é entendida como um
24
mulação in sllu. Porém, havendo o progresso, a expansão torna-se inevitável, imperativo da história, a qual passa a ser delineada como uma luta pelo espaço .
seja em função da exaustão do meio pelo uso intensificado, seja pela pressão O direito de um povo a uma dada porção da superfície terrestre repousaria
no trabalho ali despendido e, principalmente, no poderio bélico. Tanto a pro-
A idéia durkheimiana da evolução da ~ociedade com a maior coesão social (passagem da solida·
23

nedade mecânica pa.ra a orgâruca) não conflita com as teses de Ratzel. Também existe grande pro- 14 ·•semelhantes à luta pela v1da , cuja finalidade basica é obter espaço, as luta~ d?~ povos dão-se
ximidade com relação às concepções de método dos dois autores. Sobre estes paralelos pode-se con· quase sempre pelo mesmo objetivo. Na hi stória moderna a recompensa pela.\1tona ~ei~pre fOI ,
sultar, além da obra mencionada de Febvre. SoRRE. Max. Rencomres de la géograplue er de la so- ou tem pretendido ser, um proveito territorial" ( RATZEL apud SonRE, N. W lntroduçao a geogra-
ciologle. Paris, M. Riviêre, 1957 fia , Op CIL, p. 50).
24 25

priedade quanto a luta são colocada~ como naturai~ à hi.-.tória. Com relação explicitamente o trabalho compulsório como acelerador de tal processo. Se-
à propriedade, Rat1el, aproximando-se bastante das colocações de Locke25 , ar- gundo ele, o "amor à vida vagabunda" é muito intenso, o que justificaria
gumenta que seu fundamento está no trabalho, definindo-se a posse pelo es- -em nome da civilização - o uso de medidas coercitivas para estabelecer
forço de se tirar um objeto da natureza. Diz ainda que não se conhece na his- o trabalho regular e constante.
tória nenhum "povo comunista''. Segundo ele, o progresso implicana maior Na substantivação empínca dessa argumentação, Ratzel chega a expn-
estabilidade do dommio territonal, po1s se expressa em ra~zcs que o povo im- mir juízos que denotam claramente sua perspectiva etnocêmrica, alguns in-
prime em seu espaço. clusive contraditórios com suas posições teórico-abstratas. Ele afirma que a
Ratzel também considera a VIOlência. a guerra e a conquista como com- sede dos povos conquistadores é o hemisfério norte e o Ocidente, defimndo
ponentes naturais da história humana. Sendo a expansão dos povos mexorável as demais localidades da Terra como "áreas de expansão". Chega a dizer que
com o progresso e, por conseguinte, o contato com outras sociedades inevitá- a investigação histórica mostrou ser a zona temperada a mais propícia à Civi-
vel. um mecamsmo de disputa tende a se estabelecer no desenrolar da história. lização e a raça branco-caucasiana a de mais firme energia. Acaba por con-
O embate entre sociedades, etnias e nações seria normal, um dado inquestioná- cluir que a população européia possui as melhores aptidões, o que (em parte
vel da realidade . O comato pode resultar em comérciO, em assirrulação ou em decorre) se associa a uma favorabilidade locacional úmca. Por isso o europeu
guerra26 • Semp1c o povo num estagio inferior de Civilização acabaria engloba- seria o realizador da história umversal pela difusão da CIVIlização ma1s adian-
do pela dinâmica do mais avançado, num processo que tena por limites a fu- tada. O conteúdo ideológico de tal argumentação d1spensa comentários.
ga, a aniquilação ou a as!>imilação torai. Ratzel vai estabelecer uma diferencia- As formulações ratzelianas a respeito do desenvolvimento histórico da
ção quamo ao papel desempenhado pela guerra entre os povos naturais c entre humanidade desembocam numa teoria do Estado. É na sua elaboração que
os povos cultos. Nos primeiros, o móvel da guerra seria o saque e a escravidão Ratzel vai despender uma parcela significativa de seu e~forço teórico. O apa-
(diga-se de passagem que esta instituição é por ele criticada de forma tênue, recimento do Estado é, inicialmente, posto como um momento fundamen-
apenas na sua ação desagregadora :.obre a fam1ha), nos segundos, a conqu1sta tal no processo e~vilizatório. A sua existência é, na verdade, o principal ele-
territorial. Esta, segundo ele, desencadeia uma ação extremamente benéfica sobre mento diferenciador entre os povos naturais e os civilizados; sua gênese é
a sociedade que ;; realizar. vista, assim, corno pomo de inflexão da história humana. O surgimemo do
Na concepção ratzeliana, a índole guerreira é posta corno virtude. sendo Estado demandaria já um ceno patrimônio cultural acumulado e teria por
através da conquista que se expandem os frutos da CIVIlização. Nesse juízo o pressuposto a delimitação do território. Isto porque a defesa do espaço vital
elogio ao coloniahsmo adquire uma clareza meridiana. O povo que progride da sociedade seria, segundo Ratzel, a causa e a fu nção precípua de sua exis-
expande difundindo, sobre as sociedades que subjuga, o germe civilizatório que tência. Ele afirma que, quando a sociedade se organiza para defender o seu
impulsionou ~cu monmento. A identidade étnica é a recompensa daqueles que território, ela se transforma em Estado. Seu aparecimento, por outro lado.
po<:suíram energia para conter as forças em expansão, po1s, segundo Ratzel, resulta num aumento da coesão social do grupo.
é a luta que faL merecer a liberdade (outro raciocínio que, sub-repticiameme, Uma vez constituído, o Estado se desenvolve, na avaliação de Ratzel,
jmtifica a escra\ idão como resultante da fragilidade soc1al). Em seu entendi- por uma lógica própria que o faz ir se autonomizando da dinâm1ca soc1al
mento, a desconfiança está na base da atividade política do~ povos naturah, que lhe deu vida. No processo de sua efetivaçào, ele acaba por subjugar a
o que implica a falta de coesão social e de direção moral para fazer frente (mes- sociedade, expandindo o seu "egoísmo político". Torna-se, finalmente, o
mo quando pos~ui um contingente numérico maior) à' investidas dos povos agente primordwl do processo histórico, acabando por mo nopolizar inte-
Cl\lhzados. A conquista, portanto, é inevitável naqueles confrontos entre po- gralmente a arena da política. Desse modo, o Estado, de acordo com a teo-
' os em esrag1os culturais díspares. Alem de inevnável, ela é benéfica em sua rização ratzeliana. movimenta-se a partir de interesses próprios, entre os quais
opinião. pois impele o conquistado a um estágio superior de civilização. A fé destaca-se o "apetiJe territorial'hua lógica intrínseca é garantir e aumen-
na posniv1dade do progresso é tão fone em Ratzel que ele chega a defender tar o espaço vital. E pautado nessa lóg1ca que ele passa a dirig1r o conjunto
social, por estabelecer uma meta que se coloca ac1ma dos interesses pamcu-
l?res dos grupos existentes numa sociedade já ci"!lizada (logo comple>.a).
; Sobre a conccpçáo do: ptopnedade cm Lockc. \Ct: :v!AR.\ Karl. Teona~ de la plusvalla. Ma-
1
E ele que comanda e organiza os objetivos de "todo o povo'', na inev1tavel
dn, A . Corazon, 1974 ' I. p 16
luta com a~ demais nacionalidades 8 .
b E imcrcs,ante apontar o paraleh-,mo dC\\3 argumentação de Ratte! êOm uma da~ tcmáucJ'>
2

que se tornaram cc:ntrat<. na dtscu,~ào antropologtca - a questão da reCJproctdade, tetnattlJ·


da. entrc ouuos. por :\lauss. Le\1-Strau'' c Ctastre< ~' É a respeuo de tais JUizos que Durkhetm. comem ando um texto de Ratzel, afirma: •· '\o ob·
· - Dtz: ..0 c' paço c: um t!lemento d.: torça para o<. po' os em de'>etl\ oh une mo .. ou "Qualquer set'ar a C\PO\tçào da pohttca conuda cm sua geografta paJC:<:e·nO\ ou \Ir fala r;. um romano. que
progre<so de\ e mamfc~tar.,e neas,anamcntc ~obre o terruorto 1 1 Jbarcar e>pacol sempre não vena para >CU pah glónas matores que as da conquista' (Dt Rt..HEI\1, E 'Ratzel (Fr.)-
n1aiore' C\ ta na c,,c:nu,l mesma do progre"o .. (Geo[!raf,a delf'twmo. op 1.11 . p 243 c 1RS). La mer comme source de ta grandeur de~ peuptes... op cil., p. 567)
27
26

Vê-se que a formu lação de Ratzel atribui à essência do Estado aquelas como objetivo pnmordial de urna de suas vertentes, a antropogeografia. Um
características latentes do Estado alemão no período bismarckiano. O beli- ultimo princípio norma11vo geral, advindo da opção rnetodololl.ica seria o
cismo expansioni~ta, a tutela integral da sociedade são por ele alçados à con- da visão da geografia corno ciência empírica, isro é, pautada na ~bs~rvaçào,
dição de natureza intrín~eca do organismo estatal. Por essa razão, pode-se que avança por um caminho basicamente indutivo. Tais principies, que na
definir o autor em foco como um intelectual orgânico da política dos Jun- verdade reforçam preceitos de autores anteriores (noradarneme de Hurnboldt
kers . É interessante observar que ele manifesta uma consciência clara da si- e Ritter), se agregaram profundamente no pensamento geográfico posterior
tuação alemã- de elo débil da cadeia imperialista29 . lsto transparece, de Resta apenas reforçar algumas considerações sobre a "herança oco-
forma explícita, nas suas críticas à divisão política ua Europa Central e na gráfica" ratzeliana. Esta é constituída, principalmente, de suas forrnula~õe~
co~cernentes ao objeto antropogeográfico. Corno foi dito, Ratzel foi o pri-
discussão a respeito da relação entre o espaço político e as áreas étnicas. A
meJro ~uror a propor ,cte f?rrna explícita urna geografia do homem, ocupan-
estratégia imperial bismarckiana é plenamente assumtda por Ratzel, apare-
do assim um papel piOneiro em tal campo de preocupação. Pode-se dizer
cendo, por exemplo, em suas colocações sobre a relatividade das fronteiras
30 que por.esta vta foi um precursor da própria geografia humana (de matriz
(seu caráter circunstancial) ou sobre a inevitabilidade da gucrra .
pre~ommantemen~e francesa) que surge em oposição à sua proposta. Nesse
É este o cerne das concepções político-soCiais presentes na proposta
sentido pode-se afmnar que ele exerce urna influência, mesmo que por ne-
ratzeliana. O conteúdo ideológico das afirmações c mesmo seu caráter im- gação, sobre a "escola possibilista" de Vida! de 1-a Blache. Ratzel também
trumental direto permitem incluí-la no escopo da Kulrurkampf(política cul-
"?i influenciar, aí de urna forma mais direta e afirmativa, a corrente antagô-
tural estimulada pelo Estado alemão no final do século XIX, de forte apelo mca desse embate: a "escola determinista" de Semple, Huntington e outros.
nacionalista) . A retornada das teorias de Ratzel pelos autores nazistas não Os autores dessa vertente de filiação na verdade deturpam, radicalizando,
é assim meramente acidental 31 . as formulações do mestre. De qualquer modo, observam-se as idéias de Rat-
Resta salientar que, em sua produção empirica, Ratzel não consegue zel presellle~ nos dois pólos da principal polémica geográfica da primeira
realizar os horizontes teóricos propostos. À antinomia entre objeto e méto- metade do seculo XX . Em termos metodológicos, seu pioneirismo reside na
do e às aparentes ambiguidades de sua teorização político-social, já comen- introduçà~ e~p~ícita do positivismo na geografia. Todavta, não aparece aí
tadas, vem sornar-se essa defasagem entre as formulações teórico-abstratas uma contnbUJçao pessoal de monta. A própria proposta da existência de um
e seus estudos substamivos. No nível do trabalho empírico. Ratzel, cm grande so "método científico" não propiciava campo para grandes inovações
parte, não consegue ir além de uma "geografia de posição" (o estudo sobre (tratava-se apenas de aplicar preceitos já estabelecidos a um novo campo de
a Córsega, incluído na presente coletànea, bem o demonstra). investigaçào).
Finalizando esta Introdução, cabe sintetizar os princípios normativos con- . , A lei~ura _de alguns te_xto~ ratzelianos poderá oferecer a ilustração dos
tido) na proposta de geografia de Ratzel. Ela é, inicialmente, colocada como JUIZOS aqUI emtttdos . Selecwna-los para a presente coletãnea não é uma ta-
urna ciencia de síntese, que trabalha com uma gama bastante variada de fenô- refa fácil, pois se trata da primeira publicação de qualquer escrito de Ratzel
menos, preocupada em apreender suas relações. A unidade e a identidade do em português. Sua produção, corno vimos, é considerável, abarcando um
estudo geográfico repousariam na perspectiva telúrica: a manifestação na su- amplo le9u~ d~ questões: Urge. deste modo, eleger um obJetivo preciso para
perfície terrestre como critério unificador dos diversificados fatos e processos dar consistencia ao conjunto de textos, de modo que ele possa fornecer a
constitutivos do ob)eto geografico . O caráter não sistemático da geografia não possibilidade de um juízo quanto às concepções do Autor. De certa manei-
significana, entretanto, uma aceitação da ''excepcionalidade" dessa disciplina ra, a p_roposta de Ratzel ajuda nessa tarefa, pois suas preocupações, apesar
científica perante as demais. Ao contrário, ela seria uma ciência absolutamente de vanada_s, possu~~ um leito comum de integração. A geografia emerge
igual às outras, o que poderia ser atestado pela adesão ao "método cienttfico'' em seu untverso teonco corno lima via agregadora de diferentes classes de
comum a todos os campos de~sa forma de conhecimento. A peculiaridade do problemas. A Terra unificaria o estudo dos diferentes fenômenos que ocor-
objeto definiria, isto sim, a geografia corno uma ciência de contato entre os rem sobre sua superfície. A questão da influência das condições naturais ~o
fenômenos naturais e sociais. O entendimento de tal relação é, inclusive, colocado bre o desenvolvimenro dos povos perpassa todo o u aball1o ratzeliano.
Acredita-se ser este o cerne do pensamento de Ratzel, logo o carmnho natu-
"'' Utilizando a e-xpre>>ào cunhada por POL 1 ,:-, rz-~.s. 'iica>. Fa~CIWIO e duaduro São Paulo.
ral para um primeiro contato .
\l::utim Fon1cs. I978. p. 31.
1° FebHe e Sion del1nem a geografia políuca de Ratzel como "um manual de llllperJali>mo"
•er FEB\Rf. L Op . .:11 . p. 57. e SI(J,, J . Op. cit, p. lil.
" Sobre a retomada da~ rcoria, ra tzeliana; pelos naw.ta<, podr-;e consultar a obra cnada tk
'-<el,on \\'erncck Sodré.
29

