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GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 22, pp.

91 - 109, 2007

A PROPRIEDADE CONTRA A POSSE E A PROPRIEDADE 2

Ricardo Baitz*

RESUMO:
O presente artigo discute a propriedade e as mudanças nela introduzidas com o Estatuto da Cidade.
A partir de uma perspectiva histórica de longa duração, investiga-se o processo que fragmenta a
Propriedade em elementos distintos, tais como posse, propriedade, direito de construir e direito de
superfície. Esses elementos são trabalhados enquanto uma necessidade do sistema que,
encontrando limites, mobiliza o objeto (a propriedade), abstraindo-o.
PALAVRAS-CHAVE:
Propriedade, Posse, Estatuto da Cidade.
ABSTRACT:
The present article argues the property and the changes introduced in it by the Statute of the City
(Federal Act number 10.257/2001, “Estatuto da Cidade”). From a long historical perspective, the
process that breaks the Property into distinct elements (such as ownership, property, right to
construct and surface right) is being investigated. These elements are studied as a system necessity
which, finding limits, mobilizes the object (the property), abstracting it.
KEY WORDS:
Property, Ownership, Statute of the City.

Introdução incluía a Propriedade de objetos e, às vezes,


a do solo. Esse tipo de estudo fez várias
Existe, na riqueza produzida pelos escolas, e seu método – o comparado –
muitos anos das ciências humanas, uma gama conferiu uma dupla utilidade, pois a descoberta
considerável de trabalhos versando sobre a de como o “outro” age, elucida a própria
Propriedade, em especial a territorial. Nessa sociedade do pesquisador, garantindo que, ao
gama, as interpretações são múltiplas e conhecer o outro, também se faça um
variam de acordo com a ótica da disciplina e auto-retrato da sua especificidade, e que se
ou o olhar do pesquisador, o que faz a balize o que simploriamente é posto como
Propriedade oscilar de fundamento a solução “natural” (do homem, da sociedade).
de todos os males.
Desse momento, o que mais importa à
A Propriedade enquanto temática é discussão deste artigo é apontamento da
explorada desde os primórdios das ciências presença da Propriedade em todas as sociedades
(ou desde a pré-ciência), quando, por exemplo, e em todos os momentos históricos, pois mesmo
“inocentemente” os viajantes registravam em nas sociedades onde o solo é comum , onde
seus diários a articulação social nos territórios há a Propriedade Comunal, resta a
estrangeiros, apresentando sua dinâmica, que Propriedade de objetos, que se inicia com

*Pós-Graduando em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciëncias Humanas - FFLCH/USP. E-mail: ricardobaitz@yahoo.com
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aqueles tidos como pessoais1 e culmina nos que primeira forma: a tautologia. Tornar toda e
conferem status , poder ou algum relevo no qualquer cuia “uma cuia” parece-nos bastante
contexto social. pouco, quase nada, quase o zero... Mas é a
partir desse momento inaugural, em que os
Esses últimos, nas sociedades que
conteúdos foram esvaziados para receber uma
conheceram o potlatch2 ou rituais similares, são
forma, que se efetivou o progresso no sentido
ofertados em sua inteireza, como dádiva ou
de uma sociedade, por assim dizer, “quente”,
revide aos oponentes; são assim Propriedades
dando início, faz-se necessário ressaltar, ao
das quais se dispõe para participação do ritual.
denominado processo civilizatório. c[A] = c[J] (cuia
Em síntese, nessas sociedades também se
de Antônio = cuia de José) suscita pôr em relação
encontra presente sobre a forma Propriedade (a
duas cuias, objetos em si infinitos de diferenças
qual os juristas discorrem tão bem, quase
(cor, forma, tamanho, aspereza, durabilidade…).
delimitando como propriedade privativa), em
especial ao que se refere sobre o dispor Em outros termos, para que
irrestritamente de um objeto. acontecesse a equivalência (“=”), para que c[A]
pudesse equivaler a c[J], foi necessário o
desenvolvimento de um pensamento
A Propriedade contra a posse e a propriedade extremamente abstrato, capaz de realizar
logicamente um esvaziamento momentâneo de
“Nem todas as partes do rio correm
todos os conteúdos das duas cuias, colocando-
igualmente. Além da espuma que se situa no
as em relação através da forma cuia, ficcionando
alto, existem as correntes mais profundas. A
logicamente tal equivalência. Essa complexa
espuma também faz parte do rio, mas ela só
operação beira a uma certa negligência 4 , mas
nos interessa se revela as correntes mais
foi através dela que a cuia (e demais objetos)
profundas. A espuma desaparece; os
pôde adentrar à sua forma mais pura, C = C,
redemoinhos e as grandes correntes se
que corresponde a uma tautologia quase estéril,
conservam. Assim, o inessencial, o que não é
um passo decisivo para a fórmula da identidade
causa de modo “profundo”, se desfaz,
(A = B, B = C, A = C, ..), e, para a troca! De um
desaparece. A “causa” é o lado calmo e
pensamento absoluto, no qual “a cuia é a cuia”,
profundo da corrente; é esse que recorta a
chegamos a um pensamento relativo, no qual
margem e manifesta a orientação do rio. Mas,
“uma cuia se equipara e equivale a toda e
certamente, o rio em sua totalidade muda, já
qualquer cuia”. E isso através da identidade, que
está mudando...” (LEFEBVRE, 1975, p. 199)
traz em seu bojo a equivalência, a troca possível,
Se por um lado a forma Propriedade a conversibilidade e a reversibilidade dos
existe em diversas sociedades, por outro lado termos, na medida em que a fórmula A = B
é apenas em condições muito específicas que também dita o inverso, que B = A5 .
seu conteúdo é movido abstratamente. Foi
Se retornarmos nossos olhares à
consoante a uma das mais notáveis conquistas
propriedade, em especial - mas não
da humanidade, a lógica formal, que se “chegou
exclusivamente - a territorial, esta seria
ao fim o que se chama falsamente de
representada, em sua forma tautológica, pela
‘pensamento primitivo’”3 e se abriu caminho
equação inaugural P = P, ou Propriedade =
para que a Propriedade fosse pensada
Propriedade, o que permite esvaziar os
abstratamente.
conteúdos espaciais e trabalhar abstratamente
Abandonando sua noção original - o continente, o território. Uma grosseria aos
aquela mais simples, geralmente vinculada à olhos da Geografia 6 , mas que faz sentido no
certas particularidades, e portanto, associada âmbito formal, aquele pelo qual o Direito se
a certas pessoas -, a Propriedade adentrou à enveredou.
forma tautológica, e aqui nos reportamos a sua
A propriedade contra a posse e a propriedade 2, pp. 91 - 109 93

