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Interpretação do texto 9 minutes and 45 seconds, de Jeffrey Weiss

A grande questão que Jeffrey Weiss levanta - director e curador de arte moderna e
contemporânea na National Gallery of Art de Washington - é saber como é que um museu
pode coleccionar arte contemporânea e continuar a ser museu. Em torno das palavras de
Gertudre Stein, que defende que “um museu pode ser museu ou pode ser moderno, mas não
pode ser ambos”, Weiss apresenta-nos uma reflexão baseada na sua experiência na National
Gallery.
A National Gallery de Washington tem dois edifícios, fundados em alturas diferentes e
cada um com propósitos específicos. O primeiro data da inauguração do museu, 1941, a que
o autor se refere sempre ao longo do texto como “west building”. É de estilo neo-clássico e foi
construído por John Russell Pope. É aí que reside a colecção permanente do museu, que
inclui pintura europeia do séc. XII até princípios do séc. XX, e americana do séc. XVIII até
inícios do séc. XX igualmente.
Inicialmente, o museu tinha como política interna não adquirir obras de artistas vivos ou
contemporâneos. Repare-se que apesar de ser uma instituição pública, A National Gallery foi
foi fundada através de fundos privados e de colecções como as de Andrew Mellon, Samuel
Kress e Joseph Widener, que, seguindo a linha da aristocracia inglesa, os seus gostos viram-se
maioritariamente para os grandes mestres da pintura. A dada altura do texto, Jeffrey Weiss
invoca mesmo as noção de “velho mundismo” e dos preconceitos que este traz, como sendo a
principal causa da preferência das instituições americanas pela arte do passado.
Foi com a abertura de um novo edifício – o East Building -, projectado pelo arquitecto
I.M.Pei, em 1978, que o museu se assume como coleccionador de arte moderna e do pós-
guerra. É aqui onde se situa toda a colecção de arte do séc. XX. Apesar de alguns esforços de
“modernização”, as velhas tradições em que o museu inicialmente foi assente, deixaram
algumas marcas. Repare-se, por exemplo, nas exposições comissariadas para o átrio do novo
edifício onde eram apresentadas obras de artistas com carreiras em fase muito avançada,
senão já mortos, como é o caso de Joan Miró ou Alexander Calder.
Weiss considera que a estratégia expositiva para o novo edifício é a de mostrar arte
“nova” feita por “velhos” mestres, reflexo de uma instituição pública fundada em princípios
de gosto muito conservadores e que a arte contemporânea continua com um lugar pouco ou
nada proeminente no programa expositivo do museu. Enquanto a colecção de arte moderna
foi crescendo através de doações e compras, o “contemporâneo” continuou a ser representado
por trabalhos recentes de artistas já estabelecidos ou consagrados, como Robert
Rauschenberg. A selecção de obras ficou-se por aquilo que Jeffrey Weiss intitula de
“contemporâneo histórico” – o expressionismo abstracto maioritariamente – representado por
artistas como Jackson Pollock, Barnett Newman ou Mark Rothko. O expressionismo abstracto
é, segundo o autor, aquilo que de mais “politicamente correcto” o museu podia adquirir: foi
através dele que a arte americana se tornou reconhecida mundialmente. Além do mais, há
qualquer coisa muito europeia e conservadora no expressionismo abstracto: valores como o
sublime e espiritual remetem-nos para a realidade dos velhos mestres da pintura. São
pinturas que se adequam facilmente ao espaço da galeria, com um certo ar decorativo, e que
não representam nenhum risco para a colecção ou para o museu.
Outras aquisições que importa mencionar, são por exemplo, os recortes de Matisse e
algumas obras de artistas Pop - objectos de grande escala que revelam o gosto das instituições
pelo grande e pelo decorativo.
No jardim do museu, inaugurado em 1998, o mesmo conservadorismo prevaleceu. A
aquisição de obras de Scott Burton, David Smith ou Tony Smith são consideradas excepções.
A National Gallery começou demasiado tarde a adquirir obras modernas e do pós-
guerra, comparado com alguns museus dedicados exclusivamente a tal – o Whitney Museum
ou o MoMa por exemplo -, e algumas deficiências permanecem como é a ausência dentro da
colecção de pintura alemã e austríaca, do futurismo italiano e do movimento dada entre
outros.
Talvez seja insensato examinar o papel da arte contemporânea na National Gallery sem
antes reflectirmos sobre a proliferação de museus dedicados exclusivamente à arte
contemporânea, os chamados mocas e momas. Regressando à premissa de Gertrude Stein,
Weiss defende que esta constitui um desafio teórico e filosófico importante para todo e
qualquer museu que se dedique à arte moderna e contemporânea. É então que surgem várias
questões:
- Se os mocas querem ser museus do presente, e até do futuro, como podem eles
negar a sua condição e a sua identidade enquanto instituição/museu que
inevitavelmente confere uma carga de passado/tempo à arte do presente? (Será
o museu uma máquina do tempo que pretende preservar aquilo que existe de
mais antigo, mas ao mesmo tempo leva imediatamente para o passado aquilo
que é novo?)