tes teoricos almejados, selecionamos um breve estudo rnonoeráfico intitula-


do "A CÓRSEGA: ESTUDO ANTROPOGEOGRÁFICO'';'. Este trabalho
foi publicado no Annales de Géographte, em 1899. Na verdade trata-se de
OS TEXTOS SELECIONADOS uma amostra muito diminuta para se efetuar um juízo a respeito da \Olu-
mosa produção empírica de Ratzel. Mesmo asstm, por tratar-se de uma mo-
nografia, permite obsenar a abordagem empregada pelo Autor no trato do
mundo emp1rico. Prepondera em sua análise, nesse texto e no geral de sua
A obra capital da produção ratzeliana é a ANTROPOGEOGRAFIA,
obra empírica, uma "geografia de posição" (em moldes b'em tradicionais)
que tem por subtítulo: Prindpws de aplicação da ciência geografica à Justo-
que empobrece ba~tante suas considerações no plano teórico-abstrato.
na. Publicado originalmente em 1882 e republicado- com um segundo' o-
Finalizando a coletânea, sclecionamos um artigo que versa sobre o te-
lume e pequenas alterações no primeiro- em 1891, este livro, que inaugura
a geografia do homem, possui um claro tom normativo veiculando um pro- ma a que o nome de Ratzel mais ficou vinculado: a problemática da relação
jeto e uma proposta de Ratzel. A proposta: constituição de uma nova ciên- enrre o Estado e o territóno. Trata-se do artigo "AS LEIS DO CRESCI-
~IENTO ESPACIAL DOS ESTADOS'', publicado originariamente na Pe-
cia geográfica; o projeto: construir seu objeto próprio (nos moldes do posi-
t~manns Mirteilugen, v. 42, 1896, c republicado em Kasperson, R. E. e Ming-
tivismo clássico) a partir da questão das influências. Trata-se, assim, de lei-
tura indispensável para o conhecimento das concepções ratzelianas. Na im- tu, J. V., eds., The struc:ture of politicai geography, Chicago, Aldinc, 1969
possibilidade de publicar essa obra na integra - só o primeiro volume per- Este texto é bastante explícito quanto às concepções políticas de Ratzel, ofe-
faz mais de setecentas páginas -, optamos por excertos contendo o~ tre- recendo uma visão de sua proposta de geografia política.
chos ma1s significativos em termos teórico-metOdológicos. Escolhemos aspas-
sagens mais densas quanto à definição do objeto antropogeográfico em de-
trimento das eruditas discussões de conteúdo mais empírico. Por esta razão
tran~crevemos os capítulos iniciais do primeiro volume da Antropogeogra- Bibliografia de Ratzel
fia, em que Ratzel faz uma extensa revisão da matéria, investigando como
a questão das influências foi tratada desde a Antiguidade ate os autores de
sua época . 1874 - Wandertage eines narwjorschers, LeipLig.
A outra obra escolhida para constar da presente coletânea é AS RA - 1876 - Stadte und Culturbtlder sus Nordarnerika, Leipzig.
ÇAS HUMANAS, sem dú' 1da o trabalho de Ratzel mais dinilgado, do qual 1878- Aus Mextco: Re1seskizzen aus den Jahrcn 1874 und 1875, Leipzig.
conheceu em vida traduções para o inglês e o espanhol. A edição original
1878/ 80 - Dte Vereimgrer Sraaten von Nordamerika. 2 '., Munique.
do livro, em três \Oiumes de quinhentas páginas, data de 1885 a 1888. Situa-
1882/ 91 - Anthropogeographie, 2 v , Stuttgart.
se, dessa forma, entre as duas edições do Anrropogeografia. Trata-se basi-
camente de um mmucioso e exaustivo inventário dos diferente~ povos e'm- 1885/ 88 - Vo/kerkunde, 3 '., Leipzig.
tentes no globo, apresentados por grupos e subgrupos raCiais e temauzados 1889 - Die Schneedecke, Stuttgart.
quanto à linguagem, a religião, à economia, à habitação, a fam11Ia, às foi- 1891 - Úber Karrenfelder 111 Jura und Verwandres, Leipzig.
mas de poder, aos produtos, ao vesruário, etc. No mício da obra, Ratzel 1896 - Der Sraat und sein boden geographtsch beobachtet, Leipzig .
justifica o procedimento adorado e expõe sua concepção a respeito de cada
'
. 1896 - Deutschland, Einfuhrung 111 dte Heunatkunde, Leipzig .
um dos aspectos temauzados . Essa primeira parte difere bastante do restan- 1897 - Polittsche Geographie, Munique/ Leip7ig.
te da obra, pois possui um conteüdo teórico explícito, enquanto as dema 1s 1900 - Das meer ais quefle der voelkergroesse, Leipzig.
partes são integralmente descritivas. Optamos por exceí·tos dessa parte Ílll- 1901/2 - Die Erde und das Leben, 2 v., Leipzig .
cial. abarcando os quatro primeiros capnulos e o décimo terceiro (este in- 1904- Úber Naturchilderung. Munique
cluído por expressar Sinteticamente a concepção de Estado do Autor). Acre- 190617- Kleine schiften, 2 \., Mumque.
d itamos que estes textos ajudam na explicitação de pontos apresentado~ no~ 1907 - Raum und Zett m Geographie und Geologte, Leipzig .
anteriores, acerca da teoria da história ratzeliana.
'
Para !>C faLcr um pequeno contraponto entre as propo~tas teórica') de Além destes livros, RatLel escrc' cu um elevado número de artigos cien-
Rat zel c ~ua produção emp1rica, que, como foi dito. não realiLa os honLOn - tíficos e jornalísticos
Bibliografia sobre Ratzel

CLAVAL, Paul. Evolución de la geograj(a humana. Barcelona, Oikos-Tau ,


1974.
Drx, Arthur. Geografía política. Barcelona, Labor, 1929.
TEXTOS DE
F EBVRE, Lucien. La tterra y la evoluci6n humana. Barcelona, Cervantes,
1925.
GOTTMANN, Jean. La politique des états et leu r géographie. Paris, Armand
Colin, 1952.
FRIEDRICH RATZEL
SEMPLE, Ellen. fnjluences oj geographic environment on the basis oj Rat-
zel's anthropogeography. New York, M. Holt, 1914.

l
·''

Seleçào, orgamza~ão e re1•isão


da tradução:
Antonio Carlos Robert Moraes
33

adquire em função de um acontecimento histórico singular; elas represen-


I. GEOGRAFIA DO HOMEM tam, pois, na história subseqüente dos povos um elemento de caráter dura-
douro. Assim como o mar, a humanidade tem sua raiz na Terra; após as
mais violentas tempestades, tanto um quanto a outra tendem a restabelecer
(ANTROPOGEOGRAFIA)* o mais intimamente possível aquela ligação, profundamente arraigada na sua
natureza. Recordemos, na expressão escultural de Karl Ritter, "ser o Esta-
do cingido à natureza do seu território" . Quanto mais elevado é o ponto
de vista a partir do qual se considera a história, tanto mais se torna manifes-
ta a existência deste canal bem determinado e pouquíssimo mutável, através
do qual deriva a corrente da humanidade, e tanto melhor se reconhece a im-
portância que tem na história o elemento geográfico do qual falamos . É pre-
cisamente sobre esta importância que se apóia o direito da geografia de in-
vestigar as condições naturais em meio às quais os acontecimentos históri-
cos se desenvolveram .
Porém, como sempre ocorre no desenvolvimento dos problemas cien-
tíficos, nem tudo é governado por leis de necessidade; freqüentemente, a ca-
. 1. EV9LUÇÃO DOS CONCEIT9S RELATIVOS sual concomitância de vários fenômenos históricos intervém também e exer-
A INFLUENCIA QUE AS CONDIÇOES NATURAIS ce sua influência. Não foram estes os problemas que a geografia apontou
EXERCEM SOBRE A HUMANIDADE em primeiro lugar, pois já desde os tempos antigos a filosofia se vinha apro-
ximando deles. Na verdade, a esses problemas não pode permanecer estra-
nho o pensador que investigue a sorte e o futuro da humanidade. Embora
§7. Conceitos predominantes no passado - A geografia, imediatamente se observe, ao longo da evolução dos conceitos acerca das relações entre a
após a renovação realizada por Karl Ritter, dedica-se com grande amor ao ami- natureza e a história, que as obras tanto de uma quanto de outra se tornam
go problema filosófico das relações recíprocas existentes entre natureza e huma- plenamente manifestas a qualquer ponto de vista, perceber as influências que
nidade, entre o teatro dos acontecimentos e a história, procurando. se não che- a primeira exerce sobre a segunda é, ao contrário, algo extremamente difí-
gar a solução, pelo menos aproximar-se dela. Mas por que razões a geografia cil, tamo que se pode encontrar a esse respeito muitos conceitos prematuros
sentiu a necessidade de enfrentar o estudo das intrincadíssimas questões fisioló- e arriscados, que permaneceram, por isso, ineficazes e esquecidos, de modo
gicas, psicológicas e históricas a que estas relações mútuas dão lugar? Bem, a que o que vemos sempre é o estudo ser retomado do início. Nos filósofos,
nossa ciência deve estudar a Terra ligada como está ao homem e, portanto, não nos historiadores, nos geógrafos da Antiguidade, encontramos urna verda-
pode separar esse estudo do da vida humana, tampouco do da vida vegetal e deira riqueza de conceitos antropogeográficos, o que surpreende duplamen-
animal. As mútuas relações existentes entre a Terra e a vida, que sobre aquela te, se se considera quanto eram limitados o horizonte geográfico e o conhe-
se produz e se desenvolve, constituem precisamente o nexo entre uma e outra cimento etnográfico e histórico daqueles tempos 1 • Já em Hipócrates
e, portanto, devem ser particularmente examinadas. Hoje, a parte geográfica encontram-se excelentes observações sobre a influência que o clima exerce
desse estudo tem uma importância indubitável e é, ao mesmo tempo , a de mais na vida dos povos; e em Estrabão, onde ele trata dos continentes e dos luga-
fácil realização. É de se assinalar, em primeiro lugar, que tudo que se refere res singulares, encontram-se alguns conceitos que os nossos manuais de geo-
à natureza, ao ambiente, é imutável em comparação àquilo que se refere ao grafia retornaram há apenas alguns decênios; e a necessidade que ele expres-
homem. Do mesmo modo que a onda quebra sempre da n1esma maneira con- sa de considerar a conformação diversa dos territórios como preordenada
tra determinada forma de rocha, ocorre também que determinadas condições com base em um princípio racional é precisamente o conceito fundamental
naturais impõem ao movimento da vida sempre as mesmas vias e, renovando- de Karl Ritter.
se perenemente, colocam sempre e no mesmo sentido obstáculos ou limitações. Com a renovação da ciência voltam a ser estudadas também as rela-
Por isso, a importância dessas condições naturais vai além daquela que o lugar ções entre as condições naturais e a vida do homem. E é a partir daí que

• Reproduzido de R \TZI:.I , F. E1·oluzione de1 conceui relatil'i all'inOuenza chc le condizJon1 nmur:~li 1
PORHLI'-1ANN , R. Hellemsche Anschauungen iiber den Zusammenhang zwlschen NaJUr und
eserCitano sull'umarútà ln Geograjín dell'uomo [Anthropogeograph1el Turim. Fratelh Bocca. 191-l Geschichre . 1879 Observe-se especialmente a comparação entre algumas passagens de Aristó-
1. 1. pane 1. capmllos 1. 2. 3, 4, 5, p 13 a 104 Traduzido do Italia no por Fatima :Vlurad teles e outras de 1\lontesquieu acerca da mfluéncia que o c hma exerce sobre o caráter dos povos
34 35

se torna mais claro o conceito de natureza e mais direta a sua compreensão, o objeu,·o de adquirirem maior fo1ça c segurança, e pela consequente fusão
embora O) progressos deste procedimento se detenham no limiar da htstó- das suas porções de territóno Sp111oza aflora o argumento mas não penetra
ria/Somente a ciência natural progride como ciência investigadora de leis, nele 4 • E, no entanto, a filosofia, nas suas concepções fundamentais, dei.\a
entrever a tmportância que o ambiente físico assume na históna. >Ja '"erda-
enquanto a história não avança um passo adiante. Bodin, no seu Methodus
de. segundo Spmoza, a história do homem se desenvolve, do mesmo modo
ad facilem histonarum cognitionem (1566), atribui às diferenças climáticas
que a da natureza, conforme leis de ncces~idade inelutá\ ets; os falOs histón-
uma grande influência sobre a natureza e sobre a história dos povos; consi-
cos não são para ele senão fatos natut ats e daí tentar explicar a história por
dera também a influência exercida pelos tipos de terreno, pelos cursos de meto da natureza. Para Leibniz, a' tda é unica, e!)tá presente em toda pane,
água etc., e nisso vai além dos antigos, dos quais extraiu os princípios fun- cada uma de suas fot mas está ligada a todas a~ outras, e no mundo, ordena-
damentais da sua teoria 2 . J\1as Bodin atribui uma poderosa influência sobre do segundo uma harmonia preestabelecida, tudo que é criado consutui uma
os destinos dos povos também aos planetas. As gerações postenorcs gradação ininterrupta; decorre daí, portanto, que a história da humanidade
libertaram-se totalmente deste preconceito; mas conservaram. por outro la- não pode ser considerada senão em relação com este mundo, e apenas nele
do, um grande horror ao~ fenômenos naturais, visto que, por exemplo, na encontra sua explicação.
descrição do estado de natureza, venerada a partir de Hobbes, ninguém pen-
sou em utilizar o abundante material aí recolhido desde a época das grandes §8. Montesquieu , Voltaire e Buffon - A influência das condições na-
descobertas geográficas para fazer uma descrição direta dos povos; simples- turais sobre a históna fo t objeto de ampla abordagem por parte de três es-
mente se representou um estado de natureza ideal e essas descrições foram critores franceses, cujo pensamento teve repercussão bastante ampla : Mon-
sendo repetidas sem que se buscasse prová-Ias. Somente nas "Utopias'', em tesquieu, Voltaire e Buffon . Montesquieu, no Esprit des /01s (1748), e Vol-
moda nessa época, se tira partido do material das observações diretas, mas taire , no Essa i sur les moeurs e /'espnt des nations ( 1756), se propõem o mes-
mo objetivo e o perseguem pelo mesmo caminho. Mas não é aí ainda que
de modo inteiramente super ficial. Assim, por exemplo, na Utopia circular
eles pretendem investigar as relações de dependência entre os povos e o ter-
de Tomás Morus é representada uma ilha coralina. Giambattista Vico, ao
ritório por eles habl(ado. Voltaile tema realizar uma exposição geral da hiS-
subdividir a história em três períodos- divino, heróico e humano - , nos toria do espírito humano, e a sua obra reptesenta a primeira história da civi-
le-.a a assistir a um fenô meno de progressiva expansão dos montes aos rios lização. ~lontesquieu quer representar o Estado como um organismo nasci-
e aos mares. Há nele como que um pressentimento da grande lei segundo do nào arbitrariamente, mas formado pela natureza, e que . por isso, não
a qual o estender-se dos espaços históricos, que se ampliam acompanhando pode ser arbiTrariamente modificado, com o que ele afirma a influência da!>
o a ... anço da ci ... ilização pelos territórios internos em dtreção aos rios e aor. condições naturais sobre a história. Asstm, considera-se o elemento geográ-
mares, tem um limite3 ; mas desse pressentimento não resultaria nenhuma fico, mas com cnténos e entendimemos nada geográficos. De resw, Mon-
consequência tangível. tesquieu e Vohatre nào pretenderam de modo algum realizar obras científi-
A partir de Bacon, observa-se que, a cada novo passo da evolução fi- ca~. >Jada lhes causa-.a tanto horror quanto o douto pedantismo; buscaram
losófica, abre-se caminho a uma concepção particular que considera os po- tratar sua matéria como artista!) e como homens do mundo, e o fizeram de
\ os como produtos da natureza e da história; contudo, Bacon não deu uma modo diversificado e atraente c, sobretudo, não-sistemático . O mesmo se
atenção particular à influência das condições naturais sobre a história e essa diga também de Buffon. A importância desses escritores consiste na ampli-
concepção na sua obra, assim como em Hobbes, não foi além da mera hipó- tude e não na profundidade de suas idéias. A influência que tiveram foi enor-
tese. Permanece, portanto, infrutífera como uma flor dissecada e encerrada me. Seus pontOs de vbta sobre os efeitos que o chma e o solo exercem sobre
entre as págmas de in-fólios filosóficos; porque, mesmo naqueles casos em a história dos povos reaparecem, mesmo fora da literatura francesa, sob mui-
tas formas ainda menos aprofundadas .
que teria sido fácil descobrir e provar a influência exercida pelas condições
Para se ter uma idéia clara deste momento cient ifico, eis um exemplo.
naturais, preferiu-se passar por cima dos fatos a pôr decididamente as mãos
As s uas considerações sobre clim a, 1\toute&quicu antepõe, como é seu cost u-
na Intrincada teia.
me, uma 1dée générale:
Da mesma forma, aqueles que se interessaram pelo modo como o ho-
mem pa~sou do estado de natureza ao estado social negligenciaram o ele- "Se é \'erdadc", tlit, ;,que as po~içõe~ do espírito c a~ paixões do coração ~o·
mento geográfico, representado pela união dos indivíduos singulares, com frem grandes \ariaçõcs ern conseq uência dos di\· er~os climas, devem as lei'>
esrar relaciOnadas com e<.'a' drlcrcnças do~ caracteres e das paixõc'>"
'
::VI\' R. Richard. Ote plulosoplusclte Geschichtsouffossung der Neuze11 1877 p 69 et seqs.
K \PP. V Ermt. Aligl'meme \ergleJchende Erdkunde N. cd. 1878. p. 90 et seqs. • :-.1" R. Richard , op . .:it ., p. 175.
36 37

