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Molinismo Básico 1º Edição (2016)

Copyright © Luiz Fellipe Mariano de Souza, 2016. Todos os direitos reservados.

Capa: Luiz Fellipe Mariano de Souza. Revisão de texto: Natasha Rocha de Souza. Revisão geral: Natasha Rocha de Souza e Luiz Fellipe Mariano de Souza.

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Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP)

S729m

Souza, Luiz Fellipe de Molinismo Básico / Luiz Fellipe Mariano de Souza, 2016.

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ISBN

p. ; 14,8 x 21 cm.

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1. Molinismo. 2. Filosofia da religião. 3. Cristianismo. I. Título.

CDU 2-18.134.3(81)

Introdução

O que vem a nossa mente quando pensamos em Deus é a coisa mais importante sobre nós. - A. W. Tozer 1

Qual o papel da teologia?

Mais precisamente, qual o papel da teologia dentro

da experiência individual que temos da fé? Por vezes,

relegada para o interior dos seminários, ou tratada como

puro academicismo, a teologia acaba virando um “bicho de

sete cabeças” que poucos tem interesse de conhecer, que

dirá entender. Entretanto, o papel da teologia vai além da

mera função especulativa. A teologia não é o

desdobramento da mente sobre assuntos complicados, ou

sobre pontos de pouca relevância. Tampouco é uma

disciplina voltada para o suporte ao estudo bíblico. A

teologia vai além da mera questão controversa seja ela

qual for. Ela também não surge após uma inquietação a

respeito de qualquer coisa natural ou sobrenatural.

1 TOZER, Aiden Wilson. The Knowledge of the Holy, Harper One Editora. EUA, 2009. P. 01.

A teologia surge do contato do homem com o divino. Ela não é motivada pela angústia do que se desconhece, mas pela vontade de conhecer ainda mais aquilo que já nos foi revelado. Ao entender isso, percebemos que o maior papel da teologia é nos dar uma maior compreensão sobre Deus, Sua Vontade e Seus atributos. Por esse motivo ela acaba se desdobrando em diversas vertentes, que se ramificam em uma dezena de outras disciplinas: filosofia da religião, exegese, hermenêutica, soteriologia, escatologia e etc. Todas elas usando ferramentas diferentes para responder a uma única pergunta: Quem é Deus? No fim das contas, essa é a única pergunta que realmente importa. É através da resposta que damos à ela que iremos moldar toda nossa cosmovisão. É essa resposta que irá definir nosso relacionamento com Deus, com nossos irmãos, com nossos semelhantes, com o mundo natural, com o sobrenatural e com tudo o que foi criado. Então é de grande importância responder adequadamente a essa questão, ou corremos o risco de criamos um “deus só nosso” que não corresponde em nada com o Deus que revelou a si

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ou corremos o risco de criamos um “deus só nosso” que não corresponde em nada com

mesmo. E se Deus se revelou, então o princípio da resposta está em identificar como ele se revelou. Ao longo de toda a trajetória do homem na Terra, temos sempre a figura da divindade como um dos parâmetros pelos quais a sociedade se organiza. Não é de se admirar que quando pensamos em qualquer civilização antiga a primeira ideia que nos vem é a sua mitologia e religiosidade. Através desses dois aspectos podemos inferir diversas coisas sobre quem eram essas pessoas do passado. Mas não precisamos regressar tanto no tempo para vermos a importância do “fator divino” no ser humano. Hoje mesmo em nossas sociedades muitas das questões se polarizam na forma como os indivíduos enxergam o sobrenatural e como se relacionam com ele. Não é à toa que a secularização do pensamento social e político tem trazido à tona questões sobre o direito à vida e tem forçado as pessoas a confrontarem suas próprias crenças. Mas mesmo em nosso universo cristão, a questão de quem é Deus é possivelmente a maior responsável pelas fissuras doutrinárias. E a principal razão para essas visões

