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Isabel Cristina Couto 225

Olhares da cidade: Curitiba e


suas representações

Isabel Cristina Couto (Mestre)


Curso de História - Universidade Tuiuti do Paraná

Tuiuti: Ciência e Cultura, n. 28, FCHLA 04, p. 225-247, Curitiba, mar. 2002
226 Olhares da cidade: Curitiba e suas representações

Resumo
O objetivo do trabalho foi o de analisar as formas de representações da cidade de Curitiba. Essa pesquisa parte
da premissa de que nos anos 90 do século XX, a cidade havia alcançado um status privilegiado se comparado a
outras metrópoles brasileiras, ou seja, havia sido escolhida como uma das melhores cidades do Brasil para se
viver. Para isso, efetuamos uma análise sobre o desenvolvimento urbano, os planos de urbanização e a sua
dinâmica, destacando principalmente a implantação do Plano Diretor de 1966, que privilegiou o desenvolvimen-
to integrado como um todo. Acrescentado a esse discurso do planejamento, dos anos 70 em diante, percebemos
a influência decisiva dos imigrantes europeus que são destacados dentro dessas políticas (quando o estado criou
espaços pré-determinados para as etnias e os incorporou à dinâmica da cidade). A modernização de Curitiba
feita a partir dos planos urbanização, deram a ela ares que foram fundamentais na efetivação do discurso sobre a
Curitiba de todas as etnias e da cidade que deu certo.

Palavras-chave: cidade, modernização, urbanização, Curitiba, planejamento.

Abstract
The objective of this paper was to analyze the representations forms of the city of Curitiba. The research holds
the premise that in the nineties of the twentieth century, the city had reached a privileged status when compared to
otehr Brazilian metropolises, that is, it had been cosen as one of the best brazilian cities to live in. Therefore, we
analyzed the urban development, the urbanization plans and their dynamics, mainly focusing on the implamentation
of the 1966 master plan that privileged the integrated development as a whole. From the seventies on, adding to
the speech on planning, we noticed the decisive influence of european imigrants who whe highlighted in those
politics (when the state set previously determined spaces for the ethnic groups and incorporated them to the city
dynamics). The modernization of Curitiba developed from the urbanization plans, which lent it the looks that
were fundamental to the materialization of the speech about a Curitiba of different ethnic groups and of a city
that worked out.
Key words: city, modernization, urbanization, Curitiba, planning.

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Modelo espacial, social e cultural, a cidade apresenta-se,


não raras vezes, como o território privilegiado da utopia.
Annateresa Fabris, 2000

Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete


aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e
transformação das coisas em redor - mas ao mesmo tempo
ameaça destruir tudo o que temos, o que sabemos, tudo o
que somos. (...) Ser moderno é fazer parte de um
universo no qual, como disse Marx, tudo
o que sólido desmancha no ar.
Marshall Berman, 1982

Introdução

Nos anos 90, Curitiba colhia os louros de ser con-


siderada uma das melhores cidades do mundo para
se viver e uma das únicas no Brasil que se elevavam à
condição de cidade de primeiro mundo. Apresentava
muitas expressões que a caracterizavam, tais como,
Capital Ecológica, Cidade Laboratório e Cidade Modelo.
Vários artigos foram publicados a respeito, desta-
cando o seu sucesso por ser considerada, um sinal de
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esperança em um mundo ameaçado pela desordem O objetivo desse texto é o de entender como se
e pelo caos urbano (Veja, 31.03.93, p.69). A exaltação configurou o processo de desenvolvimento e de mo-
que era dada à cidade se referia principalmente aos dernização da cidade, que culminou em sua trans-
programas criados por Jaime Lerner (a maioria em formação em capital referência dos anos 90.
sua última gestão como prefeito), como o Lixo que
não é Lixo, a eficiência dos transportes de massa, e a Cidades: o que são e como podem ser
abolição dos conjuntos habitacionais padronizados. definidas
A sua fama era a de que ela não exibia contrastes na
paisagem urbana, pois apresentava a cultura da clas- As inovações industriais do século XIX levaram ao
se média, onde os muitos milionários são tão escas- desenvolvimento das cidades. Assim, podemos dizer
sos quanto os muito pobres. (Veja, 31.03.93, p.72). que elas não são uma invenção recente, mas que tem
Em vasta literatura produzida sobre a cidade, havia pelo menos 5500 anos de existência quando levamos
a afirmação de que o Plano Diretor implantado nos em contas as cidades mesopotâmicas. Ao longo do
anos 60 conseguiu domar o seu crescimento, e a trans- tempo elas passaram por inúmeras transformações –
formou numa cidade absolutamente viável. específicas para cada momento histórico. As cidades
E mais, havia também a efetivação dessa Curitiba mesopotâmicas, egípcias, romanas e gregas, apresen-
que deu certo, respaldada na formação étnica da ci- tavam um desenvolvimento extremamente acentua-
dade, passando a existir nas duas últimas décadas do do, vindo a perder importância a partir das dominações
século, a construção da personificação e identifica- bárbaras. Durante o período medieval, as cidades
ção da cultura de imigrantes europeus. Portanto, a mantiveram-se restritas a pequenas ações de comér-
cidade, após a implantação do Plano Diretor de 1966, cio, com forte influência da igreja e dos senhores de
privilegiou o desenvolvimento integrado como um terras, tendo sua economia voltada para a agricultura.
todo, e acrescentou a esse discurso, a influência deci- Em algumas cidades medievais, o aspecto da
siva dos imigrantes europeus, criando espaços pré- higienização características das cidades antigas, não foi
determinados para identificá-los (Praça do Japão, mantido – as endemias eram constantes e a mortali-
Bosque do Papa, Portal de Santa Felicidade, Bosque dade extremamente acentuada. A peste matava muito
do Alemão). rápido, devido à proliferação de ratos e insetos e sem