Da equação inaugural às suas derivações possibilidade de pensar a Propriedade


separando o detentor da coisa de seu
“Sob a imobilidade aparente, a análise proprietário8 . E imaginar que alguém possa ser
descobre uma mobilidade oculta. Sob a o proprietário de um objeto sem, contudo, o
mobilidade superficial, ela atinge investir (antes o inverso: permitir a outro sua
estabilidades, auto-regulações, estruturas e “vestidura”) é uma operação complicadíssima,
fatores de equilíbrio. Sob a unidade global, com um alto grau de abstração, que outras
ela revela diversidades; e sob aparências sociedades desconheceram, o que justifica certo
múltiplas, uma totalidade.” (LEFEBVRE, 1965) sucesso da racionalidade clássica.
Se por um lado a fórmula inaugural Desse processo de abstração
permite pensar abstratamente a propriedade, sumariamente potente, cumpre ressaltar que a
inclusive dar-lhe tratamento próximo às lógica formal foi aquela capaz de cindir o que
mercadorias ao estabelecê-la no plano da era uma unidade em propriedade e seu
equivalência, por outro lado ela admite um decalque, a posse: esse é um modo possível
progresso, não se contentando em se fixar. O (mas não o único9 ) de compreender o instituto
pensamento fixo, estagnado, parado, também do direito de Propriedade, que conserva a forma
representa a redução, pois aquilo que freia as Propriedade, mas modifica seus conteúdos,
potencialidades tende a se atrofiar pelo não uso. abstraindo-a 10 . Está revelada, agora, a chave
Guardadas no armário por muito tempo, as desse texto.
sementes envelhecem, as máquinas deterioram-
se e o pensamento se deixa estar em algum
lugar do passado, aquele do tempo de sua Do abstrato ao [abstrato] concreto
formulação, longe do presente, portanto. Por
isso é importante recuperar que o movimento “-De quem é essas terra? -Do coroné.
de abstração da propriedade - fundado na -E pra lá? -Também é do coroné.
antigüidade clássica, que trouxe no seu bojo a -Puxa. -Tem muito chão
lógica formal e com ela, a equação P = P - admite -Quem? -O coroné.”
um progresso, um algo a mais que a tautologia. (ANDRADE, 1974, p. 219)
Esse algo a mais passa agora a ser desvendado,
Além de lógico, esse processo é concreto
sob a hipótese de se tratar de uma
na medida em que tende, meio aos diversos
decomposição lógica de um dos termos.
agentes sociais, à interferência no real. De modo
Se adentramos à história desse período, que essa abstração, concreta, através desses
verificamos que, logo após a tautologia que agentes, trouxe resultados bastante práticos à
permitiu a troca das Propriedades, outro humanidade (compreendida aqui em sua
processo de abstração, a saber, aquele da inteireza). Tais resultados possibilitam a
distinção de dois dos seus elementos: a posse conquista de territórios cada vez mais distantes,
e a propriedade. De modo que a equação culminando na demarcação de cada m 2 do
proposta (P = P), conquista penosa à planeta Terra, territórios esses adjetivados de
humanidade, em pouco tempo se fez públicos ou privados, comuns ou privativos, que
ultrapassada, com seus termos substituídos a partir de então passaram a pertencer a
pelos elementos posse e propriedade. alguém, corpóreo ou incorpóreo. Face ao modelo
Matematicamente a fórmula passou a ser “bárbaro” de sociedade, na qual o solo é
representada por P = { p , o }, sendo simultaneamente apropriado e abandonado à
[p]ropriedade e p[o]sse os elementos do medida que se avança com a conquista de novos
conjunto [P]ropriedade 7 . Da tautologia, que espaços e o descarte dos que ficam para trás11 ,
consiste em pensar toda propriedade como uma o modelo “civilizado” de sociedade, ao separar
propriedade (generalização), surgiu a posse e propriedade, permitiu a acumulação
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para além do uso, sobre tudo o que fosse + t ) , o }, sendo a partícula ‘t’ o tipo de
passível de se exercer o poder de domínio (ou propriedade 14 (rural ou urbana).
simplesmente domínio , para evitar a
redundância) 12 . Assim foram pilhados os Exercendo o poder de normatizar o
territórios conhecidos por Roma, que conferia território, o poder público pôs no espaço sua
aos povos dominados o direito de posse, razão, dividindo a cidade em múltiplos usos:
reservando para si o direito de propriedade territórios industriais, comerciais, residenciais,
mediante o exercício do domínio; e pelo mesmo que podem ou não se justapor (uma área
meio - a força - esse modelo se universalizou residencial pode – ou não – admitir alguns tipos
mais tarde, abarcando o mundo, as Américas e de comércio, por exemplo, admitindo mais de
suas civilizações. um uso para a mesma porção do espaço, de
acordo com a vontade do seu proprietário) 15 .
A mobilização dos conteúdos da Limitando o exercício do poder de propriedade
propriedade (mas não só ela) deu flexibilidade individual ao submetê-lo à lei de zoneamento,
a um mundo estático, “frio”13 . Esse talvez seja de ordem pública, ele conseguiu, a partir desse
seu grande mérito, e esse registro precisa ser momento, dar relevância e peso ao elemento
feito. Considerando-o, resta-nos ir além e uso da propriedade, mobilizando a equação
compreender, nova e insistentemente, que um anterior para P = { ( p + t + u ) , o }, ou seja,
processo de abstração, enquanto uma forma de Propriedade = { ( propriedade + tipo + uso ) , posse },
pensamento, comporta um progresso, com ainda que a partícula p e t surjam, nesse
novas etapas que “superam” a anterior, momento, enquanto uma qualidade da
aprimorando-a. Esse progresso existe, e é o propriedade por ocasião da sua imutável posição
tema dos próximos parágrafos, que analisam a territorial. A produção do zoneamento foi
propriedade atualmente, retendo todo esse também a produção de uma raridade, cada vez
entendimento do passado como esquiva aos mais aprofundada, nas áreas urbanas.
fáceis idealismos modernos.

A Propriedade recebe novos elementos


O uso é transformado numa qualidade
A Propriedade, que foi tomada
De uma concepção de Propriedade abstratamente e depois cindida em posse e
enquanto uma unidade chegou-se, através da propriedade, que por sua vez teve
lógica, à sua decomposição em dois elementos: desenvolvidas pela administração pública as
propriedade e posse, P = {p, o}. Mas, além de qualidades de um certo tipo e uso, encontrou
forma, a propriedade admite conteúdos, e por recentemente novos elementos: solo criado 16 ,
assim dizer, um uso (ou utilidade), o qual pode direito de superfície... Não importa classificar se
ser reduzido e se transformar em utilitarismo. tais termos foram vislumbrados pela esquerda
Salta-se agora para uma história mais recente, ou pela direita: assim como a abstração inicial
que já foi naturalizada para muitas pessoas, não foi ideologicamente ingênua (haja vista
inclusive pesquisadores. A razão estatista como ela foi possível) e produziu resultados
(razão de uma época, complementa-se), bastante conhecidos, esses decalques também
trabalhando a propriedade enquanto um certo o farão; e o fato desses elementos estarem
uso (uso recrudescido, ressalva-se), inclinou-se fundados na mesma lógica apenas corrobora
a também separar esse elemento. essa indicação. Mais importante que o apontado
Primeiramente, tornando o solo rural diferente anteriormente é encontrar as fissuras dessa
do urbano (uma propriedade na cidade é grade e localizar o momento em que essa nova
diferente de uma propriedade no campo em gama de abstrações entra em cena, pois sua
termos jurídicos, por exemplo), de modo que a entrada à forma da propriedade (do solo) não
equação se tornou, a partir de então, P = { ( p se realiza por abstração pura, como se a lógica
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se realizasse por si própria, de maneira de construir, a nova fórmula da Propriedade, uma


autônoma, mas por uma necessidade do sistema equação em metamorfose, se aprimora e passa
que alcançou seus limites nos negócios e precisa a ser ditada por um conjunto mais complexo,
se reinventar a fim de prolongar sua vida, o que adicionado de um novo elemento, o direito de
se compõe à teoria marxista e localiza a vivência construir, representado pela partícula “c”: P’ ’=
de uma crise17 . { p’, o’, c }, ou P’’= { (p + t + u)’
, o’, c}. Essa
fórmula, abstrata, ganha concretude à medida
Foi assim que a administração pública,
que se visita as áreas de Operações Urbanas,
encontrando certos limites de reprodução (em
onde o gabarito da cidade aumenta
especial nas cidades, onde a terra, um bem cuja
vertiginosamente, e a cidade enquanto negócio
natureza é monopolista por não poder ser
se aparenta infinita, embora seja expressão de
reproduzido, rapidamente se fez finita e rara),
um limite, e de uma crise de reprodução22 .
flexibilizou todo o ordenamento jurídico sobre
o solo (e, em especial, seu entendimento, que Ademais, as Operações Urbanas
originalmente era “iluminista”18 ) para que além admitem a emancipação do uso enquanto uma
da propriedade e da posse, o direito de qualidade do território ao permitir que o
Propriedade fosse concebido enquanto direito proprietário modifique essa regra do
de criar solo. Nessa figura, a possibilidade de zoneamento, adquirindo títulos da
construir pisos (ou andares) aéreos ou municipalidade. Assim, um terreno residencial de
subterrâneos, criando áreas maiores que o coeficiente de aproveitamento 2 pode ter seu
terreno possui, foi isolada como um direito em coeficiente majorado para 4, e o uso modificado
si autosuficiente, real 19 , o que sugere o para comercial. Com essa emancipação, a
destaque do direito de construção do direito de equação se torna P’’= { (p + t)’
, o’
, u’, c }, com o
propriedade. Sob a forma de Operações uso surgindo pela primeira vez enquanto
Urbanas 20 , os interessados em construir elemento, e não mais como uma qualidade.
grandes edifícios que extrapolam o zoneamento
*
“normal”21 podem fazê-lo nas regiões
delimitadas por esse instituto, bastando para Novos institutos, como o direito de
isso a compra de “aditivos” à propriedade que superfície 23 , introduzidos pelo Estatuto da
podem ser adquiridos da própria municipalidade Cidade (lei federal 10.257, de 2001) ainda não
ou de particulares, vista serem direitos reais, produziram resultados significativos, mas têm
representados por papéis de livre negociação. ensaio marcado. Na cidade de São Paulo seu
Com a raridade do espaço horizontal criou-se a laboratório será uma grande área de três
raridade do espaço vertical, ainda que fictícia, proprietários (Municipalidade, Telefônica 24 e
sob a representação de títulos que na cidade CPTM), onde formula-se a criação de um novo
de São Paulo chamam-se CEPACs (ou bairro, o Bairro Novo, objeto de um concurso
Certificados de Potencial Adicional de público arquitetônico em 2004. Sabe-se que
Construção), que são igualmente finitos, nenhum desses proprietários cederão suas
embora sejam apenas números. Essa finitude, propriedades 25 , mas apenas o decalque da
estabelecida por critérios “científicos” que superfície, permitindo ao superficiário o uso,
consideram o “suporte” da região para novas mediante pagamento, por períodos
construções, serve para dar efetividade aos predeterminados.
negócios particulares, em especial os que
Nosso “confuso” conjunto recebe mais
envolvem especulação à custa de uma
um elemento, um novo decalque: a [s]uperfície:
antecipação à municipalidade, na medida em
P’’
’= { (p + t)’ ’, o’
’, u’
’, c’, s }, e faz unir ao
que se constituem – e que são apresentados,
proprietário, ao posseiro, ao especulador (que
sob a forma de leilão – como uma nova raridade.
compra os CEPACs objetivando sua revenda por
Com o solo criado e a outorga onerosa do direito
maior valor) a figura do superficiário, que possui
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o direito de superfície, conforme o art. 22 (dentre anuncia a possibilidade de que quem “comprar”
outros) desse Estatuto. um apartamento construído com o conceito de
solo criado, sobre o direito de superfície,
Não é certo o papel desse novo
amarrado a um direito de propriedade alheio,
personagem, o superficiário; apenas se sabe
terá sua “propriedade” (o bem imóvel) bastante
que sua função é de segundo figurante, pois
volatilizada, especialmente quanto aos
ele é o mais “despossuído” desse conjunto
procedimentos cabíveis em caso de
(inclusive quando comparado ao posseiro), pois
inadimplemento, para citar um único exemplo26 .
aquele que usufrui da superfície pode estar
Por sua vez, o usucapião torna-se brando,
condicionado a procedimentos jurídicos
quando não ineficaz, vista que esse instituto
diferentes da tradicional reintegração de posse
supõe a posse mansa, e não a detenção da
(instrumento pelo qual o proprietário busca,
superfície 27 .
através de seu direito de propriedade,
reestabelecer a posse ao seu domínio) ou da Chega-se, agora, ao final dessa segunda
desapropriação. O rito para quem descumpre parte do texto, com o seguinte quadro
as cláusulas do direito de superfície ainda não propositivo28 para a compreensão do direito de
está completamente esclarecido pela propriedade:
jurisprudência, mas enquanto latência, já se