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quem é Deus é possivelmente a maior responsável pelas fissuras doutrinárias. E a principal razão para

diferentes é justamente o entendimento que elas têm sobre

o que já foi revelado. Como cristãos cremos que Deus se revelou progressivamente através dos milênios, primeiro para homens específicos e posteriormente para toda a humanidade, através de sua encarnação em Jesus. Cristo então é a revelação máxima de Deus e, portanto, qualquer

estudo sobre Deus deve partir da análise da figura de Jesus

e da visão que os apóstolos e primeiros cristãos possuíam

dEle. Mas, para além da figura de Cristo, também temos a figura de Deus Pai, agindo desde a eternidade na criação de todas as coisas e sendo soberano sobre cada aspecto do mundo criado. A terceira pessoa da trindade, o Espírito Santo, é aquele que habita em nós. Dado como um consolador até a volta de Cristo, ele é quem efetivamente nos capacita a realizar a vontade do Pai. Juntas, as três pessoas de Deus nos revelam uma série de atributos, que são inter-relacionados. Ao refletirmos sobre a trindade podemos afirmar que Deus é eterno, imaterial, incausado, onisciente, onipotente, onipresente, infinitamente amoroso, misericordioso, justo e etc.

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eterno, imaterial, incausado, onisciente, onipotente, onipresente, infinitamente amoroso, misericordioso, justo e etc. 8

O entendimento que temos sobre esses atributos divinos irá afetar como enxergamos a criação e a nós mesmos. Essencialmente, a questão sobre a natureza de Deus revela na mesma proporção quem somos nós. É por isso que ela é de suma importância, não só para os artigos da fé, mas para a própria definição do que é o humano e qual o seu propósito. O pensamento teológico de Luís de Molina, por exemplo, acabou tendo grandes desdobramentos sobre questões como direito, justiça e economia, influenciando posteriormente movimentos sociais abolicionistas (por exemplo). De volta ao mundo cristão evangélico, temos hoje uma espécie de guerra-fria acontecendo entre duas visões conflitantes de Deus. A primeira, advinda da teologia reformada, enfatiza a soberania de Deus ao ponto de em algumas de suas vertentes negar a existência do livre- arbítrio humano. A segunda, chamada de Arminianísmo, tem seu foco em afirmar a liberdade humana e por isso muitas vezes acaba colocando a soberania de Deus em um patamar abaixo do que deveria estar. Pouquíssimas tentativas reais de conciliar essas duas visões foram feitas e

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em um patamar abaixo do que deveria estar. Pouquíssimas tentativas reais de conciliar essas duas visões

por isso não é de se estranhar que aqueles que discordam de ambas possam se sentir como “órfãos teológicos”. Esse livro, embora não seja uma obra definitiva sobre qualquer assunto, pretende abordar com equilíbrio as questões relativas a natureza de Deus. Não tenho a intenção de bater o martelo e tampouco acredito que as minhas conclusões (se elas existirem) estarão acima de qualquer questionamento. Mas acredito que o caminho aqui sinalizado possa servir para compreendermos melhor o nosso Criador e com isso compreender melhor quem somos e qual nosso real e eterno propósito. O objetivo das páginas que você irá ler a seguir é mostrar uma alternativa logicamente viável e com suporte bíblico para essas questões da natureza de Deus. Mais precisamente, o que você deve esperar desse livro é uma tentativa de harmonizar a liberdade humana com a plena soberania de Deus. O Molinismo é o sistema que pode sustentar ambas essas afirmativas sem diminuir nenhuma delas. Além disso, ele apresenta as melhores respostas às incomodas questões sobre predestinação, salvação, Inferno e o problema do Mal.

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apresenta as melhores respostas às incomodas questões sobre predestinação, salvação, Inferno e o problema do Mal.