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a presença de saneamento. Em meados do século XVI ram a fragmentação dos papéis sociais (isolamento, su-
com a intensificação do processo de produção capi- perficialidade, anonimato, relações sociais transitórias,
talista, as cidades passaram a se tornar novamente si- inexistência de controles sociais, diversidade e fugacidade
nônimos de trabalho e de dinheiro, mas também se dos envolvimentos sociais, afrouxamento dos laços de
transformaram em espaços de exploração de vida e família e competição individualista).
de sobre-trabalho. A diversidade é uma das características da cidade;
As cidades se caracterizavam por sua rapidez, inten- é ela que imprime contorno e ritmos únicos. Pode-
sidade de movimentos, pessoas e máquinas, violência e mos ler a cidade a partir de traços, linhas, cores, sinais
conflitos. Podemos dizer que ela é um habitat concen- gráficos, sons, sotaques, letras, cheiros e frases. Nas
trado, uma localidade, que pode ser também, o lugar cidades se concentram as relações capitalistas impes-
onde a maioria dos habitantes sobrevive da indústria soais – mas também as pessoais (nepotismo). A cida-
ou do comércio e não mais da agricultura; um local de pode ser considerada contraditória, pois nela pode
onde o comércio passa a ser a estrutura permanente, coexistir: os direitos legais e os não institucionais; a
sendo ela a fortaleza que está protegida pelo mercado religião e ciência; os isolamentos individuais e as ami-
(Amaral, 1992). zades coletivas; os arranha-céus e as favelas; a arquite-
Alguns autores analisam as cidades de formas dife- tura tradicional e a ultramoderna (Amaral, 1992).
renciadas: para Weber (1979), elas são o ponto de par- Na cidade, a cultura cria até mesmo a natureza.
tida e de sustentação para o desenvolvimento capitalista Parques florestais, praças, bosques, jardins, por exem-
– pois colocar inúmeras pessoas num espaço limitado plo, estão presentes apenas onde os homens desejam
faz, obrigatoriamente, a constituição de um mercado. ou permitem. Tudo isto dificulta uma definição do
Para Marx (1974), a cidade pode ser sinônimo de ex- que seja a cidade, que pode ser, ao mesmo tempo,
ploração quando enfatiza a diferença entre as classes tudo e nada. Então, será que, levando-se conta tama-
sociais; os que detêm os meios de produção e aqueles nha diversidade, a cidade realmente existe como tota-
que vendem a sua força de trabalho. Os pensadores da lidade e pode ser pensada, como categoria histórica,
Escola de Chicago (escola da Sociologia Urbana) nos antropológica e sociológica (Amaral, 1992).
mostraram que as cidades implicaram no surgimento A literatura sobre cidades trouxe à tona vários pen-
de novas formas culturais – elas necessariamente leva- samentos. De acordo com Velho (1973), a cidade não

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consiste de uma ou várias habitações implantadas se- Existem outras abordagens sobre a cidade: podemos
paradamente, ela constitui um habitat concentrado, considerar também a que foi efetuada por Benévolo
uma localidade; poderíamos também defini-la a par- (1992) cujas análises retratam o período moderno e
tir do econômico, ou seja, a cidade poderia ser um industrial. As cidades modernas resgatam a arquitetu-
local onde a maioria dos habitantes viveria da indús- ra e o seu embelezamento; quanto às suas funções,
tria ou do comércio e não da agricultura, sendo o co- cabe a ela dar ao cidadão condições de habitar, traba-
mércio uma estrutura permanente; com relação à sua lhar, cultivar o corpo e a mente e circular.
administração existe uma característica decisiva, que A partir dessas considerações, podemos entender
diagnostica a cidade como uma fortaleza (a cidadela) que a cidade sempre se apresentou como um lócus
e como um mercado protegido por um grande se- privilegiado de inúmeros pensadores, e para esses, ela
nhor. Se para Weber (1979), ela é um dos resultados e só pode ser lida como uma relação de vários grupos
ao mesmo tempo um pressuposto para o desenvolvi- que se interagem. A construção dar-se-á, por exem-
mento capitalista, se desenvolvendo a partir dos no- plo, através do trabalho e do lazer, que se dão no
vos processos e relações sociais surgidas no contexto âmbito do público e do privado; ou seja, a partir das
da industrialização, para Munford (1991), autor de A ações do cotidiano das pessoas.
Cidade na História ela é o centro nevrálgico do nosso Uma das características das cidades capitalistas, é
tempo; ele chega a ter uma postura evolucionista (a que elas são planejadas. O planejamento urbano foi
partir da evolução chegar-se-á mais próximo a uma uma prática surgida a partir das constatações que de-
vida civilizada) e organicista (as estruturas estão total- terminadas áreas necessitariam responder ao surto de
mente imbricadas uma nas outras, dependendo delas desenvolvimento e de industrialização recorrente. O
mutuamente). Quando analisa a cidade moderna, co- conceito de planejamento urbano surgiu, como sinô-
loca o efêmero, a rapidez e a substituição como adje- nimo de desenvolvimento integrado e multidisciplinar,
tivos principais. Para ele, o seu surgimento vai significar que concatenaria várias equipes de profissionais, finan-
a ruptura entre o homem e a natureza. O novo abrigo ciados e geridos pelo Estado.
do homem vai ser agora a cidade, que vai submetê-lo Dentre as cidades brasileiras que foram planejadas
a uma nova rotina que pode sempre se transformar, destacamos Belo Horizonte (1895), na década de 50
mas que a princípio estará sobre a tutela do relógio. do século XX surgiu Brasília, e mais recentemente,