Do entendimento do lógico para uma estraté- produção. É remontando à maneira pela qual
gia da prática essa operação se efetiva que se pode averiguar
que posse e propriedade (para nos atermos a
O “problema” da propriedade se torna dois termos apenas, “simplificando” o conjunto
mais complexo à medida que surgem os novos que se sabe ser mais complexo) são
decalques, os novos elementos. Qualquer complementares da Propriedade, e não seus
tentativa de solução passa necessariamente, antônimos (formais ou dialéticos).
agora, pela compreensão do processo de sua
A propriedade contra a posse e a propriedade 2, pp. 91 - 109 97

Vários geógrafos notaram que apesar de múltiplos segmentos, como os de software de


serem elementos distintos, cada um deles computadores, estúdios fonográficos e
permite - se forem devidamente trabalhados - cinematográficos. Em comum, o que reúne essas
a reunião do outro elemento para a restituição empresas é a venda de uma fina camada de
da Propriedade numa unidade (sobre a direitos aos “consumidores”, camada essa que
Propriedade do solo, sabe-se que o proprietário não atinge a Propriedade. A venda de um CD
pode pleitear a reintegração de posse perante de música permite que o comprador ouça as
o invasor, bem como o posseiro “manso” pode faixas, na ordem preferida, sempre que desejar.
exigir o usucapião da propriedade investida), Mas ele não pode executar, sob qualquer
de forma que há sempre um fino (mas pretexto, uma faixa qualquer do CD numa festa,
resistente) fio unindo esse dois elementos, ainda que “particular”, pois a cessão de direitos
permitindo sua comunicação e aproximação, ou de ouvir as melodias restringe sua execução
seja, sua reunião. Contudo, ao lado do pública. Não pode o comprador, igualmente,
conhecimento desse importante aspecto, outro reproduzir o CD de áudio para um amigo, ou
tem sido eclipsado, e às vezes deixado no fazer uma cópia de segurança para manter no
desconhecimento: trata-se do primeiro, que carro, sob pena de infringir o contrato com a
situa posse e propriedade como empresa fonográfica. O mesmo – e mais – se
complementares. Muitas vezes a posse é aplica ao software: certos programas não
apresentada como uma oposição à propriedade, permitem que o comprador, mesmo desistindo
embora ela possa ser, no máximo, seu reflexo de usar o produto, possa vendê-lo a qualquer
invertido. A constatação ou persistência da interessado, por ser proibida a revenda ou
posse apenas evidencia a presença/ausência doação. Em outras licenças, é impedida a
da propriedade, não resolvendo o “problema”, transferência do software de uma máquina para
impossível de se extinguir com essa proposição. outra, ainda que as duas sejam do mesmo
Para isso é preciso compreender que na história comprador (e note-se: não se trata de usar o
o oposto da propriedade privada (aquela que programa em dois computadores
priva as demais pessoas) não pode ser a posse, simultaneamente, mas de transferir o programa
mas a Propriedade Comunal. Em termos de um computador, mais antigo, para outro,
dialéticos, a propriedade passa a ser mais novo); e existem casos onde há regulação
compreendida enquanto o termo positivo, a de quantos usuários poderão acessar o
posse enquanto o termo negativo, e a software, ainda que todos partilhem da mesma
Propriedade Comunal a síntese ou momento de máquina. Se não se pode copiar a música ou o
superação. Superação inexistente quando se programa, se não se pode tocar o CD em
permanece nos dois termos, ou mesmo quando público, se não se pode transferir o programa
se objetiva a reunião deles (o posseiro que de um computador para outro, o que se compra
consegue a propriedade mas não a eleva à de fato quando se adquire um software ou um
propriedade Comunal apenas reitera a lógica CD de música? Resposta: um pequeno decalque
da propriedade privada, e faz dialética de dois de Propriedade, que permite o direito de
termos, sem superação, tornando os termos escutar o som ou executar o software, e nada
estáticos e conservadores). mais, ficando todos os demais direitos
assegurados a seu proprietário. Com esse tipo
*
especial de “decalque”, o proprietário vende algo
O processo e sua superação são melhor muito melhor que sua Propriedade, pois a
elucidados quando se analisa como esse conserva, e é sobre essa forma toda especial
instituto vem se desdobrando abstratamente, de disponibilizar a Propriedade sem, de fato, abrir
em outros âmbitos, como no caso da mão dela que se fazem as grandes fortunas
propriedade intelectual. Nesse campo são nesse meio (a propriedade em si não cria a
formadas fortunas, não aleatoriamente, em fortuna, ao máximo a expressa, pois é o trabalho
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a medida de todo valor; contudo, através dessa a como de domínio público era revolucionário,
estratégia são “recolhidos” e acumulados mas capturável), de modo a minar o inimigo em
valores, ainda que a propriedade em si, reitera- seu interior, compondo-se à sua lógica (coisa
se mais uma vez, não produza valor29 ). que o Domínio Público não permite, por ser uma
Trata-se de um processo bastante racionalidade exterior ao processo), de forma a
refinado de abstração, cujas similaridades com levá-la ao seu limite interno, realizando o
o que envolve a propriedade do solo fazem inverso daquilo para o qual foi projetada. É
deslocar seu ápice. O estágio atual deve ser então que aconteceu uma revolução digna do
compreendido não através de reflexos, mas de adjetivo genial: de uma concepção que negava
desenvolvimentos desiguais e combinados, com a propriedade privada passou-se a afirmá-la,
seu vértice representado pela propriedade tornando tudo o que se produzia anteriormente
intelectual, restando à propriedade do solo uma sob licença de “domínio público”, em proprietário.
condição de atraso para a qual o capitalismo Com isso, assegurando o direito de propriedade,
busca uma “atualização”, através dos os hackers garantiram o destino de sua
mecanismos já mencionados (nos quais inclui- produção 32 , evitando a captura da propriedade
se o Estatuto da Cidade). A investigação se intelectual pelas empresas que, com pequeno
desloca para a propriedade intelectual, e nos investimento, tornavam seu (através de
interessa em especial saber como, nesse meio, incorporações a sistemas mais complexos ou
as batalhas estão se realizando. derivados) o trabalho liberado como de domínio
público.
Compreendendo que ser proprietário
A guerrilha lógica assegurava também dispor irrestritamente da
criação, fez-se um decalque na propriedade
Reconstituição de um momento histórico,
permitindo sua reprodução a quem
na década de 80: após um período de batalhas
interessasse, desde que nesse processo não
“heróicas”, no qual frente aos programadores
houvesse ganhos superiores ao da mídia de
“de mercado” existiam os de “pesquisa”, a
suporte (CDs, disquetes, que são materiais que
vitória parecia assegurada ao mercado que
custam pouco). Em modelos mais abusados de
avançava indistintamente, comprando a
decalques, fez-se a permissão irrestrita de
produção intelectual daqueles dispostos a
cópia, reservado o direito integral de
vendê-la, por um lado, ou incorporando aquilo
propriedade, inclusive o da propriedade
que era tornado domínio público, pertencente
derivada, tornando esse tipo de software um
a todos, e por isso passível de apropriação,
“vírus”, fazendo com que tudo o que ele tocasse
inclusive pelas empresas 30 , por outro lado. As
se transformasse em software sob licença
tentativas de confronto com a propriedade
“GPL”33 , e assim em propriedade fora da forma
privada eram ineficazes, pois a transformação
mercadoria; ou melhor, numa forma que é contra
da propriedade privada em propriedade pública
a mercadoria e também contra a propriedade,
(de software privado em software de domínio
ainda que isso se dê afirmando-a!
público ) apenas permitia sua apropriação
irrestrita, pouco inibindo o sentido do mercado, Foi assegurando a condição de
que consiste em fazer o software girar enquanto proprietário que se pôde estabelecer a
mercadoria 31 . propriedade não como propriedade pública (que
é o espelho invertido da propriedade privada),
Havia um erro de estratégia, e os
mas enquanto propriedade comum (ou comunal,
hackers, altamente gabaritados na lógica formal,
indicando estágio de superação, para além da
o descobriram: era preciso ações
dicotomia público-privado), protegendo-a
procedimentais, e não genuinamente
inclusive de seu criador ao dar-lhe autonomia e
revolucionárias (abolir a propriedade, lançando-
vida própria através de dispositivos que
A propriedade contra a posse e a propriedade 2, pp. 91 - 109 99

