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Capítulo 1

Introdução

1 Introdução

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1.1 Física nuclear: uma retrospectiva histórica

 

1

1.2 Notação e nomenclatura

 

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1.3 Unidades de massa, energia e propriedades de algumas partículas

 

subnucleares

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1.4 Peso-atômico e abundância isotópica

 

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1.5 Energia nuclear

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1.6 Partículas subnucleares e element ares: uma retrospectiva histórica

 

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1.7 Apêndice A: A seção de choque de Rutherford

 

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1.8 Bibliograa

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1.9 Textos de Física Nuclear e de Partículas Elementares recomendados como leitura adicional/complementar

 

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1.1 Física nuclear: uma retrospectiva histórica

A Física Nuclear trata de uma grande variedade de temas relacionados com a natureza das interações entre os constituintes dos núcleos atômicos – que, no que segue, podere- mos nos referir apenas como núcleos –, e com propriedades dos fragmentos resultantes de colisões de partículas subatômicas, ou de radiação electromagnética, com núcleos, e mesmo de núcleos com outros núcleos. Em síntese, a nalidade de seu estudo é com- preender a estrutura nuclear, desvendar como seus constituintes interagem, explicar a estabilidade nuclear e, por m, apresentar uma teoria geral condizente com os dados empíricos. O leitor mais interessado poderá encontrar na internet [www.asercriada] uma imensa quantidade de informações sobre o assunto, especialmente no que diz re- speito à parte histórica, onde também está disponível a maioria dos artigos seminais que reportaram as descobertas fundamentais, podendo também encontrar traduções para o inglês de artigos originalmente escritos em outros idiomas. A m de conduzir o leitor na cronologia das descobertas e avanços da Física Nu- clear, faremos aqui uma breve retrospectiva histórica das principais etapas do seu

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Capítulo 1. Introdução

desenvolvimento. Nesse sentido, uma pergunta pertinente poderia ser feita: Qual foi o evento determinante que poderia ser considerado, de alguma forma, como um marco inicial para a Física Nuclear? De fato, a partir do nal do século XIX, muitas pesquisas e descobertas foram feitas e teorias foram propostas – todas importantes

e inter-relacionadas –, e dicilmente seria possível apontar um único evento, e tam-

pouco xar uma única data, mesmo em uma reconstrução histórica sem o rigor que seria exigido por um historiador de ciências. Ainda assim, somos tentados a xar dois

momentos especícos quando ocorreram acontecimentos mais marcantes: em 1911, quando foi proposto, com base em resultados experimentais e análises quantitativas, o primeiro modelo do átomo que propunha a existência de um núcleo de tamanho nito

e em 1932, quando o nêutron foi descoberto 1 , o que permitiu a elaboração da primeira teoria do núcleo.

O físico Ernest Rutherford (PNQ-1908) 2 inferiu a existência do núcleo atômico

e determinou o seu tamanho após analisar os resultados experimentais obtidos pelos

físicos Hans Geiger e Ernest Marsden, que trabalhavam em seu laboratório na Uni- versidade de Manchester. Em essência, os experimentos consistiam em fazer incidir partículas α (posteriormente identicadas como átomos ionizados do elemento hélio), provenientes de uma fonte radioativa, sobre folhas metálicas muito nas, com cerca de 4 µm (1 micrômetro = 10 6 m) de espessura, e estudar os padrões de espalhamento das α ’s. Em 1909, Rutherford havia sugerido tentar detectar partículas α deetidas em grandes ângulos. Poucos dias depois da sugestão eles o informaram [1] que haviam con- seguido observar que uma pequena fração (1 : 20 000) de α ’s era espalhada em ângulos traseiros (ângulo polar θ > π/2) 3 . Esta constatação empírica foi de fundamental im-

portância para que, em 1911, Rutherford pudesse enunciar a sua teoria sobre a estrutura atômica. Na Figura 1.1 temos uma representação pictórica de partículas α incidindo sobre um alvo e possíveis trajetórias em diversos ângulos de espalhamento.

A concepção dominante até 1911 estava ancorada no modelo atômico de Joseph

John Thomson (PNF - 1906) 4 , onde a carga positiva estaria uniformemente distribuída em uma esfera do tamanho do átomo; cálculos precisos indicavam que, nessa congu- ração, a deexão de uma partícula α resultaria de múltiplos espalhamentos e o desvio to- tal, relativamente à trajetória inicial, deveria ser pequeno. Porém, este resultado teórico entrava em contradição com os dados que provinham das medições feitas por Geiger e

1 O período entre 1911 e 1932 poderia ser chamado de era pré-Física Nuclear, pois os conhecimentos sobre a estrutura do núcleo e seus constituintes eram ainda vagos, existindo apenas hipóteses e conjecturas. 2 Laureado com o Prêmio Nobel de Química em 1908. Doravante, a sigla PNQ-xxxx ou PNF-xxxx, ao lado de um nome ou nomes, indicará que as pessoas citada s receberam o prêmio Nobel em Química ou Física, no ano xxxx. 3 Para se ter uma idéia das frações envolvidas, os autores reportam 1 : 1 000 α´s com desvios em um ângulo no intervalo (0 0 , 90 0 ) e 1 : 200 000 para (150 0 , 180 0 ). 4 Em 1910, Thomson – o mesmo que descobriu o elétron – propôs o chamado modelo de “pudim de ameixa” para o átomo. Este foi concebido como uma esfera com massa contendo uma carga elétrica positiva uniformemente distribuída e os elétrons, objetos pontuais de carga elétrica negativa, cam distribuídos nessa esfera como ameixas em um pudim. A carga total é então nula, assegurando-se, portanto, que o átomo é eletricamente neutro, de acordo com o que se sabia então. Este modelo fora sugerido no início do século XX por Lord Rayleigh.

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Física nuclear: uma retrospectiva histórica

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1.1 Física nuclear: uma retrospectiva histórica 3 Figura 1.1: Algumas poucas α ’s são espalhadas em

Figura 1.1: Algumas poucas α ’s são espalhadas em ângulos traseiros.

Marsden. Elas indicavam que a força que espalhava uma partícula α , e que era respon- sável pelas grandes deexões, se originaria de uma única colisão devida a uma partícula massiva 5 , com carga elétrica positiva, que estaria connada no centro do átomo, em uma região bem menor que o seu tamanho, e não devido à soma de vários pequenos espalhamentos. Em dois artigos seminais [2], publicados em 1911 e 1914, Rutherford refutou o mod- elo atômico de Thomson, substituindo-o pelo seu próprio, no qual os elétrons orbitariam um núcleo carregado positivamente – em analogia aos planetas em torno do Sol – situ- ado no centro do átomo. O espalhamento de α’s a grandes ângulos ocorre quando estas chegam bem perto do núcleo, e a maioria das α ’s não sofre espalhamento porque atrav- essa regiões dentro do átomo que são blindadas pelos elétrons, sentindo, portanto, bem menos intensamente as forças das cargas nucleares. Neste sentido, deve-se apontar que Hantaro Nagaoka havia proposto um “modelo saturniano” (um modelo inspirado em uma proposta de James Clerk Maxwell) para o átomo em 1904, embora este modelo considere, equivocadamente, que a radiação emitida pelo átomo provém do movimento mecânico dos anéis de elétrons e a radioatividade beta corresponda à ruptura de um desses anéis 6 . Os desvios das trajetórias das α ´s são causados por uma força repulsiva central de natureza coulombiana cuja energia potencial é (2e ) (Ze) /r , onde o fator 2e cor- responde à carga elétrica da α , Ze é a carga elétrica do núcleo (e é a carga elétrica do elétron), r é a distância entre a partícula α e o centro espalhador no referencial do

5 Embora a palavra massiva não seja encontrada nos dicionários da língua portuguesa, nós a usaremos regularmente com o sentido de "com massa". 6 Em seu trabalho, Nagaoka diz que o seu modelo apresenta estabilidade e difere do modelo saturniano de Maxwell, por considerar que as partículas negativamente carregadas, distribuídas em um círculo, se repelem, em contraste com massas de satélites, que se atraem [3]. Do ponto de vista histórico, anteriormente, já em 1901, Jean Baptiste Perrin havia proposto um modelo núcleo-planetário para o átomo [4] .

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Capítulo 1. Introdução

centro de massa (RCM). A fração de partículas α deetidas (por unidade de tempo) – em relação ao uxo de α ´s incidentes, por um centro espalhador pontual –, que caem em direção normal sobre uma unidade de área de uma superfície, fazendo um ângulo θ com a direção de incidência das α´s, é medida pela seção de choque diferencial, que é escrita como [5]

(2Z ) 2 µ

0, 36 [MeV ]) 2

1

(θ/2) [ b] .