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outras cidades como Goiânia, Curitiba, Joinvile, minam sobre o espaço e sobre os equipamentos urbanos, ne-
Osasco, Natal, sofreram intervenções em seus espa- cessitam ser identificados como portadores do interesse geral e
não de uma classe em particular, escamoteando o conflito na
ços urbanísticos.
tentativa de universalizar os conceitos explícitos na sua deci-
Após 1964, a política brasileira imposta pelos mi- são. Resende, 1982, p.28
litares incorporou o planejamento urbano como um
aspecto particular de penetração de cima para baixo Inicialmente, a prática do planejamento ocorria
de novas técnicas administrativas. Na segunda metade apenas como respostas conjunturais imediatas, não
da década de 60, houve uma proliferação de organis- contribuindo para uma base segura que conseguisse
mos de planejamento que aparelharam ou responder aos problemas que a sociedade brasileira
reaparelhavam os serviços administrativos regionais, apresentava. Com o passar do tempo os planos (raci-
estabelecendo o que alguns autores chegaram a cha- onais), assumiram o objetivo de apresentar resoluções
mar de doutrina do planejamento. A metodologia do aos problemas relativos ao espaço urbano, acabando
planejamento urbano e mesmo a do planejamento em com a desordem espacial. A implantação de um Pla-
geral, prestou-se mais ao surgimento de uma mitolo- no de urbanização na cidade impõe a redefinição dos
gia do planejamento através do discurso ideológico espaços da cidade. Assim, retomamos as afirmações
em torno de pretensas soluções técnicas, do que ao de Weber (1979) e de Singer (1979) sobre as cidades
questionamento mais profundo das suas problemáti- capitalistas que definem os seus espaços e as suas pro-
cas. Nesse sentido, a ideologia do planejamento é muito duções a partir da necessidade do mercado.
importante para a gestão dentro do sistema urbano, Ao se analisar a distribuição de serviços urbanos
porque ela unifica os habitantes em torno de decisões fornecidos pelo Estado, é fácil verificar que eles estão
tomadas parcialmente, que invariavelmente têm sua à disposição daqueles que possuem rendas médias e
origem no interesse de determinados grupos sociais. altas. Quanto, menor a renda da população, tanto mais
escassos são os referidos serviços (Singer, 1979, p.35).
A administração pública, no exercício da gestão do urbano, No entanto, quem acaba promovendo esta distribui-
especialmente de consumo, necessita que suas ações sejam res-
peitadas e identificadas como aquelas que maiores benefícios ção é o mercado imobiliário, que leiloa os serviços
trazem para esses habitantes e que tem o bem comum como implantados pelo Estado, fazendo somente alguns seg-
objetivo. Da mesma forma, os planos de urbanismo que deter- mentos da população aproveitar tais benefícios. Estas
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considerações sobre o planejamento e sua lógica ao lon- odo uma das maiores obras foi à construção do Pas-
go da história, o caso particular do planejamento urba- seio Público e o calçamento das ruas centrais, além da
no e a questão da apropriação do espaço urbano, são colocação dos trilhos para bondes que começaram a
as premissas que norteiam a análise do caso curitibano. funcionar em 1886 (Barz, 1992, p.14).
Com o passar dos anos, o espaço da cidade co-
Um breve passeio pela modernização meçou a sofrer alterações em decorrência de sua
da cidade mercantilização. Alguns locais passaram a ser reserva-
dos à burguesia do Mate, enquanto outros aos operá-
Desde a sua elevação como cidade1 , Curitiba apre- rios das fábricas2 . Quando Cândido de Abreu assumiu
sentou inúmeras preocupações no que concerne ao a prefeitura em 1913, iniciou-se uma série de refor-
planejamento urbano. A cidade começou a merecer mas paisagísticas como a pavimentação do centro, com
maior destaque a partir de 1853 quando ocorreu a a remoção de cortiços que o “enfeavam”, a instalação
Emancipação Política do Paraná. Como Curitiba foi dos bondes elétricos e a reforma do Passeio Público,
escolhida para ser a capital, necessitou receber infra- com a construção dos seus dois portões inspirados
estrutura que reafirmasse essa condição. No entanto, a no Cemitério de Cães de Paris. Promoveu ainda a
sua primeira reformulação considerada importante, integração de algumas colônias de imigrantes ao qua-
datou de meados de 1855/56. Ao final do século XIX, dro urbano da cidade, é o caso dos bairros Água Ver-
foi aprovado o 1º Código de Posturas de Curitiba, de, Pilarzinho e Mercês (Barz, 1992, p.15). Foi também
determinando o que deveria ou não ser realizado na em sua gestão o início do primeiro plano de sanea-
cidade como intervenção municipal. Esta nova lei ex- mento da cidade, com a canalização parcial do Rio
pandiu o quadro urbano estabelecido em 1856, crian- Belém no trecho da Av. Mariano Torres. Em 1919 foi
do uma grande estrutura técnica para a municipalidade aprovado um novo Código de Posturas que priorizou
acompanhando o crescimento da cidade. Neste perí- o sistema de circulação de veículos, e fez com que

1 Curitiba foi elevada à condição de cidade pela Lei Provincial n.º 05 de São Paulo, em 05 de fevereiro de 1842. Posteriormente em 26 de Julho
de 1854, é elevada à condição de Capital da Província do Paraná.
2 À burguesia do Mate, ficou reservada a área da cidade que hoje é o bairro do Batel e Alto da Glória. Enquanto para os trabalhadores, cabia
a área posterior à estação ferroviária - atual bairro Rebouças.

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toda a malha urbana fosse repensada. A população sar de sua população ter quase duplicado nesses 20
da cidade estava aumentando e era preciso incluir nela anos3 . No entanto, quanto ao seu planejamento, hou-
sinalização e estacionamentos; algumas ruas foram ve um retorno aos planos adotados no início do sé-
alargadas (como a XV de Novembro e Marechal culo, existindo tão somente uma hierarquização das
Floriano), aparecendo no cenário urbano de Curitiba funções da cidade. Isto teve a intenção de criar uma
a figura do guarda de trânsito. cidade nos padrões europeus onde se aglutinavam
Algumas determinações foram fundamentais para determinadas atividades numa determinada região da
entender o crescimento populacional da cidade no cidade. Enfim, esse foi o momento de incentivar as
inicio deste século. Graças à sua posição geográfica, construções feitas em consonância com o Código de
Curitiba se encontrava numa posição privilegiada den- Posturas, oferecendo prêmios em dinheiro e isenção
tro do Estado do Paraná. Em meados das décadas de impostos.
de 30 e 40 quando as terras do norte do estado esta- Como essas ações não foram suficientes para re-
vam sendo intensamente ocupadas pela lavoura solver os principais problemas urbanísticos e sociais
cafeeira, o que não escoava diretamente por São Pau- decorrentes do seu processo de desenvolvimento, na
lo, via Porto de Santos, tinha passagem obrigatória década de 40 foi proposta a primeira experiência de
por Curitiba, ao se dirigir ao Porto de Paranaguá, o Planejamento Urbano na cidade, através do Plano
que fazia implementar o parque comercial e industrial Agache. Segundo a análise histórica do próprio Plano
da cidade. Sendo Curitiba a capital do estado e sede Agache, Curitiba se apresentava no início da década
do poder político e de decisões administrativas, rece- de 40 como uma cidade “agradável”, mas sem a im-
bia (não só ela, mas qualquer capital) determinadas pressão de que era uma capital de estado. Possuía ruas
infra-estruturas que se transformaram em incentivo à que se cruzavam num traçado mais ou menos em xa-
migração e a ocupação da cidade. drez, sem uma preocupação com a topografia do ter-
Após o Código de Posturas de 1919 até a década reno, onde os problemas urbanos se entrelaçavam de
de 40, não houve grandes planos para a cidade, ape- maneira que uns tornavam-se decorrentes de outros.