impeçam a revogação do termo, no todo ou em compreendendo que um objeto uma vez


partes. Operações lógicas, mas que no seu fracionado (ainda que esse fracionamento se
“pano de fundo” demonstram um profundo faça logicamente) nunca deixará de ser esses
entendimento da maneira de operar da pedaços, inclina-se a pensar em compor-se a
sociedade (que não é lógica, mas se esforça para essa lógica para restituir a propriedade do solo
sê-lo 34 ), mediante uma telescopagem do local enquanto propriedade comum. O pesquisador,
com o universal35 . exercendo a propriedade de suas idéias e desse
texto, recusa o primeiro momento e inclina-se
Em quadro sintético, a GPL, atuando na
ao desenvolvimento do segundo.
distribuição, atingiu a produção ao contaminá-
la, impedindo que o resultado do trabalho se *
transformasse em mercadoria (ao menos em
mercadoria tal qual se conhecia pelas outras Bom seria se os objetos fossem puros,
licenças de software). Seu aspecto mais e pudessem ser facilmente catalogados como
importante é o caráter viral e o tipo de guerra bons ou ruins, simplesmente. Isso facilitaria por
que permite, inserindo-se na lógica interna, demais o labor de um filósofo, assim como o
fazendo-a ir ao seu limite, para então extrapolá- trabalho do artista caso no mundo houvesse
la, sugerindo seu oposto. Ela indica, ademais, apenas as cores puras. Mas, para o azar de
uma nova forma de lutas de classes, que alguns pensadores, entre o bom e o ruim há
Lefebvre denomina por “formas modernas de um espectro praticamente infinito de
lutas de classes” (LEFEBVRE, 2005); possibilidades. E, no arco-íris, cada cor se
intensifica até atingir um auge; então ela decai,
gradualmente, deixando-se modificar, até atingir
uma coloração diversa, transformando-se na cor
Apontamentos sobre o solo: para além do
adjacente. Classificar o Estatuto da Cidade como
público e do privado
bom ou ruim seria adentrar a essas formas duais
Com esses elementos recupera-se a e simplórias de entendimento, ou seja, seria
discussão da propriedade do solo, e a do uma redução.
Estatuto da Cidade. Já está descrito o sentido
Ele não é uma negatividade pura. Ao
abstrato que a propriedade ganhou nesse
contrário, quase toda análise preliminar
processo. Também está descrito que tal
encontra nele positividades através de
movimento não cessou, e que, com ele, a
instrumentos para uma luta social horizontal,
tendência da propriedade é se tornar cada vez
tal como a Concessão de Uso Especial para Fins
mais abstrata. Feito isso, ainda há tudo por se
de Moradia. Esse mecanismo jurídico, por
fazer, pois se o pensamento não é apenas
exemplo, engendra a possibilidade de criação
descrição, mas suporta ação, e por isso cumpre
de territórios mais livres, “quase” comuns.
agora desenvolver a estratégia possível frente
“Quase”, porque os territórios sustentados por
a essa lógica que fragmenta, que retira camadas
esse tipo de intervenção preservam o modo
de um objeto para reinserí-lo enquanto
estatista de pensar o espaço - o que é o
mercadoria. E qual seria ela?
bastante para suscitar desconfiança -,
Os limites da pesquisa – e do especialmente pela possibilidade de
pesquisador – possibilitam a apresentação de transferência da concessão para outro local se
apenas dois modos de resolver o dilema, até o a área concedida for destinada, a qualquer
momento. O primeiro, compreendendo que a m om ento, a projeto de urbanização 36
.
Propriedade é fracionada em posse,
Mas além das positividades e
propriedade, direito de construir, solo criado,
negatividades, o Estatuto carrega consigo um
imagina poder restituí-la numa unidade, como
sentido mais profundo, e o caminho desse texto
nos momentos primitivos. O segundo,
foi o de explorar uma tal correnteza,
100 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 22, 2007 BAITZ, R.

demonstrando de que forma, com esse irrestrito sobre seu “bem”, podendo fazê-lo
Estatuto, a propriedade territorial no Brasil adentrar ao jogo na contramão do
ganhou, efetivamente, um grau mais abstrato carteado 39 .
como compensação aos limites que lhe são
internos 37 . A propriedade progrediu: e isso Paradoxo? Esse projeto carrega
foi uma conquista, um progresso. O que consigo contradições; mas de ordem formal.
muda radicalmente a maneira de guerrear Seu pressuposto é, com efeito, o indivíduo;
na luta pela cidade: a propriedade mudou, mas não um indivíduo utopista que se crê
e com ela as batalhas pelo morar se autosuficiente. Ao contrário, falamos aqui de
transformaram e ganharam outras um indivíduo consciente do processo social
possibilidades. que o emancipou, consciente que sua
individualidade é, antes de tudo, coletiva;
Por muito tempo os movimentos consciente que ele é fruto de uma luta contra
sociais foram acusados de fazer o jogo do a coletivização que dissolvia as
inimigo ao exigirem a propriedade privada possibilidates de se ser “alguém” (ANDRADE,
dos terrenos conquistados. Isso, diziam os 1995, p. 55, p. 127). É também um projeto
opositores, reforçaria o caráter de bem contra o individualismo abstrato, cuja
negociável, permitindo a compra e venda dos realização concreta resultou na sociedade
lotes, o que é bastante verdade. Assim como q u e b e m c o n h e c e m o s . S e r i a u m a “l u t a
também o é o fato de que todo chão tem um mortal” (Lebenskampf), no sentido
proprietário, e que se o movimento social hegeliano do termo, contra dois flancos? O
não exigir a titularidade das terras, a peso das palavras amedronta, mas dá a
municipalidade a reterá, podendo mobilizar dimensão (medida) da batalha. É também
em qualquer momento a população lá uma luta de classes, que encontra sua forma
s i t u a d a p o r “i n t e r e s s e p ú b l i c o ”. C o m o moderna de combate, na qual proliferam
capitalismo e a forma capitalista de pensar táticas subterrâneas ao passo que a luta
o mundo (o Estado é uma expressão), a horizontal é aposentada quase
propriedade se tornou efetivamente, um compulsoriamente, por se fazer quase
problema a ser pensado, mesmo que a única ineficaz.
coisa que se queira é o direito de ir, vir e
permanecer onde se vive. Como amenizar Inovar o estatuto da Propriedade,
esse problema sem cair num pensamento minando-a da condição de mercadoria (bem
idealista? negociável, comprável), re-estabelecendo-a
enquanto uso, enquanto propriedade
O passado auxilia. A GPL, resultado comunal: é uma via de riscos, que para se
desse processo de abstração num tipo muito efetivar necessita de uma profunda
especial de direito, demonstra ser possível pedagogia social, a fim de superar a
decalcar suavemente parte da Propriedade ideologia da propriedade privada, fazendo
de maneira a restabelecê-la enquanto uso, nascer um novo tipo de homem, que
permitindo o gozo e a festa. Sua luta recupere todas as potencialidades da
evidencia que o movimento de abstração de história e se desprende das suas
um objeto é plástico, e que com ele pode- repressões.
se também desenvolver o outro da
alienação, fazendo com que a propriedade
escape do domínio público e privado, e se
situe no âmbito do comum. E eis o paradoxo:
tal possibilidade não se dá enquanto uma
negação da Propriedade 38 , mas acirrando a
figura do proprietário que detém direito
A propriedade contra a posse e a propriedade 2, pp. 91 - 109 101