T

sin 4

(1.1)

Nesta fórmula a energia cinética da α, T , deve ser expressa em unidades MeV (esta unidade de energia, típica da Física Nuclear, será de nida na seção 1.3) e a seção de choque resulta ter dimensão de área, mas sendo o cm 2 uma quantidade muito grande para expressar as dimensões atômicas, usa-se a unidade barn (b) onde 1 b = 10 24 cm 2 . A dedução da seção de choque (1.1) está feita no Apêndice A. A constatação de colisões frontais (θ = π ) de α´s por diversos elementos (folhas de ouro, prata, cobre, etc.) e a existência de discrepâncias entre o que fora medido e a pre- visão da expressão (1.1), levou Rutherford a inferir que os núcleos atômicos não seriam objetos pontuais, mas teriam um tamanho nito de formato aproximadamente esférico com raio menor que 10 12 cm, dimensão linear cerca de 50 000 vezes menor que o tamanho do átomo. Em suma, os núcleos seriam muito pequenos comparativamente ao tamanho do átomo, mas teriam uma estrutura onde praticamente toda a massa do átomo estaria concentrada e carregariam uma carga elétrica positiva, veja a Figura 1.2.

uma car ga elétrica positiva, veja a Figura 1.2. Figura 1.2: Representação artística do modelo “pudim

Figura 1.2: Representação artística do modelo “pudim de ameixa” de Thomson e do modelo “planetário” de Rutherford. As guras estão fora de escala para facilitar a visualização.

Em 1913, Niels Bohr (PNF-1922) aperfeiçoou o modelo de Rutherford com a in- trodução de conceitos quânticos para explicar a estabilidade das órbitas eletrônicas e a emissão de radiação: ele postulou que as órbitas dos elétrons deveriam ser quantizadas,

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Física nuclear: uma retrospectiva histórica

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signicando que elas poderiam existir somente a certas distâncias especí cas do núcleo [6]. Este foi um modelo bastante sosticado para a época, embora incompleto pois só se aplicava para órbitas circulares. Em 1916, Arnold Sommerfeld melhorou o modelo incluindo efeitos relativísticos, o que permitiu a inclusão de órbitas elípticas, e passou a ser conhecido como modelo atômico de Bohr-Sommerfeld, tornando-se o principal ingrediente da chamada velha teoria quântica 7 . Embora tenham ocorrido vários avanços no estudo dos núcleos no período entre 1911 e 1932, a estrutura nuclear ainda era desconhecida, muitos modelos haviam sido propostos, mas nenhum apresentava uma explicação convincente, pois faltavam fatos observacionais essenciais para uma formulação teórica consistente. Repentinamente, em 1932 e 1933 aconteceram descobertas e avanços cientícos importantes que possi- bilitariam, a partir de então, o avanço acelerado das pesquisas em Física Nuclear e em Física das Partículas Elementares . De maneira informal, o físico britânico Arthur Ed- dington propôs o ano de 1932 como um marco zero da Física Nuclear [10], que ele denominou annus mirabilis 8 devido aos seguintes fatos (que serão analisados em mais detalhes em capítulos subseqüentes) :

(1) No laboratório Cavendish (Universidade de Cambridge) James Chadwick (PNF- 1935) descobriu a existência do nêutron, que veio a se somar ao próton 9 e ao elétron, que eram até então as únicas partículas elementares conhecidas. O nêutron, uma partícula eletricamente neutra e com massa muito próxima à do próton (foi também chamada pró- ton neutro), foi detectado na colisão de uma partícula α com um núcleo de berílio-9; no processo representado pela forma,

α

+ 4 Be C + n,

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12

(1.2)

a partícula α é aborvida e ambos perdem suas identidades. A seguir, o sistema transforma-

se em um núcleo de carbono-12 e um nêutron é ejetado 10 . Entretanto, já em 1920, em uma conferência internacional, Rutherford havia sugerido a existência do nêutron e anos mais tarde, em 1930, Walther Bothe (PNF-1954) e Hans Becker, assim como Irène Curie e Fréderic Joliot-Curie (PNQ-1935, ambos ), já haviam constatado a presença

7 Sobre este tema veja os textos de M. Born [7], de A. E. Ruark e H. C. Urey [8] , e também o de L. Brillouin [9] 8 Ano maravilhoso. 9 Depois da descoberta do elétron por Thomson em 1897, imaginou-se que deveria haver centros de carga positiva dentro do átomo a m de contrabalançar as cargas negativas dos elétrons e assim permitir que os átomos fossem eletricamente neutros. A descoberta do núcleo por Rutherford permitiu localizar uma carga positiva concentrada no centro do átomo, ocupando um volume comparativamente ín mo. Em 1919, fazendo incidir partículas α sobre certos elementos, Rutherford descobriu que poderia transmutá-los em outros; e, no início de 1920, diversos experimentos de transmutação estavam sendo feitos na comunidade cientíca. Como nestes experimentos núcleos de hidrogênio eram também ejetados, tornava-se evidente que o núcleo do hidrogênio deveria ter um papel fundamental na estrutura do átomo. Comparando razões de massas nucleares para cargas, percebeu-se que a carga positiva de qualquer núcleo poderia ser considerada como um múltiplo inteiro da carga do núcleo de hidrogênio. Já no m de 1920, os físicos se referiam ao núcleo do átomo de hidrogênio como “próton”, palavra cunhada pelo próprio Rutherford. Portanto, pode-se considerar o ano de 1920 como o da descoberta do próton, embora não que clara a indicação de um descobridor único. 10 A notação (1.2) será usada para descrever colisões, também chamadas reações nucleares, que serão denidas de forma mais precisa no capítulo 2.

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Capítulo 1. Introdução

de uma radiação "estranha", mas não a identi caram com o nêutron. Neste contexto, uma história interessante é contada pelo físico Emílio Segrè (PNF-1959) [11]: a partir dos dados experimentais de Bothe-Becker e Curie-Joliot, o perspicaz e enigmático Et- tore Majorana 11 já conseguira vislumbrar que se tratava de um “próton neutro”, mas mesmo com o incentivo de Enrico Fermi (PNF-1938), alegando motivos pessoais, ele decidira não publicar sua idéia. (2) Também no laboratório Cavendish foi realizada a primeira desintegração nuclear articial por John D. Cockroft e Ernest T. S. Walton (PNF-1951, ambos). Usando um acelerador por eles construído, veri caram a reação

(1.3)

signicando que um próton é absorvido por um núcleo de lítio-7, dando como resultado, após a colisão, a desintegração do sistema em duas partículas α , que emergem com energia cinética de cerca de 8, 5 MeV para cada uma. (3) Nos Estados Unidos Carl D. Anderson (PNF-1936) e Seth H. Neddermayer descobriram o pósitron e + (elétron com carga elétrica positiva), partícula elementar pre- vista por Paul A. M. Dirac (PNF-1933) a partir das soluções da sua equação relativística para o elétron (equação de Dirac). (4) Também nos Estados Unidos, o químico Harold. C. Urey (PNQ-1934) e colab- oradores descobriram o deutério, um átomo de hidrogênio cujo núcleo é constituído de um próton e um nêutron. (5) Na Alemanha, Werner Heisenberg (PNF-1932) propôs a primeira teoria para

p + Li −→ α + α + 17 MeV,

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o núcleo atômico, sugerindo que um núcleo seria constituído de A (número de massa) núcleons 12 , dos quais Z (número atômico) seriam prótons e N = AZ nêutrons, que se manteriam coesos por fortes forças atrativas, para contrapor-se à repulsão coulombiana que atua entre os prótons. Em suas propriedades físicas, os núcleos difeririam entre si pelos números A e Z . Na mesma época, D. D. Iwanenko e Majorana também chegaram

à mesma concepção para a estrutura nuclear. (6) Em 1933, na Itália, Fermi desenvolveu a sua teoria sobre o decaimento β dos nú- cleos radioativos, propondo a existência de um novo tipo de interação entre as partículas elementares, a interação fraca. Por decaimento β entende-se o fenômeno de transmu- tação de um elemento de número atômico Z , para um outro com Z + 1 e a emissão concomitante de um elétron; a soma do número de prótons e nêutrons é conservada.

11 Majorana, engenheiro por formação, foi um físico italiano muito talentoso – conforme reconhecimento feito pelo próprio Enrico Fermi – desapareceu em uma viagem de navio entre a Itália continental e a Sicília, aos 31 anos de idade, poucos meses após ter sido nomeado catedrático na Universidade de Nápoles. Outras histórias e anedotas são contadas por Laura Fermi [12], esposa de Fermi. Por exemplo:

“Majorana era um gênio, um prodígio em aritmética, um portento em visão e potência mental, a mente mais profunda e crítica de todo o prédio da Física. Ninguém precisava de uma régua de cálculo, ou de calcular por escrito, quando Majorana estava por perto. ‘Ettore, qual é o logaritmo de 1538?’ perguntava um. Ou, ‘qual é a raiz quadrada de 243 vezes 578 ao cubo?’ Cert a vez ele e Fermi competiram: Fermi com lápis, papel e uma régua de cálculo; Majorana apenas com sua mente. Empataram!” 12 Núcleon é uma designação para próton e nêutron indistintamente. Pode-se considerar que espectroscopi- camente o próton é o estado fundamental do núcleon e o nêutron é o primeiro estado excitado, pois no estado livre seu tempo de vida-média é de cerca de 15 minutos, decaindo para o próton por interação fraca.