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Luís de Molina

Antes de entrarmos na matéria em si, talvez seja apropriado conhecer um pouco sobre o fundador do que hoje chamamos de Molinismo, as peculiaridades de sua doutrina e os motivos que o levaram a dedicar tanto tempo no ensino e na defesa da sua visão. 2 Luís de Molina nasceu em 1535 em Cuenca na Espanha de Carlos V. Inicialmente formado em Direito na Universidade de Salamanca e posteriormente em Lógica pela Universidade de Alcalá. Em Alcalá Molina entra em contato pela primeira vez com a Sociedade de Jesus (fundada em 1540). Após ser admitido na Sociedade, ele é enviado para Coimbra em Agosto de 1553 para dar início ao

2 Esse capítulo é baseado em grande parte na biografia de Luís de Molina presente no livro “A Companion to Luís de Molinade Alexandre Aichele e Mathias Kaufmann (editores), Brill editora, 2014; e no livro de Kirk MacGregor Luis de Molina: The Life and Theology of the Founder of Middle Knowledge.”, Zondervan, 2015.

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de Kirk MacGregor “ Luis de Molina: The Life and Theology of the Founder of Middle

seu noviciado. Após um curso completo em filosofia e teologia, Molina é ordenado padre em 1961. Na época em que estava cursando teologia, Molina já exercia magistério, lecionando ocasionalmente na

Universidade de Coimbra e na de Évora. Foi nesse período que Molina escreveu uma série de comentários sobre a

de Tomás de Aquino e que mais tarde se

tornariam a base de sua obra Concordia liberi arbitrii: cum gratiae donis, diuina praescientia, prouidentia,

praedestinatione, et reprobatione. (Harmonia do livre- arbítrio com os dons da graça, divina presciência, providência, predestinação e reprovação, em tradução livre).

A Concórdia de Molina, sua obra mais importante e controversa, surge como um livro comentário sobre as disputas de Aquino na sua obra Suma Teológica. A visão tomista denominada Finalismo, considerava que a causa final de algo é antecedida pelo próprio algo. Dessa maneira, a causa final do homem (seu destino, por assim dizer) é a própria definição do que é o homem. A predestinação, portanto, é indiferente ao estado atual da pessoa

Summa Theologiæ

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definição do que é o homem. A predestinação, portanto, é indiferente ao estado atual da pessoa

predestinada, já que ela se relaciona apenas com o seu estado final. Como o destino final do homem é a vida eterna, e como essa vida eterna é atemporal, o homem por si só é incapaz de perceber que está destinado a um fim sobrenatural (a vida eterna). Então o homem possui uma disposição natural para uma causa sobrenatural que ele só perceber com a ajuda de Deus. Esse dom de Deus para que o homem perceba seu fim sobrenatural é o que Tomás de Aquino chama de Graça Eficiente. As controvérsias surgiriam após esse entendimento, mais especificamente sobre o caráter da Graça Eficiente. Duas interpretações poderiam então ser dadas para a Graça Eficiente. A primeira, que hoje seria considerada como Determinismo, considerava que essa Graça atuava como causa primeira para que as faculdades mentais do homem fossem transformadas e, com isso, ele atuasse de acordo com a vontade de Deus. Essa visão interpretava o livre- arbítrio como um mero instrumento que era moldado pela Graça, que nesse caso era irresistível. A segunda visão, muito similar a primeira, entendia a Graça da mesma maneira, mas considerava que a vontade livre do homem

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visão, muito similar a primeira, entendia a Graça da mesma maneira, mas considerava que a vontade

poderia rejeitar a ação de Deus e, assim, interromper o curso dessa “destinação”. Obviamente, essa segunda visão tentava incluir o livre-arbítrio humano como algo que deveria aceitar ou cooperar com Deus para que a destinação final do homem fosse realizada. Molina então desenvolve um conceito de onisciência divina chamado de Scientia Media que visa fazer jus a essa certeza da destinação do homem, mas de uma forma que o livre-arbítrio ainda tenha alguma “voz”. A visão de Molina traz para a discussão o conceito de mundos possíveis, que vai se tornar essencial para o que nós chamamos hoje de Molinismo. Para Molina Deus exerce sua soberania primariamente através de sua onisciência em oposição à visão determinista onde a soberania de Deus é exercida pela sua onipotência. Molina dizia que “para cada pessoa, sob certas circunstâncias essa pessoa livremente aceitaria a Cristo, sob outras circunstâncias ela livremente o rejeitaria e sob algumas outras circunstâncias essa pessoa nem mesmo

