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° H ° i é REM KOOLHAAS » PARA ALEM DO DELIRIO Este artigo de Rem Koolhaas 6 um trecho de uma conferéncia que ele apresen- tou na Escola de Arquitetura da Universidade de Toronto em 1993, onde discutiu seus Ultimos projetos de grande escala para a cidade, bem como as estratégias de urbanismo de seu escritorio. Num projeto apresentado em um concurso para 0 Su- burbio parisiense de Melun-Sénart, 0 arquiteto descobre “uma nova concepgao da cidade, uma cidade que nao seria mais definida por seus espagos construidos, mas pela auséncia destes ou pelos espagos vazios”. A metafora de um “arquipélago” 361 de éreas verdes resquardado de futuras construgées reaparece neste ensaio 6 uma indicago da preocupacdo de Koolhaas com a implacével invasao da pa, exemplo, no projeto que ele desenhou para a cidade de Lille, o arquiteto dete téncia ao espraiamento urbano mediante construcées de altissima densidade E59 idig 'Sagem. po, MCU a resi . 7 Além diss Koolhaas desenhou esse projeto sem se limitar a uma fungao especifica, ng intengag ce manterthe aflexibiidade. Wiliam McDonough também defende o planejamento gee ~ 8 flexibiidade para permitir a reutilizagao dos edificios, uma atitude que ihe parece a ecolégica do que construir de novo; ver cap. 8.) A flexibilidade esta implicita no "plang aberto” moderista (com suas conotagées de honestidade e liberdade)e caracteriza 4. pesquisas sobre abrigos feitas por Buckminster Fuller € outros arquitetos nos anos 1969 Projetos mais antigos de Koolhaas combinavam fungdes nao encontradas habitualmente em um nico programa; esse “cruzamento de programas” gerou resultados quese sem- pre surrealistas (ver Tschumi, cap. 3). ‘Atualmente diretor de um enorme empreendimento de desenvolvimento urbano, Koolhaas reflete com modéstia sobre sua “geragao de maio de 68", a dos estudan- tes radicais, e se mostra surpreso de Ihe terem confiado tamanha responsabilidade. projeto de Lille representara de fato um passo além do modelo modernista da “torre no jardim” ou nao seré mais que um aumento em sua escala? REM KOOLHAAS Para além do delirio Quero falar sobre alguns projetos urbanos e mencionar certos problemas da condicio urbana contempordnea que minha obra tenta enfrentar. Todos conhecemos a imagem da reconstrugao do férum romano feita por [Gio- vanni Battista] Piranesi e sabemos que essa obra representa uma forma muito intensa de cidade. Reconhecemos um bom niimero de formas geométricas associadas com elementos piiblicos, e entre estes reconhecemos pequenas ruinas, pkinctons progra- maticos em que presumivelmente as atividades menos formais da cidade poderiam ser acomodadas, Essa mistura de elementos formais e informais e a combinacao de ordem e desordem que essa imagem representa so condicoes essenciais da cidade. Também conhecemos esse segundo tipo de cidade e, embora ela faca parte 49 cinturdo de novas cidades em torno de Paris, poderia igualmente estar em Toronto, Téquio, Coreia do Sul ou Cingapura, O irdnico é que subjacente a esse modelo de cidade ainda podemos ver as principais figuras geométricas, a tentativa de obter um eroncia, formas € organizagdes estranham, ° ce pe cnn da condigao urbana que Piranesi sugeriy ou imaginou, Hg ae que preenchem as falhas entre as figuras ; f nals importantes, Se a primeirg uma dose de desa Pontamento, se bora Seja atualmer de “cidade”, Por inspira certo entusiasmo, todos sentimos imager ulsa, com o segundo tipo de cidade (em pio de re eainda que seja importante nomeé-la " = nos reconhecendo como membros d ee incapaz de fazer uma cidade) a nesse contexto, te a forma pre- We, do contrério, © uma cultura e civilizacdo que é gominal AS obras que estou mostrando devem ser lic i a Quero também falar de minha geracio como uma es emaio de 68, que mio & para ser levada a sério demais, iqorar.Nossa geragao respondeu de duas maneirasco tina parte basicamente a ignorou ou, pécie de caricatura da geracdo mas que também nao se deve ndicao urbana contemporanea. para dar uma interpretacao mais Positiva, resis- tiv corajosamente & cidade, como fez a grande reconstrucio tedrica de Washington, de Leon Krier. Hé uma redescoberta da cidade, uma nova fidelidade a ideia da cidade e nossa geragdo foi muito importante na reabilitagdo da cidade como um tertitério essen- cial deatividade. Mas 0 paradoxo dessa reabilitagdo & que parece que perdemos com- pltamente 0 poder e a capacidade de agir sobre e com a cidade. Aoutra parte de minha geragao tomou a dire¢ao exatamente oposta. Considere- -se, por exemplo, o projeto do grupo Coop Himmelblau para uma nova cidade nas proximidades de Paris, chamada Melun-Sénart. Enquanto Leon Krier e sua metade da getago estdo reconstruindo a cidade, o Coop Himmelblau e a outra metade abando- nam toda pretensao de que seja possivel reconstrui-la, desistindo de nossa capacidade até mesmo de reconstruir qualquer forma reconhecivel da cidade, Fora desse debate, cls criam um espetéculo - um jogo retérico, no qual, em vez de uma série de eixos formais, nao hé mais que composicao inspirada no inconsciente e numa estética es- sencialmente cadtica. Olamentavel nessa situacao - de um lado, uma espécie de ilusdo de poder desligada de qualquer eficdcia operativa, e, de outro lado, a despreocupacio com toda reivindica- So de eficécia operativa - é o abandono de um territ6rio completamente devastado que Noss geracdo descobriu em retrospecto, mas com o qual foi incapaz de encontrar uma “mma significativa de relagio. E esta é, sem duivida, uma situagao trégica. ae Nosso escritério também participou da concorréncia para a reconstrugao da ci- ide de Melun-Sénart e lutou contra as mesmas condigGes dificeis, contra a mesma ftlidade da forma contemporanea de cidade. Paris estd agora cercada pee "a0 de novas cidades, Melun-Sénart é parte final desse cinturdo, e guard « ome ae studé-la descobrimos uma paisagem francesa de in rua _ Cidade “enério singelo, onde nés, como arquitetos, tinhamos pees “NOS sentimos quase como criminosos, porque em nossa al