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Física nuclear: uma retrospectiva histórica

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Uma nova partícula está presente nesse processo – cuja descrição deve estar contida na teoria –, o neutrino 13 , assim batizada por Fermi porque, como o nêutron, ela não tem carga elétrica, mas sua massa é muitíssimo menor que a do nêutron. Historicamente, a proposta dessa partícula veio de Wolfang Pauli (PNF-1945), em 1930, para dar conta do princípio de conservação da energia no decaimento β , mas foi na teoria de Fermi que ela entrou para o rol das partículas elementares subatômicas, mesmo sem ter sido até então detectada, o que só veio a ocorrer em 1956. Mesmo que concordemos com Eddington e adotemos 1932 como o ano zero da Física Nuclear, devemos reconhecer que, fora a descoberta de Rutherford, inúmeras outras grandes descobertas na física haviam sido feitas anteriormente e que foram fun- damentais para o desenvolvimento da Física Nuclear e das Partículas Elementares. A seguir, faremos uma breve apresentação, em ordem cronológica, dos principais marcos cientícos pré-1932, que estão na origem da procura por uma teoria harmoniosa sobre a constituição e a origem da matéria:

1895 - Na Alemanha, Wilhelm Roentgen (PNF-1901) descobriu os raios X.

1896 - Na França, Henry Becquerel (PNF-1903) descobriu a propriedade ra- dioativa do elemento natural urânio.

1897 - Na Inglaterra, Thomson descobriu que os raios catódicos eram consti- tuídos de partículas eletricamente carregadas; individualmente identicou-se o elétron, que se tornou a primeira partícula elementar a ser desvendada.

1899 - Rutherford identicou os raios α e β , emitidos pelo elemento rádio, e ele notou que os raios β são mais penetrantes que os raios α , fato este que permite distingui-los.

1911 - Rutherford descobriu que o átomo possui um núcleo atômico e enunciou o seu modelo planetário.

1913 - Na Inglaterra, Frederick Soddy (PNQ-1921) descobriu que a relação en- tre a carga e a massa dos núcleos não é linear (Z 6= cA). Embora a massa dos núcleos dos diversos elementos cresça com o aumento do valor das respectivas cargas elétricas, ele vericou que para uma dada carga nuclear, existem núcleos de diversas massas, e que para tais núc leos os átomos correspondentes possuem um mesmo número de elétrons. Portant o, os átomos que compõem uma substân- cia quimicamente pura de um elemento não possuem todos a mesma massa. Ele chamou isótopo a um átomo que pertence ao conjunto daqueles que têm mesmas propriedades químicas, mas tem massa diferente.

1919 - Rutherford produziu a primeira reação nuclear induzida resultando na modicação da estrutura interna de um núcleo, o que é representado pela reação

(1.4)

α + N1

7

14

1 H + + O.

8

17

13 Depois reconhecida como sendo o antineutrino.

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Capítulo 1. Introdução

Esta signica que fazendo-se incidir partículas α em núcleos de nitrogênio-14,

e quando elas forem absorvidas, estes se transformam em núcleos do isótopo

oxigênio-17, havendo ainda emissão de núcleos de hidrogênio 1 1 H + , ou prótons.

A reação (1.4) permitiu a identicação do núcleo do átomo de hidrogênio como

um constituinte fundamental presente em todos os demais núcleos.

1920 - O próton se rma na comunidade cientíca como uma partícula elementar com carga elétrica positiva.

Estes foram, portanto, alguns dos principais resultados experimentais no que diz respeito à Física Nuclear até 1932. Não obstante, signicativas descobertas experimen- tais e avanços teóricos, de âmbito geral, foram alcançados na Física no período que vai de 1900 a 1932 e que inuenciaram decisivamente o progresso da Física Nuclear. Em

1900, na Alemanha, Max Planck (PNF-1918) propôs uma abordagem teórica e formal para explicar a radiação do corpo negro; ele introduziu a noção de quantum de energia, contudo em um contexto ainda bastante limitado. Em 1905, na Suiça, Albert Einstein (PNF-1921) tornou pública a teoria da relatividade restrita e a equivalência entre massa

e energia, E = Mc 2 (M é a massa de uma partícula ou de um objeto qualquer e c

é a velocidade da luz no vácuo). A partir de 1913, o conceito de quantum de ener-

gia é usado para explicar a estabilidade do átomo assim como a emissão e a absorção de radiação (teoria de Bohr-Sommerfeld). Em 1922, em um experimento engenhoso, Otto Stern (PNF-1943) e Walther Gerlach descobriram a "quantização do espaço". Eles vericaram que alguns tipos de átomos têm um grau de liberdade intrínseco que se manifesta quando um feixe desses átomos é passado por um campo magnético não- uniforme, veja a Figura 1.3. Esta quantização seria o prelúdio para a introdução da propriedade de spin das partículas subatômicas e elementares e da quantização do mo- mentum angular. Em 1925, George Uhlenbeck e Samuel Goudsmit 14 previram que o elétron pos- suiria um grau de liberdade adicional, que seria chamado spin. Mais tarde se asseverou que o spin é um grau de liberdade presente no próton, no nêutron e nas demais partícu- las elementares. Também em 1925, Pauli enunciou o Princípio da Exclusão, o que é um conceito essencial para explicar a classi cação dos elementos na tabela de Mendeleev. Entre 1925 e 1927 a Mecânica Quântica foi inventada e veio a englobar e substituir a velha mecânica quântica; apesar de questionamentos de caráter epistemológico, é uma teoria prodigiosamente precisa para prever e descrever fenômenos a baixas energias. Sua paternidade e desenvolvimento são devidos a Heisenberg, Erwin Schrödinger (PNF-1933), Max Born (PNF-1953), Pascual Jordan e Dirac. Depois de 1932 a situação da Física Nuclear pôde ser colocada na seguinte perspec-

14 Ralph Kronig, um jovem doutorando da Universidade de Columbia, EUA, estava estagiando na Europa, e teve a idéia do spin do elétron alguns meses antes de Uhlenbeck e Goudsmit. Ele a apresentou a Pauli, então uma autoridade em física, que a achou ridícula, dizendo " realmente [uma idéia] muito esperta, mas

obviamente nada tem a ver com a realidade". Assim, Kronig não publicou sua idéia sobre o spin e Uhlenbeck comentaria mais tarde "sobre a sorte e o privilégio que tiveram [ele e Goudsmit] de terem sido alunos de Paul

Ehrenfest", seu orientador de tese.

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Física nuclear: uma retrospectiva histórica

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1.1 Física nuclear: uma retrospectiva histórica 9 Figura 1.3: Representação pictórica do aparato experimental de

Figura 1.3: Representação pictórica do aparato experimental de Stern e Gerlach. Um feixe de átomos de prata atravessa um campo magnético não-uniforme, mostrando que o momento de dipolo magnético é quantizado, o feixe se abre em dois subfeixes e não em um contínuo.

tiva: a estrutura corpuscular dos núcleons ainda não estava posta em questão; eles eram considerados como partículas fundamentais que interagiam a curtas distâncias (menores que o tamanho do núcleo) via uma força nuclear atrativa. Para distâncias ainda menores existiria, adicionalmente, a contribuição de uma força repulsiva. Porém, em 1935 surgiu uma mudança decisiva: procurando entender e explicar a origem da força nuclear, o físico Hideki Yukawa (PNF-1949) apresentou uma teoria, inspirada na teoria eletro- magnética, pela qual o campo de interação entre os núcleons seria constituído de outras partículas de massas intermediárias entre a do elétron e a do núcleon (200 300 massas do elétron), a partícula viria a ser denominada méson. Mais tarde, o méson recebeu um nome mais especíco: méson- π ou píon, e em 1947 ele foi identicado experimental- mente pelos físicos Cesar G. M. Lattes , Cecil F. Powell (PNF-1950) e Giuseppe P. S. Occhialini, em trabalho conjunto. Em Física Nuclear de baixas energias 15 considera-se que todas essas partículas são objetos pontuais e elementares, sem haver maior preocu- pação com a sua estrutura interna, mas possuem propriedades físicas bem denidas, como massa, carga, spin, momento de dipolo magnético, etc. Agora faremos um interregno na seqüência histórica para introduzir a notação e

15 Lembrar que a energia cinética por núcleon é menor que o equivalente em energia da massa de um

núcleon: a energia de uma partícula livre é E = p 2 c 2 + M 2 c 4 , a energia associada à sua massa de

repouso é Mc 2 , sua energia cinética é T = p 2 c 2 + M 2 c 4 Mc 2 e o seu momentum linear é p =

T 2 + 2TMc 2 /c > T /c. Para momenta lineares p ¿ Mc, T ' p 2 / 2M .

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Capítulo 1. Introdução

nomenclatura que serão usadas subseqüent emente. Por uma questão de completeza alguns conceitos introduzidos nesta seção serão repetidos na seguinte.