Em seguida afirma, sem muita demonstração, que os climas quente~ exer- mente nas suas lições de Geografia fisica; e creio que, de fato, como destaca
cem uma ação depressora e os frios uma ação fortalecedora, e disso deduz Unold 6 , o primeiro impulso a criticar a obra de Buffon tenha vindo dos En-
que nos primeiros as mulheres se encontram em um nível inferior, os ho- saios sobre a história da humamdade, de H. Home (Lord Kaimes) 7 • Esta
mens são menos corajosos, o povo é mais facilmente excitável, enquanto nos obra aparece em 1774, e a de Kant, Von den verschiedenen Rassen des Mens-
climas frios ocorre o contrário; e isto ele afirma tendo por base observações chen, que foi sua prime1ra tentativa nesse campo, é de 1775. Nesta obra Kant
incompletas, entre as quais recolhemos frases como esta: "para excitar a sen- passa a combater decididamente a teoria das rápidas e acidentais transfor-
sibilidade de um moscovita seria necessário arrancar sua pele". Ele atnbUJ mações das diferenças humanas. Ele considera o homem como pertencente
o pouco progresso das legislações onentais à indolência produzida pelo cli- a uma única e~pécie, que se adapta a todos os climas, mas que em cada um
ma e às escassas necessidades a brandura daquelas populações que, sempre deles desenvolve princípios especiais de adaptação, que por sua vez produ-
por efeito do clima, tomam bebidas excitantes; e, do mesmo modo, explica zem a diferenciação das raças. Nesse processo de formação, a causa verda-
a proibição do vinho imposta por Maomé. A mais importante entre todas deira é representada pelos princípios; o sol e o ar são apenas fatores aciden-
estas considerações é a constatação, renovada mais tarde com maior pro- tais. Esta concepção aprofundada das relações entre o homem e a natureza
fundidade por H. Th. Buckle, de que nos países quentes medra o despotis- coloca Kant numa posição intermediária entre Buffon e os defensores da plu-
mo e nos países frios a liberdade; desse conceito, Montesquieu faz derivar ralidade das espécies humanas, os quais, como Home, Voltaire etc., viam
o fundamento natural da escravidão nas regiões tropicais. Os capítulos rela- em cada raça uma criação particular. O conceito de Kant de que qualquer
tivos ao solo começam pela fertilidade, que é o que para ele diferencia as modificação, amda que aparentemente casual , pressupõe um processo de for-
populações da planície daquelas da montanha. Os povos insulares estão, para
mação adequado, foi posteriormente retomado por C. E . von Baer e resistiu
Montesquieu, mais inclinados à liberdade que os continentais. Entre uma
até mesmo ao ímpeto da invasão darwiniana . Outro conceito fundamental
abordagem desse tipo e a de Ritter ou do próprio Herder a distância é gran-
de Kant, o da unidade indissolúvel do gênero humano com toda forma de
de. Pode-se dizer que, precisamente nessa matéria, nem Montesquieu nem
criação, encontrou seu defensor mais eloqüente em Herder, que já tinha
Voltaire formularam idéias que já não tivessem sido expressas pelos antigos
e, além disso, não chegaram a criar conceitos melhores que aqueles Já co- acompanhado com entusiasmo as lições de geografia do mestre, e depo1s exer-
nhecidos. Seu mérito, que permanecerá para sempre, foi o de terem promo- ceu sua influência também sobre K. Riner. A antropologia de Kant tem mui-
vido o rápido desenvolvimento daqueles conceitos e aplicarem-nos adequa- tos pontos de com ato com a sua geografia, não só porque ambas foram des-
damente, além de terem exercido enorme influência5 sobre seus próprios con- tinadas a um círculo mais amplo de pessoas que o auditório escolástico -
temporâneos. as duas maténas foram por ele tratadas em semestres alternados-, mas por
A Histo1re naturelle de l'homme (1749), de Buffon, pretende ser uma uma ligação muito mais íntima. Parece a Kant que a geografia tem pouca
descrição bela, atraente e impressionante dos povos. Pode ser considerada importância se separada da antropologia: para ele, o homem está tão acima
como o prime1ro tratado de etnologia e, sem dú\ida, despertou por este es- do ambiente que o cerca, que ele chama de Weltkenntniss {isto é, consciên-
tudo um interesse que nenhuma outra obra despertara antes. Mas está reple- cia do mundo) o conhecimento deste ser dotado de razão "ainda que ele re-
ta de dados errôneos e absolutamente fantásticos, que se devem em parte presente apenas uma parte das criaturas terrestres"8 .
ao uso de fontes já então superadas. Esta obra se tornou, por sua vez, uma E m 1777, R. Forster publicou algumas observações com base em argu-
fo me importante, e isto vale, infelizmente, também para Kant, a quem não mentos de geografia física, de história natural e de fi losofia moral recolh i-
se pode poupar a crítica de Georg Forster, no prefácio à sua Reise um die das na sua viagem ao redor do mundo. A parte relativa ao gênero humano
Welt, dirigida aos filósofos daquele século que, apoiando-se em trechos ex-
traídos dos escritores de viagem e arbitrariamente acolhidos como verdadei- 1
" UNOLO, J. D1e ethnograph1schen und amhropogeographiSchen Anschauungen be1 J. Kant und
ros ou alterados, chegaram a construir sistemas científicos falaciOsos. J Reính Forster Le1pzig, 1886 p 18.
' Lord Ka1mes, nos ~em Sketches oj tire hístory ofman (Edimburgo, t774), declarou -se contra
§9. Kant, Reinhold Forster, Palias e Zimmermann -Kant sofre a in- a opinião daqueles que atribuem as d1ferenças físicas existentes enue as raças humanas unica-
mente às cond1çõcs climáticas diversas das sua~ sedes atua•s: e, para negar que a baixa e~tarura
fluência do mau material e das apressadas conclusões de Buffon, especial- dos la pões se deva ao di ma, recorre à afinidade hngü1stica exiStente entre os Iapões e os húnga-
ros, afintdade essa cuja investigação se aprofundava exatamente naquele momento. N<io obs·
5
Também Winkclmann na sua JUH~nt ude, esumulado pela leuura de MontesqUieu. pensou "re- tante ele própno comprometa depo1s a validade de seus argumcntoç admiundo a e~istênc•a de
presentar em grandes hnhas, sobre o fundo de uma descrição dos terruórios e dos po,os dedu- uma grande quantidade de raças disumaç. equivocou-se pela crrõnea Interpretação de muitos
lida das narrações de' •agem, o decurso ~uce~Sl\o do noresc•mento c da decadênc1a dos Esta-
fatos, forne-cido> em grande número pelo estudo da' tda orgânica C\tra-euroJ}é•a. estudo es'e
dos e descobrir suas causas"; mas esse propósuo nào foi realizado. Ver GLvLL\, E Momes· que àquela época progredia rapidamente.
H Anthropolog1e, 1798. Prefaz. IV
qweu in Deutsclr/and. ' •B Allg. Ztg". ):ln. 1889.
38 39

ocupa dois tcrcos do Ji, ro. A Descnçào da nagem ao redor do mundo rea!t- antropogeográfica das ilhas, dos relevos terrestres etc. Mesmo Kant e Herder,
::ada nos anos 1772-1775 foi publicada pelo filho George Forsrer. e aparece não obstante os louvores que tributaram a Forster, não souberam dar um de-
em dois volumes em 1778. senvolvimento posterior às suas idéias; e talvez o resultado mais duradouro da
A diferença entre a descrição dos povos fc1ta por Forsrcr e aquelas fei- obra de Forster tenha sido o de ter induzido Blumenbach a introduzir na clas-
tas pela maior parte dos viajantes que o precederam é muito grande. Hcrder sificação das raças humanas uma quinta raça, a malaio-potinésia 11 •
expressa, e com razão, o desejo de que em outras partes da Terra se pudesse Sorte análoga tiveram as informações etnográficas recolhidas por Pal-
obter materiais que sen·is)em à história da humanidade do mec;mo modo que Ias e compreendidas especialmente em duas grandes obras: Re1sen m vers-
na Oceania tinham sido fornecidos por nquele que ele chama "o Ulisses da- chiedenen Provinzen des russischen Reiches ( 1771) e Bemerkungen auj einer
quelas regiões"<~. Esta é a primeira vez que um escritor, ao tratar o argu- Reise in die sudlichen Stadhalterschajten des russischen Reiches (1796 e 1805)
mento bastante debatido da posição do homem na natureza, une espínto fi- e também nos Nordische Beitrage (a partir de 1781). Na verdade, as obras
losófico a uma singular riqueza de pontos de 'ISta, e a isso acrescenta aque- de Palias enquanto riqueza de pontos de vista são inferiores às de Forster,
la modéstia pessoal que brota do íntimo contato da mente com a realidade mas chegaram em compensação a um admirável modelo de clara descrição.
do~> fenômenos. Como parecem mesquinhos e descoloridos o~ conceitos de Aquilo que Rudolphi, biógrafo de Palias, diz de suas descrições zoológicas
um Buffon, de um Kanr, de um Rousseau, ou do próprio Herder em torno vale também para as etnológicas: "Ele deixa de lado tudo que é sur:érfluo,
da humanidade em comparação aos de Forster que, pela primeira \eZ. à) abandona totalmente as coisas estranhas e é exaro sem ser prolixo" 2 • Com
famásticas teorias da rápida transformação dos povos por obra do clima opõe os escritos de Palias tem inicio a longa série das descrições e dos relatos dos
a advertência de que nossa vida é muito breve, nosso conhecimento sobre viajantes, cujo conteúdo antropogeográfico e etnográfico os cientistas den-
as migrações dos povos muito incompleto, nossas observações físicas há muito tro de sua própria casa já não estavam em condições de elaborar. Os simples
pouco tempo iniciadas para que seja lícito chegar a conclusões seguras! Em observadores se sobrepõem agora aos ''textos filosóficos", mas o material
R. Forster encontramos os germes de uma concepção verdadeiramente an- que homens como Lichtenstein, Burckhardt, Von Wied, Poppig e muitos
tropogeográfica, segundo a qual os povos são considerados como massas outros trazem à pátria permanece ainda inutilizado. E quando se trabalha
em movimento, de modo que nas suas atuais condições, sejam físicas ou de sobre ele isto se reduz basicamente a dar-lhe um novo ordenamento, sem
ci' 1hzaçào, não podemos pretender distinguir com segurança, exatamente penetrá-lo profundamente e sem utilizá-lo para deduzir dele os pontos de
porque elas são móveis, as influências do ambiente arual. Tanto no que se vista gerais acerca da geografia do homem. Assim o fizeram Karl Ritter em
refe1 e às raças como aos povos, Forster atribui aos deslocamentos e aos in- relação à África e Ásia, Meinecke em relação à Austrália e Oceania e não
crementos e diminuições numéricas uma importância como nenhum outro foi além a Antropologie der Naturvolker de Waitz-Gerland que apare~e mais
antes dele; seus pontos de ~:isra acerca da origem dos povos de cor escura tarde.
e o~ de cor clara da Oceania e acerca de suas diferenças de ci' ilização serão E. A. W. Zimmermann, então professor do "Colégio Carolíngio" de
sempre dignos de apreciaçào 10 . Esta obra prepara\a ass1m o terreno para Braunschweig, tentou apresentar nos anos 1778-83, na sua Geschichte des
o surgimento de uma verdadeira ciência relativa às relações entre a natureza Menschen und der allgemein verbreiteten v1erjüssigen Tiere (v. 3), um es-
e o homem. Infelizmente, as Anotações filosóficas feiras duranre uma viagem quema das influências que as condições naturais exercem sobre o físico hu-
ao redor do mundo, de Rcinhold Forster, não foram aprec1adas tanto quanto mano; mas incorreu em um erro fundamental, atribuindo ao organismo hu-
merectam, e depo1s dele a ciênc1a retrocedeu no\'amente muito aquém do ponto mano uma plasticidade tal, a ponto de subordinar a cor ao calor solar, a
a que ele a havia conduzido. O próprio Karl Rllter não soube utilizar plena- baixa estatura ao frio, e assim por diante, e se propondo a demonstrar essa
mente o impulso dado por Forster; nào fosse assim. teríamos já de há muito tese minuciosamente. De qualquer modo, na obra de Zirnmermann o argu-
tempo, em lugar de dissertações escolásucas que repetem sempre somente es- mento é desenvolvido com uma amplitude que não se encontra em outra par-
quemas e projetos, uma "antropogeografia mecânica", ou ~eja, um estudo te, e aí se verifica pelo menos a tendência a uma abordagem sistemática. Es-
completo da influência que o solo exerce sobre os mo~:imentos históricos. E
de se deplorar ma1s ainda que o próprio Reinhold Forster não tenha feito ele 11
Já Erxlebcn em Systema na/urae (L1psiac, 1777) linha na verdade com1derado cinco raças
me~mo urna exposição clara das suas idéias, tão justas, acerca da função humanas, mas para ele a quuna raça era representada pelos "anões do norte" (la põe~. esqul-
";~ósl As outras qua1ro eram europeus, mongóis, negros e americanos.
"Se todos os vrajanres fo~sem como Palias eu teria poupado no\e décimos de meu esforço;
1

• ldee11. 11. p 29 mas como são poucos aqueles que, mesmo em nossa época. podem se comparar, ainda que
'" Exa1ameme a grande varirdade das raças que se obsena na Oceama e da qual diz Zirnmer- a grande drstâncra, a este grande mestrr, cujo talento, csrírito de observação,• o saber c a ativi-
mann: "se diri:t que todas a; naçoe\ concordaram cm '11antcr colõnias nesta maravilho'a p:Htc dade mcansável fizeram dele um ser verdader rameme cxtraordináno'" (Zl"'MER\1'\NN, E. A.
do mundo'' unha ocupado com grande esforço a< ide1a; do' ftló<ofos dunaustas. Geograplrirche Geschiclrte des Menschen, I, 1778. Prefácro).
82

território, ao mesmo tempo que se ligando a este o mais intimamente possí-


vel, eles se utilizam de todos os meios para gozar somente suas vantagens,
mesmo quando a afinidade de origem ou de civilização possa aconselhar o
contrário.