3 Segundo a Fundação IBGE, Curitiba passa de 12.651 habitantes em 1872 para 59.755 em 1900. Entre 1920 e 1940 passa de 78.986 para
140.656, apresentando crescimento relativo total de 78% neste último período (FIBGE: 1971).

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Este plano foi fundamental para entender o planejamen- de infra-estrutura básica para a maioria da população.
to da cidade porque juntamente com o primeiro Essas práticas não possuíam nada de incomum, afinal,
ordenamento paisagístico, reiteraram-se tendências histó- como diz Singer (1979), na cidade capitalista, a distri-
ricas já anunciadas: transformação do antigo bairro de buição dos bens e serviços ocorre de maneira desigual:
trabalhadores em bairro industrial (Rebouças); ações na à medida que a distância do centro da cidade aumenta,
área do saneamento e consolidação de áreas residenciais escasseiam-se os serviços de infra-estrutura básica, pois
já em expansão (Água Verde, Pilarzinho e Mercês). sua alocação está em proporção direta com a capacida-
A década de 50 foi vivida na capital e no estado, de que os moradores têm de comprá-los.
(bem como no Brasil como um todo) como uma Um dos responsáveis pela transformação da cida-
época de euforia e enorme possibilidade de progres- de em metrópole, foi o Governador Bento Munhoz
so. Com isso, o Paraná como um estado progressista4 da Rocha (1951/1955). Bento ficou conhecido como
necessitava ter uma capital a sua altura. Nesta época o Governador-Prefeito porque voltou os olhos prin-
Curitiba começava a ser enquadrada, pelas elites lo- cipalmente para a capital do estado, afinal, ele queria
cais, como uma das maiores metrópoles5 do país. dar infra-estrutura para colocar Curitiba como uma
Nesse período no qual a preocupação com o das metrópoles do Brasil. Isto foi utilizado contra ele
embelezamento da cidade era primordial, Curitiba se quando disputou as eleições para o governo do esta-
queria européia, uma cidade colonizada por europeus, do, posteriormente na década de 60, contra Paulo
construída e dinamizada por europeus. Uma cidade Pimentel. Aqui foi possível localizar uma das práticas
nova com o futuro de muita grandeza. As interven- recorrentes na história da urbanização de Curitiba: o
ções urbanas, principalmente no centro da cidade, ti- governo estadual tomando a cidade como lócus pri-
nham a preocupação de embelezar a cidade para o vilegiado da ação estatal, via planos de desenvolvimen-
visitante, escondendo os problemas relacionados à falta to, planos urbanísticos etc.

4 Entre os governantes e intelectuais paranaenses, veiculava-se um discurso de que o Paraná era uma grande oficina de progresso. Segundo
eles, a própria origem do povo paranaense estava vinculada ao trabalho e a dedicação. Este discurso partia da premissa que o Paraná, havia
sofrido uma influência maior, e, portanto, melhor, dos imigrantes, com pouca interferência dos negros e indígenas (Barz, 1992).
5 A idéia aqui está estreitamente ligada a anterior. Afinal, este Estado próspero e moderno, necessitava ter uma capital com a mesma roupagem.
Pelo menos se tentava passar a idéia de que estava se constituindo uma das maiores metrópoles do Brasil (Barz, 1992).

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Nas décadas de 50 e 60, foi possível verificar um candidato da oposição ao Governo Federal e a
rápido crescimento da população em conseqüência da concomitante subida ao poder do progressista João
economia cafeeira do norte do Paraná. Curitiba passou Goulart, aliado ao crescente perigo comunista que assom-
de 140.656 habitantes em 1940, para 180.575 em 1950 brava o país, resultou em um golpe de estado em
atingindo 362.309 em 1960 (FIBGE). A sua média de 31.03.1964. Efetuado pelos militares em comum acordo
crescimento na década de 50, especificamente, foi mai- com as principais lideranças políticas do país influenciadas
or que a da cidade de São Paulo. As administrações por este quadro político dos anos 60, e combinados com
deste período preocuparam-se pouco com a implan- o crescimento econômico de base agrícola, o Paraná e
tação de infra-estrutura na periferia, e muito com o principalmente Curitiba, sofreram um intenso processo
embelezamento do centro da cidade. Elegeram-se de- de transformação, que se materializaram na intervenção
terminados locais que se transformavam em cartões sobre o espaço urbano, sob a forma de um novo plano
de visita aos turistas, livrando-se da sujeira e das coisas de urbanismo.
que podiam perverter a ordem vigente, demonstran- As transformações previstas e ocorridas no estado do
do seu aspecto moderno, típico de cidades européias. Paraná no decorrer da década de 60 tiveram como pano
Nas cidades coloniais brasileiras não existia a separação de fundo, a necessidade de implantação de um forte e
física do espaço da cidade. As distâncias entre senhores bem equipado parque industrial. Curitiba ocupava lugar
e escravos se davam de outra forma, através da hierar- de destaque enquanto principal cidade do estado, e neces-
quia. Quando uma cidade se transforma, de estilo co- sitava ter suporte para atender ao surto de industrialização
lonial para metrópole capitalista, tem-se inicialmente a ao qual se pretendia, sendo necessário uma intervenção
demarcação de espaços geográficos entre os diferentes racional na cidade, que se mostrasse como uma resposta
segmentos de população. às necessidades prementes da industrialização. No Brasil, a
Os anos 60 se iniciaram com grandes transformações partir de 1964, iniciou-se uma série de concorrências para
nacionais, mas com influência no âmbito estadual e muni- Planos Diretores financiados pelo Serviço Federal de Ha-
cipal. A renúncia do Presidente Jânio Quadros que foi o bitação e Urbanismo – SERFHAU6 . Este era um órgão