1.2 Notação e nomenclatura

Um núcleo atômico contém dois tipos de partículas, de massas aproximadamente iguais,

o próton que carrega uma unidade de carga elétrica positiva, e o nêutron que é de-

sprovido de carga; ambos são partículas subnucleares ou subatômicas 16 . Um átomo ou um núcleo de uma determinada espécie é chamado nuclídeo, os nuclídeos se distinguem uns dos outros pelo número de prótons Z (o número atômico) 17 e de nêutrons (N ) que seu núcleo contém. Há nuclídeos que são estáveis, i.e., seus números Z e N não mudam com o tempo, a menos que sejam perturbados por agentes externos, e há os instáveis ou radioativos, também chamados radionuclídeos , que mudam os seus valores de Z e N emitindo espontaneamente uma ou mais partícu las ou radiação eletromagnética. Ex- istem tabelas confeccionadas que exibem todos os nuclídeos conhecidos, os naturais e

aqueles produzidos articialmente (são cerca de 3 200 no total); a título ilustrativo veja as Figura 1.4 ou 1.5 [13]. Um nuclídeo é denotado como A X , onde X é o símbolo do elemento químico, de acordo com a tabela dos elementos de Mendeleev. A letra A (= Z + N ) representa o número de massa. O átomo de menor massa existente na natureza é o hidrogênio 1 1 H , seu núcleo tem a estrutura mais simples: é um próton, Z = +1. A diferença entre

o número de massa e o número atômico, N = A Z , indica o número de nêutrons

presentes no núcleo. Átomos de um elemento químico que se caracterizam por terem

o mesmo número atômico Z e diferentes números de massa A são chamados isótopos ;

eles diferem entre si pelos diferentes números de nêutrons que há em seu núcleo. Como

exemplo, o elemento hidrogênio, o mais abundante na natureza, possui outros isótopos

Z

além de 1 1 H ; eles são o deutério 2 H = D e o trítio 3 H = T , cujos núcleos contêm, além do próton, um e dois nêutrons respectivamente. A partir do modelo para o núcleo proposto por Heisenberg em 1932, usa-se a denom- inação núcleon quando se faz referência indistinta a próton ou nêutron. Por possuírem certas propriedades semelhantes – mas ainda assim nitidamente distinguíveis devido à carga elétrica – o próton e o nêutron são vistos como uma mesma partícula, porém em diferentes estados, o que está sendo atualmente corroborado pelo sucesso do modelo

a quarks 18 para a representação das partículas subnucleares. Excetuando-se o núcleo de 1 1 H , para os demais a razão A/Z não é constante, ela varia de 2 (para os núcleos mais leves) até 2, 5 (para os núcleos mais pesados), o que implica na existência de um

1

1

16 O elétron é considerado como partícula subatômica, mas não subnuclear, por não ter existência própria no núcleo. 17 A letra Z especica tanto o número de elétrons de um átomo eletricamente neutro quanto o número de cargas elétricas elementares positivas em um núcleo. 18 Os quarks são partículas elementares que, no chamado Modelo Padrão, entram na composição dos nú- cleons e outras partículas subnucleares.

Mizrahi & Galetti

1.3

Unidades de massa, energia e proprie dades de algumas partículas subnucleares11

excesso de nêutrons em relação ao número de prótons 19 . Complementando a nomen- clatura, acrescentamos que os nuclídeos com o mesmo valor N , mas diferentes valores de Z , são chamados isótonos e os de mesmo A mas N e Z diferentes são chamados isóbaros . Há também os nuclídeos isômeros , que são núcleos de mesmos números A, N e Z mas que se distinguem por terem energias i nternas diferentes. Os isômeros são produzidos em estados excitados e seu tempo de vida é geralmente de algumas horas; via de regra eles acabam decaindo para o seu estado fundamental com emissão de um ou mais raios γ (fóton de energia muito mais alta do que aqueles da região visível do espectro). Eles são denotados com a inserção de um asterisco no símbolo do nuclídeo, como A X .

Z

1.3 Unidades de massa, energia e propriedades de algumas partículas subnucleares

Na Tabela 1.1 estão listadas algumas das partículas que exercem o papel principal na Física Nuclear, com algumas de suas propriedades quantitativas; embora todas sejam subatômicas ou subnucleares, nem todas são elementares. Enquanto o fóton, o elétron e o neutrino são elementares (até o presente momento não há evidências de que sejam constituídas de outras partículas), o próton, o nêutron e os mésons são constituídos de quarks e antiquarks. Estas últimas pertencem a uma classe de partículas que são as antipartículas , conceito introduzido por Dirac quando estava desenvolvendo a equação relativística para o elétron. Dirac notou que metade das soluções da sua equação de- screviam o movimento do elétron e de seu spin, enquanto que a outra metade represen- taria uma partícula hipotética, de mesma massa que o elétron, com carga elétrica igual em módulo, mas de sinal contrário ao daquele do elétron. Neste contexto, a descoberta feita por Anderson e Neddermayer, em 1932, viria a ser o pósitron, denotado como e + ; o sinal + foi introduzido para distingui-lo do elétron, e . Excetuando-se o fóton, encontram-se na natureza, ou produzem-se experimentalmente, as antipartículas asso- ciadas ao próton, ao nêutron, aos mésons e aos neutrinos, chamados antipróton, anti- nêutron, antimésons e antineutrinos. As antipartículas que são eletricamente carregadas têm carga com sinal oposto ao das partículas, e, para as partículas sem carga elétrica, as antipartículas são também desprovidas de carga. O spin de partículas e antipartícu- las é o mesmo, mas existe uma propriedade chamada helicidade 20 que as diferencia e que pode assumir valores ±1. Todos os constituintes dos antinúcleons são antiquarks. No que se refere aos mésons, eles são constituídos por um quark e um antiquark; os an-

19 O excesso de nêutrons se explica pela necessidade de garantir a estabilidade nuclear, ele é imprescindível para manter a coesão dos núcleos mais pesados por meio da força nuclear atrativa (que é de curto alcance e age de forma indistinta entre prótons e nêutrons), contrabalançando assim a força coulombiana repulsiva que atua entre os prótons e que é de longo alcance. 20 Helicidade é essencialmente a projeção do spin s sobre a direção de seu momentum linear p , h = s · p/ | s · p |. Uma partícula massiva tem diferentes helicidades em referenciais inerciais diferentes, somente para partículas sem massa a helicidade é a mesma em qualquer referencial.

Mizrahi & Galetti

12

Capítulo 1. Introdução

timésons, em relação aos mésons, têm o quark trocado por seu antiquark e o antiquark trocado pelo seu quark.

1. Em Física Nuclear a energia é comumente medida em unidades de MeV (um

milhão de elétron-volts ou mega-elétron-volt); o elétron-volt é a energia adquirida por um elétron com carga elétrica 1, 602176 × 10 19 C ( Coulomb) quando acelerado por uma diferença de potencial de 1 V (volt ), logo 1 eV = 1, 602176 × 10 19 C × 1 V = 1, 602176 × 10 19 J (Joule) e 1 MeV = 1, 602176 × 10 13 J . Às vezes também é usada a unidade keV (quilo-elétron-volt), de onde 1 MeV = 10 3 keV .

2. A unidade de massa atômica (u ou amu 21 ) é denida como um doze-ávos da

massa do átomo de carbono eletricamente neutro 1u

10 24 g , a qual, através da relação de equivalência massa-energia, corresponde a uma

C ´ c 2 = 1, 492232 × 10 10 J = 931, 494 MeV . Logo, 1u =

energia de ³

931, 494 MeV /c 2 , onde c ' 3 × 10 10 cm s 1 é a velocidade da luz no vácuo 22 .

3. As massas das partículas e núcleos são expressas em unidades u ou MeV /c 2 :

a massa do próton é m p = 1, 007276 u = 938, 272 MeV /c 2 ; a massa do nêutron é m n = 1, 008665 u = 939, 565 MeV /c 2 e a massa do átomo de hidrogênio é M1 H = 1, 007825 u = 938, 783 MeV /c 2 (a energia de ligação do elétron é desconsiderada por

ser muito menor do que a massa do elétron).

4. A massa do elétron é m e = 5, 486 × 10 4 u = m e = 0, 511 MeV /c 2 . O pósitron tem a mesma massa.

5. Elétrons, prótons, nêutrons e neutrinos possuem um grau de liberdade adicional,

o momentum angular intrínseco ou spin, de valor ~/2, onde ~ é a constante de Planck h dividida por 2π , veja seu valor numérico na Tabela 1.2.

6. Outro grau de liberdade das partículas elementares ou compostas é a chamada

paridade intrínseca, este conceito será melhor discutido no capítulo 2.

7. Elétrons, prótons e nêutrons possuem momento de dipolo magnético intrínseco,

ou simplesmente momento magnético que está associado ao seu spin. O momento mag- nético do elétron é expresso em unidades de magneton de Bohr, µ B = e ~/(2m e c) e seu valor experimental é µ e ≈ −1, 0011µ B . O sinal negativo signi ca que os vetores

de spin e do momento magnético apontam em direções opostas. Contrariando toda ex- pectativa, os momentos magnéticos do próton e do nêutron não são respectivamente, µ p = e ~/ (2m p c) ( = 1 µ N ou 1 magneton nuclear) e µ n = 0; de fato, os momentos magnéticos medidos têm valores

1

12 M12

6

C

= 1, 660539 ×

1

12 M12

6

µ p = 2, 7928 µ N

e

µ n = 1, 9130 µ N ,

o que sugere que a estrutura interna dessas partículas não deve ser tão simples quanto a do elétron.

