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O

Apocalipse para leigos



— você pode entender a profecia bíblica —




Kenneth L. Gentry Jr., Th.D.




















Dedicado a
Steve Hill
— fiel servo de Cristo,
meu bom amigo.

Sumário
Prefácio à segunda edição
Prefácio
Abreviaturas de escritos antigos
1. Expectativa e interpretação
A expectativa de João
A interpretação de João
A confirmação de João
Conclusão
2. Tema e fluxo literário
Tema literário
Fluxo temático do julgamento
Conclusão
3. A besta e sua fúria
Introdução
O tempo da besta
A localização da besta
A autoridade da besta
A cronologia da besta
O caráter da besta
O número da besta
A ação da besta
A ressurreição da besta
Conclusão
4. A meretriz e a noiva
O tema do Apocalipse
A grande cidade
A questão da proeminência histórica
O sangue dos santos
As vestes da prostituta
O padrão de nomeação
João aplica nomes pagãos
João denuncia Satanás
O contraste literário
A apresentação das mulheres
Conclusão
5. Julgamentos principais e seus significados
A queda das montanhas e esconderijos nas cavernas
O sangue correndo e os freios dos cavalos
Conclusão
6. O milênio e as ressurreições
O reino milenar De Cristo
Os mil anos
A prisão de Satanás
O reino de Cristo
As duas ressurreições
7. A nova criação e a igreja
A nova criação declarada
A descrição da nova noiva
A ausência de templo
Conclusão
Conclusão
Princípios básicos
Personagens e ações principais
Concordância do Novo Testamento
Bibliografia
Prefácio à segunda edição

Sou grato pela recepção entusiasmada da primeira edição de O Apocalipse para leigos. Também
agradeço a disposição da American Vision de publicar esta nova edição. Neste novo prefácio,
apresentarei uma breve explicação da necessidade da nova versão.
Depois de cinco anos de intensa pesquisa e escrita, acabo de completar o rascunho do meu
comentário de 1500 páginas sobre o Apocalipse. Pelo fato de eu ter trabalhado todos os versículos do
Apocalipse com profundidade, descobri alguns elementos de minha compreensão anterior que
precisavam de correção. De forma específica, fiz algumas mudanças importantes na minha compreensão
de Apocalipse 20, o grande capítulo em torno do qual o debate milenar se concentra. Assim, corrigi o
capítulo 6 da primeira edição: “O milênio e a nova criação”.
Dada a necessidade de trazer mais material para o debate de Apocalipse 20, decidi transformar o
capítulo 6 da primeira edição em dois capítulos. Assim, nesta edição, o capítulo 6 é agora intitulado: “O
milênio e as ressurreições”, e o capítulo 7 agora se chama: “A nova criação e a igreja”.
Nenhuma das minhas convicções preteristas foi alterada por essas mudanças. Na verdade, elas
foram fortalecidas. Caso você tenha lido a primeira edição do meu livro, espero que você considere as
mudanças encontradas aqui úteis.

― Kenneth L. Gentry Jr., Th. D.
Dia do Trabalho, 2010
Prefácio

Ambrose Bierce definiu o vocábulo “apocalipse” em The Devil’s Dictionary [Dicionário do diabo]
como um “livro famoso em que João ocultou todo o seu conhecimento. A revelação é feita pelos
comentaristas que nada sabem”. O Apocalipse é tão difícil e requer tanto conhecimento técnico que um
teólogo já reclamou que os comentários do Apocalipse muitas vezes são como um buraco negro, tão
densos que nenhuma luz lhes pode escapar.
Uma das grandes ironias da Escritura é que seu livro mais difícil chama-se “Apocalipse”
[”revelação”, em grego]. “Revelar” significa “descobrir, abrir” — com vistas à compreensão. Como
pode um livro tão intrincado como esse ser chamado “revelação”? Se déssemos nome ao livro, em vez de
chamá-lo “Revelação de Jesus Cristo”, poderíamos ser tentados a intitulá-lo “Mistério do apóstolo
João”. Na verdade, de tempos em tempos, o próprio João fica perplexo e confuso (Ap 7.13,14; 17.6,7;
19.10; 22.8,9).
Uma das surpresas constantes da experiência pastoral é o profundo interesse do novo convertido
em estudar o Apocalipse. A fascinação com seus mistérios não se limita aos bem preparados em estudos
cristãos, prontos para as coisas mais profundas de Deus. Essa curiosidade percorre todo o caminho de
volta até os crentes mais novos em Cristo.
Uma das grandes decepções do exegeta cristão sério consiste na quase inutilidade da
proliferação de literatura sobre o Apocalipse. Quando combinamos a natureza misteriosa do Apocalipse
com a fascinação contínua por ele, o mercado está pronto para gerar todo tipo de supostos “especialistas
em profecias” para atender à demanda. Em vez de nutrir-se com o puro leite da Palavra, não raro o novo
cristão é alimentado com um milk-shake de interpretações confusas sobre o Apocalipse.
Neste pequeno estudo, você descobrirá as chaves absolutamente essenciais para destravar a
mensagem de João, os marcos necessários para seguir seu sinuoso caminho, e as identificações
requeridas para discernir suas figuras principais e seus papéis. Não oferecerei uma exposição completa
do texto; em vez disso, eu me concentrarei nas chaves necessárias para abrir seu significado.[1] Espero
que este texto introdutório ajude-o a entender o significado fundamental e a força propulsora geral do
Apocalipse, pois só assim você estará preparado para se engajar na exposição detalhada do texto.

― Kenneth L. Gentry Jr., Th.M., Th.D.
Autor de Before Jerusalem Fell [Antes de Jerusalém cair]
Diretor de NiceneCouncil.Com
Abreviaturas de escritos antigos

Asc. Is. Ascension of Isaiah [Ascensão de Isaías]
1 Clem 1 Clement [1 Clemente]
Sib. Or. Sibylline Oracles [Oráculos sibilinos]

Dião Cássio
Rom. Hist. Roman History [História romana]

Josefo
Ag. Ap. Against Apion [Contra Apião]
Ant. Jewish Antiquities [Antiguidades judaicas]
War Jewish War [Guerra dos judeus]

Juvenal
Sat. Satires [Sátiras]

Fílon
Embassy On the Embassy to Gaius [Embassy a Gaio]

Filostrato
Vit. Vita Apollonii [Vida de Apolônio]

Plínio
Nat. Hist. Natural History [História natural]

Suetônio
Lives Lives of the Twelve Caesars [A vida dos doze césares]
Nero Nero
Vesp. Vespasian [Vespasiano]

Tácito
Ann. Annals [Anais]
Hist. The Histories [Histórias]


1. Expectativa e interpretação

Neste capítulo apresentarei duas questões vitais e fundamentais para o entendimento adequado do
Apocalipse. No próximo capítulo, focarei no tema exposto por João, e então traçarei em pinceladas
amplas como seu tema se desdobra no Apocalipse. Por conseguinte, os dois primeiros capítulos têm o
objetivo de prover as ferramentas básicas para o manejo do Apocalipse.
As duas questões tão cruciais para captar a intenção de João são: 1) a afirmação de sua
expectativa sobre quando suas profecias transcorrerão; e 2) o método declarado relativo a como as suas
profecias devem ser interpretadas. Como veremos, essas matérias são essenciais para “manejar bem”
essa porção da Palavra da verdade (2Tm 2.15). Embora elas possam surpreendê-lo, insto você a
examinar as Escrituras para ver se as coisas são assim (At 17.11).
Surpreendentemente, as duas matérias encontram-se no capítulo inicial de João. Elas não estão
escondidas atrás de todo o drama fantástico no centro do palco, perdidas sob o brilho de imagens
aterradoras. Infelizmente, no entanto, o entusiasta moderno do Apocalipse tende a passar rápido por elas
no desejo de “chegar logo à boa parte” dos capítulos posteriores. Porém, tão logo essas duas questões
sejam consideradas com cuidado, elas simplificarão e revolucionarão seu entendimento do livro, que
então se tornará uma “revelação” para você de verdade.

A EXPECTATIVA DE JOÃO
Antes de eu anunciar a expectativa de João, elaborarei meu argumento para dá-lo a conhecer em seguida.
O Apocalipse, como a maioria das epístolas do Novo Testamento, é um escrito “peculiar”. Um
escrito peculiar lida de forma direta com a ocasião e as circunstâncias históricas do público originário.
Por exemplo, em 1 Coríntios, Paulo orienta como a igreja de Corinto deve lidar com diversos problemas
que tanto feriram essa comunidade. Quando ele escreve que alguém lá se relaciona sexualmente com a
mulher do próprio pai (1Co 5.1), Paulo não está declarando um princípio universal prevalente em todas
as igrejas. De fato, trata-se de uma ocorrência bem rara e particular dos coríntios. Entender a situação
histórica do público originário de João é de importância fundamental para compreender a intenção dele.

A relevância do público
O primeiro passo para chegar à intenção de João é reconhecer seu público. Como veremos, o Apocalipse
foi escrito para um grupo particular de pessoas.

As igrejas destinatárias
No Apocalipse, João escreve uma carta (veja Ap 2-3) para quem ele conhecia e, de certo modo,
enfatizava suas circunstâncias históricas peculiares. Devemos nos colocar de fato no lugar do público
originário para sentir a plena força do seu ensino. João nomeia com especificidade as igrejas às quais ele
envia o Apocalipse:
João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz a vós outros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte
dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono. (Ap 1.4)
O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. (Ap 1.11)
Nós não apenas conhecemos essas cidades a partir de fontes antigas, mas até sabemos que a ordem de seu
aparecimento no Apocalipse segue uma rota postal romana conhecida.[2] Essas são cidades históricas
que contêm igrejas históricas do século I.
Nos capítulos 2 e 3, João endereça cartas curtas a cada uma delas. Nelas, descobrimos várias
referências históricas, geográficas, políticas, culturais e religiosas que se encaixam com perfeição no que
se sabe sobre essas regiões.[3] Esses são cristãos reais do século I. Devemos manter essa informação em
mente.

As igrejas aflitas
João não escreve apenas para igrejas reais do século I; as igrejas passavam por grandes sofrimentos.
Também descobrimos esse fato no primeiro capítulo:
Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos,
por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. (Ap 1.9)

De fato, ao longo de todo o Apocalipse, discernimos o tema do mártir, ao suportar as “tribulações” e a


necessidade de “perseverança” (p. ex., Ap 2.9,10; 3.9,10; 6.9-11; 11.7,8,11-13,18; 12.10; 13.10; 14.11-
13; 16.5,6; 17.6; 18.20,24; 19.2; 20.4,6). Essas pessoas sofrem bastante. Por exemplo, depois no
capítulo 6, encontramos as bênçãos especiais de Deus sobre os assassinados por sua fé:
Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por
causa do testemunho que sustentavam. Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não
julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes
disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos
que iam ser mortos como igualmente eles foram. (Ap 6.9-11)
Assim, João não apenas escreve às igrejas do século I, mas a igrejas em circunstâncias terríveis. O que
João espera dessas igrejas em sofrimento enquanto escreve o Apocalipse?

As igrejas instruídas
Quando João inicia sua carta às sete igrejas, ele declara com ênfase a intenção de que elas o entendam.
De fato, o versículo inicial (de onde se retirou o nome do livro) diz:
Revelação [apokalypsis] de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos […] que ele, enviando por intermédio
do seu anjo, notificou ao seu servo João. (Ap 1.1)

Ele expressamente afirma a pretensão de “revelar”, “mostrar”, “notificar” algo a elas — e não esconder
informações delas.
Assim, dois versículos adiante, ele as instrui a ouvir com entendimento, para que possam
guardar as obrigações encontradas no livro:
Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas. (Ap 1.3a)
Elas devem “ouvir” e “guardar”, o que com obviedade requer que entendam.
Assim, João escreve às igrejas originárias do século I que sofrem, a fim de lhes dar
direcionamentos que devem ser entendidos, e que devem agir de acordo com eles. Como nós veremos,
isso se torna parte crucial da evidência para captar a expectativa de João.

Expectativa contemporânea
Talvez tenhamos chegado agora à questão mais importante para entender com adequação o Apocalipse.
Creio que, para compreender o livro, você precise começar pelos três primeiros versículos. João
informa a seus leitores, de forma expressa, esperar que os acontecimentos profetizados ocorram logo.
Vamos observar três ângulos que enfatizam sua preocupação imediata.

As várias expressões de João
João usa dois termos quando menciona sua expectativa temporal: “em breve” (gr., en tachei) e
“próximo” (gr., engys). Se, por alguma razão, o seu público original não conseguisse entender um termo,
eles tinham outro por perto para elucidar.
A palavra traduzida como “em breve” aparece como a explicação pela qual ele lhes escreve:
Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele,
enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João. (Ap 1.1)
Insisto: confira qualquer tradução moderna. Consulte sua versão favorita. Você descobrirá que todas elas
mencionam a proximidade temporal. O termo também aparece depois em Apocalipse 2.16 e 22.6.
A palavra traduzida como “próximo” segue logo após o outro termo, apenas dois versículos
depois. E, mais uma vez, João expressa a proximidade crescente dos acontecimentos como a exata razão
do seu escrito para eles:
Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo
está próximo. (Ap 1.3)

Essa palavra comumente se refere a acontecimentos próximos no tempo, como a proximidade da Páscoa
(Mt 26.18), a chegada do verão (Mt 24.32) e ocorrência de uma festividade com presteza (Jo 2.13). De
novo, confira qualquer versão moderna; os resultados serão os mesmos.
Se você duvida de um dos termos, eis o outro! Esses termos se apoiam: algo acontecer “em
breve” indica sua “proximidade”. E apenas um versículo os separa. Eles tornam necessária, de forma
inequívoca, a iminência dos acontecimentos do Apocalipse quando João escreve. Pense no seguinte: de
que outra maneira João poderia ter declarado que os acontecimentos estavam próximos? Ele usa duas das
palavras mais comuns, conhecidas e claras para expressar a proximidade temporal.
Agora, tenha em mente nossos comentários anteriores: João escreve para igrejas reais e
históricas do século I. Elas sofrem penosa “tribulação”. João seria sarcástico com elas ao usar termos
conhecidos sobre a proximidade temporal? A esses homens e mulheres que passam sob tais provações?
Claro que não! Ele ministra a elas — e espera que o entendam e ajam com base em suas orientações, pois
o tempo está próximo (Ap 1.3).

Abertura Encerramento
Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para Disse-me ainda: Estas palavras são fiéis e verdadeiras.
mostrar aos seus servos as coisas que em breve O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou
devem acontecer e que ele, enviando por intermédio seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que
do seu anjo, notificou ao seu servo João. (Ap 1.1) em breve devem acontecer. (Ap 22.6)
Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que Disse-me ainda: Não seles as palavras da profecia
ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas deste livro, porque o tempo está próximo. (Ap 22.10)
nela escritas, pois o tempo está próximo. (Ap 1.3)


A localização estratégica de João
Ele não apenas emprega dois termos muito comuns e claros que expressam proximidade temporal, mas
ele os coloca nos comentários da abertura como nos do encerramento. Assim, eles aparecem na
introdução e conclusão. Ele afirma sua expectativa para o público quando esse entra no livro e quando
sai dele. Ele literalmente os pega na ida e na volta.
Isso se torna ainda mais relevante quando percebemos que os indicadores temporais aparecem
antes e depois das visões difíceis. Eles não se encontram nas sessões simbólicas em que poderíamos
imaginar a necessidade de regras interpretativas especiais. Em vez disso, eles estão em porções claras,
diretas e didáticas do Apocalipse.

A instrução significativa de João
Os acadêmicos reconhecem a relação literária entre o Apocalipse e Daniel, sendo este uma das fontes
principais do pensamento e imaginário de João. Em cada livro, um anjo aparece ao escritor. É
interessante que, embora use uma linguagem bem similar, o anjo instrui João a agir de modo oposto à
ação de Daniel. Essas direções contrárias surgem dos momentos na história bastante separados nos quais
João e Daniel se encontram. Observe a similaridade literária dos mandamentos, mas suas ações
históricas opostas:

Tu, porém, Daniel, encerra as palavras e sela o livro, Disse-me ainda: Não seles as palavras da profecia
até ao tempo do fim; muitos o esquadrinharão, e o deste livro, porque o tempo está próximo.
saber se multiplicará. (Dn 12.4) (Ap 22.10)

Daniel viveu centenas de anos antes de João, e o anjo lhe ordena: “sele o livro”. Contudo, muito
tempo depois, um anjo parecido instrui João (ao escrever também uma obra apocalíptica) a “não selar o
livro” — “pois o tempo está próximo” (Ap 22.10). O que poderia ser mais claro? As expectativas de
Daniel eram de longo prazo; as de João, de curto prazo.
Tudo dito e feito, João escreve o Apocalipse antecipando acontecimentos iminentes em seus
dias. Ele não escreve sobre acontecimentos de dois ou três mil anos depois. Ele zombaria com crueldade
do público originário do século I, que sofre dura tribulação e lê que os juízos divinos sobre os
malfeitores “virão em breve” ou “estão próximos”.
Nosso entendimento da força propulsora principal do Apocalipse, então, deve ser “preterista”, e
não “futurista”. O termo “preterismo” é baseado na palavra latina praeteritus, que significa “passado”. A
abordagem preterista do Apocalipse ensina que João profetizava acontecimentos futuros em relação a
seus dias, mas que se encontram agora no nosso passado. O “futurismo” ensina que todos os
acontecimentos do Apocalipse (do cap. 4 em diante) ainda estão no nosso futuro. Como veremos, as
catástrofes antecipadas por João se encaixam com perfeição nas circunstâncias históricas do século I.

A INTERPRETAÇÃO DE JOÃO
Outro problema que enreda o suposto intérprete moderno é a presunção de literalismo ao lidar com o
Apocalipse. Muitos estudantes contemporâneos de profecia resistem à abordagem simbólica da gloriosa
profecia de João. “Literalismo!” torna-se o grito de guerra dos que creem que o Apocalipse refere-se a
nosso futuro próximo.
Afirmo que, apesar da alegação popular pelo literalismo, ninguém toma o Apocalipse em
sentido literal. Nós o tomamos como a verdade de Deus, é claro. Sem dúvida, ele versa sobre
acontecimentos históricos reais. Mas nós não podemos tomá-lo como a verdade divina em forma literal.
Vejamos como isso ocorre.
Ao interpretar qualquer obra literária, devemos sempre ouvir com atenção o próprio autor. Em
especial se ele apresenta uma informação que afeta a forma adequada para interpretar sua obra. Com
certeza, o Apocalipse é considerado o livro de mais difícil interpretação do Novo Testamento. Dado o
interesse generalizado por ele, isso exacerba as dificuldades para apresentar a mensagem de João no
contexto moderno. Como consequência, a metodologia hermenêutica torna-se a preocupação suprema
para o intérprete. Curiosamente, no seu evangelho, João demonstra o problema do literalismo entre os
primeiros ouvintes de Cristo: ao raciocinar com rigidez literal, eles interpretam errado o ensino de Jesus
sobre o templo (Jo 2.19-22), nascer de novo (3.3-10), beber água (4.10-14), comer sua carne (6.51-56),
ser livre (8.31-36), ser cego (9.39,40), dormir (11.11-14) e sobre ele ser rei (18.33-37). Esse problema é
intensificado no Apocalipse com seu rico imaginário.

Pistas para interpretação
Como já demonstrei, o Apocalipse tem início com afirmações poderosas que declaram o cumprimento a
curto prazo de suas profecias. Da mesma forma, bem no primeiro capítulo, encontramos as primeiras
pistas do método de apresentação de João. Ele informa seus leitores, com especificidade, sobre a
natureza simbólica de suas visões, e apresenta ideias de como o leitor deveria transpor suas visões para
entender o ponto.

O anúncio de abertura de João
João não perde tempo para alertar os leitores sobre sua abordagem simbólica. Bem na frase inicial, ele
declara:
Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele,
enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João. (Ap 1.1)
Aqui, ele nos informa que o Apocalipse é dado “para mostrar” (gr., deixai) a mensagem que se dá a
“conhecer” (gr., esēmanen) pelo anjo de Deus (Ap 1.1).
Como Friedrich Düsterdieck observou:
O deixai ocorre no modo peculiar a sēmainein, i.e., a indicação do que se pretende por meio de figuras significativas.[4]

De fato, em 41 vezes, João diz “ver” essas profecias (p. ex., Ap 1.12,20; 5.6; 9.1; 20.1).
O comentarista pré-milenarista Robert Mounce observa quanto a isso: “Afirma-se que a
revelação será mostrada a João. O verbo grego carrega a ideia de representação figurativa. Falando em
sentido estrito, isso significa tornar conhecido por meio de algum tipo de sinal (Hort, p. 6). Logo, muito
adequado ao caráter simbólico do livro. Isso deve alertar o leitor a não esperar a apresentação literal da
história futura, mas sim a imagem simbólica do que ainda há de acontecer”.[5] João encoraja os leitores a
esperar símbolos figurativos, em vez de acontecimentos literais.

A revelação inicial de João
De fato, a primeira visão de João estabelece o padrão da interpretação simbólica posterior ao apresentar
uma visão e, então, interpretar os seus elementos principais de modo não literal. Em Apocalipse 1.12-20,
ele relata uma visão de Cristo a andar entre candeeiros. No pressuposto literalista, a visão deve ensinar
que o Senhor anda por entre candelabros no céu. No entanto, João não o permitirá.
No versículo 20, Jesus interpreta a visão para nós:
Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das
sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas. (Ap 1.20)
Então, na verdade, ainda que o próprio João tenha observado sete estrelas e sete candeeiros, as estrelas
representam “os anjos das sete igrejas” e os candeeiros representam “as sete igrejas”. Isso é o que João
mesmo ensina; não podemos descartar essa pista importante para a interpretação simbólica.

A prática constante de João
Mais ainda, João não nos apresenta apenas uma amostra de seu método simbólico. Diversas vezes em
Apocalipse, ele para e provê conceitos interpretativos para as visões.
Em Apocalipse 5, João vê um cordeiro com sete olhos. Mesmo o literalista mais ingênuo
reconhece que esse cordeiro representa Cristo, o Senhor, pois ele é chamado (não literalmente!) “Leão da
tribo de Judá, a Raiz de Davi” (Ap 5.5). Afinal, os anjos do céu cantam em seu louvor como o Redentor
do povo de Deus (5.9,10) e glorioso por causa de sua obra (5.12). No versículo seguinte, ele é louvado
com Deus Pai (5.13). Em Apocalipse 14, o nome do Cordeiro é associado ao nome divino nos eleitos de
Deus (14.1).
João também provê orientações interpretativas para um dos aspectos mais incomuns da visão do
Cordeiro. Ele explica os “sete olhos”:
Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha
sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. (Ap 5.6)

A visão dos sete olhos não significa que o Cordeiro conte com sete globos oculares literais na cabeça. O
próprio João nos diz isso.
Apesar de João falar do “incenso” nas taças angelicais no céu, ele redireciona nosso
entendimento. João afirma com clareza que o incenso visto por ele de modo literal representava, na
verdade, as “orações dos santos”:
E, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um
deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos. (Ap 5.8)
Em Apocalipse 17.7, 9, 10, o anjo intérprete esclarece a confusão de João observando que uma imagem
representa de fato duas realidades diferentes juntas:
O anjo, porém, me disse: Por que te admiraste? Dir-te-ei o mistério da mulher e da besta que tem as sete cabeças e os dez chifres
e que leva a mulher... Aqui está o sentido, que tem sabedoria: as sete cabeças são sete montes, nos quais a mulher está sentada.
São também sete reis, dos quais caíram cinco, um existe, e o outro ainda não chegou; e, quando chegar, tem de durar pouco. (Ap
17.7,9,10)

Então, não apenas as sete cabeças não retratam sete cabeças literais na besta real, mas também
simbolizam duas outras realidades: sete montes e sete reis.
E o que diremos dos chifres da besta? Eles não são chifres — embora certos mamíferos
possuam mesmo chifres constituídos por um osso coberto por um revestimento de queratina. O anjo
interpreta isso para João e para nós:
Os dez chifres que viste são dez reis, os quais ainda não receberam reino, mas recebem autoridade como reis, com a besta, durante
uma hora. (Ap 17.12)
Até a água que João vê não deve ser compreendida como referência à formula H2O. Em vez disso, o anjo
explica:
Falou-me ainda: As águas que viste, onde a meretriz está assentada, são povos, multidões, nações e línguas. (Ap 17.15)
Como podemos ver, João nos concede amostras explicativas suficientes da interpretação do Apocalipse
para que possamos declarar que o livro não deve ser interpretado de acordo com os princípios do
literalismo.

Os absurdos literalistas de João
Mesmo que colocássemos de lado o próprio anúncio de abertura de João com respeito à natureza
simbólica da profecia, e sua explicação da primeira visão, e a prática interpretativa em outros lugares do
Apocalipse, deveríamos evitar o literalismo com base no bom senso. Considere os seguintes absurdos
que surgiriam da abordagem literalista:
Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres
viventes cheios de olhos por diante e por detrás. (Ap 4.6)
E isso apesar do fato de, quando os homens veem de fato anjos na terra, estes podem ser confundidos
com seres humanos (p. ex., Gn 19.1,5; Dn 9.21).
Embora João observe mesmo um cordeiro em algumas de suas visões, sabemos que ele não nos
ensina literalmente sobre as ações de um mamífero do gênero ovis da família bovidae.
Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha
sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. (Ap 5.6)
Observei previamente neste capítulo que esse “Cordeiro” é, na verdade, adorado e louvado como
Redentor do povo de Deus.
Tampouco deveríamos esperar um tempo no futuro em que o mundo testemunhe uma investida
global por quatro cavaleiros literais, cada um cavalgando em um equus caballus:
Vi quando o Cordeiro abriu um dos sete selos e ouvi um dos quatro seres viventes dizendo, como se fosse voz de trovão: Vem! Vi,
então, e eis um cavalo branco e o seu cavaleiro com um arco; e foi-lhe dada uma coroa; e ele saiu vencendo e para vencer.
Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo ser vivente dizendo: Vem! E saiu outro cavalo, vermelho; e ao seu cavaleiro, foi-lhe
dado tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros; também lhe foi dada uma grande espada. Quando abriu
o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizendo: Vem! Então, vi, e eis um cavalo preto e o seu cavaleiro com uma balança na
mão. E ouvi uma como que voz no meio dos quatro seres viventes dizendo: Uma medida de trigo por um denário; três medidas de
cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho. Quando o Cordeiro abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente
dizendo: Vem! E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava seguindo, e foi-
lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da
terra. (Ap 6.1-8)

Em outro ponto do Apocalipse, João descreve homens lavando de fato suas vestes em sangue para torná-
las brancas:
Ele, então, me disse: São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro.
(Ap 7.14)
E o que diremos dos gafanhotos que ele vê?
O aspecto dos gafanhotos era semelhante a cavalos preparados para a peleja; na sua cabeça havia como que coroas parecendo de
ouro; e o seu rosto era como rosto de homem (Ap 9.7)
Ou dos cavalos e seus cavaleiros?
Assim, nesta visão, contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. A cabeça
dos cavalos era como cabeça de leão, e de sua boca saía fogo, fumaça e enxofre. (Ap 9.17)

Esperamos mesmo que um dragão literal de muitas cabeças arraste um terço dos trilhões de estrelas do
universo e as lance sobre a terra?
Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete
diademas. A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da
mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse. (Ap 12.3,4)
Na interpretação literalista, quem é a mulher alada que pisa sobre a lua? E a serpente que vomita um rio
de água?
E foram dadas à mulher as duas asas da grande águia, para que voasse até ao deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante
um tempo, tempos e metade de um tempo, fora da vista da serpente. Então, a serpente arrojou da sua boca, atrás da mulher, água
como um rio, a fim de fazer com que ela fosse arrebatada pelo rio. (Ap 12.14,15)

A pavorosa besta de João parecerá literalmente com um conjunto de três representantes da ordem dos
mamíferos carnivora?
A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. (Ap 13.2a)

A segunda besta que João vê é literal?


Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres, parecendo cordeiro, mas falava como dragão. (Ap 13.11)
O anjo de Deus vai mesmo ceifar a terra com uma foice literal?
Outro anjo saiu do santuário, gritando em grande voz para aquele que se achava sentado sobre a nuvem: Toma a tua foice e ceifa,
pois chegou a hora de ceifar, visto que a seara da terra já amadureceu! (Ap 14.15)
Os espíritos demoníacos aparecem na história na forma de rãs saindo das bocas de seres malignos de
forma literal?
Então, vi sair da boca do dragão, da boca da besta e da boca do falso profeta três espíritos imundos semelhantes a rãs. (Ap 16.13)
A grande meretriz é de fato uma vampira que bebe sangue até se embebedar?
Então, vi a mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus. (Ap 17.6)
Jesus cavalgará fisicamente no céu enquanto segura uma espada por entre os dentes?
Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações. (Ap 19.15a)

Esperamos que uma cidade literal (completa com encanamento e eletricidade) desça do céu à terra?
E me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu,
da parte de Deus. (Ap 21.10)
Ela será gigante e se estenderá sobre a superfície da terra, alcançando 2400 quilômetros de altura, quase
2000 quilômetros mais alta que os satélites espaciais?
A cidade é quadrangular, de comprimento e largura iguais. E mediu a cidade com a vara até doze mil estádios [2400 km]. O seu
comprimento, largura e altura são iguais. (Ap 21.16)

Sem dúvida, ninguém interpretaria o Apocalipse assim. Como vimos, o texto confronta o literalista com
dificuldades em sequência. Para parafrasear Mark Twain, poderíamos dizer isso sobre os absurdos do
Apocalipse literal: “O Apocalipse é apenas uma sucessão de problemas”.

A CONFIRMAÇÃO DE JOÃO
Pelo fato de eu afirmar que o Apocalipse espera o cumprimento a curto prazo, preciso ser capaz de
especificar quando, onde e como ele se realiza. Um dos documentos históricos mais úteis que demonstra
seu cumprimento foi escrito por Flávio Josefo. Como farei várias referências a ele ao longo do estudo,
segue uma breve biografia a seu respeito e sua importância.
Flávio Josefo foi um historiador judeu rico e proeminente (não cristão) que viveu de 37 d.C. a
101 d.C. Ele descendia de sacerdotes e viveu na Palestina. Retomando nosso contexto histórico,
recordemo-nos de que Cristo foi crucificado no ano 30, e o templo de Jerusalém destruído no ano 70 da
era cristã.
Josefo serviu como general nas defesas judaicas durante a guerra contra Roma (entre 67-70 d.C.).
Na guerra, ele foi derrotado pelos romanos em Jotapata e rendeu-se ao general romano Flávio
Vespasiano. Ele tornou-se amigo de Vespasiano ao interpretar um oráculo profético, dizendo que
Vespasiano seria, um dia, imperador de Roma. Em seguida, começou a trabalhar com Vespasiano ao
insistir com os judeus que se rendessem aos romanos e abandonassem sua causa autodestrutiva e sem
esperança. Ele não obteve sucesso, e, por causa dessa tentativa, os judeus o consideraram ao longo da
histórica um desertor.[6]
Vespasiano tornou-se imperador de Roma em 69 d.C. e patrocinou o famoso livro de Josefo, Peri
tou ioudaikou polemou [Guerra dos judeus]. Essa obra foi escrita por volta de 75 d.C. (apenas cinco
anos após a queda de Jerusalém). O nome de Josefo foi mudado de Yoṣef ben Mattityahu, que era muito
judeu, para o mais romano Flávio Josefo, tendo o nome de Flávio Vespasiano como seu benfeitor.
Em sua extensa obra (publicada em sete livros), Josefo escreve como testemunha ocular, presente
à guerra judaica nos lados do conflito. Sua obra é muito útil para prover lampejos históricos quanto aos
nomes e acontecimentos da guerra, muitos dos quais são preditos na profecia de João em Apocalipse.
Várias correspondências entre a profecia de João e a história de Josefo podem ser encontradas no meu
capítulo em Four views on the book of Revelation.[7]
Recomendo muito a leitura do livro de Apocalipse, capítulos 6 a 19, e em seguida a leitura de
Jewish War, de Josefo, capítulos 4 a 7.[8]

CONCLUSÃO
O Apocalipse de João é interpretado de forma equivocada quase universalmente, pois as chaves para
destravar seus mistérios são negligenciadas — embora tenham sido deixadas na porta da frente por João
há muito tempo. O apóstolo afirma com clareza, já no início de sua obra, que os acontecimentos por ele
profetizados “em breve devem acontecer” porque “o tempo está próximo” (Ap 1.1, 3; cp. 22.6,10). Por
mais estranho que possa parecer hoje ao cristão, quanto mais longe nos movemos em direção ao futuro,
mais longe nos afastamos dos acontecimentos do Apocalipse.
João repetidas vezes orienta os leitores a entender as profecias de modo simbólico, não literal. E,
embora não possamos entender as imagens reais do Apocalipse de maneira literal, podemos interpretá-
las por meio da história. Como destacamos, uma das ferramentas mais úteis para discernir o cumprimento
histórico do Apocalipse é o Jewish War de Josefo. Perceberemos que suas observações históricas são
muito importantes para descobrir as realidades históricas subjacentes às imagens simbólicas de João. De
fato, minha linha interpretativa do Apocalipse é bastante histórica.
Minha tarefa nos capítulos remanescentes do livro será mostrar-lhe como isso se dá. Espero que
você descubra, para sua surpresa, ser capaz de começar a ler e entender o Apocalipse. Afinal, “bem-
aventurado é aquele que lê e entende” (Ap 1.3a).


2. Tema e fluxo literário

Os dois erros mais destrutivos que um intérprete do Apocalipse pode cometer são: fazer vistas grossas
para a expectativa temporal afirmada com clareza por João e não reconhecer seu método interpretativo.
Se ignorarmos a perspectiva a curto prazo do próprio João, literalmente viraremos o Apocalipse de
cabeça para baixo, colocando no fim da história cristã o que João alega jazer no início. Se ignorarmos a
abordagem simbólica, não entenderemos a natureza histórica das profecias.
Sempre que buscamos interpretar uma obra, devemos fazê-lo com base no tema do autor. Isso é
verdade em especial quando o autor declara o tema de modo expresso. Como ocorre com os indicadores
de tempo, João coloca sua declaração temática logo no começo da profecia. De fato, ela aparece no
versículo 7 (nas versões modernas):
Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele.
Certamente. Amém! (Ap 1.7)

TEMA LITERÁRIO

A interpretação do versículo temático
A impressão inicial deixada por esse versículo hoje é que João está falando da segunda vinda. Sem
dúvida, ele envolve uma linguagem bem aplicável à futura, gloriosa e definitiva segunda vinda de Cristo
na história. As Escrituras falam muitas vezes da segunda vinda, incluindo o tipo de linguagem sobre o
juízo e a vinda com as nuvens (cp. At 1.9-11; 1Ts 4.16,17; 2Ts 1.7-10). A igreja cristã histórica e
universal sempre afirmou esse acontecimento majestoso.[9]
Contudo, as aparências enganam. Apesar dessa primeira impressão, há fortes evidências que nos
compelem a interpretar Apocalipse 1.7 de outro modo. Creio que esse versículo nos apresenta uma
profecia de juízo contra a Jerusalém do século I, cuja destruição ocorreu em 70 d.C. O tema de João
versa sobre a devastação iminente do templo e de Jerusalém sob os generais romanos Vespasiano e Tito.
Como essa interpretação não é óbvia e é pouco conhecida pela maioria dos cristãos modernos, precisarei
defendê-la com um pouco mais de detalhes. Diversas razões irresistíveis nos movem da interpretação de
segunda vinda para a ocorrência no ano 70 d.C. Explicarei por meio de sete evidências.

O contexto antecedente do tema
Talvez o princípio interpretativo principal para entender qualquer documento possa ser resumido em três
palavras: “Contexto, contexto, contexto”. Antes de chegarmos a Apocalipse 1.7 e abrirmos o livro de
João, precisamos passar primeiro pelos versículos 1 e 3. Como vimos, esses dois versículos declaram
com ênfase que as ocorrências esperadas no Apocalipse “em breve devem acontecer” (Ap 1.1) porque “o
tema está próximo” (Ap 1.3).
Devemos observar com cuidado que João não só declara que os acontecimentos do livro estão
próximos, mas que, nessas declarações de proximidade, ele relata o propósito da composição do livro e
aplica esse propósito ao público do século I. Apocalipse 1.1 informa aos destinatários que ele escreve
sobre “as coisas que em breve devem acontecer” (Ap 1.1). Alguém suporia que, se ele escreve sobre “as
coisas que em breve devem acontecer”, isso poderia envolver seu tema. Seria muito estranho se João
declarasse a proximidade temporal do propósito do seu escrito e então versasse sobre um tema que se
estendesse a milhares de anos além da sua época. Afinal, ele não declara a proximidade “do tempo”
como o motivo de seus leitores de século I deverem ler, ouvir e “guardar as coisas […] escritas”
(Ap 1.3)? Por que ele urgiria que guardassem as coisas escritas, se o propósito temático jazesse no
futuro, muitos séculos adiante?
Assim, apenas quatro versículos antes de João afirmar o tema do Apocalipse, ele declara que os
acontecimentos estão próximos e os aplica ao público originário.

O contexto seguinte ao tema
João não só apresenta o tema de modo a exigir seu cumprimento a curto prazo, mas, dois versículos
depois de declará-lo, ele o aplica às circunstâncias severas dos leitores originários:
Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por
causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. (Ap 1.9)

Como observado antes, João estava ministrando à minoria perseguida. A preocupação de Deus com quem
sofre pela fé no século I é o tema principal e constante em todo o Apocalipse. Sem dúvida, João não diz a
esses santos perseguidos que o tempo está próximo, que devem guardar o que lhes escreve, que Deus se
preocupa com as perseguições — mas que ele os vingará milhares de anos no futuro! Apocalipse 1.7
deve se aplicar às circunstâncias do século I.

A linguagem apocalíptica na profecia
João retrata sua declaração temática de acordo com o imaginário apocalíptico, declarando: Cristo “vem
com as nuvens” (Ap 1.7). E, embora isso soe como a segunda vinda, e ainda que esse glorioso
acontecimento ocorrerá de forma literal “com as nuvens”, descobrimos que esse tipo de linguagem pode
ser usado como símbolo dos juízos históricos divinos diferentes da segunda vinda. Qualquer um que leia
o Apocalipse reconhece de imediato que João trabalha com um imaginário estranho (como mostrei no
capítulo anterior). Esse imaginário deve ser entendido muitas vezes como algo simbólico. Creio que isso
também seja verdade aqui no versículo temático. Observemos apenas dois exemplos de imaginário
apocalíptico usado para descrever acontecimentos históricos.
Encontramos em Isaías 19 um alerta ao Egito do Antigo Testamento. Nessa profecia, Deus
ameaça aquela nação antiga com o juízo, um julgamento que se tornou realidade quando o rei assírio
Esar-Hadom conquistou o Egito em 671 a.C. Todavia, observe a linguagem empregada por Isaías:
Sentença contra o Egito. Eis que o S ENHOR , cavalgando uma nuvem ligeira, vem ao Egito; os ídolos do Egito estremecerão diante
dele, e o coração dos egípcios se derreterá dentro deles. (Is 19.1)

A profecia se aplica com clareza ao Egito. E, com a mesma clareza, ela alega que o Senhor “vem” ao
Egito. Mas nenhum intérprete crê que os egípcios viram o Deus todo-poderoso assentado em uma nuvem
e descendo sobre eles em juízo.
Em Mateus 26, o próprio Senhor Jesus usa essa linguagem para falar do juízo contra Israel no
ano 70 d.C.:
E, levantando-se o sumo sacerdote, perguntou a Jesus: Nada respondes ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, guardou
silêncio. E o sumo sacerdote lhe disse: Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. Respondeu-
lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-
Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu. (Mt 26.62-64)
O versículo 64 é similar ao de Apocalipse 1.7:
“… vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”.
E note que ele se refere ao sumo sacerdote e às pessoas reunidas ao redor dele: “[Vós] vereis”. Isso deve
ser uma referência ao juízo em 70 d.C., profetizado em vários lugares por Jesus (veja em particular
Mt 21.33,34; 22.1-7; 24.1-34) e testemunhado por muitos dos que se posicionaram contra Cristo naquele
dia.
Assim, Apocalipse 1.7 pode ser aplicado ao julgamento histórico que recaiu sobre Israel em 70
d.C. Nada na Escritura proíbe essa interpretação apocalíptica. À medida que as evidências se acumulam,
seremos dirigidos a essa exata conclusão.

O ensino prévio do Senhor sobre o assunto
Na evidência anterior, mencionei como adendo que o próprio Jesus empregou uma linguagem
apocalíptica de juízo vindouro ao se referir à destruição iminente do templo. Vamos olhar um pouco mais
de perto esse fenômeno enquanto desembrulhamos o significado de Apocalipse 1.7.
Em Mateus 21.33-48, Jesus apresenta a parábola do dono da vinha. Nessa parábola, temos uma
figura das bênçãos amorosas de Deus sobre Israel ao longo dos séculos (21.33,34). Mas o cuidado
providente de Deus para com Israel é retratado contra o pano de fundo da desobediência obstinada deste,
que a leva a matar os profetas enviados por Deus (21.35,36). Por último, Deus envia o próprio Filho,
apenas para vê-lo ser morto por Israel (21.37-40). Baseado nessa parábola, Jesus pergunta aos líderes
religiosos de Israel:
Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? (Mt 21.40)
Os líderes de Israel respondem, sem pestanejar, à sua inquirição:
Responderam-lhe: Fará perecer horrivelmente a estes malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe remetam os frutos
nos seus devidos tempos. (Mt 21.41)

Ele os deixa chocados ao apanhá-los em suas próprias palavras:


Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. Todo o que
cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó. (Mt 21.43,44).
Eles então entendem o ponto:
Os principais sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, entenderam que era a respeito deles que Jesus falava. (Mt 21.45)
Essa parábola e a discussão que a segue dizem respeito à destruição do templo em 70 d.C., mencionando
esse julgamento como uma “vinda” do Senhor: “quando o senhor da vinha vier” (21.40). No contexto
seguinte, outra parábola vale-se de mais literalidade:
O rei ficou irado e, enviando as suas tropas, exterminou aqueles assassinos e lhes incendiou a cidade. (Mt 22.7)
Assim, com clareza, Apocalipse 1.7 pode, ao menos em teoria, ser aplicado a 70 d.C. E, dada sua
configuração contextual (e outras coisas apresentadas a seguir), esse é o melhor entendimento do tema de
João.

A causa específica do julgamento
Havendo estabelecido o contexto e as possibilidades, devemos agora focar na redação expressa de
Apocalipse 1.7. João aplica a profecia em particular contra “aqueles que o traspassaram”:
Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele.
Certamente. Amém! (Ap 1.7)

Isso provê uma indicação da interpretação correta do tema — tão negligenciada quanto as pistas relativas
às expectativas temporais de João.
Todos nós estamos cientes de que os soldados romanos foram os instrumentos físicos e
imediatos da crucificação de Cristo. A Bíblia, porém, enfatiza com veemência, repetidas vezes, a
responsabilidade pactual de Israel por todo o terrível ocorrido. Eu listarei vários versículos que
apontam de modo direto para Israel como a causa da crucificação de Cristo (em um capítulo posterior,
veremos quão relevante é isso para a mensagem de Israel):
E o povo todo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos! (Mt 27.25)
Eles, porém, clamavam: Fora! Fora! Crucifica-o! Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso rei? Responderam os principais
sacerdotes: Não temos rei, senão César! (Jo 19.15)
Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos.
(At 2.23)
O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós traístes e negastes
perante Pilatos, quando este havia decidido soltá-lo. Vós, porém, negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos concedessem um
homicida. Dessarte, matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas.
(At 3.13-15)
O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. (At 5.30)
Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós
agora vos tornastes traidores e assassinos. (At 7.52)
E nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o
no madeiro. (At 10.39)
Tanto é assim, irmãos, que vos tornastes imitadores das igrejas de Deus existentes na Judeia em Cristo Jesus; porque também
padecestes, da parte dos vossos patrícios, as mesmas coisas que eles, por sua vez, sofreram dos judeus, os quais não somente
mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são adversários de todos os
homens, a ponto de nos impedirem de falar aos gentios para que estes sejam salvos, a fim de irem enchendo sempre a medida de
seus pecados. A ira, porém, sobreveio contra eles, definitivamente. (1Ts 2.14-16)

O testemunho incessante da Escritura culpa Israel pela morte de Cristo. A nação é pactualmente
responsável; ela deveria ter entendido melhor (Lc 19.41-44). Então, o texto de Apocalipse 1.7 promete o
juízo contra “aqueles que o traspassaram”, o que requer que esse julgamento ocorra no século I, enquanto
“aqueles que o traspassaram” ainda estavam vivos — em especial por conta dos indicadores temporais
de curto prazo no próprio contexto da afirmação (Ap 1.3). Os acontecimentos de 70 d.C. brindam-nos
com o encaixe mais perfeito, relevante e irresistível.

O foco máximo do julgamento
No entanto, há mais! Apocalipse 1.7 também afirma que “todas as tribos da terra se lamentarão sobre
ele”. Quem são essas “tribos da terra”? E por que elas “lamentam”?
O leitor deve entender que a palavra grega traduzida por terra (gē) pode significar o pedaço de
terra local e também todo o planeta. De fato, ela com frequência significa a “terra de Israel”, isto é, “a
Terra Prometida” — a terra local. Em vários pontos do Novo Testamento, essa palavra faz referência à
totalidade da Terra Prometida, ou a alguma porção dela. Nesses lugares, nós a encontramos em
expressões semelhantes a “terra de Judá” (Mt 2.6), “terra da Judeia” (Jo 3.22), “terra de Israel”
(Mt 2.20-32), “terra de Zebulom” (Mt 4.15), “terra de Naftali” (4.15) e “terra dos judeus” (At 10.39).
Logo, de acordo com considerações apenas lexicais, o termo pode ser entendido como designação da
Terra Prometida.
Quando observamos que essa “terra” contém “tribos”, chegamos ainda mais perto da
interpretação certa. A palavra grega para “tribo” é phylē, que, na Escritura, quase sempre se refere às
tribos israelitas. O Novo Testamento muitas vezes dá nome às “tribos” particulares de Israel: Aser
(Lc 2.36), Benjamim (At 13.21; Rm 11.1; Fp 3.5), Judá (Ap 5.5; Hb 7.14). As “tribos” encontram seu lar
na Palestina; essas são “as tribos da terra” mencionadas em Apocalipse 1.7. A referência de João à
“tribo de Judá” em Apocalipse 5.5 aponta com clareza para a divisão tribal entre os israelitas étnicos. O
termo “tribo” obviamente tem essa relevância racial em Apocalipse 7.4-8 ao ser usado para designar as
doze tribos especificadas pelo nome, e em Apocalipse 21.12, João se refere às “doze tribos dos filhos de
Israel”. A propósito, várias traduções literais da Escritura inclinam-se nessa direção:
Eis que vem com as nuvens, e vê-lo-á todo olho, até os mesmos que o traspassaram; e lamentar-se-ão sobre ele todas as tribos da
nação. Sim! Amém![10]
Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo os que o traspassaram; e lamentar-se-ão sobre ele todas as tribos da
nação. Sim, amém.[11]
Isso não apenas se harmoniza com os indicadores temporais de curto prazo, mas também com os avisos
de Jesus sobre o juízo iminente contra Jerusalém. Repare em três exemplos do Evangelho de Lucas (em
acréscimo às parábolas mencionadas antes em Mateus):
Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto
está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te
apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a
oportunidade da tua visitação. (Lc 19.41-44)
Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação. Então, os que estiverem na Judeia,
fujam para os montes; os que se encontrarem dentro da cidade, retirem-se; e os que estiverem nos campos, não entrem nela.
Porque estes dias são de vingança, para se cumprir tudo o que está escrito. (Lc 21.20,21)
Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos
filhos! Porque dias virão em que se dirá: Bem-aventuradas as estéreis, que não geraram, nem amamentaram. Nesses dias, dirão
aos montes: Caí sobre nós! E aos outeiros: Cobri-nos! Porque, se em lenho verde fazem isto, que será no lenho seco? (Lc 23.28-
31)

A evidência a favor da indicação do ano 70 d.C. como indicação do cumprimento de Apocalipse 1.7 está
ficando imbatível. O tema de João em Apocalipse é o juízo de Israel decorrente da rejeição do Senhor
Jesus Cristo.

O paralelo particular nos evangelhos
Curiosamente, Apocalipse 1.7 encontra um paralelo notável no ensino do Senhor no sermão do monte das
Oliveiras. Observe as similaridades entre Apocalipse 1.7 e Mateus 24.30, em particular as palavras que
eu destaco:
Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos [tribos] da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem
vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. (Mt 24.30)
Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele.
Certamente. Amém! (Ap 1.7)

Os dois versículos são únicos na Escritura, no sentido em que juntam porções de Daniel 7.13 e
Zacarias 12.10. João traça o imaginário de “vir com as nuvens” de Daniel e da “lamentação das tribos”
de Zacarias. Nenhuma outra passagem da Escritura faz isso.
Ademais, os dois discursos proféticos em que encontramos esses versículos mencionam a
“grande tribulação” (Mt 24.21 e Ap 7.14). A maioria dos comentaristas nota o paralelo entre
Mateus 24.6-11 e os primeiros quatro selos em Apocalipse 6.1-8. As duas profecias são, de algum modo,
associadas ao templo de Deus (Mt 24.1-3,15; Ap 11.1,2). Na verdade, devemos observar que a versão de
Lucas do ensino do Senhor parece consistir na fonte da linguagem de João em Apocalipse 11 (repare em
especial nas porções grifadas):
Cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações; e, até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém
será pisada por eles. (Lc 21.24)
Mas deixa de parte o átrio exterior do santuário e não o meças, porque foi ele dado aos gentios; estes, por quarenta e dois meses,
calcarão aos pés a cidade santa. (Ap 11.2)
O Evangelho de João não contém o sermão do monte das Oliveiras, encontrado nos outros três
evangelhos, talvez porque João cubra o mesmo material em outra obra, o Apocalipse.
Ora, digno de nota para o que desejamos ressaltar é o seguinte: as duas profecias também
versam sobre acontecimentos a curto prazo. Já demonstrei que João insiste: suas profecias no Apocalipse
“devem acontecer em breve” (Ap 1.1; 22.6), “pois o tempo está próximo” (Ap 1.3; 22.10). Em Mateus, o
sermão do monte das Oliveiras é antecedido pela denúncia de Cristo contra o templo (Mt 23.38) e pela
menção dos discípulos à beleza do templo (24.1). Jesus responde à admiração deles dizendo: “Não
vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada”
(24.2), ao que os discípulos replicam: “Dize-nos quando sucederão estas coisas” (24.3). Após lhes
conceder os sinais precursores, por último, ele lhes responde a pergunta: “Em verdade vos digo que não
passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (24.34). Isso combina muito bem com a afirmação de
João: essas coisas “em breve devem acontecer”. Sabemos pela história que esse mesmo templo foi
destruído em 70 d.C., apenas quarenta anos depois de Jesus ter falado.

Duas objeções populares a essa interpretação
Antes de continuar, devo interagir com as objeções comuns ao meu argumento a favor da perspectiva de
curto prazo para o desenrolar do tema do Apocalipse.

O problema do “tempo de Deus”
Alguns respondem às evidências acima argumentando que “João fala do tempo de Deus, e não do tempo
do homem”. Quase invariavelmente, os contestadores que apresentam esse ponto de vista citam
2 Pedro 3.8:
Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia.
Mas há, no mínimo, dois problemas que enfraquecem essa objeção.
Primeiro, Pedro está falando sobre Deus, enquanto João está dando direções aos homens.
Pedro faz uma afirmação teológica a respeito de Deus e da percepção de tempo dele; João apresenta uma
diretiva histórica aos homens com respeito às suas tribulações que estão se desdobrando. Não podemos
confundir verdades teológicas a respeito de Deus com orientações históricas aos homens.
Segundo, Pedro lida expressamente com a objeção de que certas profecias falharam por ainda
não terem ocorrido:
Tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias
paixões e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como
desde o princípio da criação. (2Pe 3.3,4)
Pedro lida com a lentidão do juízo divino. João, porém, avisando aos cristãos sofredores (entre os quais
ele se inclui, Ap 1.9) sobre o que eles devem esperar. E declara de forma dogmática, repetida e variada,
que suas profecias “devem acontecer em breve” porque “o tempo está próximo”.

Uma leitura errada da afirmação de João
Outros reclamam que “a interpretação de 70 d.C. de Apocalipse 1.7 não leva em conta a afirmação de
João de que ‘todo olho o verá’”. O futurista objeta que essa frase requer uma ocorrência global que será
visivelmente testemunhada por todos os habitantes do planeta, em vez de um acontecimento mais
localizado e testemunhado de modo direto só pelos presentes na área. Dois problemas invalidam essa
objeção.
Primeiro, “todo olho o verá” significa apenas que o acontecimento será público, e não
escondido em um beco. A Bíblia usa muitas vezes “todo” ou “todos” em sentido limitado, longe do
caráter universal e global. Sem dúvida, “toda a congregação” de Israel (incluindo crianças, idosos e
enfermos?) não foi para a guerra (Js 22.12). Quem defende que o Israel rebelde pecou contra Deus
literalmente “em todo outeiro alto” e “debaixo de toda árvore frondosa” (Jr 2.20)? Ninguém acredita que
“toda a Judeia” (incluindo crianças, idosos e enfermos?), de modo literal, saiu para ouvir João Batista
(Mt 3.5). Eram absolutamente “todos os homens” do mundo que conheciam os coríntios como seguidores
de Cristo (2Co 3.2)?
Segundo, João qualifica a expressão “todo olho o verá” pela cláusula seguinte “até todos
quantos o traspassaram”. A palavra traduzida como “até” no grego (kai) pode ser entendida como
explicativa, assim traduzida: “todo olho o verá, isto é, todos quantos o traspassaram”.[12] Note: “todos
os que o traspassaram” estão mortos há mais de 1900 anos. Devemos nos lembrar do que Jesus disse ao
sumo sacerdote no século I: “Desde agora, vós vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-
poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26.64). Como observei acima, a interpretação futurista
destruiria o próprio propósito do tema de João: a punição dos judeus do século I que rejeitaram o
Messias e exigiram sua morte agonizante na cruz.

O cumprimento do acontecimento temático
Por nossa distância no tempo, na geografia, na cultura e nas circunstâncias, nós — cristãos ocidentais da
atualidade — não sentimos muitas vezes a gravidade da queda de Jerusalém em 70 d.C. O fato de João
caracterizá-la como uma vinda em julgamento de Cristo deveria nos alertar para seu significado na
história da redenção. Por que ele coloca essa matéria de uma forma tão impressionante?