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sob outras circunstâncias ela livremente o rejeitaria e sob algumas outras circunstâncias essa pessoa nem mesmo

existiria.3 Molina acreditava que era essencial para a soberania de Deus que o próprio Deus escolhesse em que circunstâncias a pessoa irá se encontrar. Portanto é Deus que determina quem é salvo e quem se perde, através das circunstâncias que ele cria e nos coloca, mas é o próprio homem que determina se ele é salvo ou não nessas circunstâncias. William Lane Craig vai expressar essa condição da seguinte maneira:

“Cabe a Deus se eu me encontro em um mundo no qual eu sou predestinado; Mas cabe a mim se estou predestinado no mundo em que me encontro.” 4 Mas apesar dessa forte noção de controle de Deus e predestinação, ao contrário da sua contraparte reformada, Molina sustenta uma forte noção de livre-arbítrio, também chamada de liberdade libertária, segundo a qual dada qualquer situação o agente (ser humano) pode escolher agir ou não agir.

3 MOLINA, Luís de. Concórdia. 7.23.4/5.1.4.13-18.

4 CRAIG, William Lane. Molinismo: Conhecimento Médio e Eleição Divina. Disponível em: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/Molinismo- Conhecimento

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Médio e Eleição Divina . Disponível em: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/Molinismo- Conhecimento 15

Um agente livre é aquele que postulado tudo o que

é necessário para agir pode agir ou não agir ou pode fazer

uma coisa de maneira que ele poderia até mesmo fazer o oposto. E dessa liberdade segue que a faculdade (mental)

é chamada livre quando o agente é capaz de agir dessa

forma5 Então, para Molina, era essencial que o ser humano tivesse a real possibilidade de escolha diante do chamado para a salvação. Deus concebe em si mesmo todas essas possibilidades de escolhas das pessoas e provisiona (cria) um mundo onde as pessoas escolhem livremente e ainda assim a vontade de Deus é realizada. Dessa forma o homem é rejeitado por sua incredulidade, mas é Deus quem cria as condições onde o homem poderá aceitar ou recusar a oferta de salvação. Obviamente, em qualquer circunstância em que o homem é salvo, ele só o é através da graça divina.

5 MOLINA, Luís de. Concórdia. Citado de Alexandre Aichele “A Companion to Luís de Molina”. Brill. p. 05: “agens liberum dicitur quod positis omnibus requisitis ad agendum potest agere et non agere aut ita agere unum ut contrarium etiam agere possit. Atque ab hac libertate facultas qua tale agens potest ita operari dicitur libera.”

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ut contrarium etiam agere possit. Atque ab hac libertate facultas qua tale agens potest ita operari

Portanto o que Deus antevê 6 é justamente a resposta humana à graça nas diversas situações em que ele poderia se encontrar. Esse conhecimento do que as pessoas escolheriam em cada situação é o que Molina chama de Conhecimento Médio [que abordaremos em um capítulo próprio]. Segue então que se para cada situação uma pessoa pode escolher de qualquer maneira possível, então existem uma infinidade de possibilidade de futuro, que é o que chamamos de mundos possíveis. Através de seu Conhecimento Médio Deus enxerga todas essas possibilidades e então cria o mundo em que os agentes livres fazem escolhas livres que já estão contidas na Provisão Divina. A teologia de Molina, conforme se pode imaginar, levantou uma série de polêmicas no mundo cristão, em especial no que se refere a teologia católica. Os jesuítas

6 Esse termo é usado aqui apenas como linguagem metafórica já que o próprio conceito de Conhecimento Médio implica que Deus “não olha para o futuro” para poder ter conhecimento dele. Para entender mais sobre isso, recomendo a leitura de CRAIG, William Lane. The Tensed Theory of Time: A Critical Examination. (2001) Synthese Library.