Notas
1
A cuia e a lança são bons exemplos de objetos escala ainda mais grandiosa. Caso contrário,
pessoais. Estão, de certa forma, tão atados destróem seu nome, sua honra, seu emblema e
à pessoa que ospossui, que se fundem ao seus totens, e até seus direitos civis e religiosos.
seu proprietário , justificando o fato de O resultado de tudo isto é que as posses de toda
acompanharem seu “dono” para além da a tribo vão circulando por entre as “grandes
vida. São vários os relatos etnográficos de famílias”, ao acaso.” (HUIZINGA, 2004, p. 66).
rituais fúnebres nos quais, curiosamente, os
objetos íntimos são mantidos com o morto,
3
Cf. LEFEBVRE, 1975, p. 166. Nesse trecho da obra,
por lhe serem “próprios”, fazendo-lhe Henri Lefebvre apresenta um quadro geral da
referência direta, o que torna a lança “em “história da lógica formal”, situando as condições
si” não uma lança apenas, mas uma que permitiram ao pensamento grego a abstração
extensão daquele que deixou a vida. Ela e o desenvolvimento deste.
perece com o ente da comunidade, ainda 4
“Essa eliminação só pode levar a uma negligência,
que haja uma escassez coletiva e no plano a uma supressão pura e simples, no caso do
racional seja interessante o entendimento, isolando-o a si mesmo, converter-
reaproveitamento do objeto por outros se em entendimento metafísico. Quando ele
entes da coletividade. realiza normalmente sua função, a eliminação do
2
“(...) em sua forma mais típica, encontrada conteúdo é apenas momentânea. O pensamento
na tribo dos Kwakiutl, o potlatch é uma (neste caso, a razão) toma uma consciência mais
grande festa solene, durante a qual um aguda desse conteúdo através do ato que
grupo, com grande pompa e cerimônia, faz determina uma sua parte restrita; e a razão, em
ofertas em grande escala ao outro grupo, seguida, preocupa-se em voltar ao conteúdo a
com a finalidade expressa de demonstrar fim de captá-lo em sua totalidade e em sua vida.
sua superioridade. A única retribuição A eliminação momentânea não é uma supressão,
esperada pelos doadores, e que é devida mas uma negação dialética, que ainda envolve o
pelos que recebem, consiste na obrigação que é negado.” Cf. LEFEBVRE, 1975, p. 131.
de estes últimos darem por sua vez uma 5
O exemplo não se esgota na cuia. O pensamento
festa, dentro de um certo período, se que conquistou tal abstração se predispõe a
possível ultrapassando a primeira. Este evoluir, a se tornar ainda mais abstrato, e a
curioso festival de donativos domina toda a relacionar outros objetos díspares, como a lança,
vida comunitária das tribos que os praticam: com a cuia. Através da equivalência duas lanças
os rituais, as leis, as artes. Qualquer passam a equivaler uma cuia, que por sua vez
acontecimento importante pode servir de equivale a 3 flechas (2L = 1C = 3F). Ao se
pretexto para um potlatch , seja um expressar proporções usamos o sinal de
nascimento, uma morte, um casamento, igualdade, o que faz com que 2L = 1C = 3F. Os
uma cerimônia de iniciação ou de tatuagem, termos podem ser rearranjados, desde que não
a construção de um túmulo, etc. É costume se altere as proporções, de forma que outra
o chefe oferecer um potlatch sempre que possibilidade de se expressar essa relação é
constrói uma casa ou um totem. No potlatch, 1C = 2L = 3F. Decerto, tal equação é bastante
as famílias ou clãs apresentam-se sob sua rígida, e pode ser relativizada, se ao invés de
forma mais brilhante, cantando suas números absolutos utilizássemos variáveis (ao
canções sagradas e exibindo suas invés do multiplicador 2, a variável “a”; e ao invés
máscaras, enquanto os feiticeiros, possuídos de 3, “b”). Com isso teríamos C = aL, para nos
pelos espíritos do clã, entregam-se à sua atermos aos dois primeiros elementos. Tais
fúria. Mas o principal é sempre a distribuição elementos podem ser incrementados sem perder
de bens. O promotor da festa dissipa nesta a proporcionalidade, de forma que 2C = 2aL, ou
todas as posses de seu clã. Contudo, o fato melhor, C2 = aL2. Se C2 = aL2 e C1 = aL1, então
de participarem da festa dá aos outros clãs C2 - C1 = aL2 - aL1, ou C2 - C1 = a(L2 - L1), ou C2 -
a obrigação de oferecer um potlatch em C = a(L2 - L). Agora, se seguirmos a orientação
102 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 22, 2007 BAITZ, R.

de um homem que transcendia as ciências em


8
A pergunta-chave de Lefebvre é: “como isso foi
seus estudos sobre o cálculo diferencial (MARX, possível?”. Tal pergunta se reitera no seu livro
1983) e aplicássemos a tautologia em C, retirando “Lógica Formal, Lógica Dialética” e embora não
a noção de proporção, teríamos C 2 = C, que se haja uma resposta única, ele sugere, em diversos
resolve em C2 - C = 0; o que tornaria a equação momentos, pensar a divisão social do trabalho
precedente 0 = a(L 2 - L). Por sua vez, e pelo como um eixo potente para explicar a história da
mesmo princípio, L2 = L se resolve em L2 - L = 0, lógica, que é uma história social. Partindo dessa
culminando na equação 0 = a.0 e ao número zero, hipótese, ele expõe que existe, na história, um
vazio de conteúdo e por isso passível de ser momento no qual “a vida social se diferencia e
preenchido de diversas formas. se aperfeiçoa; surge a divisão social do trabalho
e, notadamente, a separação entre trabalho
6
Sabe-se que 100 pedaços de chão do planalto material e trabalho intelectual.” (p. 54). Esse
paulista jamais serão 100 pedaços de chão momento, potente, permitiu, na Grécia, o
amazônico, ainda que se altere a medida do desenvolvimento do idealismo metafísico, calcado
pedaço (centímetros, metros, hectares, na “divisão das atividades humanas (divisão do
alqueires), por, de fato, existirem atributos
trabalho, separação entre trabalho intelectual e
espaciais, tema bastante íntimo dos geógrafos.
trabalho material), com suas conseqüências:
100 pedaços de chão do bairro de Pinheiros
separação da teoria e da prática, da alma e do
jamais serão 100 pedaços de chão do Jaguaré,
pois a posição geográfica, para citar apenas um corpo, do pensamento e do objeto.”(p. 77). “Essa
desses atributos, determina cada um desses separação entre o concreto e o abstrato, entre a
fragmentos do território como único; por isso de contemplação e a ação, entre a teoria e a prática,
se reportar a uma troca possível quando se sabe (...) teve um fundamento social, a escravidão,
que ela é, materialmente, impossível . Daí da pois todo trabalho prático e produtivo era
importância da mediação do pensamento abstrato abandonado aos escravos e o pensamento
para os objetos concretos: com ele o concreto metafísico dos gregos foi uma ocupação
se torna abstrato, e o abstrato, concreto; ou aristocrática, um prazer luxuoso reservado aos
melhor ainda, o concreto se torna homens livres” (p. 110). Alain Bihr, em
concreto-abstrato e o abstrato, abstrato-concreto, texto-homenagem - como esse! - ao mestre,
visto que ambos os termos se transformam após compartilha de suas idéias, acrescentando que é
experimentarem o seu outro. nesse momento histórico que se proliferam as
7
O novo termo P, sendo distinto da equação anterior, trocas de mercadorias e de dinheiro, responsáveis
talvez merecesse uma revisão, e ser tratado por pela dissolução do mundo mítico, também
P’ou P1, indicando haver um progresso. A fórmula denominado erroneamente de primitivo (BIHR,
seria, nesse caso, P’= { p , o }. Existir um 2001, p. 3).
progresso, nesse caso, indica um reforço do
termo. A nova Propriedade (P’ ) é mais potente
9
A perspectiva de longa duração desse artigo não
que a primeira à medida que a permite se realizar anula a especificidade que a propriedade tomou
de forma ainda mais abstrata, como será discutido com o capitalismo, antes se compõe a ela. A
nos próximos parágrafos, sem a presença do citação de Seabra é um convite à visita do quarto
proprietário em período integral. Tal movimento capítulo de sua livre-docência: “A História mostra
é denominado de aprofundamento, em Lefebvre: que o ‘ dono’e a propriedade puderam separar-
“se o ‘fim’ de um progresso reencontra o seu se porque foram estabelecidas, como
começo, não temos aqui um círculo vicioso, mas prerrogativas do direito, por um processo
uma superação real, na condição de que o convencionado em termos políticos, a estipulação
progresso (..) seja efetivo e consista num do ‘ preço’, como condição de mobilidade da
a p r o f u n d a m e n t o d o p o n t o d e p a r t i d a ” Cf. propriedade. A Lei de Terras proibiu doação e
LEFEBVRE, 1975, p. 233. estabeleceu a obrigatoriedade de compra e
venda. Foi esse o fundamento pelo qual a
propriedade, em princípio um direito, foi
transformada numa variável econômica do
capitalismo. As diferentes modalidades que essa
A propriedade contra a posse e a propriedade 2, pp. 91 - 109 103