8. A unidade de dimensão espacial comumente usada é 10 13 cm = 1 fm, que

designa o femtômetro. Em Física Nuclear o femtômetro é coloquialmente chamado

21 De atomic mass unit. 22 Usamos a fórmula de Einstein para a equivalência entre massa e energia, E = Mc 2 . Um valor mais preciso para u é 931, 49432 ± 0, 00028 MeV /c 2 .

Mizrahi & Galetti

1.3

Unidades de massa, energia e proprie dades de algumas partículas subnucleares13

fermi , em homenagem a Fermi. Na Tabela 1.1 está apresentada uma síntese das partículas subatômicas, onde na primeira coluna estão listadas as partícul as ubíquas nos processos nucleares de baixas energias; para partículas de campo (fóton e mésons) o spin toma um valor inteiro e para as demais partículas o spin 23 é 1/2. Os momentos de dipolo magnético são medidos em magnetons de Bohr, µ B , ou magnetons nucleares, µ N .

Nome

m (MeV/c 2 )

Q

s (~)

τ

µ

π

int

fóton (γ )

0

0

1

-

 

elétron (e )

0,511

-1

1/2

estável

-1,0011 µ B

+

próton (p )

938,272

+1

1/2

>10 31 anos

2,7928 µ N

+

nêutron (n)

939,565

0

1/2

886 s

-1,9130 µ N

+

méson π +

139,570

+1

0

2,6×10 8 s

 

méson π

139,570

-1

0

2,6×10 8 s

 

méson π 0

134,977

0

0

8,4×10 17 s

 

neutrino (ν e )

<3 eV

0

1/2

> ½ 7×10 9 s/eV (s)

3×10 2 s/eV (r)

< 10 10 µ B

+

Át. Hidr. ( 1

1

H )

938,783

0

       

u (uma )

931,494

         

Tabela 1.1. Algumas partículas e suas propriedades. Na segunda coluna estão dadas as massas, na terceira as cargas elétricas, na quarta os valores do spin, na quinta os tempos de vida-média – quanto aos neutrinos, a estimativa empírica é a razão τ /m ν (vida-média / massa) tanto para o neutrino solar quanto para aquele produzido em reatores. Na sexta coluna estão os momentos de dipolo magnético e na sétima as paridades intrínsecas. A paridade do fóton depende do tipo de radiação ser de multipolo elétrico ou magnético.

Na Tabela 1.2 apresentamos os valores numéricos de algumas constantes fundamen-

23 É comum omitir a constante dimensional ~ na especicação do número quântico spin, e também naqueles associados com o momentum angular orbital.

Mizrahi & Galetti

14

Capítulo 1. Introdução

tais 24 .

Constantes

Símbolo

 

Valor

Vel. da luz

c

2, 997925 × 10 8 ms 1

Carga elét.

e

1, 602176 × 10 19 C

Un. massa at.

u

1, 660539 × 10 27 kg

Massa do elét.

m

e

9, 109382 × 10 31 kg

Massa do próton

m

p

1, 672622 × 10 27 kg

Massa do nêutron

m

n

1, 674927 × 10 27 kg

Planck

~

½ 1, 054572 J s ½ 6, 582119 × 10 22 MeV s 6, 626071 × 10 34 Js 4, 135667 × 10 21 MeV s

h

Número de

 

6, 022142 × 10 23

Avogadro

N

a

Constante de

 

½

1, 380650 × 10 23 JK 1 8, 617342 × 10 11 MeV K 1

Boltzmann

k B

Constante

G

 

6, 6742 m 3 kg 1 s 2

gravitacional

N

 

6, 7087 × 10 39 ~c ¡ GeV /c 2 ¢ 2

Tabela 1.2. Algumas constantes fundamentais.

Na Tabela 1.3 apresentamos um conjunto de constantes compostas que se fazem presentes ao longo do texto.

Constantes

expressão

valor

Carga elétrica

e 2

 

1, 439976 MeV fm

ao quadrado

Const.estr. na

α

= e 2 /~c

1/137, 0360

 

~c

197, 329 MeV fm

Raio de Bohr

~

2 /m e e 2

5, 291772 × 10 4 fm

Compr. Compton

λ/2π = ~/m e c

386, 1593 fm

do elétron

Magneton de Bohr

e ~/ (2m e )

5, 788382 × 10 11 MeV T 1

Magneton nuclear

e ~/ (2m p )

3, 152451 × 10 14 MeV T 1

Tabela 1.3. Constantes compostas expressas em termos das constantes fundamentais. Para a constante de estrutura na α , apresentamos o valor aproximado mais comumente usado. Esta constante é adimensional. O símbolo T (Tesla) representa a unidade de campo magnético. Um T é aproximadamente 10 4 vezes o campo magnético da Terra.

C , ou

N a = 12g/M C . Dene-se um mol de uma substância como a quantidade que contém um número N a de

24 Na Tabela 1.2, o número de Avogadro, N a , é o número de átomos que há em 12 gramas de

12

6

6

12

constituintes básicos (átomos, moléculas, estrelas, etc.).

Mizrahi & Galetti

1.4

Peso-atômico e abundância isotópica

15

1.4 Peso-atômico e abundância isotópica

peso-atômico de um nuclídeo A X é a razão entre a massa do átomo e a unidade de

O

massa atômica u,

Z

AA

Z

X =

MA

Z

X

MA

Z

= M12 C /12 .

X

u

(1.5)

Analogamente, o peso-molecular de uma molécula é denido como a razão da massa da molécula e u; ambos são números adimensionais. Existem tabelas que apresen- tam os pesos-atômicos de todos os nuclídeos. O peso-atômico (1.5) é um número fra- cionário próximo do número de massa A, que é um inteiro; de fato, verica-se que

¯AAA ¯ /A < 10 2 . Quando o peso-atômico AA X é expresso em u´s, ele é chamado massa atômica, por ser a massa do átomo. O peso-atômico AA X é aproxi- madamente igual ao seu número de massa A, pois (1) a massa do próton é aproximada-

mente 1 840 vezes maior que a massa do elétron, e (2) a energia necessária para manter

o núcleo coeso é muito menor que o equivalente de sua massa em energia. De (1.5)

pode-se veri car que o número de Avogadro é uma constante universal, por denição dado como

¯

¯

¯

¯

Z X

Z

Z

N a =

12 g

MA X [g ] · (1 g )

Z

M12 C [g ] = MA X [g ]/ ( M12 C [g ]/12) =

Z

AA X · (1 g )

Z

MA X [g ]

Z

;

(1.6)

logo a massa atômica de um nuclídeo A X dividida pela sua massa (em gramas) é N a ,

Z

e diz-se que um mol de uma substância qualquer contém N a constituintes básicos (áto-

mos, moléculas, etc.) dessa substância. Como todo elemento químico possui ao menos dois isótopos [14], dene-se a abundân- cia isotópica γ k do k -ésimo isótopo como a percentagem do mesmo com relação ao to- tal de átomos do elemento em uma amostra. Também é denida a abundância relativa como a fração γ k /100. Essa amostra pode provir da atmosfera, de um minério, de uma solução, da crosta terrestre ou do sistema solar. O peso-atômico de um elemento é a média aritmética ponderada

A Z = X

k

γ

A

k

100 AA k

Z

X ,

(1.7)

onde a soma é feita sobre os pesos atômicos AA k X dos isótopos de um dado elemento.

Z

A título ilustrativo, na Tabela 1.4 estão apresentadas, para alguns nuclídeos: as abundân-

cias isotópicas dos isótopos estáveis – como encontrados na crosta terrestre – e dos isótopos instáveis, com os seus tempos de meia-vida e modos de decaimento, os pesos-

Mizrahi & Galetti

16

Capítulo 1. Introdução

atômicos dos isótopos e dos elementos.

Nucl.

γ k (%)

Meia-vida (modo de decai.)

AA k

X

A

Z

Z

 

1

H

99, 985

 

1, 007825

 

1

2

H

0, 015

 

2, 014102

1, 00794

1

3

H

 

12, 33 a ¡ β 100% ¢

3, 016049

 

1

7

Be

 

53, 29 d (CE 100%)

7, 016929

 

4

8

Be

 

ssão α + α

8, 005305

9, 012182

4

9

Be

100

 

9, 012182

 

4

10

 

1, 51 Ma ¡ β 100% ¢

10, 013534

4

Be

12

98, 89

 

12

   

6

C

13

C

1, 11

 

13, 003355

12, 0107

6

14

 

5, 73 ka ¡ β 100% ¢

14, 003242

 

6

C

16

O

99, 762

 

15, 994915

 

8

17

O

0, 038

 

16, 999131

15, 9993

8

18

0, 200

 

17, 999160

 

8

O

82

37

Rb

 

6, 472 ¡ β + 100% ¢

81, 918208

 

83

37

Rb

 

86, 2 d ( CE 100%)

82, 915112

84

37

Rb

 

32, 77 d ¡ β + 96, 2%; β ¢

83, 914835

85, 4678

85

37

Rb

72, 165

 

84, 911789

 

86

37

Rb

 

18, 631 d ¡ β 95, 995%; CE ¢

85, 911167

87

37

Rb

27, 835

47, 5 Ga ¡ β 100% ¢

86, 909183

Tabela 1.4. Na segunda coluna estão apresentadas as abundâncias isotópicas dos elemen- tos (em percentagem), na terceira coluna estão os tempos de meia-vida e os modos de de- caimento dos nuclídeos instáveis. Na quarta coluna são dados os pesos-atômicos dos isó- topos e na quinta coluna estão os pesos-atômicos dos elementos. As letras h, d e a repre- sentam unidades de tempo, simbolizando horas , dias e anos; a letra k é o símbolo para ki- lo, M para mega, G para giga e CE signica captura eletrônica. Dados extraídos de [14] .