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a leitura de CRAIG, William Lane . The Tensed Theory of Time: A Critical Examination .

adotaram o Molinismo como ponto de partida para suas doutrinas, enquanto outras escolas de pensamento como os Dominicanos se empenharam em atacar Molina e sua Concórdia. A disputa toda girava entre dois pontos:

1. A real possibilidade de livre-arbítrio;

2. A eficácia da Graça no homem;

Se a Graça é irresistível então o homem não tem

liberdade de recusá-la e, portanto, o livre-arbítrio (ao menos nesse ponto) não existe. Se ela é resistível então o

homem possui liberdade de aceita-la ou recusá-la, mas então Deus (ao menos para os opositores de Molina) não seria o único participante na redenção da humanidade. Disso, segue que o que determina se o homem possui

liberdade ou não é a visão que se tem sobre a ação da Graça (auxilium) nele.

O principal opositor de Molina (e defensor do

determinismo dentro da Igreja Católica) naquela época era o dominicano Domingo Bañez (1528-1604), professor de

teologia na Universidade de Salamanca. Bañez formulou uma série de ensinos contra o que ele considerava um declínio na correta interpretação dos textos de Tomás de

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uma série de ensinos contra o que ele considerava um declínio na correta interpretação dos textos

Aquino. Com isso Bañez inaugura uma vertente do Tomismo que defende uma primazia da vontade de Deus sobre suas outras características. Nesse pensamento tanto a criatura, quanto suas vontades são determinadas pela vontade de Deus de forma que não há margem para ocorrer aquilo que Deus não deseja ativamente. Bañez afirmava que a presciência de Deus deriva de Sua vontade determinante (Deus só conhece aquilo que ele determinou). Nesse caso, a predeterminação dos homens para agir (ordenados por Deus) ocorre antes que Deus conheça a culpa daquele mesmo homem. Como a predeterminação por parte de Deus dos atos dos homens é, no final, invariavelmente sua reprovação ou eleição, e como a vontade determinante de Deus precede o conhecimento de Deus dos próprios atos humanos, então a reprovação ou eleição são fundamentadas somente na Vontade de Deus e alguns homens seriam condenados mesmo sem terem pecado (se fosse possível não pecar). Para Bañez, nem a vida eterna, nem a condenação dependem das ações humanas. Então a predestinação e reprovação servem apenas para revelar os atributos de

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dependem das ações humanas. Então a predestinação e reprovação servem apenas para revelar os atributos de

Deus. O homem - para Bañez - não tem parte alguma em sua salvação, mas também não tem parte alguma em sua condenação. O pecado então se torna apenas um instrumento para que Deus condene o homem e não o motivo do homem ser condenado. Por essa mesma razão a Graça não pode ser resistida e será dada apenas aos que foram predestinados por Deus para a vida eterna. Apesar do Concílio de Trento (1545-1563) - convocado pelo Papa Paulo III ter definido uma série de pontos da doutrina católica, a questão da justificação e eficácia da Graça havia ficado em aberto. Com o avanço da Reforma Protestante na Europa, e diante das fortes doutrinas de predestinação dos reformadores (em especial de João Calvino) o próprio mundo católico começou a se dividir em uma série de opiniões a respeito desses assuntos. Molina e Bañez eram ao final do século dezesseis os principais representantes das duas visões mais influentes dentro do catolicismo. A controvérsia sobre a Graça primeiro havia surgido com os pré-molinistas Diego Lainez e Alfonso Salmerón que já haviam defendido a posição jesuíta (embora ainda