4. O ELEMENTO HUMANO NA GEOGRAFIA.


A HISTÓRIA E A GEOGRAFIA DO HOMEM

§29. Tarefas da geografia do homem e sua tríplice divisão- Se consi-


derarmos o homem dentro do quadro geral da vida terrestre, não nos será
possível compreender o papel que ele ocupa na Terra, a não ser segumdo
aquele mesmo método do qual nos valemos para estudar a difusão da~ plan-
tas e dos animais. Por isso a geografia do homem, do mesmo modo que a
zoogeografía c a fitogeografia, deverá descrever e representar cartograjica-
mente aqueles territórios onde se nota a presença do homem, separando a
pane da Terra que é por ele habitada, ou ecúmeno. daquelas que não o são.
Ela estudará por outro lado a difusão do homem dentro do ecúmeno e fixa-
rá os resultados do seu estudo em mapas da densidade de populações poli-
gráficas e itineránas. E na medida em que a humanidade compreende raças,
povos e grupos étnicos menores, a geografia do homem representa também
a difusão destes e lementos diversos através de mapas das raças humanas,
mapas etnográficos, mapas das línguas e mapas políticos . E essencialmente
a esta parte da nossa ciência que dedicamos a Pane li desta geografia do
homem (1891).
A descrição e a representação do estado de coisas ant ropogeog1 á fico
são úteis para muitos objetivos da vida, do aprendizado, do trabalho cienti-
fico; e, quando ambas se realizam, pode-se dizer que foram cumpridas 11llll-
tas das tarefas práticas da geografia d o homem. Mas a ciência nunca se ~a­
tisfaz por ter respondido à pergunta "ONDE?"; pois quando este quesito
é resolvido, ela prossegue adiante c passa à pergunta "DE O DE?" Já na
execução da ua tarefa descritl\a, a geografia do homem se encontrará diante
de uma grande quantidade d e casos nos quais vêm se repetindo fenõmenos
relativos ao território juntamente com fenômenos relativos a d1fu~ào do ele-
mento humano. Passando agora à segunda pa1 te da sua tarefa, esta c1ência,
I
J
84 85

ao e'\ammal a área de difusão de cada raça e de cada povo, se colocará a ços lhe parecerão tanto maiores quanto maior é a importáncia que ele passa
questão: "Como se formou esta área?"; e se apresentarão então ao seu es- a atribuir ao conhecimento do amb1ente físico. A própria geografia pode con-
tudo 0' movimento!> do homem na sua dependêncw do terruório. Na verda- tribuir para aumentar esse interesse dedicando-se intensamente ao estudo do
de ela se dará coma de que nenhum po"o te\e ongem no mesmo solo em elemento humano, com o que estará tornando mais fácil à história a investi -
que habna então, e da1 urara a conclusão de que ele não poderia me~mo gação das mutáveis relações que se estabelecem entre o solo e os aconteci-
permanecer a1 eternamente. Alguns po.,os se expandem e outros são e-:pul- mentos históncos que se desemolvem sobre este. ~las o nome de ciéncia au-
xiliar não tem no caso nenhum sentido, pois qualquer ciência pode se tornar
sos. E diante de todos os movimentos que dai se seguem, a Terra não repre- útil a uma outra sem por isso se tornar sua serva. Não há nenhuma ciência
senta Já um elemento totalmente passi.,o, mas os direciona. os obstaculari- que seja tão auxtftar, assim como não há ciência que não possa prestar algum
za, os favorece, os torna lemos, os acelera, os desordena e os ordena graças serviço a qualquer das ciências irmãs. E neste sentido que consideramos a geo-
as suas condiçõe~ incomen~ura\ elmeme variadas de posição, de amplitude, grafia e a história da humamdade como ciências irmãs, do mesmo modo que
de configuração, de nqueta de água e de vegetação. Quando a geografia !>e a geografia e a geologia.
aprox1ma do exame destes fenômenos ela entra em contato com a históna. [ ... ]
que considera o solo como a pátria do cidadão, enquanto aquela o vê como Assim estamos de acordo com Vambery ao entender que, em relação
a pátria da humamdade. Também a história considera a humanidade em mo- - ao território da Ásia Central e das estepes européias contíguas, deve-se sem
vimento, embora não costume avançar através do estudo desta até o exame dúvida excluir a possibilidade de estabelecer uma distinção etnográfica preci-
do território, enquanto a geografia, ao contrário, não tgnora jamais sua sa no que se refe1e às antigas migraçõcs 36 . Desde que esses territórios pos-
presença. suem o aspecto atual eles sempre receberam povos nômades. Mas se por trá~
As tal efas do terceiro grupo referem-se ao estudo das mfluências que do véu das lendas já muito obscuras nào é possível distinguir nitidamente ne-
a natureza exerce sobre o corpo e sobre o espt'rito dos indivíduos, e dm sobre nhum povo, e não havendo portanto a possibilidade da distinção etnografica.
os povos. Trata-se portanto, essencialmente, de efeitos que se devem ao cli- resta sempre a possibilidade da distinção antropogeográfica: fossem turcos
ma, à configuração do solo, aos produtos vegetais ou animais do território. ou arianos, os povos que habitaram aquelas terras de todo modo sempre fo-
Todos os fenômenos da natureza, passando através do intelecto, exercem ram pastores nômades.
uma influência às vezes claramente visível, às vezes sutil e oculta sobre o Concorreu também para diminuir a importância que é dada à geogra-
fia uma razão puramente literária, da qual muitos não se dão conta ma' que
ser e sobre as atitudes do homem, algumas vezes simplesmente se espelhan-
não deixa de ter eficácia. A histót ia adquiriu na literatura um lugar eminen-
do nele, outras animando ou retardando sua atividade intelectual. Assim ve-
te graças à forma sob a qual são apresentadas muitas de suas obra:., e ao
mos o ambiente físico refletir-se na religião, na ciência, na poesia. Na \er- espírito de que algumas destas se animam. Ora, isto é ma1s arte do que Ciên-
dade o exame destas influências compete mais à fisiologia e à psicolog1a do cia. A geografia, propondo-se em geral a objetivos menos elevados e de uu-
que à geografia; c isto tanto mais na medida em que tais influências não per- hdade pratica mais di reta, raramente obte' e uma tal e:<celênc1a formal. E
manecem ina!lvas no organtsmo como traços inanimados, mas continuam por isso uma importante parcela da grande fama, considerada por alguns
a produzir seus efeitos na vtda material e espiritual do homem. Contudo a exagerada, conquistada por Alexander von Humboldt se de\e justamente
geografia do homem ao descrever países e povos não poderá se desinteressar a que a geografia encontrou nele finalmente um escritor clássico como des-
pelos conhecimentos adquiridos nesta matéria, na mediqa em que estes to- de a Antiguidade já não possuía. Por outro lado é compreensível que o es-
cam diretamente todos os problemas relativos à aclimatação. treitamento das relações entre a geografia e a história tenha servido para tor-
nar cada vez mais manifesta a grande diferença existente entre as duas ciên-
§30. A grografi a é uma ciência auxiliar? - Em contrapOSIÇão à afir- cias sob o aspecto literário. Entre todos os geógrafos do século XVlli. Pin-
mação hoje difundida de que a geografia é uma ciência auxiliar da história, kerton só reconhece algum mérito literário em D' Anville; e este foi entre to-
recordemos aqui a pergunta de Kant: "Qual das duas ciências existiu ante:., dos o q ue mais aproximou o estudo geográfico da ciência histórica. Alem
a história ou a geografia?". Kant responde: "A geografia está na base da disso Pi nkerton afirmou, c com razão, que os antigos geógrafos tinham ma10r
história, porque os fatos históricos devem também ter um elemento ao qual valor literário que os modernos; constatação que não deve surpreender se se
se referir" 3; . Enquanto o historiador considera o solo como algo de acessó- levar em conta que aqueles consideraram os problemas geográficos sob as-
rio, ele também atribui pouco valor aos serviços que a geografia presta à pectos gerais c se limitaram a descrever um mundo pouco extenso ou apena~
tnvesugação lllStórica com o estudo c a descnção deste; mas aqueles <;cn i- nas suas linhas principai~. A propósito disso Pmkerton com~ara os 18 'olu-