Algumas estimativas podem ser feitas usando cálculos simples, como nos seguintes exemplos:

1. Qual é o peso-atômico do oxigênio?

Usando a expressão (1.7) temos

A O

=

15, 994915 × 0, 99762 + 16, 999131 × 0, 00038 + 17, 999160 × 0, 002

=

15, 999305

2. Quantos átomos de 87 37 Rb há em m = 100 g de rubídio?

Como há N a (número de Avogadro) átomos em A Rb gramas de rubídio (peso- atômico do elemento rubídio), então haverá mN a /A Rb átomos em m gramas, mas

Mizrahi & Galetti

1.5

Energia nuclear

17

desses apenas a fração γ 87

37 Rb /100 será de átomos do isótopo 37

87 Rb , logo

N87 37 Rb =

γ 87

37 Rb

100

µ mN a = 0, 27835 100 × 6, 022142 × 10 23

A

Rb

85, 4678

= 1, 96128 × 10 23 ´atomos

e, complementarmente, o número de átomos de 37 85 Rb é

37 Rb = 0, 72165 100 × 6, 022142 × 10 23

N85

85, 4678

= 5, 08481 × 10 23 ´atomos,

tal que a soma dos átomos dos dois isótopos é N87 37 Rb + N85 37 Rb = 7, 04609 × 10 23 , ou seja, (100/85, 4678) N a .

3.

Da Eq. (1.6) temos

Qual é a massa, em gramas, de um átomo A X ?

Z

MA

Z

X =

AA

Z

X

N a

g

A

N a

g,

e, sem erro apreciável, pode-se usar o número de massa A no lugar de AA X . O valor

Z

numérico AA X (ou A) em gramas de uma dada es pécie atômica é chamado peso- atômico-grama e corresponde, aproximadamente, a um mol de átomos.

Z

4. Qual é a massa do átomo de

16

8

O ?

M16

8

O =

16

6, 022142 × 10 23 g = 2, 65686 × 10 23 g.

1.5 Energia nuclear

A energia nuclear está presente no dia-a-dia de muitas nações e seu uso civil reverte

em proveito dos cidadãos, graças à: (1) produção de radioisótopos necessários para as áreas médicas e biológicas, para ns industriais ou para a realização de pesquisas; (2) produção de energia a partir do combustível nuclear em reatores , construídos especi- camente para essa nalidade. Um reator nuclear projetado para a geração de energia elétrica faz parte de um complexo chamado central nuclear, pois do mesmo constam não apenas o reator per se, mas também os sistemas auxiliares que irão transformar o calor gerado no reator em energia elétrica. No Brasil há duas centrais nucleares em operação, ambas estão situadas no município de Angra dos Reis, RJ. Suplementar-

mente, há reatores de baixa potência usados para a pesquisa cientí ca, para a produção de radioisótopos, irradiação de materiais e para o treinamento de estudantes e técni- cos. Outros tipos de reatores são projetados para que seu uso tenha ns exclusivamente estratégico-militares: (1) para a produção de plutônio-239 em grande quantidade – isó- topo usado para a confecção de explosivos nucleares – e (2) os modelos compactos que são instalados em submarinos: eles geram a e nergia necessária para a sua propulsão e demais necessidades para submersões de longa duração. Alguns reatores são projetados

Mizrahi & Galetti

18

Capítulo 1. Introdução

18 Capítulo 1. Introdução Figura 1.4: Tabela dos nuclídeos, constituintes mais leves. Mizrahi & Galetti

Figura 1.4: Tabela dos nuclídeos, constituintes mais leves.

Mizrahi & Galetti

1.5

Energia nuclear

19

1.5 Energia nuclear 19 Figura 1.5: Tabela dos nuclídeos, constituintes mais leves. Nos retângulos de cor

Figura 1.5: Tabela dos nuclídeos, constituintes mais leves. Nos retângulos de cor azul estão representados os nuclídeos estáveis, e os números são a abundância relativa. Retângulos em outras cores representam os nuclídeos radioativos com seus respectivos tempos de meia-vida.

Mizrahi & Galetti

20

Capítulo 1. Introdução

para serem bastante compactos, o que permite sua instalação em satélites que orbitam a Terra. Podemos situar os primórdios da energia nuclear entre os anos 1939 e 1942. Este período se iniciou com a descoberta da ssão nuclear e se prolongou até o dia da re- alização da primeira reação nuclear em cadeia controlada. Essa foi uma época muito peculiar porque o mundo passou do prelúdio para plena Segunda Grande Guerra (1939- 1945) e grandes cientistas estavam, em sua maioria, profundamente envolvidos com a pesquisa tecnológica e cientí ca para ns bélicos, cada um servindo a um governo ou um regime. Neste cenário a pesquisa impulsionou o grande desenvolvimento da ciência

e tecnologia nucleares porque envolveu pessoas de aguçada perspicácia cientíca que

trabalharam com a nco, movidos por uma profunda convicção da justeza da causa de seu país de nascimento ou de adoção, além de contar com amplos recursos nanceiros para erigir a infraestrutura e as instalações necessárias. Abaixo fazemos uma reconstrução breve daquele período, sendo que uma visão completa e detalhada desse pedaço marcante da história recente, que envolveu muitas

tramas de fugas, traições, decisões políticas e intrigas, não cabe no escopo do presente texto. Contudo, um relato detalhado do desenvolvimento e domínio da energia nuclear

é encontrado, por exemplo, nos livros [18, 19, 20]. Consideramos, não obstante, a pre-

sente reconstrução, sem rigor histórico, se não exatamente imprescindível, pelo menos útil para que o leitor possa apreciar a in uência que a descoberta e o uso da energia nu- clear tiveram sobre os habitantes do planeta e sobre o meio-ambiente, contribuindo as- sim para a mudança do mundo que existia na era pré-nuclear. Neste contexto, um ponto importante a salientar é que os projetos originais da maioria dos países que conseguiram desenvolver e dominar a física e a tecnologia de reatores e do ciclo do combustível nu- clear (EUA, Grã-Bretanha, URSS, França, China, Paquistão, Índia), e daqueles que, em primeira instância, tentaram e não conseguiram (Alemanha, Japão, Líbia), tiveram mo- tivação e nalidades estritamente militares. Na década de 1950, iniciou-se uma nova etapa no uso da energia nuclear com sua aplicação para ns não-militares, quando os conhecimentos desenvolvidos e acumulados foram aproveitados e adaptados para pro- jetos civis. Esses conhecimentos contribuir am para a criação de fábricas especializadas na recém-desenvolvida tecnologia nuclear, e também no estabelecimento de contratos com institutos de pesquisa e universidades para o desenvolvimento de inovações tec- nológicas. Os dois grandes projetos de construção, na década de 1940, de um artefato explo- sivo de muito grande potência tiveram como protagonistas os britânicos e os norte- americanos, por um lado, e os soviéticos por outro, que desenvolveram suas pesquisas independentemente um do outro. Empenhando várias centenas de físicos, químicos e matemáticos, entre os mais brilhantes da época, os projetos se pautaram por um trabalho intenso, de muitas pesquisas combinadas com uma espantosa engenhosidade, de con- ança e determinação das pessoas engajadas. Pode-se dizer, sem grande exagero, que esses projetos representaram o trabalho coletivo de maior envergadura e profundidade intelectual feito até então nas ciências físicas.