O julgamento da população judia
Em Mateus 27.25, ouvimos a terrível maldição que os judeus do século I invocaram sobre si mesmos: “E
o povo todo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!”. E, logo depois, quando
Jesus se esforçou sob o peso da cruz, ele alertou as mulheres de Jerusalém que estavam chorando:
Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos
filhos! Porque dias virão em que se dirá: Bem-aventuradas as estéreis, que não geraram, nem amamentaram. Nesses dias, dirão
aos montes: Caí sobre nós! E aos outeiros: Cobri-nos! Porque, se em lenho verde fazem isto, que será no lenho seco? (Lc 23.28-
31)
A guerra judaica dizimou a população judaica em Israel. Ninguém pode ler os registros da testemunha
ocular do século I, o historiador Josefo (War, livros 4-7), sem se horrorizar com a fome, a carnificina e a
devastação generalizadas. Jerusalém foi destruída por Tito como uma catástrofe. Josefo escreveu: “Agora
os romanos incendiaram até as partes extremas da cidade, e as queimaram até o chão, e demoliram por
completo suas muralhas” (War 6.9.4). Do cerco final de Tito, somos informados: “A matança e a
destruição que se seguiram foram terríveis”.
Depois da guerra judaica, “o país estava em ruínas; suas cidades e vilas, outrora florescentes,
quase sem habitantes; cães e chacais rondavam pelas ruas e casas devastadas. Em Jerusalém, registrou-se
o perecimento de um milhão de pessoas, e cem mil foram levadas cativas para saciar os traficantes de
escravos do império”. A famosa arqueóloga Kathleen Kenyon comentou: “As escavações recentes
mostraram evidências impressionantes da destruição promovida por Tito. […] Na destruição dessas
construções, muralhas foram demolidas, pedras de pavimentação dilaceradas, e bueiros foram entupidos
com materiais seguramente datados da última parte do século pelas olarias”.[13]

O julgamento da religião judaica
Ainda mais horrível para os judeus devotos foi a devastação incomparável que sobreveio contra as suas
obrigações, esperanças e valores religiosos. A antiga e famosa “cidade santa” de Jerusalém jazia em
ruínas. Não causa espanto Jesus ter chorado por causa dela (Mt 23.37). Os exércitos romanos
saqueadores desmantelaram o templo de Deus pedra por pedra. Não surpreende o lamento de Jesus por
sua desolação (23.38). Josefo relatou:
Assim que o exército já não tinha mais nenhuma pessoa para matar ou saquear, porque não sobrou ninguém para ser objeto de sua
fúria (pois eles não teriam poupado ninguém, caso houvesse restado qualquer trabalho do tipo para ser executado), César deu
ordens para que demolissem, então, a cidade inteira e o templo, mas que deixassem tantas torres em pé quantas fossem da maior
eminência; isto é, as torres de Phasaelus, e Hippicus, e Mariamne, e toda a muralha anexa à cidade pelo lado oeste. A muralha foi
poupada a fim de poder conter um acampamento dos remanescentes no pelotão; assim foram as torres também poupadas, a fim de
demonstrar para a posteridade que tipo de cidade era, bem fortificada, e subjugada pela bravura romana; mas, quanto a todo o resto
da muralha, ela foi tão inteiramente deitada ao nível do chão por aqueles que a cavaram em seus fundamentos, que não restou nada
para tornar crível aos que se dirigiam até lá que ela havia sido habitada algum dia. Esse foi o fim de Jerusalém pela insanidade dos
seguidores de inovações; uma cidade, de outro modo, de grande magnificência e de enorme fama em toda a humanidade (War
7.1.1).
Essa destruição significa que a adoração religiosa de Israel, centrada no sistema de sacrifícios no templo
central da cidade santa, tornara-se impraticável. Os judeus jamais adorariam de novo do modo ordenado
por Deus em sua Palavra. Mesmo hoje — dezenove séculos depois — Israel permanece sem o templo e
seus sacrifícios. Como o autor de Hebreus escreveu na metade da década de 60 do século I: “Quando ele
diz Nova [aliança], torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido está
prestes a desaparecer” (Hb 8.13). Ela desapareceu em 70 d.C.
João declarou com especificidade que escreve uma profecia sobre acontecimentos que “devem
acontecer em breve” (Ap 1.1; 22.6), pois “o tempo está próximo” (Ap 1.3; 22.10). Como consequência, o
intérprete cauteloso buscará acontecimentos no século I que possam cumprir essas expectativas
impressionantes. Uma vez que Jesus e diversos escritores do Novo Testamento profetizaram o juízo
divino contra o Israel do século I e seu templo (p. ex., Mt 8.11,12; 21.33-45; 22.1-7; 23.1,24.34;
Lc 19.41-44; 21.20-22; 23.28-31), e pelo fato de esse acontecimento encerrar de uma vez por todas a
antiga aliança (Hb 8.7-13; 12.22-29), e devastar de tal maneira o povo, a cultura e a religião de Israel
(Josefo, War), estou convencido de que o Apocalipse versa sobre a era da guerra judaica contra Roma.
De fato, não vejo como essa conclusão pode ser evitada quando se consideram as perspectivas exegética,
teológica e histórica.

F LUXO TEMÁTICO DO JULGAMENTO
Agora, veremos como João desenvolveu o tema do julgamento contra Israel. O Apocalipse é um drama
vívido e cativante escrito em linguagem ousada, expressiva e dinâmica. Obviamente, não podemos
fornecer aqui um comentário sobre cada aspecto, mas eu gostaria de demonstrar seu fluxo temático com
pinceladas amplas, observando alguns de seus aspectos principais.
Enquanto começamos a destacar o drama em desdobramento do Apocalipse, devemos sempre ter
em mente que esse é o livro com mais sabores do Antigo Testamento de todo o Novo Testamento. Os
gramáticos notam sua gramática peculiar, fortemente influenciada pelas estruturas de pensamento
hebraicas que quebram as regras da gramática grega. Também vemos centenas de alusões a versículos,
imagens e temas do Antigo Testamento. Nós até encontramos nomes e lugares em hebraico, e alguns deles
são traduzidos da forma hebraica para uma mais helenizada (“Abadom” se torna “Apoliom”, Ap 9.11), ou
são explicados como formas hebraicas (“Ar-magedom”, Ap 16.16). O caráter hebraico do Apocalipse
será muito importante enquanto traçamos seu desenvolvimento surpreendente.

O relacionamento judicial no Apocalipse
Descobriremos que o Apocalipse apresenta duas mulheres importantes para sua história. Antes de eu
mostrar seu relacionamento, quero lembrar ao leitor que, no Antigo Testamento, Israel aparece como a
esposa de Deus. Duas passagens (dentre muitas) demonstram isso de modo cabal:
Porque o teu Criador é o teu marido; o SENHOR dos Exércitos é o seu nome; e o Santo de Israel é o teu Redentor; ele é chamado o
Deus de toda a terra. (Is 54.5)
Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança
que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança,
não obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. (Jr 31.31,32)
Portanto, quando Israel é infiel a Deus, as Escrituras consideram esse ato prostituição ou adultério
espiritual. Os profetas do exílio acusam Israel em especial desses pecados:
Sucedeu que, pelo ruidoso da sua prostituição, poluiu ela a terra; porque adulterou, adorando pedras e árvores. (Jr 3.9)
Como, vendo isto, te perdoaria? Teus filhos me deixam a mim e juram pelos que não são deuses; depois de eu os ter fartado,
adulteraram e em casa de meretrizes se ajuntaram em bandos. (Jr 5.7)
Porque adulteraram, e nas suas mãos há culpa de sangue; com seus ídolos adulteraram, e até os seus filhos, que me geraram,
ofereceram a eles para serem consumidos pelo fogo. (Ez 23.37)

O relacionamento pactual entre Israel e Deus é crucial para entender a ação legal e os julgamentos
criminais no Apocalipse, como veremos.

O argumento judicial no Apocalipse
É interessante a proeminência da palavra “trono” no Apocalipse. Ela ocorre em 18 dos 22 capítulos do
Apocalipse. De fato, a palavra aparece 62 vezes no Novo Testamento; delas, 47 no Apocalipse. Por
conseguinte, não podemos perder de vista a forte ênfase no elemento legal-judicial de João.
A primeira visão do enredo principal do Apocalipse tem início com Deus assentado em um
trono judicial.
Imediatamente, eu me achei em espírito, e eis armado no céu um trono, e, no trono, alguém sentado […] Do trono saem
relâmpagos, vozes e trovões, e, diante do trono, ardem sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus. (Ap 4.2,5)
Em outros pontos do Apocalipse, ouvimos a linguagem judicial com referências a “julgamento”, “ira”,
“testemunhas”, e assim por diante. Mas por quê? O que está em julgamento?

O decreto judicial do Apocalipse
Seguindo-se à apresentação que João faz de Deus em seu trono, testemunhamos uma transação
interessante:
Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos. Vi,
também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos? Ora, nem no céu,
nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele; e eu chorava muito, porque
ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele. Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o
Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos. (Ap 5.1-5)
O que é esse livro exigido pelo trono judicial de Deus?
Uma das mulheres proeminentes de Apocalipse aparece repetidas vezes nos capítulos seguintes:
a meretriz. Então, no final do livro, outra mulher importante entra em cena: a noiva. O que tudo isso
significa?
Antes que eu possa conduzir a questão ao foco apropriado, precisamos ter em mente algumas
coisas importantes: João nos informa que as profecias do seu livro “devem acontecer em breve” (Ap 1.1;
22.6), pois “o tempo está próximo” (Ap 1.3; 22.10); seu tema foca no juízo contra os que o
“traspassaram” (os judeus do séc. I; Ap 1.7); ele apresenta sua mensagem com um forte e raro sabor de
Antigo Testamento; e duas mulheres desempenham um papel proeminente no drama.
Com essas informações diante de nós, acredito que o livro judicial é o decreto de divórcio de
Deus contra sua esposa infiel Israel. As Escrituras falam de um “certificado de divórcio” em diversas
ocasiões (Dt 24.1,3; Is 50.1; Mt 5.31; 19.7; Mc 10.4). No Apocalipse, João parece pegar e desenvolver a
imagem do Antigo Testamento da prostituição de Israel e do divórcio de Deus contra ela por isso.
Jeremias 3 e Ezequiel 2-3 são particularmente influentes com relação a esse objetivo.
Note em especial:
Quando, por causa de tudo isto, por ter cometido adultério, eu despedi a pérfida Israel e lhe dei carta de divórcio, vi que a falsa
Judá, sua irmã, não temeu; mas ela mesma se foi e se deu à prostituição. (Jr 3.8)
(No capítulo 4, exporei as evidências de que Jerusalém é a meretriz do Apocalipse; por enquanto, apenas
o presumo.)
As interessantes circunstâncias históricas dos dias de Jeremias e de João são bem parecidas.
Vejamos como João delineia o imaginário a partir da experiência de Jeremias. João descreve a meretriz
no Apocalipse:
Achava-se a mulher vestida de púrpura e de escarlata, adornada de ouro, de pedras preciosas e de pérolas, tendo na mão um cálice
de ouro transbordante de abominações e com as imundícias da sua prostituição. Na sua fronte, achava-se escrito um nome, um
mistério: BABILÔNIA, A GRANDE , A MÃE DAS MERET RIZES E DAS ABOMINAÇÕES DA T ERRA. (Ap 17.4,5)
Agora, observe os paralelos entre Jeremias e João.
Jeremias testemunha a destruição do primeiro templo pela Babilônia enquanto chama Israel de
“prostituta”; João está para testemunhar a destruição do segundo templo enquanto chama Israel de
“Babilônia, a Grande, a Mãe das Meretrizes” (Ap 17.5).
Jeremias até denuncia Israel por meio da declaração: “Tu tens a fronte de prostituta” (Jr 3.3),
enquanto João enfatiza a fronte da prostituta em sua descrição: “Na sua fronte, achava-se escrito um
nome, um mistério: BABILÔNIA, A GRANDE, A MÃE DAS MERETRIZES E DAS ABOMINAÇÕES DA TERRA” (Ap 17.5).
Jeremias também protesta contra a impureza abominável de Jerusalém:
Tenho visto as tuas abominações sobre os outeiros e no campo, a saber, os teus adultérios, os teus rinchos e a luxúria da tua
prostituição. Ai de ti, Jerusalém! Até quando ainda não te purificarás? (Jr 13.27)
E João reitera que a meretriz tem um cálice “transbordante de abominações e com as imundícias da sua
prostituição” (Ap 17.4).
Agora, considere Ezequiel a fonte particular que João usa para a visão do trono de Deus e o
livro. Ezequiel vê Deus em seu trono em 1.26, como João em Apocalipse 5.2. A visão do trono de
Ezequiel até menciona o esplendor do arco-íris (Ez 1.28; cp. Ap 4.3), os quatro seres viventes (Ez 1.5;
Ap 4.6) e o pavimento cristalino (Ez 1.22; Ap 4.6). Em seguida, Ezequiel vê uma mão se estendendo do
trono e segurando um livro todo escrito na frente e no verso:
Então, vi, e eis que certa mão se estendia para mim, e nela se achava o rolo de um livro. Estendeu-o diante de mim, e estava escrito
por dentro e por fora; nele, estavam escritas lamentações, suspiros e ais. Ainda me disse: Filho do homem, come o que achares;
come este rolo, vai e fala à casa de Israel. (Ez 2.9-3.1)
Isso lembra muito a visão de João:
Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos. (Ap
5.1)
Então, Ezequiel 2-3 fala da devastação contra a Jerusalém do Antigo Testamento (Ezequiel até chama
Israel de prostituta: 16.15-17,20,22,25,26,28-31,33-36,41). As seções principais de Apocalipse 6-19
também mencionam a devastação de Jerusalém (como eu mostrarei).
Ademais, os sete selos no livro de João (Ap 5.1) parecem refletir o imaginário pactual do
Antigo Testamento. Em Levítico 26, Israel recebe a promessa de vingança séptupla se romper a aliança
de Deus:
Se ainda assim com isto não me ouvirdes, tornarei a castigar-vos sete vezes mais por causa dos vossos pecados… E, se andardes
contrariamente para comigo e não me quiserdes ouvir, trarei sobre vós pragas sete vezes mais, segundo os vossos pecados […] eu
também serei contrário a vós outros e eu mesmo vos ferirei sete vezes mais por causa dos vossos pecados […] eu também, com
furor, serei contrário a vós outros e vos castigarei sete vezes mais por causa dos vossos pecados. (Lv 26.18,21,24,28)
Estou convencido de que João retrata o juízo contra Jerusalém em 70 d.C. sob o juízo sétuplo de Deus,
não apenas com o livro selado com sete selos, mas também com as sete trombetas e as sete taças. Ele
vislumbra o divórcio e a punição de Israel com toda a dramaticidade como a esposa em aliança com
Deus.

O julgamento no Apocalipse
Mas o que é o julgamento séptuplo contra Jerusalém/Israel? Após o decreto do divórcio de Deus contra
Israel por adultério (Ap 4-5), julgamentos começam a cair em massa sobre ela em Apocalipse 6-19 (com
algumas interrupções e interlúdios).
Na lei do Antigo Testamento, o adultério era punido com morte:
Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, será morto o adúltero e a adúltera. (Lv 20.10)

E o método da pena capital no Antigo Testamento era pelo apedrejamento:


Então, a levarão à porta da casa de seu pai, e os homens de sua cidade a apedrejarão até que morra, pois fez loucura em Israel,
prostituindo-se na casa de seu pai; assim, eliminarás o mal do meio de ti. (Dt 22.21)
Em Apocalipse 16.21, João retrata a destruição de “Babilônia” (Jerusalém) por apedrejamento:
Também desabou do céu sobre os homens grande saraivada, com pedras que pesavam cerca de um talento; e, por causa do flagelo
da chuva de pedras, os homens blasfemaram de Deus, porquanto o seu flagelo era sobremodo grande. (Ap 16.21)
No capítulo 5, vou mostrar correspondências notórias entre esse versículo e o registro histórico do cerco
de Jerusalém.
O imaginário do julgamento em Apocalipse, então, mostra Deus assentado em seu trono
judiciário e se divorciando de Israel, e na sequência lhe aplicando a pena capital de apedrejamento por
adultério.

O resultado judicial no Apocalipse
Havendo Deus legalmente expulsado sua esposa prostituta, o que vemos tomando o lugar dela? Uma nova
noiva:
Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu
esposo. (Ap 21.2)
Agora, considere rapidamente o fluxo até esse ponto: em Apocalipse 4, Deus está assentado em seu trono
de juiz. Em Apocalipse 5, ele decreta uma ação de divórcio selada sete vezes. Em Apocalipse 6-19 (com
algumas interrupções), ele executa juízos contra a meretriz, apedrejando-a até a morte. Então, em
Apocalipse 19, João começa a nos preparar para a aparição da nova noiva:
Então, me falou o anjo: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E acrescentou: São
estas as verdadeiras palavras de Deus. (Ap 19.9)
Mais tarde, a noiva desce do céu. Em Apocalipse 21.2, ela é chamada de “Nova Jerusalém”, deixando
implícita a tomada do lugar da velha Jerusalém. O contraste da velha Jerusalém histórica com a nova
Jerusalém celestial aparece em outros pontos do Novo Testamento.
Ora, Agar é o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual, que está em escravidão com seus filhos. Mas a Jerusalém
lá de cima é livre, a qual é nossa mãe. (Gl 4.25,26)
Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos. (Hb 12.22)
Assim, a Jerusalém celestial de João é uma imagem do cristianismo. A igreja cristã substitui a igreja
judaica, a fé cristã substitui a fé judaica no plano divino de redenção. Como consequência, na conclusão
do Apocalipse, não vemos Deus sozinho sem esposa, sem um povo em aliança. Em vez disso, vemos que
uma nova noiva lhe foi preparada.

CONCLUSÃO
O Apocalipse explica, justifica e notifica a remoção de Israel/Jerusalém. Devemos entender os
acontecimentos do ano 70 d.C. em termos do desenrolar da história da redenção com a primeira vinda de
Cristo. Na igreja apostólica do século I, alcança-se um momento crítico no tratamento de Deus com o
homem. Mais cedo, no ministério terreno de Jesus, Israel foi preparado para a mudança.
Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Ao passo
que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. (Mt 8.11,12)
Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. Todo o que cair
sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó. (Mt 21.43,44)
João faz essa apresentação mediante um drama forense.


3. A besta e sua fúria

Nos dois primeiros capítulos, eu lhes apresentei as chaves necessárias para destrancar os mistérios do
Apocalipse. As três chaves principais para o Apocalipse são: 1) As declarações expressas de João de
que os acontecimentos profetizados se encontram no futuro próximo e, portanto, devem ocorrer no
século I. 2) As declarações e ilustrações repetidas da natureza simbólica do Apocalipse, desencorajando
a abordagem literalista. 3) Sua declaração rápida do tema do Apocalipse, focando no juízo de Cristo
contra os judeus do século I. Juntando tudo isso, apresentei uma chave consequente: 4) O fluxo literário
da ação no Apocalipse, revelando o decreto de divórcio de Deus contra sua esposa infiel, por meio da
aplicação da punição capital, e de seu casamento com uma nova noiva, a igreja.
A fim de entender o Apocalipse em sentido preterista, e a fim de ver como essas chaves se
aplicam explorarei, neste capítulo e no próximo, duas personagens perversas e notáveis na história: a
besta de sete cabeças e Babilônia, a meretriz.

INTRODUÇÃO
Em Apocalipse 13, uma nova personagem entra em cena: a besta de sete cabeças.
Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de
blasfêmia. (Ap 13.1)[14]

Talvez nenhum outro aspecto do Apocalipse seja mais conhecido ou mais intrigante que a besta. Sem
dúvida, todo cristão adulto conhece o temível número “666”. Com certeza, muitas autoridades na história
da exegese propuseram soluções para a sua identidade. Infelizmente, a maioria dos candidatos resulta de
“exegese de jornal”, devido ao desejo do intérprete de tornar a besta relevante para o tempo do próprio
intérprete.
Contudo, acredito que a evidência clara e irresistível nos ajude a identificar com adequação a
besta quando usamos as chaves fornecidas por João. Começarei declarando sua identidade; em seguida,
elaborarei o argumento para apoiar minha identificação. Faço isso para que o leitor possa, com mais
facilidade, seguir e criticar minha apresentação enquanto ela se desdobra.
Antes de identificá-lo, devo destacar uma questão confusa a respeito da besta — uma questão
com que quase todos os comentaristas concordam: no Apocalipse, a besta transita entre uma identidade
genérica e uma específica. Isto é, a besta, às vezes, refere-se a uma entidade corporativa e, às vezes, a um
indivíduo. Por exemplo, o dispensacionalista Robert L. Thomas observa “a permutabilidade da cabeça
com a besta inteira — isto é, o rei com seu reino”.[15] Comentaristas da ala liberal e da conservadora
reconhecem esse fato. Isso se parece com o “corpo de Cristo”, que às vezes significa o corpo individual
de Jesus e, outras vezes, o conjunto da igreja.
Assim, quem é a besta? Em sentido corporativo, ela é o Império Romano; de modo mais
específico, ele é Nero César, a cabeça contemporânea. Que evidências me levam a essa conclusão?

O TEMPO DA BESTA
Ao identificar a besta, é essencial que os indicadores temporais de João sejam levados em consideração.
Como ressaltei no capítulo 1, João sem dúvida espera o cumprimento de suas profecias no tempo de sua
própria vida. Ele escreveu a um público contemporâneo sobre o que “Deus mostrou aos seus servos”. Ele
não escreveu algo para uma cápsula de tempo a ser aberta depois. E ele declarou em tom dogmático que
os acontecimentos contidos no que ele lhes “comunicou” “devem acontecer em breve”.
Considerando as circunstâncias do século I, João não espera que cada membro das sete igrejas
mantenha uma cópia do Apocalipse. Em vez disso, ele os conclama a ouvir com atenção àquele que
publicamente lê para eles (cp. Cl 4.16; 1Ts 5.27). De fato, ele propõe uma bênção para os que leem,
ouvem e guardam suas profecias — “pois o tempo está próximo” (Ap 1.3). Como consequência, a besta
deve ser uma figura do século I.
Essa observação temporal, sozinha, não prova que a besta é Nero ou o Império Romano.
Mas ela elimina 100% das suposições modernas pelos “especialistas em profecia” populares. Veremos
as várias linhas de evidências que apontam para essa direção.

A LOCALIZAÇÃO DA BESTA
O segundo passo para identificar a besta consiste em determinar sua localização geográfica. A besta
aparece primeiro em Apocalipse 13, mas, quando ela se alia à grande meretriz, João fica confuso.
O anjo, porém, me disse: Por que te admiraste? Dir-te-ei o mistério da mulher e da besta que tem as sete cabeças e os dez chifres
e que leva a mulher. (Ap 17.7)
Na interpretação do anjo, aprendemos que as sete cabeças da besta concedem uma pista sobre sua
identidade:
Aqui está o sentido, que tem sabedoria: as sete cabeças são sete montes, nos quais a mulher está sentada. (Ap 17.9)

Todos concordam que João escreveu o Apocalipse em algum momento no século I. Isso encerra a
identidade geográfica da besta como a famosa “cidade em sete colinas”, Roma.
João sublinha essa pista para nós ao observar que, ao surgir a besta pela primeira vez, ela
aparece no mar:
Vi emergir do mar uma besta. (Ap 13.1a)
Como sabemos que João escreveu sobre a destruição do templo em Israel, a besta, nós suporíamos,
surgiria do mar em um ponto de observação de Israel. Roma fica a noroeste de Israel atravessando o mar
Mediterrâneo. Por exemplo, Paulo viaja de Israel a Roma cruzando o mar Mediterrâneo: quando ele está
no tribunal em Israel, apela a César em Roma (At 25.11,21; 26.32).
Então, Agripa se dirigiu a Festo e disse: Este homem bem podia ser solto, se não tivesse apelado para César. Quando foi decidido
que navegássemos para a Itália, entregaram Paulo e alguns outros presos a um centurião chamado Júlio, da Coorte Imperial.
(At 26.32—27.1)
Ele navegou “costeando a Ásia” (27.2) até Chipre (27.4), Creta (27.7), Malta (28.1), e então para a
Itália, parando em Régio (28.13a) e Putéoli (28.13b), antes de prosseguir os últimos quilômetros por
terra até Roma (28.14).
A limitação temporal e as alusões geográficas apontam para Roma como a besta corporativa. No
entanto, há mais.

A AUTORIDADE DA BESTA
Agora, saímos dos indicadores temporais e geográficos para os políticos. A figura que João faz da
autoridade da besta se encaixa bem na identidade romana. João não apenas vê a besta com muitos
diademas e a visualiza com armas poderosas, mas nota em especial que Satanás lhe concede “grande
autoridade”:
Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes
de blasfêmia. A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu
poder, o seu trono e grande autoridade. (Ap 13.1,2)
João destaca seu grande poder político pela imagem dos “dez chifres” com “dez diademas”. Na
antiguidade, chifres animais simbolizavam autoridade política e força militar:
Deus tirou do Egito a Israel, cujas forças [chifres] são como as do boi selvagem; consumirá as nações, seus inimigos, e
quebrará seus ossos, e, com as suas setas, os atravessará. (Nm 24.8)
Ele tem a imponência do primogênito do seu touro, e as suas pontas são como as de um boi selvagem; com elas rechaçará todos
os povos até às extremidades da terra. Tais, pois, as miríades de Efraim, e tais, os milhares de Manassés. (Dt 33.17)
Visto que, com o lado e com o ombro, dais empurrões e, com os chifres, impelis as fracas até as espalhardes fora. (Ez 34.21)
Depois disto, eu continuava olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível, espantoso e sobremodo forte, o qual
tinha grandes dentes de ferro; ele devorava, e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais
que apareceram antes dele e tinha dez chifres. (Dn 7.7)
As pessoas na visão que olham a besta estão perplexas pelo seu poder: “Quem é semelhante à besta?
Quem pode pelejar contra ela?” (Ap 13.4b).
De fato,
Foi-lhe dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e
nação. (Ap 13.7)
Todos nós estamos cientes do domínio e do poder de Roma no século I. Josefo fala dos romanos como
“os senhores da terra habitável” (War 4.3.10), “os governantes do mundo inteiro” (Ant. 15.11.1). Ele
chama Roma de “a maior de todas as cidades” (War 4.11.5). Fílon, um filósofo judeu do século I, fala do
imperador de Roma “assumindo a soberania sobre tudo” (Embassy 8). Ele até escreveu a respeito da
“soberania [de Roma] sobre as porções mais numerosas, valiosas e importantes do mundo habitável, o
que, na verdade, alguém poderia com correção chamar de todo o mundo” (Embassy 10). A evidência a
favor de Roma está aumentando.

A CRONOLOGIA DA BESTA
O anjo intérprete de João apresenta ainda mais evidências nessa direção. Após afirmar que as sete
cabeças representam sete montanhas, acrescenta que elas também representam sete reis:
Aqui está o sentido, que tem sabedoria: as sete cabeças são sete montes, nos quais a mulher está sentada. São também sete reis,
dos quais caíram cinco, um existe, e o outro ainda não chegou; e, quando chegar, tem de durar pouco. (Ap 17.9,10)
Isso se torna muito útil em identificar o imperador particular que governava Roma quando João escreveu.
Agora, o anjo associa a série de sete reis a esse império famoso. Revela-se, então, que os cinco
reis caídos representam os primeiros cinco imperadores de Roma: Júlio, Augusto, Tibério, Calígula e
Cláudio (para a sua enumeração, consulte Lives of the Twelve Caesars, do biógrafo Suetônio do séc. II).
Eles já estavam mortos quando João escreveu; portanto, já “caíram”. O sexto rei está reinando no
momento, pois “um existe”. Esse é Nero César. O anjo então explica para João sobre o sétimo rei: ele
“ainda não chegou; e, quando chegar, tem de durar pouco”. O sétimo imperador de Roma foi Galba, que
reinou de junho de 68 a janeiro de 69 — apenas seis meses, o imperador de reinado mais curto até essa
época (o reinado de Nero durou mais de treze anos).
Assim, não só a besta retrata o Império Romano em sentido corporativo, mas, de forma
específica, Nero, o sexto imperador. E Nero não foi apenas o primeiro imperador a perseguir a igreja
cristã, mas também a autoridade que comissionou o general romano Vespasiano a atacar e destruir
Jerusalém (Josefo, War, 3.1.2). Ele se encaixa no drama e no tema de Apocalipse com perfeição.
Todavia, existem mais evidências!