J" Ph rsi sche Geo!!,raplue. I , 12


86 87

mes de Busching sobre a Europa ao único e imortal volume de Estrabão. a partir do momento cm que aparece o documento escrito; e a antropologia
Mas a crítica não se JUStifica inteiramente. Pela sua própna essência a geo- até mu1to recentemente se ocupava apenas do corpo humano, de modo que
grafia não pode, assim como não podem as ciências naturais em geral , dar a história e a etnografia dos povos primitivos e semicivilizados ficassem in-
à literatura universal tantas obras clássicas quantas lhe pode dar a hiStória; teiramente com a geografia; e esta tinha que, querendo ou não, tomá-las
esta não poderá produzir apenas naquela parte da matéria geográfica que para si, tanto que ainda hoje a etnografia é estudada e ensinada por geógra-
se limita com a história e com a etnografia, e onde a exposição pode ter ca- fos e frequentemente tem cm comum com a geografia as mesmas re\'Jstas,
ráter narrativo. Mas nesta consideração não há nada que possa diminuir a hvros, b1bhograf1as e obras cartográficas.
importância que cabe à geografia ao lado da história, po1s neste argumento
Ora, à medida que a etnografia e a c1ênc1a soc1al foram se desenvol-
as razões formais não têm valor de espécie alguma.
vendo por coma própria, verificou-se na verdade como a antiga umão da
§31. Razões prátiras que determinaram a afirmação do elemento hu- geografia descrima e da etnografia estava apoiada em grande medida em
m ano na geografia - A geografia já se ocupava com predileção particular razões de ordem exterior, mas ao mesmo tempo o desenvol\'imemo da geo-
do homem e de suas obras muito ames que os fenômenos resultantes da união grafia do homem abnu um nO\'O campo sobre o qual as duas ciências apare-
do homem com a Terra fossem, pelo menos em parte, atribuídos ao seu es- cem novamente reunidas, 'em com isto perder sua Independência.
tudo; e isto por uma razão de ordem exterior. Na história de toda a ciênc1a Os ftlósojos climaliçws, ou seja, aqueles que sustentam a teoria das rá-
ocorre que o homem no princípio é tudo; depois, pouco a pouco, o objeto pidas transformações dos povos por efeito do clima. distorceram e reviraram
cfetivo do estudo se liberta do invólucro ideal para se lançar enfim, comple- em todos os sentidos a natureza de modo a fazê-la servir a seus objetivos;
tamente depurado, à investigação objetiva . No estudo geográfico este pro- e nesse senlldo suas teorias apresentam, sob o aspecto lógico, um certo inte-
cesso se realizou com uma lentidão particular. Por muito tempo se pensou resse, embora de caráter negativo. Raras vezes ocorreu de a ciência trabalhar
que as regiões terrestres tivessem importância apenas pelas suas relações com por tão longo tempo com um material tão inadequado. Kant pretende demons-
o homem, e essas relações ocupam sempre a maior parte das obras também trar que toda a raça rnongólica provém das regiões setentrionais, e por bso
de geografia científica. Por motivos de ordem prática ocorre que de todas exagerou desmesuradamente as influências do clima frio. No rosto largo e sem
as co1sas existentes sobre a superfície terrestre aquelas que pertencem ao ho- pêlos, no nariz longo, nos lábios finos, nos olhos semicerrados dos mongóis
mem ou têm estreita relação com ele se impõem em maior medida ao espíri- ele vê modificações produzidas pelo chrna mfehz das terras nórdicas, onde
to humano. Estrabão considerou Homero como o pai da geografia "por ter "tudo é árido" Assim, dos anões do norte que não existem de fato em lugar
ele superado todos os seu!> predecessores e seus sucessores não apenas na ar- nenhum se fez uma raça especial; E. A. Zimmermann, ao contrario, escre\C
te poéttca, mas talvez também no conhecimento da "ida civil". que a presença de comunidades de anões na Africa e em Madagáscar de\e
Esta predileção pelo elemento humano é sempre uma característica do ser atribuída à emigração de alguns mdi\ íduos deficientes. A alta estatura dos
estudo geográfico, mas é também um perigo constante que ameaça seu cará-
ter científico. Toda vez que uma ciência reúne ao mesmo tempo elementos patagõnios foi objeto de amplas discussõe~. pelo faro de que estes habitam
humanos e elementos naturais, são os primeiros que invariavelmente predo- muito próximos dos fuegos que são provavelmente anões. Mas se chegou a
minam. Basta recordar o que aconteceu com a biologia geral pelo amplo es- afirmar que se as terras do hemisfério austral a\ ançassem ames em direção
paço que esta ciência ded1cou à anatomia humana, à fisiologia e à psicolo- ao pólo, também os patagônios teriam altura inferior . Naquela época a geo-
gia . Mas para reforçar esta tendência a que aqui se acenou concorre ainda grafia da Aménca permanecia completamente à mercê destas teorias. Assim.
um segundo motivo, também de ordem exterior, que é o fato de que na lite- para demonstrar que o fato de os amencanos, também das zonas tropicais,
ratura a descrição dos territórios e a descrição dos povos quase não se apre- terem a cor mais clara que os negros resulta unicamente de que a América
sentam mais separadas uma da outra, e isto especialmente quando se trata tem clima geral frio. induziram-nos repetidas vezes à pesquisa das influências
de países e povos longínquos. Ademais é exatamente esta íntima ligação dos moderadoras do clima amencano, até que fina lmente Alexander von Hum-
dois elementos que confere particular atrativo às narrações das viagens. Por boldt não mais levas~e esta afirmação a um terreno positivo da observação
isso ocorreu que ambos os argumentos fossem estudados e tratados pelos experimental, limitando-a assim dentro de estrenas fronteiras . Entretanto Con-
mesmos escritores, de modo que geografia descritiva e etnografia permane- damine afirmava que os índios da América do Sul se tornam mais escuros
cessem intimamente ligadas entre si tanto na investigação como no ensino. à medida que se avança em direçào ao equador; Bourguer achava que os ha-
Há finalmente uma terceira razão de caráter prático como as anterio- bitantes da encosta pacífica e mais fresca dos Andes são mais claros que os
res que induz a geografia a se ocupar com particular interesse do elemento habitantes da encosta atlãntica, mais quente
humano: esta deve ser buscada no abandono em que todas as outras ciên- A estas duas observações mexatas se referiram durame todo o século
cias deixaram sempre o estudo de uma grande quantidade de fenõmenos que XVIII todos aqueles que quiseram demonstrar também na América a influência
~e referem ao homem. Ass1m a investigação histórica inicia suas pesquisas do calor sobre a coloração e~cura da pele. \laupenuis, em Vénus physi-
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que, II, cap 1. afirma que os negros africanos habitam entre os tróptcos Landesbeschretbung der Her~ogtumer Schleswtg und Holstein (1652) consi-
e formula, não apenas para a África mas para toda a Terra. a lei: "À medt- t. deram a geografia e a cronologia como os dois faróis principais da história.
da que se afasta do equador, a cor dos povos se torna gradativamente mais ~las a história fez uso destas em graus muito diversos. Já há muito tempo
clara"; e explica este fato, como também a difusão geografica dos povos que as datas são consideradas como um elemento indispensá,·el para a nar-
anões e dos gigantes, de um modo original, errado sem dúvida, mas suul rativa histórica; mas por outro lado mesmo nas obras mais profundas buscam-
Quando. diz ele (op. cit., II, cap. VII), anões, gigantes e negros se apresen- se frequentemente em vão os dados numéncos relathos aos elementos geo-
taram entre os outros povos, a prepotência ou o medo armou contra eles gráficos da hístóna, como áreas, cifras da população, desenvolvimento das
a maior parte do gênero humano, e a espécie humana mais numerosa deve- comunicações etc. Até a geografia histórica ignorou de modo estranho os
ria expulsar estas "raças disformes" para as regiões menos habitadas da su- dados relativos às dimensões dos territórios políticos, dos países, das pro-
perfície terrestre. 0 5 anões recuaram em direção ao pólo norte, os gigantes \ íncias etc.
escolheram como sua sede o território de Magalhães e os negros foram mo- É verdade que Karl Rmer afirmara: "O lugar da h1stória não é junto
rar na zona tórrida. à natureza, mas dentro desta". Não obstante isso, no estudo geográfico a
Uma das circunstâncias mais características na evolução desta ctêncta importância atribuída ao elemento humano tinha de tal forma minimizado
é que já há dois séculos Ortelius, que no seu mapa da Africa, contido no o interesse pela natureza que Guthe, um verdadeiro seguidor de Ritter, atri-
seu Theatrum Orbis Terrarum de 1570, unha chamado os indígenas do Ca- buía à geografia a tarefa de nos fazer conhecer a Terra enquanto sede do
bo da Boa Esperança pelo nome de nigérrimos, tinha chegado à conclusão homem. Na primeira edição, lançada em 1868, de Lehrbuch der Geographie,
de que a causa da sua cor não podia ser atribuída ao mais intenso calor so- que depois foi tão profundamente transformado por Hermann Wagner de
lar, porque nesse caso os habitantes do estreito de Magalhães também deve- modo a fazer dele o melhor tratado de geografia dos nossos tempos, a parte
nam ser negros. Este era portanto o caminho correto a ser seguido para se que Guthe dedica à geografia física compreende 68 páginas*, enquanto a
compreender que os movimentos dos povos, dada sua breve duração, nada parte dedicada à corografia e a geografia política ocupa 479 págmas. O pri-
têm a ver com as modificações das características raciais, que só se produ- meiro parágrafo da introdução de Guthe assinala:
zem em períodos muito longos. Infelizmente o fato de ter pretendtdo encon-
trar uma relação entre estas características e o clima sempre tmpedtu o estu - ''A geografia nos ensina a conhecer a Terra como sede do homem; esta não
do geográfico de seguir por este, que era o melhor caminho. Buffon, susten- é de modo algum uma Simples descrição da Terra com seus mares etc .. embora
tando o conceito de uma enorme adaptabilidade do organismo humano àc; ao descrever a superfície do globo ela coloque o homem entre os outros seres,
condições climáticas, foi quem contribuiu em maior medida para reforçar e nos mostre como por um lado este se encontra em estado de dependência
o antigo erro. E à sua influência não se subtraiu inteiramente nem mesmo da nawreza que o circunda e como por outro tem tentado se subtrair a essa
dependência, com o que a geografia vem a consutuir o elememo de conj unção
G. Forstcr, embora este como obsen ador arguto tenha conseguido tirar uma entre a ciênc1a natural e a historia''
conclusão exata da premissa da natureza plástica, da massa humana. Nas
suas Anotações filosoficas fettas durante uma viagem ao redor do mundo É esta a ação do conceito que Playfatr havia expressado em 1808 no seu
lê-se: System oj geography: "O estudo da geografia é necessário para conhecei
o teatro da história''. Mas esta é uma consideração de valor puramente prá-
"Se portanto a influência do chma e tão poderosa como afmna Buffon não tico e foi um erro introduzi-la na ciência.
deve fa ler muito tempo que a ilha de Mallicolo e pO\oada, po1s desde que \i-
Diante de concepções deste gênero é necessário afirmar enfaticamente
\Cm naquele chma moderado seus habitantes não mudaram ainda nem sua cor
negra o r igmária nem os cabelos crespos". que a geografia deve antes de mais nada estudar e descrever a Terra, inde-
I • pendentemente de quaisquer considerações acerca do elemento humano e his-
§32. Que luga r cabe à geografia diante da história - A grande e às tórico; e que a realização desta tarefa, que é específica da geografia, deve
vezes exagerada importância que se quer atribuir ao elemento humano no preceder o cumprimento de outra tarefa que esta tem em comum com a
estudo geográfico serviu para tornar mais difícil a compreensão das relações histó ria no campo antropogeogt áfico . Mas as duas tarefas são inseparáveis
que cxtstem entre n geografia e a história . Que a l11stóna tenha necessidade uma da outra. Certamente, para usar as palavras de Karl Ritter, "a ciência
de recorrer à geografia para poder representar, medir, descrever o teatro dos geográfica não pode desprezar o elemento histórico, se pretende ser verda-
acontecimentos políticos e as formações territoriais que daí resultam, isso deiramente um estudo do território e não uma obra abstrata, uma moldura
foi compreendido claramente já por Ortelius quando este publtcou seu pri-
meiro mapa cartográfico. Ortelius afirmou que a geografia e a cronologta • \\ -\G, ER, Hermann. Trauaro d1geografia p,enerule Tunm. Frarelli Bocca. 1911. v. 3. l':esta
são as duas colunas bastlares da história. Dankwerth e Meier na )ua Neue edi<;ào, o volume 2 ded1cado ;, geog ra fia física. co mpreende 530 p
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atra•és da qual ~c veja o e~paço ,azio e não o quad10 que essa de~e con- atingirá minimamente o seu objetivo se não examinar além disso a relação
ter .. 3" Do mesmo modo a história não pode desprezar a geograt1a por- geográfica entre esse país e a inteira superfície terrestre e não nos mostrar
que os fatos que esta contempla têm necessidade de um teatro onde se de que as influências recíprocas que se exercem entre povo e território e entre
semol,er: este e o Estado são ininterruptas e governadas por uma lei de necessidade.
"esta devera em toda~ a~ :.uas formas acolher em si. mais ou meno~ claramen-
te. um elemento geog1afico, seja como em Tuc1d1des e Johann \011 .\lull71 PH'- §33. A história uohersal deve abarcar toda a Terra - Mas nesta união
cedcndo a narração de uma '1sào geral do territorio, seJa como em Herodot~. das duas ciências não se deve considerar uma h1stória limitada ao estreito
Tácno e ou11 o~ mestres inserindo a descri cão geográfica no curso da narra ti círculo da Europa e dos países mediterrâneos, assim como esta se nos apre-
, a. ou ~eja, finalmente como em outros escritOres apenas ~flora.~do o c:lemen- senta nas abordagens usuais.
IO geog1afico e extraindo dele soa entonaçào e a cor. A f1losol•a da hJ,tona. Na verdade a razão filosófica, da qual derivava essa limitação, não pôde
tal como fot pensada por Bacon e Leibniz, que Herder esboçou e que outro-.
recentemente tell!aram levar adiante seu desemol\JJTiento, teve que at11bU1r a impedir que a história acolhesse gradativamente no seu seio uma parte cada
eMe elemento geografico um lugar ca da vez maJor - - ~o . vez maior daquela matéria, que de resto pertence à etnografia. E o estudo
comparado dos povos uma \ez iniciado não podia certamente ser interrom-
Entretanto a tarefa mais importante da geografia continuará sendo !.ern- pido . Não podia permanecer ignorada a justa advertência de Heinrich Barth:
prc a de estudar, descrever c representar a superfície terrestre. Porém, rne~ ­ "Mesmo os movimentos dos povos da <\frica central têm sua história; e ape-
mo atribuindo à histó• ia o estudo dos acontecimentos que se sucedem no nas quando eles também passarem a fazer parte do grande quadro histórico
tempo , à geografia a& condições de fato do terri_tório, não .se p?de esqu_ecc• da humanidade poderá este quadro aproximar-se da sua realização" 41
que todo acontecimento se faz no espaço, e por ISS? t~d_a htstona_possu• seu Hoje uma história universal da civilização não poderia mais, sem con-
teatro. Tudo que hoje constitui o presente sera h1stona amanha; por 1550 tradizer seu próprio nome, eximir-se de considerar os mexicanos, os japone-
o matei ial da geografia vai passando ininterruptamente pelas mãos da his- ses, os malaios; e toda história dos Estados Unidos da América tem que de-
tóna. Compreende-se a partir daí que uma nítida separação e~tre as ~~as dicar um grande espaço às condições dos povos primitivos que existem na-
ciéncias não setia logicameme possível, mas que ao contrano e necessano, quele território e aos acontecimentos que a eles se referem . Uma obra como
para que ambas possam de~envolver uma atividade ~ro~í:ua_, que elas atuc~ a Htstória da Nova Inglaterra de Palfrey não seria concebível se não tratasse
1n11mamente unidas A frase de Herder de que a h1stona e uma geografia da influência política que exerceu sobre a história universal a incidência de
em movimento permanece \'erdadeira tambem inversamente, e dtsso ~e se- povos privados de htstórta, como fizeram Salústio e Tácito em seus capítu-
gue que a h1stóna não pode ser compreendida sem o territó!JO onde ela se los sobre a África. Mas em relação a isto a filosofia da história não ilumi-
desen\'oh e, e que a geografia de qualquer parte da Terra nao pode ser re- nou em nada a obra dos narradores. Um erro fundamental que falseia a con-
presentada sem conhecer a h•stória que imprimiu sobre esta suas ~eg.a~as sideração filosófica da história é, e tem sido sempre, o desprezo ao elemento
Todo mapa tem que ser examinado tendo presentes os elementos h1stoJ 1co~ geográfico, desprezo que stgnifica também uma visão histórica limitada.
a1 referido!>. do mesmo modo que sem o mapa não seria possível compreen- Pode-se afirmar antes que toda a direção construtiva da filosofia da história
der nem as modi ficaçõe\ das fronteiras, nem as 'a nações do tráfico ou da c, alemã não teria sido forjada se aqueles cientistas tivessem atribuído maior
sedes humanas, nem os mov1mentos dos povos. importância ao elemento geográfico. Kant , que também foi grande amigo
A part1r do conceito que temos da posição do homem na natureza re- e conhecedor da geografia, foi o primeiro a introduzir-se por uma estrada
~ul t a quanto é tmperfeita a concepção que considera a importância do ele-
falsa, que Fichte, Schelling e Hegel seguiram depois, chegando a um resul-
mento geografico na história partindo de critérios de ordem p~ramente_ ex_- .·... tado geograficamente absurdo. A idéia de Kant de que a históna da huma-
tenores. Isto !>ignifica, para nos exprimir praticamente, que a mu oduçao a nidade deva ser considerada como a realinção de um projeto secreto da na-
história de um país não deve ser uma simples descrição corogràf1ca: isto por- tureza, visando a efetuar uma constituição política interna e exteriormente
que. mesmo que esta descrição seja colo1 ida e fiel como a int rodução à Ge~­ perfeita, não teria sido possível se nào com a tácita premissa de que o proje-
cluchte der Schweizerischen Eidgenossenscha.fr de Johann von Muller , ou
to compreendesse apenas a história da Europa, que a Europa devesse, por
como a introdução à Cneclusclre Ceschichte de Curt ius, ela con tudo não
assim d•zer, fazer a história de todos os outros continentes, que provavel-
mente deveriam receber da Europa algum dia suas leis. Em fi chte esta pre-
'' Uebe• da 1 htltnllldle Llenu.>m 111 de1 geuflrapluschen WIHenschaft. çonl 1833 . Pllbltcld0
11.1 f:.'11Jienwtg ~~~~ a/lg. 'erxl Geographie. p. I52.
~H BwrH. Heinnch. Re1sen ,\ord 7elllralafnka. ll. p. 82.
"' tbid . r 15~ 111
92 93

missa se apresenta como a condição necessána para a determinação dos seus le cas le plus favorable à leu r pleine manifestation, ii de' iendra possible de pro-
períodos históricos, e por isso se expressa aqui sem nenhuma atenção ao ele- ceder à l'explication rationnelle des modificauons plus ou moms importantes".
mento geográfico; pois este pensador audacioso declara que se limita a seguir
aquele fio da civilização que conduz até nós, "interrogando apenas a nossa Se de fato, corno diz Comte, a evolução histórica tende a reunir toda a hu-
história, isto é, a história da Europa civilizada, que é a sede atua1 da civiliza- manidade em uma sociedade única, e todos os acontecimentos anteriores não
ção, c desprezando outros fios secundários que não conduzem diretarnente representam senão uma preparação para esta, então ele deveria prever que
a nós, corno a história da civilização chinesa e indiana" 42 . o movimento histórico acabaria por abarcar toda a Terra.
A par com este conceito está o outro, também de Fichte, que admite
que tenha existido um povo primitivo originário, no qual a razão dominava
"corno um instinto cego", que regulava, sem constrição ou esforço, todos
os eventos humanos. Mas a limitação do conceito de históna se manifesta mais
que em qualquer outro em Hegel para quem, segundo urna expressão sua fre-
qúentemente citada, apenas é história ''aquela que constitui uma época es-
sencial na evolução do espírito humano", e que por isso devem ser excluídas
do círculo das considerações histórico-filosóficas não só a zona glacial e azo-
na tórrida, "porque o calor e o frio são forças muito poderosas que não per-
mitem ao espírito humano criar um mundo próprio, mas igualmente a Áfri-
ca, na medida em que não se observa aqui nenhum movimento de evolução''
e a América, cujos pensadores mais ágeis e mais modernos exclui, porém ape-
nas formalmente, para representá-los depois em perspectiva. Estas Idéias não
têm absolutamente nada de geográfico, e não refletem inteiramente a ampJja.
ção do horizonte intelectual, que é sempre a conseqüência necessária e mais
importante do estudo da geografia, mas manifestam um enorme deslumbra-
mento diante da natureza das coisas. E se observe, por outra pane, corno es-
sas idéias deveriam se enraizar, a ponto de que o próprio Augusto Com te pô-
de afirmar explicitamente que seu estudo histórico-filosófico se limitava aos
povos de raça branca, e por outro lado dedicar uma preferência tão acentua-
da aos habitantes da Europa ocidental, como aqueles que constituem urna
civilização mais avançada e representam a élite ou avantgarde de l'humanité! 43 .
A história universal, tal como é entendida pelos nossos escritores de his-
tória, está ainda muito longe de ser uma história da humanidade; mas tam-
bém a história particular, que deveria tomar em grande consideração as ob-
servações de caráter topográfico, raramente consegue tirar partido dos meios
que a ciência irmã lhe poderia fornecer.
Mas se deve observar que em Comte a limitação tem mais um caráter
meramente temporário e se move por uma razão metodológica:
"Leur appréciation spéciale d01t être systématiquemem ajournée JUSqu'au mo-
ment ou, les lois principales du mouvement social ayant été ain~i appréciées dans