A gênese da energia nuclear pode ser situada no ano de 1939, quando foi feita, na

Mizrahi & Galetti

1.5

Energia nuclear

21

Alemanha, a descoberta da ssão nuclear pelos químicos Otto Hahn (PNQ-1944 ) e Fritz Strassmann [15]. Eles haviam constatado que “ao menos três corpos radioat- ivos” formados a partir do urânio bombardeado por nêutrons, eram quimicamente sim- ilares ao elemento bário ( Z = 56). Eliminando várias hipóteses, eles concluíram que [16] isótopos de bário seriam de fato formados como conseqüência do bombardeio de urânio (Z = 92) por nêutrons. Entretanto, nenhuma análise ou interpretação física do fenômeno foi proposta; foi então que, algumas semanas mais tarde, informados dos resultados do experimento de Hahn e Strassmann, os físicos Lise Meitner e Otto R. Frisch 25 (sobrinho de Meitner) escreveram um trabalho seminal [17], onde faziam uma análise consubstanciada dos resultados de Hahn e Strassmann e apresentavam uma in- terpretação correta para o fenômeno observado pelos químicos. Eliminando demais possibilidades, Meitner e Frisch conjecturaram que em núcleos pesados os núcleons se moveriam de maneira coletiva e o movimento do núcleo se assemelharia ao de uma gota de um líquido; e se, porventura, o movimento se tornasse violento, por adição de energia, a gota poderia se dividir em duas outras, porém de tamanhos desiguais. Eles batizaram o fenômeno de ssão nuclear 26 . Em janeiro de 1939, o experimento de Hahn e Strassmann já havia sido reproduzido por várias equipes na Europa e nos EUA. Pela própria Meitner na Suécia, por Joliot-Curie na França e em quatro diferentes lab- oratórios nos EUA. Veja a Figura 1.6 que apresenta uma imagem pictórica do processo de ssão. Voltaremos a estudar a ssão nuclear em mais detalhes no capítulo 12. Depois disso, diversos pesquisadores constataram que para cada ssão que ocorre em um núcleo de urânio, há liberação de cerca de 200 MeV de energia. Portanto, foi imediato imaginar que, se pudesse ser controlada, a ssão poderia ser aproveitada como uma nova fonte de energia. Por outro lado, artefatos explosivos de altíssima potência poderiam ser construídos se fosse possível ocasionar a ssão, em curtíssimo espaço de tempo – milésimos de segundo –, de uma boa fração de núcleos contidos em alguns quilos de urânio. A partir de então nasceu o conceito de energia nuclear, a qual pode- ria ser extraída e liberada a partir da ssão de elementos pesados e da possibilidade de seu aproveitamento. Já em janeiro de 1939 cara patente para Fermi e Bohr que se, juntamente com a ssão, houvesse a emissão de nêutrons, em número suciente, poder-se-ia criar e manter uma reação em cadeia auto-sustentada para se construir um reator nuclear com a potência desejada, desde que se tivesse à disposição alguns qui- los de urânio-235, quantidade essa necessária para se conseguir o tamanho crítico do reator 27 . Em fevereiro, foi con rmado de maneira independente por alguns grupos de

25 Na ocasião, ambos se encontraram na Suécia onde Me itner estava exilada. Meitner e Hahn mantiveram uma longa colaboração cientíca. 26 O vocábulo ssão foi emprestado à biologia, onde ele é us ado para exprimir a divisão de uma célula em duas outras. Aparentemente, já em 1934, Fermi havia provocado a ssão nuclear, sem entretanto conseguir

reconhecer e interpretar dessa maneira os resultados obtidos. Ele havia bombard eado urânio com nêutrons para produzir elementos transurânicos, de números de massa 93 e 94. Embora tivesse conseguido produzí-los, outros elementos mais leves também estavam presentes; contudo, não os reconhecendo, ele não pôde conceber a ocorrência de ssão. 27 Não obstante, também se abria a possibilidade de construção de armas de grande poder de destruição, a

U . Aqui convém antecipar que, em minérios de urânio, o

partir de uma certa massa crítica de urânio-235,

235

92

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Capítulo 1. Introdução

22 Capítulo 1. Introdução Figura 1.6: Imagens pictóricas das diversas etapas da fi ssão: incidência de

Figura 1.6: Imagens pictóricas das diversas etapas da ssão: incidência de um nêutron sobre um núcleo, sua absorção e, em seguida, a ssão em dois grandes fragmentos, com emissão de três nêutrons.

pesquisadores – (1) Leo Szilard e Walter H. Zinn , (2) Fermi, H. L. Anderson e H. B. Hanstein 28 e (3) F. Joliot-Curie – que havia emissão de 2 ou 3 nêutrons em cada evento de ssão. Nos três anos que se seguiram, a partir da descoberta da ssão, físicos e químicos dedicaram suas pesquisas para a d eterminação de propriedades tais como as probabilidades de absorção de nêutrons pelos nuclídeos mais pesados, a produção e controle de fontes de nêutrons, tempos de vôo dos nêutrons, quais eram e como era a dis- tribuição dos produtos da ssão que aparecem como núcleos-fragmentos, a distribuição de energia dos nêutrons e dos fragmentos, etc. Com o início da Segunda Grande Guerra, em 1 de setembro de 1939, os países que estavam na vanguarda da pesquisa em Física Nuclear, como Alemanha, França, Inglaterra, EUA e União Soviética, continuaram a fazê-la no período que se seguiu; no entanto, a divulgação de resultados mais sensíveis relativos à ssão e às reações em cadeia passou a ser submetida à censura. Em março de 1940, na Inglaterra, dois físicos exilados da Alemanha, Frisch e Rudolph Peierls, escreveram um memorando circun- stanciado e o endereçaram para o governo britânico, pelo qual eles informavam o min-

isótopo

para uma maior eciência é necessário aumentar a fração de

mento . 28 Nos EUA as pesquisas estavam sob a liderança dos físicos emigrados da Europa, Fermi e Szilard.

235

92

U constitui cerca de 0, 7% do urânio natural e o isótopo

235

92

92

238

U é praticamente o resto. Portanto,

U ; este processo é chamado de enriqueci-

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1.5

Energia nuclear

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istério da defesa sobre a possibilidade de se construir uma bomba de grande capacidade destrutiva a partir do uso do isótopo urânio-235. Em 2 de agosto de 1939 – decorridos apenas seis meses da publicação do trabalho de Meitner e Frisch –, após uma reunião com Szilard e Eugen Wigner (PNF-1963), e fazendo proveito do seu prestígio pessoal junto aos dirigentes norte-americanos, Ein- stein endereçou uma carta ao presidente Franklin D. Roosevelt , informando-o sobre a possibilidade de se construir, em um futuro imediato, bombas extremamente potentes e destrutivas, a partir de urânio-235, desde que houvesse apoio ocial (governamental).

O último parágrafo da carta de Einstein foi um sinal de alerta; ele tocou no ponto cru-

cial, dizendo que a Alemanha suspendera a exportação de minério de urânio das minas da Tchecoslováquia e que os cientistas alemães deveriam estar repetindo os experimen- tos feitos nos EUA com o urânio. A carta de Einstein só chegou ao conhecimento de Roosevelt em 11 de outubro, que, de imediato, não se impressionou com o seu teor. Ele criou um “Comitê do Urânio” e alocou uma módica verba de seis mil dólares para a compra de gra te (a ser usado como elemento moderador de nêutrons) e dióxido de urânio (usado como combustível). Um projeto em grande escala só foi aprovado em dezembro de 1941 e em agosto de 1942 se tornou conhecido como Projeto Manhattan. Nesse mesmo ano, EUA, Grã-Bretanha e Canadá decidiram somar forças em um único projeto. Assim, Peierls e Frisch foram incorporarados ao projeto Manhattan junto com outros cientistas britânicos. Um deles, Klaus Fuchs, que integrava a equipe britânica, espionava para os soviéticos, passando-lhes regularmente informações sobre o desen- volvimento da construção da bomba e de seu desenho. Entrementes, pesquisas já vinham sendo conduzidas por Fermi e equipe na univer- sidade de Chicago, local onde estava sendo construído o primeiro reator nuclear, o CP1, chamado pilha, por causa do empilhamento dos blocos de gra te, entremeados com pastilhas de dióxido de urânio, UO 2 . No dia 2 de dezembro de 1942 conseguiu-se re- alizar a primeira reação nuclear em cadeia auto-sustentada e controlada; um desenho artístico da pilha é visto na Figura 1.7. O sucesso desse experimento foi importante, embora não decisivo, para dar início ao projeto de construção de uma bomba atômica. O Projeto Manhattan cou então sob a direção civil de Robert J. Oppenheimer. Como centro de desenvolvimento das pesquisas especícas para projetar, montar e testar a bomba foi escolhida uma local- idade chamada Los Alamos, situada no estado de Novo México; concomitantemente cou a cargo de Wigner o projeto da construção de um reator, usando grate e água pe- sada como moderadores, especícamente para a produção de plutônio 29 , e também a

fabricação em série de reatores em Oak Ridge, Estado do Tennessee. O primeiro teste

de uma explosão de uma bomba atômica ocorreu em 16 de julho de 1945 (denominada

29 O plutônio é um elemento que não existe na natureza; ele foi descoberto apenas em março de 1940 na

Universidade de Berkeley. Ele é produzido quando se bombardeia urânio-238 com nêutrons, n +

U

P u possui propriedades de captura de nêutrons e de subseqüente

ssão com emissão de nêutrons semelhantes àquelas do

P u seria um elemento ad-

equado para iniciar um processo de ssão em cadeia auto- sustentada e controlada, ou então para produzir

bombas nucleares. Aqui usamos, indistintamente, os termos bomba nuclear e bomba atômica.

238

92

239

94

P u. Mais tarde, vericou-se que o

239

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92

U . Portanto, o

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94

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Capítulo 1. Introdução

24 Capítulo 1. Introdução Figura 1.7: Desenho artístico do primeiro reator construído, feito, essencialmente de

Figura 1.7: Desenho artístico do primeiro reator construído, feito, essencialmente de blocos de grate alternados com blocos de urânio.