6 Era tarefa do SERFHAU, promover a elaboração e a implantação de planos de desenvolvimento local integrado, de acordo com o
planejamento nacional e regional. No entanto, as suas atribuições foram maiores do que os recursos para ele destinados, limitando assim a

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que estava vinculado ao Ministério do Interior e os Inicialmente, a proposta de Arzua era a de sim-
seus recursos eram oriundos do Banco Nacional de plesmente reexaminar o Plano já existente. Para exe-
Habitação – BNH7 . Ou seja, havia recursos para aju- cutar tais programas, a Prefeitura pretendia a criação
dar as Prefeituras a aperfeiçoarem os seus processos de uma Companhia de Urbanização, que mais tarde
de gerência urbana, via planejamento, e a cidade de se constituiu na Companhia de Urbanização e Sanea-
Curitiba não fugiu à regra brasileira, havendo também mento - URBS, que foi oficializada posteriormente
aqui, concorrência feita pela prefeitura municipal. pela Lei nº 2295/63. Alguns destes profissionais que
No plano político, no entanto, a proposta de compuseram a URBS eram recém chegados da Eu-
reexame do Plano Agache já havia sido uma promes- ropa, em especial da França. Portanto, a idéia de um
sa de campanha à Prefeitura Municipal de Curitiba, plano urbanístico com a conseqüente humanização da
feita por Ivo Arzua Pereira, para a sua primeira gestão cidade, tornou-se o ponto central dos debates.
(1963 – 1966). O planejamento da cidade se encon- Da combinação da conjuntura política e do desen-
trava no Plano De Ação definido em 1963. Em 1964, volvimento dos anos 60, foram obtidas as condições
ele prosseguiria com algumas reformas, e em 1965 para colocar em prática o plano de desenvolvimento
seriam lançadas as bases para o futuro Plano Diretor. para a cidade. No entanto, existiam interesses diversos
No decorrer dos anos 60, juntamente com este proje- por parte daqueles que integravam as agências gover-
to modernizante, Curitiba apresentava inúmeros pro- namentais, responsáveis por tal projeto, tanto no pla-
blemas urbanos como loteamentos clandestinos; no municipal como estadual. Da combinação desses
inundações cada vez maiores e mais freqüentes; trânsi- interesses com as elites econômicas da cidade, forja-
to irregular; o centro possuía ruas estreitas com inú- ram-se acordos para que o planejamento da cidade
meros prédios velhos e mal conservados e havia uma fosse levado adiante.
proliferação cada vez mais rápida de favelas por toda Este consenso das elites políticas sobre a necessi-
a cidade. dade do planejamento, representaram a interação en-

sua possibilidade de atuação. Recebia verbas do BNH, mas não se pode dizer que os planos do banco estiveram compatibilizados com os
projetos do SERFHAU.
7 O Banco Nacional de Habitação - BNH foi criado 21 de agosto de 1964. Dentre suas atribuições principais estava o aumento da oferta de
habitação. Sua base de sustentação financeira e praticamente única fonte de recursos, era o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço - FGTS.

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tre as diversas forças políticas, e foram fundamentais a emergência de movimentos sociais na cidade e no
para que a população em geral, passasse a aceitá-lo. campo; o surgimento de novos partidos de esquerda
Ao observar retrospectivamente o planejamento como o PT e o “ressurgimento” de alguns como o
urbano de Curitiba, podemos vê-lo como um pro- PDT; e também um novo posicionamento agora bem
cesso que se divide em três fases. A primeira (1962- mais delineado do MDB8 frente ao regime militar,
1966) caracterizou-se pela institucionalização de um onde ele deixava de ser oposição consentida e passa-
Plano Preliminar, com a criação de todo o aparato va a ser oposição de fato.
institucional do planejamento. A segunda (1966-1970) Foi nesse contexto que se iniciou a abertura do
foi considerada o período de transição, onde existiu regime militar, sendo realizadas em 1982 as eleições
um conflito entre a agência do plano e a administra- gerais em todo o Brasil e tendo o PMDB vitorioso
ção municipal. A terceira fase (1970-1974) caracteri- no Paraná, bem como nos principais estados da Fe-
zou-se com a implantação do planejamento da cidade. deração. A sua vitória em 1982 foi calcada em três
Existiu um imenso conjunto de intervenções no espa- diretrizes básicas de governo: democratização do
ço urbano, o que serviu para dar notoriedade ao ex- poder, participação comunitária e melhoria da quali-
perimento curitibano de planejamento, principalmente dade de vida. Quando José Richa assumiu o governo
a partir da década de 70. do estado do Paraná em 1983, indicou pela primeira
No Brasil, o final desse período foi marcado por vez para a Prefeitura Municipal de Curitiba9 , uma pes-
intensas transformações. O regime militar mostrava- soa sem nenhum vínculo anterior com a elaboração
se cada vez mais esgotado em decorrência de alguns do Plano Diretor de Curitiba que foi Maurício Fruet.
fatores tais como: o fracasso do modelo econômico Esse tinha como premissa as diretrizes de governo
em decorrência da recessão que abalava todo o país; do PMDB, e colocou como uma de suas metas a

8 Quando se preparavam as alianças políticas para o Governo do Estado em 1982, o MDB pretendia a coligação com o Partido Popular - PP.
No entanto, um veto do Presidente Figueiredo proibindo as coligações de partidos, faz com que MDB e PP se incorporem, surgindo assim
o PMDB. A entrada dos componentes do PP retira a hegemonia da ala esquerda do PMDB na elaboração dos discursos do Partido.
9 As primeiras eleições para eleger diretamente os Prefeitos das Capitais, aconteceram em 1985. Até então todos os prefeitos eram indicados
pelo Governador do Estado. Pela primeira vez em quase 20 anos de institucionalização do processo de planejamento, assumiu o maior poder
da capital, uma pessoa que não fez parte de todo o processo.