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com os pré-molinistas Diego Lainez e Alfonso Salmerón que já haviam defendido a posição jesuíta (embora

não fosse propriamente molinista) no Concílio de Trento. Já no lado oposto, a controvérsia surgia com Domingo Bañez em 1567 ao defender publicamente as suas ideias deterministas. Mas foi em 1582 que os dois grupos começaram a se atacar no campo teológico. Nesse ano, na Escola de Salamanca, Prudencio de Montemayor, defende publicamente diversas ideias que mais tarde apareceriam na Concórdia de Molina e que já haviam sido recriminadas por Bañez em sua obra Apologia dos irmãos dominicanos. Bañez então denuncia Montemayor como pelagiano (conceito do século IV que foi considerado herético por negar a necessidade da Graça para a salvação) à Inquisição e com isso ele perde o direito de lecionar teologia. Nesse momento Molina estava em Portugal, em parte para fugir da Inquisição, onde ele lecionava na Universidade de Évora antes de se mudar para Lisboa em meados de 1584. Em Lisboa, onde a mão da Inquisição era mais leve, Molina consegue publicar sua Concórdia e com isso se torna um nome conhecido para praticamente qualquer estudante de teologia da época.

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sua Concórdia e com isso se torna um nome conhecido para praticamente qualquer estudante de teologia

Nesse mesmo período, como resultado de uma série de atritos ocorridos principalmente entre os Jesuítas (que sustentavam a visão Molinista) e os Dominicanos (que sustentavam a visão de Bañez), o Papa Clemente VIII convoca a Congregatio de Auxiliis (1582-1607), uma comissão da Igreja Católica para analisar essa disputa teológica. O objetivo da comissão era analisar em que medida era possível conciliar o poder infinito de Deus e Sua onisciência com a liberdade humana. Após a deliberação das universidades e dos teólogos de maior renome da Espanha, em 1598 a comissão De Auxiliis encaminha para Roma um parecer favorável à tese de Bañez e condenando a Concórdia de Molina. O Papa, expressando preocupação com a leviandade com que a comissão tratou a assunto, recomendou uma segunda análise do livro de Molina, que também resultou em sua condenação. Visando fazer justiça às duas ordens (Jesuítas e Dominicanos) o Papa então convoca as duas partes para defender suas visões pessoais. Essas disputas, em sua maioria, ocorreram após a morte de Molina (em 1600) até que em 1607 um decreto papal liberou o ensino das duas

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em sua maioria, ocorreram após a morte de Molina (em 1600) até que em 1607 um

doutrinas e proibiu que os dois grupos continuassem atacando a teologia um do outro. Foi dada também a orientação de que os dois grupos aguardassem uma posição final da Igreja sobre o assunto, posição essa que nunca foi feita. Em 1611, visando restaurar a paz entre as duas ordens, a Inquisição proíbe qualquer publicação de material que diga respeito à Graça Eficiente, proibição essa que permaneceu em vigor durante quase todo o século XVII. Com a morte de Molina, os demais jesuítas prosseguem com o ensino e aperfeiçoamento da noção de conhecimento médio. Com o tempo o nome de Molina cai no esquecimento, mas suas concepções filosóficas permaneceram vivas através dos séculos, influenciando toda a discussão posterior, especialmente a respeito do livre-arbítrio. O Molinismo vai então renascer no século XX mais especificamente em 1970 através das obras do filósofo cristão Alvin Plantinga, que resgata o Conhecimento Médio e o aplica à teologia protestante moderna. O resultado foi um efervescente crescimento do pensamento molinista dentro do círculo teológico evangélico, com a adesão de

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foi um efervescente crescimento do pensamento molinista dentro do círculo teológico evangélico, com a adesão de

importantes nomes como William Lane Craig e J. P. Moreland ao rol de autores molinistas. Embora a literatura disponível sobre o tema ainda seja pequena em comparação com as visões arminianas ou reformadas, o Molinismo ganha cada vez mais espaço dentro do meio acadêmico. O principal motivo para isso é a forma como o Molinismo consegue abordar questões teológicas difíceis sem precisar recorrer a elementos de “mistério”. Além disso, o Molinismo possui uma consistência lógica ímpar que o torna imbatível no campo filosófico.

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Além disso, o Molinismo possui uma consistência lógica ímpar que o torna imbatível no campo filosófico.