O CARÁTER DA BESTA
João chama a besta por um termo derrogatório que reflete seu caráter maligno: “besta” (Ap 13.1). A
imagem da “besta” com certeza indica que ele possuía um caráter mau. João apresenta essa besta como o
composto de três carnívoros amedrontadores:
A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. (Ap 13.2a)

Esses animais seriam aterrorizantes para qualquer conhecedor das arenas romanas onde homens e
mulheres eram cruelmente “jogados aos leões” e outras feras.
Sem dúvida, Nero possuía um caráter imoral e bestial. Ele matou a própria mãe, o irmão, a tia e
a esposa — além de muitos cidadãos romanos eminentes.[16] Ele era conhecido por amarrar escravos
em postes, vestir-se na pele de um leão e atacá-los e estuprá-los (Suetônio, Nero, 29). Era temido e
odiado pelo próprio povo. A leitura da literatura antiga demonstra que Nero “era de uma brutalidade
cruel e irrestrita”.[17]
Tácito, o famoso historiador romano do século II, fala da “natureza cruel” de Nero que
“condenou à morte tantos homens inocentes” (Hist. 4.7,8). O naturalista romano Plínio, o Velho, descreve
Nero como “o destruidor da raça humana” e “o veneno do mundo” (Nat. Hist. 7.45; 22.92). O satirista
romano Juvenal lamenta a “tirania cruel e sangrenta de Nero” (Sat. 7.225). Em outro lugar, ele chama
Nero de “tirano cruel” (Sat. 10.306). No século I, Apolônio de Tiana até chama Nero de “besta”
(registrado em Filostrato, Vit. 4.38).
Não só a besta é imoral e selvagem, mas é também presunçosamente blasfema:
Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses; e abriu a boca em
blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu [...] e adorá-la-ão todos
os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação
do mundo. (Ap 13.5,6,8)
Nero cunhou moedas com uma imagem da própria cabeça lançando raios do sol. Com essa manobra, ele
intencionalmente imitou o poderoso deus sol romano Apolo. Uma inscrição em Atenas o louva como “o
todo-poderoso Nero César Sebasto, o novo Apolo”[18].
Em 66 d.C., Tirídates, rei da Armênia, aproximou-se de Nero em adoração, de acordo com o
historiador romano Dião Cássio, do século II:
De fato, os procedimentos da conferência não foram limitados a meras conversas, mas uma plataforma elevada havia sido erigida
na qual encontravam-se imagens de Nero e, na presença de armênios, partos e romanos, Tirídates aproximou-se e prestou-lhes
reverência; então, após sacrificar a elas e chamá-las por nomes laudatórios, ele tirou o diadema de sua cabeça e colocou-o sobre
elas. Tirídates publicamente prostrou-se diante de Nero, que estava assentado sobre a tribuna no fórum: “Mestre, eu sou o
descendente de Arsaces, irmão dos reis Vologaesus e Pacorus, e teu escravo. E vim a ti, meu deus, para adorar-te como faço com
Mitra. A sina que traçaste para mim será minha; pois tu és minha sorte e meu destino”.[19]

Com certeza Nero se adequa ao caráter de uma “besta”.



O NÚMERO DA BESTA
Sem dúvida, o aspecto mais conhecido do imaginário da besta no Apocalipse é o número “666”:
Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é
seiscentos e sessenta e seis. (Ap 13.8)

O que esse número significa? E como ele nos ajuda a identificar a besta do Apocalipse?
Antes de mostrar como esse número aponta para Nero, devo comentar sobre o número em si
encontrado no Apocalipse. Alguns populistas modernos tentam encontrar a besta no mundo
contemporâneo mediante a procura da série de três números seis em conjunto. Alguns anos atrás, uma
teoria sugeriu que o presidente Reagan era a besta porque cada um dos seus três nomes era composto de
seis letras: Ronald Wilson Reagan. Alguns propõem que ele consista em um código de computador
baseado nesses três dígitos. Outros declaram que refere-se ao Mark VI Personal Identity Verifier usado
em leituras biométricas da mão humana. Ou os códigos de barra, que começam com o código para “6”,
têm uma barra central representando o “6”, e finalizam o código de barras com as linhas representando o
“6” de novo.
Esses palpites perdem a leitura exata do Apocalipse. João não afirma que essa marca envolve
uma série de três seis. No grego de Apocalipse 13.18, o número realmente é “seiscentos e sessenta e
seis”, e não “seis seis seis”. Várias traduções deixam isso claro ao escrever o valor no formato
alfabético, em vez de em algarismos (Almeida Revista e Atualizada, Nova Versão Internacional, Almeida
Século 21, Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Tradução Brasileira, Nova Almeida Atualizada). Uma
série de seis não tem nada a ver com o número da besta. Na verdade, o número é o valor total: seiscentos
e sessenta e seis, uma soma aritmética específica.
Enquanto tentamos decifrar o significado de João, devemos ter em mente que o sistema numérico
arábico, tão conhecido por nós, não fazia parte do mundo antigo. Ele foi, na verdade, importado pela
cultura ocidental no século XII. Antes dessa época, os alfabetos tinham duas funções: não eram apenas
alfabetos, mas sistemas de enumeração (considere os números romanos que você conhece). Muitos
dicionários bíblicos observam essa prática em relação às línguas bíblicas antigas na palavra principal:
“Números, numerais”.
Continuando nossa busca pela identidade do que está escondido por trás do valor do número
“seiscentos e sessenta e seis”, devemos nos lembrar de que João era judeu, e ele escrevia sobre o juízo
divino contra os judeus. Em adição, devemos reconhecer que o Apocalipse é o livro mais hebraico do
Novo Testamento, contendo marcas de imagens visuais traçadas no Antigo Testamento, com centenas de
referências literárias a versículos do Antigo Testamento, e uma forma hebraica de grego diferente de
qualquer outro registro do Novo Testamento.
Se fizermos a suposição razoável de que o hebraico seja a língua para procurarmos o
significado do número da besta, chegaremos à mesma conclusão que outras linhas de evidência sugerem:
a besta é Nero César.[20] A soletração do seu nome em hebraico do século I era nrwn qsr (pronunciado:
“Neron Kesar”). Alguns arqueólogos documentaram esse modo de soletrar em hebraico, que apresenta o
valor exato “seiscentos e sessenta e seis”.[21] O léxico de Jastrow do Talmude contém essa mesma
escrita.[22] A forma hebraica do nome de Nero é escrita: Nrwn Qsr. A valoração numérica desse modo
de soletrar é a seguinte:
n = 50 r = 200 w = 6 n = 50 q = 100 s = 60 r = 200
A soma dessas letras resulta no número 666.
Muitos acadêmicos bíblicos reconhecem esse nome como “a solução mais provável” do
problema.[23] E por que não? O nome “Nero César” não apenas se encaixa em sentido numérico, como a
pessoa de Nero se adequa no contexto do drama de João.
Mas agora: e quanto à besta impondo sua marca aos homens?
A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão
direita ou sobre a fronte, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número
do seu nome. (Ap 13.16,17)
Ao responder essa pergunta, devemos recordar a natureza simbólica do Apocalipse e as imagens
paralelas em seu interior que parecem se basear em uma prática do Antigo Testamento.
Em primeiro lugar, marcar homens a serviço da besta não é um sinal mais literal que
marcar os servos do Cordeiro na próxima cena:
Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o
nome de seu Pai. (Ap 14.1)

Em segundo lugar, essa marca parece uma metáfora sobre o domínio e o controle exercidos pela fonte da
marca. Em Apocalipse 13, ninguém pode comprar nem vender sem a marca. Isto é, todos os súditos do
Império Romano estão sob o domínio do imperador, que, na realidade, detém o sustento deles em suas
mãos.
Em terceiro lugar, na exigência da besta por adoração (Ap 13.4,8), assim demonstrando suas
presunções divinas, João apresenta essa alegação pretenciosa de soberania contra o pano de fundo de
Antigo Testamento. Esse livro bastante orientado pelo Antigo Testamento usa a marca na mão direita e na
fronte com imagem oposta à que Deus exigiu de seu povo a respeito da lei por ele concedida:
Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração. […] Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal
entre os olhos. (Dt 6.6,8)
Isso é sublinhado pelo fato descrito antes: o versículo seguinte apresenta os servos do Cordeiro com uma
marca na testa.
Em quarto lugar, qualquer marca dos dias de hoje contraria o significado do curto prazo dado de
João (Ap 1.1,3; 22.6,10), a relevância para os cristãos perseguidos do século I (Ap 1.9; 3.10; 6.9-11;
12.4-6,17), o tema apresentando o juízo contra Israel (Ap 1.7) e a conexão da besta com a era dos
primeiros sete imperadores de Roma (Ap 17.9,10). Logo, a procura da marca nos dias de hoje contraria o
contexto.
Como consequência, com esse imaginário da marca João está ensinando que a besta (Nero)
desempenhará suas pretensões divinas, agindo como soberano absoluto sobre a vida e o destino dos
súditos. Ela não imporá uma marca mais literal em seus súditos do que Cristo nos seus. Isso é imaginário
fantasioso, não realidade literal.

A AÇÃO DA BESTA
Enquanto continuamos desenvolvendo a imagem de João acerca da besta, descobrimos evidências
adicionais a respeito de Nero vindo ao foco. Lê-se em Apocalipse 13.5,7:
Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois meses. […] Foi-lhe dado,
também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação.
Como ficamos sabendo pela leitura de Atos, o cristianismo não foi molestado pelo Império Romano
durante seus primeiros anos. De fato, no final de Atos, Paulo chega a apelar a César para se proteger da
perseguição judaica (At 25.11,12). Isso aconteceu mesmo nos primeiros dias do reinado de Nero. As
coisas mudaram muito, no entanto, quando Nero lançou ataques aos cristãos na tentativa de desviar as
suspeitas de ser ele o responsável pelo incêndio destrutivo e mortal que destruiu grande parte de Roma
em 64 d.C.
O historiador romano Tácito (que nasceu no reinado de Nero) registrou a horrível perseguição
que envolveu os cristãos em Roma:
Nero infligiu punições inauditas nos que, odiados por seus crimes abomináveis, eram geralmente chamados de cristãos
(Ann. 15.44).
Ele até fala do “imenso número” de cristãos assassinados por Nero. O cristão Clemente de Roma, que
viveu nesse tempo, menciona “uma vasta multidão dos eleitos” que morreu sob Nero (1Clem 6). Sabemos
que Pedro e Paulo foram executados nesse período.
Logo, a perseguição de Nero contra os cristãos — incluindo alguns dos maiores líderes —
representou a “peleja” travada pela besta contra os santos a fim de vencê-los (Ap 13.7). Mas como
deveríamos entender o período de “quarenta e dois meses” mencionados por João (Ap 13.5)?
Sabemos, pelos registros históricos, que o primeiro ataque de Nero contra os cristãos em Roma
ocorreu em novembro de 64 d.C. Nero morreu no começo de junho de 68. Johann Lorenz von Mosheim, o
grande historiador da igreja, resumiu esse período com estas palavras:
Principalmente, na série daqueles imperadores, dos quais a igreja se recorda com horror como seus perseguidores, destaca-se
Nero, um príncipe cuja conduta para com os cristãos não admite atenuação, mas foi, até o último grau, desumana e caótica. A
horrenda perseguição que se realizou por ordem desse tirano começou em Roma perto em meados de novembro do ano 64 de
nosso Senhor… Essa horrenda perseguição só cessou com a morte de Nero. O império, como se sabe bem, não foi libertado da
tirania desse monstro até o ano 68, quando ele deu fim à própria vida.[24]

Assim, temos o período em que a besta pelejou contra os santos por quase 42 meses: de novembro de 64
até junho de 68. O encaixe é relevante e notável.

A RESSURREIÇÃO DA BESTA
Chego agora à parte da revelação que, muitos acreditam, coloca um obstáculo insuperável à interpretação
de Nero/Roma como a besta do século I. Ironicamente, no entanto, essa revelação confirma a visão. A
revelação que tenho em mente é a que envolve a morte e a ressurreição da besta:
Então, vi uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo
a besta. (Ap 13.3)
Como posso explicar esse conceito sem declarar que Nero morreu e foi ressuscitado dos mortos? É essa
a objeção fatal da posição de Nero/Roma?
Para interpretar com correção essa visão, devemos começar recordando-nos da identidade dupla
da besta: ela pode transitar entre Roma (em sentido corporativo) e o governante de Roma (em sentido
individual). Isto é, a besta representa os dois: o Império Romano como uma entidade política e Nero
César como líder dessa entidade.[25] Com isso em mente, notemos que o significado transita na visão, o
que permite uma correspondência fascinante com a história do século I.
Nero governou Roma de 54 d.C. até a sua morte em 9 de junho de 68 d.C. Nas últimas semanas
de vida, as destrutivas guerras civis romanas eclodiram. Em desespero, Nero suicidou-se quando as
forças imperiais, sob a liderança do general Galba, estavam prestes a capturá-lo. O império foi lançado
em convulsões devastadoras em sentido político e social. O historiador romano Tácito lamentou esse
período negro na vida de Roma no século I:
A história em que estou entrando é de um período sobejo em desastres, terrível em batalhas, destroçado por conflitos civis, horrível
mesmo na paz. Quatro imperadores caíram sob a espada; houve três guerras civis, mais guerras internacionais e, de modo geral, as
duas coisas ao mesmo tempo. Houve sucesso no leste e infortúnio no oeste. O Ilírico foi transtornado, as províncias da Gália
vacilaram, a Bretanha se rendeu e desistiu de imediato. Os sármatas e os suevos se levantaram contra nós; os dácios ganharam
fama pelas derrotas infligidas e sofridas; até os partos quase pegaram em armas pelo charlatanismo de um pretenso Nero.
Ademais, a Itália foi perturbada por desastres nunca vistos ou que voltaram após o lapso das eras. Cidades dos litorais férteis e
ricos da Campânia foram tragadas ou arrasadas; Roma foi devastada por conflagrações, pelas quais os santuários mais antigos
foram consumidos e o próprio Capitólio incendiado pelas mãos dos cidadãos. Sítios sagrados foram profanados; houve adultérios
nos lugares altos. O mar se encheu de exilados, seus penhascos se contaminaram com os corpos dos mortos. Em Roma, houve
mais crueldade medonha (Hist. 1.2,3).

Com essa guerra civil caótica abalando os fundamentos do império, o mundo testemunha “os senhores da
terra habitável” (War 4.3.10) sediados na “maior de todas as cidades” (War 4.11.5) sucumbindo em
horrendos espasmos mortais. Como Tácito expressou:
Essa foi a condição do Estado romano quando Sérvio Galba, eleito cônsul pela segunda vez, e seu colega Tito Vínio iniciaram o ano
que era para ser o último de Galba e, para o Estado, quase o fim (Hist. 1.11; grifo adicionado).
De acordo com Josefo, a morte de Nero suspendeu até a guerra judaica com Roma, quando o poderoso
general Vespasiano e seu filho Tito cessam as hostilidades:
E agora, os dois estiveram em suspense sobre os afazeres públicos, estando o Império Romano, então, em uma condição instável; e
não prosseguiram com a expedição contra os judeus, mas consideraram agora inoportuno empreender qualquer ataque contra
estrangeiros, considerando o cuidado com o próprio país (War 4.9.2).
Os relatórios que chegaram até o campo de batalha em Israel são tão horríveis que lemos sobre
Vespasiano:
E seu pesar foi tão violento que ele não pôde suportar os tormentos que havia sobre ele, nem a se dedicar mais em outras guerras
quando a sua terra natal estava desolada (War 4.10.2).
De fato, “Roma estava próxima da ruína” (War 4.11.5), de modo que “o Estado romano estava tão
enfermo… [que] cada parte da terra habitável encontrava-se em uma condição indefinida e instável”
(War 7.4.2).
Assim, depois do suicídio de Nero com a própria espada, parecia para o mundo que a poderosa
Roma estava morrendo. João descreveu esse fenômeno como a besta recebendo uma ferida mortal em
“uma de suas cabeças” (Ap 13.3). Mas então, o que acontece?
O famoso biógrafo romano Suetônio fala da ressurreição de Roma do estado de morte:
O império que por muito tempo esteve indefinido e, assim, arrastando-se ao longo da usurpação e da morte violenta de três
imperadores, foi por fim colocado sob controle e recebeu estabilidade da família Flaviana (Vesp. 1, grifo adicionado).
Josefo expressa a mesma surpresa com respeito à resiliência de Roma:
Portanto, com a confirmação de todo o governo de Vespasiano, agora estabelecido, e a libertação inesperada dos deveres
públicos romanos da ruína, Vespasiano voltou o pensamento para os insubmissos na Judeia (War 4.11.5; grifo adicionado).
Assim, depois de um período de penosas guerras civis, o império reviveu, para a perplexidade do mundo
que agora retornava ao domínio de Roma. Como João afirmou: “Então, vi uma de suas cabeças como
golpeada de morte, mas essa ferida mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou, seguindo a besta”
(Ap 13.3), dizendo: “Quem é semelhante à besta? Quem pode pelejar contra ela?” (Ap 13.4b).
Isso, sem dúvida e de modo notável confirma o ponto de vista que aponta para Nero/Roma.
CONCLUSÃO
Estou convencido: da mesma forma que “todos os caminhos levam a Roma”, também toda a evidência da
besta leva a ela. A evidência apresenta não só uma adequação notável (mesmo onde não esperaríamos),
mas uma adequação relevante: Nero vive em um período que se encaixa (Ap 1.1,3). Seu império parece
surgir do mar, da perspectiva de Israel (13.1). O Império Romano possui incrível autoridade política e
poderio militar (13.2,4). Nero, como a sexta cabeça de Roma, aparece em cena na cronologia dos
imperadores (17.10) e apresenta o caráter de um homem bestial (13.5,6,8).
Até o nome de Nero se encaixa no misterioso número da besta (Ap 13.18). Quando a besta
“peleja contra os santos”, não ficamos surpresos ao saber que Nero foi o primeiro perseguidor imperial
da igreja (13.7) — e pela exata duração indicada em Apocalipse (13.5). Pode-se até aplicar o aspecto
mais improvável da profecia de João a Nero e ao Império Romano: a morte e a ressurreição da besta
(13.3).

4. A meretriz e a noiva

Neste capítulo, vou focar em uma personagem de importância vital no Apocalipse: a grande meretriz da
Babilônia. Ela é, na verdade, mais importante para o tema de João que a besta. Em sua aparição mais
espetacular, João a vê assentada sobre a besta:
Transportou-me o anjo, em espírito, a um deserto e vi uma mulher montada numa besta escarlate, besta repleta de nomes de
blasfêmia, com sete cabeças e dez chifres. Achava-se a mulher vestida de púrpura e de escarlata, adornada de ouro, de pedras
preciosas e de pérolas, tendo na mão um cálice de ouro transbordante de abominações e com as imundícias da sua prostituição. Na
sua fronte, achava-se escrito um nome, um mistério: BABILÔNIA, A GRANDE , A MÃE DAS MERET RIZES E DAS ABOMINAÇÕES DA T ERRA.
Então, vi a mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus; e, quando a vi, admirei-me com
grande espanto. (Ap 17.3-6)
Mais uma vez, começarei identificando quem eu considero ser a meretriz, e então exporei as evidências
que me levaram a essa conclusão. A grande meretriz que João vê montada na besta é a Jerusalém do
século I, a capital de Israel, o lar do templo de Deus.

O TEMA DO APOCALIPSE
Minha primeira linha de evidência que embasa a Jerusalém do século I como a prostituta é sua perfeita
correspondência com o tema do Apocalipse. Como indiquei no capítulo 2, João escreveu o Apocalipse
como uma profecia do juízo de Cristo contra os que o “traspassaram” (Ap 1.7). Vimos nesse capítulo que
o Novo Testamento enfatiza repetidas vezes a culpa pactual de Israel pela morte de Cristo. A evidência
está bem espalhada nos Evangelhos, em Atos e nas epístolas para que não a descartemos tão rápido.
Paulo, um hebreu dos hebreus (Fp 3.5), observa sobre os judeus: eles “não somente mataram o Senhor
Jesus e os profetas, como também nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são adversários de todos os
homens” (1Ts 2.15). Como consequência, ele destaca: “A fim de irem enchendo sempre a medida dos
seus pecados. A ira, porém, sobreveio contra eles, definitivamente” (1Ts 2.16b).
Devemos entender que o tema do julgamento contra Israel é limitado ao Israel do século I.
Afinal, o Apocalipse menciona com especificidade a derrubada do templo — não mais existente
(Ap 11.1,2; cp. Lc 21.20-24). Visto que a meretriz representa a Jerusalém do século I, isso corresponde
com perfeição aos indicadores temporais de João (Ap 1.1,3; 22.6,10). Não apenas isso, mas concorda
com a denúncia dos judeus feita por Jesus no século I, quando ele chama essa geração particular de
“geração adúltera” (Mt 12.39; 16.4; Mc 8.12,38; Lc 11.29). Ele repreende essa “geração” vez após vez:
as pessoas do século I (Mt 11.16-19) como a “geração má” (Mt 12.41-45), a “geração incrédula e
perversa” (Mt 17.17) e a “geração ímpia” (Lc 11.29). Ele profetiza com ênfase: “Para que desta geração
se peçam contas do sangue dos profetas, derramado desde a fundação do mundo; desde o sangue de Abel
até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus. Sim, eu vos afirmo, contas serão
pedidas a esta geração” (Lc 11.50,51). Ele foi rejeitado por “essa geração” (Lc 17.25), e não por outra.
É curioso a meretriz aparecer na geração adúltera.
Em nossa época do “politicamente correto”, alguns acusam esse ponto de vista de que a grande
meretriz da Babilônia é a Jerusalém histórica de antissemitismo. Contudo, ele não é mais antissemita que
a denúncia de Isaías contra Jerusalém como “Sodoma” e “Gomorra” (Is 1.10-12), a “cidade fiel” que “se
tornou prostituta” (Is 1.21) e, a seguir, a profecia de seu juízo. Lamentavelmente, as principais obras
sobre antissemitismo tendem a rastrear a apresentação desse “pecado” desde Jesus, segundo sua
apresentação nos evangelhos.[26] Qualquer reclamação de antissemitismo é lamentável e inadequada.
Logo, minha identificação de Jerusalém como a grande meretriz se encaixa no tema declarado de
João.
A GRANDE CIDADE
No Apocalipse, a prostituta aparece como “a Grande Babilônia” (Ap 17.5). Ela é repetidas vezes
chamada de “a grande cidade” (Ap 16.19; 17.18; 18.10,16,18,21). No entanto, pelo fato de Babilônia ser
uma cidade que aparece em outros pontos da Escritura, como devemos aplicar esse conceito odioso à
cidade santa de Jerusalém? Considere a seguinte evidência.

O princípio da primeira menção
Encontramos a expressão “a grande cidade” pela primeira vez em Apocalipse 11.8:
E o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu
Senhor foi crucificado.

Em geral, a primeira aparição de um descritor no texto controla o significado dos usos posteriores. Aqui,
“a grande cidade” está conectada com especificidade ao lugar “onde também o seu Senhor foi
crucificado”. Isso deve se referir a Jerusalém, pois ela é o local histórico da crucificação de Cristo
(Lc 13.33; Mt 23.34-37). Ademais, apenas seis versículos antes dessa afirmação (Ap 11.1,2), João
menciona o templo na cidade santa, que deve ser o templo de Deus em Jerusalém.

A questão do status pactual
João chama Jerusalém de a “grande” cidade não por sua posição política, mas pelo status pactual. Na
Escritura, Jerusalém é a cidade mais importante da história da redenção e da revelação divina. Seu nome
aparece 623 vezes na Bíblia. Por exemplo, Davi a exaltou:
Grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado, na cidade do nosso Deus. Seu santo monte, belo e sobranceiro, é a alegria de toda
a terra; o monte Sião, para os lados do Norte, a cidade do grande Rei. (Sl 48.1,2)

Ou, como afirmou Jeremias:


Jerusalém é a “perfeição da formosura” e “a alegria de toda a terra”. (Lm 2.15)
Afinal, o Senhor mesmo “habita em Jerusalém” (Sl 135.21), de modo que ela deve ser “preferida” à
“maior alegria” do judeu (Sl 137.6).
Jeremias, o grande profeta do Antigo Testamento fez predições durante a destruição de
Jerusalém pela antiga Babilônia. Não só a profecia de Jeremias tornou-se uma das fontes principais de
material para o Apocalipse, mas também ele chamou Jerusalém de “grande” duas vezes:
Muitas nações passarão por esta cidade, e dirá cada um ao seu companheiro: Por que procedeu o SENHOR assim com esta grande
cidade? (Jr 22.8)
Como jaz solitária a cidade outrora populosa! Tornou-se como viúva a que foi grande entre as nações; princesa entre as
províncias, ficou sujeita a trabalhos forçados! (Lm 1.1)
João até delineou o imaginário da viúva a partir do versículo de Lamentações de Jeremias ao descrever a
prostituta:
O quanto a si mesma se glorificou e viveu em luxúria, dai-lhe em igual medida tormento e pranto, porque diz consigo mesma: Estou
sentada como rainha. Viúva, não sou. Pranto, nunca hei de ver! (Ap 18.7)

A QUESTÃO DA PROEMINÊNCIA HISTÓRICA
Embora eu acredite que a grandeza de Jerusalém provenha em especial do status pactual, ela também era
uma cidade renomada na antiguidade. Até o historiador romano Tácito mencionou seu status:
Como vou agora registrar a morte agonizante de uma cidade famosa, parece-me apropriado informar ao leitor sobre suas origens.
(Hist. 5.2; grifos meus)
E, é claro, Josefo louvou sua fama histórica:
Esse foi o fim a que Jerusalém chegou pela insanidade dos seguidores de inovações; uma cidade, de outro modo, de grande
magnificência e de enorme fama em toda a humanidade. (War 7.1.1)
E onde está agora a grande cidade, a metrópole da nação judaica. (War 7.8.7)
Há um povo chamado judeu, que vive na cidade mais forte de todas, chamada Jerusalém por seus habitantes. (Ag. Ap. 1.22)
Então, Jerusalém se encaixa no conceito de uma “grande cidade” em sentido pactual e histórico. No
Apocalipse, ela aparece como a “grande cidade”, a “grande meretriz”.

O SANGUE DOS SANTOS
João apresenta várias vezes a meretriz ao leitor como “cheia do sangue dos santos”. Por exemplo, lê-se
em Apocalipse 18.24:
E nela se achou sangue de profetas, de santos e de todos os que foram mortos sobre a terra.
Essa linguagem também surge em 16.6, 17.6, 18.20, 24. Vejamos como isso aponta para Jerusalém.

O evangelho como pano de fundo
Ao que parece, João reverberou uma declaração de Jesus aos líderes de Israel:
Para que desta geração se peçam contas do sangue dos profetas, derramado desde a fundação do mundo; desde o sangue de Abel
até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a casa de Deus. Sim, eu vos afirmo, contas serão pedidas a esta geração.
(Lc 11.50,51)
Não só a linguagem é muito conhecida, mas o período de tempo combina: João menciona fatos que
“devem acontecer em breve”, enquanto Jesus fala da ocorrência desse juízo “nessa geração”.