42
Um filósofo da históna. moderno c menos ab;oluto, acrescenta que ~e ele as;im não o uvesse
feitO, o sistema do; seus períodos ~ena mevitavelmente confrontado com a real variedade da ma-
téria hiStórica ( BERr-oHEJ\1 , E. Gescluclmjorschung und Geschichrsphiloroplue, p. 27).
3
' Philosophte posune, hçào 52'
95

gênero rosa me recorda por sua vez um grupo mais limitado de característi-
cas particulares existentes no interior daquela família; finalmente bastam pou-
quíssimas palavras para mdicar as características da rosa canina. Do mesmo
modo a frase: "Os gregos são um povo pertencente à velha civilização medi-
terrânea" é suficiente para evocar em nos~a mente muitas características geo-
gráficas e etnicas. Por isso um bom trabalho descritivo pressupõe a existên-
cia de uma classificação; não contudo semelhante àquela que, movida por
uma espécie de horror vilae, considera os povos separadamente do territó-
rio que é a sua base, e os estuda depois de tê-los destacado da vida que os
anima; nesse caso pode ocorrer que organismos importantíssimos na exis-
tência dos povos, como por exemplo as fronteiras, seJam considerados co-
mo simples linhas ou divisarias, e não como instrumentos vivos no desen-
volvimento dos fenômenos máximos cujo teatro é a Terra.