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necessidade de revisar e reler os instrumentos de pla- ficando os principais problemas, pretendia o PMDU
nejamento urbano, para obter uma imagem mais pos- encaminhar propostas para a nova estruturação muni-
sível da cidade. cipal. Em síntese, o PMDU pretendia ser, um instru-
Para isso o IPPUC10 elaborou então o PMDU (Pla- mento de caráter estrutural, articulador do processo de
no Municipal de Desenvolvimento Urbano), que teve planejamento e orientador do atendimento às necessi-
entre os seus objetivos gerais: a melhoria na qualidade dades de equipamentos, infra-estrutura e serviços nos
de vida da população; a distribuição de renda; a de- próximos 15 anos, ou seja, tendo como horizonte o
mocratização de uso da cidade e de seus equipamen- ano 2000 (Sinopse/PMDU, 1985, p.2).
tos; a participação da população na gestão da cidade e Na verdade, à época em que foi elaborado o
principalmente a renovação e atualização dos instru- PMDU, existia um visível desencontro entre as propos-
mentos de planejamento e de desenvolvimento urba- tas de estruturação espacial implícitas na Legislação de
no. No PMDU, pode-se perceber uma demonstração Uso de Solo derivada do Plano Diretor de Curitiba, e a
clara de uma discussão de cunho político que estava verdadeira ocupação da cidade. O IPPUC ao realizar o
por trás destes objetivos. Afinal, eles eram as próprias Plano, detalhou as diretrizes que foram apontadas, efe-
diretrizes de governo do PMDB e o Paraná como tuando uma série de críticas ao Plano Diretor. Estas se
Curitiba viviam, depois de quase 20 anos, as primeiras resumiam em:
mudanças no comando político. a) ocupação do espaço urbano diferenciado daquela
Pretendiam inicialmente, realizar um levantamento preconizada pelo Plano Diretor;
da situação sócio-econômica e territorial, seguido de b) reforço do papel do centro principal que aglutinaria
uma análise crítica da atual situação encontrada. Identi- serviços e comércios. Estes deveriam estar localiza-

10 Com a mudança na administração municipal, saiu a equipe de Jaime Lerner e entrou a de Roberto Requião em 1986. Dentro do IPPUC, no
entanto, alguns membros do grupo de Lerner permaneceram. Existiu uma permanente tensão entre estes dois grupos tão diversos. A partir
dos discursos e das falas da Série Memória da Curitiba Urbana, foi possível perceber que a resistência dos remanescentes de Lerner para com
a nova equipe, é o fato deles não serem técnicos de verdade, ou seja, não estavam comprometidos com o planejamento da cidade, não
conseguindo continuar as obras que a equipe de Lerner era responsável. Atribui-se à gestão do PMDB, o fato do IPPUC ter perdido força
no controle da gestão do Planejamento Urbano. O que esses técnicos não questionaram era o fato da nova equipe realmente assumir o
comando do município com outros compromissos políticos. Portanto, não houve dúvidas de que nesse período, existiu um grande
confronto político entre o atual governo e o antigo.

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dos em subcentros ao longo das vias estruturais; A ocupação real destas zonas, no entanto, nem sempre se
c) presença de grandes vazios urbanos ao longo de processou na intensidade e com a orientação desejada. O
áreas com vasto serviço de infra-estrutura básica. exame deste processo nas zonas que permitem maior densi-
dade populacional, revela que a ocupação destas áreas tem
Esses podiam ser encontrados do Setor Estrutu-
sido realizada de forma radiocêntrica a partir do centro
ral Norte, na Zona Nova Curitiba11 . tradicional ou nas proximidades de certos subcentros, com
d) deterioração de antigas zonas residenciais situadas intensidade regulada pelo custo dos terrenos (...) Ao mesmo
no centro e em sua periferia; tempo em que não houve o esperado adensamento das zonas
e) generalismo da própria Lei de Zoneamento e Uso mais equipadas, ocorreu um acelerado processo de periferização
de Solo que regia a cidade, e que não levou em de sua ocupação, realizada principalmente por conjuntos
conta os aspectos sócio culturais de cada área; habitacionais e loteamentos para a população de baixa ren-
da. (...) O que se pode concluir da análise da legislação de
f) falta de critérios objetivos do poder público para a
zoneamento e uso de solo, em comparação com a real ocupa-
aplicabilidade das diretrizes que foram propostas, ção do solo urbano de Curitiba, é que, ainda que esses ins-
levando-se em conta as mutações da dinâmica de trumentos tenham sido fundamentais para consolidar as
desenvolvimento; diretrizes básicas do Plano Diretor, eles foram insuficientes
g) ausência de instrumentos do poder público para para garantir muitos de seus objetivos. (PMDU, 1985,
atuar com prioridade junto à iniciativa privada. pp.98-99)
Se o valor do uso do solo é regulado pelo merca-
do imobiliário, em Curitiba tal realidade não foi dife- Tendo estas análises da cidade de Curitiba como
rente. O mecanismo de intervenção racional, via premissas, o PMDU pretendia ultrapassar os limites
planejamento, não foi suficiente para assegurar que a de um plano de intervenção que traçasse normas ur-
principal diretriz proposta, ou seja, a linearização do banísticas. Pretendia orientar e dirigir ações oriundas
crescimento, se cumprisse a risca, permitindo nova- de interesses conflitantes e fragmentados para atingir
mente o crescimento radial. os objetivos propostos pelo poder público como de

11 A Lei n.º6204/81 que modificava o Zoneamento de Uso de Solo na área destinada à Cidade Industrial de Curitiba, criava também a Zona
Nova Curitiba que seria destinada a Habitações Coletivas e Unifamiliares. Em Decreto posterior, a Prefeitura Municipal, oficializa a Zona Nova
Curitiba como um prolongamento do Setor Estrutural Norte até a CIC. Inicia-se no bairro Bigorrilho, passando pelo Mossunguê e
terminando no bairro Campo Comprido.