A experiência em Atos
A perseguição de Israel contra os primeiros cristãos é recorrente em todo o livro de Atos:
Persegui este Caminho até à morte, prendendo e metendo em cárceres homens e mulheres, de que são testemunhas o sumo
sacerdote e todos os anciãos. Destes, recebi cartas para os irmãos; e ia para Damasco, no propósito de trazer manietados para
Jerusalém os que também lá estivessem, para serem punidos. (At 22.4,5; v. tb. os seguintes capítulos de Atos: 4-7; 9; 11-13; 16-18;
20-25)
Isso teve início veemente em Atos 8.1: “Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em
Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria” (cp. At
11.19; 13.50).

As preocupações particulares
Embora Roma tivesse começado a perseguir os santos pouco tempo atrás, Jerusalém contava com uma
longa experiência nessa obra maligna, estendendo-se desde os tempos do Antigo Testamento. Estêvão
denunciou Israel com essas palavras:
Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos
pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a
vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos. (At 7.51,52)
Roma nunca matou um profeta do Antigo Testamento (como em Ap 18.24); Jerusalém, sim.
No sermão do monte, Jesus mencionou a perseguição de Israel contra os profetas:
Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.
(Mt 5.12)
O Novo Testamento volta ao tema da perseguição judaica contra os profetas vez após vez em
Mateus 23.9, 29-37, Lucas 6.23-26, 11.47-50, 13.34, Romanos 11.3, 1 Tessalonicenses 2.15 e
Hebreus 11.32-38. A imagem da prostituta embriagada com o sangue dos santos e profetas se encaixa
bem na história de Israel

O fracasso pactual
Para entender a imensidão do fracasso de Israel, devemos refletir sobre suas bênçãos pactuais. Moisés
desafiou Israel antes de entrar na Terra Prometida:
Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos
os povos que há sobre a terra. Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer
povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais,
o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito. (Dt 7.6-8)
Amós avisou Israel das responsabilidades procedentes das bênçãos especiais:
De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos escolhi; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniquidades. (Am 3.2)
Paulo falou com muita estima sobre as vantagens dos judeus:
Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos
judeus foram confiados os oráculos de Deus. (Rm 3.1,2)
Estêvão acusou Israel de quebrar a lei da aliança: Vós “que recebestes a lei por ministério de anjos e não
a guardastes” (At 7.53). Em tudo isso, devemos lembrar que Jesus “veio para os que eram seus, e os seus
não o receberam” (Jo 1.1). Essa é efetivamente a mensagem de Jesus em Mateus 23.37,38:
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos,
como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta.

Isso agrava o fracasso pactual de Israel, pois a nação detinha muitas vantagens relativas à redenção e
responsabilidades pactuais designadas para guiá-la nos caminhos da retidão, por amor ao nome de Deus.
O Senhor Jesus Cristo avisou: “A quem muito é dado, muito será cobrado” (Lc 12.48). Ele até disse a
Pilatos:
Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem.
(Jo 19.11)
A epístola aos Hebreus inteira expõe o grave fracasso da rejeição judaica de Cristo. Por exemplo:
Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo
castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual
foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E
outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. (Hb 10.28-31)
O fracasso de Israel é tão grande que João a apresenta a nação como a grande meretriz embriagada com o
sangue do povo de Deus! Então, ela não apenas é culpada de “traspassar” o Messias (Ap 1.7), mas é
impenitente e até aumenta sua rebelião ao lhe atacar os seguidores.
AS VESTES DA PROSTITUTA
Enquanto continuamos apresentando as evidências de que a grande meretriz é Jerusalém, encontramos
outra linha argumentativa excepcional quando observamos suas roupas no grande drama de João. Seu
vestido não parece ser incidental, um mero colorido artístico da obra-prima vívida de João. Na verdade,
o apóstolo apresenta uma informação importante para definir seu verdadeiro papel. João faz duas
afirmações curtas, mas reveladoras, sobre os ornamentos dela:
Achava-se a mulher vestida de púrpura e de escarlata, adornada de ouro, de pedras preciosas e de pérolas, tendo na mão um
cálice de ouro transbordante de abominações e com as imundícias da sua prostituição. (Ap 17.4)
Ai! Ai da grande cidade, que estava vestida de linho finíssimo, de púrpura, e de escarlata, adornada de ouro, e de pedras
preciosas, e de pérolas. (Ap 18.16)
Dada a forte ligação de João com o Antigo Testamento, o que podemos aprender da Escritura a respeito
de suas roupas?

Suas vestes sacerdotais
O esquema de cores, joias e o cálice de ouro da prostituta mostram outro afluente a correr para o lago de
evidências que a identificam como a Jerusalém do século I. Suas roupas refletem sua posição pactual
como um reino de sacerdotes, lembrando, em particular, ao leitor do século I o templo central de
Jerusalém e seu eminente sumo sacerdote (repare em sua grande autoridade em At 23.4). Lê-se em
Êxodo 28 sobre o vestuário do sumo sacerdote:
As vestes, pois, que farão são estas: um peitoral, uma estola sacerdotal, uma sobrepeliz, uma túnica bordada, mitra e cinto. Farão
vestes sagradas para Arão, teu irmão, e para seus filhos, para me oficiarem como sacerdotes. Tomarão ouro, estofo azul, púrpura,
carmesim e linho fino. […] E o cinto de obra esmerada, que estará sobre a estola sacerdotal, será de obra igual, da mesma obra
de ouro, e estofo azul, e púrpura, e carmesim, e linho fino retorcido. Tomarás duas pedras de ônix e gravarás nelas os nomes
dos filhos de Israel. (Êx 28.4,5,7,8)
As roupas dela também combinam com a decoração do tabernáculo (precursor do templo):
Farás o tabernáculo, que terá dez cortinas, de linho retorcido, estofo azul, púrpura e carmesim; com querubins, as farás de obra
de artista. (Êx 26.1)

A descrição do Antigo Testamento sobre o templo indica que o altar (que recebia o sangue dos
sacrifícios, Êx 24.6; 29.12; Lv 1.5) era de ouro — como o cálice do qual a meretriz bebeu o sangue dos
santos:
Assim, cobriu de ouro toda a casa, inteiramente, e também todo o altar que estava diante do Santo dos Santos. (1Rs 6.22)

De fato, o templo continha muitos utensílios de ouro:


Demais disto, os utensílios de ouro e de prata, da Casa de Deus, que Nabucodonosor tirara do templo que estava em Jerusalém,
levando-os para a Babilônia, serão devolvidos para o templo que está em Jerusalém, cada utensílio para o seu lugar; serão
recolocados na Casa de Deus. (Ed 6.5)
Josefo foi testemunha ocular do templo do século I, que também se compara ao vestido da meretriz: “A
tapeçaria do templo era babilônica [!], nessa tapeçaria estavam misturados azul, púrpura, escarlata e
linho” (War 5.5.4). Ele também mencionou o destaque do ouro nos recipientes do templo: “A maior parte
do que os cálices eram feitos era prata e ouro” (War 5.4.5).

A tiara sacerdotal
Um detalhe extremamente interessante sobre o vestuário da meretriz diz respeito à sua tiara:
Na sua fronte, achava-se escrito um nome, um mistério: BABILÔNIA, A GRANDE , A MÃE DAS MERET RIZES E DAS ABOMINAÇÕES DA
T ERRA (Ap 17.5).

O foco incomum de João na testa dela é significativo não apenas em relação ao argumento presente, mas
também em outro contexto mais adiante.
Lê-se na descrição do sumo sacerdote do Antigo Testamento:
Farás também uma lâmina de ouro puro e nela gravarás à maneira de gravuras de sinetes: Santidade ao SENHOR… E estará sobre a
testa de Arão, para que Arão leve a iniquidade concernente às coisas santas que os filhos de Israel consagrarem em todas as
ofertas de suas coisas santas; sempre estará sobre a testa de Arão, para que eles sejam aceitos perante o SENHOR. (Êx 28.36,38)
João coloca as vestes da meretriz de modo a chamar a nossa atenção para a testa dela. E, quando olhamos
para lá, vemos o oposto do que aparece na testa do sumo sacerdote, o que mostra a avaliação de João
para o que a santa cidade, o templo de Deus e o sacerdócio se tornaram. (Curiosamente, Jeremias
também menciona a fronte de prostituta de Jerusalém em Jr 3.3).

O PADRÃO DE NOMEAÇÃO
Poderíamos nos perguntar por que João dá a Jerusalém o nome “Babilônia”, em vez de chamá-la pelo
próprio nome. Assim, ele segue o padrão comum da denúncia profética. Para entender o significado
desses nomes na Escritura, precisamos reconhecer a significado bíblico de dar nomes.
Na Escritura, os nomes não consistiam apenas em modulações tonais atrativas (como o são
muitíssimos nomes modernos). Na verdade, quando alguém dava um nome a algo, isso impunha
autoridade sobre a pessoa ou o objeto; o nome definia o caráter ou a função da coisa. Por exemplo,
durante a semana da criação, o Criador soberano nomeia seus aspectos: “Chamou Deus à luz Dia e às
trevas, Noite” (Gn 1.5; cp. v. 8,10). Também vemos Adão nomeando os animais, a fim de lhes especificar
a função sob o seu governo (Gn 2.19) — um exercício de seu “domínio” como imagem divina
(Gn 1.26,28). Ele até dá nome à sua mulher, mostrando o papel dela em seu reino como sua auxiliadora
em gerar filhos (Gn 2.23; 3.20).
Várias vezes, quando um santo sofria uma crise espiritual ou renovação, seu nome era mudado
para refletir sua nova condição, caráter ou função. Por exemplo, veja: Abrão/Abraão (Gn 17.5);
Jacó/Israel (Gn 32.27,28); Simão/Pedro (Mc 3.16; Jo 1.42). Curiosamente, os santos redimidos no
Apocalipse recebem um novo nome (Ap 2.17). De fato, há um lugar em que os redimidos recebem “o
nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém” — um “novo nome” (Ap 3.12).
No entanto, por que João não chama a Jerusalém histórica por seu nome? O nome “Jerusalém”
significa “cidade de paz, plenitude”. Por causa dessa associação com a “paz”, João não aplicou esse
nome à Jerusalém histórica no livro do Apocalipse; ele só pertence à nova Jerusalém (Ap 3.12; 21.2,10).
Na verdade, à medida que o caráter da Jerusalém histórica torna-se mais evidente, ele mais tarde
consigna o nome “Babilônia” à Jerusalém velha, histórica e condenada. Essa prática de dar nomes é uma
forma de discurso profético de juízo. Isaías repreendeu os governadores e o povo de Israel de forma
parecida:
Ouvi a palavra do SENHOR, vós, príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, povo de Gomorra. (Is 1.10)
Jeremias fez o mesmo:
Mas nos profetas de Jerusalém vejo coisa horrenda; cometem adultérios, andam com falsidade e fortalecem as mãos dos
malfeitores, para que não se convertam cada um da sua maldade; todos eles se tornaram para mim como Sodoma, e os moradores
de Jerusalém, como Gomorra. (Jr 23.14; cp. Lm 4.6)
Ezequiel também agiu assim (Ez 16.46,48,53,55). Como mostrarei no próximo ponto, é assim que João
usa “Babilônia” para descrever Jerusalém no Apocalipse.

JOÃO APLICA NOMES PAGÃOS
Como profeta instigado pelo juízo, João aplicou a Jerusalém nomes que envolvem associações bíblicas
malignas. Em Apocalipse 11, ele seguiu a forma específica de Isaías de denúncia ao chamar Jerusalém de
“Sodoma” (Is 1.10; 3.9). Ele até acrescentou a esse apelo maligno o nome odioso de “Egito”. Falando
dos dois profetas mortos, ele escreveu:
E o seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu
Senhor foi crucificado. (Ap 11.8)
Note que ele chama essa cidade “espiritualmente” de Sodoma e Egito, mas ele de fato a localiza no lugar
“onde também o seu Senhor foi crucificado”, isto é, Jerusalém (Lc 9.31; 13.33; 18.31; 24.18).
Depois, no Apocalipse, João chama Jerusalém de “Babilônia”. Ele parece fazer isso por causa
da destruição vindoura do segundo templo, o templo da época de Jesus. O primeiro templo havia sido
destruído pela Babilônia histórica no Antigo Testamento (2Rs 25.8,9; 2Cr 36.17-20; Ed 5.12; Jr 52.13).
Agora, a própria Jerusalém está conectada com a Babilônia como destruidora do templo, por causar a
destruição final da casa de Deus.

JOÃO DENUNCIA SATANÁS
Por todo o Apocalipse, pode-se ver Satanás por trás das cenas. João associa a própria nação de Israel
com Satanás quando denuncia os judeus como meros reivindicadores da herança judaica, mas, na
verdade, são membros da “sinagoga de Satanás” (Ap 2.9). Ele promete aos cristãos que eles
testemunharão a derrota desses judeus inspirados por Satanás que os haviam perseguido com tanta
severidade:
Eis farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis
que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei. (Ap 3.9)
A forma da repreensão de João nos lembra das palavras do Senhor contra Israel em seu ministério
terreno, quando ele menciona Satanás, nega a relação dos judeus com Abraão e fala sobre a mentira:
Então, lhe responderam: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão. […] Vós
sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na
verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.
(Jo 8.39,44)

Os judeus do século I que rejeitam Cristo também rejeitam a própria herança; eles não eram judeus de
verdade, no melhor sentido do termo (Rm 2.28,29; 9.6), embora afirmassem com frequência sua relação
com Abraão (Mt 3.9; Lc 3.8; Jo 8.39; Rm 2.17).
Logo, João segue o exemplo do Antigo Testamento de chamar Jerusalém por nomes pagãos
quando ela se rebela contra Deus. Como vimos antes, o nome “a grande Babilônia” aparece primeiro na
forma truncada de “a grande cidade”, que é onde Cristo foi crucificado, isto é, Jerusalém (Ap 11.8).

O CONTRASTE LITERÁRIO
Os rios de evidências que estamos traçando aparentemente nunca se esgotam. Agora, descobrimos outro
afluente correndo através do Apocalipse para a mesma conclusão. João estrutura o material focando nas
duas principais imagens femininas do escrito de modo a exigir nosso reconhecimento delas como uma
imagem positiva e a outra negativa. Vejamos como é isso.
Havendo chamado a meretriz de “a grande Babilônia” e a apresentado em todo o seu caráter
maligno em Apocalipse 17, João relata a destruição dela em Apocalipse 18-19.
Por exemplo, leem-se algumas declarações sobre esse fato no capítulo 18:
Então, exclamou com potente voz, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie
de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável. (Ap 18.2)
E, conservando-se de longe, pelo medo do seu tormento, dizem: Ai! Ai! Tu, grande cidade, Babilônia, tu, poderosa cidade! Pois, em
uma só hora, chegou o teu juízo. (Ap 18.10)
Então, um anjo forte levantou uma pedra como grande pedra de moinho e arrojou-a para dentro do mar, dizendo: Assim, com
ímpeto, será arrojada Babilônia, a grande cidade, e nunca jamais será achada. (Ap 18.21)

Havendo profetizado sua destruição, o apóstolo apresenta uma nova mulher no ápice do drama: “a cidade
santa, a nova Jerusalém” (Ap 21.2):
Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu
esposo.
Em outras passagens, o Novo Testamento usa a nova Jerusalém celestial para desclassificar a velha e
histórica:
Ora, Agar é o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual, que está em escravidão com seus filhos. Mas a Jerusalém
lá de cima é livre, a qual é nossa mãe. (Gl 4.25,26)
O escritor aos Hebreus encoraja os judeus professos a permanecer fiéis à conversão cristã, pois:
Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal
assembleia. (Hb 12.22)
O modo de João estruturar esses últimos capítulos acrescenta forte evidência sobre a identidade de
Babilônia como Jerusalém. Aqui, aprendemos que, por causa da queda da velha Jerusalém, Deus envia a
“nova Jerusalém” para substituí-la. Ele intencionalmente descreve as duas mulheres usando a mesma
estrutura literária. Como Cristo, que ensina que o odre velho do judaísmo não pode conter o vinho novo
do cristianismo (Mt 9.17), como Paulo, que compara e contrasta a “antiga aliança” com a “nova aliança”
(2Co 3.7-14; cp. Hb 8.1-13), assim João traça um paralelo entre a velha e a nova Jerusalém, mostrando
que a nova substitui a velha.

A APRESENTAÇÃO DAS MULHERES
João registra para nós sua experiência visionária ao testemunhar a grande meretriz e a noiva celestial. O
registro faz um paralelo tão próximo entre elas que uma se torna a imagem negativa da outra.
Veio um dos sete anjos que têm as sete taças e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei o julgamento da grande meretriz que
se acha sentada sobre muitas águas. (Ap 17.1)
Então, veio um dos sete anjos que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-
ei a noiva, a esposa do Cordeiro. (Ap 21.9)

O caráter das mulheres
Não só isso, mas o caráter das duas mulheres contrasta bastante — sugestão de seu relacionamento.
Veio um dos sete anjos que têm as sete taças e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei o julgamento da grande meretriz que
se acha sentada sobre muitas águas. (Ap 17.1)
Então, veio um dos sete anjos que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a
noiva, a esposa do Cordeiro. (Ap 21.9)

O ambiente das mulheres
O contraste positivo-negativo, em que a nova Jerusalém desclassifica a velha, continua na apresentação
de João. O anjo, nas duas instâncias, carrega João, mas para ambientes muito diferentes.
Transportou-me o anjo, em espírito, a um deserto e vi uma mulher montada numa besta escarlate, besta repleta de nomes de
blasfêmia, com sete cabeças e dez chifres. (Ap 17.3)
E me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu,
da parte de Deus. (Ap 21.10)

A estrutura artística utilizada por João na visão das duas mulheres demonstra um contraste intencional.
Ele sublinha a relação das duas mulheres: uma (a nova Jerusalém) é a gloriosa substituta da outra
repreensível (a velha Jerusalém).

CONCLUSÃO
O Apocalipse dramatiza a “troca de guarda” na história da redenção. João profetiza o juízo do Senhor
contra o povo do Antigo Testamento enquanto estabelece a igreja do Novo Testamento. Assim, ele segue
o padrão de substituição dos avisos de Jesus a Israel:
Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Ao
passo que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. (Mt 8.11,12)
Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. (Mt 21.43)
Aprendemos, em outros lugares na Escritura, que o povo judeu, um dia, converter-se-á a Cristo (p. ex.,
Rm 11.1,25). A queda de Israel foi devastadora, mas não total (Rm 11.11,15). Os judeus virão ao
Messias nos mesmos termos do evangelho como todas as outras pessoas. Porém, seu lugar especial de
proeminência no plano de Deus foi removido. Sua distinção geopolítica terminou; Israel não será
exaltada acima nem destacada entre as outras nações. Isaías profetiza essa mudança de status com estas
palavras:
Naquele dia, haverá estrada do Egito até à Assíria, os assírios irão ao Egito, e os egípcios, à Assíria; e os egípcios adorarão com os
assírios. Naquele dia, Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra; porque o SENHOR dos
Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança.
(Is 19.23-25)
Com a vinda da nova aliança, “não há judeu nem grego”, pois “sois todos um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).

5. Julgamentos principais e seus significados

Até este ponto, salientei os princípios e as personagens principais do livro do Apocalipse. Acredito que
os capítulos antecedentes são cruciais para entender esse livro misterioso com correção. Neste capítulo,
destacarei alguns tipos de acontecimentos históricos que demonstram a plausibilidade de seu
cumprimento no século I. Mas antes, recordarei com brevidade os pontos importantes já apresentados.
No Apocalipse, João profetiza sobre o juízo divino contra Israel, resultando na devastação do
povo, da terra e do templo. Por meio desse julgamento, Deus remove o templo do palco histórico de uma
vez para sempre, usando os exércitos romanos (que Jesus chamou de “seus exércitos”, em sentido
profético, em Mt 22.7). A rejeição do Messias, por parte de Israel, e a perseguição contra os seguidores
de Jesus resultam em consequências desoladoras. Elas deram ensejo à expansão da verdadeira fé, por
meio da nova aliança, até alcançar influência universal, sem as restrições raciais, geográficas e
ritualísticas inerentes à economia da antiga aliança.
A chave primária para entender o Apocalipse são as palavras iniciais do próprio João sobre
quando os acontecimentos ocorrerão. João envia o Apocalipse para cristãos sofredores (p. ex., Ap 1.9;
6.9-11) a respeito de acontecimentos que se aproximavam com rapidez durante sua existência.
Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele,
enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João. (Ap 1.1)
Bem-aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o tempo
está próximo. (Ap 1.3)
Esses indicadores temporais claros lançam a luz interpretativa essencial sobre a declaração do tema de
João:
Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele.
Certamente. Amém! (Ap 1.7)
João emprega o imaginário apocalíptico no esboço do seu tema. A linguagem da “vinda” divina não raro
diz respeito a julgamentos históricos, como o ocorrido contra o Egito em Isaías 19.1. Como essa “vinda”
é contra “quantos o traspassaram”, causando “as tribos da terra [local]” a “lamentarem”, e visto que isso
“deve acontecer em breve” (Ap 1.1), o entendimento apropriado desse tema aponta para o juízo do ano
70 d.C. contra Israel.
Nos capítulos anteriores, tracei o fluxo do Apocalipse em pinceladas amplas, desenvolvendo os
acontecimentos de curto prazo nos termos do tema do julgamento contra os judeus. Em Apocalipse 4,
João viu Deus assentado como juiz sobre seu trono. No capítulo 5, Deus entregou ao Messias crucificado
(cp. Ap 1.7; 5.5,9,12) sua carta de divórcio contra Israel. Nos capítulos 6-19 (com algumas interrupções
do drama), ele se concentra na pena capital da mulher de Deus segundo o Antigo Testamento pelo
adultério promíscuo. Nos últimos capítulos, vemos uma nova noiva descendo do céu para substituir a
primeira esposa condenada por Deus.
Em tudo isso, indiquei o absurdo de interpretar o Apocalipse de modo literalista. O drama de
João é escrito em estilo impressionante, apocalíptico, hiperbólico. Embora escreva por meio de
símbolos, ele, não obstante, retrata acontecimentos históricos sob essa roupagem simbólica.
Agora, estamos prontos para considerar alguns tipos do simbolismo tão lavrado por João,
mostrando como os acontecimentos históricos estão por trás da imagem. Tanto as limitações de espaço
como meu propósito introdutório proíbem a exposição exaustiva das várias profecias.[27] Todavia,
acredito que alguns exemplos mostrarão ao leitor a plausibilidade do cumprimento no século I.

A QUEDA DAS MONTANHAS E ESCONDERIJOS NAS CAVERNAS
Focarei em dois elementos do sexto selo de Apocalipse 6, pois ele abre de fato as cenas de julgamento.

As montanhas se movendo
Em Apocalipse 6, uma das imagens mais incríveis envolve o tremor de todas as montanhas em razão do
despejo da ira de Deus:
E o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos do seu lugar. Os reis da
terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos
dos montes. (Ap 6.14,15)
Como explicaremos esse movimento de todas as montanhas? Qual é a realidade histórica por trás desse
imaginário apocalíptico?
Para entender a imagem, devemos considerar as circunstâncias do século I envolvidas no ataque
romano contra Israel. Grande parte do terreno de Israel, ao redor das cidades importantes, provia defesas
naturais significativas que serviam como obstáculos a exércitos saqueadores. Isso é verdadeiro em
especial para as forças armadas dos exércitos muito organizados e mecanizados dos romanos. Josefo
mencionou várias vezes os obstáculos montanhosos no caminho dos romanos:
Agripa observou que até os afazeres dos romanos estavam provavelmente em perigo, enquanto uma multidão tão imensa de
inimigos havia capturado a área ao redor das montanhas. (War 2.19.3)
Agora, Jotapata está quase toda construída em um precipício, e todos os seus outros lados são vales muito profundos e íngremes, de
tal modo que quem olhasse para baixo não conseguiria enxergar até o fundo. Só é possível chegar até ela pelo lado norte, no qual a
maior parte da cidade está construída na montanha, e termina obliquamente em uma planície. Josefo havia envolvido essa montanha
com uma muralha quando fortificou a cidade, para que seu topo não pudesse ser conquistado pelos inimigos. A cidade é coberta
com outras montanhas, e ela não pode ser vista de forma alguma, a não ser que alguém suba nelas. E essa era a situação de
Jotapata.
Portanto, a fim de tentar ver como ele poderia sobrepujar a força natural do lugar, como a ousada defesa dos judeus, ele resolveu
prosseguir e capturá-la com vigor. Para esse fim, convocou os comandantes que estavam sob sua autoridade a um conselho de
guerra, e os consultou sobre a maneira mais vantajosa para executar o ataque (War 3.7.7,8).
Uma grande multidão evitou a aproximação deles, e saiu de Jericó, e fugiu para as partes montanhosas encontradas diante de
Jerusalém, enquanto aquela parte que foi deixada para trás e, em grande medida, destruída; eles também encontraram a cidade
desolada. Ela se situava em uma planície; mas uma montanha estéril e pelada, de enorme comprimento, se colocava sobre ela,
estendendo-se para a terra perto de Bete-Seã, ao norte, mas alcançando a terra de Sodoma, e os limites mais remotos do lago
Asphaltiris, ao sul. Essa montanha é toda bastante irregular e sem habitantes por causa da esterilidade (War 4.8.2).

Uma característica notável da tática bélica romana do cerco subjaz à imagem das montanhas sendo
movidas. As legiões romanas incluíam equipes de demolição que trabalharam para vencer as defesas
montanhosas diante delas. O movimento de cada montanha do seu lugar simboliza seu trabalho bem-
sucedido, como Josefo registrou.
Vespasiano tinha o grande desejo de demolir Jotapata, pois recebera a informação de que a maior fração do inimigo se retirara de
lá, e que lhes era, em outros aspectos, um lugar de grande segurança. Por conseguinte, ele enviou a infantaria e a cavalaria para
nivelar o caminho montanhoso e rochoso, difícil de ser atravessado pela infantaria, mas de todo impraticável à cavalaria. Esses
trabalhadores conseguiram acabar o que estavam fazendo no período de quatro dias, e abriram um caminho largo para o exército
(War 3.7.3).
Tito, no entanto, pretendendo montar o acampamento mais perto da cidade que de Escopo, colocou tantos dos melhores cavaleiros
e soldados quantos achou suficientes do lado oposto ao dos judeus, para prevenirem que estes se lançassem contra aqueles,
enquanto deu ordens para todo o exército nivelar a distância, até a muralha da cidade. Então eles destruíram todas as cercas e
muros construídos pelos habitantes em volta dos jardins e arvoredos, e derrubaram todas as árvores frutíferas que estavam entre
eles e a muralha da cidade, e entulharam todos os lugares fundos e os abismos, e demoliram os precipícios rochosos com
instrumentos de ferro; assim, aplainaram toda a área desde Escopo até os monumentos de Herodes, que margeavam a piscina
chamada da Serpente (War 5.3.2).
Essas ocorrências históricas impressionantes em Josefo se encaixam bem com as profecias espantosas e
simbólicas de João. Dada a expectativa de curto prazo estabelecida por João e o absurdo da
interpretação literal direta, nada impede o intérprete razoável de reconhecer esses acontecimentos como
os cumprimentos históricos em vista.