Segundo Weiss, o museu é, por natureza e ideologia, um lugar histórico. Como se poderá
então conciliar inovação e a novidade com a própria historicidade que o local impõe? A
relação dos museus de arte contemporânea com o efémero (e com o tempo em geral), entra
em ruptura com a ideia de museu, bem como as suas políticas de não-permanência de obras
na colecção. O museu que colecciona arte com séculos, carrega em si uma lentidão inerente,
uma relação com o tempo que é desprovida de qualquer pressa ou urgência, como se tudo
fosse aprovado pelo próprio passar do tempo. Embora todos os museus sejam influenciados
pelo gosto e pela moda, o museus de arte contemporânea estão definitivamente dependentes
destas. Se a arte está dependente da moda, e a moda é por natureza efémera, quando é que a
arte nova passará a ser velha? Qual a sua “durabilidade”? Estarão então os mocas a tentar
perpetuar o presente ao perpetuarem-se a si próprios? Qual é o presente que pode ser
perpetuado sem deixar de ser presente, sem deixar de ser contemporâneo? Como pode um museu
coleccionar apenas com vista no presente?
Num ensaio de Benjamin sobre Proust, o filosófo diz que a diferença entre uma
acontecimento experienciado e outro recordado, é que o primeiro é finito, mas o segundo
eterno, pois não só representa a chave de tudo aquilo que aconteceu antes, como aquilo que
pode vir acontecer depois. É esta a metáfora que Weiss usa para explicar a diferença entre os
momas e um museu de arte do passado. Este, ao pretender actualizar um tempo histórico,
oferece a “chave” para que o público possa entender o seu passado. Também ao preservar e
conservar as obras, é como se de alguma forma as quisesse eternizar. (a verdade é que cabe
também a um museu de arte contemporânea conservar as suas peças, por mais contraditório
que isso possa parecer por vezes – nesse sentido também alcança a “eternidade” de Benjamin
tal como a chave para a interpretação do passado)
Por sua vez, os mocas “encolhem o tempo” um processo que, apesar de tudo, implica uma
noção histórica para o objecto. (haverão objectos que não contenham em si mesmos uma
noção histórica?) Uma das contigências deste tipo de museus em relação ao tempo e à
história, como já referimos antriormente, são as políticas relativamente à permanência das
obras na colecção. Inicialmente, para conseguir “ser moderno e museu ao mesmo tempo”, o
MoMa não mantinha obras na colecção após um certo tempo de as adquirirem, mas acabou
por abandonar este sistema rapidamente. O que significa a palavra “moderno” no caso do
MoMa? Não estará o seu próprio nome desactualizado? Para Alfred Barr, seu primeiro
director, a diferença entre moderno e contemporâneo não é cronológica mas sim qualitativa,
e representa a distinção entre uma obra que é progressista de um ponto de vista estético e
conceptual, e a arte de cariz académico que feita recentemente.

A National Gallery não vende trabalhos para adquirir novos. Uma vez adquirida, a obra
torna-se permanente na colecção. Com este sistema, o museu pretende instalar confiança nos
coleccionadores que doam as obras, sabendo desde sempre que o seu legado nunca se irá
converter em dinheiro. Jeffrey Weiss considera uma medida demasiado severa, defendo que o
impacto que esta têm no papel da arte contemporânea no museu é evidente, não deixando
espaço para uma nova geração de curadores poder apostar na aquisição de arte mais recente
pelo medo do compromisso. Uma das soluções que nos apresenta é passar a dar relevo ao
papel do artista visitante, do artista contemporâneo que vê e interpreta o museu. No MoMa
ou na National Gallery de Londres por exemplo, já foram convidados artistas para serem
curadores de exposições com o espólio do museu. Apesar da sua cativante abertura, a solução
que nos propõe, parece-nos demasiado arriscada e levanta algumas questões:
- Qual é a pertinência da formação de um comissário, se um artista poderá perfeitamente
assumir o mesmo cargo?
- Que ponto de vista sobre a História pretende o museu apresentar? E em que tipo de
narrativa estará o artista interessado? Até que ponto é que poderá a tarefa de comissariar ser
considerada também uma prática artística?

Apesar de alguns novos caminhos e soluções em vista, Weiss revela sempre uma atitude
um tanto pessimista ao longo do texto: diz que todas as tentativas para institucionalizar a arte
contemporânea na National Gallery de Washington falharam, e que o comité de
coleccionadores - que foi criado originalmente para comissariar exposições para o East Building
e discutir novas aquisições no campo da arte contemporânea - nunca se dedicou
verdadeiramente à causa. Raramente foram escolhidas obras pós anos 70. Mais uma vez e
como no campo da escultura, aquisições de trabalhos de artistas como Anselm Kiefer, Sigmar
Polke, Gerard Ritcher foram consideradas raras e excepcionais, ainda que estes artistas já
tivessem atingido o auge da sua carreira. O facto de haver no próprio comité uma divisão de
gostos e princípios histórico-estéticos influencia no “impasse”.

Por vezes tem sido defendido que na National Gallery não há lugar para uma verdadeira
e séria preocupação com a arte contemporânea, já que existem em Washington algumas
instituições dedicadas exclusivamente à arte moderna e contemporânea. Segundo o autor, este
ponto de vista é extremamente redutor no sentido em que a história de arte não é a história de
instituições, e que interessa profundamente a todos que cada museu apresente uma narrativa
própria que se demarca das outras (é unicamente neste ponto que talvez se possa justificar a
pertinência do papel do artista enquanto comissário). O museu não só deve apresentar uma
forma de ver a História, como também fornecer ao espectador a possibilidade de descoberta.
De notar, que a instituição só poderá abraçar o contemporâneo dentro da noção de
continuidade histórica: o museu deverá estar consciente da sua acção e encarar o presente
como histórico e não efémero. A morfologia do museu é encarada, segundo Weiss, como a de
um telescópio que possui a particularidade de expansão e contracção do tempo e da própria
realidade. Será mesmo uma chave?