Trinity, veja a Figura 1.8), no deserto de Alamogordo; sua potência foi estimada em 20 quilotons – um quiloton tem potência explosiva equivalente a 1 000 toneladas do com- posto químico TNT 30 . A epopéia do projeto Manhattan está contada em detalhes no livro de Richard Rhodes, The making of the atomic bomb [18]. Também a União So- viética teve o seu “projeto Manhattan”: um grupo de cientistas conseguiu produzir um artefato nuclear e explodí-lo em 1949. A história do desenvolvimento do projeto está relatada, por exemplo, no livro de David Holloway, Stalin e a bomba [20]. Até a presente data foram construídos centenas de reatores nucleares de ssão, de diferentes arquiteturas de acordo com sua nalidade especí ca. Eles diferem na potên- cia da energia gerada, no tipo de combustível usado e no seu grau de enriquecimento, nos tipos de materiais usados como moderadores, nos elementos que entram na con- fecção das barras de controle, etc. No capítulo 13 apresentaremos os princípios de funcionamento e a descrição de alguns tipos de reatores mais comuns.

1.6 Partículas subnucleares e elementares: uma retrospectiva histórica

Por partículas elementares entende-se partí culas sem estrutura, ou seja, aquelas que não

30 A explosão de uma tonelada de TNT libera uma energia equivalente aproximadamente igual a 4 × 10 9 J .

Mizrahi & Galetti

1.6

Partículas subnucleares e elementares: uma retrospectiva histórica

25

e elementares: uma retrospectiva histórica 25 Figura 1.8: A primeira bomba atômica, denominada Trinity,

Figura 1.8: A primeira bomba atômica, denominada Trinity, está sendo instalada no topo da torre onde ocorrerá a explosão.

apresentam indícios de que sejam compostas por outras partículas mais fundamentais. Ao longo do tempo, os candidatos a partículas fundamentais foram se sucedendo, por exemplo, no nal do século XIX e no início do século XX, os átomos eram consider- ados como sendo partículas elementares, pois supostamente eles constituíam os blocos fundamentais da matéria. Porém, as experiências de Geiger, Marsden e Rutherford mu- daram essa concepção, pois foi mostrado que o átomo é composto de elétrons e de um núcleo não pontual, tendo portanto uma estrutura não-trivial. Por sua vez, a de- scoberta do nêutron mostrou que o núcleo atômico contém duas partículas diferentes, o próton e o nêutron, que supostamente não teriam estrutura: próton, nêutron e elétron se- riam, portanto, partículas elementares. Porém, na década de 1950 Robert Hofstadter (PNF-1961) mostrou que o próton e o nêutron possuem estrutura; assim, essas partícu- las, junto com os mésons, deixaram de ser consideradas como elementares. No entanto, como partícula subatômica, o elétron, e , ainda mantém este caráter de elementari- dade juntamente com dois novos parceiros descobertos posteriormente, o múon, ou µ , e o tau, ou τ , que partilham propriedades comuns, exceto pelas massas, que são muito maiores que a do elétron 31 . Atualmente, a eles juntam-se muito mais partículas ele- mentares, como os já mencionados neutrinos, que existem em três tipos diferentes, ν e , ν µ e ν τ , que estão associados ao elétron, múon e tau respectivamente. Embora não se-

31 O elétron foi descoberto em 1897, o múon em 1938 e o tau em 1975 – como uma nota pitoresca, segundo M. Perl [21] (PNF-1995), usa-se a terminologia gerações, por serem partículas descobertas por diferentes gerações de pesquisadores. As três partículas fazem parte da família dos léptons.

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Capítulo 1. Introdução

jam detectáveis diretamente, existem os quarks que também são particulas elementares; eles têm sua existência inferida a partir de medições de propriedades de partículas com- postas. Os quarks podem ser de diferentes tipos, cada um dos quais é caracterizado por um número quântico exoticamente chamado “sabor ”, e cada quark-sabor pode carregar um tipo diferente de carga chamada “cor ” que, analogamente à carga elétrica, é respon- sável pela interação forte. Atualmente, o Modelo Padrão é o modelo prevalecente para

a descrição da constituição da matéria e tem por base 61 partículas elementares, com as

quais torna-se possível explicar a existência de centenas de partículas (e antipartículas) não elementares, dentre as quais estão os mésons-π e os núcleons. Após a descoberta do nêutron por Chadwick e a elaboração da primeira teoria para

a estrutura do núcleo atômico, em 1932, iniciou-se a investigação sobre a natureza das forças nucleares. A primeira e bem-sucedida teoria foi proposta por Yukawa em 1935, na qual, em analogia ao campo eletromagnético – cujas partículas de campo são os fó- tons –, a força nuclear, que mantém os núcleons coesos (como no dêuteron), deveria ser devida à troca de partículas de um campo nuclear. Seu cálculo mostrou que, caso existissem, tais partículas deveriam ter spin 0 e uma massa da ordem de 200 m e , que foram chamadas mésons . A procura por tal partícula contou com o empenho de físi- cos da Europa e dos EUA. Em 1938, uma partícula que era a principal candidata a ser

o méson de Yukawa foi identicada por Anderson em uma emulsão exposta a raios

cósmicos. Porém, mais tarde vericou-se que aquela era uma outra partícula que - cou conhecida como méson µ, cujo nome hoje adotado é múon, não sendo, portanto, a partícula aventada por Yukawa; de fato, a partícula de Yukawa era ainda uma outra. Em 1947, após análise cuidadosa de emulsões expos tas à incidência de raios cósmicos du- rante um mês em uma estação metereológica situada no monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia, Lattes, Powell e Occhialini conseguiram identicar, com certeza, o mé- son de Yukawa. O local para a exposição das placas fora escolhido por Lattes por estar situado a uma altitude de 5 000 m acima do nível do mar 32 , diminuindo assim a camada atmosférica que os mésons devem atravessar até atingir a emulsão. Esta história é con- tada pelo próprio Lattes em um pequeno livro autobiográco com título Descobrindo a estrutura do universo [22]. A Figura 1.9-a representa esquematicamente o que foi visto por Lattes: o traço espesso representa um méson π + (massa típica de 300 m e ) movendo-se na direção da seta, este decai no múon µ + (massa de cerca de 200 m e ), quando então ocorre uma mudança de direção (ponto A) devido à variação da massa (π + µ + ). A seguir nota- se um traço indicando uma nova mudança de direção abrupta (ponto B ); esta é uma direção praticamente oposta à de incidência do π + , e corresponde a um pósitron, e + . As linhas tracejadas correspondem à emissão de neutrinos, que não deixam traços nas emulsões devido à ausência de carga, mas cuja existência e trajetórias são inferidas pela necessidade de conservação da energia e do momentum linear. Todo o processo pode

32 Lattes mesmo transportou por avião as emulsões da Inglaterra para a Bolívia. Em um relato[22], ele conta como conseguiu identicar ambos os mésons nas emulsões, o mais pesado como sendo o de Yukawa e o outro como sendo o de Anderson, que fora chamado de mésotron .

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1.6

Partículas subnucleares e elementares: uma retrospectiva histórica

27

e elementares: uma retrospectiva histórica 27 Figura 1.9: Traços de partículas em emulsões que são

Figura 1.9: Traços de partículas em emulsões que são evidências da existência (a) do méson π + ; ?? (b) do méson π .

então ser escrito como

π

µ + −→ e + + ν + ν.¯

+

−→ µ + + ν

Adicionalmente, inferem-se os tempos de vida-média 33 das partículas π + (τ ' 10 8 s) e µ + (τ ' 2 × 10 6 s); apenas o pósitron 34 e os neutrinos “sobrevivem” na emul- são por serem partículas mais estáveis. A Figura 1.9-b é interpretada como sendo a do registro de uma partícula π que é absorvida por um núcleo (em contraponto, a aborção de um méson π + seria bem menos provável devido à repulsão coulombiana causada pela carga nuclear), localizado na posição O ; em seguida, o núcleo emite partículas carregadas em múltiplas direções, que correspondem aos traços emergentes de O . Em 1948, os mésons π e π + foram produzidos arti cialmente no acelerador cí- clotron da Universidade de Berkeley; o π foi identicado em emulsões por E. Gard- ner e Lattes, e o π + por J. Burfering, Gardner e Lattes [22]. Os mésons- π são produzi- dos fazendo colidir prótons sobre alvos nucleares, sendo as reações mais simples as do

33 Para um conjunto ou uma amostra contendo N partículas idênticas instáveis, que ao longo do tempo vão perdendo sua identidade, por decaimento ou transmutação em outras (N deve ser sucientemente grande para permitir um cálculo estatístico); o tempo de vida-média de uma partícula é o tempo em que a amostra se reduz por um fator e = 2, 718 34 Em sua trajetória o pósitron colidirá com um elétron, o que leva à aniquilação de ambos, dando origem a um raio γ , cuja energia deve ser superior a 1, 022 MeV .

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Capítulo 1. Introdução

28 Capítulo 1. Introdução Figura 1.10: Ressonâncias resultando de colisão πp. tipo p + p −→

Figura 1.10: Ressonâncias resultando de colisão πp.

tipo

p

+ p

−→

p + p + π 0

 

−→

p + n + π +

p

+ n

−→

p