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Procura-se Elvis, Vivo ou Morto!

No dia seguinte, ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da


vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme.

As Intermitências da Morte – José Saramago

Elvis não morreu!

Começou como outro dia qualquer; é assim que começam os dias mais estranhos, como
outro dia qualquer.

Meu nome, o que está logo ali, na porta do meu escritório, é Carrara, Lucca Carrara. Eis
uma história engraçada, eu já cheguei a usar outros dois nomes; primeiro Alfonso Bellini,
que até possuía uma sonoridade bacana, mas tive que mudar, porque fiquei sabendo que
já existe outro detetive com esse sobrenome1, depois Mancini.

Todos italianos, eu sei, tive que usá-los porque uma pancada de gente queria me ver morto
e enterrado debaixo de sete palmos de terra, incluindo algumas figuras importantes do
nosso governo. O jeito foi me fingir de morto, mudar o nome, deixar a barba crescer e
ficar fora de circulação por um tempo.

Lola, minha esposa, não teve esse problema, é uma super-humana com a capacidade de
alterar a aparência, mudou apenas o nome e por um tempo se chamou Lola.

Pois é, casei com uma super-humana que pode ser quem ela quiser ser, tem suas
vantagens, acredite em mim.

Por que o governo queria a minha caveira? Longa história, basta dizer que eu pisei nos
calos de gente que faria Al Capone chorar como uma garotinha. É o seguinte, quanto mais
dinheiro envolvido, maior a chance de o esgoto transbordar, e quando falamos de
governo, estamos falando, literalmente, de toneladas de dinheiro.

A moda agora é desviar de bilhão para cima. Você já parou para pensar quanto é um
bilhão? Sério, você podia encher sua sala de notas de cem pratas e ainda ia faltar espaço.
Quantias assim são como Cthulhu2, contemplá-las pode fazer com que pessoas percam a
juízo e cometam atrocidades, por isso, pra sua segurança, mantenha distância desse
pessoal.

O governo mudou, novos tempos, novos corruptos, consegui um acordo de ajuda mútua
com o DCS3 e voltei para a ativa com meu nome de batismo.

1
Remo Bellini, detetive criado por Tony Belotto, personagem de livros como Bellini e o demônio e Bellini
e a Esfinge.
2
Entidade Cósmica Criada pelo escritor H. P. Lovecraft, seu tamanho gigantesco e horror que provoca
são capazes de enlouquecer aqueles que o veem.
3
Departamento de Crimes Supranormais, órgão vinculado à Polícia Federal, responsável pelo combate a
supercriminosos.
Hoje em dia eu continuo a trabalhar como detetive, porque, basicamente, é só o que sei
fazer. Estou fumando um cigarro e jogando paciência no meu computador, fazendo o
possível para matar o tempo. Eu poderia estar vendo pornografia, mas já te falei sobre
minha esposa, não é? Quando você é casado com uma mulher que pode se transformar
em uma alienígena azul com três seios, até o pornô mais pesado perde a graça.

Batidas na porta, desligo o monitor, ajeito a gravata e abro a gaveta onde está guardada
minha automática, deixo ela no jeito, só então peço para entrar.

Ele abre a porta sem pressa, um jovem magricela com terno e gravata, óculos fundo de
garrafa e aparelho nos dentes, ombros caídos, cabelo dividido ao meio, jeito de quem
apanhava muito na escola. Ao seu lado está uma senhora de idade, e quando eu digo idade,
quero dizer muita, algo em torno de um século de vida, cabelos prateados, rugas por toda
parte, trajando um vestido preto e se apoiando com dificuldade em uma bengala.

– Detetive Carrara? – Ele pergunta, enquanto observa o escritório com ar de desdém.

– É o que está na porta – fecho a gaveta com a arma – sentem-se, por favor – indico as
duas cadeiras na minha frente – em que posso ser útil?

O garoto ajuda a matriarca a se acomodar na cadeira, só então fala – minha avó gostaria
que o senhor localizasse uma pessoa.

– Sem problema, parente desaparecido?

– Não, não é parente, é um pouco mais complicado do que isso, é uma pessoa famosa.

– Pessoas famosas não são tão difíceis de se rastrear, o difícil é falar com elas.

– É o Elvis.

– Qual Elvis?

– Como assim, qual Elvis, o cantor, é claro, quem mais? – A vovó decide se juntar a nossa
conversa com voz trêmula.

– Elvis Presley, o cantor, é desse Elvis que estamos falando?

– Sei que pode parecer um pouco – ele pigarreia antes de continuar - estranho, mas minha
avó, ela diz que...

– Eu o vi! – Ela interrompe o neto.

– A senhora viu Elvis Presley. Qual é mesmo o seu nome?

– Dolores Boaventura.

– Certo, Dolores, e onde exatamente você acha que o viu?


– Eu não acho, eu o vi, tenho certeza, era ele, comprando detergente no supermercado do
meu bairro.

– A senhora viu o supostamente falecido Elvis Presley, comprando detergente em um


supermercado local?

– Foi o que eu disse, o que há de errado com ele – a mulher pergunta ao neto – ele é
tapado por acaso?

– Não, vovó, ele só está achando estranho, é só isso. Detetive Carrara, eu sei que é difícil
acreditar, mas minha avó está certa de que Elvis não morreu e gostaria que o senhor o
encontrasse.

