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| REVISTA PORTUGUESA. Lt tat MARIO PAULO TENREIRO (indicagdo de centros de ajuda ¢ assisténcia a mulheres gravidas, da possibilidade de optar pela adopeao do filho nao desejado, etc.)'°!, Ficando-nos por aqui'® gostarfamos de resumir as conclusbes a que chegémos: um Estado membro 6, em principio, livre de regula. mentar ou mesmo proibir, sobre 0 seu territério, a prética de servigos que contendam com valores éticos essenciais, vigentes na sua comu- nidade social, mas € obrigado a respeitar as opgGes éticas vigentes nou- tros Estados membros, ndo criando obstéculos a que os cidadios residentes no seu territ6rio possam fruir dos servicos legalmente dis- poniveis nesses Estados membros ¢ dispor, no proprio territério na- cional, das informagdes necessérias a0 exercicio desse direito™, Tais conclusbes, a que chegdmos a propésito do aborto, so aptas a ser transpostas para outros dominios, tanto mais que a interrupcao clinica da gravidez, constitui um servico dos mais «sensfveis» em termos de densidade ético-religiosa. Desde logo, tais conclusGes serao validas, ¢ pensamos que problemas andlogos podem surgir num futuro proximo, para todo um dominio, em desenvolvimento constante, que diz res- peito as novas técnicas no dominio biomédico e aos problemas ético- ~jurfdicos que Ihes subjazem: pensamos na inseminagao artificial, nos servigos de «aluguer» de iitero, em operages com vista & mudanga de sexo, em experiéncias médicas sobre o homem e, de modo geral, em todas as possibilidades abertas pela nova tecnologia genética. 101 Bstas consideragdes seriam igualmente vidas. na nossa opi cestivéssemos perante actividades com um carder de assisténcia. COLVIN, 0b. cit. p. 517. avanca ainda um outro argumento contra a possibilidade 4e jusificar a proibigao irlandesa, Segundo este autor, ral proibigio conteria em si um feito discriminatério, pois que, dentro do restrito campo onde 0 aborto seria perm tido na Trianda (necessério para salvar a vida da mae), restringiria a concoré ‘entre os profissionais irlandeses e os profissionais estrangeiros. Este argumento no nos parece desprovido de sentido, sobretudo apés o acérdao do Supremo Tribunal no caso de Mary. "© Nao desejamos proveder aqui & andlise da compatibilidade da legislagfo irlandesa com a CEDH, que resulta desnecesséria, preferindo, de todo o modo, neste contexto, esperar pelo acordgo do Tribunal Europeu no caso Open Door. 0 que implica, como sabemos, o concomitante direito a fomecer essas infor- ‘magdes. Outra questio sera saber se ao Estado memiro ndo €, a0 menos, licito proibir 2 publicidade 20 «consumo» desses servigos. Tal proibigo passard, em principio, & nosso ver o teste da proporcionalidade, pois se trata de impedir a incitagao, sobre © territério nacional, & pritica de actos ilegais € que ofendem o sentimento ético dominant. ), mesmo que AS PROIBIGOES DE PROVA NO DIREITO PROCESSUAL PENAL DA REPUBLICA FEDERAL DA ALEMANHA* ** Karl-Heinz Géssel Professor da Universidade de Erlangen (Alemanha) O objecto das consideragées subsequentes é um levantamento cri tico da doutrina e da jurisprudéncia em matéria de proibigées de prova. No centro das nossas preocupagdes avulta a questiio: em que casos € com base em que critérios hdo-de distinguir-se os «pecados veniais», cometidos na recolha da prova, daqueles que, segundo a jurisprudéncia dos tribunais de revista, determinam a revogacdo da ‘sentenca? Procurémos, para o efeito, autonomizar diferentes grupos, claramente referencidveis a partir dos subtitulos. Por doutrina das proibigdes de prova compreende-se aqui a dout na das proibigGes de investigagao de determinados factos relevantes para 0 objecto do processo, bem como das proibigdes de levar deter- * Tradugdo do original alemiio de Manvel Costa Andrade. ** Versio resumida do relatério alemio apresentado a0 XIN Congresso da ‘Academia Intemacional de Direito Comparado (Montreal, 19 a 24 de Agosto de 1990), Reportando-seessencialmente ao estado de coisas vigente no momento do res- pectivo envio (Outubro de 1989), o relatério faz-se ainda eco de algumas das mais importantes decisdes urisprudenciais proferidas até ao fim de 1990. Infelizmente, nko {jf possivel recensear a doutrina vinda a piblico depois de Outubro de 1989, em especial 0 estudo de AMELUNG sobre os direitos no dominio da informagéo em pro- cess0 penal, 8 merecer, pelo menos, a referéncia que aqui deixamos consignada, Re RARL-HEINZ G8SSEL minados factos ao objecto da sentenga e, finalmente, das consequéncias processuais da violagdo daquelas proibigdes. De ha muito que se vem tentando desenvolver a doutrina das proi- bigdes de prova segundo duas vias divergentes: de um lado, a partir da -esséncia da prova e das proibigdes de prova; de outro lado, privile- giando-se, inversamente, as consequéncias do desrespeito das proibi- ges de prova. Assim, vem uma corrente, representada sobretudo na literatura dogmatica, desenvolvendo uma definigio da proibigio de prova a partir da esséncia da prova, sem consideragdo das consequén- cias processual-penais [infra. sub A)]. Enquanto isto, principalmente a jurisprudéneia, com a concordincia de algumas vozes da doutrina, encara «os limites {...] € 0 Ambito do direito do recurso de revista (Revisionsrtigerechts)» como a «chave cecisiva para a compreensio das proibicdes de prova»' e pretende definir e sistematizar as proibigdes de prova «com base na sua fungao processuab, A) As proibigdes de prova como instituigdes processuais auténomas ‘Quem pretende determinar a esséncia, os limites e o significado das proibigdes de prova a partir da sua prépria natureza reconhece a0 ‘mesmo tempo a respectiva autonomia processual’, Com o que se acre- dita terem-se langado alicerces particularmente s6lidos: a identificagao da esséncia e dos elementos do instituto juridico proibicdo de prova " RENGIER, Die Zeugnisverweigerungsrechte im geltenden und kinftigen Strafverfahrensrecht, 1779, p. 291. 2G0Ss6L, «Die Beweisverbote im Strafverfahren», in: Bockelmann-FS, 1979, pp. 801 e segs. CE. ainda KOHNE, in: Alternativiommentar zur Strafprozessordunung, Ba. I, 1988, n, 52 a) antes do $48; perky, Beweisverbote im Strafprozess, 1971, p. 30. Em sentido divergente, DENKER, Verwertungsverbote im Strafprozess, 1977, pp. 16€ SeRS.; ROGALL, «Gegenwartiger Stand und Entwicklungstendenzen der Lehre von den strafprozessualen Beweisverboten>, ZStW, 91 (1979) pp. 1 ¢ segs.,€ SIZ, 1988, . 387. PO TPalando expressamente das proibigdes de prova como «nstitutos jurdicos ats nomos», ROGALL, ZSIW, 91 (1979), p. 7, © de «eigenstiindige Normiero, DENCKER (0.2), p. 19, bem como ROGALL, ob. cit. p. 8,€ DALAKOURAS, Bweisverbote beziglich der Achtung der Intimsphatre, 1988, p. 11 AS PROIBIGOES DE PROVA NO DIREITO PROCESSUAL PENAL permitiré desenvolver principios juridicos sobre as suas fronteiras ¢ sig- nificado. Tendo este ponto de partida em comum, jé foram ensaiados na