§35. A classificação a ntropogeográfica - A vida dos povos e dos Es-


tados que possuem tert itórios semelhantes entre si apresenta também fenô-
5. TAREFAS E MÉTODOS DA GEOGRAFIA DO HOMEM menos análogos entre si que são por isso suscetíveis de uma classificação;
e é necessário estabelecer essa classificação ames de prosseguir no estudo cien-
tífico. Esta é uma necessidade da qual não se dão conta aqueles que ao se
§34. A geografia do homem é uma ciência descritiva - Assim como defrontar com uma ciência descritiva pretendem certamente estabelecer leis
toda a geografia, também a geografia do homem é principalmente uma ciência naturais. HoJe, no que se refere às classificações, a geografia do homem tem
descritiva. O que significa, para se compreender exatamente, que esta não uma tarefa muito ampla e não privada de dificuldades particulares. Tome-
realiza um trabalho de investigação profunda. Consideremos que se o tra- mos um exemplo. Os pO\OS internos e os povos costeiros, os povos monta-
balho de descrição não basta para completar a obra de uma ciência, este é nheses e os povos insulares representam tipos que se encontram em todas
necessário porém para preparar suas conclusões. Não é uma falha para uma as zonas, variadíssimos em termos de extensão e de qualidade. As pequenas
ciência ser descriuva, desde que ela não se limite exclusivamente ao trabalho e pobres tribos de esquimós da América ártica são comunidades costeiras
de descrição, já que nesse caso a ciência não atingiria seus objetivos supre- e insulares, assim como os índios que moram adiante deles são povos inter-
mos; pois, quanto mais esta se detém nesse trabalho, tanto pior resulta sua nos. O tipo rude, grosseiro, belicoso do filho da montanha e o do navegante
obra. De fato, se não houvesse outro motivo para induzir uma ciência a sa1r .\ e mercador refinado, hábil, pacífico, se nos apresentam por toda a parte ao
do campo da pura descrição, as próprias exigências desta deveriam impelt- longo da história da Grécia. Esquimós e índios, atenienses e trácios, fenícios
la, pois entre todas as lições que a história da ciência nos fornece uma das e hebreus são pequenas manifestações do grande contraste que se manifesta
mais importantes é exatamente esta, que à medida que os acontecimentos entre comunidades e potências continentais e marítimas, e cuja influência
avançam, a descrição vai se tornando cada vez mais completa, mais profun- podemos verificar em toda a história universal.
da, mais intelectual e portanto mais clara. A propósito disto comparemos Esta classificação natural que se baseia na variedade das sedes dos po-
as descrições botânicas de Gesner e Rauwolf ou as descrições zoológicas de vos pode ser levada muito além. Ass1m como a Terra se apresenta tão varia-
Linné com as descrições que se fazem atualmente com base em SIStemas na- da, também são variadas as influências que ela exerce sobre os povos e so-
turais e levando em conta a paleontologia e a embriologia . bre os Estados. O mar é apenas um onde" quer que seja; mas os povos, os
Toda boa descrição presume o exato conhecimento do objeto que de\ e Estados e as cidades situadas no Oceano Atlântico desfrutam de condições
ser descrito, e, ao mesmo tempo, dos objetos afins mais ou menos próxi- naturais diversas daquelas que se encontram no Pacífico, e o mesmo se diga
mos, com os quais esse tem muitas características em comum. Desse modo, das comunidades do Mediterrâneo em relação àquelas que vivem no Bálti-
urna vez conhecidas essas características, não é mais necessário refazer s ua co. As influências da natureza variam de zona para zona. Cada continente
descrição a cada novo objeto; mas basta, em vez disso, designar o grupo e cada compartimento natural de um mesmo continente apresentam carac-
afim para saber com segurança que características se encontram no objeto terísticas particulares das quais participam os povos e os Estados que vivem
que a este pertence. Assim o nome rosaceae evoca em minha mente uma fa - no seu território. Os Estados europeus e os Estados americanos serão sem-
mília de plantas que apresenta as principais características da rosa. O nome do pre diversos entre si, mesmo que algum dia suas diferenças possam ser um
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tanto quanto atenuadas. Assim também os povos da América setentrional. dutivo, mas simplesmente que usa como recurso um segundo procedimento,
meridional e central constituíram sempre famílias naturais distintas. do qual a geografia pode, em alguns casos, tirar proveito.
Além disso, assim como os homens pertencem a grupos naturais e de Se para a geografia a possibilidade do estudo experimental fosse tão am-
ci_vilização diversos, a etnografia distingue emre povos negros e povos ín- pla como para as outras ciências, a necessidade do procedimento comparati-
dlOs, entre povos civilizados latinos ou germânicos e povos primitivos. Mas vo seria menor. Mas se já para a geografia física é difícil a aplicação do méto-
para a geografia do homem a classificação mais ób"ia e mais natural é a do experimental para estudar a sedimentação sobre um fundo do mar a 9 000
que se baseia em distinções geográficas, isto é, na posição e na natureza do metros de profundidade, ou o amolecimento das rochas sob uma pressão tan-
território habitado; e estabelecer esta classificação é precisamente uma de gencial de muitas atmosferas, seria totalmente impossível a repetição experi-
suas tarefas fundamentais. Crê-se contribuir justamente para essa obra em mental dos fenômenos da vida com dimensões telúricas. Para o estudo destes
cada uma das páginas que seguem 44 • fenômenos só pode servir o experimento que nos apresenta a natureza mesma
mediante o repetir-se de processos análogos em condições diversas de posi-
§3~. O m_élod~ indutivo - A classificação representa o primeiro pas- ção, de espaço e geográficas em geral. Do que se deduz que a geografia deve
so d? metodo mdutJ\'O. Na verdade o processo de comparação se torna já realizar um amplo trabalho de comparação sem deiXar de examinar um só
marufesto em todo o trabalho de classificação dos povos baseado no exame ângulo da Terra46 .
das suas sedes; e o mais simples dos mapas etnográficos le\·a à comparação Se é verdade que a geografia obsena os mesmos fenômenos que são
d_o~ vários te_rritórios que este apresenta sob o aspecto aa sua amplitude, po- estudados também por outras ciências, seu método contudo se distingue sem-
siçao e configuração. O mapa etnográfico representa o instrumento de in- pre por esta sua tendência natural a ampliar seu ângulo de visão, a realizar
dução próprio da geografia do homem. É sob este aspecto principalmen- uma observação que eu diria hologeica, isto é, que abarca toda a Terra. As-
te que a amropogeografia é uma ciência comparada. A expressão geogra- sim, se a geografia, ao apresentar os povos separadamente em seus mapas
fl~ comparada foi usada sem reservas depois q_ue Karl ~itter fez dela pre- cartográficos, presta fiel ajuda à etnografia, que estuda esses povos sob as-
missa da sua grande obra sobre a geografia da Asia e da Africa. Pela forma pectos da sua língua, usos, costumes, ao mesmo tempo a antropogeografia
c?mo a utiliza Karl Ritter esta expressão significa a contraposição à geogra- tende constantemente a representar os povos como um todo, como um con-
~Ja pur~mente descritiva, que é privada de conteúdo intelectual e por isso junto compacto; a geografia do homem é portante essencialmente unitária,
I~perfe1ta na sua descrição. Ritter poderia dizer do mesmo modo "vergeis- enquanto a etnografia é essencialmente separadora. A descrição dos mares
tlgte Erdkunde" em contraposição aos "entgeistigce Erdkunde" de seus pode, é verdade, levar a distinguir a partir de seus contornos uma grande quan-
pred ecessores 45 . M as estaremos correspondendo melhor à verdadeira .
natu- tidade de golfos, baías, estreitos etc.; mas esta também pode se elevar e esta-
reza da geografia, se à geografia de Ritter dermos simplesmente a denomi- belecer, por exemplo, uma relação entre os três mediterrâneos - romano,
n~ção de "sintética". Esta denominação nos dará ao mesmo tempo oportu- americano e austral-asiático considerados como tais; e é exatamente ao fazer
rudade de recordar como é inexata a concepção daqueles que consideram essa comparação que o geógrafo terá ocasião de assinalar como é legítimo
a geografia como uma ciência dedutiva; porque, se é verdade que o geógra- o outro conceito mais elevado, o conceito unitário do Oceano. Do mesmo
fo tem os olhos voltados constantemente para toda a Terra e está sempre modo o antropogeógrafo passa do estudo dos povos à concepção superior
pronto a passar das considerações de um fenômeno singular à consideração da humanidade. De tal forma que da comparação nasce a síntese, cuja legiti-
de uma série de fenômenos, isto é, do procedimento analítico ao sintético midade, ou melhor, cuja necessidade dentro do estudo geográfico nasce da
esta disposição todavia não significa exatamente a renúncia ao método in~ difusão de alguns fenômenos para toda a Terra, ou pelo menos para uma gran-
de parte desta.
•• ..
V a u'I uma pane da Geografia do homem, .,_ II: "Cia~sif1cações e mapas antropogeo- Não desconheçamos portanto a grande ajuda que o cruério hologêmco
~raf1cos" . presta ao estudo de cada um dos problemas antropogeográficos. Em uma época
; Enquant~. Karl Ritter,~rabalh~va na geografia à qual ele deu, com um sentido parucular, como a nossa, na qual, em consequência da especialização, cada ciência se
o nome de comparada , ocorna que nesse mesmo ano de 1831 a mesma denommaçào era
empregada em duas obras 1m portantes, cada uma com um sentido completamente d1vcrso de
fraciona em um grande número de pequenos estudos particulares, é uma ver-
modo que se unha ao mesmo tempo três t1pos de "geografia comparada". Rennel. na sua o'bra dadeira felicidade que na ciência geográfica este fracionamento não seja to-
A treause on lhe compararive geography of western Asia (London, 1831), empregava o termo davia muito acentuado, de tal modo que o estudo aqui possa ser sempre ini-
comporat1ve geography em_ sentido puramente histórico, pretendendo designar o confronto en- ciado e conduzido sobre bases de amplitude geral, pemanecendo a pos-
treas mformações geograf1cas dos esc mores antigos e do~ modernos acerca de um me~mo ter-
mono Por sua vez J Yates uulizava a expressão comparam·e geography para ind1car o con-
front? entre as formas_ de terreno , e a consagrou no seu estudo Remarks on rhe formallon of '" Já Comte mdicou explicnameme como um dos métodos da soCIOlOgia o l'Ãpenmemo indtreto,
alluvtal depos/15. pubhcado em 1831 no 'Vew Phtlosophica/ Journal IStO é. o e~tudo de certos desviOs do desenvolvimento normal de um determinado fenômeno
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si.blhd~de de descobrir materiais de estudo completamente novos. O que po- Desse modo um país representa, sem dúvida, um objero em si; mas
rem nao nos pode levar a esquecer que o método natural da pesquisa antro- ao mesmo tempo é também um elemento de uma grande cadeia . Por si aquele
poge?gr_áfica é se.mpre aquele que é impulsiOnado pela determinação exata país é um organismo, mas se torna um simples órgão se constderado dentro
dos tenomenos smgularmente considerados. de uma série, dentro de um grupo, dentro de um complexo de ordem supe-
rior, e isto ocorre quer se trate de um povo dominado, ou tributário, ou de-
§37. O nexo histórico no estudo antropogeográfico - Quando em- nvado, ou membro de uma aliança, ou componente de um círculo ~iviliza­
preen~emos o estudo de um determinado problema antropogeográfico, uma do. Diante do estudo antropogeográfico aquele povo se apresenta as vezes
reflexao nos aconselha a manter nossa visão dentro de um circulo de obser- sob um, às vezes sob outro dos dois aspectos, e há como que uma luta comi:
vação restrita; isto é, a reflexão onde não há país, espelho de mar, monta- nua entre o organismo e o órgão. Por isso também no trabalho de investiga-
nha ou rio que possam ser considerados como objetos absolutamente mde- ção vemos a síntese alternar-se em análise.
pendentes. Já Herder advertira que não se poderia compreender a história A geografia do homem deve estudar precisamente este alternar-se dos
da Alemanha faLendo referência apenas ao seu território, porque a Alema- dois aspectos toda vez que tomar em sentido amplo o aspecto territorial. Disso
nha também não representa senão um prolongamento do continente asiáti- se segue que ela não de-., e considerar os povos como elementos inertes e mui-
co. E além disso quem se arriscaria a afirmar que a este mesmo território to menos como elemento~ fechados e encerrados em si mesmos. Quando,
da Europa central não poderiam ter chegado os descendentes de uma 1aça como ocorre na Polinésia ou no interior da Ásia, a indústria européia pene-
curo-afncana, que nos tempos pré-arianos ocupou os países mediterrâneos tra em meio a um povo, sufocando a arte e a indústria indígenas com a in-
e penetrou profundamente até dentro da África? trodução de grande quantidade de produtos inferiores mas de bom merca-
Ora, como acima da superfície sólida se movem as massas instá\cis do, aquele povo todo perde sua vida própria e entra no rol daqueles que são
de água e aquelas massas ainda m~is móveis de atmosfera. o nexo que se obrigados a viver recolhendo caucho, espremendo óleo de palma ou caçan-
estabelece entre um território e seus limítrofes não permanece imeiramente do elefantes para prover ao consumo europeu, e recebendo em troca tecido!>
!Jmitado àquela ligação que é determinada pela continuidade das camadas transparentes, aguardente adulterada com ácido sulfúrico, fuzis usados ou
t~rrestres. Os movimentos aquáticos e atmosféricos servem para ligar entre roupas em desuso, em suma, os dejetos das populações civilizadas. O orga-
SI também os povos. O Danúbio transporta ao l\lar Negro areias extraídas nismo econômico daquele povo se extingue, e em muitos casos este fato as-
dos g ranitos da Floresta Negra e as condições meteorológicas do nosso país sinala o princ1pio da atrofiação e do perecimento total do próprio povo. O
sofrem a mfluência das inversões atmosféricas que nos chegam através do organismo mais forte se sobrepôs ao mais fraco e o absorveu por toda par-
Oceano Atlântico depois de ter deixado as costas da Virgínia do Labrador te. Por outro lado pode-se observar ainda que Atenas não poderia ter vivido
e_d~ Islândia. E!n ~onse~üênc1a dessas mesmas corremes atmosféricas as águas sem o trigo, a lenha, o cânhamo dos países situados ao longo da margem
teptdas do Atlanuco attngem as costas ocidentais da Europa influenciando setentrional do Mediterrâneo, assim como a Inglaterra passaria fome se não
seu clima até nas regtões internas. Se pensamos ainda nos frágeis navios de fosse o pão e a carne fornecidos pela América setentrional, pela Europa orien-
Crist_óvão Colombo, impulsionados.em pleno Oceano Atlântico por um ou- tal e pela Austrália.
tro _st~t~ma de ~emos em direção às fndi as Octdentais, ou nas migrações dos
pohnes10s das tlhas Tanga às Fidji, às Novas Hébridas, e mais além ainda §38. Necessidade de uma visão retrospectiva à história da Terra - Já
em dire~ão oeste ao longo da corrente pacífica sul-equatorial, isto vem nos afirmamos antes (v. cap. 4) que os povos devem ser estudados em relação
p~rsuadtr de quanto é grande a influência histórica dos movimentos inorgâ- com wda a Terra e especialmente com a evolução desta. A este respeito a
niCOS. No que se refere ao Danúbio, o maior dos nossos estadistas afirmou, geografia do homem nos oferece um exemplo de como a condução do estu-
é ~er~ade, que os int_eresses P?líticos da Alema~ha não são de modo algum do de um problema científtco baseada em procedimentos superficiais leva
allngtdos. pela questao do Onente. Contudo nao se pode deixar de pensar a graves dificuldades, enquanto o aprofundamento matar da investigação
que um no, qu~ representa um todo fisicamente indivisível, exerce também conduz à solução com muito menor esforço. Karl Ritter tentou muitas vezes
no campo polítiCO uma função de ligação do mesmo modo que exerceu no nas suas descrições mostrar as ligações existentes entre os fenômenos geo-
c~mpo etnográfico . _Quem poderia ainda hoje persistir naquela afirmação, gráficos da natureza inorgânica e os fenôme nos da humanidade; mas ele não
dtante da crescente Importância de todas as comunicações terrestres com a se deu conta de que entre as duas ordens de fenômenos existe um nexo mui-
Europa su l-oriental, que seguem exatamente a mesma direção do Danúbio? to mais profundo, representado pela correspondência entre as evoluções dos
Enf1m as populações do baixo Danúbio vêm se aproximando do círculo da dois elementos, que têm ambos sua raiz na Terra, tanto que se poderia dizer
CJvili_zaçào da Europa central, e esta aproximação se realizou na maior pane que existe entre esses elementos uma espécie de parentesco telúrico. Mais su-
segutndo as margens do grande rio. perficial ainda é o outro pensador, que goza da fama de ter demonstrado
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uma particular acuidade no cc.wdo das relações de dependência que c,e e<>ta 0 ed 1fício Científico. Para isso ba~tará ter prc~ent.e que os au ibuto~ do h_?-
belecem entre a histó11a e a natureza circundante; queremos acenar a Henry rnem, cuja difu~ão pode ser demonstrada e descnta, podem ter .em relaçao
Th. Buckle que, no primeiro capítulo da sua Historia da cirili<,açào inglesa, ao próprio homem uma importância muito d1versa. E, na rned1~a em que
0 estudo antropogeográfico se refere precisamente ao homem, tcrao ~nteres­
diz: "Se consideramos que o homem se encontra permanentemente cm con-
tato com o mundo exterior, devemos nos persuadir de que existe nece~sana­ se cienufico apenas aqueles atributos que têm um vínculo muito estreno com
0 ser que os possu1 e os difunde, cuja difusão valha para iluminar a difus~o
mente uma ligação entJ e as ações do homem e as leis da natureza". Nas con-
cepções deste gênero. em que se fala apenas em coexistência, conrato, de- do homem Não queremos porém dizer com 1~to que além do campo a~~1m
pendência, a palaHa que resolveria de fato o problema permanece inexprc~­ circunscrito ces~e inteiramente a seriedade da investigação científica; mas a
sa; é a palavra evolução. geografia do homem pode muito bem restringir-se a estes limites sem ne-
Toda a históna da humanidade é uma contínua e\'oluçào sobre a Ter- nhum prejuízo da verdade.
ra e com a r erra; e não se trata de uma simples coexistência. mas humanid<l- A geografia física é base e prem1ssa da geografia do homem; o que
de e Terra\ i"em, sofrem. progridem e en\'elhecem juntas Basta pen ar que porém não sigmfica que esta deva faze• seus todo:, os resultados d~quela
l!gações profundas devem nascer de um tal gênero de coexistência para se A geografia física se ocupa de uma grande quanudade de pesqUisas CUJO fruto
dar logo conta de ~orno é supérflua toda pergunta que ponha em du\'ida a não resulta em nenhuma vantagem para a antropogeografia. Na verdade a
existência ou não de um nexo entre a Terra e o homem, a influencia ou não v1da em todas as suas formas é um fenômeno superficial da nossa Terra,
que o territorio e todo o ambiente físico exercem sobre a históna. sobre O!> e em muitos aspectos depende mais do Sol do que do terntório; antes, esta
pO\oc;, sobre os Estados, ~obre a sociedade humana. se manifesta mais nas partes baixas da superf1cie terrestre, especialmente no
Traduzido em linguagem prática o que foi dito acima Significa que quan- que se refere à vida do homem. É por isso que os relevos mais alto~ d? t~rra
do no estudo anrropogeográfico nos encon{l amos diante de um fato CUJas firme apresentam para a geografia do homem um interesse quase tao mf1mo
condições atuais não bastam para explicar, então é necessáno voltar os olho~ quanto as cavidades mais profundas do mar. O estu?o d~ cume de uma mo~­
ao passado e buscar aí as causas que o presente não nos revela, sem o que tanha pode ter enorme importância do ponto de v1sta fJSJco, mas pode na.o
se ca1na em um erro de lógica elementar. Neumann, ba ~ea ndo-se na falla ter absolutamente nenhuma Importância do ponto de v1~ta antropogeogra-
de um nexo entre a divisão do gênero humano em raças e as condiçõc~ geo- fico. Assim também as condiçõec; que se manifestam no fundo de um lago
gráficas presentes, tira dai a conclusão segu1a de que a etnografia cienllficn ou de um rio, no interior de uma geleira, em uma terra polar inabitada, não
deve se apoiar unicamente no e\ame comparado das línguas. ~las se este têm com a geografia do homem relação de espéc1e alguma.
cientiSta fosse levado a examinar um vale árido, estaria ele impedido de cons-
tatar a falta de um nexo visível entre este efeito e uma outra causa qualquer §40. As leis antropogeográficas- Assim como a geografia do homem
não ma1s \ isi\·el, ou não teria ele também tentado encontrar uma causa de- tem em comum com as ciênc1as naturais o método científico, ela ordena sua
terminada, que tivesse dado lugar à formação do "ale e thes~e mais tarde matéria do mesmo modo que estas, com base em classificações, e chega às
cessado? Do me~mo modo de\ e-se dizer que para o antropogeografo o pro- suas conclusões pela via das comparações. O fato de el.a estudar o home'!'
blema de como 6e deva explicar a difusão dos povos não é isolado. mesmo em relação com seu território não dá lugar a nenhuma d1ferença. tanto ma1s
que nas atuais condições não pareça possÍ\ el aqui a solucào. que coloca o homem dentro da natureza e o considera nas suas r~lações reci-
procas com a Terra. A independência da \Ontade humana não 1mpede que
§39. Limites da geografia do homem- Se qualquer objeto, que se apre- a difusão geográfica do homem sofra a innuência de cond1ções. ~xtern~s; .a~­
senta sobre a Terra em um número bastante considerável e tenha uma rel a- sim, por exemplo, ele foi excluído das terras polares e das reg1oes ma1s an-
ção com o homem, pode ser estudado e representado sob o aspecto da sua das corno qualquer outra espécie vegetal ou animal. Do mesmo modo que
difusão geográfica, então a tarefa da geografia do homem não teria frontei- o fitogeógrafo delimita a área de difu~ào da~ palmeiras, o amropogeógrafo
ras se esta ciência não tivesse em si mesma as razões de uma limitação ade- delineia a área de difusão dos negros. E se o primeiro deduz da presença
quada. É pois necessário colocar a questão: quais ào os limites da geogra- atual de uma mesma planta na África merid_ional e na Nova Guiné que aquela
fia do homem? Para responder a ISSo basta considerar que o objetivo da planta se transferiu vagando pelo Oceano Indico ou que. ocorreu uma dupla
antropogeografia é puramente cienll]ico e que por ISSo ela de\ e deL\ar às migração da pátria comum de origem, por exe~nplo, da lndia, a mesma con-
aplicações de geografia política, de geografia comercial etc. a descrição de clusão t1ra o segundo d1ante dos negros da Afnca e dos papuas.
todos os fenõmenos que não têm importância essenc1al para aquele objetl- Do mesmo modo que todas as outras ciênc1as que tamtJ'ém compree~­
vo . Aqui, como cm qualquer outra c1ência. deve-se impedi! que o c~tuclo deram o homem no rol de suas investigações, tampouco a antropogeograf1a
~c aprofunde e ~e estenda além do quanto e ncce~~ano para tornar completo pode pretender descobrir leis que possam ser expressas atra"es de fórmulas
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matemáticas. Assim como o homem, também o povo possui uma •ontade dos bárbaros; mas desde que a ocupação francesa da Tunísia colocou aque-
independente . Mas esta vontade, sempre que pretenda se expressar, deve le- las terras nas mãos de uma grande potência, estas readquiriram, especial-
var em conta as condições que a Terra impõe à existência humana e quere- mente em relação à Sicília, toda a importância que tinham tido nos tempos
presentam uma limitação para essa vontade. De fato, não há vontade hu- de Cartago.
mana que possa aumentar a área do planeta; nenhuma vontade humana po- É possível estabelecer portanto com dados de realidade antropogeo-
deria se sobrepor às forças que se opõem à vida em meio ao gelo persistente gráfic~s uma equação tal que uma só grandeza seja aqui desconhecida; a
das terras polares e das altas montanhas ou então nos desertos : e tampouco incógnita será sempre uma grandeza de tempo. Diante de determinadas con-
poderá se formar jamais um Estado independente no pólo norte, nem surgir dições de extensão, de espaço, de posição, deverá necessariamente manifestar-
uma grande cidade em meio às areias do Saara. Assim também a expansão se um certo fenômeno, mas não se pode dizer quando. Quando as observa-
tel rirorial de um povo encontrará sempre limites impostos pelas condições ções das quais se dispõe se referem a período de tempo bastante extenso,
externas. Um povo que se estende sobre um grande espaço será sempre me- então a constatação do repetir-se daquele fenômeno determinado confere
nos compacto que um povo concentrado sobre um pequeno território como ao cálculo um grau de segurança também maior.
o dos franceses. Um território situado em clima temperado possui maiores As objeções que se costuma levantar contra o valor das leis antropo-
recursos que um outro situado em clima frio; assim a Suécia e a Noruega geográficas se apóiam freqüentemente sobre erros de interpretação muito
consideradas juntas têm um território que supera em 2/ 5 a amplitude do ter- elementares, como demonstra a crítica feita por Peschel a Ritter 4 7 . Diz ele
ritório da Alemanha, mas uma população que é apenas l t 7 da alemã. da Grécia:
Nesses países a livre vontade dos povos pode sem dúvida atenuar mui-
"Aquele era e é contudo o berço dos povos navegadores que foram os vence-
to o império destas limitações ou torná-lo mais suportável, mas não poderá
dores de Salamina, mas lá poderia ser também, em Helesponto, a capital do
jamais aboli-lo completamente. E por isso cada povo carrega em si as carac- Oriente, naquele mesmo lugar onde surgiu Bizâncio e onde está hoje Constan-
terísticas do seu território. Hoje a geografia do homem deve estudar os po- tinopla e a frota turca decomposta. A natureza é sempre tão benigna quanto
vos em relação às condições naturais às quais eles ~Sião sujettos, isto é , era naqueles 1empos gloriosos, mas os habitantes daquelas terras hoje estão
considerá-los sempre unicamente sobre seu terntório. E sobre este que a geo- mudados. Portanto a influência das causas locais não é senão uma influência
grafia do homem vê além disso se definirem as leis que regulam a vida dos negativa ... Os caracteres físicos de cada território oferecem a possibilidade de
povos; leis que precisam ser expressas em forma geográfica. Assim ela con- desenvolvimentos diferentes . Mas o fato de ter realizado um e não outro de-
sidera o incremento e a decadência dos povos pela sua expansão territorial, senvolvimento constitui precisamente o mérito histórico de cada nação. O cur-
descobre entre os ingleses e os japoneses, entre os habitantes de Tonga e de so da história certamente tem relação com as leis físicas do território, mas só
Simbo o repetir-se das mesmas influências derivadas da posição insula!, e nas suas linhas gerais" (Ausfand, 1859, n. 33).
considera os destinos da Grécia como conectados com os destinos da Asia No caso concreto não é a geografia do homem que está errada, mas Peschel
anterior, sejam gregos ou persas, romanos ou turcos os povos que aí predo- que esquece uma lei importante: que as influências que um país exerce sobre
minem. Assim também a geografia do homem vê a centralidade do império a história de seu povo não se devem apenas ao país em si, mas também aos
germânico repetir-se no Estado africano de Bornu; naturalmente esses dois territórios entre os quais este está compreendido . Por isso na crítica de Pes-
Estados continuam sendo muito diversos para ela, mas apresentam uma ca- chel, assim como em quase todos os autores que tratam das relações entre
racterística comum: se são fortes exercem uma enorme influência exterior, as condições naturais da Grécia e a sua história, se ignora o mais importante
enquanto fracos se encontram em grave perigo. Esta é em qualquer parte entre todos os elementos _?essa história, isto é, a posição desta península que
da Terra a vantagem e a desvantagem que confere a um Estado a centralida- se inclina em direção à Asia, quase l!m elo de conjunção entre a Europa e
de da posição política; isto porque todos os povos fortes visam alcançar o as costas orientais do Mediterrâneo. E exatamente esta posição que imprime
mar ou a estender sobre este seu domínio, e tendem a se apoderar das gran- à história helênica um caráter europeu-asiático tão profundo, caráter que
des vias comerciais ou pelo menos dos seus pontos extremos. se manifesta através de todas as contingências históricas tanto do seu flores-
Vê-se portanto como a extensão, a posição e a configuração dos terri- cimento como da sua decadência como o fio condutor ao qual se ligam tan-
rónos fornecem os elementos para avaliar a vida dos povos aos quais estes to a expedição clos Argonautas como a guerra de Tróia, a batalha de Sala-
pertencem. Esses elementos permanecem constantes enquanto se toma em mina como as influências da civilização mesopotâmica e egípcia, o império
consideração apenas o território; mudam porém às vezes quando se passa romano do Oriente como a dominação dos turcos. O elemeqto de debilida-
a considerar também os povos em contato com o território. Assim depois
da queda de Cartago o território daquela república perdeu por longo tempo .-
sua importância, e só em parte a readquiriu com o reflorescimento dos Esta-
j . Das Aus!and. 1867. n. 36 e 39; 1869, n. 9 e 39.
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de que é inerente a esta posição geográfica se tornou também mais sensível minha mente algo como um mapa de pálidos contornos, sobre o qual minha
pela configuração irrequieta do território, de tal modo a fragmentar quais- memória fixa no ponto exato, e às vezes infortunadamente também em um
quer operações que sejam mais amplas, de obstacularizar quaisquer podero- ponto inexato, a localidade em questão. Por isso os conceitos abstratos, que
sas concentrações de forças, e isto pelo desmembramento e pelo corte tanto não têm nenhuma referência a uma localidade exata, têm sempre um caráter
no sentido horizontal (penínsulas e ilhas) como em sentido vertical (orográ- não perfeitamente geográfico. Portanto em geografia, ao se estudar um fe-
fico), assim como pela limitação da sua extensão. Posição, amplitude e con- nômeno, será sempre muito útil separar uma da outra as características sin-
figuração: esses são os elemenLOs de base e ao mesmo tempo as limitações gulares do fenômeno mesmo e buscar entre eles os que são locali záveis, mais
postas pela natureza à história da Grécia. Diante destes elementos as condi- do que apresentá-los todos sob a forma de uma soma que não teria outro
ções favoráveis da indústria marítima, o clima soberbo etc . assumem uma valor senão o de um dado intermediário e serviria depois para compor ou-
importância totalmente secundária. No escrito que recortlamos Peschel acres- tros cálculos privados de significado. São um exemplo do gênero os estudos
centa: "É precisamente ao vencer os obstáculos postos pela natureza que relativos ao recorte das costas ou à densidade de população.
resplandece o gênio dos povos"; mas os gregos, mesmo na época do seu apo- Hoje se faz grande alarde das médias estatísticas esquecendo-se da subs-
geu, quando seu gênio resplandecia mais alto, não chegaram a se impor às tância dos problemas tratados. Em geral se observa esse alarde também no
condições criadas pelas características fundamentais do seu território, so- campo cientifico onde, como se se tratasse de um jogo e sem se dar conta
bretudo pela posição geográfica, pela limitada extensão e pelo desmem- do objetivo ao qual se visa, continuam a se juntar cálculos corno se cada
bramento. um deles tivesse valor por si. Assim, por exemplo, adm1te-se que a popula-
ção total da Terra ascenda a 1 500 milhões de homens, e calcula-se que em
Parece-nos que o exemplo acima reportado demonstra que, para po- conseqüência a densidade da população terrestre seja de menos de 3 habi-
der realizar um estudo útil do vasto problema do qual tratamos, é necessá- tantes por km 2 • Mas, como é de se notar, os homens habitam a Terra ape-
rio primeiro fixar bem os elementos que devem ser examinados quando se nas numa faixa compreendida entre as regiões polares inabitadas , o chama-
quer falar da influência das condições naturais sobre a história dos povos. do ecúmeno, que, compreendendo terra e água juntas , ocupa cerca de 4/5
Este primeiro trabalho nos conduzirá logo a um resultado importante. isto da superfície terrestre. E é apenas nessa área que o gênero humano vive, de
é, à eliminação de uma grande quantidade de argumentos não acessíveis à tal modo que a cada quilômetro quadrado do ecúmeno caberiam 4 habitan-
abordagem geográfica, que pertencem. ao contrário , à fisiologia e à psico- tes . Além disso a porção maior do ecúmeno é ocupada pelo mar; a área ha-
logia; são desse tipo todas aquelas influências que modificam o caráter ou bitada é menos de 1/ 3 da sua superfície total, e por isso é apenas a esta área
as condições físicas do homem. Resta-nos, por out ro lado, o estudo de to- que se refere a população terrestre, cuja densidade sobe nesse caso para 12
dos os problemas puramente geográficos, ou seja. das influências que as con- habitantes por km 1 . Mas tam bérn no interior deste ecúmeno se apresentam
dições naturais exercem sobre o modo de ser do homem ou sobre sua ativi- diferenças de densidade consideráveis. Assim a população da Alemanha é
dade. As influências do primeiro grupo podem ser chamadas de estáticas, quase cinco vezes mais densa que a da Rússia: e na própria Alemanha se
e as do segundo de mecânicas. Estas últimas representam precisamente as observa que na província de Lüneburg a densidade é de 39 habitantes subin-
condições diretamente impostas pela natureza à história, embora não se ex- do a 400 na província de Düsseldorf.
clua que essas condições possam influir sobre a história também por via in-
direta. Assim, pode acontecer que cada uma das modificações ocorridas nas §42. A predestinação e a teleologia de Ritter - O conceito de predesti-
condições de um pequeno número de homens concorra para determinar os nação referido a uma região terrestre levantou muitas objeções e protestos
destinos históricos de comunidades situadas freqüentemente a enorme dis- por parte de mais de um critico excessivamente sutil. Se afirmo que a parte
tância, difundindo-se a povos inteiros ou sendo transmitidas através de de- ocidental da Europa e as penínsu las e os arquipélagos da Ásia oriental estão
terminadas frações de povos . predestinados, por sua estrutura extremamente fracionada, a ter seu próprio
desenvolvimento particular, eis que se insurge um dos filósofos da história:
§41. Leis a ntropogeográficas e estatísticas - A geografia do homem "Que significa a exp ressão : ter seu próprio desenvolvi mento particular? Ao
tem em comum com a estatística a tarefa de estudar os fenômenos relativos considerar as coisas do ponto de vista da causalidade exterior pode-se dizer
à vida dos povos e de buscar tudo que neles tem valor de lei. Mas os procedi - que alguma coisa esteja predestinada a algo? ( ...) Pt edestinaçào é um conceno
mentos das duas ciências são muito diversos. Os conceitos geográficos são superficial, privado de conteúdo, enquanto ao contráno o concetto verdadei-
sempre localizados com exatídão; eles têm na base de uma latitude e de uma ramente stgntficarivo é o de causalidade"~ 8 . ,