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interesse da população (PMDU, 1985). Em linhas gerais, Questiona-se muito o desenvolvimento do PMDU,
queria corrigir o descompasso entre o ritmo de ocupa- por parte do governo do PMDB em Curitiba. Nos
ção do solo e a implantação de infra-estrutura básica, seus objetivos percebe-se claramente uma critica as
democratizando o uso da cidade para finalmente obter a administrações anteriores, responsáveis pela elabora-
participação da população na gestão da cidade. ção do Plano Diretor. A necessidade de obter uma
As linhas mestras propostas pelo PMDU, pode ser imagem mais real possível da cidade referia-se ao fato
equiparada às três diretrizes básicas do governo do de que as gestões anteriores, não levaram em conta os
PMDB já citadas anteriormente: democratização do aspectos sócio-econômicos e culturais da população.
poder, participação comunitária e melhoria nas con- O processo de planejamento de Curitiba (entre 1965
dições de vida. Mas, dentro da ação clássica de plane- até 1983), foi implementado pelo discurso técnico,
jamento, não cabe a opinião nem a participação da sendo a prática do planejamento calcado na
população. Então o que o PMDB pretendia era uma racionalidade e na competência técnica.
contraposição a esta concepção. Apenas isto já carac- Conforme Garcia (1993), o Caso de Curitiba pode
terizaria a ruptura da visão tradicional e autoritária de ser visto como um exemplo da interação do Estado,
planejamento (grifos no original). das forças sociais e das políticas dominantes com o
planejamento urbano. A leitura da cidade, dominante
Reconhecia as dificuldades em romper com os sistemas e vícios no início da década de 70, passou a ser decomposta
acumulados ao longo dos anos nas diferentes estruturas de go- em problemas urbanos. Para que os governos munici-
verno, nas quais a participação popular pouco tinha sido obje- pais assumissem o papel de promotores do desenvol-
to de discussão e menos ainda incorporada como concepção de vimento, tornou-se necessário a modernização da
planejamento. (Bega, 1990, p.41) máquina administrativa municipal, tornando-a apta à
assumir a função de indutora do crescimento nos
Pretendiam, ao menos nas propostas, inverter a moldes do que se passava no governo federal.
forma de ser aplicado o planejamento da sociedade, Quanto às camadas médias curitibanas, destacou-
argumentando que a equipe de técnicos que instituiu o se a sua ampla adesão ao projeto modernizador e gran-
Plano Diretor, não levou em conta os verdadeiros in- de incorporação do discurso urbanístico oficial, ou
teresses da população. seja, do discurso técnico científico. O processo de pla-

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nejamento de Curitiba foi implementado pelo discur- ria por alguns grupos de construtores imobiliários. No
so técnico que enfatizava a transformação de uma ci- PMDU, algumas demandas dos Movimentos Popu-
dade interiorana, tradicional e provinciana, numa lares são incorporadas, como: habitação, saneamento
moderna metrópole. e educação. No entanto, a estrutura que o Plano pre-
Como o PMDB tinha as suas diretrizes calcadas tendia reverter não foi alterada.
no planejamento participativo, passava-se de uma dis- De acordo com Garcia,
cussão técnica, onde a população era alijada dos pro-
cessos de decisão, para uma na qual a população era a prática do planejamento passou a ser identificada critica-
fator determinante. Quando Maurício Fruet assumiu mente como instrumento de legitimação do regime político
a prefeitura em 1983, passou a existir um predomínio autoritário. A adoção da imagem de governo neutro impli-
cou na difusão da ideologia da racionalidade e da competên-
da política em detrimento do discurso técnico; o po-
cia técnica, como fundamentos da intervenção. Dessa forma
lítico era a figura que escutava e que atenderia todas as produziu-se uma despolitização da questão urbana durante
demandas da população. Tendo este ponto de parti- o período do ”milagre econômico” quando vigorou com plena
da, fez o PMDB o seu plano que pretendia adequar força o que Chauí chamou de discurso competente. (Garcia,
Curitiba a toda a população e não somente a deter- 1993, p.49)
minados segmentos. Apesar das diversas críticas às
falhas do Plano Diretor e tendo como pano de fun- Segundo Chauí (1981), o discurso competente é o
do o caso específico da Zona Nova Curitiba (ela foi discurso instituído. Ele confunde-se com a linguagem
alvo de críticas para a campanha política de Roberto institucional permitida ou autorizada, com um dis-
Requião em 1985), não foi possível reverter o proces- curso no qual os interlocutores têm o direito de falar
so de definição de uso. Mesmo nos anos 90 ela ainda e ouvir, em lugares e circunstâncias pré-determinadas.
era uma área de baixa densidade habitacional servida Em Curitiba, isto se realizou, com o discurso do ur-
por uma intensa infra-estrutura urbana. Ao invés de banístico calcado na noção da qualidade de vida, e
trabalhadores da CIC, na sua área nobre (ao norte do isto é o que fora vendido aos consumidores.
bairro Campo Comprido) foi sendo construído um A imagem de Curitiba é a de que ela era a única
bairro clandestino de alto luxo. São terrenos que estão cidade realizada no capitalismo brasileiro. Portanto, era
vazios e certamente à espera de valorização imobiliá- a única metrópole digna de ser comparada e mostra-