Os esconderijos nas cavernas
Esconder-se em cavernas é algo bastante fácil de entender de modo literal. Todavia, precisamos perceber
quão importante uma ação assim se torna na guerra judaica. Sua aparição no Apocalipse não é uma
simples questão de dar cores ao relato; era algo de grande significado. Josefo registra muitos exemplos
que mostram como cavernas e grutas foram usadas pelos judeus nas tentativas de escapar da ira dos
exércitos romanos, como:
Nesse dia, ocorreu que os romanos abateram toda a multidão que apareceu ao ar livre; mas, nos dias seguintes, eles procuraram
nos esconderijos e arremeteram contra o que estavam sob o solo e nas cavernas (War 3.7.36).
Assim, agora, a última esperança que dava força aos tiranos, e aos recrutas de salteadores que estavam com eles, estava nas
grutas e nas cavernas sob o chão; para onde, se eles pudessem voar uma vez, não esperariam que fossem buscados; mas
resolveram que, depois que toda a cidade fosse destruída, e os romanos fossem embora, pudessem sair de novo e escapar deles.
Isso não passou de um sonho, pois não puderam ficar escondidos nem de Deus nem dos romanos. Porém, eles dependeram desses
subterfúgios subterrâneos (War 6.7.3).
Simão, no cerco de Jerusalém, estava na parte mais alta da cidade; mas, quando o exército romano adentrou suas muralhas, e
desolava a cidade, então ele tomou os seus amigos mais fiéis consigo, e alguns que sabiam cortar pedras dentre eles, com as
ferramentas de ferro que pertenciam à sua ocupação, e uma quantidade de provisões grande o suficiente para que lhes bastasse
por muito tempo, e desceram todos para uma certa caverna subterrânea que não era visível acima do chão (War 7.2.1).
Ao contrário das esperanças dos judeus, as montanhas não eram imóveis, nem as cavernas impenetráveis.
Como Apocalipse 6.16, 17 alerta:
E disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro,
porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?
Seus esforços para fugir falharam, como Josefo nota:
… não esperariam que fossem buscados; mas resolveram que, depois que toda a cidade fosse destruída, e os romanos fossem
embora, pudessem sair de novo e escapar deles. Isso não passou de um sonho, pois não puderam ficar escondidos nem de Deus
nem dos romanos. (War 6.7.3).
Os romanos abateram alguns deles, alguns levaram cativos e outros procuraram no subterrâneo e, quando descobriram onde
estavam, arrebentaram o chão e mataram todos os que encontraram (War 6.9.4).
Agora, tendo conseguido cavar uma distância nunca antes alcançada, eles prosseguiram sem empecilhos; mas, quando se
depararam com chão sólido, cavaram uma mina sob o chão, na esperança de que conseguissem continuar longe o bastante para
emergir do subterrâneo em um local seguro e, desse modo, fugir. No entanto, quando começaram a fazer o experimento, tiveram a
esperança frustrada; os mineradores conseguiram fazer pouco progresso, com dificuldade; de tal modo que suas provisões, embora
houvessem sido distribuídas com racionalidade, começaram a esgotar-se (War 7.2.1).
Eles não puderam se esconder da presença de Deus nem da ira do Cordeiro, pois ninguém é “capaz de
suportar” (Ap 6.17). A profecia de João faz um paralelo com a anterior de Jesus, em Lucas 23.28-30:
Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos
filhos! Porque dias virão em que se dirá: Bem-aventuradas as estéreis, que não geraram, nem amamentaram. Nesses dias, dirão
aos montes: Caí sobre nós! E aos outeiros: Cobri-nos!

Mais uma vez, a profecia de João encontra cumprimento adequado e relevante na guerra judaica do
século I. Todavia, há mais.

A cidade dividida e a grande meretriz
Apocalipse 16 revela a sétima taça da ira de Deus. Assim, o texto continua revelando os acontecimentos
de 70 d.C., provendo-nos com mais evidências apontando para o cumprimento no século I. Lê-se no
Apocalipse 16.17-21:
Então, derramou o sétimo anjo a sua taça pelo ar, e saiu grande voz do santuário, do lado do trono, dizendo: Feito está! E
sobrevieram relâmpagos, vozes e trovões, e ocorreu grande terremoto, como nunca houve igual desde que há gente sobre a terra;
tal foi o terremoto, forte e grande. E a grande cidade se dividiu em três partes, e caíram as cidades das nações. E lembrou-se Deus
da grande Babilônia para dar-lhe o cálice do vinho do furor da sua ira. Todas as ilhas fugiram, e os montes não foram achados;
também desabou do céu sobre os homens grande saraivada, com pedras que pesavam cerca de um talento; e, por causa do flagelo
da chuva de pedras, os homens blasfemaram de Deus, porquanto o seu flagelo era sobremodo grande.
Eu me concentrarei em dois aspectos notáveis da profecia: a divisão da cidade em três partes e a chuva
de pedras de um talento.

A divisão da cidade
Um aspecto trágico da guerra judaica enfatizado repetidas vezes por Josefo é a convulsão interna em
Jerusalém. A guerra civil destruiu todas as esperanças de uma frente unificada contra o cerco de Roma a
essa cidade murada. De fato, a divisão se dava em uma linha tripartida, bem conhecida por Josefo:
Assim, quando Tito marchou sobre o deserto entre o Egito e a Síria, da maneira supracitada, chegou a Cesareia, tendo resolvido pôr
em ordem suas forças nesse lugar antes de começar a guerra. E mais, na verdade, enquanto ajudava seu pai em Alexandria a
organizar o novo governo que havia sido outorgado a eles por Deus, aconteceu que a sedição em Jerusalém foi reavivada, e
dividida em três facções, e elas lutavam entre si; partição essa que, nesses casos maus, pode ser chamada de coisa boa, e
resultado da justiça divina. Agora, quanto ao ataque dos zelotes contra o povo, eu o considero o princípio da destruição da cidade
— ele já havia sido explicado de maneira precisa; e também a respeito de quando ele surgiu, e quão grandes danos causou.
Todavia, quanto à presente sedição, ninguém deve subestimá-la se fosse chamada de sedição gerada por outra sedição, e de ser ela
como uma besta selvagem enlouquecida, e que, pela falta de alimento externo, passou a comer a própria carne (War 5.1.1).
E havia três facções traiçoeiras na cidade, uma tendo saído da outra. Eleazar e seu partido, que mantinham as primícias
sagradas, vieram contra João com seus golpes. Os que estavam com João saquearam as massas e se lançaram com zelo contra
Simão. Esse Simão detinha o suprimento de provisões da cidade, ao contrário dos sediciosos. (War 5.1.4).
Josefo lamenta o potencial destrutivo dessa facção tríplice: foi “sedição gerada por outra sedição, e de
ser ela como uma besta selvagem enlouquecida, e que, pela falta de alimento externo, passou a comer a
própria carne”. Ele considera a divisão em Jerusalém “o princípio da destruição da cidade”.
Como a profecia de João expressa:
E a grande cidade se dividiu em três partes, e caíram as cidades das nações. (Ap 16.19a)


A chuva de pedras de um talento
Como indiquei, o Apocalipse se desenrola como um processo judicial pactual contra Israel pelo
adultério espiritual contra Deus. Na lei divina, o adultério era punido com apedrejamento (Dt 22.21).
Isso não escapou da vista de João, pois ele escreveu:
Também desabou do céu sobre os homens grande saraivada, com pedras que pesavam cerca de um talento [gr., talantiaia]; e, por
causa do flagelo da chuva de pedras, os homens blasfemaram de Deus, porquanto o seu flagelo era sobremodo grande. (Ap 16.21)

Mais uma vez, Josefo nos fornece material histórico que ajuda a explicar a visão. Ele menciona o cerco
das catapultas romanas contra Jerusalém, salientando em especial o tamanho enorme das pedras (grifos
meus):
As máquinas preparadas por todas as legiões foram inventadas de modo admirável; no entanto, as mais extraordinárias pertenciam
à décima legião: elas lançavam pedras — sua capacidade e tamanho eram maiores que o restante. Por meio delas eles não só
repeliram as incursões dos judeus, mas expulsaram também os que se encontravam sobre as muralhas. Ora, as pedras lançadas
pesavam um talento [gr., talantiaia], e eram carregadas por mais de duzentos metros. Era impossível suportar a explosão causada
por elas, não apenas por quem ficava no caminho, mas também por quem estaria atrás deles, mesmo à distância. Quanto aos
judeus, eles observavam logo a trajetória da pedra, pois ela era branca; portanto, poderia ser percebida não apenas pelo grande
barulho que fazia, mas seria também notada de longe pelo brilho; por conseguinte, as sentinelas sobre as torres davam o alerta
quando o mecanismo era solto, e a pedra vinha, e gritavam na língua do povo: “Vem a pedra”, para que quem estivesse no caminho
dela saísse e se lançasse ao chão; ao agir assim, e proteger a si mesmos, a pedra caía e não os feria. Todavia, os romanos
resolveram evitar essa reação escurecendo a pedra, pois poderia ser mirada neles com sucesso: não sendo a pedra observada de
antemão, como antes, eles matavam muitos adversários com uma só explosão. (War 5.6.3)
Imagine a cena: Jerusalém cercada por catapultas que lançavam pedras brancas pesando um talento
[cerca de 30 kg] cada. Isso se encaixa incrivelmente bem com o retrato simbólico de João da destruição
como um granizo enorme. Os acontecimentos históricos se engrenam muito bem com o imaginário
impressionante. A interpretação histórica não é nem um pouco absurda.

O SANGUE CORRENDO E OS FREIOS DOS CAVALOS
Em Apocalipse 14.17-20, João registrou a visão do banho de sangue que sobreviria aos inimigos de
Deus:
Então, saiu do santuário, que se encontra no céu, outro anjo, tendo ele mesmo também uma foice afiada. Saiu ainda do altar outro
anjo, aquele que tem autoridade sobre o fogo, e falou em grande voz ao que tinha a foice afiada, dizendo: Toma a tua foice afiada e
ajunta os cachos da videira da terra, porquanto as suas uvas estão amadurecidas! Então, o anjo passou a sua foice na terra, e
vindimou a videira da terra, e lançou-a no grande lagar da cólera de Deus. E o lagar foi pisado fora da cidade, e correu sangue do
lagar até aos freios dos cavalos, numa extensão de mil e seiscentos estádios.
A Escritura muitas vezes usa o símbolo da vinha de Deus para representar Israel (Sl 80.8; Is 5.1-7;
Jr 2.21; 12.10; Ez 17.2,6; 19.1,10; Mt 21.33-40). João seguiu o mesmo padrão do Antigo Testamento aqui
no Apocalipse. Onde ficava esse lagar pisado “fora da cidade”? E como esse enorme fluxo de sangue
pode ser aplicado aos acontecimentos do ano 70 d.C.? Acreditamos que o sangue realmente correu por
1600 estádios (c. de 300 km), e sua altura chegava aos freios dos cavalos? São essas perguntas que
vamos considerar agora.

A distância do fluxo de sangue
Vimos acima que João define “a cidade” em Apocalipse como o lugar onde Cristo foi crucificado, isto é,
Jerusalém (Ap 11.8). Essa “ceifa” ocorre “na terra”, ou seja, na “terra” de Israel (Ap 14.15-19; cp.
Ap 1.7) no lugar em que Jesus foi crucificado: “fora da cidade” (Jo 19.20; cp. Hb 13.11-13). Tudo isso
se encaixa bem com o tema declarado de João (Ap 1.7). Curiosamente, o comprimento de Israel como
província romana era de 1664 estádios — da maneira registrada por João. Aprendemos isso com o
cristão do século III Antônio de Piacenza, que escreveu o Itenerarium, em que encontramos essa
dimensão. A imagem de João sugere que Israel sofrerá um banho de sangue que correrá por toda a terra.
Josefo registra que “todo o país pelo qual eles haviam fugido foi tomado pela carnificina” (War 4.7.6).

A profundidade do fluxo de sangue
A profundidade do sangue, claro, é fisicamente impossível como fato literal (pois o sangue coagula em
minutos quando exposto ao ar, e não poderia percorrer grandes distâncias em quantidades tão vastas).
Pode-se ver, no entanto, na guerra judaica acontecimentos que podem ser retratados de forma simbólica
como esse derramamento de sangue tão impressionante. Josefo menciona os cadáveres e o sangue
correndo em grandes volumes de água:
Todo o país pelo qual eles haviam fugido foi tomado pela carnificina e o Jordão não poderia ser atravessado, por causa dos corpos
mortos que estavam nele. (War 4.7.6)
Ele destaca que “o mar estava repleto de sangue por uma longa extensão” (War 3.9.3) e “seria possível
ver então o lago todo sanguinolento e cheio de cadáveres” (War 3.10.9).
Quando Josefo registrou a devastação final em Jerusalém, escreveu: “Sangue corria por todas as
partes mais baixas da cidade, desde o ponto mais alto” (War 4.1.10); “O exterior do templo estava todo
inundado com sangue” (War 4.5.1); “O sangue de todos os tipos de carcaças estava nos lagos e nos átrios
santos” (War 5.1.3); e “Vertia sangue de toda a cidade em tal nível que o incêndio de muitas casas foi
apagado com o sangue desses homens” (War 6.8.5).

O significado do fluxo de sangue
Assim, ao longo da história, a carnificina repleta de sangue estendeu-se não só através da extensão da
terra (1600 estádios ou c. de 300 km), mas também no mar. Isso se encaixa em outras imagens do
Apocalipse, como o mar virando sangue (Ap 8.8; 16.3). João vê isso como se o sangue corresse até
alcançar os freios dos cavalos. Seu imaginário é forte — e histórico. O Cordeiro que foi morto (Ap 5.5-
8,12) derrama a sua ira (Ap 6.16,17) sobre os que o crucificaram (Ap 1.7).

CONCLUSÃO
Ainda que o cumprimento do Apocalipse no século I surpreenda os evangélicos modernos, a evidência a
seu favor é muito ampla e convincente. Uma vez que nos desiludimos com a suposta abordagem literalista
do Apocalipse, estamos em uma posição melhor de entender o livro como João pretendia.
Embora as grandes imagens no Apocalipse não sejam literais, elas de fato retratam
acontecimentos históricos. Quando pesquisamos os registros históricos da guerra judaica, descobrimos
correspondências incríveis entre a simbologia de João e a realidade de Josefo. Apresentei só algumas
amostras ilustrativas, mas há muitas outras disponíveis. Os acontecimentos previstos por João abalaram
de fato judeus e cristãos do século I. Daí o uso que João fez de imagens que sacodem a terra.


6. O milênio e as ressurreições

Por fim, quando se chega ao final do Apocalipse, deixamos para trás muitas cenas de juízo para observar
assuntos mais gloriosos. Nos últimos dois capítulos de João, chegamos aos resultados finais dos juízos
de Deus. O Apocalipse não está totalmente entregue à ira e ao juízo.

O REINO MILENAR DE CRISTO
Nos capítulos anteriores, demonstrei que o Apocalipse se concentra em ocorrências que “devem
acontecer em breve” porque “o tempo está próximo”. Descobrimos que os juízos espetaculares do
Apocalipse retratam as catástrofes históricas conducentes ao ano 70 d.C. Ainda que não tenha sido
possível explorar o material com profundidade, acredito que pudemos perceber que os acontecimentos
históricos respeitantes à destruição de Jerusalém e do templo se encaixam com facilidade no imaginário
impressionante do Apocalipse.
No entanto, aproximamo-nos agora de algo que não parece se encaixar: Apocalipse 20 menciona
o reino de Cristo de mil anos. Como podemos afirmar que mil anos cobrem um curto período? Na
verdade, não precisamos fazê-lo. Pela própria natureza do caso, os mil anos não ocorrem “em breve”. Se
pudéssemos aplicar os mil anos a um período curto, então teríamos de perguntar: por que não inverter o
processo e aplicar a limitação temporal “próxima” para cobrir mil anos? Na verdade, em Apocalipse 20,
João vislumbra o futuro distante, além dos acontecimentos de curto prazo, para descobrir suas
consequências. Ainda assim, os mil anos começam no século I, de modo que o período milenar está
enraizado nas expectativas de curto prazo do Apocalipse. Em Apocalipse 20, João nos revela os
resultados a longo prazo dos juízos a curto prazo. O capítulo 20 estabelece os julgamentos do século I
no grande quadro histórico. Vejamos como devemos entender o reino milenar de Cristo.

OS MIL ANOS
Em Apocalipse 20, lemos sobre o reino milenar de Cristo: “Serão sacerdotes de Deus e de Cristo e
reinarão com ele os mil anos” (Ap 20.6b). Contudo, devemos perceber logo que, embora ela seja comum
nos debates escatológicos, a designação do reino de Cristo com a duração de mil anos é rara na
Escritura. De fato, ela só ocorre aqui, nessa única passagem no livro mais simbólico de toda a Escritura.
Isso deve nos alertar para a possibilidade de que o período de mil anos, em si, possa representar algo
maior e mais grandioso.

As imagens do Apocalipse
O Apocalipse está repleto de simbolismos notáveis. Vimos isso no primeiro capítulo; nele observamos
que João fala de gafanhotos com rostos de homem, dentes de leão, diademas de ouro e caudas como de
escorpião (Ap 9.6). Testemunhamos cavalos com cabeça de leão e cauda de serpente expelindo fogo e
fumaça (9.17). Fomos impressionados pelo dragão de sete cabeças com dez chifres e sete diademas, e
que consegue arrastar ao chão um terço das estrelas do céu (12.3,4). Sem dúvida, João não pretende que
tomemos o Apocalipse em sentido literal. Talvez isso seja verdade sobre os mil anos.

Valor simbólico
Quando pensamos no número “mil”, descobrimos que a Escritura usa várias vezes esse exato valor em
sentido simbólico. Ele representa consequências de longo alcance. A Bíblia nos informa de que Deus
mostra sua misericórdia para mil gerações (Êx 20.6) — o que não implica que a milésima primeira
geração não recebe misericórdia. O Senhor promete tornar a nação de Israel mil vezes mais numerosa
que nos tempos de Moisés (Dt 1.11) — o que não encerra um limite máximo para o potencial do seu
crescimento. O Senhor até reclama para si o gado de mil colinas (Sl 50.10) — mas, em nenhum lugar,
sugere que o gado dos outros milhões de colinas na terra pertençam a outra pessoa. Nem podemos
presumir que um dia nos átrios celestiais do Senhor é melhor que apenas mil (Sl 84.10) — mas nenhum
dia a mais. Com certeza não calcularíamos o tempo de forma gradual acumulando cansaço e desgaste
para Deus como se mil anos se tornassem um dia no tempo de Deus (2Pe 3.8), mas dois mil anos
dobrassem para dois dias o impacto sobre ele, e assim por diante. Nenhuma dessas afirmações deve ser
interpretada com literalidade; a cifra “mil” expressa resultados assombrosos, consequências
impressionantes de longo alcance, e não contabilidade numérica exata.
O emprego amplo do número “mil” na Escritura desencoraja a limitação desse valor à soma
bruta. Na verdade, o fato de mil ser um número tão redondo deveria, só por isso, indicar-nos que ele
significa algo maior. A expressão mil anos parece sugerir a perfeição quantitativa (10 x 10 x 10),
tornando-se figura de consequências enormes. Demonstrarei que os mil anos tiveram início no século I, já
consumiram dois mil anos do nosso tempo e ainda não acabaram.

A PRISÃO DE SATANÁS
Em Apocalipse 20.1-3, João abre a visão do reino de mil anos de Cristo associando-a à prisão de mil
anos de Satanás:
Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente,
que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse
as nações até se completarem os mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo.
Como observei acima, os mil anos começaram no século I, embora não sejam limitados a ele. O que essa
prisão de mil anos de Satanás representa? Qual é seu propósito? Quando ela começa? Em sentido
fundamental, essa imagem fala da redução do poder de Satanás feita por Cristo, no século I, para o
avanço do evangelho por todo o mundo.

A prisão de Satanás de declarada abertamente
O próprio Senhor Jesus Cristo afirmou prender Satanás durante seu ministério terreno. Em Mateus 12, os
fariseus o acusam de ser aliado de Satanás (v. 24). Jesus ressaltou o absurdo dessa alegação, pois a
expulsão de demônios realizada por ele consiste no oposto do que se esperaria de um aliado de Satanás
(v. 25-27). Em seguida, ele então os desafia a encarar a realidade:
Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós. Ou como pode alguém
entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo? E, então, lhe saqueará a casa. (v. 28,29)
Na passagem, ele declara sua vitória sobre Satanás, pois o “reino de Deus” vem nele. Ele define a
expulsão de demônios que ele faz mediante uma parábola que narra a prisão de Satanás: este é o homem
forte; Cristo é o intruso que pretende levar a propriedade de Satanás (os endemoninhados). Ele “primeiro
amarra o homem forte” antes que possa “saquear a sua casa”. O Senhor usa a mesma palavra grega
utilizada por João quando ele fala da “prisão”: deō. Mateus 12 faz um paralelo com Apocalipse 20.1-6,
ao mostrar a vitória de Cristo sobre Satanás enquanto traz o reino.
Esse paralelo de pensamento é confirmado em Apocalipse 1.6. Quando João abre o Apocalipse,
ele afirma que o reino de Cristo já havia iniciado e que seus discípulos já eram “sacerdotes” nesse reino:
E nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!
Seu “domínio” no século I inclui a prisão do maior inimigo do homem, Satanás. Isso é efetivamente o que
ele ensina em estilo simbólico em Apocalipse 20.2,6b:
Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos. […] [Eles] serão sacerdotes de Deus e
de Cristo e reinarão com ele os mil anos.
Sem dúvida, Apocalipse 1.6 requer que o reino de sacerdotes já exista e que o domínio de Cristo já tenha
começado. Essas realidades gloriosas não estão no futuro distante (embora elas se estendam até o futuro
e tenham consequências para ele).

A prisão de Satanás realizada com legalidade
Quando pensamos na prisão de Satanás, não devemos compreendê-la como uma restrição absoluta que o
torne de todo inoperante. Tomada em sentido literal, a imagem de Apocalipse 20 sugere isso, mas, na
verdade, ocorre algo mais.
Cristo amarra Satanás como um fato legal por meio de sua morte e ressurreição. Em João 12.31-
32, lemos a forte declaração de Cristo: Satanás “agora” foi “expulso” como resultado de sua obra de
redenção:
Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei
todos a mim mesmo.
Temos aqui os dois componentes fundamentais da prisão de Satanás no Apocalipse: o próprio Satanás
atingido em sentido negativo e o mundo libertado do domínio satânico. No Apocalipse, João expressa
esses temas da seguinte maneira:
Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, encerrou-o
e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos. (Ap 20.2,3)
Observamos a vitória legal de Cristo sobre Satanás também em outras referências do Novo Testamento.
Duas delas mencionam a perda do domínio sobre os homens:
Tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o
inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo,
triunfando deles na cruz. (Cl 2.14,15)
Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua
morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à
escravidão por toda a vida. (Hb 2.14,15)
O texto de Apocalipse 20 se encaixa no padrão de outras passagens do Novo Testamento (veja Lc 10.18;
Jo 16.11; 17.15; At 26.18; Rm 16.20; 1Jo 3.8; 4.3,4; 5.18).

A prisão de Satanás explicada em sentido redentor
A prisão de Satanás por mil anos não implica sua total inatividade, mas sim sua restrição e frustração.
Afinal, o próprio Jesus declarou ter “amarrado” Satanás em seu ministério terreno (Mt 12.29) — embora
Satanás continuasse (e ainda continua!) atuando entre os homens (p. ex., Ef 6.11,12; 1Pe 5.8; Tg 4.7b).
Com certeza, podemos esperar que o retrato bastante simbólico de João permita o mesmo tipo de prisão
— com a continuação do mesmo tipo de atividade satânica (restrita).
Para entender a prisão de Satanás, precisamos considerar mais uma vez o pano de fundo do
Antigo Testamento no Apocalipse. Antes da vinda de Cristo, lemos sobre o cuidado singular de Deus ao
favorecer Israel:
Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar
dentre todos os povos; porque toda a terra é minha. (Êx 19.5)
De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos escolhi. (Am 3.2a)

Nenhuma outra nação recebeu os benefícios do favor de Deus fluindo de tal relação, pois:
Mostra a sua palavra a Jacó, as suas leis e os seus preceitos, a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; todas ignoram os
seus preceitos. (Sl 147.19,20)
Como Paulo afirmou, a vantagem de Israel era:
Muita, sob todos os aspectos. Principalmente porque aos judeus foram confiados os oráculos de Deus. (Rm 3.2)
Como consequência, o resto do mundo estava sob o domínio de Satanás, que inspirava a adoração de
falsos deuses no Antigo Testamento. E, com essa situação, Satanás manteve cativas as nações antigas a si
mesmo por meio de temíveis ilusões. O estudante de história antiga está acostumado com a adoração
idólatra universal da época. Cada nação contava com um panteão próprio — os deuses favoritos
adorados por elas. Muitos dos mais exaltados deuses das várias civilizações são conhecidos até dos
leigos: Isis, Osíris e Rá, do Egito; Cibele (ou Mãe dos Deuses), da Anatólia; Dionísio, de Creta e da
Trácia; Atargatis, da Síria; Dagom, da Filístia; Assur, da Assíria; Marduque, da Babilônia; Baal e
Astarote, de Canaã; An, Ki e Enki, da Suméria; Zeus, da Grécia; e Júpiter, de Roma. Poderíamos
expandir a lista para incluir os deuses hititas, moabitas, fenícios, ferezeus, árabes, arameus, iranianos e
mais.
Todas as civilizações antigas contavam com deuses nacionais (demônios):
Porém cada nação fez ainda os seus próprios deuses nas cidades em que habitava, e os puseram nos santuários dos altos que os
samaritanos tinham feito. (2Rs 17.29)

Satanás reinava com grande poder enganador antes da era do Novo Testamento. Quando o diabo tentou
Jesus, aprendemos que Satanás:
Elevando-o, mostrou-lhe, num momento, todos os reinos do mundo. Disse-lhe o diabo: Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória
destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. (Lc 4.5,6)
Cristo não disputa a alegação de Satanás de domínio sobre o mundo naquela hora.
Com a vitória de Cristo na cruz e na ressurreição, isso mudou, pois Satanás foi “preso” para
“não mais enganar as nações” (Ap 20.3). Logo, Cristo autoriza a Grande Comissão para efetuar a
libertação de indivíduos e nações por meio da conversão. Ainda que Satanás pudesse tentá-lo, no começo
do seu ministério, ao dizer: “Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi
entregue” (Lc 4.6), agora Jesus declara em alta voz a nova situação:
Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do
Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. (Mt 28.18,19)
Por causa da vitória de Cristo, Paulo pôde afirmar:
Porque o Senhor assim no-lo determinou: Eu te constituí para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até aos confins da
terra. (At 13.47)
Cristo o comissionou ao serviço apostólico, declarando-lhe estar:
Livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da
potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé
em mim. (At 26.17,18)

Satanás está preso “para não mais enganar as nações”; Cristo afirmou deter “toda a autoridade” para que
ele “discipule as nações”. Qualquer gentio conhecedor de Cristo como Salvador é testemunho dessa
grandiosa verdade.

O REINO DE CRISTO
Embora o reino presente de Cristo já tenha sido mencionado antes, agora me concentrarei de modo mais
particular em sua chegada ao poder.

O anúncio do evangelho
Cristo anunciou sua autoridade régia no ministério terreno. Ele proclamou que o reino chegou por meio
de seu ministério, proibindo-nos de presumir que o reino aguarde sua segunda vinda no futuro distante.
Marcos 1.14,15 serve como poderosa abertura do evangelho de Marcos:
Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino
de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.

Isso estabelece o tom do seu ministério de pregação, cura e exorcismo.