forma econômica pôde assumir é, desde o século proletarizando-os. Trata-se de um processo de


XIX, objeto de controvérsias, mas sob consenso expropriação necessário para a subsunção ao
de que a propriedade é um equivalente de trabalho, visto que deve restar ao trabalhador
riqueza, pois nada produz.” (SEABRA, 2003, p. apenas sua força de trabalho de forma que esse
340). a coloque à venda, dia após dia, na hasta pública.
Esse processo, cuja natureza é negativa, carrega,
10
O progresso dos termos admite a superação
para o “jurista” Marx, um aspecto positivo, pois
parcial, provisória. Assim, a identidade traz, no
é mediante essa expropriação que se cria a
seu subterrâneo, a tautologia. Não se vive uma
possibilidade de se transformar o trabalhador em
nova abstração isoladamente (a identidade,
sujeito. Isso porque é necessária a condição de
apenas), mas todas as anteriores, sedimentadas
ser sujeito para que se possa dispor, livremente,
(a tautologia e a identidade, juntas, somadas),
de sua capacidade laboral aos interessados. É
em nova potência, revestidas por uma nova
assim que surge o proletário, o trabalhador
forma que lhes emprega maior eficácia.
despossuído dos meios de produção mas dono
11
Para os povos bárbaros a Propriedade é, muitas de sua força de trabalho, sujeito potencial que é
vezes, aquilo que se veste, e é nesse sentido compelido, dia após dia, à sujeição ao trabalho,
que se dão as relações sociais sob a ausência do num processo no qual, contraditoriamente, quanto
contrato, e da forma mediadora do contrato, mais se embrenha mais se impossibilita a
permissor da troca possível. O pertencimento a materialização da sua potencialidade (Cf. MARX,
uma comunidade se rege com a presença do 2002). Embora esteja correto em todas essas
sangue dessa comunidade (ou se nasce, acepções, Marx enfatiza por demais o caráter
legitimamente, naquela comunidade, ou nunca se redefinidor do capitalismo e exaspera uma
fará ser um membro dela); para um germano é história muito curta, a desse sistema. Sua obra
filho todo aquele que “carrega” nas suas veias o deixa, definitivamente, em aberto a questão da
seu sangue, sendo criado e cuidado como seu propriedade e o movimento da abstração. Uma
próprio devir. falha que não invalida seu esforço teórico;
outrossim suscita novos esforços e demonstra
12
Por sua vez, para o romano civilizado os estatutos
que ainda há muito a ser feito, sem dogmatismo.
são invertidos: a propriedade é pensada
Não é com diletantismo que se faz menção a
contratualmente, através da troca possível,
Lefebvre enquanto um continuador da obra de
valendo-se do princípio do domínio territorial,
Marx. Seus estudos sobre a lógica apontam que
importando menos “vestí-la” e mais o exercício
uma história mais longa deve ser compreendida;
de sua defesa, pois enquanto essa puder ser feita,
o que se repete em Oswald e em Vaneigem, para
ao defensor pertencerá. Inverte-se também o
os quais uma história de longa duração culmina
pertencimento social, que se faz com a
no capitalismo, redefinidor de certas relações
permanência do sujeito durante um ano e um dia
na “cidade”, e ainda a paternidade, realizada 14
Os parênteses da equação precedente – P =
mediante o ato do pai em [a]colher o filho deixado { ( p + t ) , o } – indicam que o tipo de solo (rural
pela parteira na sala, reconhecendo-o como coisa ou urbano) adentra à equação como uma
sua. qualidade da propriedade, não podendo, nesse
momento, ser mobilizado. Difere, por sua vez,
13
Marx faz diversos apontamentos sobre a
da posse (o), que pode ser posta à praça pública,
propriedade, e reconhece a importância da cisão
a quem interessar, por se tratar de um elemento
entre posse e propriedade como um elemento
distinto no conjunto.
precussor e alicerçante do capitalismo, nos
Grundrisses (volume 2, principalmente) e no 15
A precisão dos instrumentos administrativos fez
Capital. Ele indica que apesar de anterior, é no surgir, por exemplo, ruas em que um dos lados
capitalismo que a condição de ser ou não admite o comércio e o outro não. Se em exemplo
proprietário se aprofunda e o embate se torna passado a diferença entre o solo do Jaguaré e o
quotidiano, com a necessidade do capitalista em de Pinheiros se dava principalmente pela
despojar dia após dia todos os entes da localização (atributo imutável), com a implantação
sociedade, inclusive seus concorrentes,
104 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 22, 2007 BAITZ, R.

de um zoneamento, criou-se uma nova série de golpe, todo esse passado, inaugurando uma nova
atributos, de ordem mutável, para a propriedade. sociedade, livre dessas violências. Essa nova
Ainda que a distância espacial seja ínfima, de sociedade seria instituída pela lei, expressão da
poucos metros, é bastante diferente, no mundo razão, da transparência, da pureza... De forma
capitalista, um terreno com permissão de uso que, no lugar dos mandos pessoais, haveria a
comercial daquele que pode ser, pela legislação vontade da lei, a vontade da razão, cumprida com
urbana, empregado para residência apenas. orgulho pelos cidadãos cientes de que ao fazê-lo
obedeceriam não aos reis ou governantes, mas
16
“A noção de solo criado desenvolveu-se à própria sociedade. Esse reino da razão foi
inicialmente a partir da observação da muitas vezes acusado de fazer tábula rasa do
possibilidade de criação artificial de área passado – especialmente em nosso país – ao
horizontal, mediante a sua construção sobre ou desconsiderar a história e almejar reinaugurá-la
sob o solo natural. Compreendia-se assim o solo à força; contudo essa razia é expressão nítida
criado como o resultado da criação de áreas de um profundo conhecimento do passado e de
adicionais utilizáveis, não apoiadas diretamente uma vontade imensa em tomar as rédeas do
sobre o solo natural. Não se confunde, no entanto, futuro para que nele tais violências não mais
a noção – mesmo quando nestes termos aconteçam. É a possibilidade de se criar,
entendida – com a de ocupação do espaço aéreo, efetivamente, um novo mundo, mais belo, para
visto que pode haver ocupação de espaço aéreo todos. Fazendo um salto, quase mortal, pode-se,
sem criação de solo; seria o caso de construção com efeito, dizer que esse é o sentido do
de uma torre de grande altura, sem pavimentos zoneamento urbano: propiciar uma cidade mais
intermediários, ou de nave de uma catedral gótica bela, com um horizonte harmonioso, sem grandes
também de grande altura, mas sem nenhum plano rupturas, com ruas e calçadas largas,
utilizado no intermediário. Por outro lado, pode responsáveis por uma boa ventilação, às custas
haver criação de solo sem ocupação do espaço de um cerceamento do direito de propriedade
aéreo: seria o caso das construções no subsolo, naquilo que tange à altura edificável dos imóveis
que ocupam um espaço subterrâneo.” (GRAU, e de seu uso. Uma cidade bonita, gostosa de
1983, p. 57). morar, expressão da espécie humana, dizem os
idealistas, compeliria todos a exercerem seus
17
A crise não é externa, mas interna ao sistema.
direitos com certos limites, com razoabilidade,
Num sistema crítico, como o capitalista, as
para não invadirem o direito dos demais. Os
contradições internas sugerem seu próprio limite
motivos dessa cidade não se concretizar são
e destino: a morte. O que não implica a noção de
inerentes a esse pensamento [idealista], que
fatalidade (determinista). Sendo a natureza da
desconhecendo a materialidade da sociedade,
crise endógena (como no caso de um conteúdo
sonha em concretizar, pela força de idéias, um
que cresçe mais que a forma, força-a a se romper,
mundo utópico abstrato.
e com ela, a derramar a si próprio), a fatalidade
se daria apenas sem intervenções exteriores 19
Direito Real ou Direito de Rei. Embora haja toda
(essa tendência ao encontro dos seus limites é uma classificação moderna dada pela ciência
considerada sem a intervenção de terceiros). O jurídica, parece certo que o adjetivo advém da
que sugere haver possibilidade de continuidade condição ímpar de se poder dispor livremente,
da vida desse organismo, ainda que de maneira como um rei, do objeto de direito. Não por menos
crítica, com a adoção de intervenções exteriores esta é a definição mais corrente de propriedade
(como aquelas que lhe mudem a forma, territorial (no inglês o é termo Real Estate, sendo
ampliando-a e fazendo com que o conteúdo Real, nesse caso, uma derivação de Royal, coisa
sobreviva ao invés de se esgotar por suas de rei). O processo de abstração da propriedade
próprias contradições). admite, também, um movimento que vai da
condição de coisa à situação de sujeito. Um certo
18
O direito positivo reconhece um passado onde
individualismo prometeu a todos homens a
imperou toda ordem de constrangimentos e
possibilidade de serem reis na terra, de se
coações pessoais, ao qual se opõe. Ele é fruto de
tornarem indivíduos; enfim, do homem comum
um idealismo que pensa poder eliminar, num só
A propriedade contra a posse e a propriedade 2, pp. 91 - 109 105