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da frente às cidades desenvolvidas do primeiro mun- domicílio para a cidade a tempo ainda de disputar as
do, passando a ser vitrine urbana e moderna da ima- eleições. Foi realizada uma frente ampla de oposição ao
gem do Brasil no exterior. governo do PMDB. Os demais candidatos renunciaram,
Em meio à onda de corrupção que vivia o Brasil do inclusive o candidato do PDT - Algaci Túlio - e Lerner
início dos anos 90, tivemos a eleição e o processo de desenvolveu a sua campanha em apenas 12 dias, con-
impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello. quistando uma vitória arrasadora. Iniciou aqui as suas bases
Esse deixou um rastro de abertura de mercado, e tam- eleitorais, afirmando-se definitivamente como político
bém, de desconfiança da população em relação aos (Paz, 1990). Conseguiu também desmontar as bases em
políticos em geral. As iniciativas do governo federal com que se apoiava o PMDB, ou seja, Lerner não ganhou
relação à economia levaram os eleitores de alguns Esta- votos apenas das classes altas e médias, mas também, das
dos brasileiros a um completo descrédito com relação classes subalternas da população, e talvez por isso tenha,
aos políticos em geral. Tal fato foi evidenciado no Paraná, nesta gestão,dado uma ênfase muito grande ao social.
mais especificamente em Curitiba, o que tornou possí- Em sua gestão, alavancou políticas concretas para a
vel a derrota do candidato do PMDB à Prefeitura da população de baixa renda e de classe média: a troca de
lixo que não é lixo por vale transporte e a proliferação de
cidade. Como dissemos, a crítica aos políticos em geral
parques, bosques e de praças. O discurso oficial foi pau-
não foi uma exclusividade do Paraná ou de Curitiba.
tado na Curitiba de todas as gentes:
No Brasil, cresciam os números de manifestações da
população em desaprovação aos políticos dirigentes. No
Em Curitiba, gente de vários lugares do Brasil e do mundo
Rio de Janeiro os eleitores apostaram no macaco Tião, colorem bairros e nos levam a perguntar como pensamentos e
em Olinda na cadela Amarelinha, e em Vitória no pa- costumes diferentes vivem de maneira tão harmônica. Cada
pagaio Xereta. Em Curitiba o enfrentamento aos polí- face tem sua história, cada mão tem seu tato, cada palavra
ticos não se deu assim, ironicamente, mas diretamente dá seu tempero especial à civilização curitibana. (...) Aqui
nas urnas onde ficou demonstrada a disposição da po- somos todos donos, sócios e cúmplices. Somos todos frutos do
nosso passado e sonho do nosso futuro. Não há cidade ideal
pulação em assumir um novo governante que não ha-
sem cidadão ideal. (Fenianos, 1999, p.144)
via sido político profissional.
Sob este contexto, reapareceu na Prefeitura de Curitiba O que não podemos deixar de ressaltar é que tais
Jaime Lerner, que havia conseguido transferir o seu acontecimentos e edificações evidenciaram uma união
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entre as elites dirigentes e as elites empresariais de celência. A palavra é o modo mais puro e sensível de
Curitiba, já citada em passagens anterior nesse mes- relação social. Em cada época, cada grupo social tem
mo trabalho. seu repertório de formas de discurso, determinadas
pelas relações de produção e pela estrutura sócio-
Conclusões política.
Ao analisarmos Curitiba devemos ter em conta
Ao analisarmos Curitiba, remetemos-nos ao con- que essas leituras de cidade se adequam e tem que ser
ceito de representações sociais. Podemos dizer que elas entendidas também sob a luz do capital, que além da
são imagens construídas sobre o real e podem se linguagem, direciona as suas políticas de crescimento
institucionalizar através das palavras e das condutas. e também de povoamento, quando seus governantes
Nesse caso, percebemos que elas foram fundamen- estabelecem as políticas de planejamento urbano.
tais para a efetivação das ações proporcionadas pelo A cidade ao aglomerar-se num espaço limitado,
poder público em Curitiba na consolidação do cha- de produção e de consumo, cria o mercado, que se
mado discurso oficial da cidade. torna, por sua vez, essencial para ela. Atualmente, não
existe praticamente nenhum espaço que não seja in-
Fruto da vivência das contradições que permeiam o dia a dia vestido pelo mercado, ou pela sua produção. Ele é o
dos grupos sociais e sua expressão marca o entendimento regulador do uso do solo nas cidades capitalistas; ne-
deles com seus pares, seus contrários e suas instituições. Na las o solo passa a ser tratado como uma mercadoria,
verdade a realidade vivida é também representada e através
que se compra e se vende; o acesso à sua utilização é
dela os atores sociais se movem, constroem sua vida e expli-
cam-na mediante seu estoque de conhecimentos. (Minayo, determinado pelo poder de compra, que dá ao cida-
1995, p.108) dão o direito de ser proprietário. O Estado distribui
os serviços urbanos, os quais remodelam o espaço
As representações sociais conformam a realidade das cidades, alterando o seu preço dentro do merca-
segundo determinado segmento de sociedade, e uma do. Por sua vez, a especulação imobiliária retém pe-
das formas de transmissão dela é a linguagem. Alguns daços vazios de terras que, em sua maioria, possuem
teóricos, entre eles Bakhtin apud Minayo (1995) colo- serviços urbanos. Estes, após a valorização imobiliá-
cam que a palavra é o fenômeno ideológico por ex- ria, serão vendidos por um preço maior, certamente

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para as classes de poder aquisitivo mais elevado. A foram bastante significativas. Ou vivemos numa cida-
lógica capitalista passa a ser o fio condutor ao se tratar de e aproveitamos o que de melhor ela apresenta, ou
da ocupação da cidade, e o Estado é quem tem a simplesmente não vivemos nela. A modernização de
incumbência de planejar a cidade. Essa contraposição Curitiba feita a partir dos planos de urbanização, de-
que é inerente a uma cidade capitalista e que é caracte- ram a ela ares que foram fundamentais na efetivação
rística de Curitiba nos remete a Bourdieu (1989, p. 11) do discurso sobre a Curitiba de todas as etnias e da
As ideologias, por oposição ao mito, produto coleti- cidade que deu certo. A constituição da cidade e seu
vo e coletivamente apropriado, servem interesses par- enaltecimento pelo chamado discurso oficial, são dis-
ticulares que tendem a apresentar como interesses cordantes das políticas efetivas promovidas pelos
universais, comuns ao conjunto do grupo. órgãos de gerenciamento da cidade, que nega a alguns
As falas dos representantes oficiais da cidade e oferece a outros o direito de usufruir a cidade.

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Planos de urbanização de Curitiba


Plano Agache de 1940
Plano Diretor de 1966
PMDU - Plano Municipal de Desenvolvimento Urbano de 1985
Sinopse do Plano Municipal de Desenvolvimento Urbano:Estrutura Policêntrica de Curitiba de 1985.

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Jornal O Estado do Paraná – 1990 a 1999
Revistas Veja – 1990 a 1999

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