– Veja, senhora Boaventura, sei que não é comum, mas muita gente se fantasia de Elvis
hoje em dia, o homem é um ícone, existem sósias quase idênticos, cara de um, focinho
do outro, então, talvez, só talvez, a senhora não tenha visto o Elvis, mas uma pessoa
fantasiada de Elvis, o que acha?

– Ele não estava vestido com as roupas que usava nos shows.

– Não?

– Não, vestia camisa florida, bermuda e chinelos.

– Certo – olho por um momento para o neto – e por que a senhora acha que era o Elvis?

– Elvis não era só as roupas que usava – ela diz indignada – era muito mais do que isso,
eu sou a sua maior fã, a maior que já existiu ou que irá existir, sou mais apaixonada por
ele do que pelo meu falecido marido, que descanse em paz, por isso, se estou lhe dizendo
que era ele, então, com Deus como testemunha, era ele. Não estou lhe contratando para
me dizer se ele está vivo ou não, nem para me dizer que estou louca, eu quero que o
encontre, e é só.

– E ele estava velho?

– Como?

– O Elvis, a senhora o viu, ele estava velho? Porque, pelo que eu me lembre, o homem
tinha mais de 40 anos quando anunciaram sua morte, logo, deveria estar com mais de 80
hoje em dia, não é?

– Ele estava...estava mais jovem do que deveria.

– E não acha isso estranho, Dolores?

– Acho, mas o mundo se tornou um lugar estranho, muito estranho, vivemos no fim dos
tempos com esses...esses...como se chamam mesmo?

– Super-humanos, vovó – o neto responde.


– Isso, super-humanos, talvez Elvis seja um deles.

– Você falou com ele?

– Infelizmente não foi possível.

– Não?

– Não, eu tive um pequeno contratempo.

– Ela teve um princípio de infarto – o garoto diz.

– A senhora quase morreu?

– Já não tenho mais vinte anos, o meu velho coração não aguentou a emoção, mas já me
recuperei.

– Entendo, meu jovem, qual é o seu nome?

– Leonardo Boaventura, sou neto e advogado dela.

– Eu paguei a faculdade dele – Dolores diz.

– Excelente, posso dar uma palavrinha com você lá fora?

– É mesmo necessário? – Ele pergunta.

– Eu insisto – me levanto e aguardo que ele faça o mesmo.

– Onde vocês pensam que vão?

– Já voltamos, vovó, é só um instante.

– Sou velha, não tenho tempo a perder, sejam rápidos!

Saímos do escritório, fecho a porta atrás de nós – Garoto, acho melhor você procurar um
médico para sua avó, está na cara que ela não está em seu juízo perfeito.

– Ela faz exames periódicos, não deram nada.

– Ela diz que viu o Elvis, procure uma segunda opinião.

– E se ela estiver certa? E se o Elvis for mesmo um super-humano?

– Não há quase nenhum registro de atividade super-humana naquela época, e, tenha dó,
é do Elvis que estamos falando, aqui, fazendo compras em um supermercado.

– Sinceramente, detetive, eu não sei, talvez seja só algo em que ela queira acreditar,
francamente não me importo. Ela tem 98 anos de idade, se amanhecer morta amanhã de
manhã, ninguém vai perguntar do que morreu, porque é de se esperar que pessoas nessa
idade morram. É viúva, sua única filha, minha mãe, não dá a mínima para ela, se minha
avó tem dinheiro para queimar e está disposta a gastar nessa investigação maluca, por
mim, tudo bem.

– Entendi, e olha, se fosse em outros tempos, tudo bem, eu não teria problemas em ficar
com a grana, mas eu mudei, ok? Não posso ficar correndo atrás de um delírio enquanto
arranco dinheiro de uma idosa.

– É um direito seu, há algo que eu possa dizer para fazê-lo mudar de ideia?

– Foi mal, garoto, mas não dá – eu abro a porta e me deparo com a idosa em pé, apoiada
com as duas mãos em sua bengala – Já acabou a conversa fiada? – Ela pergunta.

– Sinto muito, senhora Boaventura, mas não dá para aceitar esse serviço. Sei que não
acredita, mas não era o Elvis naquele supermercado.

– Ah, é mesmo?

– Infelizmente, mas desejo boa sorte, caso procure por outro detetive.

– Corta essa, seu paspalho, eu por acaso pedi sua opinião?

– Não, a senhora não pediu, mas...

– Pode apostar que eu não pedi, porque eu não dou a mínima para ela. Eu estou pagando,
e você vai fazer a droga do seu trabalho, caso contrário o meu neto vai lhe processar e
arrancar cada centavo que você conseguiu juntar nessa sua vida miserável.

Que velhinha simpática.

– Senhora Boaventura, me convenceu, vamos acertar os detalhes e começo hoje mesmo


a procurar pelo Elvis, vou virar os mercadinhos dessa cidade de ponta cabeça.

– Melhor assim.

– É claro que eu cobro por hora e pode ser uma investigação demorada, além disso, vou
precisar de um adiantamento, coisa pouca, apenas para despesas iniciais, imagino que não
seja um problema.

– Quem cuida dessa parte é meu neto.

– Ora, vejam só, então está resolvido, vamos preencher o contrato, Léo.

– Do que o senhor precisa? – Ele pergunta.

Faço com que preencham um contrato padrão, nem me dou ao trabalho de fazer novas
perguntas, só peço que assinem um cheque gordo e depois os dispenso com a promessa
de que irei me empenhar no caso.