ser alguém. Promessa que não se efetivou em a um novo tipo de direito, o qual pode ser
sua plenitude, mas que permanece até hoje rascunhado sob a noção de “direito permissivo
latente, representando um certo progresso. Esse oneroso”. Esse tema será desenvolvido em outro
tema, numa primeira variação, incompleta, está artigo por ocasião do conceito de Estado
presente no meu “Anotações sobre a história do Interventório de Urgência.
Público: Contribuição para a análise geográfica 22
A crise se evidencia pela necessidade de criação
do social moderno a partir do bairro de Pinheiros, de complexos instrumentos jurídicos (como o das
São Paulo”, cuja leitura se faz sugerida. Operações Urbanas) para quecontinuem a ser
lucrativos os negócios envolvendo as construções
20
Nos documentos da Municipalidade, a definição de
na cidade, pois de outro modo a necessária
Operação Urbana consta como: “Uma Operação
destruição de valor (compreendidos como a
Urbana é a execução de um plano de renovação, compra de sobrados ou pequenos prédios para
promovido em porções do território municipal, demolição, que dada sua localização – um atributo
cuja potencialidade de desenvolvimento e s p a c i a l – apresentam grande custo) para
ap resenta-se ampliada em razão de edificação em maior escala (torres de escritórios
investimentos públicos, realizados ou propostos, ou apartamentos) tornaria os lucros demasiados
e onde existe interesse da Municipalidade e de pequenos – ou nulos –, visto que essa construção
agentes privados na sua promoção. A seja limitada em número de andares pelas regras
oportunidade da ação está, em geral, relacionada do zoneamento urbano. A introdução desses
à possibilidade do investimento público em instrumentos renova a possibilidade desses
capacitar uma área envoltória para a negócios, na medida em que se pode extrapolar
intensificação de sua utilização, seja pela oferta o gabarito urbano com a aquisição de títulos
de infra-estrutura suplementar, seja pela públicos, que normalmente são negociados com
neutralização ou supressão de fatores de certo “desconto” (em comparação ao custo do
desqualificação ambiental. A viabilidade m 2 na região, caso existisse algum terreno
econômica da intervenção depende do interesse disponível).
d o s i n v e s t i d o r e s p r i v a d o s e m a d q u i r i r, da
Prefeitura, direitos adicionais aos da legislação
23
“O direito de superfície é o direito real de construir
regular de zoneamento.” (SÃO PAULO (Cidade), ou plantar em solo alheio. / Trata-se de direito
2000, p. 6). Em resumo forçado, a modalidade real sobre coisa alheia, já que não afeta o domínio
Operação Urbana é caracterizada por um do proprietário do solo. Um aspecto que os
perímetro previsto em lei (o que evita ações autores salientam com relação ao direito de
jurídicas de inconstitucionalidade, como no caso superfície é o fato de que ele afasta a acessão,
das Operações Interligadas), uma quantidade ou seja, a regra segundo a qual todas as coisas
igualmente limitada de metros quadrados virtuais que se acrescentam ao solo, sejam plantações
(metros edificáveis além do zoneamento, solo ou construções, pertencem ao dono do solo
criado) a serem vendidos para empreendimentos (superfícies solo cedit ). Tal regra, no Direito
interessados em edificar além do permitido pelo Brasileiro, consta do art. 545 do Código Civil
zoneamento original do local, um conjunto de Brasileiro, segundo a qual ‘ toda construção, ou
ações (ou investimentos em aparelhos urbanos) plantação, existente em um terreno, se presume
que tornam a área interessante para novos feita pelo proprietário e à sua custa, até que o
empreendimentos, e uma conta própria para gerir contrário se prove’ . / No caso do direito de
os valores recebidos pela venda dos metros superfície, enquanto o mesmo perdura, a
quadrados (virtuais) edificáveis que propriedade do dono do solo coexiste com a
ultrapassarem o zoneamento original da área. propriedade do dono das plantações ou
construções que se acrescentam ao solo. Trata-
21
A extrapolação do zoneamento deve ser se de exceção ao princípio de que o acessório
compreendida para além de seu aspecto segue o principal”. (PIETRO, 2002, p. 172).
negativo. Ao criar um limite, ainda que fictício,
para as construções, a lei de zoneamento criou,
24
A gleba da Telefônica pertencia originalmente ao
para a cidade, um limite de reprodução do capital. poder público, mais precisamente à Estatal
Essa barreira é superada por títulos que se T E L E S P ( Telefonia de São Paulo). Com a
compõe à lei do zoneamento para incrementar privatização, todo seu patrimônio foi incorporado
seus limites, decretando que a cidade adentrou ao da Telefônica, e assim essa grande gleba
106 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 22, 2007 BAITZ, R.

adentrou ao patrimônio da empresa espanhola, exaustivo. Contudo, qualquer contribuição que o