longitude uma relação com elementos geográficos, como costas , interiores,


48
relevos e cursos de água. Se falo o nome de uma localidade logo aparece em RITTER, K. Der We!;:.ug der Kullllr. in " 01e Knuk ", 1897, n 154.
106 107

Hoje se pode notar que o vocabulo predestinação tem sido já utilizado tão Herder que pertence o moto: a1 guto: "Ou a natureza não teria cnado a A fn
frequentemente que se pode considerar justificado seu emprego na linguagem ca, ou a África devena er ante~ de tudo dos negros"' 0
amropogeográfica. Mas quero citar. extraindo-a da moderna literatura, uma A este pt opósito se nos permita, diante do horror próximo do medo
expressão de Leroy-Beaulieu49 : "A unidade do território russo é tão natural que os opomores de Ritter ostenta\'am diante da teleologia, obser\'ar que
que nenhuma outra região da Terra, que não seja exatamente uma península na htstória de todas a~ ciências se pode constatar a compatibilidade dos con-
ou uma ilha, parece mais claramente predestinada a ser pátria de um povo ceitos teleológicos fundamentais com tesultados da im estigação propriameme
único". A frase citada não tem outro significado que não este: que há territó- dtta. Na \'erdade, diante de meuc; olhos e da minha mente, a natureza junto
rios que, mercê da sua conformação natural, são destinados a imprimir ao com a humanidade, que constituem o ObJeto único de qualquer ciência, pa-
mo.,.imento histórico certas formas e direções determinadas. É como se eu, receriam os mesmos, fossem as suas leis mamfestações acidentais. ou se ori-
encontrando-me dentro de um vale de montanha e olhando à minha volta, ginassem da \Ontade de um e~p1rito criador. O cientista investiga as causa~
dissesse: "Esta encosta está predestinada a dar lugar a uma torrente e aquela das quais deri\'am os efctto~ que constituem o objeto da sua Investigação.
bacia a um lago". Quem não gostar da palavra predestinação diga ao tn •és e não o torna nada 1nccno o fato de não se saber se o fim último destes fe-
disso atttude. É exatamente essa predestinação que a geografia deve estuda< nômenos é preestabelecido po1 uma vontade superior, e se o jogo destas cau-
e representar, ainda que em uma certa época a situação histórica de um certo sas e destes efeitos é guiado por uma inteligência superior . Aquilo que es·
território pareça estar em contradição com ela. Quando e como os destinos sencialmente nos prefixamos é estabelecer se os destinos dos povos são em
daquele território devem se cumprir são argumentos que não têm interesse alguma medida determinados pelo ambiente que os circunda. Karl Ritter parte
para este estudo; e isto embora o olhar experimentado do historiador profun- da convicção de que isto ocorre efetivamente, apoiando-se em parte na c1ença
do consiga ver aqui e ali os indícios daquela predestinação mesmo sob o véu de uma divindade que dirija as coisas humanas, crença à qual ele dá a im-
de uma história que esteja em contradição com essa e pois com as deduções portância de uma hipótese científica, em parte aos resultados da sua obser-
geográficas. Só quem conduzir seu exame aos elementos exteriores poderá ne- vação . Pode-se dirigir a Ritter a séria ct ítica de ter ele se fiado excessiva-
gar, embora a Grécia moderna esteja tão a baixo da Grécia antiga, a elevada mente nesta hipótese, e de ter por isso, com uma convicção tão profunda,
predestinação natural da península helênica (v. §40). considerado a Terra como o educandário da humantdade, e com isso se vol-
A susceptibilidade que uma palavra tão clara pôde despertar não é se- tado ao estudo dos fenômenos que lhe pareceram confirmar essa crença, sem
não a expressão da antiga animosidade cega e desconfiada contra qualquer se armar de dúvida suficiente. Todavia não se deve crer por isso que aquela
espécie de teleologia. Reflitamos um instante sobre algumas expressões como concepção teleologica tenha falseado todas as conclusões de Ritter e frustra-
esta, frequentemente citada, que se encontra na introdução ao primeiro volu- do portanto todo o seu percurso ctentífico. Se as chamadas ·'idéias de Rit-
me da Palestina de Rmer: ter" não puderam ~e afirmar ngorosamente, e se a própria geografia não
·' Imaginar a hJStória do povo de Israel em uma outra reg1ào terrestre que não póde tirar grande proveito delas, i5to não tem absolutamente nada a 'er com
~eja a Pales,ina dever-nos-Ia parecer algo impossível. Em nenhuma outra terra a teleologia, mas fot apenas por isso que Ritter muito rarameme enfrentou
a h1stóna sacra poderia ter tido um desenvolvimento tão rico como nesta terra, com decisão a abordagem dos problemas particulares, relati\OS ao argumento
claramente representando, para nós e para todos, os tempos vmdouros". do qual tratamos. Esta é e'\a~amente ua debilidade principal. Os trabalhos
Temos que confessar abertamente que tais expressões não nos chocam por de Ritter têm, por assim dizer, um carater de projeto ou de esquema, e re-
sua entonação teleológica, que de todo modo não pode nos impressionar se- presentam antes uma contínua demonstração da importância das relações
não exatamente como entonação; mas elas nos chamam a atenção pela rela- em questão e do modo como estas deveriam ser estudadas do que profundas
ção que têm com a teoria que Ritter enunciou com uma segurança até então investigações part tculares acerca da sua essência e das suas leis~ 1 •
desconhecida: "A história não está ao lado da natureza, mas dentro da pró-
pria natureza". De resto, a paternidade destas idéias teleológicas não perten- ~o !deen, VI. p. ~ Cf. tambem VIl, r 3
ce propriamente a Ritter, mas a ntes a H erder q ue, tanto nos seus Pri:iludien "' Nào podemos dei,ar de inuoduzir cm seg uid a uma cons tderação de caráter puramente hu·
como nas suas ldeen zur Geschichte der M enschheit, se referira freqüente- mano: Rlller e um daqueles pcnsaclote'> contra os qua is a cmtca nào pode se mo>trar se~era
mente ao concei to de que se deve considerar a Terra como a habitação e o como e para munos outros. Sua C\POStçâo nào e unilateral nem preconcebtda, nem polêmica,
exercício da humanidade, e como sendo predestinada exatamente a esse obje- mas se percebe continuamente ao lê·la quC' se esta dtante de um homem nào apenas honesto.
mas intetramente nobre. de tal modo que se em penha com o tntelecto e com o coração na m'e'>·
tivo; Herder reconhece a marca uniforme da mão criadora tanto nos esqui- Ligação ela verdade Se este no>r.o juizo provocar por pane de alguns Ctdadãos da "tepublica
mós apequenados pelo fno como na organização sensual dos negros. É a dos cten ustas" algum >mal de dtl\ ida. nós achamo~ que na ~rinca a que a~ opimõe; de um C>
cri10r como Ka rl Rttter pos>am dar lugar devem·~c le\'ar em conta o homem e os objctt\ os que
4
ele perseguiu. Por outro lado podc·~C compreender que a l guma~ da~ criticas que toram feit,h
~ I 'emp1re deç rsars, v. I (I ed ). p 33 a Karl Rllt er cabem nao ,, ele propt iamclltl'. ma~ J ~eus dtscipulo>