Quando ele fica diante de Pilatos, perto do fim do ministério terreno, Pilatos exige que ele
responda se é rei ou não. A resposta do Senhor é de todo clara:
Então, lhe disse Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a
fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. (Jo 18.37)
Claro que seu reino não era um tipo de reino terreno, equipado com polícia e forças armadas:
O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não
fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (Jo 18.36)
Em vez de consistir em um reino geopolítico fazendo-se visivelmente presente e conhecido com força
política pela súbita conquista militar, trata-se de um reino redentor e espiritual, operando sua presença no
coração humano mediante a conquista gradual do evangelho:
Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível
aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós. (Lc 17.20,21)

Na sequência, ele explica o desenvolvimento progressivo do reino nas parábolas da semente de mostarda
e do fermento (Mt 13.31-33; cp. Mc 4.26-29).
Percebemos essa ideia do Rei e do reino entre os primeiros cristãos em Atos dos Apóstolos. Em
Atos 8.12, o evangelho do reino é declarado por Pedro:
Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo
batizados, assim homens como mulheres.
Paulo faz o mesmo no final de Atos:
Havendo-lhe eles marcado um dia, vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência. Então, desde a
manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto
pela lei de Moisés como pelos profetas. (At 28.23)

Já em Atos 17.7, as autoridades locais até reclamaram que os cristãos “procedem contra os decretos de
César, afirmando ser Jesus outro rei”.

Os paralelos do evangelho
Observei antes um paralelo forte entre Apocalipse 20.1-6 e Mateus 12.28, 29. Utilizarei a passagem de
Mateus mais uma vez para completar o meu argumento.
Como Apocalipse 20 menciona a prisão de Satanás (v. 1-3), também existe a menção ao reino de
Cristo. Nos versículos 4 e 6, João declara que os santos “reinarão com ele por mil anos”. Em
Mateus 12.29, Jesus retratou a prisão de Satanás em uma parábola. No versículo 28, ele apresentou o
reino chegando pela expulsão de demônios e a prisão de Satanás:
Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós.

A realidade do evangelho
De acordo com a teologia bíblica de salvação, os cristãos reinam neste momento e em espírito com
Cristo no reino. Como João ensina que os cristãos “reinarão com ele”, também Paulo o faz:
Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos
deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos
lugares celestiais em Cristo Jesus. (Ef 2.4-6)
Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor. (Cl 1.13)
Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a
morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus. (1Co 3.21-23)
Obviamente, o imaginário de João é mais impressionante que o de Paulo. Mas é isso o que devemos
esperar de uma obra literária como o Apocalipse. Ainda assim, como podemos ver, o conceito básico de
reinar neste momento com Cristo aparece de maneira não simbólica em outros lugares. Ele governa agora
com seu reino, e nós representamos o reino:
Da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e,
pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o
domínio pelos séculos dos séculos. Amém! (Ap 1.5,6)

AS DUAS RESSURREIÇÕES
Em Apocalipse 20, João menciona duas ressurreições associadas por ele ao reino do Senhor:
Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por
causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a
sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos
mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. (Ap 20.4,5)

Como já argumentei que o reino milenar de Cristo começa no século I, a que João se refere aqui?
Devemos esperar duas ressurreições corporais? Essas são perguntas importantes que distinguem os
pontos de vista preterista e futurista.

A ressurreição corporal
À medida que começamos a considerar a questão das duas ressurreições, enfrentamos um problema
potencial: caso o Apocalipse ensina duas ressurreições físicas, ele é o único lugar da Escritura que o faz.
Não só isso, ele também contradiria o testemunho bíblico coerente em outros lugares. No restante da
Escritura, encontramos apenas uma ressurreição geral de todos os mortos ao mesmo tempo.
O próprio Senhor ensinou que a ressurreição ocorrerá “no último dia”. Em João 6, ele o
declarou repetidas vezes, e então afirmou a mesma verdade em João 11.
E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último
dia. De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no
último dia. […] Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. […] Quem
comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. (Jo 6.39,44,54)
Eu sei, replicou Marta, que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia. (Jo 11.24)

O ensino do “último dia” é importante por tratar em especial da ressurreição dos crentes. A abordagem
popular dispensacionalista e futurista ao Apocalipse interpreta o capítulo 20 como se ele especificasse
duas ressurreições corporais distintas separadas por mil anos: a ressurreição dos crentes, no
arrebatamento, e então a ressurreição dos descrentes, no fim do reinado de Cristo dez séculos depois.
Infelizmente para esse ponto de vista, Jesus ensina que a ressurreição dos crentes ocorre “no último dia”
— não mil anos antes do último dia, mas no próprio fim. É interessante que ele o ensine no evangelho de
João — escrito pelo autor do Apocalipse. Sem dúvida, João não contradiria seu Senhor nos dois livros
que ele mesmo escreveu.
Ademais, o Novo Testamento ensina que todos os homens — crentes e também descrentes —
serão ressuscitados ao mesmo tempo. Isso serve como outra complicação para a abordagem futurista
popular, que distingue as (alegadas) duas ressurreições:
Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que
tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo. (Jo 5.28,29)
Devemos notar que isso ocorre na “hora” que está vindo, o que mostra simultaneidade. O versículo
também declara de forma expressa: “Todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz” naquela
“hora”. Não vejo nenhum modo de contornar a passagem para favorecer os dispensacionalistas. E, de
novo, isso foi escrito pelo autor do Apocalipse.
Paulo concorda com o ensino da ressurreição simultânea de todos os homens. Em Atos 24.15,
ele escreveu:
… tendo esperança em Deus, como também estes a têm, de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos.
Observe que ele mencionou a “ressurreição”, no singular, e que é a ressurreição “tanto de justos como de
injustos”.
Esse ensino coerente com outras passagens nos leva a supor que, no Apocalipse, João nos
informe da inexistência de duas ressurreições físicas. Mas o que ele ensina?
Pode-se suspeitar no início que João se refira aqui a uma verdade gloriosa ensinada em outras
partes da Escritura: a ressurreição espiritual que ocorre quando Deus salva pecadores mortos em
espírito, concedendo-lhes vida nova. Afinal, João — o autor do Apocalipse — registra o ensinamento de
Jesus sobre uma questão que se refere com clareza a esse tipo de distinção na ressurreição. De volta a
João 5.24-29, lê-se sobre duas ressurreições e uma disparidade entre os fiéis e infiéis:
Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a
ouvirem viverão. Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo. E lhe deu
autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem. Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham
nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal,
para a ressurreição do juízo.
A distinção feita aqui por Jesus envolve dois tipos de ressurreição: a que “já chegou” é a ressurreição
espiritual (levantar-se da morte espiritual para a vida espiritual em Cristo); a outra em que “vem a hora”
é a ressurreição física (levantar-se do túmulo para a vida física renovada).
A Escritura menciona de fato a salvação como uma espécie de ressurreição, a passagem do estado
de morte para o estado de vida:
Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo,
mas passou da morte para a vida. (Jo 5.24)
Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos
deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares
celestiais em Cristo Jesus. (Ef 2.4-6)
Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte.
(1Jo 3.14)
João poderia apresentar simbolicamente o novo nascimento como a primeira ressurreição e a
ressurreição corporal da morte como a segunda ressurreição. Esse é o ponto de vista agostiniano — o
conceito que eu sustentava quando escrevi a primeira edição deste livro. No entanto, daí em diante,
envolvi-me na análise mais aprofundada e focada de Apocalipse 20 e de como ela se encaixa na
narrativa mais ampla de João.
Considere a seguir as três maiores mudanças no meu entendimento. Esses três temas são
importantes no debate sobre o milênio, bem como sobre o fluxo e significado do Apocalipse.

Os temas impactados
Inicialmente, eu sustentei existirem dois grupos em foco em Apocalipse 20.4. Eu afirmava o conceito
agostiniano mais comum de que os mártires representavam os cristãos falecidos no céu (a igreja
triunfante), e que os confessores representavam os santos vivos na terra (a igreja militante). E juntos
esses dois grupos representavam todos os cristãos ao longo da história eclesiástica. Não aceito mais essa
interpretação.
Em segundo lugar, eu também sustentei antes que o fato de eles “viver[e]m e reinar[e]m com
Cristo” (Ap 20.4c) representava a experiência do novo nascimento, em que os cristãos ressurgem da
morte espiritual para se sentar com Cristo nos lugares celestiais. Ainda creio nessa posição doutrinária,
pois ela é ensinada em várias passagens das Escrituras (veja em especial Ef 2.1-6). Todavia, não
acredito que ela seja a posição exegética adequada aqui em Apocalipse 20. Em outras palavras, creio
agora que esse conceito seja boa teologia e exegese ruim — caso tentemos extraí-la de Apocalipse 20.
Em terceiro lugar, afirmei antes que a passagem “Os restantes dos mortos não reviveram até que
se completassem os mil anos” (Ap 20.5) apontava para a ressurreição corporal de todos os não salvos no
final da história como parte da ressurreição geral de todos os homens. Como cristão ortodoxo, creio,
naturalmente, que João ensine a ressurreição geral de todos os homens. Ele até mesmo a ensina em
Apocalipse 20. Mas agora creio que ele trate dela nos versículos 11-15.

O problema criado
No Apocalipse, João extrai imagens das Escrituras do Antigo Testamento — muitas vezes trabalhando,
reestruturando e reaplicando-as. Ele de fato escava as Escrituras à procura do material que poderá usar
para construir seu próprio mundo simbólico. Esse mundo simbólico apresenta, de modo principal, a
experiência judaico-cristã histórica e fantástica do século I que levou à destruição do templo em 70 d.C.
Uma característica do Apocalipse envolve sua gramática única, que não segue o padrão da
estrutura grega. Ao que parece, João assumiu de modo consciente o manto dos profetas clássicos (como
João Batista também o fez), e ao agir assim, imitou o hebraico dos antigos profetas da aliança, cujo
material adotou e reaplicou de forma sobeja. Vários estudiosos observam que os hebraísmos únicos de
João ocorrem com mais frequência no material visionário e não nas outras seções.[28]
Tudo isso foi feito de propósito; nada se deveu à incapacidade de João escrever em grego
(observe o nível linguístico de seu evangelho e das epístolas — mais próximos do padrão grego). Ele
está “se tornando” um profeta do Antigo Testamento para formular seu desafio à moda do Antigo
Testamento a Israel. Assim, João lida com Israel da mesma forma que Isaías (veja, em especial, Is 1),
Jeremias (Jr 2-3) e Ezequiel (Ez 2; 6; 16).

A explicação oferecida
As minhas três alterações aparecem em dois lugares no texto. Ainda que de aparência pequena, elas
comportam implicações radicais. Em minha opinião, o debate escatológico (os pontos de vista
“milenaristas”) não precisa chegar a Apocalipse 20. Seria melhor realizá-lo em outras partes da
Escritura — quase em todo o restante das Escrituras. O pós-milenarismo e amilenarismo sem dúvida
independem de Apocalipse 20, embora o dispensacionalismo e pré-milenarismo o façam em sentido
absoluto. De fato, o texto de Apocalipse 20, embora sirva como passagem fundamental do pré-
milenarismo e do dispensacionalismo, na verdade cria problemas insolúveis que minam esses sistemas.

Os dois serão um
João escreveu em Apocalipse 20.4b:
Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não
adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão.

Antes, minha afirmação era que esse texto apresentava dois grupos separados: mártires e confessores —
representantes de todos os cristãos na história, mortos ou vivos. Desse modo, eu considerava que eles
retratassem toda a igreja cristã ao longo da era cristã.
Agora creio que João concebia apenas um grupo: os mártires falecidos que não adoraram a besta. A
expressão “e aqueles” em grego é kai oitines. Esse pronome relativo pode servir tanto para separar
duas ideias quanto para detalhar uma ideia. Ou seja, em sentido gramatical, ele pode se referir a um
grupo ou a dois. Qual é o sentido aqui? Os estudiosos estão divididos.
Creio que ele se refira ao grupo precedente de pessoas e acrescente algumas informações
explicativas adicionais. Comecei a notar que em outros pontos do Apocalipse, João usa hostis para
explicar melhor o precedente. Por exemplo, em Apocalipse 1.12, ele se vira para ouvir a voz que (hetis)
falava com ele. Em Apocalipse 11.8, os corpos dos dois profetas estão na grande cidade, a cidade que
(hetis) é chamada em sentido místico Sodoma e Egito. Em Apocalipse 12.13, o dragão persegue a
mulher, a qual (hetis) dá à luz o filho. Em Apocalipse 19.2, Deus julga a grande prostituta, que (hetis)
corrompe a terra.
Então percebi que depois de ele ter visto “tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada
autoridade de julgar” (Ap 20.4a), João também observou “as almas dos decapitados”. Pelo fato de ter
visto almas nos tronos, e mencionar com especificidade pessoas decapitadas, e também, no contexto,
dizer que elas “viveram”, ele parece se referir com clareza apenas aos crentes mortos no céu. Mas isso
não é tudo.
Os entronizados não morreram apenas, eles foram mortos em circunstâncias específicas:
condenados judicialmente à morte: a decapitação consistia no padrão da pena capital — bem conhecida
no Império Romano (Mt 14.10). É significativo que esse imaginário se encaixe em toda a história anterior
do Apocalipse: a besta romana e a prostituta de Jerusalém estão embriagadas do sangue dos santos
(Ap 13.7; 17.6).
Além do mais, agora percebo que a estrutura de Apocalipse 20.4 é de fato a resposta à oração de
Apocalipse 6.9-11. Na verdade, o texto repete com clareza diversos pensamentos e palavras.
Apocalipse 6.9-11 menciona “as almas daqueles que tinham sido mortos”. Essas pessoas não caíram e
morreram apenas; elas foram mortas (esphagmenōn, Ap 6.9). E clamam a Deus para vingar [ekdikeis]
seu sangue “dos que habitam sobre a terra [tēs gēs]” (Ap 6.10). Apocalipse 20.4 e 6.9 são réplicas
baseadas em formulação replicada e paralelos fortes. Repare:
O paralelismo vocabular exato inclui eidon (“eu vi”), tas psychas (“as almas”), e dia (“porque”).
Além disso, as alusões claras são: ton esphagmenōn (“dos mortos”)[29] / ton pepelekismenōn (“dos
decapitados”) e ton logon tou theou (“a palavra de Deus”) / tēn martyrian (“o testemunho”).
Afirmo que essas duas passagens representam a promessa e o cumprimento. Em Apocalipse 6.9,
as almas encontram-se abaixo do altar celestial orando por vindicação e recebendo a promessa a ser
cumprida no tempo devido. No entanto, em Apocalipse 20.4, elas recebem de fato sua vindicação ao lhes
ser dado o direito de julgar seus inimigos (cp. Ap 19.2). Aos vitimados pelo terror terreno, os mártires
poderiam parecer terem sido mortos tragicamente e terem perdido a luta de forma total (cp. Ap 11.9,10;
13.7,15). Também poderia parecer em grande escala ao mundo que os mártires haviam perdido a batalha
e que os perseguidores vivos venceram. Todavia, João, de modo bem característico, apresente um
lampejo celestial, ao mostrá-los vivos e entronizados com Cristo.
Diz-se às “almas” junto ao altar em Apocalipse 6.11 que “repousassem ainda por pouco tempo”,
até que outros se juntem a elas no martírio, sendo “mortos como igualmente eles foram”. Como a vinda
em juízo de Cristo contra Israel em Apocalipse 19.11ss. (cp. Ap 6.12-17) resulta na glória de
Apocalipse 20.1-4, João parece declarar que por volta do ano 70 d.C., os mártires serão vingados no
prazo prometido de “pouco tempo” (chronon mikron, Ap 6.11; cp. Lc 8.7,8). Assim, o “viveram”, o
cumprimento da promessa feita a eles depois de sua entrada no céu (Ap 6.11), parece uma imagem de
sua vindicação na morte de seus oponentes em 70 d.C., e não no próprio momento em que os mártires
entram no céu. Isso é característico de João — mas sua obra é única em vários aspectos.

Apocalipse 20.4
… Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus…
… vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que
sustentavam. (Ap 6.9)

Deve-se reconhecer o alinhamento político entre Israel e Roma quando os judeus gritaram: “Não temos
rei, senão César!” (Jo 19.15c). Essa visão cumpre a promessa de Jesus:
… farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que
os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei. (Ap 3.9)

Esse cumprimento “há de vir” [mellouses erchesthai]” em breve, e ser experimentado ainda no século I,
pois ele “vem sem demora” para julgar (Ap 3.10,11). E apesar de eles precisarem esperar no início
“pouco tempo” (Ap 6.11) pela vingança, as consequências da vindicação que ocorreria em breve se
estenderão por um longo período: “os mil anos” (Ap 20.4). As ocorrências transcorridas na guerra
judaica (de 67-70 d.C.), em especial a destruição do templo, representam seu “galardão” (Ap 11.18; cp.
18.20; 19.1-3), enquanto seus inimigos são destruídos e seu reino triunfante e de longa duração tem início
de verdade.
Ora, tudo isso significa que os que se encontram sobre os tronos no milênio não são cristãos
vivos. Tampouco são eles apenas cristãos mortos. Nem são eles cristãos de todas as eras. Eles são
cristãos mortos e que se encontram no céu, tendo sido martirizados no século I. Esse é o ponto de João:
Mantenham a fé! Resistam aos opressores! Vocês serão grandemente recompensados no céu mesmo que
morram! Na verdade, é dessa maneira que ele apresenta seu livro: “Eu, João, irmão vosso e companheiro
na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus” (Ap 1.9a).
É claro que a recompensa no céu espera por todos os cristãos de todas as eras. No entanto, não é
esse o ponto de João aqui. Nós o aprendemos a partir da verdade extraída de outras passagens das
Escrituras. Aqui, em Apocalipse 20, ele fala a partir de um contexto particular ao completar o chamado
de longo prazo para aceitar o martírio em lugar de ceder à besta e ao falso profeta. Você se lembra de
como Hebreus adverte os judeus convertidos a Cristo para que não apostatem — em especial pelo fato de
a antiga aliança estar “antiquada e envelhecida” e “prestes a desaparecer” (Hb 8.13)? João faz o mesmo
aqui em Apocalipse, apenas de modo mais chamativo.
Assim, as duas primeiras alterações do meu entendimento de Apocalipse 20 são: agora percebo
apenas um grupo na visão; e esse grupo único envolve apenas os mártires do século I. João escreve uma
epístola peculiar que lida com questões históricas específicas: seu ensino expresso acerca da igreja
perseguida do século I e de seus dois perseguidores, Roma e Israel.

Os restantes dos mortos
Agora, tendo mudado meu ponto de vista sobre os ocupantes os tronos de Apocalipse 20.4, surge outro
tema: Quem são “os restantes [hoi lopoi] dos mortos” (Ap 20.5) contrapostos aos entronizados? Pelo fato
de Apocalipse 20.1-6 seguir-se a Apocalipse 19.11-21,[30] o contexto de João apresenta uma indicação
para entender “os restantes dos mortos” que “não reviveram até que se completassem os mil anos”
(Ap 20.5). Devemos interpretar esse grupo de forma contextual, nos termos do fluxo literário e da linha
histórica espetacular de João.
“Os restantes dos mortos” são apenas os outros mortos mencionados no contexto precedente.
Quem nós ouvimos morrer por último nessa narrativa de João? Apocalipse 19.19-21 responde:
E vi a besta e os reis da terra, com os seus exércitos, congregados para pelejarem contra aquele que estava montado no cavalo e
contra o seu exército. Mas a besta foi aprisionada, e com ela o falso profeta que, com os sinais feitos diante dela, seduziu aqueles que
receberam a marca da besta e eram os adoradores da sua imagem. Os dois foram lançados vivos dentro do lago de fogo que arde
com enxofre. Os restantes foram mortos com a espada que saía da boca daquele que estava montado no cavalo. E todas as aves se
fartaram das suas carnes.
“Os restantes” dos mortos consistem nos aliados à besta e a seu falso profeta do século I, os responsáveis
pela execução dos mártires. Em Apocalipse 19.20, a besta e o falso profeta são lançados de forma direta
e imediata no lago de fogo — o que acentua seu papel de liderança na oposição a Deus e a seu povo.
Todavia, “os restantes [ho lopi] foram mortos com a espada que saía da boca daquele que estava
montado no cavalo”. A besta é Nero (em pessoa), e o falso profeta é a aristocracia judaica ligada ao
sumo sacerdote; portanto, seus exércitos são seus apoiadores na perseguição e na guerra contra o
Cordeiro.
João encoraja a audiência do século I a resistir a seus atacantes. Esses inimigos contam com uma
vitória vazia: eles morrerão e jazerão presos nas trevas até a ressurreição, no fim da história. No entanto,
os mártires não só entrarão no céu e na bem-aventurança eterna, como também, depois da entrada no céu,
serão elevados e “reviverão” e começarão a reinar na presença de Deus e de Cristo.
Lembre-se de que Jesus morreu e foi ressuscitado, em seguida ascendeu ao céu e se assentou
vitorioso à direita de Deus. Ele foi vindicado em público de seus atormentadores no ano 70 d.C. Como
Jesus advertiu o sumo sacerdote e o sinédrio durante seu julgamento:
Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo
sobre as nuvens do céu. (Mt 26.64; cp. Mc 9.1)

Da mesma maneira, seus mártires fiéis também morrerão, ressurgirão para a nova vida, e experimentarão
a vindicação celestial. Assim, eles viverão de verdade na glória do triunfo e na vindicação celestial
enquanto seus perseguidores morrerão na ignomínia. Esse é ponto de João. Isso se encaixa com tudo que
foi dito antes.

7. A nova criação e a igreja

Em Apocalipse 21, lemos a visão de João dos novos céus e nova terra. Já aludi a isso no estudo sobre a
grande meretriz, quando ela se apõe à “noiva ataviada para o seu marido”. Mas devemos retornar a esse
tema e apresentar mais detalhes diretos sobre a nova criação:
Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova
Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. (Ap 21.1,2)

João apresenta a noiva do Senhor aqui como uma nova criação, um “novo céu e nova terra”, pois “o
primeiro céu e a primeira terra passaram” (Ap 21.1). Os cristãos ortodoxos creem que, no final da
história, nós literalmente entraremos nos novos céus e nova terra consumados, em corpos físicos
renovados pela ressurreição física. A figura de João da nova criação, porém, representa a realidade
presente que a ordem consumada em um momento futuro cumprirá, aperfeiçoará e substituirá. A
imagem de João é uma figura da salvação pela nova aliança vinda ao mundo no século I. Vejamos como
isso se dará.

A NOVA CRIAÇÃO DECLARADA
De Apocalipse 21.1 até 22.5, João descreve a noiva da nova criação. Assim, ele traça uma figura ideal
da fé cristã no tempo e na terra. A evidência da nova criação presente é a seguinte:

O prazo
A descrição da nova criação termina em Apocalipse 22.5. Logo após essa descrição, lê-se:
Disse-me ainda: Estas palavras são fiéis e verdadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou seu anjo para mostrar
aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer. (Ap 22.6)
Parece exegeticamente improvável a possibilidade de supor que a descrição antecedente se aplique, na
verdade, a uma realidade milhares de anos no futuro.

O fluxo do drama
Ao recordar uma vez mais os estudos passados, devemos nos lembrar de que João apresenta o divórcio e
a pena capital da mulher de Deus do Antigo Testamento nas cenas de juízo do Apocalipse. A grande
meretriz é destruída pelas sanções judiciais, deixando Deus sem esposa. Esperaríamos que, uma vez
punida a mulher infiel, ele tomaria sua nova noiva de imediato: por que Deus ficaria sem um povo na
história? Em outras palavras, esperamos que a ordem da Nova Jerusalém substitua logo a ordem da velha
Jerusalém, como a nova aliança suplantou de pronto a antiga aliança (Hb 8.13). A lacuna parece
irracional — em especial à luz do prazo declarado.

A linguagem da nova criação
De acordo com a afirmação anterior, a nova criação começa fluindo da história no século I e a
impactando, muito antes da ordem consumada. Mais uma vez, João utiliza uma imagem do Antigo
Testamento. Vamos comparar a declaração de João com a profecia de Isaías no Antigo Testamento a fim
de ver que Isaías é a fonte evidente da descrição dele.
Dada a predileção de João por material originário do Antigo Testamento, eu acho impossível
negar que essas declarações muito similares se referem ao mesmo fenômeno.

Isaías 65.17-19 Apocalipse 21.1, 4
Pois eis que eu crio novos céus e nova Vi novo céu e nova terra, pois o
terra; e não haverá lembrança das primeiro céu e a primeira terra
coisas passadas, jamais haverá passaram, e o mar já não existe... E
memória delas. Mas vós folgareis e lhes enxugará dos olhos toda lágrima,
exultareis perpetuamente no que eu e a morte já não existirá, já não haverá
crio; porque eis que crio para luto, nem pranto, nem dor, porque as
Jerusalém alegria e para o seu povo, primeiras coisas passaram.
regozijo. E exultarei por causa de
Jerusalém e me alegrarei no meu
povo, e nunca mais se ouvirá nela nem
voz de choro nem de clamor.

A primeira olhadela em qualquer uma das passagens inclina o leitor a supor que o escritor fale da ordem
eterna, perfeita e consumada. No entanto, as aparências enganam — pois nenhum cristão ortodoxo crê
que, na ordem eterna, alguém dará à luz filhos, experimentará pecados, envelhecerá, morrerá e suportará
a maldição. No entanto, o versículo seguinte de Isaías afirma:
Não haverá mais nela criança para viver poucos dias, nem velho que não cumpra os seus; porque morrer aos cem anos é morrer
ainda jovem, e quem pecar só aos cem anos será amaldiçoado. (Is 65.20)
Como entenderemos a descrição poética de Isaías da nova criação?
Isaías profetiza sobre a vinda de Cristo no reino da nova aliança, a era do evangelho, a era da
igreja. João desenvolve esse tema. Afinal, o próprio Paulo compara a salvação à nova criação — até
mesmo usando a linguagem de Isaías:
E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2Co 5.17)
Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e
eu, para o mundo. Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura. (Gl 6.14,15)
A declaração de Paulo: “as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” também combina de
modo íntimo com a afirmação de Deus em Apocalipse 21.1, 5:
Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. […] E aquele que está assentado
no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.

A DESCRIÇÃO DA NOVA NOIVA
Se essa nova noiva representa a igreja, o que todo esse imaginário impressionante e espetacular
significa? Dado o caráter impressionante do Apocalipse, João fala da igreja em termos elevados e ideais
por sua posição redentora com Deus. João apresenta seu repouso glorioso e seguro com base nas
promessas proféticas feitas para ela. Embora a igreja, no tempo de João, estivesse sob ataques
incessantes, João vê através da “neblina da guerra” e a visualiza como ela é diante de Deus, quase
fundindo as fases celestial e terrena da igreja.
A imagem por ele apresentada não é apenas simbólica, mas também estendida: ele olha para os
resultados finais da realidade presente da redenção. Essa visão estendida é comum na Escritura: por
exemplo, quando lemos sobre o “vinho” encontrado no “cacho de uvas” (Is 65.8). Sem dúvida,
encontram-se uvas nos cachos, não o vinho, o produto final. Mas a qualidade inerente da uva para
produzir vinho e o uso comum para isso permitem que o poeta veja o desenvolvimento do vinho por meio
do produto originário. João é capaz de observar na igreja histórica e perseguida do século I a beleza
pertencente a ela — por causa de sua origem celestial, bênção divina, promessas de redenção e glória
futura.