embora esse não fosse seu interesse direto. O torne mais completo será bem-vinda.
que não significa que haja um desinteresse por
parte da Telefônica quanto a essa gleba, pois a
29
Sobre a propriedade do dinheiro, Harvey menciona
história brasileira é rica em exemplos de negócios que: “O dinheiro existe como uma forma de
modernos que se combinam a outros mais propriedade capitalista que se encontra fora de
antigos, especialmente os vinculados à qualquer processo de produção real, e é
propriedade da terra (vide, por exemplo, os independente a ele. Aqui surge uma distinção
negócios da Light com a retificação dos rios entre os capitalistas como donos do dinheiro e
Pinheiros e Tietê, cf. SEABRA, 1986). como empregadores do capital, que usam esse
25
As glebas da CPTM e da Municipalidade, por serem dinheiro para estabelecer o necessário para a
terras do poder público, apresentam dificuldades produção de mais-valia. A atividade de emprestar
formais para adentrarem no mundo dos negócios. e de pedir emprestado estabelece uma relação
Por ocasião do princípio da indisponibilidade, o entre esses dois tipos diferentes de capitalistas.
poder público não pode, como um particular, dispor Marx expõe essa relação da seguinte forma. Os
de seu patrimônio, senão por ritos muitos proprietários do dinheiro tratam de aumentar seu
complicados, o que torna sua compra e venda capital emprestando a juros, o que implica uma
quase impossível de se operar. A viabilidade dos forma de circulação da ordem D – (D + j).
negócios, nesse caso, se dará sem a compra e Suponha que se empreste dinheiro a um
venda de propriedades, mas com uma Parceria capitalista que se dedica à produção, e que não
Público-Privada envolvendo, outrossim, a tem recursos monetários próprios.”. Ao final do
exploração dessa superfície, contornando os processo, parte da mais-valia conseguida com a
impedimentos mais usuais do direito produção desse capitalista iria para o pagamento
Administrativo e da legislação pública. dos juros do dinheiro emprestado pelo outro
capitalista, “e assim, argumenta Marx, a mais-
26
No exemplo sugerido não existirá venda e compra valia se divide entre os possuidores do capital a
de imóvel. O que estará em negociação será o juros e os empregadores do capital que recebem
direito, outrossim, de morar. Por isso mesmo não os lucros da empresa”. A propriedade do dinheiro
serão garantidos os direitos de quem compra um não criou, por ela mesma, valor, mas capturou
imóvel, vez que não se estará negociando a valores da produção uma vez que foi operada a
propriedade, mas coisa diversa, como num juros. (HARVEY, 1990, p. 260-261).
leasing, que é um aluguel com opção de compra. 30
Nesse ponto é importante ressaltar que as
27
O usucapião pressupõe um certo abandono ou empresas em si não “criam” softwares ou
desprezo por parte do proprietário, que músicas; outrossim elas compram de quem os
desinteressado pela sua propriedade, deixa de produz, através do pagamento de salários a
exercer seu domínio por longo período de tempo. programadores ou de direitos autorais a quem
Ele não é possível em terrenos públicos (pelo canta ou compõe. O programador de
princípio da indisponibilidade, dentre outros) e computadores, o cantor, ou o escritor – o que faz
tampouco é admitido em casos onde há contratos, esse artigo, por exemplo! – possui, como sua, a
que pressupõe a presença do domínio. Assim, força de trabalho. Ele a coloca à venda, como
uma locação de 20 anos consecutivos não gera proprietário, na feira pública. Por sua vez, o
direito de usucapião, por ser uma negociação capitalista a compra, faturada em até 35 dias
entre as partes; entretanto, uma ocupação por (paga-se no 5º dia subsequente ao mês
tal período, sem manifestação do proprietário, trabalhado), dando em troca sua propriedade, o
permite ao posseiro usucapir o terreno alheio, dinheiro.
por posse mansa. 31
O software adentra o circuito da mercadoria na
28
A proposta desse quadro é apresentar a medida em que é empregado na produção e na
propriedade enquanto um movimento de distribuição. Em termos simples, a tecnologia
abstração, de forma que ele não se pretende adentra as linhas de montagens para gerar maior
produtividade e competitividade às empresas
A propriedade contra a posse e a propriedade 2, pp. 91 - 109 107

através de técnicas mais modernas de escritos do autor, datados de 1983-84, ele, ainda,
comunicação e controle da produção. O assinala que, mesmo em termos metodológicos,
empreendimento comercial ou industrial pode é possível examinar de perto e desenvolver o
desenvolver seus programas de controle pensamento de Marx, completando-o. É preciso
(mantendo uma equipe de analistas e sublinhar que a lógica fez grandes progressos;
programadores) ou adquirir licenças de quem ‘que se tornou operatória, isto é, que ela entra
realiza esse tipo de P&D na praça pública, o que na prática social; e isto cada vez mais com suas
é mais comum, por envolver gastos menores. aplicações que vão da organização do trabalho
Por sua vez, nesse segundo caso, a empresa de produtivo ao emprego militar e político dos
programas de computadores ao vender licenças computadores. Como não reconsiderar as
de seus produtos, adentra à produção relações da lógica e da dialética? Mesmo se
analogamente ao possuidor de capital a juros. permanecermos ligados a esta última, mesmo se
Ela, com seus softwares de controle, viabiliza a continuarmos a compreender, no sentido de Hegel
produção dentro das médias sociais e, dessa e Marx, o ‘ trabalho do negativo’(e isto no curso
produção, retira uma parte da mais-valia do do que se chama a ‘ crise’
), uma problemática
processo, que se funda sempre na produção. nova surge das relações entre a lógica e a
dialética’
. (Revue La Somme et le Reste – Études
32
Maiores detalhes dessa história podem ser obtidos
Lefebvriennes, 2002).”
nos livros indicados na bibliografia e no último
capítulo das dissertação de mestrado “O metrô 35
Compeende-se nessa telescopagem uma
chega ao centro da Periferia”. complexidade que extrapola a resolução da
condição público-privado da propriedade, e
33
A GPL, ou General Public Licence (Licença Pública
abarca o formato da Produção na discussão, a
Geral), é o termo que rege esse tipo de
qual passa a ser autogestionada, mediante um
propriedade. É um tipo especial de licença (ou
constante processo de pedagogia dos atores
decalque da propriedade) que, como outras
envolvidos. Esse é o maior ensinamento que Eric
licenças, não vende a propriedade, mas permite
Raymond extraiu do seu trabalho de campo
seu uso quase irrestrito por outras pessoas, desde
“implicado”, que consistiu na manutenção de um
que seus termos sejam respeitados. Dentre eles
sistema regido pela GPL. Parte dessa experiência
há uma cláusula de preço, por assim dizer, que
está reportada no texto-manifesto “A Catedral e
curiosamente não taxa as pessoas a pagarem
o Bazar”. A leitura desse texto revela,
dinheiro algum, mas a tornar igualmente GPL
induvidavelmente, uma profunda mudança nas
qualquer modificação, perpetuando o ciclo.
relações sociais sob a GPL, sendo Raymond,
34
“Esta sociedade não obedece a uma lógica, naquele momento, sua expressão.
repitamos-lo uma vez mais: tende para ela. Esta 36
A concessão de uso especial para moradia (MP
sociedade não representa um sistema; se esforça
2.220/2001), medida através da qual o poder
em sê-lo, reunindo o constrangimento e a
público cederia áreas públicas para particulares
utilização das representações.”(LEFEBVRE, 1976,
que as tivessem ocupado por mais de 5 anos,
p. 42). Ainda sobre a lógica, Damiani esclarece
carrega consigo uma série de avanços e também
que “No nível do real e no nível da representação,
imperfeições. Dentre os avanços havia, nos
nossa época, aquela da reprodução das
artigos vetados do Estatuto da Cidade, a
estruturas da sociedade moderna, faz a lógica
possibilidade de concessão coletiva, o que a
se tornar real, não só pensamento*. Somente
aproximaria da propriedade comunal. Quanto aos
considerando a interferência da lógica na
aspectos negativos, basta lembrar que esse
realidade concreta, como estratégia, como sócio-
instrumento não elimina a titularidade da terra,
lógica é possível compreender essa outra dialética
de modo que o poder Público pode intervir em
e estabelecer a passagem das contradições no
sua concessão direcionando a população para
espaço para aquelas do espaço.” (DAMIANI,
outra área, nas várias hipóteses elencadas no
2004, p. 85). E, em nota, Damiani complementa:
artigo 5º, realizando uma economia política do
*“Trata-se de uma das contribuições mais
espaço. Esse é o seu lado mais visível. Existem
significativas da obra de Henri Lefebvre. Em
outros, escondidos nos porões do Direito, como
108 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 22, 2007 BAITZ, R.

demonstram os juristas em seus estudos


39
O Direito moderno possui uma história, a da tutela
(DALLARI e FERRAZ, 2002, p. 166) dos direitos individuais. Assim, a noção moderna
de Estado de Direito, de Estado submerso às leis,
37
A Propriedade territorial, se pensada enquanto coage todo aparato estatista a reconhecer e
mercadoria, possui, dentre outros limites, o da respeitar os direitos individuais, que incluem o
reprodução. A porção de terra emersa não é da propriedade. Embora um cientista do Direito
reproduzível como os demais bens (carros, possa escrever inúmeras laudas sobre a primazia
eletrodomésticos, etc), na medida em que é finita. dos direitos sociais face aos individuais, o bom
38
A negação direta da propriedade, altamente operador do Direito sabe que sua demanda
radical, não se compõe à lógica interna do dificilmente deixará de ser apreciada se envolver
processo. Não é procedimental, e não está um direito individual, enquanto que, se pleitear
inserida numa luta quotidiana. O que não significa um direito social, estará sujeito ao [des]preparo
que deva ser abandonada. Ao contrário, deve-se do julgador para essa espécie de litígio, lançando-
tê-la presente, como norteadora das ações se numa zona cinzenta, com possibilidades
procedimentais, capazes de minar remotas de vitória. Um trabalho esclarecedor a
paulatinamente o sistema em seu interior, respeito desse tema é o de LOPES, 1994.
corroborando assim para sua dissolução. Ela
também deve, a seu tempo, se efetivar.

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Trabalho enviado em julho de 2007 e aceito


em agosto de 2007