A ausência do mar
Vê-se em Apocalipse 21.1,2 a noiva da nova criação/nova Jerusalém descendo do céu, da parte de Deus.
Ela desce à terra em que não existe mar:
Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova
Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. (Ap 21.1,2)
A ausência do mar retrata o mundo em paz e harmonia, o mundo vencido pelo evangelho. Como a semente
de mostarda que cresce e se torna uma grande planta, também a igreja do século I implementará sua
mensagem de paz em todo o mundo. Não por causa de alguma intrusão nova no futuro distante, mas pelo
estabelecimento histórico no século I.
No Antigo Testamento, o mar em revolta serve como imagem do mundo incansável e rebelde
carregado com pecado:
Mas os perversos são como o mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo. (Is 57.20)[31]

Em Salmos 2.1, Davi usa a palavra que frequentemente se aplica a mares revoltosos:
Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?
O cristianismo oferece o oposto:
Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. (Rm 5.1)[32]

A AUSÊNCIA DE TEMPLO
Na visão de João da Jerusalém da nova criação não vê nenhum templo, algo tão conhecido do povo do
pacto de Deus desde o tempo de Salomão (950 a.C.). No início, João moldou a visão em termos do
tabernáculo:
Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão
povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. (Ap 21.3)
No fim, ele substituiu o imaginário do tabernáculo pelo do templo, mostrando que o templo físico não
será mais necessário:
Nela, não vi santuário [templo], porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro. (Ap 21.22)

Apesar de Deus ter estabelecido seu santo templo como ponto alto da adoração do povo da antiga
aliança, com a chegada da nova aliança, ele destituiu o sistema exterior do templo. A igreja-noiva é o
tabernáculo-templo de Deus (Ap 21.3) porque Deus habita nela, e nenhum templo literal é necessário
(Ap 21.22; cp. Ef 2.19-22; 1Co 3.16; 6.19; 2Co 6.16; 1Pe 2.5,9). A velha Jerusalém com o templo físico
“feito por mãos humanas” está passando à medida que a Nova Jerusalém-templo sem o templo a suplanta
(Hb 8.13; 9.11,24; 12.18-28). Isso chegou ao fim em 70 d.C.

A remoção do lamento
O Apocalipse promete sobre a noiva da nova criação:
E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras
coisas passaram. (Ap 21.4)
Na nova criação consumada, isso, é claro, virá à perfeita e plena fruição, quando entrarmos na bem-
aventurança eterna com os corpos ressurretos (Mt 25.34). Mas, na ordem presente da redenção da nova
criação baseada no evangelho, nós o experimentamos em princípio.
Quando enfrentamos a perda de uma pessoa querida na morte, “não nos entristecemos como os
demais, que não têm esperança” (1Ts 4.13). Para o cristão, a morte perdeu o “aguilhão” (1Co 15.55-58).
De fato, Tiago até instrui os cristãos:
… tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada,
produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes.
(Tg 1.2-4)
Paulo escreveu da prisão aos cristãos: “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fp 4.4) porque nós podemos
“tudo naquele que nos fortalece” (Fp 4.13).

A provisão da salvação plena e de graça
O Senhor Jesus falou de modo direto a João com uma palavra de salvação para todo o povo de Deus.
Essa provisão é assemelhada com água e comida da parte de Deus:
Disse-me ainda: Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da
água da vida. (Ap 21.6)
Então, me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua
praça, de uma e outra margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas
da árvore são para a cura dos povos. Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus
servos o servirão. (Ap 22.1-3)
Isso começou com muita clareza na ordem anterior à consumação presente, pois o Senhor informou a
mulher junto ao poço que ele lhe oferecia “água a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14). Ele conectou com
especificidade essa esperança gloriosa ao derramamento do Espírito no Pentecostes, ocorrido em Atos 2:
Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que
haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda
glorificado. (Jo 7.38,39)

Em João 6.33-35, nosso Senhor ensinou a multidão com respeito ao “pão da vida”:
Porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo. Então, lhe disseram: Senhor, dá-nos sempre desse pão. Declarou-
lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede.
Claro, tudo isso se torna perfeito e pleno na eternidade, mas começa entre o povo de Deus no século I e
continua mesmo agora. Não podemos negligenciar o fato de que o imaginário no Apocalipse que combina
com o do Evangelho de João é registrado pelo mesmo apóstolo: João. Os paralelos são impactantes; a
evidência das provisões atuais é irresistível.

A glória da noiva de Cristo, a igreja
O Apocalipse apresenta agora a gloriosa imagem que, em última instância, reflete nosso lar celestial
como igreja triunfante. Mais uma vez, no entanto, isso se aplica à igreja militante como ela aparece diante
dos olhos de Deus, mesmo enquanto ela existe na terra. João falou sobre a igreja em termos elevados:
Então, veio um dos sete anjos que têm as sete taças cheias dos últimos sete flagelos e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a
noiva, a esposa do Cordeiro; e me transportou, em espírito, até a uma grande e elevada montanha e me mostrou a santa cidade,
Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, a qual tem a glória de Deus. O seu fulgor era semelhante a uma pedra
preciosíssima, como pedra de jaspe cristalina. Tinha grande e alta muralha, doze portas, e, junto às portas, doze anjos, e, sobre elas,
nomes inscritos, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel. Três portas se achavam a leste, três, ao norte, três, ao sul, e
três, a oeste. A muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.
Aquele que falava comigo tinha por medida uma vara de ouro para medir a cidade, as suas portas e a sua muralha. A cidade é
quadrangular, de comprimento e largura iguais. E mediu a cidade com a vara até doze mil estádios. O seu comprimento, largura e
altura são iguais. Mediu também a sua muralha, cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, isto é, de anjo. A estrutura
da muralha é de jaspe; também a cidade é de ouro puro, semelhante a vidro límpido. Os fundamentos da muralha da cidade estão
adornados de toda espécie de pedras preciosas. O primeiro fundamento é de jaspe; o segundo, de safira; o terceiro, de calcedônia;
o quarto, de esmeralda; o quinto, de sardônio; o sexto, de sárdio; o sétimo, de crisólito; o oitavo, de berilo; o nono, de topázio; o
décimo, de crisópraso; o undécimo, de jacinto; e o duodécimo, de ametista. As doze portas são doze pérolas, e cada uma dessas
portas, de uma só pérola. A praça da cidade é de ouro puro, como vidro transparente. (Ap 21.9-21)
Vou extrair vários elementos dessa descrição extensa e refletir sobre eles, mostrando sua realidade
contemporânea. Embora João os apresente de forma ideal, eles existem em princípio espiritual no
presente — como o Novo Testamento mostra em outros lugares.

A igreja: luz
A noiva de Cristo esplende como luz na terra (Ap 21.11,23). De fato, esse é seu chamado por Deus.
Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la
debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos
homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (Mt 5.14-16)
Porque o Senhor assim no-lo determinou: Eu te constituí para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até aos confins da
terra. (At 13.47)
Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que
comunhão, da luz com as trevas? (2Co 6.14)
Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (porque o fruto da luz consiste em toda
bondade, e justiça, e verdade). (Ef 5.8,9)

A igreja: valiosa
O Apocalipse representa a igreja como tão preciosa para Deus quanto ouro e joias de valor (Ap 21.19-
21). Isso também se apoia na revelação do Novo Testamento com respeito à sua posição aos olhos de
Deus, pois os cristãos executam obras do evangelho que glorificam o nome de Deus e exercitam a fé que
reflete o valor da igreja diante de Deus.
Contudo, se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas… (1Co 3.12)
Para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde
em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo. (1Pe 1.7)
Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos,
como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais
agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e
preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado. Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade;
mas, para os descrentes, A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular. (1Pe 2.4-7)

A igreja: segura
A noiva de Cristo não foi deixada em condições insalubres, indefesa no mundo agonizante, incerta do
futuro. Antes, ela conta com um fundamento seguro e muralhas impenetráveis em Cristo (Ap 21.12-21).
Isaías profetizou o futuro glorioso da igreja, apesar de as crises correntes do Israel literal em seus dias:
Naquele dia, se entoará este cântico na terra de Judá: Temos uma cidade forte; Deus lhe põe a salvação por muros e baluartes.
(Is 26.1)
Nunca mais se ouvirá de violência na tua terra, de desolação ou ruínas, nos teus limites; mas aos teus muros chamarás Salvação, e
às tuas portas, Louvor. (Is 60.18)
Quando Jesus estabeleceu a era da nova aliança da igreja, salientou sua estabilidade:
Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra
ela. (Mt 16.18)
Isso porque seu fundamento definitivo está em Cristo:
Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. (At 4.11)
Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada
um veja como edifica. Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo. (1Co 3.10,11)
Paulo ilustrou bem isso para os efésios:
Vós […] sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra
angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais
sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Ef 2.19-22)

A igreja: influente
Por causa das provisões de Deus para sua noiva, da glória dela diante dele, e do fundamento seguro dela,
ele lhe prometeu grande influência no mundo (Ap 21.16). Ela será “exaltada sobre os montes” para que
“todos os povos afluam” a ela (Is 2.2-4). Será como o renovo pequeno que cresce até se tornar um alto e
grande cedro que oferece sombra e proteção (Ez 17.22-24), ou um rio crescente que sai de Deus e inunda
o mundo (Ez 47.1-11); uma rocha que se torna uma montanha e vence toda a oposição (Dn 2.31-35); uma
semente de mostarda que cresce para grandes proporções, e o fermento que leveda tudo (Mt 13.31-33).
Por causa dessas promessas proféticas, o Senhor a comissiona, com base em sua autoridade universal, a
fim de “fazer discípulos” (Mt 28.18-20), pois “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse
o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.17).

A igreja: médica
A influência dela entre as nações trará cura (removendo a maldição), salvação e luz:
No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em
mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos. Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do
Cordeiro. Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele. Então, já não haverá noite, nem
precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos.
(Ap 22.2-5)

Aprendemos na Escritura que Cristo inaugura essas bênçãos da nova aliança no ministério terreno. Isaías
profetizou que o Messias traria cura salvadora às nações (Is 53.5). Quando Jesus veio no século I, ele
veio para curar (1Pe 2.24) e para libertar os homens do cativeiro (Lc 4.18; Jo 8.34-36; At 26.18;
Rm 6.6,18,22; Gl 5.1) e da maldição (Rm 5.21; 7.24,25; Gl 3.10-13).

CONCLUSÃO
Provavelmente, as duas imagens mais conhecidas do Apocalipse são a besta, que ameaça com um mal
terrível sobre os homens, e o milênio, que promete grandes bênçãos de Cristo. Neste capítulo, comecei
focando no reino milenar de Cristo, e então considerei a nova criação. Ambas são promessas gloriosas
do Apocalipse.
Notei que o “reinado de mil anos de Cristo” é símbolo do reino redentor e expandido de Cristo.
Ele começa no século I, quando Cristo é exaltado à mão direita de Deus, e continua até o segundo
advento. Seu reino inclui a prisão de Satanás para que o evangelho tenha eficácia mundial. Em vez de ser
um reino político a impor um regime burocrático em um mundo recalcitrante, seu reino é uma obra
espiritual de redenção no coração e na vida dos homens. Um aspecto espiritual glorioso desse reino
redentor é o poder do evangelho de tirar homens do estado de morte espiritual para a vida eterna. João
apresenta isso como ressurreição — não apenas em Apocalipse 20, mas em outros lugares dos seus
escritos.
Seguindo a revelação do reino milenar, João pintou uma gloriosa figura da redenção efetuada
por Cristo: ela tem início como princípio de semente, a nova criação, a qual, em última instância, resulta
na ordem consumada, plena, perfeita e eterna. João apresenta a igreja de Jesus Cristo em uma forma ideal
e eficácia estendida, subjugando seus inimigos. Sua ordem de salvação vence a condição pecaminosa do
homem e estabelece um lar para os santos na história, com vistas à conquista histórica do coração dos
homens caídos.
Embora esses aspectos do Apocalipse sejam gloriosos, eles não são muito compreendidos na
comunidade evangélica moderna. Porém, quando examinamos os paralelos bíblicos, encontramos
evidência ampla de seu início no século I. O ponto de vista preterista — requerido pelos indicadores de
curto prazo de João — provê um entendimento coerente do governo de Cristo sobre seus inimigos e sua
igreja.
Conclusão

No curso do nosso estudo, apresentei materiais fundamentais para ler e entender o Apocalipse. Pelo fato
de esses princípios e insights não serem muito compreendidos pelos evangélicos modernos, o livro de
Apocalipse é em grande medida mal compreendido. Ele permanece um livro selado para a igreja
contemporânea, ao contrário da diretiva angélica de que ele não deveria ser selado (Ap 22.10)!

P RINCÍPIOS BÁSICOS
Nos capítulos 1 e 2, apresentei os princípios básicos que nos devem guiar no entendimento do
Apocalipse. O leitor atual deve compreender que João declara com franqueza que os acontecimentos
descritos nele “devem acontecer em breve” (Ap 1.1; 22.6), pois “o tempo está próximo” (1.3; 22.10).
Qualquer abordagem ao Apocalipse que tente projetar as profecias para o futuro distante, milhares de
anos depois, contradiz de modo expresso as afirmações da abertura e do encerramento de João.
Ademais, deve-se perceber que João apresenta suas profecias em forma simbólica: elas são
“enviadas e notificadas [lit., ‘significadas’]” (Ap 1.1). Além da afirmação direta de João na abertura,
aprendemos de duas maneiras que suas profecias não podem ser interpretadas com literalidade: 1) Na
primeira visão, ele mostra que as imagens representam algo além de si mesmas. As sete estrelas
representam “os anjos das sete igrejas” e os sete candeeiros representam “as sete igrejas”. Ele continua a
fornecer mais exemplos com frequência regular (p. ex., 5.6, 8; 17.9,10, 12, 15). 2) Muitas imagens seriam
absurdas se fossem tomadas em sentido literal. Imagens como a besta de sete cabeças (13.1), gafanhotos
com rostos de homem (9.7), uma mulher alada em pé sobre a lua (12.1), uma prostituta embriagada com
sangue (17.6) e mais.
Também devemos nos recordar do tema apresentado por João. Em Apocalipse 1.7, ele declara
que Cristo vem para julgar os responsáveis por sua crucificação, as tribos da terra:
Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. (cp.
At 2.22,23,36; 3.13-15a; 4.10; 5.28,30; 7.52; 10.39; 13.27-29; 26.10)
Essa afirmação temática foi extraída do pronunciamento de Cristo no sermão do Monte, proferido quando
da sua partida cerimonial e impressionante do templo (Mt 23.37-24.1):
Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre
as nuvens do céu, com poder e muita glória. (Mt 24.30)

Curiosamente, a afirmação de Cristo também está ligada à sua geração, como ocorre com a de João:
Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça. (Mt 24.34).
Enquanto delineamos o desdobramento do tema do Apocalipse, aprendemos que João apresenta um
drama forense em que Deus, judicialmente, divorcia-se da mulher da antiga aliança (Israel) a fim de
tomar uma nova esposa. A visão principal tem início com Deus assentado em seu trono (Ap 4.2). Por
todo o Apocalipse, João apresenta Deus como “aquele que está assentado no trono” (4.2,3,9,10; 5.13;
6.16; 7.10,15; 19.4; 21.5). De lá, Deus despacha um mandado de divórcio (5.1), o qual Cristo toma (5.7)
e abre (6.1). Quando o rolo do divórcio é aberto, testemunhamos a pena capital contra Israel por
infidelidade matrimonial (6.1-19.2, com interlúdios), pois ela aparece como meretriz (17.1,5,15; 19.2).
Então, vemos uma nova noiva (a igreja) descendo do céu para substitui-la (21.2). Ela é a “Nova
Jerusalém” que assume o lugar da velha Jerusalém (21.2); ela não mais precisa de um templo, porque
Cristo traz a presença de Deus ao povo (21.22).

P ERSONAGENS E AÇÕES PRINCIPAIS
No curso do drama, João aponta uma besta do mar, que representa o Império Romano e, em particular,
Nero César, o primeiro perseguidor romano contra a igreja (Ap 13.1ss). A esposa infiel de Deus,
Jerusalém/Israel, alia-se com Roma contra Cristo e contra seus seguidores: ela é como uma meretriz
assentada sobre a besta (17.3, 7). Isso se baseia na deferência de Israel a César ao rejeitar Cristo e seus
seguidores (cp. Jo 19.12,15; At 17.7; cp. At 4.27; 16.20; 18.12; 21.11; 24.1-9; 25.1,2).
Ao ilustrar a ocorrência desses acontecimentos no século I, mostramos que os julgamentos
esquematizados de modo apocalíptico podem ser aplicados com facilidade à destruição de Jerusalém no
século I, na guerra judaica contra Roma. Expusemos amostras documentais dos juízos históricos a partir
dos escritos do historiador judeu do século I, Josefo.
Por último, apresentamos os resultados da turbulência ao redor do divórcio contra Israel, no
século I, como povo de Deus. A ordem final foi estabelecida: o reino de Cristo. Isso aparece sob a
imagem do reinado de mil anos sobre o mundo (Ap 20.1-6; cp. 1.6; 5.10) e como uma intrusão dos
princípios da nova criação do reino da salvação (21.1; cf. Is 65.17-20; 2Co 5.17; 6.15). Com a antiga
aliança concluída, a nova aliança traz a presença direta de Deus (em contraste com a presença baseada
no templo) e a ordem final de redenção. O cristianismo está aqui para ficar.

CONCORDÂNCIA DO NOVO TESTAMENTO
Em sentido básico, o Apocalipse é uma apresentação espantosa de alguns temas básicos desvendados no
Novo Testamento. Eles são a vinda da nova aliança como ordem final de redenção, que aparece em
Cristo, e o perecimento da ordem (o sistema do templo) e do povo (Israel) da antiga aliança, pela
rejeição de Cristo e da nova ordem. Esses temas corolários são exibidos de modo sobejo no Novo
Testamento.
Os Evangelhos Sinóticos registram que, quando a aparição de Cristo é anunciada pela primeira
vez, os gentios “vêm adorá-lo”, embora “toda a Jerusalém” estivesse “alarmada” (Mt 2.1-3). Quando
Cristo inaugura seu ministério, declara que o reino da nova aliança “está próximo” (Mc 1.15). Contudo,
por causa da sua vinda e da nova ordem que ela representa, o pano velho de Israel não pode ser
remendado para se adaptar; o odre velho das restrições de Israel e do culto baseado no templo não
poderá lhes conter as glórias: novos odres serão necessários (Mt 9.16,17). Embora Jesus concentre seu
ministério terreno em Israel (Mt 10.6; 15.24), ele avisa os discípulos de que Israel, por fim, o rejeitará
(Mt 16.21; 20.18) ao persegui-los (Mt 10.16,17; 23.34-37), até que ele venha em juízo (Mt 10.23; 17.22;
20.18; 24.2,16,30-34). Como os israelitas não reconheceram o Messias e sua mensagem (Mt 23.38;
Lc 19.42,44), serão julgados, e o reino será dado aos gentios (Mt 8.10-12; Lc 19.41-44; 21.20-24).
Várias das últimas ações e parábolas de Jesus estão relacionadas com Jerusalém e dizem
respeito à rejeição de Israel e do seu juízo consequente. A purificação que o Senhor fez no templo foi
uma profecia representativa (chamada “encenação profética” pelos acadêmicos bíblicos) da demolição
do templo, transformada em covil de salteadores (Mt 21.12,13). Assim também foi sua maldição contra a
figueira estéril, representação de Israel (Mt 21.18-20). Marcos até entrelaça a purificação do templo e a
maldição da figueira para mostrar que ambas estão conectadas (Mc 11.11-24). A parábola dos lavradores
mostra que Deus repetidas vezes procurou Israel por meio dos profetas, apenas para ser rejeitado quando
mataram seu Filho (Mt 21.33-45). Por causa disso, “o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um
povo que lhe produza os respectivos frutos” (Mt 21.43).
O chamado de Deus a Israel para si mesmo é comparado a um convite de festa de casamento
rejeitado, resultando na cólera do rei que lhes destrói a cidade (Mt 22.1-14). Cristo denuncia com
veemência os fariseus como quem continua a rebelião iniciada pelos antepassados (Mt 23.1-32). Isso
resultará no fato de eles perseguirem os seguidores de Jesus e no juízo iminente no ano 70 d.C.
(Mt 23.33-36). Como resultado dessa palavra final a Israel, Jesus lamenta a rejeição deles (Mt 23.37),
abandona o templo, deixando-o “desolado” (Mt 23.38; 24.1), e então profetiza a destruição do templo
(Mt 24.2) e a desolação de Jerusalém (Mt 24.16ss.; Lc 21.20-24) durante a geração do século I
(Mt 24.34). Como consequência da infidelidade e rejeição de Israel, Jesus estabelece a grande comissão
que conduzirá ao batismo e discipulado das “nações” (Mt 28.18-20).
O Evangelho de João nos informa que Cristo veio para o seus, mas eles não o receberam (Jo
1.1). De fato, eles pertenciam a “vosso pai, o diabo” (Jo 8.44; Ap 2.9; 3.9) e o rejeitaram ao preferirem
César (Jo 19.12,15). Como consequência, vem o momento em que o templo será desnecessário (Jo 4.23;
Mt 12.6). Isso resultará em bênçãos abundantes para todo o mundo dos homens (Jo 3.17; 12.31,32).
Em Atos dos Apóstolos, traçamos o movimento do evangelho de Jerusalém para as partes mais
remotas do mundo daqueles dias (At 1.8). Embora a igreja apostólica no início ganhe convertidos de
Israel (At 2.41; 4.4; 6.7), ela deve sair de lá mais tarde e seguir até os gentios (At 13.46; 18.6).
Descobrimos que a razão disso em Atos é quase um registro da perseguição incessante dos judeus contra
o cristianismo (At 4.1-3,15-18; 5.17,18,27-33,40; 6.12-15; 7.54-60; 8.1; 9.1-4,13,21,23,29; 12.1-3;
13.45-50; 14.2-5,19; 17.5-8,13; 18.6,12,17; 20.3,19; 21.11,27-32; 22.3-5,22,23; 23.12,20,21; 24.5-9,27;
25.2-15,24; 26.21; 28.17-29). A igreja apostólica declara repetidas vezes a responsabilidade de Israel
pela morte de Cristo (At 2.22,23,36; 3.13-15a; 4.10; 5.28,30; 7.52; 10.39; 13.27-29; 26.10).
Ainda que eu não vá tomar o espaço necessário para traçar esses temas em outras porções do
Novo Testamento, destacarei com brevidade que a antiga aliança passa e a nova aliança a substitui
(2Co 3; Hb 8.13; 12.22-29). Em Apocalipse, João pega esses temas e os apresenta em um formato
judicial de drama. O cristianismo da nova aliança é o novo modo de se aproximar de Deus; Israel foi
rejeitado como o povo favorecido por Deus.
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[1] No momento trabalho em um comentário acadêmico extenso sobre o Apocalipse, cujo título provisório é: The Divorce of Israel: A
Redemptive-Historical Interpretation of the Book of Revelation. Nele, apresentarei um comentário versículo por versículo e a análise
completa do livro.
[2] Ramsey, Letters to the Seven Churches, cap. 15.
[3] Hemer, Letters to the Seven Churches of Asia.
[4] Revelation, p. 96.
[5] Revelation, p. 65.
[6] Literalmente: “um tipo de Benedict Arnold”. Arnold foi um general dos EUA que passou para o lado britânico na Revolução Americana.
[N. do T.]
[7] Organização de C. Marvin Pate (Michigan: Zondervan, 1998) [Lançado em português com o título: As interpretações do Apocalipse: 4
pontos de vista (São Paulo: Vida, 2003).] Meu comentário completo sobre o Apocalipse proverá muitas citações não apenas de Josefo, mas
de outros escritos judaicos antigos, como os apócrifos, os pseudepigráficos do Antigo Testamento, a Mishná, a Toseftá, o Talmude e outros.
Meus argumentos sobre o Apocalipse são confirmados de forma sobeja nesses documentos antigos.
[8] A tradução inglesa mais comum das guerras de Josefo encontra-se em: The Works of Flavius Josephus, traduzida por William Whiston
no começo do século XVIII. (Foi publicada em dez volumes compactos pela Harvard University Press em 1939.) Uma versão técnica e
moderna é encontrada na edição bilíngue da Loeb’s Classical Library, que fornece não só uma tradução mais nova, mas também notas textuais
críticas. O texto grego aparece nas páginas pares, e a tradução inglesa nas páginas ímpares.
[9] Veja Kenneth L. Gentry Jr., “The Historical Problem with Hyper-Preterism”, in: Keith A. Mathison, When Shall These Things Be?
Reformed Response to Hyper-Preterism (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 2004), cap. 1.
[10] Young, Young’s Literal Translation, 167.
[11] Marshal, Interlinear Greek-English, 956.
[12] Os dicionários gregos principais de nossos dias notam que kai (“e”) é com frequência “explicativo, isto é, uma palavra ou cláusula é
conectada pelo kai com outra palavra ou cláusula com o propósito de explicar o que vem antes, e portanto, isto é, a saber”. Gingrich,
Lexicon, p. 495.
[13] Learsi, Israel, p. 178.
[14] Na verdade, ela recebe breve alusão em Ap 11.7, mas só em antecipação de sua revelação posterior e maior.
[15] Revelation 8-22, p. 158.
[16] Suetônio, Nero, 33-35. Veja também Dião, Hist. Rom. 61.1,2; Asc. Isa. 4.1; Or. Sib. 5.30; 12.82.
[17] Harvey, Oxford Companion, p. 287.
[18] Smallwood, Documents, 52 (#145).
[19] Dião, Hist Rom.. 62.5.2.
[20] Essa suposição é baseada nesse livro bastante hebraico. João emprega um rico leque de imagens judaicas (p. ex., as duas oliveiras de
Zacarias, Ap 11.4; Moisés e Elias, Ap 11.6; 15.3), menciona nomes de lugares judaicos (Ap 16.16; 21.2), e até apresenta a tradução grega de
palavras em hebraico (Ap 9.11; cp. 16.16).
[21] Hillers, “Revelation 13:18”, p. 65.
[22] Dictionary of the Targumim. Veja Charles, Revelation 1:367. Benoit, et. al, Les Grottes.
[23] B. C. Birch, “Number,” in: Geoffrey W. Bromiley (org.), The International Standard Bible Encyclopedia (2. ed.: Grand Rapids:
Eerdmans, 1982), vol. 3, p. 561.
[24] Biblical Commentaries, vol. 1, p. 138-9.
[25] Devemos nos lembrar de que o anjo intérprete já nos informou que as sete cabeças representam as duas coisas ao mesmo tempo (Ap
17.9,10).
[26] Crossan, Who Killed Jesus?. Veja também: Cohn-Sherbok, The Crucified Jew, esp. p. 12.
[27] Meu comentário futuro lidará com o Apocalipse em detalhes: The Divorce of Israel: A Redemptive-Historical Interpretation of the
Book of Revelation.
[28] Por exemplo, Vern S. Poythress, “Johannine Authorship and the Use of Intersentence Conjunctions in the Book of Revelation”,
Westminster Theological Journal 47 (1985): 329-36. Veja também J. P. M. Sweet, Revelation (Philadelphia: Westminster, 1979), p. 16.
[29] Esphagmenōn implica uma morte violenta, com que a imagem de decapitação combina bem. Trata-se da mesma palavra grega que
descreve o Cordeiro “que havia sido morto”.
[30] Em meu comentário demonstrarei que Ap 20 não recapitula Ap 19.11ss. O texto de Ap 20 resulta da ação do juízo de Cristo em
Ap 19.11ss. (que diz respeito ao ano 70 d.C.).
[31] Cp. Is 8.7ss.; 23.10; Jr 6.23; 46.7; Ez 9.10.
[32] Cp. Lc 2.14; Ef 2.12ss.; Fp 4.7,9.